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UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA

FACULDADE DE ARQUITECTURA

A CONSTRUÇÃO DO LUGAR ARQUITECTÓNICO
A SIGNIFICAÇÃO DA FORMA ARQUITECTÓNICA NA PERSPECTIVA DA
EXPERIÊNCIA DO SUJEITO

CÉLIA JOAQUINA FERNANDES FARIA
(LICENCIADA)

DISSERTAÇÃO PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM ESTUDOS DO ESPAÇO E
DO HABITAR EM ARQUITECTURA

Orientador Científico:
Professor José Duarte Centeno Gorjão Jorge

Júri:
Presidente: Doutor Francisco José de Almeida dos Santos Agostinho
Vogal: Doutor António Mendes Pedro

LISBOA, MARÇO 2009

UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA
FACULDADE DE ARQUITECTURA

A CONSTRUÇÃO DO LUGAR ARQUITECTÓNICO
A SIGNIFICAÇÃO DA FORMA ARQUITECTÓNICA NA PERSPECTIVA DA
EXPERIÊNCIA DO SUJEITO

CÉLIA JOAQUINA FERNANDES FARIA
(LICENCIADA)

DISSERTAÇÃO PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM ESTUDOS DO ESPAÇO E
DO HABITAR EM ARQUITECTURA

Orientador Científico:
Professor José Duarte Centeno Gorjão Jorge

Júri:
Presidente: Doutor Francisco José de Almeida dos Santos Agostinho
Vogal: Doutor António Mendes Pedro

LISBOA, MARÇO 2009

RESUMO

Para falar de lugar hoje é necessário fazer uma passagem prévia pelas
transformações radicais que a modernidade trouxe à relação entre espaço e tempo,
pelos mecanismos de sobreposição do global ao local, pela importância da mobilidade
em contraste ao sedentarismo, e pela consciência que hoje temos das mesmas.
A necessidade de delimitação do conceito de lugar arquitectónico surge em resposta à
carência diagnosticada, herança frágil de um progresso, nem sempre compatível com
os valores estruturantes de uma cultura. Não é o método, nem o saber técnico, que lhe
está associado que se pretende questionar, mas sim o significado que este adquire
com a experiência humana.

A relação entre o homem e o espaço é o habitar. E é a construção que imprime o
habitar.
Essa construção é arquitectura. Designamos por arquitectura um objecto que oferece
valores práticos e espirituais. Os valores práticos consistem nas funções de protecção
e abrigo, e os espirituais residem nas qualidades que se dirigem à nossa sensibilidade
e que motivam uma emoção sui generis.

A «lugarização» é um processo que resulta desta experiência sobre a arquitectura, e
que procura as respostas às funções da vida humana, equacionando um conjunto de
princípios ligados ao prazer estético da percepção da forma construída.
Procuramos nesta investigação, fazer uma reflexão teórica à luz de conceitos e
experiências sobre espaços contemporâneos, questionando o pensar e o significar
lugar arquitectónico enquanto conceito da experiência humana.

Palavras chave: Arquitectura, Forma, Construção, Lugar, Habitar

I

ABSTRACT

Today, to approach the theme of place is necessary to do a previous passage through
the radical transformations that modernity brought to the relation between space and
time, through the mechanisms of overlaying the global on the local, through the
importance of mobility in contrast to the sedentary, and through the conscience that we
have about it.
The need to delimitate the concept of architectural place rises as an answer to the
shortage diagnosed, fragile heritage of a progress not always compatible with the
structuring values of a culture.
It’s not the method, or the technical knowledge that matters to question, but the
significance that place acquires with the human experience.
The relation between man and space is to inhabit. And it’s the construction that
imprints inhabit.
This construction is architecture. We define architecture as an object that offers
practical and spiritual values. The practical values are the functions of protection and
shelter, and the spirituals reside in the qualities connected to our sensibility and that
motivate a sui generis emotion, called the esthetical emotion.

The «place making» it’s a process resulting from the architectural experience, looking
for answers to the human life functions, questioning a group of principles connected to
the esthetical pleasure of the perception of the constructed form.
With

this

investigation,

we

seek

to

do a

theoretical

reflection

based

in

contemporaneous spatial experiences, questioning about the thinking and giving
meaning to the architectural place as a concept of the human experience.

Keywords: Architecture, Form, Construction, Place, Inhabit (Dwell)

II

Aos com quem penso e recrio. e pelos saberes que me deu a conhecer. pelo espaço que experimentámos e pelos lugares que criámos.AGRADECIMENTOS Ao meu orientador. e que me apoiaram no desenvolvimento deste trabalho. pelo tempo que me deram durante o período da elaboração deste documento. e pela compreensão que demonstraram sempre com palavras de encorajamento. pelo interesse que demonstrou. E aos com quem vivo e amo. Aos com quem trabalho e respeito. pelas formas que me apresentaram. sobre o tema que me motivou. pelo carinho. desde a primeira conversa. o Professor José Duarte Centeno Gorjão Jorge. III . pela disponibilidade de colaboração durante todo o percurso desta dissertação. e que se revelaram preciosas para cumprir esta meta. dedicação e conforto que me proporcionaram. pelas sugestões e pelas críticas que me ofereceram.

..................................3 ESPAÇO.........1 AS QUESTÕES DE PARTIDA.4 METODOLOGIA E ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO .....................................2 A PERCEPÇÃO.................................80 2...........................................3 EM BUSCA DE UM NOVO PARADIGMA.....................................................................................1.......4..............................................................................................................................................35 1......1 ENQUADRAMENTO ................4 PERSPECTIVAS DA NOÇÃO DE LUGAR NA ARQUITECTURA ........................................................................................7 1.......................................40 1....1...........2....4.....1 JUSTIFICAÇÃO .........................................................................................................2.....3 DELIMITAÇÃO DISCIPLINAR DA NOÇÃO DE LUGAR...................... MECANISMO DE APREENSÃO ..............................2 SÍTIO ..........................................1 A DIMENSÃO DO HOMEM .............................................91 IV ............................55 1...78 2........26 1.......5 HABITAR .........................................................4............................................................. IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO DE UMA CULTURA.......50 1....................4 CONSTRUÇÃO....2 MOVIMENTO MODERNO......................4 OBJECTIVOS ..3 A EXPERIÊNCIA......................................1.....................2 ESPECIFICAÇÃO DE ALGUNS CONCEITOS............................. COMPORTAMENTO SOBRE O MEIO .......................4 A INTERPRETAÇÃO..77 2...................64 PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO .. CRIAÇÃO DE SENTIDO ..........................1..............1 DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA AO MODERNISMO .....................................................................5 PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR ....................................................................................................................................................53 1.............77 2.52 1....................1 O SUJEITO...............................................34 1....2.......................................................34 1............................36 1..............4 CONTEMPORANEIDADE........2...................................26 1................................4........................................................ÍNDICE INTRODUÇÃO......................87 2................................................................................7 1...............1 ARQUITECTURA....2................................................

..................................................................114 2......................1.............1 «ENCASAR» O ESPAÇO.............................................................. .97 2.............. DAS RELAÇÕES ENTRE O CORPO E O ESPAÇO NA CONSTRUÇÃO DO LUGAR............................191 V ..................................2.........................110 2.....................................................161 NOTAS CONCLUSIVAS ..... QUALIDADE DE «DOMESTICIDADE»....5 CRITÉRIOS DE JUÍZO.........................................................................3........2.............................................3.......................4 CONTEXTO ........................................3 A ESCALA (LOCAL E GLOBAL) ................................................2.......................................................................120 2...........139 3.............3....................................................................139 3............. PERSPECTIVA FENOMENOLÓGICA........................................................................124 2................6 CONCEITO DE LUGAR ARQUITECTÓNICO....3...............................................................................................................5 2..............................................5 MOVIMENTO.........................2 EXPERIÊNCIA.....1 OBJECTO DE ESTUDO.................... CARACTERIZAÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO ....172 ANEXOS..3 A ARQUITECTURA ENQUANTO RESPOSTA AO LUGAR DO HOMEM: PROCESSO DE «LUGARIZAÇÃO» ..........................................99 2...4 REFLEXÃO CRÍTICA .................95 A DIMENSÃO DO ESPAÇO ARQUITECTÓNICO................. INTERPRETAÇÃO INDIVIDUAL......................................2........................................................2 CONCEITO DE LUGAR DO HOMEM..................................112 2.3.......2.......................................................................3 LEITURA DO LUGAR ARQUITECTÓNICO........118 2................................2........165 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......109 2.............................135 PARTE 3: ENSAIO .................3 ANÁLISE......................................................2 O TEMPO ....97 2............4 CONSTRUÇÃO DO LUGAR ARQUITECTÓNICO .....................................145 3.............3..127 2..114 2.............................2.6 MÉTODO DE ABORDAGEM..........................................................1 FUNÇÃO...................2 NATUREZA DO LUGAR ARQUITECTÓNICO ..........102 2........................143 3...................................

4 Estalagem da Quinta da Casa Branca. PT Fig. NL Fig.8 Aeroporto.2 Atelier Arquitectura.1 Atelier Arquitectura.5 Estalagem da Quinta da Casa Branca.23 Café Dudok.20 Casa.14 Cabo de S. Lisboa.6 Aeroporto.21 Tate Gallery. BE Fig.ig. Hamburgo. Roterdão. NL Fig. PT Fig. PT Fig. Delft. PT Fig. PT Fig.º 28 (Sé). DE Fig.com.º 28 (Chiado).13 Serra da Malcata.17 Parque urbano.15 Parque urbano.16 Campo agrícola. PT Fig.11 Canal. ES Fig. NL Fig. UK Fig. DE VI . Sagres. PT Fig. Lisboa. Londres. Funchal.3 Estalagem da Quinta da Casa Branca. PT Fig. NL Fig.26 Percurso eléctrico N. Guarda.12 Praia dos Rebolinhos. PT (obtido em www. Abrantes. Hamburgo. Lisboa.9 Canal.trasosmontes. Amesterdão.10 Canal. BE Fig.baixaki. PT Fig.LISTA DE FIGURAS Fig.br) Fig.22 Mercado. Lisboa. DB (obtido em www. PT Fig. ES Fig. Funchal.18 Casa. Antuérpia.º 28 (Baixa).25 Percurso eléctrico N. Vicente. Funchal. Porto. PT Fig. Roterdão. Barcelona.24 Percurso eléctrico N. PT Fig. Barcelona.19 Casa. NL Fig.27 Estação metro. Sagres. Lisboa.com) Fig. Delft.7 Aeroporto Sá Carneiro. Bruxelas. Dubai. Lisboa. PT Fig.

32 Diagrama do conceito do lugar arquitectónico Fig.29 Diagrama metro.28 Estação metro. Moslow) Fig. Lisboa.41 Painel informativo do mercado de Campo de Ourique Fig.52 Mercado na China (obtido em http://youngsleep.39 Envolvente do mercado de Campo de Ourique Fig.circuitos. Praga.51 Mercado na África do Sul (obtido em http://farm1.jpg) Fig.com/2184/1817017641_3b56a7a3ab. Sleeping. CH Fig.40 Fachada do mercado de Campo de Ourique Fig.static.30 Diagrama de distinção entre juízo de facto e juízo de valor Fig.Fig.static.37 Diagrama do método de abordagem Fig.flickr.33 Diagrama da estrutura da leitura do lugar arquitectónico Fig.cityrama.34 Processo de construção do lugar arquitectónico Fig.jpg) Fig.jpg) Fig.com/cpicc/cfiles42711.36 Pirâmide das necessidades (A.50 Mercado no Gana (obtido em http://www.57-61 Função «Circular» no mercado VII .JPG) Fig.38 Sinal informativo do mercado de Campo de Ourique Fig.com/yahoo_site_admin/assets/images/meat_market_2.55 Mercado na Índia (obtido em http://lh5.31 Diagrama do conceito de lugar do homem Fig.com/_Jqi1x234yfY/SEsA7vKD0I/AAAAAAAAG7E/7iygH6B5hJU/DSC_0894.54 Mercado no México (obtido em http://pics4.53 Mercado na Turquia (obtido em http://farm3.city-data.pt) Fig.35 The functional zones of a simple dweeling: Kitchen.19274150_std.jpg) Fig.44-45 Trabalhadores do mercado de Campo de Ourique Fig. PT (obtido em www.flickr.46-49 Bens de consumo do mercado de Campo de Ourique Fig.41-43 Utentes do mercado de Campo de Ourique Fig.fig.net/news/news_2005/ghana_february_2005/craft_market_2_400.56 Mercado de Campo de Ourique Fig.ggpht.com/165/349502057_02edd77235. Hygiene Fig. Living.jpg?v=0) Fig.

Fig.67-68 Função «Comunicar» no mercado VIII .65-66 Função «Recrear» no mercado Fig.62-64 Função «Trabalhar» no mercado Fig.

Barcelona.. Marc: Os não-lugares. ficando reservado ao lugar algo de diferente que permanece enquanto ambos os corpos o ocupam..93. p. introdução a uma antropologia da sobremodernidade. p. 2001... Lisboa. 2005. David: Aristóteles.”2 Marc Augé “(. 94 IX . p.40 AUGÉ.. Publicações D.)”1 Heidegger “(.Quixote. Editorial Gustavo Gili.93 ROSS.“(. 1987. “3 Aristóteles 1 2 3 MONTANER.. Josep Maria: A modernidade superada...) onde existe um corpo pode estar um outro.) os espaços onde se desenvolve vida terão de ser lugares(. criam social e ordenam lugares. Lisboa. Editora 90º.) a partir do momento em que os indivíduos se aproximam.

que então sublinhou a importância dos lugares na formulação das ideias e das intervenções do arquitecto. O lugar enquanto conceito físico. tem suscitado diversas discussões no âmbito da crítica arquitectónica contemporânea. numa indeterminação característica. Simbiose que a existência vivida proporciona. 1992. o conceito de lugar existe. mas entendidos como intensos focos de acontecimentos. concentrações 4 RODRIGUES. “os lugares já não são interpretados como recipientes das existências permanentes. Porto. p. e sobre a definição da estrutura do lugar existe uma infinidade de teorias diversificadas desde o mundo cultural grego. e algo que deveria sustentar o campo disciplinar da arquitectura. Ao mesmo tempo que é cheio de significado. hoje.INTRODUÇÃO INTRODUÇÃO ENQUADRAMENTO Para falar do lugar hoje. é também um conceito utilizado de forma vaga e pouco inteligível. pelos mecanismos de sobreposição do global ao local.”4 Hoje. “O lugar é espaço/tempo. Editora Civilização. No contexto da arquitectura portuguesa. No entanto. fenomenológico e ontológico. e da consciência que hoje temos das mesmas. A problemática sobre o conceito de lugar arquitectónico não é actual. torna-se necessário fazer uma passagem prévia pelas transformações radicais que a modernidade trouxe à relação entre espaço e tempo. Jacinto: Álvaro Siza / obra e método. O lugar é algo que acompanha o homem desde sempre.28 1 . pela importância da mobilidade em contraste com o sedentarismo. esta discussão foi levantada pelo que se denomina «Escola do Porto».

p. condensações e sobreposições. Torna-se. novas capacidades de percepção e novas teorizações. Barcelona. O espaço vital da humanidade implode quando foram conquistadas. Josep Maria: A modernidade superada. Editorial Gustavo Gili. momentos energéticos”.”6 Actualmente. torrentes de fluxos de circulação. em que acontece esta reflexão sobre o pensamento no espaço.43 2 . indispensável repensar os significados da nossa existência no espaço. 2001. os projectos de Rem Koolhaas (mesclando a energia e o caos dos fluxos urbanos) ou as teorias de Ignasi Sola-Morales (propondo novas categorias para uma arquitectura metropolitana baseada em transformações). assim. Os seus limites e pontos fixos. integralmente. e a arquitectura. Surge uma saturação do espaço terrestre. A ocupação. e vias de comunicação. no sentido da extensão. deixa de ser expansiva e passa a ser intensiva. Josep Maria: A modernidade superada. são cortados transversalmente pela rápida mobilidade. verticais. cenários de factos efémeros. A superfície do planeta deixou de ser terrae incognitae porque os meios. como a ideia de “atopia” que define Peter Eisenman (detractor de qualquer possível relação com o lugar). 2001.5 “Quando a arquitectura se estava a consolidar como arte do lugar aflora uma realidade totalmente nova em relação ao espaço. 5 6 MONTANER. Esta situação gera uma nova sensibilidade. horizontal. Uma intensidade que se produz através de compressões. E. Barcelona. cruzamentos de caminhos.INTRODUÇÃO de dinamismo. Vivemos numa época de espaço. preencheram e reconheceram o espaço da terra. p. Editorial Gustavo Gili. o conceito de lugar é imediatamente associado. os lugares hoje diluem-se uns nos outros. na conquista de espaço.44 MONTANER. todas as suas dimensões (euclidianas e outras). no momento.

Coimbra. representações) que designam quarteirões. mundo enquanto configuração de signos (projectos. providenciando um suporte existencial que proporcione orientação no espaço. há um curioso anonimato patente nestes espaços. um equívoco evocar-se a presença de um lugar antes da construção. Isso. É apenas com o projecto. exclui certas coisas. nº2. o desenho que configura o pensamento. ou seja. ribeiros e paredes. e pela procura de individualismo. verdadeiramente. uma abundância de signos e. selecciona. E é. textos. é produzido pela arquitectura que. alterou a nossa noção de tempo e espaço. e identificação com o carácter específico deste. 7 GOMES. inclui outras. ribeiros. O processo de globalização. o seu próprio espectáculo.INTRODUÇÃO O papel da arquitectura é construir lugares para habitar. que se determina a fundação de um lugar. pelos novos meios de comunicação e novas tecnologias. em definitivo. havia paredes.” 7 É.9 3 . O que não havia era mundo enquanto lugar. 2002. quarteirões. o sítio. Por outro lado. como se a posição do espectador em si mesmo fosse. para o espectador. neste momento. que se definem as estratégias que revelam qualidades. finalmente. Como se a posição de espectador constituísse o essencial do espectáculo ou. para o fazer. edita. Efectivamente. que não eram visíveis previamente. se importar com a natureza do espectáculo. por uma abundância de individualismo. “Havia mundo antes da arquitectura. corta e cola. apenas quebrado pelo cartão de crédito ou outros documentos afins. Existem espaços nos quais o indivíduo se sente espectador sem. em Revista nu. a condição supermoderna caracteriza-se por uma abundância de espaços carentes de significados. portanto. p. Paulo Varela: Teoria do sítio.

E isto porque. produzido por alguém inserido numa determinada sociedade e num determinado tempo. Estas questões partem do pressuposto que. isto é. o espaço construído é uma forma de expressão do indivíduo. OBJECTIVOS O objectivo geral desta investigação consiste no entendimento do processo de leitura e construção do lugar arquitectónico. as obras e os lugares arquitectónicos são passíveis de diferentes interpretações. e por isso está sujeito à interpretação por parte deste. Esta clarificação será expressa através da análise de um caso de estudo. 4 . uma multiplicidade de significados. mas antes pelo contrário. e produto da acção humana. ele incorpora. Nesta investigação. Para além do seu valor material. que têm um sentido exacto e inequívoco. considera o que ele significa. ao contrário das obras de carácter científico. o lugar arquitectónico é encarado como obra resultante da acção humana. enquanto objecto construído.INTRODUÇÃO JUSTIFICAÇÃO As questões colocadas como ponto de partida da presente investigação. que não se cinge à descrição formal do objecto fora do contexto do seu intérprete. enquanto significação do espaço através da experiência do sujeito. no contexto da arquitectura contemporânea. deste modo. surgiram pelo facto de não termos encontrado respostas adequadas para o entendimento e interpretação do lugar. e que só existe porque é interpretado por alguém.

importa considerar na leitura do lugar a marca humana que lhe está inerente e. A tese proposta. O corpo central da tese divide-se em três partes. como o principal apoio para a investigação. incluir o papel dos seus intérpretes. nos seus diversos sentidos disciplinares. centra-se na construção de um modo de observação e interpretação que fundamente a sua génese no corpo teórico desenvolvido na Parte 1. como ponto de partida. O estudo será organizado do geral para o particular. também. de carácter teórico-empírico. Neste capítulo foi elaborada uma síntese de conceitos. resultado da experiência. com o apoio da recolha e exploração de bibliografia temática que permita a análise e discussão segundo diversas perspectivas disciplinares sobre o tema em questão. para a leitura e interpretação do lugar arquitectónico. segundo as várias disciplinas que o discutem. não só. o dinamismo resultante dos processos de interpretação e experiência sobre o espaço por parte do sujeito. A noção de lugar é delimitada. Servimo-nos de obras de referência de diferentes autores em diferentes campos disciplinares.INTRODUÇÃO Sendo. as formas representadas e os conteúdos de representações mas. Interessa observar. 5 . essenciais para o entendimento de lugar arquitectónico. e analisam-se diversas perspectivas da noção de lugar do ponto de vista da arquitectura. a interpretação. METODOLOGIA E ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO A investigação baseia-se num percurso metodológico que parte da formulação de um conjunto de questões que se consideram fundamentais. Esta estratégia pode ser considerada uma estruturação de observação e análise dos elementos constituintes e intervenientes na construção do lugar. desta forma. antecedidas por esta introdução e seguidas por uma conclusão e bibliografia.

A Parte 3. Sintetizam-se. a caracterização do conceito de lugar arquitectónico e do seu processo de construção. neste ponto. desenvolvemos conhecimentos relativos ao espaço humanizado obtendo. através da experiência directa sobre o espaço construído a analisar. Colocam-se algumas questões suplementares que orientam a observação no sentido da compreensão da relação entre os contextos espaciais. que não dão respostas efectivas. A abordagem é feita. linhas de orientação na atribuição de significado ao espaço por parte do sujeito utilizador. Enumeram-se. critérios de juízo de valor. O objectivo é estruturar uma reflexão crítica em torno do conceito de lugar. deste modo. humanos e ambientais. enquanto tema comum às mais diversas áreas do saber. os parâmetros para uma definição do habitar. ao cruzar o contexto do indivíduo com campo disciplinar da arquitectura. mas antes. trata da interpretação através da análise da construção do lugar arquitectónico a partir de um ensaio. que interferem com a significação do espaço. 6 . contribuindo para estabelecer uma definição clara sobre o valor objectivo deste conceito.INTRODUÇÃO Na Parte 2.

Gustavo Gili. enquanto significação do espaço por parte da experiência do sujeito? Esta é a questão central do desenvolvimento da presente dissertação. em que somos indivíduos relacionais e pertencentes a determinado contexto. p. como uma forma.10 7 .PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR 1 PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR 1. Deste modo. foram colocadas diversas questões sobre o espaço contemporâneo e a forma como o habitamos. e a arquitectura. No entanto. E a arquitectura enquanto concretização dessa experiência. “O sentido nasce quando se consegue criar no objecto arquitectónico significados específicos. 8 ZUMTHOR. o carácter individual é que determina o conteúdo dessa construção. de uma construção mental. De que modo se processa a construção do lugar. no sentido. o lugar resulta desta construção mental.1 AS QUESTÕES DE PARTIDA Como ponto de partida. 2005. E esta capacidade de construir é algo específico do homem. Peter: Pensar a arquitectura. E para obter respostas. consideramos o lugar enquanto experiência do pensamento. nós próprios e os outros. esse carácter individual é também consequência do encontro constante entre o meio exterior.”8 Se. E se o lugar não tem uma forma concreta. resulta. o lugar é entendido como um conceito. então. Barcelona.

regido pelas premissas que o caracterizam e identificam. com o contexto formal. optámos por imagens representativas de ambientes e tipologias arquitectónicas reconhecidas por qualquer individuo pertencente a esta sociedade TEMPO O lugar é um espaço vivido. questionar os factos relacionados com esta. entendemos o lugar enquanto experiência temporal do espaço. e. no âmbito da arquitectura. Neste sentido. o tempo. Uma acção que nós exercemos sobre o meio e. mais centrado na disciplina de geografia. a escala. E esta vida é temporalidade. ou seja. a arquitectura não é estática. mas um sistema dinâmico. a função e o movimento. Neste sentido. e a arquitectura consiste em projectar esses lugares onde decorre a vida. No contexto urbano contemporâneo. torna-se pertinente questionar a construção de significado sobre este espaço. em que o habitar do espaço é móvel. o contexto. que é instável e que se dirige para um futuro que não pode ser determinado a priori. uma reacção a esse mesmo meio. mas que não a definem. apropriado e feito consoante o seu uso. não aprofundando temas relativos ao contexto humano. porque interessa. nomeadamente. Assim. enquadra-se no contexto ocidental. Importa salientar. do âmbito das ciências sociais e humanas. por se tratarem de matérias complementares à arquitectura. através de diferentes tempos de permanência em que ocorre a experiência do sujeito. considerando diversos temas que identificam e modelam a arquitectura contemporânea. que o estudo desenvolvido na presente dissertação. Isto. e o lugar é uma acção/reacção sobre esse sistema dinâmico. ou ao contexto ambiental. 8 .PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Estas questões surgem de observações feitas a partir da experiência directa sobre o espaço.

O espaço torna-se temporal. o tempo é espacial porque espaço é o que nós construímos. a que se traduz num uso do espaço efectuado de modo contínuo. em que representamos um papel específico. e consequentemente da arquitectura. 2000. observámos e questionamos o espaço de trabalho. existia uma quarta. Paul: A landscape of events. e o qual experimentamos sem ter. O tempo é o que nos permite medir o espaço. e sobre a duração do tempo da experiência sobre estes. distinguimos a experiência sobre o espaço. como ilustração da experiência quotidiana. o deslocamento sucessivo do ângulo visual. Assim. ocasionalmente para os transformar pelo desafio da percepção dos seus limites. quarta dimensão”. Bruno: Arquitectura in Nuce – uma definição de arquitectura. no sentido de se tratar um referencial na deslocação diária da vida humana. Para nós arquitectos. Lisboa. 9 VIRILIO. Por se tratar de um espaço familiar ao nível das práticas que nele se praticam.10 Neste contexto. Reflecte a experiência consecutiva sobre um mesmo espaço. e o tempo está lá para activar estes espaços.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR “O colapso do tempo. segundo permanências de durações de tempo distintas. Massachussetts. a que desenvolvemos num período de tempo pontual. a simultaneidade de todos os tempos. p. referências ao nosso contexto cultural. Pretendemos questionar sobre a relação de familiaridade que temos com os espaços.”9 Dizia Zevi que. Edições 70. 1986 p. a aceleração do tempo. Por outro lado.8 10 ZEVI. destacamos o espaço do hotel. Por ser um espaço que nos alberga momentaneamente. e rotineiro. e é. designou-se o tempo. precisamente. para além das três dimensões da perspectiva. necessariamente. e como exemplo da experiência extra-quotidiana. Assim. e de experiência extra quotidiana. MIT. 22 9 . Designamos por experiência quotidiana. “Existe […] outro elemento além das três dimensões tradicionais.

EXPERIÊNCIA QUOTIDIANA Fig.2 Atelier Arquitectura.1 Atelier Arquitectura. no entanto. e o reconhecimento da tipologia arquitectónica são essenciais no processo de criação de um significado? EXPERIÊNCIA EXTRA-QUOTIDIANA 10 . Antuérpia. na presente análise.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR E é um espaço pertinente. Roterdão. BE Fig. NL A familiaridade com a representação do espaço. porque “imita” o espaço da casa. no sentido em que dá resposta a necessidades básicas da vida humana ocidental. consiste num espaço que nos é estranho.

neste contexto.global. 11 . representamos diferentes papéis.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Fig.3 Quinta da Casa Branca.5 Quinta da Casa Branca. Não considerando a escala da sua forma. A escala será observada.4 Quinta da Casa Branca. e que definem experiências distintas que nos permitem construir diversas significações. Funchal. PT Fig. segundo a dialéctica local . PT Fig. PT Em que medida. Funchal. mas antes a escala do seu campo de acção. a duração do tempo da experiência intervém na capacidade que temos de significar o espaço? ESCALA Existem diferentes escalas de espaço onde. Funchal.

Relativamente ao espaço de escala global. porque conseguimos ver o mundo por inteiro. mas a necessidade de individualização e especialização dos elementos do espaço. hoje. e que passou a ser local. estes canais constituíam-se como vias de atravessamento de grandeza global. “para ser universal. Os aeroportos constituem pontos de chegada/partida. antes. E mudou. segundo a qual. estes canais são. era uma relação local-local. 12 . por exemplo. uma das imagens de marca. sendo um exemplo pertinente do fenómeno da globalização. e com a condensação das relações. A nossa relação com mundo mudou. pelo que estes podem ser um dos logótipos. No passado. outro de carácter local mas com uma natureza global. questionamos o espaço do aeroporto. A multiplicidade de acções fazem do espaço um campo de forças complexo. Este é um caso ilustrativo de uma situação.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Para ilustrar este tema optámos por dois exemplos. em várias cidades. através de imagens de satélites. originalmente de escala global. Amesterdão. que já fizeram muitas escalas entre voos diferentes. a observação recaiu sobre um canal duma cidade holandesa. parte integrante de uma estrutura local. e fundamentais para a identificação cultural do espaço. Nas actuais condições de globalização. podemos recorrer a uma frase de Tolstoi. basta falar de sua aldeia”. Um aeroporto é igual e funciona da mesma forma em qualquer parte do mundo. agora é uma relação local-global. e representam a primeira e/ou a última imagem que o indivíduo tem de uma cidade. por vezes a única percepção que têm das cidades é a experiência do espaço do aeroporto. Para muitos passageiros. Quanto ao espaço de escala local. um de carácter global. no entanto. por estarmos em presença de um espaço universal ao nível da solução construtiva e programa funcional. Marc Augé definiu-o como «não lugar». de cada cidade.

DB 13 .7 Aeroporto Sá Carneiro. Bruxelas. PT Fig. Dubai. gera um aprofundamento da relação de cada qual com o sistema do mundo. GLOBAL Fig.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR nomeadamente dos homens. Porto. a importância da escala na atribuição de significado ao espaço.6 Aeroporto. Questionamos. BE Fig.8 Aeroporto. ambiente construído. instituições. perante este tema.

9 Canal. NL 14 . Delft. ser passível de uma significação? LOCAL Fig. produto do processo de globalização.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Pode um espaço homogéneo.10 Canal. Amesterdão. NL Fig. NL Fig. Delft.11 Canal.

depois.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Para atribuir significado a um espaço. Guardando. por exemplo. será necessário que este apresente um carácter local. posteriormente. e a paisagem construída resultado da manipulação do homem sobre o contexto natural. simbolizando. Assim. enquanto espaço não construído. Equacionamos o contexto natural. sem a delimitação de uma fronteira entre o interior e o exterior. no sentido em que. para criar um microcosmos que concretiza o mundo. esses significados experienciados. e um espaço construído. por meio da libertação do significado imediato de uma coisa. as flores. contextualizado e identitário? CONTEXTO O contexto. em que constrói o que vê através da visualização que faz do meio natural. foram observados dois espaços distintos ao nível da sua génese arquitectónica. etc. através da introdução de elementos que lhe conferem uma nova identidade e que lhe atribuem uma referência espacial. as montanhas. o design não precisa de contexto. essa visualização. mas na arquitectura. o sol.. No sentido. ou seja. tornando-o num objecto cultural que poderá ser integrado ou deslocado para um outro contexto. E sobre este o homem apenas interpreta. define a arquitectura. como o céu. as coisas tornam-se significantes. todos os elementos físicos relacionados espacialmente entre si. As coisas explicam o ambiente e manifestam o seu carácter. o espaço natural artificializado. O homem recebe o que o rodeia e aplica-o nas coisas. no entanto. também. isto é. as nuvens. o cenário é composto por todos os seus elementos naturais. esse enraizamento é fundamental para identificar a sua génese. as chuvas. No contexto natural. etc.. a terra. todos os elementos e factores climáticos globais e locais. O clima também está presente. criam marcas de humanização. Por outro lado. 15 . Deste modo. o mar. a vegetação.

Guarda.13 Serra da Malcata. questionamos sobre a necessidade da consideração do enquadramento do objecto numa determinada envolvente. visando a possibilidade do sujeito interpretante. E.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR No âmbito deste tema. o contexto. PT 16 . também. em função da experiência. PT Fig. Sagres. CONTEXTO NATURAL Fig. estruturar um sentido.12 Praia dos Rebolinhos. a necessidade do espaço construído ter que estabelecer um limite entre interior e exterior.

15 Parque urbano. por si só. origina. Hamburgo.14 Cabo de S. Vicente.16 Campo agrícola. Abrantes. PT 17 . PT A percepção humana sobre um contexto natural. a construção de uma significação do espaço? PAISAGEM CONSTRUÍDA Fig.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Fig. Sagres. DE Fig.

Cada espaço tem uma função definida. tem para proporcionar a atribuição de significado por parte do sujeito utilizador.98 18 . Barcelona. e esta condiciona os movimentos e as respostas que o sujeito vai.”11 11 JORGE. não esqueçamos também. segundo comportamentos distintos. Lisboa. desenvolver e obter com a experiência. José Duarte Gorjão: Lugares em teoria. a essência da Arquitectura.17 Parque. “É a forma do espaço que sugere as acções pelas quais o morador descobre um determinado modo de habitar. 2007. enquanto característica essencial na definição da forma arquitectónica. ES É necessário ser definida uma fronteira interior/ exterior para o espaço ser traduzido em lugar arquitectónico? FUNÇÃO Neste tema interrogamos sobre a capacidade que a função. A questão coloca-se ao nível da relação do nosso próprio corpo com o espaço envolvente. determinados pelo papel que representamos nos diferentes espaços. p. Essa é. Caleidoscópio.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Fig.

Lisboa. Caleidoscópio. José Duarte Gorjão: Lugares em teoria. um espaço de representação individual e um espaço de representação colectiva. Não a casa como uma coisa. enquanto espaço de partilha e de representação social. sensibilizo as paredes do meu abrigo. a ela regressar. nessa medida. considerando-o o espaço do habitar por excelência. o indivíduo. mas a casa como morada. foram as opções para questionar esta temática. identitário e histórico. é sempre relacional. simplesmente. assumindo a autenticidade individual. p.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Deste modo. “A «casa» põe em relação o eu. Não é um espaço que nos alberga. A partir dela.94 19 . mas um espaço que criamos para dar resposta às nossas necessidades essenciais. enquanto espaço do «eu» e espaço dos «outros» respectivamente. o aqui e o agora. E o espaço público é um exemplo desta tipologia. quer seja um espaço aberto. quer seja um espaço encerrado. ESPAÇO DO «EU» 12 JORGE. a minha casa é um depósito de memórias e expectativas. depois. como construção simbólica no espaço. É um espaço colectivo cujos referentes são comuns e identificáveis por todos os que a ele pertencem. a observação foi feita num espaço doméstico. oriento-me no espaço: parto todos os dias de minha casa para. Porque. surge o espaço dos outros. “visto o meu abrigo portanto. 2007. Neste sentido. Em contraponto ao espaço domestico da «casa». como diria Gaston Bachelard. se despe de qualquer representação social e colectiva. Como espaço de representação individual.”12 É o espaço onde.

Lisboa.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Fig.19 Casa. PT 20 . PT Fig.18 Casa. Lisboa.

permitir a construção do lugar arquitectónico? ESPAÇO DOS «OUTROS» Fig. Londres. UK 21 .PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Fig.20 Casa. PT Pode um espaço individual. Lisboa. sem a componente relacional.21 Tate gallery.

Cluva Editrice.23 Cafe Dudok. fundamental para a significação do espaço enquanto lugar arquitectónico? MOVIMENTO Os lugares já não são interpretados como recipientes existências estáveis. L.13 13 Ver Peter Eisenman: La fine del clássico. Barcelona. cruzamentos de caminhos. torrentes de fluxos de circulação. Topografia de la aqruitectura contemporânea. 010 publishers. XL. estabelecida num contexto construído pela arquitectura. ES Fig. Veneza. 1987. Ignasi Sola-Morales: “Lugar: permanência ou produção” em Diferencias. momentos energéticos. Rem Koolhaas e Bruce Mau: S. 1995. OMA. Roterdão.22 Mercado. mas entendidos como intensos focos de acontecimentos. Editorial Gustavo Gili. M. Roterdão. NL É a relação social. concentrações de dinamismo. 1995 22 . cenários de factos efémeros. Barcelona.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Fig.

e o segundo de um diagrama de deslocação abstracto. que. e uma percepção global do espaço e da envolvente. Paul: A velocidade de libertação. Escolhemos dois exemplos referentes à experiência em movimento sobre o espaço. vias de caminho de ferro. assiste-se à emergência de um novo modo de habitar. Nele a cidade é apresentada como um cenário. permitindo uma leitura de conjunto coerente. mas antes somos direccionados. temos o percurso do metropolitano. O primeiro consiste num percurso referenciado.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR “A velocidade é propiciada pelo próprio ordenamento do espaço (estradas. que se constituiu como um percurso turístico transformado num monumento. e enquanto espaço de percurso abstracto. não decidimos as orientações a tomar. pontualmente estabelece relações com a envolvente nos seus pontos de acesso. mas sem dialogar com ela ao nível da sua experimentação. porque é dirigido. em que cada momento surge após o anterior. Relógio d’Água Editores. Estamos perante uma infra-estrutura desligada do contexto em que se insere. É um espaço autónomo. Traduz-se num movimento muito diferente do atravessamento pedonal. e.”14 Numa sociedade de indivíduos móveis. autoestradas.º28 em Lisboa. em que percorre uma grande área deparando com variadas referências culturais e identitárias da cidade por momentos. no sentido. Como percurso referenciado. Lisboa. observamos o percurso do eléctrico n.9 23 . p. aeroportos). 14 VIRILIO. É um percurso sequencial. 2000. Consiste num espaço de atravessamento da cidade. Contrariamente. fundado na multiplicidade de lugares.

Lisboa. PT Fig. PT Fig.24 eléctrico N. Lisboa. O tempo é anulado.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR O atravessamento é efectuado de um ponto para o outro sem passar pelo meio. Consiste num esquema mental abstracto de movimento. PT 24 . com base em diagramas gráficos que nos elucidam apenas sobre os pontos de contacto com a realidade. Lisboa. e o espaço intermédio não existe. Poder-se-ia questionar até o motivo porque o comboio contempla janelas quando não existe paisagem para ser observada.º 28 (Sé).25 eléctrico N.º 28 (Baixa).26 eléctrico N.º 28 (Chiado). REFERENCIADO Fig.

28 Estação metro. CH Fig.29 Diagrama metro. Lisboa.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR A orientação pré-estabelecida. Praga. DE Fig. Hamburgo. condiciona a liberdade de interpretação do espaço? ABSTRACTO Fig.27 Estação metro. sem introduzir a nossa própria definição do percurso. à qual obedecemos. PT 25 .

adornado de mitos e cognições. a partir do qual se regulam todos os trabalhos feitos em qualquer arte. originou uma categorização. conceitos como ARQUITECTURA.2. 1. 1. SITIO.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR A ausência de um referencial na experiência do espaço inibe a sua significação? As questões apresentadas. ideias e críticas. não intencional. no entanto. Compõem-se de prática e teoria. poderiam ser referenciados e questionados. “A Arquitectura é um saber. É de notar.1 ARQUITECTURA A arquitectura como todos os objectos comporta uma historicidade enquanto conjunto de valores. ESPAÇO. A 26 . à partida. delimitam-se. de diferentes espaços. e que constituíram o ponto de partida para a reflexão sobre o tema da presente dissertação.2 ESPECIFICAÇÃO DE ALGUNS CONCEITOS Por entre outras delimitações que surgirão com o desenvolvimento do trabalho. Começamos por citar alguns autores que através dos tempos se ocuparam em definir arquitectura. que são fundamentais para a compreensão do que é matéria arquitectónica e para a clarificação de algumas noções espaciais inerentes a este tema. com base em temáticas consideradas pertinentes neste contexto. CONSTRUÇÃO e HABITAR. a possibilidade de incluir outros temas que poderiam ser enquadrados e analisados neste âmbito. Tal como outros exemplos espaciais.

. admirará os seus grandes princípios e qualquer amalgamo falsificador.N. desaparecerá.. Boullée.. o acordo harmónico entre os membros de cada obra.. A simetria.] A arquitectura saberá com certeza atingir o ânimo e a mente. em arquitectura. Euritmia é o belo e agradável aspecto provocado pela distribuição dos membros. De re aedificatoria [. Vitrúvio toma o efeito pela causa. são a essência da Arquitectura. des moeurs et de la legislation [. Marcus (activo 46-30 a. J. Architecture. em grego. Disposição. costumes e legislação [. De Architectura [.C. fruto singular das circunstâncias. cada membro correspondendo separadamente à métrica de toda a obra.N. Composição e distribuição conveniente.] a posteridade honrará a memória dos autênticos. assim como a composição. Étienne (1728-1799) .. O que é a arquitectura? defini-la-ei como Vitrúvio. a arte de construir? Certamente que não. identificada a forma criadora por excelência concinnitas.. a que os gregos chamam dialhesin. Essai sur l’Art [. Simetria e Decoro. C. Précis dês leçons d’architecture à l’École Technique de Paris [.] 27 . Arquitectura é conduzir qualquer edificação à sua perfeição ideal.. Ledoux.] As proporções..] A função do arquitecto é planear com justeza e enquadrar a ornamentação em ordens lógicas.. (1736-1806).. são equivalentes às leis da natureza..). a beleza..] A arquitectura deve ser considerada na relação da arte.Durand (1760-1834). Vitruvius. Distribuição a que os gregos chamam Economia.] a Arquitectura é composta de ordens taxis. Alberti.. L’architecture considérée sous la rapport de l’art.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR prática é uma reflexão continuada e consumada sobre o uso e completa-se com as mãos. não depende de simples opinião.. mas de um juízo inato nos nosso espíritos. [. Leon Battista (1404-1476). dando forma própria a qualquer espécie de matéria. de Euritmia.

Sullivan. vazias. Mas quantos dos que vivem esta época compreendem completamente ainda a natureza omnisciente. a ideia. e bem entender a arquitectura é entender as condições sociais que a produzem. The Seven Lamps of Architecture [.] O que é a arquitectura? A expressão cristalina dos mais puros pensamentos humanos.] O meu conceito de arquitectura está na união e colaboração das artes de modo que cada coisa seja subordinada à sua maior. da Ciência. do seu fervor. Entretiens sur l’architecture [... é antes uma tarefa e participação social. Morris. da sua humanidade.. Compõem-se de duas partes: teoria e prática.. obter êxito e triunfos maiores ou menores..] A arquitectura não é o simples exercício. Há uma consolação para mim. A prática é a construção efectiva. Ruskin. a força e o prazer do espírito. Kindergarten chats [. Não podemos subtrair-nos à arquitectura porque como nós faz parte da civilização e devemos legar aos nossos filhos um tesouro tão grande quanto nos foi legado. da sua religião.. da Sociedade e da História. A arquitectura é a arte de compor e ornamentar edifícios. como é imperdoável não conhecer as regras da gramática. porque interessa a todos. John (1819-1900). beatificante da arquitectura? Vede. das Técnicas. USA lectures [. estúpidas em que vivemos e trabalhamos. a teoria é o conjunto de regras derivadas da Tradição. Viollet-Le-Duc (1814-1879).PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR A arquitectura é a arte de construir.. Compô-los de tal modo que possam contribuir para a sanidade. depois é tão clara e simples que é imperdoável não conhecer os seus princípios fundamentais. constituirão um triste legado para a posteridade. a construção de uma ideia de 28 . da sua fé. William (1834-1896).. com intenção de harmonia. (1856-1924). atravessamos as nossas ruas e quereríamos chorar de vergonha nestes desertos de brutalidade.] A arquitectura é um arte que todos devem conhecer. Louis H. As armadilhas cinzentas.

destinada a satisfazer a época ridente que virá. ardente. Vers une Architecture [.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR arquitectura. A arquitectura e o urbanismo são o espelho fiel da sociedade. unicamente como expressão de um conteúdo bem determinado... decididamente.. Le Corbusier (1887-1965). Motivação de produtos.. mas a arquitectura é também imagem de uma cultura... Queiramos. Taut. Suzane (1895-1985). significa desprezar o significado e a significação. A sua ilusão pode facilmente diluir-se perante a definição. A finalidade artística. Bruno (1880-1938). Catálogo da Exposição de Berlim. a arquitectura é um acto plástico para além do facto utilitário. 1964 [. Gropius. Feeling and form. grande parte da arquitectura está nos projectos que merecem tanta atenção como o objecto construído. é antes a correspondência entre a forma e conteúdo. mas deveremos atingir uma maturação.] A arquitectura hoje tem pouco a ver com os estilos.] A arquitectura assume um valor fundamental na existência humana. que satisfaça as exigências plásticas de uma forma artística. isto é. é o jogo sábio. no conceito. magnífico dos volumes banhados pela luz.. não é suficiente.] Há um terceiro modo de criar um novo espaço virtual mais subtil do que a criação de uma cena ilusória ou de um organismo ilusório mas não menos. o jogo das formas deve corresponder à dilatação do horizonte humano. sacrificando. corajosa. de uma arte puramente utilitária. Theory of Art. Walter (1883-1969). Entender a arquitectura apenas como expressão. 1953 [. a visão do artista.] 29 . ideemos e criaremos juntos as novas concepções construtivas. Apollon in Democracy [. para alguns. Nos momentos de transição.. Langer. artístico. mergulhando na vida mas também construindo-a. para além disso. os edifícios são os documentos que deixamos. como uma espécie de arte aplicada.

PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR

Como arquitecto, que pratico a minha profissão, as minhas ideias sobre arquitectura
são um subproduto da crítica que acompanha as minhas obras, e crítica que é de uma
importância capital para o trabalho de criação, um trabalho vasto, que é tão crítico
quanto criativo.
Venturi, Robert (n. 1925), Complexity and contradiction in architecture, 1966
[...]
O mundo edificado é um objecto estranho, logo após ser construído parece animar-se
de uma vida independente, reflexo enigmático, pleno de poderes e exercendo sobre os
humanos um fascínio que provoca uma reflexão interminável.
Choay, Françoise, La règle et le modèle, 1980
[...]
A arquitectura é a expressão de um tempo, já que reproduz a essência física do
homem e revela nas relações monumentais do corpo o sentido vital de uma época.»
Wolfflin, Heinrich (1864-1945), Principles of history of art
[...]
Pela sua essência e destino, a arte arquitectónica situa-se no espaço verdadeiro, o do
nosso caminho e o da actividade desenvolvida pelo nosso corpo [...] O verdadeiro
privilégio da arquitectura, a sua originalidade mais profunda, reside no jogo interno das
massas construídas ao constituir um espaço interno que mude a luz e o espaço
segundo as leis da geometria, da mecânica e da óptica.
Focillon, Henri (1881-1943), La vie des formes, 1934

[...]
Quero dizer-vos, principalmente, que a arquitectura não existe. Existe sim obra
arquitectónica. Todas as edificações são chamadas arquitectura enfim [...] mas
conforta-me pensar que, de qualquer modo, a edificação faz parte do conteúdo
humano e é resultado da acção do homem.
Kahn, Louis (1901-1974), What will be has always been
[...]
30

PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR

A forma da arquitectura é a forma da Terra modificada pelas estruturas da
Humanidade. A partir desta relação, os seres humanos compõem envolventes
vivenciais sugeridas pelas matrizes da vida e construindo em torno de quaisquer
símbolos para eles importantes.
Scully, Vicent, Architecture. The natural and the manmade, 1991”15

Vitrúvio definiu a arquitectura como a arte de construir.

Étienne-Louis Boullée contraria esta definição, afirmando que há que conceber para
poder construir a obra, remetendo a arquitectura para a ideia, enquanto criação e
produção do espírito “por meio da qual podemos definir a arte de produzir e de levar à
perfeição qualquer edifício”.16

Louis Kahn, numa conferência no Politécnico de Milão em 1967, vai mais longe na
definição de arquitectura, ao estabelecer uma clara distinção entre arquitectura e a
obra de arquitectura: “a arquitectura não existe realmente. O que existe é a obra de
arquitectura. A arquitectura existe sim, na mente. Ao fazer uma obra o homem faz uma
oferenda ao espírito da arquitectura”.17

Tanto Boullée como Kahn remetem a origem e a definição da arquitectura para os
aspectos conceptuais heurísticos e disciplinares que antecedem e informam o
processo de construção, e a obra arquitectónica em si mesma, para a condição física
e material do artefacto edificado habitável.
Neste sentido, o projecto constitui o acto mediador entre a condição mental da
arquitectura e a condição material da obra arquitectónica, é o edifício em si, habitável
e aberto à vivência.

15
16
17

RODRIGUES, Maria João Madeira: o que é arquitectura, Lisboa, Quimera, 2002, p.11-18
BOULLÉE, Étienne- Louis: Arquitectura, ensayo sobre el arte, editorial Gustavo Gili S.A., Barcelona, 1985, p.41, 42
KAHN, Louis: Conversa com estudantes, Editorial Gustavo Gili S.A., Barcelona, 2002, p.36

31

PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR

“O lugar da arquitectura é o da encruzilhada e o da permanente crise. O núcleo duro
disciplinar situa-se no cruzamento de dois modos distintos – o mesmo e o outro, o ser
e o devir, o espaço e a matéria, o centro e o caminho, o pensamento e a acção, a
técnica e a arte. A arquitectura situa-se entre o lugar e o homem.”18

Heidegger toma a arquitectura ela mesmo, uma arquitectura nem metafórica nem
ideal, considerando que o seu contributo para o pensamento é tão importante quanto a
do quadro ou do poema.
Numa perspectiva heideggeriana a arquitectura é uma technè do espaço. Toda a
arquitectura está num lugar, lugar esse que ela própria contribui para fazer existir.

A sua definição é ser um saber que consiste em dar lugar aos objectos de todas as
naturezas que não são eles mesmos produtos ou obras deste saber. Seguindo a
etimologia, a arquitectura é a ordenação dos tektones. Para operar necessita de dispor
de múltiplos operadores que não são operadores arquitectónicos.

A maior parte das obras de arte, de pintura e de escultura, como de música de dança
ou teatro, dão-se num quadro arquitectónico. Distinguir a arquitectura e sublinhar a
sua singularidade entre as “artes do espaço” visa tanto preservá-la de uma
interpretação puramente “estetizante” quanto libertar da pintura e da escultura uma
responsabilidade que é a sua. Ninguém vive num espaço literário ou pictórico.
Por outro lado, o espaço arquitectónico não é fictício. Se múltiplas ficções se podem
engendrar a partir dele é porque enquanto real ele fornece à imaginação condições
particularmente favoráveis para que esta tome partida. A arquitectura é uma condição
de possibilidade da ficção e do dizer e pensar, e um pensamento de espaçamento e
de liberdade.

18

DELGADO, João Paulo: “O lugar da arquitectura: notas para uma estética da edificação” in Geha: revista de

história, estética e fenomenologia da arquitectura e do urbanismo, Lisboa, nº 2-3, 1999, p.261

32

PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR

"Tanto na arquitectura, como na poesia, não se dão distintas fases criadoras, não
existe a distinção aristotélica entre matéria e forma, pensamento e acto, autor e
receptor: se esta a separação acontece, a arquitectura está comprometida ou
perdida"19.
A arquitectura é uma tecnologia do ser, onde se desenrola a nossa existência no meio
dos espaços arquitectónicos.

A arquitectura trabalha com o espaço e este «objecto» encontra-se em qualquer lado
ao lado dela mesmo. É este fenómeno de reenvio que é próprio à arquitectura: um
objecto reenvia. Reenvia a um espaço tanto quanto um símbolo ou um signo reenvia a
uma ausência. O muro, referência essencial ao pensamento arquitectónico, na medida
em que institui fisicamente o avesso e um direito, um interior e um exterior, instaura a
espacialidade. Constitui um jogo do dentro e do fora e da divisão do espaço.

A arquitectura mede, revela e precisa o quadro do espaço. Um edifício é menos
«objectivo» que um quadro ou uma escultura. Onde está o edifício?
É esta questão que assinala a arquitectura. Serve para abrir qualquer coisa, a dar
lugar, a tornar possibilidade.

E neste sentido poder-se-á falar de uma condição de arquitectónica, de uma
arquitectura como condição de existência, mais que uma arquitectura enquanto
objecto.
Um edifício é um espaço relativo e material mas imóvel.
Aqui reside o fundamental, que os edifícios, ao contrário das obras pictóricas ou
escultóricas, confundem-se com o espaço que ocupam. A sua ocupação do espaço é
totalmente diferente dos objectos móveis que não são senão ocasionais.

19

ZEVI, Bruno: Architectura in nuce, Edições 70, Lisboa, 1979

33

tanto colectivas como individuais. onde se fixa. que na sua obra intitulada La mémoire collective (1997). Isto porque o espaço é um tema pluridisciplinar. Como se o pensamento não conseguisse acomodar toda a arquitectura de uma construção. onde se está. recorremos a duas figuras de saberes distintos. A tentativa de pensar a arquitectura exige um trabalho de acomodação no qual as definições vão variar. do âmbito da sociologia e da arquitectura. 1. É entendido como o limite em que se encerra e delimita algo valioso e desejável de dominar. defende que “o espaço é o suporte ideal para as nossas memórias. É a determinação.2 SÍTIO Provém do latim situs e significa lugar ou espaço ocupado por um objecto. fixação e assinalar de um lugar. postura. onde se instala. onde se localiza. 1. É o lugar onde se coloca algo. E «em onde» assinala o lugar onde se encontra.3 ESPAÇO Para definir o conceito de espaço.2. de o singularizar. localização. Maurice Halbwachs. onde se posiciona. onde se situa. etc. enquanto posição. 34 . de o modificar. A organização do espaço aparece como uma espécie de garante da manutenção e da transmissão da memória do grupo. presente nos mais diversos contextos de conhecimento. É a expressão em torno do advérbio relativo «onde». Desta noção surge a expressão «situação».2. No contexto da sociologia destacamos. É à sua singularidade que a arquitectura deve aquilo que a torna de tão difícil definição.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR A «arquitecturalidade» mede-se pelo poder de uma coisa fazer existir um espaço.

mas precisamente deste vazio. E enquanto realidade material. Segundo. intenções e formas. Bruno: Saber ver a arquitectura.4 CONSTRUÇÃO A construção é o resultado da acção de edificar. comprimentos e alturas dos elementos construtivos que encerram o espaço. Lisboa. 2001. mas numa perspectiva sobre o mundo que enraíza a caracterização do sujeito criador e do sujeito utilizador. p. do espaço encerrado. Martins Fontes.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Primeiro porque o grupo «molda» o espaço ao mesmo tempo que se deixa «moldar» por ele. uma introdução.” 21 1. do espaço interior em que os homens andam e vivem.”20 No contexto da arquitectura. de elementos. 20 21 SILVANO.2. A construção materializa o acto criador numa ideia de arquitectura formalizada através do projecto no objecto arquitectónico. A construção é a operação dialéctica entre um sistema de fenómenos. porque o espaço fixa as características do grupo. a construção não se resume apenas a uma reunião lógica ou tecnicista. O autor coloca como o protagonista da arquitectura o espaço. Celta.13 ZEVI. É um processo de respostas do arquitecto às solicitações do sujeito em determinado contexto. isto é. Filomena: Antropologia do espaço. ideias. a arquitectura não provém de um conjunto de larguras. a arquitectura supõe uma construção. 1996 35 . Bruno Zevi afirma que “as quatro fachadas de um edifício constituem apenas a caixa dentro da qual está encerrada a jóia arquitectónica. São Paulo. aspirações. Para ele. o vazio. Entendida num sentido lato. factos. o espaço. A expressão «arte de construir» serve de sinónimo à arquitectura.

2. O segundo é o objecto simbólico que remete para o tal modelo de espacialização da «domesticidade». a prática construtiva material culminando apenas na edificação. O vínculo afectivo ao espaço é determinante no sentido em que ao percepcionar o lugar. Denken (1951) de Martin Heidegger.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR “Existem três objectos que coexistem em todas as obras arquitectónicas: O primeiro é o objecto técnico que está relacionado com o programa de uso para o qual foi concebido e cujo cumprimento deve facilitar. a essência construída da arquitectura envolve planear. reinterpretando o construir numa ordem de representação intelectual. o objecto usado como morada através dessa relação dinâmica que. através daquilo a que. 2007. ainda. envolvendo questões cognitivas de dimensão sensorial. enquanto que. José Duarte Gorjão: Lugares em teoria. que referir. Wohnen. envolvendo uma acção possível sobre esse meio. em termos técnicos poderíamos chamar o juízo tipológico. isto é. 1. Recorrendo ao ensaio Bauen. neste caso no sentido da habitação (enquanto acto de habitar). o conhecimento instala-se prioritariamente no sentir. Caleidoscópio. Edificar envolve.99 36 . compor. O terceiro é o objecto vivido. a essência do construir é habitar.5 HABITAR O habitar pela permanência num determinado lugar constitui um espaço já adequado ao sujeito ao enfrentar o meio envolvente e dele se apropriar. E a realização dessa essência é o edificar lugares através da relação dos seus espaços. 22 JORGE. se estabelece entre sujeito habitante e objecto habitado enquanto. fundamentalmente. Lisboa. que a arquitectura se distingue da mera edificação. e só enquanto. o objecto for usado pelo sujeito. nesse sentido. p.”22 Há. A habitabilidade não é consequência de uma conveniência prática do lugar.

mas. 1980. o homem coloca-se em posição central no universo. formas e normas. Rizzoli. através do genius loci ( “é um conceito Romano. New York. p. p. 1980.”25 Por isso cabe ao homem não compreendê-los separadamente.16 24 25 NORBERG-SCHULZ. é mais do que um simples espaço. na sua obra Genius Loci: towards a phenomenology of architecture. ou seja. loci . ele procura na obra do filósofo existencialista Heidegger uma resposta. Rizzoli.6 NORBERG-SCHULZ. Cada lugar onde ocorria vida continha seu próprio genius. guardião para cada cidade. O autor afirma que o mundo.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Conferindo um carácter ao lugar. Rizzoli. sobretudo. Este exercício não é mais do que a repetição de um acto primordial. “Sobre a terra já significa sob o céu.10 37 . entender a relação que existe entre eles. Christian: Genius Loci: towards a phenomenology of architecture. Este defende que o homem para ser capaz de habitar sobre a terra deve tomar consciência que habita entre dois mundos dicotómicos. New York. p. 23 NORBERG-SCHULZ. interpretando-a para nela poder habitar. diz Heidegger. o trabalhar a terra desconhecida dando-lhe uma estrutura. é constituído por elementos que transmitem significados. 1980. que se manifestava tanto na locação como na configuração espacial e na caracterização da articulação”23). Christian: Genius Loci: towards a phenomenology of architecture. Na sua insatisfação por uma definição sobre o que é o lugar.lugar). Christian: Genius Loci: towards a phenomenology of architecture. (1980) afirma que o lugar é mais do que uma localização geográfica. “O lugar é a concreta manifestação do habitar humano” 24. como lugar. Norberg-Schulz. o céu e a terra. Os romanos antigos acreditavam que existia um espírito do lugar – o genius loci (genius espírito. New York.

Rizzoli. saber como está. pela percepção e pelo simbolismo. Identificação e orientação são aspectos primordiais do ser-no-mundo. em simultâneo. Rizzoli. As duas funções psicológicas envolvidas. que a estrutura de um lugar é composta por duas categorias. pois o homem necessita de saber onde está e. O suporte existencial. ainda. Christian: Genius Loci: towards a phenomenology of architecture. podem ser 26 NORBERG-SCHULZ. […] Quando o homem habita. E que analisadas pela percepção e pelo simbolismo. o acto de habitar significa muito mais do que o sentido de abrigo. Christian: Genius Loci: towards a phenomenology of architecture. e o sentido de orientação é o que nos habilita a sermos o homo viator que é parte da nossa natureza. permitem o suporte existencial. ele está simultaneamente localizado no espaço e exposto a um certo carácter ambiental. a capacidade de habitar ao homem.”27 “Nós temos usado a palavra «habitar» para indicar a relação total homem-meio.10 38 . ou seja. Norberg-Schulz baseia-se na definição adoptada por Heidegger: “O modo no qual você está e eu estou. tem que se identificar com as características do meio que o envolve. habitar é sinónimo do que ele denomina suporte existencial.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Para Norberg-Schulz. O autor introduz o conceito de espaço existencial. New York. que segundo ele é o objectivo da arquitectura. p. respectivamente. é conferido ao homem através da sua relação com o meio. New York. o modo no qual nós humanos estamos sobre a terra. 1980.”26 Conclui. como a orientação e a identificação. E estes aspectos constituem-se enquanto funções psicológicas.10 27 NORBERG-SCHULZ. que “não é um termo lógicomatemático. 1980. Na realidade. ou seja. o espaço (terra) e o carácter (céu). A identificação é a base do sentimento de pertença. p. é habitar. mas compreende as relações básicas entre o homem e o seu meio. entendidos.

Pensar. E é através da arquitectura que um espaço é transformado culturalmente em lugar. Habitar. ele tem que saber como ele está num certo lugar”. a fundação de um significado que autonomiza a casa do exterior. E esses lugares implicam. Vortrage und Aufsatze. na sua obra A modernidade superada (2001).145-162 39 . New York.”29 Habitar é o objectivo e a justificação existencial da arquitectura. p. Para a maioria das disciplinas humanísticas. implicando que os espaços.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR chamadas «orientação» e «identificação».) habitar é a propriedade básica da existência. É o lugar fundado.. quer ao exterior. Christian: Genius Loci: towards a phenomenology of architecture. sujeito a uma transformação cultural. Wohnen. Rizzoli. e que define habitação como algo mais do que um refúgio. Martin: Construir. precisamente. Gunther Neske Pfullingen. p. Mas também ele tem que identificar-se com o meio. 1954. sejam lugares no verdadeiro sentido da palavra. isto é. 28 NORBERG-SCHULZ. E para tal comporta um significado. Para ganhar o suporte existencial o homem tem que ser capaz de orientar-se.28 No seu ensaio Bauen. utilizamos o termo a partir da perspectiva de Martin Heidegger. onde são identificáveis as marcas que podemos traduzir por «identidade». enunciada por Montaner.19 29 HEIDEGGER. ele tem que saber onde ele está. 1980.. ao qual é atribuído um significado. Denken (1951). onde a vida de desenvolve. atribuindo qualidades quer ao interior. e refere que “só quando somos capazes de habitar. «habitar» e «ser» têm raízes comuns. Heidegger aponta que as palavras germânicas para «construir». o «habitar» está essencialmente relacionado com a procura de um abrigo. No entanto. podemos construir(.

e a forma como este trabalha. Este habitar é entendido no sentido de fazer casa. e no âmbito da arquitectura. descansar. etc. mais especificamente. 2006. como a residência. no sentido em que se assume como subjectivo e objectivo. casa. p. Ricardo . um depois e os seus envolventes. Lisboa. volumetria interiorizada e técnica. como o comer. cabeça. O objectivo corresponde ao espaço onde se inscrevem as marcas objectivas de identidade. JA224. as trocas e a linguagem. O subjectivo é o espaço simbólico das relações com os outros. Equivale ao ancestral grego topos. o ser íntimo de cada um. do latim locus e do seu derivado localis (séc. ou seja. p.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Segundo Bruno Taut. “a habitação é o reflexo mais imediato e extraordinário de cada indivíduo. XII). dormir. O lugar é ambivalente.artigo . primeiramente o lugar simplesmente como termo.3 DELIMITAÇÃO DISCIPLINAR DA NOÇÃO DE LUGAR Analisemos. que resulta das relações que estabelecemos com as várias funções do habitar. por exemplo. o luogo.34. 30 CARVALHO.60 40 . mas provém.Morada: rua. Habitar é uma realidade mediatizada por um antes. A questão da habitação é uma questão essencial que conjuga dois pólos espaciais. Requere uma harmonia entre coração. «encasar» o espaço. a sua intimidade particular com a espacialidade envolvente. que significa «local do lugar». a expressão «lugarização» significa criar lugar. Estas funções prendem-se com as necessidades básicas da vida humana. criar um lugar implica habitar. 1. da relação e da história.” 30 Sintetizando. internamente.

O LUGAR NA FISICA No sentido de uma visão aristotélica da física. 31 MONTANER. Ou seja.30 41 .”31 Deste modo. p.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Para além da arquitectura. a arquitectura projecta o lugar. o lugar é um recipiente não transferível.. para Aristóteles “o lugar é algo diferente dos corpos e todo corpo sensível está num lugar/. que desenvolvem abordagens teóricas muito diversificadas. “Aristóteles identifica em Física o conceito genérico de “espaço” com outro mais empírico e delimitado que é o de “lugar”. é tema de reflexão de diferentes disciplinas. o imediato a ele. coisa ou corpo. ao contrário. A diferença entre a arquitectura e as outras disciplinas relativamente ao tema do lugar é que enquanto as outras disciplinas interpretam o lugar. Se para Platão “as ideias não estão em um lugar”.. Barcelona. 2001. o donde está... Aristóteles considera o espaço desde o ponto de vista do lugar. é como um limite que o circunda./ a forma é o limite da coisa. Refere-se à afinidade do limite dos corpos em contacto. Cada corpo ocupa o seu lugar concreto e o lugar é uma propriedade básica e física dos corpos. ou seja. o lugar é a referência a uma porção de espaço onde pode estar um objecto../ o lugar de uma coisa é a sua forma e limite/. que abraça um corpo. utilizando sempre a palavra topos. o lugar é continente do objecto. a noção de lugar e a sua delimitação./ assim como o recipiente é um lugar transportável. enquanto que o lugar é o limite do corpo continente/. enquanto conceito. Editorial Gustavo Gili.. Josep Maria: A modernidade superada.

Para Mauss "les phénomènes sociaux se divisent en deux grands ordres. le nombre des individus qui les composent et les diverses façons dont ils sont disposés dans l'espace: c'est la morphologie sociale. o movimento das coisas. é determinado pelo lugar próprio ou estranho onde o fazem. ou seja em co-presença. relativamente à envolvente. que assume o lugar como uma cultura localizada no tempo e no espaço. D'autre part. 42 . permanece nele ou volta. il y a les groupes et leurs structures. Neste sentido. que sugere a noção de «lar e lugar». D'une part. correspondendo a uma situação de proximidade actual. Esta visão. que pode ser natural ou não natural. e o lugar onde a coisa não permanece ou não se move até ele. deve ser o lugar natural de outra coisa. e move-se até ele «naturalmente». criado uma axialidade de referência. Il y a donc une partie spéciale de la sociologie qui peut étudier les groupes. destacamos a definição de lugar desenvolvida por Marcel Mauss (1968). o contributo da física centra-se na qualidade de deslocamento do corpo. define que um lugar é natural quando uma coisa está nele. que é onde se habita o llogarret e que chega a evocar o ser do lugar e o pertencer a ele.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Esta noção tem gerado derivados metafísicos expressos em língua romântica (séc. Segundo Nicola Abbagnano (1962). XIV na Europa central medieval) como a do llogar ìd. O LUGAR NA SOCIOLOGIA Na sociologia. de entre várias abordagens à noção de lugar.

a filosofia e as ciências sociais. por outro lado. Editions de Minuit: Collection Points Sciences. sem que isso signifique que nos proibamos de pensar nem as relações nem a identidade partilhada que lhes confere a ocupação do lugar comum. O LUGAR NA ANTROPOLOGIA No âmbito da antropologia.41 AUGÉ. relacional. define o lugar antropológico como sendo um lugar identitário. Estas interacções caracterizam os fenómenos sociais identitários de determinado grupo. Marcel: Essais de sociologie. p. o habitante vive na história. na sua obra Os não-lugares (1992). E todos os lugares que não apresentam estas características. Definindo o lugar enquanto uma “configuração instantânea de posições”33. ele distingue-os por «não-lugares».32 Nesta perspectiva.48 43 . Marc Augé. o que significa que num mesmo lugar podem coexistir elementos distintos e singulares. 32 33 MAUSS. na medida em que escapa à história como ciência. Paris. a psicanálise. que combinou nas suas obras. 1968. destacamos o estudo de Michel de Certeau (1984). p.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR il y a les faits sociaux qui se passent dans ces groupes: les institutions ou les représentations collectives". não faz história. onde existe uma interacção entre as pessoas. mas é antes construído pelos antepassados. porque tem passado e memórias. Lisboa. introdução a uma antropologia da sobremodernidade. e histórico. Editora 90º. 2005. o lugar resulta das interacções entre o indivíduo e a cultura em que se insere. onde os indivíduos se reconhecem a eles próprios e aos outros. Marc: Os não-lugares. e colocam em relação a morfologia social (disposição dos indivíduos no espaço) e a representação colectiva (factos sociais inerentes a um determinado grupo).

Editorial Gustavo Gili. / origina-se somente a partir da ponte. p. Esta posição é relativa e encontra-se associada a outras que a definem. 2001. mas de transformação do espaço. Josep Maria: A modernidade superada. Aristóteles afirmou que um lugar é sempre de algo ou de alguém. intitulado O lugar (2001). no sentido. resume as principais definições deste conceito desenvolvidas por diferentes autores. criando referências. de uma forma sintética. 34 MONTANER.41 44 . “O lugar não existia antes da construção da ponte/. o lugar não é mais do que uma ordem de coexistência entre o espaço e o tempo. foram extraídas da leitura de um texto de Mário Chaves. mencionadas de seguida. O LUGAR NA FILOSOFIA As perspectivas sobre o tema do lugar no âmbito da filosofia. que..PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Na antropologia. Para Leibniz. Barcelona.. uma vez que o homem é o ser do seu Mundo.”34 Isto. o lugar resulta da significação que o indivíduo confere ao espaço a partir da posição que ocupa e que o identifica como elemento integrante de determinado contexto. não corresponde a uma ideia de integração no espaço. Heidegger definiu o lugar como a capacidade de concepção e reconhecimento de um espaço. em que apenas existe uma significação do espaço depois do homem intervir nele. O que implica que o lugar.

PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Outra perspectiva. o lugar não é qualquer lugar. neste sentido. o conceito de ponto. e as praças são substituídas pelos telejornais e monitores de computadores. a sua figura e a relatividade do seu movimento. que o tempo se concretiza num aqui. e as transmissões electrónicas decompõem e erradicam o sentido de lugar. e que no sentido matemático coincide com o «lugar geométrico» como aquele donde se representa. de forma que se dissermos que uma coisa «está» num determinado lugar. entendemos apenas que essa coisa está situada de tal maneira em relação a determinadas outras coisas. Paul Virilio. que essa coisa tem tal grandeza e tal figura que o pode preencher. o lugar é «de onde» se extraem os argumentos. Mas se acrescentarmos que. Segundo ele. A cidade de Virilio perde sua forma excepto como um ponto de conexão onde o aeroporto determina papel primordial. ou um determinado lugar. por exemplo. onde este se localiza. de linha e de plano e assim no espaço. com o qual se pode dizer que uma coisa pode mudar e não mudar de lugar. a compreensão do lugar resulta desta união. «ocupa» um determinado espaço. E. o lugar assinala mais expressamente a situação do que a grandeza ou a figura. é de Hegel. Isto porque. que assenta na relação entre espaço e tempo. Segundo Descartes. entendemos. 45 . o espaço físico e as relações de co-presença são abolidas dando lugar a relações virtuais e abstractas. interpreta o lugar como algo em desaparecimento. as «topografias» substituem espaços geográficos construídos. em que o espaço se concretiza num instante. a periferia se transforma no centro. e as suas imagens niilistas da cidade em desaparecimento. Descartes propõe que lugar e espaço denotam o sítio onde um corpo se coloca entre os restantes corpos. ao mesmo tempo. que defende que. e onde se indica a sua magnitude.

precisam (rigor da localização) o espaço. ou seja. Não fala de espaço mas de lugar (topos. quarto). dos percursos e dos domínios em questão. Tanto o filósofo como o arquitecto. certas políticas de uso. 46 . pois envolve uma identificação com o carácter particular dos lugares. cinema. praias) ou os lugares de repouso (casa. Não tem o poder de ser libertadora. vivemos num espaço que se organiza a partir de um conjunto de colocações irredutíveis e absolutamente não sobreponíveis. Deste modo. por exemplo. Se a arquitectura precisa o espaço de um ponto de vista visível. locus). o espaço contemporâneo é um espaço de colocação. O LUGAR NA GEOMETRIA E MATEMÁTICA Na geometria o lugar “corresponde ao conjunto de pontos do espaço que possuem uma mesma propriedade matemática qualquer. de entendimento (extensão). estar em algum lugar implica mais do que uma localização. não como uma porção de espaço qualquer mas. trabalham com a precisão. e que o institui. os lugares de passagem ou de paragem provisória (ruas. a filosofia precisa o espaço de um ponto de vista de conceitos. ou evitar. Tanto a filosofia como a arquitectura. embora possa produzir «efeitos positivos» quando as intenções libertadoras do arquitecto coincidem com a prática real dos indivíduos no exercício da sua liberdade. As diferentes lógicas de colocação dão forma a lugares diversos. de distância ou do vazio (chaos. locus). pelo contrário. um lugar ou um sítio determinados por uma coisa (um templo. A filosofia nomeia o lugar (topos. uma paisagem) que precede o espaço. spatium). cafés. a forma arquitectónica apenas aspira à possibilidade de impedir. comboios. Segundo Foucault. de posição (situs).PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Para Michel Foucault.

define os lugares como “centros aos quais atribuímos valor e onde são satisfeitas as necessidades biológicas de comida. Defende que o significado de espaço frequentemente se funde com o de lugar. o lugar na geografia é “constituído por três componentes inter-relacionadas. Tuan.39 35 36 37 38 39 obtido em "http://pt. “O espaço transforma-se em lugar à medida que adquire definição e significado”37. Difel. Difel. Outro exemplo. Yi-fu: Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. que é o lugar geométrico dos pontos cujas distâncias somadas aos dois focos é constante”. entendido como uma matriz lógica. água. uma vez que as duas categorias não podem ser compreendidas uma sem a outra.org/wiki/Lugar_geom%C3%A9trico" RELPH. Yi-fu: Espaço e lugar: a perspectiva da experiência.wikipedia.83 TUAN.61 TUAN.35 O lugar é. 1980. 1983. cada qual irredutível à outra – características físicas ou aparência. é a elipse.4 47 . actividades e funções concretas observáveis e significados ou símbolos”. Londres. Pion. transforma-se em lugar à medida que o conhecemos melhor e o dotamos de valor. superfícies e outras variedades quaisquer. 36 Outra referência é Yi-Fu Tuan. “Quando o espaço nos é inteiramente familiar. 1983. São Paulo. descanso e procriação”. Segundo ele. o que começa como um espaço indiferenciado.151 TUAN. reflexo de uma estrutura espacial racional. p. São Paulo. nesta disciplina. 1983. torna-se lugar”38. p.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Podem ser curvas. Yi-fu: Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. Um exemplo simples de lugar geométrico é a circunferência. p. p. São Paulo. O LUGAR NA GEOGRAFIA Segundo a perspectiva de Edward Relph. Edward: Place and placelessness. Difel. que é o lugar geométrico de todos os pontos que guardam a mesma distância de um ponto chamado centro.

opondo-se ao pensamento positivista do século XIX. ou segundo Norberg-Schulz. opera a partir das análises sobre a intencionalidade da consciência humana.. delimitada a noção de lugar com base nos princípios da geografia humana. O LUGAR NA FENOMENOLOGIA A fenomenologia entende o lugar enquanto fenómeno. enquanto a experiência de relação com o mundo de um ser essencialmente situado em relação com um meio (Merleau-Ponty).PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR É. Assim sendo. Toda consciência é «consciência de alguma coisa».”40 A fenomenologia. 40 NORBERG-SCHULZ. New York. O método fenomenológico define-se como aquilo que aparece à consciência e que se dá como objecto intencional. assim. 1980. Rizzoli. Christian: Genius Loci: towards a phenomenology of architecture. no sentido. Propõe a extinção da separação entre «sujeito» e «objecto». não sendo possível para o homem a criação de significados inteiramente de sua autoria. especulação. volição. p. descrevendo. uma congregação de significados naturais enraizado pela acumulação. mas uma actividade constituída por actos. como a percepção. paixão. e perder contacto com a realidade.169 48 . imaginação. etc. compreendendo e interpretando os fenómenos que se apresentam à percepção. em que se assume a necessidade de interpretação por parte do indivíduo para o espaço poder originar um lugar. captado de forma imediata. nascida na segunda metade do século XIX. a consciência não é uma substância. sem “se isolar num mundo puramente artificial. com os quais se visa algo. O objectivo é chegar ao conteúdo inteligível e ideal dos fenómenos.

deve existir o ser que transcende a ciência. No tempo. Immanuel Kant referiu que. Editorial Gustavo Gili. é ambiental e está relacionado fenomenologicamente com o corpo humano. a ideia de lugar diferencia-se da ideia de espaço pela presença da experiência. para a aplicação dos diversos juízos da ciência (sintético/a priori. O lugar é. São Paulo. E.”41 O pensamento de Merleau-Ponty.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR As essências ou significações são objectos visados de certa forma pelos actos intencionais da consciência.31 MERLEAU-PONTY: Fenomenologia da percepção. o objecto e a terra. caracterizar-se no tempo e no espaço. assim. Editora Martins Fontes. 2001. mostra que “a estrutura ponto-horizonte é o fundamento do espaço e que a consciência do lugar é sempre uma consciência posicional”. Barcelona. 2001 49 . é definido por “substantivos. Josep Maria: A modernidade superada. O lugar está relacionado com o processo fenomenológico da percepção e da experiência do mundo por parte do corpo humano. através da aplicação das categorias do entendimento a priori (uma dedução lógica da coisa) e em seguida a posteriori (o que pode ser identificado «positivamente» quanto a este objecto).42 Precisamente. no que diz respeito à experiência corporal do homem e do espaço existencial. o fenómeno deve possuir duas propriedades elementares. p. pelos valores simbólicos e históricos. o lugar é entendido como experiência corporal. Neste sentido. pelas qualidades das coisas e dos elementos. 41 42 MONTANER. analítico/a posteriori).

4 PERSPECTIVAS DA NOÇÃO DE LUGAR NA ARQUITECTURA Para compreender a pertinência do tema do lugar. é interessante constatar que. e das relações entre as características físicas. o movimento moderno. na generalidade. significativos para a discussão actual sobre este conceito. confirmam a pertinência deste tema nos diversos campos do saber. e por isso entendido como experiência corporal (fenomenologia). criado uma axialidade de referência (física). e que possuem uma qualidade de deslocamento relativamente à envolvente. Nomeadamente. 1. as actividades e funções concretas observáveis e os significados ou símbolos do espaço (geografia). nomeadamente. E alguns momentos do passado foram. o entendimento do lugar enquanto resultado das interacções entre o indivíduo e a cultura em que se insere (sociologia). Enquanto. interessa investigar o contributo teórico e prático dos arquitectos. 50 . extremamente. resultado da significação que o indivíduo confere ao espaço a partir da posição que ocupa e que o identifica como elemento integrante de determinado contexto (antropologia). E enquanto. as várias abordagens à noção de lugar têm pontos em comum. Apesar de ser uma temática tratada segundo diferentes fundamentos teóricos. e depois da abordagem teórica deste conceito em várias disciplinas. Pode-se estabelecer uma sequência cronológica histórica sobre a noção de lugar na disciplina da arquitectura.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Todas estas perspectivas disciplinares. um conjunto de pontos do espaço que possuem uma mesma propriedade (matemática).

que introduziu com força definitiva a relação da arquitectura com o lugar. em diferentes tempos.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR “O maior esforço do movimento moderno consistiu em definir uma nova concepção de espaço utilizando o apoio dos novos avanços tecnológicos”.27 51 . que esta postura de respeito em relação ao lugar. é a ideia de uma arquitectura autónoma. e a insistência nos valores psicológicos da percepção. em diferentes contextos. desenvolvida por Alvar Aalto. paisagem. 43 Neste contexto surge uma arquitectura cuja sensibilidade para o lugar é irrelevante. através da sensibilidade pelo lugar. Foi a cultura do organicismo. materiais. pois todo o objecto arquitectónico surge sobre uma indiscutível autonomia. p. 43 MONTANER. Para melhor compreender o desenvolvimento teórico deste conceito no âmbito da arquitectura ao longo do tempo. integrando os mecanismos da estética pitoresca. com a corrente do «New Empirism» nórdico. será assente. considerando o clima. que se pode fundamentar sem nenhuma relação com o entorno. precisamente. Erik Gunnar Asplund. veicula-se. enunciam-se algumas abordagens efectuadas por diferentes arquitectos. posteriormente. Será. Editorial Gustavo Gili. Barcelona. que surgiu nos anos 40. foi um dos primeiros que desenvolveu uma obra sintética onde a relação com o lugar era essencial. Josep Maria: A modernidade superada. 2001. árvores como atributos que o definem. topografia. A conciliação que Asplund realiza entre tradição clássica e espaço moderno.

contém. apoiando-se nos ensinamentos de Vitrúvio. tendo projectado fachadas em função da planimetria e volumetria do espaço interior. as qualidades que o fazem ser permanentemente usado e ocupado pelos seus utentes ocupantes. por sua vez. se devem identificar como tais.C. por exemplo. enquanto sujeitos habitantes. para os «lugares de dormir e de leitura». ou seja em torno da ideia «em onde». que. a «implantação» de qualquer templo. Ou seja. Outro arquitecto de relevo foi Palladio. a localização. Vitrúvio sugere que. o de Esculapio. perfeitamente. tem. a luz deverá ser constante e parada. 52 . e que nos espaços de trabalho. com fontes de água abundante e salubre. requere uma «eleição de paragens» saudáveis. Vitrúvio recomenda que.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR 1. um papel preponderante. «donde» os doentes se poderiam restabelecer. É no lugar.4. argumentando sobre os problemas da distribuição. sobre o que deve ser a arquitectura. a noção de lugar. ilustrando. é remetida para a sua condição de ser habitável pelos seus habitantes. concebeu a arquitectura como uma organização de espaços regulados por leis matemáticas e harmónicas. Vitrúvio dedica um dos seus capítulos ao tema Da eleição dos lugares sãos. e que estes. que se dá a condição plena de habitabilidade. a noção de lugar. que é o da saúde. obedecendo a uma racionalidade geométrica e matemática. que o lugar deve responder de forma plena às exigências e requerimentos de habitabilidade de tais sujeitos. e expressa. indiscutivelmente. No discurso vitruviano.) e os seus Dez livros da arquitectura define a sua ideia de arquitectura. a noção e o conceito de lugar. É neste sentido.1 DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA AO MODERNISMO Vitrúvio (século I a. Nele. a significação do classicismo. A sua estrutura é extremamente lógica. a fixação de posições. a luz deverá provir de oriente.

É a ideia de uma arquitectura autónoma. através da exposição solar e enquadramentos visuais. esta afastou-se da natureza. a posição do homem face ao que é natural. uma visão do mundo e uma relação com a terra. com o máximo de lucro. é um modo de vida. Esta postura alia-se à necessidade de planeamento a curto prazo com uma perspectiva capitalista de máximo consumo de solo. Com o paradigma mecânico da arquitectura moderna. O maior esforço do movimento moderno consistiu em definir uma nova concepção de espaço. Na sociedade pré-industrial.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR No entanto. a sensibilidade para o lugar é irrelevante. XIX. os conceitos de espaço e lugar. desta forma. Na arquitectura moderna. A arquitectura de Palladio reflecte o ideal humanista da arquitectura do Renascimento. podem ser diferenciados claramente. genérica e indefinida. ou seja. articulado. 53 . publicou I Quattro Libri dell' Architettura. de forma a criar uma harmonia particular entre a volumetria e a envolvente. que enumera uma série de princípios arquitectónicos e conselhos práticos para a construção. 1. a arquitectura dialoga com a paisagem.4. todo o objecto arquitectónico surge sobre uma indiscutível autonomia. existencial. Neste sentido. empírico. a produção de significado da arquitectura baseava-se em referências associadas à natureza. criando um ambiente esquemático usufruindo dos avanços tecnológicos. Em 1570. utilizando o apoio dos novos avanços tecnológicos. que se manifesta no séc. A modernidade equaciona. O primeiro tem uma condição ideal. e o segundo possui um carácter concreto. teórica. e o significado em arquitectura. definido até aos detalhes. que se pode fundamentar sem nenhuma relação com a envolvente.2 MOVIMENTO MODERNO A modernidade. resultando numa arquitectura aberta.

liberta do solo e do contexto e mesmo das condições climatéricas. uma abordagem racional que pudesse guiar o processo do projecto arquitectónico. «vegetação» são respostas à pulsão do homem. lógico. Le Corbusier. «sol». posições e relações. pelas qualidades das coisas e dos elementos. segundo o paradigma do minimalismo Less is more. científico e matemático. novos meios técnicos apresentam-se ao dispor dos arquitectos para operarem uma nova e determinante acção na relação com a natureza. Neste contexto. A implantação das Unidades de Habitação é rigorosamente determinada pela sua orientação. E. É uma construção mental. e está relacionado fenomenologicamente com o corpo humano. o lugar é definido por substantivos. É quantitativo porque se desdobra mediante geometrias tridimensionais. Para ele. é poder libertar-se. é o conflito entre os ideais de espaço. no movimento moderno. Não há proximidade com a natureza na obra de Mies. A sua concepção dos espaços arquitectónicos envolvia uma profunda depuração da forma. mesmo assumindo que a topografia modifica o projecto de arquitectura. ser moderno. reinstala o homem em contacto com as «condições naturais». e a definição do conceito de lugar que gera. várias perspectivas distintas inspiradas no tipo de relação que os objectos apresentam com o meio envolvente. É necessária a presença do meio natural que preside à formação do ser humano.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR O espaço moderno baseia-se em medidas. Já Frank Lloyd Wright e Alvar Aalto exprimem o movimento moderno com a preocupação explícita sobre o lugar. voltada sempre às necessidades impostas pelo lugar. que procurou. não o testemunha nas suas obras. É abstracto. A primeira tem como figura emblemática. 54 . Mies van der Rohe. Ao contrário. Ele visa uma arquitectura universal. a obra de Le Corbusier. sempre. Para ele «espaço». Por outro lado. É ambiental. pelos valores simbólicos e históricos.

Isto deve-se. um desejo patente de fundir a natureza com a arquitectura. menos ruidoso e poluído. o mais distante possível. onde a janela se confunde até desaparecer com a fachada de vidro. a sua produção como arquitecto. Por isso. e designer. O homem é atraído pelo apelo contraditório dos dois.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR A casa do homem moderno abre-se sobre a paisagem. usufruir de uma bela vista. Nos edifícios de apartamentos.4. É uma questão cultural. para Alvar Aalto. em grande parte. pelo contrário. 55 . a memória. a continuidade. uma das características da sua arquitectura é a relação dialéctica com a natureza. torna-se inseparável dessa mesma cultura. tudo o que faria o sujeito sentirse em casa.3 EM BUSCA DE UM NOVO PARADIGMA Como alternativa à perspectiva desenvolvida pelo modernismo sobre a noção de lugar. sonhamos em instalarmo-nos no último piso. à relação peculiar da ligação que os finlandeses estabelecem com o meio natural. Encontramos. sempre em proximidade com a terra através da horizontalidade presente e dominante. aqui. a tradição e a consciência. Polaridade centrípeta do interior e polaridade centrífuga da paisagem. entre a interioridade e a exterioridade. Não existe oposição entre o íntimo mundo interior e o mundo exterior. surgem posteriormente. que reúne a história. Se as casas tradicionais acordam com o sol nascente sem privilegiar a vista. embriagam-se com a luz do sol da manhã e do calor da tarde. mas antes um lugar ambíguo entre os dois. enquanto fonte irredutível de sentido. e a relação com o contexto. A casa faz vibrar o seu habitante ao ritmo do duplo movimento simultâneo de desdobramento e recolhimento. os edifícios do modernismo. e fundamentar este conceito como foco de significações colectivas. 1. alguns movimentos que procuram retomar a relação directa com a envolvente. Da mesma forma.

como articulação das diversas peças urbanas. objectos e valores simbólicos. NorbergSchulz. Yi-fu: Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. genius loci. Não têm poderes além dos arredores de seu domicílio particular. a corrente do existencialismo. acreditava que. pertencia a um determinado povo e localidade. explorou o conceito de espaço existencial. cada lugar era regido por um deus.45 44 45 MONTANER. cada divindade. mas fazem mal aos estrangeiros. luz natural. Barcelona. Josep Maria: A modernidade superada. como a capacidade para fazer aflorar as pré-existências ambientais. não concebeu os deuses como divindades zeladoras de toda a raça humana. cor. as divindades têm em comum as características do lugar. o espaço existencial consiste sempre em lugares.37 TUAN. do neoracionalismo. conferindo a sua personalidade a este. textura. p. Recompensam e protegem o seu próprio povo. 1983 56 . uma reflexão sobre o conceito de lugar. São Paulo. Editorial Gustavo Gili. do regionalismo crítico e o movimento vernacular. que significa o espírito do lugar. em pequena escala. 2001. O homem. mas pelo contrário. fundamentando na filosofia grega. Isto é como paisagem característica. por ordem cronológica. Ele entende que. como objectos reunidos no lugar. é interpretado como genius loci.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Destacamos.”44 Para os gregos. Nas religiões que vinculam o povo firmemente ao lugar. o lugar é entendido como uma qualidade do espaço interior que se materializa na forma. EXISTENCIALISMO Segundo esta corrente. E “em grande escala. Difel.

em contraste com a envolvente exterior.: Existencia. em que nós experimentamos os significativos eventos da nossa existência. O lugar é entendido como um conceito global. O lugar é. Blume. do que com a localização geográfica em que se encontra. servindo de matriz de referência para as percepções transitórias. pontos de partida de onde nos orientamos e tomamos posse do ambiente envolvente. igualmente. “Os lugares são objectos. tornando-as experiências.”47 As acções têm lugar. basicamente redondo. e necessitam de uma matriz espacial. 46 47 NORBERG-SCHULZ. Londres. a definição de lugar. O espaço existencial tem uma estrutura relativamente estável. mas são. então. mais relacionado com a qualidade que advém dos significados culturais e que permitem desenvolver a sua própria identidade. e tem que ser relativamente pequeno para oferecer alguma segurança psicológica. o lugar é tanto mais apropriado quanto mais os seus utilizadores se identifiquem com ele. O facto do conceito de lugar implicar um interior e um exterior. ou significações. Assim. Christian: Meaning in western architecture. o carácter surge dos significados simbólicos que atribuímos ao lugar. que lhe são acessíveis. Neste sentido.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Norberg-Schulz defende que o significado de qualquer fenómeno é o contexto em que ele surge. mais ou menos. O lugar é experimentado interiormente. Studio Vista. Barcelona. e que cada homem resulta das inter-relações. espacio y arquitectura. 1975 57 . definida para terem lugar. Para Norberg-Schulz. 1980 NORBERG-SCHULZ. torna claro que o lugar se situa num contexto mais alargado e não pode ser entendido isoladamente.46 “O conceito de espaço existencial é baseado no facto de qualquer acção humana ter um aspecto espacial. baseia-se na sua autenticidade e carácter. C.

p. 1980. os arquitectos Aldo Rossi e Vittorio Gregotti. relacionar a linguagem e os valores expressivos da arquitectura clássica e do iluminismo. e define que eliminando o lugar elimina-se ao mesmo tempo a arquitectura. Schinkel. e pelo consumismo superficial e básico. com o rigor das propostas das vanguardas e dos pioneiros da arquitectura moderna. assim. Christian: Meaning in western architecture. Tal como outras formas simbólicas são determinadas pela interacção entre o homem e o seu ambiente. constituiu uma das correntes que procuraram rever as premissas do movimento moderno. CORRENTE NEO-RACIONALISTA O movimento arquitectónico neo-racionalista.”48 Christian Norberg-Schulz. Heinrich Tessenow. a vertente mais tecnológica de alguns dos movimentos surgidos no pós-guerra. desta forma. numa tentativa de fugir ao universalismo nivelador determinado pelo sistema económico social. 48 NORBERG-SCHULZ. percursos e domínios são elementos consistentes do espaço existencial. como Ledoux. pela força do desenvolvimento tecnológico e funcionalista. que surgiu em Itália nos anos 60. Studio Vista. a partir de premissas tipológicas. cruzando-as com referências culturais de sentido regional. e não tanto morfológicas. Vittorio Gregotti acrescenta duas ideias importantes à corrente neo-racionalista.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Lugares. De entre os neo-racionalistas italianos evidenciaram-se. Londres. filtrando essas referências na procura de arquétipos e de formas primárias. Terragni ou Louis Kahn. pela originalidade das suas posições teóricas e de alguns projectos. a de lugar e a de genius loci. o processo criativo devia partir de uma leitura crítica do passado. Adolf Loos. Recusavam.224 58 . Para eles. opõe-se a toda a teoria da mobilidade. Pretendiam. dos espaços transitórios.

ter-se-á que fazer algo semelhante. na sua obra A Arquitectura da Cidade (1966). esta memória colectiva. mas também na figura. Iniciaram a arquitectura. inseparável da formação da civilização. Para Gregotti é a modificação que transforma o lugar em arquitectura. Aldo Rossi. que é passível de ser interpretado de diferentes modos por quem a experimenta. assim. Isto não significa que. E uma obra arquitectónica não possui apenas um significado. Do mesmo modo que os primeiros homens construíram habitações que tendiam a realizar um ambiente mais favorável à sua vida. ou um sentido. analisar o significado que aquele sítio tem em relação à cultura em que está inserido. torna-se a própria transformação do espaço. também. da sociedade e das características particulares de cada localização. define a arquitectura como uma criação inseparável da vida civil e da sociedade em que se manifesta. da cultura. E como a memória está ligada a lugares. no significado. A arquitectura é. a construir um clima artificial. E. a cidade é a memória colectiva dos povos. quando se analisa o contexto. os aspectos mais relevantes para a leitura do lugar estão associados à questão do significado. Desta forma. Ela é. O lugar arquitectónico não consiste apenas na forma. como a cultura. 59 . essencialmente. Segundo Gregotti. de acordo com uma intencionalidade estética. ou seja. do ponto de vista da percepção. dependendo das pessoas. para se fazer algo é necessário conhecer e criar um diálogo. O objectivo da arquitectura é criar um contexto em que se revela a natureza através da modificação e utilização da paisagem. mas também. construíram. Para Rossi. Não apenas. Assim. mas tem em si mesma um significado. um mesmo lugar é passível de diferentes leituras. considerando as tradições. No entanto. É primordial.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR A natureza é uma colecção de coisas materiais cujas razões e relações a arquitectura tem a obrigação de revelar. e à possibilidade das diferentes leituras. olhar o contexto é o primeiro passo a dar quando se projecta com a envolvente. a cidade é o locus dessa memória colectiva. colectiva.

PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR

Deste modo, a união entre o passado e o futuro está na própria ideia da cidade, que a
percorre tal como a memória percorre a vida de uma pessoa e que, para se
concretizar, deve configurar a realidade, mas também configurar-se nela.

O REGIONALISMO CRÍTICO
O regionalismo crítico não tenta identificar o vernáculo moderno, mas sim identificar
«escolas» regionais recentes, cujo objectivo principal é reflectir os limitados elementos
construtivos nos quais se basearam.
É uma manifestação local, que tenta assimilar e reinterpretar o processo iniciado pelo
movimento moderno, e considerar a independência cultural, económica e política local.
Sinteticamente, é uma antítese entre cultura de raiz e civilização universal.

Contra a tendência da «civilização universal», fazem da luz, do terreno e das
condições climáticas, as bases que sustentam o projecto. Assumem o aspecto visual,
como uma característica secundária, na medida em que valorizam, principalmente, o
táctil.
Isto, provoca mudanças sensoriais. Tentam, apropriarem-se de referências externas,
tanto formais como tecnológicas, mas sem ignorar o que é local.

O regionalismo crítico é, tal como a expressão diz, a promoção de valores de registo
local (regionalismo) ao nível da linguagem internacional (crítico).

Esta postura, pretende clarificar que, mais do que aceitar uma universalização cultural,
é imperativo haver um reconhecimento da validade dos valores culturais regionais que
têm que ser, desde logo, conjugados com a consciência dos valores internacionais.
Tornam, assim, mais ricos os valores culturais regionais com valores internacionais.
Assim, mais do que defender uma globalização, deveríamos defender um
internacionalismo, pois este implica simplesmente a troca e a inter-influência de
valores, contrariamente à posição de exportação de valores globais generalizados.

Kenneth Frampton foi o rosto mais marcante desta corrente.
60

PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR

Frampton distingue o regionalismo crítico da «evocação simplista do vernáculo»,
afirma que, este último, é uma tendência demagógica e populista, enquanto que o
outro, evoca uma percepção crítica da realidade sendo construído através de um
processo dialéctico entre os elementos locais e universais.
Ele “baseia-se em duas premissas essenciais da arquitectura: o lugar e a tectónica.
(...) evoca a essência onírica do sítio, em conjunto com a inevitável materialidade do
edifício. Pretende, deste modo, promover uma visão da arquitectura mais dirigida para
os valores espaciais e da experiência, do que para a imagem (entendida como uma
manipulação do consumidor) (...) Procura, assim, uma síntese entre cultura e
civilização, que resista à homogeneização universal (Paul Ricoeur, 1961).”49

Especificando, o lugar, tem a ver com o facto de, ao projectar, se evocar o sítio onde
se implanta a obra (clima, topografia, orientação, etc.), e a tectónica significa a
experiência da materialidade do edifício. Mais do que a imagem e o aspecto visual, a
tectónica inclui elementos como o calor, vento, cheiros, sons, etc., nas leitura que
fazemos dos lugares.

Podemos identificar, características de ordem teórica e ideológica, e de ordem prática
e formal, nas obras do regionalismo crítico.
Da ordem teórica e ideológica destaca-se, o carácter dialéctico de embate e síntese
entre o local e o universal, o carácter contestatário em relação a uma homogeneização
formal resultante dos processos de assimilação do capitalismo tardio, e o princípio da
construção do lugar, enquanto a análise da significação por parte do sujeito, face ao
contexto em que se insere.

Relativamente aos aspectos formais, existem procedimentos recorrentes, como a
apropriação específica e exclusiva do terreno, assimilando o carácter topográfico,

49

VASCONCELOS, João Serpa – artigo – Do sítio ao Lugar, p.43, Sebentas de arquitectura – O lugar, Universidade

Lusíada, Lisboa, 2001

61

PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR

climático, de iluminação e clima, utilizando referências materiais, e formais, da tradição
regional em presença.

A obra perfeita do regionalismo crítico seria uma máquina da reflexão do local e
universal em relação à história e ao presente.

No contexto nacional, o arquitecto Álvaro Siza, é a figura mais emblemática deste
movimento, manifestando o desejo de um vínculo com o lugar construído, e em
simultâneo com o contexto natural que o suporta.
Os terraços de granito da Igreja da Santa Maria em Marco de Canavezes retomam,
precisamente, o afecto ao solo e ao sítio. Em Aveiro, é o horizonte marítimo que é
enquadrado no extenso vão da biblioteca da Universidade. A. Siza faz a ligação com o
que já lá existe, paisagem ou pré-existência, integrando-o na arquitectura.

Siza Vieira entende o Construir como acto que se inicia antes da concepção, no
envolvimento cultural com o sítio, e termina muito depois da obra acabada.
A organização do espaço nos projectos de Álvaro Siza Vieira resulta da relação entre
a natureza, as pré-existências e a nova construção a projectar. “A relação entre
natureza e construção é decisiva na arquitectura. esta relação, fonte permanente de
qualquer projecto, representa para mim como que uma obsessão.” (Siza, 2000)

Para Siza Vieira, as questões do sítio e o modo como a obra se relaciona com as préexistências, são temas capitais, a relação entre a natureza e a construção é decisiva
na arquitectura, sendo essa relação, a génese do acto de projectar e da evolução do
projecto.
O lugar constrói-se através da relação que o edifício estabelece com a envolvente, e
um dos aspectos fundamentais nesta relação é a continuidade. Continuidade entre o
que existia e o que se projecta.

VERNACULAR
62

PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR

Nas obras de Luís Barragán e José Antonio Coderch, arquitectos da chamada
«terceira geração», o interesse pela arquitectura vernacular renasce em uníssono com
a sensibilidade pelo lugar.
Estes dois arquitectos demonstram uma atitude crítica face aos pressupostos
peremptórios do Movimento Moderno sobre a assimilação das novas tecnologias
disponíveis de carácter global, e a consequente desvalorização das características
locais e culturais de um determinado contexto.
Coderch pertence, ao que se pode designar de segunda geração de modernistas, em
que os ideais da "Carta de Atenas" (documento elaborado no quarto CIAM Congresso Internacional de Arquitectura Moderna, em 1933) não são assumidos
segundo uma postura imperativa, mas centrados na especificidade do indivíduo (por
oposição à tendência uniformizadora do Homem, que tentava impor uma arquitectura
internacional independente das circunstâncias locais).

”Umas das suas obras mais representativas é a «Casa Ugalde» (1951), por propor
uma primeira aproximação à arquitectura vernacular, que se manifesta na
organicidade da planta e na espessura das suas paredes, numa clara negação do
volume puro e da construção tipificada do Modernismo.

Esta relação com a arquitectura popular não é, contudo total, pois a distribuição e
concepção das suas funções não corresponde ao modo de vida das populações rurais
(por se considerar desligada das necessidades actuais), mas antes a um
desenvolvimento espacial trazido do Moderno, sem ser tão específico ou opressivo.”50

Desta forma, entende-se, nesta perspectiva, que a relação com a arquitectura
específica do local é morfológica, com o objectivo de integrar da casa no lugar.

50

Coderch. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2008. [Consult. 2008-08-25]

63

necessários devido à sua função de legibilidade e identidade. pela sobreposição de um sistema de relações. Perante. O resultado é uma mudança das noções de tempo e de espaço. 2001 64 . também. impondo-se-lhes.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR 1. João Serpa – artigo – Do sítio ao Lugar.51 Reconhece.4. pois cada sítio não contém apenas presenças.4 CONTEMPORANEIDADE A discussão contemporânea sobre a temática do lugar. sempre. também. Nega as ideias tradicionais de contexto. libertando-as do seu significado primitivo”. que a ausência é um factor essencial numa figura retórica. Enquanto novos lugares são criados. Universidade Lusíada. Para ilustrar esta inquietação. a memória de presenças anteriores. torna-se pertinente questionar sobre a crise da ideia convencional de lugar. surge como consequência da ameaça do desgaste da identidade dos lugares. espaços mediáticos. Sebentas de arquitectura – O lugar. uma nova realidade baseada em arquitectura nómada. sintetizamos algumas teorizações. objectos e signos que a modernidade construiu. porque cada lugar é actualmente vários lugares ao mesmo tempo. desenvolvidas por arquitectos contemporâneos e que reflectem diferentes posturas sobre a interpretação deste conceito. independentemente das particularidades dos lugares. Lisboa. mas.43-44. a noção tradicional de lugar é minada. não-lugares e interconexões no ciberespaço. e até que ponto o espaço e o lugar são dissolvidos. p. PETER EISENMAN “Para Peter Eisenman a ideia de lugar é negada e reforçada. 51 VASCONCELOS. deslocando a essência conceptual das estruturas pré-existentes. ou considerados.

simplesmente. transformando-o. define a condição urbana geral da actualidade. Que conseguem que a sua beleza resida precisamente na inevitabilidade da sua materialização. REM KOOLHAAS Outro arquitecto que se tem dedicado aos fenómenos contemporâneos. da total interacção humana. a alterar aquilo que deve situar. arquitectura. Em 1978. com a publicação de Delirious New York. «a cidade genérica». O seu modelo era Nova Iorque e o fenómeno não era novo.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Para ele. Rem Koolhaas define a cultura da congestão. Existem. readaptando-o. à partida. Mas. está. Quando alguém questiona o lugar. uma cultura da máxima concentração. Mas que atingia. cria um lugar. e a sua beleza está intimamente ligada à impossibilidade da sua concretização. Nova Iorque nunca foi uma utopia. Nesta perspectiva. E o pelo facto de ocorrer. 65 . mesmo. em tão grandes quantidades. então. com o modelo a ser exportado para cidades de todo o mundo. deve transformar o lugar. necessariamente. originando um novo modelo. significar que é habitável. é Rem Koolhaas. porque decorria sobre algo iniciado décadas antes. o manifesto era retroactivo. transpondo-o. Se alguém. Por isso. a maior pertinência. construir o lugar. A arquitectura é uma disciplina que enfrenta uma questão muito concreta. E a «cidade genérica». da máxima densidade. Utopia significa «sem lugar». a nossa atitude em relação ao espaço está a ser afectada pela substituição de um paradigma virtual da experiência. tem que. nesse momento. como a materialização repentina das necessidades e capacidades das suas populações. não está a fazer. E para ser arquitectura. enquanto modelo. que mistura a energia e o caos dos fluxos urbanos. as pessoas conseguem habitar qualquer coisa. e que acontece por todo o lado. em vez da experiência espacial e táctil do corpo. realidades concretas que conseguem ser mais radicais do que os sonhos.

acontece. sem centro. não sendo um fenómeno concreto e concertado. 66 . sempre demasiado exigente. mas a apropriação de uma nova identidade. absorvente. Mas é bem mais radical do que a «Ville Radieuse» de Le Corbusier. A expansão é imparável e a elevada densidade multiplica os habitantes por metro quadrado. Nem sempre o passado se reflecte no futuro. A «cidade genérica» representa um corte definitivo com as visões historicistas herdadas do pós-modernismo de Aldo Rossi. por exemplo. é um conjunto complexo e espontâneo de acções. A horizontalidade é ainda o único sentido da edificação da cidade. porque não nasce de um planeamento pré-determinado. a habitação nunca é um problema. importa reter que a «cidade genérica» é real. Aquilo que não funciona é simplesmente eliminado e rapidamente esquecido e há sempre espaço para todos. tal como a globalização. ocupando o vazio ou destruindo e substituindo o existente. sem contemplações por nenhuma ordem. nasce da tabula rasa. a congestão é. paradoxalmente. é uma consequência inevitável. como um fractal. Como a maioria das utopias. O arranha-céus é a tipologia mais ilustrativa. um conceito envergonhadamente evitado. A congestão é o valor fundamental. Na Europa. Não sendo uma intenção. sem entraves à expansão. Há uma fuga ao cativeiro do centro. A «cidade genérica» expande-se e renova-se através da multiplicação exponencial do mesmo módulo estrutural simples.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR A «cidade genérica» é um modelo que corresponde exactamente a esse paradigma. Acima de tudo. sem periferia. tanto uma perda de identidade. Não nasce de uma vontade. dez vezes mais densa do que os Estados Unidos. O genérico não representa. de total indiferença. mas de um movimento difuso e espontâneo.

a estética. tudo lhe escapa. independentemente da sua eventual aparência brutal. alguns metros acima do solo. Estão virtualmente extintos. renovando-as continuamente. o que lhes retiraria vitalidade. A concentração numa cidade deu lugar ao rápido aparecimento de vastas regiões de novas cidades. sob a pena de colapsar. A sedução faz parte do urbanismo de cada uma destas cidades. O processo é assimétrico e é. sendo que a sua táctica não reside em tentar a aproximação às outras cidades. a cultura do novo século. e tudo é válido para atrair as massas que se fixarão no seu seio. Neste contexto de hiperdesenvolvimento. qualquer mudança num qualquer ponto obrigará todo o sistema a readaptar-se. como no modelo da «cidade genérica». nomeadamente com a obra já em curso. A homogeneidade por vezes aparente da malha urbana esconde igualmente uma miríade de diferenças.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Enquanto isso. até se tornar irreconhecível. num acto puramente mecânico. os valores tradicionais da arquitectura. As similaridades são estritamente geradas pela descontrolada velocidade de construção e pela enorme escala. evoluindo a um ritmo quase impossível. quase autónomo. numa dispersão que parece nunca poder parar. A velocidade das encomendas está completamente para além das capacidades e da preparação do arquitecto tradicional. Na China. são irrelevantes. mas em explorar as suas diferenças. do programa. É a chegada da cultura da disseminação. em certos pontos do globo. da dispersão. Não há lugar para uma análise ponderada das várias soluções. por comparação. Pura e simplesmente não há tempo. Os arquitectos ocidentais. não constroem nada. o mais versátil possível. 67 . a congestão atingiu tamanha dimensão que se deu um efeito de «explosão». o equilíbrio. Auto-estradas avançam por grandes extensões vazias. como a composição. desenham-se edifícios de 40 andares em menos de uma semana. A situação urbana vai rapidamente transformando-se. Tudo deve poder ser convertido. sem qualquer destino. Esta realidade transforma as cidades em estruturas muito delicadas e instáveis.

mas são resultantes de factores que se relacionam com elas mesmas e. palavras aparentemente distantes. E não são utopias. pelo mesmo motivo. São irrelevantes os efeitos de duração de estabilidade. O lugar. na contemporaneidade. Deste modo. nas cidades contemporâneas. fragmentos. memórias. Mas também não são. na sociedade em que vivemos hoje. recusáveis. SOLÀ-MORALES Outra perspectiva. neste sentido. tornaram-se conceitos incontornáveis.). remetendo a sua análise para o facto de a arquitectura contemporânea surgir de forma abrupta e inesperada na paisagem. do desafio da passagem do tempo. desvaloriza o conceito tradicional de lugar. A sua investigação centra-se no facto das obras de arquitectura se constituírem como acontecimentos resultantes de forças que se cruzam dando lugar a um objecto significante. porque não são fórmulas. singulares). são realidades firmadas. Não são valores ou modelos urbanos adoptáveis.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR São a intenção firme de propiciar a disseminação. passou a constituir-se através de edifícios ícones (objectos isolados. Levam-nos ao futuro. propõe novas categorias para uma arquitectura metropolitana baseada em transformações. Congestão e disseminação. etc. É reaccionária a ideia de lugar como cultivo e 68 . desenvolvida por Ignasi Sola-Morales. ou de edifícios que partem de dados que se encontram na cidade (restos. Assim. com a paisagem ou com o território. muitas obras arquitectónicas não se relacionam com o lugar pré-existente. “Os lugares da arquitectura actual não podem ser permanências produzidas pelas forças da firmitas vitruviana. aos locais de implantação de cidades eventuais. defineas como auto-referentes. são quase acidentes.

com graus variáveis de viscosidade produzindo turbulências nos pontos de contacto e diferentes densidades no interior dos próprios fluxos. Mas essas desilusões não têm porque levar ao nihilismo de má arquitectura da negação. de modo a experimentar outros acontecimentos é um dos desafios fundamentais da arquitectura que visa o futuro. Uma arquitectura que abarque fluxos humanos em conexões de tráfico. Tornar-se fluxo significa manipular a contingência dos eventos. transporte público e tráfico pedestre. estações de comboios não se pode preocupar com a aparência ou a imagem. MIT Press. profundo. Uma arquitectura líquida. aeroportos. 52 SOLA-MORALES. experimentação e projectos urbanos é hoje ainda mais um desejo do que uma realidade alcançável.”52 A cidade poderia não ser entendida como um sistema de espaços gerado pela massa de edificações ou os intervalos entre elas. estabelecendo estratégias para a distribuição de indivíduos. terminais.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR entretenimento do essencial. A estrutura do espaço urbano seria vista como resultado de sistemas de fricção. Em vez disso. de um genius loci difícil de acreditar em uma época de agnosticismo. Dar forma à experiência do fluxo no movimento da metrópole. bens ou informação. não é voltada para a representação ou para o espectáculo. Ignasi de: Liquid Architecture. as construções seriam apenas limites ao redor dos quais fluiriam carros. 1977 69 . Cambridge. segundo a perspectiva de SolaMorales. distanciando-se do planeamento programático puramente visual e das regulações préestabelecidas. Produzir formas para a experiência do fluído e torná-las disponíveis para análise. fluida.

Barcelona. Apenas se vê o espaço num constante fluxo afectado pelo tempo. e a comunicação massificada evoca um mundo artificial de sinais.. O espaço tal como o experimentamos é um fenómeno do tempo. Pensar a arquitectura (2005). Peter: Pensar a arquitectura.17 70 . E o espaço é o que acontece. no decorrer do tempo. “As tradições dissolvem-se. Criar lugares onde a vida decorre é a sua definição de arquitectura. são aceites pelo seu espaço envolvente devem possuir a capacidade de atrair. e a nossa percepção do espaço é transitória. se unem desta forma natural com a figura e história do lugar desperta a minha paixão.”54 53 54 ZUMTHOR. p.16 ZUMTHOR. pelo decorrer da vida. já não existem identidades culturais fechadas (. é quase impossível imaginar o lugar onde estão sem elas. 2005. E no entanto. Arbitrariedade é a palavra de ordem.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR PETER ZUMTHOR Com base na sua obra. O arquitecto tem a potencialidade de criar espaço como um corpo sensitivo que tem a capacidade de enquadrar o movimento da vida. de momento em momento. o que se tornou forma. Funcionam como parte integrante do seu espaço envolvente e parecem dizer: «eu sou tal qual tu me vês e daqui faço parte». E que não existe nenhuma ideia. 2005.. É por isso que o significado que criamos com o edifício deve respeitar a memória. massa e espaço. Peter: Pensar a arquitectura. Gustavo Gili. excepto nas coisas. Penso que os edifícios que. a realidade da arquitectura é o concreto. Parecem simplesmente estar lá. o seu corpo. Barcelona. de diversas formas.”53 “A presença de certas obras evoca em mim algo misterioso. a emoção e o raciocínio. Conseguir projectar edifícios que.) tudo se mistura com tudo. a pouco e pouco. Gustavo Gili. Uma pessoa não lhes dá nenhuma atenção especial. compreendemos que para Peter Zumthor. p. Estas obras parecem estar firmemente ancoradas ao chão.

nesta noção.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR MUNTAÑOLA Josep Muntañola Thornberg sugere na sua obra La arquitectura como lugar (1974). Ocupou-se também da versão original do topos por ser fundamental no desempenho da razão. ou de um lugar. ou seja. Dois dos pressupostos mais relevantes para a compreensão do lugar desenvolvidos por Muntañola são. este conceito foi. e sobre a forma em que são utilizados. ou quem. é único do homem. o facto da construção do significado de uma obra. o habita. No entanto. inventam e se reproduzem os pensamentos. e. no sentido em que mesmo o significado estando dependente de quem interpreta e do momento histórico em que se encontra. mas também na relação do que. permanecem. Afirma que. sugere-nos que a previsão. o significado da obra evocado a partir da sua autonomia. ao primogénito término de «tópico» como o lugar ou «sede». o papel da construção histórico-geográfica colectiva na construção do significado em arquitectura. torna-se pertinente fazer uma passagem pelo conceito de «não-lugar» desenvolvido por Marc Augé. que se ocupou de uma teoria dos «tópicos lógicos» ou dos «lugares transcendentais». 71 . o ser do lugar não só acontece no lugar em si. e. a habitação ou o espaço vital dos argumentos comuns e os argumentos próprios ou específicos das diferentes disciplinas em que acontece esse desempenho da razão é o lugar onde se encontram. recorda-nos que o lugar é sempre um lugar de algo ou de alguém. ser sempre uma reinterpretação contextualizada pelo momento histórico em que nos encontramos. remetendo-nos para a diversidade de significados atribuídos a um mesmo lugar e consequentemente para o conceito de obra aberta. mencionado pela primeira vez. por Kant. também os seus significados são estruturados a partir da obra em si. que o lugar é algo que acompanha o homem e. O «NÃO-LUGAR» No contexto da sociedade contemporânea. produção ou construção do lugar. E resgata da antiguidade. A sua perspectiva enaltece o papel dos diferentes intérpretes e as múltiplas leituras que daí advêm. remetendo-se a Hegel.

foi muito utilizado na conceptualização do desenho arquitectónico e urbano. a fantasia. A palavra utopia vem do grego ou.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR É neste sentido do topos. Marx. na sua visão antropodesconstructiva da existência da arquitectura dos «não lugares». a crónica no sentido do tempo. percebe-se que o conceito de lugar. que na sua visão representa o lugar físico inexistente e ao mesmo tempo desejado. sinónimo de ilusão e idealização. sem o tempo. a utopia. 72 . pensa-se que este pode ser lugar. Marc Augé. por exemplo. o sonho genérico. E neste sentido temporal. É como o lugar imaginário e inventado na obra de Thomas More. e que por ter uma condição subjectiva. na formação do «não-lugar». e neste sentido isto é análogo ao «momento e ocorrência». de Fourier. não só deverá ser o referente do espaço físico. Marcuse. que significa um lugar que não existe. também aconteceu o significado de «não-lugar». que significa não e topos. É a concepção imaginária. A cidade do sol de Campanella e existem também as utopias da contemporaneidade. Agora. Com base na raiz do topos e topia. onde os seus habitantes ilusórios colectivamente aboliram a propriedade privada e a intolerância religiosa e ideológica. A república de Platão. Mas existem antecedentes. é como o lugar na história. Derridá até Marc Augé. e que com isto se pode decidir «ter lugar» como também decidir «ocorrer e suceder». Os utopistas vêm subjectivamente. sugere que isto representa um novo e subjectivo conceito de lugar em que «espaço e tempo» se produzem e manifestam na integridade e fusão plena. por isso a sua condição subjectiva. Assim. Conceito que no séc. Tomas More utiliza pela primeira vez a palavra e o conceito de «não-lugar». XIII e XIV se identificava com a designação de «utopia». que surge o primeiro conceito de «não-lugar». Adorno. a pura idealização. o mito.

73 . o “lounge” de um aeroporto ou um supermercado. pode ser uma paragem de autocarro. por parte de um sector social. informação e imagens sentimo-nos implicados no que se passa no ponto mais remoto do planeta) e ao excesso da figura do indivíduo (para além do mundo mediático contribuir para o enfraquecimento das referências colectivas suscitando uma individualização dos procedimentos. ao afecto que este produz nos seus habitantes e à intervenção e controle. A sobremodernidade é um conceito definido a partir da noção de excesso. das opções de identidade e apropriação dessa espacialidade. garantindo-os enquanto lugares de anonimato onde se realiza. Nele reinam a actualidade e a urgência do momento presente. também as singularidades organizam cada vez mais a nossa relação com o mundo). o desempenho do consumo. nem relação. Nestes lugares. onde indivíduos em trânsito se instalam temporariamente. de corrente ininterrupta de espera ou de momentos de descanso. Refere-se a três tipos de excesso. o tempo da história acelerou) o excesso de espaço (como consequência da mobilidade de pessoas. Os «não-lugares» são lugares de ocupação provisória e confluência anónima. sendo um lugar que permite a diminuição do tempo. mas solidão e semelhança. bens. o excesso de tempo (superabundância de acontecimentos no mundo contemporâneo. Desaparecem tão rapidamente como apareceram.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Explora-se a noção de espacialidade determinada e produzida segundo a exigência de uma condição social de uso e significado efémero. o átrio de um hotel. referente à curta duração da percepção de tais espaços. ocasionais e coincidências. O«não-lugar» surge em consequência desta sobremodernidade. persuasivamente. a sua expressão completa nos não-lugares. O espaço do «não-lugar» não cria nem identidade singular. as relações são quase sempre incompletas. e encontra. à espera.

e um 74 . define como «nãolugares». cada vez mais. extremamente complexos e ainda não completamente entendidos. a partir de observações analíticas sobre o espaço e que se tornaram referências para o desenvolvimento deste trabalho. Tornam-se. são no entanto. aos pesos do lugar e da tradição. tentou-se uma aproximação às problemáticas contemporâneas sobre o conceito de lugar. e sobre as premissas do habitar. estes espaços. que os lugares antropológicos criam social e orgânico. para aqueles que os frequentam regularmente. os «nãolugares» criam contratualidade solitária. da passagem e transformação. Considerados incómodos e assumidos de forma negativa para a cidade entendida como lugar de permanência. No desenvolvimento. se sobrepõem aos conceitos de permanência e duração. como qualquer outra realidade física. ricos de significado e identidade. trata sempre da criação de contextos e da imposição de limites.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR Do mesmo modo. inversamente proporcional à atracção territorial. A arquitectura. de forma acelerada. conceitos estes que. que se apoiam nas redes de transporte. com os paradigmas da comunicação. também lugares de relação e. como tal. vocacionados quase exclusivamente para o trânsito. designadamente espaços técnicos de transporte rápido e de serviços. A sociedade contemporânea identifica-se. Este desenvolvimento levou a cabo uma desmontagem dos contextos espaciais. As novas relações entre o homem e o espaço/tempo têm gerado espaços. que Marc Augé. Esta complexidade reflecte-se na dicotómica interpretação entre os espaços públicos tradicionais e as novas tipologias de espaços colectivos contemporâneos. O que é significativo na experiência do «nãolugar» é a sua força de atracção. desta primeira parte da dissertação. a delimitação de alguns conceitos relevantes para o tema em estudo. representam uma nova geração de espaços públicos.

Esta deslocação é considerada como um acontecimento primeiro. do contributo teórico sobre o tema. uma atitude crítica mental. Tal como a obra de arte. pela possibilidade de apropriação que permite através dos nossos sentidos. esboçar algumas conclusões sobre o conceito de lugar. construídas e não construídas. o lugar traz algo à presença. É o habitar que o define. Existir é deslocar (-se) e. O lugar não foi construído para habitação mas a partir da habitação. sobre a real pertinência da noção de lugar no mundo actual. que sugere. Podem-se. e que não pertencem simplesmente ao lugar . a existência é des-locação. A linguagem apenas o reconhece. Além. mas quando nos aproximamos. em que vivemos. quando se aborda a questão do habitar o espaço. enquanto espaço ponderado. Estamos perante um conceito que não é verbalizável. O lugar não é uma coisa estática. verificada pela interdisciplinaridade do tema. e delinear princípios que orientam o ensaio realizado na parte 3.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR levantamento de diferentes teorias sobre o conceito de lugar no âmbito de diversas disciplinas. Não é algo que se define em si mesmo. não o representa. Esta questão assentou nas experiências sobre diferentes tipologias espaciais. E enquanto espaço orientado e de orientação. Pertence à existência. e o habitar é significado através de uma deslocação contínua em que se processa a existência. O lugar institui um espaço. igualmente. porque responde à questão «onde estamos nós?». Esta síntese contribuiu para fundamentar o desenvolvimento da parte 2. ou ainda quando o percorremos. Este algo foi definido por Heidegger como «verdade». ou nos afastamos dele. esta parte elucidou. e que se assumem como princípios gerais para a estruturação do estudo. e que enumeram alguns indicadores que orientam os posteriores desenvolvimentos. no sentido em que necessitamos de aprender a entender que as coisas são elas próprias os lugares. e que foram colocadas no início da dissertação. desde já. Enquanto espaço sensível. porque resulta de uma deslocação. 75 .

e com as memórias associadas a experiências individuais anteriores. no sentido em que resulta de uma acção directa sobre o meio em que vivemos. 76 . Esta acção é determinada pelas relações que estabelecemos com o espaço envolvente. com os outros que habitam esse mesmo espaço.PARTE 1: ENQUADRAMENTO DO CONCEITO DE LUGAR O lugar é uma articulação de experiências.

com o objectivo de proceder à estruturação da significação do espaço arquitectónico em função da experiência do sujeito. É identitário. o contexto e o movimento. nomeadamente. Posteriormente. 77 . 2. decompomos estas duas dimensões nas suas partes. associado a critérios de juízo que são. o tempo. enquanto plano individual da existência. o que o define enquanto «ser». o sujeito. reflexo da identidade e representação de uma cultura. no sentido. em que o personagem principal se articula com um meio que o envolve. Para melhor compreender os intervenientes neste processo analisamos individualmente as componentes que o caracterizam. E desta relação resulta a construção do lugar arquitectónico. estruturada a partir da significação do espaço através da atribuição de juízos de valor na leitura deste. a escala. Esta é uma narrativa. com a capacidade de percepcionar o espaço através da experiência sobre o meio. referente a factos espaciais específicos que o caracterizam.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO 2 PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Espaço humanizado foi o termo encontrado para sintetizar a relação entre a dimensão do homem.1 A DIMENSÃO DO HOMEM Por dimensão do homem. interpretando-o com o objectivo de criar um sentido sobre o objecto que apreende. Esta relação é estabelecida. entendido como plano colectivo. a experiência assente no comportamento sobre o meio e a interpretação enquanto criação de sentido. nomeadamente a função. para um entendimento mais claro sobre estes dois conceitos. aplicados sobre a dimensão do espaço arquitectónico. a percepção como mecanismo de apreensão. entendemos. por sua vez. de entender de que modo a arquitectura responde às necessidade do contexto do homem.

assim. Edward T.1 O SUJEITO. que define a identidade como um acontecimento dinâmico. O sujeito assume. mas. e que predispõem para a criação de esquemas perceptivos novos. habitam mundos sensoriais diferentes. outras são baseadas em factores biológicos (inatos ou adquiridos) que transcendem culturas e indivíduos em particular. que forma e transforma. Actualmente. neste contexto. A identidade faz a ponte entre o interior e o exterior. simultaneamente. significados e símbolos do mundo que ele habita.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO 2. a fotografia ou o desenho acompanham o discurso. os conhecimentos comuns. Hall na sua obra A dimensão oculta (1966). Deste modo. A imagem. A perspectiva sociológica. ou de relação individual. que segundo Mauss (1904). E a perspectiva pós-moderna. Existem conhecimentos. assumindo a identidade. o que é sem dúvida mais importante. um ser biológico. o homem moderno dispõe de esquemas cognitivos que representam. não só falam línguas diferentes. são fortemente figurados. transmitidos pelos meios de comunicação contemporâneos. e representam o objecto de conhecimento transmitido.1. algumas respostas do ser humano a determinados estímulos são consequências de uma aprendizagem cultural. IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO DE UMA CULTURA O ser humano é. com o meio (subjectiva). Existem duas concepções sobre identidade que destacamos. 78 . Enquanto que. social e único. os modos como somos representados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall. sociedade e indivíduo. factos que influenciam o acto da percepção da realidade. antes do primeiro encontro com um objecto novo. entre o mundo individual e o mundo público. A identidade é uma ideia de transparência entre cultura. um papel de mediação de valores. 1987). de forma continuada. o sujeito não é autónomo nem auto-suficiente. que são transmitidos socialmente. a atitude perante ela e a sua significação. refere que os indivíduos pertencentes a culturas diferentes. não perceptivos. mas resultado de uma relação com outros significantes. diferentes identidades em tempos diferentes.

os padrões sociais e económicos.C. apenas diferenças.. A cultura é substantiva ao homem e faz parte do ser. E é transmissível.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO não só as propriedades estritamente cognitivas desse objecto. onde não há hierarquias.p. o mundo onde o Homem vive não passa de representações significativas. e todos eles geram diferentes formas de vivência. mais intensa.55 Sendo a realidade. mais adequada ao homem”. E ao experimentar o mundo. mas também as suas características perceptivas. a tradição. A cultura é a “consciência crítica e sistemática da realidade. E quando nos referimos a identidade e contexto. diferentes normas de comportamento e diferentes linguagens. Libri & Grndi Opere S. Entre esses factores encontramos a geografia e o clima. e fazer representações segundo os seus códigos. que serve de 55 GIUSSANI. o termo cultura é inevitavelmente convocado. o sujeito tende a representar-se. Existem diversos factores que influenciam a cultura. R. a religião.S. algo que se torna evidente com a experiência. e a cultura é entendida como um conjunto de sub-conjuntos.A. usada de maneira mais perfeita. o processo de avaliação dessa realidade é feito através de uma consciência crítica e sistemática. Luigi: Alla ricerca dell volto humano. Deste modo. a política. Segundo Levy Strauss. a cultura é uma herança social. o qual constitui um enquadramento espacial e temporal. 1995 79 . assim. Milano. que são remetidas para o domínio de influência do corpo (físico e emocional). Para que a realidade possa ser manipulada e. mas.

onde o sujeito se expõe por completo. que é afecta a todo o corpo. podem identificar representações individuais. igualmente. O corpo do ser humano actua sobre o meio onde se insere. e para isso. com características semelhantes. um determinado comportamento sobre o espaço onde a experiência ocorre. Para entender estas construções. Este mecanismo denomina-se de percepção. onde representamos o nosso papel perante a sociedade. relacionada com a escala doméstica. perspectivas sobre a noção de percepção. possibilitando. Estas representações significativas. como colectivas. significando o espaço onde interagimos com os outros. ser indispensável ao organismo um mecanismo de regulação neurológico das transferências de informação entre o interior e o exterior do seu corpo. Toda a percepção é sensorial. E podem. a casa. então. necessita sentir o meio onde vive. quando existe uma construção solitária do lugar. descrevemos. e define-se pela actuação do indivíduo sobre o meio e pelo modo como dele recebe «sinais» (Damásio. e esta captação. Verifica-se.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO base a todas as outras representações. MECANISMO DE APREENSÃO O mundo é captado através dos estímulos que chegam aos sentidos. para formular respostas adequadas ao que foi sentido. tanto individuais. e revela-se na forma como é apreendida a informação sobre o que se passa em redor e no Homem através da informação recebida pelos sentidos.1. constituírem-se enquanto construções colectivas do lugar. 1994). ou significações. entendida como o mecanismo de apreensão do meio que nos rodeia. em seguida. pressupõe um papel activo do sujeito que transforma a realidade numa representação com significado. 2.2 A PERCEPÇÃO. 80 . a posteriori.

a partir da nossa visão. significa então.1996 81 . Mike: Dictionary of Psychology. não se sentindo. Lisboa. Como é percepcionado. É uma representação do meio envolvente. Fitzroy Dearborn Publishers. Chicago. apenas.”56 “O processo pelo qual a informação sobre o contexto é transformada numa experiência de objectos. O processo perceptivo envolve dar significado a todos os bits de informação providos pelos sentidos. por diferentes sujeitos. Quixote. mas também da intuição intelectual. diferentes memórias e referências distintas? Independentemente da especificidade de cada indivíduo. sons. uma determinada sensação. mas uma interacção entre o mundo interior e o meio envolvente. do seu corpo e da relação entre ambos. reconhecem-se como adquiridas culturalmente. 1991 CARDWELL. determinadas significações do meio onde se existe. e por isso. com um tempo e uma forma específicos. José Ferrater: Dicionário de Filosofia.”57 Quando olhamos em torno de nós. eventos.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO “A percepção implica algo distinto da sensação. temos uma percepção daquilo que nos rodeia. Por isso se definiu a percepção com a “apreensão directa de uma situação objectiva. Percepcionar. que têm diferentes educações do olhar. Se fecharmos os olhos e deixarmos de ver. a realidade continua presente. etc. A percepção é a combinação de processos psicológicos que envolvem sentidos e processos que o cérebro interpreta. Publicações D. como se estivesse situada num meio equidistante dos dois actos. um mesmo espaço de vivência. a percepção acontece dentro de nós. 56 57 MORA. ter-se consciência da informação sobre o mundo exterior que nos chega através dos sentidos.

que ultrapassam a sua subjectividade individual. e do seu meio envolvente. Intuitivamente. No entanto. a realidade é construída pela percepção. com base em informações elaboradas pelos sentidos. e não tem necessariamente uma existência independente. e processos. é própria e única. uma representação fiel do nosso meio envolvente. a percepção apresenta-se como a função psicológica que nos oferece. Em psicologia. Assim. E. pode-se concluir que. para os racionalistas. a atenção concentrada mostra-nos que essa representação pode depender da tarefa que procuramos realizar. Constitui-se como falsa. como todos os seres humanos têm diferentes corpos. com referência a uma área sensorial segundo Jean Piaget. do objecto presente. ou o mais imediato possível. tem consciência de que esses fenómenos apresentam características invariantes. Para os fenomenologistas. 82 . para os empiristas. ou devido à experiência. culturas diferentes. defendem-na como uma realidade independente. diferentes espaços e tempos de existência. de uma forma imediata. através dos quais o organismo toma conhecimento do mundo. Ou referindo Claude Bonnet. culturais e sociais da realidade.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Esta transmissão de conhecimentos e aprendizagem cultural acontece devido à possibilidade de comunicação. a percepção define-se como um conhecimento imediato de origem sensorial. Só assim se percebe que. É o conhecimento mais directo. é o conjunto dos mecanismos. a experiência perceptiva que cada sujeito desenvolve. diferentes apropriações individuais. criem designações diferentes para fenómenos semelhantes. Relativamente à definição do termo percepção. os realistas. apesar de cada ser humano sentir determinados fenómenos de maneira única e específica. e que são definidas sensivelmente da mesma maneira pelos seus semelhantes. mas que pode alcançar a realidade devido à razão.

Seria. Mas esta realidade. constitui a definição da realidade. pode ser falseada em situações quotidianas. portanto. Esta questão remete-nos para o assunto da definição da percepção. a percepção directa. um realismo definido pela intersubjectividade.58 A percepção directa define a percepção como uma reacção de adaptação do meio envolvente implicando uma captação directa e. nomeadamente. realista.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Como resposta à questão da percepção. 58 JIMENEZ. a percepção como tratamento de informação e a percepção como abordagem construtiva. rápidas e de desatenção. por vários observadores. é destacar o papel dos conhecimentos prévios no acto da percepção. Existem várias teorias complementares da percepção. eminentemente. A percepção como sistema de tratamento de informação reduz a percepção a uma recolha de informação sobre o meio envolvente. Trata a informação sensorial. António Viegas: A psicologia da percepção. Lisboa. Estabelece uma correspondência entre as estruturas da sensação e as respostas adaptadas. Instituto Piaget. os psicólogos consideram que a identidade das percepções partilhadas. trad. Considerar a percepção como abordagem construtivista. em que a percepção descodifica e traduz as informações em representações intermédias úteis para tratamentos posteriores. 2002 83 . Esta abordagem atribui à representação perceptiva significante um papel fundamental no momento do processo perceptivo. que é a do experimentador. e para a diversidade das tarefas perceptivas. Manuel .

que não estão abrangidas por estes sistemas familiares de processamento da informação visual. em que nos permite percepcionar em cada instante. Um exemplo que ilustra. como seres ocidentais que somos. provavelmente. esta posição é a observação de uma obra de arte. e os que são fornecidos pela sua cultura. 2002). em função dos nossos conhecimentos. Deste modo. estruturais e cognitivas. claramente. 84 . Entendendo. Olhar para a arte tradicional ocidental. pode ser um acto um pouco frustrante. pode-se colocar uma questão inversa no sentido da percepção do nunca antes conhecido. o meio ambiente que nos rodeia é fundamental para determinar a atribuição de significado ao que os nossos olhos vêem. sobre o modo como o ser humano dispõe dos esquemas que lhe permitem percepcionar aquilo que nunca percepcionou antes. ou seja. no sentido. nos conhecimentos adquiridos em experiências perceptivas anteriores. Elas têm um duplo contexto. é um processo simples e gratificante. O contexto existente onde o objecto foi produzido e usado. Para concretizá-la. A cultura facilita e antecipa a percepção. que consistem. Mas relativamente à arte contemporânea ou arte de outras culturas. o organismo aplica os seus conhecimentos prévios. a importância do papel da cultura e do conhecimento do contexto em que o sujeito se insere.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO A construção perceptiva é a construção de um significado. que comporta de uma forma indissociável especificidades. e o vasto e diferente contexto no qual o observamos. aquilo que é mais provável. o mais depressa possível. onde as convenções e determinações históricas fazem parte da nossa programação da mente. o factor essencial que dá forma ao espírito humano” (Manuel Jimenez. A melhor forma de responder a esta questão é recorrer à afirmação de Jerôme Bruner: “a cultura é.

portanto o observador é um participante.categorização: o processo de definir categorias para a análise e compreensão baseado na formulação de conceitos e no desenvolvimento de uma taxonomia.manipulação: os tipos de intervenção que o indivíduo pode desenvolver e as suas consequências em termos de alteração ambiental e da relação com as suas próprias necessidades e objectivos. no âmbito da psicologia ambiental. desenvolvidos por William Ittelson (1973). f) os ambientes atribuem significados simbólicos e mensagens motivadoras que fazem parte do conteúdo da percepção ambiental.orientação: o estabelecimento da orientação no ambiente. que as respostas perceptuais ao ambiente são um processo contínuo que ocorre em cinco níveis de análise que interactuam entre si: . . g) os ambientes têm sempre um enquadramento. b) os ambientes são multimodais: a informação é fornecida através de mais do que uma modalidade dos sentidos. . 85 . designando-as por propriedades tradicionais do estímulo na percepção ambiental: a) os ambientes envolvem: são explorados e não observados.afecto: o impacto directo emocional da situação que direcciona as relações sequenciais com o ambiente.sistematização: a análise sistemática das relações no ambiente. podem ser referidos os estudos sobre a percepção. Ele considerava que existiam sete características do ambiente que deveriam ser tomadas em conta. c) os ambientes proporcionam informação periférica e central. Na sua investigação conclui. d) os ambientes estão sempre a proporcionar mais informação do que aquela que pode ser processada. ainda. e) os ambientes funcionam como um palco que chama à acção. .PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Neste sentido. .

o meio e o seu contexto cultural é a influência externa mais poderosa na construção do significado. qualquer criatura tenta camuflar-se. O princípio mimético determina.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Conclui-se que. o organismo enquanto corpo neurológico que permite o tratamento da informação captada. com o que a rodeia. e confundir-se. e condicionante na fixação das imagens na nossa memória. associar a esta reflexão. da importância do contexto em que nos inserimos no condicionamento do acto da percepção. em que adoptamos uma postura inanimada. O fenómeno da paralisação. e as experiências vibrantes da vida moderna. para Walter Benjamin. que os seres humanos encontram-se em constante adaptação ao que os rodeia. Benjamin. será necessário. uma sociedade inundada por imagens incorre numa menor sensibilidade política e social. Esta adaptação é entendida como um mecanismo de defesa destinado à sobrevivência. com o objectivo de se tornar invisível. Ao fingir-se inerte. por conseguinte. na sua essência. 86 . e o próprio acto da percepção. Os indivíduos desenvolvem reflexos e respostas adequadas ao ambiente exterior. Este princípio. subjaz a toda a actividade humana. e a sua saturação fomenta uma aceitação acrítica da mesma. um mecanismo orgânico em constante adaptação ao mundo físico circundante. diminui a consciência crítica. Os impulsos fragmentários da cidade. segundo W. Um dos mecanismos de defesa muito evidente é o mimetismo. pois o inebriamento provocado pela imagem. a psique humana é. reproduzem-se a partir do próprio comportamento humano. Por outro lado. corresponde a um mecanismo de simulação da morte para garantir a sobrevivência. Para além. Neste sentido. de facto.

entre homem e envolvente. Este não determina. o comportamento do sujeito. e que aparecem enquanto articulação da representação e dinâmica do lugar? O tipo de vinculação será uma característica da personalidade individual. É a presença da vinculação. Gailivro.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO 2. porque admite um elo afectivo entre o lugar. e os seus habitantes. K. “primeiro formamos os nossos edifícios. Lisboa.1. mas influencia. resultado das relações sociais que se realizam no plano do vivido. só por si.3 A EXPERIÊNCIA. que são estruturados pela história e cultura civilizadora produzindo a identidade. depois eles formam-nos a nós”59. p. Henrique: Psicologia da arquitectura. de acordo com os seus objectivos. Existe uma expressão de Winston Churchil que ilustra de forma clara a relação entre o ser humano e a arquitectura. O lugar é denominado como o produto das relações humanas. COMPORTAMENTO SOBRE O MEIO “O observador carrega de sentido aquilo que vê. e da interacção diversa com o espaço.1982) Como se processam a construção os processos psicológicos. de transacção com o lugar. ou resulta da relação que estabelecemos com a envolvente? Os comportamentos são resultantes da individualidade da pessoa.. propriamente dito. 59 MUGA.” (LYNCH. 2005. o que garante uma rede de significados.23 87 . Esta concepção de lugar é fundamental. e sentidos.

a vinculação é uma variação do vínculo afectivo. estudou a vinculação pela primeira vez nos anos 50. e um instrumento de avaliação da qualidade da vinculação. Na vinculação. a partir da qual o indivíduo pode explorar o mundo e experimentar outras relações. Ainsworth inseriu o conceito de vinculação. a vinculação. 88 . O principal alvo era a relação da mãe-filho e o efeito que a separação poderia ter no desenvolvimento e construção da personalidade da criança. Na definição de Ainsworth (1989). Separation (1973) e Loss (1980). ou seja. 2005) inserido na obra Contextos humanos e psicologia ambiental (2005). No segundo. e não meramente clínica. propôs que as crianças desenvolvem representações internas de si próprias. Aproveitando os contributos de Ainsworth. mas através da confiança na figura de vinculação. significando que o desenvolvimento pessoal social inicia-se com o primeiro vínculo humano. defendeu que a auto-confiança não se cria forçando as crianças a serem auto-suficientes. Em sequência desse estudo. o outro é visto como uma base segura. Ainsworth. após ter estudado a vinculação. para a teoria. e que é considerado como a base de todas as relações posteriores com os outros. em bebés africanos no Uganda. No terceiro. dos prestadores de cuidados e do tipo de interacções entre si e eles.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO A leitura do capítulo intitulado A importância da vinculação ao lugar (Speller. porque forneceram uma base empírica. onde existe a necessidade da presença do outro. Bowlby aprofundou a sua teoria em 3 livros fundamentais. No primeiro. Os primeiros estudos elaborados sobre a teoria da vinculação foram desenvolvidos por John Bowlby e Mary Ainsworth. através de observações naturalistas em contexto familiar. e os seus efeitos. forneceu-nos as bases teóricas de aprofundamento deste tema. Estes contributos de Ainsworth foram fundamentais. e onde existe um acréscimo na sensação de segurança na presença do mesmo. Attachment (1969). juntamente com Bowlby.

Desta forma. Tanto Bowlby como Ainsworth defenderam. Posteriormente. o que o aproximou das correntes cognitivistas. e o seu meio ambiente sócio/ físico. 89 .PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO desenvolveu uma abordagem aos mecanismos de defesa em termos de processos cognitivos. ao longo do tempo. proximidade ou acessibilidade ao objecto. e. Brown e Perkins (1992) defendem que a vinculação ao lugar é constituída pelos laços experimentados. quer seja a casa ou os objectos nela presentes. permanecendo activa por toda a vida. simultaneamente. que a vinculação não se limita à infância. afastamento ou inacessibilidade do objecto. E propõe uma definição para a vinculação ao lugar enquanto um estado de bem estar psicológico experimentado pelo sujeito. sugerem que a identidade de lugar tem um núcleo emocional que se manifesta nos laços formados em relação ao lugar. afectiva e cognitivas. Brewer (1980) define o termo vinculação ao lugar como sendo o sentimento de posse que o individuo desenvolve em relação a um território específico sendo o mesmo explicado pelo contributo que o indivíduo espera vir a alcançar ao nível da sua autoimagem ou da identidade social. e da vinculação ao lugar. estabelecidas entre os indivíduos. uma forma culturalmente construída. forma pela qual identificamos um objecto ou o que a sua unidade representa para nós. pela qual um sujeito apreende objectos em relação aos quais ele próprio se posiciona. existindo portanto uma vinculação desenvolvida em idade adulta. com o objectivo de estabelecer uma ponte entre ambos. Um espaço pode ser definido como uma forma da nossa relação com as coisas. em relação ao lugar. desenvolveram o tema da identidade de lugar. ou grupos. Mais tarde. e resultado da mera presença. Giuliani (1991) e Twigger (1994). o estado de desamparo provocado ela ausência. como positivos. ainda. mesmo que se formem (às vezes até sem termos consciência) através das ligações comportamentais.

diferentes actores. barro. A primeira pode ser definida como as experiências passadas associadas a um local. a experiência. cognições. com a edição do livro Place Attachment. 90 . composto por duas componentes interligadas: o passado interaccional e o potencial interaccional de um local. no sentido em que fornecem retroalimentação da informação acerca do próprio. que podem ser indivíduos. cimento – que é aquilo que a percepção literal. «memórias». nunca é entendido apenas como um amontoado de matéria – madeira. Milligan (1998) define a vinculação ao lugar como a relação emocional formada pelo indivíduo com o espaço físico a que foi dado significado a partir da interacção. enquanto objecto arquitectónico. definindo-a como um conceito integrador que envolve padrões de vinculações. É neste sentido. sensível oferece. refere-se às experiências futuras ou antecipadas como possíveis num local. por considerarem a vinculação ao lugar um processo desenvolvimentista. nomeadamente afectos. pedra. ou «expectativas». práticas/acções. e interfere no desenvolvimento social do indivíduo. O padrão vinculativo desenvolvido é influenciado por factores constituintes da personalidade de cada um. A segunda componente da vinculação ao lugar. no contexto da arquitectura depende muito da percepção imaginativa. O grau de sentido. especificidade e tangibilidade. que os lugares conduzem à formação da identidade pessoal. As experiências de um indivíduo no interior ou em relação a um local específico dão lugar a um conjunto de expectativas de interacções futuras nesse mesmo local. numa palavra.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Mais presentemente. lugares. Um importante marco na evolução da vinculação ao lugar foi alcançado por Altman e Low (1992). Um edifício. destas experiências é traduzido pelo grau de vinculação ao local em si mesmo considerado. também representam o indivíduo. que variam em escala. grupos e culturas. Assim. Tal como os lugares podem ser alterados ou adaptados para ir ao encontro das necessidade pessoais. relações sociais e aspectos temporais (lineares ou cíclicos). potencial interaccional.

2. etc. A produção individual de sentido é mais necessária do que nunca. e reside nas estruturas que geram esta relação. a moral e a arte. E esta experiência resulta na atribuição de valor sobre as categorias dos sentidos que formam as nossas reacções ao espaço. só se começa a falar em arquitectura. de acordo com a cultura e moralidade de uma determinada sociedade. está estreitamente ligado à função. como forma. A arquitectura tem uma significação e não um significado. nesta perspectiva. com a ciência. pois o significado.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Pode dizer-se que. que se poderá falar de significação ou sentido em Arquitectura. nova e metódica. é a partir do momento em que o espaço. por si só. o indivíduo é capaz de decidir do bem e do mal. Os juízos de valor. Introduzimos. sobre a categoria da alteridade.4 A INTERPRETAÇÃO.1. do belo e do feio. se diferenciaram as esferas de valores (a verdade relativa à ciência ou ao 91 . na modernidade europeia. o sentido é a relação entre o conteúdo e o utilizador. Max Weber considera que. quando se deixa de falar do amontoado de matéria. a noção de juízo de valor. assim. Pronunciar um juízo constitui um acto. remete para algo diferente dele próprio. reclama uma reflexão. e através do juízo. que devido às suas transformações aceleradas. CRIAÇÃO DE SENTIDO É o próprio mundo contemporâneo. No domínio arquitectónico. tal como os hábitos e os costumes. Na arquitectura. A significação da arquitectura é consequência de uma experiência que envolve todos os nossos sentidos. encontram-se relacionados com o plano das convenções sociais. do justo e do injusto. e se cruza o vazio que separa a experiência literal do amontoado para se chegar a uma interpretação conceptual.

o juízo de gosto relativo à estética). são-no sob o aspecto da justeza ou da «legitimidade» (sendo as argumentações jurídicas «um caso especial do discurso prático») e os de avaliação ou juízos de valor são-no pelo aspecto da conveniência dos valores (em função do que é «bom» ou segundo o carácter preferencial dos valores). requer que a acção seja visível sobre uma cena pública e que seja recebida por um público dotado da capacidade de julgar. diferentes. Enquanto os descritivos. É assim que as orientações das acções. sujeitas às pressões da racionalização cognitivo-instrumental (do mundo objectivo. podem ser afirmados ou negados segundo a «verdade dos factos». Assim. os normativos (ou máximas do dever). o juízo moral relativo à ética. É por isso que a visibilidade é considerada o critério de avaliação das acções. são igualmente apreciados e julgados. enquanto o mundo objectivo está sujeito às «verdades de facto» e não ao juízo de valor. às pressões da racionalização prático-moral do mundo da comunidade social e à esfera estético-expressiva do mundo subjectivo). eram determinadas pela tradição. considerado do ponto de vista da apreciação da acção. As pretensões à validade dos raciocínios são. portanto. que passam a estar ligadas a diferentes domínios do agir quotidiano institucionalizado.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO conhecimento cognitivo. na medida em que a visibilidade dos actos os expõe ao julgamento público. O mundo da comunidade social e o mundo subjectivo são os domínios dos juízos de valor. que permitem a justificação de acções. O juízo de valor. 92 . ao mesmo tempo que os actos são observados. estão agora. que servem para estabelecer a objectividade dos factos. que antes.

implicando a comunicabilidade e o domínio público. acontecimentos. do objectivo (isento de interferência do sujeito). os juízos de facto estão presentes. do que é. do possível. 2009-01-12]. do deve ser. Na nossa vida quotidiana. como são e por que são. etc. O mundo como realidade de facto é o real. naquele que eles são em si mesmos. Utilizamos a palavra facto para nos referirmos a coisas. mas também na filosofia e nas ciências. intenções e decisões como bons ou maus. Disponível na www: <URL: http://www. Quando nos referimos ao valor mostramos o que é da ordem do preferível. o facto é da ordem do ser. do real. sentimentos. 2003-2009.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Julgar implica adoptar o ponto de vista de outrem. Assim. a nossa preferência. animais. experiências. desprovidos de qualquer conotação afectiva ou interpretação subjectiva. nas artes. na política. constituído por tudo aquilo que é possível de ser descrito. pessoas. [Consult. In Infopédia [Em linha]. Algo constatado por nós. o sabor do comentário. desejáveis ou indesejáveis. 60 juízo de valor. Aqui impera a relatividade e subjectividade ou seja. Porto: Porto Editora. do domínio da objectividade e universalidade. Os juízos de facto são aqueles que dizem o que as coisas são. acontecimentos.pt/$juizo-de-valor>. transparece o calor da opinião. pessoas. do subjectivo.infopedia. externa e objectivamente. acções. Os juízos de valor são interpretações e avaliações proferidos na moral. 93 . Max Weber distingue os «juízos de facto» dos «juízos de valor»60. na religião. do descritível. estados de espírito. Os juízos de valor avaliam coisas.

considerando-os naturais. descreve o objecto tal como se o pensa sem indicar a sua qualidade. 94 . do senso moral e da consciência moral. do ângulo estético. O juízo de facto. separadamente. Frequentemente. dos nossos comportamentos. o volume. as características físicas da pedra. uma vez que define para os seus membros. Reconhece-se. formula-se um juízo de valor. na estátua. e esta é inseparável da vida cultural. O juízo de valor não considera.30 Diagrama de distinção entre juízo de facto e juízo de valor Quando se afirma «a estátua é bela». enunciam normas que determinam o dever ser dos nossos sentimentos. O sentido do belo destaca-se pelo conjunto harmónico. os valores positivos e negativos. São juízos que enunciam obrigações e avaliam intenções e acções segundo o critério do correcto e do incorrecto.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Os juízos éticos de valor são também normativos. ou o peso. porque somos educados (cultivados) para eles e neles. a consciência moral é a que institui as referências. nomeadamente. que se devem respeitar ou detestar. Sintetizando: Juízo de facto Juízo de valor O REAL O IDEAL VIVÊNCIA HUMANA Fig. uma determinada harmonia plástica considerando-a valiosa. ao contrário. a cor. não notamos a origem cultural dos valores éticos. dos nossos actos. isto é. Para atribuir juízos de valor.

recusam o carácter absoluto e objectivo dos valores. pelo contrário. sim. não só a análise da noção de valor e das suas características estruturais. justiça/injustiça.). Para os filósofos essencialistas ou substancialistas o conteúdo dos valores é absoluto e imutável (o que é relativo é o nosso conhecimento dos valores.). afirmando a sua historicidade. das épocas e dos indivíduos concretos que os produzem. têm com o sujeito que os atribui. que o conceito de lugar do homem corresponde à relação de dependência que estas componentes estabelecem entre elas. é a propriedade segundo a qual os valores se subordinam uns aos outros em função da valia que cada um tem (preferir isto a aquilo). mas a referência a questões como a da natureza. por sua vez. as componentes consideradas inerentes à dimensão do homem. objectividade e subjectividade dos valores. este.5 CONCEITO DE LUGAR DO HOMEM Depois de especificadas. a que são atribuídos. uma qualidade que pareça estar no objecto mas na maneira de olhar. podemos concluir. Resumindo. A hierarquia. as culturas. variável conforme as épocas históricas. 95 . pois dependem dos contextos culturais. As correntes relativistas. A bipolaridade consiste na circunstância de cada valor oscilar entre dois pólos.. A distinção entre facto e valor permite. ou seja. etc. 2. os valores dependem das relações que as coisas. não são.1. podemos afirmar que são bipolares e hierarquizáveis. de um pólo positivo se colocar simetricamente em relação a um pólo negativo que é o seu contrário (verdade/falsidade. deste modo.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Analisando as propriedades dos valores..

e aptos para a interpretação do meio envolvente. as outras são evocadas de imediato. criando posteriormente um sentido para o que vê. A percepção. está-se perante a representação de uma determinada identidade e cultura. O sujeito. e sente. enquanto representação de uma identidade e cultura. porque existem em simultâneo. Existindo um sujeito. enquanto ser crítico. enquanto atribuição de sentido à experiência realizada. A experiência. E o conceito de lugar do homem entendido como um todo dinâmico e indivisível composto pela inter-relação destas componentes e que proporcionam a existência do sujeito. feita através da percepção e actuando sobre ele através da experiência.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Ou seja. INTERPRETAÇÃO EXPERIÊNCIA PERCEPÇÃO SUJEITO Para uma delimitação deste conceito podemos esquematizar o seguinte: LUGAR DO HOMEM Fig. E surgindo uma. A interpretação. cada componente não se autonomiza relativamente às outras. elas existem. enquanto actuação sobre o meio apreendido e que se traduz num comportamento de vinculação e apropriação desse mesmo meio.31 Diagrama do conceito de lugar do homem 96 . enquanto mecanismo de apreensão e identificação directa de uma situação.

O segundo é o objecto simbólico. constituindo-se como modelo de espacialização da qualidade de «domesticidade» de um espaço. o contexto e o movimento. Outras poderiam ter sido convocadas para a presente discussão. Não as ignorando. o tempo. O terceiro é o objecto vivido. que está relacionado com o programa funcional para o qual foi concebido. a escala. entendida como a relação entre o uso do sujeito e o programa funcional do espaço.2 A DIMENSÃO DO ESPAÇO ARQUITECTÓNICO Para desenvolver a abordagem ao conceito de espaço arquitectónico. seleccionando apenas algumas. Existem três objectos que coexistem em todas as obras arquitectónicas. e para o presente tema. É essa a essência da Arquitectura. Nomeadamente a função. e que foram evocados aquando colocadas as questões de partida.2. O primeiro é o objecto técnico. 97 . ou seja. 2. Tratam-se de dimensões independentes. o objecto usado como morada através da relação dinâmica que se estabelece entre o sujeito habitante e o objecto habitado no momento em que o objecto é usado pelo sujeito. começamos por analisar alguns elementos que caracterizam a arquitectura. interessa-nos abordar a dimensão do vivido.1 FUNÇÃO É a forma do espaço que sugere as acções pelas quais o sujeito descobre um determinado modo de habitar. foi necessário limitar o campo de estudo. através do juízo tipológico. por questões metodológicas. que remete para a capacidade de representar objectos culturais.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO 2. enquanto acto de habitar.

A forma é determinada pelo facto de a maioria das funções consistirem numa série de acções que estão associadas a diferentes localizações (âmbito geográfico). como os bairros. e as suas funções estão sempre relacionadas com os aspectos funcionais da envolvente. e precisa de ser considerada e controlada. que por sua vez se podem tornar em núcleos maiores. Como ilustração. Desde o mais pequeno utensílio ao ambiente geográfico. A estrutura funcional de um edifício pode ser designada por «tema funcional». Estar. mais ou menos independentes. Este tema nunca pode ser estudado isoladamente.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Cada acção necessita de um espaço caracterizado de um modo específico. mas elas sugerem outros sistemas superiores. mudam. existe uma continuidade funcional. consideramos o diagrama da estrutura funcional do habitar desenvolvido por Norberg-Schulz (1965). 98 . Dormir e Higiene.. etc. as necessidades de comer. E de acordo com as suas funções. mais ou menos complexas. mas também a forma. De acordo com a obra de Norberg-Schulz intitulada Intentions in architecture (1965). Os artefactos servem acções que estão relacionadas com a «estrutura arquitectónica». Estes sistemas são caracterizados como «níveis funcionais». Por outro lado. da ideia de abrigo delineando um exterior e um interior. em que se destacam quatro áreas funcionais: Cozinhar. Tais acções podem ter uma certa independência. E esta envolvente afecta o edifício. uma das funções primordiais de um edifício prende-se com a questão do controlo físico. como as cidades. Este controlo físico consiste nas relações entre edifício e envolvente. E cada acção resulta de uma determinada função que define a forma do espaço. um edifício é determinado pelas acções que nele vão decorrer. definidos por propriedades individuais. As funções não só definem a escala do espaço. de iluminação.

que se assumem enquanto categorias formais que a identificam. desenhado em papel. Então forma-se o seu corpo. não é arquitectura. Concentremo-nos na tipológica. A arquitectura precisa da execução. 2002. no sentido de se tratarem de qualidades que ultrapassam a percepção indiscriminada para se orientarem de forma directa para a estimulação de uma consciência estética ao conferir valores sensitivos.2 O TEMPO A percepção do tempo e do espaço constituem uma orientação do sujeito enquanto “o Homem no mundo e o Ser no universo”. Maria João Madeira: o que é arquitectura. mas esta não se reduz a tal. A música necessita da apresentação. o espaço. Peter: Pensar a arquitectura. p. Quimera. E este é sempre sensual.2. Este percurso determina a identificação do objecto/ forma como conjunto de qualidades sensíveis. um projecto. a retórica (para se defender perante o objecto e o mundo). 2005. Gustavo Gili. A arquitectura não é abstracta. a tipológica (reconhecimento da função do objecto) e a poética (arquitectura como linguagem).62 61 62 ZUMTHOR. Um esboço. “A arquitectura é sempre uma matéria concreta. já que é dotada de qualidades sensíveis. mas sim real. 2.28 99 .PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO E a arquitectura dispõe destes «níveis funcionais».”61 A presença material é o primeiro signo da arquitectura. p. Lisboa. à partida. comparável às notas da música. Barcelona. como a distinção interior/ exterior. três funções essenciais. mas apenas uma representação mais ou menos imperfeita de arquitectura. a massa. Na forma identificamos. etc.54 RODRIGUES.

PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO O eixo tempo permite. Ignasi Sola Morales. 1997 100 . E o espaço. Adquirimos afeição a um lugar em função do tempo vivido nele. Yi-Fu: Space and place: the perspective of experience. pela axialidade formada. presente e futuro. pertencente à memória. Minneapolis. experiências e expectativas.124 64 TUAN. o lugar seria a parada para o descanso. E por último. de forma vinculativa. conjurando. ou seja. Ignasi: Diferencias – topografia de la arquitectura contemporânea. Assim. University of Minnesota Press. O lugar é um depósito de tempo. nos seus últimos ensaios também percebeu essas diferenças. o lugar seria o tempo tornado visível. São irrelevantes os efeitos de duração de estabilidade. a qualidade e a intensidade da experiência importa mais do que a duração. ou seja. A noção de lugar aparece indissociável da noção de tempo. “os lugares da arquitectura actual não podem ser permanências produzidas pelas forças da firmitas vitruviana. mais «vivido» quando experimentado «aqui e agora». é o meio pelo qual a posição das coisas se torna possível. o lugar como lembrança de tempos passados. 1995. O mais importante referencial para o tempo em termos de lugar é.64 Tuan relaciona o tempo e o lugar de três formas. entre memórias. Gustavo Gilli. de um genius loci difícil de acreditar numa época de agnosticismo”. provavelmente. a demarcação entre o passado.63 Tuan (1997) associa. para a procriação e para a defesa. Barcelona. do desafio da passagem do tempo. O lugar seria uma pausa na corrente temporal de um movimento. p. É uma situação assumidamente orientadora. profundo. isto é. a ideia de lugar à noção de tempo afirmando que um lugar é uma pausa no tempo. 63 SOLA MORALES. É reaccionária a ideia de lugar como cultivo e entretenimento do essencial. neste sentido. a ideia de um lugar ser um produto psicológico e material. situar o sujeito no seu devir.

O tempo regista-se nos vestígios que deixa na matéria disposta no espaço. mas sim o que permitia o movimento através de si. na arquitectura.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Na realidade. para construir. com a definição de Tuan acerca do lugar. uma sala de aula preferida é um lugar inserido num lugar maior que seria a sua escola. Mas. 101 . Um lugar é portanto. então. O movimento era a condição indispensável para gerar uma visão cinética do mundo. e no outro. das primeiras décadas do séc. de tal modo que o lugar é um espaço apropriado. No extremo de uma escala. do tempo da vida. A temporalidade. sobretudo. é dada pela dinâmica da relação entre a função e a forma. se constroem os lugares. Trata-se. que seria o responsável pelas experiências vividas. E o espaço lê-se na dialéctica que as formas dispostas estabelecem temporalmente. XX. vivido. um espaço recorrido. O decorrer do tempo. é. nos damos conta de que o tempo com o que. a partir daqueles espaços. o «valor» que se lhe atribui. este pode existir em muitas escalas e modos de ser diferentes. mediante os recorridos. traduzida em experiência temporal do espaço. qualquer experiência espacial. feito próprio mediante o seu uso. toda uma cidade. o que permite transformar os espaços em lugares. não pode ser só o tempo do recorrido como queriam os modernos (tanto o continuo espaço-tempo de Sigfried Giedion como a dialéctica dinâmica-função de Erich Mendelsohn). o espaço não era algo estático. Para as vanguardas arquitectónicas. O tempo é essencial à construção do pensamento. Indica-nos duas características válidas que compõem o lugar. rapidamente. e o «tempo».

tornando a experiência mais interligada. a dialéctica complexa e instável entre o «meu» tempo (onde se encontram a minha experiência e expectativas) e «o tempo» (onde se entrecruzam história e ficção). remetendo de imediato para o fenómeno da globalização. relaciona-se com o tempo subjectivo. fragmentação. 2005 102 . também. integrando e ligando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo. quebrando limites nacionais. Lisboa. Editorial Presença. ou fenomenológico. que enfatiza a descontinuidade.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Se o lugar se define pelo fluir do tempo.”65 Esta nova perspectiva temporal e espacial. É a expressão da mudança no mundo pós-moderno. defendendo que estes não são coincidentes. ou cronológico. “A globalização indica um movimento fora da ideia clássica e sociológica de sociedade. Este refere-se a processos complexos. ruptura e deslocação. resultante da compressão de distâncias e escalas de tempo.2. operando numa escala global.3 A ESCALA (LOCAL E GLOBAL) Outra questão inevitável na reflexão sobre o conceito de lugar é a dialéctica local/global. e a sua substituição por uma perspectiva que se concentra em como a vida social é ordenada através do espaço e do tempo. Distinguindo. não se pode duvidar que o tempo modifica inevitavelmente as coisas. Outra questão relativa ao tempo. O tempo dá carácter aos lugares quando estes se utilizam. Anthony: O mundo na era da globalização. e o tempo objectivo. 2. estão entre os aspectos mais significantes da globalização 65 GIDDENS.

identificações de novo local e novo global. Anthony Giddens (1991) defende que. a relação cada vez mais importante e acelerada entre espaço e tempo. por fim. tornar o tempo redutível ao espaço. No entanto. Se a esta redução juntarmos a crescente importância da velocidade da vida quotidiana. parece pouco provável que a globalização vá simplesmente destruir as identidades nacionais. em vez de se pensar na substituição global do local.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO afectando identidades culturais. ou seja. obviamente. 103 . são indissociáveis do presente (situação em que se esquece o passado. Este local não é. A compressão espaço-tempo66 é um argumento importante para o impacto da globalização na identidade. É mais provável que produza. citando Paul Klee “se mata o presente”). juntamente com o impacto do global. referindo-se aos efeitos dos ritmos acelerados dos tempos de produção. para ser confundido com identidades mais antigas. simultaneamente. ou seja. A globalização enquanto processo de mudança na modernidade cria sociedades de mudança constante. um impacto na identidade cultural. seria mais pertinente pensar numa nova articulação entre o global e o local. nas sociedades tradicionais. o passado é honrado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. dos avançados sistemas de fluxo de informação e comunicação. Todos os meios de representação têm que traduzir o seu assunto nas dimensões temporal e espacial. não se prepara o futuro e. ainda. É a espacialização do tempo. rápida e permanente. será fácil compreender quais os fenómenos. 66 A “compressão espaço-tempo” é uma expressão cunhada pelo geógrafo inglês David Harvey. existe um novo interesse no local. para ser pensado em função do espaço. a par da tendência da homogeneização global. é que o tempo e espaço são também as coordenadas básicas de todos os sistemas de representação. A globalização tem. Mas antes. das racionalizações das técnicas de produção e da emergência e serviços financeiros mundiais. como a compressão do espaço. Aqui reside a principal diferença entre sociedade moderna e tradicional. firmemente enraizadas em localidades bem delimitadas. Assim.

uma totalidade.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO A modernidade. onde as práticas sociais são constantemente examinadas e reformuladas à luz da informação que nos chega acerca dessas práticas. É. mas enfatizam a descontinuidade. por contraste. Uma estrutura deslocada é aquela em que o centro é deslocado. A cultura nacional é um discurso. e não se desenvolvem de acordo com o desdobramento de uma única causa ou lei. constantemente. extensivas e contínuas. tanto as nossas acções como a nossa concepção de nós próprios. mas é formada e transformada em relação à representação. A cultura nacional/local é uma das principais fontes da identidade cultural. David Harvey (1989) fala da modernidade não só. Ernesto Lacau (1990) usa o conceito de «deslocamento». enquanto transmissão de uma quebra desumana com qualquer condição precedente. As sociedades modernas. Neste sentido. ou um principio organizativo. ruptura e deslocação. descentrada ou deslocada por forças que lhe são exteriores. um modo de construir significado que influência e organiza. Esta identidade nacional não é algo que nasce connosco. mas caracterizada por um processo infindável de rupturas internas e fragmentações em si própria. mas por uma pluralidade de centros de poder. torna-se pertinente equacionar de que forma são afectadas as identidades culturais locais/nacionais pelo processo de globalização. uma articulação única. e não é substituído por outro. Giddens. fragmentação. Hervey e Lacau proporcionam diferentes leituras sobre a natureza da mudança no mundo pós-moderno. A sociedade. não têm centro. 104 . não é apenas definida como a experiência de viver com mudanças rápidas. mas como forma de vida reflexiva. não é um todo unificado e bem delimitado. segundo Lacau.

E partindo do principio que existem relações desiguais de poderes culturais que persistem. nas identidades culturais. essencialmente. enquanto novas identidades híbridas estão a tomar o seu lugar. e a sua substituição por uma perspectiva que se concentra em como a vida social é ordenada através do espaço e do tempo. Quanto mais a vida social de torna mediada pelo marketing global de estilos. as identidades nacionais. Anthony: O mundo na era da globalização. são diversas.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO A globalização refere-se a processos complexos. lugares e imagens. 67 GIDDENS. 67 E as consequências da globalização. tornando a experiência mais interligada. é mais difícil preservar as identidades culturais intactas. operando numa escala global. integrando e ligando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo. entre regiões e entre os diferentes estratos da população nas regiões. pode-se concluir que. um fenómeno ocidental. Segundo Giddens. Lisboa. mais as identidades se tornam desgarradas de tempos específicos. a globalização é mal distribuída pelo globo. a globalização (que por definição afecta todo o globo) pode parecer ser. que estão a ser desgastadas. e pela rede global de imagens media e sistemas de comunicação. ou locais ou particulares. pela viagem internacional. nomeadamente. Editorial Presença. À medida que as culturas nacionais se tornam mais expostas às influências exteriores. como resultado do crescimento da homogeneização cultural. entre o ocidente e o resto do mundo. afirma que. que quebra limites nacionais. Doreen Massey (1993). a globalização indica um movimento fora da ideia clássica e sociológica de sociedade. 2005 105 . Relativamente à homogeneização das identidades globais. para além da globalização estar associada ao fortalecimento das identidades locais. e preveni-las de se tornarem enfraquecidas através do bombardeamento e infiltração culturais.

as identidades culturais em todo o lado estão a ser relativizadas pelo impacto da compressão tempo-espaço.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO continua associada à lógica de compressão tempo-espaço. menos fixas. Hoje. também tem os seus custos e perigos. criando identidades mais posicionais. nem produzir simplesmente o triunfo do «global» nem a persistência. mais políticas. um espaço em que as fronteiras se tornaram permeáveis. com a indeterminação. no entanto. associada a uma transformação cultural. criando novas formas mais apropriadas à contemporaneidade. Este é um processo desigual. defendem que o hibridismo. agora. unificadas e trans-históricas. a globalização pode tornar-se parte da história lenta e desequilibrada mas contínua da descentralização do Ocidente. Actualmente. um espaço electrónico um espaço descentrado. que a globalização tem. A globalização da actividade económica é. duplica a consciência e o relativismo que isso implica. E que retendo alguns aspectos do domínio global ocidental. a globalização parece. então. Alguns defendem que a fusão de diferentes tradições culturais são uma fonte criativa poderosa. 106 . O espaço global é um espaço de correntes. produzindo uma variedade de possibilidades e novas posições de identificação. o efeito de contestar e deslocar as identidades fechadas do centro duma cultura nacional. na sua antiga forma nacionalista do «local». Trata-se da criação de um mundo instantâneo e superficial. com um processo de globalização cultural. tendo o seu próprio poder geométrico. as identidades culturais estão a emergir da transição. Com este cenário global. e que são o produto dos cruzamentos culturais muito comuns no mundo globalizado. mais plurais e diversas. entre posições diferentes. de facto. a economia e a cultura são relacionadas intensamente e de uma forma imediata. Fortalecida em vários sentidos pelo ocidente. que desenham tradições culturais diferentes ao mesmo tempo. Parece. Outros. Tem um impacto pluralizador nas identidades.

a lógica social do consumo define-se pela combinação de conjuntos de objectos. como modo de actividade sistemática e de resposta global. em que o seu valor é o de relação. associada com novas dinâmicas de re-localização. a dimensão da banalidade e da repetição. em que os objectos se ordenam como diferenças significativas no interior de um código. revelando-se como uma linguagem. Actualmente. Esta.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO A globalização é. que o define como código e como sistema de organização. 107 . existimos segundo o seu ritmo e em conformidade com a sua sucessão permanente. como sempre aconteceu. mas a dinâmica pela qual se separa dela. Segundo Braudrillard (2005). O lugar do consumo é a vida quotidiana. são fruto desse processo de consumo. mas também. mas cada vez mais por objectos. com a colectividade e o mundo. o prazer). enquanto que. mas antes um sistema de interpretação. em todas as civilizações anteriores. 1989). o consumo surge como modo activo de relação. Vivemos o tempo dos objectos. assente num código em que as práticas de consumo se contextualizam e assumem determinado sentido. Em paralelo com o tema da globalização. somos nós que os vemos nascer e morrer. O consumo é um processo de significação e de comunicação. eram os objectos que sobreviviam às gerações humanas. surge o tema da sociedade de consumo. não só com os objectos. O homem já não se encontra rodeado por outros homens. Trata-se de alcançar uma nova relação global-local.(Lévi-Strauss. Não é o que. intricadas relações entre o espaço global e o espaço local. Os objectos. ele retém da natureza (a satisfação. aparentemente. não é apenas a soma dos factos e gestos diários. igualmente. A globalização é como juntar um puzzle. Desta forma. é uma questão de inserir uma multiplicidade de localidades na nova imagem do sistema global. que serve de base a todo o nosso sistema cultural. e como processo de classificação e diferenciação social. com os quais criamos vínculos.

então. principalmente. representados como produtos mecânicos de regimes de produção 108 . frequentemente. compreender a vida social dos objectos e de que forma estes interagem com a nossa própria identidade. psicológicas e económicas do capitalismo. Assim. Os «bens» são. Segundo Karl Marx. Simmel. analistas contemporâneos defendem que na maior parte dos usos de hoje. O desejo por um objecto é preenchido pelo sacrifício de um outro objecto. antes de tudo. os «bens» são um tipo espacial de coisas manufacturados (ou serviços). os «bens» consistem numa perspectiva sociológica. O «bem» é. que foram relacionadas a identidade cultural com o fenómeno da globalização e com o processo do consumo. O «bem» é um produto entendido. para troca. das condições institucionais. e que estando associados somente com modos capitalistas de produção só são encontrados onde o capitalismo penetrou. mas um juízo feito deles pelo sujeito. e o valor incorpora-se nos bens que são trocados. defende que valor não é uma propriedade inerente dos objectos. como resultado de uma exigência. Surge. a noção de troca económica. uma forma social particular que consiste. não só no acto da troca de valores como na troca de valores. um objecto exterior a nós. mas a exigência. e estes produtos emergem. por definição. uma coisa que pelas suas propriedades satisfaz os desejos do homem em querer uma coisa ou outra. dota o objecto de valor. ainda. O objecto económico não tem um valor absoluto. a economia é. que os objectos não são difíceis de adquirir por serem valiosos. na obra The Philosofy of Money (1907). mas por resistirem ao nosso desejo de os adquirir. interessa. A troca económica cria valor. Sugere. como base de uma troca real ou imaginária. que é o foco do desejo de outro. Deste modo. Com base na obra O Capital (1867) de Marx. qual é a situação do «bem» na vida social? É a situação em que a sua capacidade de troca por outra coisa é o seu papel social relevante.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Agora.

é antes uma relação visual. em qualquer situação. físicos. nasce o contextualismo. nem uma inovação radical. forte e eloquente. na integração do novo para não se assumir como uma peça isolada. teve diferentes conotações.XX. O contexto na arquitectura não é uma consideração superficial. o termo engloba todos os factores geográficos. Estas dimensões interferem na identidade individual e social. é um conceito muito complexo. Na realidade. sociais e de elementos construídos que caracterizam um determinado lugar onde se vai desenvolver uma obra. a escala das relações que se estabelecem em função do espaço. surge um movimento que defende a valorização de todos os factores históricos que incidiam na geração de espaços. e de global. Basicamente. e que em diferentes etapas da história. estamos perante uma grande diversidade de dimensões.4 CONTEXTO O contexto. com a envolvente. na criação de uma ordem harmoniosa e no diálogo com a paisagem.2.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO governados pelas leis de exigência e abastecimento. mas sobretudo. no âmbito da arquitectura. 109 . que encerra variados aspectos em simultâneo. relativa à proporção com a envolvente. históricos. e cenário do acto do consumo enquanto facto social. 2. quando tratamos do tema da escala. culturais. É de referir que o «contexto» é um termo recente na linguagem da arquitectura. conduzindo a transformações relacionadas com a definição do conceito de local. é um compromisso entre os percursos sociais regulados e as diversões competitivas. Entre eles a escala da forma. quando em plena decadência da arquitectura moderna (em que o contexto era quase ignorado). O espaço entendido como campo de acção das consequências da globalização. cujos fundamentos assentam no respeito pela envolvente. O fluxo de «bens». Começou a ser aplicado na segunda metade do séc.

5 MOVIMENTO Habitamos um mundo em que o movimento pendular diário é muito significante. 2. A sociedade contemporânea identifica-se. ao deslocamento que se observa ao longo de toda a história. a integração do contexto na definição de arquitectura. da passagem e transformação. Siza Vieira e Souto Moura em Portugal. 110 . Neste sentido. Cada edifício pode. por Aldo Rossi em Italia. na História da civilização humana. vem confirmar que o homem é um perpétuo viajante. e deve.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Os edifícios individuais são sempre primeiramente vistos como parte de um todo. é uma das componentes mais discutidas. buscar novos conhecimentos. O contextualismo cultural caracteriza-se pela preocupação com a cultura do lugar. Esta disposição. com os paradigmas da comunicação. A velocidade actual das transformações tornou-o um espaço profundamente dinâmico. o território que percorremos quando nos deslocamos de um lugar para outro. O desejo de ultrapassar fronteiras. cada vez mais. e Rafael Moneo e Juan Navarro Baldeweg em Espanha. é um espaço instável. estabelecer um diálogo com a história. valores e necessidades de um tempo e espaço particular. o espaço urbano constituído maioritariamente por percursos e retalhos de espaços públicos. O espaço privado das nossas casas. desde sempre. mas encontramo-lo. não é um fenómeno actual. descobrir. entre outros. conquistar e dominar outros povos e territórios.2. É o reflexo da cultura em que se insere. expresso. Esta busca incessante constitui-se na força motriz que impulsiona o homem nos seus deslocamentos desde os seus primórdios. de conceitos que se sobrepõem aos conceitos de permanência e duração. e evidente da identidade desta.

transformando profundamente o território. Faz reviver experiências passadas. as fronteiras simbólicas e as zonas de passagem. onde se sobrelevam as experiências vividas nos locais. e situam-se no espaço urbano. suscitando lembranças e emoções. Os habitantes da cidade deslocam-se. Esse caminhar é uma forma de deslocamento que torna invisíveis os marcos. a partir de informações do tipo mais variado. A percepção da distância está ligada à velocidade a que nos deslocamos e a que comunicamos. e dos lugares de memória social. Cada um de nós tem uma ideia diferente sobre a organização do espaço num determinado território. A velocidade é uma condição que relativiza o espaço. é consequência directa da actual necessidade de circulação. Este deslocamento excita a imaginação. a memória desencadeia a vertigem da profundidade. e a essa ideia corresponde uma imagem. O espaço é um espaço corporal. a sua consciência das formas físicas é sempre plurifacetada por se movimentar constantemente no espaço. 111 . o movimento associado à velocidade. fixando-se num ponto. história e cultura específicas para a formação de significado está a conduzir à generalização da arquitectura a-histórica e a-cultural. O aumento dos espaços de transição está a misturar as relações significativas entre arquitectura e a sociedade. e leva ao encontro de referências pessoais. Este é constituído.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Na metrópole pós-industrial. ao longo do tempo. um espaço simbólico. Ao interromper o fluxo da exploração do espaço na sua superficialidade. e tem proporcionado ao «homem instalado» uma nova forma de se relacionar com os lugares. com maior ou menor intensidade. um espaço de identidade. Como a manifestação espacial dos interesses dominantes ocorre em todo o mundo e por intermédio das culturas. O ser humano é um ser espacial. o abandono da experiência. um espaço de interpretação mental.

o espacial. agora as relações que estabelecem. influenciando. ou simbólica. Atribui valores e significados. o movimento. estando este contemplado naquele. e guarda-o na memória. em presença física. 2. modificando e concedendo valores aos contextos espacial e ambiental. um espaço se torna um lugar. e que foram caracterizadas anteriormente. propõe-se. Transitando.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Desta forma. o contexto humano é fundamental no sentido da arquitectura ser significada. Uma vez que o lugar é. os elementos que o compõem e. O contexto espacial refere-se às questões relativas ao espaço tridimensional. Sem os atributos humanos. o ambiental e o humano. em termos de morfologia. a intersecção de três contextos. Apenas com a relação entre estas três esferas. a escala. mas apenas um local onde todos os atributos espaciais e os ambientais interagem. À medida que o homem se movimenta. sem os valores humanos. está o elemento tempo. o contexto.6 CONCEITO DE LUGAR ARQUITECTÓNICO Analisadas algumas das componentes que caracterizam a arquitectura. o seu corpo explora o ambiente envolvente. como estrutura para o lugar arquitectónico. o espaço dotado de valor pelo homem. o espaço não é um lugar. as relações de configuração espacial que se estabelecem.2. exploramos. apropria-se do espaço. A função. Deste modo. entre estas três esferas. no sentido de definirem o conceito de lugar arquitectónico. 112 . o movimento é uma das características que a forma construída tem que integrar para poder dar resposta aos novos fluxos e programas funcionais que aí advêm. Este contexto é aqui entendido como a interacção do homem no universo espacial.

O elemento tempo exerce influência sobre estes contextos. que é o espelho e a objectivação do prazer substancial de viver. afectiva e simbólica no limite da qual o lugar afasta-se. que o constitui enquanto presença. longitude e a altitude onde se localiza a região) e as culturais (espaço construído em função de determinados valores e princípios inerentes a uma determinada identidade). então. e do tempo necessário para a execução destas tarefas. a caracterização do céu. numa transmutação poética. Não só são consideradas as climáticas (quantidade e a qualidade da luz natural. Por exemplo. um espaço construído susceptível de transformar o objecto. O lugar arquitectónico é o construir que se interioriza no habitar. a orientação solar. o movimento do corpo e a percepção cinestésica são regidos também em função do espaço disponível e percorrido. Esquematizando: 113 . então. necessário compreender os modos de construir e a sua relação com a articulação formal. como também as geográficas (latitude. que compreende os aspectos e carácter do espaço. O lugar arquitectónico resulta. ambiental e humano. A estrutura do lugar torna-se manifesta como totalidade ambiental. ao mesmo tempo. as precipitações. ao longo do dia o ambiente visual de um espaço modifica-se pela variação da luz. a temperatura do ar. Por conseguinte. a incidência eólica. os sons naturais). em qualquer momento. a humidade do ar. portanto.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO O contexto ambiental diz respeito às características da localização onde se encontra o espaço. A espacialidade do homem procede do seu «ser» e do seu mundo. da interacção entre o contexto formal. num determinado tempo. Um lugar arquitectónico é. Para uma teoria arquitectónica do lugar é.

1 «ENCASAR» O ESPAÇO. QUALIDADE DE «DOMESTICIDADE» A arquitectura para dar resposta às funções da vida humana. “A arquitectura é.3. enquanto significação da forma por parte da experiência do sujeito. ela vai também garantir que esses objectos são realizáveis enquanto edificações que proporcionam locais de habitabilidade aos seus utilizadores. 114 . pretendemos entender em que medida a arquitectura dá respostas às necessidades e às funções da vida humana. ou seja. Para tal.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO 2. no sentido de tornar o espaço em casa. terá que proporcionar a qualidade de «domesticidade» ao espaço. relacionamos as duas dimensões desenvolvidas. terá que criar condições ao sujeito para este atribuir significado em função da interpretação sensível que faz do espaço. «Encasar» o espaço. uma arte e uma técnica: dando forma aos objectos no espaço. no sentido de estruturar o processo da construção do lugar arquitectónico.3 CONTEXTO HUMANO CONTEXTO AMBIENTAL CONTEXTO FESPACIAL CONTEXTO HUMANO LUGAR ARQUITECTÓNICO Fig. 2. simultaneamente. a dimensão do homem e a dimensão do espaço arquitectónico.32 Diagrama do conceito do lugar arquitectónico A ARQUITECTURA ENQUANTO RESPOSTA AO LUGAR DO HOMEM: PROCESSO DE «LUGARIZAÇÃO» Neste ponto.

veiculando imagens colectivamente significativas. 2007. da apropriação de determinado espaço sobre o qual o corpo tem determinado comportamento.”68 “Como arte. por um lado. enquanto edificação. José Duarte Gorjão: Lugares em teoria. José Duarte Gorjão: Lugares em teoria.35 JORGE. p. a Arquitectura responde a certas necessidades do homem. Caleidoscópio. um ambiente humanizado que serve de «pano de fundo»à sua vida quotidiana.”69 A casa resulta da construção no espaço. se torna reconhecível por quem o utiliza enquanto espaço que acolhe a «domesticidade». a obra arquitectónica pode e deve ser apreciada nessa dupla expressão que associa o formal ao construtivo. através da manifestação de territorialidade. para além de exibir imagens que se oferecem à nossa contemplação. 68 69 JORGE. a Arquitectura fornece igualmente ao homem lugares de residência que definem um habitat artificial. O espaço definido pela casa é um espaço qualificado que. p. ao que podemos designar por «morada». 2007. E assim. e.38 115 . enquanto representação social. ela vai assegurar que através de todas essas alterações serão mantidos os padrões de «habitabilidade» que caracterizam. não apenas sujeitas à percepção da mera materialidade dos objectos que a suportam.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Deste modo. Lisboa. sendo esta o local onde o «em casa» acontece. por outro. Caleidoscópio. Lisboa. comportando uma estrutura espacial vivencial. em cada momento. Surge a criação de uma espécie de abrigo. na medida dessa qualificação. Como técnica. o paradigma arquitectónico dominante. que é o utente efectivo das suas obras e cuja evolução das modalidades do habitar determinará as sucessivas alterações pelas quais o objecto arquitectónico se actualiza. por assim dizer.

Lisboa. 2007. a minha casa é um depósito de memórias e expectativas.”70 “A casa torna-se. com o objectivo de os tornar abrigo. porque senão qualquer objecto. 70 71 JORGE. a forma onde se desenvolve a habitação (enquanto acto de habitar) daqueles que a usam em conformidade com os seus respectivos estatutos dentro do grupo. Lisboa. José Duarte Gorjão: Lugares em teoria. familiar ou outro. Poder-se-á sempre argumentar contrariamente. Apropriamo-nos desse elemento dando-lhe o carácter que deve ter de acordo com um programa de uso da exclusiva responsabilidade do utilizador. e o tipo de funções práticas que aí se cumprirão não coincide com aquelas que uma casa. e identifica quem a habita a partir dos tipos de uso que permite. numa situação transitória. p. mas a casa como morada. fazendo notar que podemos instrumentalizar os elementos da geografia local. poderia assumir esse papel com igual ou maior eficácia do que uma edificação humana concebida para tal propósito. Caleidoscópio. mas apenas na mente do sujeito.”71 Esta forma não se reduz à materialidade. 2007. É uma espécie de narrativa que se confirma. O programa não está no elemento.94 JORGE. Porque. Caleidoscópio. Mas nunca um abrigo circunstancial que. nessa medida. como morada. “A casa é um abrigo.96 116 . e que se renova. como uma árvore ou uma simples reentrância numa rocha. permite cumprir. por exemplo uma gruta. nos defende de agressões do ambiente. porque permanece identificável enquanto forma. José Duarte Gorjão: Lugares em teoria. através de cada acontecimento na vida dos seus habitantes. como construção simbólica no espaço.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO “Não a casa como uma coisa. ao desenho ou a uma lógica de organização. p. ao qual pertencem. portanto.

depositando-se nela a imagem social do indivíduo. às expectativas. e não apenas como objecto. do indivíduo. em simultaneamente. Dentro dela realiza-se a tal «domesticidade». o sujeito traça os eixos das suas deslocações. como dispositivo de uso. A arquitectura enquanto relação. o «aqui» e o «agora». Constitui o lugar de referência. orienta o sujeito no espaço. permitindo.. E. José Duarte Gorjão: Uma casa não é uma tenda. a partir do qual. fora dela realiza-se a publicidade. A casa constitui o centro. Lisboa 117 . do ser público. A casa enquanto espaço habitado deve permitir a estruturação das relações que se estabelecem entre todos os seus habitantes. E a partir daí. A relação sujeito-casa implica que ela tem de se adaptar ao sujeito porque é uma expressão específica deste. enquanto forma construída. aos hábitos. 72 JORGE. A casa. aos desejos. a construção de uma representação do ser privado e. e tem que responder de modo eficaz. a casa é um depósito de memórias e de expectativas. define o modelo a partir do qual se espacializa em cada um de nós o sentido de domesticidade. etc.” 72 A arquitectura não é apenas uma estrutura abstracta que podemos adaptar a um determinado dispositivo espacial para conseguirmos habitar o espaço. mas uma modelação de lógicas funcionais e simbólicas do habitar. neste sentido.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO O que «em casa» implica não é o habitante que descobre a forma na qual inscreve as suas acções mas sim a forma que sugere as acções pelas quais ele descobre um determinado modo de habitar. A casa põe em relação o «eu». deste modo. é o suporte físico do espaço abrigado habitável e o cenário do processo de representação.

não serem nem estáveis nem permanentes. O lugar constrói-se como um todo a partir das suas partes. tal como não tem uma só figura. O lugar não é objectável a um nível físico. o mesmo lugar não tem uma só forma. Para além de não ter limite definido. que constitui e caracteriza o próprio lugar. 118 . O lugar arquitectónico caracteriza-se. também. a envolvente e o sujeito. Cada intérprete dá uma resposta orientada pela particularidade de cada lugar. Se entendermos por forma o aspecto exterior de um objecto. ao facto de as relações que esse lugar estabelece com o mundo físico que o rodeia. daquela maneira (se não fosse assim seria outro lugar) segundo determinada forma de olhar. Pois a mobilidade do lugar arquitectónico refere-se. ou formas. da relação do edifício com a envolvente. A singularidade e unicidade do lugar resultam. uma vez que está implícito o conceito de individualidade. pois nem o edifício. e por isso singular e único. pelo carácter de acontecimento que lhe é inerente.3. e que nos remete para uma natureza mutável. uma vez que o podemos representar. porque se relaciona naquele sítio. uma vez que o lugar é sempre uma resposta associada a um sentido. sendo esta relação. um lugar nunca é passível de ser repetido. nem a envolvente e nem o sujeito são prévios à relação.2 NATUREZA DO LUGAR ARQUITECTÓNICO Ao pensarmos no lugar arquitectónico. uma vez que o lugar se deixa representar de diferentes maneiras. evocamos a relação entre o edifício.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO 2. igualmente. e não o somatório das partes. e num determinado período de tempo. embora nem sempre da mesma maneira. Neste sentido. ou seja. o lugar como acontecimento define-se como algo que ocorre num determinado espaço. Estas três realidades não são independentes das suas relações. tornando-se um todo individual. podemos então dizer que o lugar tem forma.

mas sim real. 21 119 . ou seja. Lisboa.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO A riqueza dos lugares está na diversidade e na unidade. na sua dimensão objectiva e subjectiva. São Paulo. 73 74 75 76 RODRIGUES. 24-26 BACHELARD. Tomando. Martins Fontes. 1980. seria então. a significação vive no sujeito sob o modo a priori. Quimera. Martins Fontes. e nas questões que levantam ao longo do tempo. e o sujeito. Maria João Madeira: o que é arquitectura. […] permite sonhar em paz”75. Gaston. entendemos o conceito de lugar em concordância com o arquitecto Norberg-Schulz. o primeiro lugar do homem.76 E este lugar será diferente da interpretação de um lugar colectivo. p. Mesmo nela. 2002. não se limitando a sofrê-la ou a passar por ela. p. p. Christian: Genius Loci: towards a phenomenology of architecture. A poética do espaço. o nosso canto. Rizzoli. o seu lugar de referência. o seu corpo. a massa e o espaço. Coleção tópicos. No objecto está um sentido que o habita e estrutura a experiência. como diz ainda Bachelard: “não encontramos nas próprias casas redutos e cantos onde gostamos de nos encolher”. 1993. podemos encontrar um lugar preferido. São Paulo. Gaston.24 NORBERG-SCHULZ. procede por formas e não por ideias. isto é. está preparado e consciente para este sentido. onde gostamos de ficar. A realidade da arquitectura é o concreto. o lugar da casa.”73 Com base nestas reflexões. na continuidade e na descontinuidade. “Assim. Coleção tópicos. A arquitectura não é abstracta. […] Abriga o devaneio. A casa. New York. “O lugar é a concreta manifestação do habitar humano”. A poética do espaço. 1993. existem tipos de lugares qualitativamente diferentes. e citando Bachelard: “a casa é o nosso canto do mundo. p.6 BACHELARD. 74 Dentro deste universo de lugares. São as pessoas que vivem a cidade. nos diferentes sentidos que podem tomar. a forma. como exemplo. […] protege o sonhador.

Esta contextualização determina uma identificação do objecto observado. É na observação. É porque o lugar arquitectónico se encontra fixado pela construção.3 LEITURA DO LUGAR ARQUITECTÓNICO. Os lugares que interpretamos. resultando de um conjunto de elementos heterogéneos. e que origina a explicação. que resulta da validação da objectivação.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO E neste sentido. nº 2-3. na contextualização e na significação do espaço construído que assenta a possibilidade da sua leitura enquanto lugar arquitectónico. 1999 120 . Desta forma. é construir. várias leituras consoante o intérprete. a forma. Habitar é pensar. assim. É a sua constatação.”77 2. na leitura do lugar. 77 DELGADO. que se abrem múltiplas possibilidades de leitura. as experiências arquitectónicas nunca estão constrangidas pelas limitações da percepção literal. são lugares construídos. Habitar é re-edifiar. através da sua objectivação (objecto fixado materialmente pela construção) e da sua composição (configuração que quer dizer algo. como por exemplo a função. Lisboa. “Vivenciar um objecto arquitectónico é participar na experiência da sua permanente re-conceptualização. João Paulo: “O lugar da arquitectura: notas para uma estética da edificação”. Posteriormente surge a contextualização. mas também são o resultado de uma configuração de elementos subjacentes à linguagem arquitectónica. etc). DAS RELAÇÕES ENTRE O CORPO E O ESPAÇO NA CONSTRUÇÃO DO LUGAR. existe primeiramente a observação deste. são fixados e objectivados. p.262-263 in Geha: revista de história. com base na relação entre o sujeito e o objecto. elas alcançam livremente o objecto e impõem a unidade. a proporção. permitindo. É a significação do espaço.3. estética e fenomenologia da arquitectura e do urbanismo.

tanto a que é concretizada no momento. a nossa memória.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO A significação constitui-se como síntese entre a observação e a contextualização. Resulta da acção do sujeito sobre o espaço. Na obra intitulada House as mirror of self (1995) de Clare Marcus. como as nossas vivências anteriores do espaço. caso contrário não existe acto configurante a ser aplicado. os lugares são sempre diferentes mesmo que interpretados com as mesmas regras. apropriando-o e atribuindo-lhe um sentido. do acto de ser pensado e interpretado por determinado indivíduo. e não no resultado do seu somatório.33 Estrutura da leitura do lugar arquitectónico O lugar resulta de uma configuração específica. Como estrutura da leitura do lugar podemos concluir o seguinte diagrama: OBSERVAÇÃO CONTEXTUALIZAÇÃO SIGNIFICAÇÃO (objectivação do (validação da (apropriação da objecto) objectivação) validação) Fig. ela explora as dimensões da experiência «corpo-lugar»: 121 . e pelo facto de ser apreendido de diferentes maneiras. O lugar arquitectónico só existe quando surge a apropriação. ou seja. Como a experiência é singular e irrepetível. O poder da significação permite que o lugar se dirija à nossa experiência. uma obra permite que cada um a viva de forma diferenciada. A essência do lugar arquitectónico encontra-se na síntese que é feita através da criação de espaços e na forma como esses espaços se relacionam. Por isso.

onde as ideias podem ser traduzidas de imediato na aplicação prática. Cambridge. and it may be all that architecture does. p. In such circumstances. e que ao contrário de tantos outros métodos quantitativos e retratos. a ligação conclusiva e estabelecida entre o argumento conceptual e a confirmação do mundo real. 188 122 . ao que Hillier denomina «configuração» . com a sua obra intitulada Space is the machine (2004) continua a ter um dos contributos mais marcantes para o entendimento sobre a relação entre as pessoas e o ambiente físico envolvente. incluindo a avaliação de um edifício especifico e desenho urbano no sentido dos movimentos e percursos e potenciais encontros interpessoais. 78 HILLIER. through the design of space. A demonstração de que o modo central de como o ambiente físico contribui para a vida humana é através de um padrão especial. This is what architecture does and can be seen to do. Bill Hiller. 1996. A tradução criativa destas medidas quantitativas em gráficos expressivos e cartografia que permite aos não-especialistas percepcionar facilmente e rapidamente padrões e relações espaciais e ambientais.” 78 No contexto do comportamento ambiental e arquitectónico.o modo como as partes de um todo relaciona espacialmente e ajuda a criar um campo especifico de comportamento espacial e ambiental e determinadas acções em vez de outras. space is at best empty. A procedimentos quantitativos que emergem do mundo da experiência arquitectónica e ambiental.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO “Architecture. Isto deve-se a um conjunto de fundamentos. then natural patterns of social co-presence in space are not achieved. representam a estrutura do mundo da vida real. nomeadamente. Cambridge University. at worst abused and a source of fear. Bill: Space is a Machine. If space is designed wrongly. creates a virtual community with a certain structure and a certain density. A relação efectiva entre a teoria e a prática.

para prover um encaixe entre as necessidades humanas e os aspectos não-discursivos do ambiente. analisando. o interior do edifícios. primeiro. posteriormente os estados da habitação pós-guerra. que argumenta ser o uso de entendimento informado. Analisa. Hillier usa a configuração espacial como um princípio para fornecer uma teoria de arquitectura compreensiva. Hillier interpreta o contexto físico como uma reflexão e condução de uma estrutura social e de interacções. mas antes. também. artista compõe. Hillier oferece uma contribuição maior para o entendimento da forma como os mundos físico e humano se suportam mutuamente. o modo da configuração espacial de bairros urbanos tradicionais em contraponto com o modo como habitação pública do século XX. 123 . a sua primeira natureza é configuracional. enquanto cientista e teórico. não porque o ambiente construído seja comportamento social ou vice versa. e finalmente. e o mundo é pessoa. enquanto. Fenomenologicamente.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Se considerarmos os ambientes construídos como sistemas organizados. porque a pessoa é mundo. e a experiência é ambiente no sentido em que um ambiente particular apresenta um contributo e reflecte os mundos particulares humanos manifestando um lugar em particular. Neste sentido. esta forma de exprimir a ligação pessoas/ambiente precisa de ser repensada. procura estabelecer as regras dos materiais espaciais com que o arquitecto. faz considerações de regularidades não discursivas entre a configuração espacial e a vida humana. porque é através de configurações espaciais que os propósitos para o qual o ambiente construído é criado. a grelha deformada das cidades tradicionais. E conclui que o arquitecto. Depois. Porque o ambiente é experiência. Ele examina a raiz da arquitectura.

p. 1996. an understanding of the city as a functioning physical and spatial object. perspectiva apenas de um ponto de vista. em oposição ao mero desenho dos seus espaços. We cannot make places without understanding cities. quando se trata de analisar a experiência dia-a-dia. They are moments in large-scale things. que se expressa pela experiência sobre o espaço. que segundo ele.3.” 79 Existe. above all. Places are not local things. both practical experience and research suggest that the preoccupation with local place gets priorities in the wrong order. o que reduz a complexidade multidimensional do lugar urbano a uma coerência visual de edifícios e ruas. e que devia desafiar modos de operar pré-definidos ou tipificados para abraçar uma interacção disciplinar fértil. 2. tanto na definição de princípios teóricos como na realização prática da arquitectura. O que em arquitectura significa ir além do ambiente físico para enquadrar a dimensão social. Bill: Space is a Machine. enfatiza demasiadas vezes um localista. Hillier critica o conceito de lugar. This distinction is vital. “The current preoccupation with «place» seems no more than the most recent version of the urban designer’s preference for the local and apparently tractable at the expense of the global and intractable in cities. the large-scale things we call cities. organizativa. e posterior atribuição de valor. It is cities that make places. 79 HILLIER. Once again we find ourselves needing. Places do not make cities. actualmente. a necessidade de adoptar o conceito do «fazer um lugar».151 124 .4 CONSTRUÇÃO DO LUGAR ARQUITECTÓNICO A construção do lugar arquitectónico acontece pelo habitar. Cambridge University. However. pedagógica e emocional.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Entender o porquê da configuração espacial importa. Cambridge.

A atribuição de sentido acontece pela leitura do lugar que o homem realiza e que se desenvolve em três etapas (observação. ambiental e formal. percepção. experiência e meio) e um plano colectivo. Podemos sintetizar este processo no seguinte esquema: 125 . num determinado tempo. e o que define a construção do lugar arquitectónico é a resposta que a arquitectura dá às necessidades do lugar do homem. é necessária a presença do sujeito no espaço.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Para a constituição de um lugar. que corresponde ao mundo do indivíduo. constituído pelos seus contextos humano. referente ao espaço. contextualização e significação). Esta associação traduz-se na relação entre um plano individual. resulta da associação entre a dimensão do homem e a dimensão do espaço arquitectónico. enquanto processo de significação. que dizem respeito às funções da vida humana. e que é caracterizado pelas componentes identificadas anteriormente (sujeito. permitindo atribuir um valor em função de critérios de juízo que assentam nas respostas que a arquitectura concede ao homem. A relação acontece pela experiência sobre o espaço e consequente atribuição de sentido que o homem confere a este. A «lugarização». no sentido. de lhe proporcionar a satisfação das funções da vida humana.

34 Processo de construção do lugar arquitectónico 126 .INTERPRETAÇÃO EXPERIÊNCIA PERCEPÇÃO SUJEITO PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO PLANO INDIVIDUAL ATRIBUIÇÃODE SENTIDO LUGAR DO HOMEM LEITURA DO LUGAR CRITÉRIOS DE JUÍZO OBSERVAÇÃO + CONTEXTUALIZAÇÃO + SIGNIFICAÇÃO PLANO COLECTIVO CONTEXTO HUMANO CONTEXTO AMBIENTAL CONTEXTO FESPACIAL CONTEXTO HUMANO LUGAR ARQUITECTÓNICO Fig.

mas qualitativa. E ao actuar sobre o meio envolvente. que se traduz nas diferentes leituras que cada sujeito poderá concretizar pelas variadas formas de olhar o lugar. que adopta um modelo universal de «cidade funcional». e em simultâneo. a escala. e submetendo-o a determinado juízo de valor. a função. Identificámos algumas teorias sobre estas funções. da carga individual.5 CRITÉRIOS DE JUÍZO Numa análise não quantitativa. 127 . Em 1933. por serem identificadas por todos os sujeitos de um mesmo grupo. o contexto e o movimento. em três autores distintos. O meio envolvente é uma representação do espaço. e na leitura que faz do lugar. Estamos perante a componente colectiva do espaço através da sua representação. tais como a forma.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO 2. actuamos sobre o meio envolvente.cuja figura principal foi Le Corbusier. o tempo. designámos por plano colectivo. algumas das quais referidas anteriormente. e por serem resultado de uma determinada cultura. Estas componentes. Estes juízos de valor são efectuados considerando a resposta que o espaço dá às funções da vida humana. ao significar o espaço. traduzido pelas características inerentes à arquitectura. com o objectivo de entender a construção de significado num determinado espaço. É com a resposta positiva a estas funções que medimos a habitabilidade/ «domesticidade» do espaço. formulamos juízos de valor sobre estas componentes objectivas do espaço.3. podemos constatar que. durante o IV Congresso Internacional de Arquitectura Moderna (CIAM) divulga-se a Carta de Atenas. e que por conseguinte atribuímos significado. interpretando-o. recorrer a critérios de juízo parece-nos a melhor forma de analisar a experiência do sujeito no espaço. dos espaços. Consequentemente.

e que considera quatro funções básicas: Hygiene. Posteriormente. e a propósito da temática sobre motivações e necessidades que o homem desenvolve a partir do meio que o envolve. em 1965.2. Sleeping. desenvolve um esquema sobre a estrutura funcional do habitar. aqui também entendido como referente ao espaço doméstico.35 The functional zones of a simple dwelling: Kitchen. Moslow identifica um conjunto de necessidades humanas. criando a denominada «pirâmide das necessidades». na sua obra Intentions in architecure. o comportamento humano visa reduzir a tensão que uma necessidade insatisfeita provoca. Norberg-Schulz. para encontrar um equilíbrio.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO É redigido um conjunto de princípios gerais que propõe o traçado das cidades. Segundo ele. as necessidades mais elevadas só surgem quando as mais baixas vão sendo satisfeitas.). 1965) Também no início dos anos 60. Fig. hierarquizando-as em sete níveis. 128 . Por outro lado. A. segundo uma implantação desenhada através de zoneamentos selectivos. A ordem em que apresenta os diferentes níveis significa que. Sleeping. Kitchen e Living (desenvolvido no capítulo 2. Hygiene.1. o trabalhar. o circular e o recrear. maior é a energia utilizada pela necessidade para a sua satisfação. Living. (NorbergSchulz. Estes zonamentos são estruturados por uma divisão de áreas que respitam quatro funções essencias da vida urbana. e a satisfação dessa tensão permite ao homem restabelecer o equilíbrio. da casa). o habitar (no sentido da habitação. quanto mais perto da base.

no comportamento do indivíduo. p. e uma crítica. de facto. as funções espontâneas e as funções culturalizadas. que esta abordagem considera uma análise. sobre um grupo de indivíduos específico. o vestuário. Desta forma. delimitamos o campo de estudo à sociedade urbana ocidental. ou seja. mas incorpora. pela manutenção da vida física e material. Gailivro. a qual surge e se desenvolve a partir dos dados e exigências da matéria.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO No entanto. e como síntese destas abordagens. 2005. em simultâneo. o posicionamento destas necessidades pode variar consoante o sujeito. verifica-se que. Henrique: Psicologia da arquitectura.99-102 129 . a «casa». a dimensão da vida subjectiva.80 Fig. 80 MUGA. Lisboa. de modo indissociável. Estas duas categorias surgem em sequência da dialéctica entre razão e emoção desenvolvida por António Damásio(1994). como a alimentação.36 Pirâmide das necessidades (A. Moslow) Com estas perspectivas. organizadas em duas categorias. delimitamos um grupo de funções. e pode existir mais do que nível a actuar. É de salientar. o ser humano não mantém a sua existência apenas pela presença de condições materiais objectivas.

(. tanto para se sentir realizado relativamente às exigências do meio. Elas são. estar.. e regras que a biologia por si já proporciona. dormir e higiene. António: O erro de Descartes: emoção.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO As funções espontâneas estão associadas às necessidades básicas do ser humano. 1994. através da criação de condições vantajosas para a sobrevivências ou da diminuição da influência de condições potencialmente adversas. p. denominamos aquelas que o homem adquire consoante o contexto em que se encontra. alteram-se mais significativamente dos que as funções espontâneas. no entanto. através da execução de acções de preservação da vida. como para dar respostas em conformidade com as práticas desse meio. razão e cérebro humano. associamo-la com as funções identificadas por Norberg-Schulz enquanto funções instintivas da vida humana.130-131 130 . Por funções culturalizadas. cozinhar. e que são. Publicações Europa- América.) Praticamente todos os comportamentos que resultam de impulsos e instintos contribuem para a sobrevivência quer em termos directos. Elas são naturais e automáticas. “A sobrevivência de um dado organismo depende de uma série de processos biológicos que mantêm a integridade das células e tecidos em toda a estrutura desse organismo. “Existem nas sociedades humanas convenções sociais e regras éticas acerca e acima das convenções. Esses níveis de controlo adicionais moldam o comportamento instintivo de forma a este poder ser 81 DAMÁSIO. porque são condicionadas pela cultura. encaradas como condições de sobrevivência.”81 Transportando esta perspectiva para o âmbito da arquitectura.. sendo submetidas a uma lógica de sistema de valores. Mem Martins. na sua essência naturais. quer em termos indirectos.

controlo este que culmina no corpo terminal do homem. caracterizada por deslocações pendulares quotidianas. 82 DAMÁSIO. António: O erro de Descartes: emoção. estas funções foram consideradas «universais». p.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO adaptado com flexibilidade a um meio ambiente em rápida complexa mutação e garantir a sobrevivência do indivíduo e dos outros. Moslow. emissor e receptor em simultâneo. O ordenamento do território por pesados equipamentos materiais (estradas. razão e cérebro humano. a dimensão temporal. mas uma quarta. vias de caminho de ferro. Tornando critico não apenas. circular. vias férreas. mais exactamente a dimensão do presente. definimos como funções culturalizadas.”82 Desta forma. dos meios (satélites. é o contexto contemporâneo ocidental. A estas poderão ser sempre acrescentadas outras. Esta circulação é propiciada pelo próprio ordenamento do espaço. Para o desenvolvimento do trabalho. dentro de determinado contexto. CIRCULAR A circulação justifica-se por estarmos perante uma sociedade em movimento constante. aeroportos. cabos de fibra óptica). Publicações Europa- América. recriar e comunicar. ou quase. se consideradas elementares para a análise do habitar. etc. Mem Martins. e por questões metodológicas. um ser interactivo. apresentados previamente. auto-estradas. que neste caso. 1994.) cede hoje em dia o lugar ao controlo imaterial.140 131 . etc. por as considerarmos exigências da vida que a sociedade contemporânea delineou. ou seja. as três dimensões espaciais. pelas estradas. e com base nos esquemas de Le Corbusier e A. trabalhar.

os aspectos da produção e da mercadorização do homem são características deste sistema económico. o trabalho é a fonte de toda riqueza. é a expressão máxima do sistema produtivo capitalista. mas também de prazer e realização humanas.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Desta forma. o ser humano abandona a dependência para com a natureza e incorpora a aventura do especificamente humano. que relacionava o tempo a um carácter sagrado é alterado para um sentido profano a partir da Idade Moderna. sustentando um discurso de atrelamento entre a felicidade almejada e o aumento de produção. A categoria ontológica do marxismo permite entender que. provavelmente por oposição aos ideais Greco-romanos de ócio. é uma função fundamental na vida de qualquer sujeito na sociedade que vivemos. O conceito de trabalho medieval. Numa perspectiva materialista. Fazendo uma retrospectiva histórica. uma sociedade que ressalta como representação maior da vida o trabalho. progressivamente. Time is Money. o qual somente era possível pela exploração do trabalho escravo. Mas num determinado momento. ao realizar trabalho. TRABALHAR O trabalho. É interessante analisar a posição que o trabalho ocupa na vida do homem moderno a partir dos diferentes contextos históricos. percebemos que a Grécia Antiga valorizava o ócio para seus cidadãos. o acto de circular associado à ideia de movimento e deslocação assumese como uma das funções mais expressivas da vida contemporânea. o cristianismo tentou recuperar o valor do trabalho. gerando. A industrialização crescente. 132 . o sistema urbano-industrial trouxe às práticas laborais da civilização ocidental um novo sentido. Em paralelo às transformações nos dogmas religiosos. sem colocá-lo como valor maior da existência.

PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Deste modo. Tanto seja uma acção prática quanto contemplativa e que. resulta da sociedade urbana moderna sendo produto e agente de cultura. o trabalho deixa de possuir tais possibilidades e expectativas. optámos por perspectivar o prazer enquanto tudo aquilo que se constitui em valor positivo. e consolida-se enquanto fonte de desprazer e tensão. fim ou objectivo da acção humana. pois tem a possibilidade de transformar qualitativamente a sociedade humana. o que só poderia trazer satisfação e prazer. RECRIAR Aceitar a ideia que o recriar se apresenta como necessidade básica do ser humano é condição sine qua non para o entendimento da vida humana. e ao mesmo tempo produtor do ser. baseado na exploração do tempo de trabalho do trabalhador e dividindo a sua existência em tempos distintos. articulados à dimensão da produção necessária ao capital. Sob este ponto de vista. não trabalhar retira aos indivíduos a possibilidade de exercerem a cidadania colocando-os à margem do contexto social. trabalhar adquire o significado de garantir as condições objectivas e subjectivas para a manutenção e o desenvolvimento da existência do homem. Todos estes motivos consolidam um tipo de trabalho. Neste sentido. não permitindo a criatividade. perante um sistema produtivo capitalista. O recriar. Desenvolve-se um tipo de organização social na qual o trabalho é a principal referência de tempo usada pelo indivíduo na orientação de sua vida. designado por Marx de trabalho alienado. o trabalho é produto do homem. referente aos conteúdos 133 . associado à ideia de prazer. tudo gira em torno do trabalho e dos intervalos de tempo entre o exercício do mesmo. da cultura e civilização humana. Com o objectivo de definir este conceito. contudo. No entanto.

pelo lazer. pela existência de condições materiais. afectivos. desportivos. intelectuais. nacional e global) e as relações entre os indivíduos e a natureza. artísticos. Neste sentido. que as inovações tecnológicas transformam.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO que a envolve.proporcionadas. interactivos. sócio-culturais. vida em sociedade e repleta de interacções. mas complementares. modificam e alteram o espaço geográfico em todas as escalas (local. nesta perspectiva. criativos. entender o prazer como uma necessidade supérflua. ainda. COMUNICAR A comunicação é uma componente indissociável do nosso habitar. estabelece-se uma separação de mundos que não são opostos. ao não incluir as condições subjectivas . económicos. estéticos. no sentido da comunicação virtual. como condições essenciais para a manutenção da existência humana. e proporcionando uma quantidade exagerada de informações. cada vez mais mecanizado com profundas alterações no modo de produzir. e somente. Afirmou. é reforçar a dualidade clássica entre vida material e vida subjectiva. etc. entre outros. Ele definiu a era da informática como algo perigoso. porque nos leva à perda da noção da realidade. políticos. portanto. O prazer assume-se como elementar no equilíbrio das funções da vida humana. venha abranger os propósitos que formam a globalidade do ser humano. O espaço geográfico torna-se deste modo. cuja implicação na sociedade actual foi explorada por Paul Virilio. mas não a manutenção da vida especificamente humana. 134 . Como se fosse possível a existência do ser humano e da sociedade humana apenas. quebrando distâncias e territorialidades. nas formas de circulação e de consumo. pois. Há. uma preocupação com a manutenção da vida biológica. nomeadamente os aspectos lúdicos.

sobre factos. 214 135 . interessa relacioná-lo com a realidade concreta sobre a qual fazemos incidir a interpretação subjectiva. correspondendo ao raciocínio de aplicação de critérios de juízo de carácter individual. O método de abordagem a este tema. 83 CONSIGLIERI. 1995. Interessa-nos a sua óptica sobre o motor informático. Do motor a vapor ao motor informático e à inferência lógica. “todo o julgamento da sensação emotiva deve ser feito num sentido de raciocínio crítico. Victor: A morfologia da arquitectura. 1920-1970 (II volume). as relações de produção e nossa informação sobre o mundo foram definitivamente transformadas. modificando totalmente a relação com o real. passando pelo motor eléctrico e pelo motor a explosão. segundo os critérios subjectivos identificados e relativos à experiência humana sobre o espaço arquitectónico. 2.”83 Apresentadas e justificadas as funções (instintivas e não instintivas) referentes ao plano individual da habitabilidade. Referência/ Editorial Estampa. ele associa toda a história moderna à invenção de motores.3. Desta forma. O objectivo é. Lisboa. a sociedade vai favorecer a realidade virtual.6 MÉTODO DE ABORDAGEM Segundo a perspectiva fenomenológica. no sentido em que permite duplicar a realidade através de uma outra realidade. p. como acontecia no gestaltismo. e não num processo de associações rígidas. que é uma realidade imediata.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Na sua obra A arte do motor (1996). entendemos a virtualidade como uma componente elementar e caracterizadora do habitar o espaço hoje. analisar o espaço. funcionando em tempo real. assenta nesta relação. referentes ao espaço. Com este.

pois varia de indivíduo para individuo. que faz interpretações da arquitectura enquanto facto para formular uma avaliação. 2005.1 136 .84 A subjectividade da imagem não pode ser compreendida através dos hábitos das referências objectivas. apoiamo-nos na perspectiva fenomenológica. porque é a expressão de uma construção feita a partir de princípios estruturais de uma determinada sociedade. Estas características espaciais correspondem às componentes da arquitectura referidas aquando da análise do lugar arquitectónico. chegamos a um eixo estrutural para a aplicação do processo da construção do lugar arquitectónico. é possível identificar linhas de orientação sobre esta construção subjectiva. no entanto. ou juízo. pois a elaboração de juízo assenta em critérios equivalentes a todos os sujeitos pertencentes a uma mesma sociedade. sobre o qual atribuímos juízos de valor. pode ajudar-nos a reconstituir a subjectividade das imagens e a medir a sua amplitude. intersectando o plano colectivo referente do contexto físico a estudar. Bacherlard afirmou que para estudar os problemas propostos pela imaginação poética é necessário estar presente. Paulo. A esta realidade concreta estão associadas as características que identificam o espaço. enquanto a consideração do inicio da imagem numa consciência individual. A fenomenologia.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO Para tal. subjectivo da «domesticidade» do espaço. e sobre as quais equacionamos a capacidade de construção de significado. Martins Fontes. Gaston: A poética do espaço. S. Deste modo. É sempre uma construção subjectiva. Designamo-la de plano colectivo. e portanto reconhecida por todos os indivíduos dessa sociedade. p. com a construção individual do sujeito. 84 BACHELARD. “presente à imagem no minuto da imagem”. e aplicado sobre espaços reconhecidos colectivamente.

que os critérios de juízo considerados aquando a avaliação da capacidade de habitabilidade de um determinado espaço.37 Diagrama do método de abordagem Com base no raciocínio desenvolvido sobre a aplicação de critérios de juízo. que neste contexto. Depois das constatações elaboradas. e consequente criação do lugar arquitectónico.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO COMUNICAR RECRIAR TRABALHAR CIRCULAR FUNÇÕES CULTURALIZADAS ESTAR COZINHAR DORMIR HIGIENE FUNÇÕES ESPONTÂNEAS APLICAÇÃO PLANO INDIVIDUAL (CRITÉRIOS DE JUÍZO) MOVIMENTO FUNÇÃO CONTEXTO ESCALA TEMPO FORMA PLANO COLECTIVO (FACTOS) Fig. assumiu-se. 137 . são comuns a todos os indivíduos pertencentes a um mesmo grupo. por questões metodológicas. em que se intersectam o plano colectivo do objecto (componentes da arquitectura) com o plano individual do sujeito (componentes que integram a estrutura funcional do habitar) assenta a significação do espaço. e inerentes ao plano individual. refere-se à sociedade ocidental em que estamos em presença.

e sobre as quais desenvolvemos um determinado juízo. podem é. na parte 2. mas. poderiam ser outras. e consoante o espaço em questão. Desta forma. identificadas previamente. a partir da associação do plano humano com o plano da arquitectura. no entanto. Relativamente às componentes do plano colectivo. 138 . foram estas as abordadas por terem sido consideradas as mais pertinentes para a significação do espaço. assumir intensidades diferentes consoante quem os interpreta. com base nas questões colocadas inicialmente a propósito do habitar o espaço contemporâneo. desenvolveu-se uma abordagem ao método de construção do lugar arquitectónico. sempre presentes nas observações que qualquer individuo realize sobre o espaço.PARTE 2: ESPAÇO HUMANIZADO São entendidos como constantes sensíveis. analisando as suas relações. neste caso.

tendo em conta as premissas que actualmente o caracterizam. o mercado. foram o ponto de partida desta investigação. as abordagens teóricas desenvolvidas previamente. no sentido. da tipologia. e sobre os quais se colocaram questões relativas ao conceito de lugar arquitectónico.1 OBJECTO DE ESTUDO. do contexto. assim. baseada na leitura que este faz do espaço. CARACTERIZAÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO A observação de diferentes espaços. do tempo. da função. será considerada num formato de ensaio. do movimento.. enunciados na primeira parte. Por questões de cientificidade na demonstração.PARTE 3: ENSAIO 3 PARTE 3: ENSAIO Estando perante o tema da construção mental que o sujeito faz perante um determinado espaço. etc. e como caso de estudo sobre o processo de construção do lugar arquitectónico. referido a propósito do tema função. optou-se pelo estudo deste conceito na contemporaneidade questionando a forma como habitamos o espaço. 3. Temporalmente. exemplificamos com a experiência directa sobre o espaço em estudo. Trata-se de uma aproximação qualitativa da experiência do sujeito. em que se procede à análise desta temática segundo uma perspectiva original e subjectiva. 139 . Definem-se. a tentativa de aplicação prática dos desenvolvimentos efectuados nas duas partes anteriores. com características diversificadas ao nível da escala. optou-se pela análise de um dos exemplos espaciais apresentados. Neste sentido. os limites espacio-temporais do objecto de investigação.

aos hábitos. e posterior significação. no segundo realiza-se a publicidade. Um equipamento. Referindo-se o primeiro a um espaço resultante da representação do ser privado. aberto a todos. sendo o suporte físico habitável que responde. e por isso. A. A TIPOLOGIA Distinguimos o espaço do «eu» do espaço «dos outros». o mercado enquanto espaço «dos outros». e integrante da estrutura funcional de uma qualquer cidade. a opção foi o Mercado Municipal de Campo de Ourique. por exemplo. Por contraponto. Especificamente. ou seja. espaço relacional e colectivo. optou-se por analisar o espaço de um mercado. E o segundo à representação do ser público. E é esta segunda tipologia de espaço que passamos a analisar. etc. onde o indivíduo deposita a sua imagem social. E tendo a arquitectura funções de carácter público e privado. eficazmente como dispositivo de uso. 140 .PARTE 3: ENSAIO Quanto à delimitação física. um mercado. pois é nela que o individuo se reflecte na sua autenticidade. realizando-o em absoluta conformidade com a malha do bairro. surge a tipologia do espaço público.. onde os referentes são comuns e identificáveis por todos os que o habitam. Esta escolha justifica-se pela pertinência da dialéctica entre espaço doméstico e espaço público. é esta ambivalência que pretendemos explorar ao nível da experiência do sujeito. do indivíduo. ou deverá responder. Couto Martins foi o arquitecto responsável pelo projecto inaugurado em 1934. da capacidade de significação. às expectativas. aos desejos. enquanto equipamento fundamental no quotidiano da vida urbana. Sendo o espaço da «casa» a excelência do lugar arquitectónico. No primeiro realiza-se a «domesticidade».

e a construção de um novo alçado na fachada sul. evita as grandes massas. assumindo-se como parte integrante da leitura global do espaço urbano não se destacando da estrutura construída do bairro enquanto elemento autónomo. dos elementos compositivos. imprimindo-lhe apenas alguns elementos decorativos. Quanto à remodelação e reparação. ou seja. implantado num quarteirão. Assim. Alberto Oliveira e Rosário Vernade. O ENQUADRAMENTO 141 . de uma forma geral. Segundo a memória descritiva. que apostaram na manutenção da traça original do edifício. O aspecto actual data dos anos 80. A ampliação verifica-se na ala sul. o próprio autor do projecto reconhece tratar-se de uma obra mais interessada no aspecto funcional e prático. a proposta da nave central rodeada de lojas. cuja monotonia é cortada pelo balanço da cimalha e das pilastras. Revela uma grande simplicidade e leveza de linhas que se enquadra harmoniosamente no conjunto urbano do bairro. a antiga e a nova. de modo a ocupar todo o terreno onde o mercado se encontra instalado. os objectivos deste projecto são três. Este projecto obedece a um propósito de manutenção da traça original. remodelação e reparação. Do ponto de vista estético. Não tem a pretensão de elaborar o edifício num estilo arquitectónico complexo. opta-se por uma nova arquitectura. ou por mudança. recuperando os valores/vocábulos da arquitectura do mercado antigo através de uma transição por sobreposição. respeitando as características tipológicas e espaciais. A principal preocupação reside na escolha da cor e proporção que anima o edifício. e a marcação compositiva dos cantos e respectivas entradas no edifício.PARTE 3: ENSAIO Trata-se de um edifício de desenho simples. referem-se à conjugação de duas linguagens estilística. feita através de retoques e acrescentos que. ampliação. pouco afectam o desenho primitivo. e as fachadas apresentam extensos lisos. isto é. projecto dos arquitectos José Daniel Santa-Rita.

PARTE 3: ENSAIO

Especificamente, analisamos o mercado municipal de Campo de Ourique por se
encontrar inserido num bairro residencial com uma vocação para o comércio muito
forte e antiga, e onde se encontra uma grande diversidade de estratos sociais que
desde sempre dialogam.
O crescimento demográfico de Campo de Ourique, a partir do segundo quartel de séc.
XX, torna-se notável. O bairro desenvolve-se em duas vertentes sociais, a operária,
que habita os numerosos pátios, e a classe média que vive nos grandes prédios.
Ambas participam activamente em determinados períodos interessantes da nossa
história. Revoltam-se contra as condições de trabalho e salários vigentes nas fábricas,
fazem greves e manifestações contra a participação portuguesa na Primeira Grande
Guerra, e protestam contra o aumento dos preços dos alimentos.
Era uma bairro popular, mas durante os anos 30 e 40 esta tendência foi contrariada
pela fixação de uma classe média com maiores recursos e novos hábitos sociais, o
que proporcionou o desenvolvimento de outro tipo de estruturas, de gosto mais
eclético do que a maioria das tipologias arquitectónicas existentes.

Campo de Ourique é um bairro modelar, em termos de integração social inter-classes
e inter-geracional, de justo equilíbrio entre comércio, serviços e habitação, entre
espaços públicos e privados, e proporção humana (ver Anexo I e II).
Desenha-se segundo uma malha geométrica onde não se assumem excepções
arquitectónicas. Todas as funções, habitacionais, comerciais e de serviço, estão
organizadas de forma equilibrada e formalizadas de um modo integrado. Formalmente
trata-se de um bairro com uma estrutura regrada, composto por um edificado uniforme.

É um bairro caracterizado pelo seu quotidiano, dividido entre a ida ao café, ao
mercado, à igreja, ou ao jardim, hábitos há muito enraizados na população que o
habita. A sua maior qualidade reside na sobrevivência do comércio tradicional e o seu
«espírito de aldeia».

“Ao longo de mais de 50 anos, o bairro foi-se desenvolvendo sempre confinado a cinco
frentes preexistentes e bem definidas: a Basílica da Estrela, setecentista, o Cemitério
142

PARTE 3: ENSAIO

dos Prazeres, de 1833, a Rua Maria Pia, parte da antiga Estrada da Circunvalação, e
as estreitas ruas do Sol a Rato, e Silva Carvalho, nascidas no séc. XVIII. No interior
deste espaço foram definidas as 17 ruas que o compõem, e que formam, no seu
conjunto, uma grelha ortogonal onde alternam vias de circulação e quarteirões,
elementos projectados segundo princípios geométricos tão em voga na mentalidade
urbanística da época. (...) É precisamente o entrosamento desta estrutura urbana,
pontuada por interessantes apontamentos arquitectónicos, com o desenvolvimento de
tipologias residenciais voltadas para uma população de baixos recursos económicos,
que faz de Campo de Ourique um bairro original na capital. Neste contexto, constituem
referências obrigatórias o edifício Arte Nova, onde está inserida a pastelaria A
Tentadora, principal ponto de encontro de famílias do bairro até meados do séc. XX, o
septuagenário Cinema Europa, a Igreja de Santo Condestável, um revivalismo em
tempos do Estado Novo, e até a moradia de Manuel Roque Gameiro, Prémio Valmor
em 1931, mas também estruturas como o Jardim da Parada, o mercado, o cemitério e
até um quartel, cada um deles um pedaço da história e da identidade deste bairro”.85

No entanto, é de salientar que, se está perante a análise de um conceito, e não de
uma forma específica, pois não existe uma forma concreta do lugar, mas antes
atributos da forma arquitectónica que são os fundamentos para a significação do
espaço.
O mercado é um exemplo do plano colectivo sobre o qual atribuímos juízos de valor,
no sentido da construção individual de significado.

3.2

EXPERIÊNCIA. PERSPECTIVA FENOMENOLÓGICA

Para estruturar a análise do objecto de estudo, apoiámo-nos na fenomenologia,
enquanto disciplina que se centra na experiência intuitiva de apreensão do mundo
exterior, e que acontece a partir da significação dos acontecimentos que a constituem.

85

SILVA, Susana Maia: O bairro de Campo de Ourique, em Arquitectura e Vida, nº 56, Lisboa, 2005, p.23

143

PARTE 3: ENSAIO

Esta pareceu-nos a abordagem mais adequada para este tipo de análise, pois
estamos perante uma análise de carácter subjectivo, em que se cruza a experiência
do corpo com um contexto construído.

A fenomenologia defende que os objectos não existem independentemente dos
sujeitos. Toda a consciência é consciência de alguma coisa, ou seja, não existe
consciência sem um objecto de referência, porque um pensamento está sempre
«voltado para» algum objecto.
E do mesmo modo que não pode existir um acto de pensamento consciente sem um
objecto de referência, também, não pode, então, existir um objecto sem um sujeito
capaz de o interpretar e apreender.

Neste sentido, estruturámos a experiência, segundo o método fenomenológico de
Husserl (1907). 86
Este método consiste em três fases, às quais associamos as três etapas,
anteriormente

desenvolvidas,

relativas

à

leitura

do

lugar

arquitectónico,

designadamente, observação, contextualização e significação.

FASE 1 - Descrição do objecto (Husserl) = OBSERVAÇÃO
A descrição do objecto da experiência é elaborada como se tratasse de um primeiro
encontro entre o intérprete e o objecto. Esta postura é designada por epoché, e que
significa pôr em suspensão o que se conhece.
O objecto deve ser descrito como se o sujeito que o experimenta, não soubesse nada
a seu respeito, ignorando as memórias e os valores sugeridos pelo objecto em estudo.
Nesta fase, o sujeito, não se preocupa, igualmente, em descobrir as causas

86

HUSSEL, Edmund: A ideia da fenomenologia, Lisboa, Edições 70, 2008

144

PARTE 3: ENSAIO

justificativas da existência do objecto. Tem-se o cuidado de não deixar o sentido
estético interferir nesta descrição.

FASE 2 - Exploração do objecto (Husserl) = CONTEXTUALIZAÇÃO
Esta fase constitui-se através de perguntas colocadas à fase da descrição, com o
objectivo de explorar mais profundamente o objecto em questão.

Esta exploração, permite ao intérprete verificar que, algumas das partes identificadas
na descrição podem ser retiradas, sem comprometer a própria estrutura do objecto em
análise. A estrutura, é aqui entendida, como o conjunto mínimo de informação que
garante a identificação do objecto como tal. Define-se o que é essencial à identificação
deste.
Esta fase é concluída com uma nova consciência sobre o objecto da experiência.
Neste sentido, o objecto é definido, as partes que o constituem são identificadas, e o
conteúdo do que é essencial e do que não é essencial é distinguido.

FASE 3 - Direccionamento da consciência (Husserl) = SIGNIFICAÇÃO
Este direccionamento corresponde ao sentido que o objecto assume perante a
consciência do indivíduo.
Na teoria de Husserl, este sentido acontece através de várias modalidades relativas
aos processos mentais. Estes processos são conhecidos como afeição (eu sinto),
apreciação (eu julgo) e cognição (eu penso). Husserl procura, nesta última fase, o
«eu» submerso na experiência.
Assim, a descrição final do objecto da experiência é a consciência do intérprete (eu) e
da intencionalidade do objecto (outro).

3.3

ANÁLISE. INTERPRETAÇÃO INDIVIDUAL

A análise desenvolvida teve como base, a experiência directa sobre um espaço
específico. Como complemento ao discurso das palavras, são apresentadas imagens
145

a sua constatação. para velhos e novos utilizadores. FASE 1: OBSERVAÇÃO Nesta fase realiza-se a objectivação do objecto. e vegetais com o sabor de «antigamente». roupa. com propósitos comuns a todos os outros utilizadores. e no Mercado Chocolate. ou seja. Desta forma. a análise do plano colectivo. sapatos. tornando-o auto-suficiente ao nível da resposta que dá às funções da vida humana. aplicando os critérios de juízo (plano individual) sobre o plano colectivo da arquitectura referente à tipologia em questão. esta fase será comum a todos os intérpretes desta tipologia espacial. Interessa constatar a condição do objecto de modo objectivo. mas também lojas de acessórios de design contemporâneo. A experiência foi realizada. o desafio é gourmet. captadas aquando essa experiência. Esta experiência estrutura-se segundo as três fases referidas no ponto anterior. e que ilustram as diferentes fases da leitura do lugar arquitectónico. entre elas. lojas de batas.PARTE 3: ENSAIO ilustrativas. é possível comprar iogurtes de soja. enquanto sujeito utilizador deste espaço. O mercado de Campo de Ourique tem cerca de 30 lojas viradas para o exterior. 146 . No Mundo Biológico. É o levantamento da situação. velhos e novos negócios. A função deste equipamento é complementar de toda a estrutura funcional que caracteriza um meio urbano. a partir da interpretação individual do sujeito. com fondues de chocolate de sabores inigualáveis. no sentido de clarificar o processo de construção do lugar arquitectónico. Nele encontramos todas as actividades comerciais.. e ainda sem qualquer interpretação. talhos. por exemplo. a procura pela satisfação das funções da vida humana. que consiste na identificação da arquitectura.

Fig. Nele vemos (visão). Com o observação das pessoas apercebemo-nos de rituais e costumes. e dos produtos que nele encontramos e que identificam a função efectiva que este espaço nos proporciona. a componente humana é igualmente relevante. num diálogo equilibrado. nomeadamente sobre o enquadramento do edifício na envolvente e a sua presença enquanto objecto arquitectónico. Permite uma miscelânea de estratos sociais. São imagens de carácter geral resultado de uma aproximação objectiva ao objecto em estudo. Seguem-se algumas imagens referentes a esta fase da experiência. das pessoas que o utilizam e que o tornam um «melting pot» social.38 Sinal informativo 147 . E ele caracteriza-se em função de tal. cultos e iletrados.PARTE 3: ENSAIO Para além dos produtos disponíveis. cheiramos (olfacto). pondo em contacto ricos e pobres. sentimos (tacto) e provamos (paladar). Outro aspecto a salientar prende-se com a capacidade que este espaço tem de despertar os nossos sentidos. das pessoas que nele trabalham e que lhe conferem a função que o identifica. Esta tipologia é das que mais proporciona a activação de todos os sentidos em simultâneo. novos e velhos. ouvimos (audição).

PARTE 3: ENSAIO Fig.41 Painel informativo do Mercado 148 .40 Fachada Mercado Campo Ourique Fig.39 Envolvente Mercado Campo Ourique Fig.

42 Utentes do Mercado Fig.43 Utentes do Mercado Fig.PARTE 3: ENSAIO Fig.45 Trabalhador do Mercado 149 .44 Trabalhador do Mercado Fig.

46 Bens de consumo Fig.47 Bens de consumo Fig.48 Bens de consumo Fig.PARTE 3: ENSAIO Fig.49 Bens de consumo 150 .

quer as que desempenham o papel de consumidores. Sendo um espaço colectivo e relacional. também. portanto. comum a todos os intérpretes pertencentes à mesma sociedade. etc. resultantes da nossa cultura alimentar. relacional. a interacção entre as pessoas com que nos cruzamos. relacional e histórico. Enquanto espaço identitário. no que diz respeito à função que ele exerce. o objecto foi descrito partindo do princípio que o conteúdo desta descrição é comum a qualquer sujeito. quer as que nele trabalham. com o que o identifica. Os mais velhos entram ali quase todos os dias. É uma fase da experiência. e com o que ele nos proporciona. nele encontramos referências comuns a todos. deparando-nos com produtos de consumo familiares. são fundamentais para a nossa percepção do espaço. esta experiência fundamenta-se na relação que estabelecemos com quem o utiliza. onde os indivíduos se reconhecem a eles próprios e aos outros. mais ou menos comuns. não deixando o sentido estético interferir na observação realizada. sendo sinal de um ritmo quotidiano. Caracterizámo-lo enquanto espaço antropológico. Enquanto espaço colectivo e. e os mais novos aparecem mais pontualmente. 151 . considerando as premissas que Marc Augé (1992) delineou para definir lugar antropológico: um lugar identitário. FASE 2: CONTEXTUALIZAÇÃO Nesta fase apercebemo-nos do que caracteriza a experiência sobre este espaço. cruzamo-nos com pessoas de estrato social variado. identitário e histórico. entre os que vendem e os que compram. à procura dos sabores que dizem faltar nos produtos das grandes superfícies.PARTE 3: ENSAIO Sob o ponto de vista fenomenológico. vêm pela manhã. e o que a distingue de outros espaços.

É um espaço universal ao nível da sua função e reconhecido globalmente. Trata-se de um espaço contextualizado. Para ilustrar a presente constatação. existem referências que nos remetem para um tempo passado com a presença de memórias efectivadas pelos costumes. consoante a localização. pelas pessoas e pelo espaço em si. serviços e ritmos diferentes em conformidade com a sociedade em presença. ou de um mercado asiático. Facilmente diferenciamos um mercado europeu. de um mercado africano.PARTE 3: ENSAIO Enquanto espaço histórico. Mas. apresentamos imagens de tipologias de mercado pertencentes a diferentes culturas. Fig. onde podemos identificar o contexto cultural em que se inserem. De facto. Dando respostas às necessidades específicas de cada sociedade. assume a identidade específica do sítio em que se encontra inserido. um mercado funciona de igual forma em todo o mundo. Nele encontramos produtos.50 Mercado no Gana 152 . Distinguimos a localização de um mercado consoante o que nele encontramos.

53 Mercado na Turquia Fig.51 Mercado na África do Sul Fig.54 Mercado no México 153 .52 Mercado na China Fig.PARTE 3: ENSAIO Fig.

Constituiu-se uma nova consciência sobre este.55 Mercado na Índia Fig.56 Mercado de Campo de Ourique Também enquanto repositório de memórias.PARTE 3: ENSAIO Fig. permitindo-nos seleccionar e identificar as características que o identificam. nesta fase. o objecto foi explorado com maior profundidade. Segundo a perspectiva fenomenológica. 154 . o espaço do mercado assume-se como elemento identitário de determinada cultura.

que varia de sujeito para sujeito segundo a forma de olhar e as expectativas específicas de cada um. nomeadamente o circular. não interpretamos o contexto do objecto dissociado da sua função ou da sua escala. Iniciamos a análise com a apreciação das função designadas por culturalizadas. Justificando-as de forma sintética. analisámos a intensidade que as várias funções da vida humana adquirem com esta experiência. Consiste numa análise subjectiva do espaço. identificáveis por todos os indivíduos pertencentes a esta mesma sociedade. por exemplo. Mas esta atribuição não acontece em função das partes. Considerando a tipologia do mercado enquanto espaço a analisar. Desta forma.PARTE 3: ENSAIO FASE 3: SIGNIFICAÇÃO Nesta última fase. através de um breve comentário e imagens ilustrativas. já se constitui uma interpretação pessoal. conferindo determinado valor em função do plano colectivo. e perante este espaço. Esse valor é concebido segundo critérios de juízo que projectam o ideal do espaço interpretado. e que são aplicados sobre as características concretas do objecto em estudo. recrear e comunicar. analisamos cada função individualmente. 155 . podemos atribuir juízos de valor sobre as componentes do plano colectivo referente à arquitectura. No sentido em que. mas em função do todo que a arquitectura representa. Nesta fase. trabalhar. independentemente dos critérios utilizados serem universais neste contexto. atribuímos sentido ao espaço através da experiência obtida.

uma pausa na rotina acelerada da existência na sociedade contemporânea.58 «Circular» no Mercado 156 . e acontece em função de um determinado tempo. Fig. observação e acção.57 «Circular» no Mercado Fig. Consiste em nos movermos entre o ponto de origem e o ponto de destino. na escolha e obtenção de algo que se traduz em termos de prazer. em simultâneo. pois trata-se de um momento de paragem.PARTE 3: ENSAIO CIRCULAR Resulta do próprio movimento de deslocação que implica a acção «ir ao mercado». e que em pode ser considerado. É um tempo em que se desenvolve determinada actividade.

60 «Circular» no Mercado Fig.59 «Circular» no Mercado Fig.61 «Circular» no Mercado 157 .PARTE 3: ENSAIO Fig.

62 «Trabalhar» no Mercado Fig. São actividades que todos os utilizadores reconhecem. que desenvolvem uma actividade distinta. e ao mesmo tempo. E este espaço de trabalho caracteriza-se pela especificidade das actividades que nele acontecem.PARTE 3: ENSAIO TRABALHAR No mercado para além da presença dos indivíduos consumidores. É um espaço de trabalho para uns.63 «Trabalhar» no Mercado Fig. encontramos outros. o trabalho.64 «Trabalhar» no Mercado 158 . Fig. um espaço de lazer para outros.

pela observação de pessoas anónimas. estabelecemos uma relação com os outros. algumas acções paralelas.66 «Recrear» no Mercado 159 . É um espaço relacional por natureza. em complemento das componentes materiais e concretas. exercendo a nossa publicidade. pois nesta tipologia. ilustrado. traduz-se numa oportunidade de apreensão cultural. Concretizamos. devido às actividades extra-mercantis que desenvolvemos. pelo encontro com vizinhos. a experiência no mercado assume-se como um momento de descontracção..65 «Recrear» no Mercado Fig. faz parte da nossa identidade cultural. Entendendo o recrear como uma componente fundamental para o nosso equilíbrio de vida. etc. No mercado interagimos com os outros.PARTE 3: ENSAIO RECREAR O uso do mercado. no sentido em que procuramos e satisfazemo-nos através da obtenção de bens/ serviços que nos proporcionam prazer. E também. ou o momento para a compra do jornal. Fig. pelo diálogo que estabelecemos com os vendedores. igualmente. e portanto. como a pausa para o café.

é por excelência um espaço de comunicação. comunicamos através do contacto directo.68 «Comunicar» no Mercado Analisadas as funções culturalizadas. Aqui entendido de forma oposta à comunicação virtual que cada vez tem mais expressão. 160 .PARTE 3: ENSAIO COMUNICAR Sendo um espaço relacional. enaltecendo a escala do local e privilegiando a relação com o real.67 «Comunicar» no Mercado Fig. No mercado. Fig. concentremo-nos agora nas espontâneas.

o lugar pode adquirir uma multiplicidade de significados. etc. as funções espontâneas estão relacionadas com o domínio do ser privado. e portanto. são as funções culturalizadas. função.4 REFLEXÃO CRÍTICA Para o estudo da arquitectura. tempo. a higiene. movimento. o dormir. não se manifestaram aquando a experiência nesta tipologia. são de uma importância vital. e a reflexão sobre a experiência e a teoria do lugar. 161 . de facto. Pois a obra arquitectónica é. Desta forma podemos concluir que. e não obra independente do mundo. de natureza doméstica. elas ganham intensidade. e que determinam a atribuição de sentido ao espaço por parte do intérprete. E é esta dimensão interpretativa do espaço que o torna capaz de se transformar em lugar. em que o lugar necessita de um sujeito interpretante para o fazer existir. desde logo. e ganhando uma nova dimensão. as mais presentes. proporcionam-se outros aspectos que permitem que cada sujeito veja algo que outro não vê. 3. Para além das características formais que identificam um determinado espaço (forma. no sentido. nas tipologias de espaço privado. com a criação do lugar. especificamente. não com a mesma expressão das não instintivas. Mas esta constatação não surpreende.PARTE 3: ENSAIO Estas funções. . o contacto directo com as coisas. e portanto. escala. ou pelo menos. O lugar é algo mais do que o que se encontra objectivado através da sua construção. tomando diferentes sentidos. perante uma tipologia arquitectónica de carácter colectivo.). obra no mundo. no sentido em que. o cozinhar e o estar. contexto. e a análise efectuada justifica-o. sendo o lugar o seu «habitat».

considerados anteriormente. Sendo. de um ser situado. então. no entanto. criticamos o espaço. pois apenas estaríamos a descrever objectos arquitectónicos. assentes em funções. E com base na identificação destas funções. o espaço que habitamos e os lugares que criamos. incorpora vários aspectos formais. o tempo. e que só associados têm leitura. e a arquitectura. em vez de compreender os lugares. e culturalizadas. de um espaço cultural. neste trabalho. essenciais da vida humana contemporânea. nomeadamente. em relação com um meio. a escala. em cada sujeito. concluímos que estes não podem ser avaliados individualmente aquando a experiência no espaço. pois são atributos da forma arquitectónica indissociáveis. efectivamente. enquanto a experiência de relação com o mundo. E. Isto porque o mercado. a função. Este espaço é a arquitectura. o lugar arquitectónico. não se manifestam na sua totalidade se nos limitarmos a explicar os seus aspectos formais. os referentes do plano subjectivo que se destacaram para a formulação de juízos na leitura do espaço do mercado. consideradas. o contexto e o movimento. da vida humana. Estes critérios de juízo. não apenas como objecto. o lugar é entendido. entendido.PARTE 3: ENSAIO Foi interessante constatar que. por conseguinte. Este espaço. foram os referentes às funções culturalizadas. estão presentes em toda a consciencialização de determinada acção. mas enquanto relação que define o modelo a partir do qual se espacializa. Esta «domesticidade» é uma qualidade do espaço que surge em consequência da capacidade de resposta às funções espontâneas. Neste sentido. 162 . o sentido de «domesticidade». Relativamente aos aspectos formais. trata-se. como resultado da atribuição de sentido por parte da experiência dos seus intérpretes. é aqui assumida. enquanto processo que estrutura a atribuição de sentido sobre as premissas espaciais em qual assentam os critérios de juízo. a construção do lugar arquitectónico é entendida.

onde o sujeito actua. porque proporciona uma significação. Esta não simultaneidade de intensidade da presença das funções. através da resposta que nos fornece relativamente às funções que nele procuramos. pode pôr em causa a capacidade de criação de um lugar arquitectónico? A partir do momento. por exemplo. e que encontramos. designado como plano colectivo. e não apenas sobre a função desse espaço. constatamos que o mercado constitui uma síntese que satisfaz as funções da vida humana.PARTE 3: ENSAIO Deste modo. é a caracterização do plano colectivo do objecto espacial. E variam consoante o olhar de cada um. e portanto. a experiência foi realizada tendo em conta a totalidade das componentes do espaço arquitectónico. enquanto que um espaço colectivo evidencia mais marcadamente as funções culturalizadas. é esta dinâmica de constatação das respostas às funções que procuramos. consoante a natureza arquitectónica do espaço em presença. um espaço doméstico realçará mais as funções espontâneas. No entanto. Na realidade. Relativamente à tipologia do mercado. estamos em presença da significação da forma. Portanto. A intensidade destas funções não depende. Ou seja. mas encontra-se imanente nos desejos e expectativas de quem a percepciona. que define a atribuição de sentido por parte do intérprete. ou o contexto. o facto de não estarmos em presença. da construção do lugar arquitectónico. 163 . que despertam a nossa crítica sobre o sentido que atribuímos ao espaço. cada tipologia espacial. Isto porque. o processo de atribuição de significado ao espaço não é condicionado. de todas as funções com uma intensidade semelhante. criando um sentido segundo o seu modo de ver. e sobre o qual interpreta segundo os critérios que considera adequados. apenas das respostas que a arquitectura fornece no sentido de as propiciar. intensifica mais umas funções do que outras. que exista um plano colectivo.

Como salienta Norberg-Schulz. já que um lugar é um fenómeno qualitativo e «total». o «carácter ambiental» denota um valor. espontâneas e culturalizadas. e que não pode ser reduzido a nenhuma das suas propriedades sem perder de vista a sua natureza concreta (Norberg-Schulz. Sem uma conceptualização. O espaço social é um espaço.PARTE 3: ENSAIO O mercado tem uma finalidade que se constitui no valor útil. Sendo este a síntese destas funções articuladas em função de um uso. não existem instintos básicos. mas antes. formam um determinado ambiente. Para além da experiência referir-se ao plano visível da arquitectura. obrigatório existir um edifício. exercitando um processo de sedução à identidade humana. que pode ser utilitário. interpretado de um modo operativo. em conjunto. não sendo. O que se encontra na base da nossa identificação é a agregação destas funções. ontológicas e artísticas. nos relacionamos com os «outros». onde desenvolvemos a vida. Foi a arquitectura que inventou os objectos habitáveis. A arquitectura não qualifica. constituída de factos concretos que. também. ordenado pela arquitectura. Estabelece a lógica. A arquitectura institui uma ordenação do espaço. uma atmosfera própria que se traduz pelo «carácter ambiental». O lugar é uma totalidade significativa. Só há sentido da forma a partir do conceito que ela exprime. enquanto função articulada com outras funções estéticas. interessa. através da qual. 1980). enquanto conceito ambiental da vida humana. 164 . necessariamente. Mais do que um conceito. éticas. o lugar não é uma mera localização onde ocorrem os acontecimentos. fazer uma alusão ao plano não formal da arquitectura. permite a sobrevivência em sociedade.

efectivamente.NOTAS CONCLUSIVAS NOTAS CONCLUSIVAS Segundo uma postura fenomenológica. 165 . no sentido em que se tratou. E a partir deste ponto. sobre as suas relações.). e transferimos o conhecimento para os casos singulares. novas generalidades a partir de conhecimentos universais. considerando. Esta dissertação foi desenvolvida assente nesta perspectiva. ou deduzimos. explorando a relação entre o sujeito e o meio envolvente. e exprimimos o que experiência directa nos oferece. Depois generalizamos. explorados através da observação e da experiência directa sobre o espaço. a partir de delimitações e considerações. primeiramente. sem objectivos quantitativos. e o modo como o sujeito habita espaço contemporâneo (ponto 1. de um estudo sobre o espaço e o habitar a arquitectura. sobre as suas mudanças. em função da significação da forma arquitectónica na perspectiva da experiência do sujeito. mas com propósitos reflexivos sobre o tema em questão. retomamos o ponto de partida. no pensamento analítico. De que modo se processa a construção do lugar. fundamentadas em princípios teóricos constatados. fazemos enunciados sobre as coisas. como a possibilidade que contêm no sentido da formulação de juízos. iniciou-se o desenvolvimento do estudo do processo de «lugarização». e reequacionamos a questão essencial que colocámos como base de investigação. enquanto significação do espaço por parte da experiência do sujeito? Para formular a resposta. desenvolveu-se uma análise através da observação de diferentes tipologias espaciais. Dado por terminado este percurso de discussão sobre a construção do lugar arquitectónico.1. tanto a componente formal que lhe és inerente.

Designámo-lo por dimensão do Homem. aprofundando as noções de identidade. com o objectivo de compreender esta criação de sentido. e que identificam a arquitectura enquanto cenário da experiência humana (ponto 2.). 166 . interpretação e significação. explorando apenas alguns conceitos. Estes atributos foram. nomeadamente o tempo. mas por questões metodológicas limitou-se o campo de desenvolvimento deste tema. relativas a atributos específicos da forma arquitectónica.3.2.) A «lugarização» acontece através da qualidade de «domesticidade» que pode ser atribuída ao espaço pela leitura que dele fazemos. Esta leitura foi desenvolvida segundo três fases.NOTAS CONCLUSIVAS Estas observações. percepção. com a dimensão do espaço arquitectónico. analisando as suas relações. concretizadas através da experiência directa sobre o espaço levantaram. a observação (objectivação do objecto). outras questões. (ponto 2. foi desenvolvido outro elemento fundamental no processo de significação. considerados de maior relevância. em função de determinado espaço. cuja síntese permitiu a sua conceptualização. a escala. segundo as condicionantes que permitem ao sujeito constituir-se enquanto sujeito intérprete. e âmbitos. Em paralelo com esta dimensão do espaço arquitectónico. que denomina-mos de «lugarização». a contextualização (validação da objectivação) e a significação (síntese entre a observação e a contextualização). no que denominámos de conceito de lugar arquitectónico. considerados como componentes do plano colectivo. desenvolvemos um capítulo referente à arquitectura enquanto resposta ao lugar do homem. relativos à arquitectura. (ponto 2. A estes atributos podem ser adicionados outros. o sujeito.) Relacionando a dimensão do homem. ficámos em presença da possibilidade de criação de sentido por parte do sujeito. o contexto. Este elemento foi explorado. a função e o movimento. Para tal. posteriormente.1.

. hierarquizando-as em sete níveis. as funções instintivas e as funções não instintivas. Sleeping. e relacionando as duas dimensões referidas anteriormente.4). Este plano individual. o habitar. que também no início dos anos 60. fundamentadas. o estar e a higiene. organizando-as em duas categorias. Elas são naturais e automáticas. de lhe proporcionar a satisfação das funções da vida humana. identifica um conjunto de necessidades humanas. Estas duas categorias surgem em sequência da dialéctica entre razão e emoção desenvolvida por António Damásio(1994). encaradas como condições de sobrevivência. o circular e o recrear.3. que assumimos. Este consiste na atribuição de sentido através da leitura do espaço que o homem realiza através da experiência directa. e por último. em função de critérios de juízo. Le Corbusier (1933) e as quatro funções essencias da vida urbana. o dormir. como fundamentais para o equilíbrio da vida humana contemporânea ocidental. para encontrar um equilíbrio. Kitchen e Living. permitindo atribuir valores. e que se desenvolve nas três etapas mencionadas. diz respeito a funções da vida humana. A. As funções instintivas estão associadas às necessidades básicas do ser humano. o trabalhar. que assentam nas respostas que a arquitectura concede ao homem. criando a denominada «pirâmide das necessidades».5). Moslow. em três teorias desenvolvidas por autores distintos. delimitámos um grupo de funções. Norberg-Schulz (1965) e as quatro funções básicas referentes ao espaço doméstico: Hygiene. e aplicados sobre o plano colectivo (ponto 2. Designadamente. a propósito da temática sobre motivações e necessidades que o homem desenvolve a partir do meio que o envolve.NOTAS CONCLUSIVAS Com base nesta sistematização da leitura. neste trabalho. Como síntese destas abordagens. nomeadamente o comer.3. 167 . estamos em condições de estruturar um método de construção do lugar arquitectónico (ponto 2. explorando a relação entre o corpo e o espaço. no sentido. Estes critérios de juízos são formulados segundo o que denominámos de plano individual. metodologicamente.

Esta aplicação de critérios de juízo (plano individual) sobre um determinado facto (plano colectivo) define o método de abordagem à questão da atribuição de significação. mesmo não se podendo definir uma forma concreta enquanto paradigma do lugar arquitectónico. não sendo apenas uma «representação». a material e a espiritual. e em formato de ensaio.2). são aquelas que o homem adquire consoante o contexto em que se encontra. por estarmos. Posteriormente. Para tal. estando todas subjacentes a uma conveniência do objecto às nossas necessidades globais. o recrear e o trabalhar. A arquitectura é uma física do espaço. proporciona as respostas às funções da vida humana. podese sim. a experiência foi estruturada conforme o método fenomenológico de Husserl (1907). criando mundos onde se dispõem e onde se deslocam as existências. associando-o com as três fases de leitura do lugar arquitectónico constatadas anteriormente (ponto 3. fundamentalmente. tanto para se sentir realizado relativamente às exigências do meio. em qualquer significação do espaço por parte do sujeito. 168 . o circular. como para dar respostas em conformidade com as práticas desse meio. verificámos que. perante uma forma mental construída pelo sujeito em função do que o circunda. a vivencial. E enquanto cenário da vida humana. Definimo-las como o comunicar. a arquitectura refere-se-nos em três ordens. E é na medida em que a arquitectura toca esta questão existencial. sempre presentes. pretendeu-se efectivar estes desenvolvimentos através da experiência individual sobre um espaço concreto. que a consideramos como substância fundamental da vida humana. Neste sentido.NOTAS CONCLUSIVAS A funções não instintivas. identificar linhas condutoras. ou um «instrumento». Concluímos que a arquitectura.

uma psicologia introspectiva e um raciocínio próprio da nossa experiência. a abordagem a este tema. dois níveis fundamentais. mas inserido num contexto de tradição que o marca historicamente num tempo e num espaço. de carácter «físico». relacionado com os prazeres fisiológicos do Homem. entendemos que nenhum sujeito se encontra num modo de ser neutro quando analisa um lugar. foi a condição histórica. Ao incluir a historicidade na compreensão da leitura do lugar. mas também um método mental onde se conjugam uma análise. destacam-se na experiência. considerado para a clarificação desta temática.NOTAS CONCLUSIVAS Assim. mas antes o gosto e as realizações que constituem as ideias dominantes na nossa teoria de arquitectura e da produção da existência. e a percepção são inseparáveis. pretendeu-se delinear raciocínios e questionar a essência do nosso «ser» conferida pelo espaço que habitamos. Mais do que chegar a conclusões efectivas. Outro aspecto fundamental. e outro. por sua vez. assentou na necessidade de uma síntese da conceptualização do habitar através da aferição do processo de «lugarização» partindo do principio que a arquitectura é a base onde se desenrola a experiência. Os psicólogos consideram que. Este. a percepção imaginativa. a experiência. nem «descobrir» a problemática espacial dos factos. é o primeiro nível que nos interessa. Enquanto que a percepção vulgar limita-se à realidade e aos conceitos de ver e acreditar. E este foi o principal objectivo da presente dissertação. 169 . Para a experiência da arquitectura. Segundo Victor Consiglieri (1995). subdivide-se em percepção vulgar e percepção imaginativa. O que se pretende não é «descobrir» os valores do objecto. um de carácter intelectual. não é apenas uma atitude do olhar. explorar a dimensão individual face à experiência sobre a arquitectura. que localiza o sujeito num determinado tempo e num determinado espaço. sendo de importância vital para a compreensão e interpretação do lugar.

podemos sintetizar a resposta com a enumeração de algumas conclusões: . . no âmbito da arquitectura. reconhecido pelas características identitárias do espaço em questão. e que ocorre através da leitura do espaço.Estamos perante um valor objectivo do conceito de lugar que é ideal. de modo a poder criar um conjunto de princípios sobre os quais assentaram os pressupostos com que se trabalhou. acontecendo pelo acto de habitar. nomeadamente no Laboratório Nacional de Engenharia Civil. estão hoje estabilizados. porque se trata de uma construção individual. considerando uma determinada sociedade num determinado tempo. raramente são sistematizados no domínio desta disciplina. Abordar a realidade do habitar. teve como premissa. Respondendo à questão central colocada no início da presente investigação. por 170 . num determinado meio. . pelo facto de se tratarem de construções mentais e. carente de requalificação desses mesmos valores.A significação do espaço é a resposta que a arquitectura fornece ao lugar do homem.O espaço torna-se lugar arquitectónico. num determinado tempo. . é uma temática pertinente num país com tantos valores paisagísticos e urbanos. e outros aspectos mais objectivos. Mas os aspectos subjectivos. e dos espaços analisados. e ao mesmo tempo. e resulta da experiência e percepção de um determinado espaço.O habitar define-se pela atribuição de valor. essa construção é sempre referente ao real. que o sujeito confere aos contextos objectivos do espaço. no entanto. . sempre que a experiência do sujeito aplica juízos de valor na atribuição de sentido individual ao plano colectivo da arquitectura. a contextualização do sujeito.NOTAS CONCLUSIVAS E todo o desenvolvimento desta dissertação. por um determinado sujeito. possivelmente. estabelecendo critérios de juízo para a sua formulação. Estudos sobre dimensões.A «lugarização» resulta da experiência sobre a arquitectura.

e que clarificam a essência desta relação. E é neste sentido. sobre a arquitectura e a sua relação com o sujeito. a condição de experiência da vida humana. 171 . Não só com o objectivo de se saber mais. No entanto. enquanto quadro da existência. que este tema permite desenvolvimentos futuros. particulares. A arquitectura é.NOTAS CONCLUSIVAS isso. de natureza não mensurável. assim. e portanto. esta dissertação permitiu reunir conceitos e princípios que investigam esta dimensão individual face à dimensão espacial. mas também com o propósito de se pensar mais. variando de sujeito para sujeito. de modo a aprofundar as noções tratadas.

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ANEXOS ANEXOS 191 .

13 de Março de 2008.6 192 . pág.ANEXOS ANEXO I – Diagrama da actividade comercial do bairro de Campo de Ourique Fonte: Jornal “O METRO”.

blogspot.html 193 .ANEXOS ANEXO II – Mapa locais de interesse do bairro de Campo de Ourique Fonte: http://gatosgatafunhos.com/2008/04/agora-estacionar-em-campo-de-ouriqueno.

exposição «Desenhos de construção com casa.64 194 .224. e céu» de Carlos Nogueira Fonte: Jornal dos Arquitectos. 2006.ANEXOS ANEXO III – Texto para Casa da Cerca. Almada. pp. Nº.