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“Como a natureza sabe, sem diversidade não existe evolução.

” - Isaias Raw

PERFIL:
A serviço da ciência
Pesquisador contumaz, descobridor de talentos e contestador das regras,
Isaías Raw é conhecido pela dedicação à ciência e por colocá-la a serviço da
população brasileira há mais de meio século. Ex-presidente da Fundação
Butantan, pólo produtor de vacinas para todo o país, ele é dono de uma
trajetória que combina dedicação e genialidade.
O espírito empreendedor surgiu logo no começo da faculdade, em 1945,
quando ainda aluno do segundo ano da Faculdade de Medicina da USP, foi
convidado por Antonio de Barros Ulhoa Cintra, um dos maiores nomes da
medicina brasileira e seu professor, a ministrar aulas de genética para
alunos do primeiro ano do curso.
Era uma época em que a pesquisa médica ainda engatinhava no Brasil e
não dispunha de instrumental para grandes avanços. Mesmo com esse
cenário, o cientista foi responsável pela introdução da biofísica no currículo

do curso de medicina da USP. entre eles sete ganhadores de Prêmio Nobel. Nessa época. mais tarde. Contestador e “subversivo” Raw ficou conhecido também por seu espírito combativo e contestador. guardados de forma nem sempre organizada. Butantan Em 1985. Sua atuação como cientista questionador foi condenada pela ditadura militar. Nem um telegrama de 12 grandes nomes da comunidade científica mundial da época. na Universidade Hebraica. Daí surgiu a ideia de criar uma pequena maleta que pudesse ser vendida. Sua preocupação em fazer uma ciência que não ficasse restrita aos laboratórios sempre chamou a atenção de sua equipe. responsável técnico-científico do Centro de Biotecnologia. instalou-se em Jerusalém. Ele tinha um pequeno laboratório em seu quintal e comprava ácidos e outros componentes em lojas de ferragens. contrário às burocracias. Raw optar por viver um tempo fora do país. Passou a ser. facilitando o transporte e o acesso. 70 e 80. durante o governo do general Castelo Branco. foi para os Estados Unidos. Raw tornou-se presidente da Fundação Butantan. . e. também. responsável pela administração do Instituto Butantan. Paixão pela pesquisa Curioso e dono de grande talento para a investigação. Em 1964. o que fortaleceu a desconfiança por parte da ditadura. era forte o intercâmbio do professor com os cientistas norte-americanos e europeus. No exílio. além de tópicos modernos de bioquímica que até então eram muito distantes da realidade dos alunos. que o considerou subversivo e envolvido com o comunismo. Decepcionado. mudou a opinião do governo militar a esse respeito. fabricante de soro e de cerca de 90% das vacinas consumidas no País. Raw achou em sua própria casa a motivação para a criação dos kits de química que foram muito populares nos anos 60. foi detido por 13 dias. de volta ao Brasil. contendo todos os produtos necessários para se trabalhar em casa e ainda os acondicionar. passando por outras instituições como o MIT (Massachusetts Institute of Technology) e a Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard.

É de Raw a responsabilidade pelo Instituto Butantan ter se tornado o grande centro produtor de vacina no país e um modelo para todo o mundo. em 1952. Desde o tempo em que era estudante na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). no final dos anos 1940. tem o registro cassado e exila-se em Israel e nos EUA. clubes de ciência e museus. substância usada para proteger crianças prematuras e distribuída gratuitamente pelo governo para todas as maternidades públicas do Estado. o liberou para organizar pioneiramente feiras. a elaborar currículos. Ao unir os dois qualificativos. Ciência e Cultura (Ibecc). A nomeação para o Instituto Brasileiro de Educação. Raw foi responsável por grande movimentação nesse setor. 1954: Passa a Chefiar o grupo de pesquisa do Departamento de Química Fisiológica da faculdade de medicina da USP. é também produzido pelo instituto o sulfactante. ainda mantém sua rotina de trabalho no laboratório e não pensa numa aposentadoria. gripe. 1969: Por sua oposição a ditadura. com idéias e projetos dirigidos a professores e alunos que iam do ensino médio ao curso superior – no caso. Aos 82 anos. Além das opções contra difteria. Até ter seus direitos cassados pelo regime militar. tétano e coqueluche. por meio do Ato Institucional nº 5. 1985: Vira Presidente da Fundação Butantan. Isaias Raw conviveu com dois tipos de fama: a de empreendedor e a de brigão. treinamento de professores e produção de . ele se transformou num extraordinário agitador educacional. 1979: Assume a direção do Centro de Biotecnologia do Instituto Butantan. medicina. LINHAS DO TEMPO DO ISAIAS RAW: 1945: Entra na faculdade de medicina da USP.

era uma forma de estimular a criançada a fazer e apresentar seus trabalhos. Depois inventei de levar dez estudantes selecionados. ao colégio. na categoria Ciência Geral. Quando de sua cassação. Ainda nessa primeira fase. Nos anos 1980 em diante. A coisa começou nos anos 1950 também porque existia um organismo chamado Instituto Brasileiro de Educação. caixas repletas de experiências que podiam ser realizadas em casa por estudantes comuns. naquele tempo. O objetivo era atrair o jovem para a ciência desde cedo? Se não atraíamos os jovens no equivalente. Raw também criou e liderou a fabricação dos famosos kits de química. A idéia era ocupar um salão da Galeria Prestes Maia com uma exposição a cada três ou quatro meses. Isaias Raw manteve um ritmo alucinante de atividades. já perdíamos o aluno. Colocávamos dez ou 20 jovens escolhidos por nós para fazer . com os três filhos divididos entre os Estados Unidos e Israel. Como o senhor se interessou por educação científica? Comecei estimulando a observação em análise experimental. unificou os exames vestibulares de São Paulo (junto com o professor e sanitarista Walter Leser). Em meio a gestões de programas e fundações. edição 2004. criou a Fundação Carlos Chagas e o Curso Experimental de Medicina da FMUSP. trabalhou em Israel e em universidades norte-americanas. para a reunião da SBPC [Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência] e eles se apresentavam como se fossem pesquisadores que mostram seus resultados. publicando em revistas especializadas no exterior. dirigiu a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (Funbec). de modo decisivo. Era a tradução do nome Unesco e representava esse organismo no Brasil. do ensino médio. eletricidade e biologia.equipamentos de laboratórios. a transformá-lo no maior centro produtor de vacinas do país. uma vida de 65 anos. de volta ao Brasil. criando uma feira de ciências em São Paulo nos anos 1950. o Ibecc. Ciência e Cultura. casado. Este ano ganhou o Prêmio Conrado Wessel de Ciência e Cultura. Raw instalou-se no Instituto Butantan e ajudou. para se dirigir a uma carreira científica. de atividades. contando o laboratório na garagem. em uma única entrevista. com 200 milhões de doses anuais – hoje é o presidente da Fundação Instituto Butantan. continuou um pesquisador atuante em bioquímica. Tem que começar muito cedo. A feira de ciências. Fundou a Editora da Universidade de São Paulo e a da Universidade de Brasília. e três netos. onde me diverti fazendo ciência”. Aos 78 anos. ele ri quando percebe a quantidade de informação que despejou sobre os entrevistadores: “Sei que é impossível enquadrar. entre os anos 1950 e 1969. naquele tempo.

da Fundação Ford. com reagentes e o que fosse necessário para trabalhar em casa. na loja de ferragens. Tive a idéia de fazer algo mais organizado. encadeada. na verdade um caixote de madeira com uma alça. Aí surgiram os kits de química. Achei que. por exemplo. ganhamos um galpão na Cidade Universitária e tudo passou a ser industrializado. Não é não. e iam fazer a experiência. gratuita e universal. de eletricidade. de 1960 a 1963. Mas rapidamente ficou claro para mim que 20 pessoas não iam mudar o Brasil. porque era uma conversa lógica. O foco da pesquisa foi mudando. primeiro no 4º andar. Inicialmente recebíamos doação da Fundação Rockefeller e. mas filósofo. Tínhamos que achar um outro jeito de multiplicar esse processo. O Anísio Teixeira foi o primeiro sujeito que concebeu a escola como deveria ser: pública. pelo bioquímico Leopoldo de Meis. logo após.experiências – construir aparelhos. mas quem financiava a fabricação? Fazíamos na Faculdade de Medicina. depois ocupamos a garagem. A cada 15 dias eu ia lá. Naquele tempo se comprava ácido na esquina. Antes da genômica o importante era entender metabolismo e enzima. que era com pedal. Quando o Ulhôa Cintra foi reitor da USP. Tudo o que ele dizia numa semana desdizia 15 dias depois. Isso já existia comercialmente na Alemanha nos anos 1930. diga-se de passagem. para conversar. em vez de investir na formação de uma elite. eletricidade e biologia. Fazia pesquisa em bioquímica. um educador brilhante. deveria intervir na escola secundária e partir para a massificação usando os kits e minikits de química. Naquele tempo a grande promessa era que. Chegamos a ter 650 operários. O senhor bolou os kits. com um torno que era da Escola Politécnica num tempo em que não tinha motor. com a mesma tranqüilidade. que as pessoas pudessem comprar – um pacote de material. O senhor geria a fábrica de kits e fazia pesquisa ao mesmo tempo? Ao mesmo tempo. Como surgiram os kits de ciência? Eu tinha um laboratório no quintal da minha casa. se se conhecia a . O problema é que nossos clubes eram muito modestos em termos de número. O problema era que o Anísio não era cientista. a Editora Abril topou fazer isso comercialmente. Quando saí do projeto. E esse processo era o clube de ciência – que foi redescoberto muitos anos depois. Depois fui ao Ministério da Educação e vendi a idéia para o Anísio Teixeira. que pudesse ser fechado e guardado. Criei uma mala. O que é um defeito grave. no Rio de Janeiro. da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]. de biologia e até de matemática.

um em especial sobre o Louis Pasteur. O senhor sempre quis ser pesquisador? Eu entrei na faculdade definitivamente interessado em fazer pesquisa. Mas foi a partir dessas leituras que o seu entusiasmo cresceu. Eu tinha um tio que era um médico “de massa”. com o tempo. contava as histórias do Pasteur. Mesmo já implantada. Aí veio a idéia. na prática. O Pasteur inventou um modelo. A Faculdade de Medicina era um dos poucos lugares onde havia tempo integral. ninguém tinha descoberto uma porção de coisas na época.diferença entre. atendia mil pessoas por mês. A Faculdade de Medicina reagiu extremamente mal a isso. Comecei com o Tripanossoma cruzi quando era aluno. que foi outro sujeito que surgiu assim. que ficou obsoleto. e as outras. laboratórios e permitia fazer pesquisa. que acho que é o modelo que tentei ressuscitar no Butantan. pôr no caminhão e levar para o Instituto de Química. digamos. que difere da do homem. alguém que se interessou por alguma coisa e foi fazer. você era capaz então de identificar uma droga que ia inibir a enzima do parasita. da USP. mudou a Farmácia. cujo prédio nem estava completamente construído. quase por acaso. com gente de todas as áreas conversando e trocando experiências. Mas foi essa ação que levou a criação. O Cintra me deu cobertura naquela ocasião. não foi? É. Vi que aquela área do conhecimento estava vazia e comecei a trabalhar nisso. Depois que eu mudei para lá. também. Ciências e Letras. Ele tinha alguns livros de química farmacêutica que me interessavam. as faculdades eram isoladas e ninguém falava com ninguém. O Pasteur dizia “vou fazer pesquisa. que era diretamente ligado à Faculdade de Filosofia. A Faculdade de Medicina era muito fechada e não deixava contratar profissionais não-médicos. o homem e um parasita. Mas era um livro muito bom. não em ser médico. nos anos 1940. Ele mandou construir o Instituto de Química. Toda a ciência do século 19 surgiu desse jeito. que eu chefiava. praticamente inteira. Como o senhor foi parar no Instituto de Química? Havia a necessidade de criar massa crítica. Houve uma evolução clara da universidade depois dessas mudanças. a Cidade Universitária era um condomínio. de pegarmos o Departamento de Bioquímica. Meu interesse e vontade de pesquisar surgiram quase por geração espontânea. e curava a doença. Foi naquele momento que se começou a fazer bioquímica. fazer . obviamente. Até então a universidade era apenas um condomínio. ainda no tempo do Ulhôa Cintra. De alguns livros.

sabe por quê? Porque eram sempre as mesmas aulas. E há algo muito sério: como é que você explica para os seus filhos pequenos que a polícia está errada e você certo? Não existe isso. esse sujeito. Uma vez a antiga TV Record noticiou que eu era chefe de uma célula . O primeiro deles é que eu iria para um congresso de bioquímica em Nova York e uns 12 professores. escreveram um telegrama de protesto para o presidente da República. mal. Esses dois fatos ajudaram a me libertar. lê um livro sério e aprende mais do que ouvindo um professor às vezes não muito competente. Seus caminhos como pesquisador não são nada convencionais. ganhar dinheiro e financiar minha pesquisa”. quando estava entrando em casa. Nada mudava. para poder estudar para o exame. por mais que ele estudasse aquele maldito caderno. Foi um momento terrível porque. Vinte e cinco soldados vieram me prender às 11 horas da noite. O senhor participava de organizações de esquerda? Não. Na verdade. Fiquei 13 dias preso e fui libertado por dois motivos. o marechal Castello Branco. Meu grande problema era saber que matéria tinha sido dada. incluindo sete ganhadores de Prêmio Nobel. e isso foi notícia na Folha de S. estava no Brasil e tinha uma hora marcada para conversar comigo sobre ensino de ciências.desenvolvimento. Como estava preso. produzir o produto. Então criou-se um caso. Vou dizer uma coisa: me diverti muito na minha vida. Eu assisti a poucas aulas na Faculdade de Medicina. em metade do tempo. ele foi ao quartel. minha prisão ocorreu porque o Exército era ignorante. descobri que não chegava à conclusão sobre qual era o tema da aula. Como foi esse episódio? Fui preso como um sujeito altamente periculoso. E você. Eu era candidato imbatível para professor catedrático da Faculdade de Medicina e essa comissão envolveu meu nome em atividades subversivas para me tirar do páreo. Em 1964 o senhor foi preso acusado de subversão.informado e foi enrolado. naquela época. Quer dizer. O segundo motivo é que o então diretor de ensino de ciências da Unesco. Albert Baez. O que alegaram para o senhor? Que eu era um violento e subversivo comunista. não podia ter uma nota adequada porque não tinha a visão do que foi ensinado. que enchiam páginas e páginas. Na USP tinha professores importantes que formaram uma comissão de extrema direita e envolveram o Exército. minha sogra estava morrendo e meus três filhos eram pequenos. Não tem explicação.Paulo. Olhando os cadernos dos meus colegas da primeira fila.

E eu era o denominador comum. Eles estavam atrás de mim havia muito tempo por causa do ensino em ciências. Pesquisa não é uma atividade individual. em Israel. para a Universidade Hebraica de Jerusalém. Era um negócio que nós tínhamos . Não tem jeito. algumas delas em Washington. que não é fácil. Eu também estava profundamente envolvido com o vestibular unificado. Em 1969 fui aposentado pelo o AI-5 [Ato Institucional nº 5]. Primeiro. O Ibecc tinha virado Funbec. um aparelho de eletrocardiograma. E para onde o senhor foi? Entrei no MIT [Massachusetts Institute of Technology] primeiro. embora tentassem me impedir. Independentemente do problema de língua. assim por diante. No fundo. Isso foi na época que o senhor era presidente da Fundação Carlos Chagas? É. desfibrilador. Mas entre 1964 e 1969 surgiu uma porção de coisas. que tinha interesse muito grande pelo tema. minha vida continuou normalmente. nos Estados Unidos. que era feito pela Fundação Carlos Chagas. assumi meu posto e continuei trabalhando. A vida lá foi conturbada porque caí de pára-quedas e sem minha equipe de pesquisa. que é trabalhar com ensino em ciências. se você é estrangeiro. Como foi sua cassação? Em 1969 já foi diferente. no fim dos anos 1950. é muito difícil interferir na educação de um outro país. mas de um grupo que trabalha harmonicamente. Uma vez cassado o senhor fez o quê? Fui embora do Brasil. Em 1969 eu tinha a soma desse poder todo e não era submisso. de biologia. Monitor. Mas não funcionou. que eu dirigia. No Brasil ninguém tinha equipamento médico. em 1964. porque a Funbec [Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências]. Durante algum tempo houve uma série de reuniões internacionais financiadas pela Opas [Organização Panamericana de Saúde] para rever o ensino de física. Só se tirava eletrocardiograma quando o médico tinha importado. trabalhava em todas essas áreas. de química. por conta própria. Era um peão que tinha que ser removido do caminho. O que houve é que o programa de ensino de ciência do qual eu estava à frente foi assimilado pela Unesco.comunista que se reunia em Washington. Quando me soltaram. Havia todo um complexo relacionado à educação e ao ensino de ciências que funcionava harmonicamente. não só para o ensino de ciência – era a primeira indústria de eletrônica médica. vou fazer aquilo que sei. não tinha nada disso. uma fundação muito importante. Fiz o concurso para catedrático. isso representava poder. Pensei.

onde éramos pioneiros. Hoje isso mudou. Lá fiz um outro negócio que foi muito importante na época e hoje voltou a ter importância. tudo. Também tinha um segundo porém: naquele tempo. E depois passamos meio ano analisando com método o que ele tinha comido naquele dia. no primeiro ano. . Nos Estados Unidos se dizia o seguinte: o ensino de ciências é muito sério para se deixar nas mãos de um professor. os professores que davam o curso. No MIT tinha algo parecido com a Funbec e começamos um projeto. Recentemente foi feita uma análise das escolas de medicina. durou mais um ano e a faculdade acabou com o curso. Esse trabalho acabou saindo em livro em 1972. do mesmo jeito que se ensinava no século 18. O que Londrina fez? De certa forma repetiu o Curso Experimental de Medicina que fiz em 1969 na Cidade Universitária. clínica e medicina social desde o primeiro dia do curso. Naquela época havia duas idéias em jogo: trazer o curso de medicina para a Cidade Universitária e inovar. quando abriu. Quanto tempo o senhor ficou no MIT? Quatro anos. Não era para repetir a mesma coisa. Nós. o que naquela época era um brutal prestígio. você fala sobre mitocôndria…” Funcionou tão bem que. Mas. assim que eu saí. os 80 melhores alunos escolheram Experimental.começado no Brasil. 40% do curso médico era de anatomia descritiva. fui convidado para ir para a Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard. Qual era o conceito do Curso de Medicina Experimental? Acabar com a separação das disciplinas e tentar integrar ciência básica. nos reuníamos uma vez por semana para decidir o que ensinar. porque cresceram além dos limites delas. Quando o programa morreu. Como o americano é louco para saber o que come. “Hoje eu tenho que ensinar citologia do fígado. Então nós conseguimos aprovar na congregação da faculdade o curso experimental. Esse programa teve grande impacto e me deu a capa do Chemical News. As matérias do curso médico são totalmente artificiais. no Departamento de Nutrição. que chegou a ter um impacto muito grande e era o reverso do que eu fazia no Brasil: como é que você ia ensinar ciência para quem não quer aprender ciência? Então nós inventamos um projeto. decidimos que cada estudante juntaria tudo o que comia num dia dentro de um único saco: Coca-cola. Nossa idéia era misturar a medicina logo no primeiro ano com as outras coisas de ciência básica. naturalmente. É a comunidade científica que tem de dizer para onde vai a ciência. hambúguer. que preparava os alunos para o estudo de uma medicina científica. das inovações do ensino médico e quem ganhou primeiro lugar? Londrina.

Nesse momento. Então. ser muito bom e correr à beça para ficar no mesmo lugar. 18 horas por dia. Isso ocorre por causa da máquina poderosa que eles têm montada lá. ninguém interfere na pesquisa. Tinha de assinar um documento dizendo que você aceitou o perdão e eu não aceitei o perdão de ninguém. Os mais conhecidos são o Walter Colli. Entrei em uma área diferente dos outros. Quando vim para cá a coisa mudou. o Willi Beçak era o diretor da instituição e pediu a contratação de dez professores da universidade. O primeiro era que a condição da Anistia. totalmente impessoal. um ordenado mais decente. Na época. da quantidade de dinheiro existente. tem de ir embora. e o Ricardo Brentani. a liberdade é total. Na volta para o Brasil o senhor fez o que da vida? Tentei voltar para a Funbec.Depois das experiências bem-sucedidas nos Estados Unidos. a não ser de 1% que está no topo. era de perdoar. Isso . O mundo desabou em 1985 quando o pouco soro antiofídico que o Butantan fazia foi testado em um laboratório central de controle de qualidade. Eu já estava aposentado e não havia voltado para o Instituto de Química por dois motivos. E é impessoal. num outro sentido. começo dos anos 1980. Deixou de ter uma estrutura mais ou menos permanente para ter uns tantos líderes geniais que fazem pesquisa e um exército de escravos. O resto é um exército de escravos. eu já estava tentando resolver o problema dentro do Butantan. Fazer propriamente a pesquisa não é mais uma atividade permanente de ninguém. o Brasil não tinha soro. que trabalham sete dias por semana. não de reintegrar. dos militares. diretor do Instituto Ludwig de Pesquisa contra o Câncer e diretor presidente da FAPESP. hoje também assessor adjunto da diretoria científica da FAPESP. se o pesquisador quiser ter família. mas também lá o processo havia se pervertido. Quando acaba a bolsa. A essa altura. não havia permeabilidade entre o Butantan e a USP e o instituto não tinha pesquisa nem aluno. Eles estavam sem uma boa administração e haviam perdido a inovação. O problema é que há uma estrutura em que se tem de trabalhar muito. O segundo motivo era que eu tinha deixado cinco ótimos professores lá que não precisavam mais de mim – eles eram melhores do que eu. O Butantan começou a ser recomposto com esses dez professores? Sim. porque eu já tinha conseguido que a Finep [Financiadora de Estudos e Projetos] me desse um pouquinho de dinheiro para fazer biotecnologia na Funbec. por que voltou para o Brasil? Porque o sistema americano de pesquisa foi pervertido. no Rio de Janeiro. Depois de uns dois anos surgiu a oportunidade de ir para o Instituto Butantan e começar do zero. Agora. Só que lá não havia mais condições. e descobriu-se que era inativo. O pesquisador é temporário. horários menos ruins.

se em uma instituição pública esse produto não é da sociedade como um todo. Se não tem um produto. O pesquisador está sempre sonhando com uma coisa que mesmo no Primeiro Mundo leva muitos anos. O negócio é que. se você não faz o produto aparecer. do controle da qualidade. Acredito que o Brasil está. Na verdade. a medida de tecnologia não é o trabalho publicado. E. Para fazer saúde pública tem que ter um custo que o país comporte. individuais.começou a abrir os caminhos e fui reconstruindo instalações e comprando máquinas com a ajuda do governo federal. Na área de medicamento e vacina leva dez anos depois de o produto estar estabelecido para se chegar no mercado. não entra em licitação. Há um outro problema: no Brasil. Essa era uma parte do problema. para os pesquisadores. aceitou-se a idéia americana de que se o cientista tem uma participação nos lucros ele tem mais interesse em criar tecnologia. Mas como o instituto se tornou um grande centro de produção de vacinas? O orçamento para fazer vacinas imunobiológicas no Butantan era zero. na contramão dessas idéias. Esse programa derivou para um monopólio estatal. ainda por cima. Se antes era zero e agora produzimos 200 milhões de doses de vacina. para fazer um produto como vacina. o governo compra sem questionamento. Quando a instituição pública faz a vacina. Quando descobriram que não tinha soro bom aqui e não dava para importar porque não era produzido usando veneno extraído das cobras brasileiras criou-se um programa de autosuficiência de vacinas. A outra era desenvolver tecnologia. Freqüentemente tenho de comprar matéria-prima previamente. muito menos a discussão interna. Você mata a pesquisa. de onde veio esse dinheiro? Tivemos que criar uma estrutura onde esse dinheiro se retroalimentasse. Quer dizer. ele desenvolve uma idéia de bancada. Isso não é verdade? Pode até ser. antes da encomenda do governo para . Claro que ele paga o preço mais baixo possível e atrasado. não se realizou nada. Da FAPESP nós conseguimos muita ajuda com auxílios pontuais. O governo do estado não financia conscientemente a produção de vacina. O pesquisador da universidade imagina que desenvolve tecnologia. na área de saúde. se for assim. Por quê? Houve uma evolução considerável da tecnologia. Não dá para imaginar que a solução de todos os problemas passa pela empresa lucrativa. você pouco fez do ponto de vista industrial. ninguém vai fazer nada que não tenha perspectiva de lucro. Outro conceito fundamental é que. você não fez saúde pública.

dar tempo de produzir a vacina. Então. Dentro do modelo econômico atual nós estamos na contramão. volta para o Tesouro e desaparece. é natural que vá para o Tesouro. E para ter inovação é preciso ter pesquisador que faz pesquisa . O instituto pode ter esse dinheiro. Qual o país que dá remédio para Aids gratuitamente? O Brasil criou uma estrutura que permite fabricar o produto que precisa para a saúde pública a um preço que pode pagar. o que permitirá. quando o dinheiro volta. se vem dinheiro. criada em 1985. Isso vale para todas as vacinas? Não. stricto sensu. é como se o governo dissesse: “Não tenho nada previsto no meu orçamento. O governo vai distribuir para todas as maternidades públicas de graça. mas não pode ser pública. com a ajuda da FAPESP. O dinheiro nunca fica no Butantan? Não. No momento. então. Criamos uma estrutura que é pública. Se enxergar o dinheiro. mas sempre tem que ter dinheiro. É completamente esquizofrênico. É uma questão de legislação. porque se for pública. Isso porque conseguimos tecnologia para fabricar a um preço muito baixo. O Brasil é o único país da América Latina que produz vacina publicamente. A fundação opera como uma empresa privada. A inovação torna-se. Nós estamos testando uma forma de usar um quinto da dose da vacina da gripe para o ano que vem. As outras nós também fazemos. A Secretaria Estadual da Saúde e o Butantan nunca receberam nada. Aqui na Fundação Instituto Butantan eu cuido mais do preço do que o Ministério da Saúde. Hoje vacinamos de 60 para cima. baixar a vacinação para 50 anos para cima. Até os primeiros auxílios grandes que o Ministério da Saúde nos deu desapareceram no Tesouro. esse parece ser o caminho certo… É o que acho. o surfactante para proteger crianças prematuras. mas de modo muito mais flexível. Precisa ser muito burro para inventar uma lei desse tipo. Também desenvolvemos. não é reinvestido no instituto. no dia seguinte ele é recolhido ao Tesouro. então. se não dois anos antes. estou devendo US$ 30 milhões usados para fabricar a vacina da gripe. O governo pensa – por causa da regulamentação e não por causa de vacina em especial – que. não. essencial dentro desse processo? Sem dúvida. O orçamento é imaginado pelo menos um ano antes. se ele está financiando o instituto. resolveu esse problema. mas desde que o governo não o enxergue. portanto não aceito o dinheiro”. a Fundação Instituto Butantan. Apesar de andar na contramão. O drama é que aí o dinheiro desaparece. com o mesmo dinheiro. se houver lucro.

A indústria faz de conta que inventa tudo. Como defensor dos alimentos geneticamente modificados. O grande financiamento para desenvolvimento de medicamento é público. desde que façam. um país teoricamente mais racional. A convivência entre pesquisa básica e pesquisa aplicada é fundamental. o que foi definido como prioridade. Acredita que há algum risco de se voltar atrás na Lei de Biossegurança depois que o procurador-geral da República. Depois. não privado. Ele acaba descobrindo que faz tão boa pesquisa trabalhando nas prioridades do Butantan como nas idéias dele. Claudio Fontelles. o governo inglês. em maio. não está o presidente Bush tentando enfiar na cabeça dos americanos o que ele pensa do ponto de vista da religião dele? É muito complicado. O mundo não vai ser mais social ou socialista. em uma parte do tempo. porque comida deixou de ser importante? O que não é correto é esconder os resultados. nos Estados Unidos. o que o senhor pensou quando viu a notícia. Tem até a . E para se receber dinheiro público é preciso uma estrutura que funcione para fazer a pesquisa. A relevância social foi trocada pela filantropia – uma concepção americana do tipo “eu fiquei rico. Tenho 25 doutores aqui na fundação e eles têm o direito de fazer a pesquisa que querem. vou fazer um museu também”. o francês e assim por diante. Hoje o ensino de ciência é um faz-de-conta. racional.básica. o ensaio clínico tem de ser registrado – o que não é o caso dos transgênicos. Não diria que o modelo do velho Pasteur seja um bom modelo. E esse não é um problema de opinião pública. Nos Estados Unidos é uma catástrofe porque a importância da ciência não é entendida. Até nos Estados Unidos. Por que isso ocorre? Eu fiz um esforço muito grande na minha vida a favor de uma educação científica. se não der certo. fiz uma estrada de ferro. que a indústria privada não tem. estupidamente obeso. Precisamos de um novo modelo? Eu acho que sim. quem inventa é o governo americano. entrou com uma ação de inconstitucionalidade contra ela? Difícil saber. sobre estudo da Monsanto relativo a anormalidades nos rins e no sangue de ratos alimentados com milho transgênico? Quanta gente deixou de morrer de fome por causa do milho transgênico? Quanta gente agora pode obter comida para ficar obeso. O que está acontecendo é que agora. mas funciona. mas precisa ser socialmente responsável de algum jeito. não pode esconder. Ora.

está o seu ímpeto obstinado de identificar o que precisa ser feito – e fazer. se você não tem a capacidade de analisar criticamente o que é falso e verdadeiro. difteria e coqueluche praticamente desapareceram no Brasil. de fato. E foi assim quando. . Todo mundo que nasceu de 1984 para cá foi vacinado. em 1984. Foi o que eu resolvi fazer no Butantan. 83 anos. que modernizou o ensino de Ciências nas escolas secundárias. vai virar um livro”. Então. Aprender não é adquirir informação. Na origem de todas as contribuições de Isaias à Medicina e à Educação. ele chegou ao Instituto Butantan e o transformou no maior produtor de vacinas da América Latina. a primeira coisa era produzir a vacina chamada tríplice DTP [contra difteria. vai virar livro. que toda criança recebe. responde a essa pergunta. Obviamente. Abaixo. Mas não pode todo mundo fazer ciência básica.mistura do conceito da palavra “pesquisa” com “procura no computador”. Ele já está escrevendo. Foi assim quando ele criou o Curso Experimental de Medicina da Faculdade de Medicina da USP e a Fundação Carlos Chagas. eletrocardiógrafos e desfibriladores em equipamentos padrão nos hospitais. Como o cientista pode ser útil para a sociedade? A vida do médico paulistano Isaias Raw. Mas. Alguém tem que traduzir o que foi descoberto em um produto de que a sociedade precisa. Foi assim quando a mesma Funbec consolidou a eletrônica médica no Brasil. mas apenas de acreditar que o que está na tela é verdadeiro. diz Isaias. contra influenza. O que motivou o Sr. Fizemos um quarto de bilhão de doses. contra raiva. Não tinha vacina no Butantan. Tétano. Depois vieram as vacinas contra hepatite. na década de 1960. tornando monitores. complica brutalmente as coisas. “Se eu for contar tudo. a batalhar pela renovação do Instituto Butantan? A ciência básica é útil e necessária. tétano e pertússis. Esse conceito de pesquisar na internet não é o de descobrir alguma coisa. ele conta apenas uma pequena parte dessa história homenageada pelo Prêmio Fundação Bunge. ou coqueluche]. O resto. se não há informação não se consegue fazer as coisas nem se entender o mundo. Foi assim quando ele criou a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (Funbec). E a grande maioria das pessoas não tem.

progredir. Mas eu fui único que berrou.. Primeiro o meu. E depois porque aqui no Brasil nós estamos no final da migração dos passarinhos.. eu vou responder: “Muito obrigado. A tecnologia é brasileira. Primeiro porque desapareceu rapidamente. Conte-nos um pouco sobre a perspectiva. Tem de haver alguém que execute. mas não quero”.” Isso é genérico. temos de desenvolver tecnologia. demora para eles chegarem aqui. o País quer ser independente.. não vão ter com quem negociar. Esse alguém tem de chegar lá no governo e dizer o que pode fazer. de o Butantan produzir surfactantes pulmonares em larga escala. Eu disse: “Ok. Não de gripe. O governo tem grandes ideias genéricas: “Todo mundo tem de comer. Acontece que você não faz essas coisas por decreto. Mas não podíamos esperar. ser independente. anunciada recentemente. Enquanto não atendermos os Estados Unidos. por ser muito agressiva. O Brasil tem hoje mais poder de negociação internacional? Na época da gripe aviária (H1N1). eu faço isso aqui”. de fato. não vendemos lá fora”. uma parte veio para o Butantan. não vão ter óleo. No final. temos de inovar. A indústria de vacinas está concentrada em seis empresas no mundo. e começamos a produzir vacinas contra a gripe aviária.” Rapidamente o governo americano deu um dinheiro ao País. e atendemos o Ministério da Saúde por um preço que ele pode pagar. Como todas as grandes fábricas de vacina estão no Hemisfério Norte. não sou eu que quero. a gripe não causou tanto problema para nós. Eu quero desenvolver. “Temos de ser autossuficientes. É natural. Alguém tem de chegar lá e ser específico: “Se me derem o dinheiro. os governos de lá disseram: “Primeiro os meus.” Todo dia alguém fala que temos de inovar. Mas enquanto eu estiver sentado lá [no Butantan]. É muito fácil sentar em Brasília e sonhar.Qual a importância do Butantan hoje para o País? Nós temos de ser autossuficientes e estamos conseguindo isso. produzimos 95% das vacinas que são fabricadas no País. E elas vivem batendo em minha porta. mais ou menos como a do petróleo. Eu não esperei o Ministério da Saúde para andar. ele morre sozinho. o produto é brasileiro. ter assistência médica. com poder para isso. Aliás. eu já estava entrosado com a OrganizaçãoMundial de Saúde e pude participar de uma discussão sobre os riscos da doença se espalhar pelo mundo. Hoje temos um parque tecnológico de primeira linha.. não quem está sambando lá no Brasil. Aliás. sua história é marcada por esforços bem-sucedidos. mas se nós morrermos de gripe vocês morrem junto. mas vocês não vão ter comida. Produzimos as vacinas do zero até o produto final. para vacinar todo mundo. O Butantan me deu essa oportunidade. O . matou 50% das pessoas infectadas – e quando você tem um vírus tão violento.

O que você pode fazer que é útil? Prêmios e títulos Conrado Wessel de Arte. Faculdade de Medicina. ela chora. mas não é o único.br/2005/07/01/cientista-bom-de-briga/ . porque a tecnologia que desenvolvemos também é barata. Quando isso não acontece essa criança morre sufocada.que é este produto e qual a sua importância? A cada ano. A mensagem que eu dou para o jovem de hoje: olhe em volta. 1995 Academico.Paulo. Deve acontecer ano que vem. Esse produto é retirado do pulmão de porcos. de graça – o que já é um fator que torna a solução mais barata. Governo Federal. por incapacidade pulmonar. isso se torna uma prioridade. Ela poderia ter sido salva se existisse um produto chamado surfactante na sala de parto. 1975 Professor catedratico.fapesp. E esse produto tem de ser barato. Ciência e Cultura. USP. Se você tem consciência disso. Quando a criança nasce. você dá uma palmada. Governo do Estado de S. E ela já foi resolvida pelo Butantan. 1964 BIBLIOGRAFIA: http://revistapesquisa. Fundação Conrado Wessel. USP. o pulmão abre e ela passa a respirar. 2000 Ordem Nacional do Merito Cientifico. 150 mil bebês prematuros morrem na hora em que nascem. 1982 professor emerito. 2004 Medalha do Instituto Butantan. Academia Brasileira de Ciências. e a uma empresa brasileira me deu a chance de recolher todos os pulmões de porcos dos seus matadouros.

br/entrevistas/entrevista.br/buscatextual/visualizacv.http://buscatextual.org.fundacaobunge.cnpq.do? metodo=apresentar&id=K4780236J5 http://www.php? id=6229&/isaias_raw .