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Leilyanne Brandão Feitosa

O papel e a função do Ministério Público


Como buscar o Ministério Público
O Ministério Público no Ceará
O Ministério Público de Contas junto aos Tribunais de Contas
e o Ministério Público Estadual
Universidade Aberta do Nordeste e Ensino a Distância são marcas registradas da Fundação Demócrito Rocha.
É proibida a duplicação ou reprodução deste fascículo. Cópia não autorizada é Crime.
Objetivos

• Explicitar a importância da Constituição Federal de 1988 para tornar o Ministério Público


um dos mais importantes protagonistas do Estado Social.
• Explorar como funciona o Ministério Público e como utilizá-lo.
• Apresentar as atribuçiõesdo Ministério Público de Contas junto aos Tribunais de Contas e
refletir sobre sua relevância para o exercício da democracia.

O papel e a função do Ministério Público


O Ministério Público foi consagrado pela Constituição Federal de
1988 como função essencial à administração da justiça. Recebeu a ele-
vada missão de defender a ordem jurídica, os direitos sociais e indi-
viduais indisponíveis, tendo a natural vocação de defender todos os
direitos que abrangem a noção de cidadania, que na clássica definição
de Hannah Arendt, uma das mais célebres filósofas do século XX,
significa “direito a ter direitos”.
Surge assim o Ministério Público como instituição desvinculada de
quaisquer dos poderes republicanos (Executivo, Legislativo e Judiciá-
Filósofa e cientista política rio), com o claro objetivo de manter os seus membros livres de qualquer
alemã, Hannah Arendt interferência de autoridades ou grupos econômicos, fortalecendo-os na
(1906-1975) é considerada
concretização das promessas veiculadas na Constituição e nas leis.
a maior estudiosa da
formação dos regimes É certo que o Ministério Público, muitas vezes, serviu de braço ins-
totalitários – além de ter titucional do regime militar, tendo em vista que, àquela época som-
sentido pessoalmente os bria, o Procurador-Geral da República monopolizava o controle de
efeitos do stalinismo e constitucionalidade de leis e atos normativos em face da Constituição
do nazismo. Entre suas da República. Não se tinha, verdadeiramente, um Ministério Público
principais obras estão As
na concepção de um defensor da sociedade, mas um defensor de uma
origens do Totalitarismo,
Eichman em Jerusalém, legalidade que, não raro, traduzia os anseios da elite militar que go-
quando cunhou a expressão vernou o Brasil de 1964 a 1985.
“a banalidade do mal”. Bem expressa essa verdade Hugo Nigro Mazzili, um dos maiores
estudiosos da instituição do Ministério Público:
Em rigor, portanto, o Ministério Público pode existir seja num regime autoritá-
rio, seja num regime democrático; poderá ser forte tanto num como noutro caso;
porém, só será verdadeiramente independente num regime democrático, porque
não convém a governo totalitário algum que haja uma instituição ainda que do
próprio Estado, que possa tomar, com liberdade, a decisão de acusar até mesmo
os próprios governantes ou de não processar os inimigos destes últimos. (Apud
PEDRO RUI DA FONTOURA PORTO, p. 159)

Portanto, sendo a democracia o único regime compatível com a


dignidade humana, e sendo o Ministério Público um de seus maiores
e ardorosos vigilantes, não se pode admitir que a instituição seja cria-

106 Curso Controle Social das Contas Públicas


da ou remodelada para servir a interesses ditatoriais, massacrando os
direitos fundamentais da pessoa humana. Entre os direitos
É para servir à cidadania que existe o Ministério Público. fudamentais estão a
liberdade de expressão,
Para exercitar essas nobres funções, com a necessária serenidade
o direito de associação,
e altivez, aos membros do Ministério Público Nacional foi definida liberdade de credo,
uma pauta mínima de garantias, a fim de que homens e mulheres que liberdade de imprensa e
o compõem não sejam constrangidos no enfrentamento das causas outras liberdades públicas
econômicas e políticas que fragilizem os avanços sociais alcançados sufocadas pelos regimes
pelas lutas democráticas. autoritários.
Nesse contexto, o Ministério Público aparece como um dos mais
importantes protagonistas do denominado Estado Social. Este Estado O Ministério Público
procura concretizar as liberdades públicas, a partir da regulação de Nacional compreende seus
atividades estatais e privadas, em especial no que tange à ordem eco- diversos ramos: Ministério
nômica e social, para assegurar a todos existência digna, conforme os Público Federal, Ministério
ditames da justiça social como vem expressado, em fortes tintas, no Público do Trabalho e
Ministérios Públicos estaduais.
Título VII, da Constituição Federal eternizada por Ulysses Guima-
rães como “Constituição Cidadã”.
Assim, o Ministério Público recebeu a missão de propor as ações
A Constituição Federal
penais públicas, representando a sociedade nos processos de:
de 1988 foi chamada
• Punição dos infratores da legislação criminal. de Constituição
• Proteger os direitos relacionados à infância e juventude. Cidadã, quando da sua
• Velar pelos interesses das pessoas idosas e deficientes. promulgação, em 5 de
• Fiscalizar, de maneira permanente, o processo de criação e fun- outubro, pelo presidente
cionamento das fundações e entidades de interesse social. da Assembléia Nacional
Constituinte, o deputado
• Buscar mecanismos que viabilizem a proteção.
paulista Ulysses Guimarães
• Recuperação do meio ambiente, do patrimônio histórico, cultu- (1916-1992).
ral e paisagístico.
Também lhe foi conferida a atribuição de zelar pelo patrimônio públi-
co, propiciando a adequada destinação dos recursos financeiros e orça- As necessidades básicas
mentários no atendimento das necessidades básicas da população. são: acesso aos serviços de
Nesta concepção, a sociedade é parceira imprescindível do processo saúde, inclusão na rede
de controle das atividades da Administração Pública, através de seg- oficial de educação, direito
ao saneamento básico,
mentos civis organizados. Utiliza dos mecanismos de controle social
previdência de qualidade,
disponíveis, dentre eles a provocação ao Ministério Público para que segurança pública e outros
investigue e promova a responsabilização de autoridades públicas que direitos sociais.
se omitem na execução das políticas públicas a que estão constitucional-
mente obrigados. Atua também junto aos agentes que desviam recursos
públicos em proveito próprio ou de outrem, enriquecendo de forma ilí-
cita, às custas do sacrifício tributário a que está obrigada a população que
paga tributos e preços públicos para formação da receita estatal.
A Carta de 1988 prevê, em seu artigo 71, a existência de órgão do
Ministério Público junto aos Tribunais de Contas, com a missão de
fiscalizar e promover, perante aquelas cortes de contas, providências
com o objetivo de zelar pela correta aplicação dos dinheiros públicos,

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os atos dos agentes que manejam recursos públicos. Dentre suas atri-
buições estão a emissão de manifestação em parecer prévio sobre as
contas prestadas anualmente pelos agentes públicos e nos julgamen-
tos de tais contas; avaliar a economicidade, legalidade, moralidade,
impessoalidade e eficiência.
As parcerias entre o Ministério Público ordinário e o Ministério Pú-
blico junto ao Tribunal de Contas propiciam a formulação de políticas
preventivas, visando evitar o mau uso ou dilapidação de recursos pú-
blicos. Tal iniciativa se dá pela formulação de recomendações, realiza-
ção de seminários e ajuizamento de ações tendentes a bloquear recur-
sos para garantia a sua fiel destinação ou mesmo para afastar gestores
que praticam atos de desonestidade, conceituados como improbidade
administrativa, de acordo com as disposições da Lei Federal Nº 8.429 –
Lei da Improbidade Administrativa (Veja íntegra no site do curso).
A missão maior do Ministério Público é primar pela justiça social,
um conceito simples que pode ser traduzido pela fórmula secular
concebida por Aristóteles (384-322 a.C.), no sentido de tratar os iguais
de forma igual e os desiguais de forma desigual, ou seja, o valor su-
premo da vida humana é a justiça, e ela deve ser feita, como única
condição de vida em sociedade. É preciso fazer brotar nas consciên-
cias populares que todo e qualquer cidadão possui o direito de buscar
a proteção judiciária, sendo que o acesso à Justiça não se restringe ao
direito de peticionar ao juiz ou de circular livremente nas dependên-
Ao Ministério Público cabe cias dos fóruns e tribunais, mas de ver apreciada com justiça e, por-
fortalecer a cidadania, tanto, com isonomia, a sua pretensão, como bem acentua José Afonso
enfrentando todas as da Silva: “Cada sentença há que constituir um tijolo nessa construção
adversidades e forças que da sociedade justa” (In Poder Constituinte e Poder Popular).
tencionam desestabilizar
Conhecer as atribuições do Ministério Público constitui tarefa de
o sistema democrático,
amesquinhando as todos os segmentos da sociedade. A instituição, por sua vocação de
conquistas do povo. zelar pelos direitos sociais, pode contribuir, de maneira radical, para a
transformação da sociedade, exigindo dos poderes públicos que imple-
mentem as políticas básicas de sobrevivência e dignidade do cidadão.
Esses direitos, ditos prestacionais, que o Estado deve oferecer aos
cidadãos de maneira irrestrita, como bem acentua o publicista alemão
Dietrich Murswiek, podem ser classificados em quatro classes:
a) Prestações sociais em sentido estrito, tais como a assistência social,
aposentadoria, saúde, fomento da educação e do ensino, etc.
b) Subvenções materiais em geral, não previstas no item anterior.
c) Prestações de cunho existencial no âmbito da providência social
(...), como a utilização de bens públicos e instituições, além do
fornecimento de gás, luz, água, etc.
d) Participação em bens comunitários que não se enquadram no item ante-
rior, como, por exemplo, a participação (no sentido de quota-parte), em
recursos naturais de domínio público. (Apud Marcos Maselli Gouvêa)

108 Curso Controle Social das Contas Públicas


De acordo com essa classificação, o Estado Social – embora não
possa ser considerado um Estado paternalista e pródigo – é, no en-
tanto, um Estado preocupado com o bem-estar de seu povo. A Re-
pública Federativa do Brasil é um Estado que se auto-intitulou como
Democrático de Direito e, por isso, abraçou como fundamento a ci-
dadania e a dignidade da pessoa humana. Como Estado Democrático
Essa ampla carta de intenções, entretanto, há de ser fiscalizada, de Direito tem a obrigação
para que sejam mantidos a ordem pública e o bem-estar da popu- de garantir a todos os que
lação. Nesse cenário, o Ministério Público aparece com a finalidade residem em solo nacional
de zelar pela concretização desses valores, chamando para si essas o direito à vida privada,
à intimidade, à honra, à
árduas tarefas.
imagem; o direito à moradia,
Quando o Ministério Público processa alguém pela prática de um à saúde, à educação, ao
crime, além de estar postulando a punição do transgressor da lei pe- trabalho, à participação na
nal, está, também, buscando a proteção da sociedade que não pode vida política da nação, dentre
conviver num antro de impunidade ou mesmo de vingança privada outros.
– aquela exercida pelas próprias mãos da vítima ou de terceiros.
Quando o Ministério Público pede ao Poder Judiciário que decrete
a prisão preventiva ou temporária de alguém está, de igual forma,
protegendo a sociedade, tendo em vista que, em certas ocasiões, a Interesses sociais são: defesa
liberdade do delinquente há de ser sacrificada em prol da paz social. da criança e do adolescente,
Sempre que o Ministério Público ajuíza uma ação civil pública, os defesa da pessoa deficiente,
interesses que tenciona proteger são aqueles denominados sociais dos idosos, das fundações, da
ou individuais indisponíveis. Ao lado dessas tradicionais funções, o educação pública, da saúde
pública, do meio ambiente,
Ministério Público também está presente em todo e qualquer proces-
do patrimônio artístico,
so em que haja interesse de incapazes (criança, adolescente, deficien- paisagístico e cultural,
te mental) ou mesmo interesse público a ser protegido, atuando como dos sítios antropológicos e
fiscal da lei. No desempenho dessa função, cabe ao Ministério Públi- arqueológicos, do patrimônio
co envidar todos os esforços para que a legislação seja respeitada e o público, dos serviços de
direito do cidadão protegido tendo, por isso, o poder de recorrer aos relevância pública (oferta de
água, energia, saneamento
tribunais contra decisões que não entreguem o justo direito.
público, coleta regular de
Porém, não se deve pensar o Ministério Público como órgão atre- lixo, etc.), do consumidor,
lado ao Poder Judiciário, pois o seu raio de atuação é bem mais amplo da ordem econômica e
que simples autor processual ou fiscal da lei dentro de um processo. de muitos outros direitos
Tornou-se cena comum buscar-se o Ministério Público como uma que dizem respeito à
espécie de ouvidor da sociedade, com vocação natural de receber coletividade.
reclamações contra os Poderes Públicos e tentar encontrar os meios
administrativos para recompor o direito violado, seja formulando re-
comendações, seja celebrando termos de ajuste de condutas em que
De fato, exerce o Ministério
as autoridades comprometem-se, em prazo predeterminado, a agir
Público essa função de
ou deixar de agir, para que satisfaçam o interesse da coletividade. principal ouvidor da
Nessa era de explosão de litigiosidade (tudo que é discutido em juí- sociedade, e ao lado da
zo), o custo de acesso à Justiça tem sido um desestímulo para a solução imprensa exerce um valioso
de controvérsias, levando muitas vezes, a própria sociedade a eleger as controle social.
suas formas naturais de composição dos conflitos, mesmo que, em mui-

109
tos casos, contrarie a lei e a ordem pública. Devem, assim, as instituições
O gênio baiano Ruy públicas, amparar a sociedade na correta condução de seus desígnios,
Barbosa referiu-se ao mal da modulando o grau de intervenção, a partir do interesse público.
corrupção na política: “(...) Deve-se buscar sempre o ideal de Justiça, e como assinala Agnes
a política é a arte de gerir o
Heller (1998) “é preciso aprender o hábito de ser justo”, ou seja, é
Estado, segundo princípios
definidos, regras morais, preciso conscientizar a sociedade sobre a necessidade de respeitar a
leis escritas, ou tradições dignidade alheia para que se alcance a almejada paz social.
respeitáveis. A politicalha O cidadão há de ser senhor de seu destino, e, nessa tarefa de eman-
é a indústria de explorar cipação, tem no Ministério Público um precioso aliado, o qual, além
o benefício de interesses de possuir a vocação de protagonizar a transformação da sociedade
pessoais. Constitui a política
pela Justiça social, detém em suas mãos os mecanismos que podem
uma função, ou o conjunto
das funções do organismo propiciar essa mudança.
nacional: é o exercício normal Um acordo celebrado entre pessoas e referendado (validado) pelo
das forças de uma nação Ministério Público tem valor de verdadeira sentença e pode ser exe-
consciente e senhora de si cutado em caso de descumprimento por qualquer dos acordantes,
mesma. A politicalha, pelo como prevê o artigo 585, II, do Código de Processo Civil.
contrário, é o envenenamento
No exercício desse mecanismo de composição de conflitos, o Minis-
crônico dos povos negligentes
e viciosos pela contaminação tério Público deve fomentar a criação de núcleos de mediação, geren-
de parasitas inexoráveis. ciando o processo de capacitação de conciliadores e facilitadores entre
A política é a higiene dos moradores da própria comunidade que poderão atuar como árbitros e
países moralmente sadios. pacificadores sociais, desobstruindo as pautas judiciais já hipertrofia-
A politicalha, a malária das pelo número excessivo de processos e rituais burocráticos que com-
dos povos de moralidade
prometem a credibilidade do conceito de justiça, contribuindo para
estragada. (Apud Élcio
D’Angelo e Suzi D’Angelo, reforçar o pensamento do grande jurista Ruy Barbosa (1849 –1923), no
2003, p.93) sentido de que “Justiça tardia é injustiça qualificada e manifesta”.
Desde que a Constituição da República, pela via da Emenda Cons-
titucional Nº 45/2004, inseriu dentre os direitos fundamentais do ci-
dadão brasileiro o princípio da celeridade processual (art. 5º), nasceu
para o Ministério Público o dever de velar pela rápida e pacífica so-
lução das contendas.
Celeridade seja no âmbito A professora Lília Maia de Morais (2004) explica o poder da me-
do Poder Judiciário, diação na vida comunitária:
seja lançando mão de
É um mecanismo de resolução de controvérsia pelas próprias partes, cons-
mecanismos extrajudiciais
truindo estas uma decisão ponderada, eficaz e satisfatória para ambas. Essa
que desestimulem a busca
decisão construída possui o mediador como facilitador dessa construção
incontida de fóruns e
por meio do restabelecimento do diálogo pacífico. As partes, no processo
tribunais que, muitas vezes,
de mediação, detêm a gestão de seus conflitos e, consequentemente, o po-
acirram a litigiosidade, em
der de decidir, tendo o mediador como auxiliar, diferentemente da jurisdi-
face da ainda corrente cultura
ção estatal em que o poder de decidir cabe ao Estado” (p.24)
do exagerado e irrazoável
temor às autoridades Se de um lado o Ministério Público é, por excelência, a instância
judiciárias que têm o dever de
natural de controle social dos Poderes Públicos, o cidadão pode ser o
agir com urbanidade, respeito
e imparcialidade para com o vigilante, a testemunha, o parceiro, o construtor dessa simbiose. que
jurisdicionado (cidadão). Sendo o alvo de atenção do trabalho da instituição ministerial é cor-
reto concluir que cada partícipe da sociedade é um elo precioso da

110 Curso Controle Social das Contas Públicas


corrente que fortalece a cidadania.
O Ministério Público é dividido em entrâncias que podem ser con- Mediação que não se
ceituadas como níveis de jurisdição levando em conta a complexidade, confunde com arbitragem.
o tamanho da população, o número de processos etc, e instâncias que re- No primeiro caso, o
mediador não decide o
presentam o grau de hierarquia jurisdicional onde atua, ou seja, em pri-
conflito, mas facilita-o; na
meiro grau perante juízos (varas, juizados especiais, fóruns) ou segundo arbitragem o árbitro põe fim
grau perante tribunais. Os membros que atuam perante a 1ª instância à controvérsia, decidindo-a.
são denominados de promotores de Justiça e aqueles que oficiam em 2ª
instância são conceituados como procuradores de Justiça.
No âmbito Estadual, a Chefia do Ministério Público é exercida
pelo Procurador-Geral de Justiça; na esfera Federal, pelo Procurador- Emancipar as consciências
dos cidadãos é a mais
Geral da República.
audaciosa e decisiva função
do Ministério Público,
Como buscar o Ministério Público exigindo dos Poderes
Públicos que cumpram os
Desburocratizar o acesso do cidadão ao Ministério Público é esti-
seus deveres constitucionais
mular a busca de um mecanismo de pacificação permanente, tendo de reduzir os níveis de
em vista que o encontro “face a face” entre o promotor de Justiça que pobreza da população,
tem a obrigação constitucional de residir na Comarca e o cidadão é oportunizando a todas as
momento precioso de produção de novas consciências voltadas para pessoas o acesso universal
uma cultura de participação popular nos destinos da nação. a uma rede de saúde de
qualidade e de educação
A forma mais singela de buscar-se o Ministério Público é mediante
e demais aspectos que
comparecimento do interessado à Promotoria de Justiça ou às diversas alicerçam o majestoso
Procuradorias de Justiça, onde terá o seu pleito apreciado e devidamen- edifício da cidadania.
te solucionado, mediante instrumentos à disposição da instituição.
O fluxograma na página 112 representa o caminho que percorre o
cidadão para ver solucionada a sua demanda pelo Ministério Público.
Este pode agir como mediador de conflitos, buscando, assim, solucio-
nar o litígio mediante acordo de vontades, evitando que a demanda seja
renovada no Poder Judiciário, congestionando as pautas judiciais, com-
prometendo, sobremaneira, a celeridade e a efetividade da Justiça.
A participação na vida
Assim, o Ministério Público não deve se encarcerar em gabinetes, mas institucional do País não
cumpre-lhe a nobre missão de estimular, no âmbito territorial das próprias pode se resumir em direito
comunidades, discussões críticas acerca do papel de cada cidadão na elei- de votar e ser votado, mas
ção das prioridades que devam ser executadas pelos poderes públicos. deve ser compreendida como
O Ministério Público do Estado do Ceará tem iniciado esse processo de a perene possibilidade de
influenciar na escolha das
diálogo permanente com a comunidade, a partir da instituição do Progra-
políticas públicas, em busca
ma de Incentivo à Implementação de Núcleos de Mediação Comunitária e do bem-comum, como por
a da instalação de comitês de prevenção e combate à corrupção eleitoral. exemplo, direito a saúde
Em decorrência da denominada “Reforma do Judiciário”, capita- de qualidade, direito de
neada pela Emenda Constitucional Nº 45, de 2004, tornou-se obriga- inclusão no mercado de
tória a instituição de ouvidorias no âmbito do Poder Judiciário e do trabalho, direito à educação
formal, direito à segurança
Ministério Público, a fim de que fosse estabelecida uma linha direta
pública dentre outros.
entre o cidadão e as mencionadas instituições.

111
Fluxograma de uma Demanda ao Ministério Público

Comparecimento Abertura de Audiência com o Análise da


Início pretensão
ao MP procedimento Membro do MP
pelo MP


Tenta o ajustamento sim
Instaura inquérito civil interesse
de conduta
coletivo

não
Analisa a natureza
Havendo elementos,
Ajustamento do Direito
não ingressa
de conduta
com ação
teve sucesso?
civil pública
sim

O Direito é
disponível?

Homologa o acordo Provoca o Poder


impondo sanção Judiciário
para caso de
o

descumprimento sim

Promoção de audiência
Encaminha o caso para
para tentativa de
Defensoria Pública ou
conciliação
tenta a conciliação

não Há
Ingressa com ação
acordo?
sim

Lavra e homologa
o acordo

112 Curso Controle Social das Contas Públicas


Esse canal permanente de diálogo revela-se um valioso meio de aper-
feiçoamento do Ministério Público através do controle social do próprio
cidadão, já que, através dele, pode formular reclamações contra a atua-
ção de membros da instituição, apresentar elogios, propor medidas de
aperfeiçoamento de serviços e buscar a celeridade das demandas.
A ouvidoria do Ministério Público não é instância correcional (pu- Conflitos que podem ir
nitiva) de promotores e procuradores de Justiça, mas uma espécie de além dos direitos sociais
da coletividade ou direitos
intermediário que facilita o acesso da comunidade aos mecanismos
indisponíveis (menores e
de funcionamento do órgão. Em suma, recorrer ao Ministério Público incapazes, questões de acidente
é tarefa das mais simples, não necessitando de qualquer ritual. como de trabalho, direito à
saúde, pessoa idosa etc).
O Ministério Público no Estado do Ceará
Embora de triste constatação, a corrupção na Administração Pública é
fenômeno crônico mundial, um vício que não conhece fronteiras e se veri-
fica tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento,
como o Brasil. A diferença está na forma de enfrentar e punir esses escân-
A corrupção recebe muitos
dalos que são responsáveis, em grande parcela, pelas misérias humanas. outros nomes: improbidade
Encampando esse compromisso universal de combater a enfermi- administrativa, imoralidade,
dade da corrupção na Administração Pública, o Brasil fez registrar enriquecimento ilícito,
em sua Constituição o dever de probidade (honestidade) dos agentes rapinagem, desvio, mamata,
públicos no tratamento da coisa pública, prevendo sérias e graves pe- “negócio da China”,
vampirismo, compadrio,
nas para aqueles que se aventuram em desviar, em proveito próprio,
troca de favores, suborno,
recursos destinados à satisfação das necessidades da população. depravação, surrupiagem,
E para zelar pelo patrimônio público, a instituição eleita, priorita- desonestidade, maracutaia,
riamente, para buscar a punição dos infratores e a recuperação dos falta de decoro, mau-
recursos desviados, é o Ministério Público que reúne em suas mãos caratismo etc
poderosos instrumentos processuais para reprimir todos os atos que
atentam contra a Administração Pública.
Mediante denúncia, o Ministério Público pede o processamento cri-
minal de agentes que praticarem crimes contra a Administração Pú-
blica de acordo com o catálogo de infrações previstas nos artigos 312 a
327, do Código Penal Brasileiro, e, em se tratando de crimes da mesma
espécie, praticados por prefeitos municipais, nas condutas delituosas
previstas no Decreto-lei Nº 201, de 27 de fevereiro de 1967.
Mas não é só. O Ministério Público, também, põe o seu braço forte
para responsabilizar os gestores públicos por atos de desonestida-
de, utilizando-se, para tanto, da Lei de Improbidade Administrativa
que prevê penas de suspensão de direitos políticos por até 10 anos,
a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens do agente
público, o ressarcimento dos recursos desviados aos cofres públicos,
proibição de contratos com o Poder Público.
A título de exemplo, seguem algumas condutas consideradas
como improbidade administrativa:

113
a) Atos que causam enriquecimento ilícito: recebimento de van-
tagens ilegais para facilitar qualquer interesse de terceiros, utili-
zação em obra ou serviço particular de veículos e equipamentos
públicos, receber vantagens (propinas) para tolerar a prática de
crimes ou contravenções, receber vantagens para falsear dados
sobre perícias de obras públicas, aumento desproporcional do
patrimônio do agente público e outras condutas que importem
em enriquecimento ilícito.
b) Atos que causem prejuízo aos cofres públicos: facilitar a apro-
priação de recursos públicos por terceiros, concessão de benefí-
cios ilegais, irregularidades em licitações, realizar despesas não
autorizadas em lei, deixar de conservar o patrimônio público,
dentre outras condutas.
c) Atos que afrontem os princípios da Administração Pública (le-
galidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiên-
cia): praticar ato visando fim proibido em lei, retardar ou deixar
de participar ato a que está obrigado, devassar sigilo, negar pu-
blicidade aos atos oficiais, deixar de prestar contas no prazo legal
dentre outras condutas.
As ações de improbidade administrativa contra prefeitos e outros
agentes públicos, pelo Ministério Público, são manejadas perante o
juízo da Comarca onde ocorreu o ato desabonador, tendo em vista
que somente em matéria criminal é que os chefes de Executivos Mu-
nicipais possuem foro privilegiado nos Tribunais de Justiça.
Almejando sistematizar a atuação do Ministério Público do Esta-
do do Ceará, no combate aos crimes contra a Administração Públi-
ca praticados por autoridades com privilégio de foro, foi instituída a
Procuradoria de Combate aos Crimes contra a Administração Pública
(PROCAP), com o fim de ingressar com ações penais referentes a fatos
praticados por prefeitos, secretários de Estado e outras autoridades que
detenham a prerrogativa de serem processadas no Tribunal de Justiça.
A PROCAP, além de ser responsável pelo ingresso e acompanha-
mento de ações perante o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará,
presta apoio logístico às Promotorias de Justiça do Patrimônio Públi-
co de Fortaleza e do interior do Estado.
Entre 2006 e 2008, a PROCAP registrou intensa movimentação
procedimental, entre inquéritos policiais, denúncias e ações civis pú-
blicas envolvendo crimes contra a administração pública e atos de
improbidade administrativa praticados por gestores públicos.
O Ministério Público, nos mais diversos municípios cearenses,
atuou de maneira firme e decisiva, seja prevenindo atos de desvios
de recursos públicos, mediante formulação de recomendações, seja
ingressando com ações postulando a condenação de agentes públicos
pela prática de crimes ou atos de improbidade administrativa. Aguar-

114 Curso Controle Social das Contas Públicas


da-se a pronta-resposta do Poder Judiciário para restaurar a ordem Veja no site do curso a
jurídica violada, a fim de que a sociedade possa crer nas instituições relação de feitos que tiveram
a decisiva participação do
republicanas e esperar dias melhores para as gerações vindouras.
Ministério Público.
Importa registrar que essa atuação vigorosa do Ministério Público
estadual possui um precioso aliado que é o Ministério Público que
oficia junto ao Tribunal de Contas. Esta instituição independente
exerce a função de fiscal da lei perante as cortes de contas, tendo ain-
da a iniciativa de promover ações no âmbito daqueles tribunais, para
preservar e restaurar a moralidade da gestão, velando pelo respeito à
legalidade, à legitimidade e economicidade dos atos públicos.
O Ministério Público junto às Cortes de Contas, portanto, fortalece
o controle social da gestão pública, já que é a instituição que acompa-
nha a regularidade do exercício do próprio Tribunal de Contas, de-
fendendo a ordem jurídica, mediante adoção de Administração e dos
cofres públicos, sendo obrigatória a sua participação nos processos
de prestação de contas dos agentes públicos, nos atos de admissão de
pessoal, de concessões de aposentadoria, reformas e pensões, deven-
do ainda buscar a recomposição dos recursos públicos desfalcados.
O congraçamento dessas instituições torna-se mais vigoroso
quando os segmentos sociais podem intervir e estabelecer parcerias
objetivando conhecer como e onde são aplicados os recursos públi-
cos, quais as prioridades da comunidade (orçamento participativo),
verificar a ocorrência de desvios de finalidade, superfaturamento de
obras e aquisições de materiais, sinais exteriores de riqueza dos ges-
tores públicos e outras irregularidades. O cidadão pode exercitar, de
perto, a vigilância contínua da Administração Pública, solicitando a
atuação do Ministério Público, sempre que houver suspeitas de mau-
uso dos dinheiros públicos.
Utilizando-se de seu direito constitucional à informação, pode
o cidadão requerer dos órgãos públicos quaisquer esclarecimentos
acerca da aplicação dos recursos, resultando daí que, como defensor
da sociedade, o Ministério Público necessita da colaboração de todos
os cidadãos comprometidos com a construção do verdadeiro Estado
Democrático de Direito que é o Estado de Justiça Social e da abolição
de classes de privilegiados.
Devemos, assim, sonhar e acreditar na construção de uma socie-
dade mais fraterna e mais feliz, e, felicidade, como nos legou Platão
em sua obra As Leis, “consiste em viver com justiça”.

115
O Ministério Público de Contas junto
aos Tribunais de Contas
e o Ministério Público Estadual
Leilyanne Brandão Feitosa
Detentor de destacada atuação dentro dos Tribunais de Contas
(TCs), o Ministério Público de Contas, embora sendo órgão de natu-
reza especial, tendo em vista a especificidade do trabalho do próprio
Tribunal, possui, em sua essência, função idêntica à dos demais ór-
Esta especificidade é gãos do Ministério Público do Estado e da União, mas com atribui-
a fiscalização contábil, ções diversas. A natureza institucional do Ministério Público junto
orçamentária, financeira,
aos TCs é consagrada pelo art.130 da Constituição Federal.
operacional e patrimonial das
administrações pública.
De logo, observa-se que a especialidade do Ministério Público de
Contas é diferencial marcante em relação ao Ministério Público Co-
mum. Os vocábulos empregados pelo Estatuto Maior, “especial” e
“comum”, não são nem poderiam ser uma “supervalorização”, mui-
Art. 130. Aos membros do to menos uma subvalorização da instituição.
Ministério Público junto
Ao contrário, embora ambas descendam do mesmo tronco e pilar,
aos Tribunais de Contas
aplicam-se as disposições qual seja, o princípio do Estado Democrático de Direito, a diversida-
desta seção pertinentes a de de suas atribuições condizem com a diversidade de titulação.
direitos, vedações e forma de Desta forma, a instituição Ministério Público é única enquanto pro-
investidura. tetora da defesa da sociedade. Porém, ainda que a essência da institui-
ção seja a mesma, a diferença das atribuições do Ministério Público de
Contas o coloca em sua posição específica, cuja atividade é direcionada
à fiscalização legal quanto à aplicação orçamentária, financeira, opera-
cional e patrimonial dos recursos públicos, ou seja, o Ministério Públi-
co de Contas é fiscal da lei dentro do exame das Contas Públicas.

O que são contas públicas e quem tem


obrigação de prestá-las?
São contas contábeis, contas técnicas, não são contas morais da
pessoa do gestor. Então todos os registros matemáticos (contábeis/
financeiros), ou seja, receitas e despesas públicas são o que, em con-
junto, integram as contas públicas.
Têm obrigação de prestar contas todos aqueles que detêm, de al-
guma forma, dinheiro, bens e valores públicos. Citamos:
No Poder Executivo: Presidente da República e seus ministros; gover-
nadores de Estado e do Distrito Federal; prefeitos Municipais e seus
secretários, respectivamente.
No Poder Legislativo: Presidentes do Senado Federal, da Câmara dos
Deputados, das Assembleias Estaduais e das Câmaras Municipais.

116 Curso Controle Social das Contas Públicas


Alcides Freire
No Poder Judiciário: Presidentes do Supremo Tribunal Federal, dos
Tribunais Superiores, dos Tribunais Federais e dos Tribunais Estaduais
e demais ordenadores de despesas.
A Constituição Federal de 1988 outorgou aos membros do Minis-
tério Público de Contas os mesmos direitos, garantias, prerrogativas,
deveres, vedações e a forma de investidura no cargo dos membros do
Ministério Público Comum. Destarte, são instituições democráticas
iguais, porém, com deveres específicos.
Assim sendo, na atualidade, há um esforço para atuação organiza-
da dessas instituições, todas constitucionalmente autorizadas a zelar
pelos interesses da coletividade e, portanto, voltadas a melhor servir
à sociedade.
Em verdade, o Ministério Público de Contas é dotado de completa
autonomia em relação ao Ministério Público ordinário, não sujeitan-
do seus procuradores à chefia hierárquica do procurador Geral de
Justiça, mas ao procurador Geral escolhido dentre eles mesmos, se-
gundo disposto na Lei Orgânica de cada Corte.
Por seu turno, enfatiza-se de modo veemente que as diferenças en-
tre as atuações do Ministério Público dos Estados e da União (comum)
e as do Ministério Público de Contas são oriundas de organização cons-
titucional, em que o constituinte originário entendeu ser esta a melhor
forma de organizar o Estado Democrático de Direito Brasileiro.
Quanto à sua composição, o Ministério Público de Contas junto
aos Tribunais de Contas é formado por procuradores denominados
procuradores de Contas, todos independentes, advindos de rigoroso
concurso de provas e de títulos, com competências típicas em conso-
nância com a Constituição Federal.
A atuação administrativa dos Tribunais de Contas engloba vistoria
das contas anuais de Governo dos chefes do Poder Executivo, análise
e acompanhamento da execução da receita e despesa das contas de
gestão dos responsáveis por valores públicos (ditos ordenadores de
despesa), bem como a tomada das contas quando não prestadas no
prazo legal assinalado.
O papel do Ministério Público de Contas é emitir parecer jurídico,
levando em conta tanto a adequação do procedimento administrativo
às normas legais, bem como observando se foi assegurado ao gestor
público “investigado” direito à ampla defesa e ao contraditório. É seu
dever também a análise propriamente dita dos fatos e irregularida-
des verificadas na prestação ou tomada de contas, sugerindo, a partir
daí, a aplicação das penalidades cabíveis.
Como curador da lei, o Ministério Público de Contas opina em
todos os processos que tramitam nos TCs, fiscalizando a legalidade e
formalidade dos mesmos, inclusive comparecendo a todas as sessões
de julgamento – seja do Pleno ou de uma das Câmaras do Tribunal.

117
Deve ter como fim mediato a garantia de uma atuação administra-
tiva dentro dos parâmetros legais e a prestação de serviços públicos
condizentes com as necessidades sociais, pautada nos princípios da
moralidade, eficiência e economicidade.
Além da função de fiscal da lei, característica do Ministério Públi-
co de forma geral, o Ministério Público de Contas possui legitimida-
de para requisitar documentos e informações para melhor instruir os
feitos administrativos. Pode ainda apresentar quaisquer dos recursos
previstos em lei, questionando decisões tomadas dentro dos processos
sob a tutela administrativa e controladora do Tribunal de Contas.
Outro trabalho do Ministério Público de Contas é o de efetuar Re-
presentações a outros Poderes da República, tendo por objetivo infor-
mar esses órgãos acerca das ações e irregularidades apuradas pelos
TCs, a fim de que sejam analisadas e tomadas as medidas necessárias.
Essas Representações são realizadas de acordo com a gravidade
da irregularidade praticada, podendo ser sanções de imputação de
débito, nota de improbidade administrativa (Lei Nºs. 8.429/92), crime
de responsabilidade (Decreto-lei Nº. 201/67), crime de apropriação
indébita previdenciária (art. 168 – A, Código Penal Brasileiro), dentre
outros ilícitos previstos nas Leis Federais Nº. 10.128/00 e 9.983/00.
Estas sanções poderão ter repercussões no Poder Judiciário em nível cri-
minal, civil e eleitoral. A iniciativa para propor as ações cabíveis e a conse-
quente responsabilização dos agentes públicos envolvidos comumente per-
tence à Procuradoria Geral de Justiça ou à Procuradoria Regional Eleitoral.
É bom deixar claro que nada impede que as Representações se-
jam feitas a outros Poderes ou órgãos ministeriais. A comunicação é
feita dependendo da origem dos recursos e do tipo do ato adminis-
trativo analisado.
O controle e a fiscalização empreendidos pelos Tribunais de Contas,
com a devida intervenção do Representante do Ministério Público de
Contas, constituem-se não só do exame da legalidade dos atos adminis-
trativos praticados, mas também da apreciação da motivação, moralida-
de e proporcionalidade do mesmo, sempre em função da utilização mais
eficaz e econômica possível dos recursos e bens públicos. O objetivo é
buscar a justiça social, além de conferir aos atos de governo e de gestão
das Administrações maior lisura, probidade e transparência.
Neste ponto, o papel exercido pelo Ministério Público de Contas se
dá por meio da emissão de Pareceres jurídicos de caráter eminentemente
opinativo, endereçados ao Tribunal de Contas, a quem pertence a compe-
tência constitucional para julgamento, caso se trate de contas de gestão,
ou para emissão de Parecer Prévio, a ser julgado pelo Poder Legislativo
competente, quando a matéria tratar de contas de Governo.
Desse modo, torna-se fácil a percepção de que o trabalho empre-
endido pelo Ministério Público de Contas, em parceria com o Tribu-

118 Curso Controle Social das Contas Públicas


nal de Contas e a Procuradora-Geral de Justiça, na análise quanto à
legalidade, eficiência, probidade e supremacia do interesse público
no que diz respeito às despesas, se constitui em garantia efetiva dos
direitos sociais do cidadão, previstos nos artigos 6º c/c o Título VIII
(“Da Ordem Social”) da Constituição Federal.
Otimizar recursos públicos, acompanhar irregularidades que possam
comprometer a efetivação de políticas sociais de real interesse da socie-
dade e facilitar a concretização de uma maior transparência, probidade,
legitimidade e participação popular nas administrações públicas, é a
constante preocupação do agir do Ministério Público de Contas.
Pode-se dizer que o trabalho exercido pelo Ministério Público de
Contas possui uma função de caráter pedagógico, voltado ao adminis-
trador público, ao firmar entendimentos que contribuem para um atuar
administrativo mais probo e eficiente, como também quando sugere a
aplicação de sanções em face das pechas apontadas, inibindo que a mes-
ma prática irregular seja reiterada nas prestações de contas seguintes.
O teor público do processo administrativo instaurado sob a tutela
dos Tribunais de Contas, do qual faz parte o parecer da Procuradoria
de Contas, possibilita ao cidadão comum tomar ciência da gestão dos
recursos públicos envolvidos, viabilizando um controle social mais
participativo sobre a administração estatal e materializando o Princí-
pio da Soberania Popular, previsto no art. 1º, § único da Constituição
Federal: “Todo o poder emana do Povo, que o exerce por meio de re-
presentantes eleitos ou diretamente nos termos desta Constituição”.
Percebe-se a descrença do País em relação aos seus representantes
(políticos) e demais Poderes. A indignação é notória diante dos desca-
labros praticados, noticiados pela imprensa. Dessa forma, o Ministério Art. 5º. (...) LXXIII: qualquer
Público de Contas junta-se ao cidadão para coibir referidas práticas. cidadão é parte legítima
para propor ação popular
Participar é preciso. Por isso, é imperativo que todos conheçam seus di-
que vise a anular ato lesivo
reitos e que lutem pelos mesmos. O desconhecimento é arma poderosa ao patrimônio público ou
para os maus intencionados manipularem o que pertence ao povo. de entidade de que o Estado
Por isso, é pertinente lembrar o teor de princípios fundamentais no participe, à moralidade
Estado Democrático de Direito: o da soberania popular e o da cidadania administrativa, ao meio
preconizados no artigo 1º da Constituição Federal. Arremate-se sugerin- ambiente e ao patrimônio
histórico e cultural, ficando o
do aos novos controladores sociais capacitados por este curso que, ladea-
autor, salvo comprovada má-
dos pelo Ministério Público de Contas e Ministério Público Comum, po- fé, isento de custas judiciais
dem sempre, por meio de Ação Popular (art. 5º, LXXII, CF), exercerem e do ônus da sucumbência.
participação efetiva no controle das Contas Públicas, transcrevendo:
O propósito de justiça que o Ministério Público de Contas persegue
é viabilizar a aproximação da sociedade com o poder público, para
Conheça a íntegra de todos
que o povo faça realmente valer seus interesses e garanta, de forma
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clara e inequívoca, que o poder realmente lhe pertence.
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119
Síntese

• O Ministério Público foi consagrado pela Consti- poderes públicos, cabe ao cidadão uma partici-
tuição brasileira de 1988, como função essencial pação ativa na vigilância atuando como parceiro
à administração da justiça. Assim, ele aparece no fortalecimento da cidadania. Já o Ministério
como um dos mais importantes protagonistas Público de Contas tem sua atuação direcionada
do Estado democrático de direito, zelando pelo à fiscalização legal no que tange à aplicação orça-
patrimônio público no atendimento das necessi- mentária, financeira, operacioanal e patrimonial
dades básicas da população. Se o Ministério Pú- dos recursos públicos, no âmbito dos três pode-
blico é a instância natural de controle social dos res – Executivo, Legislativo e Judiciário.

Avaliação

1. Defina as funções do Ministério Público blico Comum, e quais as atividades exercidas


2 Quando e como se deve buscar o Ministério pelo Ministério Público de Contas junto aos
Público Tribunais de Contas?
3. Como você explicaria a posição do Ministério 4. Em que consiste “Prestar Contas” e a quem é
Público de Contas em relação ao Ministério Pú- determinado esse dever?

Referências
PORTO, PEDRO RUI DA FONTOURA, in DIREITOS FUNDAMENTAIS Morais, Lília Maia de - JUSTIÇA E MEDIAÇÃO DE CONFLITOS, DelRey,
SOCIAIS, Livraria do Advogado, Porto Alegre-RS, 2006. Belo Horizonte-MG, 2004.
SILVA, JOSÉ AFONDO DA, PODER CONSTITUINTE E PODER POPULAR , D`Ângelo, Elcio; e D’Angelo, Suzi - O Princípio da Probidade
Editora Malheiros, São Paulo-SP, 2002. Administrativa e a Atuação do Ministério Público, LZN Editora,
GOUVÊA, MARCOS MASELLI - O Controle Judicial das Omissões Campinas-SP, 2003,.
Administrativas
Heller, Agnes - ALÉM DA JUSTIÇA, Civilização Brasileira, Rio de
Janeiro, 1998

Coordenadora do Curso: Adísia Sá Fundação Demócrito Rocha


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