Quando acordei a ver cores

Na realidade menti, não acordei a pensar na cor e já tinha um texto na cabeça. A luz quando bateu na cortina foi saboreada de manhã nem me magoava. Cheirava a dia e sentia um doce no olhar, já tinha ruguinhas pois penso que sorria. Olhei para o tecto em espelho enquanto vislumbrava um ocre que me perfumava. Eram os olhos ou era boca ou era uma ruguinha ou era tudo já não me lembro. Ou era eu a cheirar a almofada pensando que via a cores. Ou era um rio que corria cá dentro ou era o tacto a sentir electricidade, uma rocha fresca e molhada, uma nascente branca. Ou então sonhava ou estava a adormecer a tentar vê-la, ou era a minha personagem com quem dialogava descrevendo-me sensações, projectando-me fantasias, entretenimentos de solitário. O peito aperta mas não é dor, talvez seja da luz que o aquece, ou talvez seja eu que esteja tapado e me queira destapar. Já vejo as minhas mãos e contemplo-as vivendo a memória dos espelhos das rugas e das esmeraldas. Lembro-me do texto e quero escrevê-lo sem saber dele e digo-me qualquer coisa e depois escondo-me debaixo dos lençóis, torno-me perfeccionista, o peito aperta mas não é dor e fica quando toca a tecla da memória que vem e puxa-me as calças e fico desnudado acabrunhado e quero esconder-me. Quero agarrar as letras pelos cornos e lanceto o peito, depois oiço a nota e corro com as tripas de fora nos braços pela casa adentro. O cão ladra e mói como se fosse a tecla. Fumo cigarros, mordo o filtro quando procuro a cicatriz do peito. Radiografias ao tempo, o coração lá está, já me habituei à dor quando mordo o lábio e trinco o fumo. As letras pesadas da máquina são cruas para quem tem as tripas de fora. Escrevo-as quando as possa apagar, já de peito cosido que aperta e sulca o papel mas não é dor.

Autor: José Pedro Gomes Facebook blog