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João Carlos Cattelan
Alex Sandro de Araujo Carmo
[org.]

ANÁLISE DE DISCURSO:
ESTUDOS DE ESTADOS DE CORPORA

2014
TOLEDO - PARANÁ

© João Carlos Cattelan - Alex Sandro de Araujo Carmo [org.]
Coordenação Editorial
Osmar Antonio Conte
Organizadores
João Carlos Cattelan
Alex Sandro de Araujo Carmo
Projeto Gráfico
Alex Sandro de Araujo Carmo
Revisão
João Carlos Cattelan
Ficha Catalográfica: Mariana Senhorini Caron - CRB9-1462
A532

Análise do discurso: estudos de estados de corpora - / João Carlos Cattelan,
Alex Sandro de Araujo Carmo (Orgs.) – Toledo: Editora Fasul, 2014.
274 p.
1. Análise do discurso. 2. Polifonia. 3.Publicidade – textos. I. Cattelan, João
Carlos. II. Carmo, Alex Sandro de Araujo.

CDD 21.ed. 401.41

ISBN 978-85-89042-25-3
Direitos desta edição reservados à:
Fasul Ensino Superior Ltda
Av. Ministro Cirne Lima, 2565
CEP 85903-590 – Toledo – Paraná
Tel. (45) 3277-4000 - e-mail: fasul@fasul.edu.br
É proibida a reprodução parcial ou total desta obra,
sem autorização prévia do autor ou da editora.
Depósito Legal na Biblioteca Nacional
Divulgação Eletrônica – Brasil – 2014

SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO

[1]

João Carlos Cattelan

CAPÍTULO 1

[3]

RECORTES E APONTAMENTOS SOBRE A TEORIA DO
DISCURSO
Luciane Thomé Schröder

CAPÍTULO 2

[ 29 ]

A OPACIDADE DA LÍNGUA, DA HISTÓRIA E DO SUJEITO:
UMA REFLEXÃO SOBRE A REPRESENTAÇÃO DO FEMININO

Franciele Luzia de Oliveira Orsatto

CAPÍTULO 3

[ 42 ]

SOBRE O DISCURSO JORNALÍSTICO QUE RESSOA:

ESPAÇOS DE INSCRIÇÃO EM OUTRAS MATERIALIDADES
DISCURSIVAS
Alexandre da Silva Zanella

CAPÍTULO 4

[ 64 ]

COMENTÁRIOS DE LEITORES:

A VIOLÊNCIA NOTICIADA NA INTERNET
Luiz Carlos de Oliveira

CAPÍTULO 5

[ 86 ]

O DISCURSO PUBLICITÁRIO NOS ANÚNCIOS DE
OPERADORAS DE TELEFONES CELULARES
Paula Fabiane de Souza Queiroz

O SANTO DESCONFIA?! João Carlos Cattelan CAPÍTULO 11 [ 239 ] “CASCAVEL. QUEBRADA SOFRIDA”: AS VOZES IDEOLÓGICAS NA MÚSICA DO GRUPO DE RAP “FACE HUMANA DO GUETTO” Silvana Trevizan AUTORES [ 269 ] .CAPÍTULO 6 [ 106 ] DISCURSO. POLIFONIA E CRIATIVIDADE NO TEXTO PUBLICITÁRIO Alex Sandro de Araujo Carmo CAPÍTULO 7 [ 127 ] A AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR: EFEITOS DE SENTIDO E POLISSEMIA Nelci Janete dos Santos Nardelli CAPÍTULO 8 [ 155 ] ZONA: O ENTREMEIO COMO LUGAR DE CONTRADIÇÃO Mirielly Ferraça CAPÍTULO 9 [ 176 ] BRASIL E BRASILEIROS EM PORTUGAL: CONSTITUIÇÃO DE SUJEITOS E SENTIDOS Alexandre Sebastião Ferrari Soares Isabel Maria Ferin da Cunha CAPÍTULO 10 [ 208 ] QUANDO A ESMOLA É DEMAIS.

uma metodologia de trabalho e um corpus de dados “privilegiado” sobre o qual se aplicam.APRESENTAÇÃO João Carlos Cattelan A apresentação de uma obra parece um momento oportuno o bastante para poder fazer frente a algumas afirmações que se ouvem nos corredores da universidade sobre determinadas disciplinas. A outra crítica. leva-os a fazer algumas afirmações que parecem pouco embasadas. E. o senso comum. . o calcanhar de Aquiles: assujeitamento. formação discursiva. pululam conceitos como fonema. estratosférica e muito difícil. ela seria muito difícil. o que. campeia uma necessidade de valorizar o terreno em que se pisa e ser “crítico” em relação ao espaço em que o outro trabalha suas problemáticas de ensino. eles seriam conceitos abstratos demais. em geral. pré-construído. morfema. pesquisa e extensão. é que a Análise de Discurso seria muito teórica. já que seriam noções puramente ideológicas e não científicas. não teriam qualquer aplicação empírica. complexa e fora da realidade: pura abstração. o efeito de sentido que a afirmação produz é a de que. eu diria). é claro. um conjunto de conceitos. de novo. De modo geral. diferentemente de outras. formação ideológica. E a resposta a esta crítica parece a mais fácil de ser rebatida: não existe disciplina. E o que espanta os críticos são as noções de formação social. no mundo acadêmico (como em outro qualquer. inclusive dos que possuem alta titulação acadêmica. têm um background teórico. Parece que. Por um lado. discurso transverso e. Vou me valer do espaço cedido para a atividade de apresentar este livro para refletir brevemente sobre algumas. que vem em decorrência da primeira ou conjuntamente com ela. por outro. Neste terreno. Ainda que não fosse essa a motivação central. não é difícil atentar para o fato de que as outras disciplinas não são diferentes: nelas. mesmo as empíricas e de imediata aplicação “visual”. Uma das afirmações que aparece bastante seguidamente sobre a Análise de Discurso é que ela é uma disciplina hermética. equivale a ser “sofisticada” demais do ponto de vista das suas elaborações epistemológicas ou a ter qualquer aplicação prática: ela seria. meramente especulativa ou pura especulação teórica. assim. não há uma régua que possa medir o maior ou menor grau de hermetismo das disciplinas: elas são incomensuráveis.

ponto a ponto.sintagma. não deveria figurar na área das Letras. há quem diga que a Análise de Discurso não serve para o ensino de língua. no entanto. Mas. também o é para escrever e para refletir sobre o que escreve e diz. aproveitando a deixa. pois não tem nenhuma aplicabilidade prática imediata. sobreposto à Semântica. ela faz parte do seu tripé. ainda. responde de forma contundente às críticas listadas acima e mostra com uma limpidez inatacável a sua não imputabilidade à disciplina: e não porque responda e argumente contra elas. é que a Análise de Discurso não é linguística e o efeito de sentido pretendido é que o que recai sobre o terreno da Linguística tem algum mérito. todos os demais são de aplicação a corpus de dados e. Com exceção do primeiro capítulo. que pode dar uma contribuição a mais para a diminuição do “hermetismo” da disciplina. já são conteúdos consagrados. Neste caso. o que pode facilmente fazer migrar para o terreno panfletário e prestar um desserviço para a Análise do Discurso. o que fica de fora. pela assunção de base de que não pretende descrever sistemas de língua e nem se fechar num prisma de observação que apague aquilo que cerca o uso da linguagem. que já leva pedras além do merecido (na maior parte das vezes. nada a observar. Outra crítica. por fim. que ela ignore a língua: aliás. cumpre chamar a atenção para o fato de que este livro. sentido. E. portanto. coesão. mas porque mostra com estudos e pesquisas o quanto ela é frutífera e o quanto pode vir a ser um instrumento a serviço da educação e da elucidação do mundo em que vivemos. E. como às vezes. se o olhar do leitor é preparado para ler. Isto deveria acontecer com a maioria dos conceitos de outras disciplinas também e que. Se existe algo que a disciplina faz (com rigor e com vigor) é “abrir os olhos” opacos do leitor para a produção dos efeitos de sentido que circulam socialmente. cada um com seu grau de dificuldade ou abstração que silencia traços idiossincráticos. Se a crítica se dá no sentido de afirmar que ela não deve ser conteúdo de ensino nos níveis fundamental e médio. é preciso enfatizar. ao invés de fazer a defesa da disciplina. é preciso admitir de pronto: ela não é linguística mesmo. da sua contribuição efetiva para a educação e para a leitura. ______ [ 2 ] . se ouve. Mas isto não significa. é preciso frisar outro ponto: a Análise de Discurso não é linguística. eis uma afirmação que pega pela singeleza de sua defesa e pelo absoluto desconhecimento do que pode e do que faz a Análise do Discurso. injustamente). Eu me atreveria a dizer: até mais do que as disciplinas que são vistas como teorias canônicas da leitura. Ela não é um nível a mais. E. coerência (e tantos outros). Os ingredientes contextuais são elementos inapagáveis de quem se coloca sob a ótica discursiva. Mas que não tenha aplicação prática ou contribuições a dar para o ensino de línguas.

é preciso ‘ousar pensar por si próprio’. . 1997a. 304 ) [ainda que se saiba: isso não é impossível]. (PÊCHEUX.CAPÍTULO 1 RECORTES E APONTAMENTOS SOBRE A TEORIA DO DISCURSO Luciane Thomé Schröder [é preciso aprender que]: Ninguém pode pensar do lugar de quem quer que seja: é preciso suportar o que venha a ser pensado. p.

seja porque se encontra em condições de produção não estabilizadas. p. uma ciência não poderia. pois. Obreiros em andaimes suspensos: talvez seja essa a definição para o trabalho dos que trilham os caminhos da Análise de Discurso. em última instância. constitui-se. 67). as quais não podem ser negadas.Esse texto1 não é uma apresentação da Análise de Discurso de orientação francesa. Segui-los significa transitar. ou seja. entende-se. encontra-se numa batalha que pode gerar algum ______ [ 4 ] . em poucas páginas. na posição-autor-analista. sempre sujeitos às ideologias: Na verdade. um mapa (que se sabe incompleto) da teoria que tem por objeto de estudo e reflexão o discurso. pode ser res-significada. consulta ao corpus e análise” (ORLANDI. ao assumir uma posição teórica. seja porque o olhar do analista é afetado pelas suas próprias condições de produção. Corpus sempre em movimento. Não há respostas a serem perseguidas que antecedam o processo de análise. em definitivo. perguntas guias. p. que. ser um ponto de vista sobre o real (um ‘modelo’ do real): uma ciência é o real sob a modalidade de sua necessidade-pensada. 2001a. o que há são possibilidades de análises por meio de uma prática de leitura. mais. de modo contemplativo. (PÊCHEUX. pelo objeto em análise. que. Apesar dos entendimentos e desentendimentos. todo ‘ponto de vista’ é o ponto de vista de um sujeito. trata-se de um “procedimento que demanda um ir-e-vir constante entre teoria. o sujeito. de modo que o real de que tratam as ciências não é senão o real que produz o concreto-figurado que se impõe ao sujeito na necessidade ‘cega’ da ideologia. porque não há. devido à presença silenciosa daquilo que move a todos enquanto sujeitos de uma prática discursiva: os indivíduos estão. 1997a. a cada encontro com seu objeto. no lugar de respostas que apontem para certezas. numa vontade de agrupar. No espaço teórico da Análise de Discurso. 179). aceitação ou negação que uma análise pode provocar. nem apagadas.

Não de modo a querer instaurar um dado novo. mas não pela ausência de uma coerência que confirme seus sentidos numa dada sociedade. de incerteza. Se o mundo e as pessoas do mundo se convertem. Uma definição para discurso obriga recusar os espaços de conforto dos saberes legitimados. a uma perspectiva discursiva. Como se percebe. 2001b. requer a atitude de des-fixar o seu sentido de qualquer lugar estabelecido. talvez. Eis a tarefa que se coloca como trabalho para o analista. portanto. 1997a. entendido pelo viés teórico da Análise de Discurso. por isso. mas assumir com Pêcheux (1997a. p. isso ______ [ 5 ] . é preciso compreender a “realidade repleta de mudanças e de contradições. dotados de uma completude (relativa) por parte dos seus interlocutores. há o discurso religioso. no seu espaço enunciativo. lugares provisórios de conjunção e dispersão. de trajetos. portanto. E é a partir da sua compreensão que se abrem espaços para a constituição dos demais procedimentos analíticos. p. A contradição referida significa o seu não aprisionamento a bases teóricas que lhes fixariam um único e verdadeiro significado. os embates aos quais os analistas de discurso colocam-se à mercê. 249 – sem grifos) que circundam os espaços sociais em que homens. 2001a. 1999). político. por essa via. algo novo venha a nascer – contra o fogo incinerador que só produz fumaça”. o discurso pode ser lido como prática de “Movimentos dos sentidos. 10). de mudanças. Refletir sobre o discurso. de contradições” (PÊCHEUX. o termo discurso é contraditório por natureza. Compreendê-lo. não é uma tarefa tranquila. para se colocar no lugar da incômoda inquietação: desocupar a ordem discursiva sociocultural e entrar na sua des-ordem. discursos coexistem. pois “A teoria é política. de ancoragem e de vestígios” (ORLANDI. portanto. 294) uma vontade: “tomo partido pelo fogo de um trabalho crítico [desejando] que. p. buscando-se conceituar o termo “discurso”. E a análise de discurso que se filia a M. a batalha. jurídico e etc. Por isso. mas as condições materiais para a reflexão sobre possíveis posicionamentos dos sujeitos frente à sua condição social em dado momento e em relação a um dado tema. possa-se buscar nos discursos não mais a resposta reveladora de uma verdade. de indistinção.resultado. A criticidade almejada por meio da teoria da análise de discurso significa trilhar um percurso nada fácil ou tranquilo. Logo. já que o signo é ideológico e sua completude se encontra na exterioridade (BAKTHIN.36). porque se entende que ele é o conceito cuja concepção é fundamental para a teoria. Pêcheux ‘sabe’ disso” (ORLANDI. afinal. de unidade e de diversidade. portanto. isto é. E. p. então. pode romper com práticas discursivas dominantes. então. Inicia-se. errância dos sujeitos. por fim. ou seja.

não se percebe. não estão amarrados nem fixados.). que. As ideologias se imiscuem nos discursos que criam a vida social e se constituem como forças materiais (PÊCHEUX. sem que tenham consciência ou controle da intervenção em quaisquer relações. por meio das suas instituições (escola. p. a resposta de que também pode significar outras coisas: não-ditas. não é interior. como já foi dito. 1997a. imagens. interpelando-os em sujeitos (PÊCHEUX. em lugar da certeza de que algo significa x. portanto. (PÊCHEUX. etc.. 1997a) necessárias à própria existência/sobrevivência das sociedades: o homem é discurso e a “evidência” dos discursos para o homem se explica pela “Penetração que se opera ‘por si só’ e. Compreender o discurso na sua complexidade exige. com isso. efeitos de sentido. como se sabe.porque. seu ponto de vista. que constroem. devido à banalização que o termo sofreu (vem sofrendo) no decorrer dos tempos e das apropriações que as mais variadas teorias fazem dele. trajetórias discursivas centradas em valores ideológicos que se tornam alicerces e organizam o mundo de uma comunidade. Uma compreensão para o conceito de ideologia é tomá-la como uma prática de “evidências”. sempre. o que quer dizer que elas adquirem seu sentido em referência às ______ [ 6 ] . sempre. 1997a. os sentidos que se materializam em palavras. 1997a). cada ‘sujeito’ saiba e veja que as coisas são realmente assim” (PÊCHEUX. devendo-se considerar “a cada um. no total. atua sobre os indivíduos. a um significado. Ele é. expressões. E como o termo ‘discurso’. proposições. de modo que. e [mas]. inculcação que trabalha conscienciosamente sobre o resultado dessa penetração [discursiva] para ‘se acrescentar a ela [a ideologia]’. 209). mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam. mapeando. Devido a essa perspectiva é que o conceito de ‘ideologia’ instaura-se na Análise de Discurso como ponto nodal das discussões. “as palavras. p. mas estão presentes em cada enunciado emitido. para eles. ao mesmo tempo. aparelho jurídico. igreja. 121): “O centro organizador de toda enunciação. entendendo-se. sua conceituação também é complexa. silenciadas: o discurso. mas exterior: está situado no meio social que envolve o indivíduo”. Para a Análise de Discurso. p. feito ar. ideologicamente. horizontes de saberes a serem seguidos pelos sujeitos. o proposto por Bakhtin (1999. acima de todos. vêlo como uma instância que (de)marca territórios entre os diversos campos discursivos existentes nas sociedades organizadas. símbolos e etc. a verdade inacessível!”. Deve-se considerar que a sociedade (com seus valores e crenças) sobredetermina os sujeitos. então. 224 – sem grifos no original): fórmulas inquestionáveis de verdades que. de toda expressão. materializa. família e etc.

o efeito característico da ideologia – impor (sem parecer fazê-lo. se “se puder definir uma regularidade (uma ordem. p. em qualquer lugar). Reitera-se. 1993. 1997a. determinada pelo estado da luta de classes. de um programa. p. 1975. 160 – grifos do autor). formação ideológica é “um conjunto complexo de atitudes e de representações que não são nem ‘individuais’ nem ‘universais’ mas se relacionam mais ou menos diretamente à posição de classes em conflito umas com as outras” (PÊCHEUX e FUCHS. o efeito ideológico elementar. determina o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma arenga. não é qualquer um que pode dizer qualquer coisa. 97). o conceito de Formação Discursiva. recorre-se à discussão de Foucault que. Este é. que se trata de uma formação discursiva” (FOUCAULT. 43). Para a teoria. aliás. 1995. Ao encontro do conceito de Formação Ideológica. em “A Arqueologia do Saber” (1995). de uma exposição. 160 – sem grifos no original). por convenção. pontua Althusser em ______ [ 7 ] . p. constitui o conceito de Formação Discursiva. posições e funcionamentos.56). vemos se desfazerem os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas” (p.formações ideológicas” (PÊCHEUX. correlações. podemse problematizar os sentidos estabelecidos. a compreensão de ideologia como prática histórica – porque ela escapa a qualquer política de fechamento. Conforme explica Althusser (1985. “A existência da ideologia e a interpelação dos indivíduos em sujeitos são uma única e mesma coisa”. de forma que os sujeitos falam sempre a partir de um determinado lugar social e compreender isso é fundamental. ou que se deseja de cerramento dos sentidos.166). de um panfleto. isto é. É a partir desse “lugar” de onde o sujeito enuncia que se inscrevem as posições discursivas assumidas. “analisando os próprios discursos. diremos. transformações). portanto. uma vez que se trata de evidências) as evidências como evidências”. cunhado por Pêcheux. etc. p. explicado como “aquilo que numa formação ideológica dada. constituindo-se. 1997a. pois. p. por meio dessa compreensão. não há sujeito sem ideologia e só há ideologia porque há sujeitos e sociedade.)” (PÊCHEUX. Analisar a categoria de ‘sujeito’ como se apresenta sob o prisma althusseriano (reiterado na tese pecheutiana do assujeitamento) é aceitar “a evidência de que vocês e eu somos sujeitos – e até aí não há problema – [e que] este é um efeito ideológico. de um sermão. In: GADET e HAK. Segundo este autor. Esse processo marca definitivamente o assujeitamento ideológico a que os indivíduos estão submetidos. de modo que. Pode-se afirmar que as palavras estão imersas em um discurso afetado pelo lugar social de onde é enunciado (afinal. assim.

como se o discurso ocorresse em um espaço já construído e independente do discurso. sob certa perspectiva. deve validar através da sua própria enunciação: qualquer discurso. por exemplo. onde. assim. p. Não existe sentido fora da ideologia. Esse ponto cego – o esquecimento – lhe é fugidio. p. é que do sujeito é cobrado um “posicionamento”. (sem grifos no original). não existem sujeitos fora da ideologia. isto é. ou seja. amigável etc. o conceito é cunhado por Maingueneau (2008. Em verdade. O assujeitamento se configura no espaço enunciativo. “ao dizer que os sujeitos ‘funcionam sozinhos’ porque são sujeitos. limitado. útil – que tem suas regras de aparecimento e também suas condições de apropriação e de utilização. 1997a. 163). o objeto de uma luta. é que se pode afirmar que. e a cada vez imprevisíveis. p. desejável. 94). um bem que coloca. 70): Como construída pelo próprio texto: um sermão pode ser enunciado por meio de uma cenografia professoral. quando se sabe escutar. para terem condições de assumirem o papel que lhes cabe. providência que sempre falou antecipadamente e que faz com que se ouça. por sua vez. oráculos retrospectivos. por meio de formações discursiva que não demarcam um lugar discursivo. se. por natureza. A cenografia não é pois um quadro. [Pêcheux] fez com que algo novo fosse ouvido” (PÊCHEUX. O que se tem. (FOUCAULT. p. por seu próprio desenvolvimento. como e quando se instituíram as perspectivas daquilo que é bom ou mau. um ambiente. por conseguinte. 139 – sem grifos no original). mas aquilo que a enunciação instaura progressivamente como seu próprio dispositivo de fala. ______ [ 8 ] . desde sua existência (e não simplesmente em suas ‘aplicações práticas’). indivíduos interpelados em sujeito pela ideologia. profética. Toda prática discursiva pertence a uma cenografia que envolve os sujeitos da enunciação. afinal. era (é!) algo insuportável. As problemáticas que se colocam à questão da(s) evidência(s) são parte significante da discussão em torno do fato de que os saberes de que dispõem os sujeitos não passam de formas discursivas “políticas” assumidas sem que eles saibam disso. sujeitos necessitam de um discurso para poderem pensar a si mesmos. A cenografia é a cena de fala que o discurso pressupõe para poder ser enunciado e que. ele aparece como um bem – finito. 296). um bem que é. de certo modo. e de uma luta política. p. o que. Dessa forma. 1995. pretende instituir a situação de enunciação que o torna pertinente. certo ou errado. escapa-lhe. “o sujeito se constitui pelo ‘esquecimento’ daquilo que o determina” (PÊCHEUX.Aparelhos Ideológicos do Estado (1985. a questão do poder. de modo que o discurso deixa de ser o que é para a atitude exegética: tesouro inesgotável de onde se pode tirar sempre novas riquezas. sempre. 1997a.

o esquecimento nº 1 remetia. estabelece-se uma relação de paráfrase e sinonímia com “meu filho é um doente/sou pai de um doente”. Por outro lado. uma primeira relação contraditória nessa união pouco estável: entre aqueles que (re)produzem um discurso estabelecido e o discurso em si. apelamos para a noção de ‘sistema inconsciente’ para caracterizar um outro ‘esquecimento’. Partindo desse ponto. isso ocorre. quando o sujeito “assume” para si um discurso. pois ______ [ 9 ] .) do retorno sobre o fio de seu discurso. dentre outras razões. o esquecimento nº 1. forma ou seqüência. por definição. p. na perspectiva do assujeitamento. por analogia com o recalque inconciente. determinado. da antecipação do seu efeito e da consideração da discrepância introduzida nesse discurso pelo discurso de um outro (como próprio outro) para explicitar e se explicitar a si mesmo o que ele diz e ‘aprofundar o que ele pensa’. então. que movimenta sentidos de censura ao preconceito em relação àqueles pais cujos filhos usam drogas. O primeiro é da ordem do ideológico e o segundo dá ao sujeito a impressão de que o que foi dito só poderia ser dito do modo que foi. Para exemplificar. caberia aos sujeitos se compreenderem. de modo particular. não há mais que práticas ideológicas sendo enunciadas. Concordamos em chamar esquecimento nº 2 ao ‘esquecimento’ pelo qual todo sujeito-falante ‘seleciona’ no interior da formação discursiva que o domina. para que outros sejam postos em cena. ele passa a ser. não como “eu”. (1997a. a partir das consequências da enunciação do discurso da adicção que reorganiza a formação discursiva dominante.. no entanto. que.na verdade (o que é a verdade?). que dá conta do fato de que o sujeito falante não pode. 173). Nesse sentido.. pode-se pensar no caso de quando os pais de um viciado em drogas enunciam “meu filho é um adicto”. e não um outro. a esse exterior. Parece ser senhor de um dizer desejoso de enunciar sua verdade. retoma-se Pêcheux que. 1997a. está no campo daquilo que poderia reformulálo na formação discursiva considerada. (PÊCHEUX. Nas palavras do autor. se encontrar no exterior da formação discursiva que o domina. porque o sujeito se utiliza constantemente (. dividiu-o em dois. no sistema de enunciados. Estabelece-se. mas como “nós”? Segundo o autor. Primeiramente. isto é. na medida em que – como vimos – esse exterior determina a formação discursiva em questão. formas e seqüências que nela se encontram em relação de paráfrase – um enunciado. definindo-os como esquecimento nº 1 e esquecimento nº 2. 174). Para a reflexão sobre o modo de funcionamento no discurso do conceito de ‘esquecimento’.

p. efetivamente. os quais nunca são neutros. mais “digna”. propiciando o exercício de práticas de autoridade e de autonomia forjadas pela pretensa ilusão inscrita de uma falsa subjetividade. a ser perdido no non-sens do significante” (PÊCHEUX. afinal “estamos inscrevendo nessa forma-sujeito a necessária referência do que eu digo àquilo que um outro pode pensar. mas que constitui a “impressão” necessária para que o sujeito faça a escolha sobre uma ou outra forma de enunciar. Isso acontece sem que os sujeitos tomem. a complexidade que envolve os atos de enunciação. a não-ditos que significam: o filho rouba. na medida em que aquilo que eu digo não está fora do campo daquilo que eu estou determinado a não dizer” (PÊCHEUX. como se estabelecem as relações entre os sujeitos e as práticas enunciativas. 55). marca. o filho é maltrapilho. consequentemente. p. 173). mas não é vagabundo. que passa a atravessar esse sujeito social a partir do discurso da adicção: muda-se o discurso e a ordem dos sentidos é alterada. do interior dessa materialidade. no domínio do inconsciente está ‘sempre já’ desligado de uma formação discursiva que lhe fornece seu sentido. desse modo. mas não é mendigo.a enunciação “meu filho é um adicto” leva. 1997a. que não deixa rastros ou pistas. mas que simplesmente torna possível. a insistência do outro como lei do espaço social e da memória histórica. lembrando os conflitos que se instauram nas negociações discursivas entre os sujeitos. constroi identidade para o sujeito e o faz uma voz na sociedade. Deve-se considerar como a relação entre os sujeitos é atravessada pelas Formações Imaginárias: ______ [ 10 ] . consciência das condições exteriores que os determinam. enquanto significante verbal. (PÊCHEUX. Aceita-se. de modo que “o que cai. que ilustra. inclusive. o filho abandona os estudos ou o emprego. No fim do processo. em partes. logo como o próprio princípio do real sócio-histórico”. o filho agride. mas não é ladrão. 176 – grifos do autor). a tentativa falha de demonstrar o seu funcionamento: “Esse discurso-outro. há. Passa-se de uma formação discursiva em que todo drogado é um mau elemento. 1997a. Uma prática enunciativa pertencente a uma formação discursiva. Para a demonstração. 1997c. retoma-se o quadro abaixo. mas não é um agressor. sob a “escolha” de um termo e não de outro. ainda que ilusória e não crítica. p. o Esquecimento nº 1. para outra formação discursiva. enquanto presença virtual na materialidade descritível da sequencia.

1993) expõe no quadro acima. 172).. “de tal modo que cada um seja conduzido. em todo discurso. conforme Pêcheux (1969. e tendo a impressão de estar exercendo sua livre vontade. na apresentação da AAD-69.” (PÊCHEUX. isto é. A forma como isso afeta as relações do sujeito com o discurso diz respeito ao fato de que. já que o discurso de cada um reproduz o discurso do outro. p. 1997a. O discurso. inscreve-se um conjunto de formações imaginárias que leva o sujeito a fazer “escolhas” a partir dos jogos de imagem que se travam entre os interlocutores. sobretudo. In GATED E HAK. sinonímias e etc. 1975. Os sujeitos estão submetidos a determinadas condições de produção. 178). 1993. 161). um dos problemas levados ao extremo por Pêcheux. p. p. p. 166) numa dada situação: retoma-se. então. Para ele. então. a ocupar o seu lugar” (PÊCHEUX e FUCHS. ”todo discurso é ocultação do inconsciente” ou “o inconsciente é o discurso do Outro” (1997a. sem se dar conta. segundo Pêcheux e Fuchs (1975. deve-se lembrar que ele parte de uma releitura de Freud. a questão de assujeitamento ideológico. conforme as relações de força (inconsciente) travada entre os interlocutores. Os sujeitos assumem uma forma-sujeito. revendo. p. In: GADET E HAK. e com razão. num “espaço de reformulação-paráfrase onde se constitui a ilusão necessária de uma ‘intersubjetividade falante’ pela qual cada um sabe de antemão o que o ‘outro’ vai pensar e dizer. paráfrases.Como se pode observar. que funcionam entre elementos lingüísticos – ‘significantes’ – em uma formação discursiva dada” (PÊCHEUX. nesse “jogo”. seja ______ [ 11 ] . Althusser e Lacan. 133). é tido “como um sistema de relações de substituição. a relação do sujeito com o inconsciente. 1997a. Em relação à incorporação dos estudos de Lacan à Análise de Discurso.

além disso. 177). sob as palavras. há. desse sistema” (PÊCHEUX. na medida em que o deslize. sob a inocência da fala e da escuta. pode-se confirmar a tese da “a ascendência dos processos ideológicodiscursivos sobre o sistema da língua e o limite de autonomia. a falha e a ambigüidade são constitutivos da língua. faz com que tudo não possa ser dito e. na retomada de Freud por Lacan. Nesse sentido. do inconsciente. é dividido entre consciente e inconsciente (“sujeito clivado”). complementando as remissões teóricas feitas até aqui. o ‘querer dizer’ do discurso do inconsciente. 1997a. a profundeza determinada de um fundo duplo. 107). com a finalidade de buscar o desvelamento da opacidade linguística frente à incompletude da linguagem: “A ordem simbólica. porém o que se deseja observar. 62). Para Mussalim (2001. cuja compreensão é necessária. p. Esta é uma posição reiterada por Pêcheux (1997b. da escola. 1996. de modo mais ou menos explícito. como se houvesse sempre. em “Ler o arquivo hoje”: A materialidade da sintaxe é realmente o objeto possível de um cálculo – e nesta medida os objetos lingüísticos e discursivos se submetem a algoritmos eventualmente informatizáveis – mas simultaneamente ela escapa daí. p. a presença do Outro (com “o” maiúsculo). cuja origem é exterior ao sujeito: ele encontraria raízes no discurso dos pais. 45). este aponta que Lacan assume que o inconsciente se estrutura como uma linguagem. (ORLANDI. p. parece haver a necessidade de crer em identidade. por outro lado. logo do que falar (e calar) quer dizer: que este ‘quer dizer’ do falar e do escutar descobre.ele de que esfera for. afetando o sujeito. Posto em cena o sentido. outras palavras. Pêcheux (1997c. cita: Foi a partir de Freud que começamos a suspeitar do que escutar. é o funcionamento desses elementos linguísticos sob a luz da ideologia. que. 63). Na perspectiva teórica da Análise de Discurso. em referência a Althusser. p. haja em todo dizer uma parte inacessível ao próprio sujeito”. historicamente variável. configurada pelo real da língua e pelo real da história. subjetividade e autonomia intelectual. como uma cadeia de significantes latentes que se repete e interfere no discurso efetivo. da igreja. da sociedade em geral. Entende-se que se tratam ______ [ 12 ] . na perspectiva de Freud. de modo que haveria sempre a voz do Outro presente. como se o discurso fosse sempre atravessado pelo discurso do Outro. e é por aí que a questão do sentido surge do interior da sintaxe. p. entende-se que analisar a língua propicia entendimentos voltados para o sistema linguístico em si.

190 e 124) se constitui sócio-históricamente sob a forma de pontos de estabilização que produzem o sujeito. mas reproduzi-los sem reflexão sobre por que se diz o que se diz da forma como se diz. de que os saberes que se configuram em certezas e pontos de vistas particulares tão próprios do discurso do sujeito-capitalista – que não se cansa de afirmar “Eu falo” – venham a ruir frente a tais pressupostos: “o que chamamos ‘domínio de pensamento’ (1997ª. etc. mais tecnicamente. Essa ilusão sobre a autonomia discursiva. estatutos. a empresa.) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível” (PÊCHEUX. ______ [ 13 ] . a escola. E há uma enorme produção de textos (falados ou escritos) que trabalham essa divisão: regimentos. Pêcheux. Para o autor. Entre as páginas 162 e 180 da obra Semântica e Discurso. etc. o partido. discursos-transversos. o professor. programas partidários. 96) reflete sobre esse processo silencioso e o modo como os sentidos vão sendo estabelecidos. Para a autora. 1999. tão necessária. Os aparelhos de poder de nossa sociedade geram a memória coletiva. memória. o Estado. não apenas os faz incorporar discursos. Orlandi (1996. tomando-os como fontes de verdades ou mentiras: não se questiona de onde vem a fidelidade de manutenção de um posicionamento discursivo sobre os mais diversos temas. de modo mais enfático. aquilo que lhe é dado a ver. o gerente. elementos citados-relatados.de ilusões necessárias para os indivíduos se sentirem e serem interpelados em sujeitos. em outro lugar. e independentemente’”. Os sentidos não estão soltos. Seja essa instituição a igreja. Em todo discurso podemos encontrar a divisão do trabalho de interpretação. “uma memória discursiva que. livros didáticos. os que fazem os gestos repetidos que impõem aos sujeitos seu apagamento através da instituição. com. o líder partidário. É nesse sentido que tomam forma os conceitos de interdiscurso. a falar e a escrever (os que são intérpretes e autores com obra própria) dos outros. no sentido de que “’algo fala’ (ça parle) sempre ‘antes. de modo geral. vem restabelecer os ‘implícitos’ (quer dizer. eles são administrados. mas é falado. p. buscando colocá-los à luz de uma compreensão que ratifica a tese de que o sujeito não fala. distribuídos pelas diferentes posições dos sujeitos: o padre. 52 – sem grifos no original). compreender. ainda. 162). correspondentemente. face a um texto que surge como acontecimento a ler. Dividem os que estão autorizados a ler. p. discute estes conceitos. ou. etc. pré-construído e discurso transverso a que Pêcheux (1997a. por que se é levado a crer em determinados discursos e não em outros. (sem grifos no original). ter-se-ia. p. os pré-construídos. denomina “’todo complexo com dominante’ das formações discursivas”. simultaneamente. o líder sindical. em relação aos sujeitos. constituições. etc. pp. panfletos.

as práticas de análise sobre os não-ditos ganham em significação. 161). 37). para a Análise de Discurso. e isso é significativo. p. Faz-se um parêntese para explicar como. este sendo o sentido a se descartar do dito. 1997a. com a formação discursiva que o assujeita (1997a. “quando se quer liquidar os povos. p. 261). E continua: Observaremos que o interdiscurso enquanto discurso transverso atravessa e põe em conexão entre si elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construído. por exemplo. “‘refletindo o que todo mundo sabe. p. 1997a. por assim dizer. permite calar o que cada um entende sem confessar’” (ORLANDI. demonstra como o sentido se instaura a partir das práticas de silenciamento ou de como o silêncio é constitutivo dos sentidos. o silêncio constitutivo pertence à própria ordem da produção do sentido e preside qualquer produção de linguagem. em razão do apagamento revelador daquilo que fica ausente no discurso. já que ele é caracteristicamente o contrário. sendo esse não-dito o que efetivamente significa em razão dos apagamentos e silenciamentos que sofre. impera o silêncio. etc. “Quando não falamos. Por aí se ______ [ 14 ] . a contemplação” (p. esperar. daí a constituição dos silêncios que significam. Para a autora. 60). p. Orlandi. não estamos apenas mudos. Nesse momento. os conceitos de “silêncio” e de “memória” significam. Assim. pode-se afirmar que. não devendo ser interpretado ou confundido com o estudo dos implícitos (como o entende a pragmática). pois se entende que há uma inter-relação entre eles no sentido de que o segundo atua no desvelamento do primeiro e por ambos se constituírem em ferramentas relevantes para a análise dos corpora. que fornece. 60). A autora afirma que o princípio da historicidade é fundamental para tornar o silêncio “visível e interpretável. Valendo-se da citação de Milan Kundera por Pêcheux (1997b. Eis o que torna possível afirmar que “o não-dito precede e domina a asserção” (PÊCHEUX. a matéria prima na qual o sujeito se constitui como ‘sujeito falante’. Representa a política do silêncio como um efeito de discurso que instala o antiimplícito: se diz ‘x’ para não (deixar) dizer ‘y’. É a historicidade inscrita no tecido textual que pode ‘devolvê-lo’. compreensível” (2002. em As formas do silêncio (2002). p. temer. 2002. torná-lo apreensível. Sobre a constituição do conceito de silêncio. É o não-dito necessariamente excluído. na ausência dela. 167 – grifos do autor). de modo que. estamos em silêncio: há o ‘pensamento’. p. a introspecção. 40). pois o silêncio tem status próprio. se começa a lhes roubar a memória” e. interessa ressaltar o caráter fundador do silêncio.” (PÊCHEUX.fazer.

(. tece uma explicação para os implícitos que evoca a questão da memória. 2002. p. é sempre determinada pelo interdiscurso. a metáfora. polêmicas e contra-discursos. 263). paráfrases. a partir da questão “onde residem esses famosos implícitos..) O interdiscurso é fundamentalmente marcado pelo que chamamos a lei de não-conexidade. (. portador de uma memória discursiva.) o sentido existe exclusivamente nas relações de metáfora (realizadas em efeitos de subordinação. se existe uma prática de silenciamento que impõe sentidos (quer se deseje isso ou não). uma expressão ou uma proposição por uma outra palavra. sendo que ele.. (. A fim de propiciar uma visão geral do quadro em que se constituiu a teoria. 1999.) o sentido não se engendra a si próprio.. (PÊCHEUX. Ainda sobre a problemática posta sobre o sentido e o processo de enunciação que ilusoriamente faz o sujeito se ver como dono de seu dizer. na condição de sujeito sóciohistórico e ideológico. de conflitos e regularização. colocam-se em cena o objeto de leitura e o sujeito leitor. Para ele..apagam os sentidos que se quer evitar. expressões. para o autor.. enquanto lugar do Outro (.. p. uma via para a instauração dos sentidos. Pêcheux apresenta uma reflexão sobre o mesmo como processo metafórico de significação: o sentido é sempre uma palavra. uma ‘outra’ região de sentidos.. Um espaço de desdobramento. por meio da materialidade discursiva.. de disjunções. para a sua captura. cujas bordas seriam transcendentais históricos e cujo conteúdo seria um sentido homogêneo. das quais certa formação discursiva vem a ser historicamente o lugar mais ou menos provisório: as palavras. (PÊCHEUX. que estão ‘ausentes por sua presença’?”. por uma região do interdiscurso. Essa seria.) Na verdade. Então. promove leituras sobre os sentidos não estabelecidos. acumulado ao modo de um reservatório: é necessariamente um espaço móvel de divisões. p. determinando consequentemente os limites do dizer. proposições recebem seus sentidos da formação discursiva à qual pertencem. em o Papel da Memória (1999). ainda que se peque pelas omissões e superficialidade com que alguns ______ [ 15 ] . Pêcheux. constitutiva do sentido.. pode-se dizer que o que torna possível a metáfora é o caráter local e determinado do que cai no domínio do inconsciente.. O silêncio trabalha assim os limites das formações discursivas. uma memória não poderia ser concebida como um esfera plana. formações de sinônimos). mas se deve verificar que. pois. não basta observar o fio do discurso. 76). 1997a. sentidos que poderiam instalar o trabalho significativo de uma ‘outra’ formação discursiva. de deslocamentos ou de retomadas. Nessa medida. mas ‘se produz no non-sens’. (ORLANDI. 56). réplicas. uma outra expressão ou proposição.

de uma pura atividade cognitiva. o objeto da Linguística” (PÊCHEUX. considerando as problemáticas levantadas sobre as orações restritivas e explicativas. “As aporias de uma semântica puramente intralinguística (ou de uma pragmática insensível às particularidades da língua). morfológicas e sintáticas. p. subjetiva. retoma-se a discussão proposta por Pêcheux. em vias de dar conta dessa fecundidade. Por meio da análise de enunciados desse tipo. E. 55). p. essa porta aberta é a concepção saussuriana de que a ideia só poderia ser. explicitando que a fala não é o discurso e. explicando que a compreensão para os sentidos que se configuram naquelas orações são um problema de ordem político-filosófica e não apenas linguística. na língua. Pêcheux tece críticas em relação ao par língua/fala. citando Paul Henry. na materialidade linguística. 1997a. enquanto conjunto de estruturas fonológicas. é dotado de uma autonomia relativa que o submete a leis internas. 91). sobretudo a perspectiva idealista platônica. explicitando suas falhas e rompendo com esquemas estabelecidos. 1997a. em todo seu alcance. precisamente. De onde a oposição da subjetividade criadora da fala à objetividade sistemática da língua. 60). o autor se infiltra nas brechas abertas pelo estruturalismo linguístico. Pêcheux encontrou as bases linguísticas (e epistemológicas) para defender a tese de que as escolhas que o sujeito faz para a organização do discurso estão determinadas. etc. Por meio do estudo dos sentidos que se configuram nas orações adjetivas explicativas ou restritivas. 91). sobre a base dessas leis internas que se desenvolvem os processos discursivos. afirma que “todo sistema linguístico. que utilizaria ‘acidentalmente’ os sistemas linguísticos” (PÊCHEUX.. as perspectivas do realismo metafísico e do empirismo lógico. e as reflexões sobre a especificidade do arquivo textual. 1997a. pelo aparato ideológico que a sobredetermina.dos temas possam ser tratados. o que o levaria a revelar. p. as quais constituem. (PÊCHEUX. levam a pensar que uma pesquisa multidisciplinar é indispensável para um acesso realmente fecundo”. individual. pois. uma prática discursiva afetada pelo sistema ideológico de que faz parte. E continua sua reflexão no sentido de demonstrar que “É. O autor contesta os posicionamentos de base estruturalista positivista ______ [ 16 ] . como se pode observar (a exemplo) na citação abaixo: Saussure deixou aberta uma porta pela qual se infiltraram o formalismo e o subjetivismo. isto é. p. e não enquanto expressão de um puro pensamento. ele problematiza os aportes teóricos que as sustentam. Segundo o autor (1997b.

eu falo. ______ [ 17 ] . para. eu te vejo. historicamente. não uma nova ciência.) é observado dos bastidores. no sentido lingüístico desse termo. sobretudo. ao contestar as bases epistemológicas que buscam tornar evidente que a linguagem é uma forma de comunicação livre dotada de autodeterminação por parte dos sujeitos. parte de um olhar filosófico para explicar a causa daquilo que falha – a língua. sempre. lá de onde se pode captar que se fala do sujeito. em suma. 26). entre a concepção husserliana da subjetividade como fonte e princípio da unificação das representações e a concepção fregeana do sujeito portador de representações. onde não há espaço para a presença de um indivíduo falante. p.).(PÊCHEUX. É contra essa forma de pensar que o autor se posiciona. Mas é a partir dos estudos marcados pelo olhar teóricofilosófico crítico do autor em relação às práticas estruturalistas de compreensão do discurso que Pêcheux estabelece outra ordem de pensamento. ao apresentar as perspectivas teórico-filosóficas de língua(gem) que se baseiam num olhar contrário aos pontos teóricos por ele defendidos.. entre as páginas 41 e 63 da obra Semântica e Discurso. eu te falo. a soberania do sujeito ideológico sobre a língua. p.) aparece como duplo literário da subjetividade filosófica: a subjetividade se torna ao mesmo tempo o excedente contingente que transborda o conceito e a condição indispensável da expressão desse conceito”. mas para alguém interpelado em sujeito pela ideologia. 154). 1997a. ao que ele denomina duas formas/ pensamentos conceituais que esbarram em problemas que ele busca elucidar. porque o seu funcionamento se constitui na materialidade necessária ao analista. (PÊCHEUX. “de uma maneira tal que o teatro da consciência (eu vejo. Para ele. enfim. Assim. reafirmando. em primeiro plano. 1997a.e. de Kant até nossos dias. trata-se de por em movimento a contradição que atravessa a tendência formalistalogicista sob as evidências que constituem a sua fachada. (PÊCHEUX. firma-se o posicionamento analítico de Pêcheux. que se fala ao sujeito. mas uma Teoria do Discurso. eu penso. de compreender como aquilo que hoje é tendencialmente a ‘mesma língua’. autoriza funcionamentos de ‘vocabulário – sintaxe’ e de ‘raciocínios’ antagonistas. etc. Pêcheux. a primeira tem dominado constantemente e recoberto a segunda. é bem claro que. Trata-se (. antes de que o sujeito possa dizer: ‘Eu falo’” . descontroi tais estudos. 1997a. defender seu modo de conceber. 57 – grifos do autor). que não opera apenas sobre as marcas linguísticas. o que não significa que as ignore. p.. a tal ponto que o mito romântico da criação e do autor (o ‘eu’ único que se exprime. etc. Ora.

mas é experienciado por ela. p. e os sujeitos são sujeitos porque são sujeitos: mas. fundamentalmente. são efeitos de. já que. da sua cultura. 76 – grifos do autor). incansavelmente. Os discursos são uma representação das sociedades: dos seus valores. durante muito tempo. da moral adquirida por meio das práticas difundidas pelas religiões. buscaram ______ [ 18 ] . efeitos de sentido postos em “evidência”. sob essa evidência. há o absurdo de um círculo pelo qual a gente parece subir aos ares se puxando pelos próprios cabelos” (PÊCHEUX. O sujeito não é o portador da palavra. 1997a. o efeito de assujeitamento sofrido pelo sujeito e a condição de o sujeito enunciar a partir de uma formação discursiva afetada pelas relações de força que silenciosamente estão presentes nos discursos: “Ninguém compreende a proposição há pedaços de bolo da mesma maneira que compreende a proposição há corpos regulares.que são o empirismo logicista (subordinação ao objetivo do subjetivo) e o realismo metafísico (subordinação ao subjetivo do objetivo). que. vem ao encontro do modo de perceber que. pela escola. são. esses dois teóricos. para a Análise de Discurso. em nome de um sentido. “o essencial consiste em colocar a independência do mundo exterior em relação ao sujeito. o que há. Aproximam-se nesse momento. Pêcheux contesta toda forma de obviedade que possa sustentar a relação de sentido entre a coisa e o nome: “Em suma. Os estudos dos processos discursivos foram. (como já dito). como se sabe. No primeiro caso. porque não interessava a reflexão sobre por que se diz o que se diz da forma como o dito está sendo enunciado. a categoria filosófica do processo sem sujeito. segundo o autor. ou quem são os sujeitos da interação e de que forma as condições de enunciação os afetam. colocando simultaneamente a dependência do sujeito com respeito ao mundo exterior” (PÊCHEUX. mas que aqui e agora – com café – haja pedaços de bolo”. aquele que falava não era ouvido. O que existe. pelo estado. quando entram em cena as condições de produção do discurso. p. 1997a. ou de onde vêm os discursos e como eles significam. o que faz emergir. a qual ele chama de “essencialmente ocasional”. assumindo posição contra as duas correntes teóricas que ele denominou de objetivismo abstrato e de subjetivismo idealista. em Marxismo e Filosofia da Linguagem. A citação que Pêcheux faz de Husserl. Para o autor. em verdade. negligenciados pelas ciências da linguagem. conforme afirma em sua obra. pelas relações familiares e etc. Pêcheux e Bakhtin. 32). problematiza as circunstâncias tensas em torno do signo linguístico. o que se visa não é que haja pedaços de bolo em geral e em absoluto. que defende pressupostos de base materialista. a evidência diz: as palavras têm um sentido porque têm um sentido. cada um a seu modo. Bakhtin.

contudo. 1997b. p. 60 – grifos nossos). de uma normalização asséptica da leitura e do pensamento. A consciência individual é um fato sócio-ideológico. (ORLANDI. p. “o deslize. afirma-se. porque. “Compreender. por que. num primeiro momento. eu diria. pois discute seus pressupostos continuamente”. e de um apagamento seletivo da memória histórica. tomados pela ideologia. são demasiadamente cegos e surdos ao fenômeno polissêmico e polifônico2 dos discursos. para a teoria. criticar a mesmice que não permite outros olhares e se fecha a controvérsias sobre as afirmações que conduzem às práticas monofônicas dos sentidos: “o risco é simplesmente o de um policiamento dos enunciados. como afirma Orlandi (2000. porém não mudos. A consciência individual não só nada pode explicar. mas efeitos de sentido sócio-historicamente construídos. Ratificando essa concepção de avaliação sobre a teoria. E. 62). a falha e a ambiguidade são constitutivos da língua.explicitar o fato de que nada escapa à ideologia. 1996. E pode ser. não permitindo que sua materialidade seja apagada e leve os sujeitos a respostas superficiais. silenciosamente. p. não existe um sentido. 35 – grifos do autor). é saber que o sentido poderia ser outro”. já que se faz necessária a perpetuação de um status quo por meio das repetições incessantes dos saberes legitimados. p. que formem um grupo (uma unidade social): só assim um sistema de signos pode constituir-se. deve ela própria ser explicada a partir do meio ideológico e social. (BAKHTIN.” (PÊCHEUX. Deve-se.” (PÊCHEUX. que ______ [ 19 ] . mas. ainda. E. Não existe relação de neutralidade entre os sujeitos e os discursos lidos ou proferidos. ela não acumula conhecimentos meramente. impõem-se relações de poder. A Análise de Discurso implica num aprendizado constante e a compreensão dos dispositivos de análise representa a condição de leitura que leva à superação tanto da ingenuidade quanta da arrogância de ser senhor do sentido. É considerando tais críticas propiciadas pelos estudos discursivos que se recorre à Análise de Discurso: uma disciplina que interroga os discursos. porque. 1997b. A teoria leva ao saber que não é por meio de um estudo imanente da língua que se chega a compreender a ordem silenciosa de organização dos discursos: como “uma disciplina de entremeio não positiva. 116). Assim. 23). entre eles – sujeito e discurso –. É fundamental que esses dois indivíduos estejam socialmente organizados. os indivíduos enquanto indivíduos. de fato: Não basta colocar face a face dois homo sapiens quaisquer para que os signos se constituam. 1999. por mais que ocorram deslizes de sentidos. p. ao contrário.

O que ela faz é problematizar a relação com o texto. o é): “E nisso não vai uma avaliação de demérito. Talvez se possa dizer da Análise de Discurso o que Foucault disse do Marxismo e da Psicanálise: que são muito importantes para serem ciências. 1997b. de uma disciplina e de uma prática de orientação teórica para a leitura.. atribuir um sentido. ela foi fundada a partir dos estudos de Pêcheux. Outro nome que esteve presente nos primórdios da Análise de ______ [ 20 ] . para o linguista. Dubois. para o filósofo. 2005. procurando apenas explicitar os processos de significação que nele estão configurados. já. 18 – sem grifos no original). mas conhecer os mecanismos pelos quais se põe em jogo um determinado processo de significação. quanto com os métodos estatísticos em vigor nas ciências humanas.A análise de discurso não é um método de interpretação. ela “é pensada como ruptura epistemológica com a ideologia que domina nas ciências humanas” (especialmente a psicologia). Contudo. pois. por exemplo. não atribui nenhum sentido ao texto. Segundo a autora (1997b.. 2000. eles partilham as mesmas evidências sobre a luta de classes. Encerra-se. os olhares divergem. dois importantes nomes: Jean Dubois e Zellig Harris.” (MALDIDIER. 399). a Análise de Discurso tinha o seu limite pensado na passagem “natural” da palavra ao enunciado. p. [a Análise do Discurso como modo de leitura]. rompendo com a prática do comentário literário. (. num ruptura tanto das práticas de explicação de texto. sobre a história. não é. Trata-se. p. Sem ignorar as diferenças que marcavam os interesses de ambos. a questão da leitura. ao seu lado. já que se tratava de um linguista e um filósofo. deve substituir a subjetividade do leitor unicamente pelo aparelho da ‘gramática’. que teve.” (POSSENTI. portanto. p. 17). (ORLANDI. a relação primeira que marcou o encontro entre Pêcheux e Dubois. (MALDIDIER. os mecanismos de produção de sentidos que estão funcionando. Compreender. aqui. algo os unia no espaço comum entre o marxismo e a política: “Na contramão das ideias dominantes. 117). 1997b.) Em Pêcheux. por sua vez. p. Por fim. é colocada desde 1969 nos terrenos de uma teoria não subjetiva. 19). antes pelo contrário. na França. sobre o movimento social. p. Remetendo a literatura ao que ele considera como sua miséria metolológica. que se tornará posteriormente um tema decisivo. Surgida na década de 60. como mencionado. A Análise de Discurso não é tida como uma ciência (como a Linguística. Dubois esteve lado a lado de Pêcheux no início da disciplina. na perspectiva discursiva. Em J.

o foco das problematizações de Pêcheux. p. de certo modo. contudo. 2003. 163-164). atravessadas e articuladas por uma teoria da subjetividade (de natureza psicanalítica). como teoria das formações sociais e de suas transformações. da teoria do discurso. sobretudo. a análise de discurso que se conhece é orientação para a análise dos mais diversos corpora. 3. da linguística. ao tratar de maneira própria o que é língua. Pode-se afirmar que. Por meio dos constantes embates e debates que a marcaram. como teoria da determinação histórica dos processos semânticos. A partir das crises sócio-políticas que afetavam o cenário Francês. o sujeito” (MALDIDIER. [Mas] o lugar teórico em que se intrincam literalmente todas suas grandes questões sobre a língua. 1993. os corpora políticos efetivamente dominavam o cenário. o método “mostrou-se insuficiente para os propósitos da Análise de Discurso. a menção aos dois autores que marcaram as reflexões de Pêcheux ao elaborar o que viria a ser a disciplina de Análise de Discurso de orientação francesa não poderia ser apagada. Porém. Convém explicitar ainda que estas três áreas são. Não [sendo] jamais um objeto primeiro ou empírico. compreendendo as condições de produção do seu fundador. 15). eclodem as ideias de Pêcheux. 2. materialismo histórico. portanto. teve seu estudo apropriado por Pêcheux para a análise das superfícies discursivas. Nesse sentido. Porque ela afirma o real da língua mas também o ______ [ 21 ] . Pêcheux foi aquele para quem o discurso significou “um verdadeiro nó.” (MUSSALIM. o que é sujeito. na sua origem. segundo texto de Pêcheux e Fuchs publicado em 1975 (In: GADET e HAK. que buscava reintegrar uma teoria do sujeito e uma teoria da situação. Pensada a partir do entremeio teórico de três grandes áreas do conhecimento. Precursor das análises transfrásticas. Inicialmente. p. Porque ela mostra que a questão semântica ‘não é apenas mais um nível de análise mas é o ponto nodal em que a lingüística tem a ver com a filosofia e com as ciências sociais’. Ainda que de forma breve. a história. que rompem e desestabilizam com os pensamentos dominantes e que afetam. São elas: 1. como teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação ao mesmo tempo. os saberes cristalizados pelas ciências humanas e sociais. o que é sentido. pode-se afirmar que a Análise de Discurso desorganiza a relação da lingüística com as ciências humanas e sociais. 2001. p. a teoria estava centrada na análise de discursos políticos. tornando-se.Discurso é o de Harris e o seu método denominado harrisiano. Hoje. 116). compreendida aí a teoria das ideologias. a Análise de Discurso se articula por entre seus conhecimentos.

nem sistema. ele escapa sempre (p. um recorte da obra A Inquietação do Discurso: (Re)Ler Michel Pêcheux Hoje (2003). explicitou. o sentido pode ser cercado. buscou-se refazer o percurso. questionamentos. a obra busca apresentar um relato cronologicamente organizado sobre os caminhos percorridos pelo filósofo para chegar à fundação da Análise de Discurso. Porque ela liga materialmente inconsciente e ideologia e trabalha não só com a interpretação mas também com a descrição. (p. ao mesmo tempo. Neste novo contexto. sobre as bases de fundamento da Análise de Discurso significa retomar os percursos teóricos de Pêcheux e. retificou. Retorno do sujeito. a seguir. a incessante retomada do já-dito. p. dando continuidade a seus estudos. o materialismo histórico e a psicanálise. como o que segue. de Denise Maldidier. De acordo com Maldidier (2003). Considera-se. buscaram aprofundar as pesquisas realizadas nos primórdios da teoria. sem deixar de ser filósofo” (p. progressivamente. desestabilização das positividades. até o limite do possível. Pêcheux “não produziu nem síntese. aprofundando conceitos e/ou dando a eles novas roupagens. No intuito de compreender relativamente os percursos de Michel ______ [ 22 ] . enquanto conceito ligado a um dispositivo. para que sua desconstrução produzisse iluminações. de outro. o sentido se forma na história através do trabalho da memória. Seu percurso encontra em cheio a virada da conjuntura teórica que se avoluma na França a partir de 1975. De modo geral. O percurso de Michel Pêcheux deslocou alguma coisa. 96). De uma ponta a outra. Desse modo. Era sem dúvida preciso que a teoria fosse construída. Crítica da teoria e das coerências globalizantes. 97). Ele. Michel Pêcheux tentou. ainda que o exposto nesse texto refaça caminhos já trilhados. o amadureceu. 15) e aquilo que hoje se conhece por dispositivos analíticos da Análise de Discurso faz parte de um processo de construção e des-contrução por parte de “um filósofo que se tornou linguista. 2002. sob o signo da articulação entre a linguística. 33). 16) Discorrer. Deixávamos o tempo da ‘luta de classes da teoria’ para entrar no ‘debate’. (ORLANDI. designava para ele. provocando novas fissuras. re-pensar tudo o que o discurso. Selecionaram-se alguns trechos. portanto. o que ele teorizou sob o nome de ‘discurso’ é o apelo de algumas ideias tão simples quanto insuportáveis: o sujeito não é a fonte do sentido.real da história. Nas palavras da autora. daqueles que. derivas na direção do vivido e do indivíduo. Deslizamento da política para o espetáculo! Era a grande quebra. de um lado. após sua morte. muitas vezes. mas deslocamentos e questionamentos” (p. a fim de dar visibilidade aos pensamentos e percursos seguidos pelo autor: O projeto de Michel Pêcheux nasceu na conjuntura dos anos de 1960. posteriormente. Porque ela inscreve o sujeito na análise.

na AD-1 (p.) AD-1 é um procedimento por etapa. p. publicado pelo próprio Pêcheux (In: GADET e HAK. Deve-se ressaltar que. restrita teórica e metodologicamente a um começo e um fim predeterminados. o que se pode considerar pontos que caracterizam cada uma das três fases e aquilo que as marca de forma expressiva. cuja explicitação daria conta de apresentar efetivamente como um dado discurso era organizado (por exemplo. 312-313). com a finalidade de “construir sítios de identidade parafrásticas interseqüenciais”. Você não fala. de forma sucinta. ainda que sejam oriundos de sítios discursivos circunscritos a uma mesma cadeia de significantes e pertencentes a um mesmo campo discursivo. que permita construir formalmente – a partir de um conjunto de argumentos. numa instituição da qual somos apenas porta-vozes. nesse sentido. Nas palavras de Pêcheux (1993). portanto. a ideia (que permanece em estado de ideia!) de uma álgebra discursiva. o momento conhecido como maquinaria discursiva. o autor revisita seus aportes teóricos e apresenta.Pêcheux. tomar-se-á o caminho metodológico que apresenta a teoria a partir das suas três fases. de onde os conceitos citados são retomados. 313 . no texto Análise de Discurso: Três Épocas (1983). é o sujeito assujeitado da Análise de Discurso. No horizonte. o discurso jurídico e etc. também. a autocrítica se instaura no âmago das discussões: se se partia da ideia de que haveria um discurso que definia (caracterizaria) os discursos em geral (o discurso religioso. aquele levado a “pensar que é livre. no caso. AD-75 e AD-83. As fases são cronologicamente denominadas como AAD-69 (Análise Automática do Discurso . 311-318).AD-1). devido à “autonomia” com que as análises se dariam sobre um corpus “fechado” a partir de “condições de produção estáveis e homogêneas” e que suporiam “a neutralidade e a independência discursiva da sintaxe”. resume Possenti (1990).sem grifos no original). predicados operadores de construção e de transformação de proposições – a estrutura geradora do processo associado ao corpus. tem-se. o discurso médicocientífico. com ordem fixa. 1993. Esse assujeitamento a uma única forma de pensar do sujeito inserido numa dada cadeia discursiva é levado ao extremo na fase da maquinaria.. Recorrendo. (. Essa concepção de organização dos discursos tem em vista um sujeito que. ao texto. e trabalhando num espaço em que as ‘máquinas’ discursivas constituem unidades justapostas. Contudo.. (p. é um discurso anterior que fala através de você”.). quando de fato está inserido numa ideologia. O que ocorre é a defesa de um movimento analítico que ignora a heterogeneidade e a polifonia por que os discursos são afetados pelo exterior. como se o modo de pensar dos sujeitos pertencentes a um partido político de ______ [ 23 ] .

se o conceito de formação discursiva representou um avanço na teoria. p. ultrapassando o nível da justaposição contrastada”.) puro efeito de assujeitamento” (PÊCHEUX. Compreender o assujeitamento. a “construção dos corpora discursivos. 1993.esquerda fosse sustentado por um discurso. p. 1993. por exemplo). chegar-se-ia à sua qualificação. porque eles são pano de fundo para os momentos de análise. Nesse momento. algo se mantinha: se a AD-1 partia do princípio de que uma FD estaria na “origem” do discurso em análise e. 315-316) firma ______ [ 24 ] . fornecendo-lhe suas evidências discursivas fundamentais. 315).. na análise de um discurso. fez “designar ‘o exterior específico’ de uma FD enquanto este irrompe nesta FD para constituí-la em lugar de evidência discursiva. contudo. que se desmonta definitivamente as maquinarias presentes na AD-2. O conceito de interdiscurso. 314) aos Aparelhos Ideológicos do Estado (conforme Althusser). afetando. É. (PÊCHEUX. pelo menos. Ter-se-iam formações discursivas em conflito como se se tivesse FDxFD que gerariam.” (PÊCHEUX. no segundo momento. p. nessa segunda fase. Pêcheux (1993. pois é. isso é reconsiderado em razão do conceito de Formação Discursiva apropriado de Foucault e da presença do conceito de Interdiscurso. “estoura” definitivamente com a ideia de maquinaria. sobretudo. 314). por meio da prática analítica. ‘invadida’ por elementos que vêm de outro lugar (isto é. de outra FD) que se repetem nela. respaldando-as. 314). apresentada por Foucault. submetida à lei da repetição fechada [conforme o proposto na AD-(1)]”. (PÊCHEUX. p. duas formas de “pensar” uma questão (o confronto entre os partidos de direta e de esquerda. préconstruído e discurso transverso são fundamentais para as reflexões que sustentam as análises. que passam a marcar a segunda fase da Análise de Discurso. que permitem trabalhar sistematicamente suas influências internas desiguais. assim como na AD-1. Destaca-se que. a ideia de fechamento se mantém em razão da ideia de confronto. cujo espaço de “origem” e “circulação” estivesse restrito aos sujeitos daquela condição discursiva). passa a ser uma prática para a Análise de Discurso que vê o sujeito como atravessado pelo interdiscurso e por ideologias que determinam o dizer. na AD-3. mantendo-se a concepção de que o sujeito “continua sendo (. A ideia de dispersão. 1993.. 1993. Como citado. que é o ponto nevrálgico da teoria que supera o sujeito da enunciação e a sua autônoma subjetividade. a teoria passa a trabalhar com a ideia de “relações entre as ‘máquinas’ discursivas”. assim como o de memória. em que “uma FD não é um espaço estrutural fechado. p. constitutivamente. a evidência da noção de Interdiscurso.

” (PÊCHEUX. quanto da “desestabilização discursiva do ‘corpo’ das regras sintáticas”. 316). Estes trabalhos. mas. também. p. mais incomodado. estruturar esta encenação (nos pontos de identidade nos quais o ‘ego-eu’ se instala) ao mesmo tempo em que a desestabiliza (nos pontos de deriva em que o sujeito passa no outro. o conceito de heterogeneidade mostrada e constitutiva de Authier-Revuz (apud MAINGUENEAU. sobretudo da sistência de um ‘além’ interdiscursivo que vem. 316). por parte de Pêcheux. Outro ponto importante dessa “revisão” teórica pela qual passa a Análise de Discurso diz respeito ao “estudo da construção dos objetos discursivos e dos acontecimentos. de modo que cabe ao analista buscar. frente aos importantes trabalhos produzidos na área. buscou-se construir um percurso da Análise de Discurso. mas que significa. aquém de todo autocontrole funcional do ‘ego-eu’. que propicia a problematização. 75 a 110). p. segundo Pêcheux (1993. também aquilo que não é dito. des-configura-se o sujeito central do ego-eu. que faz sentido e que constrói novas relações de significantes não pensados.o propósito do “primado teórico do outro sobre o mesmo” e assegura as evidências tanto da “desestabilização das garantias sócio-históricas”. 1993. isto é. Nessa ruptura. talvez. 1997. oscilando entre as vertentes mais ortodoxas da Análise de Discurso e as novas perspectivas abertas. Entra em cena. 316-317). pelo que não dizem. acima de tudo. dentre as possibilidades abertas pelo dizer. as heterogeneidades enunciativas que marcam. Por meio dela. e também dos ‘pontos de vista’ e ‘lugares enunciativos no fio intradiscursivo’. incompleta e lacunar (como não poderia deixar de ser). mais provocado: tanto pelo que os discursos dizem. é possível olhar para os discursos que circulam na sociedade de modo menos ingênuo. ______ [ 25 ] . encabeçados por pesquisadores que despontam no cenário nacional e internacional. até mesmo. cuja menção de um e outro nome seria inapropriado. no Brasil. onde o controle estratégico de seu discurso lhe escapa (PÊCHEUX. sobretudo. 1993. não desejados. talvez o autor não imaginasse a repercussão que os seus estudos tomariam. as “formas lingüístico-discursivas do discurso-outro”. enunciador estratégico que coloca em cena ‘sua’ seqüência. Sobre as reflexões de Pêcheux. p. mais crítico. têm revelado o quanto a teoria do discurso fundada por Pêcheux tem sido fecunda. Ainda que de forma sucinta. tendo-se a incursão pela psicanálise. pp.

de Eduardo Guimarães. A arqueologia do Saber. São Paulo: Pontes. MALDIDIER.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTHUSSER. Trad. 1997. Elementos para uma história da Análise do discurso na França. Trad. BAKHTIN. Aparelhos ideológicos de estado: notas sobre os aparelhos ideológicos de estado. 9 ed. Louis. MAINGUENEAU. In: ORLANDI. Análise do Discurso. Michel Lahud e Yara F. 7. Análise de discurso: princípios e procedimentos. SP: Editora da UNICAMP. Mikhail (Volochinov). Gestos de Leitura: da História no Discurso. In: MUSSALIM. Valter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro). São Paulo: Pontes. Eni Pulccinelli (Org. (Trad. Trad. Anna Christina. _____. 1995. 4 ed. Mariani et al. Dominique. Françoise & HAK. Fernanda e BENTES.). Trad. A propósito do ethos.ed. 2008. 1999. Ethos Discursivo. 1997. Wisnik e Carlos Henrique D. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 2 ed. FOUCAULT. Luciana (orgs. Campinas. 2003. chagas Cruz. Michel. 3 ed. 1987. O dizer e o dito. Tony. (Trad. v. Eni Puccinelli Orlandi. 2. São Paulo: Contexto. Introdução à Lingüística: domínios e fronteiras. São Paulo: Pontes. MUSSALIM. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 1985. A Inquietação do Discurso: (Re)ler Michel Pêcheux Hoje.). 1993. 2001. São Paulo: Pontes. 2001a. Novas Tendências em Análise do discurso. Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Luiz Felipe Baeta Neves. Denise. Oswald.). Editora da Unicamp. São Paulo: Cortez. Rio de Janeiro: Graal. Bethânia S. Ana Raquel e SALGADO. colaboração de Lúcia T. GADET. 3 ed. _____. Eni Puccinelli. São Paulo: Hucitec. Fernanda. Vieira. 2. ______ [ 26 ] .ed. DUCROT. In: MOTTA. ORLANDI.

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para certos enunciados. pelo programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Londrina. 182). ______ [ 28 ] .NOTAS 1) Esse texto é parte da fundamentação teórica pertencente ao trabalho de doutoramento. 172) e. na enunciação. significa “a existência. o conceito de polifonia está sendo tomado da perspectiva de Ducrot (1987). com apoio da Fundação Araucária/SETI. 2) Aqui. por meio da concessão de Bolsa para Capacitação Docente. intitulado “Entre as linhas do Discurso de Conforto Espiritual: uma análise da Literatura Nar-Anon”. de uma pluralidade de responsáveis. Mariângela Peccioli Galli Joanilho e defendido em 23/03/2012. de uma “superposição de diversas vozes” (p. mais. orientado pela professora Drª. dados como distintos e irredutíveis” (p. significa a presença. Para o autor. UEL.

DA HISTÓRIA E DO SUJEITO: UMA REFLEXÃO SOBRE A REPRESENTAÇÃO DO FEMININO Franciele Luzia de Oliveira Orsatto .CAPÍTULO 2 A OPACIDADE DA LÍNGUA.

pode-se pensar.É consenso afirmar que. no plano discursivo. porque a relação que se estabelece entre a realidade e o simbólico não é unidirecional. até que ponto também mudaram os discursos? O que é dito sobre a mulher na esfera midiática. o simbólico é pensado a partir de sua relação inescapável com as condições de produção e o extralinguístico. reflexo de um conjunto de elementos opacos: língua. que os discursos sobre a mulher também mudaram: se agora a mulher ocupa espaços sociais antes masculinos. entre o mesmo e o diferente. enuncia algo ______ [ 30 ] . com a organização dos movimentos feministas. ou seja. também contribui para manter ou modificar essa imagem. é possível observar a tensão que ocorre. A Análise de Discurso. disciplina inaugurada por Pêcheux e originada a partir da confluência entre o Materialismo Histórico. com uma história que nos atravessa e sobre a qual não temos controle e com um sujeito que. FIs). infere-se que alguns discursos “antigos” tenham deixado de fazer sentido. ocorreram mudanças quanto à posição da mulher no cenário político. a Linguística e a Psicanálise. Principalmente a partir da década de 1960. automática ou literal. “iludido” pelo esquecimento. Ao analisar o discurso a partir de sua emergência no interior formações discursivas (doravante. Se o papel social da mulher mudou. a princípio. como se supõe (numa proporção talvez maior do que a realidade demonstra). prevê instrumentos teóricos para pensar questões como essa. de certa forma. tal conclusão é precipitada. Assim. história e sujeito. Isso porque lida com uma língua que não é transparente. no mercado de trabalho e em relação à sexualidade. Assim. reflete a maneira como a sociedade vê a mulher. Porém. ao longo dos anos. deve ser compreendido a partir da opacidade. que materializam formações ideológicas (doravante. o papel da mulher na sociedade vem sofrendo profundas transformações. O processo de representação do feminino. FDs). ao mesmo tempo em que. entre paráfrase e polissemia. como qualquer processo discursivo.

a língua é considerada. uma das publicações que compõe o corpus de pesquisa do doutorado em Letras. por sua vez. a língua não pode ser vista como um sistema autônomo que os falantes mobilizam para traduzir o que pensam e o que sentem. E. Ao contrário: a AD concebe o que é dito a partir de seu caráter inseparável da sociedade que utiliza a língua e a partir da qual é possível pensar na gênese ______ [ 31 ] . são analisados alguns enunciados da revista Nova. Isso porque. Rompendo com o corte saussureano da língua versus fala. a AD não se preocupa com a dimensão estrutural da língua com uma intensidade que seja capaz de esvaziá-la de sentido. numa certa conjuntura (POSSENTI. Segundo Orlandi (2001). elas são colocadas em funcionamento segundo um processo discursivo. Em um primeiro momento. não é possível atravessar o texto ou a suposta transparência da língua para descobrir o sentido que está do outro lado. como parcialmente autônoma. Diferentemente da análise de conteúdo. A ideia de tradução de um pensamento pré-concebido é inaceitável para a teoria. Em outras palavras. quando considerado o seu funcionamento. morfologia e sintaxe. CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS Para a AD. diferentemente da Semântica Formal – duramente criticada por Pêcheux (1997) –. a AD não trabalha com o levantamento de informação. com base em autores como Pêcheux (1997). Em seguida. materializem discursos – e é nesse processo que efeitos de sentido são construídos. 2005). assim como a existência de uma estabilidade inabalável do sistema linguístico. em desenvolvimento. portanto. a língua é marcada pela opacidade e dá margem ao equívoco. pela AD. mas se preocupa com o funcionamento discursivo. ou seja. A língua interessa à AD. É ela que permite que textos sejam materializados e. propõese uma discussão teórica sobre a AD. ao deslizamento e à polissemia. mas de efeitos de sentido. à medida que instaura relações discursivas entre sujeitos. pensando em como essa opacidade caracteriza os discursos que circulam no interior da esfera midiática.que não lhe pertence e do qual não é a origem. ao mesmo tempo em que ela tem suas regras próprias de fonologia. focando essas questões. Este estudo tem por objetivo discutir a opacidade da língua. Orlandi (2001) e Possenti (2005). a língua é condição de possibilidade do discurso. da história e do sujeito. Deve-se destacar que não há a construção de um sentido.

O que dizemos não nos pertence.dos enunciados. no interior das FDs que determinam o que dizer e no interior de FIs que determinam o que pensar. Trata-se de um processo inscrito na história. isso não ocorre de maneira controlada e consciente. Outra suposta transparência que a AD põe em causa refere-se à história. porque é a mídia. mas como filiação. A formulação do novo não é acessível ao sujeito enquanto indivíduo. mas os modos como os sentidos são produzidos e circulam” (ORLANDI. Eis a opacidade do sujeito: os sentidos são mobilizados por sujeitos inscritos em posições sociais. nem sujeitos “neutros”. nem língua. Porém. ______ [ 32 ] . o da mídia. a história não deve ser pensada como sucessão de fatos com sentidos dados. que não é linear e sobre o qual o sujeito não tem controle. não são as datas que interessam. O que o sujeito enuncia não se origina nele. “em grande medida. Não há discurso. afetados pela ideologia. Somos meros porta-vozes do que é colocado em cena pela memória discursiva. p. em especial. Assim. inaugurando uma nova forma de dizer (FERREIRA. por mais que ele tenha a impressão de ser a fonte do sentido (processo denominado “esquecimento ideológico”). ou seja. pois nosso enunciado apenas ecoa sentidos já-lá. pela história e pelo inconsciente. Tanto a história quanto a ciência não são caracterizadas pela objetividade. de vozes que falam por si. mas no discurso: “Não estamos pensando a história como evolução ou cronologia. A evidência da história e do(s) sentido(s). A língua revela como a comunidade que a utiliza se relaciona com o mundo real e a maneira como ela o interpreta. não há um sentido correspondente a uma representação literal da realidade que “atravessa” um indivíduo transparente. porque a ideologia o interpela e porque o assujeitamento o caracteriza. Para Orlandi (1994). 58). mas sofrem um processo de naturalização realizado pela ideologia. Em outras palavras. sua materialidade não pode ser apreendida em si. é uma produção ideológica. A fronteira entre o novo e o repetível é sempre instável e sem demarcações claras. portanto. A opacidade da história. também deve ser considerada. o sujeito só é sujeito (em oposição ao indivíduo biológico). forma e conteúdo não se separam. pois a língua é estrutura e acontecimento. quando se propõe a analisar o discurso. O discurso carrega história e ideologia. fala-se do ponto em que um enunciado instaura um novo processo discursivo. Em outras palavras. construído(s) a partir de determinações históricas. 1994. Quando se fala em acontecimento. O sujeito diz o que diz de acordo com as posições-sujeito que ocupa. mesmo que tenha a ilusão de que tem o poder de criar. 2001).

ser professor etc. modelando a identidade histórica que nos liga ao passado e ao presente” (GREGOLIN. p. relacionamentos. representações dos papéis sociais em questão. Se comparada às revistas femininas que circulavam anteriormente ao seu lançamento. ora se oculta nas entrelinhas. que surgiu após a emergência do feminismo. Nova chama a atenção por não ser pensada para a mulher financeiramente dependente do marido. Ao lidar com o simbólico e mobilizar vozes advindas de diferentes FDs. em uma zona fronteiriça do jornalismo. cujo foco oscila entre informação e entretenimento. que cuida da casa e dos filhos: A revista Nova surge no Brasil. Ela é uma versão nacional da Cosmopolitan. mas a sexualidade e a independência financeira (SILVA.que formata a historicidade que nos atravessa e nos constitui. O discurso da revista permite notar novas preocupações. construindo uma ideia do que é ser homem. A MULHER EM REVISTA: REALIDADE. em decorrência da liberação sexual. ser negro. 183). a partir do que ora se mostra explicitamente. ______ [ 33 ] . 2008. ser mulher. A revista. mulheres que tinham novas expectativas de vida. 16). mulheres casadas. carreira e celebridades. e trata de assuntos como moda. consequentemente. a revista vai além da exposição de conteúdo informativo. Constroemse. da descoberta da pílula anticoncepcional. a revista feminina mais vendida no mundo. com idade entre 20 e 35 anos. mas principalmente não casadas (solteiras e descasadas). FICÇÃO E CONTRADIÇÃO Considerando as discussões teóricas realizadas até aqui. p. Pode-se dizer que a publicação é um veículo que circula no interior da esfera midiática. colocando-se. cujas preocupações não eram mais o lar. 2003. propõe-se uma análise de enunciados da revista Nova à luz da AD francesa. muitas vezes. A revista Nova é direcionada ao público feminino solteiro e jovem. objetivando conquistar um público de mulheres brasileiras que se diversificava cada vez mais: mulheres que se distinguiam por diferentes estilos de vida. oferecendo direcionamentos sobre como agir e. seria direcionada a uma “nova mulher brasileira”. da inserção da mulher no mercado de trabalho e da liberação sexual. no papel de “conselheira”. portanto. sexo.

focaliza-se a edição 466 da revista. nas páginas internas. O enquadramento da foto valoriza o corpo feminino como objeto de desejo. O discurso não apenas reproduz. via discurso. apresenta uma declaração da mulher fotografada. 2011). já que se mantém uma identidade visual: a fonte utilizada em toda a capa e a disposição do título na página são sempre as mesmas. a abordagem sobre temas antes ignorados e/ou o tratamento mais ousado para falar sobre esses assuntos realmente reflete a emergência de uma “nova mulher”. o nome da revista – o que não compromete a sua identificação pela leitora. seria possível identificar pontos que reforçam a doxa dominante sobre a imagem do feminino? Estes são alguns questionamentos que surgem a partir desse objeto de estudo. valorizando as formas do corpo (magro e bem torneado) e a sensualidade. amor. por exemplo. Assim. Porém. com o objetivo de instigar a leitora a conferir. ed. parcialmente. ed. que é importante ser desejada. mas tem o poder de dizer como o mundo material deve ser. A capa traz a imagem de uma mulher bem maquiada. Em face disso. deixando os seios quase totalmente à mostra. As declarações geralmente tratam de beleza. mai. A revista segue esta fórmula há várias edições: traz uma mulher de destaque no momento. 453. Acompanhando a foto.alheias ao ambiente doméstico. Trata-se de uma atriz de novela em evidência no momento. 452. A foto encobre. a partir das quais ele se origina. A importância da beleza também é reforçada em outras chamadas ______ [ 34 ] . Para Foucault (2000). a revista não só atende às leitoras que também querem ser desejadas – assim como a atriz. deixando apenas as pernas fora do quadro. que é identificada por meio de uma declaração que acompanha a foto: “Débora Nascimento: ‘Hoje sei por que sou desejada’”. o texto aciona a imagem de uma mulher que toma atitudes para ser desejada: cuida do corpo. No presente texto. de julho de 2012. para citar dois exemplos: “Qual é o seu tipo sexual? Faça o teste e descubra” (NOVA. como se nota nas seguintes chamadas de capa. jun. A atriz veste apenas a parte de baixo de um biquíni e uma jaqueta aberta. vê-se que a relação entre o discurso e as condições externas de possibilidade. não é especular. que compartilhará seu “segredo do sucesso” – mas determina. da pose. a entrevista realizada com ela. de cabelos longos e esvoaçantes. da roupa. o destaque é dado à questão da sexualidade. independente e equiparada ao homem? Até que ponto é possível identificar que se trata de uma “nova mulher”? Por trás de uma aparente ruptura. 2011). sexo e sucesso pessoal e profissional. geralmente uma atriz. “De demitida a promovida: saia da lista negra do seu chefe para a lista vip do mercado” (NOVA. Na edição analisada. o discurso é uma violência que fazemos às coisas. Juntamente com a foto.

recentemente instituído). Poucos anúncios não se enquadram na linha de cuidados com o corpo e com a beleza.de capa da edição. como o de uma emissora de rádio. meias e pílulas para combater a celulite. linda e poderosa? Entre as tarefas que precisam ser conciliadas. confrontada com a fotografia da capa. há anúncios de maquiagem. talvez. suplementos vitamínicos para “você ficar linda em todos os ângulos”. mas também na publicidade presente no interior da revista. produtos relacionados à saúde (incluindo uma balança) etc. estariam. lingerie. conciliando essa busca com outras tarefas da mulher. xampu. Diante disso. Já a chamada 7 se refere à ideia de alcançar a beleza com praticidade. A chamada de capa 6 remete à ideia almejada por muitas mulheres de alcançar a beleza (algo que parece se impor) sem esforço. são listadas todas as chamadas da edição analisada: Como se nota na tabela. de um aromatizador de ambientes e de perfume masculino (sugestão de presente para o Dia do Homem. ______ [ 35 ] . a beleza tem um lugar de destaque (chamadas 6 e 7). ao lado do cuidado com a carreira profissional. pode-se pensar: por que a mulher precisa fazer esse esforço para ficar bonita. Na tabela abaixo. ou melhor. Isso não é notado apenas nos temas das matérias. com a ajuda da medicina.

p. 1997. ao meu trabalho. Mudo de opinião para satisfazer quem está por perto. Essa relação entre as FDs e sua exterioridade é sempre dissimulada. Estruturalmente. Isso porque o que elas compartilham tem mais força do que os pontos em que elas se diferenciam: ambas as FDs veem a mulher linda e poderosa como o que deve ser buscado. Em contraponto a essas expectativas. que determina essa formação discursiva como tal. como cuidar dos serviços domésticos. realizada por meio da conjunção aditiva “e”. ainda em relação à chamada 7. em outro lugar e independentemente’ (PÊCHEUX. do marido/namorado – ou da busca por esse par. objetividade material essa que reside no fato de que ‘algo fala’ sempre ‘antes. Me preocupo demais se vou agradar os outros e chego até a me endividar comprando roupas caras para impressionar. 162). as duas cartas respondidas pelo médico exemplificam essa questão: Estou cansada dos papéis que desempenho: dar atenção ao meu namorado. não me mimo. Na seção “Dr. como alerta Pêcheux (1997): o próprio de toda formação discursiva é dissimular. Por meio das cartas das leitoras. Dou muita atenção ao que os outros estão pensando. Essa frustação está. Gaudencio Explica”. portanto. a objetividade material contraditória do interdiscurso. Não saio com amigas. inclusive. emerge um discurso que contradiz o que é sustentado pela FD da revista. que está presente “no próprio coração do intradiscurso” (MAINGUENEAU. apresentada como projeção ideal. Na edição em análise. que atende a todas as expectativas. refere-se à união dos termos linda e poderosa. presente na revista. aos meus estudos. Porém. 2007. a conjunção apenas soma duas qualidades almejadas pela mulher. Um deslizamento de sentidos também ______ [ 36 ] . pode-se dizer que não há simplesmente uma adição. Estou sufocada. por outro lado. um interdiscurso que atravessa essas duas FDs. não há uma relação conflituosa entre essas duas FDs. Não sei quem sou e me sinto perdida. Outro ponto que deve ser observado. a mulher real não consegue atender a tudo o que lhe é cobrado – o que gera frustação. 38).. Há. dos serviços domésticos e dos filhos? Parece se apresentar a necessidade de construção de uma supermulher. p. a FD das leitoras demonstra que isso não é possível. Enquanto a FD assumida pela publicação sustenta que é possível ser uma mulher linda e poderosa. o psiquiatra Paulo Gaudencio responde a dúvidas das leitoras. mas apenas ficcional. na transparência do sentido que nela se forma. no plano discursivo. à minha mãe.. apesar da contradição. não compro roupas para mim.cobranças antigas a que a mulher precisa atender.

que se repetem e se reforçam. uma história de uma empresa ou profissional bem-sucedido e é contado com o objetivo de mostrar caminhos que levaram a atingir resultados positivos. ela deve fingir que é poderosa e independente e que não pensa nisso. para realizar seu “sonho”. Nota-se que há uma tentativa de mostrar a integração da mulher ao mundo dos negócios: não se fala com uma mulher que não domina esses termos e que está fora do mercado de trabalho. buquês. assim como a busca pela beleza. a construção de processos metafóricos e de sinonímia: são usadas palavras diferentes. Assim. é preciso ser linda. 3 e 5 são voltadas para isso. Na chamada 3. mas que convergem para os mesmos sentidos. Ao utilizar o termo “case” em vez de outros que poderiam estar presentes (como “exemplo” ou. demonstra-se. mais uma vez. “26 atitudes para você conquistar o namorado dos seus sonhos”. permitindo que haja também outra relação entre os dois termos: a de que. pode-se pensar que a instituição tradicional do casamento ainda é almejada pela mulher. ao mesmo tempo em que isso acontece. a preocupação com os relacionamentos amorosos. As chamadas 1. Por meio de uma relação entre a chamada e a capa da revista. Mais uma vez. a mulher deve ser sensual (mas não pode ser cachorra). Como mostra a capa. destaca a busca da mulher por um companheiro – e.é possível. Porém. Porém. nessa capa. alianças. percebe-se que a referência a esse universo não ocorre devido a questões profissionais. deve buscar um companheiro (mas não pode falar de casamento). quando a mulher não fazia parte desse espaço social. geralmente. mesmo. infere-se. nenhuma chamada que aborde essas questões. são dados conselhos: “nada de passo de cachorra na pista” e “não fale de filhos e casamento”. no interior destas FDs. pois. também nesta edição. Observa-se. decoração etc. A chamada é direcionada para a mulher que está comprometida e. o destaque é dado à sua relação com o homem – ainda que de outra forma. Além da beleza. Curiosamente. outro assunto tratado pela revista são os relacionamentos amorosos. a revista dita comportamentos. pois case de sucesso é. “caso”). Observa-se uma preocupação com o que é considerado o “sucesso” da mulher nesse campo. Apesar da pressuposição de que a mulher desempenha um papel profissional. se comparado a épocas anteriores. para ser uma mulher poderosa. aciona-se uma referência ao mundo dos negócios. também parece se impor como necessária. Na matéria correspondente à chamada. há o anúncio do “Anuário Noivas” da editora Caras. tanto é que não há. “Como transformar seu relacionamento em um case de sucesso”. ______ [ 37 ] . que traz dicas de vestidos. A chamada 1. que não quer perder seu parceiro. pode-se pensar que ser uma mulher poderosa equivale a ser desejada sexualmente.

“Turbine sua energia JÁ”. parece dialogar com a fotografia (uma mulher que quer ser desejada sexualmente). Para ler a seção “sexo lacrado”. que apresenta o termo “Sexo lacrado” em fonte maior e de cor diferente do restante do texto. ao menos para a mulher – e citam-se. Observa______ [ 38 ] . nota-se que a conversa parece se dar de maneira “escondida”: não se pode falar sobre sexo com naturalidade. Se já é comprometida. visto que o sexo só era aceitável no casamento. manifestações diferentes da heterossexualidade. Mas a localização na capa. Logo abaixo das chamadas da seção “Sexo lacrado”. pois este é um assunto “lacrado”. em tempos anteriores. a mulher busca estratégias para manter o parceiro. um tabu. Se. também. só o homem poderia falar do assunto – o que demonstrava uma visão machista e conservadora –. permite uma associação de modo que a “energia” de que fala a chamada seja interpretada como a energia para o sexo – um dos assuntos englobados pela matéria nas páginas internas. quer ser. O assunto de maior destaque na capa da Nova em análise é a sexualidade. aparece a chamada 4. Tanto é que os conselhos que são dados a ela (como “nada de passo de cachorra na pista”. apesar da liberação sexual a partir da década de 1960. ou seja. Porém. pode-se inferir que ter um relacionamento é algo importante para a mulher: provavelmente. “Você é exigente demais com os homens? Cuidado: isso pode afastar aqueeele gato”. de maneira geral. reprimida sexualmente. Esta chamada se refere a uma matéria que traz dicas de saúde e bem-estar. como a atuação profissional. Devido à presença dessas três chamadas na capa. a mulher ainda é. abaixo do assunto “sexo”. determinadas exigências não devem ser feitas para garantir que um homem esteja ao lado – um preço que a mulher precisa pagar. demonstra uma preocupação em encontrar um parceiro. é preciso destacar uma espécie de lacre que “protege” o conteúdo e traz o seguinte enunciado: “Voucher do prazer: válido por tempo indeterminado”. ao se colocar o depoimento de uma mulher que teve prazer com outra mulher. O prazer da mulher é reforçado nas chamadas: fala-se em “spa erótico para você (mulher leitora) relaxar e gozar”. se ainda não é. atualmente a Nova se propõe a falar de sexo com a mulher.A chamada 5. talvez ela precise diminuir suas expectativas em relação ao sexo oposto ou ficará sozinha. A chamada 2. a quem também está autorizado o direito de buscar o prazer sexual. Para isso. Em outras palavras. já comentado anteriormente) parecem remeter a formas de controlar o exercício da sexualidade. em “barmen pelados” que a agradariam. mais do que o sucesso em outras questões. Talvez aí se manifestem resquícios de que. de certa forma. em “balada liberal” que pode ser desfrutada entre as solteiras – algo impensável há alguns anos.

pois. é no espaço contraditório das relações de reprodução e transformação da sociedade que esses discursos se formam e. Como afirma Pêcheux (1997). sexualidade.se. expectativas sociais consideradas como ______ [ 39 ] . antes restrito ao universo masculino. os sentidos não estão ligados indissociavelmente a seus significantes. pois este é um assunto “lacrado”). Um significante – energia – é associado a sentidos que não se referem a uma possível literalidade. contanto que faça isso de maneira socialmente aceitável. portanto. Assim. pois só são encontrados quando ela atende às expectativas masculinas – ou. visto que só podem tomar forma a partir do extralinguístico que os determina. por sua vez. não é aleatória. De maneira geral. que só pode/deve falar de sexo em um espaço restrito. Outro ponto a ser destacado sobre a revista é o papel do homem. efeito de sentido – que vem à tona sem que se tenha controle sobre ele. este é um sentido que emerge a partir de uma causa que não se pode controlar. por mais que os editores da revista afirmem que “não quiseram dizer” energia sexual ou energia para o sexo. O eixo central da publicação é pautado em três assuntos: beleza. relacionamentos. ainda que preliminares. ou será considerada “cachorra”. há brechas que permitem o atravessamento do interdiscurso. que produz derivas de interpretação. mas a seu entorno textual que. que o sucesso e a felicidade da mulher são atrelados ao universo do sexo oposto. Nota-se aí uma contradição. Fazendo referência à Psicanálise. assim. pode-se dizer que se observa aí a primazia do significante sobre o significado: a energia sofre um deslizamento e. esta falha. Quanto ao prazer sexual. Dizendo de outra forma. ou seja. fala-se para uma mulher que deve buscar ser linda (provavelmente para encontrar um parceiro). sem ser “cachorra” – como apontam conselhos nas páginas internas. portanto. pois. se refere a um espaço discursivo. Trata-se de um sentido – ou melhor. ao mesmo tempo em que se fala de práticas sexuais mais liberais. que deve buscar o sucesso no amor (o que é materializado por ter um “gato” a seu lado). Tais contradições demonstram que. advinda do inconsciente. só há causa daquilo que falha. aconselha-se que a mulher não pode parecer sexualmente liberal. mais amplamente. utilizandose a terminologia proposta por Maingueneau (2007). a qual é constitutiva da AD. e que tem direito ao prazer sexual (porém. um deslizamento de sentidos. a mulher pode agora buscá-lo. por mais que a FD da revista seja aparentemente caracterizada pela homogeneidade. aí. a contradição também os constitui. observa-se que a edição em análise permite tirar algumas conclusões. sobre a organização da revista. que parece ter um lugar importante no universo de interesse feminino: inferese.

se está comprometida. a presença masculina. mas. a história vem se transformando e. ao homem. provavelmente. há a construção de uma nova mulher. As matérias de relacionamento materializam essa importância. em alguns pontos. ainda deve buscar um parceiro (devendo. anterior à emergência do feminismo. tinha uma participação muito restrita no mercado de trabalho e devia se dedicar às tarefas domésticas. revela resquícios da subordinação ao masculino. reforçase o lugar da mulher antiga: agora a mulher é financeiramente independente. em termos profissionais.expectativas masculinas. é sexualmente mais liberal e tem poder de compra para cuidar de tratamentos estéticos e adquirir produtos de beleza. Se a mulher está sozinha. ela se insere no mercado de trabalho. Nos dois casos. Por trás de uma imagem de poder – que. no mínimo. independente financeiramente. deve. mas a própria sociedade). é. também. quando se analisam as contradições presentes no interior da FD da revista. talvez. pois deve colocar questões como a beleza em primeiro plano (ainda que tenha que fazer sacrifícios para ______ [ 40 ] . pode-se pensar que a revista em análise esteja inserida em uma FD que se contrapõe à visão tradicional sobre o papel da mulher. mas ainda deve dar conta de outras tarefas. ao marido e aos filhos. em um nível mais profundo. ao mesmo tempo. Como materializado nas chamadas de capa. deve lutar para manter seu par. deve lutar para conquistar um companheiro (cuidando da aparência). Assim. antes da década de 1960. desejada sexualmente. esses papéis estejam mais próximos dos papéis antigos do que possa aparentar. disposta a atender aos anseios do homem. esforçar-se para cumprir os papéis que se impõem – e. por ser necessário afirmar. a mulher era reprimida sexualmente. em alguns aspectos. a mulher hoje não é a mesma mulher do passado. linda e poderosa. Conforme já comentado. muito valorizada. observa-se que. é possível encontrar os limites da suposta liberdade feminina. se não é fundamental. Gradualmente. mais liberada sexualmente. Ela deve se colocar como mulherobjeto. CONSIDERAÇÕES FINAIS Em um primeiro momento. visto que não é apenas o homem o responsável por essas “cobranças”. No entanto. não é algo evidente e já conquistado –. talvez se esconda uma posição de fragilidade diante da busca pela aceitação do outro (não só o homem. A mulher nova. almejar o casamento) e ainda não se iguala.

_1994. GREGOLIN. Vol. Em Aberto. jan. Tese (Doutorado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem. L. (Orgs) Introdução à linguística: fundamentos epistemológicos. 53-59. n. Os discursos do cuidado de si e da sexualidade em Claudia. Curitiba: Criar Edições..gov. Instituto de Letras. Universidade Estadual de Campinas. SILVA. Brasília. p. Glossário de termos do discurso: projeto de pesquisa: A aventura do texto na perspectiva da teoria do discurso: a posição do leitor-autor (1997-2001). n. [et al]. 2001. Análise do discurso e mídia: a (re)produção de identidades. Sírio. 2008. ORLANDI. 4. Mídia e Consumo. In: MUSSALIN. Porto Alegre: UFRGS. M. São Paulo: América do Norte. C. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FERREIRA. Fernanda. Gênese dos discursos. Campinas: Editora da Unicamp. reforçam o que é compartilhado. 2005.pdf> Acesso em: 28 jul. MAINGUENEAU.br/arquivos/{989E6257-8E1E-430D-9754-20131EF45B81}_ ano_14_nº_61_jan. M. M. volume 3./mar. imaginário social e conhecimento. 1994. 2003. 11. ______ [ 41 ] . 2001. 2012. ao mesmo tempo em que digladiam em relação a pontos divergentes. Michel. Anna Christina. Eni. 1997. (Tradução Eni Pulcinelli Orlandi et al. ______. Nova e Playboy. Disponível em: <http://www. Discurso. É nessa aparente nova roupagem que reside a eficiência da manutenção de questões arraigadas quando se fala do papel da mulher: eis a dissimulação própria efetuada por FDs em embate que. São Paulo: Cortez.isso). Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Análise de discurso: princípios e procedimentos. inep. 2007.).-mar. POSSENTI. p. Teoria do discurso: um caso de múltiplas rupturas. 11-25. ano 14. Comunicação. C. BENTES. Campinas: Pontes. F. 2 ed.61.publicacoes. 3 ed. Dominique. PÊCHEUX. Campinas.

CAPÍTULO 3 SOBRE O DISCURSO JORNALÍSTICO QUE RESSOA: ESPAÇOS DE INSCRIÇÃO EM OUTRAS MATERIALIDADES DISCURSIVAS Alexandre da Silva Zanella Os sentidos não se constroem fora da história. 2008. Cattelan. Na sua voz. da memória e do interdiscurso. p. nomeando o mundo pela primeira vez. (J. outras vozes ecoam. O homem não chega à linguagem de forma privilegiada. 36) . C.

. elegi para análise. [. então.] submetido à lei de desigualdade-contradiçãosubordinação que [. O recorte proposto é uma adaptação de parte de minha dissertação de mestrado. assinala-se que o imaginário do sujeito se identifica com a formação discursiva na qual está inserido. Considero.] e que ela os recruta a todos... pautada no funcionamento ______ [ 43 ] . definido como o “todo complexo com dominante das formações discursivas. a saber: cartas de leitores e peças publicitárias. A primeira é a de que o sentido é determinado pelas posições ideológicas que são produzidas num processo sócio-histórico... na esteira de Pêcheux (ibid. o funcionamento desse processo de retomada é parte central da discussão ora proposta. A forma-sujeito seria. grifos meus). Isto significa que o sentido se altera conforme as posições das formações ideológicas1 que regulam as formações discursivas2 e os sujeitos (aquilo que dizem). 149). pela evidência do sentido. Na tentativa de investigar como os sentidos são recebidos como evidentes pelos sujeitos. aqui. materialidades verbais que não o especial da revista. Ainda de acordo com Pêcheux (2009 [1988]). na qual analisei os sentidos sobre as cidades médias brasileiras em uma reportagem especial da revista Veja (ZANELLA. então. que a “operação” da ideologia mascara o caráter material do sentido da linguagem.].). portanto. é preciso. a formação discursiva acoberta aquilo que vem de antes e de outro lugar (histórico-ideológico). Investigar. itálico do autor. A segunda forma é a de que toda formação discursiva dissimula sua dependência do interdiscurso.. nas quais verifiquei um processo de retomada dos sentidos produzidos por Veja em sua reportagem.. 144. 2012). compreender de que modo os ‘voluntários’ são designados nesse recrutamento [.Uma reflexão sobre os modos de ressonância dos sentidos é o que constitui o objetivo principal deste capítulo.] caracteriza o complexo das formações ideológicas” (p. (p.. Portanto. o qual depende de duas formas. Pêcheux (2009 [1988]) aponta: Se é verdade que a ideologia ‘recruta’ sujeitos entre os indivíduos [. Como corpus.

Os processos parafrásticos são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém. efeito necessário à própria constituição do sujeito. Segundo a autora. Este esquecimento põe que o sujeito não pode extrapolar os limites de sua FD. ao dizer. Vale também apontar que a linguagem se (re)faz oscilando entre o mesmo e o diferente. Em outros termos. PÊCHEUX. isto é. Só então se considera que a ideologia tem uma exterioridade que afeta o real. ao uso de uma forma de dizer selecionada dentre uma gama de possibilidades ao invés de qualquer outra num sistema de enunciados. é possível. 2009 [1988]). a memória. A paráfrase representa assim o retorno aos mesmos espaços do dizer. para o analista de discurso. com determinadas palavras. o para quê). quanto em âmbito amplo (o ideológico determinado sócio-historicamente. para se chegar aos efeitos de sentido que os discursos produzem. espontâneo e dono de si. sim. acessa sempre algo já dito. fazendo com que se pense que o que se diz só pode ser dito de uma determinada forma. Essa tensão funciona por meio de processos de paráfrase e de polissemia. isto é. Essa ilusão ocorre porque há dois tipos de “esquecimento” (PÊCHEUX. “esquece-se”. na verdade. é acobertado pelo funcionamento do esquecimento 2.espontâneo do sujeito. o dizível. fundado num reconhecimento compartilhado entre os (outros) sujeitos. Produzemse diferentes formulações do mesmo dizer sedimentado. no não reconhecimento dessa força de domínio. e que nesse reconhecimento é que se acobertam as determinações que fazem com que o sujeito ocupe um dado lugar. por outrem (ORLANDI. O esquecimento número 2 refere-se à enunciação. como diz Orlandi (2010 [1999]). das condições de reprodução e transformação das relações de produção. o sujeito. mas. que o que se diz já foi dito antes. ibid. Este tipo de esquecimento produz como efeito a existência de uma conexão entre a realidade e o pensamento. O esquecimento número 1. que ele atualiza sem que se dê conta desse funcionamento. verificar as identificações do sujeito através do interdiscurso. Se a “realidade” se impõe ao sujeito por meio de um desconhecimento que é. o que dá a impressão de haver algum tipo de consciência nessas escolhas. de maneira involuntária. A paráfrase ______ [ 44 ] . dando a ilusão de que aquilo que diz é originalmente construído por ele. isto é. 2010 [1999]. o quando. A partir dessas colocações. aos sentidos possíveis que são suscitados no interlocutor a partir de um discurso determinado. Isto provoca a ilusão de que ele é senhor de seu dizer. como as relações sociais e políticas envolvidas). não se pode partir da noção de que o sujeito é livre. proporcionando a fantasia da liberdade. tanto no contexto imediato (englobando o onde.). por sua vez.

em caso afirmativo. Conquanto esse sujeito. Segundo o autor. 25). pode-se dizer que o sentido sempre pode ser outro. Os sentidos vão nos meandros que levam os sujeitos ou ao mesmo lugar. na polissemia. “ao mesmo tempo constitui uma relação própria com [ela]. O sujeito. as seções dedicadas à publicação de cartas dos leitores compõem espaços de materialização de outras vozes que não as da revista. (ibid. nesse embate. como se vê no informe de Veja: PARA SE CORRESPONDER COM A REDAÇÃO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura. o que temos é deslocamento. sabe-se apenas que cabe à revista escolher quais. isto é. daqueles que compõem seu corpo editorial. Ao passo que. mostrar os modos como o discurso de Veja funciona em dois momentos: a) ao recrutar sujeitos na seleção das cartas dos leitores e b) ao reverberar em outras materialidades discursivas. Buscarei. ainda segundo o mesmo autor. uma questão cara à teoria do discurso seria a do recrutamento ideológico. ou a um lugar outro. encontre nessas seções um espaço que supostamente seria seu. ruptura de processos de significação. De fato. enquanto ‘sujeitos-falantes’” (p. pois. Nessas seções. p. pouco se sabe acerca do processo de seleção e edição das cartas. com as cartas dos leitores. Comecemos. que chamarei aqui de leitor-autor. é promover uma integração entre o semanário e aqueles que o leem.. o endereço. 36. o número da cédula de ______ [ 45 ] .” (p. itálicos do autor). permitindo que o leitor materialize sua opinião. pois. em face de que a língua e a história afetam os sujeitos. onde haveria uma ilusão de liberdade para dizer. grifos meus). 144. lêem ou escrevem (do que eles querem e do que se quer lhes dizer). e temos a polissemia. como se fizesse parte da construção daquele.. isto é. 37). relação própria permeada pela história desse sujeito. como diz Lagazzi (1988). mas. dentre as cartas recebidas. é constituído no interior de uma formação discursiva.está do lado da estabilização. o que se instaura a partir dos processos discursivos são cadeias ou parafrásticas ou polissêmicas. isto é. interessa considerar “de que modo todos os indivíduos recebem como evidente o sentido do que ouvem e dizem. e temos então a paráfrase. no embate que as engendra. serão publicadas e se. p. dependem “de como trabalham e são trabalhados pelo jogo entre paráfrase e polissemia” (ORLANDI. ibid. Ela joga com o equívoco. Para Pêcheux (2009 [1988]). Essa evidência se dá entre as várias formações discursivas. Se todo dizer é sempre um já-dito. Nesse entremeio. serão publicadas na íntegra. De acordo com Soares (2006). a proposta.

Não obstante. antagonicamente. neste espaço. 1999. também uma prática subjetiva. 2009 [1988]). 52) a ocupar um determinado espaço discursivo.. de emergência de (uma) subjetividade. Ainda com Mariani (ibid. os leitores poderiam. também conforme Souza (ibid. segundo Mariani (1998) – e “esquece” o real da história e a luta de classes que afeta os sujeitos e que faz com que os sentidos venham já dados. ao mesmo tempo em que. etc. na esteira de Souza (1997). dizer tudo quanto se quisesse dizer. 42. neutro. as cartas poderão ser publicadas resumidamente. retrato do mundo. há um “processo” de legitimação das cartas enviadas.]. p. ao proferir seus compromissos com a objetividade. grifos meus). etc.. não há garantias sobre a fidedignidade do texto desse sujeito. as cartas que se inserem na instituição jornalística são.. ou seja. isso porque. como se viu na citação acima. Ainda que a ______ [ 46 ] . a neutralidade. a seu favor. neutro e objetivo da revista. Por motivos de espaço ou clareza. a imparcialidade. apresentar uma subjetividade. Só poderão ser publicadas na edição imediatamente seguinte as cartas que chegarem à redação até a quarta-feira de cada semana (Revista Veja. um espaço para a voz do leitor. p. na revista. corresponderem-se com a redação da revista e terem.identidade e o telefone do autor. ou seja.] de interpretações que se apresentam para o leitor como a expressão da realidade” (MARIANI. apresenta uma concepção idealista de linguagem – “uma língua desambigüizada”.).). objetivo. Produzse um efeito de sentido de que seria possível. 01/09/2010. Há uma “eficácia ideológica da transparência da informação [que] intervém na construção [. isto é. ao mesmo tempo. as cartas do leitor podem se configurar entre “dois espaços de discurso” (p. ainda não foi superado. Isto poderia significar que não haveria.. Enviar para: Diretor de Redação. utiliza a língua “de modo determinado” (PÊCHEUX. Por outro lado. 70). Assim é que também se pode compreender porque é aberto. mediante identificação indispensável. essas filiações parafraseiam sentidos hegemônicos que são relevantes para as instâncias que os dominam. VEJA [. Conforme Zanella (2012). nesse tipo de seção. pois o texto pode ser resumido. caso escolhidas. necessariamente uma dependência ao discurso pretensamente imparcial. o problema da crença na neutralidade do discurso jornalístico. a seção de cartas do leitor poderia constituir uma quebra neste ritual: nela.. há um “lugar institucional” que valida as cartas como “discursos pertinentes” (p. Por sua vez.. suas cartas publicadas. 111). Se o discurso jornalístico se quer imparcial. produzida a partir de uma concepção de linguagem transparente e objetiva. Isso faz com que fique apagado para o leitor que o discurso jornalístico deriva de redes de filiações de sentidos às quais não se tem acesso. a imprensa.

é reabrir o ato já encerrado e aplaudido para que seja. O efeito produzido pela palavra comentário. Para Foucault (2009 [1996]). Observaremos. Comentar é. publicado por Veja. 37. 36). retomemos. vejamos como o gesto de comentar ocorre de maneiras distintas nessas sete cartas. e edição 2182. Nesse sentido. Guzzo. de 08/09/2010.R.. novamente. portanto. de forma que a matéria apenas sirva como um ponto de partida para o que será posto. Embora o semanário não apresente o total de cartas recebidas com relação à reportagem sobre as “metrópoles do futuro”. O grupo de cartas que se apresenta na sequência é marcado por leitores-autores que parabenizam Veja pela publicação: ______ [ 47 ] . pois. de 15/09/2010. grifos meus). o seu conteúdo é mediado e passa pelo crivo da edição. há uma indicação. Para Soares (2006). de que o especial foi um dos ‘assuntos mais comentados’ da semana: “Assuntos mais comentados: Artigo de J. perpetua um determinado dizer. 195. fazer ressurgir aquilo que é comentado. As cartas aparecem nas duas edições posteriores de Veja.. a noção de comentário traz consigo uma função restritiva e coercitiva. fala sobre. No que diz respeito às cartas selecionadas para a análise neste estudo.. Essa seleção contempla. transforma discursos e. ao longo da discussão proposta. p. Comentar. 26. ainda que seu papel possa ser “positivo e multiplicador” (p. é então permitir que um dado texto primeiro possa continuar em cena. Nesse sentido. em se tratando de imaginário construído do discurso jornalístico. Como diz Foucault: “O comentário conjura o acaso do discurso fazendo-lhe sua parte: permite-lhe dizer algo além do texto mesmo. a saber: edição 2181. de que forma as cartas publicadas no espaço supracitado comentam a publicação da revista. assistido e celebrado. o semanário se reserva o direito de escolher o que publicar. na seção Leitor da edição 2181. selecionei como recorte o total de cartas que faziam menção à reportagem especial sobre as “Cidades médias: as 20 metrópoles brasileiras do futuro”. em 1º de setembro de 2010. p. grifos meus). grifos meus). Isso porque é um procedimento de controle que retoma. sobre o que se comenta. Especial Cidades Médias.revista reserve um domínio à opinião do leitor. a partir desse primeiro texto (p.]” (Revista Veja. 08/09/2010. assim. [. mas com a condição de que o texto mesmo seja dito e de certo modo realizado” (ibid. o total de sete cartas do leitor publicadas com referência ao especial “Cidades médias”. é o de que ali se pode e se deve (principalmente) posicionar-se (ocupando uma posição-sujeito) diante do que é lido.

Revista Veja. 2181 de 08/09/2010. que será a maior do país. grifos meus). grifos meus). Londrina/PR. estão em fase de construção outra fábrica de celulose ainda maior e uma siderúrgica. 2181 de 08/09/2010. após 75 anos. Três Lagoas/MS. CARTA 4: Excelente reportagem. (Liliane Araújo. 51. Secretário de Desenvolvimento Econômico. (Marco Garcia de Souza. Destacam-se. p. 2182 de 15/09/2010. e talvez por isso Três Lagoas (MS) não esteja relacionada entre as cidades com maior crescimento industrial. Como ela poderia imaginar que. As duas empresas são responsáveis por 75% das exportações da Paraíba. ao tomar a decisão de assumir o cargo que conquistara em concurso do Banco do Brasil. com 160 000 metros quadrados totalmente climatizados. ed. Além disso. a Coteminas. Aqui está situada a maior unidade têxtil do mundo em uma única planta de produção. quatro enunciados que explicitamente parabenizam ______ [ 48 ] . CARTA 2: Parabenizamos VEJA pela excelente reportagem sobre as cidades médias brasileiras e desejamos trazer um adendo quanto ao papel da indústria na economia de Campina Grande (“A rival de João Pessoa”. com o início da produção da Fibria (papel e celulose) e de outras trinta fábricas de diversos setores. a Alpargatas S. meu filho. ela teve um aumento do PIB de 300%.CARTA 1: Parabéns pelo especial sobre as vinte metrópoles brasileiras do futuro (Especial Cidades Médias. ed. 59. 1º de setembro). Também está projetada para 2014 a fábrica de fertilizantes da Petrobras. A cidade fica na Paraíba. grifos meus). Na cidade também se localiza a única fabricante das sandálias Havaianas. p. 1º de setembro). Nos últimos dois anos. Percebi que os dados sobre a elevação do PIB dos municípios se referem ao período de 2002 a 2007. Presidente da Federação das Indústrias do Estado da Paraíba. produzindo 650 000 pares por dia e empregando mais de 8 000 trabalhadores. (Luiz Edgard Bueno. Essa edição prova que o futuro do Brasil está no interior. 112 da edição 2180 de VEJA) seja o de Pernambuco. 2181 de 08/09/2010.A. Três Lagoas ocupa ainda a 56ª posição entre os municípios exportadores do Brasil. (Francisco de Assis Benevides Gadelha.. ed. Campina Grande/PB. grifos meus). Revista Veja. CARTA 7: Meu pai contava que. p. minha avó lhe perguntou: “Mas. Campina Grande/PB. 51. Lamento apenas que o mapa que localiza Campina Grande (na pág. p. ed. Revista Veja. Londrina se transformaria nessa linda e nova metrópole regional? Parabéns por mostrar ao Brasil pérolas não conhecidas por muitos. 51. onde fica essa cidade que nem no mapa existe?”. pois. estado ao norte de Pernambuco. Revista Veja. O Brasil está encontrando o caminho da descentralização da economia e da interiorização do desenvolvimento.

isso significa que o trabalho com os sentidos lançados pelo especial é bem-sucedido. Revista Veja. (Pablo Braga. Aqui. ed. parte-se de um pressuposto (construído historicamente na relação entre jornais e leitores) de uma necessidade social de saber os fatos relatados. 25. um serviço prestado que estivesse dando a conhecer as cidades do futuro. Na esteira de Foucault (2009 [1996]). não estão. O fato de a revista publicar quatro (dentre as sete) cartas que a cumprimentam pela reportagem especial evidencia o processo de circulação da revista: se há leitores de diferentes lugares geográficos que comentam a reportagem da mesma maneira positiva. como se o especial fosse. pode enfim ‘assegurar’ que é um veículo de comunicação respeitável. lemos: CARTA 5: VEJA nos presenteia com mais uma reportagem de alto gabarito (Especial Cidades Médias. d) “Parabéns por mostrar ao Brasil pérolas não conhecidas por muitos” (Carta 7). Os leitores-autores dessas cartas supracitadas. Mostrar o novo perfil de cidades médias brasileiras que estão se desenvolvendo a passos largos é um serviço de utilidade pública e uma injeção de ânimo para acreditarmos que o país ainda tem oportunidades para quem luta por dias melhores. 2182 de 15/09/2010. 2006. “Excelente reportagem” (Carta 4). Nesse viés. por meio dos sentidos da opinião de leitores. (MARIANI. evidentemente – considerando-se que são os próprios leitores da revista que o dizem –. 34. porém. o qual diz que a revista está prestando “um serviço de utilidade pública”. considero que esses comentários explicitam algo que já “estava articulado silenciosamente no texto primeiro” (p. ______ [ 49 ] . p. ao parabenizarem Veja pelo especial. destaco a afirmação desse leitor-autor: “VEJA nos presenteia com mais uma reportagem de alto gabarito”. Veja. pode-se verificar como o semanário produz um efeito de sentido de que o que está publicado é algo digno de celebração. “Parabenizamos VEJA pela excelente reportagem” (Carta 2). na carta 5. 1º de setembro). já que caberia à revista informar: essa pretensa informatividade jornalística se sustenta com base em uma ideologia utilitária. inaugurando um dizer. Montes Claros/MG. ou seja. itálicos do autor)3. grifos meus). 59. p. compromissado com as verdades-da-informação4. grifos meus). Prosseguindo com as análises. Com esse recorte.o especial: a) b) c) “Parabéns pelo especial sobre as vinte metrópoles brasileiras do futuro” (Carta 1).

A publicação desta carta. p. estão em fase de construção outra fábrica de celulose ainda maior e uma siderúrgica.E. “estão em fase de construção outra fábrica de celulose ainda maior e uma siderúrgica”. Nessa carta. grifos meus).] e de outras trinta fábricas de diversos setores”). “a fábrica de fertilizantes da Petrobras. quando o sujeito-leitor-autor conjectura o fato de sua cidade (Três Lagoas/MS) não estar listada no ranking da revista: “Percebi que os dados sobre a elevação do PIB dos municípios se referem ao período de 2002 a 2007. pelas informações recebidas e veiculadas através dela (SOARES. nessas revistas. etc. É o próprio leitor-autor quem sana a dúvida de sua cidade não estar listada entre as 20 “metrópoles do futuro”. que poderia manifestar um furo da reportagem. a linguagem é um meio de comunicação de informação. ela [Três Lagoas] teve um aumento do PIB de 300%. Além disso. parciais. Além disso. ao contrário. então. apenas reforça o sentido veiculado no especial de que há cidades que almejam se tornar “metrópoles do futuro”.). e talvez por isso Três Lagoas (MS) não esteja relacionada entre as cidades com maior crescimento industrial” (Carta 1. é possível notar como O efeito do discurso jornalístico que faz sentido para os leitores é o de que. grifos meus). retornando à carta 1. Nada. A industrialização promove o crescimento da cidade. É o que se vê. 197.. grifos meus). deve ser porque os dados utilizados são estes (e não estes outros). equivocadas. altercar as informações apresentadas pela revista (como desatualizadas. com o início da produção da Fibria (papel e celulose) e de outras trinta fábricas de diversos setores. que será a maior do país” e o fato de a cidade ocupar “a 56ª posição entre os municípios exportadores do Brasil”. vê-se então como o imaginário de desenvolvimento e modernização da cidade passa pelo que a revista efetiva ao longo do especial. O imaginário de que o discurso jornalístico estaria a serviço da população atua para que os sentidos veiculados na seção Leitor reverberem os do especial sobre as “cidades do futuro”. Os leitores agradecem ao editor ou à própria revista (como uma entidade que se auto-organiza) pelos serviços prestados. estas outras metrópoles não listadas não são outros modelos urbanísticos senão aqueles que estão na formação discursiva da revista5: Nos últimos dois anos.. como se evidencia em “aumento do PIB de 300%” (devido ao “início da produção da Fibria [. Três Lagoas ocupa ainda a 56ª posição entre os municípios exportadores do Brasil (Carta 1. como se poderia glosar: se minha cidade não está no ranking. 2006. é questionado à revista. ______ [ 50 ] . dessa forma. que será a maior do país. Também está projetada para 2014 a fábrica de fertilizantes da Petrobras.

também faz com que o discurso de Veja se atualize. pois faz recuperar um já-dito. nesse retorno. O sujeito-leitor-autor da Carta 2. apaga a instalação de outros sentidos. “O Brasil está encontrando o caminho da descentralização da economia e da interiorização do desenvolvimento” (Carta 2). Seria possível pensar. E. isto é. Na carta 6. fazendo com que ele continue em evidência. Assim o leitor. o seu ponto de vista provém a mesma formação discursiva hegemônica que atravessa o discurso de Veja6. o leitor-autor da carta o faz: ele fala sobre as grandes fábricas e suas elevadas produções. de forma semelhante. reforça os sentidos sobre desenvolvimento. por sua vez. nesse dizer. reforça os sentidos lá produzidos. grifos meus).A. ao dizer que “VEJA resgatou a autoconfiança dos brasileiros e provou que o Brasil já está no futuro nessas localidades”. ao dizer que “desejamos trazer um adendo” por meio do qual visa ampliar as informações veiculadas sobre a cidade de Campina Grande/PB. ed. vê-se como o leitor-autor habita a mesma formação discursiva da revista. fala que elas geram emprego e.4-ss. São Gabriel do Oeste/MS. isto é. com 160 000 metros quadrados totalmente climatizados. produzindo 650 000 pares por dia e empregando mais de 8 000 trabalhadores. ______ [ 51 ] . crescimento.). A leitora-autora. além de agradecer à revista pelo especial. supostamente podendo ocupar (falar de) um lugar distinto do da revista. parafraseia aquele já-dito. modernização: Aqui está situada a maior unidade têxtil do mundo em uma única planta de produção. ressoa mais uma vez o imaginário constituído acerca do discurso jornalístico (p. supostamente emitindo sua opinião. que essa retomada instigue (mesmos ou outros) leitores a (re)ler o especial. tem-se: CARTA 6: VEJA resgatou a autoconfiança dos brasileiros e provou que o Brasil já está no futuro nessas localidades (Carla Grimm. 2182 de 15/09/2010. 59. Da mesma forma que a revista constrói discursivamente seus ‘dados’ como provas evidentes e irrefutáveis de que a industrialização traz desenvolvimento. segundo ele. grifos meus). já que. embora se coloque subjetivamente. Na cidade também se localiza a única fabricante das sandálias Havaianas. ele mesmo diz: “Essa edição prova que o futuro do Brasil está no interior” (Carta 1. Revista Veja. já que. A partir do que se diz nesta carta. a Alpargatas S.O que se verifica a partir dessa carta é que o leitor-autor. As duas empresas são responsáveis por 75% das exportações da Paraíba (Carta 2).. a Coteminas. por exemplo. p.

2006. na ordem do público algo que é da ordem do privado: se se trata de autoconfiança. p. por conseguinte. isto não significa que todas as camadas sociais possam alcançar o sucesso. mas vale dizer que se Veja afirma que há um Brasil que dá certo e que é possível ser bem-sucedido nas “metrópoles do futuro”. caberia a pergunta: a quem se fala. Não obstante. dos efeitos produzidos pela própria imprensa. porém. confiança em si mesmo. não seria algo da ordem do privado e do pessoal. Isso vem ao encontro do que Souza (1997) aponta com relação à construção da subjetividade no espaço público: a questão da “moral cívica” (p. Se o sujeito jornalista. que. que há uma ritualização ideológica presente no discurso jornalístico. embora muito relevantes. Resgatar a autoconfiança. leve-se em consideração todos os brasileiros. ou seja. como Veja. exatamente. ilusão que é assumida pelos leitores recrutados pela mesma formação discursiva: Leitores e jornalistas encontram-se [. o sentido que se produz é o de que ela havia sido perdida. verifica-se que há um assujeitamento ao dizer da revista que faz com que os sentidos ali publicados se tornem os sentidos verdadeiros ou os únicos possíveis. ficando imersos em uma agenda (organizada pelos ‘donos’ do jornal) previamente constituída por interpretações legitimadas. ou que virão a se tornar consenso por força. Assume-se que Veja possa e deva falar em nome dos brasileiros. sanar uma questão pessoal que. é posta como um problema social. por seu funcionamento e. então. enfim. Coloca-se. Se houve um resgate da autoconfiança. O sujeito assume.] enquadrados nos domínios de pensamento de sua época. grifos meus).Quando enuncia que o semanário “resgatou a autoconfiança dos brasileiros”. Por outro lado. já que se constitui como autoridade midiática. a partir da leitura de Veja (notese que a questão da autoconfiança não está relacionada exclusivamente ao especial Cidades médias). independentemente da publicação (ou não) da revista? Considero que o discurso jornalístico.. por seu efeito de evidência. 22). aqui.. cria essa ilusão de completude e de poder. não serão exploradas neste estudo. ______ [ 52 ] . 34. a partir da leitura da seção Leitor. quando se trata de “autoconfiança dos brasileiros”? Qual o sentido de autoconfiança aqui? Autoconfiança em quê? Essas questões. como afirma a autora da carta. entretanto. é possível também analisar como todo discurso está sujeito à falha7. ao falar sobre o desenvolvimento das cidades médias brasileiras. ou já tomadas como socialmente consensuais. entendendo ritualização aqui como uma forma de manutenção e repetição de determinados sentidos (MARIANI. o sentido produzido pela leitora-autora é o de que seria possível. É possível afirmar.

grifos meus). as formas do lapso de escrita podem se dar em “casos de repetição ou esquecimento de palavras. “alguma coisa mais forte [. foge ao controle e marca o lugar do excêntrico..]”. de supostos erros tipográficos ou ortográficos” (p. de outro centro e isso que fala. Aqui. grifos meus). Campina Grande/PB. Na verdade. Essa coisa mais forte é da ordem do inconsciente. objetividade. pois que não contempla o sujeito presente em sua estrutura (MAIA. especialmente o colorido. corrige o dito da revista. vem no sentido de contrapor à visão da linguística e do discurso da ciência que propõem uma possibilidade de língua fechada. 2181 de 08/09/2010.. O leitor-autor. 35). há.enquanto uma posição de sujeito. com o conceito de inconsciente8.). vê-se nas cartas 3 (abaixo) e 4 (apresentada acima). poderia ser quebrado. pois se lida. de distorção de nomes. no âmbito da AD. portanto.. dessa perspectiva. sem falhas. o leitor-autor da carta questiona uma ‘informação’ trazida pelo semanário numa das matérias que integram o especial e. Chefe adjunto de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Algodão. 1998) que habita o discurso jornalístico. Segundo Maia (ibid. ed. imparcialidade. O imaginário de veracidade da informação compartilhado pela revista Veja. 51. na sequência. 32.. há. lapsos cometidos por Veja no especial em questão. 2006). o que faz com que o equívoco no discurso produza um efeito de sentido (muito provavelmente) inesperado pelo semanário: “sempre algo escapa. identifica no dito da revista uma fenda. a responsável pela geração e lançamento de cultivares coloridos de algodão no Brasil é a unidade da Embrapa conhecida pelo nome de Embrapa Algodão (Carlos Alberto Domingues da Silva. (MARIANI. [. Revista Veja. no enunciado que se inicia com “Na verdade. ajusta-se a este imaginário de neutralidade. veracidade. informamos que a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) não participa do programa de melhoramento genético de algodão da Embrapa. o suposto controle dos sentidos ritualizado no discurso jornalístico é rompido. Não se considera. já que num dado momento houve a publicação de um lapso. p. fala ou escreve através ______ [ 53 ] . uma preocupação maior com o dizer por parte dos sujeitos ocupando a posição de enunciadores desse dizer. embora haja. Com essa carta. como diz Orlandi (2010 [1999]). a partir da carta do leitor. A noção de lapso. que os equívocos de Veja se tratem de meros “erros” de informação. na matéria em questão. aqui. uma afirmação que é questionada. no processo de produção jornalístico. visto que. Na carta 3. etc. completa. lê-se: CARTA 3: Em relação à reportagem “A rival de João Pessoa”.] [que] traz em sua materialidade os efeitos que atingem esses sujeitos apesar de suas vontades” (p.

que a publicação da carta 3 não constitua nem um lugar de resistência aos sentidos produzidos nem uma tentativa de subjetivação porque: a) não transforma a ritualização do discurso jornalístico. Na carta 4. 36. as falhas são manifestações da ordem do inconsciente que inserem uma nova mensagem e produzem outro efeito de sentido (MAIA. ao menos. enquanto lugar de resistência. 35). estado ao norte de Pernambuco” (grifos meus). p. entendo que o lapso da carta 3 seja. Considero. O fato de a revista publicar uma reparação ______ [ 54 ] .. portanto. dois são os destinos para o sentido inesperado: a falha.] seja o de Pernambuco. grifos meus). e c) não apresenta. por outro lado. no qual. pode vir a ser absorvida pelo discurso hegemônico. trata-se de fazer o sentido (re)encontrar seu lugar na formação discursiva de Veja e. Mas a falha pode tomar dois desdobramentos: uma vez instalada uma fratura em rituais ideológicos. por conseguinte. absorvido pelo discurso hegemônico da revista.. desta perspectiva teórica. pode engendrar rupturas e consequente transformação do ritual. preocupado com a verdade (daí a publicação da ‘correção’). localizou-a no Estado de Pernambuco: “Lamento apenas que o mapa que localiza Campina Grande [. como se se tratasse de consertar o dito por meio da carta. mas não no sentido de promover uma ruptura com o dizer da revista. os dois ocorreram na mesma matéria. 2006). por conseguinte. há menção a outro lapso no especial sobre as “cidades do futuro” (curiosamente. veracidade e etc. 2006. A leitora-autora refere-se a um erro de localização no mapa que acompanha cada reportagem. Mais uma vez. isto é. reparar um suposto erro – “suposto” porque. p. como já foi dito. Ao contrário. por parte do leitor. ao invés de a revista localizar Campina Grande no Estado na Paraíba. assegurar que o semanário continua sendo um meio de comunicação confiável.. um contradiscurso. assim. objetividade. dois são os desdobramentos socialmente possíveis. leva-se em consideração o primado do inconsciente. sobre a cidade de Campina Grande/PB). considero que a sua publicação venha no sentido de apagar ou. b) está publicada num espaço que supostamente comportaria a opinião do leitor. 2006. contribuindo para a permanência dos sentidos legitimados historicamente (MARIANI. podendo estar submetida à edição. A cidade fica na Paraíba. dentre outras inscrições possíveis. em relação a essa carta. Nesse viés.de nossas bocas e mãos” (MAIA. ou. É como se o efeito de sentido ‘indesejado’ produzido pelo lapso fosse ressignificado. não põe em xeque as noções de neutralidade.

em um panfleto de uma escola de idiomas e no site de um residencial de uma empreendedora imobiliária. Seu lamento é apenas com relação à localização errada. tem-se: PEÇA 1: Revista Diference (ed. pelos mesmos motivos que já foram enumerados logo acima. Na primeira. A réplica. Só resta queixar-se. ora mostrando a voz de Veja. por exemplo. assim. o efeito de sentido produzido a partir desta carta é o de que estar entre as 20 “metrópoles do futuro” é algo positivo e a ser valorizado. vejamos como os sentidos produzidos pelo especial de Veja são reproduzidos também em outras materialidades discursivas de circulação mais estrita: em veículos publicitários na cidade de Cascavel. o fato de sua cidade estar incluída no especial. ______ [ 55 ] . deva ser referida ‘corretamente’. como se o dizer da revista refletisse uma única realidade. Ao elogiar a revista. a leitora efetiva seu posicionamento na mesma formação discursiva. A fim de investigar como algumas empresas locais reproduzem o fato de Cascavel ser considerada uma “metrópole do futuro”. Cascavel ganha status de ‘metrópole do futuro’” (grifos meus). O que chama a atenção nessas três peças publicitárias e as insere em minha análise é o fato de elas trazerem o enunciado “metrópole do futuro”. As peças circularam em Cascavel logo após a publicação do especial de Veja.faz com que se interprete a existência de uma espécie de colaboração entre o sujeito-leitor-autor e o seu destinatário. ela não lamenta. Portanto. este não é abalado. outubro-novembro/2010): “Às vésperas de completar 58 anos. destaco três recortes de peças publicitárias veiculadas em uma revista de circulação regional. não promove qualquer deslocamento de sentidos: enquanto o lapso da localização da cidade produz sentidos que vão de encontro com o imaginário constituído da instituição jornalística e com o discurso da revista. por assim o ser. então. que aquela “cidade do futuro”. Na sequência. no final do ano de 2010. ora a silenciando.

aqui. Por fim. a metrópole do futuro” (grifos meus).PEÇA 2: New York School (peça circulada em outubro/2010): Na peça 2. o destaque está num dos pontos apresentados como “motivo” para estudar naquela escola de idiomas: (ampliação) Destaca-se. na peça 3. o enunciado que retoma o especial de Veja: “A New York School ensina com qualidade desde 1991 e é a escola que mais cresceu em Cascavel. tem-se: ______ [ 56 ] .

há duas referências à reportagem do semanário: na primeira. Isto é evidente nas peças 1 e 3. ao lado de outras 19 cidades de médio porte do Brasil em que.. Vale apontar que há aqui um jogo com os sentidos de ganhar e receber. e. o “futuro já chegou” (Revista Diference. entre setembro e dezembro de 2010. 2010. ao utilizar o vocábulo ganhar.PEÇA 3: Residencial Treviso (peça circulada no último trimestre/2010) A respeito dessa peça. pode-se verificar como o enunciado que repercute deriva daquela publicação9. segundo a revista. em sua edição de 1º de setembro de 2010. lê-se: “Parabéns. Considerando que os três textos foram coletados logo após a publicação do especial de Veja. grifos meus) e. grifos meus). out. ed. a revista Diference10 escreve que “Às vésperas de completar 58 anos.-nov. “VEJA – Cascavel entre as 20 metrópoles brasileiras do futuro” (grifos meus). expressa: Cascavel recebeu esse título [de “metrópole do futuro”] pela Revista Veja. no texto que compõe a matéria. Cascavel ganha status de ‘metrópole do futuro’” (sem indicação de página. produz alguns efeitos de sentido dentre ______ [ 57 ] . na segunda. Cascavel! A metrópole do futuro”. nas quais se faz menção à matéria de Veja: na peça 1. O lide11.

Pode-se dizer. apagando o intertexto (o especial de Veja). para a veiculação de uma propaganda como esta. que isso ocorra porque. com relação à última que se pode verificar como o esquecimento é estruturante. os sentidos dados por Veja são (re)tomados como evidência. etc. mais do que uma ressonância de sentidos. a partir das análises empreendidas. além de um ganho. seja uma matrícula numa escola de idiomas. Se nas peças 1 e 3 os efeitos de sentido derivam – e. basta que informem que Cascavel o ganhou e apenas isso. Por outro lado. é possível considerar que. Dessa forma. Não há. sobretudo. pode-se compreender como o dizer do semanário emerge (embora apagado) nesta peça como fonte de um dizer que estaria comprometido com a verdade.os quais se poderia perceber uma repercussão dos sentidos já-lá no especial de Veja. Na peça 3.). ainda outros efeitos de sentido se produzem. como se o que o semanário publicasse pudesse e devesse ser levado em consideração. pois. todavia. de certa forma. seja uma casa. Quando se emprega o termo receber. seria possível considerar que. não há qualquer referência explícita que recupere a publicação do especial. senão lógico assumi-lo e reverberá-lo. uma preocupação da revista Diference com as formas de se alcançar esse status. supõe-se que seja por algum tipo de merecimento. reforçando os sentidos do discurso de Veja. Se houve autorização. na peça 2. no discurso publicitário. de acordo com o seu dizer. que os efeitos de sentido produzidos pelas peças publicitárias vão ao encontro daqueles que ______ [ 58 ] . para a venda de um produto (seja uma revista. Nesse viés. não seria. também se faz menção ao semanário da Editora Abril ao trazer o logotipo da revista e ao referenciar o “anúncio” diretamente. recuperar um dito de um veículo de comunicação tão difundido quanto Veja seja fator contribuinte para os fins da publicidade. diria que eles dependem – dos sentidos que o semanário da Editora Abril efetiva. A expressão “metrópole do futuro” comparece na peça publicitária de modo natural. isto é. isto é. ocorrem relações também intertextuais nas peças 1 e 3. por parte dos interessados. reconhecimento ou mesmo sorte. A expressão receber um título efetiva. há ali um desvelamento de como a ideologia afeta os sujeitos. se se afirma que Cascavel ganhou um status. que haja um reforço daquele dizer. como diz Orlandi (2010 [1999]). por conseguinte. o reconhecimento de sua legitimidade. podemos considerar que haja uma reverência ao que Veja diz e. ademais. A partir da publicação da peça 2. isso representa uma conquista que. enquanto na peça 2 há uma relação interdiscursiva. É. além disso. na peça 2. embora não se diga de que forma foi alcançada. Considera-se. Dessa forma.

dos sentidos já pré-estabelecidos (cf. Eles vêm para reforçar aquele dizer de Veja e contribuir não só para sua estabilização. isto é. que se vale de uma oração adjetiva restritiva12: “A New York School ensina com qualidade desde 1991 e é a escola que mais cresceu em Cascavel. enfim. haja vista que o que dizem parte do âmbito do pré-construído. mais uma vez reforçando e naturalizando os sentidos produzidos por Veja. como se se dissesse que. além disso. por seus processos discursivos. Por esses motivos. concordar que Cascavel tenha ganhado este “status” e inseri-lo nas instituições da cidade. À guisa de conclusão. pode-se dizer que. que. uma inscrição na história e na língua que produz determinados sentidos. a respeito das materialidades que ressoaram após a publicação do especial. não se notam deslocamentos nas peças publicitárias analisadas. A queixa. SOUZA. mas também para imobilizar os sentidos a partir de “comentários”. Os sentidos que se produzem aqui são os de que não se trata de qualquer escola. diante disso. Na peça 2. o protesto das cartas não vêm para contra-argumentar o dizer do semanário. Ao contrário. enfim. eles vêm para reforçar. O que importa esclarecer. sejam marcas de um assujeitamento a uma dada formação discursiva e. já que os sujeitos estão fadados a significar em sua dependência a um (sempre) já-dito. os efeitos de ______ [ 59 ] . como em “escola do futuro”. em Veja isso não ocorre. o lamento. (r)emendar o dizer hegemônico que atravessa o especial. ou seja. se pudesse. a metrópole do futuro” (grifos meus). de uma atualização de um dizer primeiro.Veja efetiva. por estar numa “metrópole do futuro”. esses discursos não levam ao diferente. nesse processo. a escola teria uma atenção direcionada ao ensino de qualidade. E. Em geral. não seria senão natural dar-lhe a preferência.se a seção destinada às cartas do leitor supostamente poderia ser um espaço para exibir uma opinião que não condissesse com a da revista. por estar na “cidade do futuro”. o enunciado emblemático de “metrópoles do futuro” utilizado pelo semanário. ser um espaço de suporte de um contradiscurso. mas da escola que mais cresceu numa cidade que é considerada a metrópole do futuro. observou-se que . a partir disso. mas escritas por sujeitos ausentes no processo de produção do semanário. é natural que haja uma “escola do futuro”. notar a construção do enunciado. 1997). é que as peças publicitárias demonstram. É relevante. Nesse caso. Efetiva-se. As cartas são uma espécie de retificação da própria revista. na acepção foucaultiana discutida acima. vê-se ainda como a partir do enunciado “metrópoles do futuro” ocorre um deslizamento de sentido para “a escola do futuro”. já que parabenizar a cidade por ser uma “metrópole do futuro”.

pois é como se dissesse: se o sujeito fala com sua própria voz. Embora a extensão da circulação do especial seja muito mais ampla e certamente ressoe noutros meios. E. provavelmente por isso. individual. trabalham para a estabilização dos sentidos que a revista efetiva. é natural que o que ele diz não seja senão a verdade. considero que a partir das análises sobre as quais me debrucei foi possível evidenciar de que modo circulam os sentidos. o espaço concedido ao dizer deste leitor. A partir das peças publicitárias selecionadas. a partir daí. vem para reativar e firmar os sentidos (já) efetivados por Veja. que mais do que reverberar. numa medição que seria. sem pretender a exaustividade. nas dos sujeitos publicitários. a repetição da expressão. enquanto destinatário das cartas. impraticável. como se eles fossem comuns a todos.sentido indesejados pela revista podem enfim ser estabilizados. de fato. Nas vozes dos leitores-autores. nesse processo. Como diz Mariani (1998). p. reafirma o dizer de Veja transpondo-se a um âmbito maior. colocase em posição de cumplicidade com o leitor e este. (re)aparece para reiterar os mesmos sentidos que o semanário produz. em minha análise. Em outras palavras. Vale dizer. que por meio dessas materialidades escolhidas foi possível verificar como alguns sentidos se fixam e se repetem. posto que se dá em diferentes momentos (a enunciação é sempre outra). Daí haver a necessidade de considerar que todo produto midiático produz. interpretando os fatos e acontecimentos. viu-se como os sentidos ali inscritos também ocupam a mesma formação discursiva de Veja. Veja. dada como se fosse lógica e facilmente recuperável. trabalha-se para uma naturalização dos sentidos efetivados. público. tem sua carta publicada13. do íntimo” (ibidem. A expressão “metrópoles do futuro”. Podese dizer. De um modo ou de outro. outras vozes ecoam. ______ [ 60 ] . os discursos das peças publicitárias reproduzem o discurso de Veja como se fosse o discurso da verdade e. antes – na publicação do especial – ou depois – com as cartas do leitor – tenta-se amarrar a significação. vê-se como a ilusão de um sujeito fonte de seu dizer e no controle de sua linguagem retorna. Nesse sentido. para um segmento da sociedade. Se a carta é uma “expressão do privado. Produz-se aí o que Souza (1997) denomina de “pacto confidencial” entre o sujeito-leitor-autor e o seu interlocutor. de modo que os sujeitos-leitores-autores fazem o trabalho intencionado pelo semanário: ao dar visibilidade aos seus leitores. porque produzida por uma revista de ampla circulação nacional. a instituição jornalística necessita de leitores/consumidores a quem se dirija para se manter dominante. 83) do autor-leitor. por sua vez. cria-se um efeito de legitimidade. de verdade daquilo que é dito. apagando a filiação a uma formação discursiva. enfim.

2010 [1999]. Maria Cláudia. Suzy. Antônio. Michel. Porto Alegre: Ed.). LAGAZZI. A ordem do discurso. 2006. PR: Edunioeste.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CATTELAN. SP: Pontes. Colcha de retalhos: micro-história e subjetividade. 1999. O desafio de dizer não. Laura Fraga de Almeida Sampaio. Mauro de Salles.). O lapso de escrita como refúgio do sujeito. Dissertação (Mestrado em Letras). 6. Michel. Maria Cristina (orgs. O PCB e a imprensa: os comunistas no imaginário dos jornais (1922-1989). Bethânia (org. Campinas. 2006. Campinas. ORLANDI. Versão digital. São Paulo: Edições Loyola. MARIANI. A escrita e os escritos: reflexões em análise do discurso e em psicanálise. Rio de Janeiro: Revan. 1988. Trad. FOUCAULT. Sagra Luzzatto. Michel. 2009 [1988]. Os sentidos de ‘povo roraimense’ em textos de parlamentares (1999 e 2005). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. HOUAISS. ed. 19. Freda. 2008. 1998.ed. da Unicamp. Catherine. PÊCHEUX. LEAL. Eni Puccinelli Orlandi et al. São Carlos: Claraluz. João Carlos. Campinas. FUCHS. VILLAR. 2009 [1996]. 2001. A propósito da análise automática do discurso: atualização e perspectivas (1975). Análise de Discurso: princípios e procedimentos. SP: Editora da Unicamp. LEANDRO FERREIRA. MAIA. In: Por uma análise automática ______ [ 61 ] . Trad. In: MARIANI. Bethânia. SP: Pontes. In: INDURSKY. SP: Ed. Sobre um percurso de análise do discurso jornalístico – A Revolução de 30. Maria do Socorro Pereira. PÊCHEUX. Eni Puccinelli. Campinas. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. ______. Cascavel. Universidade Federal Fluminense. Os múltiplos territórios da Análise do Discurso.

a partir de uma posição dada numa conjuntura dada. 2006. ______ [ 62 ] . Metrópoles do futuro: o barulho por trás do ranking de Veja. 132). produz-se o sentido de que se trata de algo a ser comemorado. REVISTA VEJA. ______. SP: Ed. sua orientação. 2010. (cf. 235 p. os interesses de classe aos quais eles servem –. Bethânia S. HAK. Universidade Estadual do Oeste do Paraná. ed. 2182. 15 set. Alexandre da Silva. por exemplo. 119 p.. o que se pode comentar dizendo que as ideologias práticas são práticas de classes (de luta de classes) na Ideologia”. 2010. SOARES. Tese (Doutorado em Letras) – Curso de Pós-Graduação em Letras. 2010 [1990]. Assim. do trabalho dos jornalistas envolvidos na produção da reportagem (seleção das cidades.. São Paulo: Abril. Universidade Federal Fluminense – Niterói. SOUZA. ZANELLA. ed. da Unicamp. entrevistas. 147. ao se falar. Brasil.do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Dissertação (Mestrado em Letras) – Curso de Pós-Graduação em Letras. no embate ideológico. etc. 2181. São Paulo: Abril. Brasil. (p. A homossexualidade e a AIDS no Imaginário de revistas semanais (1985-1990). Mariani et al. determinada pelo estado da luta de classes. Trad. os sentidos mudam conforme as posições dos sujeitos. isto é. 3) Já na introdução do especial de Veja. visita às cidades. Confidências da carne: o público e o privado na enunciação da sexualidade. 2) Entende-se por formação discursiva “aquilo que. Alexandre Sebastião Ferrari. os “[. 2010. 1997. itálicos do autor).] ‘objetos’ ideológicos são sempre fornecidos ao mesmo tempo que a ‘maneira de se servir deles’ – seu ‘sentido’. numa formação ideológica dada. RJ: 2006.” (p. 2012. Campinas. 2012). GADET. Campinas. ______. 2180. 01 set. São Paulo: Abril. ou seja. 2012. Françoise. SP: Editora da Unicamp. Brasil. 08 set. Pedro de.). ZANELLA. ed. NOTAS 1) Para Pêcheux (2009 [1988]). Tony (orgs). isto é. determina o que pode e deve ser dito.

mas “como exemplares do discurso”. da Editora Abril. pela ascensão da classe média. como algo a ser considerado. Dentre os resultados a que cheguei. O inconsciente. sugiro a leitura da 2ª parte de Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. 2000. O que o leitor-autor diz está previamente definido pelo semanário e pelas condições de produção de seu dizer. de certa maneira. funciona como uma estrutura que produz efeitos de evidência do sujeito. inserida numa formação discursiva neoliberal. a revista afirma que o crescimento econômico das cidades passa pela industrialização. tendo em vista que traz reportagens sobre empresas e personalidades de cidades locais do Oeste paranaense. 2009 [1988]. sugiro a leitura do Anexo III de Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio (PÊCHEUX. de considerar os textos em sua “completude”. sua materialidade lingüístico-discursiva”.. 11) Lide corresponde a “linha ou parágrafo que apresenta os principais tópicos da matéria desenvolvida no texto jornalístico. como um dado a ser manipulado. analisei os sentidos que constituem no discurso as “metrópoles do futuro” de que fala Veja. em seu processo de escritura. 13) A questão da cumplicidade produzida entre o sujeito-leitor-autor da carta e o seu “destinatário” é debatida por Souza (1997). p. Não obstante. 5) Em minha dissertação de mestrado (ZANELLA. 6) Queremos com isso dizer que o sujeito-leitor-autor das cartas.. fortuitamente. 160). 139).] são ‘fatos’ de linguagem com sua memória. pela prestação de serviços que atendem a uma demanda dessa classe. investigar como e por que esse dizer aparece noutros textos. estão o de que. ______ [ 63 ] . em sua extensão. p. (Orlandi. 2012). 62). mais do que mostrar a quantidade de peças que reverberam o dizer da revista. Não se trata. em que os dados “[. aqui.4) A expressão é de Mariani (1998). em profundidade”. 10). 2009 [1988]). 9) Embora minha seleção. pois. 10) A revista Diference é uma publicação da Editora Diference que se configura como uma revista publicitária. o seu dizer parte do já-dito por Veja. nesta subseção. 12) Para uma discussão sobre o funcionamento das orações adjetivas e seu papel na constituição da teoria do discurso pêcheutiana. 7) A este respeito. a linguística e a teoria do discurso – são “atravessadas e articuladas por uma teoria da subjetividade (de natureza psicanalítica)” (p. Leal (2006). é relevante. na teoria pêcheutiana do discurso. a este respeito. Seu design gráfico segue os moldes da revista Caras. dentre outros fatores. diz: “a AD não coloca a quantidade. pela mínima intervenção do Estado. de Pêchex (2009 [1988]). p. 2001). a articulação das três regiões do saber que constituem a análise de discurso – a saber: o materialismo histórico. cabeça” (HOUAISS. por “dissimular sua própria existência no interior mesmo do seu funcionamento” (PÊCHEUX. 2003. considero que. sua espessura semântica. 8) Para Pêcheux e Fuchs (2010 [1990]). mas uma “exaustividade vertical. (Orlandi. está em outro momento enunciativo: o da emissão de uma opinião que é sua e que poderia não corresponder necessariamente com o dizer da revista. seja restrita a três peças publicitárias encontradas.

CAPÍTULO 4 COMENTÁRIOS DE LEITORES: A VIOLÊNCIA NOTICIADA NA INTERNET Luiz Carlos de Oliveira .

assim. quando diz ‘eu’ [. que está sob a marca da evidência. o faz a partir de um efeito retroativo que é resultado de sua constituição pela linguagem – os significantes aparecem sempre como já-lá – e interpelação pela ideologia – o efeito de evidência dos sentidos. o leitor-autor constituído ideologicamente e individualizado pelo Estado. ______ [ 65 ] . irmãos em sua constituição pela linguagem. Trago então. e isso não se realiza de qualquer maneira. os dois são efeitos e agentes da materialidade histórica. essa constituição dos sentidos e dos sujeitos. afetado pelo inconsciente. senão sob o efeito e a evidência de serem um “eu” que pensa e atribui os sentidos que esse “eu” deseja: efeitos. Além disso. não é fruto da vontade de cada ser.].O leitor que inicia a leitura deste texto e o autor que o redige. isto é. grifos meus). mas resulta. a cada significante. foi necessária uma pré-inscrição no campo da linguagem. as pistas deixadas por Pêcheux ao retomar Lacan e Althusser: o sujeito dividido. do trabalho levado a cabo pelo inconsciente e pela ideologia. que falha e possibilita a tomada de novos trajetos na produção discursiva. momento no qual se expressa cada um de forma singular. como efeito. da interpelação ideológica que constitui o sujeito através da linguagem. p. É com o objetivo de compreender o funcionamento dos elementos que compõem esse processo discursivo que a Análise de Discurso Francesa (doravante. ou seja. (MARIANI. os dois inteirados imaginariamente do seu “eu” autônomo e palpável. sendo assujeitado a significantes com significações determinadas. trabalho que não é perfeito. 2006. Para ter a ilusão de ser sujeito do que diz. tomada sob o aspecto da memória discursiva e da conjuntura histórica que marca as condições de produção do dizer. estarão. através de mecanismos não identificáveis por eles. 28. sobre o mundo e si mesmos. a cada reflexão. produzido a partir de significantes colados a determinadas significações. constituídos e constituindo sentidos1 sobre o que leem e escrevem. AD) busca examinar os modos pelos quais a constituição dos sujeitos e dos sentidos ocorrem.. Assim..

equívocos.28. p. 141).. mas a relação imaginária destes indivíduos. pelos embates ideológicos característicos das contradições de classe. enquanto matriz de sentidos. só podemos refletir sobre nós mesmos (compreender-nos sujeitos) se inseridos no campo da linguagem e. desde o nascimento. chistes. p. os sujeitos e os sentidos em uma determinada conjuntura histórica marcada pelas relações de força. interpelados pela ideologia e ______ [ 66 ] . p. 2006. produz. ocorre um duplo processo engendrado pela inscrição do significante estruturando o inconsciente e constituindo o sujeito: uma identificação simbólica do sujeito à formação discursiva na qual ele se constitui e um assujeitamento ideológico aos sentidos que essa mesma formação discursiva. sob o viés da AD. isso ocorre porque a ideologia dissimula o modo pelo qual funciona produzindo um “efeito retroativo”. Mariani (2006). Pêcheux (2009. 147). afirma: Para Pêcheux. Dessa forma. 162) aponta para a forma como o sujeito é afetado pelo inconsciente. ou seja. A linguagem antecede o sujeito. através da linguagem. À semelhança da ideologia.. ela interpela o indivíduo como sujeito autônomo (como sempre já sujeito). grifos meus). portanto. E sua inscrição na linguagem. etc. em sua proposta teórica da relação entre o inconsciente e a ideologia. o que é representado não é o sistema das relações reais que governam a existência dos indivíduos.É resultado do funcionamento do inconsciente que o afeta sem que tenha controle sobre o modo como isso ocorre. 82. através dos lapsos. sobre o modo como o inconsciente e a ideologia atuam na constituição do sujeito. p. não é vazia. Dessa forma. mas uma inscrição discursiva na qual os significantes já estão conectados a determinados sentidos. essa inscrição no campo da linguagem não se realiza fora do ideológico [.] Na constituição da subjetividade. 2009. ou seja. com as relações reais em que vivem” (ALTHUSSER. grifos meus). Segundo Pêcheux (2009. Portanto. a ideologia constitui simultaneamente. o discurso sintetiza a articulação da ideologia e do inconsciente com a linguagem na constituição dos sentidos e do sujeito. como se os efeitos de sentidos que o constitui só pudessem ser aqueles e não outros. É sobre uma base linguística que o processo discursivo ocorre (PÊCHEUX. essa dependência ao significante. Nesse sentido. (MARIANI. Esses significantes permitem também perceber o inconsciente operando sobre o sujeito2. então. p. 1974. “Na ideologia. a ideologia sintetiza a relação imaginária que os sujeitos mantêm com as suas condições materiais de existência.

Assim. num momento. etc. como cada palavra é empregada efetivamente. provavelmente. reformulando e conectando os significantes a determinados efeitos de sentidos. as FDs são os trajetos mais ou menos estabilizados que esses posicionamentos ideológicos tomam na linguagem4. do discurso jurídico (direito). os efeitos de sentidos ocorrem pautados pelo trabalho das formações ideológicas e das formações discursivas (doravante. etc. proposições etc. Destarte. efeitos que estarão conectados aos posicionamentos mais ou menos estabilizados oriundos da igreja. a ideologia age. retomando. itálicos do autor. Poderíamos resumir: as palavras. p.afetados pelo inconsciente. o inconsciente o afetando através de irrupções na cadeia significante de termos e falhas que fogem ao controle e que necessitam ser domados. tendo como referência os aparelhos ideológicos do Estado3 (família. produzem distintos discursos. suas palavras significam de modo diferente do que se falasse do lugar do aluno” (ORLANDI. Enquanto a formação ideológica representa as inúmeras maneiras pelas quais a interpelação ideológica pode ocorrer em uma determinada conjuntura histórica. as formações ideológicas sintetizam. grifos meus). o modo como o dizer ocorre. (PÊCHEUX. como também diferentes significantes podem estar conectados a efeitos de sentidos aproximados. Assim. Pelas FDs. ______ [ 67 ] . A palavra “casamento”. Um mesmo significante pode tomar inúmeros trajetos discursivos de acordo com os posicionamentos nos quais está inscrito o sujeito. FDs). igreja.. exército. Assim. na atual conjuntura histórica brasileira. através da descrição e caracterização das FDs.. ateus. mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam. Nesse processo. é possível afirmar que não há sujeito fora da ideologia e que os posicionamentos de cada sujeito estarão relacionados ao modo como em uma determinada conjuntura histórica os sujeitos são constituídos. “se o sujeito fala a partir do lugar do professor.). Portanto. héteros ou homossexuais. escola. ao mesmo tempo. produzirá distintos efeitos de sentidos para religiosos. enquanto trajetos discursivos orientados pelas formações ideológicas. diferentes FDs.. 2009. nesse momento. as regionalizações ideológicas que demarcam a constituição dos sujeitos e sentidos em posicionamentos específicos. é possível perceber a interpelação ideológica constituindo o sujeito e. ou seja. 146-147. 2007. efetiva-se na linguagem a interpelação. no seio de uma FD.] nas quais essas posições se inscrevem. o que quer dizer que elas adquirem seu sentido em referência às formações ideológicas [. da família. expressões. 39). p.

a forma-sujeito é o modo pelo qual resulta a interpelação. que se dirige a cidadãos. toma imaginariamente como evidente o que leu e comenta. itálicos do autor. (LAGAZZI. nãocontraditório e seu autor deve ser visível. “Se o sujeito é opaco e o discurso não transparente. p. ______ [ 68 ] . 2006.No processo de transformação do indivíduo em sujeito por meio da interpelação ideológica. enquanto leitorautor. e o modo como o inconsciente afeta o sujeito. pois é resultado específico do modo contraditório pelo qual a sociedade existe. Assim. Ao produzir comentários sob o mesmo mecanismo. da responsabilidade e da autonomia. 1984). no entanto o texto deve ser coerente. que não permaneça no anonimato. senhor e responsável de si mesmo. há a história do leitor-autor que a redige. ou seja.] que têm a ilusão da unicidade. trata-se de constatar que todo sujeito é constitutivamente colocado como autor de e responsável por seus atos (por suas “condutas” e por suas “palavras”) em cada prática que se inscreve. colocando-se na origem de seu dizer” (ORLANDI. das formações discursivas) no qual ele é interpelado em “sujeito-responsável”. p. grifos meus). e isso pela determinação do complexo das formações ideológicas (e. 31).. em contrapartida. 2007. Assim. (PÊCHEUX. em particular. 2009. a FD aponta para o sujeito o que pode e deve ser dito. sob a insígnia da unicidade. cobra. Ao mesmo tempo em que o arcabouço legal do “Estado de Direito” concebe ao sujeito a “liberdade de se expressar”. o sujeito. que o dizer ocorra dentro de certos parâmetros. Refletindo sobre o tema deste trabalho. A FD que produz o sujeito de maneira singular não está imune a essa singularidade. p. nele existem brechas5 e. a cada um e a todos ao mesmo tempo. Ao ler uma determinada matéria que retrata a violência e redigir o seu comentário. que o autor possa ser responsabilizado por algum deslize nas regras estabelecidas dessa liberdade. a uma massa uniforme [. as contradições de classe. ele é ‘intercambiável perante o Estado’ (Haroche. 1988. ao mesmo tempo. 75). Porém. Destarte. a ideologia jurídica instala uma ambiguidade no sujeito: ao mesmo tempo em que este se vê como um ser único. 198. esse apontamento não é completo. ressoam determinados efeitos de sentidos sobre as notícias que retratam a violência. “há um modo específico de inscrição do significante em cada sujeito” (MARIANI.. p. 20-21). produzindo um sujeito jurídico com direitos e deveres que deve responsabilizar-se pelo seu dizer.

a quantidade de acessos em cada link sobre determinado assunto. também. apagando a forma específica pela qual funciona. a quantia de visitas recebidas. deve-se considerar esse mecanismo no qual os temas são pautados segundo os aspectos ideológicos. é sua adequação ao imaginário ocidental de liberdade e bons costumes. que passam por filtros e são tratados. manipulados.. Por outro lado. estão no cerne da produção jornalística: são aspectos invariantes de qualquer jornal de referência. p. a “textualidade eletrônica” pode ser tomada com um arquivo no qual são depositados dados recortados. ______ [ 69 ] . apagando outros. (ROMÃO. 2006. não se pode deixar de fazer menção às características do discurso jornalístico. pois ao falar X. também. o que se deseja é demonstrar a sua submissão ao jogo das relações de poder vigentes. também é verdade. Essa dupla face indica que há um direcionamento de tais seleções [. De um lado há recorte e seleção de certos textos. É. os compartilhamentos efetuados nas redes sociais e o acesso às propagandas e aos endereços eletrônicos dos anunciantes. está sob o molde da objetividade e imparcialidade que constitui imaginariamente o fazer jornalístico e que trabalha na homogeneização dos efeitos de sentidos conforme os trajetos discursivos em que o sujeito está inscrito. permeada e envolta por links/tags. banco de dados. 305-306. portais etc.] que é engendrado pela ideologia como o processo que neutraliza e legitima certos sentidos. considero aspectos não evidentes que constituem o sujeito e sustentam o seu dizer. outros tantos sentidos são desprezados e eliminados. indesejáveis ou tidos como não relevantes. o modo como a rede eletrônica é tomada por seus usuários. no nosso entender. (MARIANI. Nesse contexto. a polêmica despertada nos comentários dos leitores.AUTORIA NA REDE ELETRÔNICA Ao refletir sobre a constituição do sujeito na internet. grifos meus). 63. imagens e informações que instalam sentidos na Internet e estão autorizados a entrar na rede de arquivos e aceitos para circular nos sites. 1998. o efeito de literalidade decorrente da ilusão da informatividade.. Mesmo fragmentado no arquivo digital. grifos meus). sempre calamos Y. o dizer presente em cada matéria. p. Segundo Romão (2006). Considero. Ao afirmar que a produção do discurso jornalístico é homogeneizante. Estas propriedades. No caso dos portais de notícias.

p. Para o autor. grifos meus). na medida em que delimita as fronteiras e as possibilidades de circulação dos efeitos de sentidos em uma determinada conjuntura histórica.Essas “propriedades” influenciarão a constituição dos comentários dos leitores que produzirão o seu dizer a partir de um discurso primeiro. aliás. os comentários sobre outros comentários. a matéria jornalística publicada no portal de notícias que retrata a violência. deve-se considerar uma distinção na constituição dos efeitos de sentidos e dos sujeitos. sujeitos e arquivos. o acaso são transferidos. não se afasta deste texto primeiro. esse texto se realiza no comentário. a máscara. possibilitados pela quase simultaneidade do dizer que marca as publicações na rede eletrônica. o comentário é um discurso que normatiza a circulação discursiva. na análise dos comentários publicados nos portais de notícias. a função de autoria e as disciplinas científicas. que se deitam umas sobre as outras na descida e na subida do cursor. Nesse caso. a circunstância da repetição. 309. Essa quase simultaneidade aludida leva a refletir que o texto eletrônico não apresenta páginas a serem viradas como acontece no livro convencional. ou seja. 2009. para o número. (ROMÃO. grifos meus). 2006. A multiplicidade aberta. O leitor-autor. pelo princípio do comentário. 25-26. Engendra-se o novelo heterogêneo de sentidos. O novo não está no que é dito. a forma. A partir disso. o imenso pergaminho digital vai enrolando várias vozes. ao produzir distintos dizeres a respeito de um texto jornalístico. Assim. outros modos pelos quais pode resultar a constituição do sujeito enquanto leitor-autor (singularidade). fazendo tagarelar ditos tantos. daquilo que arriscaria de ser dito. (FOUCAULT. p. Ao abordar os procedimentos internos de controle do discurso. que se justapõem em um patchwork de fundura e largueza imensas. mas com a condição de que o texto mesmo seja dito e de certo modo realizado. Esse “novelo heterogêneo de sentidos” marca o modo como se estruturam os comentários publicados no portal CGN. Foucault (2009) traça três procedimentos: o comentário. O que é dito no comentário não é estranho e não rompe com o que é considerado aceitável de ser dito. mas no acontecimento de sua volta. O comentário conjura o acaso do discurso fazendo-lhe sua parte: permite-lhe dizer algo além do texto mesmo. ou seja. que está sob o imaginário da literalidade. conforme Foucault (2009). no qual são ______ [ 70 ] . concomitantemente. devem-se levar em conta as condições de produção do discurso nas quais a internet permite outras formas e possibilidades de comentar e.

estão os links que permitem compartilhar a matéria nas redes sociais e. não me preocupo em definir o que seja a violência. mas em trazer os posicionamentos discursivos presentes nos comentários desses leitores-autores sobre o tema. texto e fotos. As matérias são integradas. Passou por uma reestruturação em 2011. em regra. Ao se clicar no espaço dedicado aos comentários. por vídeo. Logo abaixo da matéria. existe um espaço dedicado aos anunciantes (“Patrocinado por:6”). parte deste “novelo”. e continuar a desenrolar o fio dos sentidos. mais abaixo. O portal de notícias CGN foi criado na cidade de Cascavel no ano de 2006. respectivamente. mas se preocupa em traçar o modo como os sujeitos enquanto leitores-autores do portal de notícias estão constituídos ao discursivizar a violência na internet. ou anterior. Antes de escrever observe as regras e seja criterioso ao expressar sua opinião. há a exposição dos comentários – quando algum já foi publicado – e o espaço onde os leitores-autores podem escrever opiniões. Portanto. logo abaixo destes. Destaco que a proposta desta discussão não foca a violência enquanto categoria sociológica. COMENTÁRIOS NO PORTAL DE NOTÍCIAS: ESPECIFICIDADES E DISTINÇÕES Interesso-me pelo modo como ocorre a produção de comentários sobre uma matéria publicada em um portal de notícias que se refere à violência. ______ [ 71 ] . avaliar positiva ou negativamente e/ou responder outros comentários já publicados. cabendo ao leitor selecionar se quer ir para a próxima. o primeiro iniciado com publicidade que pode ser “pulada” após alguns segundos de exibição.apresentadas cinco opiniões por página. O portal exibe notícias da cidade de Cascavel (e região) e também referentes à cidade de Curitiba e sua região metropolitana. Não serão publicados comentários nas seguintes situações: Que não possuam relação com o conteúdo noticiado. surge uma caixa de diálogo com “restrições” impostas ao leitor-autor que deseja comentar a matéria ou responder alguma opinião já publicada: Os comentários feitos na CGN são moderados. buscando destacar alguns discursos que estão presentes e trazer a especificidade e possíveis distinções desses dizeres na internet frente aos comentários publicados na mídia impressa. quando se filiou ao grupo Universo Online (UOL).

identificar-se e evitar escrever algo pelo que possa ser penalizado. estão relacionadas à individualização jurídica imposta pelo Estado. à forma como a imprensa e o Estado buscam normatizar os ______ [ 72 ] . sugerindo que o leitor-autor seja “criterioso”. porém tudo o que for autorizado pelo regramento jurídico. Esse regramento se refere ao modo como ocorre o imaginário sobre o discurso jornalístico inserido no processo de identificação do sujeito pelo Estado. As restrições impostas se assemelham ao modo como os comentários dos leitores publicados nos periódicos impressos são regrados (ver Oliveira (2012)). MARIANI. racista. no qual se pode dizer tudo. na qual o sujeito deve responsabilizar-se pelo seu dizer. Que contenham conteúdo que possa ser interpretado como de caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas. ou seja. Ao leitor-autor parece restar produzir o seu texto no molde proposto e não fugir “do conteúdo noticiado”. Não concordo (grifos meus). Que transpareçam cunho comercial ou ainda que sejam pertecentes [sic] a correntes de qualquer espécie. Que contenham linguagem grosseira. O fato de o leitor-autor não necessitar se identificar com seu nome e e-mail válido permite pensar em uma brecha e na resistência às regras impostas. injurioso. Todos os comentários enviados para a CGN possuem identificação IP armazenada em nossos servidores para que posteriormente possa ser usado para identificação e/ou localização do autor.Que contenham teor calunioso. de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade. 63). retirar qualquer comentário que possa ser considerado contrário às regras definidas acima. a qualquer tempo. que escreva de modo a não ser mal “interpretado”. p. Neste sentido. Porém.. também o que pode ser publicado).. além do mais. apontando para a existência de um “moderador”. obscena e/pornográfica [sic]. esses dois campos podem ser preenchidos de forma aleatória. Que tenham característica de prática de Spam. pois não há necessidade de efetuar cadastro no portal e não há validação do e-mail digitado. o leitor-autor pode redigir seu comentário com no máximo 140 caracteres. “da liberdade” e dos “bons costumes” (cf. 1998. Caso você concorde com todas as restrições acima citadas confirme abaixo. O CGN não se responsabiliza pelos comentários dos internautas e se reserva ao direito de. que não use “linguagem grosseira. Além dessas restrições. As regras infligidas. Também deve identificar-se com um nome e e-mail. a objetividade e a imparcialidade que constituem imaginariamente o modus operandi do discurso jornalístico permitem a elaboração das regras apontando o que não pode ser publicado (apesar de não dito.”. difamatório. Concordo com os termos acima. e a seu exclusivo critério.

77. os dois primeiros e os dois últimos comentários publicados até a data na qual efetuei a coleta do corpus. segundo PM”. Dessa maneira.. virtualmente. É o “grande irmão” a nos vigiar! Para poder “expressar sua opinião”. com o título: “Mortos em confronto eram perigosos. após a leitura (ou não) das restrições. Foram publicados 73 comentários sobre o texto até a data da pesquisa (15/09/2013). às 18h06min.. A matéria cujos comentários foram selecionados se refere a uma abordagem policial que resultou na morte de duas pessoas na cidade de Cascavel. publicada em 6 de setembro de 2013. sendo. com suas vontades e responsabilidades. único que pode qualificar se o sujeito praticou um delito e se merece ser responsabilizado ou não. independentemente da validação dos e-mails e nomes. 1998. SD). (MARIANI. ______ [ 73 ] .dizeres. que considerei como sequências discursivas7 (doravante. O leitor-autor diz: SD1: sou dos direitos humanos 06/09/2013 18:41h 15 (+) 47 (-) só deus para salvar nossa cidade e seu povo da total calamidade que nós assola. também. as “restrições” impostas podem ser descritas como um contrato no qual as cláusulas tomam o aspecto da literalidade/objetividade e abrangem cada um e todos os leitores-autores. Vale lembrar. Selecionei quatro comentários de leitores. grifos meus). essa resistência pode ser relativizada ao se considerar que. sua função de interpelaçãoidentificação que atua sobre os processos de constituição do sujeito: o sujeito de direito tanto é aquele que se reconhece/enuncia sob a evidência do Eu – uma singularidade. predominando a individualização jurídica imposta pelo Estado. ocupar o lugar ‘vazio’ instaurado pela universalidade das leis [. O primeiro leitor-autor que aceitou as restrições estabelecidas. p. é um salve se quem puder(hoje o povo comemora mortes) Responder este comentário (grifos meus). perceber a caracterização do “sujeito de direito” que deve seguir regras e usufruir direitos. portanto – como também é aquele que poderá. com relação ao discurso jurídico. identificou-se como “sou dos direitos humanos”. o usuário pode ser rastreado (“identificação e/ou localização”) através do número do IP: “Todos os comentários enviados para a CGN possuem identificação IP armazenada em nossos servidores para que posteriormente possa ser usado para identificação e/ou localização do autor” (grifos meus). ao comentar a matéria publicada pelo portal CGN. reforçando a noção do sujeito uno e autônomo que pode decidir se expressar ou não. o leitor-autor deve clicar no botão “concordo com os termos acima”.]. permitindo. Por outro lado. Assim. respectivamente.

com práticas punidas pela lei. o posicionamento do leitor-autor está construído em relação à violência. nem diretamente à matéria que não faz menção aos direitos humanos ou a alguma “comemoração” sobre o fato noticiado (morte de duas pessoas). o interdiscurso que retoma a passagem bíblica da destruição de Sodoma e Gomorra (“só deus para salvar nossa cidade e seu povo da total calamidade que nós assola”. ou seja. Para Pêcheux (2009). “hoje o povo comemora mortes”. esse posicionamento não pode estar relacionado diretamente à resposta dos dizeres de outros leitores-autores sobre o texto jornalístico. de acordo com as condições ideológicas nas quais elas estão inseridas. na SD1. O pré-construído do poder de “deus” (que pode castigar/ destruir/salvar) sustenta o dizer e permite a formulação dos termos “nossa ______ [ 74 ] . produzindo os sentidos (evidentes) em que são fornecidos os fundamentos da identificação do sujeito com as FDs. há na SD1 a FD que formula um discurso religioso e que permite pensar em outro dizer não presente. focando a contradição presente na naturalização da violência e a menção a um passado melhor que o presente. 2009. ser dos direitos humanos marca uma oposição à violência retratada na matéria. a FD absorve elementos pré-construídos alhures e os reformula através da associação com elementos que são encadeados no enunciado (discurso transverso8). p. grifos meus). a FD religiosa produz efeitos de sentidos da ajuda divina (“só deus para salvar”) contra o individualismo e a naturalização da violência (“é um salve se quem puder”) que leva “o povo” a “comemorar mortes”. segundo o portal de notícias. Por ser o primeiro comentário publicado. Sobrevém “um ‘trabalho’ de unificação do pensamento. no qual as pessoas não comemoravam mortes. no funcionamento do interdiscurso. em que as subordinações se realizam ao se apagarem na extensão sinonímica da paráfrase-reformulação” (PÊCHEUX. mesmo que a matéria não se refira diretamente aos direitos humanos. envolvidas anteriormente. Destarte. mas que sustenta os efeitos de sentidos do comentário. Além do dizer ligado a uma FD dos direitos humanos. ou seja. Assim. esse dizer pode estar ligado a outros discursos (memória discursiva (já-ditos)) efetuados em outros momentos no mesmo espaço virtual ou em outros e dos quais o leitor-autor discorda. Por outro lado. a morte de duas pessoas. como se percebe no final do seu comentário.O comentário que foi publicado trinta e cinco minutos após a matéria se refere a um posicionamento de defesa dos direitos humanos. 245).

as pessoas hoje ama mais a morte do q a vida. No comentário posterior (SD2). pode-se pensar na substituição destruir/“salvar”. não há a possibilidade de a avaliação ocorrer quase simultaneamente aos comentários e estar presente na constituição dos efeitos de sentidos. sobre o papel do Estado de garantir a segurança pública e dos excessos cometidos pelos agentes do estado. “seu povo” (pecadores bíblicos/ Cascavelenses). o pré-construído fornece o efeito do “sempre-já-aí” e o “mundo das coisas” como universalidade. nas cartas de leitores publicadas nesses periódicos. FALTA DEUS Responder este comentário (grifos meus). Esse efeito “consistiria numa discrepância pela qual um elemento irrompe no enunciado como se tivesse sido pensado ‘antes. Assim. porém não totalmente estabilizado. é apenas um número na quantificação das avaliações dos comentários já postados. refere-se aos direitos humanos citados na SD1 e se distancia desse discurso. mas seu posicionamento. Assim. porém deslocado das restrições e das cláusulas cominadas. porém. grifos meus). não deixa de produzir efeitos de sentidos sobre o tema. 2009.cidade” (Sodoma e Gomorra/Cascavel). “calamidade” e “assola” (pecado/violência). p. pois. A avaliação dos comentários deve ser analisada sob o prisma do processo de constituição ideológica dos dizeres. pois reforça a produção dos efeitos de sentidos de uma maioria/minoria que concorda ou discorda de um determinado posicionamento. independentemente’” (PÊCHEUX. pois a menção aos direitos humanos faz ecoar efeitos de sentidos de outra FD. pois. o seu dizer não é explicitado no site. publicado vinte e dois minutos após o primeiro. pode-se destacar o discurso religioso predominante no comentário e realçar o discurso transverso que associa “deus” à valorização da vida (que “salva”). ______ [ 75 ] . O comentário da SD1 recebeu avaliação negativa de 47 pessoas e positiva de outras 159. o leitor-autor que se identifica como “DEGRINGOLADO”. mesmo enquanto número. fixando-se no fato de que “FALTA DEUS”: SD2: DEGRINGOLADO 06/09/2013 19:03h 7 (+) 29 (-) Não precisa ser dos Direitos humanos pra ver q a vida predeu o valor. Essa avaliação deve ser levada em conta. O leitor-autor. nesse caso. Essa é uma das distinções que podem ser elencadas em relação às opiniões dos leitores-autores publicadas nos periódicos impressos. o internauta não necessita aceitar os termos impostos pela página do portal de notícias. em outro lugar. Além do mais. 142. sim.isso tem nome. sobre os aspectos legais e jurídicos da preservação da vida. ao avaliar os comentários dos outros leitores-autores. Podendo “se expressar” apenas com um clique.

ligada a uma ‘interincompreensão’. grifos meus). respaldada possivelmente pela presença de “DEUS”.O termo “DEGRINGOLADO” está aliado à perspectiva de que “a vida predeu o valor” e “FALTA DEUS”. construindo uma perspectiva negativa que só pode ser revertida pelo caminho divino. Essa simulação. ela está apenas ‘traduzindo’ o enunciado deste Outro. por exemplo. [. remete à identificação que produz imaginariamente o sujeito inteirado capaz de pensar-se. eu veria e pensaria o que tu (você)/ele/x vê e pensa’). 118. entretanto. sob a forma de uma citação. pensar o outro e se colocar no lugar do outro: (‘se eu estivesse onde tu (você)/ele/x se encontra.. Ao se referir ao primeiro comentário.] de uma formação discursiva à outra. itálico do autor. ______ [ 76 ] . Além disso. apesar de não concordar com o posicionamento dele sobre os direitos humanos (como se soubesse realmente que posicionamento é esse). 2009. pois ele opera [.. Maingueneau (1997). p. aproxima-se no que toca à falta de valor à vida e à necessidade da presença de uma força extra-humana. interpretando-o através de suas próprias categorias. (PÊCHEUX.] Assim. grifos meus). a SD2 permite destacar o mecanismo do simulacro discursivo. afirma que Esta interação entre dois discursos em posição de delimitação recíproca pode ser compreendida como um processo de ‘tradução’ generalizada. acrescentando que o imaginário da identificação mascara radicalmente qualquer descontinuidade epistemológica. entre zonas da mesma língua. ao comentar como ocorre essa simulação discursiva. isto é. 120.. contornando outras possibilidades mais diretas de combate à violência. (MAINGUENEAU.. porém se afasta da FD dos direitos humanos (“Não precisa ser dos Direitos humanos”). conforme Pêcheux (2009). 1997. há nos dois comentários a aproximação dos efeitos de sentidos sobre as “pessoas”/“povo” que “comemoram” e “amam” a “morte”. quando uma formação discursiva faz penetrar seu Outro em seu próprio interior. Tradução de um tipo bem particular. Ao focar sua opinião no amor à morte (falta de Deus) e falta de valor à vida. Assim. produzindo o efeito de sentido de um passado positivo no qual a vida era valorizada. no qual o leitor-autor imaginariamente se coloca no lugar do primeiro comentador e aponta que. p. o leitor-autor está orientado por uma FD de cunho religioso como na SD1. que reforça a necessidade de uma força sobre-humana para conter a violência. a FD religiosa segue um trajeto próximo ao da SD1.

previamente lidos e acomodados. devem-se considerar os comentários já postados. em saúde. e nos periódicos impressos. se limita ao gesto de inscrever-se em locais que já foram autorizados. dentre outros. já-dito e já-traçado por um outro sujeito. o sujeito da SD2 faz referência direta à SD1. Afetados pela navegação em uma superfície de dados prefixados anteriormente. apesar de não situarem o sujeito no mesmo posicionamento discursivo. segurança. Há. na SD2. produzindo a evidência da democracia digital. além da matéria. grifos meus). ao abordar a autoria na internet foca os blogs pessoais. Na SD2. especificamente no portal CGN. o sujeito constituído na rede eletrônica pode ser concebido como o sujeito do discurso em relação a um poder. o poder dos acessos e dos acessamentos. posição inscrita pela ideologia e pela memória e constituída por condições de produção datadas historicamente. Nessa perspectiva. das duas SDs acima. p. “só deus para salvar” e “FALTA DEUS”. Portanto. o sujeito se movimenta na rede do já-dado. Nesse aspecto. ou seja. Diferentemente dos comentários publicados nos periódicos impressos. formulado a partir de um posicionamento predominante da FD religiosa ao se distanciar do discurso dos direitos humanos. Assim. embrenhando-se em nós que já foram atados por outrem. ainda é possível analisar o modo de produção dos comentários na rede eletrônica. distribuição de renda. é possível conceber esse processo de inscrição do sujeito em locais já previamente estabelecidos. além da narrativa jornalística. Como se pode perceber. saneamento básico. A quase simultaneidade da publicação dos comentários na rede eletrônica leva os leitores-autores a comentarem não apenas a matéria em si. 307. Apesar de a constituição dos comentários no portal CGN estarem imersos em outro mecanismo.como a ação estatal. aproximam-nos. o investimento em educação. a ______ [ 77 ] . normalmente em seção específica que se refere à edição anterior. o que não pode ser dito em relação aos periódicos impressos. (ROMÃO. respectivamente. o do discurso jornalístico. nos quais o leitor-autor não tem acesso às opiniões alheias ao formular o seu dizer. assim. as opiniões já publicadas de outros leitores-autores. tantas vezes maculado pelo chavão da liberdade. mas considerar. 2006. na constituição dos efeitos de sentidos dos comentários publicados no portal de notícias. Romão (2006). um discurso que produz uma perspectiva de causa e efeito da presença de “deus” e o consequente fim da violência e da necessidade de combater a presença de atos/seres que contrariam os preceitos divinos. seja a partir do texto da matéria ou dos comentários postados que passarão pelo filtro do “moderador”.

na qual o leitor-autor entra em contato com gestos de autoria outros. que são tomadas como evidentes e reforçam o sujeito como autônomo. além daqueles presentes no texto da matéria veiculada no portal de notícias. Portanto. abrindo-se espaço para a produção ilusória de um espaço democrático e plural. cada vez. comentam. 2009. (FOUCAULT.. Essa distinção da composição entre os comentários publicados na internet e nos periódicos impressos é relevante por permitir destacar a forma como na rede eletrônica a constituição dos efeitos de sentidos estão marcados pelas possibilidades tecnológicas que a caracterizam.. Foucault esclarece a problemática da seguinte maneira: Não há. [. pelas condições de produção do discurso e pelas características que marcam esta rede. ficando exposta logo abaixo da matéria. a categoria dada uma vez por todas. Mesmo a matéria “anulada” como texto primeiro não deixa de estar presente em um ponto inicial “esquecido” pelo leitor-autor que se volta para um comentário específico e não aborda a matéria. Mas embora seus pontos de aplicação possam mudar. Nesse caso. a se reportar diretamente a outros comentários e não à matéria em si. uma vez que não é apenas a matéria que fomenta as discussões publicadas.] Mas quem não vê que se trata. muitas vezes. comentários vêm tomar o primeiro lugar. é necessário questionar como manejar o princípio de comentário proposto por Foucault (2009). e não de suprimir a relação ela mesma? Relação que não cessa de se modificar através do tempo. o da quase simultaneidade dos discursos publicados. por vezes. deve-se considerar essa especificidade. p. mas também os comentários. Como ______ [ 78 ] . de outro. de um lado. permitindo que se produzam outros/mesmos efeitos de sentidos sobre o texto jornalístico e sobre os comentários que podem vir a ocorrer. relação que toma em uma época dada formas múltiplas e divergentes. dos discursos fundamentais ou criadores. a massa daqueles que repetem. Portanto. grifos meus).escritura dos leitores-autores no site da CGN ocorre logo após a publicação da notícia de forma quase simultânea. Muitos textos maiores se confundem e desaparecem. e. glosam. de anular um dos termos da relação. ao considerar como uma particularidade da rede eletrônica a quase simultaneidade na publicação das postagens que leva o leitor-autor. isto é. porém isso não desestabiliza a “função” ou princípio do comentário. pode-se correr o risco de afirmar que a matéria publicada no portal e que os distintos comentários formam uma amálgama10 (matéria + comentários já publicados) que contribui para a constituição dos sujeitos e dos efeitos de sentidos sobre o tema. 2324. e. a função permanece.

Abraços a todos os PMs DEUS os protejam. está sob o prisma da oposição e distinção. a permanente remissão a elas para instalar o dito. Dessa forma. cabe destacar que na SD2 o comentário se refere tanto ao outro leitor-autor (SD1) quanto à matéria. porém. o efeito de liberdade (e desorientação) da página eletrônica e a possibilidade de escrita e leitura em vários lugares em curto intervalo de tempo dão conta de novas condições de produção que exigem nova formulação teórica e. como nas duas primeiras SDs. Na SD3. Nesse caso. SD3: alfa 09/09/2013 13:09h 0 (+) 0 (-) Meus parabéns a Grande Policia Militar fizeram um excelente trabalho. um novo conceito de autoria. Em consonância com os efeitos de sentidos da SD3. A topografia caótica do ciberespaço. (ROMÃO. os outros”. o leitor-autor que se identificou como “alfa” felicita a “Grande Policia Militar” pelo “excelente trabalho”. produzindo o discurso-transverso de que “violentos são eles. a força divina ou sobre-humana deve proteger os homens que combatem pessoas violentas. nesse caso. e as pessoas mortas. Ao trazer a discussão por esse caminho. porém em uma posição distinta delas. p. “DEUS” e a lei encarnam a perspectiva do bem. Diferentemente das duas primeiras SDs. 325. fixando-se na ação dos policiais.destaca Romão (2006). por conseguinte. a tagarelice de vozes emergentes não se sabe de onde nem de quem. é o que ocorre ______ [ 79 ] . que deve ser combatido e eliminado. A menção a “DEUS” traz. que protege a sociedade e representa o bem (merece ser felicitada). que valoriza a vida. A FD que permite essa formulação produz o eufemismo “excelente trabalho” para se referir às duas mortes perpetradas pelos agentes do Estado. distanciando-se da FD dos direitos humanos e do posicionamento da FD religiosa. 2006. produzindo os efeitos de sentidos da proteção às forças policiais e de uma presença divina que coaduna com o “trabalho” da polícia. o mal. não anulando o texto jornalístico publicado no portal enquanto texto primeiro. o leitor-autor produz uma perspectiva positiva sobre o que foi narrado na matéria. a fragmentação dos arquivos lincados à mercê do sujeito-navegador. grifos meus). a FD da legitimidade está associada à FD religiosa sem contradições aparentes. a FD religiosa. no qual a polícia militar. por sua vez. Responder este comentário (grifos meus). A violência. é possível perceber a especificidade na qual a constituição do sujeito enquanto leitor-autor-navegante ocorre de maneira sui generis.

com a SD4, que corresponde ao último comentário publicado sobre a matéria
até o dia no qual foi efetuada a pesquisa (15/09/2013):
SD4: Aliviada 13/09/2013 21:41h
0 (+) 0 (-) Obrigada Pms, por Tirarem das ruas talvez pessoas que
fizessem mal a mim ou a minha Familia, Admiro vcs Guerreiros!!
Responder este comentário (grifos meus).

A leitora-autora, que se autodenomina “Aliviada”, agradece aos
policiais militares utilizando o eufemismo “tirarem das ruas” para se referir
à ocorrência das duas mortes relatadas na matéria. Esse discurso se justifica,
segundo a posição discursiva na qual a leitora-autora está constituída, pelo
mal que “talvez” essas pessoas pudessem fazer.
O advérbio “talvez”, na forma empregada, pode representar um furo
na FD predominante que é a da legitimidade, porém não a desestabiliza. Os
efeitos de sentidos estão, como na SD3, produzidos sob o prisma da oposição
entre o bem e o mal; respectivamente, entre nós (“a mim ou a minha família”)
e eles (“pessoas que fizessem mal”). Dessa forma, a polícia militar é produzida
como “Guerreiros” que tiram o mal da rua.
A denominação “Guerreiros” é possível nessa FD, pois, na construção
da oposição entre o bem e o mal, o policial “tira das ruas”, não uma pessoa
comum, mas o “meu” inimigo, o inimigo da “minha família” e o da sociedade.
Por isso, é possível reforçar que o advérbio “talvez” não desestabiliza a
predominância da FD da legitimidade da ação estatal, apesar de representar
um dizer que põe em dúvida a ação das “pessoas que fizessem mal” ou a
atuação policial e do Estado, discurso que advém de outras FDs, como a dos
direitos humanos e a do discurso religioso da valorização da vida.
Dessa forma, a violência nestas duas SDs está constituída sob uma
perspectiva exterior, ou seja, violentos são os outros que tomam atitudes
violentas contra as pessoas de bem que podem recorrer ao “trabalho” da
polícia; não é mais a “calamidade que nós assola” (SD1). Assim, as FDs
que permitem a formulação das duas últimas SDs selecionadas produzem
um discurso positivo sobre a matéria, formulando eufemismos, elogios aos
“Guerreiros” (de qual guerra? Guerra contra o quê/quem?) da polícia militar
que merecem a proteção divina, distinguindo as mortes ocorridas (legitimadas)
da violência cotidiana.
Nas SDs analisadas, é possível perceber, no processo de constituição
dos sujeitos e dos efeitos de sentidos, como a FD orienta a forma como
cada leitor-autor se identifica. Como já foi dito, apesar da obrigação de
preencher o campo “nome”, não há a imposição de o internauta inserir um
______ [ 80 ]

nome previamente cadastrado no portal de notícias. Disse acima que os
leitores-autores preenchem o campo de forma aleatória, mas cabe aqui uma
reformulação: como é possível destacar, as expressões inseridas no campo
“nome” nas quatro SDs estão diretamente conectadas aos posicionamentos
discursivos dos leitores-autores.
Na SD1, “sou dos direitos humanos” marca o posicionamento em
relação à preservação da vida, seja a partir da perspectiva jurídica e estatal,
seja a partir da divina e sobre-humana; na SD2, “DEGRINGOLADO”
aponta para a perda do valor à vida, para a decadência dos tempos atuais,
focando um passado positivo que, aliado à FD religiosa, produz apenas a
solução divina para o problema da violência; na SD3, “alfa”, que considera
positivo os fatos relatados na matéria e pede a proteção divina para os
agentes policiais, identifica-se com um termo que está ligado ao cotidiano
de quem trabalha na área da segurança privada, pública ou na área militar. O
termo “alfa” representa a primeira letra do alfabeto internacional utilizado
normalmente nas transmissões via rádio e com o objetivo de evitar erros e
ambiguidades na interpretação das letras. Assim, as letras do alfabeto recebem
outra denominação: a: alfa, b: bravo, c: charlie, d: delta, e: eco, etc. Já na SD4,
a leitora-autora “Aliviada” agradece aos policiais pelo fato de terem “tirado
da rua” pessoas que talvez fizessem mal a ela ou a sua família, justificando a
utilização do termo pelo qual se identificou. Dessa forma, nesse mecanismo
de identificação, é possível destacar uma ancoragem na qual a expressão que
o leitor-autor se identifica está associada à FD que o constitui.
Ao considerar as quatro SDs, pode-se destacar um trajeto específico
dos efeitos de sentidos. As duas primeiras SDs tomam direções mais ou
menos estabilizadas. Isso também ocorre nas duas últimas; nestas, no entanto,
produzindo outros efeitos de sentidos, outra maneira pela qual os sujeitos são
constituídos ao comentar a matéria e ao se posicionar sobre a violência. Esses
trajetos mais ou menos regulares de produção dos efeitos de sentidos podem
ser explicados pela paráfrase:
A paráfrase representa assim o retorno aos mesmos espaços do dizer.
Produzem-se diferentes formulações do mesmo dizer sedimentado.
A paráfrase está do lado da estabilização. Ao passo que, na polissemia,
o que temos é deslocamento, ruptura de processos de significação. Ela joga
com o equívoco. (ORLANDI, 2007, p. 36, grifos meus).

A paráfrase, aliada à analogia do “pergaminho digital” (ROMÃO,
2006), dada a forma pela qual se desenrolam os comentários no portal,
respectivamente, SDs 1-2/3-4, deixa pensar que exista uma relação no modo
______ [ 81 ]

como ocorre o encadeamento dos comentários dos leitores-autores. Talvez,
não por acaso ou coincidência, existam dizeres mais ou menos próximos
entre as duas primeiras SDs e as duas últimas. Isso pode ser pensado como
um processo metafórico, modo já destacado por Orlandi (2007), ao trabalhar
com a representação na qual ocorrem transferências sucessivas de “a,b,c,d”
até findar em “e,f,g,h”:
A metáfora é constitutiva do processo mesmo de produção de sentido e
da constituição do sujeito. Falamos da metáfora não vista como desvio
mas como transferência. Na representação [...] podemos observar o
trabalho produzido pelo deslize (a deriva), pelo efeito metafórico, lugar de
interpretação e da historicidade. [...] Nessa representação o ponto de
partida (a,b,c,d) e o ponto de chegada (e,f,g,h), através dos deslizamentos de
sentidos – efeitos metafóricos – que se deram de próximo em próximo,
são totalmente diferentes. Mas essa diferença é sustentada em um
mesmo ponto que desliza de próximo em próximo [...] vemos aí a
historicidade representada pelos deslizes produzidos nas relações de
paráfrase que instalam o dizer na articulação de diferentes formações
discursivas, submetendo-os à metáfora (transferências), aos
deslocamentos: possíveis ‘outros’. (ORLANDI, 2007, p. 79, grifos meus).

Com isso, não se quer afirmar que exista um funcionamento fixo e já
dado no modo pelo qual as FDs se relacionam nos comentários publicados
no portal de notícias, mas se quer apontar que essas distintas relações
entre FDs ou posições discursivas produzem diferentes encaminhamentos
discursivos que não podem ser desconsiderados, ainda mais na rede digital,
cuja fragmentação sob a forma de links/tags permite que a qualquer momento
o leitor-autor possa transitar de um comentário ou matéria a outro com
apenas um clique.
O que pode ser destacado, nesse caso específico, é como se dá o
processo discursivo, por exemplo, como “DEUS” que “salva” e “falta” das
duas primeiras SDs está presente na SD3, produzindo efeitos de sentidos a
partir de uma FD religiosa, mas distintos das primeiras, ao tomar a violência
sob outra perspectiva, demonstrando a heterogeneidade que marca a FD. Já
na SD4 não é possível perceber a FD religiosa, porém ela está relacionada
com a FD da legitimidade da SD3 na forma como toma a violência cotidiana
e a função da polícia militar (Estado), silenciando a necessidade de se valorizar
a vida indistintamente ou refletir sobre os direitos humanos, aspectos esses
presentes nas duas primeiras SDs.
Como destaca Orlandi (2007), esse processo é de “ponto a ponto”,
“de próximo em próximo”, porém é um processo de deslizamento que
na rede eletrônica pode tomar caminhos incontáveis na constituição dos
______ [ 82 ]

comentários dos leitores-autores devido à maior interação possibilitada por
essa tecnologia. Para Romão (2006), ao comentar a constituição discursiva
dos sujeitos-autores em blogs na internet,
Talvez ‘a novidade’ seja afirmar que, na rede eletrônica, o sujeito-navegador
manifesta-se a partir da voz do(s) outro(s), reclamando a teia heterogênea
dos ditos alheios para fazer girar a sua condição de enunciador. Assim, a
autoria é marcada por vozes que vão se apoiando em superfícies patinadas
por outras vozes (sem as quais a navegação e a inscrição de sentidos
ficam comprometidas), de modo a desenhar uma estranha cartografia de
fragmentações de ditos, de retalhos de formulações e de retomadas de
relatos, enrolados no pergaminho digital. (ROMÃO, 2006, p. 326).

No contexto dos comentários nos portais de notícias, cada comentário
deve ser lido como um nó da rede eletrônica conectado a outros e que só
pode ser concebido dessa forma pela especificidade que constitui a internet.
Esses nós não existem e não são acessíveis nos periódicos impressos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos de estado. Lisboa:
Presença/Martins Fontes, 1974.
FINK, B. O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998.
FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 2009.
LAGAZZI, S. O desafio de dizer não. São Paulo: Pontes, 1988.
MAINGUENEAU, D. Novas tendências em análise do discurso. São
Paulo: Pontes, 1997.
MARIANI, B. O PCB e a imprensa: os comunistas no imaginário dos
jornais. Rio de Janeiro: Revan, 1998.
_____. Sentidos de subjetividade: imprensa e psicanálise. Polifonia,
EdUFMT, Cuiabá, v.1 2, nº 1, p. 21-45, 2006.
______ [ 83 ]

MOURA, C. S. L. Identidade(s) afro-mestiço-brasileira(s) no imaginário
dos jornais. Niterói: UFF, 2004. 242 p. Tese de doutorado, Curso de
Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal Fluminense (área de
concentração em Estudos Linguísticos, linha de pesquisa em Discurso e
Interação), Niterói, 2004.
OLIVEIRA, L. C. As cartas dos leitores de Veja. In: O discurso sobre as
cotas para negros na revista Veja. Cascavel, PR: UNIOESTE, 2012. 151
p. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação Strictu Sensu em
Letras (área de concentração em Linguagem e Sociedade), Cascavel, 2012.
ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 7.ed.
São Paulo: Pontes, 2007.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio.
4.ed. São Paulo: Unicamp, 2009.
ROMÃO, L. M. S. O cavalete, a tela e o branco: introdução à autoria na
rede eletrônica. D.E.L.T.A, São Paulo, PUC, v. 22, n. 2, p. 303-328, 2006.
Internet:
http://cgn.uol.com.br/noticia/63837/mortos-em-confrontoeram-perigosos-segundo-pm. Acesso em: 15 set. 2013.
NOTAS
1) Cada sujeito a seu modo, mas não desconectados do processo que os constitui.
2) “nascemos em um mundo de discurso, um discurso ou linguagem que precede nosso
nascimento e que continuará após a nossa morte.” (FINK, 1998, p. 21, grifos meus).
3) “Ao falarmos em aparelhos ideológicos do Estado e de suas práticas, dissemos que cada um
deles era a realização de uma ideologia [...]. Retomamos esta tese: uma ideologia existe sempre
em um aparelho e em sua prática ou práticas. Esta existência é material” (ALTHUSSER, 1974,
p. 84).
4) “Elas [as FDs] são constituídas pela contradição, são heterogêneas nelas mesmas e suas
fronteiras são fluidas, configurando-se e reconfigurando-se continuamente em suas relações”.
(ORLANDI, 2007, p. 44).
______ [ 84 ]

itálicos do autor. essa substituição pode ocorrer de duas formas: a. não sustentam a mesma relação significativa na FD considerada. foi substituído por “Anúncios”. ______ [ 85 ] . grifos meus). Uso o termo em outra acepção. ao passarem para a relação de substituição B e A. na pulsação sentido/non-sens do sujeito dividido [. Apreender até seu limite máximo a interpelação como ritual supõe reconhecer que não há ritual sem falhas” (PÊCHEUX. 2009. maneira simétrica (equivalência de significação entre elementos A e B) ou b. 7) Sequência discursiva “é aquela a partir da qual os outros elementos do corpus receberão sua organização. no funcionamento do discurso transverso. 10) Mariani (2006. 277. nas colunas escritas por psicanalistas. sem se deslocar. Porém. 151-152). ele não consegue corrigir o seu voto. p. porém em relação à FD predominante. na qual os elementos A e B. especificamente. Isso se dá a partir de dois níveis considerados por Orlandi – o da formulação ou do intradiscurso (sequência linguística produzida) e o da constituição ou do interdiscurso” (MOURA. mas trabalham. p. tendo a possibilidade de avaliar o mesmo comentário de forma positiva e negativa. “os traços inconscientes do significante não são jamais ‘apagados’ ou ‘esquecidos’..5) O recalque do inconsciente não é perfeito e nem a interpelação ideológica. itálicos da autora). por substituição orientada (implicação). 9) Cada internauta só pode clicar uma vez em cada contador da avaliação. 8) Segundo Pêcheux (2009.. 40) usa o termo amálgama (leitor-missivista + editor) para se referir à edição das cartas de leitores em jornais. 6) Posteriormente à realização da pesquisa. 41. Assim. p.]. 2004. é possível destacar a ocorrência de substituições no seio das FDs. p.

CAPÍTULO

5

O DISCURSO
PUBLICITÁRIO
NOS ANÚNCIOS
DE OPERADORAS
DE TELEFONES
CELULARES
Paula Fabiane de Souza Queiroz

Este trabalho se propõe a analisar, sob a ótica da Análise do Discurso,
estratégias1 discursivas utilizadas em anúncios de operadoras de telefones
celulares, para, assim, vislumbrar o modo de funcionamento do discurso
publicitário.
As análises na integra encontram-se na dissertação de Mestrado
intitulada O Discurso Publicitário nos Anúncios de Operadoras de telefones Celulares.
Apresentam-se, neste ensaio, portanto, as considerações finais decorrentes
das análises.
Para as análises, foram selecionados três anúncios de cada uma das
três principais operadoras de telefonia móvel do Brasil: TIM, Vivo e Brasil
Telecom. Os anúncios foram selecionados por se valerem de estratégias que
permitem visualizar valores reiterados por cada operadora na tentativa de
persuadir o consumidor, o que ilustra alguns aspectos recorrentes no discurso
publicitário.
TIM: VIVER SEM FRONTEIRAS
Em face das análises dos anúncios da operadora TIM, podem-se
destacar alguns pontos que são recorrentes, sendo balizados por valores
específicos valorizados por essa operadora. Esses valores podem ser
reconhecidos nos slogans e nas imagens que veiculam.
Algumas reflexões podem ser realizadas, a princípio com relação ao
nome da operadora. TIM resulta das primeiras letras de Telecom Italia Mobile,
empresa de telefonia celular oriunda da Itália e que chegou ao Brasil no ano
de 1998. Um aspecto a destacar com relação ao nome da operadora é a sua
mudança de gênero. Isso ocorre, pois, em alguns anúncios, ele é incorporado
______ [ 87 ]

ao nome dos planos e em outros assume exclusivamente o nome de operadora,
como nos casos:
a) TIM mais completo e TIM Web.
b) Só a TIM tem as melhores tarifas para você fazer ligações
DDD e DDI.
No primeiro caso, TIM assume o nome do plano; por isso, o adjetivo
completo é flexionado no masculino, enquanto que, no segundo caso, o artigo
feminino marca o gênero da TIM, por se tratar do nome da operadora.
Assim, TIM não é, exclusivamente, nem masculino, nem feminino, pois passa,
seguidamente, por um processo de neutralização da oposição de gênero
(MAINGUENEAU, 2008a, p. 215).
A TIM, como marca, responsabiliza-se pelos enunciados produzidos
nos anúncios. Esta marca, assim, torna-se uma entidade abstrata, desligada
do estatuto de fabricante, o que lhe permite produzir discursos por meio dos
quais investe nos produtos certo conjunto de valores específicos.
A esse respeito, Maigueneau (2008a, p.212) afirma que
O nome de uma marca, como qualquer nome próprio está associado a um
conjunto variável de representações sedimentadas ao longo do tempo, um
‘imagem de marca’, sobre a qual a empresa deve agir constantemente. A
evolução dessa imagem se deve em boa parte aos discursos que a empresa
emitiu sobre ela mesma e sobre seus produtos, em particular pela publicidade.
Por mais que uma marca se coloque como uma identidade que transcende
os enunciados que ela produz, ela é, na realidade, modificada por esses
enunciados: tais enunciados podem reforçar ou, ao contrário, modificar essa
imagem. De um enunciado a outro, ela se esforça por tecer um discurso que
lhe seja próprio por intermédio das histórias que conta. A marca encarna,
assim, sua identidade por intermédio dos discursos que ela produz, e a
esse respeito o processo de incorporação desempenha um papel importante,
pois ele é mediador entre o princípio abstrato representado pela marca e os
conteúdos que ela pretende veicular [...] (grifos do autor).

Assim, a cada discurso veiculado pelos anúncios, a história e a
identidade da operadora se constroem. Estes discursos baseiam-se em
determinados valores historicamente especificados e, ao mesmo tempo,
contribuem para que eles sejam confirmados e reforçados.
A partir do slogan da operadora TIM, pode-se afirmar que um dos
valores aos quais ela lança mão para sustentar seus anúncios é o da liberdade.
Nota-se que o discurso de cada anúncio analisado contribui para reiterar este
valor.
______ [ 88 ]

Maingueneau (2008a, p.171) afirma que um slogan é uma espécie de
fórmula curta, destinada a ser repetida por um número ilimitado de locutores,
como uma citação. O slogan está associado a uma sugestão e se destina “a fixar
na memória de consumidores ou futuros consumidores a associação de uma
marca a um argumento persuasivo para a compra”.
Nos anúncios analisados, aparece o slogan da empresa TIM: viver sem
fronteiras. Desse slogan, podem ser extraídos alguns efeitos de sentidos que
produzem determinadas representações da empresa anunciante.
Verifica-se, em primeiro lugar, o interdiscurso com a organização
Médicos sem Fronteiras, que surgiu com o objetivo de levar cuidados de saúde
para quem mais precisa, independentemente de interesses políticos, raça,
credo ou nacionalidade, ou seja, sem fronteiras. Assim, ao realizar o interdiscurso
com esta organização, o slogan da empresa atribui a si todos os traços positivos
que aquela possui, atribuindo-os, ainda, aos seus produtos. Além disso, sobre
aquela organização, tem-se a representação positiva da ausência de fronteira
para a assistência social, considerando-a universalmente necessária. O slogan
se vale dessa representação e a sobredetermina com outros efeitos de sentido,
valorizando, de acordo com seus interesses, a ausência de fronteiras com
relação à comunicação.
Assim, o slogan permite inferir que a TIM propõe, por meio de seus
serviços, um modo de vida que apresenta um caráter positivo por ser sem
limites e sem barreiras. Ou seja, a qualidade dos serviços da TIM com relação
à comunicação proporciona um modo de vida sem empecilhos ou obstáculos.
Desta forma, os discursos produzidos pelos diversos anúncios da
operadora sobre ela mesma ou sobre seus serviços confirmam e reforçam seu
slogan e contribuem para a constituição de uma imagem positiva da empresa.
E em cada anúncio permanece a busca pela reafirmação da empresa e pela
busca da sua inscrição na memória do consumidor.
Portanto, após as análises realizadas, é possível destacar a ênfase
dada à comunicação sem limites, à ausência de fronteiras e à liberdade em
geral. Esses aspectos são especificados e valorizados na constituição de cada
anúncio.
Desse modo, por meio dos seus anúncios, a TIM, enquanto uma
unidade abstrata que se responsabiliza por eles e constitui uma identidade para
a marca, cria um universo de sentido que determina que os valores exaltados
por ela são necessários, úteis e importantes: essenciais. Para isso, os anúncios
realizam interdiscursos com outros que, de alguma forma, contribuem para
reforçar os aspectos positivos desses valores.
Ao mesmo tempo em que enfatizam a liberdade e comunicação
______ [ 89 ]

sem fronteiras ou limites, os anúncios procuram criar no leitor o desejo de
desfrutar desses valores. Em alguns casos, o próprio anúncio fornece imagens
de clientes que desfrutaram ou desfrutam das vantagens e se encontram,
assim, satisfeitos.
Mas, com maior força, os anúncios buscam demonstrar que a
operadora, por seus produtos e serviços, pode proporcionar ao consumidor o
acesso à liberdade que tanto valoriza. Desse modo, de certa forma, ela realiza
uma chantagem velada, para que o consumidor ceda aos seus apelos e participe
ativamente do universo de sentido constituído por seu discurso, que se coloca
como necessário para que a satisfação do cliente seja alcançada.
Os anúncios, ainda, apresentam imagens que são reforçadas pelos enunciados.
Estas imagens conferem uma corporalidade ao fiador do discurso, que assume
uma dinâmica corporal compatível com o espaço social que ocupa.
O consumidor, ao realizar a leitura do anúncio, ultrapassa a
decodificação e participa do microuniverso construído pelo discurso, por
meio de uma identificação exigida com o corpo apresentado.
Nesse sentido, pode-se considerar a noção de ethos, assim como
reformulada por Maingueneau (2005), a partir da retórica para a Análise do
Discurso, considerando que
alguma coisa da ordem da experiência sensível se põe na comunicação
verbal. As ‘ideias’ suscitam a adesão por meio de uma maneira de dizer
que é também uma maneira de ser. Apanhado num ethos envolvente e
invisível, o coenunciador faz mais que decifrar conteúdos: ele participa do
mundo configurado pela enunciação, ele acede a uma identidade de algum
modo encarnada, permitindo ele próprio que um fiador o encarne. O poder
de persuasão de um discurso deve-se, em parte, ao fato de constranger
o destinatário a se identificar com o movimento de um corpo, seja ele
esquemático ou investido de valores. O ethos pede que se aceitem valores
historicamente especificados (MAINGUENEAU, 2008b, p. 29).

Verifica-se, assim, a incorporação que a enunciação busca conferir ao
fiador do discurso do anúncio, tentando levar o coenunciador à incorporação
de esquemas e, por fim, à tentativa de constituição de uma comunidade
imaginária dos que aderem ao discurso.
Dessa forma, a busca de persuasão do consumidor se dá, conforme
Maingueneau (2005), a partir da associação do produto a um corpo, a um
estilo de vida e a uma maneira de estar no mundo; além disso, o discurso só
pode adquirir o caráter de acontecimento e persuasão, se permitir e propuser
esta incorporação.
Além desses elementos, verifica-se que a TIM recorre a estereótipos2
______ [ 90 ]

revela-se a tentativa de. manter os clientes e reforçar a representação positiva da marca. VIVO: SINAL DE QUALIDADE Com relação à operadora Vivo. nas diversas vezes que aparecem promoções de serviços prestados gratuitamente. E. no decorrer do tempo. a empresa busca mostrar que procura proporcionar bem-estar e satisfação aos consumidores. e que. de modo que a persuasão objetiva ocorrer a partir da identificação do leitor com as representações mostradas e da participação ativa dele no universo de sentido constituído pelo discurso. Assim. A ênfase que os anúncios dão à suposta preocupação da empresa com o bem-estar dos consumidores se materializa. principalmente. deve ser considerado para além de suas dimensões de sentido. para que eles estejam satisfeitos. de maneira geral. como um conjunto de comportamentos e dotado de uma materialidade. reforça os efeitos de sentido que deles se depreendem e os transforma de acordo com seus objetivos. os anúncios apresentam argumentos que conduzem à conclusão de que a empresa oferece planos amplos. por meio dos anúncios. Assim. que podem se sentir valorizados e beneficiados por ela. a empresa procura desvalorizar as outras operadoras. à medida que utilizam de seus serviços sem pagar por isso. Dessa forma. possuem caráter argumentativo e buscam persuadir o leitor a adquirir o produto a partir de uma representação positiva da empresa. ou para reforçá-la. ao mesmo tempo em que organiza o discurso de modo a reforçar esta representação. Os enunciados que formam a parte verbal dos anúncios.constituídos historicamente. o discurso dos anúncios da TIM. ela é capaz de superar os próprios planos e vantagens oferecidas. que os anúncios assumem uma dupla função: fazer propaganda da TIM e contrapropaganda das outras operadoras. O que o discurso da empresa propõe ao coenunciador é a incorporação das representações que são materializadas. bem como o slogan da empresa. colocando-as como inferiores. então. Para auxiliar na constituição de uma imagem positiva da empresa. Neles. os efeitos de sentido que tece nas propagandas buscam conduzir o leitor para a representação positiva da ______ [ 91 ] . salienta-se a preocupação expressa nos anúncios de transmitir a representação de uma empresa que prioriza o bem-estar dos clientes e que cria promoções e oferece serviços a preços baixos. Nota-se. que envolvem telefonia móvel e fixa.

como depoimento de clientes que utilizam os serviços da operadora. O slogan da operadora Vivo “Sinal de Qualidade” contribui para construir uma representação positiva da empresa. de acordo com Maingueneau (2008a). Esta proposta de incorporação fica explícita nos anúncios em que aparece a afirmação Eu sou Vivo. bem como a tecnologia e os serviços que oferece. tornando-a mais tangível e humana e atribuindo a ela suas características: simplicidade. semitransparente. buscando estabelecer entre eles uma relação afetiva que se sobrepõe à relação comercial. prova e demonstração dessa qualidade. que podem inferir que são espertos e vivos. A logomarca aparece nos anúncios sempre próxima a uma figura humana. embora não esteja presente em todos os anúncios. Mas estes valores tornam-se ainda mais importantes. o bonequinho personifica a empresa. como também afirma que a própria marca da empresa é indício. ainda. Trata-se de um pequeno bonequinho estilizado. Dessa posição. Vê-se. explora a polissemia do termo vivo. O slogan joga com os efeitos de sentido do termo sinal. como à marca da empresa. o que a Vivo procura estabelecer entre o cliente e a empresa é uma identificação de valores a ponto de serem uma unidade. se desfrutarem das vantagens oferecidas pela empresa. pode-se perceber o convite da operadora para que o cliente faça adesão aos seus planos e utilize seus ______ [ 92 ] . transparência e acessibilidade. a operadora prioriza alguns valores e sugere ao cliente que os incorpore e faça parte também da empresa.empresa e para a incorporação dos valores expressos e destacados por ela. mais do que uma relação comercial. Por meio dele. O slogan garante a qualidade dos serviços prestados pela operadora. sem expressão facial e com uma postura convidativa. se forem incorporados pelos clientes. a empresa se propõe como oferecendo serviços de qualidade. em seus anúncios. Então. que pode defini-la como uma empresa sagaz. como flexão do verbo viver ou como adjetivo. o nome da marca se apropria das propriedades culturais que possuem determinadas unidades lexicais para tirar proveito e constituir o discurso publicitário. para agregar a si os efeitos de sentido que este termo produz. Assim. que pode remeter tanto aos sinais eletromagnéticos emitidos pela operadora para os celulares dos clientes. além de se mostrar preocupada com a satisfação do cliente e interessada em manter uma relação afetiva com ele. A operadora Vivo possui. Nesse sentido. que a operadora. Assim. uma logomarca que aparece na maior parte de seus anúncios. Esses elementos expressam valores que os anúncios buscam incorporar à operadora. afirmando que seus sinais eletromagnéticos são de qualidade. esperta e ativa. ainda. como uma companheira.

que a operadora lança promoções e oferece vantagens com o objetivo de superar as empresas concorrentes. sendo capaz de satisfazê-los. ela acaba por dizer exatamente o que sua formação discursiva determina e obriga. embora recorram a elementos de outras FDs. outras vezes. os anúncios não fogem às regras impostas pela FD comercial. sintam-se incluídos por ela. observou-se que tanto o enunciado quanto a imagem. a empresa se mostra como conhecedora dos desejos e necessidades dos clientes. embora parafraseie. ao mesmo tempo em que faziam referência ao Natal. retirando dela a responsabilidade pelos enunciados que veicula. esta concorrência se apresenta nos anúncios de forma implícita e ______ [ 93 ] . Para isso. Em um dos anúncios analisados. uma delas é a manipulação de datas comemorativas para a venda dos seus serviços. ainda. Contudo. compreende-se que. Além disso. Para construir esta representação. bem como um convite para que todos. principalmente. recorre a pessoas públicas que podem afiançar o discurso. Seu discurso é constituído na tentativa de apagar a relação comercial que se estabelece entre a empresa e o cliente e fazer sobressair a relação afetiva. A análise dos anúncios da operadora revela a preocupação de construir uma representação positiva que comova o consumidor. Às vezes.serviços. buscavam fazer lembrar que a aquisição do produto anunciado era eficiente o bastante para proporcionar felicidade. os anúncios veiculam conteúdos que permitem inferir que a Vivo respeita as diferenças de sexo e cor e que une as pessoas que se encontram separadas pela distância. seus argumentos buscam persuadir. ele recorre à apresentação de testemunhos de clientes satisfeitos e. Destaca-se que o anúncio se vale de outros locutores para falar bem da operadora. ainda. pela emoção. apesar das diferenças. As diversas cores da logomarca representam. cada uma das empresas estatais que deram origem à operadora a partir de suas privatizações. tendo-a como uma companheira que o acompanha nas atividades do dia-a-dia. A análise dos anúncios revela. É possível destacar que os anúncios se utilizam de discurso de outras FDs na busca de persuasão e isto contribui para a representação de uma empresa que coloca as necessidades e os desejos do consumidor acima de seu objetivo de obter lucro. Reforçando esta representação. O dinamismo do bonequinho e a diversidade de cores com que ele se apresenta nos anúncios podem representar a diversidade da comunidade de clientes que utilizam os serviços da operadora. a operadora se vale de diversas estratégias. Dessa forma. por isso.

a partir das análises. A natureza brasileira encontra um lugar privilegiado nesse momento de nossa literatura. BRASIL TELECOM: AQUI É O LUGAR Os anúncios da operadora Brasil Telecom fundamentam-se principalmente no nacionalismo e na valorização de ser brasileiro. Na literatura europeia. a ideia de nação necessitava ser enfatizada como “um grupo de pessoas ligadas por laços históricos e culturais” (OLIVEIRA. o pitoresco. mesmo que de forma inconsciente. No Brasil. então. a literatura foi utilizada como uma arma de ação política e social. p. em 1822. reafirmando-o. sobretudo. que a maior carga persuasiva dos anúncios está nessa forma velada de inserir os planos e serviços. Seu exotismo e sua fartura estão presentes em inúmeras obras românticas: os autores desse período procuravam valorizar as cores nacionais. havia um forte apelo às belezas naturais encontradas no Brasil. ou seja. a falta de um passado medieval levou as obras românticas da primeira geração a valorizar. por meio dos elementos que seleciona para se constituir. na busca de formar uma identidade nacional a partir dos elementos históricos. como no caso em que a empresa se mostra isenta de preconceito. as cores predominantes nos anúncios são sempre as da Bandeira do Brasil e. De acordo com Oliveira (2000. o nativo.velada. pode-se concluir que. ocorre um surto de nacionalismo no país que pode ser verificado com mais intensidade nas obras literárias da Primeira Geração Romântica. aquilo que era gracioso e original. de maneira geral. tudo o que era típico do Brasil: a natureza. na qual se encontrariam os elementos formadores da nacionalidade de cada povo. a figura do nativo brasileiro: o índio. Este era descrito como um exemplo de comportamento ético e comportamental. 2000. que reforça a valorização nacional. pelo culto da Idade Média. Além disso. Pode-se afirmar. Portanto. Os anúncios se pautam em valores estabelecidos socialmente e os reforça. há o slogan da empresa. os anúncios da Vivo procuram divulgar suas promoções e vender seus serviços de forma implícita. Devido à constituição da antiga colônia em país. Assim. o nacionalismo foi marcado. p. na maioria deles. ______ [ 94 ] . Após a Independência do Brasil. fazendo parecer ao leitor que a proposta não é autoritária. 103). Embora haja uma variação dos temas que motivam a propaganda. principalmente. 103).

47). De acordo com Hall (2002. a idealização de uma nação perfeita. as culturas nacionais em que nascemos se constituem em uma das principais fontes de identidade cultural” e. tanto com relação à sua natureza. embora não pertença mais ao Estado. Este caráter nacionalista revela-se nos anúncios. As cores fazem lembrar as representações da bandeira e também o seu inverso. para representá-los todos como pertencendo à mesma e grande família nacional (HALL. à qual seus componentes deveriam se identificar e demonstrar amor e lealdade. mantendo a representação de que. a operadora destina seus serviços a toda a população brasileira. os discursos que se produzem em relação a uma nação são de suma importância. ou seja. verde. tece seu discurso baseado numa identidade nacional em que Não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe. gênero. no ano de 1998. pelo nome da operadora. assim como a bandeira integra a nação. Então. p. p. à medida que remetem à Bandeira Nacional e ativam o saber enciclopédico sobre o que é costume associar a ela. A privatização da empresa estatal responsável pela telefonia desagradou a muitos brasileiros. a operadora convida o cliente a ______ [ 95 ] . A Brasil Telecom surgiu após a privatização dos serviços de telefonia. na busca de constituir uma identidade nacional coesa. o anúncio. o tema de fundo dos anúncios veiculados pela operadora revela um forte apelo às questões relacionadas à nação como uma instituição coesa. “no mundo moderno. Baseando-se nesta cultura nacional. no céu ou na terra (azul). reforçam o apelo ao nacionalismo. uma cultura nacional busca unificá-los numa identidade cultural. Assim. tenha acesso ou não à riqueza (amarelo). Estes discursos constroem sentidos que se pautam em símbolos e representações que passam a influenciar as concepções e as ações dos indivíduos que compõem uma nação. então. azul e branco. por meio de suas cores. Então. As cores dos anúncios. ao mesmo tempo em que o amarelo faz lembrar ouro e riqueza. principalmente. quanto aos seus habitantes. 59). em lugares pacíficos ou agitados (branco). esteja no campo ou na cidade (verde). De maneira geral.Constrói-se. o nome buscou amenizar os possíveis impactos causados pela privatização. ativa também a ausência deles. pelas cores que os constituem e pelo slogan da empresa. ou raça. 2002. a operadora comunga dos valores nacionais. para isso. apesar das diferenças. amarelo.

______ [ 96 ] . a operadora. propositalmente. Isto pode levar a inferir que. e a Vivo. que valoriza os elementos do país e convida seus clientes a valorizar também. enquanto se colocam como um dos elementos nacionais a serem valorizados.utilizar seus serviços. envolve todos os brasileiros. assim como a Pátria. Nesse sentido. especificamente. que utilizou serviços de qualidade a preços baixos. enquanto estas disputam a preferência dos clientes por meio de promoções que garantem vantagens econômicas. Desse modo. que os anúncios buscam valorizar a cultura nacional e despertar o amor e a lealdade à pátria. mesmo que os serviços das outras operadoras tenham valores iguais ou mais baixos que os seus. à medida que os anúncios apelam para o nacionalismo para tecer argumentos de uma empresa genuinamente brasileira. em que o nome do país e o advérbio de lugar aparecem destacados. bom. Além disso. Estes mesmos valores nacionalistas podem ser verificados no slogan “Brasil Telecom: Aqui é o lugar”. em que sobressai o apelo ao nacionalismo em relação às promoções apresentadas pela empresa. e enquanto cidadão brasileiro. empresa italiana. Pode-se afirmar que. Nota-se. por contribuir para o desenvolvimento econômico da nação. Nesse sentido. criando uma representação positiva da operadora. ela apela para o nacionalismo. por ser nacional e ter Brasil até no nome. mas de um local que apresenta boas razões para ser escolhido: o lugar é o melhor. ao Brasil. como se o aqui correspondesse. ótimo. alguns adjetivos foram suprimidos. Dessa forma. os anúncios podem conduzir o cliente a compreender que utilizar os serviços de uma empresa nacional auxilia no desenvolvimento econômico do próprio país. como a TIM. como afirmava o antigo slogan da empresa. adquirir seus produtos e assumir uma identidade cultural brasileira. busca angariar vantagens na concorrência com as outras operadoras. que foi criada a partir de investimentos de empresas portuguesas e espanholas. optar por seus serviços é uma forma de demonstração de amor e lealdade à Pátria. como aquela que. o cliente pode se sentir duplamente beneficiado: enquanto consumidor. é possível verificar um determinado grau de xenofobia. a lealdade e o amor à Pátria são reivindicados pela empresa. O artigo definido permite compreender que não se trata de qualquer lugar. agradável. então. eles fazem contrapropaganda das outras empresas de telefonia que se originaram em outros países. Dessa forma. como melhor. pois. o que se verifica nos anúncios analisados. Este princípio protege a operadora de anúncios concorrentes que apresentem promoções mais interessantes do que as suas. pois a supervalorização do que é nacional implica da desvalorização do que é estrangeiro.

Assim. além de mostrar lealdade à Pátria. o discurso da operadora reforça a representação cultural que ______ [ 97 ] . o discurso da operadora cria um universo de sentido e convida o leitor a participar dele. explicitamente. o consumidor aproveitaria. em outras. Ancorado em questões culturais. Estes aspectos que apelam para o nacionalismo do consumidor sobressaem nos anúncios. acompanhado de outros elementos. À medida que valorizam o que é nacional. o convite para a valorização do que é brasileiro é. Esta contrapropaganda realizada pelos anúncios ocorre. nota-se a propaganda que se faz da empresa e a contrapropaganda realizada com relação às demais operadoras que atuam no mercado. Assim. em tese. destaca-se a recorrência a datas comemorativas. se ela é o melhor lugar. os anúncios desvalorizam o que é estrangeiro e este aspecto busca garantir à operadora superioridade em relação às outras. ainda. os anúncios procuram elogiar e valorizar a nação brasileira. Nota-se. faz-se uma representação positiva da figura materna e um apelo para que esta seja valorizada e presenteada. belezas naturais e população. ele é um elemento fixo da publicidade da Brasil Telecom que. é dada a ela. Pode-se afirmar que o discurso nacionalista é recorrente em todos os anúncios analisados. às vezes. com o objetivo de incluir a empresa entre os elementos que necessitam ser valorizados pelos brasileiros. portanto.O slogan também permite compreender que a empresa seria o melhor lugar para utilizar serviços de telefonia celular. afirmar que seu discurso se pauta. é por que as outras não são. Desse modo. especificamente a empresa. Como se pode constatar. uma tentativa de igualar a empresa à pátria e reivindicar dos consumidores a mesma lealdade que. ao optar pelos serviços da Brasil Telecom. devido à comemoração do dia das mães. procura persuadir o consumidor. implicitamente. ao mesmo tempo em que convidam o consumidor a fazê-lo de uma maneira específica: pelo uso dos produtos e serviços da operadora. um apelo para que os consumidores escolham utilizar os serviços de uma empresa brasileira. então. os anúncios enaltecem a nação e evocam suas qualidades. de modo que os outros elementos usados são apresentados como algo extra. como riquezas. mais uma vez. Dentre estes elementos. no lugar comum de que o que é nacional necessita ser valorizado: mas não só. principalmente. dentre outras. de forma implícita e. como no anúncio em que. E. ou seja. promoções e serviços de qualidade. Dessa forma. As reflexões a respeito dos anúncios da operadora permitem.

sem que a empresa. Isto se revela. por sua vez. por vezes. as reflexões permitem afirmar que os anúncios. Dessa forma. Embora a tentativa de agir sobre os leitores. Então. não enfatizam a venda de serviços e produtos. o que os anúncios da Brasil Telecom procuram enfatizar é a possibilidade de o consumidor demonstrar afeto à mãe.se tem da figura materna. seja necessário renunciar ao lucro. Os anúncios analisados revelam que o discurso publicitário procura colocar o consumidor como único ou maior beneficiado da relação comercial. econômica e matemática. então. ser leal à Pátria. artística. ao mesmo tempo em que partem destas representações. por seu discurso. mesclam-se. biológica. revela-se apenas como um meio para atingi-los. torne-se explícita devido ao uso de verbos no modo imperativo. aparentemente. dentre outros. mas prometem a conquista de sonhos e satisfação de desejos superiores ao próprio consumo. a partir da idealização que faz da mãe. Além disso. para isso. o discurso dos anúncios recorre a enunciados de outras FDs (médica. mesmo que. Assim. reiteram-nas. Estes argumentos. sentir-se valorizado pela empresa. Mais do que a venda de serviços telefônicos. é possível perceber que os anúncios buscam fazê-lo de forma velada. nos anúncios. os anúncios procuram construir a representação de uma empresa que se preocupa prioritariamente com o cliente. Do mesmo modo. moldando-os da forma que melhor convém. porque todos os anúncios mencionam algum serviço que o cliente poderia utilizar gratuitamente. que buscam persuadir pela emoção. de pátria. apresentam indícios que podem levar o leitor à ação desejada. os anúncios se pautam em representações sociais de mãe. despreocupar-se com problemas financeiros. busca persuadir o leitor a adquirir o produto. que. familiar. com os destinados à razão e que enfatizam vantagens econômicas e outras questões lógicas. de economia e de qualidade que são feitas a partir de recortes e representações da realidade. ______ [ 98 ] . por muitas vezes. Os anúncios. em que seus aspectos positivos são enfatizados e se utiliza desta representação para persuadir o leitor a comprar o produto. utilizar serviços gratuitos. ao mesmo tempo em que reforça esta representação. de loucura. entre outras) e transformam/reforçam seus efeitos de sentido. mas que são dadas como realidade pura. tenha qualquer lucro com isso. principalmente. Para auxiliar no alcance de seus objetivos.

2004).CONSIDERAÇÕES FINAIS Após as análises de três anúncios de cada uma das principais operadoras de telefonia celular do país (TIM. Estas representações são reforçadas. é possível fazer algumas afirmações a respeito do discurso publicitário e do gênero discursivo anúncio. o leitor é convidado a fazer parte do universo de sentido criado por eles. de acordo com seus objetivos. p. buscam se organizar e tecer argumentos de forma a persuadir o consumidor a adquirir produtos. Vivo e Brasil Telecom). por sua prática discursiva. De modo geral. Por isso. em que são apresentados a empresa e o produto. portanto. apresentam frases curtas. destina-se. além do conteúdo linguístico. Estas. com conteúdos menos complexos. transformam e/ou reforçam. mas. contudo. estão ligadas a estereótipos e outras representações sociais que os anúncios. geralmente. em seu caráter persuasivo.90) afirma que o poder da imagem de conservar as forças das relações sociais e o fato de os efeitos de sentido produzidos nos discursos da mídia emergirem do diálogo estabelecido entre enunciado verbal e imagético parecem reclamar o acréscimo do aspecto semiótico como uma terceira ordem que constitui o discurso. ______ [ 99 ] . supostamente. Navarro (2006. bem como para atingir seus objetivos. Para auxiliar na compreensão dos efeitos de sentido. geralmente. os anúncios. as representações culturais e sociais de que se valem os anúncios e que fazem parte do imaginário do público a que ele. os anúncios apresentam imagens. Sabe-se que o discurso publicitário se pauta em um já-dito pré-construído e com ele dialoga. por seu discurso. principalmente. para chamar a atenção do consumidor e facilitar a leitura. que não contribua para a elaboração adequada ou que possa provocar efeitos de sentido contrários aos seus objetivos (PALACIOS. pode-se afirmar que os anúncios são um gênero que pertence ao tipo discursivo publicitário e que. em sua maioria. Auxiliam. A comparação entre as operadoras revela os pontos que se repetem nos anúncios e os que as diferenciam. ele sobredetermina os velhos efeitos de sentido e constrói novos. à medida que os anúncios enfatizam seus aspectos positivos e se valem delas para persuadir o leitor a comprar o produto. Os anúncios impressos têm espaço bastante pequeno. Uma das estratégias de construção do texto publicitário é eliminar qualquer elemento dispensável.

participar da comunidade imaginária dos que aderem ao mesmo discurso. Para isso. Ao ler o anúncio. que as promoções lançadas e as vantagens oferecidas procuram superar as empresas concorrentes. Por isso. por meio do discurso. mas não foge às regras impostas pela FD comercial. que assume uma dinâmica corporal compatível com o espaço social que ocupa. acaba por dizer exatamente o que sua formação discursiva determina e obriga. ainda. Nota-se. que os anúncios assumem uma dupla função: fazer propaganda da empresa e contrapropaganda da concorrência. assim. o discurso publicitário busca alimentar no consumidor a esperança de satisfação a partir da compra. Desse modo. É comum que os anúncios busquem constituir. ______ [ 100 ] . “todo o discurso sobre as necessidades assenta numa antropologia ingênua: a da propensão para a felicidade”. ele associa os produtos que busca vender aos desejos e às possíveis necessidades daqueles a quem pretende persuadir. o fiador do discurso incorpora determinados valores. a empresa procura desvalorizar as outras operadoras. 47). o discurso publicitário congrega linguagens verbais e nãoverbais. Portanto. além de vender produtos. mostrando uma empresa que se preocupa com o cliente. estão satisfeitas por utilizarem os serviços da empresa. o único ou maior beneficiado da relação comercial. Por seu objetivo de levar ao consumo. elas conferem uma corporalidade ao fiador do discurso. a esta última. as imagens são de pessoas que. então. De acordo com Baudrillard (1995. na tentativa de apagar a relação comercial que se estabelece entre ela e o cliente e fazer sobressair uma suposta relação afetiva. sendo ele. as imagens apresentadas são investidas de materialidades que associam o produto vendido ao alcance de um estado pleno de felicidade. p. busca persuadir o cofiador a também incorporá-los e. uma representação positiva da empresa. mesmo que seja necessário renunciar ao lucro. A análise dos anúncios revela.Por vezes. Dessa forma. aparentemente. a partir de uma identificação com o corpo apresentado. Nessa tentativa. Ao mesmo tempo em que organiza o discurso de modo a reforçar esta representação. colocando-as como inferiores. o consumidor é convidado a ultrapassar a decodificação e participar do microuniverso do discurso. embora parafraseie. com ênfase. Assim. É possível destacar que o discurso publicitário utiliza-se de enunciados de outras FDs para contribuir com a representação de uma empresa que coloca as necessidades e os desejos do consumidor acima de seu objetivo de obter lucro. na maior parte dos casos. aparentemente. o discurso publicitário recorre a enunciados de outras FDs.

no decorrer do tempo. A adoção de tais molduras. Mas contribui para o advento do texto publicitário alicerçado num aparato suasório mais sutil – que não se contrapõe àquele. A ênfase que os anúncios dão à suposta preocupação da empresa com o bem estar dos consumidores se materializa. retirando dela a responsabilidade pelos enunciados que produz. os anúncios apresentam argumentos que conduzem à conclusão de que ela oferece planos amplos. Embora a tentativa de agir sobre os leitores. é capaz de superar seus próprios planos e vantagens oferecidas. à medida que utilizam de seus serviços sem pagar por isso. As observações permitem afirmar que os anúncios. Dessa forma. de forma velada. Para isso. Dessa forma. eles apresentam testemunhos de clientes satisfeitos e. recorrem a pessoas públicas que podem afiançar o discurso. não exclui totalmente a utilização de recursos persuasivos mais comuns ao discurso autoritário – com comando explícito para induzir o leitor à ação de experimentar o produto ou serviço anunciado. que podem se sentir valorizados e beneficiados pela empresa. De acordo com Carrascoza (2004. principalmente. fazendo parecer ao leitor que a proposta não é autoritária. que envolvem telefonia móvel e fixa e que. Para auxiliar na constituição de uma imagem positiva da empresa. outras vezes. que a maior carga persuasiva dos anúncios está nessa forma implícita de inserir planos e serviços. Destaca-se que os anúncios utilizam de outras vozes para falarem bem da empresa. torne-se explícita devido ao uso de verbos no modo imperativo. os anúncios procuram divulgar suas promoções e vender seus serviços de forma implícita. Pode-se concluir que.30). por vezes. contudo. Dessa forma. ______ [ 101 ] . p. divulgar um produto significa adotar constantes estratégias de diferenciação e de singularidade em relação aos discursos concorrentes. eles apresentam indícios que podem levar o leitor à ação desejada.Portanto. nos anúncios. então. e sim constitui outra maneira de se exercer a persuasão. revela-se a tentativa dos anúncios de manter os clientes da empresa e reforçar a marca. ou para reforçá-la. às vezes. de maneira geral. em geral. por muitas vezes. colocam em segundo plano a venda de serviços e produtos e prometem a conquista de sonhos e satisfação de desejos superiores ao próprio consumo. nas diversas vezes em que aparecem promoções de serviços prestados gratuitamente. Pode-se afirmar. os anúncios procuram proporcionar bem-estar e satisfação aos consumidores. é possível perceber que os anúncios buscam fazê-lo.

o discurso publicitário é articulado. como a liberdade. Assim. buscando se mostrar como informativo. mas também para apagar o apelo ao consumo e a tentativa de persuasão. Portanto. e os valorizam como essenciais. para a Brasil Telecom. o consumidor vê-se chantageado pelo anúncio. Desse modo. quer seja por motivos emocionais ou por razões lógicas. 33). em verdade. ao mesmo tempo em que de se apropriam dos valores da sociedade. Os argumentos que buscam persuadir pela emoção se mesclam. pode-se concluir que Seja na vertente apolínea (em que a indução é direta) ou na dionisíaca (em que o caráter indutivo é mais indireto). p. as propagandas contribuem para a manutenção de tais valores. culturais e estéticos. e o nacionalismo.que. p. supostamente os consumidores possuem. consumir o produto ou serviço que divulgam. os anúncios recortam valores sociais. ao buscarem persuadir o consumidor. Assim. de fato. para a TIM. mas é justamente pelos valores postos em evidência que elas podem levar um potencial consumidor a. Segundo Carrascoza (2004. que podem representar desvantagem econômica e prejuízos que se estendem a outros aspectos da vida. A ação das propagandas não se restringe apenas ao holofote que põem em cena certos valores sociais. “o texto publicitário constitui o ______ [ 102 ] . na medida em que esses valores fazem eco ao jeito de pensar e de viver do consumidor. 16). 5). revela-se apenas como um meio para atingi-los. Sua função pragmática é apenas aparente (CARRASCOZA. por sua vez. O interdiscurso realizado com enunciados de outras FDs cooperam para a ênfase aos valores especificados. que. com aqueles destinados à razão e que enfatizam vantagens econômicas e outras questões lógicas. p. nos anúncios. pois a recusa ao apelo implica em consequências que ultrapassam a não aquisição dos produtos ou a não utilização de serviços. é recorrente que os anúncios busquem vender sonhos e desejos e apelem à emoção do leitor. o discurso publicitário objetiva. Para isso. 2004. deixam indícios de que os sonhos serão alcançados e os desejos satisfeitos por meio da aquisição dos produtos ou do uso dos serviços anunciados. Por isso. embora tente convencer o receptor de que ele será beneficiado ao consumir o produto ou serviço anunciado. Os sonhos e desejos são valorizados e enfatizados pelos anúncios e apresentados como superiores à aquisição do produto. Mas devese notar que os anúncios. De acordo com Ghiraldelo (2008. o benefício de quem o enuncia. de modo a não explicitar sua função social. Os valores especificados e veiculados conferem aos anúncios uma função mais nobre que a tentativa de vender produtos e serviços.

nos objetivos de buscar seduzir o leitor. por meio de elementos de persuasão. 2005.16). sociologia dos campos. • Fazer chantagem implícita ao consumidor. pragmática. • Inserir os planos e produtos que vende de forma velada. p. Ruty.” Pode-se afirmar. Ruty Amossy (org). • Apagar a relação comercial que se estabelece entre cliente e empresa e destacar uma relação afetiva. • Conferir corporalidade positiva ao fiador do discurso. a mostrarse justamente conforme seus desejos e aspirações para assim seduzi-lo – ou assustá-lo. eles se assemelham. levando-o à aquisição do produto ou à adesão aos planos oferecidos. O ethos na intersecção das disciplinas: retórica. semelhantes aos modelos de uma vestimenta.tecido que reveste a alma da marca e pode permitir. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMOSSY. • Disfarçar sua função social e mostrar-se meramente informativo. ou talvez. ______ [ 103 ] . O texto publicitário aparece em vários formatos. • Associar produtos a desejos e sonhos superiores ao consumo. então. a entrar em comunhão com ele. poder-se-ia elencar algumas características comuns ao discurso publicitário: • Valer-se de representações culturais e estereótipos. São Paulo: Editora Contexto. A partir dessas considerações. caso o consumidor não ceda ao apelo. que ela seja percebida como algo positivo para o público. Portanto. se igualem. embora os anúncios sejam distintos na forma de se organizar. A sedução pretendida é acompanhada da chantagem implícita de sérios prejuízos. embora sua trama seja confeccionada com vistas a agradar (ou chocar) o auditório. • Fazer propaganda e contrapropaganda ao mesmo tempo. • Convidar o leitor a participar do universo de sentido criado e valorizado pelo discurso e incorporar os valores propostos por ele. Ainda segundo Carrascoza (2004. IN: Imagens de si no discurso: a construção do ethos. ou nos valores que desejam enfatizar. que os anúncios são como uma roupagem que materializa o discurso de cada uma das operadoras.

A identidade cultural na pós-modernidade. PALACIOS. as marcas no texto: sentidos de tempo. In: VII ESOCITE (Jornadas Latino-Americanas de Estudos Sociais das Ciências e das Tecnologias). Tese de Doutoramento. 1995. 2008. C. Arte literária brasileira. Bahia: Universidade Federal da Bahia. São Paulo: Moderna. Ethos. Rio de Janeiro 2008. J. Rio de Janeiro: DP&A. Valores sócio-culturais e estéticos em propagandas de aparelhos celulares divulgadas no Brasil de 1998 a 2007. 2008. 2008. In: Estudos do texto e do discurso: mapeando conceitos e métodos. São Paulo: Editora Contexto. Análise de Textos de Comunicação. juventude e saúde na publicidade de cosméticos em revistas femininas durante a década de 90. MAINGUENEAU. C. ______ [ 104 ] . 2006. (Trad. São Carlos: Claraluz. S. São Paulo: Futura. In: Ethos Discursivo. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea. A sociedade de consumo. D. 2004. GHIRALDELO. São Paulo: Editora Contexto.BAUDRILLARD. Ruty Amossy (org). J. 2005. In: Imagens de si no discurso: a construção do ethos. CARRASCOZA. O pesquisador da mídia: entre a ‘aventura do discurso’ e os desafios do dispositivo de interpretação da AD. Artur Morão). 312 p. 2004. Pedro Navarro (org). Bahia. A. Razão e Sensibilidade no texto Publicitário. As marcas na pele. _____. Ana Raquel Motta e Luciana Salgado (orgs). HALL. São Paulo: Cortez Editora. 2004. NAVARRO. 2000. incorporação. cenografia. _____. A. Rio de Janeiro: Elfos. OLIVEIRA. 2000. A Propósito do ethos. P.

______ [ 105 ] . 125) como a “operação que consiste em pensar o real por meio de uma representação cultural preexistente. definido por Amossy (2005. 2) Estereótipo entendido como o resultado do processo de estereotipagem. o sujeito não tem livre escolha e pela FD em que se acha inscrito é escolhido pela estratégia. mas que também é determinado pelas regras impostas pelas FDs. um esquema coletivo cristalizado”. Desse modo. p.NOTAS 1) O conceito de estratégia é entendido como um mecanismo de organização do discurso.

CAPÍTULO 6 DISCURSO. POLIFONIA E CRIATIVIDADE NO TEXTO PUBLICITÁRIO Alex Sandro de Araujo Carmo .

ora implícitos. na busca da compreensão dos efeitos de sentido de um enunciado. ______ [ 107 ] . cada um com suas nuances próprias (referentes ao arcabouço teórico da área de conhecimento de que provêm) e com uma característica em comum (corresponder ao que não foi dito/escrito. A linguagem joga com os elementos constitutivos dos efeitos de sentido. o legitimado. Para essa autora (1996. A produção/reprodução de um discurso se dá por dois fatores: por paráfrase e por polissemia. sempre embasadas num discurso prévio. sempre há. lastro cultural. a procura por elementos extralinguísticos que completem as lacunas deixadas no nível do intradiscurso da composição frásica. a paráfrase é a matriz do sentido. A essa luz. tem de se garantir.Nos estudos referentes à linguagem. destaca-se que uma das proposições básicas da Análise de Discurso de linha francesa (doravante. e a polissemia é a fonte de linguagem “responsável pelo fato de que são sempre possíveis sentidos diferentes. Nesse sentido. que seriam o fundamento da linguagem: o processo parafrástico e o processo polissêmico”. p. 20). no domínio do múltiplo. Essa tensão representa “o conflito entre o garantido. dentre as muitas áreas do conhecimento científico.]. Segundo Orlandi (1996. podemos dizer que a produção do discurso se faz na articulação de dois grandes processos. se institucionalizar”.. 19).. que são. ora explícitos. pretende-se mostrar (ainda que em um caso bem específico e pontual) como essa tensão atua na (re)produção dos discursos publicitários.. memória discursiva. ou melhor. “Da observação da linguagem em seu contexto. se legitimar. porém compreendido ou utilizado como conhecimento anterior). o efeito de sentido não é prévio ao discurso. múltiplos”. etc. Há muitos conceitos para estes elementos: doxa. “é o que permite a produção do mesmo sentido sob várias de suas formas”. e aquilo que. p. interdiscurso. “apoio coral”. ao menos por alguns autores. AD) é que o sentido. o institucionalizado. A publicidade tem sido considerada. [. A tensão entre esses processos é que constitui as várias instâncias da linguagem. de forma geral.

não se pode associar criatividade a genialidade. ao menos. A criatividade deve ser entendida. 89) aponta que em algumas teorias filosóficas modernas a criatividade é parte constituinte da natureza humana. associaram criatividade e gênio. compreende-se que o processo criativo na publicidade deve ser entendido como solução de problemas mercadológicos e não como capacidade individual que dependeria da intuição ou da genialidade de um sujeito. na posição teóricofilosófica deste estudo. imprevisíveis. muitos pensadores e escritores. é sempre. como sinônimo de solução de problemas de comunicação. p. verdadeira razão de ser de tudo o que se compreende sob o título ‘criatividade’. talvez. Barreto (2004. se os manuais entendessem que o processo criativo é um processo natural. Desta forma. Neste viés. contudo. e nem pretendem ensinar. Por isso. Para o autor (4004. No entanto. não sendo a fonte e a origem do que diz no texto publicitário. colocam os redatores como tendo a particularidade de ser a fonte e a origem do sentido do material publicitário que desenvolvem. A essa luz. os manuais de redação publicitária. não haveria lógica em procurar desenvolver técnicas de aperfeiçoamento criativo. componente ativo. enquanto efeito de sentido óbvio. Kant entendeu ser criatividade um processo natural. o aparecimento espontâneo de algo que não existia e que a partir de um dado momento passa a existir pela vontade e capacidade inventiva de um sujeito. pelo menos na publicidade. entendendo está como advinda de um processo natural. que criava suas próprias regras. haja vista que. observa-se que a expressão criatividade sugere. na maioria dos casos. em particular Kant em sua Crítica ao Juízo.73). p. ______ [ 108 ] . deve-se entender que o sujeito/redator. Pode-se apontar que. p. Segundo o autor (2004. 89): Durante o século XVIII. “O problema. credita-se a este empreendimento o status de ação criativa. invariavelmente. técnicas de criatividade. ao se tratar de processos criativos em tais manuais. e na esteira de Barreto (2004). apenas analisada e criticada. E daí concluiu que a criatividade não pode ser ensinada formalmente.como linguagem de sedução e de persuasão. ao determinar as técnicas de sedução/persuasão do texto publicitário. procura solucionar problemas de comunicação e. há o apagamento da tensão existente entre os fundamentos da linguagem. observa-se que os manuais de redação publicitária não ensinam. quando tais problemas são solucionados. Simplesmente não há criatividade sem problema referente”. Também sustentou que uma obra de criação obedece a leis próprias. Neste sentido.

“com o uso de simples palavras. A publicidade se vale dos recursos da palavra (processos discursivos) para persuadir/convencer os interlocutores/ ______ [ 109 ] . um carro em símbolos de prestígio e um pântano em paraíso tropical”. pode-se destacar que um dos recursos utilizados pela mensagem publicitária é o de mostrar ao público um mundo perfeito. além do auxílio da teoria polifônica da enunciação para compreender os desdobramentos (pontos de vistas. usando em seus anúncios imagens de lugares e objetos atraentes. Carvalho (2010). que se apoia na emoção e no humor. 18) destaca que. para demonstrar que a criatividade na publicidade não emana da subjetividade inventiva e intuitiva de um sujeito. A autora (2010. aponta que o texto publicitário é fundamentado em duas forças que são. mostra que a publicidade deve estar atenta à vida. discurso-transverso e pré-construído. coro polifônico) enunciativos do sujeito redator. Assim. de prometer e de negar. sustentada no discurso racional. em Razão e Sensibilidade no texto publicitário. fazer com que o interlocutor ou o receptor da mensagem publicitária sinta vontade (desejo) e experimente ou consuma o produto ou serviço. aos hábitos. nos argumentos. Percebe-se que a palavra (isto é. sendo que o fazer saber e o fazer crer trabalham a favor do fazer querer publicitário. crenças e saberes do público. Na mesma obra. a apolínea. para empreender a análise de enunciados publicitários com o intuito de avaliar a tese do estudo que propõe observar a criatividade como um processo não-subjetivo. p. o autor diz que o texto publicitário opera basicamente por meio de duas funções: a estética (fazer saber) e a mística (fazer crer). ou seja. procurar-se-á entender o funcionamento do processo criativo publicitário e não apenas a função sedutora e persuasiva da publicidade. REDAÇÃO PUBLICITÁRIA: (OU O DISCURSO NA PUBLICIDADE) Carrascoza (2004). convocamse os conceitos de interdiscurso. porque é com base neles que a publicidade forma/constitui suas estratégias de comunicação. para Nietzsche. no livro Publicidade: a linguagem da sedução. com o fim prático de seduzir/persuadir/convencer o interlocutor e ajudar/ estimular na finalização da compra/aquisição de produtos/serviços. e a dionisíaca. Nesse sentido.Neste sentido. a prática discursiva) tem o poder de criar e destruir. a publicidade pode transformar um relógio em uma jóia.

o sujeito como um ser subjetivo e. Sandmann (2003. fala-se que o texto publicitário possui algumas funções. p. Assim. Da mesma forma. como fonte e centro do sentido. Deste modo. manter o desconhecimento e/ou desconsiderar as condições de produção material deste tipo de solução. 21). em face das funções apelativa (mensagem centrada no receptor) e estética (ou poética: centrada na própria mensagem). tal qual para Barreto (2004). aponta-se que o ponto fraco dos manuais se situa no não entendimento de que a solução de problemas de comunicação independe da capacidade inventiva do sujeito/redator. em A linguagem da Propaganda. pois ele não é a fonte e a origem desta solução. enquanto fonte informativa. ______ [ 110 ] . Como se pode observar.receptores. não se pode colocar estas soluções como dependendo apenas da capacidade subjetiva do sujeito/redator. e a partir desta apresentação. é pertinente mostrar que estes manuais são determinados por pressupostos filosóficos advindos de noções retóricas e pragmáticas que remontam à tradição idealista (racionalista/metafísica/platônica e mentalista/empirista/aristotélica). Neste sentido. Neste sentido. alguns deslocamentos e empréstimos serão convocados para demonstrar o empreendimento de uma visada materialista para o estudo do discurso publicitário. dar espaço à inovação e à criatividade como uma atividade subjetiva do sujeito/redator. ao menos em uma posição materialista. este trabalho se propõe a tecer alguns questionamentos a respeito da produção do texto publicitário. cada uma a seu modo. p. também pode ser entendida com solução de problemas de comunicação (de ordem mercadológica). Acredita-se que esta criatividade. possui a “função de agilizador de consumo”. afirma que o texto publicitário. deslocando o debate não para o estudo da função. haja vista que não se pode. Em outras palavras. os manuais de redação publicitária buscam mostrar técnicas de produção textual que procuram desenvolver determinadas capacidades de dominar recursos estilísticos que a língua oferece e que permitem. Martins (1997. com a função de centrar suas mensagens ao nível do próprio texto (função estética/poética) e ao nível do receptor/interlocutor (função apelativa). na esteira de Jakobson (1971) acerca das funções da linguagem. alguns manuais (sem tirar o crédito de suas contribuições) colocam a publicidade como uma linguagem de sedução. entende-se que. por essa via. que coloca. Neste viés. apresenta que o texto publicitário atua. na obra Redação Publicitária: teoria e prática. com linhas de força que atuam entre a razão e a emoção. 27). Desta forma. em certos casos. mas para o estudo do funcionamento da mensagem publicitária. geralmente. em alguns casos.

a teoria linguística de Chomsky é a mais bem sucedida no campo de ampliação do objeto da linguística. estabeleceu o objeto da linguística no nível dos signos por sua convencionalidade. depois de apresentar as problemáticas dos objetos da linguística em Saussure e Chomsky. haja vista que este empreendimento procura trabalhar não apenas com questões textuais. respectivamente. Assim. Possenti (1993). mas. Esta limitação do objeto da linguística. ii) as discussões sobre a natureza das línguas. iii) as solicitações que outras áreas de conhecimento fizeram para a linguística. Para Possenti (1993). mas não sistematizáveis. Os outros problemas relacionados à linguagem foram colocados para a fala como o lugar onde se entrecruzam dados relevantes. Possenti (1993). aponta que a questão do discurso se colocou para os linguistas em três lugares: i) discussão sobre qual seria o objeto da linguística. algumas práticas discursivas) e não o texto. em A propósito da análise automática do discurso: ______ [ 111 ] . custou. Pêcheux e Fuchs (1993). no Curso de Linguística Geral. Chomsky atribui um caráter inato a certos princípios gerais das gramáticas possíveis. o foco deste trabalho vai para além do texto. mostra a relação a um objeto mais extenso que o conjunto de signos. Embora os objetos de crítica do estudo sejam alguns manuais de redação publicitária e estes tenham como orientação a tessitura daquilo que se convencionou chamar de texto publicitário. de certa forma. antes de tudo. Neste sentido. Por isso.DISCURSO. A primeira questão se desdobra ao mesmo tempo em relação à extensão do objeto e a um princípio mínimo de organização. no nível da sintaxe. no capítulo Notas sobre o discurso como questão pertinente. estabelecida por Saussure (1974). a exclusão do sentido para fora das preocupações da Linguística. Para ele (1993). enquanto unidade maior que o signo e a frase. entende-se que o que é inato para Chomsky é convencionado para Saussure. Essa teoria. POLIFONIA E CRIATIVIDADE NÃO-SUBJETIVA Uma primeira colocação deve ser feita antes de desenvolver o quadro teórico da teoria materialista do discurso. É neste sentido que se introduz a crítica de Pêcheux às proposições Saussurianas e Chomskyanas. aponta que havia também preocupações em tentar explicar o discurso. Saussure (1974). busca compreender as práticas que se materializam sobre e pela discursividade. Neste percurso. torna-se prudente deixar claro que o objeto de análise é o discurso (e. A constituição de um objeto de ciência precisa ser delimitável e representável.

a partir da questão da interpelação. pode-se apontar que os efeitos de sentido não se processam no sujeito. permitiu a Pêcheux (1993) pensar os processos discursivos em termos de estruturas discursivas analisáveis de superfície e em estruturas profundas que as determinam (por exemplo: FD. relativa ao deslocamento da função para o funcionamento. o mesmo tipo de deslocamento realizado por Pêcheux (1993) em relação ao par saussuriano Língua/Fala. há o processo de interpelação-identificação que produz o sujeito”. relativa às estruturas sintáticas (superficiais e profundas) da teoria chomskyana. O fato de o sentido de uma sequência só ser concebível a partir de uma FD leva ao entendimento de que as sequências discursivas sempre pertencem a uma FD dada e que esse pertencimento se encontra recalcadoesquecido para o (ou pelo?) sujeito. Pêcheux (2009. minha família. Por meio da primeira. FD) interligadas que determinam o que pode e deve ser dito no interior de determinadas relações de classes. minhas ‘idéias’. ele é formado pelo esquecimento e pela identificação com uma FD dada que se revela no interdiscurso e que produz o assujeitamento ______ [ 112 ] . justamente pelo fato de não se poder identificar língua e ideologia. Interdiscurso. Essa materialidade ideológica comporta.atualização e perspectivas (1975). procura-se demonstrar que a publicidade deve ser entendida e estudada a partir de seu funcionamento enquanto prática discursiva e não por meio de sua função. Realiza-se. A partir destas duas questões. apresentar-seão duas questões que permitem pensar os processos criativos na publicidade. uma ou várias formações discursivas (doravante. minhas intenções e meus compromissos). como um de seus componentes. isto é. A outra questão. p. como sustentar que o sujeito/redator seria a fonte e a origem daquilo que diz nos textos publicitários? Neste sentido. Pré-construído). Este conceito mostra que o discursivo. apresentam o conceito de formação ideológica que se caracteriza como a constituição de um conjunto complexo de atitudes e de representações que se relacionam com as posições de classes. meus amigos. deve ser visto como um dos aspectos materiais da materialidade ideológica. 145). que demonstram uma criatividade nãosubjetiva no uso da língua. A essa luz. aqui. Discurso-transverso. ao criticar a forma-sujeito do idealismo. “sob a evidência de que ‘eu sou realmente eu’ (com meu nome. minhas lembranças. Dito de outro modo: o sujeito é constituído por dois fatores fundamentais. diz que. que coloca o estudo dos processos discursivos à luz de seu funcionamento e de suas condições de produção.

para ser dotado de “sentido”. o dizer do sujeito. Porém. pode ser vista como em “o jantar estava delicioso” sendo trocado por “o jantar estava gostoso”. e é “este fato [. p. seria necessário o aparecimento de um discurso-transverso.por meio do recurso ao já-dito.. precisa necessariamente pertencer a uma FD. tal que a relação de substituição A ► B não seja a mesma que a relação de substituição B ► A. Y. sob a forma da retomada pelo sujeito de um sentido universal preexistente”. Observe-se o exemplo de Pêcheux (2009. Observa-se que os termos delicioso e gostoso são equivalentes em relação ao sabor e ao prazer proporcionado pela refeição. todo enunciado. p. 169). 151) afirma que essa possibilidade de substituição pode tomar duas formas fundamentais: a da equivalência – ou possibilidade de substituição simétrica –. com a formação discursiva que o assujeita. que fornece. que atravessa os substituíveis da sequência ______ [ 113 ] . esses outros dizeres se encontram apagados/esquecidos para e/ou pelo sujeito (eis aí a ilusão publicitária de um estágio pré-discursivo). em relação à substituição por implicação. No entanto. em um discurso dado. e no caso em estudo. haja vista que os efeitos de sentido desses termos são sustentados por uma mesma FD sinonimizadora. 154): o interdiscurso enquanto discurso-transverso atravessa e põe em conexão entre si os elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construído.] que se acha recalcado para o (ou pelo?) sujeito e recoberto para este último. Pêcheux (2009) defende que o sentido se estabelece em relações de substituição e paráfrase e que isso pode ocorrer por equivalência ou por implicação. a matéria-prima na qual o sujeito se constitui como ‘sujeito falante’. e a da implicação – ou possibilidade de substituição orientada –. (itálicos do autor). isto é. Esta sequência. (itálicos do autor). Segundo Pêcheux (2009. seria necessário o encadeamento por meio de transversalidade. Ao recusar a forma-sujeito do idealismo. o sujeito/redator é “invadido/atravessado” por outros dizeres. Uma substituição por equivalência. pela ilusão de estar na fonte do sentido. por assim dizer. p. Pode-se dizer que um discurso-transverso aparece quando uma sequência Y atravessa perpendicularmente uma sequência X. Portanto. Para Pêcheux e Fuchs (1993. Pêcheux (2009.. dado como no contexto de uma sequência do tipo “constatamos a/b”: passagem de uma corrente elétrica/deflexão do galvanômetro. 152-153). tal que dois elementos substituíveis A e B “possuam o mesmo sentido” na formação discursiva considerada. p.

objetividade material essa que reside no fato de que ‘algo fala’ (ça parle) sempre ‘antes. de forma retroativa. em outro lugar e independentemente”. a partir de um caso pontual. 149). Nesse viés. Sob essa luz. EFEITO MÜNCHHAUSEN E POLIFONIA A tese “a Ideologia interpela os indivíduos em sujeitos” designa. etc. o sentido. Nesta perspectiva. 146). um operário. para buscar demonstrar que aquilo que se chama de criatividade publicitária é. Para Pêcheux (2009. ou seja. em outro lugar e independentemente’ (PÊCHEUX. pode ser: “A passagem de uma corrente elétrica determina a deflexão do galvanômetro” ou “A deflexão do galvanômetro indica a passagem de uma corrente elétrica”. fazendo-o se ver como “causa de si”. o indivíduo é interpelado-constituído em sujeito pela ideologia. ______ [ 114 ] . Pêcheux (2009) define. definido pelo processo discursivo que lhe cabe. como se dá o processo discursivo de enunciados publicitários.”.X. pois determina o modelo de encadeamento entre os substituíveis a/b da sequência X. então. determina que a relação de implicação seja feita de uma forma ou de outra. a objetividade material contraditória do interdiscurso. um patrão. A ideologia simula a transparência da linguagem. na transparência do sentido que nela se forma. um processo criativo não-subjetivo atravessado por vários outros dizeres. ocorre em termos de efeitos de sentido que se reproduzem a partir de relações de substituição e de paráfrase de palavras e/ou expressões de uma mesma FD. alterando-se o modo de encadeamento. é chamado por Pêcheux de “Efeito Münchhausen”. o caráter material do sentido de um enunciado é dependente do interdiscurso: o próprio de toda formação discursiva é dissimular. 2009. p. o apagamento do fato de que o sujeito é resultante de um apagamento necessário no seu próprio interior. ao menos neste caso. é “a ideologia que fornece as evidências pelas quais ‘todo mundo sabe’ o que é um soldado. compreendendo a (re)produção dos processos discursivos à luz da teoria materialista do discurso. uma greve. que determina essa formação discursiva como tal. p. portanto. isto é. procurar-se-á mostrar. uma fábrica. Esse atravessamento indica que a sequência Y é o discurso-transverso da sequência X. o não-sujeito. que o sujeito é sempre-já-sujeito. antes de tudo. o interdiscurso como aquilo que “fala sempre antes. efeito pelo qual se consegue.

superposição entre o sujeito da enunciação e o sujeito universal. esse desdobramento pode assumir diferentes modalidades. mas que não são responsáveis pela ocorrência de palavras precisas) e as perspectivas dos pontos de vista dos enunciadores podem ser recuperadas por meio do interdiscurso.de modo fantástico. o sujeito do discurso geralmente é um personagem e como personagem ele apenas representa. ele ______ [ 115 ] . A essa luz. nem sempre o sujeito da enunciação pode ser visto. Dada a observação de que o sujeito não é criador de si mesmo. pois o locutor. acredita-se ser pertinente detalhar o desdobramento do sujeito da enunciação dos anúncios que serão analisados. 199). ele ainda continua assujeitado. por se tratar de discurso. ser criador de si. Para o autor (2009). Esse desdobramento faz aparecer dois termos: um “representa o ‘locutor’. dado que assume outro posicionamento existente. destacamse a modalidade do bom sujeito. esse locutor é constituído por vozes de enunciadores (seres cujos pontos de vista estão presentes na enunciação. Deve-se notar. conforme Ducrot (1987). Pêcheux (2009. p. embora o procure fazer. “continua a determinar a identificação ou a contraidentificação do sujeito com uma formação discursiva. p. como responsável pelos pontos de vista assumidos na discursividade do anúncio. para que ele se ligue a ela ou que a rejeite” (PÊCHEUX. ou aquele a que se habituou chamar o ‘sujeito da enunciação’. na qual a evidência do sentido lhe é fornecida. em que o sujeito da enunciação “se volta” contra o sujeito universal por meio de uma “tomada de posição” que consiste em uma separação (PÊCHEUX. nas análises do estudo. não é o ser a quem se deve imputar a responsabilidade do enunciado (eis aí algo que se encontra apagado nos e pelos manuais de redação publicitária). porém. minimamente a AD para fora de seus domínios para dar conta do desdobramento constitutivo do sujeito da enunciação. haja vista que. 200 . em se tratando de discurso publicitário. via pré-construído. o sujeito da enunciação. Ou seja. isto é. outro “representa ‘o chamado sujeito universal’. p. sujeito da ciência ou do que se pretende como tal”. e a modalidade do mau sujeito. em relação a estas modalidades. mesmo quando o sujeito se contraidentifica com uma FD dada. mesmo negando e se posicionando contra o sujeito universal o sujeito do discurso não se torna menos assujeitado. Dentre elas.itálicos do autor). procurar-se-á deslocar. Na maioria dos casos. Pode-se perceber que. de modo que a tomada de posição do sujeito realiza seu assujeitamento. valendo-se da teoria polifônica da enunciação desenvolvida por Ducrot (1987). na medida em que lhe é ‘atribuído o encargo pelos conteúdos colocados’”. Nesse estudo. que o interdiscurso. 198) mostra que a interpelação do indivíduo em sujeito supõe um desdobramento constitutivo do sujeito do discurso. 2009. 2009.

não é um sujeito que acredita estar na origem do próprio discurso. Por isso,
acredita-se ser imprescindível recuperar, pelo desdobramento do sujeito da
enunciação, os pontos de vista que sustentam as tomadas de posição que
orientam o discurso.
Pêcheux (2009), trabalhando com o funcionamento das relativas
explicativas e determinativas, constituiu o pano de fundo de uma reflexão
filosófica, cuja intenção era abrir campos de questões por meio da relação
entre os objetos científicos da Linguística e os objetos científicos da Ciência
das Formações Sociais. Ou seja, o autor mostrou que a intervenção da
filosofia materialista na Linguística deveria levá-la para fora de seu domínio.
Desta forma, ao incorporar nesse estudo a teoria polifônica da enunciação,
está-se, em relação ao sujeito da enunciação que caracteriza o bom e o mau
sujeito, solicitando à AD que faça alguma parceria com algo de fora do
seu domínio. Acredita-se que o sujeito da enunciação (e neste caso, incluise o redator publicitário) seja atravessado/constituído por vários pontos de
vista e por várias vozes sociais e é nesse sentido que esse estudo se vale da
teoria polifônica da enunciação. A polifonia será utilizada no estudo em uma
perspectiva discursiva. Portanto, ela será vista como um fenômeno social e
concreto ligado ao dizer dos sujeitos.
Ducrot (1987), ao também questionar o pressuposto de que o sujeito
da enunciação é único e de que cada enunciado só pode ser relacionado a uma
única voz, destaca a situação de polifonia (diferentemente da forma como o
fez Bakhtin que só empregava o termo nos estudos sobre literatura) em que
há dois tipos de personagens: locutores e enunciadores, sendo os primeiros
aqueles que são apresentados no enunciado como seus responsáveis; e os
segundos os seres cujas vozes estão presentes na enunciação, mas que não são
responsáveis pela ocorrência das palavras.
Segundo Ducrot (1987, p. 182), aos locutores se atribui a produção
dos enunciados. É importante compreender que, por definição, Ducrot
entende locutor como “um ser que é, no próprio sentido do enunciado,
apresentado como seu responsável, ou seja, como alguém a quem se deve
imputar a responsabilidade deste enunciado”. Para o autor (1987, p. 187), há
dois locutores. Um, que é a ficção discursiva; e outro, que é o sujeito falante
(elemento da experiência). É, portanto, possível imputar a responsabilidade
do enunciado a diferentes autores. Porém, nos enunciados, não há apenas
locutores. Como já se mencionou, também existem os enunciadores. A noção
de enunciador apresenta uma segunda forma de polifonia. Os enunciadores
são seres cujas vozes estão presentes no enunciad, mas não são responsáveis
pela ocorrência de palavras, ou seja, não é atribuída aos enunciadores nenhuma
palavra:
______ [ 116 ]

Chamo ‘enunciadores’ estes seres que são considerados como se expressando
através da enunciação, sem que para tanto se lhe atribuam palavras precisas;
se eles ‘falam’ é somente no sentido em que a enunciação é vista como
expressando seu ponto de vista, sua posição, sua atitude, mas não, no sentido
material do termo, suas palavras. (1987, p. 192).

Tendo conhecimento acerca dos locutores e enunciadores, contemplase um dos pilares da obra de Ducrot sobre a teoria polifônica da enunciação.
Sobre a imbricação destes conceitos, Ducrot (1987, p. 193) ressalta: “o locutor,
responsável pelo enunciado, dá existência, através deste, a enunciadores de
quem ele organiza os pontos de vista e as atitudes”. O enunciador é, portanto,
o ser cujo ponto de vista apresenta os acontecimentos aos locutores. Ducrot
(1987), fazendo uma analogia, afirma que o enunciador está para o locutor
assim como o autor está para a personagem. Desta maneira, tem-se como
locutor aquele ser que fala e, como enunciador, o ser que deve ser identificado,
na análise das vozes (dos pontos de vista), como a perspectiva que enuncia.
Assim, nas análises à frente, buscar-se-á observar os locutores e enunciadores
que se fazem presentes na elaboração do texto publicitário.
ANÁLISE DE PRÁTICAS DISCURSIVAS PUBLICITÁRIAS
Nas análises, serão investigados dois enunciados veiculados em peças
publicitárias televisivas do iogurte Activia:
I)
“Muita gente não vai ao banheiro todos os dias e acha que é normal, mas
não é”;
II) “Você já sabe que Activia contém Dan Regularis que ajuda a regular o
trânsito intestinal, mas é preciso tomar regularmente”.

Nas análises, procurar-se-á observar a retomada de já-ditos e os
pontos de vista culturais (crenças e valores) que são (re)produzidos pelos
enunciados1 frente aos interlocutores, justamente para demonstrar e justificar
a tese de que a criatividade é um processo criativo não-subjetivo.
Desta forma, procura-se evidenciar que a criação destes enunciados
publicitários não depende da criatividade subjetiva de um sujeito/redator
frente a um problema de comunicação, mas que ela é determinada por
estruturas profundas, a saber: FDs, interdiscursos, coro de vozes, ou seja,
______ [ 117 ]

tudo que não é dito, mas é compreendido e que sustenta o caráter material
do sentido.
No enunciado (I), em nível de intradiscurso, observam-se três
enunciados. Os dois primeiros estão ligados pelo conectivo e com função
aditiva e o último é encabeçado pelo mas com função contrajuntiva. Temse, assim: 1) Muita gente não vai ao banheiro todos os dias, que indica a existência
de pessoas que possuem problemas intestinais e que, por isso, não vão ao
banheiro todos os dias; 2) acha que é normal: neste enunciado, infere-se que
grande parcela das pessoas não sabe que a desregularidade intestinal é sinal
de problemas intestinais; 3) não é: este enunciado é encabeçado pelo mas,
produzindo um encadeamento que leva a uma conclusão contrassilogística,
em que se apresenta uma contraconclusão.
Ducrot (1987, p. 215) apresenta o mas como uma conjunção que
aparece em enunciados do tipo p mas q, sendo p um argumento para uma
conclusão r e q um argumento inverso, que orienta para uma conclusão não-r.
Para ele, os enunciados do tipo p mas q fazem intervir diferentes pontos de
vista de enunciadores. Segundo este autor (1987, p. 215),
Eles [enunciados do tipo p mas q] colocam em cena dois enunciadores
sucessivos, E1 e E2, que argumentam em sentido opostos, o locutor se
assimilando a E2, e assimilando seu alocutório a E1. Embora o locutor se
declare de acordo com o fato alegado por E1, ele se distancia, no entanto,
de E1.

Observam-se, então, dois enunciadores. E1: Muita gente não vai ao
banheiro todos os dias e acha que é normal e E2: não é. O locutor se assimila a
E2 e nega, neste caso em particular, E1. O enunciador E1 está amparado
no pré-construído de que se deve ir ao banheiro diariamente. O encadeamento
feito no enunciado conduz a uma conclusão não-r, na qual E2 se ampara para
afirmar que não se deve achar normal não ir ao banheiro diariamente. A perspectiva
de E2, que é a posição assumida pelo locutor e pode ser vista por meio do
uso contrajuntivo do operador argumentativo mas, orienta conclusivamente
contra E1, com o auxílio do pré-construído: não ir ao banheiro regularmente é sinal
de problema intestinal.
Em (I), como já dito, vê-se a negativa não é, encabeçada pelo mas, que
atua de forma opositiva. Esse fato denuncia uma transversalidade discursiva,
isto é: os enunciados anteriores ao mas levam a entender que há pessoas que
não vão ao banheiro todos os dias e que acham isso normal. Porém, a última
parte, sustentada pelo enunciador E2, permite afirmar que não é normal não ir ao
banheiro todos os dias. Assim, tem-se o aparecimento de um pré-construído que
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é caracterizado por ativar a compreensão de um já-dito mais especializado,
que, neste caso, pode ser parafraseado pela explicativa: o intestino preguiçoso, que
não funciona regularmente, pode ser indício de problemas intestinais.
A transversalidade ativada por esse enunciado provém de um discurso
mais especializado (discurso científico) e que é, portanto, mais estabilizado e
pautado em uma voz de autoridade. Porém, o conhecimento estabilizado desse
pré-construído é trivializado pelo discurso da Danone, ou seja: o discurso da
empresa não é científico a rigor como pretenderia ser. Não é uma verdade
absoluta que o intestino das pessoas, para ter um funcionamento adequado
(regulado), deva funcionar todos os dias, como anuncia o enunciado.
Observa-se que o sujeito/redator (atendendo ao pedido de criação da
Danone) (re)produz o atravessamento e a generalização de efeitos de sentido
provenientes de uma FD ancorada no discurso científico que prega a não
regularidade do funcionamento intestinal como um indicador de problemas.
Isto é, o sujeito/redator desloca os efeitos de sentido dessa FD para dizer aos
interlocutores que é preciso ir ao banheiro diariamente.
Pode-se afirmar que o iogurte é anunciado como um alimento/
produto capaz de resolver problemas no funcionamento de intestinos lentos
e preguiçosos. Dito de outro modo: esse enunciado permite pressupor que,
para resolver problemas de mau funcionamento intestinal, basta consumir o
Activia. Essa pressuposição é sustentada não por uma mente genial e inventiva
de um redator publicitário, mas por uma série de posições discursivas que
denunciam um coro de vozes que já existiam antes do anúncio ser redigido.
O discurso publicitário do Activia, que fixa a não ida ao banheiro
como fator genérico para a existência ou aparecimento de transtornos
intestinais, não é, como tenta aparentar, um discurso publicitário articulado
sobre um discurso científico, pois o sujeito/redator, ao tentar dar um aspecto
científico aos dois primeiros enunciados de (I), na tentativa de fazer deles um
fato inquestionável e verificável como o discurso científico, apaga o aspecto
ideológico que ancora sua FD na rede do interdiscurso que a atravessa, para
dizer que a não ida ao banheiro diariamente é um sintoma de problemas
intestinais. Esse efeito de sustentação busca ser estabelecido no quadro de
crenças do sujeito, fazendo com que ele creia nessa “evidência” e acredite que
este efeito de sentido é do conhecimento de todos.
O sujeito/redator, ao dizer que não é normal não ir ao banheiro com
regularidade, ativa também um conhecimento especializado, pois não ir ao
banheiro com certa regularidade pode ser indício de algum problema no funcionamento
intestinal. Mas não é científico o dizer que é sustentado pelo pré-construído
que se deve ir ao banheiro diariamente. Essa afirmação nocional é utilizada para
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atender aos interesses comerciais da Danone. Observa-se nesse deslizamento
do discurso publicitário do Activia a simulação de um discurso com aspecto
especializado e estabilizado. Esse deslizamento é possível, pois a língua
oferece lugar à interpretação. “A linguagem”, diz Orlandi (2001, p. 21),
“serve para comunicar e para não comunicar”. Orsatto (2009) aponta que é
justamente a não transparência da linguagem que impede ela [a linguagem] de
ser concebida com um puro instrumento de comunicação. Pode-se dizer que
a simulação científica (a não transparência da linguagem) do enunciado (I)
estabelece uma relação de proximidade entre o anúncio e os interlocutores.
O travestimento generalizador ativado pelo enunciado revela que
a peça publicitária reproduz (na solução do problema de comunicação da
Danone), nas relações interdiscursivas que constituem o anúncio, apenas os
já-ditos que podem sustentar a tomada de posição do bom sujeito em relação
aos cuidados com o corpo.
Em relação ao enunciado (II), por meio do dêitico exofórico você,
pode-se afirmar que o sujeito/redator (em nome da Danone) procura se
aproximar do consumidor do Activia, usando o termo para dar a sensação de
proximidade e pessoalidade entre empresa fabricante e interlocutor (possível
e/ou real consumidor), além de obter um efeito de generalização interlocutiva.
Ou seja, o enunciado é direcionado a todo interlocutor que o assiste.
O enunciado Você já sabe que Activia contém Dan Regularis reforça
a crença ou o imaginário corriqueiro que prega o corpo como o resultado
daquilo que se come. Santos (2006, p. 5) ressalta a importância de entender
que “a comida participa da construção do corpo não só do ponto de vista
da sua materialidade como também nos aspectos culturais e simbólicos”.
Para a autora (2006), a comida exerce, além da função biológica, uma função
social. Portanto, a comida, ou seja, a nutrição, ao mesmo tempo em que nutre,
também é responsável pela aparência social do corpo. As dietas milagrosas
que prometem a perda de muitos quilos em períodos curtos se tornam um
bom exemplo para ilustrar como a comida pode exercer tanto uma função
biológica quanto social.
Vê-se no caso do Activia que o sujeito/redator busca interpelar os
interlocutores do anúncio se valendo de afirmações/promessas que imbricam
o biológico e o social. A função biológica do Activia é relativa à nutrição do
organismo e à atuação fisiológica do bacilo Dan Regularis no trato intestinal.
Observe-se que a função social ativada é relativa ao fato de que, ao se alimentar
com o iogurte, segundo a proposta do enunciado, o consumidor regularizaria
o trânsito intestinal, fato que o ajudaria a diminuir, por exemplo, o diâmetro
da cintura, ocasionando um ajuste do corpo ao modelo corporal tido como
______ [ 120 ]

Ao analisar o discurso materializado no enunciado (II). Observa-se por meio dessa asserção. como o enunciador E2. atuam para a manutenção do discurso (re)produzido sobre as propriedades funcionais/ benéficas anunciadas do Activia e para a criação/reprodução de voz de autoridade (discurso científico probiótico) frente à proposta de que. que não há nada que já não foi dito antes. EDCP e E2. Pode-se afirmar que esses enunciadores são os mesmos utilizados pelo enunciado (I). EDCP. pois ele contém o Dan Regularis. possuem um conhecimento prévio das propriedades funcionais/benéficas do iogurte. para sustentar os efeitos de sentido que colocam o iogurte como um alimento/produto capaz de regular o funcionamento de intestinos lentos e preguiçosos. e o enunciador do discurso científico probiótico. Antes do mas. O enunciador EDCP se marca como voz de autoridade. observa-se o esquema do tipo p mas q. por meio da atuação do enunciador EDCP. a articulação entre o discurso científico (autorizado) e o discurso publicitário (reiteração trivial do discurso científico). ajuda a regular o trânsito intestinal. Vê-se que o discurso assumido na peça publicitária. de forma trivial e corriqueira. podem-se observar dois enunciadores que sustentam os efeitos de sentido ativados. consumidoras ou não do Activia. no enunciado (II). que é uma bactéria probiótica. é afirmado que as pessoas já sabem que o Activia ______ [ 121 ] . para um bom funcionamento do intestino. o discurso científico que fez intervir por meio do enunciador EDCP. deve-se consumir alimentos/produtos que contenham bactérias que ajudam na regulação do trânsito intestinal. Os pontos de vista atualizados pelos enunciadores. em que o mas levaria a uma conclusão não-r. Em (II). O ponto de vista ativado pelo enunciador E2 pressupõe que as pessoas. responsável pelo ponto de vista que sustenta o pré-construído de que o Dan Regularis. em outro lugar e de forma independente. observa-se a introdução de uma informação que é sustentada pela voz do enunciador E2. fato incontestável de que a criatividade é um processo nãosubjetivo. que é encabeçado pelo conectivo mas. ao mesmo tempo em que simula certa cientificidade também incorpora. via conhecimento nocional e conceptual. no enunciado mas é preciso tomar regularmente. Vê-se a Danone. respectivamente. amparado pelo EDCP. Entretanto. ele ativa conhecimentos científicos que foram (ou estão sendo) assimilados por interlocutores não especializados.ideal que é o corpo magro. via conhecimento nocional. que ativa um conhecimento mais especializado e estabilizado. o pré-construído de que as pessoas sabem que o Activia ajuda a regular o trânsito intestinal. sustentando. Observase.

Observa-se que o enunciado se vale do imaginário corriqueiro que prega o corpo como o lugar do belo. em última instância. buscam-se criar formas de isenção da culpa. mas do próprio consumidor. deve ser disciplinado e controlado fazendo crer que o corpo não belo é resultado de indisciplina e relaxamento: pior para o “feio”. Ao considerar que um corpo saudável. por isso. Esse imaginário é amplamente atravessado pela FD dominante da ordem tecnocientífica-empresarial que filtra os efeitos de sentido que colocam o corpo como o lugar.contém um bacilo que faz o intestino funcionar. o intestino funcionará melhor e. pois essa voz que afirma/promete que quanto maior for o consumo do iogurte maior será o benefício proporcionado por ele. para se tornar e/ou ficar belo. caso o Activia não faça o intestino funcionar da maneira como se apresenta no anúncio. ainda sustenta a voz que comporta os efeitos de sentido que levam os interlocutores a inferir que quanto maior for o consumo regular. não se pode garantir a eficácia do produto. para aqueles que consomem o Activia. com o consumo regular do Activia. o corpo é objeto de explorações comerciais. coloca-se na posição de bom sujeito do discurso que prega o corpo como o lugar do belo. pelo filtro de leitura da FD dominante que atravessa a FD que ancora o discurso do anúncio. o sujeito/redator (em nome da Danone) procura antecipar que a responsabilidade pelo funcionamento ou não do intestino. Pode-se afirmar que. Desta forma. Sob a luz da citação. o sujeito/redator. com essa advertência ativada pelo uso do mas. 262). observa-se o sujeito/redator usa esta tríade para reforçar a crença que vem ______ [ 122 ] . p. pois. além de reforçar os interesses comerciais do produto. representa/reproduz a tríade saúde. Pode-se afirmar que. Assim. de acordo com a perspectiva de E2. poder-se-á ter um corpo saudável e nutrido. “Na ordem tecnocientífica empresarial. o corpo. vê-se a advertência de que é preciso tomar o Activia regularmente. de outra forma. com esse posicionamento enunciativo e discursivo. não é do produto. vê-se que a peça publicitária busca levar os interlocutores a entender que. para o discurso materializado nos anúncios do Activia. de diferentes manipulações científicas e industriais e deve ser controlado diariamente para prolongar a vida”. do belo. O que não sabiam e foi introduzido é que é preciso tomar o Activia diariamente para o trânsito intestinal fluir regularmente. Com essa advertência. Ou seja. Segundo Silva (2003. maior (=melhor) será o funcionamento intestinal. pode-se afirmar que o sujeito/redator procura explorar os efeitos de sentido produzidos em relação ao corpo com o interesse de aumentar as vendas do Activia. nutrição e beleza. A Danone. enquanto enunciador. sinônimo de corpo belo.

Assim. Para Souza (2004. Esse movimento contrajuntivo do mas no enunciado é denunciativo de que a Danone está incitando os interlocutores a investir no cuidado de seus corpos. via interdiscurso. o sujeito/redator. p. segundo o discurso materializado pelo sujeito/redator em nome da Danone. ______ [ 123 ] . ao indicar de modo velado no discurso a forma de prevenção para os interlocutores ficarem ou permanecerem belos. o enunciado (II) atua no anúncio como forma de advertência.sendo convencionada com as promessas feitas nos anúncios do Activia: isto é. Neste sentido. busca atuar de forma preventiva em relação aos cuidados com o corpo. busca interpelar os interlocutores no sentido de eles cuidarem de seus corpos consumindo o produto. procurou-se demonstrar que a criação publicitária pode e (em última instância) é determinada por um processo criativo não-subjetivo. acaba por reforçar o caráter material do sentido do discurso publicitário com o atravessamento. Desta forma. mas de uma forma específica e que lhe dá retorno financeiro. no movimento contrajuntivo. Pode-se ver que o discurso publicitário. os discursos que buscam impor um modelo corporal ideal formulam e reformulam que a beleza é resultado de um trabalho do sujeito sobre seu corpo. Pode-se apontar que o discurso em questão. de efeitos de sentido que pregam que a beleza é resultado do trabalho do sujeito em relação aos cuidados com o corpo. pois. CONSIDERAÇÕES FINAIS À luz da análise de dois enunciados de peças publicitárias do iogurte Activia. ao anunciar o Activia. esses discursos recomendam a atuação sobre a corporalidade de duas maneiras: preventiva e regenerativa. a afirmação/promessa que o iogurte faz o intestino funcionar. dizer publicitário). 135). haja vista que a sua (re)produção independe da criatividade subjetiva de um sujeito/ redator que seria a fonte e a origem do efeito de sentido contido no dizer (no caso do estudo. Para a autora (2004). pode-se dizer que ele atua como um conectivo contrajuntivo e realiza um movimento adversativo em relação à atitude relapsa dos consumidores. o iogurte só funcionará para quem consumir regularmente. Ainda sobre a questão da utilização do mas. a advertência feita pelo enunciado mas é preciso tomar regularmente procura apagar os interesses comerciais da Danone frente à injunção de os interlocutores a consumirem o iogurte com regularidade.

ao menos) que a incompletude deste trabalho deve servir como um direcionamento para futuras pesquisas que buscarão ver e mostrar outras questões que denunciem. Vêse que a imagem que a Danone procura construir através da afirmação/ promessa (a solução do problema de comunicação desenvolvida pelo sujeito/ redator) procura atender aos interesses comerciais da empresa.Como hipótese. de criatividade. Roberto M. por meio da análise. São Paulo: Summus. 2004. A criatividade. na tessitura publicitária. p. quando eles falam sobre propriedades benéficas. 2009. silencia o fato de que produz e comercializa o Activia para atender à demanda existente para esse tipo de produto e não porque ela estaria preocupada com a qualidade de vida das pessoas que possuem problemas intestinais. enquanto ela se coloca como uma empresa competente e capacitada frente aos interlocutores. por isso. Pode-se afirmar que a Danone. revelam sua relação com a tríade saúde. Ainda. sustenta a imagem de empresa capacitada. valendo-se do imaginário ancorado e sustentado pela tríade saúde. nutrição e beleza e que. reside na questão de que o processo criativo na publicidade deve ser entendido como solução de problemas de comunicação (mercadológicos) e não como uma capacidade individual que dependeria da intuitividade ou da genialidade de um sujeito/ redator. mas por meio do funcionamento das práticas discursivas publicitárias e de suas superficialidades discursivas determinadas por processos criativos não-subjetivos da ordem das estruturas profundas que determinam o que pode e o que deve ser dito. pretendeu-se mostrar (de forma pontual). não mais a partir das funções da publicidade (como fazem alguns manuais de redação publicitária). ao se tratar de discurso e. que. 149). em outro lugar e independentemente” (PÊCHEUX. Aponta-se (como provocação. o problema de comunicação mercadológico materializase na afirmação/promessa de que o Activia faz o intestino funcionar. no caso dos dois enunciados do corpus. haja vista que. quem sabe. lança-se a proposta de analisar a criatividade publicitária. que algo fala sempre “antes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARRETO. nutrição e beleza. principalmente no sentido de qualidade de vida. Assim. ______ [ 124 ] . no caso dos enunciados (I) e (II). Criatividade em propaganda. revelam não poder ser fruto da intuitividade criativa de um sujeito/redator capaz de propiciar o aparecimento espontâneo de algo que não existia e que a partir de um dado momento passa a existir por sua vontade e capacidade inventiva.

Discurso. São Paulo: Futura. Nelly de. Publicidade: a linguagem da sedução. MARTINS. Bethânia S. o comer e a comida: um estudo sobre as práticas corporais e alimentares cotidianas a partir da cidade de Salvador – Bahia. JAKOBSON. FUCHS. Campinas. ______ [ 125 ] . Sírio.]. Oswald. POSSENTI. _____. São Paulo: Martins Fontes. SP: Editora da Unicamp. SP: Pontes. São Paulo: Cortez. 2003. Françoise. Franciele de O. 1987. Da aparência de crítica ao silenciamento: Veja e o discurso sobre o fracasso educacional. Orlandi et al. SANTOS. 1971. Jorge S. Linguística e Comunicação. Eni P. PÊCHEUX. São Paulo: Cultrix. Campinas. O corpo. estilo e subjetividade. Tony (Orgs). 1993.CARRASCOZA. Eni P. [Trad. A propósito da análise automática do discurso: atualização e perspectivas (1975). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. ORLANDI. SP: Pontes. Campinas. HAK. 2009. SP: Editora da Unicamp. 2001. 1996. Campinas. Ligia A. DUCROT. HAK. Razão e Sensibilidade no Texto Publicitário: como são feitos os anúncios que contam histórias. 163 p. ORSATTO. Michel. Mariani et al. Roman. Tony (Orgs). Discurso e leitura. Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE. Análise de discurso: princípios e procedimentos. In: GADET. Antonio. 1993. 1993.]. [Trad. ______. 1997. In: GADET. 2009. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. A linguagem da propaganda. Bethânia S.]. [Trad. Eduardo Guimarães]. [Trad. 2003. SANDMANN. O dizer e o dito. CARVALHO. São Paulo: Contexto. SP: Editora da Unicamp. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. SP: Editora Ática. Mariani et al. São Paulo: Atlas. Cascavel: 2009. 2004. Françoise. Análise Automática do Discurso (AAD-69). Dissertação de Mestrado. Campinas. Redação publicitária: teoria e prática. da S. João A. São Paulo. ______. Catherine. Campinas: Editora da Unicamp.

Universidade Estadual de Campinas. Campinas.n. 2006. Campinas. NOTA 1) Aponta-se que estes enunciados são sustentados por uma FD que prega a afirmação/ promessa de que o Activia faz o intestino funcionar. reproduzem discursivamente os efeitos de sentido provindos da tríade união formada entre os termos saúde. 2004.São Paulo: 2006. a nutrição e a beleza. 2004. ao menos. haja vista que. da mesma forma que um corpo belo é sinal de saúde e de nutrição. Dissertação de Mestrado. pretende-se mostrar que os enunciados. Os discursos do cuidado de si e da sexualidade em Claudia. O percurso dos sentidos sobre a beleza através dos séculos: uma análise discursiva. 338 p. da C. Maria da C. ______ [ 126 ] . um corpo saudável é sinônimo de corpo belo e nutrido. Nova e Playboy. sem esquecer que um corpo bem nutrido sustenta um corpo saudável e belo. hoje. nutrição e beleza que permeia e entrelaça os discursos sobre o corpo e que gera motivações e condições propícias para sustentar o imaginário que coloca o corpo como um objeto a ser moldado e transformado por técnicas de embelezamento.]. Ferdinand. SP: [s. 354 p. Sob essa luz. Curso de Linguística Geral. SAUSSURE. Tese de Doutorado. F. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Instituto de Estudos da Linguagem. 1974. Entende-se que essa tríplice aliança apaga as fronteiras existentes entre a saúde. Instituto de Estudos da Linguagem. 2003. Universidade Estadual de Campinas. São Paulo: Cultrix. SOUZA. SILVA. SP: 2003. Tese de Doutorado. Aureci de F.

CAPÍTULO 7 A AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR: EFEITOS DE SENTIDO E POLISSEMIA Nelci Janete dos Santos Nardelli .

o comportamento acaba sendo determinado pela sociedade. sendo. fator que. portanto.105). pois. o qual considera que as instituições sociais “moldam nossas ações e até mesmo nossas expectativas [. conforme se observa na concepção de Berger (2004. por mais que os discursos e as ações possam parecer os mesmos. portanto. A educação superior é gerida por instituições e é. primar pelo princípio da isonomia e da igualdade. sobretudo. adota a prática de sancionar normas que visam. essa perspectiva não poderia ser diferente. os quais produzem discursos contraditórios. conforme o lugar ou a posição que o sujeito ocupa. esses ambientes não são constituídos por indivíduos livres e únicos. mas de uma série de relações estabelecidas entre o enunciado. como a própria sociedade. E elas demarcam seu espaço e determinam como devem agir e se portar diante de uma determinada situação. o enunciador e as condições de produção que envolvem a enunciação. já que eles devem aderir a uma ou outra posição que existe.. parte intrínseca de uma sociedade que.] a sociedade dispõe de um número quase infinito de meios de controle e coerção”. normatizando suas práticas como forma de controle e de orientação de suas ações. das instituições públicas. passíveis de contestação que. Tratando-se de discursos que emergem de ambientes educacionais (ou políticos). por se dividir em interesses antagônicos de diferentes grupos sociais. defender ou se submeter aos ideais propostos. pois o sentido não se depreende apenas da materialidade discursiva. de diferentes formas..Ao considerar a perspectiva de que os sentidos são regulados socialmente. p. das quais se cobra. a prestação de contas de todos os seus atos. então. independentemente deles ou de suas vontades. no máximo. eles produzem efeitos distintos. As divergências de opiniões sobre as determinações de mecanismos legais são comuns no cotidiano das instituições. assim. permite que a liberdade do indivíduo seja a escolha de em que posição ele prefere estar e. em ______ [ 128 ] . em teoria. As ambiguidades detectadas na construção de uma legislação são frequentes.

garantido por meio da Constituição Federal. fere o princípio da autonomia didático-científico da universidade. busca-se analisar.geral. Com base no viés teórico da Análise do Discurso. e que poderia reduzir o alcance dessa autonomia. com o intuito de não cair no simplismo de conceituar a avaliação como um processo de busca da ‘qualidade total’.ANDES sobre a avaliação do ensino superior e que alicerça um discurso de resistência ao caráter coercitivo de uma determinação legal que. com vistas a compreender o seu funcionamento a partir de sua materialidade. por meio da observação dos componentes linguísticos escolhidos para a sua composição. segundo o movimento. mas sim com o propósito de abarcar toda a gama de desafios e complexidade inerentes a uma instituição de educação superior. no que diz respeito à avaliação da educação superior. pois considera a avaliação proposta pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior . definem-se sob uma liminar ou por meio de discussões promovidas por grupos organizados nos diferentes movimentos sociais. neste estudo. Intenta-se refletir sobre os efeitos de sentido suscitados pelo discurso analisado. presume-se. a formação discursiva do movimento dos docentes representado pelo Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior . ______ [ 129 ] . pleiteado por Michel Pêcheux (1975). O discurso elaborado pelo Grupo de Trabalho de Política Educacional do ANDES tece algumas considerações e críticas acerca das políticas educacionais do Governo Federal. Tanto é assim que vemos no interior da instituição universitária a presença de opiniões. 2003 [sp]). em que pese à necessidade de adotar critérios que determinem o quê e como avaliar. os quais evocam a responsabilidade de alertar a população sobre as armadilhas que podem se constituir a partir de um simples ato que. buscando perceber como tais recursos são fatores preponderantes para entender quais são as crenças estabelecidas e compartilhadas entre os membros que compõem o ANDES e que permitem constituir uma identidade própria a partir da solidariedade dos indivíduos que partilham de seus conhecimentos e seus ideais. de acordo com Chauí é uma instituição social e como tal exprime de maneira determinada a estrutura e o modo de funcionamento da sociedade como um todo. visa a regulamentar as ações de uma dada sociedade. A temática da avaliação tem ocupado lugar de destaque no ambiente acadêmico das últimas décadas. atitudes e projetos conflitantes que exprimem divisões e contradições da sociedade como um todo. em especial.como contrária à concepção de avaliação defendida pelo movimento. (CHAUÍ.SINAES1 . a universidade que.

. ruptura de processos de significação. surge a tensão constitutiva do discurso. 1997. no tocante à compreensão dos efeitos de sentido do discurso.LDB. E é na confluência desses dois elementos que. já que o seu “caráter dialógico constitutivo de seu sentido. 36). Produzemse diferentes formulações do mesmo dizer sedimentado [. isto é.. 131). assim como os sentidos. p. Ao eleger a perspectiva teórica da AD para sustentar as reflexões acerca de um corpus definido. pois “consagra o princípio da avaliação como parte central” (DEMO. o que implica na necessidade de delimitar as possibilidades com procedimentos que possam nortear a compreensão de um enunciado e minimizar as inevitáveis ambiguidades que insistem em ocorrer no jogo das palavras. permitindo-lhe deslocar esse percurso para o contexto sócio______ [ 130 ] . permite a pluralidade de efeitos. que pode levar o leitor a interpretações distintas.] o retorno aos mesmos espaços do dizer. que visa a fechar esses limites: A paráfrase representa [. às vezes. Cabe ao analista. portanto. constituemse no discurso. ao contrário da paráfrase. compreender como a interrelação entre o ingrediente político e o linguístico contribui para a constituição do sujeito e a formulação de sentidos que ora se cristalizam e ora se apagam no jogo polissêmico. com o propósito de determinar os procedimentos iniciais a serem adotados. Para Orlandi (2001. dentre as teses que fundamentam a AD.. tem-se uma metodologia própria para engendrar um trabalho científico e. Ela joga com o equívoco..] na polissemia. o que temos é o deslocamento. sendo ela que propicia o rompimento dos limites estabelecidos pelas fronteiras entre uma e outra formação discursiva e.Com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional . a polissemia é o elemento responsável pelo funcionamento do discurso. 31) para definir as diretrizes da organização do sistema educacional brasileiro. que o sentido de uma formação discursiva depende da relação que ela estabelece com as formações discursivas no interior do espaço interdiscursivo” (MUSSALIM & BENTES. segundo a autora. uma se refere a estar atento à polissemia. p. Deve-se ter claro que os sujeitos. que a insistência de tentar. o que possibilita a transformação e caracteriza a incompletude de linguagem. por meio de sua articulação com a língua. p. significar as palavras a partir de sua raiz etimológica está voltada para a tentativa de aproximação do interlocutor das muitas facetas que um único termo pode carregar. assim. Percebe-se. portanto. 2001. fica acentuada a importância da temática. provocando a movimentação entre os sujeitos e as possibilidades de sentidos.

Por outro lado.. portanto. p. é importante diferenciá-lo dos juízos de fato. de acordo com os dicionários consultados. são incorporadas às legislações vigentes. como não poderia deixar de ser.. aquilatar e. situações e são proferidos na moral. mais voltado para objetos palpáveis. por vezes. como são e por que são [. ou seja: como as coisas devem ser. 149). Atribuir um juízo de valor a algo requer que o avaliador desloque esse conceito de sua origem filosófica para o universo a que ele pretende aplicar a avaliação e. ajuizar”. as concepções que permeiam a avaliação da educação superior ______ [ 131 ] . o vocábulo ‘avaliação’ derivaria do verbo “avaliar” que. como frisa Chauí (2001. pessoas.] são avaliações sobre as coisas. eles têm como objetivo primeiro sedimentar as crenças pré-estabelecidas do que uma sociedade compreende como bom e desejável. que identifica algo mensurável e aplica um valor a algum objeto. buscar amparo em intelectuais que contribuíram com a construção e disseminação de conceitos de avaliação no âmbito educacional. o aspecto objetivo. etimologicamente.. Assim. nas artes. as avaliações “têm inegavelmente um papel transformador e passam necessariamente pela formulação de juízo de valor”. Estes são conceitos distintos que apontam para diferentes possibilidades de interpretação por parte do interlocutor de acordo com o lugar social em que se inscreve e que determina sua formação discursiva.]. ainda. De acordo com Barreyro & Rothen (2006. reconhecer a grandeza. os juízos de valor [.307). De imediato. p.histórico-ideológico por meio das condições de produção que fundamentam o corpus de análise. que efetivamente interessa para os fins de análise das práticas discursivas em estudo e que possibilita definir a avaliação como mérito ou juízo de valor sobre determinada atividade. 957). a intensidade e a força. estimar. com base no que está dado como correto ou incorreto2. portanto. É importante. é possível distinguir dois efeitos de sentido: de um lado. mérito apreciar. cujo verbo é destinado para a determinação do quilate estimado. Assim. diferentemente deles. p. significaria: “atribuir valor. como no caso de “aquilatar”. Portanto. conforme afirma Sobrinho (1999. aferir. fazer a apreciação. na religião”.. que “são aqueles que dizem o que as coisas são. o aspecto “subjetivo” de caráter social. na política. o próprio processo avaliativo poderia pressupor as mudanças necessárias no que já está cristalizado na sociedade. portanto. pois seus trabalhos transcendem o discurso e se transformam em propostas concretas que. fazer ideia.

podem contribuir e esclarecer o viés sobre qual o processo avaliativo vigente estaria voltado e quais as alternativas que os agentes envolvidos teriam para construir uma cultura avaliativa que. depreender-se-ia um processo ______ [ 132 ] . de fato. o que levaria a compreender que a avaliação emancipatória é aquela que se constitui num processo de reciprocidade. embora o foco de análise desses autores esteja mais voltado para o processo de ensinoaprendizagem. portanto. p. 150). haja vista o interesse por parte dos defensores desse método avaliativo de privilegiar o lado formativo e transformador que a avaliação pode propiciar. Conforme postulado por Freire (1979. 60). o desenvolvimento humano se daria “pela interação de determinantes internos e externos”. p. poder-se-ia deslocar essa concepção dialética de educação para o processo de avaliação. Voltando aos pensadores que lidam com a temática da educação superior. destacam-se algumas posições com as dos que compreendem a cultura da avaliação como “um conjunto de valores acadêmicos. 1999. Dele. sob uma lógica acadêmica. em que pese o conceito de avaliação voltado para a relação professor/aluno. 77). porém voltados para o aprofundamento de questões inerentes às políticas para a educação superior. Na concepção dialética de educação defendida por Gadotti (1983. p. de acordo com eles. observa-se que essa definição pode ser aplicada também às Instituições Educacionais.podem se sintetizar em duas vertentes: as que permitem identificar a avaliação como controle. conquistar uma nova concepção de educação: a educação emancipatória. cujo espaço é concebido como um lugar de contradições e conflitos. visaria. atribuindo a Sócrates o papel de primeiro avaliador da academia. Ele. e as com função formativa/emancipatória. Em face desta dicotomia. à melhoria da educação em todos os aspectos. em que diferentes autores. para educar. Em uma das suas reflexões sobre a Universidade. também no que diz respeito a questões administrativas e gerenciais. é imprescindível oportunizar o diálogo e. já que o mesmo é constituinte do campo educativo. respondendo a uma lógica burocrática formal de validade legal de diplomas e habilitações profissionais em âmbito nacional. com o intuito de subsidiar a melhoria das instituições. busca-se verificar o que se diz nos textos que tratam da temática. Ristoff (1999. Neste viés. com isso. atitudes e formas coletivas de conduta que tornem o ato avaliativo parte integrante do exercício diuturno de nossas funções” (RISTOFF. p. os quais subsidiam esta investigação. promover o diálogo é respeitar “a essência da educação como prática da liberdade” e. de áreas distintas do conhecimento. 38) retoma a história da avaliação da educação. parte do princípio de que.

104) enfatiza o interesse e a importância de conceber a avaliação como um processo salutar e imprescindível para quem almeja um crescimento qualitativo no que tange às políticas educacionais.. 38) afirma: “avaliar a universidade é firmar valores a partir de parâmetros pré-estabelecidos [. Ristoff (1999. p. p. tanto para quem avalia quanto para quem é avaliado”. uma prática. a avaliação deve ser permanente e instalar-se como cultura. 2001. Dias Sobrinho (2000. se esta se modificar (DURKHEIM. como ação organizada e programática que pense constantemente e de modo integrado a universidade e contribua para o cumprimento mais eficaz e com maior qualidade de suas funções e de seus compromissos fundamentais. Daí. culturalmente. de avaliar uma instituição. para todos os tipos sociais indistintamente [. ______ [ 133 ] . já que. 75)3 Na tentativa de superação de um modelo limitado ao controle e regulação.de compreensão da característica multifacetada da avaliação a partir das afirmações de que “avaliar pode ser perigoso.] Dado que o ponto de referência que permite avaliar o estado de saúde ou de doença varia com as espécies. surgem manifestações contrárias e apelos à resistência de aderir a qualquer forma de controle imposta pelo Estado.] uma forma de pregação de um modelo subjacente de universidade que prezamos”. Para ele. inerentemente ao processo. a possibilidade de interferência ou de juízo de valor a partir de comparações entre instituições distintas. É preciso renunciar ao hábito. sendo que a principal crítica está voltada para a prática de adotar parâmetros de comparabilidade. p. minimizando.. com o objetivo de prática de reflexão do que se quer enquanto instituição educacional. colocando a avaliação como uma ferramenta que deveria se tornar uma atividade permanente e abrangendo todas as esferas. estabeleceu-se uma relação de dominação. Neste viés. Neste sentido. percebe-se que a linha de interesse entre os estudiosos das políticas avaliativas voltadas para educação superior se concentra na luta contra a reação e rejeição arraigadas nas instituições. uma máxima social ou moral.. Pautado no discurso que preza pelo caráter formativo que os processos avaliativos deveriam proporcionar. bem como para o estabelecimento de caminhos que precisam ser percorridos para atingir os objetivos propostos. como se fossem boas ou más entre si e por si. pode variar também para uma só e única espécie. assim. ainda demasiado corrente. pois há que se valorizar o respeito às especificidades e à identidade institucional..

como num círculo vicioso. há orisco concreto de os gestores se deixarem embalar pelo modismo. como avaliação de dentro e de fora. sendo. as convicções que respaldam o discurso dos contrários ao processo avaliativo imposto pelo governo versam sobre o fato de que a avaliação seria concebida como mero instrumento regulador. Torna-se simplesmente impraticável cultivar esse tipo de qualidade sem avaliação permanente. 36). 35) Todas essas reflexões estão voltadas para o caráter definido como formativo e emancipatório. portanto. ao mesmo tempo. o acontecimento de embates político-ideológicos em que os sujeitos têm o direito de escolher entre uma ou outra posição permite traçar uma nova possibilidade de percurso ou seguir os mesmos passos. a avaliação e a qualidade são processos indissociáveis. que gera concorrências entre os agentes. tanto como diagnóstico para estarmos sempre a par dos problemas quanto como prognóstico para deslindarmos caminhos futuros. como é de se esperar. político e pedagógico. olhada de cima e de baixo. com o discurso e a prática divergindo na hora da aplicação dos dispositivos legais impostos pelo Governo. num ambiente em que os confrontos de ideias são intrínsecos à existência. sobretudo de renovação constante (DEMO. passível de contestação. pois. e assim por diante [itálico do autor] (DEMO. 1997. como é explicitado na tessitura das legislações consultadas: qualidade histórica é sempre um complexo de condições objetivas e subjetivas. em alguns momentos. a tomada de decisão ______ [ 134 ] . feita pelos alunos e pela comunidade. talvez. numa sucessão ininterrupta de acontecimentos.um processo avaliativo dotado de qualidade formal e política alimenta-se de todas as chances possíveis. Neste contexto. percebe-se que o fato de estar inserida num campo. p. já que as instituições educacionais podem ser consideradas como um espaço privilegiado do debate. 1997. porém. inter e extrapares. Deve-se frisar que. nem seja desejável ou possível). também para cultivar todas as transparências possíveis. do ponto de vista dos teóricos citados. Com isso. o que pressupõe que aquela seja um instrumento fundamental para construir e consolidar projetos voltados para uma educação de qualidade. p. uma oportunidade humana que desabrocha conforme o nível da competência humana implicada. os confrontos e polêmicas que ocorrem e que acabam por moldar uma forma de ver o mundo impedem o consenso acerca da temática (consenso que. Frente à complexidade inerente às tentativas de atribuir uma significação menos ambígua à avaliação.

Assim as recentes tentativas e implantação de um sistema de avaliação bem como os estudos que respaldam a discussão têm marcas de ______ [ 135 ] . podendo levar a universidade pública. Esta prática é recorrente nas sociedades em que as instituições de educação superior dependem de recursos financeiros externos para a manutenção.. algumas instituições optam por realizar a avaliação mais sob a pressão de seus mantenedores do que para cumprir o papel social. fez com que ele passasse da condição de produtor de bens e serviços para de comprador desses mesmos bens e serviços do setor privado” (MANCEBO & FÁVERO. 2004. com o objetivo de regular e controlar. tende a adotar políticas importadas que instigam o debate e a polêmica.] corresponde mais à prestação de contas da gestão universitária. no país. dentre as possibilidades de escolha.terá que ser feita e. propósitos e objetivos universitários. p. a redefinições. 21). para evitar sanções que os instrumentos legais possam aplicar. o que provoca uma crise conceitual nas instituições e. que passa a ser disputado como o mais importante instrumento do desenvolvimento econômico. p. e a busca de comprovações da seriedade institucional na utilização de recursos para a produção e o desenvolvimento do capital intelectual. antes de caráter público. de ordem objetiva e subjetiva. da eficiência da universidade em apresentar os produtos requeridos. pois A submissão da educação aos interesses imediatos do mercado é o principal dispositivo dessa construção. o que se comprova com a metodologia de avaliação que se restringe às coletas de dados e ao exaustivo preenchimento de formulários que visam a qualificar a qualidade pretendida. até a privatização da cultura universitária acumulada na prática histórica do trabalho em conjunto dos sujeitos universitários (MANCEBO & FÁVERO. para ocuparem um lugar de prestígio entre “as melhores4”. a exigência de racionalizar e aplicar os recursos públicos com responsabilidade surge de todas as esferas sociais. definidos coletiva e socialmente. p. o que cria um estado avaliador que. da administração financeira. 151). Dessa prática. que se estendem desde a privatização de interesses. decorre a constituição de comissões e grupos de trabalho para cumprir o protocolo instituído sob forma de lei e a adequação aos prazos predeterminados. 2004. 172). que resultou da crise do Estado. a necessidade de implantar uma avaliação que [. De acordo com Sobrinho (1999. levando à “deterioração progressiva das políticas sociais. culminando na divulgação de rankings que predispõem as instituições a aderirem a um novo perfil voltado à competição do mercado de trabalho.. então.

Portanto. portanto. com base num critério de comparabilidade entre sistemas completamente distintos. partem de uma análise estritamente econômica e priorizam a educação voltada para o mercado: no processo de ajuste às tendências prevalentes da economia mundial. a necessidade de propiciar o acontecimento de debates entre os membros da sociedade civil. 153). prioriza-se. Este viés foi impulsionado pelos relatórios divulgados pelo Banco Mundial. argumento que respalda o discurso de que “os governos devem restringir os gastos públicos com o ensino superior e aumentar os investimentos na educação básica. Eis. liberalização financeira.uma proposta embasada num modelo sócio-econômico neoliberal5. em fina coerência com o pensamento neoliberal. por exemplo. a avaliação do ponto de vista do Banco Mundial está estritamente ligada ao viés quantitativo e serve como parâmetro para justificar os cortes orçamentários.] não estariam promovendo a equidade social”. Seguindo este raciocínio. Dentro desta lógica. com o intuito de disseminar as informações e elaborar planos educacionais que possam estreitar os laços entre o sistema educacional superior e a sociedade organizada já que ______ [ 136 ] .. aliás.. 2002. por meio de uma maior focagem nos investimentos e uma maior ‘participação’ da sociedade. que se vale de um discurso que reafirma o valor econômico da educação. telecomunicações. abertura comercial. a qual ofereceria maior taxa social de retorno” (SOBRINHO. 12). nota-se que as diretrizes seguidas pelo Banco Mundial no que tange às reformas para o sistema educacional. que prima pela privatização e pela competição entre as instituições e que gera uma diferenciação entre as universidades com distinção das demais instituições de educação superior e outros níveis educacionais: No que se refere ao financiamento da educação. sendo que “as universidades [. 17). saúde e educação (SGUISSARDI. a desregulamentação dos mercados domésticos. 1999. cabendo apenas otimizar a sua utilização. p. 2000. p. p. redução do déficit público e dos gastos nos setores sociais. muitos países já procederam às reformas ditadas por tais organismos mundiais e sintetizados no Consenso de Washington: equilíbrio orçamentário. privatização de empresas e serviços públicos de energia. o ensino fundamental em detrimento do ensino superior (PINTO. podemos dizer que a política para o setor nos anos FHC teve como pressuposto básico o postulado de que os recursos existentes para a educação no Brasil são suficientes.

agravada pela influência das ideias neoliberais. Uma das características que denotam a tendência voltada para a mercantilização do sistema educacional estaria inscrita no texto da própria LDB. ao atribuir ao Estado uma característica de ente avaliador. a superação de limitações. 59-60). para escrever os próximos episódios que as instituições deverão seguir. como um instrumento para legitimar a normatização em curso para esse nível de ensino (SILVA JR. poder-se-ia afirmar que é no sistema de educação superior que se verifica o maior impacto. p. surgem por meio de mudanças no complexo espaço social da educação superior. 145).. já que.. Neste sentido. esses recursos vêm sendo plenamente aplicados (CHAVES.as preocupações em localizar o Brasil no processo de universalização do capitalismo. Frente a esse argumento. cuja utilidade é voltada para o caráter punitivo e regulador e tem como objetivo final a prestação de contas do aspecto quantitativo e a ratificação de uma política voltada para o mercado. por meio de mudanças no complexo espaço social da educação superior. sendo que o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior dos Docentes (ANDES). In: MANCEBO & FÁVERO. p. 2004. pois. In: MANCEBO & FÁVERO.. p. dentro da ótica universitária. como um dos pontos negativos apontados pelos estudiosos. pois a globalização privilegia o conhecimento e as competências advindas da educação formal e de sua certificação continuada (MOROSINI. ou encará-la como um instrumento cerceador. MEDEIROS & VASCONCELOS In: MANCEBO & FÁVERO. 2004. tendo como base uma avaliação diagnóstica. participa das discussões que precedem e transcendem ______ [ 137 ] .] dada a estrutura privatista adotada pelo Estado brasileiro. surgem por meio de uma análise comparativa das políticas para a educação superior na América Latina. buscando o lado profícuo. não raramente emergem diferentes discursos como reação às propostas apresentadas pela ala governista. 2004. 218-219). cabe aos indivíduos inseridos no cenário da educação superior escolher o viés de avaliação mais pertinente. com a destinação de recursos públicos para escolas particulares [. que visa à emancipação e à busca constante pela melhoria e consolidação do que está dando certo e. consequentemente. para eles. por meio do Grupo de Trabalho voltado às políticas educacionais.

por mais que se propague que as instituições educacionais estão em crise. evidentemente. De qualquer forma. com base em defesas como as de Chauí (2001).. o ______ [ 138 ] . tecem críticas. mas também onde não é admissível – no campo dos direitos sociais conquistados [. [S/P]).. De acordo com Saviani (1984. apontando. interessa entender como é concebida a avaliação da educação superior no corpus de análise deste trabalho e identificar. deixa de considerá-la um direito dos cidadãos e passa a tratá-la como qualquer outro serviço público. militar e social que buscam sua legitimação. nas propostas do ANDES. ela não precisa ser concebida como a razão principal de ser de qualquer instituição ou indivíduo. portanto.a publicação de regulamentações. p. em especial. das coisas e dos homens que se confrontam com aqueles do poder. uma vez que A Reforma encolhe o espaço público dos direitos e amplia o espaço privado não só ali onde isso seria previsível – nas atividades ligadas à produção econômica –.] ao colocar a educação no campo de serviços. vêm geralmente todo um conjunto de atividades de tipo econômico. a avaliação pode ser utilizada tanto para a confirmação quanto para a negação de uma dada realidade. 177). junto a elas. conhecimentos e interpretações do mundo. 2001. pontos que destoam de suas propostas. já que. antes. Neste caso. com propostas que visam superar os entraves diagnosticados por seus membros e. especialmente as universidades. historicizar a posição desses sujeitos frente ao objeto de análise. A AVALIAÇÃO NA PERSPECTIVA DO ANDES Buscar compreender as práticas discursivas que emergem dos grupos impõe. que conceito de avaliação constitui a sua formação discursiva. p. Seria simplista. que alerta para os riscos dos processos de reforma do Estado. interpretar estes movimentos somente como disputas por ideias. que pode ser terceirizado ou privatizado (CHAUÍ. Devese ouvir as palavras de Schwartzman6 (1987. 77). para quem a história está cheia de exemplos de sistemas de dominação estabelecidos que se vêm desafiados por novos grupos que trazem consigo ideias. mas um recurso para delinear os caminhos que podem ser seguidos e os que precisam ser evitados de acordo com o objetivo que se pretende atingir. posteriormente à promulgação da legislação.

em 1986. principalmente. 1986. Para ele. têm culminado na revisão e ampliação das propostas e diretrizes a serem seguidas.que ocorre é um momento de dinamismo que perpassa essas esferas. conforme se observa nas práticas discursivas. mas como constituinte da identidade dessas instituições. constata-se que a temática acerca da avaliação. com uma visível ampliação da abordagem acerca de sua concepção de avaliação. seja ela voltada às práticas docentes. visando à rentabilidade imediata do investimento em educação e salientando a quantificação. p. aprovado no XXXII CONAD. mas a celeuma estabelecida sobre o modelo de instituição educacional que se quer permanece. 85). pelo Conselho Nacional de Associações Docentes – CONAD. 1990). ocorrido na cidade de Guaratinguetá/SP. visando ao estabelecimento de um padrão unitário de qualidade para o ensino. a pesquisa e a extensão que deve ser cultural e cientificamente significativo e socialmente comprometido com a maioria da população. estava definido que as atividades seriam avaliadas. [grifo nosso] (ANDES/SN. 2003. o que ratifica a ideia de dinamismo. ______ [ 139 ] . em julho de 1996. sendo que a versão aprovada em 1996 o denominou de Caderno ANDES N 2. Desde sua primeira publicação.. o Movimento Docente vem construindo uma concepção de avaliação que tem como foco a qualidade do trabalho universitário.. mais precisamente. ambos realizados pelo próprio movimento. Rio de Janeiro/RJ. Nos diversos discursos elaborados pelos docentes que compõem o grupo de trabalho sobre as políticas para a educação superior. Enquanto as propostas de avaliação de sucessivos governos têm-se caracterizado pela lógica empresarial. Na primeira proposta apresentada para a constituição das políticas voltadas para o corpo docente. com o intuito de diferenciar seu posicionamento do que julga ser o posicionamento do governo. sendo que “o que está em crise não é a Universidade mas [. não como um processo momentâneo. A asserção do autor ultrapassa duas décadas..] implantado a partir da Reforma de 1968”. A cada nova edição do documento. por meio de seminários. Essas propostas são difundidas e discutidas ao longo da existência do sindicado. as discussões promovidas. tomando como parâmetro as atribuições dadas pela tríade ensino/pesquisa/extensão. como “Trabalho Intelectual e Avaliação Acadêmica” (Curitiba/PR. 1987) e “Avaliação e Autonomia” (Londrina/PR. seja ela voltada para as instituições. o sindicato tem procurado ratificar os pressupostos defendidos para a educação superior. coincide com o surgimento da associação.] um certo modelo de Universidade [. encontros e congressos. que culminou na primeira versão da “Proposta do ANDES/SN para a universidade brasileira”..

69). O caráter coercitivo empregado nos textos de lei são práticas comuns nas legislações brasileiras. laica. Neste viés. com isso. pelo movimento. 2003. as propostas advindas do sindicato sobre a forma com que o processo avaliativo deve ser concretizado no ambiente universitário. p. 86) Face ao crescente debate acerca das imposições legais que levam à adoção de métodos avaliativos que mensurem a qualidade da educação superior.. o que reforça a tese de que “situar-se na sociedade significa situar-se em relação a muitas forças repressoras e coercitivas” ______ [ 140 ] . gratuita.. contrariando os princípios defendidos pela constituição brasileira e. Ela se estabelece em relação a um modelo tomado como padrão de referência. Com base nesses pressupostos as propostas sobre avaliação que vêm sendo formuladas em CONAD e Congressos Nacionais buscam resgatar a universidade como espaço público produtor e divulgador do saber. também. 1983. pois somente assim pode ela envolver todas as gerações. ampliaram-se. p. democrática e de qualidade e socialmente comprometida com a maioria da população (ANDES/SN. ao invés de privada. o que caracterizaria um processo democrático. com base na crença de que a escola unitária requer que o Estado possa assumir as despesas que hoje estão a cargo da família [. 2003. O processo avaliativo conduz à institucionalização do padrão de desempenho compatível com o padrão de instituição almejado. o Movimento Docente insiste numa prática discursiva em defesa da universidade como um ambiente que permite a ampliação dos debates acerca dos rumos pretendidos para a educação superior. torna-se. a avaliação da universidade transforma-se em mecanismo de implantação ou fortalecimento de um dado projeto de IES ou de política educacional. A concepção geral é a de que a avaliação não se dá em abstrato.] a inteira função da educação e formação das novas gerações. p. sem divisões de grupos ou castas (GADOTTI. 86). (ANDES/SN. também. Assim.O discurso que predomina entre as entidades que se organizam em prol de um ‘padrão unitário’ para a educação tem respaldo nas críticas dos estudiosos de que a universidade estaria servindo aos interesses de uma minoria. sob o ponto de vista de seus membros. contribuindo par a construção dos projetos elaborados a diversas mãos. pública. entendendo-se como um dos instrumentos de construção da educação pública.

premiação ou ranking.(BERGER. senão de algum tipo de premiação. de conselhos sociais que. tendo em vista os fins da educação nacional (ANDES/SN.] Nas IES privadas. uma vez que A avaliação externa das IES tem concepções diferenciadas no que se refere ao caráter público ou privado das instituições. na esfera pública. p. num processo de avaliação externa. p. importa dar retorno à sociedade. A compreensão que o movimento tem do processo de avaliação interna das instituições é que o mesmo deve partir dos princípios referendados pela constituição. mas defende uma avaliação que combine todas as dimensões que perpassam o processo avaliativo. garantiria o almejado “padrão unitário de qualidade” aplicado ao serviço público. da avaliação. Desse modo. a avaliação externa deverá ser concebida como um controle sobre o exercício da concessão. estabelecer-se-ia um controle estatal que. e com ampla participação da sociedade organizada. uma vez que todas são concessionárias de um serviço público. sem a interferência direta do Estado. Não se daria abertura para a possibilidade de punição. rechaçando qualquer proposta que redesenhe os moldes empregados por governos neoliberais. 90). enquanto que. em especial. p. segundo os proponentes. da possibilidade de punir. Neste contexto. o elemento preponderante.. da liberdade. Nesses casos. Assim. é seu compromisso com a sociedade que as mantém. que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade.. independentemente de sua natureza (pública ou privada). 88). na iniciativa privada. efetivamente. da opção. Ambas deveriam primar pela educação pública e democrática. prevê-se a instalação. pois É no domínio da decisão. em cada estado. jamais uma virtude (FREIRE. 2003. No quesito de avaliação externa. ______ [ 141 ] . em face do resultado obtido. pressupõe-se a existência. devendo englobar a participação de todos os agentes em prol da construção de um projeto comum. o processo de avaliação externa deverá ser coordenado pelo Ministério da Educação. a diferença básica estaria no fato de que. O objetivo específico seria delinear os próximos passos que cada instituição deveria compreender. 2002. Para as IES públicas.112). na sua composição. os fatores que têm características apenas quantitativas. 2000. a proposta do sindicato não segue a lógica tecnoburocrática de imposição de um modelo a ser seguido. A ética se torna inevitável e a sua transgressão é um desvalor. da ruptura. representem os diferentes segmentos da sociedade na qual a instituição se insere [. Para tanto. o movimento propõe diferenciação no ato avaliativo.

já que o mesmo defende uma avaliação emancipatória. um dos caminhos para administrar os conflitos inerentes à complexidade das instituições de educação superior é a “relação dialética de perda de sentido e uma nova criação de sentido”. comparada às “comunidades da vida em que se torna grande demais a discrepância entre a comunidade esperada e realizada de sentido”. o que pressuporia um caráter emancipatório. pois. que se daria a partir da análise do trabalho concreto realizado por cada instituição. porém com embasamentos e proposições alternativas que possam contribuir para a construção de um novo cenário. Note-se que o discurso adotado pelo movimento dos docentes apresenta como traço recorrente a comparação entre duas concepções distintas do que se quer com o processo de avaliação. alcançados e quais são as causas dos sucessos e fracassos. com o lugar e com o meio social.. Berger & Luckmann (2004. ao considerar o processo sócio-histórico da civilização.] se ______ [ 142 ] . ao adotar a visão proposta pela legislação. ou não. melhorada a qualidade do fazer acadêmico (ANDES/SN.. Poder-se-ia dizer que esses discursos partem da hipótese de que há outro modelo de avaliação. para que as correções dos insucessos possam ser feitas e. respeitadas suas especificidades: Qualquer processo de avaliação que se estabeleça será referenciado em um modelo geral de universidade e em um projeto local específico. ou seja: as instituições de educação superior carecem de movimentos que resistam a uma dominação puramente burocrática e controladora. haverá um assujeitamento ao processo regulatório e controlador que interessa mais aos investidores externos do que aos cidadãos brasileiros e não condiz com o proposto pelo movimento. nota-se que a educação. O que se quer saber com a avaliação é se os objetivos previamente definidos estão sendo. p. 2003. com isso.Com base em convicções como essas. enfatizando que.40) valem-se de uma proposição que exemplifica as nuances em volta da dificuldade de definir um modelo para o processo de avaliação da educação superior. varia com o tempo. fator que inviabiliza uma tomada de decisão por meio de processos de comparabilidade entre uma época e outra ou entre uma sociedade e outra: O postulado tão contestável de uma educação ideal conduz a erro [. o movimento ancora sua luta pela construção de uma proposta de avaliação enquanto instrumento de democracia.90). assim como a humanidade em geral. Mas. p. adequado aos agentes envolvidos. pautado na participação dos envolvidos no processo.

se começa por indagar qual deva ser a educação ideal, abstração feita das
condições de tempo e lugar, é porque se admite, implicitamente, que os
sistemas educativos nada têm de real em si mesmos. Não se vê neles um
conjunto de atividades e de instituições, lentamente organizadas no tempo,
solidárias as outras instituições sociais, que a educação exprime ou reflete,
instituições essas, por consequência, que não podem ser mudadas à vontade,
mas só com a estrutura mesma da sociedade (DURKHEIM 1967, p.36).

O paradigma que sustenta o discurso do MD, no que tange à concepção
de avaliação, está pautado na avaliação que promova a emancipação; ela
se garantiria por meio da tomada de decisão democrática (entenda-se por
“democracia” propiciar a participação de todos os agentes envolvidos,
seja nas assembleias, nos congressos ou nos conselhos constituídos com
representantes de diferentes segmentos da sociedade civil organizada), o
que, de acordo com Vale (2002, p. 182), tem forte influência das ideias de
Paulo Freire, especialmente no que diz respeito o fato de que “o exercício do
diálogo parece ter sido indispensável para o estabelecimento das relações com
outros setores sociais [...], especificamente na relação do sindicalismo com o
Estado”, levando em conta que
A universalidade das instituições universitárias se explica, em parte pelo
menos, pelo fato de que elas desempenham papéis similares em todas as
sociedades, relacionados com a existência de instituições e pessoas dedicadas
à criação, manutenção e transmissão da cultura escrita e sistematizada.
Por esta razão, é possível, e na realidade indispensável, examinarmos os
problemas relativos ao ensino superior a partir de uma perspectiva histórica
e comparada (SCHWARTZMAN, 1987, [S/P]).

A partir dessa perspectiva é que interessa analisar que efeitos de sentido
atravessam o discurso do corpus de análise no que concerne ao processo
obrigatório de avaliação imposto por meio de um dispositivo legal e em que
medida o posicionamento do ANDES desestabiliza (ou não) a legitimidade
construída em torno da concepção de avaliação que está subjacente à
proposto do governo, pois a crítica a movimentos como o do sindicato é que
suas ações fundamentais ficam focadas na luta pela manutenção de interesses
corporativos, com uma
estranha peculiaridade de atuar exclusivamente na área das instituições
públicas, abandonando quase integralmente o setor privado, no qual sua
atuação seria certamente mais necessária na defesa das condições de trabalho
dos assalariados. O movimento se caracteriza pelo recurso constante às
greves como ‘instrumento de luta’ para a obtenção de aumentos salariais e
vantagens corporativas (DURHAM, [S/D], p. 39).
______ [ 143 ]

A autora é uma das estudiosas que desenvolve pesquisas sobre a
educação superior e atua no Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da
Universidade de São Paulo, sendo que parte de suas críticas está fundamentada
na crença de que o modelo democrático defendido pelo movimento sindical
é uma utopia, pois tudo deveria ser decidido em assembleias ou formação de
conselhos. Para ela,
há diversas formas possíveis de gestão democrática: direta, representativa,
presidencialista, parlamentarista. No mito, o ideal é o de uma democracia
direta, onde tudo se resolve em grandes assembleias. O mínimo aceitável
para as universidades é o de um sistema presidencialista, com eleição direta
para os cargos dirigentes e para os colegiados, com participação igualitária de
professores, alunos e funcionários (DURHAM, [S/D], p. 5)

A questão é que a partir do momento que se elabora um modelo
(ou proposta) de avaliação, inevitavelmente, ele está sujeito a regras e, assim,
há regulação, independentemente do viés político que foi adotado para sua
elaboração.
ANÁLISE DO CORPUS:
A LEGITIMIDADE DO SINAES SOB O OLHAR DO ANDES
Na perspectiva teórica adotada neste trabalho, enfatiza-se a
necessidade de articulação entre a língua e a história, processos indissociáveis
para aqueles que tencionam efetuar a análise de um determinado discurso.
Desta forma, não é possível priorizar um desses aspectos que constituem o
discurso, em detrimento do outro, pois,
se o jogo das restrições que definem a “língua”, a de Saussure e dos linguistas,
supõe que não se pode dizer tudo, o discurso, em outro nível, supõe, pois,
que, no interior de um idioma particular, para uma sociedade, para um lugar,
um momento definidos, só uma parte do dizível é acessível, que esse dizível
constitui um sistema e delimita uma identidade (MAINGUENEAU, 2007,
p. 16).

Para o autor (p. 16), “as unidades do discurso constituem [...] sistemas
significantes” e esses sistemas estão relacionados tanto com a “semiótica
textual” quanto “com a história”, sendo esta responsável por especificar os
efeitos de sentido que as unidades exprimem, fator que ressalta a característica
heterogênea do discurso.
Ao afirmar que a Formação Discursiva está associada a uma memória
discursiva, Maingueneau (1997, p. 115) explica que não se trata de uma memoria
______ [ 144 ]

psicológica, mas, antes, de uma memória que permite resgatar e articular
as relações entre o enunciado e a sua história, por meio da materialidade
discursiva. Assim, parte-se do pressuposto de que o interlocutor partilha
dos saberes que precedem a prática discursiva, sendo esse background que lhe
permite interpretar o enunciado em consonância ou proximamente ao que é
esperado por quem o elaborou.
Sob essa perspectiva teórica, a análise proposta está pautada na relação
entre a interdiscursividade e o ethos7 construído pelo ANDES ao se referir
ao SINAES, em que pese analisar, na materialidade deste discurso, o modo
como aquele sistema é representado nos diferentes instrumentos propostos
para a efetivação do processo avaliativo. Ou seja: busca-se perceber como os
semas8 refletem o posicionamento do ANDES diante do sistema e remetem
a uma memória discursiva que visa a corroborar as asserções efetuadas pelo
sindicato a partir da desacreditação do discurso do SINAES.
No percurso de análise, busca-se articular os referenciais que
constituem a disciplina da AD a conceitos extraídos de outras teorias,
como a da argumentação, por exemplo, teorias auxiliares, pelo fato de que,
acompanhando o raciocínio de Maingueneau (1997, p. 160), “são linguísticas,
porque liberam estratégias tão discretas e sutis quanto eficazes, porque
questionam o enunciador e o co-enunciador”.
Nesta perspectiva, a análise está voltada para a materialidade discursiva
do artigo As Políticas Educacionais do Governo Lula: O Sistema de Avaliação,
elaborado pelo Grupo de Trabalho de Política Educacional, publicado em
agosto de 2004, no Livreto do ANDES, que se constitui de diversos capítulos,
sob a temática “A Contra-Reforma da Educação Superior: Uma análise do
ANDES-SN das principais iniciativas do Governo Lula da Silva”. Este
discurso traz, ainda, uma breve contextualização das políticas da educação
superior que se ancoram no projeto denominado de Reforma Universitária,
elencando alguns pontos focais da Portaria que regulamenta a Lei do SINAES.
A análise aqui apresentada é do primeiro parágrafo do texto, ressaltando
que esses se constituem em temas e aspectos distintos que o processo de
avaliação do SINAES alcançaria. Persegue-se, com isso, a compreensão de
como se constrói o discurso polêmico e se, de fato, o discurso analisado pode
ser considerado de resistência, partindo do pressuposto da inexistência de
sentido para enunciados em si mesmos, pois eles estão submetidos a como e
a por que são expressos, dadas as formações discursivas e ideológicas que os
indivíduos ocupam.
Paralelamente à análise dos marcadores argumentativos e aos seus
efeitos de sentido, aplicou-se a relação do ethos com a formação discursiva
______ [ 145 ]

em que se inscreve o enunciador, objetivando chamar a atenção para as
marcas materiais que podem ser consideradas como traços definidores de um
ethos positivo, por meio do qual o ANDES se apresenta. Eis o trecho que será
analisado:
“Apesar das intenções expressas no art. 1 da portaria em relação
às finalidades do SINAES, percebe-se que o sistema de avaliação
irá credenciar o funcionamento das instituições: ‘o processo de
credenciamento e renovação de credenciamento de instituições, e
a autorização, o reconhecimento e a renovação do reconhecimento
de cursos de graduação’ (art. 32). Como, conforme o PROUNI, o
Estado irá selecionar as instituições privadas que farão jus a verbas
públicas, a questão do credenciamento assume um lugar proeminente
na ‘reforma’ da educação superior”.

O enunciador se vale do uso do operador argumentativo de concessão
apesar das para demonstrar a existência de uma contradição presente no
SINAES, ao afirmar explicitamente que ele irá credenciar as instituições, mas
negando que pretenda fazê-lo como uma de suas finalidades. Isto provoca
um contraste no enunciado e uma suposta contradição na lei, pois as intenções
expressas no art. 1 da portaria, que regulamenta como será feita a avaliação
proposta no SINAES, não foram citadas no discurso do ANDES; elas foram
apenas referenciadas e dadas como afirmadas.
Para ratificar o que afirma, o enunciador se vale de aspas para destacar
o artigo 32 do documento do SINAES, o que é uma estratégia para legitimar
seu discurso, buscando confirmar que o ANDES só denuncia uma manobra
na tessitura da lei, porque ela pode ser demonstrada. Trata-se da utilização
de argumento técnico que objetiva apresentar evidências que podem ser
comprovadas por dados factuais que são marcados por recursos linguísticos
que visam a ratificar a asserção posta no enunciado da lei.
Assim, caso o leitor não compartilhe do conhecimento que o
enunciador imagina que ele tenha a respeito das finalidades do SINAES, a
inserção do conectivo e das aspas conduzirá a uma evidencia que há uma
contradição no que o sistema estaria propondo. Se há, pois, afirmação de que
o SINAES será o responsável por “credenciar o funcionamento das instituições”9,
essa finalidade não ficou expressa, mas, ao contrário, induziu à compreensão
de que o sistema não teria o objetivo de “controlar” as instituições por meio
do credenciamento ou descredenciamento, o que poderia ser uma estratégia
na articulação da lei para induzir à crença de que os objetivos do sistema estão
voltados para o interesse da comunidade acadêmica (incluindo o Movimento
dos Docentes-MD), sendo, por isso, digno de crédito.
______ [ 146 ]

A utilização desse recurso estaria, pois, buscando demonstrar
o reconhecimento de que o instrumento instituído pelo SINAES teria na
essência uma intencionalidade que condiz com a FD do sindicato no tocante
ao que se espera do processo de avaliação. Observe-se:
O SINAES tem por finalidade a melhoria da qualidade da educação
superior, a orientação da expansão da sua oferta, o aumento permanente da
sua eficácia institucional e a efetividade acadêmica e social, e especialmente
a promoção do aprofundamento dos compromissos e responsabilidades
sociais das instituições de educação superior, por meio da valorização de
sua missão pública, da promoção dos valores democráticos, do respeito
à diferença e à diversidade, da afirmação da autonomia e da identidade
institucional [negritos nossos] (Portaria MEC n 2.051, de 09 de julho de
2004).

Estas afirmações parecem surgir da FD do ANDES, o que levaria a
pressupor que os discursos são oriundos de uma mesma Formação Ideológica
(FI), em que pese lutar não somente pela melhoria da qualidade da educação
superior, mas dar ênfase aos princípios democráticos que permitem o alcance
da autonomia e do respeito às especificidades institucionais, conforme
proposto e defendido pelo movimento. Logo, se há uma polêmica instaurada
sobre a promulgação da lei, pode-se afirmar que o discurso do SINAES não
tem a mesma significação na FD do ANDES, mesmo que, a partir da sua
semântica global, o discurso do ANDES diga as mesmas coisas e profira os
mesmos enunciados.
Assim, os efeitos de sentido distintos que os enunciados carregam,
dependendo da FD que os pronuncia, confirmam que “o sentido é um efeito
da substituibilidade das expressões, sendo que o conjunto delas produz (pode
produzir) um efeito de referência, ou seja, de identificar objetos do mundo
a partir de uma visão entre outras, que pode ser tudo, menos ‘objetiva’”
(POSSENTI, In: MUSSALIM & BENTES, 2005, p. 371-372).
No que tange à citação do art. 32, entre aspas, ela demonstra a
heterogeneidade dos discursos e, em se tratando de polêmica discursiva,
é possível detectar dois discursos no mesmo espaço discursivo, sendo a
polêmica revelada por meio da heterogeneidade mostrada, que acontece, quando o
autor se vale da citação explícita para demonstrar que o dizer não é seu, mas se
legitima por meio de outra voz que pode ser recuperável, caso o interlocutor
julgue necessário. Esta estratégia confere credibilidade ao discurso, criando,
neste caso, um simulacro do SINAES, detectável na superfície discursiva:
simulação que mostra o SINAES como tentando falsear seus reais objetivos.
Nesta perspectiva, a contradição apontada no SINAES implica uma
______ [ 147 ]

da posição de locutor que assume através destas aspas (MAINGUENEAU. desvirtuando o propósito avaliativo presente nas diferentes práticas discursivas que a entendem como uma transformação do processo educacional sob todos os aspectos e de maneira integrada. colocando a “reforma” sob suspeita. porém. p. pretendendo que a resposta do interlocutor seja a esperada pelo enunciador. ao mostrar que o credenciamento tem maior relevância no sistema proposto pelo governo e que os demais aspectos poderiam ser negligenciados. o que leva a pressupor que ela estaria centrada num foco. ou melhor. no sentido amplo da Reforma Universitária. O sujeito que utiliza as aspas é obrigado. deve-se à criação de um instrumento para a avaliação fazer parte da Reforma da Educação Superior. questiona-se o sentido pretendido pelo governo de pretender reformar a educação superior (o termo é citado em outros momentos no texto sem as aspas). dentro deste contexto. Conforme é postulado por Maingueneau (1997. p. ou seja: a polêmica se estabelece na gênese. mesmo que disto não esteja consciente. a realizar uma certa representação de seu leitor e. na construção do discurso. o recurso às aspas no vocábulo reforma. “o valor semântico das aspas e o interesse que representam para a AD estão ligados precisamente a este caráter imprevisível bem como à sua relação com o implícito”. deve-se ressaltar que. gerando possibilidades críticas de sentido. o credenciamento de IES. p. Cabe frisar que a origem da reforma. Nesta forma de heterogeneidade mostrada. 91). interpretações possíveis e esperadas. No tocante ao suposto tom irônico em ‘reforma’. caracterizada pela interincompreensão. que podem se constituir a partir dessa pista. Portanto. há. deixando marcas explícitas por meio de recursos formais. Na sequência do enunciado. se o objetivo fosse o de reformar a educação superior. o autor procura articular. 90). Neste caso. novamente. além de dar destaque ao termo usado no enunciado. No enunciado em análise. ______ [ 148 ] . simetricamente. 1997. elas podem ser tomadas como uma estratégia de o autor se distanciar criticamente de seu dizer. sendo que as hipóteses levantadas pelo interlocutor são indicadas por meio do interdiscurso. 75). elas foram inseridas sob outra perspectiva. as aspas constroem uma forma de questionamento ou um tom de ironia sobre a palavra em destaque. Assim.relação interdiscursiva entre posicionamentos distintos. oferecer a este último uma certa imagem de si mesmo. o ANDES busca chamar a atenção para o fato de que as finalidades do sistema não seriam alcançadas. provocando uma relação indissociável entre a memoria discursiva de um posicionamento que se opõe ao seu Outro. Como frisa Maingueneau (1997.

o êxito no processo de interpretação ficaria garantido. em que pese a interdiscursividade evidenciada na materialidade do discurso. Neste aspecto. ou seja: “o leitor encontra-se. “a polêmica é necessária porque. certamente vago. Assim. o que é identificável à medida que o ANDES se coloca como possuidor de uma proposta que compreende o “verdadeiro” papel e a função essencial da educação superior (em especial da universidade). Enquanto a negação pura e simplesmente rejeita um enunciado. não é digno de crédito e precisa ser desqualificado. sem essa falta que torna possível sua própria completude. pois. a identidade do discurso correria o risco de desfazer-se” (MAINGUENEAU. a ironia possui a propriedade de poder rejeitar. Desse modo. A polêmica analisada sobre o debate do tema avaliação da educação superior ratifica a postura adotada pelos estudiosos da AD. de acordo com o ANDES. p. contando com a conivência dos interlocutores discursivos. mas também se repetem. fator que demonstra que os confrontos não só existem. O ‘locutor’ assume as palavras. utilizando um operador explícito. p. se. afirma-se que. 1997. dever-se-ia perceber que. 77) chama de ironia o processo em que o enunciado “faz ouvir uma voz diferente da do ‘locutor’. o enunciador abre um espaço dentro de seu discurso para que seja preenchido pelo outro. haja vista o distanciamento provocado que transfere a responsabilidade pelo efeito de sentido para o interlocutor. sem passar por um operador desta natureza [itálico do autor] (MAINGUENEAU. mas não o ponto de vista que elas representam”. p. Maingueneau (1997. Portanto. sem essa relação com o Outro. 118). de outro. a voz de um ‘enunciador’ que expressa um ponto de vista insustentável. de um lado. Portanto. o enunciador diz ter uma proposta para o papel social e para as funções acadêmicas da universidade. 98). pautado na crença de que compartilham de um universo de valores. ______ [ 149 ] . imerso em um interdiscurso. por meio da heterogeneidade. mas situado” (MAINGUENEAU. a ironia subverte a fronteira entre o que é assumido e o que não é pelo locutor. é uma forma de continuísmo dos governos passados sob uma nova roupagem. o autor enfatiza que a ironia é um recurso eficaz. p. Desta forma.projeto que. o discurso vai se constituindo por inúmeras vozes que são percebidas ou escolhidas de acordo com o ocupado pelo sujeito do discurso e pela sua FD: Se o discurso indireto institui o jogo na fronteira entre discurso citado e discurso que cita. 98). pressupondo que o SINAES não os tem e. 1997. 2007. a base governista não o teria e a própria materialidade da lei poderia comprovar essa tese. por isso. uma vez que o interlocutor possuiria competência discursiva para interpretá-lo.

______ [ 150 ] . BERGER.8). estão exarados no principal documento jurídico que rege o país. Florianópolis: Andes.jsp. Portanto. já que isso se dá por meio de práticas compartilhadas social e culturalmente e pelas crenças estabelecidas.periodicos. pois.capes. que se admitir a incompletude do SINAES (assim como da própria linguagem). o que reforça a tese de que os sujeitos são responsáveis pela forma de pensar e de agir dos grupos sociais. Gladys Beatriz & ROTHEN. Peter. Outubro. mesmo que isso se dê de forma inconsciente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDES/SN. toda reflexão. p. ao afirmar que apenas sua proposta preza pelos direitos dos sujeitos. José Carlos. fator que propicia a execução das tarefas de uma forma menos alienada. Como enfatiza Santos (2006. Ao questionar a metodologia e a finalidade de tais sistemas. direitos esses que não só fazem parte do imaginário social. debate e confronto em torno de sistemas avaliativos adotados numa dada época são salutares para o desenvolvimento e superação dos limites. http://www. Há. 27. (Trad. 2003. Perspectivas Sociológicas: uma visão humanística. a credibilidade do SINAES é afetada por se tratar de um instrumento legal. 955-977. As Políticas Educacionais do Governo Lula: O Sistema de Avaliação. mas. In: A Contra-Reforma da Educação Superior: Uma análise do Andes-SN das Principais Iniciativas do Governo de Lula da Silva. Soc. 2004. “é preciso relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos”. 2006.A desconstrução do ethos do outro é condição básica para que o enunciador possa construir seu ethos positivo. o enunciador provoca uma inquietude que tende a estimular a autocrítica dos agentes envolvidos no processo. Capítulo VI – Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES). Educ. BARREYRO. alimentadas e constitutivas da sociedade em que estão inseridos.gov. Brasília: GTPE-ANDES/S. _____. br/portugues/index. nº 96. Caderno ANDES – Nº 2 (1981). também. ISSN 0101-7330. Vol. p. “SINAES” contraditórios: considerações sobre a elaboração e implantação do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior. acima de tudo.

Petrópolis – RJ: Ed. de 14 de abril de 2004. Martin Claret. _____. BRASIL. Educação e Sociologia. ______ [ 151 ] . 2002. Diário Oficial da União. Ed. 13. 2001. São Paulo: Ed.861. de 20 de dezembro de 1996. 2004.ed. 2001. DEMO.394. _____.Donaldson M. Peter L. SP: 18. Sociedade. São Paulo: Editora UNESP. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora UNESP. Escritos sobre a universidade. 6 e 7 de agosto de 2003. FREIRE. Modernidade. Melhoramentos. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. 1997. Congresso Nacional. Thomas. São Paulo. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Marilena de Souza. Paz & Terra. _____. 1979. 2003. 1996. DURHAM. Rio de Janeiro: 9. Presidência da República. Brasília. Paulo. Institui o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior e dá outras providências. Universidade e Estado: autonomia. BERGER. CHAUÍ. Diário Oficial da União. e LUCKMANN. DURKHEIM. Eunice. Ed. Brasília: MEC/SESU. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Petrópolis. 2000. Campinas. Pluralismo e Crise de Sentido: a orientação do homem moderno. As Regras do Método Sociológico. Lei Federal nº 10. Garschagen).ed. Émile. 25. Pedro. ______. A Autonomia Universitária: Extensão e Limites. Brasília. 1967. dependência e compromisso social. S/D. Papirus. Lei nº 9. ______. Vozes. 2004. Vozes. A Nova LDB: Ranços e Avanços. Ática. Educação como prática da liberdade. São Paulo: Ed.

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São Paulo. 148). In: SOBRINHO. _____. como primeira colocada em todos os rankings.861. José Dias. estrutura e território. que institui o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior e dá outras providências. O Banco Mundial e a Educação Superior: Revisando Teses e Posições? Caxambu. 2) Definições extraídas dos dicionários: BUENO. VALE. Autores Associados. publicou um guia para pais e alunos quanto à escolha da melhor instituição. a inserção da Harvard considerada no topo da pirâmide. José Dias. MG: Anais v. Petrópolis – RJ: Ed. Petrópolis: Vozes. 3) Durkheim (2001) faz uma analogia entre as regras não contestadas na biologia. 2002. 2000. Secretaria da Educação Superior do MEC. Concepções de Universidade e de avaliação institucional. 1984. de 14 de abril de 2004. São Paulo: Cortez. 2000. Introdução. SGUISSARDI. Diálogo e Conflito: a presença do pensamento de Paulo Freire na formação do sindicalismo docente. como parâmetro. 1987. Ensino Público e algumas falas sobre a universidade. de 1 de Outubro de 2008 (p. S. sob o ponto de vista dos índices aferidos nos sistemas vigentes e. SOBRINHO.SAVIANI. Avaliação da Educação Superior. Reforma universitária em crise: gestão. que podem e devem ser pensadas também na sociologia. Brasília: Jornal Dois Pontos. no que tange às diferentes espécies que merecem tratamento diferenciado. A. SCHWARTZMAN. In: Universidade em Ruínas: na república dos professores. que passa despercebido na maioria das vezes. NOTAS 1) Lei Federal nº 10. Funções e metodologias de avaliação do ensino superior. Valdemar. Vozes e Cipedes – RS. Dermeval. B. 1999. Ana Maria do. DE H. 1. Minidicionário da língua portuguesa e FERREIRA. ou seja: o respeito às especificidades em todas as esferas sociais. 4) Matéria da Revista Veja. Cortez. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Silveira. ______ [ 153 ] .

6) Artigo apresentado no Seminário Internacional sobre Educação Superior. funcionam como uma espécie de filtro que vai estabelecer critérios para distinguir um “conjunto de textos possíveis como pertencendo a uma FD determinada”. disponível no site: http://www. 401). que não pode ser apreendido fora de uma situação de comunicação precisa. ______ [ 154 ] . 8) De acordo com Maingueneau (2007. um comportamento socialmente avaliado. então.org. em oposição ao Estado de Bem-Estar Social e socialdemocrata que.5) Segundo Chauí (2003. desresponsabilizando o Estado dos encargos advindos dos órgãos estatais. Criatividade e Legitimação e Transformações dos Sistemas. p. br/simon/permanen. dentre outras propostas. É uma noção fundamentalmente híbrida (sócio-discursiva). p. 49).schwartzman.htm 7) O conceito de ethos aqui utilizado é o defendido por Maingueneau (2006. de 1947. neoliberalismo é uma teoria econômico-política. 9) Artigo 1 da Portaria que regulamenta o SINAES (portaria 2051/04). ela própria integrada a uma conjuntura sócio-histórica determinada. compreendido como um processo interativo de influência sobre o outro. 60). o sistema de restrições semânticas é proposto para definir “operadores de individuação”: os semas. prima pela competição entre os cidadãos com vistas ao progresso e a propagação de programas de privatização. p.

CAPÍTULO 8 ZONA: O ENTREMEIO COMO LUGAR DE CONTRADIÇÃO Mirielly Ferraça .

desconhecia. isso por conta do imaginário que existe sobre a imagem da prostituta. causa certo estranhamento (curiosidade? espanto?). Eis um espaço restrito. com luzes fracas. reverberam até hoje. era conhecer um “mundo” de luxúria e prazer destinado somente aos homens. sexo e prostituição. mas não se atentava para o fato de ______ [ 156 ] . na maioria das vezes. apagado. envolvente e fascinante. ainda que sob a desculpa de fazer entrevistas. é uma casa grande e bonita. E a pergunta que sempre ecoou nesse meio acadêmico foi a motivação para tal estudo. Ir a um bordel. por vezes. O imaginário coletivo acerca das casas de prostituição constrói um cenário luxuoso. Saber que as garotas de programa vendem sexo porque precisam de dinheiro e porque devem sustentar os filhos é bem sabido. Não que se quer defender ou realçar a imagem de “boa” moça. condenando a prática acima de qualquer coisa. que escolhe. a partir da memória discursiva. muitas luzes. não se escolhe o objeto a ser estudado. em meio a muita penumbra. mas a prostituição parece mesmo ser impedida de adentrar o âmbito familiar e se é falado sobre o assunto é sempre com aquele tom de estigma. inacessível. mas a Análise de Discurso mostrou se tratarem de ecos que vêm de longe e que. silenciado das reuniões de família e do convívio familiar. Imaginava. apagada pelo tempo. O fato é que a prostituição sempre exerceu certo fascínio sobre mim. estava observando um universo que. quando dei por mim. mesmo assim. claramente. Primeiro. porque imaginava colher histórias diferentes. mas. mas exibia em sua arquitetura uma estrutura bem antiga. De fato. Era o que eu pensava antes de visitar o Porto das Sereias2. O que se encontrou foi uma casa apagada. As entrevistas ocorreram pouco antes de a casa começar a funcionar. Mas nem sempre se sabe por quê. pessoas animadas em todas as mesas e dançarinas no palco convidando os clientes a participarem da festa.Uma pesquisa científica1 que vise a discutir sexualidade. Às vezes. que as casas noturnas transbordavam cenários decorados com tons de vermelho. ainda assim. outros sentidos antes não pensados adentraram a pesquisa sem pedir licença e. não se via muita “vida” por ali. muita alegria. Além do ambiente. é ele.

justificativas e. vida real que imita e se deixa imitar. Não felicidade clandestina. alguns silenciamentos marcam a história dessas garotas.. é estar no meio do caminho. as garotas de programa. Tratar da “profissão mais antiga do mundo” (frase dita e repetida pelo senso comum) é contar mais uma das muitas histórias sobre as mulheres que vendem o corpo por dinheiro. a Literatura e o cinema não se cansam de trazer fortes personagens femininos que mostram a difícil e estigmatizada vida de meretrizes. entre um lugar e outro. Memória que se perpetua. mas propositalmente bem localizado para quem entra e sai da cidade e propositalmente bem localizado para quem deseja sexo clandestino. Lembranças de amor. as casas de prostituição precisaram esquivar-se do movimentado centro-citadino e passaram a erguer seus quartos em bairros afastados ou mesmo no espaço que compreende o entorno da cidade. “organizando” um discurso contraditório que ora reafirma. O que não se imaginava era que elas. mas. Como em vários lugares e em diferentes épocas. viver na zona é mais do que vender o corpo por dinheiro. sofrimentos.que. localiza-se o Porto das Sereias. no fio do discurso. demasiadamente comum. vê-se que se trata. não estão somente à margem. por vezes. mas sexo clandestino. Elas vivem no entremeio e. como contextualiza Roberts (1998. renúncias. de uma memória (ins)(cons)tituída. sacrifícios. se parece que avançamos. Tal assunto. redimir-se e passar a imagem de “boa” moça. Quatro são as protagonistas desta pesquisa e a partir de seus enredos a análise é tecida. elas queriam justificar as escolhas. são divididas entre o “certo” e o “errado”. por diversos escritores.. de repente. percebe-se que ainda há muito a descobrir e muito a ser descortinado sobre o tema (dito e repetido) mais antigo do mundo. 94): ______ [ 157 ] . Embora pareçam relatos singulares. em outras épocas. Retratadas de inúmeras formas. na verdade. Histórias que se repetem. em diferentes épocas. Vende-se sexo no Porto das Sereias e também se doam histórias. ditos que ecoam pelos séculos. se não existissem sentidos que se repetem. p. Literatura que conta. cinema que mostra. . Distante do perímetro urbano. mas também não fazem parte da trama social plenamente. ora se desfaz. quem sabe não percorreria os bancos das universidades com tanta facilidade.

em outras épocas. Percebe-se que dinheiro “fácil” não se restringe. como disserta Richards (1993). p. mesmo que por vezes. o cemitério. no Paraná. As casas de prostituição funcionavam. paradoxalmente. ainda que significativamente localizado na fronteira da cidade. as mulheres simplesmente estabeleceram suas casas e bordéis à beira dos portões da cidade – bastante próximos para os clientes urbanos que desejassem ‘saciar sua sede’ sem ter de sair muito do seu caminho (Grifos meus). quase seu exterior” (CHAUÍ.Inicialmente. mesmo quando sua localização física encontra-se afastada: “Na geografia das cidades. 1984. fora de seu espaço físico. o bordel é tão indispensável quanto a igreja. para que ‘damas’ e ‘vagabundas’ não se misturassem” (PEREIRA. seres híbridos de mulher e peixe. 117). Precisando afastar-se das ruas movimentadas pelas quais caminhavam senhoras. sendo quase elementos constituintes do espaço e da atmosfera urbana. permanece até hoje (2014) no mesmo endereço: às margens da cidade de Cascavel. como válvula de escape da sociedade. integrando-se à paisagem. o que contribuía para a manutenção da instituição familiar. Ana Paula. 2004. que iniciou suas atividades em 1983. caracterizadas pelo cantar sublime que fascina e envolve os navegantes. que homens aliviassem suas necessidades sexuais e que fosse possível evitar que elas se aproximassem das esposas e filhas respeitadas. as casas de prostituição se tornaram peças constitutivas de qualquer lugar. segundo um dos sócios. principalmente a partir do momento em que os setores públicos passaram a empenhar-se mais em realizar um maior esquadrinhamento geográfico-social das ruas. fazem parte do imaginário citadino. recusandose a deixar as prostitutas trabalhar na cidade. Assim. a venda do corpo não deixa de existir: “tornou-se mais complicado a presença das prostitutas nestas mesmas vias. era receber “retorno monetário mais rápido”. às garotas que vendem sexo. pois. p. Investir no empreendimento na época. Carol e Duda são nomes fictícios que relatam histórias “reais”3. 80). mas também a quem está nos bastidores e se vale delas. Ainda assim. ______ [ 158 ] . as garotas que vendem sexo no Porto das Sereias também esperam e enlaçam os marinheiros que ali desembarcam em busca de um Porto seguro e acalentador. o Porto das Sereias. Muda-se de lugar. Assim como outras boates que se ergueram fora dos muros citadinos. com mais força e intensidade. senhoritas e senhores tidos como “respeitáveis” e pela necessária “limpeza” citadina. Mônica. Tal quais as sereias. as autoridades tentaram desencorajar a prostituição. portanto. a prostituição foi um meio prático de permitir que os jovens rapazes se iniciassem e reafirmassem sua masculinidade. mas não de hábitos. a cadeia e a escola.

na vida adulta a personagem abre uma casa de prostituição chamada “Casa das Sereias”. Esther encontra a segunda referência da pequena sereia. à procura da satisfação de seus desejos. A imagem ambígua da sereia. Se. relacionando a figura mitológica da sereia não só a si mesma. e a prostituição. Desejam. serão divididas. de vez. justificando que foram “obrigadas”. com a qual cresceu e pela qual constituiu seu modo de ver a vida. mas também às garotas que moram na boate. Esther sabe que seu pai nunca a perdoará por ter confrontado os ensinamentos religiosos do judaísmo. relaciona-se à da mulher sedutora. Nessa obra. de um lado. de 1975. as saídas possíveis que elencam para a vida que levam estão ligadas ao sonho de deixar o “limbo” e adentrar. uma forma de prover os seus gastos e os de seu filho. como uma espécie de amuleto. Além disso.desejosos e carentes. O tempo todo elas procuram desculpar-se por estarem na “vida”. Esther também é. onde perde a virgindade e é iniciada nas artes sexuais. e por fim. Mas as garotas do Porto das Sereias afirmam que desejam deixar a prostituição e ocupar lugares reconhecidos pela moral social (como esposa. passando a mão em seu corpo. tanto Esther (personagem literária) como as entrevistadas (personagens reais) vivem no entrelugar. Assim. quando é levada a Paris. a personagem Esther é traficada da Polônia ao Brasil para servir nas casas de prostituição. senta-a sedutoramente em seus joelhos e conta-lhe a história da Pequena Sereia. como a Pequena Sereia. após o casamento. mas sai de seu lar enganada com um casamento de fachada. A Pequena Sereia é a figura que acompanha a vida de Esther e está relacionada ao florescimento de sua sexualidade: aos 13 anos. direcionando a “culpa” para o outro. uma estatueta em um abajur que carregará até os últimos dias de sua vida. O que reverbera nas sequências colhidas é a contradição em que vivem e as justificativas que apresentam para fugir do meio termo e buscarem a inserção nos moldes sociais. Se permanecerem sereias. buscando constantemente se encaixar onde não há encaixe. em certa medida tentadora. São navegantes submetidos aos (en)cantos de mulheres divididas. policial). ela também sabe que a venda de sexo lhe trouxe liberdade. A personagem de “O ciclo das águas” (2010) é divida entre a cultura religiosa judaica. de outro. quando um capitão polonês convida a garota para conhecer sua casa. Se a sereia é marcada pela contradição e pela divisão. escolhida para fazer referência ao nome criado para a boate. em que consigam ser sujeitos reconhecidos (sem o teor do estigma) como pertencentes à trama social. enfermeira. cujo diálogo com a figura da prostituta foi trabalhado por Moacyr Scliar em seu romance “O ciclo das águas” (2010). um lugar pleno. personagem do conto ______ [ 159 ] .

É o ciclo das águas. Jamais são concebidas como espaços permanentes ou estruturalmente complementares às áreas mais nobres da mesma cidade. Assim. constituem os pontos de encontro de histórias que se repetem sobre a venda do corpo. o que não se encaixa. CONTRADIÇÃO QUE SE DESFAZ A inquietação enquanto analista foi perceber como o discurso das entrevistadas se constituía em uma linha de tensão tal que o contraditório. deixar a ambiguidade da vida que levam e adentrar o espaço social sem o estigma de pertencer ao “submundo” (marinho). imperava. ‘mangues’ e ‘alagados’. ao conflito ou à contradição – como as regiões pobres ou de meretrício – fica num espaço singular. em que o fim é o recomeço. a memória e o interdiscurso existentes tendem a ecoar: continuamente. dirão ser únicas. ex-esposas. onde a presença conjunta da terra e da água marca um espaço físico confuso e necessariamente ambíguo (DAMATTA. ______ [ 160 ] . de terem relações familiares diferentes. o que está na zona. então. Apesar de cada uma passar por situações diversas até se tornarem garotas de programa. sob o apagamento discursivo. aquilo que não é nem uma coisa nem outra. mas são sempre vistos como locais de transição: ‘zonas’. no não-lugar. Há também espaços transitórios e problemáticos que recebem um tratamento muito diferente. Outras Esther virão e. A garota de programa. Na ordem do consciente e da moral vigente. mas se sabe que. de possuírem ex-relações conjugais distintas. no entremeio. Locais liminares. “estranhava-se” esse lugar contraditório ocupado por elas. que analista e entrevistadas compartilhavam(am). das garotas de programa. o que está apagado. É analisar o que é a prostituição sob a ótica de quem a vivencia e também buscar que efeitos de sentidos ecoam no implícito. de Esther. parece ocupar o entremeio: Mas nossos espaços nem sempre são marcados pela eternidade. Geralmente são regiões periféricas ou escondidas por tapumes. p. mas adentravam o limbo da estigmatizada venda de sexo. como algo ilógico. Incompletude das sereias. 45 – grifos meus). Incompletude da linguagem: o que se quer com esta reflexão é justamente discutir o que está à margem. já que faziam parte da dinâmica social enquanto mães. tudo o que está relacionado ao paradoxo.de mesmo nome de Hans Christian Andersen. CONTRADIÇÃO QUE IMPERA. tornarem-se “humanas” por completo. o ambíguo. os laços de suas vidas se cruzam em nós comuns. assim como a água jorra em ciclo. ‘brejos’. 1997. filhas.

para as leis que regem a moral a ser seguida. ocupando o outro lado do pêndulo. ditos e repetidos pelo senso comum. a imagem condenada é ocupada pela posição da prostituta. no fio do discurso. Por eles que nóis tamo aqui. instaura uma imagem de mulher imaculada. principalmente quando se fala da mulher. né? Meu e de todas daqui. promiscua. Mas. haverá dois lados. que eu tô na zona (Carol – grifos meus). contemporânea e ocidental) não é tido como “correto” uma mãe (de família – diriam os sujeitos imersos nessa formação discursiva – digna e honrada) sair de sua casa para vender sexo para “qualquer um” na rua. né? E meu filho tem 12. ninguém tem que fala nada. ser cujo amor incondicional é capaz de realizar sacrifícios em prol dos filhos. existe a posição “ruim” e “má” da garota de programa: “O bom e o mau se encontram numa relação recíproca e constituem um par de conceitos axiológicos inseparáveis e opostos. o virtuoso. p. Não. 184 – grifos meus). Só que é feio minha filha sabê. Então.. respeitada. sentidos naturalizados. alguma coisa assim. pior nóis seria se nóis tivesse abandonado nossos filhos. o interdiscurso e o pré-construído. na verdade. Nóis tamo aqui por eles. Assim. mas inseparáveis: de um lado o bom. trabalho assim nessa vida pra dar o melhor pros meus filhos (Duda – grifos meus)4. Em oposição à posição “boa” da “mãe de família”. associada ao amor divino. Toda concepção do bom acarreta necessariamente. tida como mulher de vida fácil. uma concepção do mau” (VAZQUEZ. imoral. de um modo explícito ou implícito. o certo. E.. 1993. mas ainda hoje se constituem na oposição entre a honra e a desonra). isso a partir dos valores sociais tidos como aceitáveis e louváveis. em que posições e condutas são delineadas uma por oposição a outra. A casa e a rua são espaços bem delimitados no e pelo imaginário social (talvez antes com maior intensidade. Constrói-se socialmente uma relação contraditória entre os dois lugares ocupados pelas entrevistadas: ser mãe e prostituta ao mesmo tempo. Ser mãe e ocupar o lugar que essa posição representa socialmente. Tais contradições chocam-se e confrontam-se em duas faces distintas. eles são alguma coisa pra pode alegrá nóis por dentro. para a moral vigente (cristã. reforçada pela memória discursiva. Em oposição ao lugar positivo que se tem da maternidade. ______ [ 161 ] . (SD 02) Então. a tensão e a contradição se desfazem quando apresentam justificativas para o fato de estarem na vida noturna: (SD 01) Minha filha tem 14 anos. afinal. ao dom da vida. de outro o mau. Dessa forma. o errado.Fazer parte desses dois lugares constitui uma contradição. o vício. é o meu foco. tivesse jogado na rua. minha filha com 12 anos.

ao mesmo tempo. apesar de não resolverem a condição estigmatizada de prostituta em que vivem e de não as redimirem socialmente. Tal dualidade impõe-se de modo a exigir que ambos os lados (co)existam. Charolles (1997) tece algumas considerações sobre as contradições textuais apontadas em produções de estudantes por professores de séries iniciais. para quem produziu tal efeito. como se perceber nas SDs 01 e 02. caso ocupem. a transgressão: “A norma. na prostituição. determina de que maneira os efeitos de sentido do processo interlocutório significarão. “jogados na rua”. multiplica a norma e a indica. esvaem-se. no discurso. enquanto que N não aceita esse estranhamento” (p. fora de si. que elas se colocam de maneira diferente com relação aos sentidos atribuídos a ‘estudo’. é justificado pelo fato de venderem sexo pelos filhos sob a defesa de que eles poderiam ser “abandonados”. esses fios se desfazem e as contradições se desmancham. desde o seu início. sob a pena da coerção social. Essas e outras justificativas. mas perante a formação discursiva de outros sujeitos. não podem ocupar o mesmo lado da moeda. O entrelaçar de fios discursivos amarram-se aos nós da ideologia. ainda assim desfazem. podendo ser diferentes para ambos os interlocutores: “Essas diferentes posições. a possível contradição que existe para o analista. porque três delas estão na prostituição há mais de dez anos e não há contradição nenhuma nisso para elas. p. p. Ela requer. pela leitura. ao seu lado. Apesar dessas tessituras irem minimamente ao encontro do proposto por este projeto. mesmo se tratando ______ [ 162 ] . inscrito em diferentes formações discursivas. já que estar ali. Essa dualidade contraditória existe pela ordem da moral. mas. Lagazzi (1988). afirma que a posição ocupada pelo sujeito. ou seja. marcado pela posição em que se encontra” (LAGAZZI. na obra O desafio de dizer não. tratando que o que pode ser contradição para o professor pode não ser para o aluno. mesmo com o agir da ideologia em ambas formações. S estranha o fato de que N receba uma remuneração para estudar. 1988. Lagazzi (1988) reafirma: “Percebemos. com o discurso. fazem com que professores e alunos privilegiem diferentes sentidos na interlocução.já que o conjunto de valores estabelecidos socialmente supõe. a contradição se fixa. portanto. 24). Na sequência analítica. cada qual se relaciona. ser mãe e se prostituir não necessariamente tem o mesmo sentido para analista e entrevistado. 86). tudo aquilo que ainda lhe escapa” (CHAUÍ. 67). visto que as formações discursivas permitem que se aceitem determinados sentidos e não outros. mas o que se questiona é que tal antítese discursiva parece não ocorrer para as garotas de programa. 1984. Assim. que correspondem a diferentes formações discursivas. ao analisar uma SD. Inclusive.

dissolvendo no discurso aquilo que poderia instaurar problemas para o sujeito que vive nesse entremeio e nessa trama “paradoxal”. a contradição se esvai quando são mães que se prostituem pelos filhos. Mas há de se atentar também para o fato de o discurso ser constituído por esse embate existente entre as formações discursivas e. percebia vagamente a ligação de suas ideias. não há contradição em ser mãe e fazer tudo pelos filhos. Carol finaliza dizendo: “Por eles que nóis tamo aqui. além do mais. hibridizam-se e. Assim. que eu tô na zona”. A incoerência do discurso depende de quem ouve. Só que é feio minha filha sabê. Senhor Teste apud CHAROLLES. chocam-se. Dessa forma. ninguém poderia questionar ou mesmo julgá-lo como contraditório. mesmo que ocupem lugares tidos como inabitáveis. é a epígrafe que Charolles (1997) utiliza que se encontra no âmago da discussão aqui proposta: Andávamos e escapavam-lhe frases quase incoerentes. Carol não deseja que o estereótipo de “filha da puta” recaia sobre a filha. enfim. minha filha com 12 anos. Se existe um “sacrifício” em estar “ali”. por consequência. visto que sua formação discursiva minimiza o efeito contraditório que existe para o outro. parece não existir contradição entre ser mãe e ser prostituta para elas. mal acompanhava as suas palavras. os sentidos não são objetivos e transparentes e aí é que o apagamento (de ser prostituta e todo o estigma que há nessa posição) que antes se desfez se instaura. Apesar dos meus esforços. 1997). Então. eu teria temido uma solução simples demais (Paul Valery. mas numa linha de tensão tênue. ninguém tem que fala nada. quando o assunto é os filhos e a prostituição. Por isso não me atrevi a classificar Teste como louco. Do mesmo modo. outras se instauram. as ideológicas.de um texto que propõe outro tipo de trabalho com a linguagem. não observava nelas nenhuma contradição. em fixálas. O espírito parece-me feito de tal forma que ele não pode ser incoerente para si mesmo. limitando-me. Aliás. Apesar de não existir contradição no fio discursivo entre ser mãe e ser prostituta. ______ [ 163 ] . isso porque diversas formações discursivas se cruzam. mas há problemas de a filha ser reconhecida como “filha da puta”. A defesa levantada é a de que o espírito (ou o sujeito) não poderia ser contraditório a si mesmo. pois. o que possibilita pensar que o desmanchar do que poderia ser contraditório na formação discursiva da qual a entrevistada comunga não ocorre de um modo exato. Na SD 02. para Carol. mesmo que esse tudo seja exercer uma prática moralmente condenada. apesar de uma contradição se desfazer.

para elas. ela terá que deixar a prostituição. Questionada se já se prostituía enquanto estava casada. Entretanto. ao mesmo tempo. no caso das entrevistadas. ela deixa a casa de prostituição para namorar e a abandonaria depois de se casar. não pode. “pertencer” a um homem só não é possível. separe-se a “boa” (aquela que ocupa o lugar de esposa (e por estar nessa posição atribui-se a imagem de honrada e respeitosa)) da “má” (aquela que vende o corpo por dinheiro). lugares que não podem habitar o mesmo espaço. além disso. os já-ditos pela ______ [ 164 ] . essa relação só existirá enquanto forem namorados. quando há a justificativa para estarem “ali” pelo outro. Duda talvez seja a que transite com maior frequência entre as duas esferas. quando ocupam o lugar da garota de programa: pode. ser casada e se prostituir são ações que pertencem a duas formações discursivas distintas. mas o namorado desconhece sua forma de ganhar a vida. em suas atitudes. mas. a partir do momento em que se casarem. o que é explicável. as entrevistadas não se prostituíam. mantendo sempre em vista a possibilidade de ser uma mulher “honrada” em certas condições e podendo retomar a situação. seja ele firmado por meio da religião. Sabese da existência de práticas dessa natureza. que.Ser esposa e garota de programa não parece ser. que. da justiça ou apenas formalizado entre o casal. segundo Duda. portanto. Constituir família e continuar com a prostituição não é uma atitude bem vista pela sociedade e pela instituição religiosa. reforçando. Mônica responde: (SD 03) Não. Enquanto estão unidas pelo laço matrimonial. condena a prostituta por oposição à boa mulher. Dentre elas. não aceita sexo fora do casamento e que. As ideologias cristã e burguesa (no mínimo estas) interpelam Duda e a fazem assumir que essa antítese discursiva não pode ocorrer: seria contraditório. lugares simultaneamente habitáveis. Ou seja. pelo menos assim afirmam. A análise do corpus revela. pois ela namora há dois anos. pois. Por isso. como modo de tentar estabelecer limites fixos entre a condição de mulher “pura” e “honrada” que ocupavam durante o casamento e a condição de prostituta. só depois que eu separei (Mônica – grifos meus). como mandam os preceitos religiosos. dado que elas estão inseridas numa sociedade monogâmica. como apontam nas saídas para a “vida” que levam. supostamente. ter relações sexuais com vários homens por dinheiro e. em seus depoimentos. quando ocorre a interferência no “sagrado matrimônio” ou na configuração da “sagrada família”. Parece haver um limite na própria aceitação das entrevistadas. aquela destinada ao sagrado casamento.

Reboul. a partir Reboul (1980): Em relação à coerção. A esposa. Abre-se a possibilidade. trabalhava de empregada doméstica”. 1987. voltei pra noite. 242). fiquei dois meses. há também o delineamento de seus papéis. (Carol) Mas antes de vim pra noite. aí foi onde que não deu certo. chave de cadeia. Aí casei de novo.. que define os deveres e valores de quem ocupa esse espaço. trabalhava de empregada doméstica. 1980).. quando diz: “É. era um cara muito vagabundo. é onde as mulheres podem sair de seus lares e comercializar sexo. elas passam a ser “mulher pública”: “Vale ainda lembrar que a valorização das mulheres casadas passava pela existência das ‘mais fáceis’. pois a ideologia determina o espaço de sua racionalidade pela linguagem: o funcionamento da ideologia transforma a força em direito e a obediência em dever (O. fiquei casada. Na sequência. sem nada. sem nada. que não apenas ajudavam a ______ [ 165 ] . Enquanto esposa digna de respeito.ideologia. Como assevera Orlandi (1987). fiquei casada. é possível perceber a preocupação de Ana Paula em ressaltar que Carol era casada antes de ir para a “noite”. o lugar atribuído à Palavra (ORLANDI. mãe e dona de casa ocupam o espaço reservado a elas: o lar e. fiquei dois meses.. não seja tão valorizada financeiramente. que eu tenho minha última filha (Carol – grifos meus). diante desse espaço pré-definido.. A rua. mesmo sendo uma profissão que. (Risos) e separei. Aí casei de novo. comparada a outras. entre outras coisas. né? (Ana Paula) É. fiquei muito tempo. trabalhava de diarista.. assim. de tecer uma relação de oposição entre a casa e a rua. p. opondo-se ao papel desempenhado no seio familiar. As afirmações evidenciam que Carol e Ana Paula se inscrevem em uma formação discursiva que não admite vender-se sexualmente enquanto estão vivendo relações matrimoniais. Separei dele.. voltei pra noite.. seguindo o modelo tradicional de família. fiquei muito tempo. (SD 04) Eu fui casada seis anos com o pai da minha primeira filha. Na SD 04.. ela é o local da liberdade e da libertinagem. por outro lado. Carol diz: “Separei dele. mas cessava com o enlace matrimonial. era necessário que Carol trabalhasse em uma profissão “digna” e reconhecida como atividade jurídica e socialmente aceita. o que demonstra que a venda do corpo ocorria entre um casamento e outro. trabalhava de diarista.. A religião constitui um domínio privilegiado para se observar esse funcionamento da ideologia dado. reafirmando que a colega não se prostituía enquanto era casada e que essa prática só passou a ocorrer após a separação. desse modo.. não é necessário dizer que não se trata de força ou coerção física. destina-se à prostituição. (Risos) e separei”.

. Tanto é que assim. p. ao contar que ganhou de presente de aniversário um carro de um dos clientes. que é inseparável de uma formação discursiva contornada e controlada por uma ótica social. Ratificar os preceitos morais e considerá-los como fundamentais as auxilia na busca de mostrar o quanto elas são “boas”. ele me ajudava (Duda – grifos nossos). apresentando-se como sujeitos que. não se poderia jurar ser fiel. 101). sem compromissos. como evidenciado na SD 06. às vezes a gente lembra e fica emocionado. Duda. pois. Meu pai. sob a tutela de um falso moralismo. ela recusou o pedido: ______ [ 166 ] . parece tornar-se possível ir ao encontro do oposto: corromper-se. ela passa a ser descomprometida. como divorciadas. foi uma separação difícil. Estar unidos por laços matrimoniais firmados pela Igreja e pelo discurso jurídico. a mulher passa a estar “livre” desse enlace. A separação é apresentada pelas entrevistadas como porta de entrada para a venda de sexo. por isso há contradição para elas em esposa e ser prostituta5. eu me separei. A divisão dos espaços. não há mais amarras (jurídicas ou imaginárias) que as faça seguir o modelo. requer comportamentos aceitáveis para essas formações discursivas. contra a estrada e o caminho” (PRIORE. tem como objetivo fazer com que a imagem das garotas entrevistadas passe a ser vista como positiva. Antes comprometida com o casamento. sem obrigações. é resultado de convenções sociais que delimitam o papel a ser desempenhado. afirma que ele até queria se casar com ela. já que elas compartilhariam do que se considera “bons” costumes. As entrevistadas afirmam e reafirmam o que é delineado pela sociedade como aceitável. aceitos socialmente. por já ser casado.reconhecer a boa esposa e mãe. seguem os valores sociais dados como morais. mas. Ser esposa é ser respeitada socialmente. amar e respeitar um homem e se vender numa boate (ou em qualquer outro lugar) a outros. Tais sentidos se repetem. Ao deixar essa condição. socialmente. a partir da separação. né? Mas. ainda que. mas casamento e prostituição para a mulher são. fiel e “direita”. 1995. neste sentido. né? Foi uma separação assim. tanto é que meu ex-marido não queria mais ajudá com pensão. Não se está dizendo que exista uma relação “lógica” entre separar-se e prostituir-se. estão cristalizados na memória social. (SD 05) Então. de determinada maneira. Se ser bom é seguir os preceitos aceitos socialmente. aviltarse. apesar de transgredirem o que se considera uma boa conduta e estarem à margem. como se vê. mas também o lar contra a rua. a defesa desses valores. pois a mulher casada possui o status de digna. bem dura. incompatíveis.. com o pouco que ele podia me ajudá.

Mas. nossa. e principalmente. pois exercem uma atividade tida como imoral. que não deseja a sua “felicidade”. justificando ocupar o inabitável. mas. que define o que pode e deve ser dito. esse cliente era. sancionam a si e aos outros por meio destes princípios. Voltando-se para o sujeito. elas se valem de estratégias variadas para justificar o que fazem e tentam burlar a moral que o seu discurso avaliza. Prostituir-se em benefício dos filhos é enfatizado e enaltecido como se fosse quase um “sacrifício”. é possível perceber que o discurso de Duda e das garotas entrevistadas se move num terreno conflituoso e contraditório. o seu “bem-estar” “nas costas de outra pessoa” seria uma agressão “injusta” e. o meu bem-estar nas costas de outra pessoa. ele era muito assíduo. o qual dota o matrimônio de um caráter transcendental e espiritual já que “o que Deus uniu.. se o preço for o “sofrimento” de outra pessoa. sendo ela uma pessoa “boa”. outra contradição) no casamento de alguém. Pesquisador: E você não quis? Ah não. enquanto seguidora da moral vigente. mas também. já que é isso que existe no imaginário sobre a figura materna. eu vou dá uma quantidade em dinheiro pra você e você fica em casa ou você monta um negócio pra você mesmo. A atitude de Duda mostra a sacralização do matrimônio como uma prática não só perpetuada. inclusive. aí quando chegou o momento em que ele falou assim: Olha Duda. contraditoriamente. sob pena de sofrer consequências religiosas e as mazelas sociais que se impõem sobre aqueles que o fazem.. Duda não quer ser vista como uma “destruidora de lares”. Elas reconhecem e assumem que estão dentro de um terreno não adequado e. principalmente pelo fato de essa relação não estar atrelada apenas a preceitos jurídicos e sociais. a ditames religiosos. porque eu penso assim. O dinheiro é importante nas nossas vidas? é. que não pode/deve ser quebrada. né? Daí eu falei: mas eu não quero a minha felicidade na tristeza de outra pessoa. queria até casá comigo. mas às vezes querê dinheiro. o que visa (consciente e inconscientemente) à demonstração de quão “boas” mães elas são. ele gastava horrores na noite comigo. A prática discursiva das garotas mostra ______ [ 167 ] . não admitiria “interferir” (embora interfira ao oferecer sexo pago a homens e a mulheres comprometidos. mas como uma mulher sensata e bondosa. Sobre elas se abate o peso da interpelação ideológica. eu quero que tu saia da noite. homem algum separa”. ela não poderia separar o que Deus uniu. vendo outra pessoa sofrê. para Duda. Dessa forma. mas também “intocada”. Tal pensamento é fomentado (também) pelo discurso religioso. Ai eu sei que ele era casado e tudo.(SD 06) Ah. aí a gente vai morá junto. eu acho que também já não é justo (Duda – grifos meus). igual que eu dizia pra ele. aquela que deve sacrificar-se pelos filhos.

no sentido de que Duda é honrada. em termos do esquecimento número 2. é uma vida “imoral” tentando se mostrar adaptada ao que seria confirmado pela moral sancionada. no fim. A SD 06 é organizada. Mas a questão que acaba sobressaindo é: ela recusa o pedido por não querer “destruir” um casamento firmado diante de Deus ou a recusa está associada ao desinteresse de deixar a “vida fácil”. da ordem da enunciação. alguma maneira de pôr em suspensão momentânea os ditames sociais que se abatem sobre elas e sobre a atividade que exercem. devendo justificar-se por isso. Ana Paula e Carol vendem sexo há mais de 10 anos. sem obter êxito na empreitada. em alguma medida. No fundo. digna e uma “boa mulher”. Casar-se com o cliente exigiria que Duda deixasse a prostituição. que. sendo o “sonho” de abandonar a prostituição contado e recontado para amenizar o passar dos anos e a crítica que vem de um lugar que as tenha sob vigilância. outra é o que se faz e de que forma se tenta justificá-lo para não ferir a moral vigente (embora ela seja ferida no seu núcleo). mas elas não deixam e não tomam qualquer atitude para que isso ocorra. elas vivem no fio do conflito e da teia que as enreda. se elas próprias afirmam que o que fazem é inadequado e o fazem sem a restrição de ocasionar prejuízo ou não a alguém? Percebe-se o contorcionismo que acontece num terreno complexo e que. o que implica em deduzir que. mesmo que de forma frágil e ineficaz. busca justificar o injustificável. No entanto.que. este mesmo esquecimento esconde o de número 1. Entretanto. a opção se faz pela primeira via e o que efetivamente move as garotas de programa é a busca pelo retorno financeiro. mesmo que não lhes faltem fregueses. se outra pessoa não for prejudicada. a SD 06 parece mostrar que. ______ [ 168 ] . num contraponto perene entre a vida material (a sobrevivência) e a vida ideológica: uma coisa é o que se diz. acaba fazendo com que a própria Duda se julgue disforme. Todas afirmam que não querem permanecer no meretrício. sendo este o fator decisivo tanto para a entrada quanto para a permanência na vida de meretriz. O que sobra. apesar de elas estarem ali por dinheiro. por fim. a prostituição pode ser a manifestação do desejo e do prazer. entre levar a vida à margem daquilo que é sancionado de forma positiva pela sociedade e sobreviver pelos meios “legais” postos à sua disposição para fazê-lo. ele não seria digno se viesse “nas costas de outra pessoa”. usando como estratégia a máscara de boa moça? Ou ainda. tanto que Duda. não reveladas ou que não podem irromper na ordem da moral. buscando. no nível do inconsciente. o dinheiro ganho se torna aceitável. neste caso. O que se percebe é que a afirmação de que esta será uma prática breve e passageira acaba sendo outra (das muitas) justificativa apresentada por elas para amenizar a imagem negativa que pesa sobre a atividade. Como isso é possível.

numa canoa que jamais “pojava em nenhuma das duas beiras.. Pesquisador: Mas dai você pensa em fazê o quê? Trabalhá (Carol).Viver na zona é muito mais que viver da prostituição. 1978. que não combina com a ordem moral. eles “desmoronam” discursivamente. as justificativas das entrevistadas se encontram na ordem da moral. Ideologia e inconsciente têm como caráter comum dissimular a própria existência no interior mesmo de seu funcionamento. por isso não há contradição em ser mãe e ser prostituta. para quem observa da margem. Se Deus quisé. as formações discursivas que se cruzam e se confrontam no discurso produzem. nas suas Primeiras estórias (1962). a contradição. “produzindo um tecido de evidências subjetivas” (PÊCHEUX. assim. Caberia ainda (re)pensar a contradição considerando o inconsciente. mas o perdurar e o passar dos anos instauram na não saída um possível desejo de estar ali: (SD 07) Pesquisador: Vocês pensam. pois a entrada e a permanência na prostituição pode se dar pela ordem do desejo e do prazer e não apenas para suprir as necessidades dos filhos. alienando-se da rotina para viver da “invenção de [. a ideia de completude. mas. nem nas ilhas e croas do rio”. até porque se os sujeitos não se sentirem plenos e completos (interpelação). mas se questiona também a ordem do inconsciente. p.. Pêcheux (1997). afirma que “só há causa daquilo que falha”. não mais tocando “em chão nem capim” (ROSA. 28-30). A prostituição é o lugar que permite romper com o espaço de circulação de uma ordem do desejo. o não-lugar ou “a terceira margem do rio”.. do consciente. que. viver na zona é experienciar o entremeio. p. 1997.] permanecer naqueles espaços do rio de meio a meio”. metade desse ano. Ser garota de programa é experienciar os dois lados do rio e também o não-lugar do entremeio. para as garotas de programa. 153). Pesquisador: É? Procurá outra coisa? Já tamo procurando já (Ana Paula e Carol – grifos meus). que constitui. Antes ainda (Carol). para quem habita a terceira margem. Mesmo se achando nesse entremeio. como quer Guimarães Rosa. ______ [ 169 ] . é que um incessante navegar por águas (des)(re)conhecidas. (re)cria esse espaço intermediário situando seu personagem em um contínuo suspenso. por exemplo. algum dia parar? Sim (Ana Paula). como é posto pelas entrevistadas. Parafraseia-se nos depoimentos colhidos a iminente saída como busca pela redenção. isso posto pela ordem do consciente. Tanto na SD 01 como na SD 02.. a partir dos estudos de Freud via Lacan.

pela ciência também (CHAUÍ. normas. eu sou menina de família com pobremas financeiros: SPC. considerado a operação que permite uma representação recalcada ascender ao consciente. né? Não tem nem como. Entretanto. Pensando no inconsciente. (SD 09) Somos. leis e valores são definidos explicitamente pela religião. como assevera Chauí (1984) e. em nenhum momento. os filhos. ao definir a denegação discursiva. de uma forma ou outra. mas não garotas de programa: (SD 08) Eu sempre digo assim. são filhas. por isso. Serasa (Carol – grifos meus).Trata-se do prazer justificado por inúmeras razões. inibir e reprimir desejos sexuais do sujeito a tal ponto que sentir prazer. mas não é. Essas regras. regras. os motivos são sempre justificados e a “culpa” recai sobre o outro. afirma ser garota de programa ou prostituta. muitas vezes. rápido e preciso de ganhar dinheiro. são ex-esposas. somos garotas de família com problemas financeiros. a influência de amigas e o fatídico destino colocaram-nas no lugar que estão agora. oh: Eu não sou puta. afirmar que se vende sexo porque gosta dificilmente seria dito de maneira tranquila. 1984. nota-se no corpus que nenhuma delas. no caso de nossa sociedade. Elas não dizem e nem poderiam dizer/assumir que se prostituem porque querem. elas estão sempre se colocando em outro lugar: são mães. são desempregadas ou são futuras-estudantes. o inconsciente pode estar afetando as escolhas. sem que existisse uma condenação moral: De modo geral. curto. 77 – grifos meus). afirma que o sujeito apresenta-se dividido entre o ______ [ 170 ] . Como assim. Freud apresenta o conceito de denegação. mas a moral está o tempo todo cerceando.. Na psicanálise. somos garotas de programa.. O desejo tenta o tempo todo escapar. em nenhum momento da entrevista é dito ou afirmado que o motivo de estarem ali é para satisfazer desejos. o desemprego. mas. já que o abandono do marido. desde que ela ocorra por meio da negação. pela moral. né? (Duda – grifos meus). pelo direito e. Sabe-se que há várias formas de repressão sexual instauradas no meio social. que é um método. Os valores morais agem de maneira a suprimir. como é que tu vai trabalhá pra ganha um salário por mês. p. entende-se por repressão sexual o sistema de normas. Indursky (1990). leis e valores explícitos que uma sociedade estabelece no tocante a permissões e proibições nas práticas sexuais genitais (mesmo porque um dos aspectos profundos da repressão está justamente em não admitir a sexualidade infantil e não genital). pra muitos ali fora. relacionase à culpa. Procon.

em contrapartida. Esses efeitos irrompem. o que não pode ser dito vem à tona por meio da (de) negação. não precisariam viver na “noite”. As entrevistadas negam que são garotas de programa. Sob a ilusão de dominarem o discurso. porque a linguagem não é só lugar de poder.desejo de dizer e a necessidade de recalcar. ou mesmo “puta” como aparece na SD 08. ALGUMAS PALAVRAS (FINAIS) A entrevista mostra um discurso contraditório. Entretanto. pois não há contradição quando se trata da manifestação do inconsciente. instaura. dividido e. se as desculpasse do “fardo” que carregam. Nesse sentido. crentes que a língua é objetiva e que os ditos não dizem mais do que é pronunciado. por vezes. valores defendidos pelos preceitos morais. mas lugar do possível. não precisariam esconder dos filhos. sem necessariamente dizer-se. na ordem do inconsciente. ele se diz. por meio da denegação. Mas sendo o discurso opaco e heterogêneo. truncado. talvez. O inconsciente do significante não se apaga jamais. defender a prostituição ou desejar permanecer na vida “fácil” não é o que elas mostram desejar (ainda que o discurso falhe e mostre o contrário). por isso mesmo. amigos e familiares o que fazem. 1997. Lidar com a sexualidade não é fácil e mais difícil ainda é lidar com o discurso sobre o sexo marginal: “as regiões onde a grade é mais cerrada. é o lugar de luta do sujeito (LAGAZZI. ela se reafirme na história. são as ______ [ 171 ] . para que sejam vistas em posições louváveis (como a materna) ou mesmo respeitáveis (como a esposa). a prostituição permite a circulação das garotas na ordem do desejo e. a (re) afirmação desse recalque. 1998). Elas se colocam em outro lugar. p. 300 – grifos meus). sendo inscritos na simultaneidade de um batimento em que inconsciente não para de voltar no sujeito. Ser prostituta. em que os sujeitos são tomados pelo prazer e pelo desejo que não se apagam: O fato é que o non-sens do inconsciente nunca é inteiramente recoberto nem obstruído pela evidência do sujeito-centro-sentido que é seu produto. a contradição é pensada de outra forma. pois. difícil de ser compreendido. as entrevistadas buscam razões (algumas até comoventes) para justificar porque estão na vida “fácil” e não em outro lugar. Negar que são prostitutas. percebe-se que as desculpas apresentadas não as redime. Porém. ele se manifesta pelas várias formas da falha (PÊCHEUX. onde os buracos negros se multiplicam.

regiões da sexualidade e as da política” (FOUCAULT. a venda do corpo não é encarada por elas como uma prática louvável. Reverbera a repetição do discurso moralmente aceito. A ideologia. Assim. O contrário não poderia ser dito. Além disso. 2008. buscava-se levantar diferentes histórias sobre a prostituição. idealizados e defendidos: mãe. embora poderia até ser uma vontade do inconsciente) seria arcar com as consequências desse enunciado. As garotas de programa não só evidenciam um discurso contraditório. e elas mostram estar pensando em alternativas consideradas moralmente “corretas” para deixar a vida que levam. ora fazem parte da dinâmica social. que ocupam lugares opostos na sociedade e. filha “digna”. pois a prostituta. O que as garotas do Porto das Sereias vivem é tão contraditório que mesmo elas se confundem: (SD 10) Eu acho que eu não to fazendo nada errado. como também se mostram mulheres divididas. precisam justificar-se. o interdiscurso. condenando as suas próprias práticas e repetindo o que é dito sobre elas e sobre a prostituição. é “errada”. esposa. As entrevistadas reproduzem a moral vigente. como se viu no início do trabalho. elas desejam (re)(in)gressar em uma vida que consideram ideal. “estudante”. ainda que não plenamente. profissional em uma função aceitável socialmente. para lidar com a contradição em que vivem. mas tipo não é certo. Ora estão à margem. elas passariam a ocupar outros lugares. No começo da pesquisa. As mesmas justificativas para a entrada na vida “fácil”. são saídas que as levarão para a redenção de seus pecados. Como mostrado. com o intuito de descortinar um pouquinho sobre um assunto que não circula livremente em qualquer rodinha de diálogo. mas também não to fazendo nada errado (Mônica – grifos nossos). vê-se a memória sobre a prostituição dita em outro lugar se perpetuando. o mais do mesmo ecoou nos discursos coletados. to vendendo meu corpo. Dizer que pretendem continuar na prostituição (mesmo que essa talvez seja a vontade delas. o que pareceu ser no início relatos distintos. p. a prostituição é defendida pelas entrevistadas como uma forma passageira de ganhar a vida. 9). a memória discursiva e as condições de produção são tão imperativas que os sujeitos se dizem a partir do que é dito sobre eles. desculparse e isentar-se da “culpa” que sentem por serem mães e venderem o corpo para sustentarem os filhos. reafirmando o discurso cristalizado sobre a prática. mostrou-se repetitivo. por serem ex-esposas que passaram do “sexo civil” para a venda de sexo. até é aceitável ______ [ 172 ] . o mesmo encobrimento (consciente e inconsciente) de afirmarem quem elas são e as mesmas alternativas para deixar a venda de sexo permeiam as SDs. no fio do discurso. Uma vez fora da prostituição.

Michel. encontram-se nos nós formados por esses fios e se enredam no discurso milenar dito e repetido. o recalque do inconsciente). trad. elas se colocam no lugar de quem deve buscar razões que justifiquem a entrada. Rio de Janeiro: Rocco. por vezes. São Paulo: Brasiliense. DAMATTA. 7. Carol. CHAROLLES. cidadania.ed. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. mas que não podem e não dever se afirmado. Marilena. CHAUÍ. tem-se claro que esta discussão é apenas um recorte. a permanência e que adiem a saída de onde estão.pela sociedade que precisa dela para o equilíbrio social. Hans Christian. Organização e Revisão Técnica da tradução: Charlotte Galves. Campinas – SP: Pontes. que suscita tantos sentidos. ed. que acha “certo”. FOUCAULT. Paulo Otoni. mulher e morte no Brasil. que sente prazer e que deseja vender sexo para o resto da vida é fazer repercutir efeitos contrários ao que espera a moral estabelecida. leitura e escrita. O que se deixa são algumas considerações sobre esse discurso de entremeio. Michel. Eni Orlandi. Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida. mas desde que elas continuem à margem. 2002. Escolher (embora afirmem serem obrigadas) permanecer no meretrício (embora digam ser uma condição temporária) e afirmar que não sentem prazer (embora não seja algo que se possa controlar) talvez sejam formas de esconder o que realmente querem dizer. Ana Paula e Duda tecem teias contraditórias sobre a prática. quase imagináveis. um olhar sobre as SDs que tanto dizem e que a partir delas tantos outros sentidos ecoam. 1997. Contos de Andersen. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSEN. Guttorm Hanssen. 1984. A Ordem do discurso: aula inaugural no Collège ______ [ 173 ] . Para finalizar. 5. In: Texto. Elas não podem admitir que gostam do que fazem e que querem fazer o que fazem (talvez. Mônica. A casa e a rua: espaço. Introdução aos problemas da coerência dos textos: abordagem teórica e estudo das práticas pedagógicas. 1997. Na posição de entrevistadas. Roberto. Assumir que gosta do que faz. então. 5.

O desafio de dizer não. Eni Puccinelli. maternidade e mentalidades no Brasil Colônia. trad. 14. pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Ética. João Dell’Anna. Adonfo Sanchez. 2. 1987. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2004. 2010. Campinas: Editora da UNICAMP. ROBERTS. jul/dez. Campinas: Pontes.de France. Primeiras estórias. RICHARDS.da UFSC. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Rio de Janeiro: José Olympio. LAGAZZI. ORLANDI.. 2008. INDURSKY. Polêmica e denegação: dois funcionamentos discursivos da negação. desvio e danação: as minorias na Idade Média. Reimpressão. trad. 1990. 1993. M. 1993. Nickie. Laura Fraga de Almeida Sampaio. ed. Porto Alegre: L & PM. ______ [ 174 ] . trad. São Paulo – SP. As prostitutas na História. A terceira margem do rio. Eni Puccinelli Orlandi. PRIORE. 4. In: Cadernos de Estudos Linguísticos. edição. O ciclo das águas. Ao sul do corpo: condição feminina. João Guimarães. PÊCHEUX. 19. A Linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. Freda. Campinas: Editora da Unicamp. Ivonete. Campinas: Pontes. Jeffrey. 117-122. Trad. 1998. Sexo. 3. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos. ROSA. p. Marco Antonio Esteves da Rocha e Renato Aguiar. As decaídas: prostituição em Florianópolis (1900-1940). 1978. Magna Lopes. Mary Del. PEREIRA. SCLIAR.. ed. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro. VAZQUEZ. Edições Loyola. In: ______. trad. 1995. Michel. 1988. Rio de Janeiro: José Olympio. 1997. Florianópolis: Ed. Suzy.

em que cada metade experiencia um lugar diferenciado. A coleta do material foi realizada em uma boate de Cascavel-PR. tão contraditório que o próprio discurso acaba sendo entrecortado. efetivamente. mas cada lugar não pode ser ocupado em sua plenitude. como comentado anteriormente. Assim é a prostituta. a sereia é. e quatro garotas de programa concordaram em participar das entrevistas. metade peixe. base nacional unificada de registro de pesquisas. 4) Vale ressaltar que as próprias entrevistadas sugeriram um nome para serem nomeadas durante a entrevista e a composição da pesquisa. cabe dizer que as entrevistas foram transcritas sem correções gramaticais ou inserção livre de complementos. visto que o CEP prima pelo anonimato das fontes e.NOTAS 1) O corpus desta pesquisa é composto por entrevistas realizadas com garotas de programa. é o desmanchar da contradição em alguns momentos do discurso e em outros a contradição se reinstaurar. local selecionado por meio de uma amostragem não probabilística por acessibilidade. cedendo suas histórias para a realização da pesquisa. de relatos de mulheres de nosso cotidiano que vivem da venda de sexo. trabalho inscrito também na Plataforma Brasil. Quer dizer. apesar de entender que as histórias relatadas se constituem por um imaginário ideológico e social. em sua completude. neste caso. consentidas e aprovadas pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. não podendo ser caracterizadas como “histórias reais”. Além disso. 5) O que realmente causa estranheza. 2) Porto das Sereias foi o nome criado para nomear a boate em que as garotas de programa foram entrevistadas. ______ [ 175 ] . em agosto de 2012. é de fato um lugar contraditório ocupado por elas. Formada por uma imagem híbrida. 3) Utiliza-se a palavra “reais” para caracterizar que se trata. dividida entre mulher idealizada e garota de programa (re)negada. do local da pesquisa. a soma da incompletude das partes de que é feita: metade mulher. ou no mínimo curiosidade. Relaciona-se porto com o lugar de passagem de homens e mulheres que buscam sexo e local igualmente de passagem para as sereias que desembarcam para vender sexo.

Essa é a pergunta presente que o Brasil se faz. tece-se aqui uma trama onde se constata que o presente e o passado estão presentes no futuro. da escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho. o passado deixando de condenar o futuro a uma eterna repetição. do livro Vai Brasil. assim como o futuro está contido no passado – e se pergunta se esses tempos conseguirão em alguma medida liberar-se uns dos outros.CAPÍTULO 9 BRASIL E BRASILEIROS EM PORTUGAL: CONSTITUIÇÃO DE SUJEITOS E SENTIDOS Alexandre Sebastião Ferrari Soares Isabel Maria Ferin da Cunha Como na célebre abertura de Burnt Norton. o futuro escolhendo de qual dos seus passados servir-se para reinventar-se. itálicos do autor. grifos meus) . (fragmentos do prefácio escrito por Francisco Bosco.

é importante destacar o que Pêcheux (2001. separadamente. Consequentemente. Nos artigos do jornal. do linguístico ou do cultural. sobretudo. e. do dia 10 de janeiro. Presidente brasileira já tem boneca personalizada – artista cria Barbie Dilma. Sócrates e Dilma discutem crise da dívida soberana e Privilégios de Lula abrem polêmica. cinco artigos publicados pelo jornal Expresso. do dia 29. “Galp conta com Petrobras no carnaval”. Além disso. Falar do Brasil é também falar de Portugal. todos do dia 08 e “Quanto vale a língua portuguesa?”. O que significa dizer que o locutor. 87) afirma sobre o lugar que os interlocutores ocupa na estrutura de uma formação social ser evidenciado a partir das supostas Formações Imaginárias colocadas em jogo no discurso. tem a habilidade de prever onde o seu interlocutor o espera. a Análise de Discurso de orientação francesa. a partir do lugar que ocupa. Também fazem parte desse corpus de análise. Neste artigo. nem presente e nem futuro. porque. na nota. não se pode se limitar exclusivamente a um recorte no tempo: nem passado. Esses três momentos do discurso se confundem e se completam. encontra-se também em evidência a compreensão das condições de produção desse processo discursivo. “Venho consolidar a obra de Lula. do dia 09 de janeiro de 2011”. de certa forma. a partir da posse da presidenta eleita Dilma Rousseff e da saída do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. “Reviver o passado no presídio Tiradentes”. hoje. Afastam-se e se aproximam numa luta por um espaço que vai muito além do geográfico. “Sócrates e Dilma juntos”. Sobre a teoria que me dá suporte para as análises.Para falar do Brasil em Portugal. o Brasil é retratado. Dilma choca religiosos. FI) sobre o Brasil/brasileiro em quatro artigos e uma nota publicados pelo jornal português Correio da Manhã. analiso as Formações Imaginárias (doravante. do dia 02 de janeiro. encontramo-nos em algum ponto desse Atlântico que nos une e nos separa. a antecipação do ______ [ 177 ] . p. durante os primeiros dias do mês de janeiro de 2011. todos de janeiro de 2011: “Brasileiros trazem bom ano a Lisboa”. finalmente. do dia 07 de janeiro. a saber.

sobre a qual se funda a estratégia do discurso. CM) é o jornal mais vendido em Portugal. o ponto de vista dos interlocutores sobre o imaginário.Quem é ele para que eu lhe fale assim? IB(B): Imagem do lugar de B para o sujeito colocado em B . o que é dito precede as eventuais respostas de B. o Jornal de Notícias e o Público) no ano de 2011. Esse artigo faz parte das primeiras conclusões a que chego como resultado das minhas pesquisas realizadas durante o meu estágio de pósdoutorado1. Segundo dados do mesmo instituto. p.que o outro vai pensar é constitutiva de qualquer discurso. de grande circulação em Portugal (o Correio da Manhã. 2001. foram vendidas uma média de 112. Este jornal. ou seja.606 exemplares por dia. se deu por conta do número de exemplares vendidos. ela diz respeito também à imagem que eles atribuem ao referente. sempre atravessadas pelo já dito. grifos meus) Existiriam regras de projeção responsáveis por estabelecer as relações entre as situações discursivas e as posições dos interlocutores. portanto. todo processo discursivo supõe a existência das seguintes FIs: IA(A): Imagem do lugar de A para o sujeito colocado em A . As relações imaginárias podem ser consideradas como um modo pelo qual a posição dos participantes do discurso intervém nas condições de produção do discurso. Segundo dados da Associação Portuguesa para o Controle de Tiragem e Circulação (APCT). Essas antecipações são. entretanto. A escolha do jornal Correio da Manhã. fotografias e cartas de leitores publicados nos jornais impressos. revela o relatório da APCT. por parte dos interlocutores. o Diário de Notícias.Quem sou eu para lhe falar assim? IA(B): Imagem do lugar de B para o sujeito colocado em A . Entre janeiro e dezembro de 2013. charges. entretanto. o Expresso.Quem é ele para que me fale assim? (PÊCHEUX. que constituem a substância das FIs. que no processo discursivo há. em detrimento de outros jornais. é o mais lido em Portugal. não diz respeito apenas à imagem que os interlocutores atribuem a si (e ao outro). de longe. A FI. como corpus desse artigo. uma antecipação das representações de um e de outro. em segundo lugar. encontra-se o semanário (sic) ______ [ 178 ] . que vão sancionar ou não as decisões antecipadas de A. Segundo Pêcheux (2001). Os recortes da pesquisa foram/são organizados a partir de textos.Quem sou eu para que ele me fale assim? IB(A): Imagem do lugar de A para o sujeito colocado em B . Podemos concluir. em quantidade de tiragem. Como se trata de antecipações. O Correio da Manhã (doravante. 83.

Nós. portanto. portanto. em Portugal. não é um ser humano individualizado. As notícias veiculadas pelo jornal estão. circulando. os lugares ocupados pelos sujeitos são. compreender a forma como circulam. os princípios que regem este ponto de vista são: a) Não tratamos de indivíduos compreendidos como seres que têm uma existência particular no mundo. os sentidos sobre os brasileiros e sobre o Brasil é compreender de que maneira Portugal redesenha o Brasil no cenário internacional. ocupam uma posição de destaque entre os portugueses e os dados da APCT contribuem como um reforço para a percepção disso. b) Sujeito e sentido se constituem ao mesmo tempo. Além disso. Quero dizer que o sujeito. analistas do discurso. os sentidos não são os mesmos para todos. Para um analista de discurso o histórico e o simbólico não se separam. 2010). portanto. ______ [ 179 ] . c) Para que as palavras façam sentido é necessário que elas já façam sentido (ORLANDI. sendo difundidas e. eles nos aparecem como evidentes. A memória discursiva é constituída pelo esquecimento. a partir do que se materializa no seu discurso. certamente. Esse é um complexo processo da memória. mas que deve ser considerado como um ser social.544 exemplares vendidos. Há dizeres já ditos e esquecidos que estão em nós e que fazem com que ao ouvirmos uma palavra.Expresso. pois difunde uma pretensa ilusão de veracidade e objetividade sobre o que é significado. A mídia tem papel fundamental na construção de sentido sobre o Brasil/brasileiro. d) Vivemos em uma sociedade estruturada pela divisão e por relações de poder. Esquecemos quando os sentidos se constituíram em nós. nessa perspectiva. definidos a partir do que ele diz. construindo e cristalizando imaginários sobre variados assuntos. pois cada tempo tem a sua maneira de nomear e interpretar o mundo. como um sempre já-lá. O CM e o Expresso. É preciso ainda esclarecer que sendo o meu ponto de vista teórico o da análise de discurso de orientação francesa. estejam inscritas na história. com uma média de 77. O sujeito se significar ao dar sentido. tratamos do político que se inscreve na língua. 1996). Ele deve ser compreendido a partir de um espaço coletivo. ainda que pareçam ser. ela apareça como fazendo um determinado sentido. (ORLANDI. dessa forma. uma proposição.

eles se valem de desenhos (mapas. ao qual se refere Coracini (2007). assim. já que. o que lhe confere um poder de constituição desse sentimento de identidade. presentes em sala de aula. Beacco & Moirand (1995) atribuem um certo didatismo aos discursos das mídias (sem mencionar diretamente o discurso jornalístico). dessa forma. quando os textos jornalísticos ganham mais espaços em sala de aula (em todos os níveis de escolarização). p. de neutralidade e de imparcialidade. sobretudo. além de definições. estatísticas. o sentido de identidade subjetiva. questionamentos e citações de autoridades (MARIANI. Sobre o aspecto pedagógico dos textos midiáticos. esquemas. e. efeito de literalidade. conferindo-nos a ilusão da unidade e da totalidade do discurso. O discurso jornalístico constrói-se. 1998. Sobre esses mitos. um acontecimento singular através de generalizações feitas a partir de um campo de saberes já estabelecido. explicam o mundo como se estivessem fora dele. é possível afirmar que as representações que o outro faz de nós e as representações que fazemos do estrangeiro atravessam. segundo as quais o outro nos constitui assim como também constitui o nosso discurso. para veicular informações. Diante disso. pois baseiase em uma concepção de linguagem que considera a língua como ______ [ 180 ] .). Mariani (2005) afirma que Trata-se de uma prática discursiva que atua na construção e reprodução de sentidos. (CORACINI. 61). com base em um pretenso domínio da referencialidade. Os jornais falam sobre. portanto. serão analisadas sequências discursivas2 de textos jornalísticos. de veracidade. enfocando. para compreender de que forma o Brasil e o brasileiro são apresentados. A escolha da imprensa escrita e impressa (e em versões eletrônicas) se deve à expansão de sua circulação. prática essa realizada a partir de um efeito ilusório da função do jornal como responsável apenas por uma transmissão objetiva de informações. são construídos em suas páginas. dessa forma.Parto do pressuposto produzido pelas teorias do discurso. como se a função do jornal fosse relatar os fatos como se apresentam. pelas teorias da comunicação e da psicanálise lacaniana. figuras etc. responsável pelo sentimento de identidade que nos dá a medida da nossa singularidade. reforçam-se os mitos em torno do discurso jornalístico. auxiliam na educação e na divulgação dos sentidos que são construídos através da veiculação de textos. Com base nesse quadro e reconhecendo a força que a mídia tem para a construção (circulação) do imaginário. explicações. são denominados. nos dias de hoje. de modo constitutivo. 2007). de objetividade. e ainda porque.

______ [ 181 ] . assim. Segundo o autor. p. divididos politicamente. 2002).instrumento de comunicação de informações. como jornais e revistas para atividades pedagógicas. (MARIANI. 8. Na constituição da memória social. pelo próprio Estado brasileiro (em discursos nacionais e internacionais de legitimação de uma suposta “brasilidade” e de posicionamento turístico deste país no mundo) – compõem o fundamento principal do universo de referências atribuídas ao Brasil em Portugal: A alegria e o gosto pelo sexo são as características que representam os brasileiros. Lisboa (2010). porém. seja como oposição. por definição não-transparentes. Nesse sentido. Isso não significa. observou que a ênfase na sensualidade.. essas estereotipias identitárias – reproduzidas. é impossível não admirar as brasileiras. inclusive. em Lisboa. isto é. o processo histórico-discursivo resultante de uma disputa de interpretações dos acontecimentos presentes e passados (e futuros) leva à predominância de uma interpretação. da qual a mídia é parte fundamental. sentidos. grifos meus). grifos meus). na alegria e na cordialidade aparece como sendo típicas da Identidade brasileira em Portugal (uso identidade em maiúscula apenas para chamar atenção do que cola nessa formação imaginária sobre o brasileiro. com suas ‘curvas’. imparcialidade e veracidade.) qualquer homem perturbado (. Ao introduzir o meio de comunicação. Estão sempre a fazer festa. deve-se buscar compreender como objetos simbólicos. produzem sentidos e como acontecem os gestos de interpretação realizados pelos sujeitos (ORLANDI. que passam a ser comuns e hegemônicos. A linguagem. p. “informações” que mascaram a sua ligação estreita com a prática política ou obscurecem esta ligação. seja como resíduo no interior do discurso predominante. então. a partir de pesquisa empírica com portugueses sobre o imaginário deles em relação ao Brasil e aos brasileiros. a dançar aquelas músicas que mexem todo o corpo. portanto. que os sentidos “esquecidos” deixem de atuar. são as mais quentes do mundo! Deixam qualquer homem português (.. Estas interpretações aparecem como conteúdos que seriam colocados em circulação em sentidos já estabilizados. 2005. 60.) Cá.. não se pode esquecer as próprias condições de produção das notícias e os efeitos de sentido decorrentes dessas condições. E as brasileiras. Decorrem daí vários efeitos constitutivos dos sentidos veiculados como informações jornalísticas: objetividade. passa a ser concebida apenas como um instrumento de comunicação3 de significações que são definidas independentemente do funcionamento da linguagem. a baloiçar os seus belos corpos (LISBOA.. em terras lusitanas). 2010. neutralidade. Naturalizam-se.

mais racionais. nesse imaginário.. ______ [ 182 ] .. como uma marca natural de erotização da brasileira em Portugal. formada pela docilidade. grifos meus) Mas não é apenas a sensualidade e suas variações que habitam o imaginário Português sobre o brasileiro e o Brasil. a tradição de vingança. alegria e ‘inocência’. a alegria colam ao brasileiro de uma forma generalizada. também a respeito do imaginário sobre o Brasil. Em qualquer coisa. grifos meus)4. a falar alto. a tradição de matar. por assim dizer (. mas perigoso. Vocês lá matam as pessoas como matam animais. todos. o éden. Desculpe lá. nus. nuançados.) Os portugueses são mais fechados. independe do gênero.O Brasil é um país alegre. não! Não dá para confiar. as danças. aproveitam para se vingar com crimes. Lisboa (2010) nos mostra que a sensualidade e a erotização estão relacionadas diretamente à mulher. mas parece que vocês têm. Os brasileiros estão sempre a rir. Se calhar.. 2010. Por isso que evito muito contato com esses brasileiros daqui de Lisboa. 2002. inúmeras vezes: a nudez. e os brasileiros. mais europeus. a dançar.) Não vês os brasileiros que estão cá a trabalhar. Não. a violência ocupa um lugar de destaque nessa naturalização de sentidos próprios do Brasil e de sua gente: O Brasil é bonito. p. No entanto. e ainda a receptividade. pois. 62. assim. a Carta de Caminha6 já fundava este sentido: Desde a primeira referência aos homens vistos em terra. para além da precisa e minuciosa descrição física que já levou alguns analistas a verem em Caminha o ‘nosso primeiro etnógrafo’. sexualidade são. Na pesquisa realizada por Lisboa (2008). as mulheres brasileiras são as mais quentes e deixam “qualquer homem português ou qualquer homem perturbado”: elas figuram. até no futebol. daqueles que encontrou. Nessas denominações. 2010. mais festivos. Todos os dias há notícias de que morreram não sei quantos. a dançar. segundo a pesquisa realizada por Lisboa (2010). referida como geral – “pardos. importam aqui dois traços plasmados do gentio que retornam. 1. Alegria. sem nenhuma coisa que lhes cobrisse as vergonhas” -. p. (. a falar alto. como costumam chamar a atenção! (LISBOA. Cunha (2002). naturalizam a relação entre ser brasileiro e ser um povo feliz: Os brasileiros estão sempre a rir. (LISBOA. (CUNHA. afinal o Brasil ainda é. denominações5 que acompanham de forma constitutiva o imaginário português em relação ao Brasil e aos brasileiros. sensualidade. grifos meus). como se isso fosse a nossa marca registrada. somos mais sérios. mas apreciada repetidamente nas mulheres. embora sejam um povo hospitaleiro. 60. mostra que em relação à erotização do corpo feminino. as festas. p. isto é.. no sangue. mais emotivos.

não é de admirar que ele aparecesse. (CORRÊIA. em um e outro caso [bíblico e tradição greco-latina]. (LISBOA. da quantidade de espécies – seja da fauna ou da flora – da exuberância e até da longevidade (relatos mencionam que os índios chegavam a 180 anos!) proporcionada pelo clima esplêndido do Brasil. florestas infindas e estranhos habitantes nus. como os ciganos. p. a tradição de matar” é reproduzida de forma a constituir o sujeito e o sentido. O Velho Mundo acreditava na existência de uma Idade de Ouro perdida. ______ [ 183 ] . uma remota esperança. assusta-nos. em vez de realidade morta. Mas a violência é demais.. naturalizando um imaginário sobre o brasileiro e sobre o Brasil. 2010. o homem aparecia demonizado. cheia de emboscadas e perigos: Desde os primórdios. da alegria. as reportagens e fotografias que difundem cenas de uma mistura de paraíso e “terra incógnita”.) esses tipos atacam a toda hora. naturalmente. 375. É histórico esse misto de paraíso e terra perigosa nos relatos dos europeus. p..Até gosto do Brasil. por outro. Holanda (1996. grifos meus). O Brasil sempre apareceu como essa mistura. Antes eram os relatos misturando o ficcional e a narrativa documental e os livros de viagem ilustrados com imagens (muitas vezes irreais) de animais bizarros. os bandidos (. (HOLANDA. pois os ladrões. 62. O novo território ressurgia como éden reencontrado: E como. p. a terra era vista quase sempre como um éden. Com o mesmo peso. É muito crime! Imagino que as pessoas não podem andar sossegadas na rua. são os panfletos turísticos. Os brasileiros são mesmo muito violentos. das telenovelas. intermináveis os exemplos de exaltação da abundância de vegetação. as imagens televisivas. grifos meus). onde praias paradisíacas e animais estranhos convivem em uma paisagem marcada pela abundância e pela fertilidade. completamente opostas: por um lado. o paraíso perdido fosse fabricado para responder a desejos e frustrações dos homens. 375) afirma que a percepção europeia sobre a América estava ligada à interpretação quase literal feita dos textos bíblicos na época dos descobrimentos. onde a selva (e a selvageria) se sobrepõe à realidade urbana. Aquilo lá já não tem limites. como um ideal eterno e. 2011. 1996. Gosto das praias. registrava-se o espanto diante dos ritos canibalescos do selvagem. crença que marcou o espírito europeu desde a Antiguidade. São. se bem que até há raças piores. 1. do Carnaval. a concepção europeia do novo continente teve duas facetas. p. Hoje. pois. os pretos e esses do Leste. grifos meus). A relação entre haver “todos os dias notícias” e o brasileiro parecer ter “no sangue a tradição da vingança.

(SOUZA SANTOS. comerciantes e religiosos vindos da Europa do Norte: do subdesenvolvimento à precariedade das condições de vida.A nossa história. a antropofagia repulsiva. Daí o escritor austríaco Stefan Zweig deslizar este sentido para o de país do futuro. como afirma Souza Santos (2003). da superstição à irracionalidade. (SOUZA SANTOS. Quanto à educação dos frades. da indolência à sensualidade. com suas imagens cristalizadas. O contraste entre Europa do Norte e Portugal está bem patente no relato do frade Claude de Bronseval. grifos meus) Segundo. 2003. do hábito dos nobres ou homens honrados de reservarem para albergar os estrangeiros as casas mais miseráveis a fim de não serem vistos como estalajadeiros. da falta de higiene à ignorância. sobre a forma como a América foi representada pelos europeus nos relatos da descoberta do novo continente ou nas narrativas de viagens: A maioria dos relatos da descoberta do novo continente e das narrativas de viagens reflete uma peculiar fusão de imagens idílicas. secretário do abade de Clairvaux. a natureza luxuriante e benevolente. do caráter rústico das pessoas. este sobre a África. ainda o autor. a imagem dos povos de suas colónias são muito semelhantes às que eram atribuídas a eles próprios. a partir da mesma altura. grifos meus) Pêcheux (2001) define que as FIs sempre resultam de processos discursivos anteriores (Europa do Norte sobre Portugal. bem “à maneira do país”. do alojamento e tratamento paupérrimos. sobre a viagem que fizeram a Portugal e Espanha entre 1531 e 1533. produzindo efeitos no pensamento contemporâneo. território adequado para investidores e para turismo exótico (e por que não erótico?). Ou. “são poucos os que nestes reinos hispânicos gostam de latim. ainda está atrelado à ideia da terra prometida. dizem. mas um lugar perigoso: todos esses aspectos da visão do Brasil na Europa descendem do imaginário construído pelos antigos viajantes e continua vivo. Queixam-se recorrentemente das péssimas estradas. 31. De um lado. utópicas e paradisíacas com as de práticas cruéis e canibalísticas dos nativos. portanto. 2003. ______ [ 184 ] . 30. Destino para aqueles que desejam mudar radicalmente de clima. por viajantes. p. Eles não gostam senão da sua língua vulgar”. a forma de representação desse continente. da violência à afabilidade. era um reflexo da forma como Portugal também havia sido discursivizado pelos europeus do norte: As características com que os portugueses foram construindo. p. O papel do Brasil para os europeus. se faz em torno desse imaginário. produzida pelos portugueses. do outro. a partir do século XV.

e este sobre outros países periféricos do mundo etc. como um reflexo no espelho). mas o constitui. são. Desse modo. Denominar não é escolher aleatoriamente designações. às imagens resultantes de suas projeções. como disse acima. já fazemos escolhas a partir de um lugar específico que ocupamos na ordem do discurso. pelo social e pela ideologia. não dizem respeito a sujeitos físicos ou lugares empíricos. está presente no interior do discurso e . Os efeitos dessas escolhas. estão colados apenas em nós.. dizemos A no lugar de B. ao mesmo tempo. efeitos ideológicos. Tanto a crença do sujeito de que possui o domínio de seu discurso. em cada um de nós. por outro lado. na pesquisa realizada por ele. assim. mas as imagens (mulher/homem/Estado) que resultam de projeções sustentadas pela história. o que está presente. são mecanismos que fazem com que os discursos funcionem nesse jogo de imagens. enquanto mecanismos de funcionamento discursivo.a Ásia. permitindo. pois. Ela não é exterior ao discurso. a ideologia é entendida como efeito da relação entre o sujeito e a linguagem. Para falar do Brasil e do brasileiro. é discurso ______ [ 185 ] . Assim. que os discursos sobre o Brasil e o brasileiro funcionam. essas questões que não são respondidas em virtude do objetivo da pesquisa de Lisboa (2010) comparecem nas FIs sobre o brasileiro. A ideologia. a sensação de estar no controle. assim. atravessados por esses processos discursivos que constroem os referentes Brasil e brasileiros. não sendo consciente e se colocando presente em toda a manifestação do sujeito. e o Brasil. A e/ou B precisam ter história pra produzir sentido. segundo ORLANDI (2000). Algumas perguntas foram elaboradas a partir do trabalho sobre o Brasil e o brasileiro realizado por Lisboa (2010): Quais violências seriam essas noticiadas todos os dias? Noticiadas por quem? Praticadas em que situação? Quem são os brasileiros violentos que trazem no sangue a tradição da vingança? Se é tradição. mas. portanto. não são os sujeitos físicos (a brasileira cobiçada pelo português) nem os lugares empíricos (Brasil) que funcionam no discurso. quanto a ilusão de que o sentido já existe como tal. sua identificação com a FD que o domina. As FDs. ela parte de onde? Por que os brasileiros são mesmo muito violentos? Quais sentidos de violência aqui são (re)produzidos pelos meios de comunicação e são relacionadas e colados aos brasileiros para que esses sentidos nos constituam? No entanto. compõem um grande bloco de produção de sentidos em relação ao que se referem. As denominações (palavras. Dessa forma. compreendida como elemento determinante do sentido. Dizemos uma palavra para não dizermos outra. reflete-se na exterioridade. No entanto. expressões ou locuções). com essa retomada de Pêcheux. Quero dizer. Essa escolha da ordem do consciente produz.

representa uma vertente do processo social de produção de sentidos. como tal. ou entre linguagem e exterioridade. pelas evidências dos sentidos e pela ilusão referencial”. tem história. Para a Análise de Discurso de orientação francesa (doravante. evidenciando. 1998. O ato de denominar. ou seja. (MARIANI. cristaliza-se uma memória como legítima para a interpretação da história. o qual. não se trata. neste domínio teórico. construindo e desconstruindo efeitos discursivos de referencialidade (SOARES & MEDEIROS. pelas intenções. são construídos gestos interpretativos que possibilitam injunção para o sujeito que necessita conferir sentidos diante de objetos simbólicos. grifos meus). Em contrapartida.e. mas organiza-se na ordem do discurso. Por essa razão. as denominações fazem emergir posiçõessujeito dos enunciadores. mas trata-se de analisar o processo de construção discursiva. E. p. é capaz de estabelecer uma referência e uma designação. dá-se a partir de posições determinadas. consiste na relação entre o linguístico e o histórico-social. relaciona linguagem e memória. O processo de denominação não está na ordem da língua ou das coisas. de forma a tornar visível aquilo a que se refere. 15). estão na confluência da língua e da história e produzem sentidos. 1996. no processo de denominação. 50). na concepção de Orlandi (1998. até porque. constroem regiões discursivas que produzem efeito de sentido sobre o denominado. A linguagem e a exterioridade linguageira representam uma posição em relação ao que se denomina. determinações que permitem tais nomes e/ou impedem outros. afetado pela vontade de verdade. Nesta formação de discursos proposta pelos jornais. assim. AD). “sob efeito da ilusão subjetiva. relembrando mais uma vez. p. ou melhor. portanto. Conforme Mariani (1998). ou melhor. p. o modo como os discursos em relação podem produzir a ilusão de objetividade e evidência para uma realidade. FDs às quais estão vinculadas. na ordem do discurso. eles são compreendidos como “relações instáveis produzidas pelo cruzamento de diferentes posições de sujeito” (GUIMARÃES. num lugar de formulações que se determina ______ [ 186 ] . A linguagem. 2012). sentidos se colam como se houvesse uma relação sempre já-lá estabelecida entre a palavra e a coisa. Denominar é significar. então. Portanto. o referente ou o significado. As denominações criam sítios de significância (ORLANDI. de analisar a referência. 118. Denominar não é apenas um aspecto do caráter de designação das línguas. como se o sentido já estivesse lá. a inscrição de sujeitos ao formularem. 1995). de forma a dar existência àquilo que se nomeia.

em menor proporção. como gestora da informação. promovendo uma intervenção no real do sentido tomado como estável e natural. p. a mídia como um lugar de interpretação legitimada para a administração dos sentidos que lhe torna possível a existência. revolução etc. criando uma interpretação num efeito de leitura que visa instaurar uma memória. No entanto. No funcionamento social. 1999. 2004. Este processo. os jornais estão autorizados a produzir leituras da realidade que possam ser consideradas legítimas e produtoras de um universo de crenças constituidoras do discurso social.. Nessa compreensão em momentos de tensão. Bucci (2004. grifos nossos). homogeneiza os sentidos para os fatos cobertos pela imprensa. ao mesmo tempo em que passam a “fazer reviver em uma ______ [ 187 ] . pois. fixa direções interpretativas. A irrupção do equívoco afeta o real da história. neste imaginário de credibilidade construído pelos jornais que interpretações de acontecimentos podem ser tomados como verdade e se naturalizarem no efeito de leitura. Gadet & Pêcheux (2004) afirmam que toda desordem social é acompanhada de uma espécie de “dispersão anagramática” (aspas do autor): O equívoco aparece exatamente como o ponto em que o impossível (lingüístico) vem aliar-se à contradição (histórica). 64. portanto. o ponto em que a língua atinge a história. p.] As massas ‘tomam a palavra’ e uma profusão de neologismos e de transcategorizações sintáticas induzem na língua uma gigantesca ‘mexida’. Há. as massas que passam a falar. àquela que os poetas realizam. 112). É.. assim. (GADET & PÊCHEUX. observáveis nos pontos em que se busca controlar o sentido para que ele se torne único. 51) afirma que a imprensa deve oferecer confiabilidade necessária para a confirmação deste imaginário e também para a validação dos jornais na relação com seus leitores. pois. Temos. pode-se percorrer a forma como a língua é ressignificada e como novos-outros-sentidos se fixam. p. o que se manifesta pelo fato de que todo processo revolucionário atinge também o espaço da língua [..como autorizado. assim. Compreender a forma como a imprensa escrita portuguesa produz efeitos de sentido sobre o brasileiro e o Brasil é compreender a maneira pela qual Portugal redesenha o Brasil no panorama mundial. este imaginário se faz necessário para a manutenção da própria imprensa. comparável. Ela. como é o caso da crise econômica na Zona do Euro. nesses processos de crise. Instituem-se. na tentativa de contenção de seu movimento constitutivo. modelos de compreensão da realidade que visam explicar e desambiguizar o mundo (MARIANI.

2004. concordando com Guattari e Rolnik (2006). Quais efeitos essas imagens operam na subjetividade humana? Mais do que descrever a interpelação da Mídia e da imagem. esta capacidade é potencializada no discurso com base da imagem. são investidas de dimensões gigantescas. opera com especial força pragmática sobre os indivíduos. 2005). no jurídico. esta nova forma-sujeito tem relação direta com o Texto da Mídia: Os discursos. ou identificar modos de subjetivação vigentes) e o modo como se articulam a língua/linguagem. 66). a exemplo de outdoors. 1987. p. ______ [ 188 ] . no religioso. Essa investigação permite. fundamentando-as simbolicamente. Interessa-nos estudar os processos discursivos decorrentes das transformações (o fortalecimento do poder do Mercado diante da diluição do poder do Estado. grifos nossos). esquecidos durante muito tempo [e a] tornar próximas [algumas] palavras afastadas umas das outras” (GADET & PÊCHEUX. Se o discurso religioso fundamentou a formasujeito na Idade Média e o jurídico estruturou a forma-sujeito cidadão. no domínio do discurso. desempenham papel fundamental na constituição social. p. 4. ‘capitalismo mundial integrado’. os sujeitos e a ideologia. sobretudo o que faz uso da imagem. eu diria: a obediência às leis divinas.mercado neoliberal em sua forma atual globalizada – ao qual é preferível nomear. 2005). Segundo Payer (2005). o Texto Bíblico e o Jurídico (Foucault. Se todo discurso tem a propriedade de produzir evidências de real. constituindo-se em verdadeiros espetáculos textuais. que por si já são enormes.mesma palavra seus diferentes sentidos vizinhos. Além disso. 1984) forneceram sustentação a estas formações sociais. determinados enunciados condensam a interpelação como enunciadosmáxima. (PAYER. como texto fundamental do Sujeito Mercado (PAYER. Vou aqui correlacionar. Dos textos fundamentais. Haroche. 2005. estabelecer de que maneira uma nova forma-sujeito se desenha em momentos de crise. a obediência civil. em sua relação direta com as novas tecnologias de linguagem. O Texto da Mídia. além da possibilidade de compreensão da língua que se inscreve na história e de compreender de que forma a língua se desloca. as imagens da mídia. As formas de interpelação da imagem são específicas. queremos enfatizar que esta interpelação não se dá simplesmente pelas possibilidades empíricas das diversas materialidades dos textos. fazendo circular enunciados capazes de constituir indivíduos em sujeitos. base do funcionamento do Estado Moderno. considerando-o como o texto fundamental que condensa a discursividade de um novo Sujeito histórico que passa a interpelar ideologicamente os indivíduos em nossa época: o chamado ‘Mercado’ . A introdução da imagem tem estatuto semelhante ou mais forte do que a invenção da imprensa (PAYER. o estatuto do Texto Bíblico e do Texto Jurídico ao texto da Mídia. materializados em textos.

o Jornal de Notícias e o Público) que compõem o corpus desse projeto de pesquisa. adensar os conhecimentos em termos de funcionamento do discurso jornalístico. por exemplo. necessariamente. quando. então. por exemplo. 2005). Quero dizer. como na SD1. da forma como ele se materializa através da imagem e de textos. para pensar a forma como o jornal Correio da Manhã. cinco sequências discursivas (SD). ainda que as palavras Brasil/brasileiro não aparecessem. no texto. 2005). o discurso se imprime através de inúmeros textos (PAYER. a exemplo da ideologia religiosa e da ideologia jurídica (PAYER. pudesse aparecer. os laços que unem o Brasil e o Portugal e. trouxeram em suas páginas. o Expresso. sem que estes possam notar os jogos sinuosos com que as formações discursivas instaladas nessa formação ideológica determinam o sujeito. em tempos de crise. notícias da posse da nova presidenta do Brasil. nos primeiro dias de janeiro de 2011. Um dos atributos fundamentais desta formação social constitui-se pela exagerada oferta de sentidos. Para tanto. E isso já nos dá a dimensão e a importância da circulação dessas informações em terras portuguesas. sobretudo. em janeiro de 2011. do qual resulta este artigo. Quanto ao enunciadomáxima dessa formação ideológica. ______ [ 189 ] . É possível. no texto. uma de cada matéria citada acima. incompletos – insinuando liberdade de escolhas ao sujeito. é importante mencionar que todos os jornais (o Correio da manhã. ao invés de Brasil. porque opera na base de nova formação ideológica. O critério usado para selecionar essas SDs foi o uso. o que representa o Brasil para Portugal nesses novos tempos. significa o Brasil e o brasileiro em suas páginas.Esse poder de interpelação se exerce não apenas porque opera a partir da FD Mercantil. com base na “língua de vento da propaganda” (GADET & PÊCHEUX. com seus sentidos polissêmicos. sobretudo. Antes de apresentar o funcionamento dessas SDs. então. equívocos. ao desvanecimento das memórias coletivas. de alguma palavra que fizesse referência ao Brasil/brasileiro como forma de recuperar esse significante. sem exceção. destacamos. e produz novos outros sentidos sobre o Brasil e o brasileiro na contemporaneidade. disperso e onipresente na mídia. hiperlinks (nas mídias online) etc. ambíguos. mas. 2004). o Diário de Notícias. com poder de imprimir a evidência do sentido e de fazer crer nos enunciados até o ponto de o indivíduo se conduzir segundo essa crença. a partir do que propomos aqui. Rio de Janeiro. Sob a égide do Capitalismo Mundial e Integrado é que vemos configurar-se uma nova forma-sujeito. tomando-o na injunção à dispersão. que produz em sua discursividade efeitos de dispersão.

em sua maioria. são um efeito da onipotência do Mercado como instância máxima de poder. pela submissão à circulação da Mercadoria. assim como existem bonecos do presidente dos Estados Unidos Barack Obama.“Mundo Louco. a Índia e a China. marcadas. a presidente brasileira Dilma Rousseff já tem até uma boneca personalizada. Uns diriam que se trata de uma homenagem. principalmente. produzimos. Criada pelo artista plástico Marcus Baby. p.36). O Brasil. O modo como se articulam a língua. e enverga um vistoso vestido vermelho. com o funcionamento do Capitalismo Mundial: somos uma economia que cresce. Sob a égide do Capitalismo Mundial e Integrado é que vemos configurar-se essa nova forma-sujeito.APRESENTAÇÃO E ANÁLISES DAS SEQUÊNCIAS DISCURSIVAS 1. Artista cria ‘Barbie Dilma’”. porque opera na base de nova formação ideológica. Esses sujeitos. na contemporaneidade. MUNDO. A hipótese formulada por Jim O’Neill. assim como a Rússia. chefe de pesquisa em economia global do grupo financeiro Goldman Sachs. As relações sociais são. portanto. a exemplo da ideologia religiosa e da ideologia jurídica. é a de que o potencial econômico desses países é tão grande que eles podem se tornar as quatro economias dominantes do mundo até o ano 2050. (CORREIO DA MANHÃ. ______ [ 190 ] . se destacam no cenário mundial como países em desenvolvimento. . O fortalecimento do poder d’O Mercado mencionado por Payer (2005) sobre um novo sujeito histórico que interpela ideologicamente os indivíduos em nossa época identifica o Brasil e. consequentemente os brasileiros. Jornal Correio da Manhã (SD1) Apesar de ser avessa à fama. a cor preferida da presidente. a ‘Barbie Dilma’ é baixinha e um pouco anafada. dia 09 de janeiro de 2011. outros. que o Mercado não perde tempo quando a ordem é consumir. como afirma Payer (2005). mas. Tão logo a presidenta toma posse já existe uma boneca pronta para ser consumida. do Rio de Janeiro.nota . O poder de interpelação se exerce não apenas porque opera a partir da Formação Discursiva Mercantil. consumimos. os sujeitos e a ideologia são decorrentes das transformações dos processos discursivos de subjetivação vigente: o fortalecimento do poder do Mercado diante da diluição do poder do Estado significando o sujeito. a Barbie Dilma. o chamado BRIC.

______ [ 191 ] . e externa. do dia 03 de janeiro. (. acrescentou Sócrates no final do encontro. o primeiro-ministro admitiu que ‘deu conta daquele que está a ser o esforço do Governo português para superar este momento’. 2002). para alguns países da Zona do Euro ( entre os mais atingidos estão Portugal. quando resultante de empréstimos e financiamentos contraídos no exterior... Isto dependerá daquilo que forem as condições das autoridades brasileiras’. Grécia e Espanha). Dilma Rousseff recebeu o primeiro-ministro português.) Apesar de ter garantido que não foi ao Brasil para aliciar o governo de Dilma a comprar a dívida pública portuguesa. Ela pode se constituir de créditos bancários. segundo o primeiro-ministro (e não poderia ser diferente. a dívida soberana pode ser bilateral (de um país para outro). muitas vezes referida como crise da Zona do Euro. A crise da dívida pública europeia. um bom investimento.Ainda sobre o aspecto mercadológico. (. a próxima SD. que vale a pena ser feito.. multilateral (de um país para com uma organização multilateral) ou privada. Esses títulos podem ser negociados no mercado internacional desde que sejam emitidos em uma ou mais divisas conversíveis em unidades de conta universalmente reconhecidas (ATAÍDES. num encontro em que a questão da crise da dívida soberana. Irlanda. José Sócrates. Itália. é um bom investimento e. ou de títulos emitidos pelo Tesouro do país devedor. quando os credores são residentes no país. Se for externa. “Sócrates e Dilma discutem crise da dívida soberana”. ‘Tive ocasião de dizer à Presidente do Brasil que pode contar com Portugal como o mais fiel e mais próximo aliado naquela que vai ser a caminhada do Brasil para ocupar o espaço no concerto das Nações’. (CORREIO DA MANHÃ. já que do lugar que ele ocupa só é permite que ele diga isso). 5. p. Os títulos portugueses emitidos pelo Tesouro estão à disposição e. aliás.) José Sócrates fez ainda questão de garantir a Dilma apoio total no caso de uma candidatura do Brasil ao conselho de segurança das Nações Unidas. tornou difícil ou mesmo impossível o pagamento ou o refinanciamento da sua dívida pública. que afecta os países periféricos da Europa – Portugal incluído – foi tema de debate. E deixou o recado: ‘A dívida soberana portuguesa está no mercado e é. é uma crise financeira em curso que. dia 03 de janeiro de 2011. por isso. torna evidente o novo lugar ocupado pelo Brasil na ordem da economia mundial. (SD2) Um dia depois de ter assumido funções como a primeira mulher na Presidência do Brasil.. grifos nossos). Ela pode ser interna. de empréstimos de outros Estados ou instituições oficiais. ATUALIDADE. Dívida soberana é uma dívida assumida/garantida por ou pelo Estado ou o seu banco central.

o primeiro-ministro declarou que a economia do Brasil está num processo de internacionalização e espera que as empresas brasileiras. em Portugal). Portugal. apoia totalmente o Brasil nessa caminhada de ocupação do espaço no concerto das Nações. Não esqueceu também. a exemplo da Embraer. 32. aliciar tem um sentido. de 63 anos. Na SD abaixo. com Portugal. em 2013. segundo o Itamaraty. grifos nossos). o primeiro-ministro admitiu que “deu conta daquele que está a ser o esforço do Governo português. 02 de janeiro de 2011. O Brasil é o quarto maior destino dos investimentos diretos portugueses no exterior. aqui. é o mais fiel e o mais próximo aliado e. A troca comercial entre os dois países. não necessariamente. “Tomada de Posse do 40. sentido de que. o efeito de sedução. a dívida soberana portuguesa seria um bom investimento. De qualquer forma. e colaborando para com o imaginário. (SD3) Dilma Rousseff.º Presidente da República – ‘Venho consolidar a obra de Lula’”. assim. nesses tempos de crise. vejam Portugal como uma oportunidade para este fenômeno. segundo o jornal. a construção de um discurso político sobre o Brasil ser um país do futuro e um país de esperanças continua produzindo efeitos no discurso do governo brasileiro. Lá (nos encontramos. MUNDO. ______ [ 192 ] .vale a pena ser feito. por isso. e a minha missão é consolidar essa passagem e avançar no caminho de uma nação das mais geradoras de oportunidades’. criar avanços em áreas críticas como saúde e a segurança. (CORREIO DA MANHÃ. financeiramente. e realçou em vários momentos do discurso. por se tratar de um bom negócio que beneficiaria também Portugal. Dilma repetiu a promessa. mas. segundo o primeiro-ministro. É um país emergente com divisas e mantém. o Brasil está em condições de contribuir com Portugal. com um sentido negativo. relações econômicas. também português.” O jornal português produz. p. um aliado que pode contribuir financeiramente para amenizar a crise portuguesa. é. o facto de ser a primeira mulher presidente e enalteceu as mulheres. feita na campanha e no dia da eleição. É interessante perceber o funcionamento de aliciar para o Brasil e para Portugal. que reforçando a ideia contida em Holanda (1996) sobre o Brasil. Votorantim e Camargo Correa. de atrair com falsas promessas. deu uma clara indicação do rumo que pretende seguir no seu governo. sobretudo. como é possível perceber na fala do primeiro-ministro. pelo menos o mais corente. Ainda que o primeiro-ministro tenha dado garantias de que não foi ao Brasil para aliciar o governo. O Brasil. de ter como sua principal meta erradicar a pobreza extrema no Brasil.6 bilhões. Em outro momento. foi de US$ 2. o povo brasileiro fez a travessia para uma outra margem da história. e reforçou: ‘Sob a liderança dele. neste momento.

principal meta. produzida pelo próprio país. que superfaturam ou subfaturam contratos de acordo com a conveniência. reforçam o imaginário sobre ser brasileiro. criar avanços etc. mas também o mal intencionado. o papel do Brasil para os europeus está atrelado à ideia da terra prometida. Um dos casos que estão a suscitar particular polémica é o facto de Lula e a família terem ______ [ 193 ] . inclusive. naturalmente. que produzem sentidos. a velha e eficaz Lei de Gerson7 parece aqui também nos constituir: o malandro no bom sentido. no entanto. no imaginário do próprio brasileiro sobre si e. E para um político recém-chegado ao cargo. que são coniventes com desvios de verbas. Tirar proveito de tudo. a civilidade. continua a gozar de benefícios estatais são algumas das denominações que constituem o caráter do ex-presidente e. No entanto. ele deve estar sempre em construção. mas que são ilegais na sua nova condição civil. Essas representações nos atravessem de modo constitutivo: sujeito e sentido se constituindo ao mesmo tempo. O lugar. não apenas a ideia de país do futuro. é ainda em torno do imaginário do país do futuro presentes nas denominações: rumo que pretende seguir. Uma semana depois de deixar a presidência. da esperança. Pode-se até discutir o caráter legal desse comportamento. descritos por Orlandi (2002). nos meios de comunicação. Lula continua a manter privilégios ilegais em sua nova condição. e os gestos de interpretação realizados pelos sujeitos. deve precisar de muitas melhorias essenciais para que assim se justifique a sua presença.A história do Brasil. tratamento privilegiado. essa prática. também em relação à classe política: aqueles que desrespeitam constantemente as fronteiras entre espaço público e privado. erradicar a pobreza. continua a ser favorecido. em se tratando de valores morais como a decência. O imaginário sobre o brasileiro contaminado pelo estilo de vida fácil. faz parte de “suas atribuições” como parlamentares. avançar no caminho. a honestidade. Lula da Silva continua a manter os privilégios a que tinha direito no cargo. que são por definição não-transparentes. que corrompem e são corrompidos. por deslizamento. sobre o imaginário em torno do que seja ser brasileiro. a democracia. (SD4) Uma semana depois de ter deixado de ser presidente do Brasil. os que não conseguem discernir entre os interesses coletivos e particulares. à custa dos contribuintes. na SD4. parece produzir efeitos nos jornais portugueses. São os objetos simbólicos. aquele que quer levar vantagem em tudo circula entre as matérias jornalísticas sobre o que nos constitui. parece encontrar eco no comportamento também cristalizado. não existe um lugar pronto. pelo menos na política brasileira. todas elas são deploráveis e condenáveis na mesma medida. Ou seja.

) outra denúncia confirma que Lula continua a ser favorecido pelo actual governo. Em resumo. garantindo-lhes tratamento privilegiado nas viagens internacionais. foram renovados. também ao caráter do brasileiro por deslizamento de sentido em relação ao que o CM põe em circulação. de 07 de janeiro de 2011.) Recorde-se que durante a primeira parte da campanha para ______ [ 194 ] . com a seguinte legenda: “Dilma passou grande parte da campanha a afirmar a sua fé em Deus”. A fotografia está a serviço de uma FD. de 39. grifos nossos). Segundo a lei do país. MUNDO. 30. e Marcos Cláudio. de forma mais geral. p. para quem passou grande parte da campanha eleitoral a afirmar insistentemente a sua fé. Não vou. p. É importante dizer que esta matéria é ilustrada por uma fotografia da presidenta fazendo o sinal da cruz.. (SD5) Uma das primeiras decisões da recém-empossada presidente brasileira Dilma Rousseff foi mandar retirar do gabinete presidencial a Bíblia e o crucifixo que há décadas ocupavam lugar de destaque na sala onde trabalham os presidentes. portanto.. (CORREIO DA MANHÃ. a concessão de passaporte diplomático de filhos de presidentes está apenas prevista enquanto estes ocupam o cargo e desde que os filhos tenham menos de 21 anos. A fotografia. A citação acima ilustra apenas o nosso ponto de vista em relação ao seu funcionamento no discurso jornalístico. não vale mais do que mil palavras. lemos a fotografia a partir daquilo que a FD a que ela se vincula permita que seja lido.. (. os sentidos que ela produz estão relacionados com o meio de comunicação social que a comporta e veicula e. agora. o que não é o caso. A SD5. principalmente quando falamos de fotografia jornalística. Soares & Zanella (2011) afirmam que Há de se levar em consideração que a fotografia também é produção. diz respeito. (SOARES & ZANELLA. Uma decisão estranha. Cláudio Luís. 2011. (. Sobre o papel da fotografia na imprensa. Os sujeitos (na acepção da AD) envolvidos. à custa dos contribuintes. discorrer sobre a fotografia na mídia. neste artigo. não o deixam de ser – e nem poderiam – na fotografia.3. 25 anos. como tantas vezes ouvimos/reproduzimos sobre as imagens.ido passar férias numa base do Exército no Litoral de São Paulo. Assim sendo. ela é um discurso e produz determinados sentidos a partir do lugar que ocupa. Os passaportes diplomáticos dos dois filhos. Os sentidos que se levantam a partir da imagem são determinados por outros sentidos que já significam. atravessados pelo ideológico e pelo inconsciente. grifos nossos). “Ex-Presidente continua a gozar de benefícios estatais – Privilégios de Lula abrem polémica”. sobre o comportamento da atual Presidenta da República.. com as condições de produção da “situação jornalística”.

laico. durante as eleições ocorridas em 2010 para a Presidência da República. (CORREIO DA MANHÃ. segundo o CM. a religião deixou de lhe interessar. naquela que foi considerada cartada decisiva. incoerente com a imagem veiculada pela notícia na qual ela é fotografada fazendo o sinal da cruz. naquela que foi considerada a cartada decisiva para atrair milhões de eleitores mais religiosos. Dilma passou a ir diariamente à missa. Primeiro. O CM continua didatizando a notícia com o uso do antes e do depois. Da SD5. no mínimo. durante uma visita ao Santuário de Nossa Aparecida. Comportamento. existir há décadas uma bíblia e um crucifixo na sala de trabalho da presidência da república. porque. é. Cartada decisiva é como o CM denomina a estratégia usada pela presidenta para atrair s votos de milhões de religiosos. grifos nossos). depois de eleita. padroeira do Brasil. no entanto. é importante destacar que ela fala de dois momentos. referindo-se ao primeiro turno. como se esses votos fossem os decisivos para que ela fosse eleita. para atrair milhões de eleitores mais religiosos. o CM não considera. durante as eleições: antes das eleições. fez-se deixar fotografar ao lado de pastores e bispos e. num governo. pelo visto. fez-se deixar fotografar ao lado de pastores e bispos e.as presidências de Outubro Dilma foi acusada de não ter religião e de defender o aborto. Agora. por exemplo. Além disso. ao primeiro e ao segundo turno das eleições. MUNDO. para cristalizar e fazer circular o caráter da presidenta do Brasil: um antes e um depois das eleições. o responsável pela acusação. é possível depreender alguns sentidos. por exemplo. que circulou. Dilma foi acusada de não ter religião e de defender o aborto. Depois. fala da cor vermelha como sendo a cor favorita ______ [ 195 ] . Para o jornal. do dia 10 de janeiro de 2011. de quem não é religioso. De acordo com esta SD. agora durante o segundo turno. o comportamento de Dilma. mas também um antes e um depois referindo-se. a posição e o desempenho do outro candidato. A SD1. BRASIL – “Reviravolta – Dilma choca religiosos”. por natureza. Dilma passou a ir diariamente à missa. Depois de analistas terem dito que ela não foi eleita logo à primeira volta por esse motivo. respectivamente. de analistas terem dito que ela não foi eleita logo à primeira volta por esse motivo. não há estranheza alguma em. em relação aos assuntos religiosos. Essa incoerência está inscrita na denominação “uma decisão estranha” (retirar do gabinete presidencial a Bíblia e o crucifixo que há décadas ocupavam lugar de destaque na sala onde trabalham os presidentes). somente não professando uma religião. segundo o CM. que se completam. para defender o aborto. chegou mesmo a afirmar. que o cancro que enfrentou há dois anos a aproximou de Deus.

Agora. Inclusive. Jornal Expresso (SD6) Duas militantes clandestinas estiveram na mesma cela em 1970. embora mantendo os seus ideias. O caráter leviano cola-se ao comportamento. levou uma vida longe da ribalta. sobretudo. mas que são passíveis de serem depreendidos a partir dessas SDs analisadas: uma certa ingenuidade significando o brasileiro. E. Vermelho também é a cor que representa o comunismo. 2. As relações que podem ser feitas seriam Dilma é comunista. generala para seus ______ [ 196 ] . leitora de Marx. A SD6. pelo visto. Uma delas viria a tornar-se na primeira Presidente do Brasil e tomou posse há poucos dias (ver caixa). É importante perceber os efeitos de sentido das denominações produzidas pelo jornal para a presidenta Dilma Rousseff: militante clandestina. Que partilhava as tarefas do dia a dia e. BRASIL. feito por Cidinha revela uma jovem que gesticulava muito e que passava literatura marxista e manuais de economia às suas vizinhas. De duas uma. ao contrário do que seus inimigos políticos têm dito. frequentemente. (EXPRESSO. Há. o lugar que a nova presidenta do Brasil pode/deve ocupar em virtude do seu passado como militante clandestina/ leitora de Marx. ela decidiu retirar a bíblia e o crucifixo da sala de trabalho da presidência. alguns comportamentos que o CM consegue fazer circular sobre o Brasil e o brasileiro que o próprio brasileiro não consegue alcançar. segundo o CM. Dilma defende o aborto e. nas eleições. Maria Aparecida dos Santos (foto maior) depois de sair da prisão. é dito que a ideologia comunista defende explicitamente o Estado ateu e a supressão da religião. da presidenta. a religião deixou de lhe interessar. O retrato de Dilma. presa política. essa mudança apenas reforça a veracidade das acusações de defender o aborto e de não ter religião. descreve. ou aquelas acusações têm algum fundamento. pelas evidências apresentadas pelo CM. no Brasil. Dilma nega a religião. “não era nada que parecesse com uma generala”. Esses sentidos produzem também outros que não são ditos. já que antes e depois. “Reviver o passado no presídio Tiradentes”. A outra. porque não percebe o jogo político. e depois de eleita ela muda de convicções. vive próxima da ribalta. ou vale tudo durante o processo eleitoral.da presidenta. solidária com as companheiras de cela. grifos meus). jovem que gesticulava muito. já que queremos tirar proveito de certas situações. enquanto jovem presa política (imagem a preto e branco). principalmente. 8 de janeiro de 2011. Há também alguma dissimulação no nosso comportamento. leitora de manuais de economia.

(SD7) José Sócrates esteve na abertura do ano no Brasil. objetividade. sua forma de governar. aqui. por deslizamento. A SEMANA. mais reservado e com menos exposição pública) anunciou publicamente o primeiro combate do seu mantado: a erradicação da pobreza. responsável por fazer circular o mundo. e o fato de retirar o crucifixo e a bíblia de sua sala de trabalho. na SD1. um leitor de Marx. afirmou José Sócrates. (EXPRESSO. trata-se de analisar o processo de construção discursiva. a partir de um lugar de neutralidade. Dilma (que já parece ter um novo estilo. nessas SDs. na SD6. Para a AD. na SD5) porque renega a religião assim que toma posse. “Sócrates e Dilma juntos”. como efeito de sentido. disse a Dilma que pode contar com Portugal como o mais fiel e mais próximo aliado”. Sócrates garantiu que a ajuda brasileira a Portugal para compra da dívida nacional não esteve em cima da mesa. No final da semana. reforça aquele imaginário que faz/fez circular sobre ela.inimigos políticos. a partir de um já dito sobre o que seja um militante clandestino. criando. as denominações fazem emergir as posiçõessujeito dos enunciadores. O lugar de uma militante clandestina com ideias marxistas (que gesticula muito) pode produzir. vinculando tanto o locutor quanto o referente às FDs específicas. o primeiro-ministro reuniuse com Dilma. determinadas convicções as quais servem para destacar e reforçar sua forma de ser e. ______ [ 197 ] . o modo como os discursos produzem a ilusão de objetividade e a evidência para uma realidade. Esses sentidos são reforçados também pelo imaginário em torno do discurso jornalístico. um leitor de manuais de economia etc. A SD6 parece ser atravessada pelas SDs 1 e 5 (elas se complementam e reforçam o imaginário). “Reafirmei que uma das prioridades mais altas da política externa portuguesa é a relação com o Brasil. Dilma Rousseff aparenta ser uma provável comunista (o vermelho como sendo a sua cor predileta. no caso Dilma Rousseff. ser Leitora de Marx. 8 de janeiro de 2011. Como afirmamos acima. imparcialidade. 1995). Mas sabe-se que a entrada da Petrobrás no capital da Galp foi um assunto debatido (sobre isso pode ler-se mais noticiário esta semana no caderno de Economia do Expresso). E logo no primeiro dia em função da nova Presidente. (GUIMARÃES. como se O sentido já estivesse lá. em torno de si (o sujeito se significa ao significar) e do seu referente. ou seja. construindo um lugar para esse governo a partir dos sentidos já-la8 sobre um (ex)militante de esquerda. um imaginário sobre o seu modo de governar a partir de um já-dito sobre ela. grifos meus). para assistir tomada de posse de Dilma Rousseff como sucessora de Lula da Silva. A denominação generala parece estar associada a essa ideia de radicalismo presente no interdiscurso9 sobre o militante com ideias marxistas.

a subida de turistas brasileiros acentuou-se em Lisboa”. se aproveita da situação. que totalizaram 5. castelo de São Jorge e Parque das Nações. dentre outros sentidos. TURISMO. pode. que levou a filmar na capital portuguesa cenas finais da telenovela “Viver a Vida”. produzir efeitos de que Portugal. ideia presente também na SD6. recém empossada. “Brasileiros trazem bom ano a Lisboa”. Logo no primeiro dia. As gravações em Lisboa decorreram em abril. traduzido num aumento de 9. e a telenovela “Viver a Vida” acabou em maio. alterando a perceção dos brasileiros da imagem de “cidade atrasada e provinciana. para pedir ajuda ao Brasil. 8 de janeiro de 2011. (EXPRESSO. “A partir de então. mas também produz efeito de proximidade. como Belém. o fato de parecer convicta de seus ideias já que anunciou publicamente o primeiro combate do seu mantado: a erradicação da pobreza.As SD2 e SD7 também dialogam. um imaginário mais discreto de se governar (em oposição a Lula) introduzido pelo adjetivo novo: novo em oposição ao velho estilo. Sintra ou Fátima. mas os brasileiros. cria. da erradicação da pobreza.7 milhões só na cidade e 7. da distribuição de renda ______ [ 198 ] . nelas o Brasil é produzido como a alternativa para ajudar Portugal a superar a crise econômica. de 46%. por conta da nova política econômica. que também inclui Estoril. Os atores Bárbara Paz e Rodrigo Hilbert protagonizaram cenas românticas em vários pontos da cidade. a construção da imagem da presidenta. O principal objetivo desta iniciativa foi projetar uma Lisboa “moderna e cosmopolita”. emitida no Brasil em horário nobre. Este aumento foi muito empurrado pela iniciativa de promoção contratada entre o Turismo de Lisboa e a rede Globo.6 milhões em toda a região. Além disso. em torno dela. aparecia apenas o governo como o agente dessa contribuição. tão logo a presidenta toma possa. reforçado pelo discurso direto de Sócrates quando diz a Dilma que pode contar com Portugal como o mais fiel e mais próximo aliado. diretor-geral do Turismo de Lisboa. E acrescenta-se a isso. Os brasileiros foram os turistas que evidenciaram o crescimento mais expressivo. a partir de denominação leitora de manuais de economia. ECONOMIA. onde vive o Manuel padeiro e pessoas de bigode”. garante Vítor Costa. Até aqui. de parceria.5% nas dormidas. Tanto no CM quanto no Expresso circularam a ideia contida no que PAYER (2005) afirma sobre a FD Mercantil colocada em circulação sobre o Brasil: a interpelando dos sujeitos e dos sentidos como suporte para as relações econômicas globais. (SD8) Lisboa teve um bom ano turístico em 2010. e participaram no evento “Moda Lisboa”. grifos meus). A SD8 outra vez produz efeitos de que o Brasil pode contribuir financeiramente para socorrer Portugal em tempos de a crise. representado pelo primeiro-ministro.

Dilma Rousseff. para ser exibida no horário nobre no Brasil. permite que outras necessidades possam ser acrescidas. seria o fato de que a ideia de gravar as últimas cenas de uma novela brasileira em Lisboa.. não destacado para análise. Sintra ou Fátima. 8 de janeiro de 2011. 5 noites é a permanência média dos brasileiros em Lisboa. Embora a Petrobrás não adiante detalhes sobre o assunto. É importante destacar que agora os brasileiros que chegam em Portugal não são mais aqueles que vinham na década de 1990. Será decidido em conselho de administração. O encontro entre o primeiro-ministro e a presidenta. principalmente para atuar na construção civil. O jornal supõe também um imaginário do brasileiro sobre Portugal e também sobre o português: alterando a percepção dos brasileiros sobre uma cidade atrasada/provinciana e sobre o português (Manuel da padaria e pessoas de bigode). as negociações em curso para entrar no capital da Galp. o turismo. Esse novo brasileiro é reflexo da economia em crescimento do Brasil que aumenta o poder aquisitivo da população e. por deslizamento. São as regras. partiu do presidente da Câmara. ter mantido uma audiência com a nova Presidente brasileira. para divulgar a cidade. € 969 gastos. grifos meus). em Brasília. no Palácio do Planalto.mais justa etc. no seu sítio na Internet. fontes conhecedoras do dossiê garantem que dentro de quatro a cinco semanas tudo estará negociado. onde vive o Manuel padeiro e pessoas de bigode”. NEGÓCIOS. António Costa. O encontro entre os políticos ocorreu no domingo. que não estava ______ [ 199 ] . SD2. (SD9) Pouco tempo depois de o primeiro-ministro. Mais: dizem que o assunto não será levado à Assembleia Geral da Petrobrás. José Sócrates. Esse turismo desliza para outras regiões: Estoril. em média. de acordo com Pêcheux (2001). “Galp conta com Petrobrás no carnaval”. Outro ponto importante. contribuíram para alimentar o turismo e consequentemente para o consumo em Portugal: são 46% de aumento de brasileiros em Lisboa (até novembro de 2010 – totalizando 467 mil dormidas). o negócio da entrada da petrolífera brasileira na Galp recebeu luz verde. descritas acima. de projeção responsáveis por estabelecer as relações entre as situações discursivas e as posições dos interlocutores. a procura de trabalho. ECONOMIA. por brasileiro em 3 noites. e logo a seguir a Petrobrás admitiu. por conta dos bons ventos na economia dos países da Zona do Euro. Também na SD9 a questão Mercantil é evidente. (EXPRESSO. por exemplo. 2 de janeiro. alterando a percepção dos brasileiros da imagem de “cidade atrasada e provinciana. ainda que aquele diga. conjuntamente com a empresária Roberta Medina: o efeito propaganda é apagado enquanto as cenas românticas contribuem para divulgar uma Lisboa “moderna e cosmopolita”.

Na SD10. É detentora da Petrogal e da Gás de Portugal. grifos meus). Galp (Energia) é um grupo de empresas portuguesas no setor de energia. é porque acredita na importância de enriquecer a língua portuguesa no campo da ciência atual e das tecnologias. A formação de professores. (EXPRESSO. Está entre as maiores empresas de Portugal. “Quanto vale a língua portuguesa”. criada durante a recente ida de Lula da Silva a esse país. (SD10) Numa ocasião em que tanto se fala sobre problemas de nossa economia. à distribuição e venda de gás natural e à geração de energia elétrica. é também uma forma de difusão da língua. Momentos depois desse encontro entre os governantes. ou um projeto científico e cultural.ali para aliciar o governo brasileiro. à refinação e distribuição de produtos petrolíferos. com atividades que se estendem desde a exploração e produção de petróleo e gás natural. A FD Mercantil parece dá o tom dos sentidos que circulam nessas SD selecionadas aqui para análise: o Brasil como um parceiro próximo de Portugal pode/deve contribuir financeiramente para socorrer em momentos de crise. como efeito de sentido. a língua de escolarização) tem valor económico e social. controlando cerca de 50% do comércio de combustíveis neste país e a totalidade da capacidade refinadora de Portugal. usando o português com a facilidade de ser a língua materna (e nos países da CPLP. o seu valor de mercantil não deixa dúvida sobre a necessidade da sua valorização. a Petrobrás admite as negociações em curso: materializados através dos marcadores de tempo pouco tempo depois e logo a seguir. parece haver um “nosso” (ou aqui) em oposição a um “lá”. Recentemente adotou uma estratégia agressiva de expansão no mercado de retalho espanhol e prossegue as suas atividades de exploração de hidrocarbonetos no Brasil em parceria com a Petrobras e a Partex e em Angola no consócio com a Sonangol. produz. é um erro esquecer que o conhecimento e o uso do português constituem uma mais-valia no campo das interações económicas e um dos mais importantes investimentos que cabem à iniciativa governamental e coletiva. A língua é um bem cultural e deve. assim como é a Universidade Aberta de Moçambique. Discutir um negócio ou argumentar sobre uma posição política. uma das suas valências. a UNILAB. o negócio entre os dois países é fechado. no entanto. que o encontro foi para tratar da dívida pública portuguesa e da parceria entre a Galp e a Petrobrás. Se o Brasil criou há pouco uma universidade. 29 de janeiro de 2011. ______ [ 200 ] . e do uso quotidiano nos países-membros da CPLP. portanto ser preservada tanto pelo governo quanto pela coletividade. Em seguida. que se destina a reforçar os laços com os países lusófonos. EDITORIAL & OPINIÃO.

i. atravessa e também pelos efeitos de sentido de que alguns dos outros países. há um “lá” que não é Portugal e que não atravessa. Quanto vale para Portugal. segundo a SD acima. neste caso. A constituição do Sujeito de Mercado. seria uma consequência de sua interpelação pela necessidade de negociação.O “aqui”. membros da CPLP. com o propósito. mas que desliza para “lá” em virtude da “recente ida de Lula da Silva a esse país” (Moçambique). nas condições de produção desse discurso. a UNILAB. e do uso quotidiano nos países-membros da CPLP” (grifos meus). Às Línguas de escolarização. na SD10. nesse momento.e. O Brasil criou uma universidade. nesse momento de crise. certamente. um momento de crise financeira. poderiam contribuir economicamente com Portugal já que se poderia usar “o português com a facilidade de ser a língua materna”. ou um projeto científico e cultural” (grifos meus). algo que se opera pela identificação à “formação discursiva mercantil” e sob a égide da formação ideológica do “Capitalismo Mundial Integrado”. da Crise da Zona do Euro. de “reforçar os laços com os países lusófonos” (grifos meus). quase que em detrimento dos demais valores. à que se destina a reforçar os laços com os países lusófonos. ou nosso. e certamente da língua portuguesa que pode/deve ser um veículo de negociação. A Mais-valia. a “nossa” língua materna? Por outro lado. certamente seriam revertidos aos governantes e a coletividade se compreendessem o valor da língua portuguesa. Payer (2005).. ______ [ 201 ] . nesse imaginário de valorização mercantil da língua como instrumento de negociação. corresponde a um benefício ou a uma vantagem em relação a algo ou alguém: os problemas econômicos são os “nossos” problemas. mas. porque “acredita na importância de enriquecer a língua portuguesa no campo da ciência atual e das tecnologias. problemas de Portugal e os benefícios. que “Discutir um negócio” ganha. uma ferramenta para se poder argumentar com os países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): seria “um erro esquecer que o conhecimento e o uso do português constituem uma mais-valia no campo das interações económicas” (grifos meus). O efeito de sentido que se produz passa efetivamente pela crise pela qual Portugal. A língua seria também um instrumento para “argumentar sobre uma posição política. agrega-se à econômica. grosso modo. a que. E ainda há um “lá” que não se refere ao Brasil. parece ganhar uma dimensão gigantesca. à social. parece falar de um momento de crise. uma força maior e um peso considerável para se pensar em um projeto de preservação da língua materna.

E se nos propusemos a pensar como Portugal reinscreve o Brasil no cenário internacional. na contemporaneidade. As relação sociais são. Parece-me que o discurso pronto contra a mercantilização do Estado. O Brasil. como um aliado que pode ______ [ 202 ] . exclusivamente. decorrentes das transformações dos processos discursivos de subjetivação vigente: o fortalecimento do poder do Mercado diante da diluição do poder do Estado significando o sujeito. O poder Mercantil de interpelação opera na base de nova formação ideológica. em sua maioria. em um futuro próximo. naturalmente. podem – e devem – desenvolver-se como pessoas humanas (GENTILI. acima de qualquer outro valor. p. O sujeito contemporâneo é interpelado ideologicamente pelo o que Payer (2005) denomina de FD Mercadológica. como padrão dominante de interpretação dos mundos possíveis. Quero dizer. aceitam – e confiam – no mercado como o âmbito em que. são alguns dos efeitos de sentido produzidos sobre a economia do Brasil. O Brasil apresenta-se de tal forma no cenário econômico internacional que muito provavelmente se tornará uma das quatro maiores economias dominantes do mundo. é neutralizado. na medida em que introjetam o valor mercantil e as relações mercantis. pela submissão à circulação da Mercadoria. 1995. principalmente. contra os cortes do governo a partir do que o FMI (Fundo Monetário Internacional) determina como meta para se colocar as contas novamente em equilíbrio acima dos valores sociais aqui perde a sua força ou. consiste na troca do valor da esfera da política para. não há dúvida de que esse lugar é o da Economia. na visão dos jornais portugueses. não se encontra fora dessa outra forma de interpelação.228). Isso fica evidente a partir do modo como se articulam a língua. o lugar da inscrição dessa FD como valor máximo a ser difundido em tempos de crise e. os sujeitos e a ideologia. são um efeito da onipotência do Mercado como instância máxima de poder. tendo em vista. Esses sujeitos. a esfera do mercado. nesses tempos de crise. portanto. pelo menos. o acirramento de forças contra as perdas salariais. A crise da dívida pública europeia evidencia esse novo lugar ocupado pelo Brasil e nos coloca. À GUISA DE CONCLUSÃO Os indivíduos. a exemplo da ideologia religiosa e da ideologia jurídica. que cada vez mais. marcadas. inclusive. o sistema econômico é global.

reforçando esse lugar adiante que nos significou também dentro do Brasil: Um país que vai pra frente. Os verbos. O Brasil passa a ser um referência. um reflexo do que é dito sobre o outro porque significamos desse mesmo lugar no discurso do CM. ______ [ 203 ] . Não há de um lado o político e do outro o brasileiro. segundo o CM. quase todos. aquela que afirma que o brasileiro quer tirar proveito de tudo parece também nos constituir. portanto. de que tanto o CM quanto o Expresso falam de um lugar e de que somos o Outro em seu discurso também o significando. nas páginas desses jornais. a exemplo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da atual presidenta durante a sua campanha eleitoral em 2010 e nos desdobramentos de sua posse em 2011. Não podemos nos esquecer. mas não são todos nem definitivos. A velha mas ainda eficaz Lei de Gerson. um pouco ingênuos porque não percebemos o jogo político. principal meta. no imaginário europeu. criar avanços etc. Essa representações nos atravessem de modo constitutivo: sujeito e sentido se constituindo ao mesmo tempo. um país de esperanças e esse imaginário também continua produzindo efeitos no discurso do governo brasileiro. continua sendo produzida em torno desse imaginário de país do futuro. O Brasil continua sendo. Isso nos significa como país e constrói. da esperança e do Mercado parece produzir efeitos nos jornais portugueses sobre o imaginário em torno do que é ser brasileiro. porque o sujeito também se significa ao dizer: somos. produzida pelo próprio país. Um país do futuro.contribuir financeiramente para amenizar a crise portuguesa. há brasileiro sendo construído nas páginas dos jornais. erradicar a pobreza. A história do Brasil. e não consegue discernir entre os interesses coletivos e particulares. conjugados no futuro. presente das denominações rumo que pretende seguir. entretanto. avançar no caminho. o país do futuro. reforçando a ideia contida em HOLANDA (1996) sobre o Brasil. cristaliza. põe em circulação um singularidade do brasileiro. A classe política não compreende o limite entre as fronteiras que há entre o espaço público e o privado. São esses alguns sentidos que circulam sobre o Brasil e o brasileiro na contemporaneidade em Portugal. mas também somos dissimulados quando essa dissimulação nos vai produzir alguma vantagem. não apenas a ideia de país do futuro. Um país em desenvolvimento etc. Todavia. Através de deslizamentos de sentido nos encontramos significados em sequências discursivas que tratam do sujeito político: somos. principalmente para Portugal em virtude das relações de proximidade que mantém com o país europeu.

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patrono dos corruptos e propagandista dos canalhas. neurônios e mais neurônios para condenar nossa brasileira condição gersoniana. tinta e mais tinta. 9) Há uma ordem do discurso que controla aquilo que se pode/se deve dizer. corruptos e sacanas. é capaz. [. em si.). mas não teve jeito. A lei de Gérson pegou. forçando os erres até o palato ficar encharcado. é o que liga a formação do país à formação de uma ordem de discurso que lhe dá uma identidade”. Sociólogos. 18). ______ [ 207 ] .. Somos mesmo uma nação de egoístas. na propaganda do cigarro Vila Rica veiculada anos depois.) 8) A ideia é a de que o que se diz/ou o que se escuta. “a noção de discurso fundador. o meio-campista Gérson ficou célebre não apenas por ter sido uma das maiores estrelas do tricampeonato brasileiro em 1970.6) Segundo Orlandi (1993. (... há também um diálogo intertextual entre os enunciados. 7) Para quem não lembra. antropólogos e a nata da intelectualidade brasileira já gastaram horas e mais horas. mas por ter formulado. Certo? (Helio Gurovitz. que só pensam em si e só querem saber levar vantagem. certo?” – frase dita num carregado sotaque carioca. Um deles. atravessado por um dito anterior. Gérson tentou por muito tempo se desvencilhar da fama de patrocinador dos espertalhões. de muitos sentidos. é sempre atravessado por algo que já foi dito. em certo momento histórico.. fevereiro de 2004. p. revista Superinteressante.]. aquela que viria a ser conhecida como lei de Gérson: “O importante é levar vantagem em tudo.

CAPÍTULO 10 QUANDO A ESMOLA É DEMAIS. O SANTO DESCONFIA?! João Carlos Cattelan .

por meio de polêmica com o autor.Este estudo resulta de um projeto de pesquisa1 motivado por afirmações de Roberto Pompeu de Toledo. a imposição do compromisso de manter a pátria livre. o enaltecimento dos combatentes. em texto para Veja. Assumi que os sul-americanos possuem uma idiossincrasia peculiar e. intitulado Nos hinos nacionais. trágica e sangrenta para a superação da opressão. já que foi alcançada por meio de sacrifícios e de vidas ceifadas. por forças externas e o entendimento de que os herdeiros da conquista têm um compromisso perene com a pátria. com a vida. a assunção de que a opressão é ocasionada. Na segunda parte. a criação de um dever-ser dos libertados. por consequência) seriam um incitamento à violência e espero ter mostrado que o fio que costura os hinos estudados (os sul-americanos) é a exigência intransigente da mantença da liberdade. portanto. se assim se desejar). evidenciar o recorrente e repetitivo. raiva e ameaças. o enaltecimento da paisagem geográfica do país. Defendi que os demais eixos temáticos (parafrásticos ou axiológicos. defendi que os hinos não pecam por falta de criatividade. abordei a defesa do autor de que os hinos nacionais em geral (e os sul-americanos. a ênfase na conquista belicosa. originalidade. para. por generalizações. os hinos fazem a sua apologia e a apresentam como devendo ser incondicionalmente defendida: inclusive. quando não se aplica o que denominei de assepsia do pensamento. à custa da transformação das diferenças em sítios de identidade parafrástica. a família e a propriedade (independentemente do efeito de sentido desses elementos) são sobredeterminados e subsumidos pela percepção elogiosa e grandiloquente da liberdade: crucialmente. concebendo esse fenômeno como o apagamento das diferenças. a relembrança do tempo de cativeiro. o uso de fórmulas “vazias” e “abstratas” (o non sens do significante a ser saturado). Defendi que a reiteração é obtida pelos apagamentos do engendramento do ______ [ 209 ] . Na primeira parte do estudo. com marcas indeléveis de atividade autoral. a afirmação performática de um revide à afronta. sobretudo. como a defesa do uso da violência. a celebração de uma era de bemaventurança.

quando não insultos aos estrangeiros. e convocam os nacionais a uma espécie de estado de guerra permanente”. que a “originalidade não está no fato de não ter uma origem. p. sua própria origem”. os hinos sul-americanos fazem a apologia do presente a que chegaram e o celebram com cores grandiloquentes. portanto. A CONSTATAÇÃO DE UM PRESENTE PERFEITO Como canto de louvação que enaltece o tempo alcançado após a luta e os sofrimentos que precederam a conquista da independência. Já que “contêm ameaças terríveis. apesar de haver trajetos de sentido que se “repetem” nos hinos em estudo. elaborados quase sempre em situações de guerra. Para ele. 138). fazendo crer que tudo se organiza em harmonia perfeita e sem mais metas e objetivos a serem perseguidos. Cheguei à conclusão. a alteração das letras se justificaria. em tempos em que tripudiar sobre o inimigo e xingar o estrangeiro era virtude. o que equivale a afirmar que. Um terceiro proclama: ‘Estejamos prontos para a morte”. E mais: “belicosos como são os hinos. em vez do pensar analítico. e um presente que se quer politicamente correto e consciente da impropriedade da violência”. A suposta mesmice é obtida. exibem uma ultra-sensibilidade a sentimentos como a honra. debruço-me sobre um terceiro tema aberto pelo autor com que me defronto. A história alcançou o fim para que tendia e nenhuma outra necessidade se impõe. Por meio de uma matriz de sentido que ______ [ 210 ] . pois “Um deles fala nos ‘truques miseráveis’ do inimigo. supervalorizam valores como a glória. de certo modo. apoiado em Schneider (1990. pois.texto. mas de fundar. a partir da mutilação do objeto analisado e da ansiedade de estabelecer uma lógica generalizante e simplificadora do mundo caótico que nos cerca: ainda somos guiados pela busca do raciocínio sintético. da enunciação no/do enunciado. as letras dos hinos nacionais deveriam ser mudadas. Com a independência. Além do que o autor se vale de uma campanha da “senhora Mitterrand” para a mudança da letra do hino francês. Nesta parte do estudo. É em relação à procedência da defesa de alteração das letras dos hinos. não é de estranhar a violência no futebol”. do gênero discursivo e das marcas de autoria. eles são construídos de forma diferenciada. Outro alerta os cidadãos contra os ‘ferozes soldados’ que vêm degolar seus filhos e suas companheiras’. não há mais fantasmas que pesem sobre o presente da nação e sobre o povo que o constitui. que esta parte do estudo se organiza. justificada pela “dissincronia entre os hinos.

como negar a pujança do momento vivido em face da “Igualdad” maiúscula alcançada. dada a sua parecença com a grafia de um nome próprio. Ya su trono dignísimo abrieron las provincias unidas del Sud!”. Não há. Laços de fraternidade. Essa escrita lhe impõe efeitos de grandiosidade e de presença substancial. pois. A profusão que os constitui permite afirmar que são hiperbólicos no que refere à felicidade alcançada. a vida vivida em tempo de bemaventurança. construída no diapasão da certeza e da necessidade. a superabundância enunciativa pode ser observada em “Ved en trono a la noble Igualdad. liberdade e igualdade imperam em todos os lugares e a vida pode ser sorvida em regozijo. os hinos não abrem espaço para dúvida ou questionamento.açambarca as composições. os hinos em estudo são unânimes na celebração do início de um tempo vivido em equilíbrio e harmonia. constituindo-se numa generalização generosa que alcança a todos e contempla a cada um com sua opulência de mãe prodigiosa. No hino argentino. como se o tempo alcançado albergasse a todos e lhes desse as mesmas condições de vida. vem qualificada como “noble” e seu trono é “dignísimo”. nas letras. mas é exatamente dessa exorbitância de prazeres e harmonia que se deve desconfiar. Valendo-se de uma modalização indicativa abrangente e generosa. Em coro à primeira parte do primeiro capítulo deste estudo. E mais do que isso: eles criam um efeito de constatação descritiva. Isto significa dizer que os hinos consideram o presente resolvido e o fazem de uma forma taxativa e indubitável: uma pura constatação. Não bastassem esses traços meritórios (a grandeza e a substancialidade). Esta seção tem. agora a gerência da vida pública é exercida não por pessoas. como objetivo a demonstração da presença teimosa e renitente de um presente vivido em igualdade ubíqua e que esse efeito ou matriz de sentido é apresentado como inquestionável e sem necessidade de modalizações que o coloquem como relativo a um grupo social. que não aparece grafada com inicial maiúscula casualmente. esta primeira parte tem como objetivo atentar para um ponto específico da escritura dos hinos sul-americanos: o de que a sua matriz discursiva cria o efeito de sentido de que o presente pode/deve ser vivido em igualdade de condições por todos e que não há mais diferenças entre os cidadãos do país. Contrariamente ao trono que antes era ocupado pelo representante do império espanhol. mas por uma matriz de comportamento da gestão do bem comunitário: a Igualdade. Está-se em presença de tudo aquilo que se deseja e as diferenças que existiram se acham suprimidas. E chamo a ______ [ 211 ] . portanto. além do que a alça à condição de entidade personificada. que mostra que os hinos celebram.

por isso. o presente romantizado e idealizado é cantado nos versos “siguen hoy. O hino permite inferir que. dentre os traços meritórios que a independência obteve. Além disso. quem chegou ao trono foi a justiça e. a igualdade. a opressão e a exploração provocadas pela submissão ao império espanhol. parece não haver desejo maior da parte de cada homem do que viver em paz e união e ver a todos sendo tratado com justiça (embora se deva ter em mente que esses termos são preenchíveis por cada formação discursiva da forma que mais lhe parece plausível). neste sentido. Com a igualdade. Como se pode perceber. felicidade. agora. hinos “dulces” (com tudo que “doce” produza de efeitos elogiosos) seriam ouvidos em todos os lugares. não são versos de pouca monta ou que não exalem deleite e encantamento frente à cena que parecem contemplar. quando está pressuposto que ela alcança a todos: não há igualdade entre pessoas que são mais iguais do que outras. nele. não mais hierarquizando os cidadãos entre os pertencentes ao poder imperial e os que. vários versos apontam a existência idílica após a proclamação da independência do país. A somatória dos traços paz. A chegada da independência. harmonia e justiça açambarcam num só movimento o que parece remeter à terra onde correm o leite e o mel e ao eldorado mítico da existência tecida no diapasão da realização plena e absoluta dos desejos humanos. “hoy”. teria colocado o país em “contraste harmonioso” e. contrariamente à injustiça que se pode pressupor que existia antes. No hino boliviano. Por outro lado. doçura. a pátria é “feliz” e. Não bastasse isso. todos são tratados de forma igualitária e digna. união. já que as matrizes destacadas são possíveis apenas quando vividas por todos e em plenitude. en contraste harmonioso. No hino brasileiro. deviam-lhe submissão e vassalagem. Dentre eles. Neste caso. submetidos ao tacão real.atenção. para o fio da meada que tento alinhavar nesta seção: só se pode falar de uma relação de igualdade. Esta é a Bolívia desenhada pelo hino nos versos destacados. pode-se destacar: “E o sol da Liberdade em raios fúlgidos brilhou no ceu da pátria neste instante ______ [ 212 ] . um sobressai. contra a desarmonia. os argentinos estão ao abrigo da indistinção e da isonomia de tratamento: eis a celebração de um tempo vivido como nos mais profundos sonhos da existência comunista. da união e da justiça. dulces himnos de paz y de unión – Aquí alzó la justicia su trono – es la patria feliz donde el hombre goza el bien de la dicha y la paz”. oportuniza que cada um goze de “la dicha y la paz”. o presente seria caracterizado pela presença abrangente da paz. E eles não dizem respeito a um ou outro cidadão: nada há de restritivo em sua aplicação. a partir de ditames pautados na legalidade e não na voz ilegítima de um poder totalitário. que se espraia alcançando a todos.

pois ser livre. Além disso. como raios solares que brilharam no ceu da pátria. Eis a chegada à terra prometida e o alcance da vida vivida em perfeita harmonia. pode-se ouvir a entoação enfática da exuberância da pátria. promete deleites e prazeres aos cidadãos. junto à Igualdade. E a Liberdade. por onde quer que seja observada. o país. ‘Nossos bosques têm mais vida’. ainda. ‘Nossa vida’ no teu seio ‘mais amores’”. por fim. de uma maneira modesta ou incipiente. De ______ [ 213 ] .Teus risonhos lindos campos têm mais flores. alcançando a todos que. também não é grafada com maiúscula fortuitamente. um tanto quanto miraculosamente. ar. como no caso do hino argentino. de certo modo. Como nos demais hinos. português). constituída pela flora exuberante e pela fauna ímpar. pressupõe-se que o cotidiano dos conterrâneos teria passado. puras brisas te cruzan también. E. equivale a ser igual e vice-versa. além de imprimir traços de grandeza e substancialidade. cuja somatória são “la copia feliz del eden”. teria se tornado a “mãe gentil” (e não qualquer mãe) que acolhe a todos os filhos e os supre com o amor e a resposta para as necessidades que tenham. que. que. percebe-se o anúncio triunfante do alcance da terra mítica em que jorram leite e mel e do eldorado onipotente. imprimem sobre a paisagem. campo. cria-se a imagética de um espaço físico capaz de acolher a todos e suprir o que se imponha para a sobrevivência. a se pautar na Liberdade. com o desenho de uma paisagem majestosa.Dos filhos deste solo és mãe gentil. Nada escapa ao olhar que açambarca a natureza física do país e a considera como a impressão em alto relevo da realização perfeita de um território. outra vez. ela sobredetermina o objeto discursivo com efeitos de personificação. Vejam-se os versos que. y tu campo de flores bordado es la copia feliz del eden. de modo ufanista. sobre o país e sobre os cidadãos efeitos de sentido todos construídos sobre um prisma de avaliação positivo e meritório: “Puro. dado que. es tu cielo azulado. Composto por elementos heteróclitos. propiciada pela abundância da terra natal. y ese mar que tranquilo te baña te promete futuro esplendor”. um projeto totalizante de unificação se acha posto em mira e dos elementos pátrios (ceu. montanha.Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte . Chile. com a supressão do jugo (no caso. No hino chileno. teria chegado a liberdade. mas de uma forma contundente. mar) se afirma que perfazem uma totalidade. o que não poderia deixar de ser. estariam sob a salvaguarda dessa proteção benfazeja. não teria chegado. De novo. . em sua magnitude. Majestuosa es la blanca montaña que te dio por baluarte el Señor. tendo alcançado a liberdade buscada. doravante. Por outro lado. pode-se perceber a grandiloquência da afirmação que promete a todos o tratamento isonômico e igualitário. em face da sua constituição de nome próprio.

embora ele não aborde os temas da liberdade. essas matrizes podem ser recuperadas nos sentimentos que despertam naqueles que as usufruem: e os equatorianos fazem parte desse grupo. Por meio dos versos “la libertad sublime derrama las auroras de su invencible luz”. a luta empreendida pelo povo não teria se dado por alguma causa pouco “convencional” ou restritiva. não apenas teria chegado para os colombianos. rebosa gozo y más que el sol contemplamos lucir. o presente do país permite perceber que “Ya tu pecho. Atente-se que o efeito de sentido de cada um desses elementos entrelaça o mundo físico e o mundo social. em face dos ensinamentos de uma das figuras míticas da revolução (Nariño). a liberdade. a justiça. da montanha majestosa e do mar tranquilo e promissor. a existência teria se tornado perfeita pela concessão de uma vida harmoniosa e igualitária. por fim. Dada a liberdade e os direitos humanos conquistados. se o mar promete futuro esplendor. em face do ceu azul. dos campos floridos. mas em busca “Del hombre los derechos”. tu frente radiosa más que el sol ______ [ 214 ] . A aurora e o renascimento que a liberdade traz consigo projetaria sobre cada um a sua “invencible luz”. a vida é paradisíaca. das brisas puras. igualdade e fraternidade. Tendo alcançado o objetivo sustentado por essa perspectiva. constata-se que cada um terá seu quinhão nesse espaço ideologizado. puras são as relações sociais que se vivem cotidianamente. a educação. a união) acima de outra busca que não o ponha como fator preferencial do gerenciamento público. No caso do hino colombiano. Por meio dessa ubiquidade perfeita. ao lado da descrição pungente e dolorosa da batalha pela conquista da independência do país e do sofrimento que afligiu o povo enquanto esteve sob os ditames do regime imperial.onde quer que seja olhado. Para o hino. el alma de la lucha profético enseñó”. “En su expansivo empuje la libertad se estrena” e “Del hombre los derechos Nariño predicando. a composição constata. e. estão protegidos os que habitam esse espaço. essa riqueza pertence a todos. a igualdade. tranquila é a vida dos chilenos. o Chile é o paraíso terrestre. y tu frente. tu pecho. a presença de uma liberdade profusa e generosa que atinge a todos indistintamente. se as brisas são puras. No hino nacional equatoriano. se a montanha foi dada pelo “Señor” como baluarte do país. mas ela “derrama” a sua luz de forma exorbitante e excessiva sobre todos. calmo e tranquilo e permitindo a existência plena e harmoniosa entre os conterrâneos. se o mar é tranquilo. qualificada como “sublime”. Por outro lado. a exemplo dos outros. a liberdade. Se os campos são a cópia do paraíso. com efeitos generalizantes. colocando-os numa relação de sobredeterminação. tornando o mundo ameno. a luta teria indicado o caminho a ser trilhado pós-independência e posto os direitos do homem (a paz.

afirma-se que “Libertad y justicia defende nuestra Patria”. a alegria entusiasta que alcança. “de riquezas. “Que en concurso de grandes naciones nuestra patria entrará em parangón”. os equatorianos vivenciam uma experiência grandiosa de felicidade e. afirma-se que. por fim. neste sentido. livre e justo. Constata-se. são inúmeros os recortes em que se podem perceber ecos de exaltação triunfante do país. não se aborda qualquer alcance restritivo em relação aos bens disponíveis para todos: o solo divinal é comum e partilhado. No hino nacional paraguaio. o país e o povo. divinal. O diapasão que conduz a composição do hino pinta um quadro cujos elementos são todos meritórios e elogiosos. magnífico Edén”. da luta pela liberdade. heroico. pois se ele é livre. seu “suelo sagrado con sus alas un ángel cubrió”. Os paraguaios estariam postos sob a salvaguarda divina e de posse do “magnífico Eden” que constitui o seu solo pátrio. que se agrega à luz solar e não havia antes: a liberdade. agraciados pelas características atribuídas ao país. Em face do presente. Destacam-se “Somos libres seámoslo siempre”. A recolha rápida do léxico utilizado e dos efeitos de sentido que o acompanha permite afirmar que o Paraguai seria glorioso. No hino nacional peruano. não mais se contempla apenas a luz do sol. Nenhum percalço se denuncia nessa existência paradisíaca. embora apareça matizada pelo ______ [ 215 ] . sagrado. virtuoso. justo e virtuoso. “De la tumba del vil feudalismo se alza libre la Patria deidade”. o que produz dois efeitos de sentido: a luz que se mira é outra. fazendo que o seu peito transborde de “gozo” e o olhar e o rosto estejam radiantes. ou a luz que se observa é mais contundente e relevante do que a própria luz do astro celeste. por isso. alguns versos em especial apontam para o período de bem-aventurança vivido pós-independência. vivamos tranquilos”. concomitantemente. E. transbordam de gozo e estão radiantes. A independência teria permitido que ele realçasse “su gloria y virtude”. nos versos. rico. De toda sorte. além disso. Todos os cidadãos seriam. e. “de heroísmo. dentre outros ingredientes de constituição. “En la lista que de estas se forme llenaremos primero el reglón” e “A su sombra. O primeiro aspecto a se destacar se refere à afirmação impávida da certeza da liberdade. [é] baluarte invencible” e. iluminados por essa luz resplendente. E não há exceção para esse estado de espírito: todos estão felizes e satisfeitos. O hino começa pelo primeiro verso destacado e por uma constatação indicativa e modalizada na forma da certeza: “somos libres”. de novo. também o são os conterrâneos.contemplamos lucir”. que são alcançados pelas graças profusas e generosas de um país coberto pelas “alas de un ángel” e tocada pela sacralidade de “la Patria deidade”. que aparece adjetivado e associado a sentimentos do mais alto grau na escala de valor positivo.

O segundo aspecto se refere ao fato de a flexão verbal se valer da pronominalização “nós”. efusivo sobre a temporalidade presente e grandiloquente na forma de decantar a pátria que acaba de se tornar independente. Por outro lado. se alguma comparação for estabelecida. em virtude de seu caráter inclusivo. se o país será o primeiro na comparação efetuada por meio de concursos entre nações. mucho cuestas tesoro sín par! Pero valen tus goces divinos esa sangre que riega tu altar”. ______ [ 216 ] . ao povo e ao tempo vivido: que. seriam livres e agraciados pelo estilo de vida que a presença meritória permite. destaque-se. Destacam-se “La justicia. É possível dar destaque a. pelo menos. justicia y virtud. além de considerálo soberbo (grandioso. imponente. O segundo diz respeito à perífrase que “denomina” o país cantado pelo hino: o Uruguai é “La Amazona soberbia del Sud”. justa. há a afirmação de uma liberdade retumbante que caracteriza o tempo presente e o dá como plenamente resolvido. “De laureles ornada brillando La Amazona soberbia del Sud. criar uma relação superlativa do país em relação às outras nações do hemisfério. Mescla de um povo ímpar e de uma nação grandiosa. alcança a todos. tida como produtora de “goces divinos”). promissor. virtuosa e livre. estão ultrapassados e perdidos no passado. explícita ou implicitamente. En su escudo de bronce reflejan Fortaleza. caracterizada como “tesoro sín par”. nos outros versos citados. vence”. não custa lembrar: se a pátria é forte. No hino nacional uruguaio. pois o país poderia ser comparado às grandes nações. com a dêixis de lugar ideologizada. afirmar o potencial guerreiro. três aspectos no tocante a estes versos. não bastasse. várias passagens. E. desenha-se em alto relevo um quadro otimista e ufanista em relação à nação. O terceiro se refere à constatação de que o país não admite qualquer intrusão ilegítima de poder. A perífrase logra. de força. bravo e lutador do Uruguai. e. dentre outros efeitos) e. Por um processo de sobredeterminação. libertad adorada. gera o efeito de sentido de que os peruanos. ni opresores le imponen el pie”. na lista que se forme no ranking efetuado. também seriam os que a habitam. por último. além do mais caracterizada pela liberdade. isto se deveria ao fato de o povo sobressair. destacam-se a louvação e a exaltação. “Libertad.slogan convocatório: “seámoslo siempre”. indiciam a magnitude da vida vivida no diapasão da bem-aventurança e da história equacionada sem percalços: se existiram. brilhante. sem exceção. o país seria o primeiro no “reglón”. quando comparado a outros povos. de justiça e de virtude distribuídos aos uruguaios. que. Ni enemigos le humillan la frente. De toda forma. O primeiro remete aos traços dados como matrizes da existência vivida após a independência: eles remetem ao estado de liberdade (enfatizada pela repetição. pela relação com “el Sud”.

laços de fraternidade. pois não encontro forma melhor de fechá-la. sob a guarida da pátria e do povo. pois os dividendos positivos que as vidas ceifadas concederam açambarcariam a todos. pois. “se el despotismo levanta la voz seguid el ejemplo que Caracas dió”. liberdade e igualdade imperam em todos os lugares e a vida pode ser sorvida em regozijo. como afirma o hino. A observação dos hinos em estudo demonstra “a presença teimosa e renitente de um presente vivido em ______ [ 217 ] . construída no diapasão da certeza e da necessidade. de certa forma. Eles. termo a termo. alienado em relação ao presente histórico que sucedeu às independências. ufanista. como anunciei. por meio do verso “Gloria al bravo Pueblo”. Parece plausível concluir que os hinos sul-americanos pintam um quadro idealizado. ele se acha ultrapassado e o seu jugo não mais determina o cotidiano. trabalham sob um efeito de constatação descritiva.seja oriunda de “enemigos” ou de “opresores”. Aqui. em virtude da superação do jugo. O povo tem o que deseja. Ao invés dos ditames do autoritarismo e da ditadura do poder imperial. enaltece-se o povo. por ele ter superado o jugo opressivo do poder ditatorial. a hipótese que fixei no começo da seção. Como dito antes. cada país alcançou um tempo de bem-aventurança e uma existência histórica que se encontra a salvo de qualquer problemática concreta que traga vicissitudes e sobressaltos para os conterrâneos. que toma como elemento prevalecente a honra e a virtude. nele. respeitar-se-ia “la ley” e as relações seriam tecidas com “virtud y honor”. de acordo com as composições. romantizado e. como se a plenitude atingida albergasse a todos sob as mesmas condições de vida. Como se pode perceber. agora as decisões ocorreriam sob os auspícios da lei. Transcrevo. Uma vida legal (ambiguamente). O objetivo desta seção era mostrar que a matriz discursiva dos hinos em estudo se tece sobre o fio de que o presente posterior à eliminação do império espanhol (e do português. virtuosa e honrada caracterizaria a temporalidade do povo venezuelano e a sua existência se daria sob a presença da liberdade para todos. Por meio da modalização indicativa grandiloquente. se houve um tempo em que o despotismo fazia ouvir sua voz e impunha o seu regime. pois. No caso do hino venezuelano. e se celebra o presente. o que gera o efeito de que. no caso do Brasil) foi vivido de forma harmônica por todos e que não houve maiores problemas que alcançasse os cidadãos. Do Uruguai é dito que “brilla (sob) laureles” e que “esa sangre que riega el altar” da liberdade se justificam. não existe ameaça que tolde a existência idílica. idílico. as diferenças se acham suprimidas e nenhum resquício de irrealizado existe. os hinos não admitem sobressalto ou incômodo na vida. pode-se perceber que.

contra a superabundância enunciativa genérica e generosa que parece modalizar a vida sul-americana com a certeza de uma vida idílica. mas apontam para o que gostariam que existisse. O primeiro deve ser tributado a Michel Pêcheux (1990). as perseguições políticas. como se a teleologia histórica do país estivesse realizada. No texto. O INVISÍVEL/VISÍVEL IRREALIZADO Preciso reconhecer imediatamente a paternidade dos dois princípios de que me valho para organizar esta seção e para defender o fio sobre o qual alinhavo as reflexões realizadas. afirma que as revoluções são a emergência violenta do irrealizado invisível que deseja se tornar ouvido. as diferenças materiais de vida existentes ainda hoje). haja vista os golpes militares. Mas a história não contemplou a todos com igual generosidade e nem transformou o presente canhestro de uma hora para outra (se é que o fez alguma vez. constituindo-se numa generalização generosa que alcança a todos e contempla a cada um com sua opulência de mãe prodigiosa. Feita a demonstração que eu pretendia como passo inicial para o que realmente desejo discutir. Há que se suspeitar da superabundância que os habita e colocá-la sob o diapasão da negação de que a vida esteja servida vivida plenamente e com fartura. a existência tivesse se tornado paradisíaca. que. avanço a hipótese que deve alicerçar as reflexões feitas a seguir. Os hinos são cantados com efeitos de constatação. Até se pode admitir que. os hinos sejam grandiloquentes na comemoração e na celebração efusiva e inebriante da liberdade almejada. como se todos fossem dormir oprimidos e. não afirmam o que existe. Deslocamentos. A força descritiva os habita. Isto significa dizer que os hinos sul-americanos consideram o presente resolvido e o fazem de uma forma taxativa e indubitável: pura constatação. ao alvorecer. Entretanto. mas é exatamente dessa exorbitância de prazeres e harmonia que se deve desconfiar”. aponta para a falta do que ainda não foi obtido: eles ocorrem mais como atos falhos. a tortura. o autor passa pela discussão da Revolução Francesa. que. em Delimitações. Inversões. da Revolução Socialista a partir do Século XIX e das Revoluções do Século ______ [ 218 ] .igualdade ubíqua e esse efeito de sentido é apresentado como inquestionável e sem modalizações que o coloquem como relativo a um grupo social. na verdade. dada a presença viva do imperialismo na América Latina por séculos. os hinos podem ser pensados (talvez prioritariamente) mais como memória de futuro e como manifestação do irrealizado.

por serem recalcados e se tornarem inaudíveis (e. no que ele denomina como denegação.XX. um tanto quanto livremente. No livro Psicopatologia da Vida Cotidiana. rompendo com o círculo da repetição (1990. É através destas quebras de rituais. a partir do qual o lapso pode tornarse discurso de rebelião. os lapsos. que os erros e lapsos cometidos na vida de vigília (se bem que ela exista também nos sonhos) se baseiam em alguma causa inconsciente. ele a nega. mas. mas que já vi ocorrer em inúmeras situações: quando se afirma reiterada e abusivamente “eu te amo”. para Freud. nos momentos de discórdia. os equívocos. Dito de outro modo: quando o paciente recusa um “conteúdo”. nas negações passageiras. pertence a Freud (1966). quando o “paciente” diz sim. ele nega (não que seja ubíquo e se aplique peremptoriamente. o paciente quer efetivamente dizer “sim”. dentre outras irrupções de que algo não vai bem. É pelo fato de negar que ele afirma e admite. Seja o caso de o paciente afirmar “ele não é meu pai”: o efeito seria o de afirmar que “ele é seu pai”. O segundo fio que utilizo. para a organização desta parte da discussão. ao negar. coloco este conceito sob outra mirada. para poder pensar que. Ao dizer “não”. o enunciado parece indicar justamente a ausência do afeto em questão. dada a incompetência da política instituída de fazer frente às demandas que se colocam. o “paciente” afirma. o pai da psicanálise postula. ao afirmar. parece que. um destes equívocos ou erro se localizaria. o analista deve fixar o seu efeito de sentido exatamente pela leitura contrária. Para ele. seriam acertos explicáveis pelo diapasão da vida inconsciente e fora do controle de um ego central e princípio de unidade (se é que o “eu” do ego cogito existe em algum tempo). nos erros cometidos frente ao posto. em outro polo. ele quer dizer não. o ensinamento que subjaz a elas se refere ao fato de que são o apogeu pungente de uma ebulição de vontades e desejos que. Um exemplo para pensar. por isso. as revoluções se forjam nas minúcias cotidianas. conceituando-a como o fato de a negação linguística superficial dever ser lida como afirmação e não como negação. os chistes. destas transgressões de fronteiras: o frágil questionamento de uma ordem. o pleito se ______ [ 219 ] . Um tanto livremente. p. as falhas. pelo fato de a admissão ser indesejável. os trocadilhos. acabaram culminando em momentos críticos de violência. de motim e de insurreição: o momento imprevisível em que uma série heterogênea de efeitos individuais entra em ressonância e produz um acontecimento histórico. Para ele. de forma bastante ilustrativa. Os esquecimentos. ficarem irrealizados). Para Pêcheux. às vezes.17 – grifos do autor). Eis a denegação. o ato falho. Se. ou a negação da negação. dentre outros “erros” cometidos. No bojo da discussão.

Isto quer dizer que os hinos sul-americanos oscilam entre a percepção um ______ [ 220 ] . atento para alguns recortes que. dado o transbordamento e a manifestação hiperbólica de uma existência idílica e idealizada. Valendo-me do insight de Freud. eles teriam uma contradição lógica. pois. O fio da navalha reside na hipótese que pretendo defender: contra o deslumbramento e o êxtase efusivo da pátria paradisíaca. permitindo a hipótese de que ocorrem como atos “indesejados”) instigam para a necessidade de lutar pela manutenção do estado alcançado. outros versos (em número menor e. ao lado do êxtase grandiloquente da existência bem-aventurada. Contra a enunciação indicativa e certeira demonstrada. indiciam a irrealização e o desejo de que ela se concretize (ou perdure. se os laços de fraternidade “constatados” existissem. que coloca a história como plenamente resolvida. denomino. Neste sentido. para a não realização plena do que parece realizado e para a obrigação de evitar que alguma fratura quebre a paz e a união. revela o outro lado da moeda (não o que se tem. ou seja. Para defender a hipótese que acabo de assumir e demonstrar que. voluntária ou inconscientemente. indicam o desejo de realização do irrealizado e apontam uma memória de futuro. esse processo de desafirmação. os hinos. a virtude. Penso poder afirmar que a profusão enunciativa e o exagero de louvação mostram o invisível que se torna visível num momento em que os ventos do acontecimento permitem que ele se manifeste (o que não significa que ele estivesse realizado ou já dado). O leitor deve estar perguntando como isso se relaciona com os hinos sul-americanos: como o invisível irrealizado das revoluções e a desafirmação da superabundância enunciativa são relativos à sua composição.aplica). mas o que se deseja ter). movimentando o pêndulo no sentido de afirmar indicativamente a bem-aventurança. Se os hinos fossem tomados de um ponto de vista estritamente textual. por meio da esquiva ao controle do ego unitário. o que os hinos afirmam como uma concretude visível. por isso. se é que já foi alcançada). não é mais do que a revelação de uma falta. como lapso. a honra. revelam a ausência. os hinos. o irrealizado se manifesta e. O que celebram como parte da vida concreta é o que ainda não foi conquistado e não a pura constatação objetiva e referencial do existente. a falta do que todos querem e do que os hinos levantam as bandeiras. revelam exatamente o que falta: a liberdade. ao lado de enunciados que indicam a existência objetiva e vivida de um presente repleto de abundâncias e prazeres. a justiça. a paz. Como assumi. como lapsos excessivamente abusivos. a união. como um ato falho insidioso. não haveria por que tentar evitar a possibilidade real de sua perda. à falta de termo melhor.

como marcador de pressuposição. Contra a ameaça presente das dores vividas. O mais evidente diz respeito ao fato de que. uma vez conquistada a independência. É evidente que a grande maioria da população acordou nos dias. meses e anos seguintes à proclamação da independência do mesmo modo que antes de ela acontecer.tanto incrédula do que parece constituir a história e a ameaça eminente de que venha a evanescer como fumaça. elas não estão atingidas plenamente. com certeza. um invólucro sem sentido. No hino boliviano. E. não foram todos. devendo ser buscadas e ampliadas a cada demanda. Outro. ainda. contra o deslumbramento efusivo com uma realidade já dada a ver (ele açambarca meio que o todo das letras dos hinos). ela não é gloriosa. O medo do retorno ao ______ [ 221 ] . nas demais. dado que um estado de vida de bem-aventurança não nasce armado e resoluto em toda a plenitude. as glórias ainda não existiam em face da opressão do imperialismo. determinadas passagens apontam para a dúvida sobre essa evidência e a necessidade de conquistá-la. a existência de um conjunto de elementos que ainda são sonho e não objetividade realizada. que pode significar qualquer coisa. semanas. se a vida em gloria está no seu início. há os versos “las glorias que empieza hoy Bolivia feliz a gozar”. de modo inseguro. Para a confecção desta seção. mas é conquistado cotidianamente e com a resposta imediata a cada quebra dos rituais previstos. elas ainda são tênues e podem se desfazer a um ruflar de asas. Outra janela remete à flexão verbal “empieza” que. as reflexões não possam ser ratificadas. por isso. No limite. Este recorte permite diversas entradas para a demonstração do irrealizado contra o realizado indicativo que caracteriza outras passagens. deve-se admitir que não existem. a celebração não pode ser mais do que a comemoração ainda contida da vida que parece começar a se concretizar. percebe-se que os hinos afirmam. Ela é o nada que é tudo e é o tudo que é nada. se começa a gozar. Detenho-me em recortes de algumas composições que revelam o ponto de vista assumido. não sigo o caminho “lógico” da seção anterior. se ele ainda é incipiente. A expressão funciona como uma fórmula vazia e genérica. permite a detecção de vários efeitos de sentido. Se não é possível falar sobre as glórias presentes. por fim. mas isso não transformaria o presente numa época de bem-aventurança. passando por cada hino. aponta que. se as glórias estão no início. indicia que as glórias estão no início e. nem todos (ou ninguém) foram agraciados de imediato pela vida em glória. Parece inquestionável que. o que não significa que. Outro. não há como falar de um instante pleno. Quero relembrar que eles são trazidos para mostrar que. Uma delas se refere a “las glorias”. Elas poderiam ser apenas a independência conquistada. Nesse caso. Outro mostra que.

se o país é amoroso. em detrimento do povo. não se justificaria pedir que “seja”. Ao afirmar que a Bolívia está feliz e começa a gozar as glórias da independência. não se pode ter certeza do que virá. sob outro prisma. Ou. Antes. os beneficiários são as pessoas que o habitam. ela é que precisa estar em ordem. olhando para o passado. no modo imperativo. permite inferir que. se. no futuro. pode-se efetuar uma enunciação positiva. a metonímia constituída pelo uso de “Brasil” ao invés de “brasileiros”. certeza alguma pode ser enunciada. antes do presente. aponta para dois efeitos distintos. Esse discurso não é estranho às paragens brasileiras. se o país vai bem. por meio da metonímia. ou seja. mesmo que as pessoas estejam passando por contratempos. como no hino boliviano. Por outro lado. revela que. isto não ocorria antes e também não se tem certeza do futuro: parece que. mesmo que tenha que abdicar de determinados direitos. em que alguns efeitos de sentido são detectados em “contradição” com a bem-aventurança louvada. mesmo que se queira efetuar a imbricação lógica de que. Se. Mas o descolamento constituído parece abrir brechas para que se perceba que. O recorte. A terceira entrada se refere ao dêitico temporal “hoy” que. parece impor a injunção de um modo de ser que não existe. a flexão verbal “seja”. Assim. fazendo eco ao marcador de pressuposição “empieza”. um pouco de medo) do outro. do todo pela parte. após o dia vivido. coloca em preponderância a pátria e não o povo. No caso do hino brasileiro. de amor eterno seja símbolo”. por meio do nome do país “Bolivia”. o estado glorioso não existia. Se “hoy” o país. ao afirmar que ele deve ser símbolo de amor eterno. o mesmo não ocorre com relação ao devir. sobre ele. perceba-se que. tudo está dentro da normalidade. mesmo que já fosse. sobre o passado. como um lapso inesperado ou equívoco “indesejado”. mais do que o povo que constitui a nação. permite a descrença na superabundância e na prodigalidade em que. O descolamento entre as pessoas e o país. a imposição indicia a descrença ou ______ [ 222 ] . creio dever dar atenção para a metonímia2 efetuada na composição da letra. revelam-se a certeza de um sentido e a incerteza (talvez. dando-lhe tons menos efusivos do que ela gostaria de colocar em sua prosódia. No advérbio “hoy”. por exemplo.jugo vivido parece pairar sobre a enunciação de louvação. devendo este cooperar para a grandeza daquele. Por fim. dentre outras. a percepção de não existência do mundo paradisíaco celebrado em outros momentos pode ocorrer na passagem “Brasil. Se o país já fosse um símbolo de amor eterno. em detrimento do seu povo. feliz. começa a viver as glórias. pretende-se afirmar que os bolivianos estejam felizes e vivendo em glória. aparentemente. assumese que é o país que tem primazia. também permite inferir que. pois. a Bolívia (e o seu povo) teria imergido após o acontecimento da independência.

No hino. o que impõe que se perceba que. há o choque provocado pelo verso que afirma que a independência. sem que uns sejam mais iguais do que outros. o hino da Colômbia faça a apologia da liberdade. o invisível irrealizado. portanto. empurrava os combatentes. manifesta-se. a passagem destacada quebra a apologia grandiloquente e coloca no terreno da objetividade positiva o que cumpre realizar para que a liberdade efetivamente se torne uma presença nobre e digna. interroga a certeza do gozo feliz de um presente que se ressente da concretização daquilo que a proclamação da independência prometia. E o hino alerta: o limite de busca dos combatentes não coincide com a possibilidade de autonomia do próprio país. se a independência era desejada. assim que superasse o jugo imperial. apesar de o encantamento da liberdade ser um fio temático do hino em pauta. “invisivelmente”. uma vez sendo eliminado. justicia es libertad”. Essa é uma práxis social e ordinária que não distingue e nem hierarquiza os homens. ou seja. o tema fulcral da sua conquista está ligado às realizações da vida concreta de quem lutava para que a supressão do jugo ocorresse e tivesse as vontades levadas em conta. No outro verso. o império espanhol. Como se vê. é contundente o alerta de que. Já à primeira vista. a liberdade se torna tangível e real. permitia promessa de realização do que era desejado por quem passava fome e vivia ao relento. à guisa de aviso. Embora. Pode-se inferir que há um efeito de sentido presente no verso que soa. mais do que a constatação de um estado de felicidade para todos. para o que competia alcançar. o verso. apenas sob a condição de o sol (e os efeitos de sentido que se associam a ele) iluminar a todos e de as condições concretas de vida plena estarem satisfeitas. Ainda: se a injunção é feita em termos de dever vir a ser símbolo de amor eterno. desejava-se o que se supunha que viria. mais do que ela. si el sol alumbra a todos. o país não é o espaço benfazejo que alguns versos constroem. não silencia e nem acalma o grande clamor que se ouve. Responsabilizado pelas mazelas sociais do povo. por si só. isso é plausível sob a âncora de que o amor decantado não é uma realidade que alcança a todos como se defende em vários recortes e. Portanto. como um equívoco que rompe o ritual e provoca abalos nos cristais sedimentados das significações “desejadas”. assim. pois é presenciada na contraparte visível e material que a constitui: na justiça que se torna palpável na vida cotidiana e nas necessidades materiais e sociais de que todos devem usufruir. No hino colombiano. pois. a contraface da superabundância prodigiosa pode ser detectado no recorte “La independencia sola al gran clamor no acalla. ______ [ 223 ] . mas com a realização do que.a insegurança frente à promessa de estado que se anuncia com a conquista da libertação. a cota de irrealizado invisível que tem ansiedade de se materializar.

há a chamada de atenção para que os dirigentes do país ouçam o clamor popular e atendam ao irrealizado que se manifesta nas vozes que pretendem se tornar audíveis. talvez) da voz que celebra e enaltece o presente vivido. ni siervos alientan donde reina unión e igualdad”. a pátria já é o que diz que “é”. De novo. doce e cingida por louros. por um lado. um primeiro recorte atende bem aos objetivos desta seção. doce e coberta de louros. por outro. num país que se deseja unido e igualitário. Na ode. num diapasão. Ele se refere à passagem “ni opressores. se atender à inescapável exigência de fazer com que todos sejam tratados de modo isonômico. também há efeito condicionante de que a pátria só pode ser pura. No hino peruano. sem opressores ou servos. possa-se afirmar que a segunda via parece mais plausível. o que implica na pressuposição de que. talvez. sem que uma seja excludente em relação à outra. efusiva e grandiloquente. pode-se entender que o hino assume que a pátria é pura. a união e a igualdade são constitutivas do vivido e a injunção orientadora de que. pelo menos. pois. ocorre o juramento de que se deve mantê-la livre. ao lado (ou sobreposto. ostentando esses traços por defender a união e a igualdade. dois recortes tornam saliente uma vontade de futuro e a injunção de uma busca permanente. o ato falho. pode ser lido no mesmo fio do anterior: “Oh! cuán pura. Dado que o hino foi composto perto do instante da conquista da independência do país. como voz sob a voz. revelam-se fragmentos de espelho que estilhaçam a unidade do discurso unitário e fraturam a vontade de uma celebração hegemônica. O primeiro recorte é “para siempre jurémosla libre manteniendo su próprio esplendor”. Se. De toda sorte. No caso do hino paraguaio. eles fazem perceber que o presente não satisfaz a todos os anseios como desejaria sustentar. Ao lado da celebração do encantamento com a pátria esplendorosa. a opressão e a servidão não devem existir. de lauro ceñida. no limite. ouve-se o alerta que impõe uma atitude frente ao futuro de atentar para os clamores invisíveis. Elas se sustentam em dois movimentos pendulares. a polissemia dá o tom da passagem e. Se. O recorte seguinte. Por meio da visita à zona do silêncio. que oscilam entre a percepção positiva da existência já concretizada e verificável e a chamada para uma atitude que atende à injunção de uma ordem pautada num slogan. escolhido para a composição da defesa de um invisível que deseja se tornar real. se o povo ainda não está realmente liberto em face do tempo decorrido entre a proclamação ______ [ 224 ] . É possível seguir duas vias para a leitura. o equívoco e a quebra do ritual revelam o irrealizado e a vontade popular de que o mundo seja de outro modo. dulce Patria te ostentas así”. construindo-o de forma meritória. O recorte flutua entre a afirmação modal da certeza de que já não há opressores e servos no Paraguai.

ao juramento de manutenção do esplendor da pátria. contemplado em relação aos sonhos buscados por quem. se a liberdade é um fato tangível e objetivo. por outro. Além disso. y el código fiel veneremos inmune y glorioso”. estão atreladas a opulência e a autonomia do povo peruano. ao invés de enaltecer um estado resolvido de forma perene. “que a los siglos anuncie el esfuerzo que ser libres por sempre nos dio”. denuncia a insegurança sobre a certeza da sua manutenção. o hino convoca para a manutenção dos direitos civis e das premissas da lei. Um exemplo pode ser observado no recorte “de los fueros civiles el goce sostengamos. inclusive. por um lado. não havendo outra razão para que a demanda injuntiva de luta pelas conquistas obtidas seja reiterada a cada nova entoação da canção pátria. por isso. devendo haver a luta constante da pátria para que as pessoas sejam livres. Assim. As flexões verbais “sotengamos” e “veneremos”. ao celebrar e cobrar a rememoração do gesto dos que deram a vida pela conquista. Se. as possibilidades de realização estão prenunciadas e não realizadas em definitivo. O hino uruguaio é abundante na chamada de atenção para o fato de que o gozo que os outros hinos admitem existir em profusão ainda ocorre de forma tímida e começa a acontecer. Uma mescla de entusiasmo ______ [ 225 ] . não se deixa de exaltar o presente vivido. mas não está conquistada para sempre e se deve buscar mantê-la ao custo que se imponha. Como se observa. mas como metas a serem concretizadas no decorrer dos dias. é possível inferir que não se tem total certeza de que o estado de liberto seja mantido naturalmente. Neste sentido. permitem pressupor que já se está de posse de algum elemento. cobra-se o atendimento aos desejos e sonhos dos combatentes. por um lado. O irrealizado e o invisível irrompem no tecido da celebração extasiada.da independência e a composição da canção. o uruguaio é construído como slogan injuntivo e imposição de comportamento futuro sobre os cidadãos do país. Se a luta pela independência estava pautada no irrealizado e no invisível que se queria visível e se a superabundância que o hino revela é mais o que se deseja do que o que se tem. com o que a liberdade traz como bem para a população. transferindo-os para os seus descendentes. ouve-se a voz imperativa que determina que o esforço dispendido para a obtenção da liberdade atual deve ser aclamado e exaltado e. obviamente. No segundo recorte. Mais do que presença concreta. deu a vida para que o presente fosse portador de determinados traços. o hino é uma peça performática de reivindicação e não puro dado objetivo constatável. “Los fueros civiles” e “el código fiel” não são dados como fatos assegurados. por outro. atenta-se para o que a luta para ser livre significou e que objetivos possuía. Contra a constatação da abundância superlativa decantada por outros hinos. se.

Se. de um lado. conferindo privilégios a uns em detrimento de outros. Se é possível pressupor que não se poderia convocar para a adoração do “rico joyel de las leyes”. Ou seja: o invisível de alguns discursos ainda está invisível e o irrealizado de algumas vontades continua à espera. é preciso convocar os cidadãos para que “jurem” lutar pela união e pela igualdade e é preciso afirmar que essa é a forma de atuação patriótica. no conjunto de pressuposições que circulam. os recortes destacados indiciam a ausência de atenção para vontades de futuro que participaram da luta e se acham silenciadas e recalcadas.e temor se vislumbra no recorte que flutua entre a certeza efusiva e o medo ameaçador. Parece evidente que. se sobre a independência conquistada. parece constatar a vida idílica e paradisíaca de um momento perfeito. Contra a superabundância enaltecedora do presente vivido. mais do que constatar a presença positiva ______ [ 226 ] . dois versos em especial chamam a atenção. mesmo estando sob o primado da lei. que. Paralelamente. Só se faria essa afirmação frente a dissensões internas e. O recentemente realizado pode evanescer em segundos. Outro recorte que revela esse misto de contentamento e de ameaça se mostra em “y los libres adoren triunfante de las leyes el rico joyel”. No caso do hino venezuelano. devendo haver aqueles que não foram contemplados com as promessas que a libertação trazia materializadas. se ele fosse fato consumado sobre o qual não pairasse nenhum temor. também parece necessário perceber que. pois indicam a irrealização do desejado e a permanência do invisível sem visibilidade. inmolando en sus aras divinas ciegos odios. portanto. o invisível que se tornou visível com a independência se revela como ainda irrealizado em sua plenitude. bem como produzem o efeito de que a superabundância exaltada ao longo da composição pertence mais ao terreno do ambicionado do que à existência objetiva. produzse o efeito de sentido de que ele deve ser mantido e posto à disposição de todos. por fim. a desunião e a falta de patriotismo que ameaçam a frágil existência do direito legal alcançado. podem-se detectar a desigualdade. O primeiro verso é “Gritemos con brío muera la opresión!”. não haveria razão para convocar “los libres” para que o “adoren”. se já não existisse. Mas o recorte que mostra de modo mais contundente que o embevecimento com a liberdade da pátria é ameaçado por nuvens que pairam no horizonte pode ser observado no recorte “de las leyes el Numen juremos igualdad. Não há certeza de que os direitos obtidos estejam livres de ameaças. houvesse interesses em conflito. A revelação de que o presente não está equacionado e que há uma meta a ser alcançada é perceptível na comanda de que os “ciegos odios” e a “negra ambición” sejam imolados em altares sagrados. patriotismo y unión. à constatação de um fato presente (mas ainda nebuloso). y negra ambición”.

seja no presente vivido ou no futuro buscado. Eles se apresentam como peças políticas reveladoras de vontades que. indiciam o país que se deseja e não que a plenitude de realização das vontades invisíveis. Mais uma vez. esburacam o ritual e mostram onde o sujeito não sabe que está. pode-se pleitear que os hinos nacionais em estudo. sobretudo. em momentos cruciais. incitando para que. se a união e a força fossem constitutivas da história vivida e se tivesse certeza da sua perpetuação no futuro. la fuerza es la unión”. os versos começam por um vocativo instigador. pelo menos. até. por meio da união. que deveria ser apenas um gesto de enaltecimento do momento vivido pela pátria e pelo povo. Como equívoco que provoca fraturas no ritual. conscientemente. em que o controle enunciativo enfraquece. Como antes. com coragem. Ambiguamente. o povo lute contra o jugo tirânico.da liberdade. com ditames de como agir e a quem combater ou com a ambiguidade que aponta para a necessidade de conter ânimos mais exaltados por meio da força. o verso mostra como é a união de todos que dá a força necessária para alcançar os objetivos buscados. nos lapsos. o hino conclama para o posicionamento contrário à opressão. dirigindo-se aos conterrâneos e os chamando para partilharem de uma busca e de uma concretização ainda não realizada. Eles são fragmentos de orientação de como um país deve ser e não a revelação inconteste do que ele já é. a grandiloquência efusiva e elogiosa sobre o momento presente não deixa de apontar para o exagero afirmativo que deve ser lido no diapasão da negatividade ou da desafirmação. É evidente que. dado que se situam na zona do irrealizado. o hino. mas também como é a força que. não haveria necessidade de efetuar a conclamação e transformar versos do hino em palavras de ordem. Estabeleci como meta a demonstração de que os hinos sul-americanos são. atos falhos e equívocos que possuem. mas pela força. revela que a louvação de uma pátria abundante e vivida em regozijo está situada no terreno do desejado não alcançado e não no universo da vida positiva e concreta. revela a incerteza sobre a presença do estado glorioso e sobre a necessidade de conquistá-lo a cada instante. que ela seja usada contra os próprios conterrâneos. Seja com palavras de ordem. donde se pode inferir a sua alocação no terreno do irrealizado. se necessário. O verso atua como um slogan ou palavra de ordem. nos versos citados. Também neste caso. defende-se. o hino. na maior parte da sua tessitura. que carrega a injunção de combater o autoritarismo e evitar que a opressão aconteça. em face do seu poder de enfretamento. constituídos por uma trama que exalta ______ [ 227 ] . como postulei no início da sessão. permite que a união aconteça: neste caso. se ele se fizer presente. se forem uma ameaça à liberdade e se tornarem uma ameaça opressiva. O segundo verso se refere a “compatriotas fieles.

realização e vida farta. pelo exagero que cria. exigindo outros olhares. mesmo assim. eles falham. em versos “perdidos” no meio de suas teias de fios. Mas a “constatação” renitente da superabundância profusa. que nada mais é do que o desejo de que assim fosse. difusa e grandiloquente da magnitude generosa da pátria. emergem. eles fraturam o ritual. por meio da incidência teimosa e renitente de um presente vivido em perfeição. que aponta para a ausência. sob todo o processo de rarefação que os vigia e os cerca de cuidados zelosos. A generosidade ubíqua da pátria para todos é. a revelação de um presente irresoluto. A generosidade altruísta e interessada no bem coletivo atravessa de alto a baixo o fio do tecido e predispõe a imagem de um país para todos. Por um lado. com a hipótese de que a constatação positiva da realização dos desejos e vontades faz com que o olhar se dirija para o outro extremo do pêndulo e veja que muito do que se afirma é só o produto de um discurso otimista. portanto. O ritual impõe sobre as composições a superabundância. faz com que se desconfie da felicidade hiperbólica e do eldorado. erros ou lapsos. é sustentada por uma defesa persistente de que o país bafeja a todos com sopros de felicidade. que são confeccionados por diversas mãos e que são promulgados como hinos à força de lei e de ditames legais. a profusão e a prodigalidade. equívocos. em momentos desiguais. ufanista e desejante. os próprios hinos. Há elementos meritórios demais para ingredientes positivos de menos. a falta e a surdez para as demandas sociais. que são vividos pelos povos desses países (a história passada não deixa de trazê-los à baila) e que. que se quis que ali estivessem como modo de romper a censura preocupada com o atacado e não com o varejo ou como irrupção do inconsciente que produz efeitos cifrados como se fizessem parte de um código secreto a ser desvendado. aqui ou acolá. Para reiterar meu ponto de vista. apesar de se saber que os hinos nacionais não são feitos por qualquer um. Neste sentido. provocam brechas e frestas no ritual previsto. que eles passam pelo crivo político de quem está no poder. como espero ter mostrado na segunda seção. A prática discursiva dos hinos em estudo. um efeito do discurso e não a concretude histórica: ou o real da história. por outro. mostrando que o irrealizado continua invisível para muitos e que a magnanimidade da pátria é só um efeito de sentido provocado pela superabundância afirmada.a pátria e produz o efeito de sentido de que ela destina a cada um uma vida paradisíaca. Estes versos “indesejados” aparecem como se fossem “mensagens” subliminares. talvez se deva considerar os hinos nacionais como ______ [ 228 ] . quando efetivamente não é: eis a desafirmação. E. pois. um “ensinamento” para a posteridade e. como atos falhos.

sentida e doída. não há mais razões para perseguir objetivos que se acham plenamente equacionados. “atos” performativos de injunção de uma atividade a ser perseguida. riquezas e distribuição idêntica de atendimento aos prazeres e às vontades. Mas. ______ [ 229 ] . para. Creio que se deve escutálos. ao inverso. como afirma Pêcheux (1990. em geral. portanto. as “línguas de vento” se especializaram em dar respostas às demandas. p. por isso. depois. gostaria de reiterar a ideia de que. e não constatação de um estado de mundo que corresponde às condições de verdade dos enunciados que são proferidos. afeta a maior parte dos versos dos hinos). às vezes. ou seja. do que falta trilhar para que o invisível se torne. vir a ser tenuemente realizado. até porque o sujeito autor das letras parece estar. Em face da realidade vivida. Contra a defesa rasteira de que as letras dos hinos em estudo deveriam ser alteradas em face dos aspectos “negativos” que apresentam. na superabundância efusiva que é recorrente nas letras dos hinos estudados. obtida a “liberdade” almejada. antes. 19). Contra os efeitos de superabundância efusiva de bens. neste sentido. visível. efeitos de sentido corrosivos fazem perceber que o êxtase e o embevecimento com o solo pátrio não está tão seguro quanto gostaria de poder aparentar e. a superabundância exultante da situação dos países é a desafirmação (a negação da afirmação hiperbólica) do que prega e a revelação. oscilante. afirmase que ela contempla a todos e. exatamente onde não sabe que está e a sua vontade não corresponde efetivamente àquela que transborda do exagero e da grandiloquência com que circunscreve a pátria. faz o pêndulo se dirigir para outro polo. quem sabe. torna-se apenas um efeito de sentido: e não um sentido. para que se tenha a oportunidade de ouvi-los do que dizem e percebê-los nas falhas que provocam no ritual que tentou cercálos e fazê-los servir a uma vontade e a um senhor. a ausência e a negação devem ser tidas como o fio organizador das composições e que se deve dar atenção aos versos que produzem a equivocidade do ritual. contra a constatação positiva de uma era paradisíaca de bem-aventurança (o que. distorcendo os efeitos e direcionando-as para outros objetivos: para que tudo continue como antes. em alguns segmentos das composições. cumpre entoá-los até não mais poder. para que se perceba que o entusiasmo ufanista que os constitui deve ser lido no seu diapasão negativo e que o irrealizado continua invisível ou tão mais invisível agora.peças de proposição política e. Como modo de fechar a sessão. Não há estratégia melhor para silenciar um problema do que afirmar que ele não existe. já distante há alguns séculos do acontecimento das independências. em face de que. a falta. em que o estado de graça que parece ubíquo.

podese assumir também que. sem saber por que isso ocorre. dado o êxtase da supressão do imperialismo. os hinos fossem mais uma ode à grandeza conquistada e uma palavra de ordem para a vida futura e não a pura constatação de um estado de vida que aparecia armado de um dia para o outro. aqui. entoada. quando se vê o hino nacional do próprio país ser executado. quando eles são entoados mecanicamente. torna-se a asserção declarativa de que tudo está resolvido e cada um é bafejado pela igualdade. hoje. de que há um desequilíbrio entre a esfera constatativa e a performativa. é o encontro do ouvido com o que situa. quatro razões para defender que a mudança proposta não é de bom alvitre. a defesa de uma memória de futuro do que a pura constatação. Tratava-se mais da defesa de uma meta alcançada e outras a serem atingidas. O que. realizado atualmente. do que a constatação de um estado de bem-aventurança miraculoso. faz pulsar mais forte o coração dos que o ouvem. distribui. que se constituiu de repente. E esse estado de vida em deleite não está. no momento em que os hinos eram compostos. ainda que ele fosse apenas a melodia que. pela liberdade e pela fraternidade. enquanto apenas melodia musical. aloca e organiza pessoas de uma comunidade social: a emoção que cerca a sua execução é o encontro de cada um consigo mesmo e com os outros que são partícipes dos mesmos laços culturais. AS LETRAS DOS HINOS? Com a hipótese assumida anteriormente (e sem negar que ela seja válida). então. porque determinados ingredientes lexicais mais contundentes podem melindrar os sentimentos de um ou de outro nem sequer tangencia o que efetivamente um hino é para o povo que o toma como principio identificador. que acontece. Talvez seja necessário perceber que o deslocamento e o descolamento do eixo dêitico de produção de cada um dos hinos sul-americanos para outro momento temporal provoca um deslizamento do que era mais. equívoco ou lapso. que alcança a todos. eles podem ser apenas estar no mundo num canto do planeta. Mudar a letra dos hinos. a “reviravolta” significaria a criação de uma ferida narcísica que quebra um dos lugares de encontro dos que tiveram a sorte (ou o azar) de nascer num mesmo espaço. união e legalidade. paz. harmonia. ______ [ 230 ] . tênues e pouco descritíveis: no limite. era a vibração de uma nota entusiasta e proponente de uma vida em clima de justiça. pelo menos. tornando-os iguais legal e materialmente: o que está longe de ser verdade. nem sequer minimamente. tal qual ato falho. com o exagero hiperbólico da primeira e a ruptura com o ritual da segunda.MUDEMOS. ENTÃO. localiza. O hino nacional. ainda que sejam flutuantes. Mas há.

os amigos. um hino é mais um “detalhe” (talvez. além de circunscrever um presente que. também. a colcha de retalhos ou o trabalho do colecionador que constitui a transitividade do sujeito rumo a uma história de vida. um gentílico faz com que o sujeito partilhe de um imaginário que lhe diz o que ele é: que o seja não importa. constitui-se em peça histórica. porque está na história e rememora a constituição de fronteiras de pertença a uma formação social. uma identidade já fragilizada. argentino sempre produz um efeito de sentido que aloca e coloca a cada um numa parte da terra e lhe causa a impressão de que estar ali é viver a vida de um determinado modo. seja sempre transitória e indefinida. como se sabe. um hino é um dos elementos que contribuem para dar a aparência de finitude e de pertença a uma centralidade que aloca o sujeito num espaço definido e lhe garante uma identidade toda particular. em face do “caos” da pós-modernidade. um hino é um gesto de memória do que aconteceu e do que se deseja. mudar ou “limpar” a letra de um hino é contribuir para a fratura dos espelhos em que os sujeitos se reconhecem e fragmentar ainda mais uma vida que. chileno. Acontecimento que se amarra a um momento histórico específico e que se pronuncia sobre ele. A fratura provocada por meio da mudança na letra de um hino é a fratura infligida sobre o espelho narcísico que permite a cada um a ilusão necessária de ser “eu” e não um conjunto disperso de alinhavos difusos sem nenhum princípio de unificação. mas a ilusão de que ele existe e é uno é vital para o ser humano. Ser brasileiro. permite que se entreveja a teleologia buscada. Não se trata de afirmar que o ego seja uma unidade ou de que a consciência daquilo que se é e se quer seja plena. tem poucos pontos de reunião e de unificação de um ego já bastante disperso e rarefeito. Ao invés de ser uma fórmula vazia ou um elemento não saturável. Um hino é um ponto de ancoragem que contribui para que a “insanidade” e a “neurose” não se tornem ainda mais contundentes. Alterar. ainda mais. A segunda diz respeito ao fato de que um hino. mesmo que não o deseje e pareça um slogan injuntivo somente ou uma ode de louvação à pátria “amada e idolatrada” apenas. sempre plástica e flutuante. Juntamente com a família. por não ser mais do que uma metáfora vazia (a partir de um ponto de vista). Alterar a letra de um hino é. por mais idealizado que pareça. o mais importante em termos de espaço) que imprime sobre o indivíduo uma subjetividade que lhe garante uma pertença e um modo de ser. ______ [ 231 ] . o partido político. os vizinhos e a infinidade de coisas que trafega pela existência histórica de cada um. a escola. a igreja. fragilizar. Como tantos ingredientes que compõem o mosaico. embora a completude. mesmo que ele não saiba qual. A primeira se refere a uma questão que diz respeito à constituição da identidade e da completude subjetiva de cada um.

E. a revelação dos limites do irrealizado que se fez visível por momentos (e. às vezes. inclusive. uma passagem já discursivizada em outro ponto. A alteração das letras faria este delineamento se perder e. pode-se ter certeza que o combate caberá a uma massa ______ [ 232 ] . pela morte. pelo sangue. Parafraseio. a quem beneficiaram as vidas ceifadas e a quem o pagamento da dívida privilegia. de modo mais ou menos contundente. Entretanto. os hinos sul-americanos. julgando estar realizando um ato absolutamente inocente. portanto. Os hinos em estudo alertam. uma peça (ambiguamente) histórica que constitui um gesto de memória e é imprescindível que se saiba de onde se veio para se saber para onde se vai. A reflexão sobre este ponto não só permite a compreensão de um pouco do que foi a história de constituição de cada nação. das margens que forjam identidades e sensações de pertença a um modo de estar no mundo) foi obtida por meio de sacrifícios ocasionados pela luta. que a intrusão e a “ilegitimidade” de comando sofrerão o revide pronto e genocida. apesar de não estarem seguros dessa concretização. criticamente. pois abordam um passado que aconteceu de um modo trágico. talvez. se for necessário doar a vida para que a abundância (de que alguns usufruem) seja mantida. neste momento. Um historiador poderia fazer uma boa reflexão sobre as condições históricas das independências dos países em estudo e. Um hino (e os sul-americanos de modo especial) é. pois. culturais e sociais de cada país (ou seja. já que existem os destinados a estar na linha de frente e os que “devem” conduzir a vida em atividade contemplativa e “estratégica”. Um povo sem história (sem memória) pode cometer as maiores atrocidades. o que lhes permite. livres para se submeter a um poder crucialmente mais livre (nas mãos de poucos). torna-se distante e recalcado). revelam que a geometrização das fronteiras geográficas. um presente que se desenha entusiasta (embora se deva desconfiar desse otimismo) e um futuro que deseja a vida em plenitude para todos. chegar à conclusão que os hinos são uma forma de denegar a liberdade inexistente. nem todos deverão fazê-lo. impor sobre as gerações futuras a dívida de sangue criticada. como também que se perceba. às vezes. às vezes. com isso. centrado quase que exclusivamente na existência econômica. de maneira contundente.Os hinos em estudo são históricos. Além disso. O que as independências latino-americanas obtiveram foi a liberdade excessiva de uns em detrimento da liberdade de outros. pelo sofrimento e pela dor. pois o distanciamento histórico de alguns séculos permite ver que a grande maioria das pessoas se encontra alijada das promessas dos movimentos libertacionários e das riquezas abundantes que os hinos afirmam existir dentro das fronteiras geográficas dos países. de modo tênue e frágil. mas. de uma forma multifacetada.

emprego. às vezes. Um pouco de ambição e de sonhos de poder e riqueza fixam moradia também na margem esquerda do rio. despotismo. E. as mais triviais: alimento. ao preço que foi pago para obtê-la e ao que se ambicionava ao se tornar livre. ao invés de serem alterados. Defendo. Em alguns casos. portanto. casa. coisas que o povo. opressão. parece reinar uma fraternidade universal): o que é sabido que não procede. que não tiram vidas em campos de batalha. tem sido tão exploratória e predadora. para que se alterem as suas letras sem obliterar os efeitos de sentido que eles possuem e sem que se perca a possibilidade de reflexão sobre um modo de existência que. jugo e sujeição são assumidos como se fossem oriundos de fontes externas e não internas (internamente. Mutilar uma composição da magnitude de um hino nacional é produzir um apagamento da memória histórica. infelizmente. Acredito que haja imbricações históricas em profusão atreladas inextricavelmente aos hinos em estudo. como peças históricas. lazer. recebendo atenção efetiva ao que afirmam: muitos teriam muito a aprender com o que os autores profetizaram e tornaram visível sobre o irrealizado. submissão. além de silenciar e recalcar as vontades de realização que se acham imiscuídas nas letras. as maiores violências e atrocidades foram cometidas por “compatriotas” e por pessoas de uma mesma nação aos seus “camaradas”. ainda. escravidão. sejam mantidos intactos e sejam ouvidos a não mais poder. segurança. a quem se afirma que a violência só será exercida à guisa de defesa do bem alcançado e do qual não se pode abrir mão. os hinos dão concretude material ao que se desejava com a independência. nos países sul-americanos.eleita (que nunca será a dos pertencentes às “melhores” castas). que os hinos. Tendo como fio de reflexão que os hinos são também o irrealizado que retorna e se deseja ouvido e que a superabundância propalada é mais o desejo de usufruir da fartura que se presencia do que a constatação de que a prodigalidade existe. quando se está disposto a ouvir. mas por meio de aparências nobres e grandes metas. para desespero de alguns administradores públicos. A liberdade é mais do que a pura meta de libertação em face do jugo imperialista: ela é a profecia e o desejo de realização de uma vida cotidiana pautada na supressão das carências vitais e no atendimento às necessidades de cada um. continua a requisitar. Não faltam exemplos atuais de violências que se fazem contra o bem comum. a descrição de um luta sangrenta e de mortes que compraram a liberdade pode ser tida como a cobrança de que o troco deve ______ [ 233 ] . saúde. No que toca ao irrealizado (e aí está a terceira razão). parece crucial notar que tirania. Mas não se mostra ou se assume que esse bem não está ao alcance de todos.

Frente a alguns hinos. ser a tentativa de obliterar um débito histórico inalienável e que deve ser trazido à tona. Penso que seja inegável que os hinos. em outros. arte e majestade. embora alguns hinos sejam mais amenos no que tange à temática. Talvez se deva problematizar a opção pelo silêncio e a tentativa de apagamento da existência de mártires da liberdade. bucólicos por excelência. Alguns hinos tocam de modo frontal na violência sofrida por ser livre. por causa da confecção a diversas mãos e da participação de várias forças de censura. todos os países sulamericanos foram assolados pelo genocídio para se tornar livre. se. a guerra. denegando-a ou a relegando ao silêncio: mas ela está nas entrelinhas. Reafirmo que há dois pontos de vista que cruzam esses discursos. Se. no final das contas. Pode-se afirmar que a maior ou menor abundância enunciativa sobre a belicosidade se faz por relação à maior ou menor luta pela independência ou ao desejo de fazê-la ser esquecida. ela não pode ser apagada: não é porque não seja abundantemente tematizada que ela não esteja presente e ambicione vir à luz. de um modo ou de outro. esta matriz é quase um sussurro. Porém. em outros. em alguns hinos. ______ [ 234 ] . de uma forma um tanto paradoxal: enquanto uns cantam as belezas naturais e quase não falam de luta ou de conquista. não cessam de repetir se refere ao legado sangrento recebido para que alguns (naquele momento e parece cada vez mais verdade que é apenas por alguns) pudessem usufruir de uma vida plena e pacífica à custa das “diez mil tumbas” que os libertaram (penso que o irrealizado coletivo. Mas beleza há em cada um e luta pela liberdade e pela supressão do jugo ditatorial aconteceu em todos os países em foco. O que todos os hinos sul-americanos. no sentido de indenização das vidas ceifadas para que a independência viesse e as riquezas enaltecidas fossem postas sob o usufruto comunitário. ocorre o contrário: a luta é enfatizada e a beleza da casa pátria fica recalcada. podem-se fechar os olhos e desenhar a beleza ímpar que se pretende criar da paisagem: mescla de beleza. enquanto outros (como o brasileiro) preferem pôr o acento na exuberância da paisagem: há que se desconfiar que alguma forma de controle da memória se acha em jogo. é bom lembrar). com muitos sendo alijados das conquistas obtidas).ser dado à altura. enquanto outros são mais assépticos. tornou-se o realizado de poucos. o derramamento de sangue é uma cobrança exacerbada de uma dívida perene para com todos os que lutaram para que os seus tivessem um lugar ao sol e. o que pode. já no momento de produção (coletiva e censurada. O irrealizado deve se tornar audível: em ruidoso barulho e não sob a denegação dos discursos de palanques. De todo modo. a dor e o sofrimento. há que se perguntar por que alguns hinos enfatizam a luta.

já na mecânica da reprodução irrefletida. esses núcleos parecem possuir um sentido evidente e como se jugo e submissão e liberdade e autonomia possuíssem sentidos transparentes. valor. não a verdade objetiva e concreta de um mundo descrito de forma isenta e desapaixonada. Temas nucleares das composições dos hinos.indicam. A quarta razão para a defesa de que não se devem provocar mudanças nas letras dos hinos volta a tocar na questão da superabundância afirmada. O mesmo vale. jugo e escravidão. bravura. submissão. ______ [ 235 ] . superado o momento de libertação de cada país. igualdade. mais do que o concreto já existente é a manifestação do que se quer e ainda não se tem. tais como tirania. eles podem vir a se tornar inteligíveis na voz de um governante ou partido político. Se é necessário extirpar x. A figura do porta-voz que fala por e no lugar de não pode ser útil para a tradução. Mas são significantes opacos e camaleônicos: eles circulam como non sense absoluto. são invólucros que podem conter qualquer significação: eles perfazem um terreno plástico que pode ser ideologizado quase que de forma irrestrita. altivez. a vida se tornar plena e poder ser vivida de modo prazeroso. Não é óbvio como. Sob a forma de dois eixos (um negativo e outro positivo). os hinos são hiperbólicos na explicitação do que não se quer e do que se quer: nos termos assumidos. entre o que silenciar ou alardear: há que se perguntar por que estes enunciados apareceram e não outros. como recipientes que podem ser significados de acordo com a historicidade de uma formação social. opressão. A prodigalidade é menos o que já se possui e mais a manifestação do que se deseja para. honra. mutatis mutandis. eles são o indesejado nomeado e o irrealizado colocado em termos práticos. principalmente. coragem. como diria Frege) como brio. glória e heroísmo e. mas o resultado de um processo de seleção entre o que dizer ou não. supostamente. virtude. que podem definir um mesmo gesto interpretativo como tirânico ou democrático. A superabundância afirmada é a prodigalidade desejada e a falta e o recalque revelam o que ainda inexiste: os dois caminhos são a concretização do irrealizado e a afirmação do que permanece (ainda) invisível. para abstrações (ou “ficções demagógicas”. A grandiloquência que cerca esses ingredientes deveria ser traduzida por referência aos processos discursivos dos que se encontram à margem e que possuem uma relação estreita com movimentos libertacionários e não pelos que se fartam de prazeres. como x deve ser compreendido? Como distinguir tirania de democracia? Como diferenciar república de totalitarismo? Nas execuções dos hinos atualmente. que. fazendo fundir e confundir democracia e tirania. para liberdade.

o que é ser tratado com dignidade e justiça. que é tão somente o seu efeito de sentido: nada há de audição verdadeira e dialógica em situações desse tipo. É provável que esse não seja o efeito de sentido de bem comum para todos aqueles que se encontram alijados da possibilidade de arbitrar sobre a sua vida e decidir o que parece mais plausível. de retirar esses termos de sua impávida arrogância e de quebrar as cadeias de resistência à mudança de que são cercados. justo e livre? Parece absolutamente defensável que. A igualdade desejada pelo grande capital não é exatamente a desejada por aquele que não se acha de posse de condições de vida material satisfatória e depende da caridade alheia ou de programas aviltantes de distribuição de renda. para os seus termos. Siga-se. com audição respeitosa. pois eles são saturados de vozes sociais e a polissemia os habita. dentre outros. Trata-se. porque a vida que ela promete está reservada para alguns privilegiados que. porque a ótica sob a qual ele foi erigido é a daqueles que podem fazer a lei pender a seu favor. gozam da abundância e prodigalidade: em detrimento de outros. ______ [ 236 ] . É necessário que a plurivocidade que os constitui e a plasticidade de que são feitos seja ouvida.fraternidade e justiça. as vozes autorizadas pelos meandros da democracia (e a quem elas servem) se apressam em “dicionarizar” a leitura e empedernir o que poderia ser espaço de embate e confronto: o resultado é a esclerose do sentido e a cristalização mineral de algo plástico e legível de diferentes modos em diferentes lugares e momentos. E. efetivamente. Seja pela via do eixo negativo ou do eixo positivo. Esta não é a leitura que efetivamente diz respeito à vida plena que os hinos desejam. Há que se eliminar o porta-voz que se especializou em produzir línguas de vento e dar ao público o sentido. porque aquele que efetivamente deve falar é a voz recalcada e silenciada: o irrealizado inaudível. a arrogância dos porta-vozes que sabem tudo que é bom para os outros. portanto. fraterno. O que conseguem ver não ultrapassa o limite dos ditames do direito abstrato e lógico. quando se trata de preencher esses termos com um sentido (ou efeito de sentido). Quem decide o que painel lexicológico significa? Quem diz o que é ser igual. de novo. porque eles. que age por ignorância plena da história. ingênuos. os termos que habitam os hinos em estudo em profusa generosidade devem ser referidos aos processos discursivos dos que se encontram à mercê das intempéries. não têm condições de discernir o que lhes serve e o que lhes faz o bem entra em cena. Há que se desacreditar no suposto direito universal e abstrato. porque ali se encontra um sentido que diz respeito à vida cotidiana e às necessidades básicas: esta é a voz desvalorizada e que clama por traduzir.

Petrópolis: Vozes. Ephraim Ferreira Alves e Lúcia Endlich Orth). Luce. A cultura no plural. NORA. (Trad. do que da entoação de hinos que pregam a busca do irrealizado e o atendimento ao desejo recalcado. A operação histórica. (Trad. FREUD. Enid Abreu Dobránszky). Álvaro Cabral). Ephraim Ferreira Alves). por diferentes vozes e desejos. 1995. _____. Não perceber isso por meio da negação de problemas que pulsam sob contenções que podem desmoronar a qualquer momento é negar a manifestação de um desejo. é recalcar no esquecimento os sacrifícios pagos para que um povo tivesse uma fronteira geográfica discernível e sua. Campinas. ______ [ 237 ] . _____. A mudança dos hinos não traria nem a paz aos estádios e nem coibiria a misoginia e a xenofobia existentes. mas são refeitos historicamente a cada momento. MAYOL. (Trad. é suprimir a memória que cerca o contorno de uma nação. Psicopatologia da vida cotidiana. é coibir a constituição de uma identidade. Sigmund. é obliterar um gesto fundador de discursividade. S P: Papirus. (Trad. Jacques. é recusar a historicidade de um estarno-mundo produzido no calor da batalha. Michel de. In: LE GOFF. A Invenção do cotidiano: artes de fazer. _____. Rio de Janeiro: Zahar Editores. Petrópolis: Vozes. A invenção do cotidiano: morar. Pierre. Theo Santiago). Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1995. GIARD. Pierre. Estes traços da cultura global atual são resultado mais da exploração de uns sobre outros e da apropriação exorbitante de uns com o alijamento de outros. 1998. o diapasão negativo ou positivo do pêndulo que os hinos constroem. Os hinos em estudo podem (se não devem) ser lidos como a denegação de uma falta e a superabundância de que tratam é mais a ausência desejada e cantada aos quatro ventos: a vida que se deseja fazer. História: novos problemas. 1966. há que se entender que os ingredientes linguísticos não ocorrem como sinais transparentes e imutáveis. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CERTEAU. (Trad. cozinhar.pois. 1994.

1997.19. disponível em: http://veja.abril. (Trad. _____. cabe o alerta de que ela não é tomada aqui como uma figura de linguagem. Roberto Pompeu de. de Franco). In: Caderno de Estudos Linguísticos. ______ [ 238 ] . Maria das Graças Lopes Morin do Amaral). 1990. 1995. mas como a parte valendo pelo todo ou o todo valendo pela parte como o delimita e concebe uma formação discursiva.com. Delimitações. Campinas: Edunicamp. deslocamentos. (Trad. que joga com a parte e com o todo. Michel. n. concedida pela Fundação Araucária./dez. 2) Sobre a questão da metonímia em termos de discurso. Campinas. Campinas: Editora da Unicamp. Ler o arquivo hoje. Editora Abril. SCHNEIDER. _____. inversões. In: Gestos de leitura. São Paulo. NOTAS 1) Estudo financiado com recursos de Bolsa de Produtividade em Pesquisa.PÊCHEUX. jul. instituição de Apoio ao Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico do Paraná. br/240698/p_142. Acesso em: 25/10/2007. Campinas. p. SP: Editora da Unicamp. Nos hinos nacionais. p. 55 a 66. Ladrões de palavras: um ensaio sobre o plágio. Veja. N. raiva e ameaças. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. José Horta Nunes). (Trad. TOLEDO. Eni Pulcinelli Orlandi et al. 1990.html.724. Michel. (Trad.). 24/06/1998. Luiz Fernando P. a psicanálise e o pensamento.

CAPÍTULO 11 “CASCAVEL. QUEBRADA SOFRIDA”: AS VOZES IDEOLÓGICAS NA MÚSICA DO GRUPO DE RAP “FACE HUMANA DO GUETTO” Silvana Carolina Trevizan .

2000). quebrada sofrida”. Faita (1997) e GEG (2009). apesar de não exercerem a carreira de cantores profissionais. Dahlet (1997). Uma demonstração disso é a repercussão do Rap (Rhythm and Poetry – a tradução do inglês é “Ritmo e Poesia”) junto à população cascavelense. O Rap é uma música eletrônica feita por um operador de discos. uma vez que as mesmas são polos midiáticos e transmitem a todo território brasileiro. Fundamentar-nos-emos. música genuinamente engajada social e politicamente. referenciando Pinto (2004). Buscaremos identificar as vozes ideológicas presentes na música. que produz bases e colagens rítmicas sobre as quais. que é uma expressão de sujeitos. nos pautaremos em estudiosos da área da filosofia da linguagem.INTRODUÇÃO Este estudo tem como objetivo analisar a prática discursiva da música “Cascavel. do grupo de Rap cascavelense “Face Humana do Guetto”. sendo eles Bakhtin (1999. Como aporte teórico para o estudo. por meio de programas de televisão. a partir dos pressupostos dialógicos do circulo bakhtiniano. recebe e adapta influências das metrópoles. moradores da periferia cascavelense. duzentos e cinco) habitantes. segundo os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de (2012). encontraram no Rap. Brait (1999). com cerca de 286. uma maneira de serem notados pela sociedade. vive o inevitável contato com a cultura de outros municípios. Barros (1999). que. novelas e telejornais. principalmente. Brandão (1997). fazendo com que esta ouça suas ânsias por meio da expressão artística.205 (duzentos e oitenta e seis mil. de São Paulo e Rio de Janeiro. articulam-se outros ______ [ 240 ] . município situado na região oeste do Paraná. em estudiosos da esfera da Cultura Popular e do estilo musical Rap. também. às vezes. Camargo (2009). seus costumes e cultura. Cascavel. classificada como uma cidade de médio porte. Silva (1999) e Trevizan (2012). Shusterman (2006).

De acordo com Contier (2005). Ele ganhou a juventude dos subúrbios de cidades do mundo todo. (PINTO. teve seu berço na cidade de São Paulo hoje tem uma grande aceitação. que significa discotecário). por sua vez. que alcançavam grande notoriedade no cenário da música nacional e agradavam a jovens. Desenvolvidas pelos DJs. como solos de instrumentos e mixagens.elementos. pois tem em sua origem o intuito de retratar a realidade das periferias e. 2004. ______ [ 241 ] . Assim. Os jovens cascavelenses. é um elemento secundário neste estilo musical e o principal componente é a “mensagem”. 4) Sendo assim. tem a pretensão de abordar situações geradas por um sistema social injusto. notadamente. que faz soar. então. Essa base rítmica é executada por um DJ (Disc-Jockey. empolgados com esse estilo. essas apropriações e transformações não requerem habilidade para compor ou tocar instrumentos musicais. como Racionais MC’s. mas para manipular equipamentos de gravação. o Rap caracteriza-se como um estilo contemporâneo. O estilo musical Rap traz em sua natureza o inconformismo perante as situações díspares que assolam a população economicamente desfavorecida. O rap caracteriza-se pela re-invenção do cotidiano através da oralidade de pessoas comuns que denunciam em suas canções problemas graves vivenciados nas situações sociais extremamente adversas e totalmente negligenciadas pelos Donos do Poder. 2012). suas instituições e o consentimento das classes economicamente favorecidas que gozam de regalias permitidas pela exploração dos marginalizados. Periollo. diferentemente do Jazz. dentre os jovens do referido município. principalmente. servindo de “fundo” durante a música ao MC (abreviação de “Mestre de Cerimônia”: vinculado ao Rap. no Brasil. refere-se àquele que conduz a festa) ou rapper. cortar e mixar um disco no outro igualando o tempo para uma transição suave. também se propõem a compor suas próprias canções (TREVIZAN. do inglês. como Morumbi. A melodia. de bairros periféricos da Zona Norte da cidade. Ele começa a despontar na cidade de Cascavel por volta do ano 2000. o chamado “canto falado”. que nasceu e cresceu com a tecnologia e fez dessa o meio para a sua forma artística. p. toma elementos acústicos concretos e performances pré-gravadas de padrões musicais. com a apreciação e interpretação de músicas de grupos. Este estilo musical que. Segundo Pinto. nas diversas classes sociais. Interlagos e Floresta. em alguns casos.

temos o objetivo de identificar e compreender as vozes sócio-ideológicas presentes no discurso da música “Cascavel. quebrada sofrida” do grupo de Rap “Face Humana do Guetto”. O grupo foi formado em 2006. Bakhtin esclarece que os enunciados não são indiferentes uns aos outros nem são autossuficientes. assumindo suas configurações próprias em qualquer cidade. de maneira alguma. o Rap encontra espaço na periferia de Cascavel. que tem como pilares e ferramentas de ação para a reforma social o Rap. refletem-se mutuamente. 316) Nossos enunciados são produtos de discursos outros. as vozes sócio-ideológicas só podem ser estudadas a partir de sua materialidade (BAKHTIN. a predisposição para a indignação e o desejo de equidade social. temos que ela existe. 1997. Suas músicas também não são executadas nos setores de radiodifusão. Segundo os estudos do círculo bakhtiniano. fazendo soar distintas vozes sociais.. resultando em um enunciado que é único e novo. todos com idade entre 20 e 27 anos e moradores do bairro Morumbi. o “Face Humana do Guetto” não possui sites próprios e ainda não conta com a comercializaçao de seus CD’s. aos quais está vinculado no interior de uma esfera comum da comunicação verbal. aceitos. e Pedro. neste estudo. combinados.. que penetram no psiquismo individual e são avaliados. conhecem-se uns aos outros. ou seja. repercute nos bairros de moradores de maior poder aquisitivo e assume para estes sujeitos significados distintos. (BAKHTIN. sendo um elo no complexo e infinito processo dialógico da linguagem. que tem como base a ótica ideológica adotada pelo Hip Hop. que ______ [ 242 ] . Ao partirmos dessa constatação.Trata-se de uma arte de cunho político-ideológico desenvolvida pelos sujeitos da periferia. remodulados. mas. p. genuíno e independente de outros discursos e vozes que circulam no espaço e na história.] o enunciado está repleto dos ecos e lembranças de outros enunciados. bairro periférico. situado na Zona Norte do município. a não ser pelo programa “Conexão Periferia”. Parafraseando a música do rapper Edy Rock do grupo Racionais MCs. [. porém possui sempre a característica da marginalização de seus moradores e. Sobre a presença de vozes sócioideológicas no discurso. 1997). o Grafite e o Break. no momento da expressão verbal. Eles também serão assimilados por outros sujeitos. que estarão presentes no discurso desses sujeitos. Assim como os demais grupos de Rap existentes na cidade de Cascavel. consequentemente. repudiados. que se concretiza na enunciação. Fifo. um movimento originário nos Estados Unidos. “Periferia é periferia em qualquer lugar”. pelos rappers André. Nestas circunstâncias.

Por meio dela. ele é a grande contribuição de Bakhtin e de seu círculo de estudos para a Ciência da Linguagem: “O dialogismo funciona assim como pivô de interrogações capitais para a linguística (e não só para ela)” (DAHLET. geralmente. p. O termo pode ser compreendido em um sentido amplo ou em um sentido restrito. O DIALOGISMO O dialogismo é o eixo de toda a obra bakhtiniana. critica. O conceito de linguagem que emana dos trabalhos desse pensador russo está comprometido não com uma tendência linguística de uma teoria literária. mediado por outros discursos. Diante da arte plástica ou de uma árvore que seja. justamente na busca de formas de construção e instauração do sentido. p. é uma ______ [ 243 ] . como todos os acontecimentos do mundo. 69). organizadas por eles próprios. O dialogismo. Mais do que a tentativa de explicar fatores linguísticos. A natureza dialógica da linguagem é um conceito que desempenha papel fundamental no conjunto das obras de Mikhail Bakhtin.retornou ao ar. pois todos os sentidos que há em nossa consciência são constituídos pela linguagem. pela filosofia. por meio de um processo interior do sujeito). No primeiro caso. dessa forma. reformula e cria sentidos por meio da linguagem. 1997. pela teoria de literatura. por uma semiótica da cultura. Suas produções são independendes. a atividade de cantores. 92). Pela amplitude desse conceito. aos domingos. por um conjunto de dimensões entretecidas e ainda não inteiramente decifradas. mas com uma visão de mundo que. 1997. estará presente na discussão de todas as esferas sobre as quais o círculo bakhtiniano possa se debruçar para compreender. profissionalmente. pela Rádio Colméia. resvala pela abordagem linguístico/ discursiva. o sujeito constrói sentidos para o mundo discursivizado que o cerca. (BRAIT. como se pode observar. funcionando como célula geradora dos diversos aspectos que singularizam e mantêm vivo o pensamento desse produtivo teórico. utilizando estúdios caseiros ou outros de baixo custo e câmeras caseiras para elaborarem seus videoclipes. o sujeito interpreta. não exercerem. neste ano. O dialogismo é uma forma de compreender a interação entre o sujeito e o discurso. pela teologia. de maneira dialógica (considerando a carga de sentidos que já existe no objeto a ser interpretado e a assimilação que ocorre. trata-se da maneira dialógica de se compreender não apenas o funcionamento da linguagem.

uma cultura. necessariamente. Sendo assim. nem sempre simétrico e harmonioso. infraestrutura versus superestrutura1. transformando-se em um “nós”). tratando-se de uma perspectiva mais ampla. o qual só existe a partir da significação que o sujeito projeta no momento da interpretação. p. existente entre os diferentes discursos que configuram uma comunidade. ainda que. apenas o ato de conversação entre interlocutores. teremos o diálogo interior de cada sujeito. o sujeito.maneira de compreensão do mundo. nesse sentido amplo (compreensão de todas as coisas do mundo). se podemos pensar no dialogismo em sentido amplo. o qual também é dialógico. Suas reflexões vão além do estudo da linguagem. há ainda “um horizonte social”. já que é originário da palavra “diálogo”. sendo afetado por várias vozes sociais. Dessa maneira. todos esses conceitos. p. as reflexões sobre a linguagem estejam presentes. ainda que seja também fundamentalmente dialógica e se explique também dialogicamente. é. o signo. o dialogismo diz respeito às relações que se estabelecem entre o eu e o outro nos processos discursivos instaurados historicamente pelos sujeitos. Por isso. teremos o diálogo já mencionado entre infraestrutura e superestrutura. o dialogismo é a “força que se mantém constante em todos os planos da interação social” (FARACO. Ele se refere a um diálogo interdependente. o meio pelo qual o dialogismo acontece. 2009. Por outro lado. uma sociedade. um “outro” para quem modulamos o discurso interior. 98) que Por um lado. como o nome pode levar a crer. a grosso modo. o dialogismo diz respeito ao permanente diálogo. são explicados como resultado sempre inacabado do dialogismo. em todos os seus estudos. um filósofo. entre objetividade versus subjetividade. mas é algo mais amplo e fundamental para a existência da linguagem e da construção de sentidos. por sua vez. entre o “eu” e o “outro”. Assim sendo. natural versus social. Por exemplo. ______ [ 244 ] . não significa. antes de tudo. que. Bakhtin é considerado. instauram-se e são instaurados por esses discursos. 61). teremos o diálogo entre o mundo interior e o mundo exterior de um único sujeito. o discurso. que existe na consciência individual (segundo o filósofo. Conforme os estudiosos do círculo bakhtiniano. contínuo e complexo entre vários “atores”. O termo “dialogismo”. É nesse sentido que podemos interpretar o dialogismo como o elemento que instaura a constitutiva natureza interdiscursiva da linguagem. portanto. pensando-se em uma sociedade. (grifos nossos). nas reflexões solitárias dos sujeitos. Aclara Brait (1997. se formos afunilando. O que se tem é uma infinita ação dialógica. nessa teoria. a ideologia. A linguagem.

301). é necessário considerar o papel do “outro”. p. Sobre o ato responsivo. explica Dahlet (1997.da forma como o apresentamos aqui. ele espera sempre uma atitude do interlocutor. a quem o sujeito irá direcionar o discurso. Nesses termos. durante a construção de sentidos pelos sujeitos em um momento de interação verbal. A palavra não pertence ao falante unicamente. ou seja. quando o concebemos em sentido restrito. estamos nos reportando ao processo que ocorre na e pela linguagem. o ser. privado da palavra. o falante não é o “Adão bíblico que nomeia o mundo pela primeira vez”. sendo que do outro. E há ainda o outro. Camargo (2009. Afirma Bakhtin ([1941] 1993. Segundo Camargo (2009). 2009. da interação entre os sujeitos. mas ao contrário um ser cheio de palavras interiores”. 302) esclarece que “o ato responsivo deve ser entendido como aquele realizado por um sujeito social em interação com um ou mais sujeitos”. avaliado de muitos modos diferentes. mas também se refrata. de qualquer forma. 147) que “aquele que apreende a enunciação de outrem não é um ser mudo. não dependendo unicamente de sua própria consciência e compondose em algo social. quer concordando. Quer dizer. A palavra alheia está sempre presente nos atos de interpretação. 59): Vindo com a enunciação. por meio da enunciação. será sempre gerada a réplica. Neste raciocínio. ou os outros que habitam o seu mundo interior e interferem na construção do discurso. Sobre a alteridade. que envolve tanto o locutor quanto o interlocutor. assim como o signo não apenas se reflete no outro. a alteridade faz parte da unidade. p. conforme o concebe e segundo entende que este mesmo o concebe. O sujeito se constitui e se transforma sempre por meio de e para o outro. sempre espera um ato responsivo. criticando o discurso. que é o interlocutor. É na relação de alteridade que os indivíduos se constituem. discordando. Essa interação é um processo de recepção/compreensão ativa. O homem encontra um mundo já articulado. Ocorre um constituir-se e alterar-se constante do sujeito durante a interação verbal. (CAMARGO. que só é possível pela presença do outro. elucidado. p. Bakhtin explica que o diálogo é a relação de alteridade existente entre duas consciências socialmente organizadas. sendo um dos fatores determinantes para a construção dos sentidos pelo mesmo. Essa incorporação do exterior no interior através da enunciação equivale a colocar em crise a unidade do sujeito: para Bakhtin trata-se de atribuir ao sujeito um estatuto que não coincide com o de um só autor. p. Esse processo é o que o círculo ______ [ 245 ] .

enquanto sujeitos de um mesmo horizonte social. Queremos dizer que o discurso é heterogêneo. remodelados pela possibilidade da refração dos signos e dos sujeitos.. como forma de ascensão social ou. existem quantidades imensas. são o direcionamento ideológico que consolidou o Hip Hop nos Estados Unidos e teve continuidade no Brasil. p. pelo menos. não necessariamente). ele é construído por várias vozes sociais.] Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo. E esse mesmo processo ocorre com o signo e com a língua. o dialogismo é a “característica essencial da linguagem e princípio constitutivo. [. p. independente da temporalidade. quando são expostas por meio da marcação de aspas. mas em determinados momentos do desenrolar posterior do diálogo eles são relembrados e receberão vigor numa forma renovada (num contexto novo). é um fator constitutivo da linguagem. enquanto signo. não estamos nos reportando ao “inconsciente”. mas só é possível nela. ______ [ 246 ] .. O dialogismo é um fator presente. 410). são dialógicos e as ideologias presentes neles são inúmeras. ou seja. do grupo “Sai da Reta”: “Aqui na minha city eu sou considerado / Meu estilo de vida é bem diferente / Tá mais louco agora que eu virei repente”. Reportando-nos a Bakhtin ([1979] 2000. pelo “já-dito” e as mesmas vozes podem estar evidentes no discurso. no discurso direto. por meio das posses que os elementos dessa cultura trazem.bakhtiniano irá chamar de diálogo ou dialogismo em sentido restrito. é mascarado. temos que Não há uma palavra que seja a primeira ou a última e não há limites para o contexto dialógico (ele se estira para um passado ilimitado e para um futuro ilimitado). funcionando como a maneira pela qual esta se organiza e. que. pois não está manifesto no discurso. Isso quer dizer que o Rap. Observemos os versos da canção “O mano de estilo”. de desenvolver autoestima pela arte e pelo pertencimento a um grupo. muitas vezes. então. As vozes sociais que ecoam. para os estudiosos do Círculo de Bakhtin. não estamos afirmando que o sujeito não tem conhecimento dessas vozes (ao menos. Quando concordamos que o discurso é mascarado. por meio de sua criatividade (também sócioideológica). um dos fundamentos da Análise do Discurso de orientação Francesa. ilimitadas de sentidos contextuais esquecidos. e os rappers. Discursos passados são retomados. muitas vezes mascarado. O dialogismo. participam da construção dos mesmos signos. pelas posições axiológicas com as quais os sujeitos. então. Afirma Barros (1999. As vozes que constroem esse discurso estão mascaradas: percebemos a vinculação da conquista de status social do sujeito com o fato de ele começar as atividades de rapper. de todo discurso”. 2).

AS RIMAS ENQUANTO GÊNEROS DO DISCURSO Os discursos. [1979] 2000.. quando pensamos no diálogo que há entre o sujeito e o mundo.ou com a contextualização. A análise baseada na concepção de gênero permite ser apropriada para os estudos do discurso pela completude que o termo engloba. como é o caso da letra da música. não surgiram do nada. é impossível não considerá-lo enquanto material linguístico concreto e se a materialidade se dá nos gêneros. são concretos porque possuem uma historicidade. entre o sujeito e o seu interlocutor. Certifica o filósofo que “apenas o contato entre a significação linguística e a realidade concreta. que se relacionam com as diferentes esferas da atividade e da comunicação” (BAKHTIN. discurso e ideologia. ao mesmo tempo em que é o meio para o trabalho e a existência desses fatores e pode ser entendido em sentido amplo. tampouco em discurso indireto. está-se levando em conta que os enunciados são concretos e únicos. escondidas e são apreendidas pela memória discursiva. [1979] 2000. Essa enunciação interessa aos estudos bakhtinianos. Quer dizer.. 311). ideal ou abstratamente. Isso quer dizer que a interação verbal surge da necessidade humana e da realidade concreta de uma atividade que é social. mas que também podem não estar visíveis.) lida inevitavelmente com enunciados concretos (escritos e orais). apenas o contato entre a língua e a realidade – que se dá no enunciado – provoca o lampejo da expressividade” (BAKHTIN. as quais são denominadas por Bakhtin (2000) de gêneros do discurso. Conforme o autor. “um trabalho de pesquisa acerca de um material linguístico concreto (. Em suma. encontram sua materialidade no cotidiano a partir de formas mais ou menos estáveis. para qualquer estudo de processos discursivos é necessária a delimitação do material a ser estudado dentro de um gênero do discurso. mas foram ______ [ 247 ] . quando se utiliza o discurso indireto. Elas estão nas entrelinhas. Essas vozes ideológicas que identificamos não aparecem nem em discurso direto. Dessa forma. considerando o diálogo. sendo ao mesmo tempo o confronto e o resultado do processo dialógico. p. ou em sentido restrito. o dialogismo é o resultado do entrecruzamento e do trabalho de todos os elementos que pretendemos explanar aqui: sujeito. se para analisar um dado discurso. Quando se fala em gênero de discurso. enquanto interação verbal. p. 282).

quais erros ele cometa. características semelhantes a de um poema. então. Esses gêneros do discurso estão vinculados a uma esfera social. dissertações. dependendo de onde o sujeito se encontra para proferir o discurso. p. está também. ou seja.. os enunciados são. Assim. também. os quais nada mais são que os gêneros. pois. O sujeito que se utilizará do discurso o fará em um determinado contexto de produção. condicionada a fatores sócio-econômicos. os artigos científicos. evidenciará seu estilo próprio. este será de uma determinada forma. portanto. pois este enquadramento não é passivo. 2009. e essas tendências dependem de fatores sócio-econômicos. o religioso. etc. como ele analise as formas. uma interação. Parafraseando Bakhtin/ Voloshinov ([1929]. Quando o indivíduo aprende uma língua. haverá. em várias atividades humanas e são a memória e o acúmulo da história de suas utilizações. o literário. a criatividade e a liberdade do sujeito para a elaboração de novas formas discursivas.50). de evolução. a canção. o relatório. misture-as ou combineas. a tira. p. porém o novo e o criativo tomam seus espaços quando há a evolução nas formas discursivas. existe a preocupação com a rima. considerará seu interlocutor. a ata. Desse modo. dentre tantos. vem ocorrendo mais aceleradamente. desde o século XX.” (GEG.construídos pelos sujeitos: “São o retrato dos usos já feitos anteriormente. entre outros. com a modernidade. a notícia. Não importam quais sejam as intenções que o falante pretenda transmitir. apesar da maioria dos Rap`s apresentarem uma linguagem mais objetiva do que poética. A autonomia. a reportagem. No caso de nosso material linguístico. uma vez que. o científico. Dessa maneira. trata-se de um discurso que faz parte da esfera social literária. teses. a um espaço social e discursivo. As suas intenções subjetivas terão um caráter criativo apenas quando houver alguma coisa que coincida com tendências na comunicação sócio-verbal dos falantes em processo de formação. com a métrica e com o ritmo. ele aprenderá e será condicionado por modelos mais ou menos prontos e já existentes. dentro da esfera literária. o jurídico. únicos. a fábula. Entretanto. o familiar. correspondente a esferas de atividade humana e a domínios discursivos: o jornalístico. 176). a carta. fato que. A esfera social determina que gênero será usado. podemos citar o poema. consideramos ______ [ 248 ] . uma ação dialética. São incontáveis os gêneros discursivos que hoje habitam a vida discursiva dos falantes. seus discursos irão se enquadrar nesses padrões pré-construídos. 1999. evidencia-se o selo do social na individualidade. ele nunca criará um novo esquema linguístico nem uma nova tendência na comunicação sócio-verbal.

é das relações das consciências individuais. dos discursos que. uma notícia. mas deles são também formadores. ainda. ter um campo léxico que atraia o ouvinte. Assim. formulam-se no cotidiano que se formam os discursos dos sistemas constituídos. espontânea. o Rap é delimitado como gênero secundário. produzidos em uma interação organizada e desenvolvida. à estrutura em si. no momento de sua expressão. p. Os secundários são os de natureza mais complexa. 1999. (BAKHTIN. “os sistemas ideológicos constituídos da moral social. p. é que se podem ______ [ 249 ] . A IDEOLOGIA E AS VOZES SOCIAIS Pode-se falar em duas formas de sistemas ideológicos existentes: os sistemas ideológicos constituídos e os sistemas ideológicos do cotidiano. como uma conversa entre amigos ou familiares. ao contrário. mais flexíveis e sensíveis que os constituídos. constituem uma riqueza a ser explorada. por suas características constitutivas: por possuir melodia e ritmo. há a preocupação com a sua elaboração: é preciso rimar. ideologicamente. [1979] 2000. é possível classificá-los em Gêneros Primários e Gêneros Secundários. melodia. p. sem preocupação com a construção do discurso. ao formato do texto) e ao estilo (que são as marcas linguísticas que cada indivíduo deixa transparecer no texto: recursos lexicais. entre outros. Segundo Bakhtin/Voloshinov ([1929]. assegura-se que os signos não são constituídos por meio de imposições dos sistemas. Para melhor definir e delimitar os gêneros. porque.o Rap enquanto pertencente ao gênero música. Os primários são aqueles simples. [1979] 2000. ter ritmo. uma narrativa literária. da arte e da religião cristalizam-se a partir da ideologia do cotidiano”. Segundo Bakhtin. fraseológicos. frutos de uma comunicação imediata. 280-281). que a diversidade e heterogeneidade dos gêneros existentes não prejudicam a delimitação do estudo. a enunciação também está atrelada à construção composicional (que corresponde à forma com que um discurso é construído. Vinculado ao gênero. 118). etc. é preciso considerar. elaborada. Assim. Assim sendo. Por meio dos sistemas ideológicos do cotidiano. está o conteúdo temático (o assunto e seu contexto de produção: Quem o produziu? Para quem? Quando? Onde? Qual é o veículo de circulação? Qual é o suporte?). “esses três elementos se fundem no todo do enunciado” (BAKHTIN.). Nos pressupostos bakhtinianos. 279). da ciência. determinando-o e vice-versa. como uma carta comercial. mas. Além do conteúdo temático.

p. a superestrutura. é importante ressaltar que. caracteriza-se como parte do sistema ideológico do cotidiano. a qual depende das ideologias que convivem no universo do sujeito (FARACO.desencadear as mudanças tanto nas superestruturas. As forças centrífugas tendem à descentralização. também. que. esta age de forma dinâmica e promove a mudança. o signo é plurivalente: refrata e reflete. entende-se que a consciência é repleta dos confrontos ideológicos que habitam os signos. O termo é usado para designar o campo que envolve a ciência. das lutas de classes. Em outras palavras. transformandoos em elementos sócio-ideológicos. ela é utilizada para designar o todo da vida não material de uma sociedade. para o círculo bakhtiniano. Assegura Bakhtin (1998. sendo. por alguns. favorecendo a estratificação dos signos. p. esse próprio discurso apresentará uma posição avaliativa. então. enfim. 82) que “é possível dar uma análise concreta e detalhada de qualquer enunciação. quanto na infraestrutura socioeconômica (Ibidem. Para aclarar o processo de reflexo e de refração. assim. 120). Essas forças contraditórias são as forças centrípetas e centrífugas: aquela tenta impedir o plurilinguismo (existências de várias vozes socioideológicas). a referenciação do termo com um caráter axiológico (avaliativo). assim. As forças centrípetas tendem à unificação e centralização dos signos e à canonização de certos sistemas ideológicos. flexível e possível de promover mudanças nas superestruturas. a religião. é chamado de produção espiritual. O que desencadeia as forças centrífugas e torna o signo algo instável e mutável. uma vez que todo enunciado ocorre na esfera de uma das ideologias (no sentido das produções não materiais da sociedade). à desunificação e ao plurilinguismo. p. recorremos à citação a seguir: ______ [ 250 ] . por sua vez. que o discurso que se desenvolve no Rap não é apenas reflexo do sistema constituído. entendendo-a como unidade contraditória e tensa de duas tendências opostas da vida verbal”. o direito. a filosofia. mas. admitimos. a ética. 2009. a arte. Já que ‘ideologia’ é tratada de diversas maneiras pelas variadas teorias. tentando manter a forma ideologicamente homogênea da língua/signo. Ao concordar com o parágrafo acima. 46). Compreendendo que o signo é tido como o local mais propenso para a identificação das ações ideológicas e. Sendo assim. por ser originário da realidade social da periferia e estar presente cotidianamente na vida dos sujeitos. é o embate dos distintos índices de valor (provindos da situação socioeconômica diferenciada de cada grupo). Ocorre.

todo signo está sujeito aos critérios de avaliação ideológica (isto é: se é verdadeiro. Podemos utilizar o exemplo citado pelo próprio filósofo: o pão e o vinho não têm. é a concepção do objeto/signo em sua forma imediata. transformando-os. os sujeitos. Afiança Dahlet (1997. No processo de significação. E isso só foi possível.). mas o atravessam com toda a sua vivência ideológica (de onde se originam os índices de valor). 106). ao participar de um diálogo (seja verbal. ao interpretar. ser-lhe fiel. as quais: não coexistem pacificamente com outros elementos da existência a ela previamente integrados. por assim dizer. Os índices de valor dependem de cada grupo social com o qual os sujeitos têm contato e das várias vozes sociais que neles se evidenciam. com interlocutor visível. [1929] 1999. as várias vozes que ecoam e constituem os sujeitos cascavelenses se confrontam com aquelas que compõem o Rap que chega e desse confronto resultará outro signo. remodelando-os. As vozes sociais. por conta do contexto socioideológico em que se encontra. modificando sua realidade primeira. p. uma história e uma ideologia. Esse choque acarreta a reformulação desses signos. mas isso acontece de tal modo que a nova significação pode entrar em contradição com a velha e reestruturá-la (BAKHTIN/ VOLOSHINOV [1929] 1999. etc. etc. necessariamente. a associação com algo sagrado. e deslocam sua posição no interior da unidade do horizonte avaliativo. em sua natureza. Ele pode distorcer essa realidade. chocam-se com conceitos e signos ideológicos que constituem os sujeitos. uma dada realidade (reflexo) é atravessada por índices de valor e é neste momento que a refração ocorre. O domínio do ideológico coincide com o domínio dos signos: eles são mutuamente correspondentes. correto. p. bom. No caso do Rap. Em suma. p. ou apreendê-la de um ponto de vista específico. ao assimilar. ele também reflete e refrata uma outra.Um signo não existe apenas como parte de uma realidade. mas entram em luta com eles. p. ou não). falso. terá sentidos diferentes daqueles das grandes metrópoles. (BAKHTIN/ VOLOSHINOV. Quer dizer. Este processo gerativo dialético se reflete na geração de propriedades semânticas na língua. o Rap cascavelense. justificado. porque há. não detêm pacificamente o sentido do signo. Uma nova significação emana de uma velha e por meio dela. 32). 32). portanto. que foram construídas dialogicamente por meio da interação entre os sujeitos em seu espaço e circunstâncias. por trás dessa significação. 60) que o ganho teórico do dialogismo ______ [ 251 ] . Tomam esse aspecto no momento do ritual da comunhão cristã (Idem. O reflexo. submetem-nos à reavaliação.

é preciso considerar que. por trás do individual e do subjetivo. O enunciado. Brait (1999. ______ [ 252 ] . Posto que o sujeito é permeado por várias vozes sociais. Sendo assim. dispersão que reflete a descontinuidade dos planos de onde fala. no processo de interação entre falantes. por conseguinte intervêm no sujeito. há. 19-20. inevitavelmente encontraram a ideologia que se apresenta nas vozes.. num processo conflituoso e permeável. o individual e o subjetivo têm por trás o social e o objetivo. em decorrência as várias posições possíveis de serem assumidas pelo falante. portanto. compõe-se de uma parte percebida. um contexto social e objetivo. para Bakhtin. (in)acabada por vozes em concorrência e sentidos em conflito”. se relacionam. mas sim pela sua dispersão. 284). Como assegura a estudiosa. Não obstante. compreende duas partes: a parte percebida e realizada em palavras e a parte presumida. baseadas em constatações e julgamentos subjetivos. de acordo com a voz social/ideológica que “soar mais alto”. se interferem no discurso.] Se a palavra presumido pode levar a pensar na situação com uma coisa na mente do falante. E. [. constitui-se por uma parte presumida. grifo nosso) assegura que. p. como sendo uma ‘construção híbrida’. a ideologia está presente no discurso. como um ato subjetivo. perceber a parte presumida do discurso não quer dizer fazer interpretações infundadas. Há uma base material. porém essas vozes estão mascaradas por um discurso que se demonstra monológico. ao ponderarem sobre o dialogismo. o qual é alcançado pela memória discursiva. Da mesma forma.bakhtiniano “tem consequências imediatas na maneira de conceber o discurso. genuíno e sem história. o enunciado concreto. Os estudos do Círculo de Bakhtin. A esse respeito. a parte exteriorizada em palavras pelo sujeito. porque não é marcado pela unidade. não está situada em território insólito. um contexto extraverbal. que não está evidente no discurso e apenas é possível de ser suposta. o sujeito pode assumir diferentes estatutos no interior do discurso. p. ele não é marcado pela unidade. que são os elementos presentes no dialogismo e que compõem o sujeito. sendo determinante na construção do discurso. em que as vozes ideológicas se chocam. ele demonstra que não é nesse sentido que o conceito está sendo usado. Essa suposição. Segundo Bakhtin. podendo assumir várias posições. De acordo com Brandão (1997. como parte presumida do enunciado.. Isso quer dizer que a ideologia exerce um papel fundamental e determinante na ação dialógica de constituição do discurso e do sujeito. no entanto. a parte verbal. como um todo significativo.

constituída pelas vozes sócio-ideológicas que ele assimilou e a partir das quais configurou seus julgamentos de valor. sendo uma crença coletiva. Um terceiro superior ao meu interlocutor imediato. pressupõe um superdestinatário superior. é como se existisse um terceiro avaliando nossas posturas e o nosso discurso. nos justificar. concreto. um destinatário de ordem superior. O terceiro destinatário. com sua compreensão responsiva. idealmente correta. convencer. provavelmente. Porém. afora esse destinatário (o segundo). a verdade absoluta. seja num tempo histórico afastado. social e enraizada no sujeito. cuja compreensão responsiva absolutamente exata é pressuposta seja num espaço metafísico. ele pode ser mais ou menos próximo.AS VOZES IDEOLÓGICAS E O TERCEIRO DESTINATÁRIO As vozes que formam o mundo ideológico do sujeito são a base para que ele eleja as suas verdades e discurse aos seus interlocutores a partir delas e para elas. o autor do enunciado. etc. conhecedor de tudo e guardador da verdade: um superdestinatário. de modo mais ou menos consciente. por exemplo). também chamado de superdestinatário pelo filósofo russo. enfim. como um juiz que observa e julga o sujeito. a ciência. a própria consciência do indivíduo. percebido com maior ou menor consciência) de quem o autor da produção verbal espera e presume uma compreensão responsiva. Bakhtin esclarece que O enunciado sempre tem um destinatário (com características variáveis. é. a ciência. O superdestinatário é a voz que predomina. o julgamento da história. Em diferentes épocas. que participa do diálogo e é superior a mim. Referir-se ao terceiro destinatário ou superdestinatário é referir-se ao discurso ideológico ou às vozes sociais que constituem o sujeito e a partir dos quais e para quem ______ [ 253 ] . 356). o povo. (O destinatário de emergência). Um terceiro a quem queremos agradar. ou qualquer outro discurso que predomine na consciência individual do sujeito e que. (BAKHTIN. Este destinatário é o segundo (mais uma vez.). Segundo observou Bakhtin. o povo. não no sentido aritmético). 1997. predomina na comunidade deste sujeito. adquire uma identidade concreta variável (Deus. pode ser Deus. o superdestinatário. de quem desejamos aprovação. escrevendo um texto. para monitorar se o mesmo está se portando de acordo com a verdade. graças a uma percepção variada do mundo. mas que é afetada pelas demais vozes que se chocam e concorrem pela vontade de homogeneização da consciência individual do sujeito. o terceiro. então. quando estamos em diálogo (ainda que estejamos a sós. Em outras palavras. por assim dizer. o julgamento da consciência humana imparcial. Esse superdestinatário é. p.

[1979] 2000. entonações. Ele é momento constitutivo do todo do enunciado e. quer que sua palavra ultrapasse o imediato de modo ilimitado. Elegemos vozes e damos a elas prioridades para nos constituirmos enquanto sujeitos e elegemos palavras. por meio da minha criatividade. portanto. o homem busca sempre uma responsividade que não se detenha ao imediato. pode ser descoberto. numa análise mais profunda. construções sintáticas. portanto. O processo que ocorre. (BAKHTIN. não é ser o dono de um discurso que se formulou dentro de mim. adquiro a possibilidade de uma relação dialógica comigo mesmo” (BAKHTIN. nesta perspectiva. independente dele. em que há a participação da sociedade e da individualidade do sujeito. “Ao objetivar-me (ao situarme fora). de acordo com nossos propósitos e nosso interlocutor para nos constituirmos enquanto autores de nossos discursos. os estudos bakhtinianos afirmam que organizamos nosso discurso para o outro (o nós). ou seja. p. é trabalhar nas fronteiras. p. Quer dizer. O estudioso adverte que O terceiro em questão não tem nada de místico ou de metafísico (ainda que possa assumir tal expressão em certas percepções do mundo). Segundo Bakhtin (1997. mas é utilizar dessa criatividade para assumir uma posição dentre a guerra dessas vozes que ecoam dentro de ______ [ 254 ] . Ele quer ser ouvido por uma ordem superior. apresentar o meu discurso para o julgamento do terceiro destinatário é situar-me fora de mim e julgar meu próprio discurso. ao seu parceiro de diálogo (o segundo destinatário). não se limita a uma crença religiosa. ainda que o mesmo acredite que esteja. 356). é um processo de objetivação do próprio sujeito. O que é importante ressaltar e que não podemos perder de vista é que essa consciência individual faz parte de uma consciência coletiva. É agir conforme minha consciência. assim. p. Autorar. Não está situado fora do sujeito (não apenas fora). Em conformidade com Faraco (2009. [1979] 2000. gestos. paradoxalmente.este formula e direciona o seu enunciado. Autorar. São valores construídos socialmente com o passar do tempo. para o nosso julgamento. 356). O terceiro destinatário. Nas palavras do estudioso. segundo meus próprios princípios (que foram construídos socialmente). é explorar o potencial da tensão criativa da heteroglossia dialógica. é orientar-se na atmosfera heteroglóssica. é assumir uma posição estratégica no contexto da circulação e da guerra das vozes sociais. a comunidade e. 87). p. por um ser maior do que ele e seu destinatário imediato. 350).

Isso porque ele tem a intenção de abordar características da realidade local: As letras longas. portanto. escolhem um pólo. é misturado com questões da realidade local. O superdestinatário aqui. quer dizer. 130): “E qual seria o ‘significado real do gênero’? Precisamente a correlação entre formas e atividades. mesmo que tenham alcançado destaque na indústria fonográfica (SILVA. um dos valores e procuram mascarar o dialogismo constitutivo da língua ou suas contradições internas. com a memória discursiva e com a individualidade dos sujeitos. p.31) Isso faz com que o elemento cultural. pois. O gênero não deve ser abstraído da atividade. exprimem o universo da periferia. na maioria das vezes. seja ainda mais afetado pelos valores sociais locais. sendo determinante para o processo discursivo). p. No rap a mensagem é sempre pessoal. As classes sociais utilizam a língua de acordo com seus valores e antagonismos. um novo signo. Se autorar significa reformular.mim e reformulá-las em uma nova voz. quando entram em contato com outros grupos sociais. Esclarece Faraco (2009. sobre o que discursa. o signo Rap. por isso os rappers recusamse a cantar músicas de outros rappers. a ideologia Hip Hop. necessariamente. fruto do alheio e do individual. surgem os discursos ideológicos que. a interação dos envolvidos no discurso (quem discursa. o contexto em que discursa. p. o Rap tem essa característica da interferência da realidade local que se choca com uma ideologia universal da cultura. De acordo com Barros (1999. das relações entre os interlocutores”. como discursa. Da língua. quando pensamos no Rap. de suas coordenadas de tempo-espaço. permeadas por expressões locais. para quem discursa. parece que se acentua ainda mais a concepção de que os signos têm modificada sua natureza primeira. ______ [ 255 ] . 1999. como este discurso é recebido pelo interlocutor e como este atua responsivamente. 08). É preciso considerar. complexa e viva. COMO AS VOZES PODEM SER “OUVIDAS” Uma análise a partir dos gêneros buscará o querer-dizer do texto/ discurso perante seu contexto e a significação dele no mundo.

sendo parte dele. Assim. nós estaremos fazendo parte do diálogo desses discursos e a nossa condição de sujeitos. Sobrevivendo em meio à guerra vou cantando a realidade Meu microfonte é minha arma pra derrubar os covardes Seria bem pior se eu estivesse de oitão na mão ______ [ 256 ] . CASCAVEL. Durante a análise das canções. QUEBRADA SOFRIDA FACE HUMANA DO GUETTO 1. baseando-se na concretude das situações e da memória social. 2. a interpretação do pesquisador é de natureza sócio-ideológica. sempre. (BAKHTIN. O estudioso da linguagem adverte que A compreensão do todo do enunciado e da relação dialógica que se estabelece é necessariamente dialógica (é também o caso do pesquisador nas ciências humanas). “O psiquismo subjetivo é o objeto de uma análise ideológica. o terceiro destinatário. irá envolver-se no complexo sistema dialógico. Em outras palavras. 355). ou seja. Segundo Bakhtin (2000. por assim dizer. ainda que seja num nível específico (que depende da orientação da compreensão ou da pesquisa). [1979] 2000.Dessa forma. estudar o superdestinatário e as vozes ideológicas que formam o sujeito é fazer suposições sobre seu psiquismo subjetivo. Assevera Brait (1999. 3. ou seja. p. de onde se depreende uma interpretação sócioideológica”. aquele que pratica ato de compreensão (também no caso do pesquisador) passa a ser participante do diálogo. 48). portanto. as vozes sócioideológicas presentes no discurso. que é constitutivo da linguagem. a análise a partir dos pressupostos do círculo bakhtiniano buscará perceber o extraverbal. A análise que nos propomos a realizar. É importante ressaltar que o próprio olhar do pesquisador sobre o discurso a ser analisado é um acontecimento dialógico e interfere no resultado. as vozes ideológicas presentes no corpo verbal. estão mascarados no discurso e só são perceptíveis se levarmos em conta a memória discursiva. p. ou seja. no material linguístico selecionado. o superdestinatário. constituídos por vozes sócio-ideológicas e por ações axiológicas. ou. os sujeitos fazem uso da linguagem segundo suas necessidades e seus valores e estes. é claro. buscará perceber o “outro” (nós) que se esconde atrás do mascaramento do dialogismo. 19) que “Bakhtin se pergunta como se relaciona a extensão extraverbal com a extensão verbal. muitas vezes. p. como o dito se relaciona com o não-dito”. portanto.

8. 24. um montão Público. 39. de calção rasgado Sou seu pesadelo acordado ______ [ 257 ] . esticado Família de luto. Cascavel. já se foi! Refrão: 26. desigualdade Famílias de luto no nosso dia-a-dia É raro o dia de alegria pra periferia Mas. 14. mas tá difícil Porque tem muita polícia matando Porque tem muito político roubando Porque tem muito rico. 38. o meu povo humilhando O HU está lotado: vinte pessoas pra uma vaga Tá ficando complicado Se sair vivo. 45. tirar a vida é a única solução Mas. 11. do outro lado. PAC2 Dez horas na fila com pneumonia Um abraço. 10. 43. está pronto pra ação Pra eles. 13. 17. 25. 23. 16. PM folgado anda de carro importado Se acha o gatinho no rol de BMW Puxa-saco do governo. tudo isso poderia ser diferente Tipo. 18. a lei é matar ou morrer Choque por que? De tanta revolta no peito. 41. quebrada sofrida do Oeste do Paraná 27. 46. é dia de finados Enquanto isso. o jogo vira. 37. 15. 30. Aqui o filho chora e a mãe não vê 28. 6. 35. 7. 34. 21. Truta. 22. 12. cenário ideal pro Batatinha ganhar ibope em rede nacional Mostrando um favelado no chão. 32. 33. pode acreditar! 29. a história pode mudar Periferia é a união! Nós só queremos melhores condições Condições de sobreviver Porque no mundo em que vivemos. 36. se o povo da favela fosse tratado como gente Se o moleque de rua não fosse chamado de delinquente A paz tá tentando viver. muito cuidado. fora! O citado é PAC1. 5. 40. Eu encontrei no Rap a minha salvação Me desculpe se minhas rimas são agressivas É porque eu não vejo felicidade pra periferia Porque eu vejo a maldade. 42. 9.4. 47. 44. 31. você já é um santo Aqui em Cascavel pra se dar bem Tem que ter dinheiro em banco Hospital particular tem bastante. tanto preconceito Liberdade de expressão é meu único direito Pra sociedade eu não passo de um favelado De chinelo de dedo. 19. Medalha de honra ao mérito no peito de cuzão Cambé ganha prêmio atira em ladrão Periferia. 20.

Com um microfone na mão Me torno perigoso pra político ladrão Não quero caixão lacrado Só quero que o meu povo seja respeitado Refrão: 52. luz e água pra pagar Situação crítica. 61. quebrada sofrida”. 65. 56. 69. agora pra derrubar vai ser uma guerra! Mano Fifo. 51. 66. 57. pelo dom de seguir cantando Face Humana do Gueto. 72. sua casa equipada Vem pra favela pra viver de papelão e catar lata Acho que não passaria da primeira quadra Pra sobreviver aqui é necessário mais que proceder É preciso ter atitude. 79. o grupo “Face Humana do Guetto” na música “Cascavel. quebrada sofrida do Oeste do Paraná 53. expressão do que acontece na periferia Nós chegamos. respeito Respeitar cada cara do seu jeito. Pode acreditar! E rico ainda fala que o povo da favela tá errado Aí. 71. 81. 58. Obrigado. 67. Truta. Deus. pode acreditar! 77. 50. quebrada sofrida do Oeste do Paraná 75. Cascavel. Aqui o filho chora e a mãe não vê 76. Aqui o filho chora e a mãe não vê 54. 60. 49. 78. em ______ [ 258 ] . 64. Deixe de lado sua Mercedes. 63. pode vir nos processar To com o microfone na mão E só a morte é quem pode nos parar Refrão: 74. sociedade rica. 73. playboy folgado. 70. pode acreditar! 55. aliado Pedro e André Assim que é! O CONTEÚDO TEMÁTICO Falando dos locais mais periféricos da cidade de Cascavel. A polícia brasileira está fazendo justiça com as próprias mãos O meu povo não aguenta tanta humilhação Cinco cabeças pra rachar um pão Seu João trabalha no dia-a-dia Quinhentos e dez no final do mês pra sustentar a família Aluguel. 80. Com ódio no coração . 59. 62. Aí.48. 68. Cascavel. Truta.

Está presente neste Rap uma revolta magoada. pode acreditar”. “Só quero que o meu povo seja respeitado” e “Meu povo tá cansado de ser humilhado”. essa mesma classe subjuga os moradores da periferia e os coloca em um patamar inferior pela sua condição. conforme o relato do sujeito. Em outras palavras. da baixa remuneração e da desigualdade que. em outros. o que percebemos nos versos: “Se sair vivo. você já é um santo”. O sujeito menciona a realidade do cotidiano das pessoas que moram nos bairros de classe econômica desprivilegiada. taxando. deixe de lado sua Mercedes e sua casa equipada” e “Aí. tudo isso poderia ser diferente / Tipo. parece dirigir-se a um interlocutor que faz parte do seu círculo de convivência.alguns momentos. playboy folgado. o jogo vira. “Aí. segundo relata a música. se o povo da periferia fosse tratado como gente / Se o moleque de rua não fosse chamado de delinquente”. “Aqui em Cascavel pra se dar bem / Tem que ter dinheiro em banco” e “Cinco cabeças pra rachar um pão / Seu João trabalha no dia-a-dia / Quinhentos e dez no final do mês pra sustentar a família”. narrando as dificuldades e o padecimento por conta da precariedade do sistema de saúde. a história pode mudar”. pela desigualdade social da população da periferia: “A paz tá tentando viver. culturais e educacionais que as classes de maior poder aquisitivo têm: “Mas. muda a direção do discurso. sem ter motivos para tanto. também. os moradores de regiões pobres da cidade. como “favelado de chinelo de dedo e calção rasgado”. responsáveis pela desigualdade social. pode vir nos processar”. não raras vezes. Os momentos da enunciação em que podemos notar maior exaltação são os que constroem sentenças concessivas. que. falando diretamente à classe alta e ao governo cascavelenses: “Mas muito cuidado. sociais. o discurso é direcionado à burguesia cascavelense: “Sou seu pesadelo acordado”. “Aqui o filho chora e a mãe não vê. sociedade rica. o interlocutor é a polícia. é advinda das ações de políticos corruptos e da força policial que coage os cidadãos da periferia. truta. “O HU está lotado: vinte pessoas para uma vaga”. Aqui. entretanto. tira a vida dos moradores da periferia por motivos banais e sem pesar na consciência. Mais adiante. Além de as classes detentoras do poder e os sistemas constituídos serem. O sujeito reclama do preconceito que a população da periferia tem de aturar por não ter as mesmas condições financeiras. ainda que o sujeito exponha toda a realidade dificultosa que o envolve. não convence a elite e os funcionários do governo da legitimidade da sua causa ______ [ 259 ] . de marginais e delinquentes. mas tá difícil / Porque tem muita polícia matando / Porque tem muito político roubando / Porque tem muito rico o meu povo humilhando”.

um ataque à mídia. é composta também de forma a colaborar com o seu objetivo: Há muito ligado à violência das ruas. 70). playboy folgado / Deixe de lado sua Mercedes e sua casa equipada / Vem pra favela pra viver de papelão e de catar lata”. 2006. Em se tratando do suporte. caracterizada como sensacionalista. ______ [ 260 ] . redes de relacionamento como Facebook e Orkut. esticado”. Eis alguns exemplos: “Puxa-saco do governo. seu estilo agressivamente alto e confrontante dão ao rap o vigor estético que aumenta a energia e a consciência de seus ouvintes. “Família de luto. aos locais e modos em que o gênero é veiculado: nesse caso. Estar em uma condição desfavorável pela convenção entre governo e elite e ainda por este motivo ser alvo de preconceito é o que causa mais indignação e leva o sujeito a se dirigir agressivamente a estes atores sociais: “Medalha de honra ao mérito no peito de cuzão”. o sujeito assinala o Rap como forma de protesto contra a conjuntura em que se insere. é dia de finados / Enquanto isso. O suporte corresponde. a melodia. está pronto pra ação / Pra eles tirar a vida é a única solução” (referindo-se ao policiamento) e “Situação crítica. o que demonstra o caráter alternativo e popular das produções. do outro lado / PM folgado anda de carro importado” e “Aí. seus métodos de samplear e arranhar discos. Essa percepção se evidencia do verso trigésimo terceiro ao trigésimo oitavo da canção e do sexagésimo segundo ao sexagésimo sexto. a musicalidade em si. o ritmo. p. Pode acreditar / E o rico ainda fala que o povo da favela tá errado”. Há. para retratar a violência (todos os tipos de violência possíveis) que existem na periferia e o descaso do sistema. ainda. que se compraz com a violência contra os marginalizados para atingir ibope para sua rede de TV: veja-se: “Periferia. O mesmo ocorre do verso quadragésimo sétimo ao quadragésimo nono e nos versos septuagésimo segundo e terceiro. ou seja. as músicas estão expostas na internet. Para o querer dizer do Rap. ele é esteticamente elaborado de maneira a expressar e a traduzir essas situações. em sites como Youtube. ou seja. cenário ideal pro Batatinha ganhar ibope em rede nacional / Mostrando um favelado no chão. (SHUSTERMAN. o rap também exibe uma violência estética. A força rápida e intensa de seu ritmo.e dos motivos que o levam a criticar o sistema. Do primeiro ao sétimo verso. Sendo assim. o signo Rap muda de significação: de arte passa a ser uma arma pela defesa dos direitos dos moradores da periferia. além disso. em pen drives e CD`s (Compact Disc) criados pelos próprios rappers. já que não são veiculadas pela mídia institucionalizada.

Esse recurso é utilizado em vários momentos. que intensifica o clima tenso e produz um efeito de agressividade. (CONTIER. O ESTILO Nesta canção. Pen drives. Essa seleção ocorre de acordo com a situação real da enunciação e de acordo com vários fatores que determinam o discurso: o interlocutor. bem como em CD`s. celulares e sites de redes sociais. quem ______ [ 261 ] . que se repete como plano de fundo da música do início ao fim. principalmente. às vezes. o que aproxima ainda mais as músicas dos sujeitos ouvintes/interlocutores dos subúrbios. Esta composição circula em shows de que o grupo participa em Cascavel e na região e no site palcomp3. os sujeitos que fazem o Rap São aqueles que vivem em favelas. A criatividade dos rappers fundamenta-se na linguagem comum. sem saneamento básico. quebrada sofrida”. o estilo é o retrato do cotidiano. Quanto à construção composicional. Os rappers empregam gírias e construções fraseológicas típicas do dia-a-dia da periferia. a linguagem dessas canções é “nua e crua”. foi colocado o som que imita uma arma sendo engatilhada.br. pela seleção semântica e sintática que o sujeito selecionou no momento da enunciação. o assunto e o contexto de produção. De acordo com a essência popular e alternativa do Rap. ou seja. seco e anasalado. essas músicas são reproduzidas e circulam em meios populares e de livre postagem e acesso.. Conforme Contier. a quem o discurso é direcionado. barracos.com. percebemos um estilo ferrenho e um tanto agressivo. 2005) Dessa maneira. com sotaque próprio. com refrão e uma letra longa. bairros (sem eletricidade.) que apresentam em suas canções uma fraseologia específica. O suporte deste Rap é essencial para a mensagem que o discurso quer transmitir: um discurso revoltado e agressivo. As mensagens são explícitas.A canção está composta por uma introdução que parece querer causar a sensação de estresse e de tensão. sem idealização ou adorno poético. sem asfalto. não diferente das demais músicas de Rap. claras e de fácil entendimento. ela se apresenta em versos. mas uma agressividade canalizada e executada por meio da música. sem transporte coletivo. em diálogos marcados basicamente pela oralidade. Esse estilo combativo foi alcançado.. Em “Cascavel. Na introdução.

“luto”. Então. o sujeito tem consciência da escolha vocabular que faz e a justifica. “maldade”. “arma”. tudo irá depender da classe social e do grupo cultural. 1997. “matar ou morrer”. “preconceito”. que não há como ser diferente porque a maneira que ele assimila o meio em que vive propicia uma linguagem violenta. como por todos os simpatizantes da cultura Hip Hop. uma mensagem que quer ser ouvida e compreendida. de seu projeto discursivo”. Sendo assim. é interessante destacar aqui. “roubando”. que irá assimilar e organizar essas informações. que são as vozes sociais assimiladas e reorganizadas por ele no decorrer de sua vivência. “delinquente”. enquanto sua individualidade resulta da livre concepção. “ladrão”. tal como se mostra a realidade vivida pelo sujeito no espaço em que vive. se há uma normatividade que depende dos fatores expostos para a escolha sintática e lexical no momento do projeto discursivo do sujeito. 170) assevera que “Os indivíduos não se inscrevem numa mesma ordem de coisas. que faz do Rap. argumentando. o preconceito e a coerção a que os moradores são submetidos. “gambé”. O espaço social. A normatividade se exprime nas combinações que o enunciado realiza. esticado”. “me torno perigoso”. “favelado no chão. carregado de ira. vocábulos e sentenças selecionados pelo sujeito que o identificam como conhecedor das gírias utilizadas pelo Hip Hop e enquanto sujeito que concebe o Rap como ferramenta de protesto: “cantando a realidade”.é o sujeito locutor e de onde ele discursa. os quais. notamos um vocabulário pesado. são utilizados não apenas pelos rappers. “derrubar”. “sou seu pesadelo”. “oitão”. quer dizer. A esse respeito. há “guerra”. “humilhando”. “finados”. além de um desabafo. ______ [ 262 ] . portanto. p. Portanto. Essa relação que há entre Rap e protesto e/ou salvação do mundo do crime faz com que as músicas tenham vocabulários em comum. Nos versos “Me desculpe se minhas rimas são agressivas / É porque não vejo felicidade pra periferia / Porque eu vejo a maldade. “revolta”. há também a reconfiguração desta normatividade pelo mesmo. “tirar a vida”. a periferia. Este último fator que evidencia os fatores a que o sujeito que discursa está condicionado. Dentre os vocábulos e sentenças selecionados pelo sujeito que conotam agressividade. pelo locutor. inclusive. é categórico para o estilo verbal. do meio social em que o sujeito se constituiu e da ação da individualidade e criatividade dele. desigualdade”. na realidade. Em outras palavras. também. “desigualdade”. Podemos compreender que a revolta presente na canção é reflexo do meio em que o sujeito se encontra. “cuzão”. onde presencia a injustiça. “puxa-saco do governo” “atira”. (FAITA. “caixão lacrado” e “morte”.

As armas são trocadas por palavras que. O Rap. Em suma. “moleque de rua”. Quer dizer. o sujeito prevê as concepções de seu superdestinatário. como dizendo: “sei que o caminho para a mudança não é a agressão” e também já entendendo que muitos dos Rap`s com um conteúdo pesado como o dele é considerado pela população. em geral. é aqui o superdestinatário do sujeito. inclusive. no momento da enunciação. baseado nos respingos que o atingem dos estudos e mobilizações marxinianos iniciados no século XIX. porém o governo ignora. igualmente às primeiras. gerando desigualdade social e prejudicando a maior parte dos cidadãos. O discurso se dirige a um ente politicamente correto que é capaz de compreendêlo em sua indignação. inclusive. universitário. há o suposto ideal de um sistema menos desigual e injusto. “salvação”. do oeste paranaense. o sofrimento e a insatisfação popular existem. médico e cultural de um estado que. “Rap”. também querem assustar e ferir. como música de apologia ao crime. por si. “playboy” e “atitude”. “rimas”. “truta”. na maioria dos casos. cidade sofrida do Oeste do Paraná / Aqui o filho chora e a mãe não vê / Truta. mencionando. anticapitalista. ele se antecipa a uma réplica que supõe de seu superdestinatário. Dessa maneira. “liberdade de expressão”. Em outras palavras. “perifeira”. É interessante ressaltar que o município de Cascavel tem o status de ser um dos mais desenvolvidos e de melhores condições de vida para a população. também é tido como referência. o nome da cidade. A raiva e a mágoa que o sujeito sente pelo sistema social são canalizadas e ele faz do Rap a sua munição. “favela”. “povo”. AS VOZES DO TERCEIRO: IDEOLOGIAS Atualmente. o cidadão tem noção de sua situação de classe e. Essa forma possível. O mesmo ______ [ 263 ] . Sendo assim. É referência como polo industrial. O refrão da música analisada retrata bem esta situação de incapacidade e inércia do governo: “Cascavel. pode acreditar”. quebrada sofrida” são aquelas herdadas pelo que o sujeito assimilou de como deve ser um governo que promova a equidade social.“microfone”. assume a posição de meio de expressão e de protesto contra essa conjuntura. as vozes ideológicas presumidas em “Cascavel. por muitos dos que compartilham do ideário de sociedade do sujeito. a música quer quebrar essa imagem com esse refrão. ele sabe que o sistema atual não funciona como previsto no direito que o sustenta. No verso “Me desculpe se minhas rimas são agressivas”.

Quando o sujeito enuncia que poderia ter um oitão na mão.ocorre em “Seria bem pior se eu estivesse de oitão na mão”. vozes ideológicas que preconizam a mudança por meio da força bruta e da guerra. aparecem. o confronto. mas tá difícil” e “O HU está lotado: vinte pessoas pra uma vaga / Tá ficando complicado”. conforme uma ideologia anticapitalista que prevê uma reforma sistêmica por via da cultura.” Assim. “com um microfone na mão / Me torno perigoso pra político ladrão” e “To com o microfone na mão / E só a morte pode nos parar”. se o povo da favela fosse tratado como gente”. “Nós só queremos melhores condições / Condições de sobreviver” e “Não quero caixão lacrado / Só quero que o meu povo seja respeitado” deixam transparecer que o discurso clama por mudança por meio da ação pacífica. “Liberdade de expressão é meu único direito”. as vozes do politicamente correto. Recordando Barros (1999. O objetivo é justificar o uso do linguajar agressivo. logo. da educação e da arte seja as que dominam o discurso. como a realidade imediata em que se apresentam as crenças e os julgamentos dos rappers. são os pressupostos ideológicos do Hip Hip. p. Porém os versos “Mas. 06). apresentando a prática criminosa que é comum entre membros da comunidade. necessários outros textos que. É perceptível que o sujeito discursa conforme vozes ressonadas do discurso Hip Hop: “Eu encontrei no Rap a minha salvação”. Nos versos “A paz tá tentando viver. que até se confunde com a ideologia anticapitalista. a luta. há a luta entre vozes que constituem o sujeito do discurso em análise. uma advertência de que não está mais sendo possível suportar e esperar pela mudança que demonstra ser tão lenta por meio de meios pacíficos. em vários momentos. Portanto. os choques sociais. foi possível identificar as vozes sócio______ [ 264 ] . tudo isso poderia ser diferente / Tipo. recuperem a polêmica escondida. CONSIDERAÇÕES FINAIS Compreendendo o Rap enquanto texto pertencente ao gênero do discurso musical. “Para reconstruir o diálogo desaparecido são. Embora. externamente. nesse caso. deixa claro que conhece outro meio. isso porque o próprio Hip Hop assimilou vozes do discurso anticapitalista mobilizado no século XX. “Meu microfone é minha arma pra derrubar os covardes”. Outro superdestinatário presente. notamos um tom de ultimato. há resquícios dessas vozes que autenticam a revolta brutal.

quer dizer. em suma. da enunciação. a época. A época. 313). A partir da explanação introduzida sobre os estudos de Bakhtin acerca da linguagem e da aplicação de alguns dos conceitos para a análise da música escolhida. da internet. no caso em análise. servem de inspiração. essas ideias que influenciam o sujeito são as vozes sócio-ideológicas que ele assimila. o contexto histórico-social ditam um número de ideias. Brait (1999. sofrerá outros julgamentos de valor e possuirá. [. mas no contexto de vida onde as palavras foram embebidas e se impregnaram de julgamentos de valor. então. o micromundo – o da família. prenhe de vozes socioideológicas e de um querer-dizer. ou seja. que são citadas. sempre possui seus enunciados que servem de norma. literárias. Assim.] Há sempre certo número de ideias diretrizes que emanam dos ‘iluminares’ da época. imitadas. ao adentrar no universo subjetivo do sujeito. nas quais as pessoas se apoiam e às quais se referem. um contexto social.. principalmente. foi possível adentrar no universo da periferia de Cascavel e perceber a indignação e a revolta de sujeitos que se percebem marginalizados pelo capitalismo e suas instituições fracassadas. são obras científicas. dos amigos e conhecidos. p. em que as palavras já possuem um efeito de sentido e que. enquanto interação socioverbal. dos colegas – que vê o homem crescer e viver. mas em um contexto de vida. foi possível percebê-la enquanto acontecimento. ______ [ 265 ] . a comunidade. Em outras palavras. As palavras e os recursos fraseológicos usados em um discurso. além dos tradicionais meios impressos. como o governo e o direito. portanto. elas são o meio para estudar a ideologia e o subjetivismo e. Os séculos XX e XXI tiveram um grande avanço no que tange à informação sobre os mais variados assuntos. são resultado de uma busca não em um sistema linguístico abstrato. p. são os julgamentos de valor que determinam a seleção das palavras feitas pelo falante e a recepção dessa seleção (a co-seleçao) feita pelo ouvinte. uma nova significação. dão o tom.. O micromundo do sujeito. todas as influências que o alcançam: a família. E esclarece que o falante seleciona as palavras não no dicionário. 21) nos assegura que Segundo Bakhtin. De acordo com Bakhtin ([1979] 2000. e. o meio social. da televisão.ideológicas que estruturam as maneiras de pensar e de se expressar por meio da própria expressão verbal. percebemos que a voz que ecoa no discurso analisado é um pensamento anticapitalista. O advento do rádio. a filosofia mais difundida que se destaca e está em voga. ideológicas. Por isso.

conquanto. sequer à maioria. Consequentemente. Mikhail. assim. a cultura popular e o Hip Hop enquanto arte doe protesto. tanto que o próprio discurso. ______ [ 266 ] . Atualmente. para se fundamentar ideologicamente. São Paulo: Martins Fontes. uma vez que. há a percepção genérica de que o sistema capitalista não consegue satisfazer a todos. portanto. seria uma maneira alternativa de a periferia se fazer notar e conquistar a igualdade. de Maria Ermantina Galvão G. Estética da Criação Verbal. Isso se deve. como a garantia da educação básica e reclamem pela sua concretização. muitas vezes. O anticapitalismo. 2000. com o acesso à educação. A arte. Há uma voz que entende que a equidade social é um direito e a única solução para os problemas é a luta entre as classes. as vozes identificadas foram o anticapitalismo. bem como aos avanços científicos e filosóficos desse período. o Hip Hop já aproveita as ideologias de esquerda. essas vozes ditam as verdades que regem o discurso e a conduta dos sujeitos. Há uma consciência da desigualdade social e a ideia de uma reforma que pode se concretizar por meio da arte e não da força bruta. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAKHTIN. Cremos ser esse o motor que impulsiona o complexo sistema no qual hoje estamos inseridos: o acesso à legislação. por exemplo. Outra voz que se percebe está muito baseada nos pressupostos do socialismo. possibilita que os cidadãos saibam de seus direitos. (Trad. como o socialismo. Essa voz é percebida em todas as canções e se confunde com o próprio discurso do Hip Hop. é um dos superdestinatários do texto. que hoje pode ser obtida na internet. certamente. ainda. Pereira). embora as políticas públicas voltadas a ela sejam. de conhecer. principalmente. Em suma. o cidadão alcança o mínimo de condições que possibilitarão a ele compreender a situação do sistema social em que está inserido. o socialismo. precárias. as informações e as filosofias que estão em voga não sejam plenamente assimiladas e compreendidas. O cidadão conquistou o direito da liberdade de expressão e. direciona-se ao terceiro destinatário e espera dele a aprovação do discurso. ao surgimento da burguesia no século XVIII e XIX e às reformas políticas desencadeadas no iluminismo. de estarem informadas. é muito mais fácil perceber a realidade social e questioná-la do que há um tempo mais remoto. De acordo com Bakhtin.propiciaram às pessoas de diferentes classes sociais a oportunidade de saber.

1997. (Trad. 1999. p. GEG. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. CONTIER. Palavras e contrapalavras: glossariando conceitos. Disponível em: http:www. Nagamine. FAITA. Intertextualidade.gov. 1997. dialogismo e construção do sentido. O Rap brasileiro e os Racinais MC’s. Edusp: São Paulo. In: BRAIT. Diana Luz Pessoa. José Luiz (Org. Bakhtin. Beth.). Dialogismo e Construção do Sentido. Campinas. 299-315. Helena H. Diana Luz Pessoa & FIORIN. 2005. nº 19.php. 1999. Dialogismo.br/historia. Escrita. SP: Unicamp. CASCAVEL. Valentin Nikolaevich. Atitude responsiva e linguagem televisiva. Bakhtin. Patrick. Daniel. Diana Luz Pessoa & FIORIN. 1997. BRANDÃO. Intertextualidade. As vozes bakhtinianas e o diálogo inconcluso. Polifonia. Mikhail/VOLOSHINOV. Portal do Município. dialogicidade. Arnaldo Daraya. I Seminário Internacional do Adolescente. São ______ [ 267 ] . José Luiz (Org. Edusp: São Paulo. Amaral Wander. Acesso em: 05 de novembro de 2011.cascavel. 1999.pr. Dialogização enunciativa e paisagens do sujeito. de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira).).). Bakhtin. In: BARROS. BRAIT. SP: Unicamp. In: BARROS. dialogismo e construção do sentido.). leitura. In: BRAIT. Beth.BAKHTIN.br/scielo. 2º sem. In: Revista Línguas e Letras. In: BRAIT. Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso. categorias e noções de Bakhtin. SP: Unicamp. proceedings. 10.scielo. BARROS. Disponível em: http://www.php?pid=MSC000000008005000100010&script =sci_arttext DAHLET. A Noção de “Gênero Discursivo” em Bakhtin: uma mudança de Paradigma. CAMARGO. Polifonia e Enunciação. Polifonia. 2009. vol. Beth (Org. Dialogismo. São Paulo: Hucitec. Campinas. Campinas. Dialogismo. Beth (Org.

). Arte e educação: a experiência do movimento Hip Hop paulistano. Rap e educação. sendo que. 1999. As vozes do Rap nas quebras de Cascavel: um estudo dos pressupostos dialógicos. Hip Hop e a Filosofia. Tommie (Org). resumidamente. NOTA 1) Utilizamos esses termos a partir do pensamento marxista. Universidade Estadual do Oeste do Paraná. ______ [ 268 ] . 2012. Silvana Carolina. Richard. SHUSTERMAN.Carlos: Pedro & João Editores. a infraestrutura diz respeito à vida de uma sociedade. São Paulo: Selo Negro Edições. Derrick & SHELBY. 2009. a moral. 186 f. a religião. Cascavel. enfim. Rap é educação. In: ANDRADE. 2012. Tradução de Martha Malvezzi Leal. a economia. SILVA. suas classes e meios de produção. Estética rap: violência e a arte de ficar na real. TREVIZAN. José Carlos Gomes da. 2006. Elaine Nunes de (Org. a arte. instituições ideológicas. São Paulo: Madras. e a superestrutura abrange a vida não material: a cultura. In: DARBY. Dissertação (Mestrado em Letras). o direito.

mulher. grupos de apoio. atuando principalmente nos seguintes temas: discurso. E-mail: francieleluzia@yahoo. Atualmente é professora Adjunto B da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. campus de Marechal Cândido Rondon. onde atuou como professora de 2009 a 2013.br . Graduada em Comunicação Social – Jornalismo pela Faculdade Assis Gurgacz (FAG). Tem experiência na área de Linguística. práticas discursivas para o ensino da leitura e produção escrita na língua materna. maternidade.com. Aluna regular do doutorado em Letras. campus Cascavel. Mestrado em Letras .com Franciele Luzia de Oliveira Orsatto Professora do curso de Letras Português/ Inglês/Espanhol/Italiano da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste).Linguagem e Sociedade pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2006) e Doutorado em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina (2012). com ênfase em Análise de Discurso.AUTORES Luciane Thomé Schröder Possui Graduação em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (1999). E-mail: ltschroder@gmail. desde 2010. mestre e graduada em Letras Português/Inglês pela mesma universidade.

língua e sociedade”. Tem experiência na área de Letras. com a temática: “O discurso sobre as cotas para negros na revista Veja”.Unipar (2007). campus de Cascavel (2012).Unipar (2005).Unioeste (2010). Possui graduação em Letras Português/Inglês e respectivas Literaturas pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE).com ______ [ 270 ] .Unioeste (2012). Mestre em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Especialista em Ensino da Arte.com Luiz Carlos de Oliveira Graduado em História pela Universidade Paranaense . Especialista em História Regional pela Universidade Paranaense .Alexandre da Silva Zanella Doutorando em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal Fluminense (UFF) (20132017). com trabalho intitulado “Metrópoles do futuro: o barulho por trás do ranking de Veja”. Cadastrado nos grupos de pesquisa “Confluências da Ficção. campus de Cascavel (2009). com ênfase em Análise do Discurso. Cultura e História Afroindígena pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná . Mestre em Letras (concentração em linguagem e sociedade) pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná . vinculado à linha de pesquisa “Interdiscurso: práticas culturais e ideologias”. E-mail: aleszanella@gmail. História e Memória na Literatura” e “Discursividade. E-mail: naosoueumesmo@gmail.

com Alex Sandro de Araujo Carmo Graduado em Comunicação Social Publicidade e Propaganda pela Faculdade Assis Gurgacz (2007) e Mestre em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2011).br ______ [ 271 ] . no ano de 2009. Editor responsável da Revista científica Advérbio (FAG) e da Revista Midiação (FASUL). E-mail: alexaramo@yahoo. em 2006. Atualmente é Agente Educacional na SEED/PR e docente no curso de Pedagogia do CTESOP. em 2007. Tem publicado artigos científicos nas áreas da Comunicação (estudos semióticos e estudos da recepção) e da Linguagem (análises discursivas de práticas publicitárias). nos cursos de Publicidade e Propaganda e Jornalismo. Graduada pela mesma instituição em Pedagogia.com. E-mail: paulafabisouza@hotmail. Mestre em Letras pela UNIOESTE. Especialista em Educação Especial. 2009.Paula Fabiane de Souza Queiroz Graduada em Letras Português/Espanhol pelo CTESOP. Atua como docente na Faculdade Sul Brasil e Faculdade Assis Gurgacz. pelo ESAP.

UNIOESTE e Mestre em Letras pela mesma Universidade.com ______ [ 272 ] . campus Jacarezinho.nardelli@unioeste. Tem experiência na área de Políticas e legislações da e para a Educação Superior. realiza pesquisas pautando-se sempre no viés francês da Análise do Discurso. Desde a graduação.Nelci Janete dos Santos Nardelli Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (1997). principalmente com os temas sexualidade e prostituição.UENP. Também graduada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo pela Universidade Paranaense . de Avaliação Institucional e Planejamento.br Mirielly Ferraça Formada em Letras Português/Italiano pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná . de Desenvolvimento Humano. Leciona Língua Portuguesa e Linguística na Universidade Estadual do Norte do Paraná .FAG. E-mail: miriellyferraca@gmail. Especialização em Gestão Pública e Mestrado em Letras-Linguagem e Sociedade pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2009). É Agente Universitário da Universidade Estadual do Oeste do Paraná . Possui pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira pela Faculdade Assis Gurgacz .UNIPAR.UNIOESTE. E-mail: nelci.

Ficção seriada televisiva e Comunicação Política. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior – CAPES. da Universidade de Coimbra. tais como Televisão e Imagens da Diferença e Jornalismo e Actos de Democracia e no momento Cobertura Jornalística da Corrupção Política: uma perspetiva comparada Brasil. Professor adjunto da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. 1991).com Maria Isabel Ribeiro Ferin Cunha Licenciada em História pela Faculdade de Letras de Lisboa (1974). mestrado em Letras pela Universidade Federal do Paraná (1999) e doutorado em Letras pela Universidade Federal Fluminense (2006). E-mail: asferraris@globo. É vice-presidente do Centro de Investigação Media e Jornalismo (2011-2013) e tem coordenado alguns projetos aprovados pela Fundação Ciência e Tecnologia/Portugal. Pós-Doutorada em França (CNRS. memória. práticas culturais. focando as relações entre sujeito. Moçambique e Portugal. Em Análise do Discurso. ______ [ 273 ] . Media e Migrações. Atualmente é pós-doutorando pela Universidade de Coimbra. político e imagético. Portugal. Atualmente é Professora Associada.Alexandre Sebastião Ferrari Soares Possui graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1989). trabalha principalmente com os seguintes temas: discurso midiático. diversidade e gênero. As suas áreas de interesse são: Análise dos Media (Imprensa e Televisão). com agregação. Mestra (1984) e Doutora (1987) em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.

pela mesma Universidade. Possui 2 livros. Tem 8 anos de experiência no ensino fundamental e médio e 28 anos de docência no ensino superior. Seus estudos enfocam o sujeito.cattelan@gmail. com mestrado e doutorado em Linguística e Língua Portuguesa. a ideologia e o discurso presentes nas letras de músicas. Atua no programa de pós-graduação em Letras (níveis de Mestrado e Doutorado) da instituição há 11 anos. é professora no Colégio Estadual Presidente Castelo Branco. na modalidade de Ensino Médio.João Carlos Cattelan Docente graduado em Letras/Português. 5 capítulos de livros e 65 artigos publicados. Cultura e Ensino” pela Unioeste. na Faculdade Sul Brasil (Fasul).com ______ [ 274 ] . Leciona no Ensino Superior. Foi professor e diretor de escola de ensino fundamental e coordenador de estágio supervisionado. pela UFPR e pela UNESP. E-mail: silcarolina_t@hotmail. em Toledo. especialista em “Linguagem. E-mail: jcc. coordenador de curso. diretor de centro e diretor geral de concursos da universidade a que está vinculado. respectivamente. Atualmente. mestre em Letras .Linguagem e Sociedade. chefe de departamento.com Silvana Carolina Trevizan Graduada em Letras pela UDC.