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Frutas do Brasil, 37

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Maçã Produção

DISTÚRBIOS
FISIOLÓGICOS
César Luis Girardi
Rufino Fernando Flores-Cantillano

Os distúrbios fisiológicos são alterações
de caráter não-parasitário que afetam as
frutas, alterando seu metabolismo normal
durante a maturação e a senescência. Produzem aparência (externa ou interna) e/ou
sabores anormais na fruta.
Os fatores de pré e pós-colheita que
condicionam o aparecimento destes
problemas são: maturação de colheita,
período entre a colheita e a refrigeração,
condições climáticas durante o desenvolvimento da fruta no pomar, fatores de manejo
no pomar e condições de armazenagem.

de indução e uma de expressão da
sintomatologia. A indução ocorre com
baixas temperaturas, enquanto os sintomas
se desenvolvem com baixa e alta
temperatura, sendo mais comum este
último caso. Os sintomas do distúrbio
manifestam-se mais nas partes mais verdes
da maçã (Fig. 1).
Foto: C. L. Girardi

INTRODUÇÃO

PRINCIPAIS DISTÚRBIOS
FISIOLÓGICOS
Os principais distúrbios fisiológicos
que afetam as pomáceas no Brasil são os
descritos a seguir.

Fig. 1. Fruto de macieira com sintomas de
escaldadura superficial.

Escaldadura superficial
No Brasil afeta principalmente as
cultivares Fuji, Granny Smith e Gala.
Ocasiona perdas ao mercado, deixando as
frutas suscetíveis a podridões. É um
problema que ocorre durante o armazenamento da fruta, caracterizando-se por um
escurecimento superficial das células da
hipoderme, as quais entram em colapso e
morrem. Em casos severos, a epiderme
também é afetada. Os sintomas são mais
evidentes depois de 3 a 4 meses de
armazenamento refrigerado a 0ºC, aumentando quando as frutas são expostas à
temperatura ambiente. O desenvolvimento da escaldadura apresenta uma fase

Sua causa não tem sido estabelecida
com precisão, sendo que existe uma forte
relação com o acúmulo de um sesquiterpeno,
denominado alfa-farneseno, na superfície
cerosa que cobre a epiderme do fruto. Nesse
composto ocorre uma oxidação com
formação de trienas conjugadas, que causam
danos às células hipodérmicas. Alguns fatores
predisponentes são: a) verões secos e quentes;
b) fruta colhida imatura; c) fruta de tamanho
grande; d) excesso de nitrogênio e baixos
teores de cálcio na polpa da fruta; e) baixa
temperatura de conservação e deficiente
ventilação ou circulação de ar na câmara fria.
Seu controle realiza-se com tratamentos de pós-colheita com antioxidantes

5% .000 ppm. no Brasil. e sua deficiência afeta negativamente a permeabilidade seletiva da membrana celular. 2. No Brasil. o qual pode provocar problemas de anaerobiose em muitas variedades de maçãs. estão os que afetam a translocação de cálcio para a fruta e o seu conteúdo. nas cvs. podem produzir manchas nos frutos (“calcium spot”) e/ou queimaduras nas folhas. que causam sua desintegração e morte.000 ppm de DPA. É mais abundante entre as regiões do cálice e a equatorial do fruto. Fotos: C.0. tais como: a) perío- B Fig. No Brasil.000 a 3. Fuji e Granny Smith com doses variáveis entre 3. conduzindo a danos na célula. inibe a acumulação de alfa-farneseno e trienas conjugadas. sua utilização está proibida.Maçã Produção como a difenilamina (DPA) e etoxiquina em doses variáveis entre 1. Girardi 144 A Bitter Pit Seus sintomas são manchas circulares. O uso de atmosfera controlada. Altos níveis de cálcio mantêm a fruta firme. Frutas do Brasil. embora sejam necessárias concentrações de 0. b) colheita precoce. consiste em realizar de cinco a dez pulverizações com cloreto de cálcio a 0.7% de O2 para ser equivalente a 2. c) manejo do pomar (poda e raleio excessivos). reduz o problema. 2). d) desequilíbrios nutricionais. que penetram na polpa (Fig. O método de controle mais efetivo. dando um bom controle a essa alteração fisiológica. aparecendo durante o primeiro mês de armazenamento. Pingo-de-mel (Water Core) Esta alteração fisiológica. com menor taxa respiratória. ainda que tenham sido experimentados outros produtos como o butilhidroxitolueno. Em algumas regiões. Em casos severos pode aparecer na colheita. regulando-se os fatores predisponentes.000 ppm. deprimidas. em condições de ultra baixo oxigênio. O cálcio é um importante constituinte da parede celular. menores índices de podridão e alterações fisiológicas. por causa das altas temperaturas durante o verão. O tecido abaixo da mancha é seco e corticento. L. O uso isolado de cálcio em pós-colheita (cloreto de cálcio a 2%). afeta principalmente maçãs da cultivar Fuji . iniciando-se 1 mês após a plena floração. os produtos utilizados à base de cálcio. sendo este menos efetivo.000 e 10. Sua causa mais provável é um complexo desequilíbrio nutricional na relação Mg+K/Ca. escuras de 3 a 6 mm de diâmetro. apesar de importante. O controle é possível. também se aplica cálcio no solo. Sintomas internos (A) e externos (B) de bitter pit em frutas de macieira. Deficiências localizadas de cálcio. 37 dos de seca próximos à colheita. só complementa as aplicações anteriores realizadas no campo. Entre os efeitos que predispõem o aparecimento do bitter pit. somadas a um excesso de magnésio e potássio no fruto. causariam este distúrbio. O pré-aquecimento da fruta antes de ser armazenada em refrigeração.6%.

Geralmente ocorre em virtude da deficiência de boro. Além disso. constituindo um defeito comercial. agravam o problema. Altos conteúdos de sorbitol conduzem à acumulação de etanol e acetaldeído. Girardi e. esta conversão não se realiza nos tecidos afetados pelo pingo-de-mel e a suscetibilidade da cultivar a este problema depende de sua capacidade de converter o sorbitol em frutose. não devendo ser confundido com dano causado por inseto. O sorbitol. podendo manifestar-se a qualquer momento do desenvolvimento. com tecido esponjoso podendo ocorrer rachaduras (Fig. na polpa do fruto. Ocorre pela presença de líquido nos espaços intercelulares com altos níveis de sorbitol. as do grupo Delicious e Granny Smith. deve-se proceder a pulverizações com cálcio e à armazenagem rápida dos frutos com pré-disposição a este distúrbio.Frutas do Brasil. Russeting Fig. b) alta relação folha/fruto. Porém. sendo a cultivar Golden Delicious a mais susceptível. como adubação de correção antes da implantação do pomar. ou por 2 a 3 pulverizações quinzenais nas plantas com bórax na concentração de 0.4%. 3). durante o armazenamento. Foto: C. esponjosas e úmidas na polpa do fruto (feixes vasculares). vidrosas. c) altas temperatura e luminosidade na colheita. L. sendo mais freqüente próximo da maturação. Em casos severos. excesso de água ou danos nas raízes. Sintomas de manchas-de-cortiça em maçãs. 3. podendo desaparecer posteriormente. d) fertilização nitrogenada excessiva e deficiência de cálcio. Foto: C. se o dano for leve. 37 Manchas-de-Cortiça Ocorre internamente. Caracteriza-se pela presença de manchas translúcidas. As causas dessa alteração fisiológica estão relacionadas a: a) colheita de fruta com maturação avançada. que é um carboidrato de transporte importante em maçãs. Períodos de estiagem. 4. As causas mais prováveis estão relacionadas a temperaturas próximas de . O controle pode ser feito evitando-se colheitas tardias. As manchas são marrons. que se apresenta na colheita. 5). na região carpelar e nos tecidos adjacentes (Fig. e) frutos de tamanho grande. transforma-se em degenerescência interna. secundariamente. 145 Maçã Produção Caracteriza-se por apresentar manchas irregulares de coloração marrom-clara com epiderme áspera próximo à cavidade pistilar ou afastada dela (Fig. por meio do manejo adequado da poda e do raleio. não pode ser utilizado diretamente pelo fruto. devendo ser transformado previamente em frutose. Girardi Fig. 4). É um dano interno. Sintomas de pingo-de-mel (“water core”) em maçãs. L. O russeting que ocorre na cavidade peduncular (foto) é uma característica varietal. durante o armazenamento. O controle pode ser feito pela aplicação de 30 kg de bórax por hectare.

A sua ocorrência pode estar associada a condições restritas ao crescimento do fruto no início do desenvolvimento. b) aplicar giberelinas A4 ou A7 (10 ppm i. Sintomas de cork spot em maçãs. estimulam o crescimento do fruto próximo . observa-se a formação de cortiça interna (Fig. produtos neutros ou que reduzam a incidência do russeting. tais como: dimetoato. 37 Fig. também podem favorecer o aparecimento. Sintomas de russeting em maçãs. c) ensacar os frutos. Basso Foto: C. A redução da incidência pode ser obtida por meio de: a) proceder à calagem do solo. O tamanho das depressões formadas. a qualidade da fruta colhida e reduzindo seu valor comercial. tornando a casca com menor capacidade de expansão. thiabendazole. dithianon. comprometendo. Ao cortar o local do Fig. b) evitar o excesso de crescimento vegetativo e a adubação nitrogenada e c) fazer pulverizações quinzenais de cloreto de cálcio a 0. Pode atingir valores bastante altos. Esse distúrbio não deve ser confundido com rachadura da casca. de natureza superficial (Fig. captan. principalmente de cálcio. 5. como elevada disponibilidade de água. no período crítico. Foto: C. Altos níveis de nitrogênio no fruto. Pode-se reduzir a incidência de russeting recorrendo às seguintes práticas: a) aplicar. plantas velhas ou doentes ou com excesso de carga e determinadas variedades são mais susceptíveis. o que predispõe à rachadura. d) realizar o raleio dos frutos. Girardi 0oC e à umidade no fruto entre a floração e até 1 mês após. O cork spot ocorre por conta de desequilíbrios nutricionais da planta.a) com intervalo de 10 dias. 6. sendo uma característica que o diferencia do bitter pit. deve-se ao aumento do tecido necrosado durante o crescimento do fruto. e) evitar excesso de adubação nitrogenada. à aplicação de determinados produtos químicos no período crítico de indução e ao ataque por oídio em frutos jovens. Rachadura peduncular É um problema que ocorre em précolheita nas cultivares Gala e Fuji nas principais regiões produtoras do mundo. Esse fato ocorre quando fatores ambientais. enxofre e AIA. 7). assim. Além disso. bórax. iniciadas 1 mês após a floração.146 Maçã Produção sintoma. estendendo-se profundamente pela polpa do fruto.6). Esse distúrbio não ocorre durante o período de frigoconservação. Cork Spot Ocorre durante o desenvolvimento do fruto.6%. L. aparecendo os sintomas em précolheita com formação de depressões. desde a plena floração até 1 mês após. Frutas do Brasil.

Sintomas de rachadura peduncular em maçãs. Girardi Foto: C. A deficiência de cálcio também pode estar associada a esse distúrbio. Sintoma de rachadura anelar interna em maçã. 8. Essa saliência enrijecida parece comprimir o tecido próximo da polpa. desenvolvendo um anel duro e lignificado. L. Semelhante à rachadura-peduncular. que por ser desprovido de cutícula e espaços intercelulares. visto que este aumenta a força de coesão entre as paredes celulares dos tecidos da casca. Sua causa pode estar associada à deficiência de cálcio. Apesar de nenhuma prática cultural estudada ter-se mostrado eficiente no controle. .). 7. sabe-se que a manutenção do balanço entre o vigor vegetativo e o crescimento dos frutos pode reduzir a incidência desse distúrbio. a incidência aumenta com o avanço da maturação do fruto. rompendo as células adjacentes (Fig. L. Alguns autores sugerem aplicação de altas concentrações de cálcio próximo da maturação. estudos realizados em Washington não indicaram associação entre estas as desordens. na região de inserção do pedicelo. sendo uma rachadura concêntrica que ocorre na cavidade peduncular. Pulverizações com cálcio durante o desenvolvimento dos frutos podem reduzir a incidência. Também observou-se que a região peduncular amadurece mais rapidamente que a região equatorial do fruto. sendo recomendadas as mesmas precauções estabelecidas para a rachadura peduncular. não existem trabalhos que indiquem seu controle. Como esse distúrbio é pouco estudado no Brasil.8. Porém. Aparece em pré-colheita. Girardi Rachadura anelar interna Fig. 37 147 Maçã Produção Fig. a colheita. não conseguem suportar o pressão interna exercida. podendo aumentar a incidência desse distúrbio quando a colheita é retardada em frutos que já atingiram o tamanho e a cor adequados para a comercialização. em períodos seguidos sem chuvas. Foto: C.Frutas do Brasil.