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O CORPO O LUXO A OBRA

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Lya Rakel Elouf Queiroz

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Partindo-se da análise da obra O corpo a obra o luxo de Herberto

Helder, percebe-se que o poeta explora o ideia constante de transformação.
Para o autor, o poema é algo que está em constante transformação, levandose em conta a gama de possibilidades interpretativas dadas ao leitor.
“A transmutação é o fundamento geral e universal do mundo.
Alcança as coisas, os animais e o homem com o seu corpo e
sua linguagem. Trabalhar na transmutação, na transformação,
na metamorfose é obra própria nossa” (pág. 144)

Assim, a tarefa do poeta é trabalhar a metamorfose do sentido literal das
palavras para uma ressignificação da realidade, dando ao leitor uma infinita
possibilidade de aprendizados. Helder compara o texto poético com a árvore da
vida, cujo sentido, dado pelos antigos escritos bíblicos, traduz-se em sabedoria,
conhecimento adquirido do bem e do mal.
Nesse ínterim, as Escrituras Sagradas mencionam em Genesis e
Apocalipse (primeiro e ultimo livro bíblico) a importância da árvore da vida para
os cristãos:
"Deus fez assim brotar do solo toda árvore de aspecto
desejável e boa para alimento, e também a árvore da vida no
meio do jardim é a árvore do conhecimento do que é bom e
do que é mau." (Génesis 2:9).

"Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao
vencedor darei de comer (do fruto) da árvore da vida, que
se acha no paraíso de Deus." (Apocalipse 2:7) Grifo nosso.

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Mestranda em Estudos Literários pela Universidade Federal do Piauí. Trabalho apresentado

para a disciplina Tópicos em Crítica Literária - Seminário Temático I, ministrada pela Profa. Dra.
Maria Elvira Brito Campos.

o homem necessita de uma transformação contínua. era o deus grego criador das ciências e das artes. quando transformados em terra.. Hermes. de renovações. deus egípcio da sabedoria. Nesse ponto sou abastado. cujo agente. expõe a necessidade humana de buscar o conhecimento: A maior riqueza do homem é sua incompletude. Palavras que me aceitam como sou — eu não aceito. compreende-se que tal analogia dá ao poema o status de instrumento que conduz ao saber. permeia através de um processo cíclico e contínuo o conhecimento do mundo do leitor. Em razão de sua incompletude. para receber a força das coisas superiores e inferiores (. Retrato do artista quando coisa. o poema torna-se símbolo do saber.. a qual dá ao mesmo uma visão particular sobre a origem do universo. Manoel de barros em seu livro de poemas. “A sua força e poder são absolutos.. do homem e o conhecimento. alimenta-se de descobertas espirituais partindo-se de uma literatura hermética. ao valorar-se à arvore da vida. alcançados através da poesia. No interior disto está o poder (. enquanto objeto valorativo. dando ao mesmo infinitas possibilidades de aprendizado com a poesia.. muitos poetas brasileiros ancoram-se em poemas filosóficos e místicos no intuito de demonstrar a busca do ser humano pelo saber. Ratificando a concepção da poesia enquanto instrumento de transformação através do saber. Como Helder.) toda a obscuridade te abandonará. . de metamorfoses. o poeta. Assim como a bíblia inicia e encerra seus escritos citando a sabedoria. de cujo nome deriva o adjetivo hermético. o autor ainda cita em sua obra a figura de Hermes Trimegisto.Dessarte. o poema.)” Assim.

que olha o relógio. que compra pão às 6 da tarde. necessita de uma transformação contínua. etc. O poeta. . que aponta lápis. Assim. símbolo da renovação. passa a conviver com uma realidade que se insurge alheia a sua existência. consequentemente da experiência do outro. (Manoel de Barros) Analisando-se o poema acima. enquanto “Outros”. compreender as dimensões da realidade que o cerca e tornar possível o projeto hermenêutico do imaginário em se fazer conhecer o sentido das coisas. muito embora se sinta como sujeito e objeto da sua experiência criativa e. Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas. de metamorfoses. que vê a uva etc. Ademais. que puxa válvulas. revela a transmutação do poeta em várias figuras de personalidades distintas (heterônimos) capazes de desvelar as características mais peculiares dos seres humanos. que vai lá fora. Perdoai. com maiúsculas e no plural. conhecer o mundo através das diferentes práticas de leitura poética dá ao homem a possibilidade de completar-se. aqui representado pela borboleta. vê-se que o homem. enquadrado em uma rotina massificante. o termo “Outros”.Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas. do aprimoramento existencial do ser “Eu penso renovar o homem usando borboletas”. enquanto ser incompleto.