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A EUTANÁSIA COMO UM DIREITO DA PERSONALIDADE

THE EUTHANASIA AS RIGHT OF PERSONALITY
1. Introdução
Ao longo dos anos e, principalmente, após a Segunda Guerra Mundial, os
avanços tecnológicos no campo da medicina e da saúde foram extraordinários. Porém,
podem gerar alguns resultados que levam a problemas ético-jurídicos voltados à vida, à
morte e ao paciente terminal.
A criação da biotecnociência deu origem a uma grande reação da ética e do direito,
exigindo que a prioridade fosse dada ao respeito à dignidade da pessoa humana. A partir
desse ponto torna-se mais evidente a luta pelo direito de morrer. A morte que, antigamente,
ocorria em larga escala, por conta da ineficácia da Medicina, começa a ter artifícios para a
cura de determinadas doenças a partir do século XX.
O progresso científico vem transformando a atuação da medicina tradicional. Há
alguns anos não poderíamos falar em legalização da eutanásia, ou crer que um paciente
terminal pudesse ser mantido, em estado vegetativo irreversível, numa UTI, ao longo de
vários anos.
Contudo, chegamos a um ponto que as pessoas não mais ficam amedrontadas com
a morte, mas sim com a vida sem dignidade, dignidade tão sonhada pelo indivíduo em fase
terminal que almeja apenas a sua morte. Defendida pela Constituição Federal de 1988, é
evidente que o Estado, não só deve garantir a existência digna da população, mas também
garantir uma morte digna.
Defronte da abundância de opiniões divergentes, advindas da laicidade, da religião e
de fontes jurídicas, surge a Bioética e, assim, o Biodireito, visando à sistematização, o
estudo e a produção de respostas às questões éticas e jurídicas que se manifestaram com o
grande avanço da Biotecnologia, já citado anteriormente. Dentre estas questões, a
Eutanásia certamente é das mais polêmicas e controversas.
A morte que sempre foi vista como um sinônimo de sofrimento se apresenta como a
única felicidade que resta ao ser humano que se encontra em estado terminal. A realidade
dos doentes terminais aliada às modernas tecnologias médicas, que possibilitam longas
sobrevidas trazem até nós a técnica polêmica da eutanásia, dando origem a grandes
dilemas éticos, morais, religiosos, filosóficos e, sobretudo, jurídicos.
A existência humana pode ser encerrada por vontade própria? Deve o Direito
possibilitar que alguém em grande sofrimento possa requerer a terceiros que encerrem sua
vida? A dignidade da pessoa humana alberga o direito de morrer? São perguntas
tormentosas que esta pesquisa, junto com os direitos da personalidade tentará responder.
Primeiramente, é de suma importância esclarecer o verdadeiro conceito de
eutanásia, já que esta palavra é usada de maneira diferente e, em alguns momentos, de
forma errada em seu sentido lato, gerando uma verdadeira confusão conceitual. Baseado
nisso, podemos recorrer à Maria Elisa Villas-Bôas:

1 VILLAS-BÔAS. há quem sustente a necessidade de admitir-se legalmente. Da Eutanásia ao Prolongamento Artificial. ou de seu representante legal. a pedido seu ou de seus familiares. ainda. E como objetivo principal da pesquisa se encontra a relação que será feita entre o direito à morte e a dignidade da pessoa humana. que. ante o fato da incurabilidade de sua moléstia. recursos farmacológicos. É uma morte que ocorre sem passar pela sua trajetória natural. através do consentimento do paciente. pela qual se excluía a pena do médico que a efetivasse em caso de pedido de doente terminal.” 1 Buscamos investigar um conceito mais delimitado sobre a eutanásia. um homicídio privilegiado. que não possui possibilidade de melhora. da insuportabilidade de seu sofrimento e da inutilidade de seu tratamento. a eutanásia ativa. São Paulo. como Holanda. Eutanásia e Direito Penal. geralmente. Austrália e Uruguai. 2005. de vermos a eutanásia propriamente dita inserida de maneira mais benevolente na legislação brasileira. Maria Elisa. Espanha. Instituto Brasileiro de Advocacia Pública. em que. Disponívelem: http://www. Maura. se encontram em uma situação de grande sofrimento. como cristianismo. Vamos analisá-la de acordo com as grandes religiões. no Brasil. que. Será feita também uma comparação entre os diversos países. Tal ação é produzida por um médico.htm. islamismo. empregando-se. vingou apenas o anteprojeto de reforma da parte geral. falar dessa técnica é ainda voltar os olhos à antiga parte especial do Código Penal. judaísmo. ocasionada por uma doença. Além disso.2011. que tem como finalidade abreviar a vida das pessoas. e o budismo. que consiste em uma ação médica. encontra-se uma que disciplina a eutanásia. não como uma excludente de ilicitude. não passa de um homicídio. que inseriu a teoria finalista no Código Penal de 1948 em vigor em substituição à teoria causalista. 2 ROBERTI. Na reforma penal de 1984. Ao relacionarmos a eutanásia à legislação brasileira.org/defensoriapublica/penal/doutrina/mreutanasia. procuraremos identificar as diferentes classificações dessa técnica que pode se dividir em ativa ou positiva e passiva ou negativa. Rio de Janeiro: Forense. em regra.“Em defesa do morrer com dignidade. Estados Unidos. mas como uma causa de diminuição de pena. 2 No emaranhado de propostas de alteração do Código Penal que estão no Congresso Nacional. indagando as aceitações e as proibições dessa prática em cada uma delas. por ser a prática indolor de supressão da vida. Acesso em: 20 fev. no nosso entender. No bojo do anteprojeto desprezado encontrava-se a previsão legal da eutanásia. há deliberação de antecipar a morte de um doente irreversível ou terminal.ibap. uma vez que nosso ordenamento jamais enfrentou frontalmente tal controversa questão. percebemos que infelizmente. em certos casos específicos. . Está longe. por piedade.

4 DINIZ. ainda. Lição que a nossa Constituição demonstra no seu artigo inaugural.] Contudo. 2007. Assim. dando seu consenso esclarecido sobre o tratamento a ser seguido ou sobre o aparelho de sustentação de sua vida?” 4 Não seria um contrassenso o fato de uma mesma sociedade negar ao homem meios para viver e ofertar a ele tecnologia para “bem morrer”? É indiscutível que a existência dos indivíduos deve se desenvolver sobre um alicerce de dignidade integral. ed. Os Direitos da Personalidade.. a intelectualidade e outros tantos.] direitos reconhecidos à pessoa humana tomada em si mesma e em suas projeções na sociedade. algo que não se assimila com o sofrimento perene. Esta é a realidade daqueles que desejam a morte. São Paulo: Saraiva. ou seja. Letícia Ludwig. São Paulo: Forense.. o núcleo essencial dos direitos fundamentais.. uma vez que remete às exigências e necessidades humanas consideradas básicas e mais relevantes. se existimos objetivando a felicidade. ora advindos de nós mesmos. Ed. E esta dignidade é papel do Estado que deve possibilitar ao indivíduo a persecução de seus próprios fins. abrangendo todos os demais princípios e direitos fundamentais. 9. Será que viver com sofrimento de tal dimensão que impossibilite a pessoa de usufruir o que a vida tem de melhor é viver? Será que viver apenas para sofrer não afronta a própria dignidade da pessoa humana? Não podemos deixar de fazer menção aos direitos da personalidade. O sofrimento.]”.” 3 Dentro do qual está englobada a dignidade da pessoa humana. sendo assim um princípio relevante dentro do ordenamento jurídico brasileiro e diante do qual os outros estão submetidos.. 5 No artigo 5º da CF. Curitiba: Juruá.. mesmo que intercalada por vários e intensos momentos de sofrimento. pode-se entender que o valor da dignidade da pessoa humana deve ser considerado o princípio fundamental do Estado e da Constituição.] a dignidade da pessoa humana é considerada. o fundamento do Estado Democrático de Direito brasileiro [. Tem-se. é um sentimento que está indubitavelmente ligado à nossa existência e do qual não há como fugir. o inciso III que proíbe fortemente qualquer tipo de tortura ou tratamento 3 BITTAR. previstos no ordenamento jurídico exatamente para a defesa de valores inatos no homem. a intimidade. quando deixa claro que [. a integridade física. 2014 5 MÖLLER. a honra. juntamente com os valores da soberania. que são “[. no inciso III. Maria Helena.. 2000. uma vez que a vida se tornou sinônimo de privações e dores. como a vida. a optar sobre fatos alusivos à sua própria pessoa. não há como negar. O Estado Atual de Biodireito.. . mais precisamente no inciso VIII está elucidado que “ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política [. ora trazido pela dor de pessoas queridas.Não há dúvidas de que a existência é árdua e preenchida com momentos de grande sofrimento. 4ª. Mas onde estariam os direitos do paciente à assistência e à dignidade perante a morte com o sofrimento de longa duração? O direito ao respeito à dignidade humana não requereria a ausência de qualquer tratamento desumano.. àquela que se torna apenas sofrimento certamente se torna sem razão de ser. Carlos Alberto. a exemplo da busca pela felicidade. Direito à morte com dignidade e autonomia. violento ou vexatório? E aí também se coloca a seguinte pergunta: “Teria o paciente direito à autonomia da vontade. do pluralismo político e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. da cidadania.

Urge que se faça uma reflexão profunda sobre a compreensão desses problemas tão difíceis. Ed. ante a possibilidade de situações em que ele pode ser ameaçado. sob pena de vermos apenas aquilo que queremos ver. Letícia Ludwig. se é “[.desumano ou degradante. que inspira a beneficência. Ainda. e não o que realmente deve ser visto. sem dor e sofrimento e sem buscar prolongar artificialmente o final da vida. Conforme Maria Helena Diniz expõe em seu livro: “Como o paradigma válido para toda ciência é o de que o conhecimento deve estar sempre a serviço da humanidade.] morrer lutando pela vida até o último instante. Direito à morte com dignidade e autonomia. Ao lado destas normas constitucionais pétreas. Maria Helena. 2014 . São Paulo: Saraiva.” 6 E esta escolha sobre como enfrentar o inevitável fim da vida é certamente o exercício de um direito advindo do alicerce fundamental da existência humana – a dignidade da pessoa humana.. Temos que considerar a eutanásia a partir daquele que está sofrendo e não partir de nós mesmos.] Parece-nos que todos os pontos polêmicos levantados só poderão ser solucionados adequadamente se o direito positivo passar a enfrentá-los com prudência objetiva. á luz do princípio geral do primum non nocere. Apesar de algumas pessoas considerarem vil a morte causada pela eutanásia. esta é a única dignidade que é possível ao paciente em estado terminal. 7 DINIZ.” 7 6 MÖLLER. isto é. fazendo prevalecer o bom senso para a preservação da dignidade humana. 2007. coloca-se em xeque a questão do direito a uma morte digna. O Estado Atual de Biodireito. delicados e polêmicos por envolverem aspectos ético-jurídicos.. não um fardo pesado. [. a não maleficência. Apenas o mal-afortunado pode definir o que é morte digna. 9. Deve haver uma mudança de foco.. é evidente que a vida é um direito. O Estado está sempre a assegurar o direito à vida digna. respeitando a dignidade do ser humano. Curitiba: Juruá. por outro lado.. podemos analisar o inciso II do mesmo artigo 5º. buscando adiar ao máximo o momento da morte ou. não o dever a uma vida indigna. se digno é morrer de forma serena. que firma o poderoso princípio da reserva legal.

Além disso. estabelecendose posteriormente à leitura de todo o material. .2. na prática. uma vez que a mudança do tempo significa também a mudança de pensamentos e opiniões à cerca do tema. Pesquisar também fatores históricos. A procura da jurisprudência é necessária para definir de forma concreta como a justiça se comporta. sendo importante estabelecer esses parâmetros históricos para que seja possível compreender o pensamento da sociedade em cada época. será realizada uma pesquisa quanto à jurisprudência. para constatar se houve alguma tentativa por parte de algum médico e como o caso foi julgado. Após isso. a respeito deste assunto. A redação da pesquisa pode não se dar efetivamente nessa ordem. será feita uma análise de como essa técnica é tratada nos diferentes países. Método Pretende-se inicialmente realizar uma pesquisa bibliográfica relacionando os princípios constitucionais e a defesa de uma morte digna.

Cronograma de Atividades MESES ATIVIDADE Pesquisa Bibliográfica Analisar o Material Pesquisa e Análise de Fatores Históricos Relacionar com os Princípios Constitucionais e as Religiões Direito Comparado Pesquisa e Análise de Jurisprudência Redação do Trabalho Entrega do Trabalho 1 2 3 4 X X 5 6 X X 7 8 X X 9 10 X X 11 12 X X X X .3.

Instituto Brasileiro de Advocacia Pública. 2014 Lei Funeral (Burial Act) de 1993. 20 f.Curso de Direito. Rio de Janeiro: Forense. 2005 SANTOS. São Paulo. 2005. Vinicius de Medeiros. Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. ed. Maria de Fátima Freire de. Eutanásia e Direito Penal. ROBERTI. MARÇAL. 2005. Direito à morte com dignidade e autonomia. Maria Elisa. São Paulo: Nova Cultural. Da Eutanásia ao Prolongamento Artificial. DINIZ. Acesso em: 20 fev.org/defensoriapublica/penal/doutrina/mr-eutanasia. SÁ. 9. MÖLLER. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.2011. Belo Horizonte: Del Rey. . os novos desafios. SCHOPENHAUER.htm. Biodireito: ciência da vida. Arthur. Maria Celeste Cordeiro dos. Maura. 2000. 4ª. Tese (Doutorado) . suicídio assistido. Eutanásia: Direito à Morte Digna. 2010. Presidente Prudente. Curitiba: Juruá. VILLAS-BÔAS. Disponível em: http://www. Os Pensadores. São Paulo: Saraiva. 2001. São Paulo: Forense. O Estado Atual de Biodireito. Revisão Bibliográfica BITTAR.ibap. 2007.4. Faculdades Integradas “Antonio Eufrásio de Toledo”. 2010. Os Direitos da Personalidade. Maria Helena. Direito de morrer: eutanásia. Letícia Ludwig. Carlos Alberto.