You are on page 1of 29

Claude Dubaí

A CRISE
DAS
IDENTIDADES
A interpretação de uma mutação

Porto, Portugal: 2006

Edições Afrontamento

A crise das identidades profissionais

A noção de identidade profissional presta-se a confusões que é necessário tentar dimi­
nuir desde o início. Como expliquei no primeiro capítulo, não designo, por estes termos,
as categorias que servem para classificar os indivíduos em função da sua actividade de tra­
balho (em França, as CSP, categorias socioprofissionais). E também não viso as classifica­
ções que servem, num determinado momento, para alguém se designar a si próprio atra­
vés do seu emprego (e que são extremamente diversas). Chamo «identidades profissionais»
às formas identitárias no sentido definido no fim do primeiro capítulo (configurações Eu-Nós) e assim podemos detectá-las no campo das actividades de trabalho remuneradas. Esta
noção aproxima-se daquela que Sainsaulieu chama identidades no trabalho e que, para ele,
designa «modelos culturais» ou «lógicas de actores em organização»'. Mas ela distingue-se através dum aspecto importante: as formas visadas não são só relacionais (identidade de
actores num sistema de acção), elas são também biográficas (tipos de trajectórias ao longo
da vida de trabalho). As identidades profissionais são maneiras socialmente reconhecidas
para os indivíduos se identificarem uns aos outros, no campo do trabalho e do emprego^.
Esta elaboração conceptual pretende-se simétrica da do capítulo precedente em maté­
ria das formas identitárias no campo da vida privada. Mas se, em matéria da família e da
vida privada, a noção de crise não é talvez evidente e tem que ser longamente justificada,
em matéria do trabalho, emprego e relações profissionais, ela está omnipresente, desde há
(1) Cf. Renaud Sainsaulieu. V identité au travail. Les effets culturels de Vorganization, Paris, Pressés
de Ia Fondation nationale des Sciences politiques, 1985 (l.“ ed. 1977). Esta obra fundadora comporta, na
edição de 1985, um novo prefácio que estabiliza em «quatro modelos culturais» o núm ero de identidades
típicas detectadas nas empresas e propõe apelações tornadas clássicas: reforma, fusão, negociação e afini­
dade (cf. cap. 1).
(2) Cf. Claude Dubar, «Identités collectives et individuelles dans le champ professionnel», TVaité de
sociologie du travail, Bruxelas, De Boeck, 1994, p. 363-380. Este texto explicita o ponto de vista subjacente
à noção de «forma identitária» e propõe as quatro apelações seguintes: fora do trabalho, categorial, da
empresa e de rede, explicitando as diferenças em relação àquelas de Renaud Sainsaulieu.

particularmente por causa da sua interpretação muito particular da democracia. este último consiste em difundir por toda a parte. por tocar em repre­ sentações e crenças fortemente enraizadas nas subjectividades. Neste capítulo. encontrará a fór­ mula mais sugestiva. Schumpeter faz um balanço crítico da «doutrina marxista». segundo ele.“ ed.Í 85 . Aquilo a que o primeiro chamava «revolução incessante das forças pro­ dutivas» . Paris. em todas as esferas da actividade. em destruir constantemente as antigas formas de produção e de troca para as substituir por formas mais «inovadoras». tentando esclarecer a natureza do processo que está em causa. estando de acordo com Marx sobre o facto de que é duvidoso que o capitalismo possa «sobreviver». A modernização é uma palavra que amedronta porque ela é muitas vezes compreendida exclusivamente como processo de privatização. socialisme et démocratie. 1942). de adopçâo de normas de rentabilidade financeira e de organiza­ ção selectiva. as implicações no trabalho e nas suas relações sociais desembocará numa tenta­ tiva de elucidar o que significa a crise das identidades profissionais no sentido que acabo de recordar. É preciso voltar a esta noção antes de ver as suas implicações no emprego. Capitalisme. Payot. De facto. Porque ela dá aso a interpretações muito diversas. interessar-me-ei pelas evoluções do emprego e pelas transformações do trabalho. o segundo fazia dela um aspecto maior do «processo histórico de racionalização». a questão das relações subjectivas em relação ao emprego. mas também o «domínio do futuro pela previsão». nos discursos sobre a sociedade francesa. Joseph A. acumulando os dois pontos de vista precedentes. às vezes passionais. esse processo que consiste. Partindo da dinâmica do capitalismo como «destruição criadora» e o «processo de racionalização». ao mesmo tempo tecnicamente mais eficazes e finaceiramente mais rentáveis^. do ponto de vista do seu significado e das relações sociais que elas põem em jogo. através do capital e dos seus detentores. isto é. É o que hoje em dia se chama de forma corrente modernização. Neste clássi co. ele duvida também que o socialism o possa «funcionar». uma nova lógica de pensamento e de acção. ao trabalho (o mais complexo) ou às relações de classe (o mais escondido). É talvez Schumpeter que. Paralelamente. implicando despedimentos e flexibilidade. O PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO: RACIONALIZAÇÃO E DESTRUIÇÃO CRIADORA Marx e Weber perceberam ambos muito bem a novidade radical introduzida pelo capi­ talismo n a história. 1965 (l. seguirei estas três pistas. Segundo Weber. . a destruição criadora que é. A modernização é não raras vezes qualificada em primeiro lugar como econômica e sinônimo de triunfo da «racionalidade (3) Cf. uma racionalidade fim-meios que visa a optimização dos resultados. no trabalho e nas relações de classe. ^ A crise das identidades trinta anos para cá. talvez mais do que nas outras sociedades industrializadas comparáveis. Schumpeter. Mas o seu significado está longe de ser unívoco. Pelo menos podem-se distinguir três significados da palavra «crise» consoante ela se aplica ao emprego (o mais corrente).

.. Critique de la m odem ité. 1989) e Alain Touraine. do reino do dinheiro. A economia.. - instrumental»"*. mais perigosa do que promissora. É possível encontrar um ponto com um a estas três reflexões. E no entanto a dupla empresa-mercado como vector da racionalização não se encontra apenas.. de forma crítica. Fayard. cap.. uma verdadeira ameaça. cf. É uma destruição criadora porque ela tende a pôr em funcioncimento formeis novas de actividades (de pro­ duto. tornando-se a unidade de base da competição no mercado... para alguns.. 1).. Charles Tciylor.-----.).. Maíaise dans la m odem ité. depois às fdosofias e a outros sistemas cognitivos {fazendo-as passar da metafísica especulativa a formas de reflexão crítica sobre o conhecimento). LHarmattan. 1). Horkeimer. durante o mesmo período. da única preocupação do crescimento da produtivi­ dade que se tornou. como está também à procura do domínio do tempo (futuro). hoje como ontem." ed. . de três obras que se interrogam. Para o conseguir.. Mas esta modernidade coloca um problema. que se afasta e se disjunta dos «mundos vividos» pelos indivíduos. da capacidade de conquistar e conservar posições avantajosas.incluindo a organização . -. e finalmente à economia e à política. É simultaneamente aquele que consegue conquistar uma posição (mais ou menos duradoura) no mercado e construir uma empresa de alto rendimento (com uma duração variável).. racionalizava a sua organização para a tornar o mais competitiva possível e para melhor dominar o futuro. 1993 (l.. Cerf. isto é. a empresa.... segundo ele. o resultado dum longo processo histórico que era antes de mais aplicado a todas as culturas e religiões (ftizendo-as passar duma dominação «comunitária» da magia a formeis mais «societárias» de adesão privada e voluntária. A realização de ino­ vações é a lógica dos investimentos técnicos .. fundadas sobre vantagens competiti­ vas. tornou-se a força produtiva decisiva da racionalização capitalista «moderna». Mas. Eles designam assim a subordinação de todas as lógi­ cas de acção à consolidação do «sistema» tecno-burocrático. cap. «moderna». É a razão pela qual o empresário constitui.... enquanto gestão de recursos raros. para Weber. mais incontrolável do que dominada.A crise das identidades profissionais -. Habermas. o resul­ tado). Paris. para Weber. é preciso inovar.. assim como para Schumpeter. para ele. mas aos filósofos da escola de Franqueforte (Adorno. sobre a noção de modernidade e sobre aquilo em que se está a tornar..... cujo protestantismo representava. do «domínio do futuro pela previsão». ao mesmo tempo... Ora. uma figura eminente da modernidade (cf. 1992. Paris. m . Antony Giddens... 1991). -... Les conséquences de ta m odem ité.. Paris. É aquilo que Schumpeter tinha previsto: a inovação. (5) É surpreendente constatar a saída. de formação) que permitem adquirir vantagens compe- (4) A expressão «racionalidade instrumental» não pertence a Max Weber. o que Weber designava pela expressão «racionalidade ‘meios-fins’» (Zweckrationalitàt). era.... o do dinheiro e da potência.. orientada para a procura sistemática do lucro (imediato) mais elevado.mas também dos humanos. fundadas sobre a antecipação.. técnica e humana. É um ponto capi­ tal porque supõe formas específicas de concorrência.“ ed.... racionalizou-se e tornou-se «moderna» pelo e no capitalismo que impõe a lógica do mercado e da concorrência. para lá de numerosas diferenças: a evo­ lução social e hum ana em curso não é aquela que tinha sido antecipada pelos grandes pensadores da modernidade (cf. de processo de organização... talvez mais hoje do que ontem^... Sem dúvida porque ela parece mais destrutiva do que criadora. 1994 (1.

1991. um assunto de Estado. o dos «relógios»®. Foram as «guerras mundiais». 11 e 25. um actor capaz de assegurar as condições de inovação e regular as trocas. Mas ele também co n stata que o Estado vive um a «crise de identidade» que decorre do facto do «regresso do privado». 1997. 0 domínio das tecnologias e da organização é pois o futuro. Sem dúvida. o que há de novo. que permitiram às grandes empresas (públicas ou privadas) de armamento. a transferência da investigação à produção.. Ora. Esta posição não é partilhada por todos os analistas. Sobretudo desde a última guerra que os actores que desempenharam um papel determinante neste processo por intermédio dos «grandes programas de investigação». A questão das políticas econômicas. unicamente submetida aos imperativos da rentabilidade ime­ diata e da concorrência desenfreada. Galilée. a inovação torna-se puramente destruidora. Não é só um assunto das empresas ou de mer­ cado. Philippe Delmas. inclusive num Estado europeu que encontrou finalmente a sua identidade. um actor que não tenha como objectivo o lucro privado mas o bem comum. Géopolitique du chaos. é também um assunto político. um actor cuja lógica não é «instrumental». mas «reguladora». é que a condição principal da ino­ vação já não é o «génio» dum inventor ou o «ethos» pessoal dum empresário.). Paris. especialmente. do «saber produzir»). é a investi­ gação científica e. puramente especulativa. Ignacio Ramonet. . tanto dum a lógica política como econômica. Ele convoca uma «revolução social» que reabilite a acção pública. no Golfo. será isto defensável? A preocupação a médio e a longo prazo poderá ser evacuada da estratégia das grandes firmas multinacionais? Poderão estas últimas dispensar os investimentos públicos? 0 mercado mundial poderá desenvolver-se sem outra regra que não a da lei do mais forte? A compe­ tição mundial não implicará mais inovações produtivas? Embora nada permita responder afirrnativamente a estas questões. decididos e realizados pelas instâncias políticas. aos complexos militares e industriais fomentar a inovação graças à incorporação da investigação científica na produção. Odile Jacob. dos objectivos de acção pública está pois no seio da modernização que tem como desafio principal o «saber produzir».: 88 A crise das identidades titivas.. no Kosovo. desde há meio século. o debate continua vivo. a tempo. (7) Cf. Mas. Le maitre des horloges. não só a curto prazo (início de oportunidades). p. É o domínio do tempo. (6> Cf. das fractu ras entre grupos sociais e gerações e da perda de legitimidade. Alguns consideram que hoje já não são «os Estados mas os grupos industriais e financeiros privados que querem dominar o m undo para aí amontoar um imenso proveito» e que se assiste à «dissolução da identidade dos Estados-Nação»'' e ao triunfo do ultraliberalismo. mas a médio e longo prazo (domí­ nio da tecnologia.. este livro mostra claramente o papel desem penhado pelos grandes Estados nos desenvolvimentos recentes da mundialização. que constitui 0 desafio principal da modernização. Para além de situar o domí­ nio do tempo no centro do processo histórico da modernização. este implica um terceiro «grande actor» no processo. substituídas pela conquista do espaço e a «guerra fria» (e mais recentemente as «guerras de intervenção». aos quais chamamos «as grandes potências». É o actor público. tanto duma lógica de rentabilidade (privada) como de domínio (público). são os grandes Estados-Nação.. Paris. Nesta perspectiva. 0 termo «instrumental» não nos deve pois desnortear: trata-se.

A questão que aqui se põe é saber como e por quem serão reguladas estas trocas de capitais. cada vez com mais frequência. 0 «fim dos camponeses» desemboca numa «segunda Revolução Francesa»*® que. às formas de organização modernas. A Inglaterra da segunda metade do século XIX foi a primeira a ver sua população agrícola cair de maneira brutal e dramática. as dilacerações em torno. Esta obra está . 1988. 1965-1984. Em primeiro lugar. Aquilo que é muito menos claro são os incidentes deste processo de modernização. este processo histórico de modernização (racionalização e destruição criadora) toma historicamente a forma de escoamento**. em meado dos anos 1960. às tecnologias do futuro. cf. Henri Menàras. a teoria do escoamento foi difundida nomeadamente por Alfred Sauvy. La seconde Jiévolution &ançaise. constituindo assim um teste essencial da sua potência efectiva. das fontes de riqueza e de inovação. É a época das leis da pobreza que não resolvem muito a questão social. à escala planetária. de saberes. 1957. ainda muito insuficientes e muito incertas. deste desafio decisivo que representa o acesso ao mercado mundial e aos seus recur­ sos. O CASO FRANCÊS Em matéria de empregos. São claras as confrontações. em tempo real. a do pauperismo. É claro que a Europa tenta ter meios de participação nesta concorrência internacional e nesta nova regulação. definir novas regras a nível mundial em matéria de empréstimos financeiros (Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional) e em matéria de trocas (Organização Mundial do Comércio)*. com resultados aleatórios. faz entrar a França na era (8) 0 resultado da negociação que não se assumiu em Seattlc. primeiro da manufactura e depois fabril. e que deu azo ã uma mobilização colectiva inesperada. mas que acabam por acelerar o êxodo rural e a expan­ são da indústria. (9) Em França. cara a Pernand Braudel. é também a das regras. A EVOLUÇÃO DOS EMPREGOS. A França rural. É claro que se está a desenhar um movimento que ultrapassa o quadro dos Estados-Nação e que tenta. (10) Cf. Doravante.A crise das identidades profissionais É nesta fase que intervém um novo estádio do processo de modernização a que se chama. trata-se. Porque a modernização não é só a de capitais e saberes. em Dezembro de 1999. de produções do futuro. La machine et le chômage. mundialização. e as conseqüências deste processo nas condições de vida. Todos os outros países conhe­ cerão o mesmo processo. e tendem a impor a sua lógica de rentabili­ dade imediata a todas as transacções financeiras. é decisiva para o futuro da regulação mundial e para demonstrar a capacidade da União Européia a pesar sobre as decisões. Gailimard. em épocas e modalidades diversas. desestrutura-se lentamente durante mais dum século e meio mas só muda em profundidade depois da II Guerra Mundial. nos salários e antes de mais nos empregos. de tecnologias. os capi­ tais circulam sem fronteiras. do domínio dos mercados financeiros sobre as trocas. neste fim de milênio. Mas trata-se também duma vasta com­ petição pelo domínio das tecnologias. na vida quotidiana dos indivíduos. Payot. Os empregos agrícolas «tradicionais» foram primeiro destruídos para alimentar a grande maquinaria industrial.

INSEE. A seguir à II Guerra Mundial. como o faz Serge Paugam. cf: Le salarié de la précarité. ele observa que «a figura do operário especializado na cadeia não desapareceu: em 1991. começa uma outra fase que todos designam com a palavra «crise». mas também estruturais (baixa da renta­ bilidade do capital investido). société. Mas. o cenário do emprego mudou completamente: «A França sai ferida de vinte cinco anos ao longo dos quais passou do pleno emprego ao desemprego. (12) N. do universo radioso dos trinta gloriosos ao tempo das desigualdades e da exclusão»*"*.: Depois do Mercado Único aberto em 1986.. a precaridade do trabalho (novas formas de actividades mais aleatórias) e a precaridade do em prego (novos tipos de contrato de trabalho). em harm onia com as reflexões de Fernand Braudel sobre o fim da França rural (mas também burguesa): «A França rural evoluiu mais de 194. A passagem da «sociedade industrial» a uma outra que ninguém tem a certeza de conseguir designar*^ de forma correcta está em crise. 2000. Pode-se. (11) N. por exemplo. Paris. estruturada pelos conflitos de classe e negociações salariais. Cohen dá respostas sensivelmente diferentes já que ele retém como evoluções significativas: 1/ A dim inuição do trabalho em cadeia. 234.. de forte crescimento e operária. mas também as mulheres (três quartos dos empregos a tempo parcial são desempenhados por mulheres que desejariam na sua maioria ter um emprego a tempo inteiro)... Paris. Uma progressão sem prece­ dentes do consumo acompanha o triunfo da racionalização frequentemente chamado «tayloriniano-fordiano» das empresas francesas. cf. p. E também a subida daquilo a que se chama precaridade**. col. em Les révolutions invisibles. racionalizadora e urbana. a discrepância entre a população activa e os empregos disponíveis: meio milhão em 1974. Paris. houve uma retoma econômica que durou três anos (1987-1989). No fim dos anos 1990. Segue-se a subida contínua do desemprego. com a ajuda muito activa do Estado gaulista. metade dos jovens activos de 24 anos ou estão no desemprego ou em situação precária). Retomando o título dum livro de Georges Friedmann do início dos anos 1960.5 a 1975 do que de Luís XIV a Poincaré. p. Les nouvelles formes de Vintégration professionnelle. 1998.T. (15) É interessante constatar que no mom ento de concluir e responder à questão do título do seu livro. a das «novas formas de emprego» que tocam particularmente os jovens (em 1992. sem lhe conferir necessariamente o mesmo significado. 570 mil trabalhavam em cadeia em França. 1986. (13) Trata-se duma noção vaga que tem que ser explicitada. Morreu a 7 de Novembro de 1985.A crise das identidades da ^<modernídade industrial». «Le Lien social». «Oú va le travail humain?». Arthaud-Flammarion. 2/ A terciarizaçâo da economia. dois milhões em 1982. a França viveu décadas de prosperidade econômica e mudança social que ficaram conhecidos como «Trente Glorieuses» (1945-1975). 1996). 3/ A terceira revolução industrial. distinguir.». üidentité de la France. apesar da melhoria passageira dos «Três Gloriosos»*^ (1987-1989).. 1: E space et histoire. No que diz respeito à primeira. 20% dos operários eram submetidos a ritmos e 19% estavam em turnos {segunio Dorméessociaíes. com 83 anos. um milhão em 1978. É pena que Braudel não tenha podido escrever o seu terceiro tomo que deveria intitular-se: État. (14) A fórmula pertence a Daniel Cohen. . 0 fim dos «Trinta Glo­ riosos»** (1945-1975) é antes de mais a paragem do crescimento por razões conjunturais (quadriplicação do preço do petróleo em 1973). a meio dos anos 1970. PUF.T. Calmann-Lévy. 107. culture. Estes números diminuem desde o início dos anos 1980. três milhões em 1996. t.

8% de operários (39.). Ele provoca formas diversas daquilo a que se começa a chamar. 1995. «sociedade capitalista avançada». A antiguidade média no fundo de desemprego duplica entre 1975 e 1989. E se é fácil ver a destruição. mas também pela falta de mobilidade e de uma política de conversão eficaz dos antigos aos novos empregos.. 14-15. E. «sociedade de consumo». no fim François Dubet e Danilo Marcutelli hesitam ao caracterizar a sociedade francesa dos anos 1990. Na sua intro­ dução. em trinta anos. em França. Dider Demazière.A crise das identidades profissionais Isto porque. o sector terciário mercante e não mercante. Serge Paugam (ed. Vétat des savoirs. com uma duração média cada vez mais longa"". Debrucei-me sobre os resultados do Enquête em ploi de 1998 que falam de 22. De salientar que as mulheres são quase tão numerosas quanto os homens. col. 44% da mão-de-obra francesa estava empregada na indústria. 1998. em Jacques . o desemprego de longa duração come­ çou a crescer antes de estabilizar. e em 1998 representa 66%.9% em 1968). üexclusion. já a criação é mais difícil. no senso do INSEE. nenhum dos termos «sociedade pós-industrial». Mas uma parte importante da antiga mão-de-obra operária não é escoada. são as situações de desem­ prego. (18) Cf. 1996. ela também acon­ teceu. Ao longo dos anos 1990. empregos com subsídios não renováveis. Em 1968. só representam um pouco mais de 20% no recenseamento de 1999'®. 20.5% em 1968) e 35. sem dúvida por falta de emprego acessível. PUF.1 de quadros médios e supe­ riores em 1968). de precaridade (empregos com duração limitada. profissões intermédias e superiores assalariadas. a das mulheres mais rápido do que a do homens). Serge Paugam demonstra claramente em que é que a noção. p. Em 1968. e a reforma antecipada (a população activa com mais de 50 anos baixa desde o início dos anos 1980. Dans quelle sociéié vivons-nous?. Assim. trabalho temporário. lhes parece conveniente. A «terciarização» está de facto em curso (mesmo se este termo esconde vários processos heterógeneos). Eles constatam «conflitos maiores de interpretação» e a falta de «princípio de totalidade».. cf.9% de «profissões intelectuais superiores e intermédias» (13. tornada oficial no início dos anos 1990 (nomeadamente. (16) No mom ento ein que escrevo este livro.). ao mesmo tempo que uma crise da «sociologia clá. a partir da segunda metade dos anos 1980. 45% de activos. os quadros de recepseamento de 1999 relativos à estru­ tura da população activa por CSP ainda não tinham sido divulgados. (17) 0 desemprego de longa duração (inscrição com mais de um ano na ANPE [Agence Nationale pour 1’emploil só cresceu ao longo dos anos 1980.1% de empregados (14. no seguimento da lei sobre o RMI [Revenue Minimum dlnsertion] em França e de inves­ tigações que acompanharam a sua execução). «Centralité du travail et cohésion sociale». passar-se-á de 28% a 56% de empregados. representa. no entanto..ssica»? Cf. o escoamento não acontece ou processa-se mal. A França é particularmente visada por este não-escoamento. Seuil. na sociedade francesa. Robert Castel lembra regularmente'® que a população francesa nunca teve. Paris. «Que sais-je?».. Le chômage de longue durée. Aquilo que se multi­ plica. por si mesmo mas também por causa duma fracção importante de filhos de operários que não têm diplomas convertíveis no mercado de trabalho. La Découverte. Doravante a noção está ligada a um a «tomada de consciência colectiva dum a ameaça que pesa sobre sectores cada vez mais numerosos e mal protegidos da população». (19) A fórmula encontra-se em Robert Castel. mas esta taxa só representa 28% em 1998. já tem pouco a ver com aquela dos anoS 1960 e 1970 que designava «os grupos sociais caracterizados por um a exclusão de facto». «sociedade pós-moderna». que representavam perto de 40% da população activa (mais de metade são homens) no recenseamento de 1975. depois um ligeiro decréscimo. Paris. 0 operários. por exclusão'®. Isto tudo não constituirá um indício ílagrante de crise identitária. etc.

se as formas de emprego se diversificaram muito. a falta de laços sociais. Ele tem razão ao encontrar uma raiz na «hegemonia crescente do capital financeiro que faz frente aos regimes de protecção do trabalho construídos no âmbito dos Estados-Nação»^'. Paris. Daí estes dados de dualização do mercado de tra­ balho e da sociedade. Pode-se tentar resumir de forma esquemática: a antiga sociedade salarial. nem dependente. tanto em 1995 como em 1975. desde meados dos anos 1990. desde há vinte cinco anos e. o movimento dos desempregados e/ou aquele dos «sem». _ A crise das identidades do século XX. para os mais desamparados. TVata-se d u m a forma de filiação que não é nem imaginária.. conselho. dos mais frágeis. É por isso que a execução de novas políticas sociais por parte dos Estados . 1995. p. . a propósito das políticas de ajuda à inser­ ção dos jovens. para u m milhão de homens. duplicaram praticamente em 25 anos. dos menos protegidos.). da protecção social dos assalariados e dos riscos de «desfiliação»**® dos menos diplomados. segurança. As categorias compostas de assalariados com mais licenciaturas aumentaram muito em efectivos assim como em peso relativo.constitui uma exigência vital para fazer face a irgoat e outros (ed. também o trabalho se transformou. Le monde du travail.. Ele tem razão quando fala de «crise» a propósito dos «efeitos da competividade erigida pela simples lei econômica e da flexibilidade promovida ao estatuto do imperativo único da gestão dos empregos». a dependência (pelo RMl). industrial.). manual. a nota 19 da página precedente. conflitual e negociadora deu lugar a uma nova.por aqueles que ocupavam os empregos que foram destruídos (nem m esmo muitas vezes pelos seus filhos). É no fim duma longa análise histórica que Castel conclui a propósito da degrada­ ção da sociedade salarial que decorre duma crise do Estado Social que se deve ao mesmo tempo a uma perda de eficácia (falta de meios suficientes mas não só) e a uma crise de legitimidade (na seqüência da sua perda de eficácia mas não só). maioritariam ente femininos (em trinta anos a população activa integrou 5 milhões de mulheres. terciarizada. «quadros superiores e médios» (nomes anteriores ao recenseamento de 1982). Ela sintetiza uma longa argu­ m entação desenvolvida no fim do livro Les métamorphoses de la question sociale. Um dos problemas mais importantes é que estes empregos gerados não são ocupados . menos conflitual mas menos regulada. da «fractura social». (20) A noção de «desfíliação» introduzida por Robert Castel coloca no entanto problemas na medida em que deixa supor que a alternativa. Esta questão será retomada no capítulo 5. pelo rendim ento do trabalho) e o isolamento. se situa entre «a filiação» na sociedade salarial (pelo emprego. (21) C f.. 1998. especialmente.. Une chronique du sala­ rial. empregado(a)s. Ora. saúde e trabalho social. muitas vezes a alto nível. tantos assalariados (19.com algumas excepções . 53. La Découverte.. da «nova pobreza». Algumas actividades conheceram uma progressão sem precedentes: informática. profissões intelectuais superiores e intermediárias (nomes dados depois). pela protecção social.6% em 1995) e que estes representam 86% da popu­ lação activa. comercial. Castel tem razão ao falar de «degradação da sociedade salarial» sob o ponto de vista das regulações econômicas..j 92 „ _ . Já não são sem dúvida os mesmos perfis de assalariados porque. informa­ tizada.e doravante também da Europa . existe um a terceira via que é a da associação a movimentos de defesa e d e luta colectiva como. Paris. educação e formação. por exemplo. Fayard. de investigação e desenvolvimento. da «precarização» que se multiplicam.

Em França. A autora tem tendência a assimilar o resultado das pesquisás dos investiga­ dores que cita a propostas de princípio sobre o valor do trabalho. é legítimo. obra citada. um movimento que conduza ao «fim do trabalho». Se. Catherine Teiger. já é muito mais contestável. do seu significado^^. Le travail. em Le m onde du travail. André Gorz. obra citada. p. Jacques De Bandt. ao compro­ misso de si próprio na actividade e ao reconhecimento de si próprio pelos colegas (e nomeadamente aque­ les que julgam o resultado). (24) Cf. Paris.A crise das identidades profissionais esta degradação. o debate sobre este tema mesclou constantemente estes dois registos: o das tendências de referência e o do projecto desejável*. 1995. 0 retrato feito do trabalho-emprego é voluntariamente denegrido para contrastar com as aspirações dos jovens em matéria de actividades enriquecedoras. debruçar-me-ei sobre o primeiro. 1992. Este resvalamento também foi detectado por Dominique Schnapper em Contre la fín du travail. isto é. Galilée. Que esta possa constituir um pro­ jecto político global. Paris. a última parte de La sodalisation. Christophe Dejours. Não é o caso da obra que apresenta as atitudes dos jovens alemães em relação ao trabalho: Rainer Zoll. pelo contrário. Mas ela não pode resolver tudo. a componente das identidades profissionais que diz respeito à ligação com a situação do trabalho. Paris. . então a perspectiva é diferente^"*. Paris. 1998. 1991. a crise de regula­ ção e do mercado de trabalho. Afirmar. Nouvel individualisme et solidarités quotidiennes. 1995. que se caminha em direcção a «uma sociedade do tempo escolhido e da multiactividade». Textuel. malade du travail. Aubier. Bayard. a crise do emprego. Paris. deverá também ser colocada do ponto de vista da inovação (econômica). assim como também resvala regular­ mente de uma análise do «conceito de trabalho» nos grandes sistemas filosóficos para apreciações sobre as actividades ou relações de trabalho na sociedade actual. A questão do trabalho em si próprio. Este texto retom a argum entos longamente desenvolvidos em Misères du présent. 199-256. richesse du possible. De momento. sob este ponto de vista. uma evolução em curso. «Le travail-fantôme». 1997. da integração (social) e da produção de iden­ tidade (pessoal)? Como sair desta crise que está a transformar a França num «doente do trabalho»^*. simultaneamente à actividade e às relações de trabalho. (23) Cf. AS TRANSFORMAÇÕES DO TRABALHO: TENDÊNCIAS E INCERTEZAS A questão precedente só se coloca se se pensar que o trabalho assalariado tem um futuro. une valeur en voie de disparition. se pensar que o «trabalho-emprego está em vias de desapare­ cer» assim como «a sociedade salarial». La France. p. Claude Dubar com Charles Gadéa. 1997. 30-32. faz-se acompanhar duma crise do trabalho. Kimé. a longo prazo. que a «desafectação em relação ao trabalho pro­ gride por todo o lado». É a justaposição de afirmações que dizem respeito às tendências «objectivas» de emprego e do trabalho assalariado (que Gorz chama trabalho-emprego) e às atitudes «subjectivas» dos jovens dos vários países industrializados que valorizam o seu desenvolvimento que cria um mal-estar constante. utópico no melhor significado da palavra. Que ela descreva uma tendência de referência. (25) Encontramos uma ilustração entre julgam ento «de facto» sobre as evoluções do trabalho e jul­ gam ento «de valor» sobre o trabalho na obra de Dominique Méda. que o trabalho continua central no funcionamento econômico como na estruturação social e no desenvolvimento psíquico é simplesmente tentar interpretar o (22) Chamo «significado do trabalho». cf.

tentarei apoiar-me nalguns trabalhos que permitem detectar tendências difí­ ceis de realizar. Esta primeira tendência está evidentemente religada a (26) E. onde. Priviligiei três. Esta ideia parece-me muito contestável. trata-se de tendências que têm incidências identitárias importantes. hispânicos. E le foi também facilitado pela organização do Colóquio Le Travail. H. Kergoat. Teiger. que concernem as exigências que os empregadores e os decisores políticos alegam para recrutar. C. De Coster e F. C. 1997).* ed. O trabalho como resolução de problemas A primeira recai sobre a própria definição daquilo que é o cerne da actividade do tra­ balho.“ ed. em matéria de trabalho. Lyon. reconhecíveis através dos trabalhos de investigadores (e as minhas próprias observações). Ela tornou-se. aquele que consiste em separar radicalmente o econômico do «social» e do «psí­ quico» e aquele que deixa ao «político» muito poucas coisas^®. não parece acontecer. (ed. uma acti­ vidade de resolução de problemas e não de execução mecânica de instruções. Evoluções. transformações impres­ sionantes num sector são quase invisíveis. de formativo a esperar das «actividades regidas pelo mercado» e em que o único objectivo vita! consiste n a «passagem dos destinos consagrados ao único trabalho produtivo a destinos consagrados ao uso solidário e criativo dos tempos livres» (p. a sua emergência está em crise.. 1994 (2. tendên­ cias manifestas num dado contexto são muito incertas num outro. análises de Jeremy Rifkin e m La ãn du travail. C. F utur antérieur. La Découverte. por exemplo. que se referem a relações no trabalho e não a formas e categorias de emprego. Paris.. a dualização social já foi feita e a exclusão das «minorias» (pretos dos guetos. Bruxelas. A confusão entre os dois registos arrisca-se a chegar a um impasse. C. Ele também se inspirou em teses desenvolvidas em 1. Para o demonstrar. Jacot. Paris. encetadas durante algum tempo. num outro sector. que misturam a racionalização e a inovação. Pichault (ed. J. esboçada por Michel Rocard no seu prefácio. parece-me perigosa na medida em que dá crédito à tese segundo a qual já não há nada de positivo. segundo o autor. E a razão pela qual a invenção duma nova forma identitária. Projet. Ti-aité de sociologie du travail.) é um dado adquirido. c M. 1995. La Découverte. 1998. 1995). de aplicação de procedimentos preestabelecidos.A crise das identidades sentido do processo histórico em curso e não tomar uma posição política ou ética sobre as orientações que devem triunfar.). De Boeck. La France. XVII). Hoje. Linhart. cada vez com mais frequência e sob formas muito variadas. Boutet. De Bandt. Le monde du travail. Paris. 1996 (l. Gádea. J. Bayard. ao mesmo tempo organização do Nós (societário) e nova configuração do Eu (relacionai e biográfico) que pode ter sido detectada aqui ou ali. (27) O reconhecimento das «tendências pesadas» beneficiou de duas sínteses muito ricas em resulta­ dos de pesquisa. que se debruça sobre a socie­ dade am ericana.. Dejours. Recherches et prospectives. . Dubar.). malade du travail. cujas diversas comunicações foram publicadas em números especiais de revistas como Sociologie du travail. são mais tarde «bloqueadas». A tese que aqui desenvolverei é a seguinte. e por vezes contrárias. A transposição para a França. Ela motiva. as mudanças no trabalho. formar ou gerir os «recursos humanos» e a maneira como os assalariados lhes reagem'''’. são contradi­ tórias. trad. etc. sabendo que a minha selecção é arbitrária e explicitamente orientada. Dezem bro de 1992. D. no período recente.sta impotência do político é um a dimensão capital.

Alain Touraine. ntis primeiras ofi­ cinas automatizadas. não só na indústria mas também nos serviços. estandardização. é preciso homenagear os ergónomos franceses*' que foram sem dúvida dos primeiros a distinguir. já não é a figura dominante do trabalho operário «moderno». onde a aná­ lise ergonômica do trabalho permitiu pôr em evidência as formas inéditas de actividade. o que faz aquela ou aquele que (28) Cf. «Fiction et réalité du travail ouvrier».ses. indústrias petroquímicas. imortalizado por Chaplin em Os Tempos Modernos. Simplesmente. Paris. Claude Dubar. Les Cahiers français. parece-me hoje m uito menos virulento já que foi largamente dissecado: os dois movi­ mentos coexistem constantemente: um movimento que visa captar e até mesmo valorizar os saberes e o savoir-faire dos operadores (operários. de resolução de problemas. Ed. do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique).) para perm itir a inovação e um movimento que visa ignorar e controlar estas «competências» desenvolvidas na actividade do trabalho para conseguir realizar o maior lucro possível e racionalizar a produção. mesmo se se alastrar. sem dúvida. (29) Cf.. Naville analisa positivamente o duplo movi­ mento de automatização integrado na produção e o desenvolvimento da «formação hum ana e social» na sociedade. estudadas por Alain Touraine^*. Uévolulion du travail ouvrieraux usines Renault. o «modelo de competência». (30) 0 debate «pós-taylorista» ou «neo-taylorista».. .. La sociologie du travail face à la qualification et à la competence. dotadas de máquinas de transferência.. o «trabalho teórico» (as tarefas a cumprir segundo o «gabinete dos métodos») do «trabalho real» (a actividade do trabalho. Teiger. com base em observações e análi. No início dos anos 1960. sobre aquilo em que se tornará. nuclear. apostando na «exclusão do trabalho» apenas como forma de compensar a alienação do taylorismo. das fábricas Renault. p. cujo problema é a gestão de fluxo. Fers Vautomatisme social?. Contrariamente ao pessimismo de Friedmann em relação às evoluções do trabalho operário. 2/1996. reconversão) e da conjuntura visada. A.” 209. siderurgia. Sociologie du travail. Cf. o trabalho em cadeia. encetado a partir do início dos anos 1970 na socio­ logia do trabalho. Mas também as encontramos em gestação. a primeira em França a argum en­ tar. nos operários especializados em cadeia. Pierre Naville fazia o balanço destas formas de produção a que ele chamava «automação» e considerava que elas eram muito minori­ tárias na indústria francesa e que a sua generalização não era uma certeza^®. p. a partir do início dos anos 1950. 179-196. 39-45. 1955. n. 1963. Daniellou. Mesmo se ele antecipa «dramas» no processo de racionalização que revolucionam a estrutura dos empregos. Tudo depende do mom ento do ciclo considerado (inovação. de inventividade por parte dos trabalhadores considerados. Aliás.A crise das identidades profissionais estas formas mais importantes de racionalização que foram a automatização dos meios de produção e a informatização dos dispositivos de trabalho. Laville. (31) CL F. técnicos. A origem da teorização das diferenças entre «trabalho prescrito» e «trabalho real» vem dum inquérito de 1969-1972 num a fábrica de montagem de televisões do Oeste de França. o estímulo da concorrência. (cimenteiras. C. Pierre Naville. Trinta anos mais tarde. não adere à postura «trágica» de Friedmann. 1983. a invenção do microprocessador. os imperativos de gestão e a eliminação de numerosas tarefas repetitivas realizadas pelas máquinas per­ mitiram a este modelo da vigilância activa de processo contínuo tornar-se mais corrente. É desde os anos 1950 e 1960 que se encontram as primeiras formas nas indústrias de processo. Esta obra é. no entanto. houve uma parte do trabalho operário que se transformou pro­ fundamente. como «não qualifica­ dos» e simples «executantes». engenheiros. não suprime para sempre o «taylorismo»*®. trinta anos mais tarde. Gailimard. por exemplo). Esta forma de trabalho.

PUF. uma actividade de resolução de problemas. ele intelec­ tual iza-se e ganha autonomia»®’’. o artigo de Corinne Chabaud. a paisagem modificou-se e o cerne da actividade de trabalho mais «banalizado» des­ locou-se: «0 acto produtivo alarga-se. 1990. chegou. Concentradas no início nas indústrias de processação. em relação com a automati­ zação e a difusão massiva da micro-informática. Existe. estas formas de regulação «de origem» espalham-se a outros sectores e transformam os dis­ positivos an terio res de controlo e a ligação ao trabalho dos operadores. n. tende a tornar-se actividade de gestão global de processo. como também pelo salário e falta de perspectiva de futuro. das «greves dos operários especializados» no início dos anos 1970 aos «grupos semiautónomos» do fim dessa mesma década." 54. m ostra bem em que é que a diminuição do «prescrito» pode. 1992. pior que isso. desloca-se em direcção a montante. ao mesmo tempo que se difundem a automatiza­ ção da produção e a informatização dos dispositivos de trabalho. ele «executa competências incorporadas para conseguir os seus resultados». desde os anos 1960. Gilbert de Terssac. p. que o reconhecimento dos assalariados de execução é um dado adquirido e que o poder hierárquico já não existe. publicada por Jean-Daniel Rcynaud em Les règtes d u j e u (A. ele «gera constantemente um con­ junto de acontecimentos que lhe permitem decidir acções a conduzir». (32) Cf. Resumindo. a estes «dispositivos de gestão» que se difundiam em todas as grandes empresas que procuravam a competitividade. e dos «grupos projecto». em certos contextos. CEREQ (Centre d’études et des recherches sur les qualifications). tendo em conta 0 «trabalho real» e não só prescrito. pelo m en os os objectivos a atingir. 1989). 176. Cf. de facto. Sem dúvida que ainda é muito cedo para retraçar habilmente as etapas do processo que. Colin. Autonom le dans te travait. totalmente subjugado. «o prescrito tem tendência para se apagar quando o nível de exigência tende a aumentar»®^. obra citada. in Les analyses du trauail. o trabalho tido como o mais mecanizado e considerado como o menos qualificado já é. ele «elabora modos operatórios que mobilizam os seus próprios recursos». 0 autor. em contextos variados. parecem estar de acordo quando reconhecem que. Mas esta actividade não é reconhecida e. por via dos «círculos de qualidade». aqueles que observam e analisam as transformações do trabalho. (33) Cf. é ignorada não só através da organização e imposição de contrariedades temporais. se difunde nas empresas. explícitos ou implícitos. os modos operatórios que os incitaram a elaborar dignósticos e a propor transforma­ ções» que as relações sociais de trabalho mudaram completamente. não é porque eles «alargaram aos assalariados o poder de reflectir sobre as formas de organiza­ ção. ele «readapta os objec­ tivos prescritos e desenrasca-se com os meios que dispõe». Enjeux e t formes. nem que seja só por causa das vicissitudes e do mal funcionamento desconhecido do sistema de produção. 0 operador não é passivo. . Que fique bem claro o que quero dizer: não é porque os dirigentes das empresas per­ ceberam tudo que podem abusar destas competências incorporadas e antes ignoradas. várias formas de prescrever senão os meios. François Guérin. em Le monde du travail. Ora. de fluxos físicos e de informações. «Ractivité de travail». à sua maneira.!"(j6 : A crise das identidades executa a sua tarefa). De qualquer forma. Esta obra tem o mérito de m ostrar concretam ente como é que a regulação conjunta. de reconhecimento e de carreira. fazer-se acom panhar dum crescimento dos resultados. Paris. ergónom o.

Quem diz desafio. um «campo de problemas» a gerir e para tentar resolver (ou não). e o desafio da avaliação social. 1973. mesmo assalariado. The Management and Organization o f Firm in the Global Context. Se o «saber comunicar» se está a tornar um a competência profissional. «Management Tools in the process of Olobalization». Sauoirs e t compétences á Vécole et dans Ventreprise. CHarm attan. Cf. a partir de meados dos anos 1980*®. Pierre TVipier. previamente adquirida e sancionada por (34) Cf. do «modelo da competência». A autora demonstra claramente porque é que é que os dispositivos de gestão recorrem. 127-136. ele descreve-se através de duas palavras: labor e work. 1996. O trabalho como realização de competências Aqui. Cf. ela consiste no questionamento duma concepção muitas vezes qualificada como burocrática da qualificação. Em alemão. Eis o que permite compreender o desencadeamento. University of Gôdõllõ Press. . C. 1999. Paris. 0 que eu quero dizer é que o trabalho. tornar-se-á. (35) Lembremos que o trabalho não é só pena e labor mas também obra e criação. «Quand le travail rationalise le langage». uma ocasião de criatividade pessoal e colectiva. um «universo de obrigações implíci­ tas» e já não de «contrariedades explícitas de obediência»*"*. Josiane Boutet. A concorrência e a competição penetram nas empresas. Mas estes repousam com frequência num a concepção «tecnicista e mecânica da comunicação» distinta duma concepção «compreensiva e intersubjectiva». 5. cf. trad. A análise comparativa dos dispositivos como os «referenciais de competência» no ensino técnico (ou a formação contínua) e os «acordos de empresa» como o da siderurgia (Cap 2000 . 0 trabalho. como em inglês.. Hannah Arendt. tornou-se um desafio para o reconhecimento de si. Mako e C. 0 recurso à criativi­ dade** dos assalariados. uma necessidade de sobrevivência pelo cumprimento de tarefas cada vez mais insignificantes? Nada está ainda decidido. ao longo dos anos 1980 e 1990. Gailimard. Delphine Mercier. que supõe uma reapropriação pessoal e colectiva destes ins­ trum entos de gestão.). faz-se acompanhar de racionalizações que dividem e fragmentam as actividades e são exercidas ao mesmo tempo pelos colectivos. Frédéric Séchaud. um «espaço de palavra» a investir (ou não).i A crise das identidades profissionais H . Para exemplos de reapropriações em contextos m uito diferentes da grande empresa burocrática. Antes de mais. sobre este ponto. reconhe­ cida e valorizada ou. nas empresas assim como em toda a sociedade. p. mesmo o mais «comum». p. cap. diz ao mesmo tempo incerteza e grande implicação. para resolver os problemas e rentabilizar os investimentos.Centre d’Affaires de révérenges) demonstram bem a lógica comum que liga a individualização dos saberes. a «lógica competência» desenvol­ veu-se quase em simultâneo nas organizações de trabalho e em certos segmentos do sis­ tema educativo. (36) Lucie Tánguy e Françoise Ropé. dividem os assalariados ainda mais quando se fazem acompanhar pela redução de empre­ gos e de racionalização dos «recursos humanos». Le monde du travail. para cada vez mais assalariados. obra citada. ele só é pro­ dutor de identidade na sua dimensão social. arbeit e werk. à palavra e aos textos dos assalariados. Warhust (ed. Paris. abordamos uma segunda tendência difícil que prolongou e inflectiu a prece­ dente. Em França.. Condition de 1’h om m e m odem e. posta em prática através das «competências» em relação às situações. pelo contrário. A questão da criatividade como produção de obras para si está no seio do processo de identidade pessoal. na sua dimensão cognitiva. de forma crescente. 153-164.

mesmo em caso de sucesso. (39) Cf. Ao longo desta primeira fase.ssa substituídos pelas qualidades a exigir e/ou a desenvolver em todos os assalariados: iniciativa. Le torticolis de 1’autruche. Foi ao longo deste período que se elaborou e se difundiu aquilo a que eu chamei algures uma verdadeira «vulgata da competência» que depressa se tornou numa espécie de credo da administração e dos consultores. Cabe. Tripier. Aquilo que ligava estas atitudes entre el2is era a «iden- (37) Cf. muitas vezes em norne da noção de qualificação. frequentemente acompanhada da colocação de «grupos» diversos (qualidade. para os teóricos da administração dita «participativa»®®. Paris. Colin. 98 c r i ^ das jdentidades um diploma. Paris. De facto. quase palavra por palavra. pois. Peter e P. Gadéa (ed.. pela carreira). A competência. foi o Conselho Nacional do patronato francês que. La Bataille de la compétence. o que relativiza a novi­ dade d esta lógica num contexto de grande desemprego e de inflação dos diplomas. saber-estar tornavam-se os três pilares da competência. (40) Cf. Presses Universitaires du Septentrion. estas «qualidades» nas recomenda­ ções dos anos 1950 para a formação de «quadros» considerados na altura como «adminis­ trativos». Paris. Edição de Organisation. dando direito a uma contratação. gerida na e pela empresa. A. Le prix de Vexcellence. Na altura. Dubar e C. progresso.. Danièle Linhart. (38) Em 1983 há dois livros que saem quase em simultâneo em França e que contribuem para difun­ dir esta form a de administração: H. 230 e s. Dubar e P. que corresponde ao nível do diploma e que assegura de seguida a progressão salarial. pela antiguidade. Eu chamei a atenção nou­ tro livro®® que se encontram. Saber. Éditions d’Organisation. Paris. à empresa avaliá-la (pela contratação). p. mais ou monos automática. 1999. Syryex. de acordo com consultores. o diploma continua a ser o «filtro» para um a contratação. Yvon Cannac e a CEGOS. Este livro marca o pontapé de saída dum a ofensiva do CNPF (Conseil National du Patronat Français) para su b stitu ir a lógica das qualificações negociadas colectivamente a partir de diplomas profissionais pela das com petências individualmente adquiridas no ttabalho e reconhecidas só pela empresa com base nos seus desem penhos. transformava-se num desafio estratégico e dava lugar a diversas inovações. depre. 0 que o autor chama «batalha identitária» é a estratégia de gestão que consiste em desvalorizar as identidades colectivas. A formação contínua. responsabilidade e trabalho de equipa. desenvolvê-la (pelo trabalho e pela sua organização) e reconhecê-la (pelo salário e. lançou uma verdadeira «batalha» para impor esta noção de competência. a formação contínua dos assalariados. 1984. . era antes de mais toda a contribuição dos assalariados para a competitividade da sua empresa. as análises desen­ volvidas em C. Waterman. ao mesmo tempo que a empresa era objecto duma vasta reabilitação na sociedade francesa e era redefinida como uma «comunidade contratual competitiva»®''. raramente desemboca num reconhecim ento. etc. Seuil. Limpossible modemisation des entreprises françaises. para converter os assalariados (aqueles que sobram ) a uma identidade de empresa que.). de profissão ou classe. C. por vezes em estreita relação com as transformações da organização do trabalho e da ges­ tão (às vezes baptizada como «previsão» dos empregos e até das competências). Paris.saber-fazer. La prom otion sociale en France. . 1998.) pode ser analisada como o lugar duma verdadeira «batalha identitária»'’®que permite seleccionar os assalariados dotados dessas «qualida­ des» e ajudar os outros a adquiri-las. Archier c H. às vezes. Cf. InterÉditions e G. Uentreprise de troisième type. Sociologie des professions. a um «nível de classificação» (e de salário). 1991.

. bem como Les stratégies des ressources humaines. contratado para uma «missão» precisa e (41) Cf. La prom otion sociale en France. a uma empresa que precise para qualquer um dos seus objectivos e se não encon­ trar melhor num outro pretendente. vai efectivamente nesse sentido. nem a empresa (mesmo coordenadas) que produzem as competências que os indivíduos necessitam para aceder ao mercado de trabalho. 1990. Eles são responsáveis pela sua competência. (43) Ibid. pela lei de Dezembro de 1991. Já não é nem a escola. dispendiosas operações de formação e uma administração participativa aleatória. sofreram um novo decréscimo. 1993. A carta europeia da «formação ao longo da vida» (life long leaming). a conjuntura econômica ensombrou-se outra vez. inclusive o desemprego de executivos. Ao cabo deste percurso. talvez um dia. a sua não participação ou a sua participação crítica designava-os ora como «incompetentes». 0 período seguinte (anos 1990) iria ser marcado por uma nova ordem da competência. 1999. cada assalariado era responsável pela aquisição e manutenção das suas próprias competências"**. . cf. p. a ANPE(Association National pour TEmploi) contribui m uito para a difusão deste termo. aprendida activamente ao longo das suas formações. em 1996. sendo a qualificação incorporada no sujeito. p. radiograpfiie d’un concept». 47-49. A ideia de cheque individual de formação tem o mesmo significado. já enfraquecido nas grandes empresas privadas ou privatizadas. «Cemployabilité.A crise das identidades profissionais tidade de empresa». 3. durante um tempo. são os próprios indivíduos. o desemprego começou a subir. p. pode ser «vendida» ou «alugada». obter um rendimento e serem reconhecidos. de competitividade no mercado (como nos mantemos em boa «forma» física) para se poder ser. (42) Assim. É pre­ ciso ressalvar que. A nova noção que então se difundiu foi a da empregabilidade"**. nos dois significados do termo: cabe-lhes a eles adquiri-las e são eles que sofrem se não as tiverem. De facto. Paris. Ela implicava uma mudança mais importante porque primeiro já não era só a empresa que era colectivamente responsável pelas competências dos seus assalariados. a responsabilidade da sua própria formação. Eles devem constituir uma carteira de competências que deverão mostrar se quiserem ser contratados. A implemen­ tação do balanço de competência. a seguir ao final dos «três gloriosos». a concordância com os seus objectivos estratégicos e a mobilização para os realizar. deu a esta derradeira evolução a sua marca europeia"**. Doravante. e as estratégias dos grandes grupos inflectiram-se de forma notória. A empregabilidade é antes de mais isto: manter-se em estado de competência. La Découverte. Aqueles que eram postos de lado sentiam-se ameaçados. ora como «contestatários». 0 balanço da competência permitir-lhes-á saber até onde pode­ rão ir neste processo. 76-98. em França. Dubar e Gadéa. Lille. «Repères». Bernard Gazier. nem pensar em jogar a cartada da «identidade de empresa» que implica carreiras internas e pesadas. Sociologie du travail. a lógica da competência acaba por ser sensivelmente muito modificada. a doutrina aproximava-se m uito da teoria neo-clássica do capital tium ano para a qual a for­ mação é concebida como investimento individual a rentabilizar. Presses Universitaires du Septentrion. interiorizada ao longo do seu percurso. A competência. Os anos 1980 foram também a época em que o movimento sindical. 56-60.

consiste em engrenar uma produção a partir duma encomenda optimizando a qualidade. Ela é mais personalizada. Nova loi-que. os gestores vão doravante pri­ vilegiar o alargamento nas pequenas estruturas interligadas. estas são palavras novas para uma rela­ ção antiga: a do «profissional» e dos seus clientes. artesanal e o movimento de terciarizaçâo das actividades. da empresa inteira. Ela faz da conãança uma componente central da relação. numa empresa-rede que religa pequenas unidades directamente em contacto com o mercado. The Second Industrial Divide. Trata-se de responder às exigências do mercado. . para além disso. 1984. Cada assalariado deve considerar-se como um fornecedor dum ou vários clientes e cliente dum ou vários fornecedores. anônima e fechada. aí a relação com o cliente sempre foi valorizada e considerada como «uma vantagem competitiva». a relação de serviço. Basic Books. ao mesmo tempo. (45) Sobre o modelo das PME. Doravante. As reorganizações mais importantes da produção são justificadas por ele: o «mesmo a tempo». Piore e Charles F. directa ou «indirecta». _ A crise das identidades limitada. de colocar o «cliente final» no centro das activi­ dades. Esta relação cliente-fornecedor é o centro dos dispositivos de «qualidade total». Ela acompanha. E ainda por cima ela concerne potencialmente toda a gente: assalariados do sector privado e da função pública. ao descobrir as prestações das PME inovadoras do Silicon Valey. De facto. Michãel J.]00^ . agrícola. Sabei. Este livro marca um a viragem nas estratégias de gestão. integrando a gestão da produção à gestão comercial global. de reagir perante as evoluções dos seus desejos. por exemplo. assalariados «atípicos» e não assalariados. Nas grandes empresas. Já não se trata de produzir primeiro e de vender em seguida aquilo que foi produzido. e da satisfação do cliente um elemento essencial do sucesso de empresa e do reconhecimento de si. Possibiiities for Prosperity.. final ou «intermediária». Ela é também a justificação das reorganizações da gestão da produção e. mais próxima e também mais fle­ xível. Ela acompanha um movimento de trans­ formação da organização burocrática. o movimento inicia-se quando se difundem os imperativos de qualidade e os preceitos da administração participativa. a partilha duma cultura com um são valorizadas^*. de antecipar os seus comportamen­ tos de compra e de tentar suscitá-los. as evoluções do trabalho industrial. Mas é a mudança da forma organizacional que é decisiva: as PME ditas «inovadoras» servem de modelo"*^. O trabalho como relação de serviço É talvez a transformação mais significativa do trabalho já que recai sobre o seu próprio significado. «interna» ou externa. as relações de confiança. É isto que dará origem à empresa-rede. oü as de Émilie Romagne. e nomeadamente dos «sistemas industriais localizados» e os processos identitários construídos em torno do sistema de troca local funcionando com base na confiança fundada . Ela coloca no seio da actividade do trabalho a relação com o cliente. é com base neste «modelo» que o marketing vai (44) Cf. da grande empresa e das PME (Pequena Média Empresa). S m a ll is beautitull: o espaço local. uma «prestação» determinada. minimizando os atrasos. É um trunfo decisivo na concorrência.

«Lidentité dans 1’administration». Economica. p. La société en réseau.). e até «se industrializam». da protecção hierárquica e o encerramento em relação aos administrados^®. o autor afirma que. afinal de contas. 1985. serviços informáticos. Fayard. «Les Services».A crisédasidMitidades profissionai» _________________ _ j |g ganhar uma importância crescente nas empresas que querem «aproximar-se dos clientes». Uadministration en miettes. ela torna-se «a única fonte de sentido». reduz a burocracia. Foram os «serviços mercantis nas empre­ sas» aqueles que mais cresceram. Estes últimos que só representavam 48% do trabalho em 1975. A empresa-rede que emerge deste movimento já não vende só produtos. «agarrar-se às suas exigências». os trabalhos do Centro de sociologia das organizações e nomeadamente Catherine Grémion. Muitas vezes. encontrar ou implantar inovações. alguns serviços estandardizam-se. obra citada. 4/1991. representam 66% em 1992. os serviços. «Échange social et identité collective dans les systèmes industrieis localisés». uma empresa-rede mundializada^®. em França. a grande empresa tem ao mesmo tempo os seus «serviços/clientes internos» e a sua rede de «clientes/fornecedores externos». muito antigo. Les Services dans les sociétés industrielles. em fornecedores de serviços a usuários com os quais estão ligados por uma relação de confiança cujas necessidades. Trata-se de transformar os funcio­ nários em profissionais. comerciais. à qual ele chama «capitalismo de informação». Sociologie du travail. Aí. É uma pequena revolução cultural que é assim solicitada no mundo da administração francesa onde reina ainda com frequência a cultura burocrática do con­ trolo. trad. a partir de projec­ tos e indicadores de performances.. 1985. (46) Sobre a empresa-rede. assim como Jacques de Bandt. Paris. em L e m onde du travail. da relação de serviço entre um «profissional» reconhecido como tal e os seus «clientes» (client e não apenas customer) torna-se. 83-92. financeiros. cf. A relação entre o «centro» e as «unidades» torna-se análoga àquela que reúne um «chefe que dá ordens» e os seus subalternos. não só na empresa privada inovadora mas também no mundo do serviço público. 1998. isto é. Este modelo. (48) Cf. praticam a «co-produção» do serviço pela realização duma relação de «profissional» com o cliente'"'. 1994. É uma sobre a partilha duma identidade cultural comum. XXXIIl. . 270-278. PUF. ao mesmo tempo que a empresa tenta organizar o seu mercado. Jean Gadrey. Graças à informatização. às vezes unicamente. Fayard. p. assim como Jcan-Pierre Dupuy e Jean-Claude Thoenig. ao colocá-los em concorrência. neste tipo de sociedade em gestação. a identidade torna-se o desafio mais importante do processo em curso porque a «procura dum a identidade torna-se a origem primeira da significação social». in J. eles procuram satisfazer. Paris. um verdadeiro «modelo de referência». Manuel Castells. p. ao passo que outros personalizam-se. cf. vende também {e compra). conselhos. Chevailier (ed. e até «se taylorizam». É a empresa-rede que define «missões» para resolver problemas. V identitépolitique. ela inscreve-se numa «aposição bipolar entre Rede e Si próprio» (p. ao longo dos anos 1980-1990. 23-24). a orga­ nização centralizada e burocrática transforma-se assim numa rede de unidades considera­ das como PMEs que são postas em concorrência umas com as outras. tal como ela se generaliza hoje em dia um pouco por todo o lado nos paí­ ses industrializados. Por isso. 529-544. Paris. alargar e fidelizar a sua clientela. (47) Cf. Assim. na melhor das hipóteses. descentraliza-se. o mercado penetra na empresa. divide-se em unidades interligadas e torna-se. Jean Saglio. a grande empresa trans­ forma-se. Paris. «tornar-se reactivos».

a existência duma «comunidade» no seio da qual se transmitem «maneiras de fazer. Familles de métallurgistes dans les m utations industrieUes et sociales. cf. encerramentos de fábricas e reconversões dolorosas dos «metalúrgicos»**. Jacques Hédoux. Elas encontram-se sobre- (49) S obre este term o aplicado ao mundo dos ofícios. 1980. Jean-Daniel Reynaud. Ela repousa em «comunidades pertinentes da acção colectiva»*"* que permitem ao mesmo tempo a defesa dos interesses dos trabalhadores que se identificam com os seus líderes sindicais. Henri Mendras. Claude Dubar. 1981. PUF. A. desde há trinta anos. Uma determinada forma colectiva de praticar o seu ofício. UHarmattan. parece estar a afundar-se para dar lugar a um outro mundo. de sen­ tir e de pensar» que constituem ao mesmo tempo valores colectivos (a «consciência orgu­ lhosa») e referências pessoais («um ofícios nas mãos»). Jean Gustave Padioleau. Denis Segrestin. 1989. às vezes desde há muito tempo. A Colin. _ _ A crise t e identidades autêntica conversa identitária que está em desafio num mundo onde se encontram ainda com frequência identidades categoriais produzidas por uma longa história. Cf. nomeadamente. 1967. sobre a base de «comu­ nidades de ofícios»"*® e que tinham resistido. então. (52) Cf. 2. Paris. Depois do «fim dos agricultores»*®. nomeadamente. A CRISE DAS IDENTIDADES CATe GORIAIS DE PROFISSÃO Assistiu-se. V h o m m e de fer. ao ofício do pai que se transmite na famílici. . Denis Segrestin. mas também o reconhecimento de «comunidades de interesses» que reagrupam empregados e empregadores em torno de objectivos comuns. Geralmente. Colin. Sociabilité m inière. Quand la France s ’enferre. Les règles du jeu. às racionalizações anteriores. uma relativa estabilidade das regras que as organizam e das comunidades que as suportam. (53) Cf.. «super-regras»** que cisseguram. L ephénom ène corporatiste.. ao desmatelamento de sectores inteiros da economia que eram organizados. Paris. ao fecho das minas de car­ vão e ao declínio dos «mineiros de fundo»**. «Les comm nautés pertinentes de 1’action colective». Paris. a França assistiu. antes mesmo de se aprender com um patrão (às vezes o próprio pai) no local de trabalho. ela implica identifi­ cações precoces. de estruturar toda a sua vida em torno da profissão. As identidades de ofício supõem. (50) Cf.. Essai sur Vavenir des systèm es professionnels fermés. obra citada. Paris. 1987.1102. Fayard. Revue française de sociologie. 1982. às alterações na metalurgia que provocaram despedi­ mentos. La fín despaysans. Désarrois ouvriers. A identidade de ofício é o exemplo-tipo de identidade comunitária que supõe. 1982-1986. em França. também Serge Bonnet. (54) Cf. de se organizar e de se defi­ nir através dela. Paris. Ed. (55) Cf. etc. por parte dos rapazes.. do CNRS (Centre National de Recherche Scientifique). (51) Cf. 1984. mais ou menos. a sobrevivência e o desenvolvimento da firma. Action collective et régulation sociale. Michel Pinçon. Gérard Gayot. para se reproduzirem. Paris. t. impotente. à crise da siderurgia e à total transformação do trabalho dos «siderurgistas»**. 4.

(60) Cf. 1986. por antiguidade ou por con- (56) Cf. uma nova divisão internacional do trabalho provocou o declínio inexorável das actividades outrora florescentes. . Essas normas ligadas aos modos de regulação em vigor (lei. Entre eles. obra citada. A grande maioria considera que as regras do jogo mudaram e que eles são prejudicados. Revue françàise de sociologie. cf. sem dúvida historicamente muito antigo. 153-155. 0 mesmo tipo de transmissão não parece ter sido referenciado entre mães e fdhas. A crise das identidades de ofício prejudicou. Paris. estes agentes sentiram-se bloqueados®®. Seuil. Foi o que aconteceu. C. «Identité de père et classe ouvrière à Montbéliard aujourd’hui». de progressão salarial ou de direitos adquiridos. é preciso lembrar que os ofícios fazem parte do universo masculino. antes de mais e especialmente. convenção ou costume)®® concernem também os agentes da função pública. Mas. X. o choque foi particularmente duro. esta crise não se alargou a outras categorias de assalariados. La socialisation. (59) Cf. Dubar. Por isso. nas fábricas. É. desta vez. nos estaleiros ao longo dos anos 1950 e 1960. desde há trinta anos para cá. sem reconhecimento por parte dos seus dirigentes. Não era a primeira vez que este facto se produzia na história da eco­ nomia francesa®’’. Já não podiam transmitir «o seu ofício» aos filhos e toleravam com muita difi­ culdade 0 desabamento do «seu mundo» anterior. na pré-reforma ou em situações de precaridade. Sociologie des professions. as identi­ dades de ofício constituem um caso particular. quando as barreiras alfandegárias baixam e quando as políticas públicas se tornam mais liberais. Françoise Hurstel.A crise das identidades profissionais tudo onde existem «mercados fechados de trabalho»®® relativamente ou totalmente ao abrigo da concorrência e beneficiando do apoio do Estado. os operá­ rios que tinham entrado nas minas. p. p. após um longo período de proteccionismo. Mas. muitos eram antigos camponeses e nomeadamente trabalhadores imigrados. no sindicalismo e nas formas de regulação características do Estado-Providência. Messidor. Gérard Noiriel. obra citada. eles viram-se no desemprego. 155-180. (57) Sobre a crise dos anos 1880 e os seus efeitos nos operários de offcios. cap. sem esperança de carreira. o aspecto mais dramá­ tico desta crise identitária®®: a impossibilidade de transmitir aos seus filhos os saberes e os valores dum ofício reconhecido e valorizado. 24. regu­ lamento. 1984. A sua esperança numa progressão hierárquica. Uma paisagem com­ pletamente nova emerge desta mutação. duma forma identitária mais geral à qual chamei forma categorial e que supõe a predomi­ nância do colectivo sobre os indivíduos que a compõem ao mesmo tempo que a interiorização de normas muito pregnantes em matéria de qualificação. estes «mercados fechados» estão ameaçados. Eles tinham sido mais ou menos bem integrados nestas comunidades de ofício. p. 1987. De facto. p. Claude Dubar e Pierre Tripier. un marche du travail fermé». Em muitas investigações levadas a cabo ao longo dos anos 1980 e 1990. sem dúvida. Les ouvriers dans la société française. 83-106. em França. (58) Cf. Quando as fronteiras se abrem. 217-228. Je/Sur Vindividualité. «La marine marchande. Ao longo dos anos 1980 e 1990. que consideram com frequência que a sua mobilização no trabalho não é reconhecida e que os seus direitos adquiridos estão ameaçados. Catherine Paradeise.

problemática. C.que têm mais hipóteses do que eles de ganhar os concursos e que já não partilham a cultura pro­ fissional deles. alguns sociólogos fizeram da socialização profissional. Para uma síntese do ponto de vista interaccionista sobre os gru p o s profissionais. 1998. cap. 5. pelo seu passado. de sentir. Sociologie des professions. esvaiu-se. num contexto de mudanças permanentes. Esta frustração pode. E. TVipier. é muito tentador interpretar estas tendências de transformação do trabalho como actividades de resolução de problemas. militaram em sindicatos e esperaram transformações «revolucionárias» da sociedade francesa. Desde há muito tempo. por vezes. incorporado numa «activi­ dade» tornada incerta. mar­ cado por incertezas. Pondo em questão. com um desprezo por parte de alguns dos seus utentes. Eles são também confrontados com comportamentos de risco por parte dos utentes. sofrem uma identidade com falta de reconhecimento. isto é. de pensar e de viver as actividades «profissionais» que destabilizaram todas as formas ante­ riores de representação e de acção.com fre­ quência desqualificados mas tendo um nível de estudos muito mais elevado . Dubar e P. todas as antigas identidades profissionais. eles tentaram perceber em que é que toda a vida profissional. segundo o autor. 1998. de la MSH. virar-se contra ela própria e engendrar formas extremas de desamparo. 59-136. se acon­ tecer. duma nova maneira de estar no trabalho. p. a transformação dum ofício aprendido. 0 risco para minimizar um problema-chave da vida do trabalho será grande. constitui o exemplo da «crise iden­ titária» n o sentido da sociologia interaccionista®*. tanto às ocupações como às protissões. des­ valorizados pelos seus «chefes». de reviravoltas de con­ juntura o u de política. dos conflitos de trabalho e das relações d e classe. a de ver afundar-se as convicções e as esperanças sem poder continuar a encontrar causas ou res­ ponsáveis. Hughes. cf. durante o período considerado. confrontado com problemas de definição de si mesmo e de reconhecimento por parte dos outros. da relação de serviço e dos seus paradoxos um dos seus objectos de aná­ lise privilegiados. Esse esquema aplica-se. Mas. Assitn. Esta crise da identidade profissional talvez afecte mais aqueles que. mais ou menos radicalmente. viragens (tum ing points) e provas. . das construções e crises identitárias. C. em grande parte por causa da chegada de jovens licenciados . transmitido. obra citada. (61) Unna parte dos textos de Everett Hughes foi consagrada ao desenvolvimento dum a perspectiva sociológica interaccionista sobre as profissões que evidenciam esses conceitos de socialização profissional e de crise identitária ligada a ciclos de vida {career) e nomeadamente às viragens da existência {tuming potnt). Ed. Desrespeitados pelos seus «clientes». Então. em Chicago e em outros sítios.ÍÍÕ4Í A crise das identidades curso. uma questão m ais importante da sociologia do trabalho que é também um desafio importante do período recente: o das relações de poder no trabalho. Le regardsociologique. cf. de pôr em prática competências e realizar relações de serviço como a difusão progressiva. em França. com a violência dos transportes ou de certos estabelecimentos escolares. À frustração precedente acrescenta-se uma decepção talvez ainda mais profunda. no «mundo do trabalho». mal reconhecida. constituía um percurso (career) atravessado por crises. a distinção canônica dos funcionalistas entre «protissões» e «ocupações».

Tudo acontece como se a escaiada do tema das «identidades» acompanhasse o declínio do tema da «luta de classes». «Conflits et identité». na rua. Durand e F. as autoras tentam construir a figura do enfermeiro coordenado como nova forma de identidade colectiva em construção. Éducation perm anente. desde o fim dos anos 1960. p. Lamarre. «o tema da identidade aparecia no contexto dum questionamento da luta de classe como prin­ cípio único da identidade»®. Neste livro. Em primeiro lugar.. os camionistas (1984. É. guardam uma dimensão de luta de classe ao mesmo tempo que outros conflitos. in J. 1996. número especial «Formation et dynamiques identitaires». princípio de 1989.). Hélène Le Doaré. 96-130. Porque os «pequenos conflitos» não faltaram. com frequência motivados por reivindica­ ções de ‘reconhecimento’ e de dignidade e. (63) Cf. que «a longo prazo. CONFLITOS SOCIAIS E RELAÇÕES DE CLASSE Em França. último grande conflito his­ tórico que se apresenta a si próprio como um conflito de classe. ao mesmo tempo «o fim da excepção francesa» e «a interferência dos desafios políticos». Penso que a fórmula utilizada pelos autores não é completamente justa. reivindicando a criação de postos de trabalho. finalmente. os enfermeiros (sete meses em 1988-1989. La France en mutation. conflitos «profissionais» que mobilizam. a tendência é de recuo dos conflitos salariais». (64) Cf. Para alguns. Esta dimensão de oposição «de classe» dos assalariados aos dirigentes é sim ultaneam ente mais defensiva e mais estritamente ligada ao econômico.. protestando contra a degradação das suas condições de trabalho.X. Março de 1998.. Françoise Imbert.. a partir das jornadas de greve (de cerca de 4 milhões entre 1971 e 1976 a 352 840 em 1997). 1997. das enfermeiras®®. É. diferente daquela do «militante tradicional» ao mesmo tempo pela tomada de consciência da dimensão sexuada e pela exigência de democracia directa ligada à acção.A crise das identidades profissionais IDENTIDADES NO TRABALHO. os médicos (1983. estas «reivindicações de identidade» e as clássicas reivindicações salariais? Se se percorrer a lista destes conflitos. . p. pode-se falar de reconhecimento de identidades colectivas. Pelo menos. Que identidade? Que relação entre estes conflitos «particulares» e os «antigos» conflitos de classe. 182. De facto. desde há trinta anos para cá. p. Hérault e Lapeyronnie. trinta anos depois. Bernard Hérault e Didier Lapeyronnic. A. aquilo que reconhece Renaud Sainsaulieu quando explica porque é qúe. 189. m uitos conflitos. 1990. Les infermières e t leur coordination.. «Lidentité et les relations de travail». Paris. 128. da invenção de novas formas de acção e de representação. muitas vezes conside­ rados como «conflitos cada vez mais numerosos.). como analisava Paui Bouffartigue.. Vigot.. Danièle Sénotier. defen­ dendo ou reivindicando um estatuto: os professores (fim de 1987.. em La nouvelle société fran­ çaise. 181-212. constata-se. obra citada. Cf. É o caso das coordenações surgidas em diversos destes conflitos e nomeadamente naquele.). 1998. 1990. p.). catego­ rias inteiras que se opõem a medidas públicas que os concernem. 1989. a entrevista de Renaud Sainsaulieu com Guy Jobert. etc. conflitos visíveis. 1985. 1996-3. Merrien (ed). uma das características mais importantes dos últimos trinta anos parece ser «0 desvanecimento dos conflitos de classe»®®. encontram-se conflitos de toda a espécie. Sortie de siècle. 0 (62) Cf. por exemplo. de identidade»®. desde o Maio de 68. Danièle Kergoat. em França. (65) Cf. emblemático. Colin. aliás. «Le brouiliage des classes».-P. compatibili­ zados. as assistentes sociais (nove semanas no Outono de 1991).

dois conflitos recentes escapam às categorias precedentes.). 0 período está também repleto de conflitos orientados para a defesa dos empregos. conflitos «educativos» que já não têm o carácter «revolucionário». . mas que ignora também o seu verdadeiro papel econômico e social. Finalmente. Ela susteve-se em crenças exacerbadas de questionamento dos serviços públicos. sobretudo. até mestno «insurreccional» do Maio de 68. Na esmagadora maio­ ria dos casos ocorreu a supressão de empregos. duma profissão em iuta contra um sistema administrativo. Em seguida. de lugares (mineiros. o período é marcado por diversas greves de estudantes do ensino superior e secundário. Todos estes movimentos ilus­ traram até que ponto o «escoamento» foi mal feito na sociedade francesa onde as regula­ ções são fracas e onde as estruturas preventivas de formação. As enfermeiras não querem simplesmente inscrever-se no salariado. aquilo que estava em causa não era só u m reflexo corporativista de defesa era também e.. a Convenção geral da pro­ tecção social da siderurgia) -. Primeiro. às vezes. contra o fecho da fábricas. mobilidade são m uitas vezes ou inexistentes ou ineficazes. o ministro do ensino superior Alain Devaquet demite-se e. mas que podem comportar aspectos inéditos de «protesto moral» (final de 1986 contra o projecto Devaquet depois do assassinato de Malik Oussekine)®®. de meios atri­ buídos e da perenidade dos regimes de reforma.. incluindo a sua dimensão sexuada. na seqüência das manifestações de estudantes contra a lei Devaquet que pretendia instaurar um regime de selecção de entrada nas universidades. burocrático.) não só para a integração social mas também para a construção identitária individual. Estes conflitos mostram até que ponto o sistema educativo se tornou estratégico e o desafio do sucesso escolar decisivo (as exigências recaem cada vez mais sobre os métodos de ensino. No dia seguinte.. elas também querem inventar novas formas de expressão colectiva. um jovem francês de origem argelina ê brutalmente assassinado pela polícia. nomeadamente o dos ferroviários. destes conflitos que não se apresentam certamente como «luta de classes». assalariados de Vilvoorde ou de Michelin. as ajudas para o sucesso escolar.. reconversão. uma fracção dos assalariados reconverteu-se.T. um pouco por toda a França. a longa greve dos professores de Seine-Saint-Denis em Março-Abril de 1998 ou dos estudantes do liceu em 1999). graças a um plano social ~ até mesmo ao nível dum grupo inteiro (cf. os estudantes saem à rua im punhando cartazes: «Eles mataram Malik». enquanto outra acedia à pré-reforma e uma outra caía no desemprego. o fecho das fábricas e. É preciso reconhecê-lo: m uito poucos destes movimentos atingiram os seus objectivos. a afirmação da legiti- (66) N. mas que afirmam a existência colectiva dum grupo pro­ fissional. siderurgistas. dum colectivo de assalariados. mas não exclusivo. político que ignora os seus verda­ deiros problemas. do estatuto das empresas nacionais.pili _ _ _ A crise das identidades Estado é o destinatário principal. Mas os seus objectivos essenciais são a oposição à selecção e a reclamação de meios. Malik Oussekine.. inclusive para lutar contra o insucesso escolar (cf.: A 5 de Dezembro de 1986. A grande greve de Dezembro de 1995 foi desencadeada pelo questionamento dos regimes especiais de reforma. as suas reivindicações salariais. a mobilização contra a onda de despedimentos.. os locais.

o núm ero especial da revista Sociologie du travail dedicado às grandes greves de Dezembro dè 1995.. de tipo societário (Gesellschaft) e não comunitárias (Gemeinschaft). No movimento dos desempregados. Chômeurs: du silence á la révolte. a dinâmica de emancipação feminina (cf. as condutas de desistência (inseparáveis das questões de reforma). as provações do não-reconhecimento constituem experiências vividzis contra as quais é preciso reagir. 2/1992. (69) Cf. Se a constituição de tais grupos não é excepcional (cf. ela continua a ser rara porque (67) Cf. de «desfiliação» e de exclusão social. les cultures collectives comme dynamique rfaction». negação esta­ tutária. 0 movimento dos desempregados de Dezembro de 1997 é totalmente inédito porque historicamente é improvável: mesmo se existem precedentes. num caso. o carácter simbólico dos conflitos sociais e a importância identitária daquilo a que Segrestin tinha chamado «as comunida­ des pertinentes da acção colectiva». como as enfermeiras coordenadas. desde as «microculturas de oficinas» até aos «movimentos de mães solteiras». material e simbolicamente. passando pelos «grupos de mulheres em luta»). É a partir duma identidade de situação®® partilhada por um grupo desprovido de «memó­ ria colectiva» e um tanto estigmatizado pela partilha duma condição desvalorizada. No conflito dos trabalhadores dos serviços públicos. A comparação parece-me interessante já que ela permite distinguir formas tradicionais e novas forrrías de conflitos sociais. trata-se de afirmar colectivamente uma dignidade humana (os mínimos sociais actuais não são suficientes para a preservar) e de lutar juntos contra uma estigmatização infamante. trata-se antes demais de defender uma identidade estatutária contra um Estado-patrão que a põe em causa. Uma grande parte do «público» que apoiou os grevistas não se enganou®’. Hachette. TVata-se aqui da criação duma identidade nova pela mobilização pessoal. Sociologie du travail. (68) Cf. o individualismo. 159-177. dum gênero «novo». tratava-se de reafirmar a unidade de grupos profissionais «antigos» face aos riscos de deslocação. em seguida porque estas identidades incertas são «cul­ turas da acção». Mas. 1) à constituição de identidades de situação. Estes dois exemplos manifestam. ele representa uma mobilização colectiva inédita daqueles que depressa ganharam o rótulo de «excluídos». começando relações «de afinidade» e construindo um colectivo novo. desvalorização.. cap. a partir de indivíduos confrontados com o desemprego. «lugares de elaboração de trocas sociais» e não de defesa de prerrogativas (masculinas) duma profissão. No outro. tratava-se de construir uma identidade colectiva. A resposta dada por Emmanuelle Reynaud parece-me diferente da de Segrestin: primeiro. do seu reconhecimento. uma passagem da resignação à revolta®® que permite constatar até que ponto as formas de acção colectiva sobrevivem à «crise» e se renovam constantemente. 1998.A crise das identidades profissionais midade da própria noção de serviço púbJico. Didier Demazière e Maria Tcrésa Pignoni. porque quase todos os seus exemplos são de movi­ mentos de mulheres que ligam. p. «Identité collective et changem cnt social. isto é provisórias e parciais. de duas maneiras diferentes. os exemplos evocados por Emmanuelle Reynaud. com riscos de marginalização. . da constituição dum «grupo improvável» contra os pesos do «fechado sobre si próprio» e as culpabilidades do «estigma». Emmanuelle Reynaud. No primeiro caso.

de avanços e recuos. de duas maneiras de pensar os laços entre construção de individualidade e construção social. de exploração salarial. de criar «laços informais» e de «se comprometer pessoal e intensamente» num a empresa colectiva incerta que se refaz a partir do «societário» e não do «comunitá­ rio»^®. de laços voluntários. muitas vezes provisórios e limitados a um a esfera da existência. às vezes «fiisionat» (Sainsaulieu). duma separação «mortal» do grupo de pertença. de referências comuns. Porque ela obriga a distinguir radicalmente duas formas identitárias con­ frontadas à individualização das situações de emprego e de trabalho. um a mobilização pessoal que não existe no comunitário. qual é o adversário visado? Porque é que ainda se trata (ou não) dum conflito de classe? É uma pergunta estratégica para compreender a crise das identidades profissionais. defensiva. trata-se de «modificar o seu sistema normativo». mas também de coo­ peração. improvável e naturalmente inovadora. Aquilo que o exame retrospectivo parece mostrar cla­ ram ente é 0 declínio dos conflitos de primeiro tipo (que é necessário assimilar ao colapso da adesão sindical. a identidade de rede. na mesma dinâmica. confrontações. de compromissos e riscos. e m situação. de «negociação» de regras e normas. ao mesmo tempo. Ele exige. uma «criação institucional» (Sainsaulieu) que implica um processo de elaboração. 0 conflito como momento e provação duma constru­ ção d o actor colectivo é uma confrontação que pode permitir uma superação do isola­ m ento inicial e constituir uma experiência decisiva no acesso a uma identidade nova.como conflito de classe . no discurso dos seus líderes. ao mesmo tempo referencial e restritiva. Ela está à mercê dum conflito perdido. «jogos sem resultados». numa forma histórica pre­ existente que lhe fornece a sua identificação principal (por outro). 0 conflito . de dominação é flagrante. às vezes pouco visível. Este processo inclui necessariamente uma parte de conflito. é aquela que está inscrita numa continuidade. que afronta a questão da reconstrução duma forma societária. que atravessa a provação da individualização muitas vezes forçada. A identidade colectiva no trabalho é. em primeiro lugar.i]08Í _ _ „ „ „ _ A crise das identidades implica sempre um custo elevado. constituíam. no seio dos . A identi­ dade colectiva no trabalho é uma inovação. a identi­ dade categorial. Esta constitui apenas a especificação duma forma de tipo comunitário. Neste último caso. os assalariados só podem construir a sua identidade de dominados resistentes se se reunirem. (79) Segundo as definições ideal típicas dadas na introdução. É isto que a torna. o societário é uma construção conti­ gente. é aquela que resulta duma ruptura. ao mesrno tempo pessoal e «societária». (71) É verdade que desde há m uito os conflitos que se apresentavam como afrontamentos de classe. que implica uma identificação nova (para si). ao mesmo tempo voluntária e incerta. de facto. No primeiro. dos conflitos de segundo tipo^’. 0 colectivo preexiste e preforma a individualização. por isso. A segunda. o social como relação de classe.é uma confrontação que ou só pode reforçar as identidades estabelecidas dos pro­ tagonistas ou faz «eclodir» a identidade colectiva do perdedor em «indivíduos» abandona­ dos aos tormentos da «desfíliação». nomeadamente nos «sindicatos de classe») e uma subida lenta. É um elemento crucial daquilo a que cham o a crise das identidades profissionais. incerta. Estamos na intersecção de dois paradigmas. A primeira.

indica o desenvolvimento. a últim a parte de La socialisation. nos anos 1990.. a provação do «desemprego total»” ou a pré-reforma. incluindo a da cidadania. duma cultura de serviço público que é sobretudo analisada como defensiva. 1997. Ela combina uma relação de exterioridade em relação ao emprego e uma relação instrumental ao trabalho que torna delicada a «recon­ versão» nos outros papéis.“ ed. Paris. Um exemplo disso é dado por Pascale Trompette. especialmente face às privatizações e ao desenvolvimento das formas de precarização. com base nos assalariados das grandes empresas pri­ vadas face a formações «inovadoras»’®. Desclée de Brouwer. Gailimard. em particular familiares. Osty. Eu tinha detectado algumas destas dinâmicas aquando da inves­ tigação colectiva dos anos 1986-1989. trouxeram novos elementos que permitem. de movimentos sociais. Novas investigações. 791-822. Francfort. 201-252. situando-a «fora do modelo de competência». p. a mais terrível. periféricos na empresa ou no serviço. sobretudo para os homens. Dominique Schnapper. obra citada. Nesta nova edição. e o último capítulo de Sociologie des professions. no fim dos anos 1980. Aquilo a que Sainsaulieu designava com a expressão «modelo fusionah. Esta «forma identitária» foi cons­ truída através de actos de atribuição. 1981). 225-259. em matéria de emprego e de desemprego. sem dúvida. Aquilo a que Sainsaulieu tinha chamado a identidade de «reforma» e que caracterizava. os «modelos culturais» detectados por Renaud Sainsalieu nas organizações de trabalho dos anos 1960 sofreram evoluções significativas’®. completamente marcadas pela exclusão do trabalho. Uhalde.3) Cf. de actividades e de relações de trabalho. se chama o «fechado sobre si próprio» não esclarece em nada os processos sociais e psíquicos da marginalização que implicam todas as esferas de existência. Como é que os assalariados concernidos viveram esta provação identitária terrível que constitui a exclusão do emprego? Esta primeira forma de «crise identitária» é. . de etiquetagem no trabalho. Les mondes sociaux de 1’entreprise. às vezes. (72) 0 último livro colectivo de R. obra citada. Voltaremos a ela no último capítulo. 1997. Aquilo a que. p. «La négociation dans 1’entreprise'. symbolique de 1'honneur et recompositions iienútímsy>. os discursos dos assalariados que se consideravam «marginaliza­ dos». tínhamo-lo quais os desafios de reconhecimento identitário eram importantes e cuja solução podia confortar ao mesmo tempo a lógica de gestão de «sucesso econômico» e as lógicas salariais de «reconhecimento iden­ titário». com base em sínteses precedentes.A crise das identidades profissionais CONCLUSÃO Nas experiências destes últimos trinta anos. 1994 (!. defender a tese duma crise das formas identitárias herdadas dos trinta gloriosos. o autor faz o balanço dos trabalhos recentes sobre o desemprego c os desempregados e encon­ tra um a confirmação para a tese de manutenção da centralidade do trabalho na sociedade francesa dos anos 1980 e 1990. durante os anos 1990. Paris. p. (74) Cf. XXXVIII-4. Ainda não se sabe m uito bem çe se trata dum «modelo novo» ou da reactivação do modelo antigo. Sainsaulieu e P. e que se diziam ameaçados de exclusão evoluiu em direcção a modalidades novas. Revue française de sociologie. com base em observações directas de conflitos sociais nos quais a identificação dos operários ao seu líder implicava uma forma de «nós» que primava absolutamente sobre o «eu». F. Uépreuve du chômage. R. (7.

Ela já não se enquadra na última versão do modelo da competência que preconiza a mobilidade externa voluntária e valoriza a empregabilidade. utilizada até aqui de maneira quase uni­ camente negativa. muitas vezes éfemeros. supõe. cf. nostálgicas das protecções de identidade de ofício. uma espécie de «precaridade identificante»^*. (Centre d’études et des recherches sur les qualifications) 1996. Ela só remetia para tipos de colectivo muito personalizados. Ela já não representa um modelo de referência para a nova gestão obcecada com as reduções efectivas e com a redução das linhas hierárquicas. Esta forma identitária não parece ter resistido às novas vagas de racionalização dos anos 1990. como é que se pode gerir esta reconversão de si que vai substituindo os antigos percursos de ascensão interna? Como é que se pode projectar um futuro quando a empresa com a qual nos tínhamos identificado desaparece do horizonte? Qual é a alter­ nativa a esta identificação «interna» quando não existe um outro modelo de colectivo? Sobra o «último modelo» que Sainsaulieu designava pela expressão «modelo de afini­ dade» e ao qual eu tinha chamado primeiro «identidade incerta» e depois «identidade individualista» para propor por fim o termo identidade de rede. podia adquirir uma conotação positiva. Ela era a única a ser organizada em torno da ante­ cipação dum percurso dc mobilidades voluntárias. Esta crise identitária coloca também a questão da transmissão intergeracional no seio das classes populares ou do «assalariado médio». fosse ela qual fosse. Pela m inha parte. desde há mais de dois séculos. CEREQ. Ela já não representa um modelo atractivo para os «quadros» por seu turno a braços com os desempregados que se consideram maioritariamente como assalariados comuns. alternativas dolorosas entre reconversão incerta e reclassificação em empregos muitas vezes desvalorizados. Era o único caso onde a noção de «precaridade». com frequência. apesar de todos os riscos previsíveis. atra­ vés de experiências curtas mas cada vez mais enriquecedoras. o relatório intitulado Les conirats précaires en questions.A crise das identidades rebaptizado de identidade categoriai para designar a argumentação daqueles que. Aquilo a que Sainsaulieu chamava «modelo negociatório» coloca problemas diferentes. Esta forma tinha sido induzida. uma conduta de exploração incessante dum meio profissional. isto é.5) E ncontrei esta expressão num relatório de pesquisa coordenado por Anne-Chantal Dubernet rela­ tivo aos jovens em inserção na região do País do Loire. sob as palavras duras da racionalização. Já se viu em que é que ela difere das crises precedentes e como ela toma a forma dum sen­ tim ento de bloqueio. adoptavam formas de partici­ pação dependente. A «vida de artista» é disso (7. descon­ fiando da gestão participativa e das inovações da formação. quase exclusivamente. cen­ trados sobre relações afectivcis. policopiado. . eu tinha proposto a expressão identidade de empresa para designar a lógica argumentativa dos assalariados muito implicados nas inovações da sua empresa e que estavam à espera de poder trocar esta contribuição importante por uma promoção interna. pelos discursos dos jovens licenciados que se sentiam des­ qualificados e que imaginavam uma «mobilidade externa» na empresa onde trabalhavam. Se ela não desemboca necessariamente na exclusão do emprego. sob formas cada vez mais específicas. Esta crise das iden­ tidades de ofício. É por isso que ela continua a ser proble­ mática e mal elucidada. em rede. continua a reproduzir-se na his­ tória do capitalismo.

. cada um. pela extensão do modelo da competência e da emergência de novos projectos de carreira tornada mais difícil pelas incerte­ zas dos mercados. Bob Audrey..«sociedade de rede» está bem implantada no trabalho mas continua tão incerta e móvel quanto a evolução do próprio trabalho..... PUF.. as duas obras publicadas no mesmo ano sobre os actores: Catherine Paradeise. Todas as formas anteriores de identificação a colectivos ou a papéis estabelecidos tornaram-se problemáticos.. Le travail après la crise... Eis uma segunda interpretação da crise das identidades. esta identidade de rede muito ligada à «sociedade em rede»’®que se constrói através da mundialização.. a única a propor à nova geração.. Nesta últim a obra. (77) Sobre este modelo ultraliberal..... 0 último grito do modelo da competência supõe um indivíduo racional e autônomo que gere a suas formações e os seus períodos de trabalho segundo uma lógica empresarial de «maximização de si»” ... 1997.. falhanços.. vulgo «a empresa de si próprio»....... destabilizadas. Mas esta forma não estará. Esta forma virada para a «realização de si».. marcados pelo «comunitário» e que tinham per­ mitido identificações colectivas. no futuro.e produtora da . desvalorizadas. a «precaridade» ao tentar dar-lhe um sentido. também ela.. Paris. Não se pode ser mais claro. As identidades «tayloriana».. «de ofí­ cio». o autor revela as noções de «self-marketing permanenb> (autopromoção permanente) e de «autoproduction (et mise en scène) de soi» [«autoprodução (e encenação) de si próprio») que. Trata-se duma forma identitária similar à dos actores cujas caracterís­ ticas e percursos™ se conhecem melhor hoje em dia.. Todos os «nós» anteriores. erh crise de não-reco­ nhecimento... a única susceptível de reconhecimento temporário.. e Pierre-Michel Menger... em crise permanente? Se 0 resultado de trinta anos de crise do emprego.... um bom exemplo... InterÉditions. La profession de comédien. indivíduos isolados no seio duma rede flexível que nem sabe sequer exactamente onde se situa» (p. Tendo em conta todas as análises pre­ cedentes... cada vez com mais frequência. consistiria em pensar que a diferença entre o questionamento dos papéis profissionais (e das categorias de emprego). Paris. a forma identitária assim visada... Les comédiens.. da valorização da competência pessoal e da «empregabilidade de cada um». Paris.. (79) Uma hipótese mais congruente em relação à do capítulo precedente. foi fazer desta última forma identitária a única desejável no futuro. inseguranças. 322). «de classe»..A crise das identidades profissionais . então entrámos numa crise identitária permanente’®. coloca os indivíduos na obrigação de afrontar a incerteza e. Ministère de la Culture. alia­ das à constatação do carácter decisivo das redes pode levar a considerar estes actores (e sem dúvida os outros artistas) como representantes eminentes desta nova forma identitária que é marcada por crises recorrentes (períodos de desemprego. (76) Cf. 1994. destruturadas.. Esta forma muito «individualista» mas também muito «incerta»... pri­ meiro no trabalho e depois por todo o lado.).... modos de socialização do «eu» pela integração definitiva a estes colectivos são suspeitas.. a plenitude pessoal. Deverá.... cf.. Manuel Castells afirma: «Nunca o trabalho foi tão essencial ao processo de criação mas nunca os trabalhadores foram tão vulneráveis face à organização. de transformação do trabalho no sentido da responsabilidade individual. inteiramente complementar da forma do capítulo precedente.. 1997............. vai ter tendência para se reduzir e que as identidades de rede se vão desenvolver graças à antecipação de novas carreiras ligadas a novas redes de emprego. esta «identidade de rede» produzida pela ..... Ce que chacun doit savoir pour gagner sa vie au XIX siècle...... estão desvalorizadas... num contexto de forte competição. .. pode-se dizer que hoje é a única forma identitária valorizada e protegida pela crise? Nós retomaremos esta questão no último capítulo deste livro... (78) Em La Société en réseau. «de empresa».

a gerir? Uma identidade de crise. último baluarte da «estabilidade da vida». assim como uma identidade em crise? . de emprego. de «nivelamento das condições de emprego». para eles. de rede? Em que é que se transformará então a nossa identidade profissional. acabará por ceder às palavras duras da «necessária concorrência» da empresa de serviço. incerta. do processo de racionalização capitalista? Será que cada um de nós deverá mudar regular­ m ente de actividade. parte mais ou menos central da nossa identidade pessoal? Tornar-se-á. finalmente. a urp empregador ou «tentar a sua sorte» na criação duma empresa incerta? 0 estatuto da Função Pública. uma história imprevisível. uma série indefinida de crises a ultrapassar. de competência. para a maioria. em permanente reconstrução? Será ela. por uns tempos. das «novas normas europeias» e.A crise das identidades «veader-se».