Dois palcos da vida

A sala de aula pode provocar significados bem semelhantes aos dos
espetáculos teatrais

Por Aldri Anunciação

Desde quando comecei a atuar nos textos teatrais os quais escrevi, sempre ao abrir das
cortinas, eu percebia a respiração do público ávido por acontecimentos significativos no palco.
É como se fosse um acordo tácito: Você me tirou de casa... eu vim até o teatro... agora digame algo que valha a pena... prove-me que uma existência fictícia pode ser tão impactante
quanto uma existência verdadeira. Ou seja, a escrita me impôs uma responsabilidade, somente
comparável à vivida por você, professor.
Sempre considerei a imagem daquela pessoa na frente de alunos em estado de expectação,
bastante teatral. E os “segundos iniciais” de um espetáculo teatral, talvez sejam cheios da
mesma atmosfera dos “segundos iniciais” de uma aula. O momento da troca de conhecimentos
em uma sala de aula, mesmo que distante da configuração palco/plateia, em muito se
assemelha com as criações mútuas de significados que as artes cênicas podem provocar.
Quando o espetáculo teatral acontece, arrisco dizer que aquilo que desejamos comunicar para
a plateia nunca é dito diretamente pelo ator. A síntese almejada da engrenagem cênica
acontece em outro plano. Como se o verdadeiro sentido dos acontecimentos do drama não
pudessem ser pronunciados nas cenas, mas antes transmitidos através de imagens sugeridas.
Respirações ritmadas. Olhares profundos! Essa articulação de expressividade é que me vem à
memória quando me lembro dos meus professores (professor Carneiro, professor Miguel,
professora Cristina, professor Iran... e tantos outros que habitaram os “palcos” das salas de
aula nos quais eu fui público ao longo de diversos anos no meu antigo ginásio). Havia algo
neles que não era simplesmente dito... mas que ainda assim comunicava bastante.
As palavras selecionadas por vocês (professores) muitas vezes escondem aquilo que não deve
ser dito, mas descoberto da mesma forma em que a plateia tenta descobrir os pensamentos de
um personagem no palco. E essa interação (aluno/professor ou plateia/personagem) torna-se
cada vez mais rica quando o estímulo da busca do conhecimento (ou do desconhecido) se
torna mais importante do que a matéria ou o assunto a ser dado. É esse acordo, que
classifiquei de tácito, que (talvez) vocês também experimentem... e muito provavelmente
percebam seus alunos com aqueles olhos de expectação que, assim como a plateia de teatro,
também perguntam (sem palavras): Prove-me que minha existência de aluno pode ser tão
impactante quanto a sua existência de professor!

* Aldri Anunciação é ator e autor de Namíbia, Não, Prêmio Jabuti 2013 na categoria juvenil

Publicado na edição 84 da Revista CARTA NA ESCOLA (CartaCapital) de março de 2014