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Mia Couto

Contos do nascer da Terra

1998
terceiro volume

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mia couto
contos do nascer da terra
caminho
uma terra sem amos
Autor: Mia Couto
Design gráfico: José Serrão
Ilustração da capa: Ivone Ralha
Revisão: Secção de Revisão da Editorial Caminho
Editorial Caminho, c SA, Lisboa - 1997
Tiragem: 10.000 exemplares
Composição: Secção de Composição da Editorial Caminho
Impressão e acabamento:
Tipografia Lousanense, L.da
Data de impressão: Maio de 1997
Depósito legal n.o 110.854/97
ISBN 972-21-1129-9

Os negros olhos de Vivalma
Há mulheres que procuram um homem que lhes abra o mundo.
Outras buscam um que as tire do mundo. A maior parte, porém,
acaba se unindo a alguém que lhes tira o mundo.
Este foi o destino de Vivalma, mulher entre as mulheres, cheia
de desgraça, nem o Senhor punha oração nela. Mulher gorda, exibia
os seios em cacho, carnes de muito volume e herança. Tanta
redondeza, aliás, suprimia a curva. Viva] na era esposa do latoeiro
Xidakwa, homem zangadiço e com nervo florindo na pele.
A volumosa senhora saía de manhã para o serviço de sentar no
bazar, em banca rente ao chão. Eram tão poucas e abreviadas as
coisas que vendia que ela nunca fazia as contas. A vida é um por
enquanto no que há-de vir. Vivalma se deixava no assento, mais
vagarosa que orvalho. Até a mão dela poupava esforços, num mesmo
gesto de ida e volta: para lá, enxotava mosca; para cá, chamava
cliente. Seus braços eram tão curtos que nem era capaz de arregaçar
as mangas.
Pois Vivalma se dava a conhecer pelo modo como zarolhava,
olho deitado abaixo. Razão de que o marido lhe batia, por dádiva
daquela palha. Nem carecia de motivo: o murro era a língua dele,
vingança de lhe fugirem desejos de sua vista. Todos se admiravam:
Xidakwa até que parecia tranquilinho, sonholento, incapaz de
violência. Mas os hematombos no rosto da mulher, o sangue pisado
lhe

enchendo

a

quotidiana

pálpebra

dela,

eram

provas

indesmentíveis. Todos punham a devida pena na vendecora. Tão
batidinha, coitada. E ainda por cima, sempre no mesmo olho. As
colegas lhe sugeriam:
- “Você podia pedir a ele para variar-se: cada vez num lado, cada
vez no outro”.

minhas amigas”.“Mas você Vivalma. Os tais . E era sem lamento que ela regressava a casa. lhe deixe de vez. Ela sabia: mais se engorda. Em silêncio. um confim. Ela não tinha querer nem ser. Ele lhe queria à razão de pontapés? Que fosse. aquilo era de mais! E se conluiaram para desafiar o marido violento. Outros já lhe tinham chamado as atenções. Até que. tardes a fio. não tem lamento. amanteado com outra. Xidakwa. No pátio se acumulavam pétalas brancas.“Deus me reze.Ela sorria. Vivalminha. Xidakwa. perdida lá nas curvas das entranhas. nem viva nem alma?” Quem fala consente? E a mulher gorda suspirava: . umas delas lá foram a casa de Xidakwa. O mundo dele era de outra razão. Mas o latoeiro varria os reparos. Sem que Vivalma suspeitasse. Vivalma amealhava suas razões. Perto de casa colhia uma flor mas. o olho negro de Vivalma se apresentou piorado. um dia. Com o volume a dor vai ficando mais e mais distante. As vendeiras transbordaram-se. Não que houvesse segredo: para ela. esgazelado. enganava era nas aparências. esse homem não vale uma vida. Ele era um mosca-viva. explicando: . A gordura era sua única resposta. Nem ela nem ele teriam tempo para uma outra ocasião. As vizinhas diziam e comprovavam. sempre última das vendedoras. Ela é que sabia. há tempo que se fora. menos se sofre. parecia isenta de pensamento. a deitava no chão. em feio e ampliado derrame. Enquanto pisavam aquele mar de flores desfeitas souberam o espantável: que o dito marido. Você é como o nariz: toda a vida no meio.“Ora. aquela era a ordem do mundo. seu marido.“A vida é dura de mais para aceitar carícia: cabedal se cose é com dedal”. As colegas do bazar insistiam: . ao entrar no portão. secreto e perfumado lençol da noiva que nunca houve. E quem não tem vontade. Não. tratando-lhe a berro e fogo. estavam-se cumprindo destinos. As vendedeiras lhe puxavam o brio: . sem nunca fazer escolha”. Demorava os vinte e quatro ponteiros no caminho.

O homem. contraverteu caminho e foi agasalhar outra felicidade. a encher as mãos de petalazitas brancas. nessa manhã. Vivalma teatrava. mais nascida que a gorda vendedeira. depois. uns fiapos de satisfeição. Ingrata é a morte que não agradece a ninguém. Manhãzinha seguinte. imenso mar. Se assim era. desconcertado. batendo em sua original esposa. Os vizinhos se surpreenderam. por astúcia do acaso. Sucedeu. que sob o véu de seus enegrecidos olhos havia.derrames que Vivalma exibia no rosto eram por ela mesma fabricados. tudo inventa outra forma. sabe do valor dessas minusculinhas naturezas em seus dedos decepadas. As vendedores regressaram ao bazar. canteirando pelo jardim. A chuva caía tristonha como um luto. Dizem. cada gota uma mulher em Outono. viram Vivalma sair de casa. como diz nenhuma canção. sob uma bategazinha de Verão. para que ninguém suspeitasse de seu abandono? Pois as amigas se compustararam em igual disfarce. a ouvir os gritos dele. voltou a casa para afinar contas com Vivalma. o seguinte percalço: a nova mulher de Xidakwa ouviu dizer que Vivalma continuava a revalidar suas equimoças. a matinal vendedeira. Na Natureza ninguém se perde. chuviuvinha. desapercebidas como lágrimas em seu rosto molhado? Só ela. quem mais poderia ser o batedor senão o dito latoeiro? E a moça. sem infligência de mais ninguém. Se admirou de ver o pátio varrido. ser sabida? Se. a água corre com saudade do que nunca teve: o total. alguma vez. finalmente. . olho da cor do chão. caladas. Poderá ela. Haveria quê nessas flores: alegria de quem se ilude vencer? Ou eram pequenitas raivas. limpo das habituais florinhas.

concluía. foi-me emprestada por Deus. pá. Passava o lustro com um pano amarrado no próprio cotovelo. incluindo o lustro. Verdade era que o negócio de Zuzé corria em bom caudal. Além disso. Armantinha sonhava para saltar frustração. Cada cuspidela contava na conta. Maneira como ele procedia era seguinte: o cliente tirava o sapato e colocava o pé empeugado do cliente sobre uma fogueirita. bem por baixo da grande pahama se erguia sua banca. um produto industrioso desses. . Logo na entrada do mercado. Eu sou um gajo com bons contactos lá em cima”. O que ele fazia? Alugava bisga. fosse da conversa que ele lustrava. motivo de esfregar com o cotovelo: . isto é uma saliva bastantíssima especial.“É melhor que graxa. Os clientes não se faziam enrugados.“Dessa maneira a minha saliva me volta no corpo. É que Deus conhece-me bem. Zuzé Bisgate pegava no sapato e cuspia umas tantas vezes sobre ele. o preço dele era mais favorável. Sonhava e resonhava. “Prefiro beijar uma bota velha”. Às vezes até abichavam frente à banca dele. Lhe . vendia o cuspo dele. se lamentava. A saliva de Zuzé tinha propriedades de lustrar sapatos. Quando a manhã já estava em cima. Um dia. enquanto graxa nem há”. qualquer dia. digamos foi um pequeno projecto de apoio ao sector informal. Zuzé Bisgate assentava os negócios. “Ou lamber uma caixa de graxa”. O pé ficava ali apanhando uns fumos para purificar dos insectos infecciosos.Gaiola de moscas Zuzé Bisgate. Não. Cada cuspidela saía a trezentos. Fosse da saliva. É que este não é um cuspe qualquer. Quem não se dava bem com os cuspes era sua mulher Armantinha. Razão do pano. haveria de beijar e ser beijada. “Não se pode beijar aquela boca engraxadora dele”.

reclamou que a saliva dele lhe fez murchar os atacadores. minha boca cheira a coisa falecida. O homem respondeu em variações. Dentro voam moscas. dizia. diz o Bisgate. Mais e mais ele desleixava a caixa de cuspos e lustros.“São os nossos últimos acompanhantes”. Ali. Tudo servia de líquido. Alma. A pessoa passa por ali. daqui. Matéria viva e mais que viva . de seu pai. desembrulha um volume retirado das entranhas de sua banca: uma gaiola forrada a rede fina. E depois. água fazendo crescer outra água na boca. Como a ostra ela morria em segredo. cada um deve tratar as moscas que. Armantinha estava sonhando longe de mais.apetecia um beijo. Acontece que Zuzé Bisgate se foi metendo nos copos. as mais coloridas que engalanarão o funeral: . Zuzé destilava até pedra. garrafas. quem se importa. homem sempre calado. Lhe apetecia como um cacto sonha a nuvem. constata a banca com sua nova aparência.vital para o mortal cidadão. pareciam agora cobras sem esqueleto vertebral. nos visitarão o túmulo. a máxima: a alma é o segredo de um negócio. Sempre com desvelo de burocrata. “Beijo é coisa de branco. arregaça as calças. . se debruça sobre o vendedor e escolhem as voadoras bastas. Se decidiu então a mudar de ramo. E Zuzé mais seu novo posto.. E temendo pelos sapatos os demais se evitavam de frequentar a tenda banhada pela grande pahama. Seu labor é um quase nada. Pois. garrafões. com cuidado para não as desvincar. E assim ele imaginou um outro negócio. Avisaram o marido. na fachada.. Recordou. De toda a substância se pode espremer um alcoolzinho. aquilo é bom é para de entupir as pias. Até que os clientes reclamaram: a saliva de Zuzé está ganhando ácidos. Pois é o que ele vende: moscardos. depois de mortos. como a pérola seu sonho se fabricava nos recônditos. Pouco a pouco Zuzé perdeu toda a clientela e o negócio das salivas fechou. sabemos bem: é do podre que a terra se alimenta”. Quem se aflije com matéria morta? Só os da cidade. Nós. era isso que se necessitava. E agora quem o vê. Até Chico Médio. nos actuais dias. coisa para inglês não ver.

logo nessa manhã.“Faça as contas.“Esta há-de ficar mesmo bem na sua cerimónia”.Ainda hoje vendi uma manada de moscas a esse tipo novo que chegou à aldeia. explica. chama-se “Pinta-Boca”.“O homem se chama Pinta-Boca? . da cidade”. Uma banca que até mete as graças. ganha coragem e encomenda uma coloradela.“Qual o homem! A banca se chama”.“Que contas? Que contas se pode fazer sem números? . Ele se declina: . O marido se apronta é para grandes descansaços. mulher.“Sou Julbernardo.“Esse gajo que montou banca lá nas traseiras do bazar. Banca Pinta-Boca. Armantinha se inflama logo de sonho.“Qual que chegou? . ela ronda a nova tenda. Ela retirou as notas encarquilhadas do soutien. vermelhudas das beiças. se apresenta ao novo vendedor. Moda as brancas. As mulheres se chegam e estendem os lábios. Na prateleira ele tem uma meia dúzia de bâtons com outras tantas cores. a banca da Dona Cantarinha. Sua boca pedia pintura como a cabeça lhe requeria sonho. . . . venho de lá. Armantinha. . Uma pintadela 250 meticais. Julbernardo pede que escolham a coloração.“Aqui. . Já a boca dela se liquidesfaz. . já devidamente apresentada. O nome faz jus. Armantinha cada vez mais se distancia daquela loucura. Ele convida o hesitante cliente a ir à banca ao lado.. . se paga em adiantado”.Sim. . Para lavar as moscas.“Lavar as moscas? . E. homem.“Ai nosso Senhor Jesus Cristão! Você. Vasculhou as largas mamas à procura dos papéis.“Está aqui seu dinheiro. é lavagem a seco”. você vende alguma coisa? . Tinha seios tão grandes que nem conseguia cruzar os braços.

“Estou fracassada com você. Nesse devaneio o bâton se convertia em corpo e já Julbernardo se inclinava todo sobre ela e os lábios dele pousavam sobre a boca dela.. Vá. pinte o de cima. Por causa que é maior. E murro e grito. o seu marido se engalfinhava com Julbernardo. de repente. Depois. O bâton acariciava o lábio e tornava seu corpo misteriosamente leve. amanhã venho pintar o de baixo. Mundo e sonho se misturavam. os gritos da multidão ecoavam na gruta que era sua boca e. A gente seguia caladinha. Sonhava Armantinha e o sonho dela se apoderava. Aquilo era obra para ser vista. Fechou os olhos.“Se for o de cima. Julbernardo pegou no bâton com habilidade de artista. Julbernardo com o avental ensopado de vermelho dá dois passos e cai redondo. se separam os dois corpos. ordenava à cliente que sentasse no tronco cortado do canhoeiro. Estão ambos ensanguentados. aquilo era cena à prova de fala. Agora é 250 um lábio. a voz raivosa de Zuzé também lhe esvoaça na cabeça. aponta a mulher: . De repente. O pintador limpou as mãos no avental. Zuzé.“Vê? Vê as moscas que vendi a esse cabrão?” . E eis que Armantinha abre os olhos e ali. Julbernardo. Julbernardo metia um avental. eu vou pintar”. . Os dois se misturam e uma faca rebrilha na mão de Zuzé. Sentada no improvisado banco Armantinha deu largas ao sonho. . Sentada. compenentrada em si. Se debruçou sobre a tela viva e fez rodar o bâton no ar antes de riscar a carne da cliente. . uma multidão de moscas se avizinha. num sacão. Armantinha obedecia ao ritual. Essa tabuleta do preço era na semana passada. o de baixo custa mais caro. Metade do povoado vinha assistir às pinturas.“Um lábio? . trocando húmidas ternuras. já um deles se apresenta de desbotar vermelhos.“Não chega nem basta. bem à sua frente. vitorioso.“Está certo. Num instante. ergueu o rosto. como se naquele toque se anulasse todo o peso dela. com a gentalha rodopiando em volta.

Então. vira e revira. . Com mão corrige a mancha vermelha com que o bâton esmagado enchera o seu branco avental.Mas as moscas. Alarmado. Em vão: já a moscardaria lhe pousa. Zuzé Bisgate desce dos seus próprios joelhos e se derrama em pleno chão. Julbernardo desperta e se ergue. circundam a cabeça de Zuzé. ele enxota-as. O sangue se vê brotar de seu peito. ante o espanto geral. em lugar de escolherem o tombado Julbernardo.

“Não entro em coisa que serve para levar morto”. o quê nem sei. um homem atravessou a calçada. desarranjado. me meteu pena: suas vestes eram a sujidade. Voltei a acudir. Se entrecruzou com sua sombra. parece ela está moribundando”. desavultado vulto avulso. Uma garrafa o empunhava. Saltou pelos ares. Os olhos estavam parados. se embateu frentalmente na viatura.“Um de nós está morrendo”. Apalpou o lugar onde se deitava. De inesperado. Em muito zig e pouco zag ele acabou por se devolver ao chão. E ele. . Entreolhei-me a mim e ao restante mundo. onde se iniciava o passeio. Lhe disse que o levaria dali para um sítio que fosse dele. cheio dessa culpa que não cabe na razão.“Estou falando da terra. Me pareciam pedir. O maltrapalhado estava a salvo. Todavia. sem estrutura. assustado de haver escuro e luz. Apanhei o vulto. Ajudeilhe a entrar no meu carro.O homem da rua Ainda o dia andava à procura do céu. sempre agarrado ao arregalado gargalo. o vagabundo se ergueu e apressou umas passadas para encalçar o longe. na grade do rosto. através dessa desvastidão onde o negro escurece a preto. De repente. e disse: . se aplacando lá mais adiante. Ele recusou com terminância: . Havia quase nenhuma roupa em seu sarro. Amparei o desandrajoso. salvo erro. Ele se precisou: . Saí do susto para inspeccionar sua sobrevivência. Me deitou olhos muito espantados e pediu desculpa por incómodos. Não havia sangue nem quebradura de osso. todo súbito e poentio. Se sustentou em meu ombro e me foi levando pelo passeio sombrio. seu rolado enrodilhado. Mesmo o corpo era o que menos lhe pesava. Pareceu tontolinho. Me debrucei sobre o restante dele. vinha eu em vagaroso carro que mais a mim me conduzia.

sempre ninhado no escuro.“Agora o senhor me entorne aqui. Era recusa verdadeira. Depois. espesso. mais tarde. Em mim. adormecimento. Ri-se? Nem sabe como é bom haver um chão para a gente ter onde cair”. a costela quebrada do próprio universo. . Quem sabe o homem desjejuava palavra? E dizia sem aparência nenhuma: . sim. Sem veemência. com suas infinitas cascatas. a primeira saudade é da luz. Meu território era o dia.“Posso pedir uma qualquer coisa? . . sem nenhum ênfase. o sono. Avancei despedida não sem retirar do bolso algumas notas que estendi em direcção ao desastrado: . emagrecera assim a olhos não-vistos? O homem é bicho diurno.“Bem hajam as folhas. com sua luminesciência tanta que serve mais é para deixarmos de ver. encosto.. lá em baixo. as dores do acidente?” Para meu espanto ele recusou. nos fica a engordar a alma. O dia é bicho humano? Me foi descendo. pelo menos. Quem sabe lhe virão. Nos invade logo quando nascemos.“Deixo o senhor com algum dinheiro... O país daquele homem seria a noite.“Aqui. então: me falta a minha luz natal? Quem sabe a alma deste homem. Quero acordar com dormência de lua”. a lembrar que o homem sofre de incurável medo de ser noite.“Até foi bom me aleijar um bocado. Ficámos a ver as luzinhas da cidade.“Peça. . todo simetrado com o planeta. Dali ele passou a esbanjar conversa.“Aqui?” Esfregando-se no pescoço como se as mãos fossem de outrem. E pensei: o primeiro alimento é a luz. um subterrâneo rio falava com suas veias. minha cama!” E explicava-se enquanto alisava as folhagens mortas: quando se deitava lhe doía a curva da terra. a luminosidade. Assim deitadinho. E nos trocamos nessa conversa com vontade de ser corpo. acrescentou: . Direi. .

Antes ainda tinha quem me dispensasse migalha de conversa. agora. Só isso: acompanhia”.. me bater e. _nem imagina como senhor me faz bem. mão sobre o joelho. Mas. Agora já nem sinto dor nem dentro nem fora”. sabe. é me deixar atropelar. O atropelado centrou esforço em se erguer. . Indemnização que peço é só esta: companhia de uma noite”. estivesse envergonhado. Regressei ao carro. Nem gesto nem palavra me defendiam.“Me dê um pouco mais da sua acompanhia. Já de pé me segurou o cotovelo: . vá na sua vida”. em serena sentença: . . perdido entre garganta e coração. Ser embatido num resvalo de quase nada. Anda fiz menção de ficar. depois. E me dá um medo de me sozinhar por esses aís”. me falar. inominável. Arranquei-me dali. prosseguiu: . mas o senhor me prometa que não zanga.. simplesmente: homem da rua. Fiquei quieto sem me achar conveniência. já nem. Mas o andrajoso levantou o braço. Lembrando este tempo em que deixou de haver a rua do homem. meu amigo. . É.“É que. cabismudo..“Pode ir. Me lembrei então que nem o nome dele eu anotara.“Sabe o que faço? Vou dizer. Olhei no espelho para retrover o vagabundo. eu devia baixar orelha para o entender. Seu nome ficará assim. de cabeça baixa. inesperando aquele pedido. à vontade. agora. devagar.“Vá. insistiu: . Quase que falava para dentro.. eu não tenho ninguém.“O que eu faço. Ainda hesitei. Assim. Lhe chamo agora: o homem da rua. E assim. O homem nem me fitava.“Prometo..

Seu único amor: a pátria. nem um despenhar de alma. O tempo ia tricotando semanas e o militarão continuava impávido. Por obrigação lhe nasceu o filho.“Então.“Quero que lhe ponha nome de santo”. capaz de frigorificar o mais pequeno sentimento. Haja disciplinas. um terço da vida no terço.O general infanciado O General Orolando Resoluto era um homem congélido. Rosanita sabia que os homens se comportam. neste mundo. A mulher Rosanita sorriu: estaria 0 marido apenas invisivelmente comovido? A esposa havia sido formada em credo e cruz. senão essa interjeição seca. A mulher muito se sofria com aquele alheamento. A farda era imaculável. ajeitou a colcha no berço como se corrigisse a linha de um desenho. A família ele a vivia com espírito de dever. No dia do registo Rosanita impôs obrigamentos de credo: .“Hum!” E mais nada. A machice é arrogância dos que têm medo. Só as mulheres são indígenas da vida. impassível. Simplesmente. só aquele gélido olhar de quem passa revista às tropas. mais inspector que parente: . ele recusou dar colo ao estreado filho. Já em casa. o general não despenteou nervo. encargo biológico. Desses que lambem a carta para colar o selo. contrato social. Rectilíneo. inodoável. sua primeira e única descendência. a esposa ainda negociou com ele um riso: . . como estrangeiros. espreitou o berço. Sua exclusiva paixão: a guerra. Paciente. senhor pai?” Rosanita arredondava os cantos às palavras mas Orolando Resoluto não desenrijeceu. Mal saída da catequese ela catecasou-se. sem sequer se chegar ao menino. Nem um carinho. O menino veio à luz e o general Resoluto. Nada. mais excluídos que emigrantes.

o general rompia o abraço. Cristovinho em tudo inventava brinquedo. Até que o miúdo cresceu a ponto de aniversários. as medalhas se soltam e tombam com tilintes e requintes. Certa tarde. Nordicamente. o balão lhe escapa e sobe. Perdido no jardinzal da frente. no encalço da procura. Sochangane. instantâneo. avisando-o da tragédia. Depois. Começava o serviço da infância. misteriosa brisa o faz soltar e ressubir em livres . Resgatar o miúdo era missão de honra. A mãe chamou o marido em aflição. me favoreça um nome de santo para lhe darmos garantias”. o que se impunha era nome guerreiro. Com raiva. deflagrando risos. Muzila. matreiro. fugido da mão da tia. Mas quanto mais afastava o filho mais ele se chegava. Orolando encontra o menino junto dos falecidos balouços. O general em fúria dá voz de comando ao balão. Aquela alegria não tinha companhia do pai. Orolando. vigoroso. voz e riso solares. . Ao menos o santificado nome do miúdo operasse em Orolando um desatendido milagre. o menino desapareceu. Cristovinho persegue um balão vagabundo. A mãe sempre rezando para que o marido se detivesse um simples instante de ternura. regulamento de família. O menino despercebe: acredita que o soturno pai. intende encher o balão de imediatos furos. Me deixe carinhar esse menino. se decidiu a brincadeiras.“Quero nome de santo. E junta-se aos saltos do pai. Ele só está dar riso ao metal”. E sentenciou heróicas nomeações: Gungunhana. Depois de muito voltear. O general se incomodava e urgia a mulher de pôr cobro às excendentárias alegrias. o militar salta. não fosse a criança amolecer logo de apelido. E quando já crê ter o brinquedo domado. O general fez subir nos ombros as divisas. Rodopiou no ar. O pai. o menino laçava os bracinhos no paterno pescoço. Na falta de guerra há que inventar outros belicismos. Notificado de ternura: Cristovinho. Volta e não-volta. Em vão.Orolando protestou: havia mandos da tradição. pegava as solenes medalhas e as pendurava em desrespeitosos lugares. Cristóvão ficou. O pai se libertava da farda e ele. O menino cresceu e foi enchendo a casa de contentações.“Deixe. E saiu. finalmente. .

“Verdade. fracção de paraíso. compra-lhe doces. ao leito. Cristovinho se aconchega no colo dele e assim se deixa até chegar a casa. as mãos se recolhendo uma na outra como pássaros cegos. Ao pouco e pouco ele se inseparava do menino. Eu quero só ficar com Cristovinho”. A mulher contenta-se.“Está escrito que eu não vou. As botas. A carreira de militar está agora descarreirando. o balão subita-se. Resoluto estende um bilhete à mulher e lhe pede que faça entrega dessa mensagem no quartel. E assim toda a semana: Orolando Resoluto escapa do quartel e entra em casa. ele pega a mão do menino e vai passear com ele. As medalhas servem de imaginários veículos. sem cumprimentar esposa nem parar no televisor. escutar suas brincriações. Rosanita sonha que esse momento é a terna eternidade. agora são divertimento. Com o susto. mando? . E dá graças aos céus pela visão. Fim da tarde. se aflige e recolhe o menino nos braços. Vê o general sentar no leito do menino e debruçar cuidados. Certa manhã. . deflagrado. mimos.“Não. Vem ver o filho. O sangue ingénuo e inocente enche os lenços do pai. o menino cai e fere o rosto numa pedra. No segundo tiro. num momento. Um dia. O general vai amolecendo a ponto de esquecer as invioláveis obrigações. estou doente. crendo em milagre. outrora intocáveis. agora. o general é que levanta para espreitar o sossego do menino. O pai abre alas e conduz a criança. A mãe segue atrás.cambalhotações. Mesmo que Orolando. Essa manhã faltou ao serviço. carregados de pedrinhas e poeiras. ele chega mais cedo do serviço e acorre ao quarto para olhar o filho. Nessa noite. já adormecido. apenas lhe preste desatenções. Não é só ela a alheada. atarantonta. Até que o general em fúria saca da pistola e dispara. Outras manhãs. urgente. se distanciando das militares . . O militar. quase paternos. No portão. entrou no quartel ainda envergando a máscara com que brincava. idem. a mãe espera. O primeiro tiro desconsegue. distraído. Dia seguinte. dormida.

Se transferiu de vez para o quarto do menino. noite alta. fatal filho.obrigações. pai e filho. . engomadas memórias. Até que. Dormem juntos. O ex-general adormece fetal. se demitiu. meninado. Orolando Resoluto só fica em casa. A mulher entra no quarto. definitivamente. prescindindo de carreira. abraçados em bonecos. Tal pai. e aconchega o sono de seus dois meninos. Agora. acumuladas honras.

uma certa manhã anunciou: . Me chamava assim: Mio Conto. Uma amizade funda lhe fazia inventar aqueles todos nomes. Há tanto eu carecia de certidão de inabilitações. Sua oficina foi instalada numa clareira da floresta. O que ele queria era ver chegar a Paz. fazendo calar a piadeira da passarada. Manhã à noite. Cabelo branco mas por indevida idade. Na manhã seguinte. Um só não serviria. Rungo já não se abastecia de ilusão: tudo é areia sem castelo. Se escutavam os martelos. meu completo amigo. Afinal. Não sendo engenheiro marinho. Uma vez mais me inquiririu: . Porque ele era um fugido da guerra. aquilo era simples inclinação do peito. onde iria ele buscar qualificação? Rungo virou costas entoando sua única canção. Nisso se duvidava. Miraconcho. Eu ria: há tanto que precisava aquela falha de identidade.Rungo Alberto ao dispor da fantasia Conto uma verdade de Rungo Alberto. Qual deles o verdadeiro? Pois. a única maneira de a guerra terminar é ela nunca ter começado. Rungo Alberto era uma pessoa muito instantânea mas aquele caroço me parecia maior que a garganta. Me desapelidava? Não. em competição com a madrugada. Rungos. nem tendo artes de carpintaria.“Não conhece esta canção? É um hino quase nacional”. meu suposto Rungo Alberto. em lugar onde terra e água se fronteiriçam. Ele nasceu junto do mar. Dizia: “minha águanatal”. Rungo Alberto instrumentava nos enormes troncos. perdido em escura noite na ilha da Inhaca. tantos ele era. Magro: descurava um esterno muito externo. Mas eu naquele amigo punha também as muitas visões. o homem deitou mãos à manobra. Lá tinha suas razões. perto da Estação de Biologia. Mira Cuito. Convertera-se em mercenário . Para ali ele passou a se deslocar muito diariamente.“Vou construir um barco!” Duvidei.

“Agora. Assim se protegia de invejas e feitiços.“E agora que vai fazer com ele? . Ele engenhava o barco como o mar fabrica os corais. Quatro horas depois o barco entrava nas ondas do Índico. autêntico. ele me conduziu pelos atalhos secretos que desaguavam em sua oficina: . No baptismo a criança é que abençoa o mundo? Os estudantes voltaram às camaratas. petrificando o rendilhado de suas espumas. Me espantei. A construção não podia ser olhável.“Você se arregale.“Os estudantes? . me afrontava. . despejou as primeiras gotas sobre o barco. os seus alunos podem tchovar o barco. me respondeu sorrindo. Não encolhi uma dúvida: . Apontava uma enorme embarcação. Peço: fale com eles”. outras sobre o mar. se viam intermináveis troncos transitando de madeira para tábua. ascendia a copa da floresta. Eu queria espreitar.“Sim. ele recusava.marceneiro? Na oficina do improvisado construtor de navios. Rungo Alberto. lindo de pintado: azul. porventuroso e circunsperto. da proa à ré. algazarrentos. vaidoso. “Os estudantes”. caro Rungo. Os ilhéus passavam por ali. Na praia fiquei eu e ele contemplando o barco no embalo de seu destino. Rungo me alvoroçou a janela. Aquilo era um barco. O mastro. o barco parecia se afeiçoar melhor ao bate-onda. Podia um semi-urbano se aventurar a embarcadeiro? Uma madrugada. . gozavam com a proclamação de Rungo.“Com o barco?” . Coração aos tropeços. castanho. mano”. branco. Abençoado. Não houve estudante que se furtasse. Rungo abriu vinho português. Só depois a garrafa circulou por todos. Superava a dezena de metros. eu lhe pergunto: como vai levar o barco até ao mar?” Tudo ele tinha antepensado. Todos juntaram braços e alegrias.

eu me sento junto ao mar. mulher. nessa tarde. ali se vivia muito oralmente. Aquilo era maldição.. Fizera o barco. Rungo perdera a noção. ela foi ao feiticeiro. um deserto me engole a alma. serviço encomendado dos aléns. A tristeza é uma janela que se abre nas traseiras do mundo. foi no encalço da sua criação. Depois. E. A viagem era outro assunto. acredita que eu me consagro a saudades. meu velho amigo. “Minha viagem foi esta. Ainda hoje. Rungo. Dias depois.“Não é no deserto que ganhamos miragem?” Durante dias ele sentou na praia contemplando o barco. Esse homem é casburro”. o mar não nos deixa ver o tempo. Através dela eu vislumbro Rungo Alberto. de regresso à ilha. provara. Ela sabia.Não sabia. Quem me encara. E ela me pediu em choro: eu que acudisse à réstia do senso dele. . E ela se calou. Rungo não dava atendimento. Parecia ancorado à sua própria vitória.. desnavegou pela escuridão. Estrangeiro é o lugar onde não se espera ninguém. . Insonhável.“Eu. nem queria ideia. eu termino aqui”. seu barco vogando na outra margem? Com suas águas sempre moventes. O depois não se esperou. divaguava? A mulher zangava-se: em casa. Nessa mesma noite rebentou uma tempestade de escangalhar o oceano. O barquinho se soltou do mundo. Quem sabe da estória de Rungo. dizem. Mas. espreitando o poente. então qual o beneficio da obra? . não tenho voto na madeira. o país via chegar a Paz. Rungo era tão bom que ninguém aguentava ser inimigo dele.

Essa é maneira de conversarem com os vivos. Olhou-se no corpo. Os pés. Jaimão. . Juro.“Qual dia é hoje? .“Sonhei que você tinha saído com outro. Demorei foi a chegar à tona do mundo”. . Mas logo ele pousou o olhar no chão. Então porquê a ausência dos sapatos? Elvira explicou: tiraram enquanto ele dormia. É que quase não lembro deles”. Como se estivesse submerso num tanque de água e as palavras dela fossem caindo. Jaimão não percebeu o motivo da fala de Elvira.“Com outro?” . . Jaimão se ergueu no leito. de fio em novelo. Elvira se postou perante o recém-regressado. Desta vez. em cacos de memória. de pé. Deitou-se foi num dia.“Não deitei calçado. Foi ideia do vizinho Raimundo: ele sabia que os mortos falam com os dedos dos pés. “Sim. .“Deitou. horizontal.“O dia não interessa”. . Elvira. quinze dias de tempo. o vizinho disse assim. mais fundo que os subterrâneos. você acordou”. “o que importa é que você acordou”. Se recordava. sentou-se com custosos gemidos. longe. parado de doença falecível”.“Deixa ver seus olhos. Tirámos seus sapatos quando já pensávamos que não acordava mais.O despertar de Jaimão Ouviu a voz da mulher gotejando. Jaimão. Até já pensávamos você tinha chegado ao fim. Você. me habituei a descer lá nas funduras. Elvira. . “Mineiro que fui. tantos anos. sim”. é o pai mais novo dos meus filhos.“Graças a Deus. todos despidos. respondeu Elvira. mando. você dormiu quinze dias. mulher? . escaveime fundo de mais. lágrimas da lua. Jaimão passeou saudades pelo rosto da mulher.

“Não quero ouvir mais essa história. O sacana só está fingir do sono. não é bem que chamara. O gajo é mestre da preguiça.O despertado tossiu.“Ninguém.“Mas então o satanhoco do Raimundo não veio me ver. mais nada. mulher: todo esse tempo você não chamou ajuda de ninguém? . Elvira.“Sim. O Raimundo se debruçou todo para assistir ao seu dedilhar. filho de uma quinhenta. Dona Elvira.“Você fala coisa que nem sabe. Lhe despromovo. . Mas me diga uma coisa. homens.“Foi nesse momento que você. devia era aproveitar o seu adormecimento. Que eu era bonita de mais valer. . mulher. sim? Raimundo disse isso? Vai ver. Isto é. Ele desviou-se da intenção dela. “Que eu. . Eu desautentico esse seu marido. lhe conheço desde-desde. saltaram-lhe sangues de dentro. Você movimentava e ele lia seus dedos. Mas ela insistiu: .“Homem não deve mexer em sangue.“Conversa redonda. “Deixa que eu limpo”. quero saber bem desse Raimiudinho”. . Agora mesmo”. rindo. mulher. ela chamara Raimundo. Só a mulher. marido. traidor. Apenas mostrou ponta de chamamento. sossegou a mulher.“A mulher é que pega no sangue e faz nascer uma outra vida.“Lhe aproveitou. No início ele recusou vir.“Mas. Raimundo até que falou. - “Ai. marido. . .“Doente? Isso é manha dele. o sangue anda junto com a morte. Chama-me esse sacana. não gosto de falar fora assuntos de dentro. “Conta mais. . Não foi que ele me aproveitou? . como? . começou a mexer os dedos dos pés.“O sacana? Raimundo me apelidou mesmo assim?” Jaimão não cabia em si. nesse meu estado?” Sim. nem imagina o seu amigo quem é. . ele me fez adiantamentos. assim”: . .“Em vocês. lhe desconto no retroactivo. marido. Tentou esconder o vermelho nos lençóis. o vizinho. .“E porquê? .

Diga.“Falei o quê.“Pensava que você já não acordava mais. “Respeito.“Mentira.“Disse para eu tomar conta das suas heranças. O recém-dormido fala: . estamos de homem para homem. Na soleira da porta trocam palavras. a razão da catana”. não é?” Enquanto perguntava ia raspando a barriga da faca na pedra do chão.“Sabe qual é o castigo? Sabe. falou com os dedos dos pés”.“Então Raimiúdo. caro vizinho. milimétrico. Raimundo.“Você já lhe disse. mãos cruzadas no ventre. O vizinho não demora a chegar. .“Que ele vai morrer. O grande Jaimão espumava as raivas.. em sua mão se acendeu um brilho de faca. “Trabalhei anos. Segredam-se: .“Falou. sinceramente. incluindo ela.“Fiz o quê. não se gasta palavra. E agora me fazes assim de mim.. . o despertado grita: “que fazem vocês aí. festeja-lhe a fronte.“Me redemoinhas na mulher. seu aldrabão? . onde mexeram minhas poupanças?” Súbito.“Estou pedir grande desculpa..“Eu não sei como falar essas coisas”. . O vizinho também se aproxima. O outro se placava de encontro à parede. teu pai hierárquico? . Com você a gente se explica com lamina. “A vida. . deixei meus pulmões nas minas do John.Elvira sai para ir chamar Raimundo. Elvira? . aos segredinhos? Não me diga você está escadear na minha mulher?” Elvira se chega ao leito do moribundo. eu te mandei estudar. lá na escola que lhe mandei? Mas com gente igual a você. Daí o motivo da bala. . deitandolhe ternuras. Jaimão. . Não estudou o respeito. juro.“Lhe disse o quê? . . Mas foi por causa do que você falou. a vida é que é muito mortífera”.. ainda lhe vou naifar essas fuças todas. ele e a dona da casa. vizinho? . satanhoco! ... Do seu leito. sinal do respeito. Onde estão meus randes. tu és quase da família.

Jaimão. aos gritos. vou dormir. que cheiro? Onde estou.“Sim. de joelhos. Demorava-se só para aumentar o sofrimento do outro? Ou. morrer e de vez. Jaimão ainda tentou um golpe. De repente. desatou a arguir: . E tombou.. implorava. “Escute. pesadelento. Estranhamente ficou volteando. em infindável remoinho. Raimundo. você é que vai morrer de castigo dos xicuembos. examinava-o à contraluz. não se lembra? Você estava morto. Jaimão!” O outro prosseguia com esmero a afiação da lamina. maior que morte. de contrária maneira: muito tacto.“Eu? .“Você. “Que chão é este. Mas Jaimão prosseguia ameaça: - “Eu vou-lhe deseliminar. Depois. Levantava o punhal. . Agora queria que eu não cumprisse? Sim. deu-me as devidas ordens. essa fundura onde me infernei tantos anos? Se estou nas galerias como é que Elvira está atravessando o quarto e se atira nos braços de Raimundo? Se me estou obscurecendo por que motivo Raimundo me está cobrindo meus pés com essa capulana? E porquê esse pano me aparece como se fosse terra. não conhece a tradição? Pedido de morto é ordem.“Não me mate. o Jaimão sentiu um sono pesado. afinal? Este escuro em que penetro não é a mina. acordo e lhe mato”. Ou você pensa que sou um papagago?” De repente. o vizinho atrevido se reatreveu e. Então. falou-me. A faca lhe saltou da mão. me pesando mais que o inteiro planeta?” . agora. Vistoriava o instrumento da punição. que poeira. pouco acto? Raimundo. subiu pelos ares mas não tombou.

. ordenou à esposa: . . .“Corta. Porquê me pergunta? . mulher? Estou amarrado? . O homem não desgrudava do chão. esgotado. Chamou pela mulher e pediu-lhe ajuda.“Corta! .“Dói-lhe? . A esposa puxou da faca e lançou o primeiro golpe. Juntaram uns tantos. Escavaram mais que as fundações de uma montanha e não se vislumbrava o fim das radiculações. . A areia lhe servia de almofada. em cima da terra. suplicou. mando. você criou raízes. Já ela.. Dormiu toda a manhã e quando se tentou levantar não conseguiu. arrumara o facão.“Corta essa merda das raízes ou lá o que é”.Raízes Uma vez um homem deitou-se. desistida. Começaram a escavar o chão. . Ele. gentes da terra.“Não. Aquilo era assunto de camponês. E cada um puxava sentença. A mulher espreitou por baixo da nuca do marido. Mas logo parou. pediu que alguém o destroncasse dali. Em vão. “Me ajudem”. Queria mexer a cabeça: não foi capaz.“Veja o que me está a prender a cabeça”.“Quase nem. já noite. aborrecido. todo. . O homem.. em volta. o quê? .“É porque está sair sangue”.“Então. puxou-lhe levemente pela testa. Mas as raízes que saíam da cabeça desciam mais fundo que se podia imaginar. Covaram o tamanho de um homem e elas continuavam para o fundo.“Me tirem daqui”.“Raízes?” Já se juntavam as vizinhanças. gemia o homem.

Nesse dia nasceu o primeiro poeta. Até que já um alguém. sabedor de planetas.“A cabeça dele tem que ser transferida”.Revesaram-se os homens. Mas as raízes não só não se extinguiam como se ramificavam em mais redes e novas radículas. para as celestiais alturas. acumular um monte de terra do tamanho da terra. Um por um se retiraram. santos deuses? Se entreolharam todos. aguardando pelo parecer do mais velho. Mas um outro argumentou: assim teríamos que transmudar o planeta todo inteiro. E foi assim que. Os outros devolveram a estranheza. Que iria ela fazer para desprender o homem da inteira terra? Pode-se tirar toda a terra. E para onde. A mulher. . o que que se faria dele e de todas suas raízes? Até que falou o mais velho e disse: . Retiraram toneladas de chão. chamou os sábios.“As raízes dessa cabeça dão a volta ao mundo”. . por estreia. disse um.“Lá. cada um com sua pá mais uma enxada. Que queria o velho dizer? . na lua”. vazaram a fundura de um buraco que nunca ninguém vira. um homem passou a andar com a cabeça na lua. sacudir as remanascentes areias. dia seguinte. disse: . E laborou-se semanas e meses. E o enraizado. E desistiram.“Vamos plantar a cabeça dele lá!” E apontou para cima.

Nesse tempo. O tamanho e gravidade das acontecências éramos nós que ditávamos. Essas novidades desembarcavam húmidas em nossas mãos. o mundo parecia um brinquedo. Mas abrigo maior não encontrei senão nas paragens da memória. Lá. No centro desse conflito estava o campeonato de futebol em que assanhávamos soco e batota. Engigantecidos ficámos foi quando o nosso patrício Eusébio fintou o universo até penetrar nos relvados no Campeonato Mundial. há gente que me dá os bons-dias-”) Sempre onde chego é um lugar. O nosso pé sonhava em chuteiras e cada chuto disputava cabeçalhos de jornais. . É lá que reside minha cidadezinha natal. moldáveis à nossa ideia. Assim destrocado. como barco saindo de um lodoso escuro. As notícias da Europa nos chegavam como tábuas de navios naufragados para além de extensas neblinas. Esse outro tempo escorria em obediência a secretos mandos de preguiça. Wembley e Maracanã passaram a estadiozitos no bairro da nossa infância. De noite nos desenhávamos em figura dos livrinhos de cromos.O fintabolista (“Ninguém pode imaginar a pequenez da minha cidadezinha. que se acende devagarinhosa. a mais mundial das guerras era a que opunha o meu bairro aos restantes bairros da Beira. Ali estava a nossa honra. bem depois de atravessarem distancias tais que se desbotava a realidade que lhes tinha ditado origem. porém. Os acontecimentos do mundo ali aportavam sempre tarde. Esse lugar se senta em minha meninice como se o único território fosse o tempo. partíamos de casa como fazem os guerreiros ao despedirem-se das famílias.

Minha fama emergiu numa jogada confusa . No final do jogo fui conduzido em ombros. A única vez que ganhámos nem demos por isso.o basquetebol. ganhara o estatuto de comandar a minha equipa e a honra do meu bairro. Ainda .tinha pouca válvula para muito coração. E lá seguíamos. A mais centimétrica corrida e já ele exibia um tom arroxeado semelhando a flor do nenúfar. Faltavam-nos jogadores altos. E foi então que me vi convertido num glorioso avançado de centro. interrompia a ofegação para gemer um “continuemos!”. Acontecia. Com duvidoso mérito. Aquilo era modalidade de gente rica. Com estas palavras o meu feito se maiusculizou na história do meu bairro. me aplicaram a vitalícia braçadeira de capitão. Nós retorquimos. o nosso pivô interrompeu a partida para perguntar ao árbitro se não podia encestar com a cabeça. deixei de ver o estádio. no entanto. em meio de decisiva batalha. Pedíamos uma pausa para o Tony reganhar a visão e ele.todas as jogadas para mim eram confusas quando um poderoso remate disparou a bola na minha direcção.Não que a futebolada fosse a única disputa. Minha única reacção foi proteger os óculos. surpresos: “Ganhámos?!!” Desistidos da elitista modalidade. actividade mais a jeito da nossa condição. fechando os olhos e desviando a cabeça da trajectória. Por instantes. perdendo sempre. Passámos por anterior batalha . Estavámos deitando fresco sobre o Tony quando os adversários nos vieram congratular. Passávamos o jogo fintando de um ao outro lado do campo sem nunca nos decidirmos a rematar. Mas na bola ao cesto nós não estávamos tão bem aquilatados. que a minha equipa sofria de carência grave de rematadores. O nosso mais alto era o Tony Candeeiro que era cardíaco . Sonhe depois que esse impensado reflexo tinha feito “anichar caprichosamente o esférico no fundo das redes adversárias”. passados segundos. Senti a bola raspar-me o penteado. regressamos ao futebol. O esforço tinha sido tal que nem deitámos tento no resultado. Tanto estávamos desfasados que.

Penteado até . pagando-lhe para que ele actuasse como avançado da nossa equipa. A ideia foi como pedra em charco. “Falta-nos a concretização”. nosso ilustre treinador. fardado diferente da nossa equipa. Pagos. A resposta veio célere: “Chego no próprio dia da grande final.150 escudos. O Senhor Herberto que estava sempre calado trouxe então a solução que tinha ouvido falar que. não rematam”. Queixava-se assim: “vocês só fintam. Já nos preparávamos para entrar em campo e nem sombra do famoso “Chimbo”. O treinador disse que a imobilidade era boa conselheira e os treinos só serviam para esfolar canela e gastar sapatilha. teria ele desconseguido apanhar a carreira? Mas eis que. E suspirava: “somos uma equipa de fintabolistas”. perdia a visão. O dinheiro era uma fortuna.adoptámos a táctica de chutar alto para aproveitar a altura do nosso Tony Candeeiro mas ele. camisete azul-clara com estrelas prateadas que faiscavam ao fulgor do sol. havia um jovem dotado de poderosíssimo remate.” Exultámos. Na tarde da finalíssima o estádio estava repleto. no derradeiro instante. assim que saltava. um goês cinquentão que suspeitávamos nunca ter sequer assistido a um partida de futebol. antes do encontro. Até as miúdas lá estavam. com seus risos e segredinhos. Com seu vertiginoso pontapé o moço já tinha derrubado postes e árvores e só de mencionar o seu nome os guarda-redes eram acometidos de terrores imobilizantes. Ali estava ele. Marromeu era longe. A proposta era contratar o “Chimbo. na vila de Marromeu. Vêlo entrar em campo foi como um bálsamo para a nossa angústia. Enviou-se logo mensagem para o mercenário rematador. dizia o Senhor Herberto. De tal modo. mas nós cobriríamos a parada roubando afincandamente as carteiras dos nossos velhos. O optimismo era tal que deixámos de treinar. surge garboso e portentoso o nosso avançado vindo directamente das savanas de Marromeu. que era conhecido pelo “Chimbo de Marromeu”. com sua falta de válvula. Entre esforçados empates e involuntárias vitórias lá conseguimos chegar à finalíssima do campeonato interbairros. claro. Eis o meu preço .

que se borrara em vergonhoso descuido. cabeceia o esférico com a nuca. Sem sequer nos olhar. deu uns passinhos para trás para ganhar balanço. Mas o tudo que ouvi foi um tímido “trrrrr”. levanto a perna ao acaso. O barulho dos seus passos e a poeira que se levantou à sua passagem foram tais que eu fechei os olhos. Na primeira jogada. tão grossas em baixo como em cima. A bola toca no meu joelho. nós próprios. Um silêncio se instalou em todo o campo como se o universo inteiro se atentasse no virtuosismo do futebolista. passa por cima de dois adversários. Atónitos com a arquitectura destas trocas estavam o adversário.à risca. frenética: . sem visão. O mais espantoso eram as pernas. ofuscado pelo sol. o público e. “E a táctica?”. O Chimbo. e vai na direcção de Tony. ganha efeito. cilindróides. passa ao Chimbo!” Eu fiz a bola rolar para os pés do nosso salvador. com impulso tal. uma costura se desfazendo. Quando reabri os olhos ainda vi a perna gorda do Chimbo chutando o ar e uma suspeitosa mancha castanha lhe surgindo nos calções. O mercenário rematara em falso. Deixou a bola parar e. o nosso precioso reforço entrou em campo com aqueles saltinhos que só os grandes profissionais usam para aquecer o próprio corpo e o animo da multidão. O moço nem deu as confianças. A bola volta a ficar comigo e a nossa claque urra. sempre aos pulinhos. obviamente. cochichou-nos: .“O dinheiro. deflagrou um tropel em direcção à bola.o glorioso rematador saindo em soluços. A táctica herbertiana era a mais simples: “passar o esférico imediatamente ao Chimbo de Marromou”. mais que todos.“Passa ao Chimbo. a bola vem a meus pés e eu. qual búfalo. com estilo de exímio executante. O que se passou em seguida foi o maior embaraço . rodeado por nós que parecíamos nem . E lá começou o jogo. igual a um rasgão de roupa. Ele não rematou logo. perguntou o contratado. Esperava escutar o vigoroso bater da bola. continuando a saltitar. Este salta e. já têm?” Herberto respondeu que já tinha colocado no lugar combinado.

Com o poente daquelas estrelas se extinguia a minha ilusão de ser campeão mundial de futebol. Enquanto ele se retirava ainda um de nós balbuciou: .dar pelos odores castanhos que lhe escorriam pelas pernas... e o nosso dinheiro?” Contudo. as estrelas prateadas do seu espantoso fardamento.“Eh pá. entre as densas folhagens. já o mercenário escapava pelos caniços que rodeavam o estádio. . Me recordo ainda de ver rebrilhar.

ela se descampa até o céu .insiste em aceno de cabeça. mas a fatal picada. para ela. Donalena se perdoava: .“Culpa minha. quem me mandou?” . olha a velha Donalena. E vai desabrindo os recentes passados. já cheira a tábua deitada. Donalena. agora acabranhado. morre terra. pré-defunta. Sentado na sombra de um cipreste. tão escaravelhota que só pode ter saída de tumba. Verdade é como ninho de cobra: se confirma apanhando não o ovo. Criatura roída pelo tempo. outrora zeloso. quem quer fumo tem que juntar palha. Como? Ela não sabia qual campa devia honrar. Dias havia em que até rezava em mais que dez lápides. director do Cemitério Central. Até os coveiros já suspeitavam se alguma vez chegara de haver algum respectivo dela. onde tudo começou.“É que já esqueci bem-bem onde que é”. as do “falecido. Afinal. A gente nasce grão. 1 . Cada vez se joelhava numa diferente. E todas as campas eram. Ideias que endemoniam o juízo do funcionário. Se mesmo Deus passa o tempo a provar que não existe! Pensamentos que fartam a cabeça de Azaria Azar. Não havia dia que a senhora não visitasse o cemitério. a velha visitadora dos defuntos. umas muitas florinhas lhe avulsando no regaço. como era chamada. desomenageava a morte. Donalena.Ante e ontem Azaria Azar se resolveu nessa tarde.A viúva nacional Ou foi Jesus que traiu Judas? Ninguém pode saber. A velha desafia o Outono: cai a árvore e fica a folha? Entre as campas. Iria interditar Helena Cemitela. .

Nas trevas vai pisando trevos. Azaria chamou. agora. Azaria lembrou. já lembrei a campa.dessorar. A velha então desfiou um choro magrinho. chegou ao cemitério em sua solene viatura. no começo. O Doutor Maurício olhou a mulher. . . só eu que não tenho. Nem Azaria notou. parente de herói. o Vice-Adjunto.. fazendo chiar os pesados portões. o Vice-Adjunto insistiu: ele a fosse a procurar.“Você é esposa do malogrado? . Pois naquela tarde. .“Desobedecer a mim. Fugia a sete chãos. Já dei ordem nos milícias”. oficialmente Ontem à tarde. que ela chorava. É que eu não tenho morto para chorar. Contudo. soletrando lápides. Só no poente Donalena abandona o cemitério. 2 . até pagara. Me favoreça. soluço de gota caindo em poço seco. viúvo. Querem saber? Donalena Cemitela lá estava. eu só tenho recebido obediência das instâncias inferiores”. Nos tempos de hoje quem quer se apresentar com os louros vermelhos do leninismo? Com o director do cemitério se acordou encontrar rápido um candidato a órfão..“Mas eu.Ontem. o chefe Azaria chamou a velha e lhe deitou proibição: ela podia nunca mais ali voltar. então. Não viu eu rezar ali? Aquela é mesmo a do meu falecido. Doutor”. maligno. quem sabe a velha desobedecera? . Todos tem seus mortos.“Me deixe vir aqui. Mas não encontrara ninguém. . O Doutor teimou e Azaria lá foi. antecipando triunfos. Não fosse a incoincidência: ainda ontem Azaria a expulsara. Ela havia de servir que nem peúga. Excelência? Com o devido respeito. rarefeito. sempre em busca. nem próprio nem parente. Dr. a deslembrada Donalena.“Acabou conversa. Procurara candidato. Vinha na véspera de uma função: homenagear Herói da Revolução. procurar a improvável doida. Azaria Azar agarrou-lhe e a conduziu à direcção. ela mal-entendeu e desatou-se. Maurício Salbuquerque.

viúva nacional. muro pintado de palavras de ordem do proletariado mundial. Os máximos prontuaram discurso . me enganei.. duas.“Oh. o mencionado. onde está enterrado o seu falecido?” A viúva desenhou um gesto vago. portões oleados.“Afinal. A Máxima Excelência desentendeu mas depois abriu um sorriso. . já alguns murmuravam. se entoaram hinos e orações. Afinal. Houve banda. o supracitado. Então. Se encontrou uma campa devidamente incógnita. tiros de pólvora sonora. se apresentou Azaria.“A verdadeira?!” Estava ali. era aquela!” . apenas a verdadeiramente única”. Seu marido estava enterrado em todas campas e em cada uma também. o próprio. agora necessitamos de uma única sepultura. A marcha se deteve. às pressas. recebeu as póstumas medalhas. circungirando o dedo por todo o cemitério. Donalena Cemitela estava sendo promovida a última dama. Se aldrabou lápide. Foi chamada a viúva. Ora. afligidos. a viúva puxou de volta a manga do dirigente máximo. respeitosa e lenta. E se convenceu a velha Donalena que seu marido morreu em plenos sacrifícios pela Revolução.“Esposa por casamento. camarada viuva. Deu-se uma. já as oficiais tristezas se recolhiam de regresso. três voltas ao cemitério. compreendo-lhe. Azaria e Salbuquerque suspiravam alívios. se depositaram as flores em coroas. Donalena. No final. E apontou a verdadeira e autêntica. . isto é. com vestes de empréstimo. lhe pediram que ela encabeçasse o desfile fúnebre para a campa do falecido herói. Quando chegou a comitiva oficial. Azaria e Salbuquerque perdiam as falas.que ali jazia. é uma metáfora: o povo inteiro é que é herói. instantâneo como toda a mentira. naquela precisa tumba. bem defronte. sim senhor. Mas agora. nomeadamente: Donalena. O Excelência Máximo inquiriu solenemente a viúva: . A marcha se alongou pelos carreiros. “Pois. Andava-se em vertigem.“Já lhe conheço de nome. E que ele pacificava ali. até está como convém: Lena rima com quê? Com leninismo!” E o plano foi instaurado. discurso. Apontou uma outra campa e disse: .

“Eu lhe guio Donalena. por momento. outra e outra. Vai congeminando planos: desgargantear a velha? Suspendurá-la em galho? É quando vê um corvo pousar no ombro de Donalena.. Azaria Azar sorri. As medalhas lhe tilintam no vestido negro. 3 . a raiva de matar a causadora de sua desgraceira.. lhe oferece o braço e sussurra: . eu lhe mostro a sua campa”. Passa-lhe. Cavalheiro. se levanta e se encaminha para a idosa mulher. de novo Sentado na entrada do seu ex-domínio. Azaria Azar encara a viúva Donalena desfiando entre as passadeiras. Até ao grito final do Excelência.Hoje. . Até à ordem de despedimento de Azaria e companhia.E depois outra.

E acrescentou uma dezena de histórias inéditas (assinaladas com asterisco). alicerçadas no quotidiano desse pais que. Contudo. . exibe uma identidade bem própria no domínio da cultura e da criatividade literária.Índice Os negros olhos de Vivalma Gaiola de moscas O homem da rua O general infanciado Rungo Alberto ao dispor da fantasia O despertar de Jaimão Raízes O fintabolista A viúva nacional Nota: A maior parte dos contos deste livro foram publicados em jornais e revistas desde inícios do ano de 1996 e o corrente ano. para além de uma língua comum. o autor alterou a quase totalidade desses textos.

http://groups. Se quiser outros títulos nos procure : http://groups. de maneira totalmente gratuita.com/group/Viciados_em_Livros http://groups.google. pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras. Dessa forma. portanto distribua este livro livremente.google. Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original.Esta obra foi digitalizada e revisada pelo grupo Digital Source para proporcionar.com/group/digitalsource . a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição.com/group/Viciados_em_Livros.google. o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. será um prazer recebê-lo em nosso grupo.