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José María Gómez

Globalização, Estado–Nação e
Ciudadanía*
“Eu sou daquela odiosa classe de homens chamada de demócratas; e a ela
sempre pertencerei” (William Wordsworth, 1974 apud Pateman, 1996:5).
“Se todos somos hoje demócratas [...], então estamos todos comprometidos com
uma problemática, com uma luta continuada, bem mais do que com uma condição
concluída” (R. J. Walker, 1991).
“Em uma aproximação preliminar, é possível sugerir uma mudança no
entendimento acerca da esencia da política de um eixo de factibilidade para um
eixo de aspriração, da política como ‘arte do possível’ para a política como ‘arte do
impossível’. A variedade positiva de uma cidadanía global implica una confiança
utópica na capacidade humana para exceder os horizontes realistas, mas isso
tambén está enraizado na convicção altamente pragmática de que o que é dado
frecuentemente como realista não é sustentable. Para fortalecer as fundaçoes de
uma sociedade civil global, á qual pertençam todos os homens e mulheres, é
preciso se dedicar á realização de uma utopia funcional, de uma política que
signifique realizar simultáneamente o que é necesario e o que agora parece ser
‘impossível’” (R. Falk, 1994: 140).
Este artigo se propôe a abordar a ressignificação da cidadania contemporánea
sob os impactos transformadores da globalização. Pretendo argüir que o conjunto
dos processos de interconexões regionais e globais em curso gera restrições
crescentes à cidadania democrática de base territorial soberana, mas, por outro
lado, abre posibilidades efetivas de ampliação de uma cidadania democrática de
base cosmopolita. No cerne da reflexão, encontram–se os conceitos tradicionais
de soberania e cidadania submetidos a forte interpelação pelos desafios
combinados dos processos supra–estatais de globalização e subestatais de
diferenciação multicultural crescente da sociedade civil. Razão pela qual, por tras
de uma abordagem da globalização em termos de dialéctica de poder e conflitos
entre uma configuração dominante “pelo alto” e um embrionario desenvolvimento
contra–hegemónico “por baixo”, o que está em discussão não é apenas uma nova
visão do Estado como mediador de diferentes lealdades e identidades cidadãs nos
planos subnacional, nacional e transnacional, mas a própria natureza e alcance da
cidadania em tempos de profundas transformações dos laços sociais. Trata–se,
*

Texto base da conferencia proferida como requisito no concurso público para profesor–titular da Escola de
Serviço Social da UFRJ, apresentada em outubro de 1997.

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por tanto, de uma escolha temática cuja relevância teórica e práctica se considera
fundamental para o presente e o futuri da questão da democracia, além do fato de
ela mesma ser um desbobramento lógico do campo de estudo desenvolvido nos
últimos anos (Gómez, 1991; 1993; 1995ª; 1995b; 1996ª; 1996b; 1997).
O texto está dividido em três partes. A primeira salienta o uso ideológico da
linguagem da democracia liberal e da globalização económica no contexto atual,
pontuando as difíceis relações entre os dois termos e os resultados e implicações
decorrentes da forma dominante da globalização. A segunda focaliza a
identificação teórica e histórica da democracia e da cidadania com a figura do
Estado–nação (e, conseqüentemente, com o sistema internacional de Estados),
trata das principias controversias e dos esforços de uma conceituação mais ampla
da globalização, e conclui destacando as conseqüências e impactos da
globalização lato sensu sobre a democracia e a cidadania, seja sobre sua base
territorial tradicional, seja sobre a construção embrionaria de formas
desterritorializadas de identidades, participação, representação e responsabilidade
supranacionais. A terceira parte retoma rapidamente o debate recente sobre a
ressignificação da democracia contemporánea sob as condições de globalização,
e a necessidade normativa de sua reconstrução teórica e práctica para além das
fronteiras, no âmbito de uma ordem mundial emergente pós–Vestfália.

Globalização Económica e Democracia Liberal: Da Celebração Ideológica à
Análise Crítica
1. Já se tornou lugar–comum salientar que os anos 90 se caracterizam, dentre
outros traços distintivos, pela celebração que o discurso social e político
predominante faz, nos mais diversos lugares do planeta, dos termos globalização
e democracia (e, necesariamente, do seu correlato, cidadania): o primeiro,
identificado com uma economia capitalista de alcance definitivamente mundial, e o
segundo, entendido como forma de organização do poder político dos Estados
nacionais. Chegou–se até a sustentar, em versão sotisficada e muito bem
divulgada uma visão de mundo que anunciava, diante do fim da Guerra Fria e do
colapso do “socialismo real”, nada menos do que o “fim da História”, no sentido do
triunfo definitivo das idéias liberais na política (democracia liberal) e na economía
(capitalismo globalizado) (Fukuyama, 1992). Toda essa celebração encobre,
porém, curiosas trajetórias dos dois termos e suscita uma primeira aproximação à
sua problemática inter–relação atual.
Embora a palabra democracia seja portadora de uma longa e inacabada história
dee dois mil e quinientos anos (Dunn, 1995; Held, 1996), na época moderna só
tardiamente ela superou uma antiga conotação negativa –– asociada a imagens
de utopia, arcaísmo e desordem –– e passou a ser usada, principalmente (embora
não exclusivamente), para designar um regime político fundado no princípio da
soberania do povo e um decantado elenco de arranjos institucionais e regras, hoje

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bem conhecidos e altamente consensuais (Bobbio, 1985; Dahl, 1991; Przeworski,
1994)1.
Não surpreende, por tanto, que, em 1794, o poeta inglês William Wordsworth
afirmasse, em tom provocativo, que ele fazia parte “daquela odiosa classe de
homens chamada de demócratas”. O contraste com a situação atual, duzentos
anos depois, não poderia ser mais evidente: verifica–se que todos (ou quase
todos) querem ser chamados de demócratas, enquanto a “odiosa classe” são
apenas os adversarios do método político democrático (Pateman, 1996). Na
realidade, nunca a democracia enquanto forma de gobernó foi tão popular como
nesta década (basta lembrar que, até a Segunda Guerra Mundial, eram
generalizados os temores de que ela conduciría à expropriação da propriedade ou
ao colapso da familia e da ordem natural entre os sexos; temores estes, por outro
lado, que perduraram nos países do Terceiro Mundo nos tempos mais sombrios
da Guerra Fria e tiveram efeitos arrasadores com relação à implantação e
estabilidade das instituições da democracia política). E nunca antes dessa
“terceira onda” de democratização (Huntington, 1994) –– que se abre em meados
dos anos 70 no sul da Europa, estende–se em seguida pela América Latina e
culmina quinze anos depois na Europa do Leste, África e Ásia –– houve tantos
países no mundo que tivessem governos constitucionais com instituções
democráticas, liberdades civis e políticas, sistema multipartidário e sufrágio
universal, algumas vezes como restauração de regime, outras como regime novo
(Held, 1993; Potter et alii, 1997)2. Inclusive no campo da política internacional,
sucederam–se resoluções e iniciativas multilaterais inéditas pelas quais diversas
agencias e organismos internacionais (ONU, OEA, Conferencia sobre Segurança
e Cooperação na Europa, Mercosul, OTAN, Banco Mundial, FMI) passaram a
exigir dos Estados “credenciais democráticas” como condição para se membros
ou receberem ajuda (Journal of Democracy, 1993; Gómez, 1995ª; 1997).
É claro que a popularidade global sem precedentes alcançada pela democracia
como regime político não significa que sua extensão seja plena ou como se verá
mais adiante, que tenham sido superadas as graves dificultades e eliminados os
problemas com relação aos processos efetivos de democratização da vida política
e social dos países. Basta lembrar que são numerosos os governos abertamente
antidemocráticos ou democráticos apenas de fachada no mundo, ao mesmo
tempo que a mayoría das “novas” democracias –– por razões institucionais,
económicas, sociais e culturais –– ainda não se consolidou e não há garantia de
que isto aconteça em um futuro próximo (O’Donnell, 1996; Przeworski, 1994). As
“velas” democracias ocidentais, por outro lado, relevam sinais inquietantes de
exaustão institucional e cívica (corrupção, oligarquização, profunda desconfiança,
etc.) (Hirst, 1993; Zolo, 1994). Além disso, não devemos ignorar o fato de que a
súbita ampliação de regimes democrático–liberais desencadeada pelo colapso do
comunismo soviético e pelo fim da Guerra Fría tem provocado, em algumas
regiões, efeitos paradoxais: em certos países, ela permitiu (às vezes pela primeira
vez) a participação eleitoral e a emergencia de novas e múltiplas associações
voluntárias que ampliaram e aprofundaram a cidadania democrática, enquanto em
outros desencadeou graves contradições internas, em precários Estados–nação,
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dando lugar a conflitos étnicos, divisões territoriais, guerras civis, genocídio
(UNRISD, 1995; Held, 1995b). Em suma, a estridente proclamação depois de
1989 do triunfo definitivo da democracia liberal sobre seus adversários ficou
bastante disminuída diante da visibilidade de acontecimentos dramáticos (alguns
deles, por sinal, historicamente bastante familiares: incremento das desigualdades
socioeconómicas, a volta das guerras na Europa sob a bandeira da “limpeza
étnica”, exaltação de identidades nacionais e xenofobia etc.).
Já palabra “globalização” tem uma história breve e vertiginosa. Embora tenha sido
“inventada”em 1944 por dois autores que previam uma “síntese de culturas” em
um “humanismo global” (Scholte, 1996), tal vez suas raízes imediatas remontem
aos anos 60, quando conheceu uma utilização marginal em certos círculos
acedêmicos e teve uma ampla repercussão a metáfora de McLahan sobre a
configuração de uma “aldeia global” posibilitada pelas novas tecnologías de
informação e comunicação. Mas a expressão propriamente dita, no sentido
econônico que hoje prevalece, surge no início dos anos 80 em reconhecidas
escolas americanas de administração de empresas, populariza–se a través das
obras de notórios consultores de estratégica e marketing internacional, difunde–se
a través da imprense económica e financiera especializada e, rapidamente, é
asimilada pelo discurso hegemônico neoliberal (Chesnais, 1996). A origem das
visões mais apologéticas a que o termo “globalização” dá lugar vincula–se,
orgánicamente, às grandes corporações multinacionais originárias dos três centros
do capitalismo mundial (Estados Unidos, Europa Occidental e Japão). Nelas
afirma–se que a constituição de uma economia mundial sem fronteiras,
juntamente com a capacidade de communicação e controle em tempo real que as
inovações tecnológicas permitem, abrem às grandes firmas mais
internacionalizadas a possibilidade de obterem altas taxas de lucro a través da
globalização dos mercados e, sobretudo, da integração global do conjunto da
cadeia de criação de valor (pesquisa e desenvolvimento, produção, serviços,
financiamento dos investimentos, recrutamente de pessoal etc.), na condição de
que as mesmas procedam a uma drástica reformulação das formas de gestão e
da atuação estratégica em escala planetaria (Andreff, 1996).
Como essas forças privadas transnacionais e os mercados financieros dominam a
economia mundial e tornam cada vez mais imponentes as políticas económicas
tradicionais dos Estados nacionais, o alvo da argumentação desliza de imediato
do domínio micro da gestão interna das firmas para o interesse da
macroeconomía (redefinição das políticas económicas e das instituções
económicas nacionais) e da arquitetura do sistema internacional (Boyer, 1996). É
o momento da retórica obsesiva da competitividade internacional entre as nações
como se fossem empresas (Porter, 1991; Thurrow, 1993), logo convertida em
lugar–comun pelos formadores de opinião no mundo inteiro, na qual se sustenta
que as nações “ganham ou perdem” na corrida inexorável desencadeada pelos
investimentos, financiamentos, comércio, inovações tecnológicas e bem–estar
geral (Krugman, 1997)3. Nas visões mais sistêmicas e extremadas, chega–se a
afirmar que a emergência da economia globalizada rompe de tal modo com o
passado que se asiste, virtualmente, à decomposição das economias nacionais e
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ao fim do Estado–nação como organização territorial eficaz em materia de
governabilidade das atividades económicas nacionais (Ohmae, 1996). Em outras
palabras, dada a extrema mobilidade dos capitais em busca das melhores
vantagens competitivas, o caráter estático da força de trábalo e,
conseqüentemente, a obsolescência tanto dos regimes extensivos de direitos
sociais quanto das regulações económicas nacionais contrárias às expectativas
dos mercados globais e das corporações transnacionais, os Estados nacionais
deveriam ceder lugar a autoridades regionais ou locais do sistema global,
verdadeiros pontos de apoio das redes tecidas pelas corporações.
Comprende–se, assim, por que o neoliberalismo, em plena ascensão hegemónica
no campo político–ideológico dos países industrializados do Norte, recupera de
imediato a retórica apologética da globalização e apresenta a competitividade no
mercado mundial como objetivo e critério crucial das mudanças radicais que
sustenta de longa data na política económica e nas políticas públicas em geral.
Com efeito, como sublinhei em artigo recente:
“O neoliberalismo passou a pregar, válido para o mundo todo e em nome da
inevitabilidade dos sistemas e atores da globalização transnacional da economía,
um conjunto de reformas económicas de ‘ajuste estrutural’ (abertura das
economias nacionais, desregulação dos mercados, flexibilização dos dircitos
trabalhistas, privatização das empresas públicas, corte nos gastos sociais,
controle do déficit fiscal, etc.), mais conhecido na América Latina sob a
denominação de ‘Consenso de Washington’. Em suma, uma linguagem e um
projeto dominante de globalização económica que termina por se identificar com
uma receita de alcance universal –– ou melhor, uma política económica das
relações internacionais ou um ‘novo constitucionalismo’ –– correspondente a um
capitalismo globalizado, que tem por espeço natural o próprio mundo e que
pretende autorregular–se sem interferências políticas nacionais, regionais ou
internacionais, com o fim de gerar beneficios para todas as nações que nele se
inserem competitivamente” (Gómez, 1997: 9-10).
2. O que mais atrai a atenção na recente trajetória de popularidade e
celebração_ideológica da democracia liberal e da globalização económica é que
os dois termos consigam ser apresentados –– especialmente para os países do
Sul e do Leste que na última década, vêm enfrentando difíceis processos de
transição política e económica –– em relação de necessidade e de mutuo
fortalecimento: a primeira, ao oferecer as garantias políticas e institucionais para
se levar à frente reformas de fundo orientadas para o mercado aberto ou sem
fronteiras; e a segunda, ao fornecer bases materiais e de bem–estar mais sólidas
para o regime democrático (Vacs, 1994; Gómez, 1995b). A rigor, isto não debería
surpreender, pois o que a funcionalidade de ambas revela (além do fato de
estarme efetivamente implantadas e difundidas, com sorte diversa, em países e
regiões do mundo que contavam com sistemas económicos, políticos, estruturas
sociais e matrices culturais diferentes) é que elas se transformaram nas âncoras
ou vetores normativos de legitimação da chamada ordem internacional do pós–
Guerra Fria. As perguntas pertienentes apontam, por tanto, em outra direção: o
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que tipo de ordem internacional é essa. mas apenas apenas pela obra de instituições necesarias (económicas. por que o tema dos impactos da extensão do sufrágio sobre a propiedade privada se erigiu no coração do debate ideológico na Europa Occidental e nos Estados Unidos durante o século passado. investimento público. isso é o que revela a história dos países capitalistas avançados que alcançaram o celebrado “círculo virtuoso” entre mercado e democracia.José María Gómez que está por trás dessa celebração hegemónica. no exercício do direito político. políticas. do ponto de vista teórico sabe–se pouco. no capitalismo. e. 1993. quais são suas conseqüências e implicações para a própria idéia de democracia e cidadania. Nesse sentido. Przeworski. ainda. Longe de uma evolução natural ou Página 6 de 51 . Na busca explicativa da ruptura com os valores humanistas e com as democracias parlamentares liberaisna Europa da década de 30. que. de institucionalizar uma economia auto–regulada separada da sociedade. fundamentalmente. já que. ou seja. entre outros fatores. fomentam o crescimento económico ao diminuirme os riscos dos investidores. e que o tipo de mercado que efetivamente conseguiu conviver com uma democracia de inclusão política total. sobre se a democracia promove o crescimento econômico. qual é a natureza do atual processo de globalização económica e. pela primeira vez na história das civilizações. políticas sociais etc. o medo do comunismo como motor das reformas democráticas no capitalismo) (Hobsbawm. constitutivas e externas (entre outras. por sua vez. A Grande Transformação. depois da Segunda Guerra Mundial. Em todo caso. cidadãos. Embora a premissa subjacente à retórica dominante neoliberal seja a de que a democracia política salvaguarda os direitos de propriedade. impede–o ou lhe é indiferente (Przeworski. sociais. 1995). da instrução. 1995). como e por que aconteceu. eles podem influenciar a alocação e a distribuição dos recursos a través do Estado. Por tanto. culturais. a propriedade é institucionalmente distinta da autoridade. além de agentes do mercado. permeado por lutas sociais e políticas. podem divergir dos resultados descentralizados do mercado e decidir majoritariamente metas e projetos diferentes para a sociedade. a través de um demorado e accidentado processo. a obra clássica de Polanyi (1980). assim também não é pela invocação genérica da dupla democracia liberal/livre mercado que o desempenho económico e o bem–estar social serão asegurados.). do sexo). 1993. foi ele mesmo objeto de mecanismos de regulação estatal e do compromisso de classe (administração negociada da economia nacional. Um processo cuja forma culminante não ignora que a democracia conheceu durante muito tempo apenas uma participação limitada (pelas exclusões em função da propriedade. 1993). Polanyi remonta à Revolução Industrial e à tentativa. do mesmo modo que resulta imposible avançar na análise da problemática do crescimento económico a partir do debate puramente ideológico “mercado versus Estado” levantado pelo núcleo mais doutrinário do neoliberalismo (Lechner. enquanto cidadãos. internacionais) para alcançar tais objetivos e se manter no tempo (Przeworski. Menos ainda se pode afirmar que ela necesariamente consiste na salvaguarda dos direitos de propiedade. Isso explica. 1995)4. tensões e contradições. fornece uma interpretação bastante consistente. e os individuos são.

1995b). assim como pela Grande Depressão e pela Segunda Guerra Mundial. como afirma Cox. que as condições históricas de realização de tal reversão foram criadas pela natureza da crise dos anos 70. de compleza causalidade e múltiplos sintomas5. condições económicas. e arranjos institucionais específicos. Estado–Nação e Ciudadanía espontánea. continua com as políticas de seguro social. culturais e sociais. o que. tambén. pelo pleno emprego e crescimento sustentado. erode a coesão social. pela expansão das funções de intervenção do Estado. e culmina na metade do século XX com o Estado de Bem–Estar –– foi marcada pela extensão gradual do direito de voto à totalidade dos adultos. Mas. a ascensão de partidos socialistas e social– demócratas. finalmente. de maneira acelerada. 1989). foi uma criação do Estado que. pela conversão da questão social em prioridade política e. este mesmo Estado que há mais de quinze anos é objeto da ira ideológica pró–mercado do neoliberalismo (Gómez. destrói os velhos laços de comunidade e acirra a luta de classes. aos poucos e por intermédio da política. o reconhecimento das negociações entre trabalhadores e capitalistas. e enraizamento e a estabilidade da relação entre regime democrático e mercado capitalista foram as resultantes históricas de uma combinação de lutas políticas. o livre mercado foi planejado. dentre os quais se destaca o Estado de Bem–Estar. Aliás. pela produção de massa estandardizada e pelo compromisso de classes na administração negociada da economia) (Offe. na qual a sociedade. manter as prácticas da democracia liberal e criar um sistema de cooperação entre os países na economia internacional (Cox. tenta atenuar os efeitos diruptivos do mercado e introducir na economía um certo tipo de controle social. O processo histórico que a partir de então se desencadeia é analizado por Polanyi em termos de uma dialéctica de duplo movimento: uma primeira fase de libertação das forças do mercado de todo controle social. Certamente. a linha do muvimento dessa segunda fase foi restablecida no imediato pós–guerra. erigiu–se no guardião da independencia dos mercados. b) das estratégias desenvolvimentistas estadocêntricas implementadas nos países do Terceiro Mundo. pela incorporação da dimensão social na própria democracia liberal. no quadro de uma economia internacional em expansão regulada pelas instituições de Bretón Woods. resistindo com êxito durante três décadas. Com efeito. seu potencial democratizador enfrentou fortes restrições e desafíos por parte do fascismo e do stalinismo. forte e com novos poderes de policía. da garantia dos contratos e do valor da moeda e no severo controlador da extensão sa participação no poder político. em função da habilidade dos Estados capitalistas avançados para administrar suas economias nacionais. Sabe–se. e uma segunda. Esta última fase –– que começa com a regulação das condições na fábrica. sabe–se que a reforma econômica “orientada para o mercado” –– expressão e vetor primordial da globalização económica –– representa uma reversão completa e deliberada: a) do conjunto de políticas que conduziu os países centrais durante “trinta gloriosos anos” (1945–1975) ao Estado de Bem– Estar e ao “capitalismo organizado” (caracterizado pela regulação econômica nacional. cujas conseqüências económicas implicaram profundas mudanças nas estruturas sociais dos países capitalistas centrais e do Terceiro Mundo e marcaram os limites de viabilidade do “socialismo Página 7 de 51 . 1997:53). pelo aumento do salário real. Em suma.Globalização.

a desmontar o contrato social que sustentou o “capitalismo organizado” do pós–guerra (Cox. em materia de comércio. que são poucas as corporações multinacionais verdadeiramente transnacionais. têm condições para asegurar a governança da economia mundial (Hirst e Thompson. por sua vez. finanças. da degradação dos serviços públicos. com a fase de internacionalização do início estão longe de se fundirme em um novo sistema completamente globalizado. além de responder a um processo plurisecular imanente ao capitalismo. contudo. a liderança gorbacheviana implementou uma nova estratégica econômica que acabou com o tipo singular de “contrato social” existente (aquiescência à ditadura unipartidária em troca do pleno emprego. Assim. colocando como prioridades dominantes os problemas da dívida externa e do desenvolivimento orientado endógeno para as exportações –– em detrimento do desenvolvimento endógeno até então priorizado –– para pagar os servições dessa dívida. 1996. a menos que os aumentos da infleção e dos salarios a quebrar o poder dos sindicatos e a introducir cortes nos gastos sociais. de um ritmo relativamente lento de trábalo e da garantia da subsistência básica) e precipitou o colapso definitivo dessa experiência de socialismo dito “real. diante da estagnação econômica. alcance e conseqüências diferem tanto dos que tiveram lugar no período do “fordismo” quanto daqueles da Página 8 de 51 . 1996:37) não deixa de crecer entre os críticos da ideología dominante da economia globalizada. pelo menos os mais poderosos. pois consideram que a fase atual da internacionalização da economia. parece haver um consenso bastante elevado entre os críticos da globalização econômica em torno da percepção de que se está diante de uma nova era do capitalismo. 1996). 3. E colocou o desafio de reconstrução de novas bases sociais para a autoridade social e política em distintas pares do mundo” (1997:55). começa a ceder lugar a uma economia global amplamente desregulada. em condições curiosamente análogas às que Polanyi descrevera na primeira fase da dialética do duplo movimento. cujo sentido. É a partir desse contexto que a economia internacional. ficou evidenciado que os capitalistas não investiriam. “a crise dos anos 70 demoliu as bases sociais dos Estados e das relações internacionais das décadas de pós–guerra. não é inédita. objeto até então de sistemas relativamente eficaces de regulação nacional e internacional. Sem negar a pertinência de várias das observações anteriores. O debate sobre “as verdadeiras e falsas novidades da mundialização” (Boyer. Nos primeiros. e que os Estados nacionais. Boyer. Nos países do Terceiro Mundo. a crise desfez os projetos de asistencia ao desenvolvimento patrocinados pelos países ricos e os de uma “Nova Ordem Económica Internacional” reivindicada em seu benefício pelos países pobres organizados. da falta de inovação tecnológica e do peso insustentável dos gastos militares. 1987). investimento direto. Há posições que atribuem à própria noção de globalização um caráter puramente mítico. que a idéia do tecnoglobalismo não é mais do que um mito que esconde a proteção e o acesso desigual dos países às inovações tecnológicas.José María Gómez real”. só que dessa vez em escala mundial e não apenas em bases nacionais como acontecera na primeira metade do século pasado (idem: 57). isto é. já que apresenta notáveis similitudes. como observa Cox. Na União Soviética.

5%) (Boyer. 1996). enquanto a produção mundial estava virtualmente estagnada (0.Globalização. O novo diz respeito à ampliação da liberalizacação dos intercâmbios –– sob a pressão particular dos Estados Unidos.9% entre 1984 e 1994) para o conjunto dos países da OCDE. 1996.3% ao ano contra 1. constata–se uma crescente semelhança ou homogeneidade nas estruturas de demanda e de oferta nos diversos países (uma nova fase de difusão do american way of life ou da chamada macdonaldização do consumo). Cox. essas reflexões encaram a globalização da economia capitalista como a resultante de mutações aceleradas e profundas operadas nas últimas décadas em diversos âmbitos: tecnológico (microeletrônica. Estado–Nação e Ciudadanía era do imperialismo de um século atrás. que vinculava os Estados às grandes burguesias nacionais (Chesnais. Página 9 de 51 . 1996). provenientes da internacionalização das economias capitalistas. Na realidade. e ideológico (hegemonia neoliberal) (Chesnais. processamento de informações e telecomunicação por satélite. microeconômico (estratégias de investimento. A partir de uma visão mais abrangente. macroeconômico (crescimento de novos países industrializados). Não se trata aquí de entrar na discussão sobre os indicadores que evidenciam a magnitude. diretrizes e pressões de agências internacionais e instancias informais de geogovernança global). cujos efeitos de mayor intensidade e extensão sobre as política económicas nacionais se superpõem aos efeitos mais antigos. e os mais recentes. resultantes das experiencias de regionalização (Baumann. de as exportações mundiais de mercadorias crescerem a ritmo sustentado de 5%. pois se origina das condições favoráveis ao crescimento do comercio internacional logo após a Segunda Guerra Mundial (quando foram superadas as barreiras entre as áreas de influencia de distintas moedas e teve lugar um aumento continuo do volume de comércio internacional. uniformização de técnicas produtivas e administrativas. redução do ciclo do produto e competitividade na fronteira tecnológica. 1996). a qual posibilita às empresas ganhos de escla. inclusive com o dado natável. o comércio internacional continuou a crecer mais rapidamente que as produções nacionais (5. aliás posibilitado pela remoção de barreiras tarifárias e outras promovidas pelas diversas rodadas de negociações multilaterais no âmbito do GATT) (Baumann. esse fenómeno não é novo. 1996. Adda. entre 1990 e 1994. 1995. produção e comercialização em escala mundial de firmas industriais e financieras submetidas à competição acirrada e livre de entraves). no quadro de uma competição acirrada que ocorre cada vez mais em escala mundial. em ritmo superior ao da produção. Paralelamente. 1996). Gill. político (decisões governamentais de ajuste estrutural baseado na liberalização e desregulamentação dos mercados de bens. serviços e fatores de produção. Basta lembrar apenas de algunas das principias mudanças ocorridas a partir de meados da década de 70. Em primeiro lugar. que permitem o incremento do volume e da velocidade das informações e reduzem os custos de comunicação e de transporte). geopolítico (fim do comunismo). da liberalização dos intercambios de bens e serviços e da mobilidade praticamente ilimitada do capital. 1996). o caráter expansivo e a interdependência crescente alcançada pelo processo de globalização econômica em curso.

Trata–se.) e todos os parceiros comerciais (o documento final da Rodada Uruguay do GATT contou com a assinatura de 111 países. especialmente na tríade Estados Unidos–União Européia–Japão). forçadas pelo acirramento da competição internacional em mercados compartilhados no contexto de uma economia que não se expande. precariedade e inseguran 5ª no emprego. aumnento do trábalo de tempo parcial. serviços). o estímulo à construção de grandes espaços regionais integrados. em razão de as firmas multinacionais se transformarem. 1996). como se sabe. Mas se trata tambén de um tipo de produção globalizada que acarreta mudanças profundas na estrutura social do mundo. robótica e níveis elevados de destreza. de maneira tendencial. quanto entre países industrializados e aqueles com baixo custo de mão–de–obra. paradoxalmente. para onde se “deslocam” industrias com alto componente tecnológico e alta productividade (Gómez. controles alfandegários ou técnicos. As corporaçães trasnacionais controlam hoje um terço da produção industrial mundial. por outro lado. concentrados em grande medida nos três pólos da tríade. Com tais investimentos. a atual globalização dos intercâmbios não opera entre países que produzem bens e serviços complementares. Página 10 de 51 . com algumas resistencias.José María Gómez seguida. flexibilidade e tamanho menor das unidades de produção. em transnacionais ou globais. normas e rotinas operativas idênticas etc. 1996. pelo fato de elas asumirme. Em segundo lugar. uma integração global da estrutura de geração de valor e uma gestão estratégica em escala planetária cada vez menos sujeita às determinações de políticas nacionais e aos vínculos locais entre empresas nacionais. ao fazer parte de estruturas globais de produção e oferta estratégicamente orientadas. em dezembro de 1994). de um tipo de produção globalização que expressa e estimula uma formidable concentração de poder econômico no plano mundial. 1997:24). extrema fragmentação do mundo do trábalo. Ademais. a desintegração espacial dos distintos segmentos produtivos das empresas transnacionais. mas se organiza tanto entre países que possuem a mesma estrutura de produção e o mesmo nível de desenvolvimento (daí a elevada concentração do comércio entre os membros da OCDE e. direitos de propiedade intelectual. difundem–se entre os mais diferentes países as mudanças operadas no processo produtivo desde os anos 70 (introdução de novos métodos em favor da automa 5ão. Andreff. mercados públicos. à diferença das fases anteriores de internacionalização. permitiu o crescimento do comércio intrafirma de 20% do comércio mundial em 1980 para aproximadamente 33% em 1994. além do fato de as vendas de suas filiais representarem um montante superior ao do comércio mundial. pelos demais países centrais –– para todos os setores econômicos (agricultura. enquanto seu investimento constitui a parte mais importante dos fluxos de investimento direto em âmbito mundial (Chesnais. ao configurar.)6. todos os instrumentos de intervenção do Estado (subsidios. isto é. crescentemente. terceirização. enfraquecimento das organizações sindicais. autonomização. políticas de concorrência etc. há um desenvolvimento sem precendentes dos investimentos diretos externos.

a do México em 1994 e. a integração financiera global é uma teia de conexões e interdepêndencias crescentes que se tece entre as forças econômicas privadas trasnacionais e os Estados nacionais (sobretudo a través do serviço da dívida pública monetaria a ela asociada). grandes bancos internacionais. Página 11 de 51 . e os movimentos de “placements” privados ultrapassam as reservas dos bancos centrais (Boyer. confiabilidade garantida pelas políticas macroeconômicas de “ajuste estrutural”. Como conseqüência disso. no meio. não pára de se movimentar por toda parte em busca de lucros extraordinários e imediatos. As políticas econômicas dos países foram. por sua vez. volátil e desterritorializada. cinqüenta vezes mais importantes que as transaçães correspondentes às exportações de bens e serviços. De fato. enquanto os governos “se tornaram mais responsáveis perante os comandos impessoais do mercado de títulos do que perante seus próprios eleitores” (1997:59). por causa da desregulamentação. e. companhias de seguro. religião e gênero). hoje. fundos de pensão etc. Do mundo de autarquía financiera que existia até início dos anos 80 (no qual operavam fortes controles e regulamentaçães sobre os mercados nacionais). 1996). corporações trasnacionais. 1997). em um curto espaço de tempo. Em terceiro lugar. embaixo. do contágio das medidas de liberalização e da multiplicação de inovaçães financieras. Assim. profundamente transformadas e o mercado financiero global se converteu no grande disciplinador que passou a avaliar de forma permanente as políticas governamentais sob o criterio exclusivo do “ambiente de confiabilidade” para os investidores (e não das políticas sociais. “o capital global ganhou um efetivo poder de veto sobre as políticas públicas”. são. os precariamente vinculados (categoría em expansão que inclui aqueles que servem à economia global em empregos precarios e sofrem uma crescente segmentação em termos de raça.Globalização. do bem–estar da população ou do desenvolvimento econômico do país). aumentaram a vulnerabilidade dos sistemas financieros nacionais e as probabilidade de riscos sistêmicos (como o ilustram crises graves e sucesivas: a das moedas européias em 1992–1993. 1996. Chesnais. na simultaneidade decisoria posibilitada pelos avanços tecnológicos nas áreas de comunicação e de processamento de informações (Baumann. os excluidos (aqueles trabalhadores e povos considerados superfluos ou “inúteis” pelos criterios dominantes da globalização) (Cox. a um mundo de mobilidade do capital quase ilimitada. os plenamente integrados à economia globalizada (compreendendo dos executivos aos trabalhadores relativamente priviligiados que se inserem na produção e nas finanças globais com empregos razoavelmente estáveis). que funciona em tempo real e é dominada por uma macroestrutura constituída pelos principias bancos centris. segundo Cox. 1996). Trata–se de uma teia que. houve um aumento monumental do volume e da velocidade dos fluxos financieros disponíveis: eles crescem mais do que o comércio mundial e os investimentos diretos no exterior. Estado–Nação e Ciudadanía uma situação hierárquica entre três grandes categorías: no topo. recentemente. passou–se a partir de então. a do Sudeste Asiático).

as classes. na Suíça). encontros dos Bancos Centrais. paradoxalmente. Isto torna a “nebulosa” ao mesmo tempo externa e interna aos Estados. hoje. uma multiplicidade de conseqüências sociais geradas ou reforçadas por esse processo desigual de globalização do capitalismo é. Ao contrário. não se pode ignorar que decisões e medidas de “desregulamentação”. Ou seja. categorías e grupos sociais. agências privadas de avaliação) e de encontros de cúpula dos governos dos Estados mais ricos do planeta (G–7). a globalização econômica consiste em um processo acelerado de redefinição das relações entre centro e periferia e de diferenciação e hierarquia das especializações que. choque do petróleo nos 70. os formatos organizacionais de competição global e a massa de recursos econômico– financieros. quanto a ideología legitimadora e as decisões cruciais de seu ordenamento. o papel fundamental da política na gênese e na permanencia do processo de integração financiera global e da globalização econômica como um todo. políticas e doutrinas são desenvolvidas e difundidas a través de conclaves não oficiais (como o encontro anual de Davos. Nesse sentido. 1997:26). embora ninguém consiga se librar inteiramente dos impactos da economia globalizada. a automização do capital–dinheiro como campo próprio de valorização surgiu sob o impulso das mayores “disfunções” das últimas quatro décadas (saída descontrolada de capitais dos Estados Unidos nos anos 60. “desintermediação” e “descompartimentalização” dos mercados foram tomadas pelos governos centrais para fazer face à crise econômica dos anos 70. fragiliza e desestabiliza a instancia do político (Gómez. de fato. Dito de outra maneira.José María Gómez 4. A “internacionalização” dos Estados em materia de política econômica evidencia. do Fundo Monétario Internacional e do Banco Mundial. é evidente que as interdependências inerentes à forma atual da globalização econômica são indissociáveis de uma efetiva “política globalização” (Gill. primeiro nos Estados Unidos e na Grã–Bretaña. 1996)7. O que existe é uma “nebulosa” constuída por um conjunto complexo e inter–relacionado de redes de influências e agências que desenvolvem uma ideología econômica comum e realizam uma função de governança global ao injetar resultados consensuais trasnacionais nos processos nacionais de tomada de decisão (Cox. as zonas dentro de um mesmo país. 1995). que. e. enorme endividamento do Terceiro Mundo nos 80) e da própria vontade política dos Estados de autonomizar um capitalismo financiero especulativo. mas não implica que as relaçõers asimétricas entre eles desapareçam e os espaços nacionais se dissolvam em um novo espaço homogêneo completamente mundializado. termina concentrando no espaço da tríade Estados Unidos–União Européia–Jãpao tanto o desenvolvimento do conhecimento científico–tecnológico de ponta. universalizadas já em nome do “ajuste estrutural” sob a égide da hegemonia neoliberal (Adda. os países. Por um lado. Por outro lado. 1996). Só que esta (e as regras do jogo que ela impõe) não decorre de uma estrutura de poder de contornos institucionais claramente definidos e de processo formal de tomada de decisão. não obstante afetar também o Norte. estes não afetam igualitariamente as regiões. como já foi adiantado em passagem anterior. de agências intergovernamentais e privadas especializadas (Comitês da OCDE. Página 12 de 51 . mais tarde. nos anos 80.

1995. não significa que especificidades nacionais não impregnem estilos e gerem fortes variações. Thurrow. 1996. os governos não perderam completamente sua capacidade de optar em materia de política econômica e de definir as prioridades dos projetos de sociedade que orientam sua ação. é certamente contando com a intervenção decidida e coordenada dos Estados. consumismo desenfreado em expansão geográfica. 1996. tirar daí conclusões abertamente ideológicas do tipo “fim do Esta”. Luttwak. flexibilização dos direitos sociais e aumento do sentimento de insegurança no tralho. Em outras palabras. de “capitalismo desorganizado” ou de “desforra” do econômico sobre o político e social. persistem diferenças notáveis nas nas situações econômicas nacionais e internacionais dos países. a que dão lugar). Barber. além de perigoso. indiferenciação de situações nacionais ou até superação da idéia de economia e de projeto nacionais. concentração da renda. Que a ortodoxia da globalização tenha transformado em profundidade as políticas econômicas nacionais oa impor o privilegiamento da estabilidade monetária e da competitividade externa. A primeira diz respeito à figura do Estado–nação e à convivência cada vez mais problemática que o contexto das transformações econômicas em curso gera entre a lógica do seu poder territorializado e a lógica do poder crescentemente desterritorializado do capitalismo globalizado. entre outras condições e atores. resultan evidentes as restrições que seu funcionamento e suas forças dominantes impõem à soberania e às margens de autonomia dos Estados nacionais. Nem a complexidade de um Estado–nação se assemelha à da mais poderosa empresa que mergulha na competição pelos mercados mundiais. tanto na sua aplicação quanto nos seus questionamentos (Boyer. incremento do desemprego estrutural. Diante das novas condições de internacionalização da produção. Anderson. fundamentalismo reativo de afirmação de identidade dos não–incluidos (UNRISD. Gill. achatamento salarial. como parece sugerir a atual “onda rosa” na Europa Occidental. 1996). portanto. Mas seria de um simplismo insustentável. Por outro lado. com claros desdobramentos negativos para o seu papel de agente do desennvolvimento econômico e de garante da coesão e integração social e nacional. Engelhard. nem os Estados competem entre si como se fossem empresas (Krugman. 1997). Estado–Nação e Ciudadanía bastante conhecida: aumento da exclusão social e espacial (os “supérfluos” que não conseguem se integrar à dinâmica da economia globalizada). Ademais. relações de poder e modelos distintos de capitalismo (renano. à Polanyi. anglo–saxão e japonês. 1996). crescimento das correntes migratórias internacionais. segundo uma conhecida classificação) (Albert. 1996. Contra esse pano de fundo. 1995. torna–se então necessário voltar às duas conseqüências políticas fundamentais. que já foram tangencialmente abordadas ao longo das considerações anteriores. além de os Estados serem peças esenciáis para o próprio avanço da globalização econômica. estreitamente vinculadas entre si. do comércio e das finanças (e. 1995. debilitamento das antigas identidades e solidariedades de classe. intensificação e alcance planetário da degradação ambiental. em função das tradições nacionais. que se poderão implantar mecanismos de Página 13 de 51 . 1991)8. como já afirmado acima.Globalização.

1996) –– limita–se a certos formalismos sem dúvida essenciáis (eleições livres e competitivas para a esclha das elites gobernantes. mas de sociedade e política). foi promovida por poderosos atores internacionais sob pressão e condicionamentos até mesmo econômicos (independentemente da ambivalencia dos processos de democratização desencadeados e da óbvia gravitação dos fatores endógenos que variaram de país a país). Nos anos 90. internacional. restaurar a separação da economia do domínio político no melhor estilo do século passado. Cox. Dado que a prática e a ideología da globalização conseguiram. 1996). com o objetivo de ganhar competitividade no mercado global e asegurar o “clima de confiabilidade” capaz de atrair os investidores. e que. fica em grande medida esvaziada diante da dinâmica das relações. se o domínio da atividade econômica no seu formato dominante atual é inevitable e intocable. Trata–se aquí de responder às perguntas básicas que nortearam este tópico desde o seu início: como e até que ponto o capitalismo globalizado transformou as condições sob as quais a democracia política opera. em grande medida. capazes de asegurar uma governança da economia alternativa à atualmente dominante (Hirts e Thompson. constata–se que a exigência de democratização dos sistemas políticos –– tributária de uma visão elitista de matriz schumpeteriana e de antigos reflexos conservadores que vêem em uma ampla participação democrática tendências inerentes à ingovernabilidade (Held. reconhecer a própria morte da política. participativa ou direta). ao mesmo tempo que se exige uma conformidade substantiva à ortodoxia financiera e às quesotes do livre mercado (Vacs. de fato. “não há alternativa” (fórmula recentemente retomada nos trópicos pelo círculo presidencial brasileiro quando se sustenta que “dentro da globalização não há alternativas e fora dela não há salvação”). 1997). tudo isso implica. e que tipo de democracia é compatible com ele. o papel reducido de administrdores do ajuste da economia no plano nacional. portanto.José María Gómez regulação global. Ocorre. da cidadania e da Página 14 de 51 . no equacionamento efetivo da dupla. além de celebrada como indissociável e de mutuo fortalecimento. juntamente com a cobrança de um mayor zelo no respeito aos direitos humanos fundamentais). no limite. imanente à noção de democracia (seja ela liberal. Não por acaso ficou famosa a declaração de Margaret Thatcher de que. em nome do realismo. os governos se defrontam com uma capacidade de regulação e controle das economias nacionais bastante disminuída. Os desenvolvimentos anteriores deixam clara que a idéia de comunidade política que se autogoverna e é capaz de determinar seu próprio futuro. porém. se não há de fato alternativa ao modelo existente (que não é simplesmente de economia. viu–se que a dupla “democracia liberal/reformas orientadas para o mercado”. que. forças e ideología da globalização económica. nacional e regional. A segunda conseqüência política da globalização econômica a ser destacada refere–se à própria democracia liberal e ao potencial de democratização das sociedades contemporâneas9. 1994. não parece improcedente afirmar que os políticos democráticamente eleitos acabam desempehando. Mas.

para além da estabilidade monetaria. esse apoio popular pode rapidamente desaparecer. em geral. como o demonstra uma ampla literatura existente (Przeworski. 1995). que historicamente sempre foram constituídas pelas lutas e discussões na esfera pública em torno das formas válidas de sociedade e de política. a confiança da população no processo democrático fique fortemente abalada. pelo fato de significar uma ruptura desejada com um passado imediato de inflação descontrolada e de ingovernabilidade da economia. assim. elas estão presionadas a realizar reformas econômicas radicais orientadas para o mercado. um ostensivo debilitamento da democracia liberal. religiosas. seja quando se perde a confiança nos seus esperados beneficios em virtude de erros na previsão religiosamente otimista dos tecnócratas de turno. 1991ª). em lugar de buscar o aopio mais amplo possível a través de negociações e pactos e de um forte envolvimento das instituições representativas. 1994. não consolidada e uma sociedade civil escasamente articulada e pouco participante. o cinismo e a hipocrisia na representação da vida política. 1993. Daí que não seja de surpreender que. O certo é que. fascistas e de idolatria do Estado e da identidade nacional (Held. O’Donnell. e se asista ao ressurgimento reativo de movimentos e partidos de extrema direita. étnicas. Potter et alii. e sem nenhuma certeza de que posma alcançar. a solvência do Estado e o crescimento econômico perdido desde a década passada. a prioridade absoluta dada pelas políticas governamentais ao primeiro não tende a favorecer a consolidação da segunda. 1991. locais. 1994. com componentes racistas. 1996. que é reforçado. essas “estratégicas de choque” recebem muitas vezes o apoio majoritário dos eleitores. Held. embora muitos deles sejam vítimas do ajuste. contrariamente ao reforço mutuo do livre mercado e da democracia liberal proclamado pela ideología de globalização. pelo enfraquecimento dos antigos componentes de identidade e organização coletiva (especialmente os vinculados ao mundo do trabalho). Contudo.. 1996. 1995. Nas “novas”democracias do Terceiro Mundo e do ex–bloco soviético. cresça a apatía. tal como escrevi há alguns anos referindo–me à situação latino–americana: “Os governos radicalmente comprometidos com as reformas pró–mercado. nas velas e consolodadas democracias dos moires países capitalistas. Estado–Nação e Ciudadanía democracia. Smith et alii. empenham–se em Página 15 de 51 . por outro. Freqüentemente impostas à população pelos tecnócratas e políticos “de cima para baixo e de surpresa” –– independentemente de promesas eleitorais.Globalização. nacionais etc. a situação é ainda mais delicada. Verifica–se. identidades ideológicas e bases sociais ––. Ao contrário. Whitehead. Fiori. Borón. seja quando os custos inerentes à reforma se tornam insuportáveis e se elevam os níveis de conflituosidade social. por um lado. pelos processos em curso de intensa fragmentaçao da sociedade civil (traducida na explosão de identidades definidas em termos de gênero. 1993. de pesados custos agregados e distributivos. decorrente do efeito combinado da reestruturação global da produção e da própria implementação das reformas econômicas neoliberais pró–mercado. É que além de possuírem uma forma de gobernó. que o fenômeno do “multiculturalismo” evoca). 1997. 1993. e. no curto e mediano prazos. como o ilustram numerosos exemplos recentes em distintas partes do mundo.

práticas e valores democráticos. que abrangem desde os sinais de recomposição da sociedade civil (movimentos sociais de base local e trasnacional que buscam uma visão de mundo alternativa. conseqüentemente. imanente à democracia. elevadas taxas de desemprego e profundos desequilibrios regionais. 1995b:9). Pois. cada vex mais ‘delegada’ nas figuras presidenciais e nas equipes técnicas e. a desigualdade. a volta do crescimento com os beneficios econômicos da globalização ainda continua sendo uma miragem para muitos. cada vez menos representativa e participativa com relação ao cidadão comum. então. sindicatos e organizações sociais representativas enfrentam a alternativa do consentimento pasivo ou das explosões extraparlamentares. o processo democrático fica reducido ao ritual eleitoral. depois da estabilização alcançada com bastante socesso. basta lembrar o surgimento de várias tendências de claro perfil contra–hegemônico. decretos–leis e explosões fragmentadas de protesto. a corrupcção e a falta de responsabilidade no manejo dos asuntos públicos vão juntas com a degradaão juntas com a degradação da cultura cívica e dos laços de solidariedade no próprio seio da sociedade civil. o individualismo posesivo e competitivo. Certamente. Desse modo. a democracia se torna nestas latitudes. minam gravemente os principios e as práticas de autonomia e responsabilidade identificados tradicionalmente com a idéia de autogoverno. em termos de direitos e deveres de sujeitos ativos e participantes nos asuntos públicos. contenção salarial. não se deduz do anterior que o potencial democrático das sociedades contemporâneas foi es–gotado e que o projeto e as forças da globalização dominante reinam com absoluta hegemonia. como no Norte. combinando eqüidade social. a exclusão. atreladas à forma desregulada e dominante que asume a globalização econômica. o neoliberalismo tem conseguido obter seus mayores triunfos mais nos planos da política e da ideología do que nos da economia e do social. a participação declina e o debate político desaparece. tanto no Norte quanto no Sul. Nesse sentido. Ocorre que aquí no Sul.José María Gómez enfraquecer e tornar ineficaces as oposições partidarias e sindicais e o próprio jogo das instituições democráticas em benefício do mais puro decisionismo autoritario e estilo tecnocrático de goberno. Pode–se concluir. a desintegração social e nacional. embora de maneira mais dramática e perversa (porque se tenta desmalentar o pouco e desigual que existe em materia de mecanismos de bem–estar social). os partidos políticos. como diz O’Donnell. que as tendências acima referidas. sustentabilidade da bioesfera e Página 16 de 51 . o Estado diminui e a política–espetáculo se entroniza pela mão dos meios de comunicação como mais uma prática de consumo simbólico. efeitos desindustrializantes. contribuindo assim a reforçar uma cidadania extremamente pasiva. violenta redução do patrimônio e das ações reguladoras e redistributivas do Estado. e a despolitização inerente à estratégia dominante de ‘modernização via internacionalização’ continuam com sua insensata carreira de aprofundamento e legitimação no próprio Estado e na sociedade” (Gómez. Paralelamente. Longe de avançar no sempre difícil caminho do fortalecimento das instituições. assim como com a idéia correlata de cidadania. Sem ignorar as conhecidas conseqüências das políticas de ajuste e reestruturação em termos de agravamento do déficit nas contas externas.

A Ambivalência da Globalização e as Transformações da Democracia e da Cidadania: Da Exclusividade Territorial para o Além–Fronteiras 1. dada a complexidade dos problemas e dos dilemas que geram. conformação de alianças aglutinantes das forças de oposição etc).Globalização. Não surpreende. por tanto. Estado–Nação e Ciudadanía democracia participativa substantiva. Mas. é o caráter crescentemente problemático da associação exclusiva da democracia e da cidadania com o Estado–naçao. uma questão urgente que se coloca para todos os demócratas (de convicção e não de mera circunstancia) consiste em saber se ainda é possível reconciliar um efetivo gobernó democrático de base nacional com a escala global e trasnacional das organizações econômicas e sociais contemporâneas. movidas por imperativos globalizantes explícitos. em que o capitalismo globalizando só parece compatível com uma democracia política debilitada. 1996ª) ––. recentes triunfos eleitorais de oposição na França e na Grã–Bretaña. crescimento de comunidades de auto–ajuda sobre bases locais). cruzando a teoria da democracia e a teoria das relações internacionais. mas também as novas energias e práticas de democratização “de baixo para cima” que transcendem as fronteiras nacionais. de um lado. Diante do quadro atual. O ponto de partida. Ainda mais quando se conhecem não só as restrições de “cima para baixo” que enfraquecem a democracia. e certamente um dos eixos centrais das controversias. limitada e de traços elitistas cada vez mais acentuados. que nos últimos anos tenha se desenvolvido um intenso debate. innumeras greves –– sendo emblemática a da França em novembro/dezembro de 1995 (Gómez. sobre as transformações e a ressignificação da democracia sob as condições da globalização lato sensu10. para reverter as tendências dominantes. salientado por Held (1991b). sua perda de eficacia e de controle das decisões e dos resultados políticos cruciais que decorrem do sistema de relações e forças da globalização econômica em curso. de outro. Página 17 de 51 . a popularidade e a extensão geográfica sem precedentes alcançada no mundo pela democracia liberal como forma de organização do poder político dos Estados–nação e. Os desenvolvimentos da primeira parte confirmam o paradoxo. até as ostensivas manifestações de oposição política e social (revoltas sociais. entre. parece evidente que se precisa bem mais do que a criação de condições sociopolíticas favoráveis: é indispensável repensar as perspectivas e as posibilidades da democracia e da cidadania à luz da problemática ambivalente da globalização quando entendida em um sentido mais amplo e diferente do dominante.

ignora–se que um grau significativo da capacidade do Estado de impor “soberania”sobre sua sociedade veio de “fora”. 1975. Tilly. e seus principios normativos centris: territorialidade (espaço territorial fixo e exclusivo que define os limites da jurisdição legal e o alcance da autoridade política centralizada dos Estados). Hall. 1997). 1979. e legalidade (as relações entre Estados igualmente soberanos podem estar submetidas ao direito internacional.). Poggi. certamente. Skocpol et alii. 1979. 1979. as normas obrigatórias sobre qualquer atividade considerada relevante. Em suma. prevalece uma difundida visão sociológica (ou jurídica) que o caracteriza como aparato administrativo. 1979. a “internalização” do poder e da política nos Estados não poderia ter acontecido. Embora esssa dimensão “internacional” seja indisociable do processo de construção do Estado moderno. a sociedade anárquica de relações externas entre os Estados (porque constituída de entidades auto–suficientes. e estes últimos não conseguiriam ser percebidos como comunidades políticas primárias com capacidade para determinar. Badie e Birnbaum. Skocpol. implantar as bases do mercado etc. via suas autoridades. 1994. por intermédio dos acordos mutuos e internacionais que consagraram o princípio da não–interferência externa entre as unidades constitutivas da emergente sociedade internacional. 1992. 1981. foi artífice de si próprio e resultado exclusivo de seu esforço interno de controle (movilizar forças armadas. legalmente constituido e altamente diferenciado. a través das lutas intensas travadas entre uma diversidade de forças sociais. livres de toda intervenção ou controle externos). 1996). O que. na condição de que cada um deles assim o consinta. 1985. soberania (direito incontestado e exclusivo de supremacía para gobernar e representar a fonte última da lei e da autoridade política sobre a população no território delimitado. dando a entender que o Estado. mas todas ficam limitadas pelo mutuo reconhecimento e pela obrigação de não interferirme nos asuntos internos das outras. já que não autoridade legal para além do Estado capaz de impor obrigações legais a ele a seus cidadãos) (McGrew. sem a esfera do “internacional”. isto é internos e externos (Hirst e Thompson. Ou seja. Anderson. não implica desconhecer a densa e accidentada história da gênesse e das trajetórias dos Estados modernos (Elias. traçar mapas e caminhos. em que cada uma age orientada pela sua própria vontade e interesse. em relação simbiótica com a constituição do sistema internacional de Estados. Afinal. que monopoliza os meios de violência legítima e obedece a uma singular divisão do trábalo com o mercado capitalista. a natureza e a forma do Estado–nação na Europa ––seu berço originario Página 18 de 51 . 1975. mas. Déloye. Wallerstein. ao longo dos três últimos séculos. estimular o comércio. como afirma Held (1995b). a chamada ordem de Vestfália. Strayer. desenvolver burocracias administrativas e capacidade de extrair recursos. desse modo. 1996). ao mesmo tempo que de independência com relação a outras unidades soberanas).José María Gómez Sabe–se que o estado moderno como forma política evoluiu e se consolidou. autonomia (perrogativa e capacidade dos Estados de conduzirem e decidirme seus próprios asuntos domésticos e externos. 1992. isso nunca tenha deixado de acontecer) foi a precondição para um efetivo monopólio de poder interno. embora. de fato. 1978.

na reconstituição–consolodação do Estado como forma política. Foi a comunidade nacional que produziu um novo tipo de ligação entre pessoas que tinham.Globalização. em termos de expressão última da nação e da soberania popular. definiu a arquitetura do conjunto da vida política e teve implicações diretas e decisivas sobre a democracia política. seu relativo sucesso econômico (crescimento do mercado. a imaginação das massas e se converte em motor das lutas de democratização durante o “longo” século XIX. permanecido estranhas umas às outras. O primeiro problema se referia à secularização inexorable do fundamento do poder político.. sobretudo a partir da segunda metade do século XVIII. com base em uma forma nova e mais abstrata de integração social (Habermas. dado que as pretensões de legitimação divina dos monarcas tinham sido minadas pelo pluralismo religioso (não obstante o Estado secularizado ainda conservar uma dimensão de transcendência sagrada ao identificar–se com a nação em um sentido pré–político). a que se referia Polanyi. com as revoluções francesa e americana.. sua convergência permitiu transformar o Estado–nação na principal forma de organização política. E o segundo. gradualmente e por intermédio de distintas estratégias de incorporação. na transformação dos súbitos em cidadãos e do Estado–nação em uma comunidade política “de origem e destinoi”. sustentando o processo de acumulação de capital) e o grau elevado de legitimação alcançado junto às suas populações e aos outros Estados. a nova identidade coletiva de uma comunidade imaginária constituída a partir da idéia homogeneizadora de nação (Anderson. aos acelerados processos de decomposição e destruição das relações pré–capitalistas e de acirramento da luta de classes. ênfases no original). isto é. em um contexto internacional de processos recíprocos de autodefinição nacional. 1991) desempenhou uma função catalizadora que transformou “[. de cada uma dessas entidades estatais. De fato. o Estado nacional pôde resolver dois problemas de uma só vez: o establecimento de um modo democrático de legitimação. A rigor. produz–se. processos ocorridos na fase de brutal liberalização das forças do mercado no século passado. Quando a idéia de “nação do povo” conquista. foi somente a partir do final do século XVIII. A autoconciencia nacional do povo proporcionou o contexto cultural que facilitou a ativação política dos cidadãos. estrutura organizacional. e expressaram de maneira condensada o triunfo do Estado–nação na guerra (capacidade para organizar os meios de coerção e para utilizá–los quando necesario). Estado–Nação e Ciudadanía –– resultaram da interseção de condições e processos históricos “nacionais” e “internacionais” complexos. que determinaram o tamanho. composição étnica. até então. territorialmente delimitada e exclusiva11. 1995:91. Desse modo. a passagem do statusde súdito para o de cidadão e a generalização Página 19 de 51 . Mas o que interessa salientar aquí é a gravitação decisiva que teve o nacionalismo durante os séculos XIX e XX. infra–estrutura material etc.. Embora originados de processos históricos distintos. então. que o Estado moderno e a nação moderna se fundiram para formar o Estado–nação12.] o Estado moderno originario em uma república democrática.

1997. 1995). as categorías e práticas fundamentais da democracia estejam ainda fortemente atreladas ao Estado–nação territorial e soberano (Held. 1996). em lugar de respaldar a democratização do sistema político. e essa tensão “pode ser resolvida desde que os principios constitucionais dos direitos humanos e da democracia priorizem um entendimento cosmopolita da nação como uma nação de cidadãos. a própria noção de cidadania moderna. em detrimento de uma interpretação etnocêntrica da nação como uma entidade pré–política”14. Turner. prossegue Habermas. Mais tarde. Em outras palabras. 1989). que se desenvolveram ao longo dos dois últimos séculos as lutas pela democracia. Não causa surpresa. esse processo foi reforçado com a expansão material e simbólica do Estado de Bem–Estar e o conseqüente alargamento e articulação dos direitos civis. a configuração de identidades e solidariedades sociais e as formas constitucionais e arranjos específicos de governos democráticos15. Turner. “[. a saber. Inter. em termos da implementação legal da cidadania democrática (idem:93). legalmente capacitados para exercer seus direitos e obrigoções. o establecimento de um nível novo e mais abstrato de integração social. 1994. moldada pela origem.. para além das interpretações conflitantes provenientes dos diferentes legados e tradições do pensamento político. Tilly. que proporciona a legitimação democrática ––. políticos e sociais (Barbalet. pré–político –– a nação herdada ou atribuída.. outro. 1989. donde decorre o Página 20 de 51 . reduz a força integrativa da nação à sua noção pré–política e a manipula. Por essa razão. a política democrática nacionaliza–se. por tanto. como se sabe. existe –– inscrita no auto–entendimento do Estado–nação –– uma tensão entre o universalismo de uma comunidade legal igualitaria e o particularismo de uma comunidade cultural a que se pertence por origem e destino. cultura. definido em termos de direitos civis.José María Gómez da participação (Marshall. Offe. Mas é também da ambigüidade do termo “nação” que pode surgir –– como já aconteceu na história européia dos séculos XIX e XX –– uma ameaça perigosa para o componente republicano do Estado nacional. então. em seu período inicial. língua comum. dois componentes que operam juntos embora com sentidos diferentes: um. o termo “nação” passa a ser portador ambiguo do republicanismo e do nacionalismo. 1994. Como diz Habermas (idem). o Estado– nação europeu. 1989. história. Bobbio. Há. uma correspondencia histórica necessária entre a democracia política e o Estado–nação. 1995ª. legal e político –– a nação de cidadãos. Ao longo dos séculos XIX e XX.–cambiable com o termo “povo”. quando este. Barbalet. 1992. já que foi no espaço político desde último. que facilita a integração social (Habermas. 1987. Sem que houvesse essa interpretação cultural dos direitos políticos de seus membros. 1996)13. territorialmente delimitado e relativamente pacificado. a teoria da democracia liberal estruturou–se sobre o pressuposto básico da “simetría”e da “congruência” entre os responsáveis pelas decisões políticas e seus destinatários. até o pertencimento a uma comunidade definida em termos culturais.] encontrou expressão em um duplo código: ela se desdobra para além do status legal. que hoje. Os dois aspectos são antes de tudo complementares. Mann. difícilmente teria tido força para atingir sua principal realização.

turismo. “tem–se concentrado nas condições que promovem ou dificultam a vida democrática de uma nação” (Held. e a política democrática expressa. Tanto os teóricos quanto os críticos da democracia moderna admitiriam. a propósito do capitalismo globalizado) estão desafiando as fundações e principios políticos do Estado–nação e da ordem de Vestfália. Embora constantemente utilizado. conseqüentemente. e até o próprio papel do Estado–nação como garante institucional dos direitos e deveres dos cidadãos. a forma e o alcance da participação política. em geral. em última instancia. Em uma aproximação mais simples. que. Em suma. as quesotes e categorías centrais da teoria e prática da democracia contemporânea resultam indissociáveis da figura do Estado–nação: o consenso e a legitimidade do poder político. 1991b:147). com a ordem internacional baseada nos principios e normas de Vestfália. uma teoria satisfatória da democracia só poderia ser formulada ao analizar as relações entre atores e estruturas no Estado–nação. Exemplos não faltam para ilustrar o crescimento e intensidade de atividades. mas. diante do suposto de uma “comunidade nacional de destino” que se autogoverna. No século XX. na primeira parte. a democracia como forma de gobernó e a cidadania democrática como meio privilegiado de integração social na comunidade política estão. Por isso. cabe preguntar: o que se entende por isto? Como defini–la? Qual é a sua naturaleza? 2. Um rápido loar basta para constatar a facilidade e a freqüência com que informações. da própria democracia e cidadania16. porém. raras vezes o conceito de globalização é definido. imagens. são claramente separadas umas das outras. o foco da teoria da democracia. armas. a base político–territorial do processo político. Estado–Nação e Ciudadanía princípio da responsabilidade (accountability) dos gobernantes perante os cidadãos–eleitores e o da relação entre as decisões dos responsáveis e os eleitores–cidadãos de um território delimitado. poder–se–ia dizer que o termo denota o incremento das interconexões globais. as mudanças no âmbito de uma democracia podem ser explicadas em grande medida pela referência às estruturas internas e à dinâmica das sociedades nacionais. por extensão. até as críticas provenientes do marxismo e das correntes democrático–radicais republicana e participativa (Held.Globalização. De modo que as premissas subjacentes que permeiam quase que totalmente os esforços de teorização sustentam que as democracias podem ser tratadas como unidades auto–suficientes. pasando pelo pluralismo–liberal. idéias. a través de distintos modelos –– desde as vertentes elitistas-conservadoras de matriz schumpeteriana ou da teoria da “escolha pública”. fluem a través das fronteiras territoriais nacionais. que os processos em curso de globalização (como já se teve oportunidade de avaliar. mais marcado pelos contextos organizacional e cultural dos procedimentos institucionais e da “regra de mayoría”. “territorializadas” em virtude de sua vinculação histórica e teórica com a figura do Estado–nação e. fluxos. parcialmente. contaminação ambiental. inexorablemente. Manifestações evidentes disso não se encontram apenas no domínio econômico.. mas virtualmente em todos os aspectos da vida social contemporânea. criminalidades etc.doenças. e. quando se fala de globalização. a responsabilidade das decisões políticas. Ocorre. 1996) ––. a interação de forças operando no plano do Estado–naçao. interações e redes em escala Página 21 de 51 . migrantes.

Mas. 1995. ––. Contudo. há um conjunto de atributos individualizantes que permite avançar uma espécie de definição provisória e descritiva em torno do que considero ser o “núcleo duro” da globalização. efeito estufa etc. A globalização muda. Só que a popularidade e o elevado índice de ideologização que perpassam a noção –– como já se viu. antes de emprender essa tarefa. O fim da coerção geográfica é acompañado por uma revalorização dos lugares. para pensar de maneira rigorosa a globalização.. é evidente que não existe uma definição canônica a esse respeito. a ordem mundial para os estrategistas. o universal para individuos–cidadãos. ao abordar a retórica dominante –– alimentam dois tipos de riscos recorrentes: de imprecisão (dado o grau de generalidade em que se situa. pretende–se explicar tudo e termina não se explicando nada) e de redução (todo fato social. Scholte. nossa relação como o espaço –– que se amplia –– e com o tempo –– que se acelera.] em um momento de compressão do espaço no qual os homens vivem.. e. Tudo o que está em jogo. de um lado. se movem e trocam. Não posso também deixar de concordar com Laïdim quando ele sublinha que a globalização consiste “[. as ciências sociais e os estudos das relações internacionais tenham mostrado fecundos e profilicos esforços de conceituação e análise (Waters. O pertenencimento a um mesmo mundo desdobra–se em processos de distanciamento econômico e cultural sem precedentes. a globalização impõe–se “como a representação social mayor deste fim do século” (Laïdi. em uma mundialização dos particularismos. tanto nas sociedades do Norte quando nas do Sul. porque todos os processos que o nutrem são por definição ambivalentes. 1996). Por tanto. Embora. comércio e das corporações trasnacionais). Ianni. A simultaneidade planetária traduz–se. reter dela somente os fatores de heterogeneidade. 1997). em termos de sentido. com todas as conseqüências que esse processo tem sobre suas conciências de pertencerem ao mundo. assim. atravesando fronteiras e modelando a vida social17. dentre outros autores. sobre a problemática das relações sociais estendidas a través de um espaço–tempo comprimido. até os impactos globais visíveis da degradação ambiental –– buraco na camada de ozônio. Robertson (1992) e Held (1995ª). 1995. de qualquer signo. seria determinado diretamente por ela). é precissamente saber como arcar simbólicamente com essa dupla mudança. devo explicitar que minha leitura está fortemente influenciada pela linha interpretativa aberta por Giddens (1992. Mas uma noção assim simplificada certamente esconde a extrema complexidade da problemática da globalização. seja tal mundo o mercado para os mercadores. é conveniente evitar três obstáculos: vê– la sob o ângulo exclusivo de um processo de homogeneização (a síndrome McWorld –– ou McDonald’s. 1996).José María Gómez trasnacional e global (desde o aumento do turismo internacional –– de 70 milhões em 1960 para 500 milhões em 1995 ––. Esse momento comum para todas as sociedades humanas é radicalmente incerto. nos últimos anos. como símbolo da empresa global). finalmente. 1997. Convertida cada vez mais em tema central da análise social e política e em quadro de referência obrigatório para a interpretação de fenômenos macrossociais. e comprender a dialética da globalização e de fragmentação recorrendo Página 22 de 51 . passando pelo aumento das ONGs de dimensão internacional –– de 176 no início do século para 30 mil em 1993 –– e pela magnitude da gravitação das finanças. do outro. porque não implica nenhum acordo sobre uma mesma visão de mundo.

chega à conclusão de que a globalização não é um estado e sim um processo radicalmente incerto e ambivalente “que deixa inteiramente aberta a questão do sentido. as lógicas de compressão do espaço em suas formas simbólicas e territoriaos. dinâmica e contigente. envolve mais do que simples fluxos e conexões a través dos Estados–nação e fronteiras territoriais nacionais. que o lugar. depois de distinguir três processos complementares (embora distintos) que estariam em andamento –– a interdependência crescente das atividades humanas. é possível concebê–la como um processo que. democracia e paz perpétua. O primeiro diz respeito ao “esticamento” de atividades sociais. como resultado da mayor intensificação das interconexões globais e transnacionais. o regional e o global. a distância e o limite territorial cessaram de ser importantes. isto é. de modo que eventos ou decisões acontecidos em uma parte do mundo têm impacto imediato em outros lugares distantes. organizações não–governamentais um sistema global (McGrew. ao mesmo tempo que aumenta a sua visibilidade e conciência. de modo que eles só podem ser resolvidos mediante ação cooperativa entre Estados e instituições e mecanismos multilaterais de regulação. configura–se uma densa teia de relações de interdependência. a literatura de referencia individualizada cinco atributos gerais. O segundo aponta para a “intensificação”ou incremento de densidade dos fluxos e padrões em e entre Estados e sociedades que constituem o moderno sistema mundial. por exemplo. 1992. complexa e instable. Na realidade. enquanto rede de fluxos e sob a marca da “supraterritorialidade”. entre Estados. o nacional. se distingue do tradicional âmbito internacional estadocêntrico de demarcações territoriais exclusivas (Scholte. O quarto atributo salienta um conjunto de problemas transnacionanais gerados ou intensificados pelo incremento das interconexões globais (proliferação de armas de destruição da espécie.Globalização. independentemente de sua situação no espaço. “ela denota uma mudança significativa na forma espacial da atividade e organização Página 23 de 51 . Isso não significa que o global atinja a cada pessoa. que tornam crescentemente confusas as separações entre o “interno” e o “externo” dessas instâncias. degradação da biosfera). e a interpenetração crescente das sociedades ––. econômicas e políticas a través das fronteiras nacionais. a busca normativa de uma orientação voltada para o futuro de nossas práticas cotidianas” (idem:303). 1997. Finalmente. Estado–Nação e Ciudadanía a fórmulas de efeito. O terceiro associa os dois anteriores ao “aprofundamento” e imbricação esterita entre o local. na oposição McWorld versus Jihad” (Laïdi. 1997:294). às vezes. fundadas. um sistema que. corporações econômicas trasnacionais. Se fica claro que “a globalização não é a mesma coisa que a internacionalização” (idem:44). que a ascensão dos fenômenos de supraterritorialidade anunciem o fim do Estado–nação. que a globalização esteja se encaminando na direção de uma comunidade mundial com prosperidade. Na tentativa de uma mayor especificação conceitual. a partir dos atributos e considereções anteriores. instituições internacionais. lugar e esfera de atividade da mesma maneira. ou. 1996)18. 1995). Daí que este autor. menos ainda. Axford.

por exemplo. por tanto. que a globalização implica uma mudança histórica fundamental na escala das organizações econômicas e sociais contemporâneas. como. Em outras palabras. O que se depreende de tal definição é.–relacionadas (econômica. dois eixos mayores. pelas conseqüências profundas que tem sobre o entendimento arraigado do Estado–nação soberano e da ordem de Vestfália. a de que a globalização não debe ser equacionada exclusivamente como um fenômeno econômico ou como um processo único. como afirmei em artigo recente. decisões ou omissões elevadas à frente por atores em um continente. necesariamente. 1997). e que diz respeito não apenas à criação de sistemas em grande escala. cultural. De um lado. mas também às mudanças nos contextos locais e até mesmo pessoais de experiência social” (Gómez.. por exemplo. em primeiro lugar. razão pela qual eles estimulan. mas em um processo multidimensional em que o crescimento dos padrões de interconexão global alcança todos os domínios insitucionais–chave da vida social moderna (econômica. de outro continente. mudança tecnológica ou imperialismo). podem ter conseqüências de peso para nações. ambiental e social). intensidade. a explicam em termos de processos multidimensionais submetidos a numerosas lógicas causais inter. não é consensual. que ações. dinâmica e impactos diferentes. Nesse debate. 1997:15–16.José María Gómez social humana no sentido de padrões transnacionais ou inter. a globalização envolve. seguindo a linha de argumentação de Giddens (1996). simultáneamente. a globalização é indisociable do “esticamento” intensificado das relações de poder. há os que a concebem como processo singular conducido por uma lógica dominante (por exemplo. como ficou ilustrado no tratamento do capitalismo globalizado. exigindo mayor reflexibilidade na ação diante do incremento da complexidade e da incerteza. 1997:8). a hierarquia e a estratificação com relação ao acesso e exercício dos recursos de poder são. política. centrado nos fatores causais. cuja expansão e intensificação recentes relacionam–se com o surgimento de meios de comunicação global instantânea e ao transporte de massa). Página 24 de 51 . produtores de conflitos e de novas formas de estratificação e poder. funcionam como “separadores de agua” nas dicussões primordiais sobre a globalização (McGrew. Isto significa. que interpela fortemente subjetividades e tradições. ela se insere em um intenso debate acadêmico desenvolvido especialmente no campo de estudos das relações iternacionais e caracterizado por uma grande diversidade teórica. embora cada um deles conheça escala.–regionais de relações. É claro que uma tal conceituação da globalização. ao contrário. ênfases no original).. a integração e a fragmentação global. De fato. imanentes aos processos de globalização.. comunidades. de maneira tal que os lugares. capitalismo. Em resumo. político. com implicações importantes para a análise. familias etc. que ela não se constitui em uma condição singular. organização e exercício de poder social em escala transnacional e intercontinental. geralmente combinados. sujeitos e exercícios desde último se tornam crescentemente distantes dos sujeitos ou locais que experimentam suas conseqüências (idem). mas como uma mistura complexa de processos freqüentemente contraditórios.] a globalização trata da efetiva transformação do espaço e do tempo (a chamada ação à distância. Em segundo lugar. legal. “[. e há os que. Por último. que evidentemente não cabe aquí aprofundar. A desigualdade. interações e exercício de poder” (McGrew. tecnológico.

tecnológica. político. Tudo isso leva os transformacionistas a sustenterem que os processos e forças da globalização e da regionalização. 1990. enquanto posições opostas afirmam sua continuidade histórica e até mesmo precedentes similares (os sépticos) (idem). continuam sendo atores fundamentais nas relações internacionais. Claro que isso não prefigura o falecimento do Estado–nação e do sistema internacional. os Estados têm severamente afetadas suas margens de ação autónoma e. nessa ordem pós–Vestfália.Globalização. democracia política. abrangendo numerosos aspectos de vida econômica e social contemporânea. 1992). a ênfase recai na multiplicação e variedade sem precedentes de fenômenos supraterritoriais. até infringida a supremacía legal reivindicada em termos de soberania. Os trnsformacionistas –– com cuja posição –– invocam poderosas razões para afirmar que a globalização contemporânea. etc. do mesmo modo que as fronteiras territoriais conservam uma importância decisiva nos planos econômico.). regionais e internacionais –– e é limitada pela própria natureza dessa pluralidade” (Held. a soberania “já se divide entre um certo número de agências –– nacionais. compromete fundamentalmente o Estado–nação soberano sobre o qual a ordem de Vestfália foi construída (Cox. contribuem para a emergo. hoje em dia. assim como das novas obrigações (direitos humanos. com freqüência. Estado–Nação e Ciudadanía social. 1995). indivisível e exclusiva do poder político esteja sendo deslocada pelo reconhecimento fático de que. 1997). a noção tradicional de soberania como ilimitada. A conseqüência direta é que os Estados perdem. em grau variable. dentre os quais se destacam a emergência de novas formas desterritorializadas de organização econômica e política e a explosão e difusão de identidades culturais diversas (religiosas. 1987. de classe capitalista transnacional. Página 25 de 51 . Linklater. contribuem para a emergência de uma ordem mundial pós–Vestfália bem menos estadocêntrica. como tantas vezes foi salientado aquí. 1997. de solidariedade racial. o controle efetivo sobre suas próprias fronteiras nacionais. Apenas para resumir o que já foi dito. 1995b. mesmo que suas raízes remontem historicamente à formação do capitalismo e do sistema interestatal moderno (Giddens. existem posições que sustentam que a fase atual da globalização representa um corte radical com o passado (os transformacionistas). de preferências sexuais e identidades supra–estatais no plano regional). revaladoras da extrema porosidade dos limites territoriais (Scholte. 1991b:66)19. cultural etc. Os Estados–nação. que inaugura a necessidade normativa e a possibilidade histórica de ampliar a democracia para além das fronteiras (Held. militar e simbólico. de cultura jovem. 1995ª. Ao mesmo tempo. uma vez que desafiam seriamente as capacidades de autonomia e soberania do Estado–nação.) incorporadas pelo direito internacional (Gómez. mas assinala sua justoposição a uma teia densa e complexa de organizações transnacionais. 1996). de outro. Linklater e MacMillan. Daí que. 1996ª). de gênero. focalizando a questão da continuidade ou mudança. 1996. Rousenau. em virtude da proliferação e expansão da jurisdição de instituições multilaterais e da crescente “internacionalização do processo decisorio” nas esferas global e regional.

parece evidente que o pressuposto básico da teoria da democracia liberal –– da “simetría” e “congruência” entre os reponsáveis pela decisões políticas e os destinatarios delas. pasar a ser mais compartilhada com agências internacionais. as fundações ou autoridade do Estado–nação. A partir da argumentação acima desenvolvida. “Se a soberania estatal. que o incremento. e até. enfatizam que sua importância teria crecido. Krasner. é necessário voltar à pergunta preliminar desta segunda parte do artigo e afirmar. questionam a afirmação dos transformacionistas de que os processos atuais de globalização anunciam a emergência de uma nova ordem mundial menos estadocêntrica (Gilpin. a título de resposta. eles rejeitam que a globalização. 1996). portanto. entre o gobernó e o demos –– fica abertamente vulnerable. precisamente para facilitar e regular os procesos de globalização. a intensificação e a aceleração das interconexões globais e regionais em curso geram conseqüências transformadoras na democracia política e na cidadania democrática de base territorial. se os Estados tiverem cada vez menos controle sobre seus próprios territorios. organizadas exclusivamente em bases territoriais nacionais. Dito de outro modo.José María Gómez Os cépticos. e se as fronteiras políticas e territoriais forem crescentemente permeáveis. sob as condições da globalização. Além de discordarem do peso atribuído à descontinuidade com o passado ou mudança (sobretudo com relação aos parâmetros de interdependência econômica alcançados do início do século). Daí que não só recusem que a soberania e a autonomia do Estado–nação estejam mais comprometidas ou ameçadas do que sempre estiveram no passado. para atribuir ao poder hegemônico dos Estados Unidos –– assim como ocorrem com a Grã–Bretaña no século passado – – a criação das condições de liberalização mayor na economia política internacional atual. mas também manifestem um profundo cepticismo sobre a convicção dos transformacionistas. 1990. 1993. demos. uma conseqüência inevitável da naturaleza e dinâmica da globalização no seu formato atual é que os arranjos e práticas democráticos Página 26 de 51 . o núcleo de principios da democracia liberal –– autogoverno. 1997). Hirst e Thompson. a correspondência histórica e analítica entre a democracia política e o Estado–nação soberano. consentimento. Como diz Mcgrew.não obstante as diferenças teóricas que os separam. Ao contrário. e isto em razão de as organizações econômicas e sociais em escala transnacional e o sistema de interconexões globais e regionais constituirme–se e funcionarem como lugares e exercícios de poder que atravessam e transcendem as formas existentes de responsabilidade. necesariamente. 3. tanto sobre as evidências empíricas do caráter inédito da globalização quanto sobre a convicção do surgimento embrionário de uma ordem pós–Vestfália (McGrew. diminua o poder. representação e participação democrática. em alguns autores. representação e soberania popular –– se torna inequívocamente problemático” (idem:12). É que. em vez de ilimitada. Isto é uma decorrência lógica do fato de a globalização desestabilizar as fundações políticas da ordem de Vestfália e minar.

e na dinâmica de fragmentação de identidades subnacionais e de decomposição da velha sociedade civil. Nessa circunstâncias. as formas estabelecidas de geogovernança internacional e global. no da própria concepção de demos e comunidade política. como modo de legitimação e como meio de integração social. identidade e participação democrática (isto é. comércio.). na configuração de um espaço de fluxos supraterritorializados. de representar uma comunidade política de destino que se autogoverna através dos mecanismos da soberania popular) e as “duras réplicas” das condições históricas de globalização existentes20. hoje não coincidem mais com os locais de poder onde as desições são efetivamente tomadas. De fato. a esse respeito. em todo caso. não só afetam profundamente a autonomia democrática dos Estados individuais. em escala doméstica e global. expressam novas e reforçadas concentrações de poder (a chamada “nebulosa” de Cox) que. Deduz–se das considerações anteriores que os impactos transformadores da globalização atingiram em profundidade a cidadania democrática na sua dupla natureza. a que já afirmei sobre as conseqüências da “política econômica da globalização”. resulta fácil constatar o enorme e crescente abismo que se instala entre a reivindicação de o Estado democrático ser a unidade mayor de lealdade política. Mas. Um abismo. Por outro. Estado–Nação e Ciudadanía territorializados. com isso. a capacidade de os governos democráticos controlarem e regularem seus próprios asuntos domésticos se vê extremamente debilitada diante da intensidade e variedade de fluxos transnacionais que atravessam com facilidade as fronteiras (capital. sem admitir nenhum tipo de controle democrático.Globalização. e a erosão da solidariedade social decorrentes de duas décadas de intensa globalização econômica (afetando especialmente a figura do Estado de Bem–Estar e os diereitos sociais) têm provocado fortes restrições no duplo registro acima mencionado. como identidade colectiva baseada no petencimento à comunidade nacional de origem e destino. mas lhes impõem restrições severas à sua capacidade tradicional de integração social e nacional. revelando sua inadequação crescente à identificação essencialista de povo que vive na unidade territorial delimitada e exclusiva do Estado–nação. Basta lembrar. do avanço do consumismo capitalista Página 27 de 51 . como status legal igualitario de direitos e deveres dos membros da comunidade política em fase do poder político e. Por um lado. na apatía e desconfiança crescente das populações com a política convencional e os políticos profissionais. assim como na dimensão sempre presente de “cidadania ativa” comprometida com a busca da “boa sociedade” em termos de democracia substantiva. do discurso universalista dos direitos humanos. informação e cultura etc. O incremento da polarização social. em crescente expansão (e que se manifesta a través dos problemas ambientais globais. que marca a verdadiera distância entre a ideología triunfalista da democracia liberal afirmada pela retórica dominante da globalização e a crescente impotência dessa mesma democracia territorial diante das estruturas transnacionalizadas de poder. aparentemente com capacidade para regular as atividades transnacionais. o contexto de interconexões regionais e globais afetou a cidadania democrática em um nivel mais profundo. embora historicamente nunca tenham coincidido plenamente. com particular ênfase na drástica reversão do papel do Estado com relações à regulação do mercado e à responsabilidade pela questão social. tecnología. simultáneamente.

Significa memos ainda que a identidade nacional deixou de ser importante na atualidade. como se viu. que não estão enraizadas no apego a um territorio particular. Isto quer dizer que a identificação com a nação pode ser mais forte ou mais fraca. de classe. comunidades e povos das mais distantes regiões do planeta. Assim. contraditório e descentrado. então. É claro que isso não significa que antes da intensificação e aceleração da globalização as nações fossem entidades absolutamente homogéneas. física e socialmente” (Milnar. 1996. dos problemas crescentes de (in)segurança e (mal)bem–estar etc. desenvolvidas simultáneamente nos planos infra–estatal e supra–estatal (Habermas. homogeneidade e limites claramente identificáveis. [Featherstone. étnica. dos grupos étnicos. desterritorialização. vê–se hoje cada vez mais desafiada por uma sociedade crescentemente pluralista ou multicultural. Simplesmente. o que se afirma é que a identidade nacional é mais uma entre as tantas identidades que os povos hoje constroem. que os processos de globalização desestabilizam (o que não quer dizer que suprimam. multidimensional. dos feitos de hibridização cultural. de pensamento cosmopolita etc. renacionalização e fragmentação Página 28 de 51 . significa também que “outras identidades. havia facilitado o desenvolvimento da cidadania legalmente deinida. Pode–se dizer. Canclini. ao mesmo tempo. localismo. tanto localistas ou regionalistas quanto internacionalistas ou universalistas.). podem ser altamente significativas” (Krause e Reinwick. ao mesmo tempo que desencadeiam uma dinâmica de diferenciação em torno e para além do princípio de nacionalidade (até mesmo a través de construções desterritorializadas não menos fixas e essencialistas que as predominantes de nação). com força de integração e solidariedade social ––. por exemplo de gênero. e desencadeando uma miríade de processos de auto–identificação e de solidariedades coletivas subnacionais e supranacionais. ou que às vezes não exacerbam) as identidades coletivas essencialistas baseadas em concepções territoriais do “nós” e dos “outros”. mas. 1992 apud Scholte. desestabilizando “as identidades territoriais tradicionais baseadas na contigüidade. sustentada no pressuposto de uma população com elevado grau de homogeneidade cultural –– que. a poderosa imagem do Estado–nação como forma dominante de identidade coletiva irredutível. 1996:46). seja de um hipercapitalismo sem fronteiras. contribuindo assim para a constituição e expansão de um espaço político global. tecem–se complexos e abstratos sistemas de “destino” que ligam localidades. Em outras palavras. ou que ficou absorbida por uma nova homogeneização de alcance global. com capacidade efetiva de suprimir toda identidade e lealdade coletiva sub ou supranacional (como o ilustram inúmeros exemplos históricos de vigorosas expressões sociopolíticas. no sentido de uma diversidade enorme das forças culturais de vida. Desse modo. 1995).José María Gómez global. 1996). as experiências de proximidade e conexão social alteram–se radicalmente. multiplicam–se de maneira simultânea e superposta fenômenos de homogeneização. seja de um cosmopolitismo de sentimentos universais e atos de solidariedade com a humanidade com um todo. de classe social. de raça ou de preferência sexual. religiosas. sob as condições de globalização. 1995?]. das visões de mundo e das religiões.

ansiaos. o que as torna multifacetadas. com o chamado “retorno do cidadão”.Globalização. embora possuam os direitos comuns da cidadania. 1990. de forma breve. Na realidade. étnicas. 1989. 1996. Estado–Nação e Ciudadanía das identidades coletivas. Essa complexa situação multicultural subnacional e transnacional coloca sérios problemas ético–políticos relativos à coexistência e interação de identidades e lealdades em igualdade de condições dentro da comunidade política nacional e fora dela. Os pluralistas culturais chegam. religiosas. enquanto concepção de cidadania “pasiva” ou “privada” com ênfase na posse dos três componentes sistêmicos de direitos e na ausência de toda obrigação de participar na vida pública (Kymlicka e Norman. 1996). Vogel e Moran. ambiguas e em profundo processo de transformação (Scholte. 1994. em aparente paradoxo. e reivindicando que devem ser elevadas em conta as identidades socioculturais e as diferenças de grupos diversos –– mulheres. Outras perspectivas têm Página 29 de 51 . –– que se consideram oprimidos ou excluidos da cultura hegemônica. 1996)21. a invocar uma concepção de cidadania “diferenciada”em função do pertencimento a grupos e comunidades particulares. Walzer. em que o direito à igualdade não seja utilizado para descaracterizar diferenças socioculturais. 1995). 1991. a partir de diferentes posições. sob condições de igualdade e liberdade. a esquerda. 1995)22. 1990. Philips. ela é reveladora dos novos desafios e posibilidades de desenvolvimento da cidadania democrática. na teoria social e política. os comunitaristas dos anos 80 sublinham a participação nas redes asociativas da sociedade civil. pobres. Beiner. e o liberalismo democrático privilegia o sistema educativo formal na formação intelectual e moral de cidadãos responsáveis) (idem. 1991. nacionais etc. limito–me a assinalar. sexuais. como a fonte formadora de virtudes democráticas e de civilidade. os demócratas participativos e o republicanismo cívico afirmam o valor educativo e intríseco da participação política na esfera pública. De fato. isso já está acontecendo nos anos 90. em contraste com seu virtual ostracismo constatado entre a segunda metade dos anos 70 e a primeira dos 80 (Heater. questionando a definição de cidadania em termos de status legal de direitos e responsabilidades do ponto de vista universal. fluidas. Turner. Como não cabe aquí entrar em um debate que apresenta as mais variadas invocações de uma “teoria da cidadania”. 1994. quando pensados e asumidos a partir de uma problemática que ultrapassa a visão tradicional fixada no espaço da soberania nacional. 1994. e não de individuos dotados de direitos iguais perante a lei (Young. 1993). A primeira crítica. as duas principias críticas suscitadas pelo modelo “ortodoxo” do pós–guerra elaborado por Marshall. O que se pretende é alcançãr uma “política do reconhecimento” (Taylor. A segunda crítica visa à fragmentação e ao pluralismo cultural das sociedades contemporâneas. salienta a necessidade de complementar ou equilibrar a aceitação pasiva dos direitos com o exercício ativo de responsabilidades e virtudes cívicas (grosso modo. minorias raciais. assim. ao mesmo tempo que o direito à diferença não justifique discriminações ou desigualdades (Santos. 1996). a direita neoliberal aposta no mercado como escola das virtudes ao mesmo tempo que ataca os direitos sociais e o Estado de Bem–Estar. Van Steenbergen. 1992).

mediante contrato o escolha. assim como o potencial de conflitos imanente a situações de cidadania “dual” e comunidades políticas superpostas (o liberalismo político sustenta que os individuos racionais podem endosar principios de justiça política comum na busca de suas concepções divergentes de bem. encontrar respostas adequadas ao pluralismo a partir da defesa de uma base comum que a cidadania estaria em condições de fornecer. 1995ª. associações ou grupos de Página 30 de 51 . responsabilidades e política de reconhecimento das identidades e diferenças –– não demorou a se estender à arena internacional e global. se equipara mecánicamente à atual realidade geopolítica. 1988. 1994. pode–se dizer que já há um início de materialização de uma cidadania ativa global na emergência e na expansão de redes de atividades trasnacionais. de uma elaboração eminentemente normativa com sérias dificultades de realização. esse debate sobre os vetores primordiais da cidadania contemporânea –– direitos. Linklater. e o republicanismo. Passerin D’Entreves. exclusão. 1995b.José María Gómez procurado. 1997ª. 1996). Kymlicka. Como diz Falk (1994:139). Não obstante o fato de estar centrado preponderantemente no âmbito do Estado– nação. se a cidadania global. por intermédio da discussão na esfera pública) (Miller. 1997). Habermas. corporificando níveis mais elevados de universalidade e de diversidade que aqueles que o Estado–nação tinha permitido)24. 1996.) (Falk. Rawls. então ela asume um caráter político de longo prazo mais constitutivo e desafiador. em contraste. embora todas reconheçam a inviabilidade crescente do velho molde integrador. asociado à possibilidade de uma futura comunidade política de alcance global. segundo as diferentes visões que adotam. baseada no reconhecimento. concebidas como projetos e realidades preliminares. 1995)23. cruzando e alimentando várias das quesotes centrais levantadas pelos transformacionistas (tais como as perspectivas de uma ordem pós–Vestfália e de novas visões de comunidade. E isso. enquanto expressão de um ideal. Nozcik. afirma a possibilidade de se alcançar racionalmente uma espécie de “vontade geral”. mas também como deveres morais com os outros para além das fronteiras ou obrigações com o restante da humanidade (em termos de pobreza e exclusão. é claro. democracia e política. de preservação do meio ambiente etc. Com efeito. abragendo uma diversidade de movimentos sociais trasnacionais. respeito e reciprocidade das identidades –– incluída a “síndrome da identidade múltipla”––. hierarquia e violência que têm permeado constantemente as relações internacionais no passado e ainda no presente (Scholte. Até mesmo. políticos e sociais e suas respectivas garantias institucionais (na trilha do que hoje só existe muito embrionariamente. esta passa a ser entendida não apenas como a extensão na esfera das relações internacionais do conjunto dos direitos civis. a própria idéia de cidadania global. Nesse sentido. de modo a evitar a oposição. tem acesso ao conjunto de bems públicos preferidos. se a cidadania global é concebida como um projeto político. então ela é uma noção puramente sentimental e levamente absurda. de modo incompleto e ineficaz) (Gómez. com sua concepção de cidadão ativo. articulado a uma política do multiculturalismo. soberania. evidentemente. 1994. o neoliberalismo vê o cidadão como um consumidor racionar que. 1995. 1996ª). Trata–se.

quer se privilegie a dimensão político–procedimental. liberal. 1997)25. com a globalização da democracia––. 1995ª. movimentos de mulheres. internacional e global. (por exemplo. surgem iniciativas que buscam tornar responsáveis os Estados e o sistema internacional de Estados por suas ações e omissões. impasses e desafíos dos principios e práticas da democracia. ao construir espaços institucionais rudimentares de ação e lealdade desenvolvidos em e a través dos Estados. 1997. uma notável convergência entre os teóricos filiados às mais variadas tradições do pensamento democrático (republicana. Tal ativismo transnacional. solidariedade coletiva e cidadania ativa (Held. é a partir deles e das claras e crescentes limitações impostas a estas últimas pelos processos da globalização dominante que tem se desencadeado o debate normativo sobre a ressignificação da democracia contemporânea e a necessidade de reconstruir sua teoria e prática para além das fronteiras. configura-se uma espécie de “globalização por baixo”. e é partir dela que. da democracia direta. 1996. Anistia Internacional. quer se priorize a dimensão substantiva da participação. Breve Conclusão sobre a Necessidade Normativa e a Possiblidade Histórica de Ampliar a Democracia para Além das Fronteiras Existe. Greenpeace. ambientalistas. McGrew. é dela que provém a mobilização de solidariedades políticas que transcendem os limites territoriais. Cox. organizações internacionais não–governamentais etc. Baseado no compromisso aberto com a “boa comunidade política democrática” e na crença de que o fortalecimento da democracia nos Estados–nação está litimamente vinvulado à democratização das relações entre e para além dos Estados ––isto é. que todos esses desenvolvimentos mantenham uma relação ambigua e fortemente interpeladora com a cidadania e a democracia política de base territorial. 1995ª). e perseguem políticas de emancipação para além das fronteiras nacionais. Sandel. 1994. de defesa dos direitos humanos). 1996. atravesando as Página 31 de 51 . social–demócrata. Habermas. que redefine e amplia os limites do espaço político democrático (em oposição à “globalização pelo alto”. de fato. atualmente.Globalização. Falk. em definitivo. É dessa “sociedade civil global” que. por tanto. 1997. 1995ª. 1997). 1995. radical–participativa) para atribuir aos processos de globalização em curso a causalidade principal das dificuldades. produz novas orientações com relação à identidade e à comunidade política que estão na base de uma “sociedade civil global” em gestação (Falk. Não causa surpresa. Estado–Nação e Ciudadanía cidadãos. 1994. desafiam estruturas existentes de poder nacional. o pensamento político normativo tem resurgido. constituída pelos centros establecidos de poder econômico e político e pelas formas dominantes de conhecimento convencional e de ideología) (Cox. Globalizando a Democracia. No en tanto.

todos compartilham as posições transformacionistas referidas acima. com o objetivo de tornar responsáveis forças globais e transnacionais (que atualmente escapam a toda jurisdição e controle democrático territorial). se as estruturas de governança internacional e global existentes podem ser democratizadas etc. em suas distintas vertentes. 5) a firme convicção de que idéias e ideais políticos podem modelar. possibilidade e desejabilidade da democratização da ordem mundial em função dos impedimentos estruturais imanentes ao sistema internacional. hoje tão esvaziada. entre as esferas do doméstico e do internacinal. Três grandes modelos favóreis à democracia global distinguem–se na literatura recente: o liberal–intenacionalista. por baixo e através dos Estados–nação. operando por cima. e foi a partir dessa figura que a teoria da democracia moderna e contemporânea. Eles têm em comum cinco características: 1) uma referência cognitiva consistente sobre os modos como os processos de globalização transformam a democracia política de base teritorial. Em linhas gerais. 3) a recusa de toda idéia de gobernó mundial. contra o pano de fundo da ordem internacional de Vestfália. Por essas mesmas razões. em suma. questionam a necessidade. sob a influência marcante do realismo (paradigma ortodoxo ou dominante nos estudos das relações internacionais). Afinal. as práticas políticas (idem). A democratização da ordem mundial e da governança global certamente restauraria a étnica do autogoverno como coração da democracia política. como antes procurei demonstrar. tais modelos de democracia global entram em confronto direto com os argumentos colocados pelos sépticos que. embora desenvolvidas a partir de diferentes quadros conceituais sobre a ordem mundial e tradições do pensamento democrático. Entretanto. Página 32 de 51 . o que leva a perguntas tais como: que propósito ela perseguirá. 1997). Trata–se. ao mesmo tempo que expresaría o núcleo do prjeto que orienta os atores da “sociedade civil global”. isso implica avançar em uma visão normativa sobre o que democracia para além das fronteiras debería ou poderia ser. elaborou as categorías centrais e as principias interpretações. de enfrentar intelectualmente uma delicada agenda de quesotes sobre a necessidade. 2) um compromisso renovado com a ampliação e o aprofundamento da democracia política. 4) a crença na necessidade de novos arranjos democráticos para a governança mundial.José María Gómez fronteiras disciplinares entre teoria política e teoria das relações internacionais e superando as rígidas dicotomías. que tipo de principios normativos a regulação. entre a política nos Estados e entre os Estados. qual será sua forma política e como será concebido o demos. como de fato modelam. a “nacionalização da democracia” nos últimos duzentos anos teve como suporte e condição de existência a figura do Estado–nação. Mas estender instituições e práticas democráticas para além do Estado–nação. o radical e o cosmopolita (McGrew. construídas ao longo do século XX na análise da vida política. desejabilidade e possibilidade de globalizar a democracia26. implica reexaminar em profundidade o significado da própria democracia sob as condições da globalização. Sustentar a “globalização da democracia” não supõe. por tanto. uma passagem automática nem fácil.

individuos). de soberania crescentemente ficticia. a noção de cidadania– global. para resolver problemas esencialmente políticos (isto é.Globalização. segura e democrática. visando ao mesmo tempo fortalecer. menos capazes de administrar seus próprios asuntos domésticos e externos sem recorrer aos mecanismos de cooperação internacional –– a proliferação de instituições e regimes internacionais e redes informais de geogovernança assim o demostra. Já para alcançar uma ordem mundial mais justa. fiel às suas convicções ideológicas e normativas. de claras raízes iluministas e de reconhecida influência nos momentos cruciais de reordenamento internacional depois das duas guerras mundiais deste século –– criação da Liga das Nações e do sistema das Nações Unidas ––. revitaliza–se neste período de pós–Guerra Fria e asume um perfil decididamente reformista da ordem mundial. segundo o revela o relatório Nossa Comunidade Global (1996). privilegia a dimensão jurídico–institucional.). reduzindo a esta última o horizonte de extensão da democracia (não por acaso trata com extrema prudência e moderação o capitalismo globalizado). formação de um Conselho de Segurança Económica etc. da Comissão sobre Governança Global –– a “última das grandes comissões liberais”. e paradoxalmente –– por todas as razões expostas ao longo do trábalo ––. Até porque. há uma emergente ordem mundial pós–Vestfália. agências internacionais. O conjunto das reformas institucionais sugeridas tem como objetivo e alvo privilegiado tornar mais representativo e democrático o sistema das Nações Unidas (establecimento de uma assembléia dos povos e de um Fórum da Sociedade Civil Global. e o sistema interestatal continuem desempeñando um papel–chave. do que a expressão de relações de poder e hierarquia entre os Estados. ambos asociados à Asambléia Geral. corporações transnacionais. na forma de um reformismo gradual nas estruturas existentes de geogovernança global. a geogovernança global. do local ao global. solidariedade. no dizer de Falk (1995c). respeito mutuo. transpõe uma forma debilitada da Página 33 de 51 . enfim. organizações não– governamentais. liberdade. pel extensão de um conjunto de direitos e obrigações globais. separa as esferas do econômico e do político. problemas de poder). por conseguinte. com representação direta ou indireta nas instituições de geogevernança global. Concluindo. o liberal–internacionalismo. além de invocar uma série de valores universais (respeito à vida. Para essa perspectiva. na qual os Estados nacionais se tornam cada vez mais interdependentes e. integridade). não avería saída unilateral para sua resolução. de cujo dinâmico e interativo processo decisorio participa uma miríade de atores (Estados. é mais o resultado da necessidade e do autointeresse dos Estados em negociar e alcançar consenso sobre a lei e as instituições para regular as interdependências internacionais. Concebe–se a ordem mundial como uma “poliarquía” descentralizada e pluralista. propõe–se uma estratégia centrada na reforma (e não na reconstrução ou abolição) das instituições internacionais existentes e na promoção de uma nova ética cívica global. embora o Estado. indispénsavel à reprodução da ordem mundial. Desse modo. como o ilustram os problemas globais. Estado–Nação e Ciudadanía O liberal–internacionalismo. Estreitamente articulado a essas reformas. há o compromisso com uma ética cívica global que. grupos internacionais de pressão. justiça e eqüidade. afirma o princípio da participação em todos os níveis da governança.

O radicalismo comunitarista. desencadear um movimento de democratização que atinja as formas de Estados e da sociedade civil. saúde. das redes das elites transnacionais e o papel das principias instituições internacionais. Gill. A primeira. provoca conseqüências sociais e políticas negativas para a democracia no plano mundial e nas sociedades nacionais (polarização social e decomposição da sociedade civil. e se espalhe em todos os níveis. ambientalista. identifica globalização do pós–guerra com o surgimento do capitalismo globalizado. de origem comunitarista. abriga pelo menos duas grandes vertentes: uma. Essa nova forma. baseadas nos principios comunitários que emergem da vida e das condições de comunidades particulares (locais. mas superá–la. 1997:254). 1995).). de genêro etc. político. segundo esta perspectiva. esta perspectiva não pretende transpor a democracia liberal do plano doméstico ao internacional. As forças sociais dominantes que impulsionam o capitalismo globalizado constituem uma “classe transnacional” que exerce controle hegemônico sobre as instituições formais e as redes informais de geogovernança global. econômia e política global. nacionais e transnacionais. desempeñando os próprios Estados um papel fundamentalmente “disciplinador” na mundialização do capital (Cox. Para isso. em grande medida desenvolvida no tratamento da primeira parte deste artigo. Assim. Comprometida com o objetivo de criar condições que incrementem o poder do povo no controle de sua própria vida e na constituição das “boas comunidades” guiadas por valores como a igualdade entre as pessoas e a harmonia com o meio ambiente. torna–se necesario. a emancipação e a transformação das relações existentes de poder. propõe um modelo de democracia global apoiado em mecanismos de governança que devem ser organizados seguindo uma linha funcional (por exemplo. resultante de profundas e aceleradas mutações operadas em distintos âmbitos (tecnológico. microeconômico. seriam indicadoras da recomposição de uma mayor democratização da ordem mundial. a igualdade socioeconômica. geopolítico. em uma combinação de formas de democracia direta e de autogoverno com novas estruturas de governança funcional global.). do local ao mundial. Página 34 de 51 . enfatiza (em oposição à busca de reforma das estruturas de governança global do liberal–internacionalismo) o projeto de construção de formas alternativas de organização social. apatía e desconfiança da política profissional etc. O radicalismo democrático. por sua vez. esvaziamento e limitações crescentes da democracia liberal. As distintas manifestações contra–hegemônicas de “baixo para cima”. embora ambas defendam a democracia direta e participativa. macroeconômico e ideológico). mais enraizada nas análises de inspiração marxista da economia política mundial. meio ambiente. dados os enormes poderes do capital global.José María Gómez democracia liberal territorial para o modelo de democratização da ordem mundial (McGrew. e outra. de interesse. 1997. sobretudo do seu núcleo duro na produção e nas finanças. com relação à ordem mundial. que estão ocorrendo nos últimos tempos. de modo a controlar social e políticamente a economia e lançar as bases para uma democracia direta e substantiva. a solidariedade.

nas suas duas vertentes. par indicar “um modelo de organização política no qual os cidadãos. de modo a desenvolver “capacidade de administração e recursos políticos independentes nos Página 35 de 51 . Os agentes dessa mudança radical nas relações de poder global seriam os movimentos sociais críticos existentes (ambientalistas. o modelo radical de democracia para além das fronteiras. republicanismo cívico).Globalização. pela extensão e aprofundamento da democracia através de nações. requer que a política se realice em uma multiplicidade de cenários (da cidade à nação e ao mundo como um todo) e. democracia participativa. entrada e representação política nos asuntos internacionais. David Held. encoraja nos cidadãos o sentido de pertencimento simultanêo a comunidades superpostas (locais. superpostas e espacialmente diferenciadas. a aceleração e o aprofundamento dos padrões de interconexão regionais e globais no contexto atual provocam o surgimento de uma ordem pós–Vestfália. democracia socialista. há uma convicção de que o incremento. se multiplicam como lugares de exercício de poder que recusam toda estrutura centralizada ou soberana de autoridade. O modelo cosmopolita de democraci. procurando especificar principios e bases institucionais para a expansão de uma governança democrática nos. isso também significa um potencial transformador. qualquer que seja sua localização no mundo. de antigas raízes na história do pensamento ocidental28. atualizando o legado de distintas tradições (democracia direta. entre e através dos Estados. é definido por um de seus principias formuladores. têm voz. 1995:13). econômica e política movidas pelos principío do autogoverno. As autoridades teriam uma jurisdição espacial de alcance geográficamente variável em razão das atividades que pretendem regular ou promover. É nessa direção que um modelo cosmopolita (e não internacional) de democracia se consagra. à diferença da velha tradição republicana. de uma visão em que as comunidades de autogoverno de origens diversas. Isto significa que a soberania estatal e a territorialidade perdem progresivamente o dominío sobre a vida política contemporânea e. nacionais. globais) e promove a busca de novas formas de organização social. Um princípio que hoje. evidenciado pela “sociedade civil global” emergente. No en tanto. que. Trata–se. que desafiam tanto os Estados e as agências internacionais quanto as definições convencionais de política27. pela própria ambivalência dos processos de globalização. representa uma teoria normativa de democratização de “baixo para cima” da ordem mundial. Estado–Nação e Ciudadanía comércio etc. que as formas nacionais de democracia política estão minadas diante da crescente concentração de poder econômico e político transnacional. em suma. por tanto.). e não territorial de identificação com os Estados–nação. que os cidadãos posma pensar e agir como sujeitos situados também de maneira múltipla (Sandel. e poderiam ser administradas e coordenadas por comitês escolhidos com base em criterios estatísticos de representação dos próprios cidadãos ou comunidades envolvidos nas decisões. com ela. regiões e redes globais. então. de mulheres e pela paz). seriam responsáveis perante as comunidades e os cidadãos cujos interesses estão diretamente afetados pela sua ação. Na sua base. 1996:350). paralela e independentemente de seus respectivos governos” (Archibugi e Hels.

a cidadania. Como já se havia anticipado. (Held. Em suma. uma luta constante pelo poder e controle. como um sistema de auto–ajuda.José María Gómez planos regional e global como complemento necessário para aqueles da política local e nacional” (Held. Implementar a democracia cosmopolita implica. entretanto. por sua vez. ênfase na abordagem constitucional–legal. mas uma estrutura transnacionais comum de ação política envolvendo todos os níveis e os participantes da governança global (Held. do atual esquema de governança global.). e não de reforma. Fundada no princípio ético da autonomia –– centro do projeto democrático moderno e comum a todas as tradições –– e na necessidade de uma lei democrática cosmopolita (estendida universalmente. que entendem as relações internacionais. 1995ª). da democracia direta e participativa. um processo de reconstrução. esses três modelos normativos de democracia global sofrem a crítica aberta dos cépticos. Trata–se de um sistema de centros de poder diversos e superpostos. passa a conhecer formas mais “elevadas” de participação e representação em estruturas supranacionais e. nacional e internacional. simultáneamente. formas mais “reducidas em escala”. com incremento de poder em comunidades locais e grupos subnacionais (Linklater. na busca de uma ordem mundial mais democrática. O Estado–nação não pode mais reivindicar para si a condição de único centro de poder legítimo nas suas próprias fronteiras. dentre elas. Embora reconheçam impactos significativos da globalização. atribuir a uma Corte Internacional de Direitos Humanos jurisdição compulsoria em escala global. ao mesmo tempo que debe asumir um papel mediador de diferentes lealdades nos planos subnacional. tornar mais representativas e responsáveis os organizações internacionais e o sistema das Nações Unidas. 1996:353). na qual a segurança e a paz só podem ser garantidas pelos sempre precarios equilibrios de poder. o modelo cosmopolita termina combinando aspectos fundamentais do radicalismo e do liberal–internacionalismo (centralidade do autogoverno. com poder de interferência nos asuntos internos de cada Estado para proteger determinados direitos básicos). com profundas implicações para o Estado–nação e a cidadania democrática nacional. e em razão dos fortes vínculos que mantém com as distintas tradições do pensamento democrático. constituir uma força militar internacional responsável e efetiva. com decisões–chave a serem tomadas a curto e longo prazos. que não supõe nem um gobernó mundial nem um super–Estado federal. em chave “realista”. os cépticos recusam–se a admitir os argumentos da transformação Página 36 de 51 . submeter à regulação e controle as instituições e operações do mercado capitalista global etc. expandir e desenvolver formas regionais de governança. 1996ª). primazia do poder político na condução da governança global atrelado ao processo democrático de tomada de decisão. 1995ª). esta perspectiva visa ao estabelecimento de uma comunidade democrática cosmopolita. modelados e delimitados pela lei democrática cosmopolita. democratização das relações econômicas globais e das formas de governança etc.

Mais ainda. como idéias e poder vão juntos. Com otimismo cauteloso. por definição. comércio. nada mais seria do que a expressão da vontade hegemônica das potencias ocidentais de remodelar a ordem mundial em conformidade com seus principios políticos. para cuja resolução se requer inevitavelmente uma ação política cooperativa. os realistas questionan a possibilidade e a desejabilidade de uma mayor democratização de governança mundial. Ademais. Várias são as razões invocadas: a tensão irreconciliável entre democracia política e segurança nacional (deliberação pública baseada na oponião versus conduta externa racional e segredo diplomático) não seria resolvida. finalmente. como crítica mayor. Página 37 de 51 . já que a guerra é uma resultante do caráter anárquico do próprio sistema interestatal. e. ambiental. A reposta que os defensores da democracia global oferecem aos cépticos remete aos argumentos já desenvolvidos sobre a magnitude. incertezas e ambigüidades das transformações em curso na política mundial e no próprio Estado–nação (que os realistas defendem de maneira não menos normativa). Estado–Nação e Ciudadanía da ordem internacional de Vestfália e da erosão da democracia liberal territorial. a fragmentação crescente no mundo gerada pela globalização impediria que uma política democrática global encontrasse um fundamento cultural compartilhado. ––. mas também modelam. enfatizam a extensão sem precedentes da “terceira onda” de democratização. o Estado–nação é o único lugar que permite realizar a comunidade política democrática.Globalização. uma ordem mundial mais democrática não implica necesariamente um mundo mais pacífico. direitos humanos. uma certa percepção das potencias com relação ao debate das reformas nas Nações Unidas. com todas as relatividades e ambivalências dos casos. a lição histórica do fracasso das propostas normativas de reformas da ordem internacional no período entre as duas guerras mundias. as condições políticas. as poucas potências que dominam o sistema internacional atual não teriam interesse nem desejo em uma democratização que lhes recortaria o poder. controle de armas. os defensores da democracia global fazem lembrar que as idéias políticos não apenas expressam. a universalização do discurso democrático e da democracia global. Também. sobre a pertinencia dos problemas levantados de representatividade e responsabilidade democrática. uma prática política de transformação. tais como o crescimento de organizações e movimentos sociais orientados pelo projeto de criar uma condição humana mais equitativa. eles reafirmam evidências de mudanças efetivas em um sentido mais democrático. nuclear etc. vinculando política cotidiana com política global de meio ambiente. o desenvolvimento de uma consciência mais aguda de que todas as sociedades do planeta fazem parte de uma comunidade de risco compatilhado –– uma “sociedade de risco global” em materia financiera. 1997). enfim. a presença de componentes democráticos na construção institucional supranacional da União Européia. no contexto de uma democracia global. dada a forte vigencia dos principios e normas geopolíticos e a conseqüente ausência da ética democrática na ordem mundial contemporânea. pacífica e democrática. mas agudizada. exploração e miseria etc. que a democracia é. e que tanto a política mundial quanto a história –– como o colapso imprevisto do socialismo “real” o demonstra –– são bem mais contingentes e mutáveis do que realistas desejam (McGrew.

sua teoria e sua prática. Pois. Os dois estão ligados: a crítica chama a imaginação e a imaginação chama a crítica (Morin e Naïr. O pensamento crítico não é veredito sempre negativo sobre o presente. nenhum jornal revolucionario mencionou nos títulos a palavra “democracia” ou o adjetivo “democrático”. como diz Edgar Morin. Muitas dessas pessoas [. Toda uma industria de conselhos de competitividade.. 107 de 186 países realizavam eleições competitivas e possuíam algum tipo de garantía dos direitos civis e políticos.. quando salientou que cada nação debe ser visualizada “como uma grande corporação competindo no mercado global”. Basta lembrar. A intervalos de poucos meses. mas a oposição “gobernó representativo” versus “soberania do povo”. as palavras do presidente Clinton. A esse respeito. 1993). no período da Revolução. “Pessoas que se crêem abalizadas no asunto aceitam como natural que o problema econômico com que se defronta qualquer nação moderna seja. 2. ‘geoeconomistas’ e teóricos do comércio gerenciado brotou em Washington. um novo best–seller adverte o público norte–americano para as terríveis conseqüências de perder a ‘corrida’ para o século XXI. 1997:4). ademais. Se há uma conclussão geral. sob as condições complexas e contraditórias da globalização contemporânea. ver Whitehead (1996). não é a democracia no sentido antigo o divisor de águas entre moderados e radicais. “patriótico” ou “republicano”. 1997:16). por exemplo. em essência.] temos necessidade ao mesmo tempo de reanimar o pensamento crítico e a imginação política. Paul Krugman faz uma vigorosa crítica à retórica da competitividade nos Estados Unidos e seus efeitos distorsidos e perigrosos na política econômica. Página 38 de 51 . nesse sentido. e só conseguiu se impor definitivamente na linguagem política a partir de 1848 (Rosanvallon. mesmo se ele é hoje improbable. 3. esta não é outra que a reafirmação da necessidade. desejabilidade e factibilidade de democratizar a ordem mundial em face de realidade de poderes transnacionais fora de controle e da dissolucção progresiva da identidade histórica entre democracia e Estado–nação soberano.. o da competição nos mercados mundais –– que os Estados Unidos e o Japão são competidores no mesmo sentido que a Coca–Cola compete com a Pepsi –– e ignoram que qualquer pessoa questionar seriamente essa proposição. em 1993.. em benefício da nostalgia das relações mitológicas do passado. O pensamento crítico comporta necesariamente uma parte autocrítica e conduz aos problemas de fundo. A imaginação tem por tarefa inventar um possível. a imaginação não é a edificação de um modelo de sociedade projetado sobre o futuro. Segundo Lipset (1996:29). ao fim deste artigo. “[. embora utilizasse com freqüência “nacinal”. tanto a direita quanto a esquerda pareceram ignorá–la (no verão de 1791. Mas tudo isso supõe continuar imerso na ardua tarefa de repensar e ressignificar a própria democracia. Sobre as dimensões internacinais dos processos de democratização. Na França.José María Gómez Chega–se. assim. formulando políticas econômicas e comerciais para os Estados Unidos” (Krugman. (Recebido para publicação em dezembro de 1997) Notas 1. e nunca foi pronunciada nos debates entre 1789 e 1791 sobre o direito de sufragio).] ocupam agora os mais altos escalões do gobernó Clinton.

Ver. Embora meu propósito não seja aprofundar o referido debate (ver.). 1992. na linha de interpretação asumida neste artigo. ele só se consolidou no mundo durante a primeira metade do presente século): capitalismo industrial. 1997. e até a própria noção de política) (Held. estendidas à distância e no contexto de “encontros” com outras nações. Estado–Nação e Ciudadanía 4. assim como a profunda revisão de conceitos tradicionais do pensamento político vinculados íntimamente à idéia da democracia moderna e contemporânea (cidadania. as taxas de inflação. política industrial seletiva etc. 1987). especialmente através de certas “externalidades”. Não é por acaso que. o que supõe que a identidade nacional só pode ser construída com relação à consciência das diferenças. na qual se fundem e homogencizam todos os espaços econômicos nacionais. (Boyer. 1993. 7. 1995). fortemente determinadas. Fiori. militarismo. Históricamente. Em um linha de argumentação mais reducionista. a esse respeito. está desmentida pelos dados comparativos mais elementares sobre níveis e estruturas de preços de uma mesma mercadoria entre os países. 10. secularização e disciplinamento do corporamento sexual (Anderson. a diferenção da demanda e a resistência dos modos de vida. territorializada e soberana do Estadonação. 5. Essa distinção entre democracia política como forma de gobernó (que resulta histórica e teóricamente indissociável da figura de poder centralizada. Giddens. entidades sociais e relações sociais não-territorializadas) tem importantes implicações para a análise que será desenvolvida mais adiante (Cox. e ainda permanecem. 9. o núcleo duro da influência provém de centros establecidos de poder político e econômico (Estado e sistema interestatal. que a identidade e solidariedade nacionais foram. pelas relações internacionais. 1996b. Antunes. 1996. Pateman. mas apenas me limitar áqueles autores que contribuem para sustentar o argumentar aquí defendido. A visão dominante de uma globalização plena. um esboço das principias linhas de argumentação). Estado. entre outros fatores. Uma extensa pesquisa de história social tem analizado a diversidade de causas socioestruturais desse fenômeno relativamente recente do nacionalismo (afinal. porém. 8. comunidade política. mais adiente. cabe salientar a riqueza analítica e normativa em e entre as distintas correntes e perspectivas que o animam. investimento público.Globalização. inclusive envolvendo freqüentemente violencia internacional contra os Página 39 de 51 . 1996). forças econômicas e financieras mundiais e corporações nacionais) e de formas dominantes de conhecimento e ideologías. 11. saúde. 6. patriarcado. se multiplicam argumentos neoclásicos que sugerem a necessidade de algum tipo de intervenção estatal para gerar crescimento. no último item. 1991. como se verá na segunda parte) e processos de democratização da vida política e social (que. soberania. 1995. os processos de construção de auto-identidades nacionais foram recíprocos (por isso não é mera coincidência que numerosos projetos nacionais tenham acontecido mais ou menos simultáneamente durante os últimos 150 anos). McGrew. 1995b. Chesnais fala do “oligopolio mundial” formado por um conjunto limitado de governos e algumas centenas de corporações transnacionais concentradas na tríade Estados Unidos-União Européia-Japão. Cabe salientar. também se desenvolvem em uma diversidade de instituções. as políticas orçamentais e fiscais etc. 1995. 1997).. reais ou imaginárias. no estado atual da teoria econômica. Gellner. 1996). Transformações amplamente discutidas no debate sobre a transição do fordismo para o pós– fordismo. 1993). Linklater e MacMillan. dada a notória insuficiência dos mercados concorrenciais (Przeworski. como educação. Linklater. 1996ª. afetando a primeira. 1995ª. Segundo este autor. Cox (1997:53 e ss. tanto no centro quanto na periferia (Harvey.

Ademais. 1996). diante das variadas formas de dominação e exclusão política e social. autonomia asociativa etc. entre o nacional e o estrangeiro. a partir das mais variadas perspectivas. Por último. cabe destacar que a autêntica explosão de estudos sobre diversos tópicos e dimensões da cidadania nos anos 90 se desenvolve. e ainda assim de uma maneira marginal. A idéia republicana na pode estão operar como um refreamento às orientações de valores particularistas.José María Gómez outros. Basta lembrar as clássicas críticas do marxismo às contradições fundamentais entre o capitalismo moderno e a democracia entendida em um sentido substantivo e real. eleições livres e imparciais. 15. classes e movimentos sociais percorreram para alcançar graus de autonomia e controle sobre suas próprias vidas. nas suas últimas obras (1990:1991). ela pode. penetrar e estruturar as formas subpolíticas de vida de acordo com padrões universalistas” (idem:94).Como assinala Dahl. do desenvolvimento dos diferentes direitos de cidadania (embora sua obra continue sendo uma referência obrigatória no debate contemporâneo. Isso não siginifica. e não apenas formal. a aplicação da lógica da iguladade política para o vasto âmbito do Estado–nação gerou uma série de conseqüências fundamentais: gobernó representativo. porém distintos. Nisso reside a discriminação que o princípio de nacionalidade necesariamente opera entre cidadãos de diferentes países. 14. multiplicação de divisões e conflitos. sustenta. 1995. suscitado incesantes e atuais polêmicas) (Turner. as distorções profundas que o capitalismo tardio (com a concentração intensa da propiedade e poder) impõe ao processo democrático. que se cristalizam na figura do Estado–nação. assim como os cursos e trajétorias diferentes dos Estados-nação clássicos do Oeste e do Norte da Europa e os da Europa Central e do Leste. Voltarei a esse ponto mais adiante. heterogeneidade ou diversidade social. nessa fase de consolidação do Estado–nação. Inclusive Robert Dahl. sufragio universal. marcadamente evolucionista– institucional e colado ao caso britânico. que o sistema internacional. 1991). limites à participação política efetiva.) indispensáveis ao funcionamento do processo democrático em grande escala. Daí que. liberdade de expressão. Sobre os processos históricos convergentes. só recentemente. as consederações genéricas acima expostas não ignoram que toda análise da cidadania implica examinar. entre o legítima e legalmente de “dentro” e o de “fora” (Scholte. O que não debe ser entendido no sentido de que a globalização seja a única causa que afeta a democracia política. 12. Por outro lado. 1994). 1994). 13. ao pluralismo social e organizativo e à expansão dos direitos políticos primarios de cidadania à quase totalidade da população adulta (Dahl. E continua esse autor: “Somente a partir de uma representação não naturalista é que a nação poderá ser combinada harmonicamente com o auto-entendimento universalista do Estado constitucional. dentro de quadro do Estado–nação. abrigam-se dimensões internacionais e transnacionais (Beiner. a luta para se tornar membro da comunidade política nacional que ele expresaba tenha sido. sinónimo da tentativa de establecer uma forma de soberanía popular mediante o reconhecimento de direitos civis e políticos. desenvolvimento de instituções “poliárquicas” (funcionários eleitos. destarte. porém. na sua arrasadora mayoría. em grande medida. os distintos caminhos que os diferentes grupos. 16. em condições históricas concretas. em função do “estado de Página 40 de 51 . que se deva aceitar tout court o esquema de interpretação de Marshall. sempre se considerou. Van Steenbergen. ver Habermas (1995:90). clássico representante do pluralismo liberal.

ou seja. Nesse sentido. política. limita e restringe “de fora” a democracia política interna dos Estados. porém. sobre isso. A fragmentação sugere a tendência do “eu” em tornar-se multidimensional e descentrado. social etc. de homogeneização e heterogeneidade. assim como no caráter reativo do ressurgimento do nacionalismo ou do fundamentalismo religioso que essa homogeneização provoca. ao contrário. 21. e Axford. tecnológica. Com relação à desterritorialização. como diz Bull (1977). legal e cultural que moldam e limitam as opções dos Estados individuais em domínios–chave (1995ª). impulsionando o desenvolvimento de comunidades supraterritoriais. de modo que múlplas categorías de identidades posma convergir no mesmo indivíduo –– Página 41 de 51 ..). Ou. 17. afirmaram–se e multiplicaram–se identidades e solidariedades políticas amplamente desconectadas de lugares (baseadas na fé religiosa. David Held identifica uma série de hiatos ou disjuntivas “externas” dos Estados–nação entre. a idéia de autoridade política soberana com capacidade de autodeterminação que reivindica para si. ideológica. enfatizar a configuração de um sistema global não implica afirmar o funcionamento de uma lógica implacable ou a identidade de um sistema único. 1995). ao mesmo tempo. isto não significa nem identificação nem absoluta superação do sistema internacional de Estados (por tanto. mas. Sobre as posições desees e outros autores. que nem sempre são reativas ou entram em colisão com o global (a interconexão é. Abordei essas “disjuntivas” em Gómez (1997). não são termos equivalente “globalização” e “internacionalização”) (Scholte. elas mesmas marcadas por uma considerável diversidade. já foi dito que durante esse mesmo período. 1992. direta e explícita na problemática das cidades ditas “globais”. juventude. mediante os processos de globalização. que o constituem (ef. militar. Isso se vincula à necessidade de uma abordagem do sistema global que analise sua multidimensionalidade (econômica. na identidade de gênero. e. as diferentes e competitivas lógicas de integração e desentegração. de um lado. desde já. Bretherton. suas “disjunções fundamentais”. em causas cosmopolitas). ver Gómez (1997).) e. do tipo sistema mundial proposto por Wallerstein (1979). na solidariedade racial. Estado–Nação e Ciudadanía natureza” imanente ao modelo de ordem mundial de Vestfália. 1992. de hierarquização e desigualdade. o sentido de “estruturação crônica de agentes e ordens institucionais” (Giddens. privilegiando a importância das interações/relações de poder na reprodução e transformação das estruturas em diferentes planos de análise. as últimas três décadas testemunham o renascimento de identidades e solidariedades coletivas em pequena escala –– o chamado “novo localismo” e o regionalismo subnacional ––. impulsionado somete pela necessidade de expansão do capitalismo. cultural etc. é converniente destacar. duas observações com implicações metodológicas importante: 1) quando se afirma a existência de um sistema global. assim como no renascimento de identidades étnicas ligadas a povos indígenas dentro dos Estados nacionais). Embora aborde mais adiante os principias eixos de controversia no âmbito do estudo das relações internacionais sobre a globalização. política. Robertson. 1996). 20. Giddens. 1989). um “neomedievalismo” de soberanias e jurisdições e de identidades e lealdades superpostas. 2) como se deduz do já exposto. 1996. 19. nos intereses e estilo transnacionais de classe. Resulta desnecesario insistir nas evidências observáveis de homogeneização em escala global (econômica. embora não sejam fenômenos novos. orientação sexual. os vetores primordiais de globalização econômica. política. Sobre o localismo.Globalização. de outro. 18.

1995. classe. Só então. essa ação política supranacional (que Habermas obviamente concentra no espaço da União Européia) poderá salvar a herança republicana (Habermas. assim como sua recente projetão sobre as arenas internacionais e global (Sandel. (Kymilcka e Norman. instituições internacionais. 1994). 1995. religião. mostrando assim como cada uma delas incrementa as ambigüidades na constituicação do “eu” e das relações com os “outros” (idem. o colapso da União Soviética. também. nacionalidade. 1997). “Citizenship and National Identity”. a extensão da União Européia. o desmantelamento do apartheid na África do Sul. O que parece ser necessário é o desenvolvimento de capacidade para ação política em um nível acima dos e entre os Estados–nação”. Berten et alii. Bell. que se apresenta de forma tópica (pobreza e exclusão. etnicidade. idade. as lutas étnicas e o renascimento do nacionalismo na Europa do Leste. meio ambiente etc. A segunda razão refere–se aos próprios eventos políticos que aconteceram em distintas partes do mundo e que suscitaram o interese renovado pela problemática da cidadania: o assalto ao Estado de Bem-Estar pelo neoliberalismo. e que está centrado em torno dos conceitos de exigência de justiça e de pertencimento comunitário. 1996). 1996. 1997.). 1996ª. Avineri e De-Shalit. do mesmo autor. onde o que guia os participantes é o compromisso de estarme movidos pela força do melhor argumento. sem por isso endosar um universalismo antagônico às diferenças culturais (Linklater. 1995. a “terceira onda” de democratização. Miller e Walzer. A primeira é de natureza teórica e diz respeito aos desdobramento do debate aberto na filosofia política nas duas últimas décadas. Esse “retorno” ao tema de cidadania. democratização. África e Ásia.). sexualidade. 1996).José María Gómez raça. Rawls. têm desempeñado papéis importantes na elaboração do modelo normativo de democracia cosmopolita. humanidade ––. Cabe sublinhar que a teoria crítica e a ética discursiva sustentadas por Habermas. Segundo Falk. 1990. gênero. minorias étnicas. gênero. democráticamente constituída com relação à árticipação e á responsabilidade)”. 1997b. Miller. Tilly. 24. uma governança de proteção da terra e seus povos. globalização. “o Estado–nação não pode mais fornecer a estrutura apropiada para a manutençar da cidadania democratica no futuro previsible. e que busca estruturar tal compromisso através de um cambio de geogovernança humana (isto é. 1996. “as forças sociais transnacionas fornecem o único vehículo para a promoção de um direito de humanidade (que é superação do direito internacional). as tensões criadas por uma população crescentemente multicultural e multirracial na Europa Occidental. 1992. a disserminação de organizações e movimentos sociais transnacionais vinculados à defesa dos direitos humanos e meio ambiente etc. 1995). Walzer. que busca estender os limites da comunidade política no contexto de emergência de uma ordem pós–Vestfália. Como ilustração da riqueza e dinâmica do debate suscitado pela problemática do pluralismo cultural na teoria da democracia. do Norte e do Sul. 25. 22. transcendendo os limites do Estado–nação e acompañando “o ritmo da globalização das redes e sistemas auto–regulados”. Essa ampliação foi explícita no caso de Habermas: em vista dos impases criados pelos efeitos combinados do pluralismo cultural no seio das sociedades nacionais e dos processos de globalização. familia. ver a excelente coletânea organizada por Benhabid (1996). 1996ª. um foco normativo que é animado pelo desenvolvimento humano sustentable para todos os povos. tem a vez com pelo menos duas razões principias. 23. ao defenderem a criação de comunidades dialógicas em todos os planos da vida social e política. 1996b. 1995:100) (ver. especialmente entre liberais e comunitarias (Kymilcka. Ele Página 42 de 51 . identidade nacional. Habermas.

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