CCHLA – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes – UFPB VIII Conhecimento em Debate – 03 a 07 de novembro de 2008

A Dança Circular Sagrada como Elemento de Ligação com o Divino
Eline de Oliveira Campos1 Niedja de Brito Lemos2
Resumo: A dança é um dos fenômenos que tem acompanhado o ser humano durante toda a sua trajetória histórica. A religiosidade também é outro elemento que se observa nesse percurso. Percebe-se através de documentos que a união desses fatores se deu na maior parte do tempo. Tendo sido inserida por vezes e, em algumas culturas no campo sagrado e outras no terreno do profano, é uma maneira de comunicação como também forma de terapêutica corporal. A fenomenologia das denominadas Danças Circulares Sagradas vem trazer a tona, a discussão do lugar da dança no mundo e de sua importância enquanto elemento de ligação do humano com o elemento transcendental ou divino. Palavras-Chave: Dança. Sacralidade. Religiosidade.

O Tempo e a Dança Usar o corpo para se comunicar, é ato natural e instintivo humano. Em nosso cotidiano, o homem “não se comunica apenas através de palavras e de outras linguagens. Ele também emite mensagens com todas as partes do seu corpo” (MALANGA, 1985-39). A dança poderia ser compreendida, no dizer da Miriam Garcia (professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo) como uma derivação do ritmo interno ou externo. Esse ritmo, “marcado de variadas maneiras, ao som, ou não, de música, seria o ponto de partida, o momento mais recuado da dança, atividade que se desenvolve no espaço e num tempo determinado, cuja configuração é o ritmo" (MENDES, 1987, p.5). Diferentemente de outras formas de arte, a dança acontece em simultâneo no tempo e no espaço. O ser humano está sempre em movimento e possui uma necessidade natural de se comunicar. Surgida dessa necessidade – em uma época onde a linguagem não passava de simples ruídos guturais – é provável que a mímica e posteriormente a dança tenham surgido como uma forma alternativa e simples de se fazer entender. Sendo difícil “determinar hoje em dia quando, como e porque o homem dançou pela primeira vez” (FARO, 1986, p.13). Somente há bem pouco tempo – século XX – com a mudança de paradigmas sobre a dança em geral, houve uma retomada do estudo de documentos iconográficos
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Graduada em Educação Artística pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB. Especialista em Ciências das Religiões – UFPB. Mestranda em Ciências das Religiões. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA/UFPB). Especialista em Ciências das Religiões – UFPB. Mestranda do Programa de Pós-graduação em Ciências das Religiões – UFPB.

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intentando detectá-la em seus registros. Esses últimos datam de 14.000 anos atrás e representam movimentos ou expressões corporais. O historiador Paul Bourcier, em sua História da Dança no Ocidente, relata-nos que algumas imagens encontradas em grutas francesas como a de Trois-Frères, que se encontra próxima a Montesquiou-Avantes e principalmente a da gruta Gabillou na Dordonha, perto de Mussidan, representando um ancestral de bailarino:
A silhueta gravada de um personagem visto de perfil, de cerca de trinta centímetros de altura. A cabeça e o corpo estão cobertos por pele de bisão. As pernas, sem qualquer dúvida humanas, indicam uma espécie de salto no lugar. O ângulo do torso com as pernas é de vinte e cinco a trinta graus (1987, p.5).

No período Paleolítico, o dia a dia era a sobrevivência. A arte e a dança que estariam presentes nesse período visavam aplacar as forças da natureza (exorcizar maldições, potencializar a energia dos astros e a fertilidade da terra), trazer boa caça, enfim, garantir a proteção de forças exteriores e superiores ao indivíduo. O direcionamento do ato de dançar para o sagrado “provavelmente veio da necessidade de aplacar os deuses ou de exprimir a alegria por algo de bom concedido pelo destino” (FARO, 1986, p.13). O homem dança, portanto, o seu contexto e os primeiros movimentos dessa dança eram instintivos, naturais, espontâneos, representativos de suas vivências. No entanto, a arqueologia “não deixa de indicar a existência da dança como parte integrante de cerimônias religiosas parecendo correto afirmar que a dança nasceu da religião, se é que não nasceu junto com ela” (FARO, 1986, p.13). Supõe-se, com base nas representações e com base nas danças ainda praticadas em culturas arcaicas, que os movimentos corporais, a exemplo de giros realizados em grupo ou em torno de si mesmos, teriam como objetivo induzir o bailarino a entrar em êxtase e estabelecer comunicação com espíritos protetores de seu clã, de sua raça, de seu povo. Em suas raízes, portanto, dançar foi não somente uma forma de comunicação não verbal com outros indivíduos, mas associada ao mágico, ao êxtase, era uma tentativa de comunicação com os mortos e, mais amplamente, um tentame de se elevar espiritualmente e entrar em harmonia com a divindade, seja qual fosse a configuração que ela assumisse. É interessante registrar que, tenha nascido antes, juntamente ou para compor rituais religiosos, o ato de dançar nas cerimônias religiosas tem sido registrado desde períodos que se perdem nas dobras do tempo. Passando por diversas culturas e, mais adiante, em

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culturas mais elaboradas como a grega, deuses eram invocados através das danças, nas situações mais diversas. Nascimentos, casamentos, mortes, guerras, colheitas e outros eventos considerados importantes pela sociedade, eram acompanhados de danças rituais de pedidos e agradecimentos aos deuses de suas devoções. Mas o ato de dançar vai muito além de ritual religioso ou mesmo simples diversão podendo ser utilizada inclusive, como uma fonte histórica alternativa de dados que ajudarão a reconstruir os hábitos e a cultura em que se desenvolveu e foi praticada. É o que chega a afirmar Curt Sachs quando diz que a dança poderá trazer uma importante contribuição nessa área, se forem feitas associações com outros fenômenos antrosociológicos, considerando-se que ela é uma predisposição herdada e manifesta através de várias formas de movimento e em diferentes grupos sócio-culturais (SACHS, 1999). Dança Circular Sagrada na Contemporaneidade Na sociedade hodierna, onde a comunicação é cada vez mais mediada pela tecnologia, observa-se uma carência de diálogos com parceiros presentes, de estabelecimento de ligações afetivas sólidas. São buscadas ainda, formas alternativas de expressão que, traduzem como que um desejo de auto-conhecimento. Os questionamentos a esse respeito continuam os mesmos há milênios: quem eu realmente sou? Que mundo é esse em que eu estou inserido? Na busca dessas respostas, caminhos tortuosos levaram o ser humano a forjar uma noção de progresso direcionada para a obtenção dos valores puramente materiais. O que acabou por promover, ao longo do tempo, como que um esgotamento, um cansaço geral. A mudança de rumos na atualidade evidencia-se pela procura de novas possibilidades de melhoria do relacionar-se consigo próprio, com o outro e com o contexto social em que cada um se insere. Atualmente, várias formas de arte apresentam um interessante fenômeno de retorno às origens, como que buscando resgatar valores que o ser humano relegou ao segundo plano em sua trajetória histórica. Na área da dança isso também se dá, na medida em que são revisados pontos de vista como a destinação da dança apenas como técnica e diversão. Nesse contexto, o interesse que as Danças Sagradas suscita pode estar relacionado a essa procura pela espiritualização que se percebe em nossos dias. Ela é tida por seus praticantes como meditativa, pacificante, curativa, instrutiva, capaz de revigorar e tendo também um caráter lúdico.

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Destaca-se como pioneiro dessa tendência Bernhard Wosien, professor de dança e coreógrafo alemão, que dedicou muitos anos de sua vida a coletar danças de todo o mundo. Foi o introdutor das Danças Circulares Sagradas na Inglaterra. Na Escócia, ensinou-as em Findhorn, uma comunidade espiritualista alternativa. Desde Wosin o interesse pelas Danças Circulares vem crescendo rapidamente tendo-se multiplicado e se espalhado por todo o mundo. No Brasil, mais precisamente no Centro de Vivências Nazaré no interior de São Paulo, essa categoria de dança foi introduzida por Sarah Marriot em 1983, que foi orientadora do Centro até 1999. Do Sagrado ao Profano e do Retorno ao Sagrado Como vimos até este ponto, desde os primeiros movimentos instintivos, a dança acabou por se tornar parte das manifestações religiosas. Estas manifestações foram se definindo até se tornarem rituais religiosos com características próprias:
1) Tinha lugar em recintos especiais, como os templos; 2) era privilégio dos sacerdotes; 3) realizava-se dentro de cerimônias específicas, devendo haver razões de base para a forma e as datas em que cada dança tinha lugar (FARO, 1986-14).

Fica claro também que essas danças percorreram um longo caminho até chegar a forma com que foram identificadas. Aos poucos, cada uma adquiriu coreografia própria, composta de passos e gestos peculiares, contendo significados adequados ao contexto de cada cerimônia específica (FARO, 1986). No decorrer do tempo, as cerimônias religiosas, com a permissão da classe sacerdotal, passaram a ser executadas em lugares públicos. Ao se popularizarem, foram se transformando paulatinamente em danças folclóricas ao mesmo tempo em que se afastaram cada vez mais da ligação com a religião ou religiosidade, antes tão intensa (FARO, 1986). Saiu assim, do campo do sagrado para adentrar o profano. Traçando um comparativo da dança com a religiosidade, percebe-se que ambas são manifestações espontâneas e podem ser vistas como processos naturais. Tanto quanto a religiosidade que é “produto da evolução adaptativa da consciência humana, fonte interna de sabedoria acumulada milenarmente” (AUFRANC, 2004, apud GIGLIO) a dança é também processo milenário tendo seu conteúdo variado de acordo com o período, a cultura e o sujeito que a pratica. Ambas, além de auxiliarem no processo de auto-conhecimento são facilitadoras no estabelecimento de relações grupais.

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Percebe-se o fato nos relatos como o de Amanda Oliveira (2004), da Universidade Santa Cecília de Santos, São Paulo ao falar sobre as Danças Circulares: “seus participantes em círculo se conectam entre si, e unem energia em busca de harmonia, de uma melhor compreensão da realidade”. Outras universidades do país também já reconhecem os benefícios que esta modalidade de dança traz para o ser humano, como é o caso da Universidade Estadual do Piauí onde a especialista Cláudia Noberta já trabalhou inclusive junto aos servidores as Danças Circulares. Ela traduz assim a sua experiência:
Colocados em círculo, percebemos a nossa identidade com o outro, pois, ao mesmo tempo em que reconhecemos a nossa igualdade - a unidade que habita o centro - também acolhemos a presença única e insubstituível de cada um que está colocado em pé na linha de circunferência (NOBERTA, apud BEZERRA, 2006).

Por isso, a prática atual das Danças Circulares, tidas novamente como sagradas é instrumento de conexão entre o grupo praticante. Utiliza-se da forma circular porque resgata um elemento significativo para o homem: o círculo é visto como símbolo da perfeição desde a antiguidade. Acessível a todas as idades, é inclusiva. Bruno Perel (2003), afirma que essa prática “São utilizadas para reunir pessoas, resgatar a tradição dos povos antigos e a harmonização individual e do grupo”. Complementa ainda que:
através dessa atividade pode-se trazer o que a pessoa tem de bom dentro de si, auxiliando no autoconhecimento, no desenvolvimento psicomotor, no alívio do estresse e de tensões, no desenvolvimento da concentração, no relaxamento físico e mental, no desenvolvimento da criatividade e redução da fadiga muscular (PEREL, 2003).

No que concorda o psicólogo Antônio Júnior, do Programa de Apoio Social com Servidores da UESPI, quanto o melhoramento das relações inter-pessoais. Diz que através da prática dessa dança, “desenvolve-se suave e gradativamente, o respeito e a valorização das diferenças. Podemos vivenciar a realidade da interdependência que permeia as relações humanas" (apud BEZERRA, 2006). Sendo assim, contribuem para um melhor ajustamento psíquico do ser humano com sua realidade, com o seu contexto e conseqüentemente leva a uma melhora da qualidade de vida de seu praticante. Por outro lado, a valorização da religiosidade, respeitando a multiplicidade e simultaneidade de valores e expressões da mesma, é uma forma de criar referências tão necessárias para lidar com as mudanças constantes, com a multiplicidade de valores, cultos e religiões que se percebe na época presente.

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Considerações Finais Vê-se pontuar em todo o planeta experiências várias, todas voltadas para a autodescoberta, a valorização da convivência e o ato de estabelecer uma ligação consciente ou inconsciente com a divindade. Os caminhos percorridos são múltiplos e novos, dentre eles inclui-se a prática das Danças Circulares Sagradas, derivadas desse contexto. Sendo uma forma simples e prazerosa de se comunicar dentro de um grupo social ou mesmo com a(s) divindade(s), dançar reveste-se de um caráter terapêutico, elevando a qualidade de vida de seu praticante. Na medida em que ele percebe-se como unidade e ao mesmo tempo participante de um grupo, fortalece tanto identidade individual quanto o sentido de pertencimento a uma coletividade. Isso contribui para um melhor ajustamento psíquico desse sujeito com sua realidade cotidiana, seu grupo social, enfim, com o seu contexto. Dar continuidade ao estudo da dança não só como forma de se ligar ao divino, mas também como elemento de crescimento individual, prende-se a necessidade de contribuir com mais uma fonte de auto-conhecimento e melhoria do bem-estar do indivíduo com reflexos no social. Referências Bibliográficas
- BOURCIER, P. História da Dança no Ocidente. Marina Appenzeller (Trad.). SP: Martins Fontes, 1987. - FARO, A. J. Pequena História da Dança. 3 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986. - MALANGA, E. Comunicação e Ballet. SP:EDIMA, 1985. - MENDES, M. G. A Dança. 2ª ed. SP: Ática, 1987. Série Princípios. - SACHS, C. História Universal de la Danza. Centurión, Buenos Aires, 1994.

Páginas Acessadas
- BEZERRA, C. Danças Circulares. UESPI:2006. http:/www.uespi.br/noticia.php? id=183. Acesso em 15.06.07. - GIGLIO, J. S. Espiritualidade e Individuação. Instituto Junguiniano do Rio Grande do Sul. http://www.ijrs.org.br/artigos.php?id=36. Acesso em 20.03.07. - OLIVEIRA, A. Danças Circulares Sagradas. SP:UNISANTA, 2004. http://www.online.unisanta.br/2004/09-25/cultura-1.htm. Acesso em 21.01.07. - PEREL, B. Danças Circulares na São Marcos. Universidade SP:São Marcos, 2003. http://www.smarcos.br/ newsPublisher/ viewNews.php?codNews=226. Acesso em 10.07.08.

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