A cidade e a criança: topoanálise do imaginário infantil

Adilson Marques

Texto baseado na tese “sociagogia do (re)envolvimento e animaação cultural, defendida em 2003 na Faculdade de Educação da USP

Revisto para divulgação na forma de e-book em fevereiro de 2010

São Carlos Fevereiro de 2010

Introdução

NACHMANOVITCH (1993:13) em seu livro ser criativo, afirma:

Em sânscrito existe uma palavra, lîla, que significa “jogo”, “brincadeira”. Mais rica de sentidos do que as palavras correspondentes em nossa língua, ela significa brincadeira divina, o jogo da criação, destruição e recriação, o dobrar e desdobrar do cosmos. Lîla, profunda liberdade, é ao mesmo tempo a delícia e o prazer do momento presente e a brincadeira de Deus. Significa também “amor”. Lîla pode ser a coisa mais simples que existe – espontânea, infantil, franca. Mas, à medida que crescemos e experimentamos as complexidades da vida, ela também pode ser a conquista mais dura e difícil, e chegar a desfrutá-la é como retornar ao nosso verdadeiro ser.

Representando essa capacidade da livre expressão, da total liberdade criativa, da qual emergem a arte e a originalidade, lîla não parece encontrar muito espaço no ensino escolar e também no ensino não-escolar. A maior parte dos programas de ensino estipula o que se deve aprender e também como e quando. Raramente tais planos se lembram que as pessoas vivem necessidades particulares. É interessante constatar que o planejamento do ensino escolar e também do não-escolar é realizado antes de se conhecer as pessoas que irão aprender. Sem ter a menor idéia de suas potencialidades e deficiências, todo um projeto é escrito e, muitas vezes, cumprido paranoicamente pelos professores que têm medo de sofrer alguma punição de seus superiores. E isso acontece do ensino pré-escolar ao superior, como pude constatar nos dois centros universitários onde lecionei entre 1998 e 2000.

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Procurando fugir desse padrão educativo, foi proposto, em 1997, o projeto “maquete lúdica de Rio Preto” para ser realizado com as crianças do projeto Curumim, um programa de “educação informal” com crianças de 7 a 12 anos de idade, realizado pelo SESC, na cidade de São José do Rio Preto. Naquele ano, o tema da programação – para cada ano é realizado um projeto com um tema central que deve englobar toda a programação infantil, desde a escolha das peças de teatro para crianças, exposições etc. – era a cidade de São José do Rio Preto e a programação infantil foi denominada Cidade Curumim. Para o encerramento desse projeto, o coordenador do projeto Curumim do SESC Rio Preto havia elaborado com a sua equipe de instrutores uma exposição fotográfica, com fotos feitas pelas crianças durante as diversas etapas do projeto. A inclusão da “maquete lúdica” de Rio Preto foi uma sugestão que fiz ao coordenador em meados de 1997. Eu sugeri que levantássemos com as crianças quais os melhores locais, na opinião delas, para se levar um amigo de outra cidade para conhecer. A brincadeira era a seguinte: eles seriam pequenos guias e iriam apresentar para um visitante (turista) os locais mais legais da cidade de São José do Rio Preto. Nesse sentido, em um primeiro momento, o projeto levantaria os principais locais para visitação e, no segundo, as crianças iriam construir uma maquete, sem preocupação com escala, representando tais locais. Porém, a instituição propôs a contratação de um maquetista profissional para materializar a cidade imaginada pelas crianças. O levantamento dos "pontos turísticos" do município foi feito da seguinte maneira. As crianças do projeto Curumim e outras que apenas freqüentavam a unidade do Sesc escreveram em um folha de papel os cinco melhores lugares para visitar com um amigo de outro município. Com os dados em mãos, os dez locais mais votados foram os escolhidos para serem representados, fora da escala, na maquete. Com os locais levantados – e o Sesc foi o local mais votado, seguido pelo represa municipal e pela Cidade das Crianças -, o maqueteiro contratado estudou e apresentou a sua proposta para a confecção da maquete lúdica de Rio Preto.

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Foi construída, então, uma maquete de 3 X 3 metros, com os 10 locais representados, fora de escala, para se destacarem na “paisagem”. A biblioteca municipal, por exemplo, cuja edificação é conhecida pelos moradores como o “prédio da aranha”, foi representada como um gigantesco aracnídeo de óculos, lendo prazerosamente um livro. A exposição foi aberta ao público no mês de outubro de 1997, reunindo fotos realizadas pelas crianças e a maquete, junto com um coquetel de guaraná e pipoca para as crianças-fotógrafas e seus convidados.

Representação da Biblioteca Municipal na maquete lúdica de Rio Preto Foto: Adilson Marques (1997)

É importante ressaltar mais uma vez o aspecto da anima-ação cultural, de um trabalho “educativo” realizado sem a preocupação prometéica em transformar a realidade, em formar “cidadãos críticos”, o que não quero dizer que estas não são metas “nobres”, mas que procurar juntar ao trabalho efetivo de conscientização e transformação realizado

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em outras esferas da vida das crianças, os laços afetivos que elas já construíram pode não fazer bem, mas mal também não fará. Permitir que além de críticas elas sejam criativas pode ser que ajude no cultivo de novas formas de sensibilidade, ou seja, junto com a pedagogia lúcida, pode existir espaço para a pedagogia lúdica. Em nenhum momento pretendo desvalorizar a razão ou a inteligência, ao contrário, pretendo expandi-la cada vez mais, no sentido de permitir a expressão do intelleto, ou seja, como MICHELANGELO (apud NACHMANOVITCH, 1993) denominava a inteligência visionária com sua profunda visão dos padrões ocultos sob as aparências. Para NACHMANOVITCH (1993, 40) o intelleto seria algo como

... a corrente da consciência, um rio de lembranças, fragmentos de melodias, emoções, fragrâncias, anseios, antigos amores, fantasias, mas sentimos algo mais, algo que ultrapassa o campo meramente pessoal, algo que se origina de uma fonte que é ao mesmo tempo muito antiga e muito nova. A matéria-prima é a corrente do grande Tao, que flui através de nós, misteriosamente, sem começo nem fim.

Para as crianças, a cidade também já se constitui como uma matéria-prima e sobre ela seus intelletos atuam intensamente, mesmo que suas experiências ainda não sejam tão profundas e complexas como as dos idosos, nem seus amores sejam tão antigos. A exposição (maquete e fotos) mostrou que as crianças já possuem um envolvimento com a cidade, constituindo seus lugares expressivos, ou seja, seus territórios de vida cotidiana. Por estes lugares, sentem afeição e os veneram. A maquete se mostrou também como um significativo recurso para ser trabalhado em programas de sociagogia do (re)envolvimento pois além de valorizar as imagens noturnas da gulliverização, a cidade se transformou em um grande lar. Se a cidade real assemelha-se a um grande labirinto “assustador”, a maquete a transformou em um labirinto “tranquilizador”, valorizando através dela a simbologia da casa. Como diz DURAND (1997, p. 243):

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A própria organização dos compartimentos do apartamento ou da choupana: canto onde se dorme, lugar onde se prepara a refeição, sala de jantar, quarto de dormir, dormitórios, sala de estar, celeiro, casa da fruta, granja, sótão, todos esses elementos orgânicos trazem equivalentes anatômicos mais do que fantasias arquiteturais. A casa inteira é mais do que um lugar para se viver, é um vivente. A casa redobra, sobredetermina a personalidade daquele que a habita.

Foi possível notar como a maquete possibilita reduzir a cidade inteira em um novo lar. Além de encantar as crianças, encanta também os adultos que se voltam para as imagens isomórficas do nicho, da concha e do colo materno, vivendo, no momento de fruição da maquete uma sensação de involução, pois aciona os schèmes de descida. Este “microcosmos” carregado de profundas significações sentimentais, concentra a fantasia de possuir num pequeno espaço a totalidade do Universo, como ocorre com o ikébana e o bonsai oriental. Essa transformação do Universo em uma substância íntima inverte a direção dos valores e imagens dominantes em nossa cultura moderna, causando uma reviravolta em nossas almas. Assim, mesmo que por alguns instantes, deixamos de gigantizar os heróis e suas proezas. Outro dado constatado durante a visitação foi a experiência de insight no público. Muitas pessoas começavam a narrar fatos que pareciam saltar de dentro da maquete. A fruição da mesma parecia liberar experiências que os orientais chamam de kensho e de sartori, ou seja, os momentos de iluminação e a mudança de sensibilidade. Era como se a contemplação da maquete não transmitisse apenas informações sobre a cidade, mas também sobre quem a admirava. Na maquete, como já salientei, a cidade toda tende a se transformar em uma espécie de ninho, numa terna e quente morada e, por alguns instantes, a cidade representada passa a se tornar o centro do universo. As distâncias se perdem e lugares se iluminam. A contemplação da maquete, e isso foi possível perceber não só nas crianças, comove e

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proporciona um tipo de prazer que chega a imobilizar o olhar de muitas pessoas. Possivelmente, era a presença de lîla, o divertimento divino, que ali se manifestava. A maquete, mesmo não reproduzindo fielmente a cidade e desrespeitando a escala, promove uma comoção relacionada com o poder de conhecer a cidade inteira, conhecer outros lados da cidade. Descobrir um local novo, cuja existência se desconhecia, provocando uma emoção viva. Em suma, a maquete parece manifestar a significação feminina da cidade. Ela ressalta seu limiar acolhedor. Durante a contemplação da maquete, a cidade não se impõe pela grandeza, mas pela intimidade pois são os dinamismos do encolhimento que torna a cidade lisa e suave mesmo que os locais reais sejam ásperos e perigosos.

Da sociagogia do (re)envolvimento à metanóia

Pode-se dizer que a maquete nos remete ao devaneio da segurança. E, como nos lembra BACHELARD (1988b, p. 207) "a imaginação miniaturizadora é uma imaginação natural. Aparece em todas as idades do devaneio dos que nasceram sonhadores." Mas não posso deixar de ressaltar a dimensão sociagógica da maquete, uma vez que sua contemplação ajuda a possuir melhor a cidade real e de uma forma muito mais significativa. Lembrando novamente BACHELARD (op. cit., p. 207): "possuo melhor o mundo na medida em que eu seja hábil em miniaturizá-lo. Mas, fazendo isso, é preciso compreender que na miniatura os valores se condensam e se enriquecem. (...) É preciso ultrapassar a lógica para viver o que há de grande no pequeno." A preocupação com a lógica nos remete apenas para a geometria da maquete, para a preocupação com a escala, reduzindo, assim, a imaginação criadora. Permanecendo nesse nível, a maquete apenas serviria para reproduzir a realidade, mas, permitindo uma abertura para sua dimensão surracionalista, vamos notar que valores estão engolfados na maquete e que esta faz sonhar.

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E esse sonho é crepuscular, uma vez que se fica mais à vontade no mundo da miniatura representada pela maquete enquanto a imaginação permanece vigilante e feliz em sua contemplação. Aqui podemos salientar uma dimensão animagógica também. A contemplação da maquete, que expressa o mundo exterior, quase sempre é acompanhada por uma imensidão interior. É na dialética, ou melhor, na dialógica entre o mundo exterior (a cidade) e o interior que se pode notar que a topoclastia (sentimento que faz o mundo parecer terrível) é típico, normalmente, de quem possui os sentidos entorpecidos pelas enormidades intumescedoras da mente. Contemplar a maquete de uma cidade é, de certa forma, jogar abertamente com a transitoriedade da vida. E, nesse caso, por ser uma maquete que representa os espaços expressivos de crianças de 7 a 12 anos de idade, parece que dela emana leveza, energia, transparência, bom humor, mas também o sussuro de fantasmas que nos lembram, e estou me referindo aos adultos, que cada momento é precioso e que não pode ser repetido, corrigido ou capturado, como se tudo acontecesse apenas uma vez na história de uma cidade. Mesmo assim, a maquete lúdica trouxe para muitos adultos um pouco de ordem interna e também externa. Mesmo quando estamos no meio da confusão urbana contemporânea, a representação em miniatura da cidade nos permite perceber que esta possui algo de belo e que suas formas são também graciosas. Como já havia afirmado HILLMAN (1993:144):

Na ausência dos Deuses, as coisas tendem para as enormidades. Um sinal da ausência dos Deuses é a imensidão, não meramente no reino da quantidade, mas enormidade enquanto qualidade, como uma descrição horrível ou fascinante, como o Buraco Negro, Aglomerados, Guerras nas Estrelas. Quer se manifeste nas imagens de corporações multinacionais, oceanos poluídos ou nas grandes variações climáticas, a imensidão é a confirmação do Deus ausente. Ou, digamos, que os atributos divinos da Onipotência, Onisciência e Onipresença subsistem sozinhos. Sem o governo benevolente da divindade, a Onipotência,

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Onisciência e Onipresença se tornam Deuses. Em outras palavras, sem os Deuses os Titãs retornam.

Nesse sentido, pode-se dizer que a maquete, para além de suas lógicas geométricas, permitem o germinar de uma imaginação capaz de conter o excesso, em outras palavras, capaz de manter acuado o titanismo, permitindo que os princípios e poderes arquetípicos que permitem o retorno dos Deuses inimigos dos Titãs. No plano fenomênico, HILLMAN (1993) nos auxilia a compreender o papel do titanismo e os problemas dele derivados. Titã significa esticar, extender, expandir, empenhar-se, apressar etc. O estresse contemporâneo é resultado do ego prometéico (lembrando que Prometeu é o mais famoso dos Titãs e que sugere a propensão titânica em cada um de nós). Como disse HILMANN (1993:145): "o estresse é um sintoma titânico. Um verdadeiro alívio do estresse só começa quando podemos reconhecer seu verdadeiro antecedente: nossa propensão titânica." É interessante assinalar que já nos encontramos familiarizados com as reflexões que apontam as diferenças entre Apolo e Dioniso, classificando pessoas ou sociedades em apolíneas ou dionisíacas, mas é importante não se esquecer que Dioniso, foi, provavelmente, o maior inimigo dos Titãs. Foi Dioniso que os Titãs despedaçaram. Novamente me remeto a HILLMAN (1993:145), em uma passagem que o criador da Psicologia Arquetípica nos lembra que:

Se Dioniso é o Senhor das Almas, como foi chamado, e Zoé, Deus da Vida, o vigor verde e orvalhado que impregna toda a natureza vegetal e animal com um desejo selvagem e tenro de viver, então esse impulso pode ser despedaçado, podemos dizer atomizado, por qualquer procedimento, ambição, lei universal que ultrapassem os limites. Até mesmo o impulso prometéico de beneficiar a humanidade com ações nobres pode ser destrutivo para a delicada força da alma, cujo senhor é

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Dioniso. Grandes soluções e idéias universais fazem parte da enormidade que estive chamando titânica.

Do ponto de vista sociagógico, o trabalho aqui relatado com as crianças traz questões significativas para discussão. Em primeiro lugar, precisamos compreender que o titanismo também costuma ser punido no mundo contemporâneo. E, normalmente, a punição ao titanismo também é rigorosa. Da mesma forma que Prometeu foi acorrentado no Tártaro, a repressão ao titanismo no mundo contemporâneo assume diferentes formas repressoras: são as leis severas, a educação rigorosa e outras formas que podem levar a um fascismo do tipo puritano e moralista. O movimento ecológico é um palco cheio de exemplos de como o titanismo pode ser enfrentado de forma fascista. Seria essa forma de enfrentamento do titanismo, uma forma zeusiana? Se pensarmos que Zeus promove uma imaginação ativa, ao ar livre, pois nasceu ao amanhecer e foi alimentado no solo extenso, talvez a resposta seja afirmativa. E nessa forma de enfrentamento, não há espaço para o recolhimento ou para a meditação. Zeus representa, assim, uma capacidade grande de imaginar equivalente à enormidade titânica. Possivelmente, seja adequado dizer que tanto a consciência zeusiana como o titanismo não têm limites, pois não são imaginados, ao contrário, são abstrações. Essa forma de Ação Cultural que foi concluída com a exposição de uma maquete, contemplada intensamente pelas crianças, seus pais e professores (a maquete foi exposta por vinte dias nas dependências do SESC Rio Preto) parecia abrir outras portas, sobretudo, para que os Deuses se voltassem para o interior. Sonhos, visões, fantasias, sensações, recordações pessoais se misturavam e pareciam formar uma espécie de refúgio positivo (não narcisista) do mundo desordenado vivido na cidade. Na maquete, cada edificação representada, mesmo fora da escala, aparece como um ser animado, vivo e, ao mesmo tempo, sua contemplação como um mundo específico e particular permite, paradoxalmente, gerar condições arquetípicas para a "cura" da enormidade. Assim vão surgindo na paisagem a Catedral, a Cidade da Criança, o SESC, o estádio de futebol, entre outras "singularidades" que captaram os vínculos, alguns intensos, daquele grupo de crianças e que o mantém ligado ao mundo, ao mesmo tempo que o mundo

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se manifesta ligado a eles. Os locais ali representados correspondem a afetos carregados de projeções. Paradoxalmente, a contemplação da maquete pode conduzir para o envolvimento social e cultural com o espaço urbano. E, nesse caso, penso, simultaneamente, em Afrodite e Ártemis.

O imaginário infantil e a cidade

A reação emocional de envolvimento com o mundo, quando ela se processa de forma numinosa, pode ser associada, por exemplo, à beleza sedutora de Afrodite. A contemplação da maquete, visualmente ou com o tato, permite, para algumas pessoas, o retorno ao mundo. Porém, a um mundo almado que passa a requerer emoções vivificantes, protetoras e reconhecedoras. Um mundo que passa a reivindicar que se devolva a ele a cor, o sabor, o som, a textura etc. Isso porque a consciência de Afrodite não se direciona para o eficiente, para o certo, para o sadio... Ao contrário, sua consciência se volta para o belo. Ao mesmo tempo, certa dose de vergonha (aidos, um dos atributos de Ártemis) se apodera de quem contempla a maquete, como se quisesse dizer que construir estruturas monstruosas na cidade, consumir e desperdiçar os elementos da natureza é um ato vergonhoso e ofensivo para o mundo em que vivemos. Assim, ao invés de alimentar uma consciência zeusiana, que iria nos dizer: "acorde e veja!" Esse trabalho de anima-ação cultural nos leva a sentir que o titanismo não é invisível, ele tem gosto, ele fere nossos ouvidos. Assim, a maquete, para além de suas lógicas geométricas, permitiu que, a partir da representação singular de cada espaço amado, se abrisse uma porta para tocar o mundo com os sentidos, com o senso comum e, sobretudo, com o divertimento. Como nos lembra NACHMANOVITCH (1993: 50):

O divertimento é sempre uma questão de contexto. Não depende do que fazemos, mas de como fazemos. Não pode ser definido, porque

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todas as definições resvalam, dançam, se combinam, se afastam e voltam a combinar-se o ambiente onde a diversão ocorre pode ser informal ou extremamente solene. Até o trabalho mais difícil, se enfrentado com espírito alegre, pode ser diversão. Quando me divirto, descubro novas maneiras de me relacionar com as pessoas, com os animais, com as idéias, com as imagens, comigo mesmo. O divertimento desafia hierarquias sociais. Misturamos elementos que anteriormente estavam separados. Nossas ações tomam caminhos inusitados. Brincar é libertarse de restrições arbitrárias e expandir o próprio campo de ação. A brincadeira possibilita uma maior riqueza de reações e melhora nossa capacidade de adaptação. Esse é o valor evolucionário da diversão – ela nos torna mais flexíveis. Ao reinterpretar a realidade e criar coisas novas, nos protegemos contra a rigidez. A brincadeira nos permite reorganizar nossas capacidades e nossa verdadeira identidade, de forma que possamos utilizá-las de maneiras inesperadas.

Procurarei me deter em alguns dos locais escolhidos pelas crianças e que foram representados na maquete. O SESC Rio Preto foi o local da cidade mais lembrado pelas crianças. Isso talvez ocorra pelo fato da mente criativa, sobretudo a infantil, brincar com os objetos que ama. E como já disse NACHMANOVITCH (1993:49), “Eros brinca com os amantes. Os deuses brincam com o universo. As crianças brincam com qualquer coisa em que possam pôr as mãos.” Porém, dentro do SESC, há também os lugares preferidos. Para as crianças, são as quadras esportivas e as piscinas. Apenas os mais introvertidos preferem a brinquedoteca ou o teatro. Talvez o grande desafio dos técnicos que atuam com as crianças do projeto Curumim seja o de conseguir uma prática equilibrada entre as atividades mais extrovertidas e as introvertidas para que não se crie um círculo vicioso que gere bloqueios e aversões em relação a uma atividade ou outra, permitindo a fluência livre e prazerosa na execução de qualquer atividade no interior da organização, seja uma atividade artístico-cultural ou esportiva. Mas aprofundar esse tema já seria objeto de outro trabalho acadêmico que

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poderia partir da reflexão de HUIZINGA (1993) das diferenças entre o puerilismo e o lúdico e as suas conseqüências nas atividades para crianças.

SESC Rio Preto, considerado pelas crianças o local mais importante da cidade. Foto: Adilson Marques (1997)

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Outro local significativo da cidade de São José do Rio Preto lembrado pelas crianças foi a represa municipal. Além de abastecer a cidade, a represa se transformou em uma importante área de lazer. A represa é apreciada pelas pessoas de todas as idades e a multiplicidade de razões que levam as pessoas a freqüentá-la poderia ser tratada, se é que o termo pode assim ser utilizado, de uma parataxe social. A parataxe em poesia ou retórica insiste na complexidade do mundo físico e na interação de todos os elementos entre si. E é justamente essa vivência “holística” que se pode notar na represa, onde um procedimento natural de fusão ocorre entre a multiplicidade e heterogeneidade de pessoas e atividades, tornando-a, paradoxalmente, uma única unidade: a represa municipal de São José do Rio Preto. Porém, é também na represa que se localiza um dos prédios históricos mais significativos da cidade e que se encontra em quase total estado de abandono: o prédio da Swift. Várias propostas vêm sendo discutidas há anos, de ocupá-lo com um centro cultural, em um parque de diversões etc. Enquanto não se chega a um acordo, o prédio vai se deteriorando e vivendo um processo de “barroquização”, ou seja, como afirmou MAFFESOLI (1996: 213)

A eternidade pode ser esperada para um futuro indeterminado, na espera do paraíso em particular, ela pode também ser vivida no presente. De fato, de um modo paradoxal, os períodos barrocos que celebraram intensamente a vida são aqueles também que enfatizam a morte. (...) Por isso, a retórica barroca da morte, exprimindo-se ao máximo nas “pompas fúnebres” do século XVII, dilui-se na vida cotidiana, e “moída” fina até perder a consciência dessa própria morte. Assim, bem como a grande arte barroca havia ultrapassado a separação natureza-cultura (em particular integrando a dor e a morte), a barroquização da existência contemporânea, infundindo a pequena morte por toda parte, e massificando a cultura, acaba por fazer da vida uma obra de arte para cada um.

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A represa de Rio Preto é, de certa forma, a metáfora da barroquização na cidade. Um local que se prolifera como uma matéria em movimento, representando a origem matricial, a confusão fundadora, exaltando sem distinção a vida, positiva (quando fornece lazer, descontração etc. para a população) e negativamente (quando transborda e inunda as ruas com água e lixo).

Represa municipal, onde se localiza o prédio da Swift. A represa é um dos principais pontos de encontro da cidade, seja para camnhadas, tomar um lanche ou, simplesmente, não fazer nada. Foto: Adilson Marques (1997)

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Uma outra imagem que gostaria de ressaltar é a do estádio de futebol. Como em todo o país, o futebol é o esporte preferido dos rio-pretenses. Dos times de futebol profissional da cidade, o América Futebol Clube é o mais famoso. Mesmo assim, como deve ser comum também em outras cidades do interior, quase todos torcem por dois times: um time grande da capital e o time da cidade. Assim, temos corinthianos-americanos, palmeirenses-americanos, sãopaulinos-americanos etc. Isso cria uma situação paradoxal ou uma forma “politeísta” de torcer. Esta estranha – ao ser comparada com o “monoteísmo” vivido na capital do estado - forma de mobilização pelo futebol revela um torcedor mais amistoso e, o mais importante, centrado entre a unidade e a multiplicidade. E essa condição limítrofe já é vivida pelas crianças. De um lado, o instinto de se vincular ao clube da cidade, de outro, com um dos clubes da capital, gradativamente, permite que nas crianças comece a germinar um processo simbólico de oposições hermesianas. Assim, desde tenra idade, as crianças – sobretudo os meninos – vinculam o instinto (o time local) e a história (um time de tradição no estado). Essa duplicidade é um forte indício da consciência neg-entrópica e criativa infantil.

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Estádio do América Futebol Clube, mais importante equipe de futebol da cidade. Na representação aparece com um ilustre jogador, Ronaldinho, que todas as crianças gostariam que jogasse em seu time do coração. Foto: Adilson Marques (1997)

Nesse projeto de Ação Cultural, o imaginário infantil sobre a cidade de Rio Preto emergiu na paisagem. As crianças elegeram a sua cidade, seus territórios de vida cotidiana. Na maquete encontramos representados os locais onde elas depositam seus afetos, seus laços topofílicos. Podemos dizer que ali se encontra a “cidade em ato” daquelas crianças, onde o “ser-junto-com” infantil se realiza. São nesses locais que o imaginário e a comunicação infantil se integram, e onde as crianças podem viver com mais liberdade seus mitos e símbolos. A proxemia infantil, que tanto necessita do onírico e do lúdico, encontra condições para se processar nesses locais, mesmo quando são excessivamente racionalizados pela mente adulta e foram criados por uma lógica que não visa o aqui-agora, mas a formação crítica, o dever-ser etc. Michel MAFFESOLI (1987) já salientou que, na pós-modernidade, o

“reencantamento do mundo” se liga ao espaço e não mais ao tempo. O compartilhar o espaço é um dos fundamentos desse reencantamento. E para as crianças, que ainda se encontram sob o feitiço do encantamento, isso é algo perfeitamente natural. São os adultos que precisam se reencantar. Por isso, quando MAFFESOLI sugere que o intelectual incorpore NIETZCHE em seu trabalho, está, de certa forma, aconselhando o desabrochar da alma infantil, jogada para a sombra de nosso inconsciente, para que possamos nos reencantar com o mundo que nos cerca. Voltando a maquete criada, outra questão interessante que podemos discutir está na representação não da “unidade” do mundo infantil, mas, ao contrário, da “unicidade” desse
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mundo. Em outras palavras, a maquete não representa necessariamente uma homogeneização da alma e dos valores sócio-afetivos e espaciais infantis, mas nos traduz a heterogeneização dessa alma em movimento. Assim, todos os locais representados formam uma pequena constelação de espaços amados pelas crianças, o dado sensível dessa pluralidade lúdica e dionisíaca presente na alma infantil. Sua contemplação permite uma sinergia entre a razão e a imaginação. O território ali representado é, simultaneamente, real e simbólico. Como a cidade real, a da maquete também possui uma tatilidade e uma função emocional: ao contemplar cada local, ao tocálo, cada criança também toca uma outra. Em torno daquela imagem se forma uma energia sensível que agrega ainda mais o grupo. Essa agregação também afeta os pais e os adultos em geral, que se sensibilizam e se solidarizam com as crianças, aprendendo a respeitar a necessidade que elas possuem de ter seus próprios espaços, seus territórios de vida cotidiana. A criança deixa de ser pensada como um adulto em miniatura e passa a ser valorizada em seu presenteísmo, por mais banal que possa parecer aos olhos dessacralizados dos adultos, o carpe diem infantil. A realização deste programa com as crianças me fez lembrar das palavras de GOETHE(2001:47), com as quais pretendo terminar a apresentação do projeto Cidade Curumim:

Sim, meu caro, é pelas crianças que meu coração mais se interessa neste mundo. Quando me ponho a examiná-las, e vejo nessas criaturinhas o gérmen de todas as virtudes, de todas as energias que logo haverão de lhes ser tão necessárias; quando descubro na sua pertinácia a futura inteireza e solidez de caráter; quando verifico na sua petulância, e até na suas astúcias, o humor jovial e a agilidade para saltar por cima dos perigos do mundo, e tudo isto de modo tão incorrupto, tão íntegro...ah, então acabo sempre, mas sempre mesmo, repetindo as áureas palavras do Mestre dos homens: "se não fordes como um destes pequeninos"... E pensar que, caríssimo, logo a eles, que são nossos iguais, a quem deveríamos tomar por modelos, tratamos
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como se fossem nossos vassalos. Não, eles não devem Ter vontades! Não temos nós as nossas? E onde reside nosso privilégio? No fato de sermos mais velhos e sensatos?!

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Capa do folder de divulgação da exposição Cidade Curumim SESC Rio Preto (1997)

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