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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
CURSO DE MESTRADO

MARCO ANTÔNIO MARTINS DA CRUZ

USOS E APROPRIAÇÕES SOCIAIS DO ESPAÇO PÚBLICO
NAS PRAÇAS DE SÃO LUÍS DO MARANHÃO

São Luís
2011

MARCO ANTÔNIO MARTINS DA CRUZ

USOS E APROPRIAÇÕES SOCIAIS DO ESPAÇO PÚBLICO
NAS PRAÇAS DE SÃO LUÍS DO MARANHÃO
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação
em Ciências Sociais da Universidade Federal do
Maranhão, para a obtenção do Título de Mestre em
Ciências Sociais.
Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernandes Keller

.

São Luís
2011

CRUZ, Marco Antônio Martins da.
Usos e apropriações sociais do espaço público nas praças de São Luís do
Maranhão/Marco Antônio Martins da Cruz. – São Luís, 2011
140f.
Impresso por computador (fotocópia).
Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernandes Keller.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Maranhão, Programa
de Pós-Graduação em Ciências Sociais, 2011.
1.

1. Praças públicas – São Luís–MA – Interação social 2. Espaço público
– Uso I. Título
CDU 316.4.063.3:711.61 (812.1)

para a obtenção do Título de Mestre em Ciências Sociais. José Odval Alcântara Jr Doutor em Ciências Sociais Universidade Federal do Maranhão . Dr. Dr. Carlos Frederico Lago Burnett Doutor em Arquitetura e Urbanismo Universidade Estadual do Maranhão ______________________________________________ Prof. Dr. Aprovada em: ____/____/____ BANCA EXAMINADORA ______________________________________________ Prof. Paulo Fernandes Keller (Orientador) Doutor em Ciências Humanas (Sociologia) Universidade Federal do Maranhão ______________________________________________ Prof.MARCO ANTÔNIO MARTINS DA CRUZ USOS E APROPRIAÇÕES SOCIAIS DO ESPAÇO PÚBLICO NAS PRAÇAS DE SÃO LUÍS DO MARANHÃO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão.

pelo firme apoio e compreensão.A Maria Lúcia. sobretudo nos momentos de afastamento de seu convívio. sempre companheira. .

pela garantia na comunicação das informações do Programa.A Soraya Cristina Barbosa Carvalho. Eliana Tavares dos Reis. como forma de apoiar a execução desse projeto de mestrado. pela torcida. À instituição de fomento Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA). pela enigmática dádiva da vida. Aos meus pais in memoriam Gilberto Martins da Cruz e Dária do Carmo Mendes Guimarães da Cruz. Professor Doutor Paulo Fernandes Keller. Aos meus filhos Allan Kássio Beckman Soares da Cruz. Mundicarmo Maria Rocha Ferretti. Elizabeth Maria Beserra Coelho. Aos meus irmãos Paulo Marcelo Martins da Cruz. A Mary Lourdes Gonzaga Costa. muito obrigado. em especial a Igor Gastal Grill. pela pronta atenção e orientação segura no percurso de pesquisa. contribuindo em parte para a elaboração desta dissertação. Antônio Carlos Martins da Cruz e Márcia Valéria Martins da Cruz. Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFMA. A Rosana Santos Pinheiro. A todos os amigos e colegas de turma do Mestrado pelos momentos de convivência nesses dois anos de muitas aprendizagens. Ao meu orientador. secretária do PPGCS.AGRADECIMENTOS A Deus. pela colaboração na pesquisa com a tabulação dos resultados. A todos. pelo eterno carinho. . na forma de Auxilio – Taxa de Bancada. secretária da Revista Pós-Ciências Sociais. Deborah Duane Beckman Soares da Cruz e Jean Renan Beckman Soares da Cruz. Marcelo Domingos Sampaio Carneiro. Ricardo Bruno Beckman Soares da Cruz. auxiliar da Secretaria do PPGCS. que lecionaram as disciplinas cursadas. pelo incentivo com a concessão de apoio financeiro. pelo bom atendimento. base na criação e perseverança no ensino da responsabilidade para com os afazeres diários. pelo seguro apoio e compreensão nos momentos de afastamento para a redação deste estudo. pela permanente atenção. Sergio Figueiredo Ferretti. À minha esposa Maria Lúcia Soares da Cruz.

(Anthony Giddens) .“O espaço não é uma dimensão vazia ao longo da qual agrupamentos sociais vão sendo estruturados. mas deve ser considerado em função do seu envolvimento na constituição de sistemas de interação”.

que caracterizam modalidades e estratégias de convívio na cidade. Descreve-se o processo histórico de transformações urbanas de São Luís. Espaço. apropriações e interações nas praças públicas e o processo de construção de sociabilidades no cotidiano por indivíduos e grupos. Evidenciam-se. as apropriações e as interações sociais no espaço público são estudados os casos de três praças da cidade: Praça Gonçalves Dias. Por meio de observação direta e entrevistas são identificados e examinados os procedimentos interacionais que permitem a indivíduos e grupos estabelecer arranjos sociais direcionados aos usos e apropriações sociais do espaço público nas praças. regiões e bairros da cidade. relações e interações sociais. Praça da Ressurreição e Praça do Conjunto dos Ipês. Interação. Compara-se o transcurso das condições sociais de usos. as dinâmicas sociais dos rituais decorrentes das sociabilidades cotidianas.RESUMO Usos e apropriações sociais do espaço público nas praças de São Luís do Maranhão compõe-se de um estudo sobre as práticas sociais de usos atribuídos pelos citadinos ao espaço social público contemporâneo da cidade. Para compreender os usos. enquanto habitantes de diferentes territórios. Observa-se como a proximidade e o distanciamento possibilitam a construção de fronteiras sociosimbólicas entre indivíduos e grupos. assim. Praça. São discutidos em uma perspectiva interacionista os conceitos de espaço e lugar onde indivíduos e grupos estabelecem ações. Público. . Estudam-se as articulações individuais e coletivas na composição do espaço social. Palavras-chave: Uso. com seus reflexos nas mudanças e permanências na estrutura da cidade e configurações sociais nas praças. Apropriação.

appropriations and interactions in public places and the construction of sociability in everyday life by individuals and groups. with its reflections on the changes and continuities in the structure of the city and social settings in the squares. relationships and social interactions are discussed in an interactionist perspective. It compares the course of the social uses. It is studied the collective and individual joints in the composition of social space. and Conjunto dos Ipês Square. It is described the historical process of urban transformation of São Luís. therefore. Through direct observation and interviews are identified and examined the interactional procedures that allow individuals and groups establish social arrangements directed to the social uses and appropriations of public space in squares. Interaction. Keywords: Use. Public. In order to understand the uses. as inhabitants of different territories. Became evident. Ressurreição Square. Space. Appropriation. It notes how the proximity and distance allow the construction of socio symbolic boundaries between individuals and groups. . featuring arrangements and strategies of living in the city. The concepts of space and place where individuals and groups establish actions. the social dynamics of everyday rituals derived from sociability. regions and neighborhoods. appropriations and social interactions in public space are studied the cases of three squares of the city: Gonçalves Dias Square. Square.ABSTRACT Uses and social appropriation of public space in the squares of São Luís do Maranhão is composed of a study on the social practices of uses attributed by city dwellers to the contemporary social space of the city.

........... 99 Figura 5 – Cenários dos usos e apropriações na Praça Gonçalves Dias ................................LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Mapa de São Luís com a localização das praças pesquisadas .......... 109 Figura 7 – Fotografia de satélite da Praça da Ressurreição ........................................................... 95 Figura 3 – Vista parcial da Praça Gonçalves Dias........ 94 Figura 2 – Mapa do Centro de São Luís com a localização da Praça Gonçalves Dias ....... 115 Figura 10 – Mapa com a localização da Praça do Conjunto dos Ipês ............ 121 Figura 13 – Cenários dos usos e apropriações na Praça do Conjunto dos Ipês ................ 112 Figura 9 – Cenários dos usos e apropriações na Praça da Ressurreição..................................................................................... 105 Figura 6 – Mapa com a localização Praça da Ressurreição ........................................... 110 Figura 8 – Vista parcial da Praça da Ressurreição ................................................................................................ 124 ................................... 98 Figura 4 – Fotografia de satélite da Praça Gonçalves Dias ................................. 117 Figura 11 – Fotografia de satélite da Praça do Conjunto dos Ipês .......................................................... 119 Figura 12 – Vista parcial da Praça do Conjunto dos Ipês ..............................

. 69 Tabela 3 – Evolução Demográfica de São Luís e Maranhão (1991 – 2010) ............................................................ 65 Tabela 2 – Evolução Demográfica de São Luís (1872 – 2010) ..............................LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Evolução Demográfica de São Luís (1612 – 1820) .... 71 ............................. 70 Tabela 4 – População Residente em São Luís (2010) ...........................................................

................ 37 2....................... 49 3 HISTÓRICO DO DESENVOLVIMENTO URBANO DE SÃO LUÍS ..............2 Usos e apropriações sociais do espaço público: o caso das praças de São Luís .....2 Espaço social público: condições objetivas para as interações........2....................................SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .................... 117 5 CONCLUSÃO ...2................................................. 72 4 USOS E APROPRIAÇÕES SOCIAIS DO ESPAÇO PÚBLICO NAS PRAÇAS DE SÃO LUÍS ................... 55 3.............................................................................................................................................2............... 126 REFERÊNCIAS ...........................................................2 Mudanças e permanências na composição urbana e os usos das praças: do tradicional ao supermoderno ........................1 Histórico das transformações urbanas de São Luís .............................................................. 137 ANEXO ........................................................................................................... 95 4........................................................................................ 90 4...2 A Praça Gonçalves Dias .............................................................................3 A Praça da Ressurreição ............. 141 ............................................................... 55 3............... 107 4.....................3 As praças enquanto espaço público: conceituação e configurações ................2............................................................ 90 4....................1 Espaço e lugar: atores e relações sociais .......................1 Usos e apropriações sociais do espaço público: introdução ............... 79 4...............................................................4 A Praça do Conjunto dos Ipês ................... 12 2 REVISÃO DE LITERATURA ...........................................................................................................................1 Introdução ao estudo de caso... 79 4.............................................. 22 2.......... 22 2...............................

para Goffman (2009. econômica e política. 1 Copresentes. atores sociais. no contexto sócio-histórico contemporâneo. São pensados de modo articulado os conceitos fundamentais de espaço público e privado. relação social. p. neste contexto. uma extensão limitada no espaço.12 1 INTRODUÇÃO Neste estudo são analisados os usos. proximidade. usos e apropriações sociais. Como pontua Goffman (2011). 11). sociabilidade. objetiva-se evidenciar a ordem comportamental encontrada nas praças de São Luís. nessas ações entre atores. Considera-se teoricamente o espaço dos ajuntamentos sociais. pode ser entendida como “o período em que o indivíduo está na presença imediata dos outros”. coletividade. observando as ações das pessoas em atividades interacionais temporárias. individualidade. e os eventos são restritos àqueles que devem ser completados depois de iniciados. O objeto de investigação refere-se aos usos. disponíveis e sujeitas umas às outras” (GOFFMAN. Praça da Ressurreição e Praça do Conjunto dos Ipês. portanto. distanciamento. praça. . p. Reflete-se. a saber: Praça Gonçalves Dias. sobre os atores sociais copresentes1 e suas práticas interacionais. “a copresença deixa as pessoas singularmente acessíveis. às apropriações e às interações sociais nos lugares constituídos em espaços públicos específicos da cidade de São Luís do Maranhão. Estas são compreendidas como lugares públicos de interação social. 33). Afirma Goffman (2011. identidades. no contexto do que Goffman (2011) chama de sociologia das ocasiões. quando as pessoas entram na presença imediata de outras. as múltiplas formas em que transcorre a ordem da interação e como são exercitadas e sustentadas na cidade as relações intersubjetivas nas diversas dimensões sociais: cultural e simbólica. 9) que. Há um emaranhado complexo com as propriedades rituais das pessoas e com as formas egocêntricas da territorialidade”. para refletir sobre como é construído e cultivado o processo de sociabilidades. Justificase a escolha das três praças pela possibilidade de admitir uma análise que comportasse identificar e confrontar práticas interacionais em bairros e contextos sociais diversificados. p. 2010. interação. no qual prevalecem novas dinâmicas que requalificam os espaços públicos urbanos. “estão envolvidos um breve período de tempo. refere-se à copresença que. concebendo a cidade como espaço de convivência e as praças públicas como lugares onde ocorrem ritos sociais de interação. as apropriações e as interações sociais estabelecidas e mantidas no espaço público de praças localizadas na cidade de São Luís–MA. Discutir usos. Ainda segundo este autor. apropriações e interações sociais no espaço público é remeter às dinâmicas sociais básicas.

lugares esses que se fazem presentes também no imaginário social coletivo. dos „padrões‟ que coexistem na cidade” (LEFEBVRE. p. deve-se mencionar a continuidade dos estudos relacionados à temática da cidade. entre tantos prováveis fenômenos passíveis de investigação no universo social. edifícios públicos. trocas mercantis e não mercantis. 22). conhecimentos e reconhecimentos recíprocos dos modos de viver.] Tendo em vista. Entendem-se as praças como ambientes de interações heterogêneas. feiras. nos quais são estabelecidas interações entre indivíduos e grupos que ali se encontram. No exercício da docência. O interesse pelo estudo das interações e sociabilidades nas praças foi despertado no curso de Graduação em Ciências Sociais (1983-1986) e aprofundado em uma Especialização em Sociologia Urbana (1994). onde se desenvolve a construção de interações e envolvimentos na cidade. Fatos ocorridos em espaços como esses são eventualmente rememorados e relatados em reminiscências pelas gerações mais velhas. [. concluídos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.. São ambientes propícios à convivência. querer estudar e refletir sobre os usos e apropriações sociais de praças. Não se pode conceber o espaço urbano sem incluir igualmente esses locais por onde se deslocam e nos quais interagem ou convivem as pessoas que habitam determinada região. seus habitantes percebem as praças como lugares peculiares. interessa estudar os processos que “efetivamente emerge[m] de um encontro público. portanto. o que se visa é pensar sobre os citadinos. vendedores estabelecidos ou ambulantes e outras atividades como mendicância e prostituição. Seja qual for o tamanho da cidade. 2009.. igrejas. interações. É parte dessa realidade citadina que se investigou. . que o citadino circula por mundos diferentes. p. jogos. indivíduos e grupos que vivem o cotidiano contemporâneo da cidade de São Luís. Foi no espaço público em que se fundaram historicamente as noções de política e cidadania. 48). confrontos das diferenças.13 Assim. Na introdução a este estudo é oportuno considerar o que levou o pesquisador a indagar. desde 1991. sociabilidades. manifestações culturais. As praças públicas estão localizadas em determinados espaços físicos e sociais. contíguos porém distintos”. A vida urbana “pressupõe encontros. Conforme sua localização é possível identificar em seu entorno residências. nos quais ocorrem encontros. nas ideias e nas representações de mundo das pessoas. recordando episódios vividos na frequência às praças em outros tempos. Como diz Frúgoli Jr (2007.

O que os atores sociais costumam fazer para organizar e estabelecer espaços que são usados e apropriados nas praças? Quais são os padrões de conduta característicos das formas de revezamento para uso? Ocorrem conflitos interativos motivados por códigos de condutas. Assim sendo. representam as praças de alimentação nos shopping centers novos espaços de interação social e de sociabilidades na atual sociedade capitalista.14 Configurações estas que permitem compor e renovar cotidianamente as modalidades de usos. É pertinente perguntar. contudo. seja pelos moradores da vizinhança. costumam ser pensadas como núcleos irradiadores a partir dos quais a urbe se desenvolve. o qual deveria. regras e normas divergentes entre os frequentadores desses espaços? São estabelecidos consensos para a distribuição e seletividade desses usos sociais? Quais os recursos2 que indivíduos e grupos lançam mão nas interações 2 Recursos empregados pelos agentes visam “manter um senso coerente dos eventos centrais das trocas” (HERITAGE. Essa ideia. pelos que ali permanecem algumas horas dos dias. visa a pesquisa. A questão de pesquisa se coloca a partir de quais costumes e sob quais condições estruturais e interacionais os citadinos estabelecem. A propósito. São construtos do senso comum com os quais os agentes interpretam e organizam . a concorrência relativa às suas apropriações sociais. p. onerosas ou ainda marcadas por intercâmbios simbólicos de variados bens. 1999. compreender o espaço público considerando suas destinações. se outros espaços têm ocupado o lugar social reservado outrora à praça pública. 341). Do mesmo modo. As praças. Investiga-se. por meio de um percurso investigativo a praças da cidade. pode ser questionada na vida social contemporânea. portanto. apropriações e interações sociais no espaço público. em uma concepção tradicional. foram verificadas no cotidiano as diferentes maneiras pelas quais indivíduos e grupos conduzem espécies e padrões de usos nesses espaços urbanos. pelos que circundam aquele espaço. como os atores em suas interações são condicionados pelo contexto social da copresença nas praças de São Luís. em tese. então. pelos que por lá transitam e pelo Estado. mantêm e tornam possíveis os usos e apropriações sociais em praças (públicas) na cidade de São Luís-MA no transcurso das situações sociais. constataram-se interações sociais marcadas por diversos tipos de trocas. zelar por esse locus privilegiado de interações e sociabilidades. tradições. Inicialmente. quando a praça deixa de ter o sentido político que tivera no passado. sejam gratuitas.

O conceito e categorias da cidade (WEBER. 1987) possibilitam também relevantes aportes teóricos para analisar as praças no contexto urbano. grupos e instituições nas praças da cidade de São Luís contemporânea. Erving Goffman. sobretudo. ocupam. Weber (2009) formulou conceitos adequados ao tema da pesquisa. . Georg Simmel. Para Simmel. 2006). entre outros. merecem igualmente destaque. disciplina conexa. como ação social e relação social. usam e vivem esses lugares deve proporcionar subsídios para reflexão a respeito das interações entre indivíduos. Roberto DaMatta. As produções teóricas do urbanismo. Norbert Elias. enquanto habitantes de uma região da cidade? Como ocorrem as interações entre indivíduos conhecidos que conservam relações de proximidade com estranhos? A dissertação pretende contribuir com as discussões e debates sobre as formas de interações estabelecidas no espaço urbano. a qual pode ser comunitária ou associativa. causando dificuldade de diálogo e convivência. Do mesmo modo.. Os referenciais teóricos que orientam a metodologia deste estudo estão baseados. 1999). Discutem eles as interações e sociabilidades em determinados espaços sociais. podem ser analisados os grupos e redes sociais de interações que se formam no cotidiano. as apropriações e as interações sociais no processo de construção de sociabilidades no cotidiano por indivíduos e grupos. este conceito expressa a aproximação com outras pessoas (SIMMEL. Gilberto Freyre. que permitem pensar os usos sociais das praças. A pesquisa tem seu objeto associado à Antropologia e à Sociologia Urbana. oferecendo meios para a elaboração de um diagnóstico acerca das sociabilidades nesse ambiente.15 para cultivar as relações e sustentar as situações sociais? Como são articuladas no processo de interação as condições sociais para o uso e a apropriação de determinados territórios? Podem ser verificadas diferenças ao serem confrontados os usos sociais em bairros diversos? Quais são e como transcorrem os usos. Anthony Giddens. A investigação a respeito das relações entre os diversos atores que circulam. José Alcântara Jr. A ausência de sociabilidade pode ser desenvolvida em razão de atitudes opostas à aproximação. Com isso. pensa-se a noção de sociabilidade. Para caracterizar os espaços de sociabilidade utilizam-se também suas situações de ação. transitam. Harold Garfinkel. envolvem a contextualidade das ações comuns. a observação de convenções normativas e o uso da linguagem (HERITAGE. Diferenciou ainda uso e costume. em autores como Max Weber.

A etnometodologia estuda o raciocínio prático. 2009). Da mesma forma. 382) que “cada ação social é um comentário reconhecível sobre o cenário de atividade no qual ela ocorre e uma intervenção nesse mesmo cenário”. em dada ocasião. 2009. realizada com o objetivo de influenciar de certa maneira um dos participantes (GOFFMAN. Estão. produzida na interação e por meio dela. De acordo ele. Giddens (2005b) considera a vida social a partir da interação que ocorre entre indivíduo e sociedade. que seriam não apenas aqueles que praticam a ação. incluídas na pesquisa as concepções teóricas de Goffman. pontua Heritage (1999. Na condição de agente de suas ações. considerando os fundamentos lógicos da ação nos contextos em que são usados.16 as concepções de Elias.. em vez dos eventos extraordinários conscientemente percebidos e revestidos de significado. sendo que o contexto constitui a estrutura da interação que é. Considera este autor as redes de interdependência que os indivíduos estabelecem nas configurações que lhes são próprias (ELIAS. ainda. Alude este autor a diferentes estratégias e técnicas de atuação. p. As decisões acerca do que seja relevante para os membros da interação social apenas podem ser tomadas por meio de uma análise da interação. e não pressupostas a priori. O ponto de vista da etnometodologia é apresentado por Uwe Flick.] a interação é produzida de uma maneira bem ordenada. o indivíduo usa sua consciência discursiva e prática.71). com os atores desempenhando papéis de diferentes personagens. Trata ele da representação. O foco não é o significado subjetivo para os participantes de uma interação ou de seus conteúdos. [. mas os que possuem a capacidade para realizar determinada ação que deve produzir um efeito. mas a forma como essa interação é organizada. ao mesmo tempo. que seria a totalidade da atividade de determinado indivíduo. O conceito de configuração é aplicado à análise das formas de interação que tornam efetivos os usos sociais das praças.. Neste sentido. Outra perspectiva nesta pesquisa é a da etnometodologia de Harold Garfinkel. 1994). p. O tema de pesquisa passa a ser o estudo das rotinas da vida cotidiana. (FLICK. Os estudos de Garfinkel estão voltados . Com base no conceito de consciência prática são estabelecidas relações com os atores sociais. A teoria da estruturação de Giddens (2003) permite também a análise de encontros sociais localizados segundo tempo. espaço e regionalização. analisando a dinâmica social como se acontecesse em palcos – as praças –.

observação direta e entrevista estruturada. A literatura com que se subsidia a análise buscou esboçar o conhecimento das produções teóricas de vários autores nas áreas da antropologia. Gomes (2010) e Harvey (2007). A primeira etapa. o que admite pensar as diversificadas interações no contexto do espaço social das praças públicas. Para efetivar a observação sistemática direta esses espaços foram frequentados. O início da manhã ou o fim da tarde são momentos de maior frequência à praça. As entrevistas foram do tipo . delimitados horários nas manhãs. que permitem discutir as formas de uso. da sociologia e das ciências sociais em geral acerca da questão do fenômeno das interações e sociabilidades relacionadas com o uso e a apropriação do espaço público das praças. em um período que abrange do dia 5 (cinco) de junho a 26 (vinte e seis) de agosto de 2011. Nesta fase coletou-se material fotográfico por meio de fotos tiradas nas praças. foi marcada pelos estudos bibliográficos. o pesquisador iniciou como frequentador em observação direta. Entre as técnicas empregadas nesta pesquisa qualitativa estão estudos bibliográficos.17 para fenômenos empíricos da atividade social e de organização das condutas sociais. A fluência à praça nos dias úteis é diferente em relação àquela verificada nos fins de semana. com presença verificada em seriação ao longo dos dias da semana. cujo acervo está exposto em parte para ilustrar com imagens o que se pôde compilar. ocasionais e frequentes. serviram ainda como referências as orientações teóricas de Alex (2008). compreensão e crítica. apropriação e população usuária das praças públicas na cidade contemporânea. A metodologia adotada para realização da dissertação orientou-se pela perspectiva do interacionismo e da etnometodologia. que se desenvolveu simultaneamente à investigação de campo. A observação foi associada às entrevistas realizadas com frequentadores e transeuntes desses espaços. Ao buscar formulações conceituais que ampliem a capacidade de estudo. também. permitindo reunir informações sobre a identificação de usuários individuais e coletivos. Foram. Enquanto usuário das praças foi possível anotar em Diário de Campo os ritmos conferidos pelos citadinos a esses espaços. estudo de caso. a copresença é maior e encontra-se na praça um número mais expressivo de pessoas. Nestas ocasiões. tardes e noites nos quais se manteve o critério de rodízio para examinar como ocorrem determinadas formas de apropriação dos espaços. Para o estudo propriamente das rotinas da vida cotidiana nas praças.

Apesar de fazerem parte de um conjunto de praças na mesma cidade. A Praça Gonçalves Dias está situada em um espaço central. hábitos e percepções a respeito do espaço e como são estabelecidos os limites que tornam possível a presença simultânea ou copresença para os usos e apropriações desses espaços sociais. vendedores ambulantes. seus perfis socioeconômicos. em categorias para atender às finalidades da pesquisa em: skatistas. com as sociabilidades próprias aos que habitam aquelas zonas residenciais. Com a aplicação das entrevistas buscavam-se informações sobre os citadinos usuários das praças. jovens.18 estruturado. constituir um conjunto representativo do universo das praças da cidade. visando apreender similitudes e diferenças nas interações e sociabilidades. Essa imagem veiculada exerce atração a muitos que ao espaço acedem. antes de tudo. Para a escolha foi observada a presença reiterada da representação dessa Praça em propagandas alusivas à cidade. As praças pesquisadas no estudo de caso estão localizadas em três regiões diferentes da cidade de São Luís–MA. contendo uma relação invariável e padronizada de perguntas em forma de questionário. religiosos. tradicional e histórico da cidade e tem sido retratada como cartão-postal. Foram dirigidas. . turistas. Os resultados da tabulação das entrevistas são apresentados a partir da exposição do que se apurou no estudo de caso das praças. estudantes uniformizados. classificados. contemplando bairros tradicionais com ocupação anterior à primeira metade do século XX e regiões incorporadas recentemente à estrutura urbana da cidade. há ritmos e comportamentos diferenciados de usos e apropriações conforme os dias e horários da semana e a intervenção de diferentes e diversificados atores. a uma centena de entrevistados. A Praça da Ressurreição e a Praça do Conjunto dos Ipês são praças de bairros. Foi utilizada a análise de padrões e interdependência de comportamentos ao observar e entrevistar os diversos atores investigados. servidores públicos que trabalham no entorno das praças. Em razão de sua posição central. estudantes universitários. os frequentadores e usuários procedem de vários bairros da cidade e nela pode ser percebido um amplo conjunto de interações sociais. vizinhos. Não foram consideradas. conforme as observações prévias. aproximadamente. O processo de seleção dos três casos estudados visou. A primeira selecionada foi a Praça Gonçalves Dias. cujo modelo de formulário está anexo ao final deste volume. flanelas guardadores de veículos e passantes. casais.

bem como explicitada a metodologia utilizada. atendeu propósitos muito diferentes dos existentes ao tempo da inauguração da Praça Gonçalves Dias. conforme os propósitos da pesquisa. Alumar e Eletronorte. relações. as quais certamente permitiriam escolher outros lugares. em sua remodelagem. considerar apenas uma praça. como o Largo do Carmo ou demais áreas do Centro. para compor uma amostra significativa. está em um bairro habitado por uma população de classe média e foi construída na década de 1980. com frequentadores que provêm de mais de uma comunidade – o núcleo do Conjunto dos Ipês e as áreas próximas de posse irregular – os usos e apropriações sociais dessa praça apresentam interações diferenciadas ao se comparar com as demais listadas. Fazia parte de um conjunto de espaços urbanos destinados ao exercício de lazeres naquela região. Não bastava. Inicialmente. nem é tão pouco de grandes dimensões como a Praça da Ressurreição. estudam-se os conceitos fundantes de espaço e lugar nos quais indivíduos e grupos estabelecem ações. lutas e redes de interdependência. usos e interações sociais. com indicação de questão de pesquisa. quando a habitação do bairro era ainda recente. não é a praça do cartão-postal. Localizada ao sudoeste da cidade tem.19 nos limites deste estudo. situada no Recanto dos Vinhais. Por isso. Essa praça foi construída na década de 1970. Nos anos 1990. Uma terceira praça foi adicionada para compor uma mostra mais expressiva. Precisava-se incluir outra mais para fins de comparações e confrontos. costumes. quando o governo do Estado do Maranhão implantou a política dos “Vivas” foi urbanizada e dotada do atual traçado arquitetônico. que outrora foram proeminentes na vida social de São Luís. Como decorrência de sua localização. com população composta majoritariamente por membros da classe trabalhadora. por representar uma região da cidade de ocupação contemporânea. Representa um termo mediano entre as outras duas. instalados em seu território. A estrutura da dissertação conta com uma INTRODUÇÃO. A Praça do Conjunto dos Ipês. São examinados termos como . como segunda destacada está a Praça da Ressurreição. Por sua localização. relevâncias comerciais e políticas do passado. No capítulo intitulado REVISÃO DE LITERATURA são caracterizados os espaços nos quais transcorrem as interações. na qual se delimitou o tema do trabalho. grandes grupos econômicos como Vale. Apontam-se autores e conceitos que são operacionalizados ao longo do texto. que. as interações e os usos sociais conferidos pelos frequentadores são mais restritos aos moradores do Anjo da Guarda e adjacências. como o é a Gonçalves Dias.

Nesse percurso investigativo. considera-se o caso das praças. Nesse momento. Implicada nesta discussão está a reflexão sobre o individual e o coletivo. percebidas de um ponto de vista diacrônico. linguagem corporal e atividades. são evidenciadas . Delimitou-se. intentou-se evidenciar a criação das condições sociais para os usos das praças a partir do processo de urbanização de São Luís. cogitam-se as circunstâncias em que a situação social é mantida por indivíduos e grupos por meio de controles mútuos de aparências.20 ajuntamento. as transformações urbanas e os movimentos populacionais de migração que afetaram a composição socioespacial da cidade com reflexos nas condições de uso e apropriação de suas praças. Em seguida. São analisadas as noções de proximidade e distanciamento que podem ser verificadas nas interações sociais que ocorrem nas praças. igualmente. a noção de praça pública. enquanto lugar diferenciado no conjunto da cidade e equipamento urbano ou local onde ocorrem as interações entre indivíduos e grupos. situação e ocasião social. analisou-se o espaço enquanto público e privado e como se articulam as condições objetivas para as interações. As noções de reconhecimento e estranhamento são ainda pensadas ao se indagar como o local e o estranho são habitualmente vividos. É a etapa de análise dos dados colhidos na pesquisa de campo à luz da bibliografia selecionada e dos conceitos operacionalizados no estudo. interação focada e desfocada. Com a apreciação dessas mudanças e permanências na composição da população residente na cidade. Por fim. percebidos e concebidos nas praças. em perspectiva histórica. Esta transição reflete um processo incessante de transformações incorporadas à composição edificada e à vida citadina. Com o tempo. a estrutura da cidade e de seus edifícios passou do precário e artesanal às edificações aformoseadas com pretensões em observar estilos de construção caracteristicamente europeus. que perpassam determinados espaços. São identificados e examinados os procedimentos interacionais que permitem aos atores estabelecer arranjos sociais direcionados aos usos e apropriações sociais do espaço público nas praças de São Luís do Maranhão. Em HISTÓRICO DO DESENVOLVIMENTO URBANO DE SÃO LUÍS são examinadas. No capítulo USOS E APROPRIAÇÕES SOCIAIS DO ESPAÇO PÚBLICO NAS PRAÇAS DE SÃO LUÍS são situadas territorialmente as relações sociais. onde são examinados os usos. fachada e pedaço. as apropriações e as interações sociais no espaço público.

. que tornam possíveis produzir e reconhecer modalidades e estratégias de convívio na cidade.21 as dinâmicas sociais dos rituais citadinos decorrentes das sociabilidades cotidianas.

1987. como um aglomerado com instituições políticas e administrativas especiais”. 1987). “compreensão é a possibilidade de se fazer entender a si mesmo e ao outro também”. Entende Weber (1987) que a cidade é um local de mercado. p. Precisa ser encaixado em conceitos políticos. como destaca Alcântara Jr. 141). Nas palavras de Weber (1987. O conceito de cidade está implicado. a reflexão e a compreensão acerca das situações sociais de usos e apropriações das praças públicas. no sentido que Weber quis imprimir ao tema. a discussão.1 Espaço e lugar: atores e relações sociais “É estudando o espaço de uma sociedade que se pode lançar luz sobre questões tão importantes como o seu sistema ritual e o modo pelo qual ela faz sua dinâmica. p. a “cidadania” e “comunidade urbana” (WEBER. É em determinado espaço e lugar que indivíduos e grupos transitam e estabelecem vivências diariamente. portanto. tipos mistos e que. de consumidores e mercantil. “a cidade tem que se apresentar como uma associação autônoma em algum nível. os atores que interagem nas praças. quase sempre. nesse caso. formulado por Max Weber. é o conceito de ação social. 73). Nas praças públicas transcorrem ações. Fundamental. a ação refere-se a um comportamento humano no qual o agente o .(2011. que caracterizam a ordem legítima. não podem ser classificadas em cada caso senão tendo-se em conta seus componentes predominantes” (WEBER. interações e relações sociais. entendidas como formas de ação. é pertinente tratar preliminarmente do conceito e categorias da cidade. Ao situar a atuação dos atores no espaço pretende-se instrumentalizar a pesquisa com referenciais teóricos que possibilitem a análise. Pois. portanto. Na perspectiva deste autor. A cidade pode ser industrial. Mas o conceito de cidade não deve estar restrito ao conteúdo econômico. p. Essa orientação é essencial para situar relações sociais estabelecidas por atores nas praças da cidade. Esse é o lugar mais amplo no qual ocorrem as relações sociais. 76). mas destaca esse autor que “as cidades representam. então.22 2 REVISÃO DE LITERATURA 2.” (Roberto DaMatta) Ao analisar o espaço em que os atores estabelecem relações sociais.

p. No entorno da praça não há muitas residências. emoções) e tradicional (pautada em um costume arraigado). as ações podem ser classificadas de acordo com a tipologia voltada a ações afetivas e racionais. cujos membros incluem todos e apenas aqueles que estão na presença imediata uns dos outros num dado momento” (GOFFMAN. “age de maneira afetiva quem satisfaz sua necessidade atual de [. Na Praça Gonçalves Dias. Segundo Weber (2009. era “Viva Anjo da Guarda”. a qual foi renomeada pela comunidade e rebatizada como Praça da Ressurreição. É possível visualizar continuamente indivíduos acompanhados – casais. desde logo. É grande o número de ajuntamentos3 cuja ida compartilhada à praça é explicada por orientações emocionais e afetivas. como as festas juninas. esportistas. 15). referente aos valores (orientada pela crença consciente em um valor).. p. Em depoimentos colhidos nas entrevistas. estudantes. Mostra-se nesta região uma participação com maior destaque para ações racionais voltadas para fins econômicos. que se encontram situadas um pouco mais distantes. pois é montado em sua área anualmente o espetáculo religioso da Paixão de Cristo. os atores sociais que frequentam a Praça lembram a atração exercida pelos eventos extraordinários organizados ao longo do ano. 2010. os atores sociais conduzem os usos sociais de acordo com padrões sociais em diferenciados contextos. Há muitos locais para lanches e socializações e flui uma clientela direcionada a esses serviços. Dentre as praças observadas é a que concentra o mais intenso comércio de serviços de bares e restaurantes. . visando aos fins (determinada pelas expectativas no comportamento dos outros). certamente. O aspecto social define a ação no sentido visado pelo agente (WEBER.23 relacione a um sentido subjetivo. Deve-se também mencionar o fato de que o nome que identificava a praça. uma presença maior de comércio de bares. Ao se comparar com a Praça da Ressurreição. o que. que tem frequentadores de procedência mais diversificada. regulares e irregulares em sua organização e constituição física. 28). afetiva (norteada por afetos. percebe-se. racional.. turistas – contemplando as belezas do lugar. 2009). Esclarece Weber (2009) que a ação social pode ser racional. após sua reurbanização nos anos 1990. de felicidade contemplativa ou de descarga de afetos”. amigos. não constitui obstáculo aos moradores.] gozo. Desta forma. de entrega. Na Praça é encenado o momento da ressurreição e 3 O termo ajuntamento é utilizado para fazer referência a “qualquer conjunto de dois ou mais indivíduos.

orienta-se exclusivamente de uma ou de outra destas maneiras. ou ainda orientados a partir de valores comunitários que refletem as ações da associação de moradores... “os participantes da ação reciprocamente referida ponham o mesmo sentido na relação social [. É destacada a presença dos residentes. Somente os resultados podem provar sua utilidade para nossos fins. voltados a fins econômicos. 2009). criados para fins sociológicos. (WEBER. quanto ao comportamento e à participação de determinadas pessoas (WEBER. Essa relação social pode ser comunitária ou associativa.] só muito raramente a ação. desenvolve-se a relação social. portanto. E. Esclarece Max Weber (2009. foi nomeada na pesquisa como Praça do Conjunto dos Ipês para fins de identificação. Segundo este autor. Na Praça do Conjunto dos Ipês os motivos para acessar o local são de ordem racional. no caso empírico. senão tipos conceitualmente puros.. „reciprocidade‟ . esses modos de orientação de modo algum representam uma classificação completa de todos os tipos de orientação possíveis. A par da ação social. portanto. tais como idas ao supermercado ou ao quiosque de lanche que ficam em frente à Praça. Não significa que. p. 16) que [. 16). aberta para fora ou fechada para fora.] o comportamento reciprocamente referido quanto a seu conteúdo de sentido por uma pluralidade de agentes e que se orienta por essa referência. A relação social consiste. Conforme ainda a concepção de Weber.. a relação social deve ser entendida como [. o que demonstra apropriações que se desenvolvem por indivíduos e grupos que mantêm uma constante de ações afetivas e racionais determinadas por valores de vizinhança.24 da subida aos céus.. p. a relação social refere-se ao conteúdo de sentido do comportamento partilhado pelos agentes que se orientam por ele.] que exista. naturalmente. e particularmente a ação social. é um momento extraordinário do ano que conferiu ao espaço uma destinação que foi assinalada pelos usuários frequentadores. Isso pode sugerir motivos referentes a crença religiosa. 2009.. completa e exclusivamente na probabilidade de que se aja socialmente numa forma indicável (pelo sentido). dos quais a ação real se aproxima mais ou menos ou dos quais – ainda mais frequentemente – ela se compõe. Deve-se observar inicialmente também que esta Praça não possui designação oficial.

o uso expressa regularidades na orientação da ação social. portanto. a longo prazo. “toda luta ou concorrência típica [. encontro com outras pessoas. 24). 2009. A concorrência pelo espaço transcorre de modo continuado nas relações sociais. prejudicam seus próprios interesses. mas. O costume representa o uso exercitado em hábito inveterado (WEBER. e. O conceito de luta formulado por Weber permite compreender esses episódios. p. estão incluídos diversão. paquera. por vezes. Os sentidos nos lados da relação podem referir-se a atividades diferentes. é. o que pode ter. A luta que seria latente torna-se manifesta nas ocasiões de disputa não pacífica pelos espaços sociais nas praças. verifica-se o que Weber chama de uso e costume. Para ele. Neste sentido.] leva. e na maioria das vezes terá.] e orienta por essa expectativa sua ação. Os que não se orientam em suas ações pelos costumes que prevalecem em determinado espaço social.. o conteúdo das respostas é variado. consequências para o curso da ação e a forma da relação”. agem de maneira indevida. dada pelo exercício efetivo. p. finalmente à „seleção‟ daqueles que possuem em maior grau as qualidades . Nesta hipótese. com sentido homogêneo. 16). 2009. mesmo em relação objetivamente “unilateral” existe reciprocidade para Weber. 2009. Os frequentadores consideram as praças como bons locais para conversas ou sociabilidades.. ao indagar os usuários sobre os critérios para escolher ir àqueles espaços específicos. Como ressalta Weber (2009. Os momentos de briga parecem estar relacionados à não avaliação precisa dessas convenções ou da equivocada noção de que é possível ignorar. perigosos e inseguros. Diferencia Weber uso de costume. tendem a provocar resistência dos demais. pois.25 neste sentido da palavra” (WEBER. 23) que “uma relação social denomina-se luta quando as ações se orientam pelo propósito de impor a própria vontade contra a resistência do ou dos parceiros”. lanches (comprar ou vender). não apenas em razão de violações à propriedade. explica ele (WEBER. 17). norma de conduta não obrigatória. proximidade da residência. p. 2009). p. Anota ele (WEBER.. mas em decorrência de brigas entre os frequentadores motivadas por disputas entre integrantes de certos grupos.. “o agente pressupõe determinada atitude do parceiro perante a própria pessoa [. provavelmente. Quando são observadas regularidades de fato no curso das ações com o mesmo ou vários agentes. dentro de determinado círculo de pessoas. desconhecer ou comportar-se de modo discordante a esses arranjos normativos.

Os atores que compõem os ajuntamentos tendem ao reconhecimento de contrastes em relação a terceiros não residentes na redondeza. Predominam relações sociais de caráter comunitário na Praça da Ressurreição e associativo na Praça do Conjunto dos Ipês.25). As reflexões de Simmel proporcionam também importante subsídio para compreender as ações individuais e coletivas. Sendo assim. 2009. Os propósitos da pesquisa podem direcionar o investigador para a realidade vivida pelo sujeito individual ou coletivo (SIMMEL. sem com isso reduzir a validade do conceito de sociedade. haja vista a procedência diversificada de seus usuários. O que não significa. pensar que só se pode conhecer a realidade da vida social nas praças por meio do conhecimento de ações individuais. que em todas as relações nestas praças sobressaia o sentimento comunitário ou associativo. levam-se em conta as noções de individual e social. pode-se ainda apreciar a relação social como comunitária ou associativa. Não se deve. 2006).26 pessoais mais importantes. Ao considerar o espaço social. a existência humana só se realiza nos indivíduos. O que não significa. todavia. Entende Simmel que “a sociedade. o autor que a maioria das relações sociais tem em parte caráter comunitário e associativo (WEBER. Na Praça Gonçalves Dias parecem sobressair as relações sociais associativas. De acordo com a proposta de análise de Simmel.. É associativa “quando e na medida em que a atitude na ação social repousa num ajuste ou numa união de interesses racionalmente motivados (com referência a valores ou fins)” (WEBER. 2009). cuja vida se realiza num fluxo incessante.] repousa no sentimento subjetivo dos participantes de pertencer (afetiva ou tradicionalmente) ao mesmo grupo” (WEBER. A relação social é denominada comunitária “quando e na medida em que a atitude na ação social [. significa sempre que os indivíduos estão ligados uns aos outros pela influência mútua que .25). 2009. em média. todavia. que só transcorrem relações desse tipo.. Adverte. De uma perspectiva ou de outra. a sociedade possui configurações e agrupamentos que se confundem com a vida de cada indivíduo envolvido. entretanto. para triunfar na luta”. ao pensar o espaço e o lugar. a proximidade e o reconhecimento entre vizinhos tende a ser maior. todavia. p. p. pode-se cogitar que contribui a eventualidade dessas disputas com a seleção daqueles que usam e se apropriam dos espaços das praças. que exercem influência sobre a produção social de espaços.

p. por sentimentos.. de todos os lados. Em razão disso. 2006. 18). ligados uns aos outros por efeito das relações mútuas. p. pode-se pensar que todos os que ali estão com seus skates praticam esse esporte. está relacionada a ações que se desenvolvem com a participação de grupos. Muitas vezes as negociações para uso do espaço das praças se dão com base em premissas coletivas. De tal modo. a prática de skate na Praça Gonçalves Dias. Entre o querer e o fazer. em contrapartida. Grupos e indivíduos recebem e partilham impulsos recíprocos. de uma maneira determinada. Ao apreciar. p. 2006. e de modo algum ele saberia decidir com segurança interna entre suas diversas possibilidades de comportamento – que dirá com certeza objetiva. mesmo que mudassem com frequência suas orientações de ação. frequentados por indivíduos e grupos. . há uma discrepância menor do que entre os indivíduos. Quando confronta o nível social e o nível individual. enquanto os indivíduos se mostrariam “livres”. transcorrendo socialmente. de uma determinada orientação. As ações dos grupos sociais seriam determinadas como que por uma “lei natural”. 40) explica que “as ações das sociedades teriam um propósito e uma objetividade muito mais definidos que os individuais”. e que por isso podem ser caracterizados como uma unidade” (SIMMEL. a sociedade “é um acontecer que tem uma função pela qual cada um recebe de outrem ou comunica a outrem um destino e uma forma”. Logo. Conforme Simmel (2006. como condição essencial a ser observada para manter a interação.27 exercem entre si e pela determinação recíproca que exercem uns sobre os outros” (SIMMEL.. Mas. contudo. 17). Em uma primeira observação. considerando o que Simmel chama de nível social e nível individual. 18).] o indivíduo é pressionado. Simmel (2006. p. estariam convencidos. Ao refletir sobre as interações nas praças. impulsos e pensamentos contraditórios. (SIMMEL. o pertencimento a alguns desses grupos requer também a posse e a observação de determinadas regras ou códigos. os meios e os fins de uma universalidade. sociedade é “o nome para um círculo de indivíduos que estão. é possível avaliar a extensão da determinação dos grupos sobre as ações dos indivíduos. progredindo assim continuamente. p. Há expectativas de condutas a serem satisfeitas para fazer parte e integrar-se aos grupos. 2006. a cada instante e sem hesitações. elucida o autor que [. não se deveria falar de sociedade. com padrões de comportamentos grupais interferindo nas ações individuais. sobretudo saberiam sempre quem deveriam tomar por inimigo e quem deveriam considerar amigo. A maior presença. Esses espaços sociais são usados para muitos propósitos. 40). deve-se notar que existem ajuntamentos diferentes de skatistas. mas de sociação. Os grupos sociais. por exemplo.

60). Afirma esse autor que “conceitos como „família‟ ou „escola‟ referem-se essencialmente a grupos de seres humanos interdependentes. 2006. Os comportamentos de indivíduos e grupos devem convergir com determinada intencionalidade correspondida. são constituídas sociações. Elias também formulou instrumentos conceituais que permitem pensar e observar pessoas (ELIAS. 59). 65) a importante definição de sociabilidade como “forma lúdica de sociação”. formam conjuntos de indivíduos cujas ações estão implicadas umas às outras.28 A interação entre indivíduos “surge sempre a partir de determinados impulsos ou da busca de certas finalidades” (SIMMEL. em razão de seus interesses. p. a configurações específicas que as pessoas formam umas com as outras” (ELIAS. Segundo Simmel (2006. para possibilitar o começo e a sustentação desse processo de trocas sociais. Na perspectiva teórica de Simmel (2006. p. a sociabilidade decorre da satisfação de sentimentos similares e não antagônicos ou adversos. como os skatistas que frequentam a Praça Gonçalves Dias. 13). 69). Explica do mesmo modo Elias o conceito de configuração. Segundo ele. revides aceitáveis. Estas teias de interdependência ou configurações dos mais diversos tipos possibilitam refletir sobre as relações estabelecidas por indivíduos e grupos no ambiente das praças. sociação é a forma na qual os indivíduos. 2006). essas motivações são “fatores da sociação apenas quando transformam a mera agregação isolada dos indivíduos em determinadas formas de estar com o outro e de ser para o outro que pertencem ao conceito geral de interação”. 2008. p. fundamentos da vida social. Assim. Especifica ainda Simmel (2006. Trabalha ele com a noção de redes de interdependência. pela sociabilidade “ninguém pode em princípio encontrar sua satisfação à custa de sentimentos alheios totalmente opostos aos seus”. p. 1994). deixas amoldadas à situação implicam na aprovação social pelo respeito demonstrado aos demais indivíduos envolvidos na interação. grupos menores ou maiores. Díades. Quando indivíduos estabelecem laços sociais e interações nas praças. p. réplicas adequadas. Deste modo. como casais de namorados. As redes de interdependência podem ser percebidas nos grupos e ocasiões de interação. Os padrões de práticas interativas que se reproduzem nas praças asseguram a continuidade das ações de sociabilidade: respostas oportunas. este seria . É preciso cada indivíduo assegurar ao outro os valores sociais compatíveis com a sociabilidade. desenvolvem-se conjuntamente em direção a uma unidade no seio da qual esses interesses se realizam e formam a base da sociedade humana (SIMMEL.

os jovens que se apropriam dos espaços das praças o fazem cultivando perspectivas de reconhecimento e relacionamento com seus pares.. 143). [. são encontradas “ligações unindo as pessoas a símbolos de unidades maiores. De modo assertivo. 1999. A interdependência dos jogadores. p. que é uma condição prévia para que formem uma configuração. Além de grupos destacados como casais e skatistas. formando estruturas entrelaçadas (ELIAS. p..não só pelos seus intelectos. 2008. 1999).. 2008. Acrescenta Elias que novas formas de ligação emocional são verificadas em unidades sociais maiores. confirma Elias que a procura pelos outros ocorre “para a realização de toda uma gama de necessidades emocionais” (ELIAS. as configurações formadas pelos membros de grandes grupos como os habitantes da cidade. Garante ainda Elias que “a afeição das pessoas por estas grandes unidades sociais é muitas vezes tão intensa como a sua afeição por uma pessoa amada” (ELIAS. 2008. a configuração evidencia a interdependência das pessoas. para Elias. 151). Assim..] o padrão mutável criado pelo conjunto dos jogadores . 150). Esses imperativos afetivos devem ser considerados para investigar indivíduos e grupos que afluem às praças. porque as cadeias de interdependência que os ligam são maiores e mais diferenciadas” (ELIAS. constatadas nas diferentes praças. Todavia. 148). Refere-se o decoro a pautas de condutas que definem as formas apropriadas de comportamento em diferentes situações (MARTINS. Essas ligações emocionais e afetivas orientam envolvimentos nos grupos que são encontrados nas praças.29 [. juntamente com ligações interpessoais. envolvem o decoro. 10). a totalidade das suas ações nas relações que sustentam uns com os outros. mas pelo que eles são no seu todo. Diz ele que. 2008). Decerto. 142). as demonstrações públicas de afetos. 2008. Podemos ver que esta configuração forma um entrançado flexível de tensões. p. p. cujos comportamentos são enredados. Podem ser notados esses elos de interdependência em grupos que usam as praças. “o decoro é mais do que um conjunto de regras – ele é essencialmente um conjunto de .] a bandeiras e a conceitos carregados de aspectos emotivos” (ELIAS. p. p. não podem ser percebidas “diretamente. 2008. O conceito de configuração pode ser aplicado a grupos pequenos ou grandes. (ELIAS. pode ser uma interdependência de aliados ou de adversários. que é a “referência por meio da qual as relações sociais são construídas de um modo e não de outro e por meio da qual ganham sentido na vida cotidiana” (MARTINS. conforme este ponto de vista. De acordo com este autor.

não significa conflito. Giddens afirma que os seres humanos são agentes cognoscitivos. quando o poder da vergonha e do decoro que regula a vida cotidiana “se atenua onde não deveria atenuar-se. Determinados gestos. 351) que esse “conceito de dualidade da estrutura. observa Giddens (2003. permitem analisar a reprodução de práticas institucionalizadas. p. p. Como observa Martins (1999. p. p. Giddens articula orientação importante. estabelecendo condições e consequências que afetam opções abertas a outros. as coerções estruturais operam por meio “dos motivos e razões dos agentes. Neste sentido.30 procedimentos pelos quais cada um se sente responsável não só pela sua própria conduta. p. expressões ou palavras antes impregnados de sentido pejorativo são agora aceitos. Com a teoria da estruturação. atitude. 331) que “todos os atores sociais possuem um considerável conhecimento das condições e consequências do que fazem em suas vidas cotidianas”. interações e relações sociais nas praças devem ser pensados enquanto vivências que se sucedem em espaço público. mas conversar com a animação e o entusiasmo que as trocas devem ter. fundamental para a teoria da estruturação. Ao empreender essa análise. é preciso priorizar o que ele chama de consciências discursiva e prática (GIDDENS 2003). apreciados e necessariamente incluídos nas conversações. 2003. 2003. como alto volume da voz na fala. mas de fato interação. sinais. De tal modo. não quer dizer exasperar-se. está subentendido nos sentidos ramificados que os termos „condições‟ e „consequências‟ da ação têm”. 2003. Apõe o autor (GIDDENS. 1999. segundo a qual “o espaço não é uma dimensão vazia ao longo da qual os agrupamentos sociais vão sendo estruturados. 12). 366). 14). mas deve ser considerado em função do seu envolvimento na constituição de sistemas de . 339). p. como os usos nas praças. A propósito. e o que eles querem das opções que têm” (GIDDENS. As condições e condicionamentos das ações. estamos em face de mudanças sociais que se expressam na perda de autoridade das regras interiorizadas e que indicam a perda de substância da autoridade externa que nos coage a agir de um modo e não de outro”. dessa forma. Conforme o contexto social. ao analisar o que chama de conduta estratégica. As rotinas dos agentes pensadas. Giddens orienta que o foco deve incidir “sobre os modos como os atores sociais se apoiam nas propriedades estruturais para a constituição de relações sociais” (GIDDENS. Na teoria da estruturação. mas também pela conduta dos circunstantes que com ele contracenam” (MARTINS.

da sociedade (BOURDIEU. ele pode ser descrito também como campo de forças. . De acordo com este autor. as diversas espécies de poder ou de capital que ocorrem nos diferentes campos atuam como princípios de construção do espaço social. apropriadas a conferir. vendedores ambulantes. Bourdieu (2009. quer dizer. Bourdieu. ao tratar do poder simbólico. consistindo o capital em econômico. autoridades ocupam posições que se alteram de acordo com as propriedades relacionais. p.31 interação” (GIDDENS. Há outros aportes teóricos que consideram o espaço e o lugar no contexto das interações. Conforme este autor. 2003. p.. skatistas. refletir e pensar os usos sociais pesquisados. como um conjunto de relações de força objetivas impostas a todos os que entrem nesse campo e irredutíveis às intenções dos agentes individuais ou mesmo às interações diretas entre os agentes. Dessa forma. p. O agente ocupa uma posição em uma região determinada do espaço. Nesse sentido. Esta perspectiva torna possível a construção de um modelo do campo social para pensar a posição do agente “em todos os espaços de jogo possíveis” (BOURDIEU. então. Desse modo. cultural. ações e relações sociais. social e simbólico. [. 134) que.] na medida em que as propriedades tidas em consideração para se construir este espaço são propriedades atuantes. Frequentadores. Os conceitos de espaço e lugar permitem. o mundo social pode ser representado em forma de um espaço construído baseado em princípios de diferenciação ou de distribuição formados “pelo conjunto das propriedades que atuam no universo social considerado. O conhecimento da posição ocupada no espaço social informa “as propriedades intrínsecas (condição) e relacionais (posição) dos agentes” (BOURDIEU. p. força ou poder neste universo (BOURDIEU. isto é. O mundo social das praças é composto pelos agentes e suas posições no campo de forças. agentes e grupos são definidos pelas posições ocupadas nesse espaço. 135). p. avaliando que a sociologia se mostra como uma topologia social.. pela distribuição dos poderes que neles atuam. guardadores autônomos de veículos (flanelinhas). 133). Bourdieu (2009) considera que a posição do agente no espaço social é definida pela posição por ele ocupada nos diferentes campos. 2009. 2009). 136). ao detentor delas. consequentemente. Esse direcionamento deve ser mantido ao se investigar as interações que favorecem as apropriações sociais das praças. 433). quer dizer. 2009. Explica. discorre sobre o espaço social. 2009.

28) “ela é um acontecimento. os skatistas ao circularem por toda a extensão da área provocam sentimentos difusos de antagonismo e repulsa. 2010. mas. que ele utiliza para se referir a “qualquer conjunto de dois ou mais indivíduos cujos membros incluem todos e apenas aqueles que estão na presença imediata uns dos outros num dado momento” (GOFFMAN. como chamou Goffman (2010. os agentes lutam. criam disputas com os recursos de que dispõem para prevalecer sobre os demais frequentadores. p. que se poupam da eventualidade de disputas abertas. Nas praças públicas prevalece a presença mútua em que pessoas em pontos diferentes podem observar outras pessoas e por elas também serem observadas. 2010. As situações começam quando o monitoramento mútuo ocorre. socialmente. Suas ações não são necessariamente calculadas de maneira consciente. Podem ser citados como exemplos de . Outro conceito fundamental é ocasião social. quando visam usar determinados espaços nas praças. mesmo sem ter a intenção declarada. p. O espaço deve. com a expressão de atitudes de desatenção civil. realização ou evento social mais amplo. Uma ocasião social fornece o contexto social estruturante em que as situações e ajuntamentos transcorrem. 2010). limitado no espaço e no tempo e tipicamente facilitado por equipamentos fixos”. Esse espaço precisa ser também respeitado. e um padrão de conduta tende a ser reconhecido como apropriado (GOFFMAN. Pode-se indagar o que torna controversas as interações para os usos dos espaços. Na Praça Gonçalves Dias. as ações ocorrem em condições de incerteza e situadas no espaço. Muitas vezes indivíduos para impedir discussões e bate-bocas simulam não perceber nem identificar comportamentos indesejados ou não aprovados. buscando estratégias para alcançar seus interesses. 172). Essas condutas podem afastar usuários. e prescrevem quando a penúltima pessoa sai” (GOFFMAN. Rixas costumam surgir quando grupos ultrapassam os limites simbolicamente estabelecidos para contenção de ações. Para explicar esses acontecimentos. p. resultam de improvisações em um sentido prático.32 Ao apropriar-se dos espaços sociais. Indivíduos e grupos. ser concebido como território delimitado não apenas geograficamente. p. ou que então se constitui. Explica ele ainda que o termo situação faz referência ao “ambiente espacial completo em que ao o adentrar uma pessoa se torna um membro do ajuntamento que está presente. Entre estes está o ajuntamento. 28). Assim. Goffman emprega alguns conceitos básicos que orientam seu programa de pesquisa. 28). Segundo Goffman (2010. então. sobretudo.

p. explica Goffman que o comportamento comunicativo dos imediatamente presentes pode ser considerado como em interação focada e desfocada (não focada). p. num princípio de acessibilidade e disponibilidade das pessoas presentes. quando se expõem. um piquenique. designando “qualquer grupo de indivíduos que cooperem na encenação de uma rotina particular” (GOFFMAN. ou uma noite no teatro” (GOFFMAN. Ao interpretar o conceito. p. 2011. A interação focada ocorre quando “pessoas se juntam e cooperam abertamente para manter um único foco de atenção. tipicamente se revezando na fala” (GOFFMAN. 2010. 28). 93) que ordem pública é aquela “fundada no direito de olhar. Para Goffman (2011. p. elas podem funcionar não meramente como instrumentos físicos. 14). Noção importante é a de ordem pública. Na interpretação deste autor. “são dois os elementos básicos constitutivos do „pedaço‟: um . Goffman considera ainda o termo fachada. Esta interação refere-se ao gerenciamento da mera copresença. 12) quando analisa relações sociais utiliza o termo pedaço para fazer menção a “um tipo particular de sociabilidade e apropriação do espaço urbano”. mas também comunicativos”. 34). 34) entende “quando pessoas estão conscientes da presença de outras. figuração ou face-work [expressões sinônimas nas traduções em língua portuguesa da obra de Goffman]. Na análise dos elementos rituais na interação social. Estas tendem. 2009. como ocasiões sociais. isto é. p. De acordo com Magnani (2003. um dia de trabalho num escritório. “a fachada é uma imagem do eu delineada em termos de atributos sociais aprovados”. Igualmente. Magnani (2003. o conceito de equipe de representação ou equipe possibilita analisar os usos e apropriações sociais nas praças. 115). as interações sociais estão situadas no “pedaço”. p. 2010. p. ainda que apenas momentaneamente. a dominar as impressões que causam em outrem e a de se observar enquanto agem”. quando ela entra e sai do campo de visão” (GOFFMAN. 78). p. 13). esclarece Joseph (2000. Além disso. A interação por ele nomeada como desfocada ou não focada é o tipo de comunicação que ocorre “quando se recolhe informações sobre outra pessoa ao se olhar de relance para ela. p. Fachada pode ser definida como “o valor social positivo que uma pessoa efetivamente reivindica para si mesma através da linha que os outros pressupõem que ela assumiu durante um contato particular” (GOFFMAN. que Goffman (2010.33 ocasiões sociais “uma festa social. p. 35). Um dia ou momentos nas praças podem ser concebidos e explicados. 2010. então.

. Ao estabelecer essas confrontações a respeito do “pedaço”.] No núcleo do „pedaço‟. estão localizados alguns serviços básicos – locomoção. pois – prossegue o antropólogo .. 2003. considera que este “é demarcado quando alguém estabelece fronteiras. onde os vínculos estabelecidos são de tipo familiar ou vicinal. 116). 2003.32). O pedaço é caracterizado também por uma rede de relações sociais. separando um pedaço de chão do outro”. abastecimento. culto. onde se desenvolve uma sociabilidade básica. Problemático é traçar os limites do pedaço com seus contornos claramente perceptíveis para usos e apropriações. 115). p. significativa e estável que as relações formais e individualizadas impostas pela sociedade.. morar perto ou frequentar com certa assiduidade esses lugares: para ser do „pedaço‟ é preciso estar situado numa particular rede de relações que combina laços de parentesco. contudo.. [. informação. 2003. suas bordas são fluidas e não possuem uma delimitação territorial precisa.] enquanto o núcleo do „pedaço‟ apresenta um contorno nítido. Pessoas de „pedaços‟ diferentes. são muito cautelosas: o conflito. portanto. quando indivíduos e grupos não estabelecem ou preservam demarcações físicas evidentes para todos. do perigo. desde logo. acrescenta ele que essa constatação não satisfaz. p. (MAGNANI. Essa seria a zona do espaço em que seus habitantes teriam mais familiaridade. o que implica o cumprimento de determinadas regras de lealdade [. espaço e rede de relações sociais são elementos essenciais na composição do “pedaço”. O termo na realidade designa aquele espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público.] pertencer ao „pedaço‟ significa poder ser reconhecido em qualquer circunstância. que “não basta. p. [. 2003. interpretando o sentido geral de espaço. pois todo lugar fora do „pedaço‟ é aquela parte desconhecida do mapa e. ou alguém em trânsito por um „pedaço‟ que não o seu.. Afirma. Mas.34 componente de ordem espacial. Roberto DaMatta (1997. porém mais densa. quando considera que “alguns pontos de referência delimitam seu núcleo. Segundo ele. 116). Discute ele ainda a existência de um núcleo e bordas em seu entorno. enfim. procedência” (MAGNANI. Assim. a que corresponde uma determinada rede de relações sociais”. vizinhança. mais ampla que a fundada nos laços familiares.. [. (MAGNANI. p.]. explica que. entretenimento – que fazem dele ponto de encontro e passagem obrigatórios” (MAGNANI. 115). a hostilidade estão sempre latentes. p...

Determinado espaço social no qual se reúnem indivíduos e grupos que se identificam por sentimentos de pertencimento. eixos ou caminhos que conduzem de um lugar a outro e foram traçados pelos homens e. p.. Esclarece. p. um espaço que não se pode definir nem como identitário. O lugar que não se pode associar a essas peculiaridades corresponderia ao que ele chama de não lugar. a um mito (lugar-dito) ou a uma história (lugar histórico)” (AUGÉ. A hipótese aqui defendida é a de que a supermodernidade é produtora de não lugares.32). vastas proporções para satisfazer principalmente. a troca alusiva de algumas senhas. Ao analisar as diferenças entre espaço e lugar. Pontua Augé (2010. 2010. em relação a outros centros e outros espaços. explica Augé que o termo espaço é mais abstrato que lugar.] por um lado. construídos por certos homens e que definem. 2010. 55).] o lugar antropológico é simultaneamente princípio de sentido para aqueles que o habitam e princípio de inteligibilidade para quem os observa. [. por mais humilde e modesto que seja. nem como histórico definirá um não lugar... nos mercados. por outro lado. relacionais e históricos”... 51). centros mais ou menos monumentais. de espaços que não são em si .] àquela construção concreta e simbólica do espaço que não poderia dar conta. se encontram e se reúnem. (AUGÉ. caracteriza um lugar antropológico. 73). O lugar antropológico “se completa pela fala. enfim. 52) que. 77).] se um lugar pode se definir como identitário. As praças pensadas como lugares de interações podem ser objeto de investigação da antropologia e da sociologia.. Faz este autor alusão ao que chama de lugar antropológico. isto é. É usual fazer referência a “um acontecimento (que ocorreu). (AUGÉ. às vezes. p. 2010. p.35 fluminense – “é preciso explicar de que modo as separações são feitas e como são legitimadas e aceitas pela comunidade da propriedade privada” (DAMATTA. “esses lugares [antropológicos] têm pelo menos três características comuns. na conivência e na intimidade cúmplice dos locutores” (AUGÉ. p. mas à qual se referem todos aqueles a quem ela designa um lugar. p. conferindo-lhes. [. Augé que [. em cruzamentos e praças onde os homens se cruzam. 1997.. itinerários. que desenharam. então. Explica ele que o lugar antropológico refere-se [. Pode compreender esse lugar.. das vicissitudes e contradições da vida social. um espaço e fronteiras além das quais outros homens se definem como outros. em troca. sejam eles religiosos ou políticos. 2010. Eles se pretendem identitários. relacional e histórico. somente por ela. necessidades do intercâmbio econômico. nem como relacional. e.

p. p.. seu anonimato após ter fornecido a prova de sua identidade. trens.] por „não lugar‟ designamos duas realidades complementares. [. na qual o contrato está sempre associado à identidade individual de quem o subscreve. os não lugares criam tensão solitária. 74). repertoriados. [.. 98). apresentar a passagem ao check-in (o nome do passageiro está inscrito nela). “os lugares e os espaços. 94). em todo caso. porém. Explica Augé (2010. a apresentação simultânea. (AUGÉ.. conclui. O controle a priori ou a posteriori da identidade e do contrato coloca o espaço do consumo contemporâneo sob o signo do não lugar: só se tem acesso a ele se inocente.] para ter acesso às salas de embarque de um aeroporto. os lugares e os não lugares misturam-se. classificados e promovidos a „lugares de memória‟.. O espaço do não lugar não cria nem identidade singular nem relação. lazer) e a relação que os indivíduos mantêm com esses espaços.36 lugares antropológicos e que. Acrescenta Augé (2010) que. p. do visto de embarque e de algum documento de identificação fornece a prova de que o contrato foi respeitado. 95) que. assinado o contrato. distintas: espaços constituídos em relação a certos fins (transporte. interpenetram-se”. comércio.. repousam).. oficialmente (os indivíduos viajam. p. contrariamente à modernidade baudelairiana. O não lugar é citado como contraponto ao conceito de lugar. não integram os lugares antigos: estes. Acrescenta ainda que “não há mais análise social que possa . Para Augé (2010. registra as mesmas mensagens. é preciso. (AUGÉ. 2010. antes.. Pontua ele que. 2010. [. trânsito. de certo modo. p. (AUGÉ. ao controle de polícia. compram.. no entanto. mas sim solidão e similitude”. ônibus) [. quem faz uso do não lugar. 73). 2010. 2010.] O passageiro só conquista. pois os não lugares medeiam todo um conjunto de relações consigo e com os outros que só dizem respeito indiretamente a seus fins: assim como os lugares antropológicos criam um social orgânico..] redes a cabo ou sem fio” (AUGÉ. então.] o usuário do não lugar é sempre obrigado a provar sua inocência. rodoviárias e os domicílios móveis considerados „meios de transporte‟ (aviões. Esclarece ainda o autor que [. 87). p. ocupam aí um lugar circunscrito e específico. não se confundem. responde às mesmas solicitações. está com este em relação contratual.. Se as duas relações se correspondem de maneira bastante ampla e. ferroviárias. enquanto o passageiro aguarda para embarcar “obedece ao mesmo código que os outros. Exemplifica e ilustra que esses não lugares seriam “as vias aéreas.

pois. 2. determinadas atitudes são acionadas pelos envolvidos. onde os atores se encontram presentes. no mundo ocidental e no Brasil. p. É oportuno. Ressalte-se que os usos e apropriações sociais das praças transcorrem basicamente em espaços que se reputam como públicos. sem. ainda que implicitamente.2 Espaço social público: condições objetivas para as interações Ao realizar o percurso deste estudo. empregados como recursos na produção e que foram estendidos para a vida cotidiana. perder de vista o espaço privado. Considera-se. Para manter situações sociais que favoreçam os usos verificados do espaço público. ao debater o público. Determinar essa noção permite a aproximação da dimensão teórica e conceitual que interessa à investigação.37 fazer economia dos indivíduos. que buscam explicar as variáveis que se articulam entre o espaço público e também o espaço privado de interações. caracteriza-se inicialmente o conceito de espaço público. 2010. portanto. a construção histórica das noções sociais de espaço público e de espaço privado. estabelecem dinâmicas de trocas. nesta perspectiva devem ser investigadas as condições objetivas para as interações sociais ali entabuladas. Os referenciais teóricos percorrem esquemas interpretativos. esta noção comporta uma classificação dicotômica em pares opostos. de modo individual ou em grupos. delimitar esse conceito relevante para aprofundar a análise. Desse modo. Apesar de o espaço social das praças ser público. entre as intenções está compreender como o espaço chamado público é usado e apropriado pelos citadinos. interações e relações sociais são localizadas. Nesse lugar. então. ações. visando um melhor entendimento acerca dos usos e apropriações sociais das praças. entretanto. O chamado não lugar é um conceito com o qual se pode refletir sobre a presença e a permanência no espaço público das praças contemporâneas. As interações sociais nesses espaços sofrem os impactos dos novos processos tecnológicos informatizados. 110). Admitem esses espaços diversidades históricas de usos no que se refere às destinações sociais conferidas por indivíduos e grupos. É no espaço social que os agentes. . a contrario sensu está o indicativo do conceito de privado. nem análise dos indivíduos que possa ignorar por onde eles transitam” (AUGÉ.

Saldanha. demarcando porções do território e amontoando pedras com fim simbólico ou utilitário. é excludente de outra senhoria sobre a mesma coisa. atualmente. Com as demarcações simbólicas feitas nas praças. um problema de distinguir lugares. que é pública. leciona Pereira (2010. necessariamente.38 Em obra notória sobre o espaço público. Entre os caracteres da propriedade está. remeter. empreende uma análise de cunho antropológico sobre a praça. considera ele que [. 2005. desde as primeiras experiências grupais do ser humano. a sua exclusividade. Como ilustração. A propósito. p. Deste modo. não se cogita do estabelecimento de uma forma de domínio senhorial (propriedade). mesmo porque a praça é considerada um bem público e é propriedade dos entes estatais.406. em parte ao menos. As porções assinaladas de território sinalizam na direção de certas apropriações necessárias do espaço para fins da convivência social (SALDANHA. valorizando uns e abandonando ou evitando outros. 2002) – Lei nº 10. é exclusiva: plures eamdem rem in solidum possidere non possunt”.1). de 10 de janeiro de 2002 – no artigo 99. 2005). após cogitar de uma sociologia da propriedade. “O jardim e a praça”.. quando se considera. I. Como dispõe o Código Civil (BRASIL. p. os alunos dos cursos da área da saúde da 4 Garfinkel escreve no original em inglês a expressão: “settings of organized everyday affairs”. A menção ao que aponta o autor traz ao debate a apropriação de um determinado espaço para fins de uso. Esses limites definidos são ajustados e revisados por meio de regras e padrões que se repetem em determinados “cenários de negócios cotidianos organizados”4 (GARFINKEL. à ideia de propriedade. os agentes visam poder usar parcelas do espaço para suas interações sociais. (SALDANHA.] o „organizar-se‟. foi sempre. Observe-se que. . p. tais como rios. portanto. A demarcação a que se refere na citação não constitui ainda um domínio no sentido de propriedade. que “a propriedade como expressão da senhoria sobre a coisa. Indivíduos e grupos reservam certos locais para permanência nas praças. jusfilósofo pernambucano. ruas e praças”. ao tratar de uso e apropriação social do espaço da praça. mares. estradas. Focaliza Saldanha um conceito preliminar de espaço. 76). 2008. Sem. o espaço da praça não se questiona a existência de uma propriedade. “[são bens públicos:] os de uso comum do povo. assim. e de construir espaços. considera Saldanha as demarcações feitas no território para fins de distinção de lugares..20).

nos momentos que ficam na Praça. Em obra editada pela primeira vez em 1962. apresenta trajetórias no tempo que permitem visualizar sua caracterização ou configuração. 2005. que é particular a cada indivíduo (idia). Nesse percurso de análise diacrônica da constituição dos conceitos.] o viver social consiste e subsiste em várias dimensões. atores. que também pode assumir a forma de conselho e de tribunal.] naquele espaço central. Saldanha.. a pública. Esse local. acredita que neste estão situados os elementos da vida pública. teria tido na ágora a sua pulsação. Nota ele (SALDANHA. a esfera pública representa o debate livre entre iguais.. ação. 57) que [.. e sobretudo a palavra como componente da dimensão pública: ao fazer-se pública a palavra. Explica ele (SALDANHA. informa que as categorias do público e do privado foram legadas dos gregos. mas observam e mantêm esses limites. e uma delas ocorre nas casas [.. a esfera da pólis que é comum aos cidadãos livres (koiné) é rigorosamente separada da esfera do oikos. permanecem em frente ao edifício da Universidade. bem como a de práxis . A vida pública. não é. De acordo com ele. Nesse sentido. E como as ruas – da mesma forma que as praças – são já outra dimensão. a praça do mercado. no entanto. bios politikos. completam-se. 2005. as queixas e as decisões. Nele estavam os debates e as facções. transmitidas adiante em uma versão romana. o símbolo na cidade da presença do povo na atividade política. p. enquanto construção social e histórica. publicizava-se a condição do homem.] tratam-se [o público e o privado] de categorias de origem grega que nos foram transmitidas em sua versão romana. Conforme Habermas.. quase literalmente. 31) que [. Outros ajuntamentos podem estar nas proximidades. situavam-se os elementos da vida pública: cenário. cujo prédio está localizado na lateral da Praça Gonçalves Dias.39 Universidade Federal do Maranhão.. com o objetivo de realçar o espaço público.. O espaço. era a ágora. complementam-se.. seja ele público ou privado.]. restrita a um local: o caráter público constitui-se na conversação (lexis). pode-se inicialmente buscar explicação a partir do estudo dos processos de apropriação do espaço social na Idade Antiga. eis que o plano público e o privado tocam-se. na chamada Antiguidade Clássica. Na cidade-estado grega desenvolvida. [. Habermas contribui igualmente para o debate de ideias e estabelecimento desses conceitos. A polis. Afirma Saldanha que os planos público e privado complementam-se. p.

os grupos podem atribuir capital simbólico. Dessa maneira. Um reconhecimento público pode ser alcançado em decorrência de presença e de interações no espaço social. a pólis oferece campo livre para a distinção honorífica: ainda que os cidadãos transitem como iguais entre iguais (homoioi). obter prestígio. Indivíduos e grupos que evidenciem determinado desempenho. mantêm apenas na esfera pública: lá é que elas encontram o seu reconhecimento. os grupos de skatistas que circulam pela praça ou o público de fiéis que aflui à igreja para assistir à missa têm expectativas acentuadamente diferenciadas para conferir celebridade a alguns de seus integrantes. cada um procura.40 comunitária (práxis). A apresentação pública nas praças pode não proporcionar o prestígio que se supõe a princípio. Muitos intercâmbios são. 16). Freyre (2004) faz referência à pouca importância atribuída no Brasil colonial aos . mas granjear má reputação. O expoente da Escola de Frankfurt. Na Praça Gonçalves Dias. p. 2003. de caráter efêmero. no entanto. todavia. nesse espaço social de interações. ao confrontar o tema dos espaços de sociabilidades e interações. podem não conseguir a glória e a importância social que almejam. As virtudes. 2003. (HABERMAS. como considera Bourdieu (2009).. É na disputa entre pares por meio da conversação que os melhores cidadãos se destacariam e conquistariam. reputação.. 15). p. seja nos jogos guerreiros. por exemplo. [.] como nos limites do oikos a necessidade de subsistência e a manutenção do exigido à vida são escondidos com pudor. Assegura ele que é nesta esfera que as coisas aparecem e se tornam visíveis. Para situar as investigações sobre o público e o privado no Brasil. seja na guerra. O prestígio social pode ser associado às interações contemporâneas nas praças de São Luís. cujo catálogo Aristóteles codifica. àqueles que conseguem por meio de sua conduta. Nessas exposições públicas. destacar-se (aristoiein). procura explicitar a importância social da esfera pública. mesmo em feitos que exijam habilidades raras. a imortalidade da fama. (HABERMAS. De acordo com a configuração dos grupos como formais ou informais e o contexto socioespacial. mas existe a probabilidade de nunca mais se olharem outra vez. fama. por conseguinte. As praças podem ser pensadas como palcos em que indivíduos e grupos mostram-se para quem por lá estiver para vê-los. em Sobrados e mucambos. Indivíduos ocasionalmente interagem. esses predicados desejados tendem a variar.

2004.] nas ruas só se encontravam as escravas negras e as mulatas com quem às vezes. Com relação ao uso das categorias de público e privado. da ágora. o sociólogo e antropólogo pernambucano inicia o capítulo II – O engenho e a praça. foram transmitidas as categorias de público e de privado nas definições do Direito Romano: a esfera pública como res publica”. a casa e a rua – afirmando que “a praça venceu o engenho. que designa algo historicamente correlato à ágora grega. e somente depois passou a denominar a área de fora das casas. na ponte da Boa Vista. Observe-se também que não são sempre nitidamente demarcados os limites entre as esferas do público e do privado.. então. designou primeiro o terreno fechado em torno de uma casa.. 2005.41 espaços públicos. 145).] o termo latino forum. que a fidalguia abominava. Com relação aos usos e costumes. conforme o momento histórico. 2004. 135). p. os espaços da rua e da praça não eram francamente acessíveis a todas as mulheres e mesmo a homens no tempo da colônia. Assim. reitera-se que estar ou não nas praças pode ser sinal de distinção ou de reputação (boa ou má). a ideia de espaço público atravessa alterações de significado.. Desse modo. 145) que [. p. nomeadamente a praça do mercado. ao contrário dos do Rio de Janeiro e da Bahia que raramente deixavam o interior dos sobrados” (FREYRE. La Salle diz que também os homens pouco saíam de casa. (SALDANHA. e que se associa para nós à ideia de um espaço público. Continua Freyre a confirmar esse entendimento ao dizer que “os burgueses de sobrado foram naquelas cidades do norte do Brasil homens de praça ou de rua como. de noite. outrora. p. 16) menciona o fato de que “ao longo de toda a Idade Média. os gregos. Habermas (2003. os velhotes do Recife namoravam. No Rio de Janeiro dessa época talvez saíssem pouco: no Recife como em São Luís do Maranhão é tradição que viviam quase a tarde inteira na rua. . p. O motivo para isso residia no fato de que um dos sinais de distinção era ser menos visto possível para não ser confundido com o povo. a exposição pública pode não acarretar necessariamente o reconhecimento social desejado por alguns indivíduos. considerando sua difusão social. Saldanha refere-se a essa dificuldade do estabelecimento de fronteiras entre elas. p. Relara Freyre (2004. Lembra ele. No período que abrange o que a historiografia tradicional nomeia como Idade Média.. Nesse livro. que historicamente [. 73). mas aos poucos” (FREYRE.

. 2003. outras ações do poder público estadual permitiram a reurbanização da Praça do Anjo da Guarda5. 5 Após a reforma da década de 1990. conforme competências. incluindo a formulação e execução de medidas para a melhoria dos espaços públicos. a um aparelho dotado do monopólio legítimo do uso da força. renomeada pela comunidade como “Praça da Ressurreição”. (HABERMAS. ao funcionamento regulamentado. submetidas a ela enquanto destinatárias desse poder. Esta se objetiva numa administração permanente e no exército permanente. Para Habermas (2003. foi recentemente removido e deslocado para a lateral de uma creche no bairro próximo da Camboa. p. 31). desde então. então. constituído em 2002. é o órgão da Prefeitura Municipal de São Luís responsável pelo gerenciamento paisagístico da cidade. entretanto. anos mais tarde.42 servindo. Com o advento do Estado Moderno [. inserido em um programa de intervenções de natureza urbanística em espaços públicos com destinação a praças no final da década de 1990. Ao entrevistar indivíduos foi possível apurar a satisfação em estar naqueles locais. indivíduos e grupos queixam-se de modo recorrente da falta de segurança. Além dessa. o qual. que é ligada à expressão esfera pública no sentido moderno: a esfera do poder público. Alude. mas a sensação de medo decorrente da insegurança é comum entre os frequentadores. a esfera do chamado poder público. Na acepção especificamente moderna. a praça foi batizada pelas autoridades estaduais como “Viva Anjo da Guarda” e. A presença do poder público municipal se faz também pelas ações do Instituto Municipal de Paisagem Urbana (IMPUR). imprensa) corresponde agora uma atividade estatal continuada. “o poderio senhorial converte-se em „polícia‟. à permanência dos contatos no intercâmbio de mercadorias e de notícias (bolsa.. p.] a redução da representatividade pública que ocorre com a mediatização das autoridades estamentais através dos senhores feudais cede espaço a uma outra esfera. . as pessoas privadas. No que se refere à regulação especificamente estatal das praças de São Luís. para a institucionalização jurídica de uma esfera política burguesa a partir de surgimento do Estado Moderno e da sociedade civil separada dele. constituem um público”. o público passa a definir o estatal. 32). Há alguns anos podia ser observada a presença ostensiva de policiais militares instalados em trailer na Praça Gonçalves Dias.

os interesses comuns e a formação de consensos contra formas sociais ou públicas de poder arbitrário. De um lado.. 29). fomentando igualmente as noções de igualdade e de liberdade individual.. como o princípio da soberania popular e o Estado de direito. Segundo ele (DUPAS. [. o espaço público significou os vínculos de associação e compromisso que existem entre pessoas que não são unidas por laços familiares. que destacava a razão. Durante esse período. social e econômica. p. Em tal conjuntura. Sobre as oposições contemporâneas entre o público e o privado. Assim. e a constituição do sistema judiciário para mediar conflitos.] o sentido da esfera pública ampliou-se somente a partir desse início do século XVIII – com o Iluminismo – e consolidou-se com as revoluções americana e francesa. De acordo com Dupas (2003. p.. ele adquiriu uma característica libertadora da opressão familiar e social pelo anonimato propiciado pelas grandes cidades.. A nomeada Idade Contemporânea teve seu início marcado pelo Iluminismo. aduz Ricardo Machado (2008. O Iluminismo teria sido uma tentativa de equilíbrio entre a esfera do público e do privado. do povo ou das sociedades organizadas.] a esfera pública burguesa era um espaço social de intermediação envolvendo instituições e práticas sociais. juntamente com a institucionalização de certos direitos políticos e civis. o espaço público é percebido como um conjunto . quanto dos fundamentos da „democracia formal‟ herdados da sociedade burguesa. Estado e sociedade civil. Era a ocasião do surgimento do cidadão e suas demandas. interesses privados dos indivíduos na vida familiar. criado pelos homens. e das preocupações com a vida pública. as condições necessárias para a existência de uma democracia real passaram a ser essencialmente a manutenção tanto de uma esfera pública como espaço de debate político. e o privado. são sistematizados institutos sociais que possibilitarão mais tarde consolidar o capitalismo. A decadência do chamado antigo regime foi acompanhada pela formação de uma nova cultura urbana burguesa.43 Ainda em perspectiva histórica. 2003. p. 83) que “na medida em que o espaço da rua [e da praça] passa a ser delineado e exercido enquanto espaço público passa-se a exigir novas formas de comportamento na rua”. Ao final do século XVIII. personificado na família. Dupas ressalta a importância do Iluminismo para a concepção da acepção moderna de público e privado. ao contemplar a Idade Moderna. mas uma distinção entre o público. de outro. como espaço da cultura. Não existia ainda uma noção definida de espaço privado. 29). [. é o caso da multidão.

Nesse sentido. gerando. ícones da cultura do espetáculo). Os poucos que se expressam em público tornam-se profissionais. conforme salientamos em linguagem corrente” (DAMATTA. 544) que Nelson Saldanha lembrava o fato de a vida pública revestir-se “de uma exterioridade em relação à casa. apropriando-se de forma particular de um espaço público. “As praças e as ruas podem ser ocupadas permanentemente por categorias sociais que ali se estabelecem “como „se estivessem em casa‟.. tornando-se sua „casa‟.] a veneração da personalidade aparece. Na linguagem cotidiana. No momento sócio-histórico contemporâneo. A sociabilidade exige a conservação de determinado distanciamento da observação íntima do outro. introduzindo a personalidade na política. na qual o crescimento de um implica na mudança do outro (SCAFF. constituem rituais de sociabilidade. pois defeitos e virtudes assumem sentidos diferentes conforme o espaço seja público ou privado. As máscaras sobre o eu. ao viver básico. categoria social ou pessoas. dentro do qual se situa a existência privada. 55). como resistência à fluidez na sociabilidade. p. incluindo boas maneiras e gestos de polidez em situações públicas. rua e casa se reproduzem mutuamente. p. 2005). então. posto que há espaços na rua que podem ser fechados ou apropriados por um grupo..44 de rituais e comportamentos que delimitam a fronteira entre vida pública e vida privada. Representam eles uma antítese. a partir daí.. 55) que “na gramaticidade dos espaços brasileiros. . É o que Saldanha (2005) diz ser a configuração de uma dualidade e ambivalência. As dimensões do espaço em público e privado permitem pensar ainda as diferenças de comportamentos de indivíduos que vivem e moram nas ruas e nas praças. 1997.] e outro com relação à cidade”. interpreta DaMatta (1997. Ressalta Scaff (2005. o público e o privado estão relacionados com as desigualdades sociais. mas estes também eram afetados pela superposição do imaginário privado sobre o público. 30). ao jardim. 2003. algumas palavras podem soar socialmente respeitosas nas praças e absolutamente descabidas em um recinto de casa. as figuras carismáticas e a valorização da performance e da representação pessoal (artistas. Cabe indagar se mantêm uma vida privada populações que fazem da rua e da praça sua casa. Neste sentido. dois sistemas de valores: um com referência ao lar [. p. [. é possível verificar períodos de ampliação de um ou de outro desses espaços. p. Nas diversas fases da história. (DUPAS. ou seu „ponto‟”..

segundo observaram ainda Vogel e Mello (apud FRÚGOLI JÚNIOR. Entre os últimos. guardadores e lavadores de carros e carregadores nas feiras e supermercados. em particular de cada um de seus recortes territoriais. p.). de acordo com Frúgoli Júnior (1995. chicletes. como é menor a presença de moradores no entorno da Praça Gonçalves Dias.. seja durante o dia ou. em primeiro lugar. à noite. não obtém a “permissão social” dos vizinhos quem pretende instalar-se nos recintos dessas praças. é possível constatar a presença de indivíduos que usam esse espaço como abrigo. o que seriam duas categorias. circuitos. 1995).. conforme frisado acima. inclui-se.. pois. sobretudo. das ruas) daqueles que passam o dia nas ruas.. ao pesquisarem meninos que vivem em situação de risco na rua. Diferenciam. [.] a vida na rua se distingue. frutas. trabalhando por conta própria ou como „assalariados informais‟. assim. [. estar na rua (recentemente) e ser da rua (permanentemente). p.] encontra-se dividido em territórios. mediante os quais essa rede se integra. Instalam-se os indivíduos onde encontram uma menor pressão por parte do poder público e permissão social para a ocupação. Um território compreende toda uma rede de pontos da qual fazem parte os lugares preferenciais de atuação das turmas.. A utilização do espaço da rua ou da praça como abrigo ou moradia caracterizaria três tipos de situação. lugares de dormir („mocós‟). . 59). Aos mapas cognitivos da cidade. cabe articular lugares de reunião. além de toda uma série de trajetos. “ficar na rua (circunstancialmente). Cada um deles implicaria um tipo de condição. trabalho e grupo de referência”. Essa apropriação do espaço da praça para fins de moradia não é verificada nos bairros pesquisados. p. esclarecem que é preciso distinguir as expressões meninos “de” rua e meninos “nas” ruas. neste caso. 56). [. em geral uma praça.45 Irma Rizzini e Irene Rizzini (apud FRÚGOLI JÚNIOR. 1995. o aparato institucional de atendimento. rotas e atalhos. pois. portanto.. áreas de caça e pontos de apoio. 57). para elas. O espaço onde costuma desenrolar-se [.]. biscoitos. por formas diferenciais de apropriação do espaço e alocação do tempo.] distinguem-se os menores que vivem permanentemente nas ruas (sendo. com decorrências na moradia.. etc. Dessa maneira. cada qual estruturado a partir do epicentro de algum logradouro público.. tornando sua moradia o espaço da rua ou da praça (FRÚGOLI JÚNIOR. De modo diferenciado. cujas atividades mais praticadas são ambulantes (balas. engraxates. 1995.

160). em primeiro lugar. 2003. uma copresença de indivíduos” (GOMES. p. o tempo real passa a conter em parte o presente e parte o futuro imediato. falho. QUANDT. sociólogos. O local aproxima-se do global e é por ele atingido. A rua é um local perigoso”. p. As redes sociais “têm sido utilizadas por psicólogos. conforme as regras de convívio social. 1997. 34). O espaço público é aquele no qual existe a possibilidade de acesso e participação de qualquer pessoa. outra limitação para o uso social das praças é a utilização de redes sociais6 (networks) como suporte organizacional propiciada pelos avanços na tecnologia da informação e da comunicação. 59) que as evidências estão a definir que “o espaço público é perigoso e como tudo que o representa é. 57) percebe a rua como “terra que pertence ao „governo‟ ou ao „povo‟ e que está sempre repleta de fluidez e movimento. p. QUANDT. (SOUZA. o que se pode chamar de tempo real ou tempo virtual. lembra Alex.46 Ao considerar aspecto social hodierno. p. subordina e explora”. 55). “os atributos de um espaço público são aqueles que têm relação com a vida pública [. “são estruturas dinâmicas e complexas formadas por pessoas com valores e/ou objetivos em comum. “A lógica da aceleração do tempo está no centro da construção do mundo contemporâneo e é por ela que se devem perceber a realidade e os fatos” (DUPAS. fundado no descaso e na linguagem da lei que. 2008. Estas maneiras. mas virtualmente conectado à outra localidade por meio da web. 2010.] Para que esse „lugar‟ opere uma atividade pública. não é suficiente para determinar seu caráter público. Além do risco e da insegurança no espaço público contemporâneo. negativo porque tem um ponto de vista autoritário. interligadas de forma horizontal e predominantemente descentralizada”. p. segundo Souza e Quandt (2008. impositivo. p. Observa Gomes (2010) que uma concepção do espaço público que considere a separação do privado ou a garantia do acesso livre. igualando. é necessário que se estabeleça. .. p. também a praça ou o espaço público. 6 Redes sociais. 34).. 2008. Entende este autor (DAMATTA. 34). cientistas da informação e pesquisadores da área da administração para explicar uma série de fenômenos caracterizados por troca intensiva de informação e conhecimento entre as pessoas” (SOUZA. em princípio. Consequentemente. Roberto DaMatta (1997. Como resultado desse processo de mudanças tecnológicas. antropólogos. De acordo com este autor. É possível estar fisicamente sentado em um banco na praça. Uma categoria fundamental é a velocidade e não mais o tempo ou o espaço.

obrigatória e desejável.. então.47 devem ser observadas em qualquer espaço público para permitir a copresença e caracterizar seu sentido público. Com a apropriação. e sem ela o uso e a ação não são possíveis.] presença. adros. Lynch (apud ALEX. em uma prática recorrente da civilidade e do diálogo”. 164). e disposição é a possibilidade de desfazer-se de um espaço público. 60).] esses espaços. mercados. 21) sugere cinco dimensões para construir „bons‟ ambientes.. Apreender a complexidade das interações e das relações sociais no mundo atual é. os usuários tomam posse de um lugar. Diferentes segmentos. Relacionam-se por seus subespaços (praças. Essas normas são condicionantes da cultura e podem ser compreendidas como portadoras de um sentido local. são elas [. portas. nutrem-se da copresença. as dimensões sociais de uso/ação e de apropriação permitem compreender a detenção de certos espaços públicos por frequentadores em momentos de interação. Como bem aponta DaMatta (1997. regional ou mesmo global. janelas. modificação e disposição. embora tenham entre si uma relação complexa. Dessa maneira. apropriação. não estão separados. uso e ação. explica ele (ALEX. na verdade. com diferentes expectativas e interesses. jardins. ultrapassando suas diversidades concretas e transcendendo o particularismo.. como o lugar da sociabilidade no qual se exercita a arte da convivência. pois [. 2008. p. “o lugar físico orienta as práticas. simbolicamente ou de fato. A presença é o direito de acesso a um lugar. a relação entre o público e o privado é intricada. “embora o espaço público possa ser também o lugar das indiferenças. 2008. Para Gomes (2010. em parte. das práticas sociais. . p. pela submissão às regras da civilidade”. p. 20) que.. p. e estes por sua vez reafirmam o estatuto público desse espaço”. a mise-en-scène da vida pública. Uso e ação referem-se às habilidades das pessoas de utilizar um espaço. cozinhas e varandas) e também por ocasiões especiais em que a sua comunicação é possível. Esclarece ainda Gomes (2010. O espaço público é explicado. Modificação é o direito de alterar um espaço para facilitar o seu uso. 163) que se trata “de uma área em que se processa a mistura social. e entender o controle desses lugares pelos usuários. guia os comportamentos. p. também apurar como tem sido articulado o uso da noção de espaço nas dimensões pública e privada. ele caracteriza-se.

que se efetua a apropriação do espaço. Expressa entendimento semelhante Mayol. e mais tarde organizam o dispositivo social e cultural segundo o qual o espaço urbano se torna não somente o objeto de um conhecimento. O espaço do bairro – e também da praça. o resto do mundo) [. para Mayol (2009.. [. são muito mais. . não é apenas uma separação.. que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro.. pode-se dizer – para Mayol (2009.48 É possível ainda incluir na discussão a respeito das interações no espaço social público. um não tem nenhuma significação sem o outro”. Mayol (2009. um dentro e um fora. p.. seu raciocínio pode ser também aplicado a outros espaços. mas o lugar de um reconhecimento. 43) que “o público e o privado [.. trajetos cotidianos. 45) é [. no bairro.] pelo fato de seu uso habitual.] E é na tensão entre esses dois termos... um não tem nenhuma significação sem o outro. relações de vizinhança (política). porque. mas constitui uma separação que une.. p. O limite público/privado representa a estrutura fundadora do bairro para um usuário. p. [. entende. 43). por extensão. o qual influencia com as práticas culturais da população que ali habita as interações naquele espaço com seu peculiar modo de ser ou visão de mundo. a noção de bairro. 42). assim. As praças estão situadas fisicamente em determinado bairro. O público e o privado não são remetidos um de costas para o outro. quando analisa o bairro. relações com os comerciantes (economia). 2009. sentimentos difusos de estar no próprio território (etologia). o bairro pode ser considerado como a privatização progressiva do espaço público. tudo isso como indícios cuja acumulação e combinação produzem. constituindo uma separação que une. Para ele (MAYOL. são sempre interdependentes um do outro..] o limite público/privado.] são sempre interdependentes um do outro. que parece ser a estrutura fundadora do bairro para a prática de um usuário. p. porque. como a praça pública.. A propósito. Aí se acham reunidas todas as condições para favorecer esse exercício: conhecimento dos lugares. visando compreender as relações entre as dimensões do público e do privado.] um objeto de consumo do qual se apropria o usuário no modo da privatização do espaço público. no bairro. Trata-se de um dispositivo prático que tem por função garantir uma solução de continuidade entre aquilo que é mais íntimo (o espaço privado da residência) e o que é mais desconhecido (o conjunto da cidade ou mesmo. embora coexistentes. como dois elementos exógenos.

atuando como um cenário importante dos fatos sociais. 32) ela é [. p.. encontram sua significação social na medida dos usos mantidos pelos citadinos. a apropriação realizada a partir do uso social. compondo a paisagem urbana. porque. Neste sentido. E é na tensão entre esses dois termos [.. que denotam espaços voltados para a experiência de interações.3 As praças enquanto espaço público: conceituação e configurações O espaço público urbano configura-se de múltiplas formas e tamanhos que incluem lugares destinados ao uso cotidiano. 67). como as praças. por meio da análise das mais diversas práticas sociais. São destinas à circulação. As ruas com seus traçados estruturam e vinculam a disposição das construções no espaço urbano. Ao se qualificar o espaço como público presume-se que seja franqueado o acesso a todos que intencionem frequentá-lo. ao possuir características que permitem a concentração de pessoas. . a permanência neles ainda que transitória. 2. p. dentro da estrutura urbana quase sempre bastante adensada. dá significado ao espaço que se consolida como público.49 Mayol (2009. relações sociais e sociabilidades. como os indivíduos e grupos interagem e tornam esses lugares oportunamente adequados às mais diferenciadas formas de sociabilidades e convivências. que se efetua a apropriação do espaço”. A observação dos usos e apropriações sociais cotidianas do espaço das praças públicas em São Luís permite entender como as dimensões dos espaços público e privado são complexas e articuladas. atrai atividades importantes para o seu próprio espaço e para o entorno.] um espaço diferenciado.. As praças estão situadas em certos bairros. 42) escreve que “o bairro constitui o termo médio de uma dialética existencial entre o dentro [o íntimo espaço privado da residência] e o fora [o conjunto da cidade]. a copresença e as vivências estabelecidas permitem compreender. representam o que se pode chamar de “espaços de fluxos” (FRÚGOLI JÚNIOR.. A praça reúne elementos históricos e formais que a tornam um dos mais importantes espaços da cidade. ausente de construções. p. diferente das praças. permitindo uma interligação entre os vários espaços localizados na cidade.] que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro. 1995. e histórico. De acordo com Colchete Filho (2008. O acesso a esses espaços.

2005. assim. Observa ele que [. [. p. as finalidades são mais genéricas. Ao comentar que Saldanha justapõe a praça aos jardins. na estrutura interna das cidades. em sua origem latina. . em geral. o espaço para a troca. Um espaço onde. Observa Alex (2008... p. É. eventualmente monumentos. em alguns casos. Adverte ele... econômicos.. para o alcance público do que se venha a fazer na praça. a ágora grega. comunitário. comunitário. Espaço este que se conforma por várias aberturas no tecido urbano que direcionam naturalmente os mais diversos fluxos em busca dos. mais diversos usos. encontram-se árvores. da ordem política e da criação cultural”. pois é um desdobramento da produção econômica. que imprimem a esse espaço o caráter de lugar e ponto central de manifestação da vida pública.] poderia lembrar as praças sagradas dos astecas ou os terraços votivos dos incas. mistura de mercado e local de encontros. em sentido amplo.50 Conceber a praça como um cenário importante dos fatos sociais. comum. como uma confluência de ruas. a praça compõe organicamente o conjunto formado pela cidade. apresentar-se e reunir-se a outros. caracteriza-se como espaço de encontro e convívio. Em tal espaço basicamente urbano é possível estar. ligado a amplas finalidades da vida social. Acentua Saldanha (2005. Para Saldanha (2005). o fórum romano – ambos. o significado social do espaço da praça. p. Na visão do autor. como fins políticos. então. À dimensão física está associada a dimensão sociorrelacional. 33) ressalta que “nas praças. o conceito de praça indica o espaço público. religiosos ou militares. p. 2005). também. 13) que a praça é um espaço amplo e sem construções. correlato do próprio espírito da cidade onde se insere. 10) que [. A óbvia extensão espacial da praça não é apenas extensão espacial: ela corresponde a um significado social. e sua continuação.] o espaço da praça é mais complexo.15). arqui-exemplar. inclusive para meetings políticos. “que se abre. implica em entendê-la como local onde os atores sociais – indivíduos e grupos – exercitam interações. ligam-se ao espaço comum. ou de qualquer sorte uma interrupção nos blocos edificados. (SALDANHA. pequenos lagos artificiais”. Colchete Filho (2008.. Destaca Saldanha. Para ele (SALDANHA. bancos. pois sua destinação social faculta essas probabilidades de usos. urbano por natureza.] a praça.

no fundo. Fazem-se declarações à praça para tornar público um comunicado ou um aviso de perda de documentos. manifesto no palácio do governo”. nossos soldados são treinados como „praças‟.51 [.. em razão da reunião de atividades no entorno.. pois ampliam o potencial de uso coletivo que já possuem. 2005. onde se situam em nichos especiais o poder de Deus.44). uma região teoricamente do „povo‟. 44). das cerimônias públicas importantes. (ALEX. p. 34). caracterizada em todas as civilizações como espaço „público‟. o que acaba por vincular um conteúdo simbólico forte às praças em geral. Alex avalia a importância social da praça. e o poder do Estado. mas também um centro social integrado ao tecido urbano”.. p. possui a mesma essência da praça. ao menos logicamente (ou estruturalmente) anterior. Preserva-se o bom nome na praça. Uma espécie de sala de visitas coletiva. Identifica-se praça com mercado para difundir produtos ou delimitar a aceitação de cheques.. A consagração histórica do fenômeno urbano significa. p. permite a participação contínua na vida da cidade. considerando as cidades ibéricas e brasileiras. Colchete Filho realça a importância social do espaço da praça no conjunto da cidade. as atividades de natureza comercial e cultural.] a praça. [.]. A praça representa a expressão cultural urbana. a praça brasileira é igualmente enraizada nos hábitos de uso e da linguagem de seu povo. aliadas ao uso residencial..] mesmo sem o rigor urbanístico das plazas ou a herança arquitetônica das piazzas. preferencialmente em tempo integral.. p. DaMatta (1997. além do valor histórico. verificamos que é na praça que costuma se dar a presença do comércio mais intenso. Por isso. cristalizado na igreja matriz [.. [. 23) “a praça não é apenas um espaço físico aberto. a consagração ou consolidação da vida pública. 2008. são tão características no entorno das praças. E. 25).] ao longo da história. (COLCHETE FILHO. A rua. . nos usos e na linguagem. Do ponto de vista de Alex (2008. (SALDANHA. posto que todo o traçado urbano. apesar das raras „plazas de armas‟ em nossas cidades. é algo público. entre as consequências dessa aglomeração está a atração de pessoas para seus limites. como lugar de convívio social. com as quais podem deparar seus frequentadores. que na praça se concentra.. Ao conferir especificidade de significado e origem às praças brasileiras. Relata ele que. explica que “a praça abre um território especial. por sua vez. 2008. p. assinala ele que. Por conseguinte. não tira seu significado do mero fato da convergência de vias „públicas‟ Ela pode ser anterior às ruas. em perspectiva histórico-antropológica.

enfim... que conduzem usos de acordo com padrões sociais em contextos que caracterizam a ordem legítima.. Assim. era pouco provável que se situasse num ponto condigno como uma praça que acolhesse os cidadãos. 2008..] E.. Mas.52 Murillo Marx (apud ALEX. que. (MARX apud ALEX. para reunião de gente e para exercício de um sem-número de atividades diferentes. são raras entre nós. Ações e relações são ali empreendidas pelos atores sociais. em contraste com a regularidade do traçado das cidades da América espanhola. que não revela a sua efetiva existência. Como lugar de convívio social. Podem ser notadas redes de interdependência em grupos que usam as praças.] as praças cívicas. O espaço deve ser considerado em função da constituição de sistemas de interação. mas também os principais edifícios públicos. como praça de igreja grande e cuidada. A configuração . Opõe Marx (apud ALEX. 2008. p. portanto. p. enfatiza ele a ausência do poder civil demarcando esses espaços públicos. de maneira marcante e típica. surgiu entre nós. pois [. que não dignifica o viver republicano. Representa a praça. acolhia os seus frequentadores. a expressão cultural urbana. que não clarifica sua responsabilidade social. que esconde o poder público. nas quais se instalavam ao redor da praça não apenas a igreja matriz. Destacava. 24). São exceções [. ressaltando a origem religiosa. [.] transcenderia o papel de adro para tornar-se um fórum brasileiro [... aqui e ali. na paisagem urbana estes estabelecimentos de prestígio social.. Realçava os edifícios. Estas teias de interdependência ou configurações dos mais diversos tipos autorizam refletir sobre as relações estabelecidas por indivíduos e grupos no ambiente das praças.. possibilita a participação na vida da cidade. os comportamentos de indivíduos e grupos devem convergir com determinada intencionalidade correspondida. que possibilite e sustente o processo de trocas sociais. diante de capelas ou igrejas. quando o esforço comum erguia uma construção para este fim. diante de edifícios públicos importantes. 24) o desenho irregular da maioria dos espaços públicos brasileiros.. 24) destaca o caráter público e multifuncional desses espaços. a praça como tal.]. valorizasse o significado do prédio ou tirasse partido de seu projeto arquitetônico mais elaborado [. 2008. as negociações para os usos sociais do espaço das praças se dão com base em padrões de comportamentos grupais que interferem nas ações individuais. Além disso. de conventos ou irmandades religiosas. para haver sociabilidade. p.] Uma desordem.

ao se qualificar o espaço como público.53 evidencia comportamentos enredados. Conceito também relevante é ocasião social. No entanto. estar ou não nas praças pode ser sinal de distinção ou de reputação (boa ou má). . Todavia. Cabe indagar se mantêm uma vida privada populações que fazem da praça sua casa. presume-se que seja franqueado o acesso a todos que intencionem frequentá-lo. o público e o privado estão relacionados com as desigualdades sociais. a utilização de redes sociais (networks). Pode-se estar fisicamente na praça. podem representar limitação para o uso social das praças. Quando são analisadas relações sociais nas praças o termo pedaço pode ser mencionado para tratar de um tipo particular de sociabilidade. A situação é o ambiente espacial completo em que ao o adentrar uma pessoa se torna um membro do ajuntamento que já está presente ou que se constitui. Interações nas praças podem ser explicadas como ocasiões sociais. A exposição pública pode não acarretar necessariamente o reconhecimento social por ventura desejado. como suporte organizacional propiciada pelos avanços na tecnologia da informação e da comunicação. enquanto um acontecimento ou evento social mais amplo. conforme o momento histórico. e um padrão de conduta tende a ser reconhecido como apropriado. As dimensões do espaço em público e privado permitem pensar ainda as diferenças de comportamentos de indivíduos que vivem e moram nas ruas e nas praças. Podem as interações sociais estar situadas no pedaço. são os ajuntamentos. esses limites são definidos. formando estruturas entrelaçadas. ditos de outra forma. Neste sentido. limitado no espaço e no tempo. A noção de ordem pública é pensada quando pessoas estão conscientes da presença de outras e podem estabelecer padrões comunicativos. fornece o contexto social estruturante em que as situações e ajuntamentos transcorrem. Nas praças públicas prevalece a presença mútua em que pessoas em pontos diferentes podem observar outras pessoas e por elas também serem observadas. uso e apropriação do espaço urbano. Se hoje existe uma configuração socioespacial que permite sua utilização. Deve-se destacar também que. Ou ainda. apropriando-se de forma particular de um espaço público. ajustados e revisados por meio de regras e padrões que se repetem em cenários de negócios cotidianos organizados. o qual se compõe do espaço e das redes de relações sociais estabelecidas. mas virtualmente conectado a outro lugar por meio da web. Os usos e apropriações sociais das praças de São Luís têm variado conforme o momento histórico.

Considerar as transformações urbanas no tempo e os recursos acionados socialmente possibilita perceber como foram sendo criadas as condições sociais objetivas para os usos atualmente conferidos pelos citadinos a esses espaços públicos. .54 a trajetória para a construção desse acervo foi lentamente processada.

2007. 22). posteriormente. 2009. de uma população de aproximadamente 500 habitantes. . “não revelou a perspectiva de povoamento imediato. Icatu. ao fazer um estudo sobre a construção do espaço urbano a partir das cartas-de-datas e sesmarias7. a Coroa Portuguesa distribuía terras a colonos interessados em usá-las para a produção de alimentos. ruas sem calçamento e casas de palha e pau-a-pique. Os núcleos de população estavam fixados na orla próxima aos rios Itapecuru e Mearim. Em seguida. Apesar da referida fundação francesa.. como diz Lefebvre (2009. Desde os franceses. surgiram novas vilas e cidades. uma cidade predomina sobre as outras: a capital”. Turu. “o que se levanta sobre essa base [de sistema urbano] é o Estado. São Luís – maior núcleo de povoamento da região – em 1621 torna-se Vila e. o Maranhão apresentava uma incipiente estrutura urbana. Cumã (Guimarães).] a cidade estava circunscrita ao eixo Praia Grande e Desterro. E. conheciam-se pontos da ilha como São Francisco. em 1616. p. passa a ser considerada cidade. o poder centralizado. “a configuração urbana de São Luís foi moldada a partir do traçado enxadrezado ou ortogonal. 27). p. p. Araçagi e Cutim. [. assegurando também assim o povoamento. em 1677. Nesse momento.1 Histórico das transformações urbanas de São Luís São Luís foi fundada pelos franceses em possessões lusitanas e retomada pelos portugueses. p. tipicamente português” (SELBACH. tais como: Tapuytapera (Alcântara). Desenho urbano desordenado. p. colonizada por ibéricos com caráter estratégico-militar. Além de São Luís existiam vilas e freguesias. a presença portuguesa. Nesse sentido. ele foi sempre muito lento. estes últimos em número superior à Bahia (140) e Pernambuco (100)” (BOTELHO. Timbuba e.. Causa e efeito dessa centralização particular. 18) que 7 Para viabilizar a exploração do território. a partir do século XVIII.55 3 HISTÓRICO DO DESENVOLVIMENTO URBANO DE SÃO LUÍS 3. 31). Conforme narra Botelho (2007. 13) ao tratar da constituição social de uma rede de cidades. Vinhais. Assim é que. invadida por holandeses. Esse instituto jurídico de origem portuguesa vigeu no Brasil de 1532 a 1822. como expressam os fortes construídos no século XVII. a centralização do poder. No primeiro século de colonização. 313 é de soldados. afirmam Mota e Mantovani (1998.

19). desde o final do século XVII. próximo aos conventos [.] a leitura das cartas nos permite acompanhar o processo de construção da cidade. para Mota e Mantovani (1998. feitura de calçadas.] pequenos núcleos tendem a se constituir em torno de pontos vitais para a coletividade: inúmeros são os pedidos de terrenos no caminho das fontes. próxima do Forte. na qual as praças representavam o mais importante espaço urbano.. considerando que . Assim. No século seguinte. 20).]. De acordo ainda com Mota e Mantovani (1998.. em que beneficiários tardios ocupam os terrenos vazios”. sob ordem do capitãomor Jerônimo de Albuquerque. tratando do processo de construção social do traçado da cidade. Um interesse pela elegância urbanística se vai tornando mais pronunciado no final do século XVIII.. acrescenta Carvalho que. desenhou a planta da cidade. Mota e Mantovani (1998..] desde o século XVII a cidade de São Luís contava com alinhamento primário. pois o engenheiro fortificador Francisco Frias de Mesquita. Destacam ainda Mota e Mantovani (1998.”. p. De certa forma diferente do período anterior..56 [. “a cidade se expande segundo dois movimentos distintos: abertura de novos espaços e consolidação. a cidade começa a esboçar mudanças em sua configuração citadina. além de construir uma casa para servir de modelo para as que seriam construídas posteriormente. manutenção de quadras delineadas. quando se pode averiguar a definição de critérios para a construção de residências como a cobertura feita de telhas.. limpeza das estradas etc.. p.] a preocupação da administração municipal com o traçado da cidade. 111). definindo o traçado regular das ruas... “percebe-se [. [. Ao pesquisar a racionalidade do espaço urbano de São Luís. 21) descrevem as etapas de ocupação de novas áreas e crescimento da cidade. p. 2005. (CARVALHO... Inicialmente. p. das fontes (devido à indisponibilidade de canalização de água). a malha urbana expressa as relações familiais que a articulam: os colonos vão se estabelecendo ao redor de parentes e de amigos. alinhamento das ruas. das igrejas. p.. era possível constatar medidas que visavam organizar a estrutura da cidade. 18) que [.] vemos a ocupação se iniciar na área do porto [.

em que se desenvolviam as atividades que interessavam à metrópole. cujo eixo central gravitava em torno da oferta de escravos para dinamizar a lavoura de exportação. o Maranhão passará por transformações... as atividades econômicas no Maranhão eram rudimentares. Tudo isso é consequência [. as interações. p. e algumas famílias também se dirigem para as proximidades da Igreja de São João. pois a dinâmica estava situada no campo.. a partir do núcleo inicial localizado próximo ao Forte e ao Cais. [.. Até a primeira metade do século XVIII. atraídos pelo Convento das Mercês e pela Fonte das Pedras.. 22) que [. ações e relações sociais em São Luís no século XVIII. na subsistência e na coleta de drogas do sertão..] no sistema colonial. que retirou o Maranhão da situação de pobreza e o colocou como província importante no século seguinte. MANTOVANI. A respeito da população residente em São Luís em 1720.1 cartas-de-datas anuais emitidas pelo Senado da Câmara entre os anos de 1723 a 1760 constitui uma forte evidência da lentidão com que se deu o povoamento inicial”.. p. Viveiros afirma que “[o povoamento] se desenvolveu tão morosamente que não atingia a 1.] em meados do século XVIII. 1998. o povoamento se expande em diversas direções: ganha o rumo do Convento de Santo Antônio e Remédios e também o da Igreja de São Pantaleão e outras áreas já razoavelmente afastadas da que abrigava os primeiros prédios. 22). . A média de 5. centrado nas atividades agro-exportadoras. a função das cidades consistia apenas em entreposto de mercadorias. a partir de uma nova reorientação mercantilista.] até a década de sessenta do século XVIII a área urbana se projeta. que [. demanda tratar a vida social na qual prevalece um ethos mais rural que urbano. Já no final do século [XVIII]. A seguir.. 22) que “São Luís... o comércio estava baseado no trabalho indígena.400 moradores em 1720” (VIVEIROS apud MOTA. Mais tarde. Pensar. em direção ao Largo do Carmo.] determinarão novas projeções sociopolíticas e econômicas [.. p. 56) que. até bem avançado o século XVIII [.. o povoamento se dá no sentido Carmo-Desterro.]. deste modo. Observam Mota e Mantovani (1998.57 [.] não passava de uma vila. a ocupação se orienta para o bairro do Egito. Notam também Mota e Mantovani (1998... Explica Botelho (2007.] da política efetivada pelo Marquês de Pombal. p. Rua do Ribeirão e cercanias da Casa de Recolhimento das Irmãs e da Igreja do Rosário dos Pretos.

– podese dizer que a cidade era pouco mais que um acampamento militar. . calafetador. até meados do século XVIII. então. como [. 1998. quinze o foram em favor de soldados.. carpinteiro. p. Outras categorias do mesmo modo beneficiadas foram os artífices (pedreiros. a sociedade maranhense passará por transformações com a chegada crescente de portugueses e de escravos africanos. Conforme Botelho (2007.] no momento inicial. Assim. 1998). com o trabalho de pesquisa. o que incrementou a agroexportação.58 Confirmam esse entendimento as considerações de Mota e Mantovani acerca do período. É à qualidade de entrepostos do comércio exportador que devem sua importância centros como o Rio de Janeiro. nota-se que. Para Botelho (2007. MANTOVANI. (MOTA. capitães etc. Percebe-se. a sociedade maranhense apresenta-se pouco diferenciada. Levando em consideração a profissão dos primeiros povoadores – soldados. até mais ou menos 1760.. É o tempo da fundação em 1755 da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão. 115). alfaiate) e indivíduos ligados a algum ofício religioso (padres. Mostram eles. Nos vinte anos de sua existência retirou o Maranhão da inexpressividade. 23). temos ainda uma cidade-enclave.] coincidirem os portos de exportação com as maiores cidades da colônia. São Luís (Maranhão) e Belém (Pará): é nas proximidades e alcance deles que se concentram as maiores atividades da colônia. MANTOVANI. como a emissão das cartas-de-datas evidencia períodos distintos na vida da cidade.. (1980. que compunham a maioria da população de São Luís. “a partir da segunda metade do século XVIII. p. ao assegurar que [. Confirma a lição de Prado Jr. cinco de capitães – um dos quais capitão-mor – duas para alferes e uma a sargento-mor. que dinamizou a economia regional. tornando este Estado o mais próspero do final do século XVIII”. clérigos presbíteros. Bahia. verificando-se o predomínio de funcionários e militares nos precários centros urbanos da época. mantimentos e capital de custeio. 58). surgindo daí famílias abastadas”. ferramentas. artífices e religiosos. 106). p. Das cento e quatorze cartas emitidas na primeira fase estudada. procurador de igreja e sacristão da Sé) (MOTA. ferreiros. p. marcada pelas preocupações com índios e com a invasão estrangeira.. essa Companhia permitiu “aos lavradores a possibilidade de crescimento econômico ao introduzir na região escravos. que no século XVIII os usos sociais da cidade realizados por seus moradores provinham principalmente de militares. Recife (Pernambuco).

1998. ocorreram as principais intervenções urbanas em São Luís. p. pelo menos num momento. 64). com a Ponta do Romeu (atual Praça dos Remédios ou Largo dos Amores). Em 1784. matéria-prima cuja oferta fora interrompida em razão do processo de independência de suas colônias na América do Norte. “comprovado pelo aumento significativo do volume das cartas-de-datas: de uma média de 5. em poucos decênios. São Luís contava com aproximadamente 16.] A Companhia não colherá os melhores frutos do seu trabalho: extingue-se em 1777 com a cessação do seu privilégio que não é renovado. O forte impulso econômico é atribuído à GrãBretanha. seu lugar no grande cenário da economia brasileira. e provém do Maranhão que neste ano exporta 651 arrobas.. o Maranhão enfrentava sérias dificuldades econômicas.. Antes da implantação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão. p. Mas o Maranhão terá.. Nesse período. 2002.1 concessões anuais registrada no primeiro período analisado vê-se que nas últimas décadas já se altera significativamente o ritmo de emissão” (MOTA. MANTOVANI. (1980. que hoje equivale à atual Praça Pedro II. Será ultrapassado mais tarde por Pernambuco e Bahia. Período marcado pelas demolições/construções. Houve também a duplicação da área suburbana de São Luís. porque ela parte aí do nada.580 habitantes. iniciam-se as obras do aterro da Praia Grande.] a primeira remessa de algodão brasileiro para o exterior [. p. p. Mas o impulso estava dado. ao final do século XVIII. e o Maranhão continuará em sua marcha ascendente. Deveu-se isto em particular à Companhia geral do comércio do Grão-Pará e do Maranhão. mas. de uma região pobre e inexpressiva no conjunto da colônia.59 Esclarece ainda Prado Jr. (MARQUES.. segundo registros do Vigário da freguesia.. observa Márcia Marques que Entre 1761 e 1779. período correspondente ao governo de Melo e Póvoas. de 1760. Neste contexto.. .]. data. 82) que [. esse impulso econômico é perceptível ao final do século XVIII pela observação do crescente povoamento.] é no Maranhão que o progresso da cultura algodoeira é mais interessante. [. Dessa forma. Assim. entre as quais a que construiu um jardim pertencente ao Largo do Palácio. [. 2007. O algodão dar-lhe-á vida e transformá-la-á.. com a abertura da estrada [Rua Rio Branco] que interligava a Rua Larga (atual Rua Grande) e o Largo dos Quartéis (atual Praça Deodoro). que contavam ao se lançarem na empresa com recursos de gente e capitais muito mais amplos.. no governo de José Teles da Silva. 38). é uma das mais dinâmicas províncias da colônia. 25). ao que parece. concessionária desde 1756 do monopólio desse comércio. distribuídos em 1482 fogos [residências de famílias]. “é no Maranhão que se dá a grande inserção do algodão no fim do século XVIII” (BOTELHO. que vem comprar nessa região o algodão que faltava para abastecer sua indústria têxtil. numa das mais ricas e destacadas capitanias.

agregam-se negociantes e escravos à população de São Luís.. Nesse sentido. São Luís. . MANTOVANI. [. Através das cartas-de-datas e sesmarias percebe-se que a prática dos primeiros colonos com relação à moradia consistia em se apropriar de um pedaço de chão e construir sua vivenda.. com Joseph Álvares Torres um contrato para o transporte de mil pessoas das Ilhas dos Açores para o Estado do Grão-Pará.] as providências das autoridades municipais manifestam o sentido de fixar a escassa população. no século XVIII. Conforme Viveiros (apud MOTA. 33) dividiram dois momentos. composta à época principalmente por militares.] não tardaria o futuro Marquês de Pombal a encaminhar para o Estado do GrãoPará e Maranhão uma intensa corrente imigratória. assim como o de elevá-la.. Com relação ao impacto das reformas pombalinas. p. No mesmo estudo a respeito do desenvolvimento urbano de São Luís sob a Lei das Sesmarias. neste passo.. [.60 Ainda no final do século XVIII. que compreende a fase histórica entre 1723 e 1760. nomeando o primeiro como “período de estabelecimento”. p. MANTOVANI. tendo como origem o Arquipélago dos Açores [. O espaço urbano inevitavelmente irá se alterar com as políticas de incentivo. as atividades urbanas se intensificam e a população se eleva e diversifica etnicamente. Mota e Mantovani (1998. 32). sem qualquer legitimação que não fosse o trabalho de fazê-lo. Para eles. 33). passou a constituir-se em um espaço estratégico para o desenvolvimento então conhecido pela região.. MANTOVANI. Mota e Mantovani destacam o período que vai de 1760 a 1824. 37).] Não há notícia de leva maior que esta.. p. (MOTA. em abril de 1751. é possível identificar medidas conduzidas pela Coroa Portuguesa no sentido de estimular o povoamento. A propósito. (MOTA. 1998.. [. pelo menos nas áreas sob a influência das atividades produtivas.. [. p. como Belém. 26). devido às suas atividades portuárias.. São Luís também é beneficiada pelas políticas e ações de incremento produtivo e populacional decorrentes da instalação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão (MOTA. MANTOVANI. atraídos pelo dinamismo econômico.] a Coroa de Portugal assinou. artífices e religiosos.] saindo do abandono em que se encontrava. Neste momento. 1998. 1998. Uma das primeiras consequências deste fenômeno é a valorização dos chãos urbanos. p. 1998..

. MANTOVANI.. (MOTA. “a cidade contém assim a projeção dessas relações [sociais dominantes]”. e que quando fossem concedidos devia ser debaixo dessas condições (MARQUES apud MOTA. 1998.61 Ao final do século XVIII. 1998). A regulação das autoridades expressa a eficácia e a presença social dessas relações. a vida da cidade girava ao seu redor nos primeiros tempos. são estabelecidos vários requisitos de cumprimento complexo e oneroso aos que solicitam lotes (MOTA. Naquele momento. 66). as últimas décadas do século [XVIII] já manifestam um esforço no sentido de articular relações sociais. Antonio de Sales Noronha. em 17 de dezembro de 1779. MANTOVANI. ao informar que [. oficiou ao Senado da Câmara dizendo “ter presenciado no corpo da cidade muitas casas cobertas de pindoba e assim ordenava que não se concedessem chãos a pessoas sem possibilidade para fazerem edifícios nobres.] Nas terras recebidas construíram templos. 1998. passa-se a verificar “um intenso processo de concentração de terrenos em mãos de particulares.. Como diz Lefebvre (2009. p. p. 42).. Ao que parece. 1998. p. feitorias que utilizavam mão de obra e. a orientação da Câmara era fixar moradores. assim. César Marques (apud MOTA. MANTOVANI. 40). 42).. criar privilégios e – em suma – instaurar uma classe dominante entre os homens livres” (MOTA. fixavam população. sítios etc. MANTOVANI. colégios. MANTOVANI. em razão da ampliação das atividades econômicas voltadas para a exportação. 49).] desde as primeiras décadas do século [XVIII] as ordens religiosas eram o grande agente monopolizador de terras na colônia. MANTOVANI.] o Governador D. com a cessão sine causa de terrenos. Afirmam estes autores que [.. menciona um ofício que permite confirmar a observação de maior atenção e rigor por parte das autoridades para a concessão de lotes a pretendentes moradores. 40). p. passa interessar às autoridades controlar de modo mais seletivo a ocupação de espaço. com reflexos no aumento da população. De maneira diferente da adotada anteriormente. 1998. “Se antes. p. [. 1998. . e o núcleo urbano inicial se expande em vários bairros com vocações diferenciadas” (MOTA.. conventos. ao discutir o aformoseamento da cidade naquele período. p.

p.000 entre 1801 e 1820”.722 pretos e 18. Naquele período da história da cidade e do Brasil. alcançavam 55%. p. MANTOVANI. 68) que. . p.] o algodão desenvolveu-se no Estado do Maranhão tendo um aumento das exportações e. ficando abaixo apenas da Bahia.62 Nas duas últimas décadas do século XVIII. o que passou a exercer atração sobre a população residente não eram mais as igrejas e as fontes como outrora. e figurava como a quarta província mais exitosa do Brasil. Informam Mota e Mantovani (1998. de grande contingente de escravos negros oriundos da África para trabalhar nas plantações de algodão e arroz. consequentemente.000 até o final do século XVIII. a partir de então. Outro acontecimento importante para a configuração da cidade e feição de seus moradores foi a entrada. isto se torna uma prática comum e constante”. p. a população escrava era de 35. mas o porto e as fábricas. quando as exportações de algodão variaram. O progresso do Maranhão continuou até o segundo decênio do século XIX. o Maranhão era o segundo maior produtor de algodão do Brasil. sendo 12. no ano de 1798. 2007. Nesta época. 69). “pelos idos de 1779. 1998). a situação modifica-se e a acumulação de propriedade urbana passa a ser realizada por outros agentes. [.. 107). A expansão das áreas edificadas é acompanhada 8 Criada em 1682 com o objetivo principal de introduzir mão de obra africana no Estado do Maranhão. na segunda metade do século XVIII. E “a população branca representava somente 16%” (BOTELHO. que “em percentuais.000 e 48. ainda. o Maranhão possuía 31. com o final do século XVIII.000 peças introduzidas pela Companhia [do Comércio do Estado do Maranhão8] e cerca de 5. 65). “até este período os Anais da Câmara não registram acúmulo de terra por particulares. do Rio de Janeiro e de Pernambuco. Ilustra Botelho (2007. excluindo-se os índios” (BOTELHO. p. 2007. o algodão era um dos produtos de exportação que permitia a geração e a acumulação de riqueza. É um período da história em que São Luís se converte em importante cidade. em razão da oposição dos jesuítas à escravização dos índios. Observa. Para Botelho (2007. Em 1800. chegando ao ápice em 1818. 43) que.. em 1822. Assim. os escravos negros representavam 47% da população colonial e.573 mulatos. produzindo-se um total de 402. perdendo apenas para a Bahia. um crescimento acelerado. em momento que se pode chamar de póspombalino. estas voltadas ao beneficiamento do couro e soque de arroz (MOTA.793 arrobas.

além de São Luís. 1998.. 45. A cidade continuava a crescer e passava por inúmeras reformas. Nesse contexto. com uma densidade demográfica de aproximadamente 0.144 habitantes. MANTOVANI.852. Em 1805. p. Tutóia. Vinhais e Viana que possuíam 300 habitantes cada uma e Monção com 90 habitantes.000.. sendo a Praia Grande um foco para expansão comercial. Paço do Lumiar com 520 habitantes. p. Prado Jr.7% da população total do país. Dois outros seguem num segundo plano: Pará e Maranhão”. (1980. então já a capital. não existia uma rede urbana com cidades interligadas.000. Caxias com 2. O povoamento estava concentrado no litoral. Estas cinco cidades (as demais não passavam de aldeias) representam apenas 5. assegura Botelho (2007.000 habitantes.63 pelo aumento no número de praças na cidade. [. Itapecuru que tinha 767 habitantes. calçamento das ruas e a transformação do Largo do . 28) nota que. Mearim com 680 moradores.426 habitantes.] A cidade se encontrava em um período áureo. havia uma preocupação com o espaço público. Recife. 22.] no século XIX.000 habitantes. Ainda estabelecendo comparações. margeando o extenso litoral.3 habitante por quilômetro quadrado. que [.. no início do século XIX.600. houve a preocupação em relação às condições das edificações. Muitas vezes o transporte de mercadorias e pessoas era feito por cabotagem. Ainda no século XIX. não passava de 50. ajardinaram-se e arborizaram-se os largos. Bahia e Rio de Janeiro. No que se refere às outras vilas mais populosas do Maranhão em 1820. 101) que “três daqueles núcleos são de grande importância: concentram-se em torno de Pernambuco. Explica Márcia Marques a respeito das transformações urbanas de São Luís..000. p. (apud MOTA.. informa Prado Jr. Por todo o território a população era distribuída de modo disperso. as ruas se encontravam pavimentadas.] as cidades brasileiras. 2. tais como reformas em edifícios públicos. S. Paulo. [. Durante o governo de Manoel Rodrigues de Oliveira. Alcântara com 3. com 760 moradores. concluíram-se as obras da margem direita da Foz do Bacanga e a construção da Casa das Tulhas [atual Feira da Praia Grande]. Luís do Maranhão. ou seja. Bahia. a colônia portuguesa na América tinha uma população estimada em 3 milhões de habitantes. é possível inferir-se a formação de uma incipiente estrutura urbana em São Luís que se destaca no conjunto do País. eram insignificantes. eram elas. Rio de Janeiro. a cidade passou por uma grande expansão física e de marcante melhoria nas construções. 30. 16. 73). Logo.. ainda em fins do regime colonial. e as fontes receberam cuidados especiais. S.

p. pois o algodão atraiu investimentos ingleses que. nas primeiras décadas do século. 39). chegou a possuir 1. quatro e até duas braças e meia de testada. Contará também com uma classe de comerciantes franceses e ingleses vinculados ao comércio. [. que compreendia apenas 3% da população. por exemplo. muitos dos quais vaqueiros e artesãos.. Apesar de escravista. pescadores e coletores. p. No século XIX a cidade vive um processo mais intenso de crescimento econômico. 2002. 51). artesãos independentes. sobretudo em São Luís. mamelucos. cerca de 12% da população.. O grande comerciante José Gonçalves da Silva. 70). havia um certo número de homens livres pobres que eram índios e indolentes. cercado por outros de quinze braças. MANTOVANI. compreendendo 45% da população. cafuzos. oficiais militares. burocratas e profissionais liberais. o que demonstra inserção dessa mão de obra neste período” (BOTELHO. (MOTA. e inúmeros de cinco. mas será também composto por negros forros. que viviam em meio aos escravos. quando se reduziu. (MARQUES. aristocracia rural e comerciantes abastados. A classe dominante. soldados. doméstico. camponeses brancos. “O comércio de escravos era bastante dinâmico em São Luís e algumas cidades do interior. com reflexos em sua urbanização.64 Carmo e Largo dos Leões em agradáveis passeios públicos (1822). 1998. o estrato médio é formado por pequenos fazendeiros. Ainda na mesma época. 2007. Os lotes residenciais urbanos. A entrada de escravos no Maranhão manteve-se crescente até o início da década de 1820. 107) que. era formada pelos altos escalões administrativos. A regularidade dos lotes verificada antes – de 5 braças de frente por 15 de fundo – deu lugar a lotes urbanos de até cinquenta braças ou mais..500 escravos. disputando espaço comercial com os . p.. esclarece Botelho (2007. mulatos. p. o Maranhão passa a sofrer a influência inglesa no comércio. “O Barateiro”. A respeito de uma estratificação social de então. Por outro lado. Pode-se dizer que a escravidão e a economia agroexportadora compõem importantes fatores para a ascensão econômica do Maranhão no século XIX. se estabeleceram no Maranhão. caracterizando uma nova e complexa organização socioespacial. “a partir de 1808.] pelos favores recebidos por alguns e a ousadia de outros. têm suas dimensões fixadas [.] o bloco que comporá a base da pirâmide social será hegemonizada pelo escravo.

[. Em mais de duzentos anos de colonização a população e a estrutura urbana de São Luís mantiveram-se estabilizadas. alimentado por via subterrânea. em 1841. 2007.. 40) que. A partir do final da década de 1820 a crise na economia agroexportadora “trouxe consequências marcantes para o Maranhão.000 Estimativas aproximadas com base nos dados referidos nos textos e citados acima. de telefone. 71).000 1820 22. de limpeza urbana e água (com o abastecimento d‟água feito através de seis chafarizes públicos).] o viajante Daniel Kidder relatou que São Luís era a quarta cidade do Império e Capital da importante província do Maranhão. 73). não se configurando expressivas mudanças no território. Tabela 1 – Evolução Demográfica de São Luís (1612 – 1820) Período População de São Luís 1616 500 1720 1. Portugueses e brasileiros dominavam o comércio do arroz. p. A iluminação no centro da cidade era feita por aperfeiçoado sistema de gás. disputando o comércio de joias e bijuterias. 2007. p. contando naquela época com sofisticado sistema de transporte urbano: o BONDE. p. o perfil populacional da cidade pouco foi alterado. Os ingleses fundaram várias casas comerciais na região central de São Luís” (BOTELHO. 73). p. do cravo e outros setores do comércio” (BOTELHO. Sobre a infraestrutura urbana da cidade em meados do século XIX. Apenas . construída com base em dados esparsos apresentados nesta seção. Desde a fundação de São Luís em 1612 até aproximadamente o final do período colonial.. o lento crescimento do número de habitantes. Possuía também companhias de luz.400 1780 16. “Além dos comerciantes ingleses. expressas na instabilidade política que norteou a nossa história nesse período. Expressa a tabela a seguir. atingindo a década seguinte” (BOTELHO.65 portugueses. brasileiros e até franceses. assinala Marques (2002. 2007. franceses também se estabeleceram no Maranhão.

devido à imponência do seu parque têxtil. foi classificado [. no auge. p. no fim do século XIX. com a instalação de um parque têxtil de expressão. A fábrica de fiação e tecido Camboa situava-se às margens do rio Anil e originou o bairro da Camboa. a fábrica Santa Amélia. p. Ao final da República Velha. 141) que “São Luís era considerada a „Manchester Brasileira‟. foi uma das mais importantes fábricas têxteis da província. o alargamento do perímetro urbano. “o crescimento econômico da cidade de São Luís motivou a instalação de um importante parque industrial que. Para Feitosa e Trovão (2006. o Maranhão era um Estado de pouco peso econômico e político no contexto da nação. que levava ao interior da Ilha”. Nesse sentido. Ilustra Botelho (2007. 172) que “São Luís tinha uma grande fábrica na época. também localizada na Rua de São Pantaleão. 179) mostra dados importantes da época.] entre 1875 e 1893. naquela época.. p. 04 em Caxias e 01 em Codó. a indústria apresenta crescimento significativo no Maranhão. A maior parte de sua população vivia na zona rural. Informa Botelho (2007. [. 139) que. a companhia fabril foi definidora no tocante aos limites do Centro de São Luís. a Companhia de Laticínios Maranhenses. A Companhia de Fiação e Tecido Cânhamo. o número de habitantes em São Luís ainda girava em torno de 33 mil”. e ocupava-se com uma economia de subsistência. produzia fibra extraída da canabis sativa (cânhamo) para produzir tecidos. p. Colocava-se a capital entre as principais cidades brasileiras. [. .. Confirma Selbach (2009. p. informa Botelho (2007.. Lembra Márcia Marques (2002. 2007.] como o quarto mais importante do país”. indo deste à Ponta do Romeu e do Passeio.66 no último quarto do século XIX. compunham o parque fabril maranhense 15 fábricas. a indústria têxtil em São Luís empregava grande contingente da mão de obra local. situada a 10 km do centro. a definição de limites da cidade. 27) que “no final do século XIX. a companhia de fiação e tecelagem São Luís.. e o Caminho Grande ou Estrada Real. Mas. O historiador João Caldeira (apud BOTELHO. sendo 10 em São Luís. que chegou a empregar seiscentos operários”.] a indústria maranhense também entrou em decadência ainda nos primeiros anos do século XX”. “São Luís tinha como limites urbanos a Rua dos Remédios. p. a Companhia de Tecidos do Rio Anil. Nesse momento.. 189). a Madre Deus e a Camboa. localizada no final da Rua de São Pantaleão. 40) que. Contribuíram as fábricas para o surgimento de bairros como o Anil. p..

19) encontra-se um “acervo arquitetônico – cerca de 3. antiga Casa das Tulhas.. o Convento das Mercês. incluíam-se o arroz e o algodão com as seguintes médias de produção anual entre 1932 e 1935: arroz. esclarece Silva (apud SELBACH. 2009. p. p. nele existiam apenas 650 escolas de ensino primário.] Destacam-se: a Praça do Comércio. onde o conjunto arquitetônico e urbanístico. contrário ao progresso modernista que se desejava impor no país”. dentre outros” (BOTELHO. “o interventor federal Paulo Martins da Sousa Ramos. passaria a ser visto como prova de atraso. 265). Ao longo da década de 1930. o estado possuía um total de 1. 2007. instalado a sudoeste da ilha para abrigar os complexos industriais e portuários previstos para as décadas seguintes. contava com 70. “construídos de pedra pelos escravos. 32) que. 2009.167 habitantes. Esse patrimônio é formado por prédios e casario remanescentes dos séculos XVIII e XIX.500 sacas de 60 quilos e algodão 28. Mercado Coberto. Em 1933. que empregavam 3. 2006. procurou imprimir a nova visão para São Luís. 548. instaladas na região central e adjacências. lembra Silva (apud SELBACH.] em 1935. pois a cidade ainda não experimentara alargamento espacial significativo como o observado na segunda parte do século. TROVÃO. 19) diz que “a zona metropolitana de São Luís do Maranhão [. Na segunda metade do século XX. até então preservado.] sofreu o impacto da urbanização tardia. por exemplo.273 toneladas. Selbach (2009.5 mil construções . enquanto a atividade fabril contava com 44 fábricas entre as quais predominavam as do ramo têxtil e alimentos. p. 190)... Beco da Prensa. Com relação ao crescimento da cidade considerado a partir da década de 1950.. e ainda diante da população economicamente ativa da região majoritariamente ocupada nas atividades agrícolas e extrativistas vegetais – esse número de operários era pouco significativo. [. de pedras de cantaria e de fachadas neoclássicas..278 habitantes.. a quantidade de fábricas e operários permanece muito pouco alterada. p. p. de azulejos importados de Portugal.. O fato de ser entrecortado pelos rios Anil e Bacanga contribuiu para a manutenção das características e feições originais do núcleo urbano inicial”. até o início do século XX.67 [. 18 de ensino secundário e 6 de ensino superior. Beco Catarina Mina. o número de praças na cidade de São Luís não chegava a duas dezenas.. dentre os quais se destacam o da ALUMAR e o da Companhia Vale” (FEITOSA. o centro urbano mais populoso. enquanto sua capital.105 operários em 1920. mas acelerada.entre os principais produtos da economia do estado.168. Data da mesma época o planejamento “do Distrito Industrial de São Luís. Sobre esse tempo da história da cidade. em 1936. atualmente denominada Centro Histórico. Nessa área. Deve-se frisar que. é construído o Porto do Itaqui.

foram ocupadas as áreas do Cohama e Turu. aproximadamente 40.. Bequimão e Angelim. de baixa densidade populacional e expansão suburbana ou periférica. a zona urbana continuou expandindo no sentido leste-oeste. 19) resume as principais etapas desse processo. [. Selbach (2009.000 destes residiam em palafitas.. p.] tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1955”. Olho d‟Água e. Além disso. surgiram aglomerações periféricas. na parte interior. cerca de 16% daquele número estimado”.. Entre as décadas de 1960 e 1970 a cidade experimenta um processo de expansão da população e de sua malha urbana. Observa Botelho (2007..] com a construção das pontes Newton Belo. Hilton Rodrigues e Sarney Filho. A dinâmica de ocupação urbana de caráter espraiado. que representavam. p.] a construção da barragem do Bacanga e da primeira ponte sobre o Rio Anil [.. 192) que “em 1969.. passando de 70 mil para 265 mil habitantes.68 que ocupam área aproximada de 250 hectares – [. para as áreas como Camboa-Liberdade.. Fátima. nessa mesma ocasião do processo de crescimento urbano. que contribuiu para expulsar populações e acarretar o êxodo rural. José Sarney. o que permitiu o desenvolvimento da zona litorânea oeste-noroeste. Monte Castelo. de acordo com os dados do Censo Populacional 1970 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). onde foi construído o complexo portuário. o crescimento urbano desordenado e a favelização. 1970). Paralelo à zona litorânea. Araçagy.389 habitantes. Bandeira Tribuzi. . [.] a expansão fez-se quase exclusivamente no sentido leste-oeste... como Anjo da Guarda. diante de uma população estimada em 251. Afirmam Feitosa e Trovão (2006. 190) que esses problemas foram superados [..] para uma população urbana estimada em 205 mil habitantes (IBGE. p. foi potencializada com a construção da primeira ponte sobre o rio Anil. Calhau. Ponta da Areia. Renascença. Por muitas décadas a expansão urbana de São Luís foi limitada pelas dificuldades de transposição dos braços de mar do Anil e do Bacanga. em termos proporcionais. que facilitaram o acesso à zona norte do município. sentido sul do Centro. No lado oposto da barragem do Bacanga. Botelho (2007) destaca. para o Anil. onde se situam as praias. Coroadinho. A cidade triplicara de tamanho. [. nas áreas denominadas São Francisco. posteriormente.. Cohatrac. a intensa migração campo-cidade. João Paulo e Alemanha. Sá Viana e Vila Embratel. resultante da miséria na zona rural.] construção da barragem homônima [Bacanga] possibilitou o acesso à zona oeste.

Para comportar essa massa populacional. Tabela 2 – Evolução Demográfica de São Luís (1872 – 2010) População do Município Período 1872 1890 1900 1920 São Luís 31. Além do crescimento vegetativo. Ao apurar o processo de crescimento populacional e urbano da cidade de São Luís ao longo da história. A partir dos anos de 1970 não há como negar o ascendente crescimento da cidade. a cidade experimenta um aumento acelerado com o estabelecimento e a incorporação em seu território de novas populações de migrantes. a partir da década de 1970. com a inclusão média de 200 mil habitantes por década. p. Novos bairros são fundados e outra configuração urbana vai sendo delineada. especialmente nos anos 80-90. perfazendo no final do século 870 mil habitantes. configura-se um incremento urbano em novos patamares relativos e absolutos. Para Selbach (2009. A Tabela 2 enuncia as mudanças verificadas na composição populacional de São Luís ao longo dos últimos 140 anos. a cidade cresceu de forma espraiada.69 Não só a miséria no campo favoreceu a urbanização da população e crescimento urbano. que se intensifica nas décadas seguintes. Com os grandes projetos de desenvolvimento do tempo do “milagre econômico” brasileiro nas décadas de 1960 e 1970. expandindo-se para além do núcleo central. fato que provocou intensa aceleração dos processos de expansão urbana e de crescimento demográfico” (FEITOSA. verifica-se um decréscimo populacional em São Luís. é possível caracterizar uma fase inicial que dura até a segunda década do século XX. 2006. Pode-se dizer que. TROVÃO. Com o advento da República. 39).] a capital maranhense foi palco de um processo concentrado de migração.604 29. na qual persiste um inexpressivo desenvolvimento..798 52. além da direção leste-oeste. A partir da década de 1930.929 .308 36. [. para as margens opostas dos rios Anil e Bacanga. 190). com poucas modificações em seu núcleo central originário do período colonial. “a cidade de São Luís tornou-se área atrativa de grande contingente populacional. ocorre acentuada mudança na configuração urbana de São Luís.. p.

elaborado em 2009. entretanto.943 3. Para esse rápido crescimento urbano verificado entre as décadas de 1970 e 2000.651 460.011. 2007 no Anuário Estatístico do Brasil 1994.014.028 1. Existe ainda demanda por mais praças. Rio de Janeiro: IBGE. 1872-1930. conforme inferências a partir da leitura de mapas contidos no Plano da Paisagem Urbana do Município de São Luís.199 868.047 1. o que reflete em usos e apropriações sociais aquém das necessidades e possibilidades dos moradores vizinhos.54. São Luís atravessou um intenso e acelerado processo de crescimento nas últimas três décadas. 1994. dissociados do cotidiano urbano. com impactos significativos na sua estrutura.2000 Crescimento 2000 . De um total de duas dezenas de praças no início do século XX. Censo Demográfico 1940/2010.50 .433 870. muito contribuiu o movimento populacional migratório. tabela extraída de: IBGE. no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) estão previstas para São Luís pelo menos quatro novas praças para o período 2010/2012.70 1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000 2010 85.583 119. v. e IBGE. incluindo na contagem as existentes e os espaços destinados a construção de praças ainda não edificadas. Rio de Janeiro: Directoria Geral de Estatística. Esses espaços das praças estão.05 1. caracterizando um processo demográfico intraestadual. Conforme é possível apurar analisando as estatísticas do IBGE constantes da Tabela 3.785 159. Até 1991.320 695.628 270. no limiar do século XXI conta a área urbana de São Luís com aproximadamente 300 (trezentas) praças. Em trinta anos a população da cidade de São Luís mais que dobrou. que deixou de ser orientado para a região sudeste do País e passou a ser direcionado à capital do Estado. Estatísticas do Século XX.837 Fonte: Recenseamento do Brazil 1872-1920. São Luís. Tabela 3 – Evolução Demográfica de São Luís e Maranhão (1991 – 2010) População São Luís 1991 2000 2010 Crescimento 1991 . organizado pelo Instituto Municipal da Paisagem Urbana – IMPUR – (2003). e no mapeamento do Instituto da Cidade (INCID).2010 666.

.569. Um número maior de usuários tem pleiteado o acesso às praças. o século XXI se anuncia como um período de grandes incorporações imobiliárias e verticalização. Deve-se ressaltar que no curso da pesquisa é inaugurado o empreendimento econômico considerado de maior porte no Estado do Maranhão. Esses centros de compras 9 Fonte: <http://www. por conseguinte. São Luís é considerado um município com elevado índice de urbanização. Atualmente.275 5. demandando. A partir da década de 1990 vão sendo erguidos esses locais de concentração de comerciantes e oferta de diversão e lazer. Com referência à composição e estrutura da cidade.683 1. Multiplicam-se também na cidade a construção de shopping centers.52 Fonte: IBGE Tabela 4 – População Residente em São Luís (2010)9 População Residente População Absoluta Percentual da População População Residente Total 1.837 100% População Urbana 958. e melhorias no sistema de mobilidade e transporte público urbano.gov. com adaptação de logradouros públicos. passa a existir pressão sobre os recursos espaciais. Acesso em: 17 outubro 2011. constata-se que é ampliada a pressão populacional por serviços. investimentos em infraestrutura urbana. de acordo com dados do IBGE.522 94.br>.930. somando quase 95% de residentes no perímetro urbano. Esse processo foi encetado na década de 1990.651. tornando-se mais expressivo ao final do decênio.71 Maranhão 4.475 6.ibge. associado ao crescimento espraiado dos bairros periféricos. entre estes as praças. como consequências dessas mudanças.014. Devido ao acentuado crescimento populacional.315 5.54 1. Parcelas do solo da cidade com destinação futura reservada à construção de praças e áreas de lazer devem constar nos programas públicos do orçamento para edificação nos próximos anos.5% População Rural 56.5% Fonte: IBGE A Tabela 4 demonstra a população residente urbana e rural em números absolutos e relativos.

O desafio presente parece ser preservar áreas e praças tradicionais. O espaço público já não parece exercer a mesma atração ao convívio como ocorria no passado. Em 1955.72 também têm suas praças [de alimentação]. é preciso lembrar o Centro Histórico. exercendo atração sobre a crescente população da ilha. esse conjunto já havia sido tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). ao pensar em oposições como mudanças e permanências. ao que ainda permanece. preservar um patrimônio cultural importante enquanto espaço social para as sociabilidades. . necessitando-se. Erguido por escravos com equipamentos e utensílios trazidos da Europa. as transformações aludidas têm envolvido nos anos recentes importantes mudanças na composição do espaço social urbano.2 Mudanças e permanências na composição urbana e os usos das praças: do tradicional ao supermoderno Ao tratar das mudanças e permanências na composição urbana da cidade. não restam dúvidas que aquela área com casario construído nos séculos XVIII e XIX merece destaque. sobretudo. em São Luís produz-se o novo. que disputam frequentadores. não se fazendo presente apenas no Centro – local onde está situada a Praça Gonçalves Dias. Mas. Assim. a Ciência e a Cultura (UNESCO) conferiu em 1997 à São Luís o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. com sua singularidade e dimensão territorial. apesar das grandes mudanças experimentadas pela cidade nos últimos cem anos. que ainda se mantém erguido. é associada à tradição. agregando outras novas como resposta às demandas por espaços públicos conservados. com a preservação desse sítio. no entanto. Por suas peculiaridades distintivas. É em homenagem e reconhecimento a esse conjunto arquitetônico diferenciado que a Organização das Nações Unidades para a Educação. Esse acervo de valor histórico e cultural pode ser encontrado também em outros bairros da cidade. ao longo do século XX. herança do tempo colonial. adequados aos usos sociais que seus frequentadores citadinos julgam merecer. Deve-se também pensar no processo de expansão experimentado por São Luís. o tradicional e o supermoderno. a área que hoje compreende o Projeto Reviver. Atualmente. São Luís experimentou forte crescimento nos últimos cinquenta anos. 3. dotados de equipamentos modernos. mas os espaços de lazer e convivência ficaram restritos.

As praças com a configuração e o traçado tradicionais estão reunidas na zona central. se [.73 espera-se revitalizar o conjunto arquitetônico do Centro Histórico de São Luís. A cidade foi ao mesmo tempo o local e o meio. p. Tais grupos igualmente inovaram no modo de viver. portanto.. atribuindo-se ritmos. Assertivamente. O Projeto contempla aproximadamente 15 (quinze) quadras e cerca de 200 (duzentos) imóveis. Para Frúgoli Júnior (1995. os novos bairros construídos são desprovidos. expõe Lefebvre (2009. é modificada pelos processos históricos de mudança social. São Luís sofreu rápidas transformações em seu cenário urbano. XIX e início do XX. de criar e educar as crianças. não sem tirar dela suas motivações. As oportunidades de empregos percebidas fizeram aumentar o contingente de migrantes do interior do estado na direção da cidade. 57) que.. “a industrialização pressupõe a ruptura desse sistema urbano preexistente. p. a cidade histórica. Como consequência desse processo econômico. Nesta região estão situadas as praças cujas origens datam dos séculos XVIII. de ter uma família. Um dos fatores que exerceu influência na composição moderna da cidade foi a instalação de indústrias. Para Lefebvre (2009. totalizando uma área com mais de cem mil metros quadrados. Conforme Lefebvre (2009. que se apropriaram deles. Apresenta um conjunto homogêneo. deixando aos poucos de ser a cidade colonial. políticos. . No Centro está localizada. de utilizar ou transmitir a riqueza. “para apresentar e expor a „problemática urbana‟. impõe-se um ponto de partida: o processo de industrialização. sociais. p. e isto inventando. ela implica a desestruturação das estruturas estabelecidas”.] processos globais (econômicos. em sua maioria. 11). de deixar um lugar mais ou menos grande às mulheres. eles o fizeram permitindo que grupos aí se introduzissem. A corrente migratória. Com a expansão acelerada da cidade na segunda metade do século XX. A cidade. Essas transformações da vida cotidiana modificaram a realidade urbana.. esculpindo o espaço. p.] A industrialização caracteriza a sociedade moderna”. usado socialmente por moradores e pessoas que circulam e trabalham naquela área. São Luís inicia uma mudança de feições.. sobretudo na segunda metade do século XX. como aos poucos desfigurou as centralidades tradicionais”. o teatro e a arena dessas interações complexas. 14). consequentemente. 13). culturais) modelaram o espaço urbano e modelaram a cidade. “o capitalismo não apenas atrelou a centralidade urbana ao consumo. que se encarregaram deles. [. desses espaços públicos organizados e destinados a locais de sociabilidades.

“a transformação da cidade desencadeia uma luta de representações entre o progresso e a tradição: uma cidade moderna é aquela que destrói para construir. Pressentem-se vivências inéditas. Em razão de suas peculiaridades. Conforme explica Frúgoli Júnior (1995. como objeto de reflexão. espaço de residência das famílias abastadas.. tem como principal polo de atração no Maranhão sua capital. configura-se para Frúgoli Júnior (1995.. 96).] na paisagem urbana das grandes cidades. 95). Pesavento (apud MACHADO. que passam a morar em outros bairros. cuja modernidade residiria em sua capacidade de produzir circulação motorizada”. novos ritmos. a modernidade enquanto experiência histórica. Considera Lefebvre (2009) que é nesse contexto que a cidade torna-se um problema. Os espaços públicos são alvo de intensas intervenções urbanas visando priorizar o fluxo. ao mesmo tempo em que crescem representações sobre a cidade moderna que ressaltam sua dimensão perigosa e ameaçadora. a cidade de São Luís contemporânea apresenta uma ativa articulação entre o tradicional e o moderno. 16). um cenário irreversível marcado pelas multidões em movimento pelas ruas. “o modernismo característico de boa parcela do século XX vai priorizar a segmentação. A região central representava a cidade até recentemente. faz da cidade mais que um lócus.74 direcionada aos centros regionais. mas passam a servir um público residente cada vez mais escasso. integrando os espaços através das rodovias. as praças têm conservada sua estrutura antiga colonial. A partir de então. como as praças. um período de esvaziamento. [. 2008. passaram por esses impactos: novos atores. Como decorrência. 2008. O centro tradicional começa a sofrer. Os espaços centrais da cidade. 15). arrasando para embelezar”. individual e coletiva. então. a partir do meio do século XX passa a sofrer um processo lento de abandono por esses grupos familiares. Segundo Pesavento (apud MACHADO. p. um verdadeiro personagem”. o País passa a experimentar a chamada modernização conservadora: ações e políticas governamentais com orientações modernizantes. . p. p. p. A urbanização acelerada trouxe grande contingente de camponeses estranhos àquele ambiente. especialização e funcionalidade do traçado urbano. Com a instalação do regime militar. explica que a modernidade urbana é “representação sensível da renovação capitalista do mundo. novas configurações espaciais.

alguns padrões de interação.. no mesmo espaço. . mas que aos poucos foram rivalizando com a região central.] A perda do sujeito na multidão – ou. 35). os conflitos decorrentes dessas ocupações diversificadas. Neste contexto. passam a coexistir “mundos diferentes que a cidade moderna estabelece.75 mas de cunho autoritário e excludente. reivindicado pela consciência individual” (AUGÉ. que começam a formar como que ilhas isoladas na cidade. Esses usos nem sempre se apresentam de forma harmoniosa e muitas vezes chegam a ser conflitivos. não oportunizando condições a outros de usarem proveitosamente o espaço.. Nesse ambiente de mudanças urbanas. apresentando uma diversidade de opções de comércio e serviços. maus-tratos a animais indesejados por alguns grupos. contribuíram eles para desarticular ainda mais o posicionamento outrora ocupado na cidade pelo núcleo original de procedência colonial. sem participação popular nas decisões dos agentes públicos. o poder absoluto. ao considerar que. 2010. Nesse sentido. os destinos desses espaços públicos em sua dimensão cotidiana. “da coexistência. Seus reflexos na estrutura de São Luís estão presentes nos novos conjuntos e bairros construídos. refletir sobre os grupos sociais que buscam se apropriar delas. vários grupos sociais imprimem determinados usos ao espaço público. ainda dependentes do Centro. [. p. em decorrência. como os constatados entre grupos que não observam limites simbólicos ou territoriais às suas práticas. Essa característica da vida cotidiana dos grandes centros urbanos decorre. uma vez que se cruzam visões e práticas diferenciadas”. ao contrário. Resulta dessas interações a percepção do espaço público contemporâneo como lugar perigoso e que passa a ser evitado como opção de frequência. Os que transitam por toda a praça. expressa por roubos. p. Conflitos podem ser notados nas praças. as praças públicas têm sido usadas e apropriadas socialmente pelos diversos indivíduos e grupos que as frequentam ou por elas transitam. 85). a partir dos quais se torna possível mapear as ruas. agressões. Em princípio. de uma multiplicidade de códigos e significados. manifestase Frúgoli Júnior (1995. 34). chaminés e campanários confundidos. definindo.] dentro desse cenário em permanente transformação. Padrão que se repete é representado pelas reclamações provocadas pela violência nas praças. p. acarretando muitas vezes relações conflitivas entre os grupos sociais. [.. podem incorrer em práticas dissociativas.. furtos. seja para a circulação ou a ocupação cotidiana. como diz Frúgoli Júnior (1995.

Porque também desse lado estamos em face do inconcluso. 2011. Mas. Segundo Augé (2010. Consoante a perspectiva desse autor. p. Giddens (1991. não devemos ler o pós-modernismo como uma corrente artística autônoma. As palavras de Martins cabem também a São Luís. 18). (MARTINS. a superabundância espacial e a individualização das referências”. é possível refletir sobre a existência de uma série de características que expressariam ainda o que se pode rotular de supermodernidade. É modernidade. do insuficiente. espetáculos grandiosos. 2007. 18) que “mais se fala da modernidade do que ela efetivamente é”. 100). mas sua constituição e difusão se enredam em referenciais do tradicionalismo sem se tornar conservadorismo. a pós-modernidade. 2007. p. o moderno situado.. o perfil de uma ordem pós-moderna seria caracterizado por transformações com a participação democrática de múltiplas camadas. filmes.76 Defende Martins que a modernidade no Brasil é anômala e inconclusa. 162) anota que “um sistema pós-moderno será institucionalmente complexo. de que tudo é moda e passageiro. p. Além do tradicional. do moderno. do pós-moderno. e podemos caracterizá-lo como representando um movimento para „além‟ da modernidade”. do postiço. como destaca este autor. Destaca Martins (2011. Continua ele afirmando que “a modernidade só o é quando pode ser ao mesmo tempo o moderno e a consciência crítica do moderno. desmilitarização e implantação de um sistema pós-escassez. 44). moda. humanização da tecnologia. afirma ele que “há inúmeros pontos de contato entre produtores de artefatos culturais e o público em geral: arquitetura. com hesitações e contradições. 65). 2011. 62). promoção de eventos multimídia. “façamos o que fizermos com o conceito.] a anomalia está no fato de que se trata de uma modernidade sem crítica – sem consciência da sua transitoriedade. campanhas políticas e a onipresente televisão” (HARVEY.. objeto de consciência e ponderação” (MARTINS. Sobre uma etapa adiante à modernidade. . p. Esclarece ele que [. seu enraizamento na vida cotidiana é uma de suas características mais patentemente claras” (HARVEY. “a supermodernidade procede simultaneamente das três figuras do excesso que são a superabundância factual. Segundo parece para Giddens (1991). propaganda. p. p. Harvey enfatiza a relação do que chama de movimento pós-moderno com a cultura da vida diária.

Esses espaços foram pensados em âmbitos sociotemporais diferenciados.77 [. A linguagem comprova essas impregnações múltiplas. a intenção foi apurar como as transformações das condições sócio-históricas afetaram os usos e apropriações sociais das praças. com o emprego de antonímias como as noções de tradicional. No mundo atual tornou-se fenômeno geral o que os etnólogos tradicionalmente chamavam de “contato cultural”. com a da Ressurreição e a do Conjunto dos Ipês. reconhecimento e proximidade estão presentes nas praças de bairros. profissão. usuários.. 101). moderno.] a supermodernidade não é o todo da contemporaneidade. 2010. O espaço da supermodernidade difere daquele que é próprio à modernidade.. p. Deve-se frisar que a praça representa um lugar. Pode-se entender que diferentes usos e apropriações sociais do espaço convivem na cidade contemporânea... pósmoderno e supermoderno. apresenta igualmente relações entre vizinhos.. as praças públicas de São Luís são também afetadas em suas destinações sociais pelo que seria a pós-modernidade ou a supermodernidade. Conforme Augé (2010. Ao cogitar as mudanças e permanências na composição urbana de São Luís. socializados e localizados (nome. “o espaço da supermodernidade é trabalhado por esta contradição: ele só trata com indivíduos (clientes.] O que o espectador da modernidade contempla é a imbricação do antigo e do novo. mas eles só são identificados. [. Relações mais intensas de vizinhança. local de nascimento. A supermodernidade faz do antigo (da história) um espetáculo específico – como de todos os exotismos e particularismos locais (AUGÉ..] a primeira dificuldade de uma etnologia do „aqui‟ é que ela sempre trata com o „distante‟. ouvintes). A Praça Gonçalves Dias. O recurso ao basic english das tecnologias da comunicação ou do marketing é revelador a este respeito: ele marca menos o triunfo de uma linguagem sobre as outras do que a invasão de todas as línguas por um vocabulário de recepção universal. endereço) na entrada ou na saída”. Práticas tradicionais coexistem com hábitos recentemente incorporados aos comportamentos dos citadinos. p. por exemplo. 101). mas menos pronunciadas que nas outras duas praças pesquisadas. não se enquadrando na categoria de não lugar aludida por Augé quando trata da supermodernidade. 100). p. [. para Augé (2010. passageiros. As práticas de . Ainda assim. sem que o estatuto desse „distante‟ possa ser constituído como objeto singular e distinto (exótico).

. Seja no Centro da cidade. incutindo novos hábitos aos citadinos. enquanto espaços de uso coletivo com suas praças de alimentação.78 indivíduos e grupos já não são mais similares àquelas de uma sociedade tradicional. Nas praças os impulsos modernizadores foram sentidos. igualmente. a inovação está presente e exerce poderosa influência sobre os padrões de interação social. O consumo direcionado ao intenso manuseio das tecnologias da informação e da comunicação foi constatado como dominando rotinas daqueles que frequentam os espaços públicos. como locais receptivos à copresença. nos bairros próximos ou afastados. nem essencialmente eles são os mesmos. marcados por novos usos e apropriações sociais das praças de São Luís. Deve-se. alcançando seus usuários. mencionar os shopping centers.

Carr (apud ALEX.] acesso físico refere-se à ausência de barreiras espaciais ou arquitetônicas (construções.. ou visibilidade. atraindo ou repelindo frequentadores.. enquanto ambientes onde são produzidas e reproduzidas determinadas práticas. são expressas por indivíduos e grupos. um requisito que precisa ser referido como básico para assegurar o uso e apropriação social de um espaço é a permissão de acesso a ele. (CARR apud ALEX. que sugerem quem é e quem não é bem-vindo ao lugar. que pode ser determinado pela presença de atores que podem ou não dificultar. individualmente considerados ou em grupos. 2008. do usuário com o lugar. nas praças. Esquematiza ele que [. aquilo . [. e são negociados cotidianamente os ingressos. conferem a esses locais a possibilidade de sua continuidade sócio-histórica. Essas circunstâncias expressam. sutis ou ostensivos. plantas. água. as permanências e mantidas as posições sociais.. p.. [. 25) em sua obra Public space elabora uma classificação de tipos de acesso ao espaço público como físico. cultivadas civilidades e estabelecidos laços na vida social.. define a qualidade do primeiro contato..) para entrar e sair de um lugar. 2008. com base nessa tipologia. buscam-se apurar determinadas condições que devem ser levadas em conta para estabelecer e manter situações sociais de interação. a aceitação e a rejeição da copresença no espaço das praças. mesmo a distância. muito menos apropriação. embaraçar. inibir e impedir o acesso. “aquilo que acontece na rua.1 Usos e apropriações sociais do espaço público: introdução As praças públicas são lugares destinados na cidade às interações e sociabilidades.] Acesso simbólico ou social refere-se à presença de sinais.79 4 USOS E APROPRIAÇÕES SOCIAIS DO ESPAÇO PÚBLICO NAS PRAÇAS DE SÃO LUÍS 4. visual e simbólico ou social. nos vazios. etc. Preliminarmente. Os usos e apropriações sociais desses espaços por citadinos. então. O estudo prestigia e está direcionado ao acesso no sentido simbólico ou social. Por conseguinte. Ao se analisar os usos e as apropriações sociais do espaço público nas praças de São Luís. p. Ao levar em conta este aspecto. sem o qual não admite uso. de modo ostensivo ou velado.] Acesso visual. 25).

70). demarcação e delimitação social enquanto terreno de alguns grupos de frequentadores e usuários. Mais do que espaço apenas. na vida cotidiana. p. A permissão para o trânsito. as quais podem ser aproveitadas como arenas ou palcos para as mais variadas atividades diárias.80 que aí se diz” (LEFEBVRE. Interessa aqui apreender os fatores sociais que interferem com as possibilidades de acesso. as relações sociais entre os citadinos transcorrem em certo espaço. os usos e apropriações sociais do espaço público sofrem condicionantes de diversos fatores.. com as forças vitais residentes nos indivíduos e na comunidade. 1979. As ações sociais dos atores ocorrem. com cenário e território delimitado. afirma Park (1979. Pontua ele que [. assim. (PARK. mas também a “língua da cidade: as particularidades próprias a tal cidade [ou praça] e que são expressas nas conversas. que pode ser concebido tal como um palco ou arena onde ocorrem os engajamentos e interações. organização formal. 70). O social é também espacializado. 27).. 29) que [.] a cidade está enraizada nos hábitos e costumes das pessoas que a habitam. A noção de territorialidade está associada a um espaço físico determinado. reservado à copresença de alguns atores que nele têm acesso para ingressos e saídas. nas palavras e nos empregos das palavras pelos habitantes”. 2009. mero artefato. p. ou parece ser. em um território. A consequência é que a cidade possui uma organização moral bem como uma organização física e estas duas interagem mutuamente de modos característicos para se moldarem e modificarem uma a outra. ele é qualificado pela divisão. Assim. Como as interações. se interligam através do uso e costume. Mas essas coisas em si mesmas são utilidades. Assim. e enquanto. que podem ser de ordem natural ou social. dispositivos adventícios que somente se tornam parte da cidade viva quando. e assim por diante – é. Neste sentido. trilhos de rua. a chegada e a permanência é garantida com o emprego de estratégias que visem demonstrar o quanto algum pretendente à admissão nesse espaço é bem-vindo ou é considerado indesejado e percebido como intruso. observando o que diz Lefebvre (2009. . p.. edifícios. uso e apropriação do espaço das praças. nos gestos. o senso de territorialidade deve ser apurado. como uma ferramenta na mão do homem.. ações e relações sociais entre indivíduos e grupos ocorrem em determinados espaços.] muito do que normalmente consideramos como a cidade – seu estatuto. Park considera que os usos fazem a cidade viva. p. nas roupas.

enquanto grupos. que ratificam afetos e identidades individuais. na qual prevalecem relações sociais informais.. 27) que “existem forças atuando dentro dos limites da comunidade urbana – na verdade. Por conseguinte.] auxiliou a desenvolver um sentido de lugar. O sentimento de pertencer a um grupo envolve a frequência a alguns espaços. dentro dos limites de qualquer área de habitação humana – forças que tendem a ocasionar um agrupamento típico e ordenado de sua população e instituições”.. Respeitar e acatar as determinações simbólicas desses limites representa sustentar as condições de copresença nesses espaços. p. é sempre um desafio avaliar a extensão antropológica do mesmo. pode-se conceber o espaço das praças como vários territórios definidos idealmente (vendedores ambulantes. Essas relações ocorrem fisicamente em um determinado ambiente. Para fazer referência a essa dimensão das relações sociais. flanelinhas – por exemplo) e sobrepostos uns aos outros. os agentes sociais selecionam determinadas frações do território em que tendem a se fixar. Por conseguinte. Essa territorialidade contribui para a definição de fronteiras. mesmo que não demarcadas com claros limites dotados de marcos físicos.81 Não apenas individualmente considerados na qualidade de atores. mas delimitadas por fronteiras simbólicas. 2007.. Essa perspectiva essencialmente espacial de Park [. sobretudo. Magnani (2003) sugere o uso do conceito “pedaço”. mas. No pedaço é desenvolvida uma sociabilidade básica e estável. que conferem a ele a qualidade de ponto de encontro obrigatório. mas com uma margem de ambiguidade. Dentro desses limites apropriados decidem usos particulares. p. Mostra Park (1979. no qual são estabelecidos limites de copresença. A construção social da rede de relações sociais é marcada pela conservação e . próprios às suas condições objetivas. 22). disputados eventualmente por diversos atores sociais. o pedaço representa o espaço no qual está inserida determinada rede de relações sociais. pois se a cidade constitui um fenômeno territorial. devido à significativa mobilidade espacial dos atores sociais (FRÚGOLI JR. Os conflitos se intensificam quando esses perímetros não estão claramente demarcados ou são extrapolados. personalíssimas e sociais. No espaço físico encontra-se uma determinada rede de relações sociais que atrai para o local determinados indivíduos com atributos semelhantes ou compartilhados. Pode-se verificar nas idas às praças. a formação desses contornos territoriais.

como é o caso do abrigo no ponto final do ponto de ônibus. com amplos degraus. As redes combinam laços de parentesco. bem como deixar entrever ou exibir um automóvel ou motocicleta em que se deslocaram até a Praça. O centro da Praça. são recursos importantes que lançam mão os atores para obter prestígio em suas interações: ter o necessário para pagar seu lanche e o de algum convidado. o que implica o cumprimento de determinadas regras de lealdade. vizinhança e procedência. que permitem a seus integrantes reconhecerem-se em qualquer circunstância. De maneira um pouco diversa. Na calçada ao largo da rua ficam as lanchonetes. baseadas em atitudes como cumplicidade e conivência respeitosa. apenas em ocasiões extraordinárias como grandes eventos – festejos religiosos ou parques de diversão instalados por temporada. Existem pontos de encontro ou pedaços onde determinados ajuntamentos se congregam e permanecem interagindo.82 sustentação das situações de interação. sobretudo quando suspendem momentaneamente suas atividades desportivas. como o piso é o mesmo em toda a Praça. Existe o pedaço para o qual convergem certas ações. nas esquinas. não se podendo identificar um espaçamento socioterritorial específico. dos que estão conversando ou lanchando com os que transitam pela via pública. Os estudantes da área da saúde da Universidade Federal do Maranhão preferem ficar em frente ao prédio. praticamente não costuma ser usado. na Praça da Ressurreição os territórios apropriados mais intensamente pelos atores sociais estão nas bordas e franjas. Na Praça Gonçalves Dias indivíduos e grupos estão de forma mais distribuída pelo território. o qual expressa as utilidades e funcionalidades buscadas naquele contexto socioespacial. além da convergência de interesses. Os skatistas preferem a parte central. Quem aguarda a missa na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios senta-se em bancos nas imediações. mas. que muitas vezes aguardam para se sentarem às mesas ou serem convidados a participar das conversas. exercitam sua prática e estão em todos os espaços. Existe uma articulação. mas todos os cantos são usados pelos atores sociais. Na Praça do Conjunto dos Ipês os territórios e usuários estão mais dispersos. Nessas situações sociais. que se evidencia em expectativas. pois a proximidade possibilita acessos mais rápidos de retorno às dependências do edifício. que é . para onde se deslocam vendedores ambulantes desejosos de vender pipoca ou sorvete. A ação de escolha dos pedaços em todas as praças parece estar ligada ao ator social que se apropria e ao tipo de uso. onde se reúnem os jovens e demais frequentadores.

Os partícipes. instala-se vendedor ambulante para a oferta de pequenos lanches e doces. Singularidade e coletividade integram-se. Mesmo as relações sociais incidindo em um território no qual existe a proximidade física dos atores atuantes. 26). Por ser local de concentração de pessoas. tem escritório nela instalado. Indivíduos e grupos concorrem para a construção e atribuição de significados ao território. o distanciamento simbólico pode permanecer. Nisto consiste a eficácia das ações coletivas. por conseguinte. entidade comunitária que zela pela Praça. Ali seria o pedaço institucional da Associação de Moradores. pretende-se empreender uma “interpretação mais clara e mais realista da estrutura das conexões humanas. ocorrem reuniões e são cumpridas algumas obrigações dos associados. p. com o exercício das intervenções sociais. produzem socialmente os espaços nos quais podem suceder os usos e apropriações. Nesse processo os atores reconhecem-se ou mantêm um maior distanciamento. Nas praças predominam ações sociais com orientações em redes que permitem compartilhar o espaço. 2008. como recursos de pressão que resultam na imposição de certos usos e apropriações dos espaços. os quais ao posicionarem seus carros de maneira desordenada. Ao redor do supermercado localizado na Praça estão as vagas de estacionamento destinadas aos fregueses do estabelecimento comercial. Se este for mantido. onde funciona a administração. ao interagirem individual ou coletivamente. territórios. permitindo verificar quem são os indivíduos bem-vindos ou indesejados. Quando se busca compreender aspectos individuais e coletivos que influenciam a produção social de espaços. suas particularidades. O espaço é produzido e reproduzido cotidianamente pelas ações reiteradas nas diversas manifestações dos atores atuantes nos engajamentos. Limites socioespaciais. Ser aceito como partícipe de um grupo requer uma série de atributos simbólicos. que conferem condições para o estabelecimento e a continuidade de engajamentos. As praças apresentam. pedaços e redes de relações sociais são noções que permitem refletir as diferenciadas configurações socioespaciais. A Associação de Moradores do Conjunto dos Ipês (ASCOPE).83 apropriado por usuários do transporte coletivo e rodoviários. pois facilitam a percepção das fronteiras sociosimbólicas em razão do número de participantes. a partir do qual se pretende zelar pela Praça e pelo Conjunto. as oposições conflituosas . por vezes obstruem o fluxo de pessoas e automóveis no local. particularmente dos padrões sociais de conflito que nelas se fundamentam” (ELIAS.

como linguajar partilhado. p. Sejam integrantes de grupos de jovens ou expressando-se na categoria de skatistas.84 latentes tendem a se manifestar. “característica de seu envolvimento cognitivo e narcisista. a não ter nenhum mérito. Nesse momento. por vezes ocorrem conflitos decorrentes desse distanciamento social. Outra situação é percebida na Praça da Ressurreição. desde uma demonstração de ansiedade em comportamentos intranquilos com gesticulações excessivas. sendo completamente maus” (ELIAS. 20). em suas atitudes e em seus sentimentos recíprocos”. apenas notadas em uma observação mais atenta. Para Elias (1998. enquanto rivais ou inimigos tendem. 17). 1998. indivíduos e grupos declaram reconheceremse como rivais ou inimigos. Muitos se exercitam no skate. apresentam sentimentos mais intensos de solidariedade entre si. A autorrepresentação de pessoas e coletividades. relacionando-se a partir de então de acordo com esta orientação. p. a presença de estranhos recém chegados. até embates que causam uma desordem pública. segundo sua ótica. Os antagonismos verificados estão relacionados a divergentes perspectivas do que é justo e legítimo nas condutas individuais e coletivas de acordo com os valores e sentimentos dos grupos. Sobre esses estereótipos. opiniões comuns sobre os outros e pontos de vista semelhantes que possibilitam a integração entre os membros dos ajuntamentos. que vão desde bem receber com curiosidade até eventualmente caçoar dos que são considerados distantes ou diferentes. alguns agrupamentos expressam forte sentimento de nós e de pertencimento. Os grupos tendem a não aceitar facilmente a presença de outros que concorrem para os usos dos espaços sociais das praças. Entre estes está o grupo voltado a prática de atividades esportivas e de lazer. é com frequência uniformemente boa. As disputas podem ser graduadas. Tanto jovens quanto indivíduos mais velhos reconhecem facilmente. reagindo com atitudes de indiferença a episódios extragrupais. . com manifestações que vão. mas não há um grupo apenas e cada um deles tem suas barreiras de acesso. Os anseios de identidade e participação são reforçados pela reprodução de códigos de identificação. as ameaças de conflitos “tem raízes nas relações dos grupos de pessoas. em decorrência do propósito utilitarista de usar e apropriar-se do espaço da Praça Gonçalves Dias. o que pode despertar reações díspares. Apesar de diversificados em suas procedências socioespaciais. em razão de relações de vizinhança.

Não existindo a boa recepção do forasteiro. com as mais diversas justificativas carregadas de percepções estereotipadas. Os usos e apropriações sociais do espaço público das praças comportam assim uma análise quanto ao fato de seus usuários. reproduzindo os modos do ajuntamento. Pode-se pensar que. poderia confirmar o fato de não estar habilitado a se engajar em algumas interações sociais.85 Na Praça do Conjunto dos Ipês em que também predominam relações sociais entre conhecidos que se reconhecem como vizinhos. Certamente. os estranhos advindos podem ser observados. a aproximação pode gerar dúvidas. então. Em caso de aceitação do recém chegado. Aquele que se aproxima pode não ter sua condição de indivíduo destacada. mas são consentidos e aceitos. Trajes diferentes dos padrões determinados para aqueles espaços sociais frustrariam expectativas quanto ao que se quer ver e mostrar. Com as noções de locais ou estranhos é possível perceber como os frequentadores identificam. As atividades comerciais desenvolvidas no entorno da Praça necessitam de consumidores dos bens e serviços ali ofertados. Nas praças investigadas pode-se notar nos usos. suspeitas. empregar essas noções para compreender as relações sociais nas quais estão envolvidos aspectos como proximidade e distanciamento. Não observar esses modelos de vestir e portar-se. com as quais ele é tido como esquisito. insegurança e medo. frequentadores ou transeuntes serem percebidos como estranhos. mas ser visto como estranho com certas características. É possível. extravagante. vestimentas e adereços de indivíduos . Conhecimento e percepções recíprocas sobre quem é tido como desconhecido ou familiar. Pode-se caracterizar e delinear os diversos tipos sociais que usam alguns espaços da cidade. Circulam nas praças conhecidos e desconhecidos pela vizinhança. desconhecidos dos que estão presentes ali repetidamente. desejados ou indesejados. o que se achega é objeto circunstancial de curiosidade. generalizam-se peculiaridades negativas. lidam e tratam aqueles com quem não têm relações de familiaridade. Elementos de um grupo não aceitam os de outro porque “eles não gostam da gente” ou “nós não gostamos deles”. exótico. incertezas. inicia-se um processo de assimilação no qual o admitido procura ser acolhido. gerando desconfianças fundadas ou infundadas sobre quem se aproxima dos ajuntamentos. As relações sociais estabelecidas com estranhos e desconhecidos tendem a se desenvolver de maneiras diferenciadas em comparação com aquelas que são entabuladas por atores locais. ao identificar um indivíduo como estranho ou forasteiro.

seja produzida „em seguida‟ pelo receptor da primeira. muitas vezes ocasiona evitar contatos e interações. para interpretar as ações sociais devem ser considerados os contextos nos quais elas se desenvolvem e os referenciais a partir dos quais os atores aí presentes pautam suas condutas. tendo familiaridade entre si. linguagem verbal e corporal.] O posicionamento adjacente proporciona a contínua atualização das compreensões intersubjetivas” (HERITAGE. espanto e medo em decorrência da sensação de insegurança provocada pelo não reconhecimento do provável parceiro de interação. não familiar está ligada à diversidade de procedência dos frequentadores do espaço social das praças de uma cidade com grandes dimensões como São Luís. p. Por mais que se anuncie um tipo comum de traje da sociedade global. [. privando. No entanto. estudantes uniformizados. as especificidades são mantidas. Quando transcorrem os momentos de copresença. convenções normativas. Podem ser então percebidas as diferenças entre os grupos nos trajes. sendo o indivíduo ignorado pelos demais presentes. 372). O fato de indivíduos estarem situados em redes específicas de relações sociais com liames de parentesco ou de vizinhança. expectativas. em interações focadas ou desfocadas. os atores das expectativas de interações. perspectivas. assim. como diz Goffman (2010). par de adjacência 10 – são empregados e controlados. Em diversos momentos o estranhamento provoca sentimentos socialmente estruturados de ansiedade. familiar ou ser estranho. guardadores de veículos. 1999. é possível também pensar o local e o estranho segundo o pertencimento ao “pedaço”. permite ser reconhecido em qualquer ocasião... atitudes. como afirmado. deixado à parte dos processos de trocas sociais. em determinadas casos. as atitudes variam de acordo com o maior ou o menor envolvimento dos participantes. conhecido. identificando-se com facilidade skatistas. 10 “Esse conceito [par de adjacência ou par-adjacência] incorpora a observação de que certos tipos de atividades são convencionalmente organizados como pares tais que a produção de um primeiro membro do par tanto projeta quanto requer que uma segunda ação. Essas diferenças podem trazer insegurança e até medo ou receio no contexto das relações sociais nesse espaço público. O receio de arriscar-se em uma aproximação com indivíduo desconhecido. Para estabelecer interações e preservar situações sociais determinados recursos práticos – aparências. A discussão referente ao ser local.86 e grupos o pertencimento ou não aos ajuntamentos locais. policiais militares. expressões. Desse modo. complementar. segundo define Magnani (2003). desconhecido. .

no modo como caminha. Esses benefícios deitam suas raízes na tradição cultural do usuário. p. talvez os dias não sejam apenas da casa e da família. pela aplicação mais ou menos estrita dos códigos de cortesia (saudações. da casa e da família. 2009. as rotinas diárias mantêm o tempo “na sua duração . ou. têm concepção de tempo diferenciada e complementar. Roberto DaMatta (1997. mas socialmente programadas e inventadas pela própria sociedade”. Os ritmos cotidianos. mas ainda de outros espaços para além desses ambientes. mas. Os benefícios simbólicos que se espera obter pela maneira de „se portar‟ no espaço do bairro: o bom comportamento „compensa‟. Tentam sustentar um controle ao mesmo tempo de suas atitudes. pois. Assim sendo. são observados os ritmos e comportamentos. da interpretação. ao passo que os „dias comuns da semana‟ são vividos como tempos externos. cerimoniais e solenidades. “sábados e domingos são tempos muito mais internos. Assim. palavras „amistosas‟. Diariamente.87 No anseio de manter uma situação que favoreça a interação e o estabelecimento de relações sociais. mas o que traz de bom? A análise tem aqui enorme complexidade: não depende tanto da descrição. 2. 38). sugere DaMatta (1997. 1.36). como as praças. Os comportamentos. A vida citadina pode ser pensada como organizada conforme dois registros. pedidos de „notícias‟). considera-se determinado conjunto de componentes sociais que reunidos concorrem para os usos e apropriações das praças. de maneira mais geral. cujo sistema se torna visível no espaço social da rua e que se traduz pelo vestuário.37) explica que “o contraste mais abrangente talvez seja o que pode ser estabelecido entre as rotinas diárias e as situações extraordinárias. não se acham jamais totalmente presentes à sua consciência. aparências. sobretudo. Nesse contexto de copresença. através do modo como „consome‟ o espaço público. Ao pensar nos fins de semana. com seus significados locais percebidos. os indivíduos procuram certas maneiras para instituírem contatos e permitir a comunicação. interpretados e sustentados no cotidiano da cidade. fragmentada. No que se refere à análise temporal. o modo como se evita ou ao contrário se valoriza este ou aquele espaço público. são produzidas ações de usos e apropriações do espaço social das praças. marcados pelo trabalho”. p. anômalas ou fora do comum. Pode-se também elucidá-los através do discurso de sentido pelo qual o usuário relata a quase totalidade de suas iniciativas. p. o ritmo do andar. Seriam elas representadas por aqueles momentos de festas. conforme os dias da semana. linguagens fonéticas e corporais. (MAYOL. Aparecem de maneira parcial.

outrora. o que é definido de modo convencional onde e quando existe a copresença. seja nas ocasiões extraordinárias ou nas ordinárias. mensalmente são organizadas festividades na Praça Maria Aragão. É preciso. . quando havia pronunciada adesão e participação de moradores. era possível organizar festejos no mês de junho aos santos reverenciados nesse período (Santo Antônio. Esse sentimento de coesão comunitária parece não mais ser tão forte. Mas. 41). Na Praça Gonçalves Dias muitas são também essas ocasiões sociais extraordinárias ao longo do ano. De fato. No calendário anual de eventos da Prefeitura. assim. No período que antecede a Páscoa a comunidade se organiza com a repartição de tarefas para a consecução de encenação pública que é feita na Praça. é necessário observar determinadas regras e procedimentos para manter a situação. Em razão de sua localização em região da cidade à qual afluem turistas e visitantes. ao passo que nas festas o tempo pode ser acelerado ou vivido como tal” (DAMATTA. é ela local privilegiado para concentrações populares e festas. nos ritmos cotidianos ordinários são empreendidas as interações. com a consideração das chamadas propriedade situacionais. conforme Goffman (2010). que contribuiu inclusive para renomear o espaço de “Praça Viva Anjo da Guarda” para “Praça da Ressurreição”. atrai para o bairro e o entorno da Praça um público que vai assistir a apresentação. resguardar as condições necessárias ao desempenho dos papéis dos atores sociais. p. um público muito mais amplo e de composição diversificada. nas décadas de 1980 e 1990. 1997. ações e relações diárias com semelhanças e diferenças de acordo com os horários diários ou os dias da semana. Ao mesmo tempo. Esses momentos extraordinários atraem para a Praça além de seus usuais frequentadores. anexa à Gonçalves Dias. Com um cenário grandioso e a participação de mais de uma centena de figurantes. São João e São Pedro). momentos de festas na praça parecem obter da comunidade uma adesão destacada. O que poderia ser entendido como algo mais fora de um mesmo ritmo seriam as reuniões ordinárias da Associação de Moradores. Na Praça da Ressurreição ocasião de destaque social é a celebração da Paixão de Cristo. Na Praça do Conjunto dos Ipês não são observadas essas situações extraordinárias que poderiam ser inventadas e desenvolvidas pela comunidade ou pela Associação de Moradores. Relataram os residentes em entrevistas no curso da pesquisa que.88 “normal”.

. no qual ocorrem as relações sociais e onde são estabelecidas as interações e os engajamentos. as interações são focadas. no sentido que Goffman a ela quis atribuir. e ocorrem quando indivíduos “estendem uma licença comunicativa espacial mutuamente e sustentam um tipo especial de atividade mútua que pode excluir outros participantes na situação” (GOFFMAN. 2010.89 As praças existem como lugares onde se manifestam engajamentos sociais nos quais são estabelecidas convivências cotidianas com parceiros vinculados pela proximidade. como “o espaço-tempo definido convencionalmente onde duas ou mais pessoa estão copresentes ou comunicam e controlam mutuamente suas aparências. Nesses momentos de reciprocidade. entre integrantes de díades. Estes dois tipos de propriedades situacionais (interações focadas e não focadas) devem ser considerados quando são analisados os usos sociais nas praças. Para ilustrar. 95). entre grupos com mais de dois componentes. podem ser mencionadas as situações de copresença no espaço público das praças ou nas ruas. conforme as outras obrigações que lhe caibam em outras cenas. portanto. com os sentimentos de pertencimento. As interações não focadas refletem o “que pode ser comunicado entre pessoas meramente através de sua presença conjunta na mesma situação social” (GOFFMAN. Como exemplos estão as situações de face a face ou as conversações. ambiente com os recursos disponíveis. Os engajamentos ou envolvimentos nas praças transcorrem em variadas situações sociais. 2000. duplas ou casais. p. p. Uma situação social pode ser entendida. 95). sua linguagem corporal e suas atividades” (JOSEPH. antes de tudo. 94). Podem ocorrer entre conhecidos e desconhecidos. é possível verificar as variedades de casos. 2000. Conforme os agrupamentos e as ações no ambiente público.] obrigação social que uma pessoa se impõe quando se envolve em um papel ou em uma ação conjunta e cuja intensidade varia da distração ao entusiasmo. p. A situação é. um contexto social. episódios e eventos situacionais em que as interações entre indivíduos e grupos podem ser focadas e não focadas. O engajamento é entendido por Goffman (apud JOSEPH.. 93) como [. p.. territorialidades e fronteiras de convivência. 2010.

usada segundo uma perspectiva pública ou privada. as apropriações formais. entre os objetivos da pesquisa está saber como se dão as práticas de usos e apropriações sociais desses espaços urbanos contemporâneos pelos diversos citadinos. Os agentes ou atores sociais podem ser localizados nas três praças examinadas e têm suas práticas sociais cotidianas assinaladas. As diferenças e divergências apuradas caracterizam o que se pode nomear como ritmos da vida urbana. Esse conjunto de ações investigativas representa a possibilidade de entender a dinâmica da interação presente nos comportamentos cotidianos citadinos. facultando os usos e apropriações sociais do espaço. Deve-se destacar a produção social do espaço a partir das interações nas quais estão envolvidas atuações individuais e coletivas.1 Introdução ao estudo de caso Com o propósito de analisar. desusos. A diversidade de atores é explicitada pela menção a moradores da vizinhança. vendedores . individuais.2. que. que também se constata nas praças. fiéis. contrausos. ações e relações sociais. jovens. skatistas. apontados atores e definidos papéis para compreender as situações sociais diárias. A copresença. Estes devem estabelecer regras que permitam manter a situação. de modo individual ou grupal. Devem ser.90 4. visitantes. Ao compartilhar ou se fazer presente em um lugar onde estejam outros. passantes. estudantes uniformizados. estudantes universitários. religiosos. o convívio e o diálogo. acessam esses lugares. então. estabelecendo interações. comum a todos ou de um modo particular. marca fronteiras socioespaciais de contato e convivência entre indivíduos e grupos. informais. com acesso a um número maior de frequentadores ou apenas franqueada a poucos. grupais objetiva. é possível verificar acordos tácitos ou expressos sobre o sentido do espaço das praças como utilidade a ser desfrutada. portanto.2 Usos e apropriações sociais do espaço público: o caso das praças de São Luís 4. contribuir para traçar um diagnóstico e um perfil da ordem da interação social no território da cidade. casais de namorados. Verificar os usos. De acordo também com o relatado acima. refletir e compreender os usos e apropriações sociais do espaço público em praças da cidade de São Luís foram selecionados três casos empíricos de acordo com procedimentos metodológicos que são em seguida detalhados. delimitados cenários espaço-temporais. idosos.

o que permite associar o estudo à ideia do estabelecimento de fronteiras ou de zonas fronteiriças entre eles. As afinidades. está a Praça Gonçalves Dias. Como frisado anteriormente. portanto. rodoviários. A Praça Gonçalves Dias pode ser chamada de praça histórica por sua fundação no século XVIII.91 ambulantes ou instalados. Conhecidos e desconhecidos. São elas espaços de convívio social no contexto urbano. Nem sempre. Indivíduos e grupos precisam estar próximos fisicamente nesses locais. situam-se as praças deste estudo em três regiões da cidade. É uma zona da cidade que tem sido objeto de intervenções urbanas desenvolvidas pelo Estado em atenção ao seu potencial de atração de turistas e negócios e importante referência sóciohistórica. entre outros que usam esses espaços urbanos da cidade de São Luís. usadas para encontros casuais ou atividades múltiplas” (ALEX. como a Rua Rio Branco e a Rua Barão de Itapary. 275). o prédio da Faculdade de Medicina também da Universidade Federal do Maranhão. têm setores administrativos funcionando nessa Praça. guardadores autônomos de veículos. com um casario erguido desde o tempo da Colônia até meados do século XX. descida para a Praça Maria Aragão. às diversões comunitárias e onde podem ocorrer conflitos e estabelecimento de territórios. No Centro. antipatias e idiossincrasias entre indivíduos devem ser anunciadas. como a Marinha e o Exército. o que é levado em conta no engajamento e na manutenção de interações breves ou prolongadas no âmbito das praças. o estranho causa medo ou insegurança aos que transitam pelas praças da cidade. As praças devem. que pertence à Universidade Federal do Maranhão. Em seu entorno estão ruas importantes para o fluxo de circulação para a saída do Centro. . policiais militares. Região na qual estão presentes indivíduos e grupos heterogêneos em sua composição e procedência social. As relações sociais em que estranhos ou desconhecidos estejam presentes são peculiares ao espaço público. as Forças Armadas. p. 2008. entretanto. ser concebidas como “espaços públicos articulados à rua e à arquitetura. vizinhos das redondezas. São esses espaços urbanos destinados aos encontros. Possui uma estrutura espacial característica das cidades ibéricas: lá está localizada a igreja (Nossa Senhora dos Remédios). dissimuladas ou veladas com o intuito de manter determinadas situações sociais e proporcionar um uso comum do espaço das praças. há repartições do Estado como o Palácio Cristo Rei. transeuntes expressam proximidade e distanciamento.

A Praça da Ressurreição está situada no bairro do Anjo da Guarda. Surgiu. sobretudo. quando é concluída a construção da barragem e da ponte sobre o rio Bacanga. a região passou a se distinguir como um subúrbio que atrai e retém moradores. e a proposta de intervenção urbanística está inserida em projeto de edificação de áreas de lazer para a população. Em razão da localização e do fácil acesso. vizinhos e comerciantes. casais. que facilitou o acesso terrestre. exigindo melhorias na infraestrutura urbana. conduzindo também ao Porto do Itaqui. frequentadores de eventos na praça contígua (Praça Maria Aragão) e passantes. Entre esses estão agrupamentos de jovens. guardadores de veículos (popularmente conhecidos como flanelinhas). em contexto sócio-histórico bem diferenciado da Praça Gonçalves Dias e da Praça do Conjunto dos Ipês no Recanto dos Vinhais. Existe uma organização da comunidade cujos membros se envolvem na . Seu povoamento se intensifica a partir da década de 1960. Os frequentadores são majoritariamente pessoas do bairro. Como sítio histórico. no Centro. os quais ocasionalmente pressionam as autoridades municipais com propostas de emancipação e autonomia. portanto. estudantes uniformizados. ali é encenado o espetáculo da Paixão de Cristo por ocasião da Semana Santa. religiosos. Frequentam. casais. vizinhos.92 Enquanto espaço público. vendedores ambulantes. seus fundos estariam para o conjunto do casario do bairro. Anualmente. área essa da praça por onde ocorre o maior fluxo de ingresso às suas dependências. quando a copresença é maior. servidores públicos que trabalham no entorno. datando a última reforma do final da década de 1990. turistas. Essa Praça faz divisa entre a Avenida Palestina e a Avenida dos Portugueses. a Praça Gonçalves Dias é um local de encontro para uma população que reside. é também visitada por turistas que caminham por esta zona da cidade. que conferem uso ao local com encontros e sociabilidades. encurtando o trajeto para essa área da ilha e tornando-a mais pegada ao Centro. sendo esta via importante artéria de comunicação com os bairros da região sudoeste da cidade. é usada e apropriada socialmente por uma gama variada de indivíduos e grupos. A Praça parece ser mais frequentada à noite. Sua configuração atual é recente. De arrabalde pouco habitado. localizado a sudoeste do Centro e habitado basicamente por uma população composta por pessoas da classe trabalhadora. usam e se apropriam desse espaço público skatistas. Caso se suponha ser a Avenida dos Portugueses a frente da praça. adultos.

Entre as peculiaridades da Praça estão as diferenças socioeconômicas. Para a vida comunitária. nas quais atores sociais copresentes exercitam práticas interativas de usos e apropriações. que abrigam um contingente populacional que cresce acima da média do País. hoje têm em seus terrenos condomínios de apartamentos ou de casas. clientes do supermercado. Ali está instalada uma parada final de linha regular de ônibus urbano. Relaciona-se à Associação de Moradores desde a fundação do Conjunto pela mineradora Vale. Foram realizadas entrevistas com os usuários. rodoviários empregados e passageiros da empresa de ônibus. quando a empresa era ainda a estatal Companhia Vale do Rio Doce. O Conjunto está situado no contexto de maior densidade demográfica. em uma parte da cidade que tem experimentado pronunciado crescimento urbano nas últimas quatro décadas. e tem uma população com perfil socioeconômico de renda média. ir ao supermercado ou percorrer um caminho de passagem. que residem nas imediações da Praça. contou-se com a observação direta no período que abrange os meses de abril a agosto de 2011 em horários diversificados. comparados entre 1991 e 2010 – Tabela 3. pois nos arredores existe outra comunidade. consoante dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As entrevistas foram do tipo estruturado. casais que namoram nos bancos ou em automóveis. Aqueles que moram fora do Conjunto vêm à Praça para servir-se da linha de ônibus. Imóveis antes ocupados por sitiantes. que ergueu este empreendimento imobiliário para residência de seus funcionários. A praça é contornada por vias de fluxo secundárias inseridas no bairro. para investigar o espaço público urbano das praças. Localiza-se a nordeste da zona central da cidade de São Luís. conferem a ela um uso aquém do que poderia indicar sua proximidade. Deve-se expor que. vizinhos e transeuntes na praça. O Conjunto dos Ipês no bairro do Recanto dos Vinhais localiza-se em região na qual crescem os empreendimentos de incorporação imobiliária. a Praça da Ressurreição simboliza um lugar que destaca a autoestima de seus moradores. que convive bem com o Conjunto. Usam e se apropriam cotidianamente do espaço da Praça vizinhos. frequentadores. A Praça do Conjunto dos Ipês no Recanto dos Vinhais data da década de 1980 e tem uma identidade eminentemente comunitária. mas que faz uso diferente do espaço social. Os moradores do Conjunto. propriamente dito.93 preparação e apresentação do evento. contendo uma relação . que confere atrativo para a fixação utilitária de pessoas que a buscam para fazer uso do serviço de transporte coletivo.

com um número maior de presentes. Realce-se também que o pesquisador foi objeto de curiosidade por parte dos usuários das praças.94 invariável e padronizada de perguntas em forma de questionário dirigidas aos entrevistados. Entre os procedimentos adotados para melhor identificar os ritmos e comportamentos. contando trazer melhorias ao espaço que costumam frequentar. Talvez se sentindo valorizados em participar e poder contribuir com suas experiências em um estudo da universidade. a fluência nos dias úteis da semana é diferente em relação àquela verificada nos fins de semana. a copresença é maior e encontra-se na praça um número maior de pessoas. Nestas ocasiões. Fonte: Google Mapas. foram delimitados horários nos quais ocorrem determinadas formas de apropriação dos espaços. . a proximidade física pode contribuir para gerar conflitos. Do mesmo modo. No mesmo espaço. É preciso registrar a disposição em prestar os depoimentos. Buscou-se também delimitar atores sociais que se apropriam do espaço. os entrevistados gostavam e queriam falar. O início da manhã ou o fim da tarde são momentos de maior frequência à praça. além de definir atores. Figura 1 – Mapa de São Luís com a localização das praças pesquisadas.

. Em razão da reforma da Igreja dos Remédios naquela mesma ocasião.2 A Praça Gonçalves Dias Localiza-se a Praça Gonçalves Dias na região outrora denominada Ponta do Romeu.2. A primeira denominação do lugar foi Largo dos Amores. inaugurado em 1860. É possível também notar o afastamento no contexto da cidade da região onde está situada a Praça da Ressurreição. Figura 2 – Mapa do Centro de São Luís com a localização da Praça Gonçalves Dias. 4. Observe-se que a Gonçalves Dias está posicionada nos espaços da cidade entre as outras duas praças. consequentemente. O local onde está a praça pertencia à Ordem de São Francisco. acima está o mapa de São Luís. o que permite o acesso.95 Com o objetivo de permitir indicar visual e espacialmente a localização das praças pesquisadas no território. Fonte: Google Mapas. a praça ficou conhecida também como Largo dos Remédios. a um maior número de pretendentes frequentadores.

Pensará talvez o meu amigo que tragam a mesma fatiota da manhã. Nesse dia todos luxavam.. de 15 de outubro de 1851. que João Lisboa já havia escrito um folhetim no Publicador Maranhense. Aluísio Azevedo começa descrevendo o Largo dos Remédios.. realizada na Praça Gonçalves Dias. 81) que .. ninguém lá ia.. como São Francisco à esquerda ou Camboa à direita no mapa (ver Figura 2). novas calças. . [..Naturalmente.] reúne-se a nata da nossa judiciosa sociedade!” (AZEVEDO. e do mais caro. Por esta rua o trânsito de veículos percorre o decesso ao Centro e trajeto de ingresso em outros bairros. que desce na direção da Praça Maria Aragão. por intermédio de Freitas – personagem do romance –. Prossegue Azevedo narrando como os frequentadores da festa preparavam-se para comparecer à igreja de Nossa Senhora dos Remédios e à Praça. Nesse mesmo romance – O mulato – é comentada com riqueza de detalhes a festa dos Remédios como ocorria no século XIX. 80).Pois engana-se! É tudo outra vez novo! São novos vestidos.. 80). confrontando-se com a Rua Rio Branco e a Rua Barão de Itapary. para onde se estendiam os festejos. 81). Descreveu [. “com a sua ermida toda branca. seus bancos em derredor.96 Por meio da Resolução nº. número 1173.. destacando os excessos na indumentária. 2010. novas. 2010.. Relatava Aluísio Azevedo em O mulato. Está situada na zona central da cidade. não se encontrava roupa velha. e do mais fino. 2010. p. foi documentada por vários escritores.. publicado originalmente em 1881. Assim. p. p. muito foguete..] era tudo em folha. acrescentou o narrador. (AZEVEDO. nem coração triste! . velho ou moço. muitos ariris. A festa de Nossa Senhora dos Remédios. de 03 de novembro de 1900. branco ou preto. em que contava detalhes sobre “a popular e pitoresca festa dos Remédios”. desde o capitalista até o ralé caixeiro de balcão. Continua Azevedo. muito toque de sino. O traje e o porte eram evidenciados por todos os que se fizessem convidados. p. A região onde fica a Praça Gonçalves Dias tem sido palco de eventos sociais e culturais marcantes para os moradores da cidade. (AZEVEDO.. muita bandeira. torna-se o largo a encher.Às quatro horas da tarde. .] o luxo exagerado em que se apresentavam todos para a missa das seis e para a missa das dez nas quais [. sem se haver preparado da cabeça aos pés. a Câmara Municipal de São Luís conferiu àquele espaço o nome oficial de Praça Gonçalves Dias.. 13. afirma Azevedo (2010.

a gente ri. claro como o dia! Mesmo mais tarde. Ah. aos dois e aos três em cada um. as suas ricas toalhas de rendas. tudo. ainda. com a imagem da santa e os emblemas do Comércio e da Navegação. nas barracas. namora. critica. que não arrote grandeza. o autor que a festa dos Remédios seguia noite adentro. Mas bem. nem há mulher senhora ou moça-dama. os ariris. Armam-se grandes e deslumbrantes arcos transparentes. meninos. ralha. p. elas riam. ou forras. bacuri. não contando uma infinidade de balõezinhos chineses. tudo a bico de gás. discute. com o povo envolvido. e as famílias. meu caro amigo! Então surge de todos os cantos da cidade uma aluvião interminável de famílias. que enchem o largo que nem um ovo! Pretos de ambos os sexos e de todas as idades. a titulo de passeio. navios de massa com mastreação de alfenim jurarás dourados. ou. persistia a festa. que brilham por entre as bandeiras. com estas cadeiras. frascos de compota de murici. nos tabuleiros de doce ou nas casas de sorte. 81). surgem com os seus ouros. o nome da santa. Que Nossa Senhora dos Remédios é padroeira do Comércio. Fazem-se grupos.. discutiam. moços. vasos caprichosos. em uma palavra fica tudo. suas chinelas de polimento.À noite. faz-se a iluminação: armas brasileiras.] nesse dia não há homem. in verbis Dão oito horas. suas belas saias de veludo. meu caro senhor! As pretas-minas cativas. (AZEVEDO. Veem-se enormes trouxas de doce seco... buriti. e. quando diz que.. ralhavam. Na apoteose aparece a imagem de Nossa Senhora dos Remédios. Relata Aluísio Azevedo os pormenores da festa até seu apogeu com foguetório. ilumina-se todo o largo. de velhos. zangavam-se. mulatinhas e negrinhas. Informa. p. Enumera ainda o autor os tipos de atitudes das pessoas. ao ar livre. acotovelamse entre o povo. trazendo equilibradas nas cabeças imensas pilhas de cadeiras. acodem. as suas ricas telhas de tartaruga. Nas palavras de Aluísio Azevedo (2010. 2010. nos grupos formados. por mais pichelingue. formam-se grandes rodas mesmo na praça. cores. pombos cheios de fitas. luzes e cheiros de charutos. namoravam. o diabo. que não gaste seu bocado nos leilões. que é o centro das . estrelas. o que expressava também que a excitação e a animação dos presentes permaneciam em suas atitudes.. perfumes e comidas.. e é este que lhe dá a festa. mas o ambiente da Praça era mantido claro como o dia. seus anéis em todos os dedos. pelo menos seu vestidinho novo de popelina.. zanga-se.82). cutias enfeitadas dentro da gaiola. os florões. . no qual se vive um ambiente pleno de sons. continuou o Freitas.. desde o moleque até o tio velho. ou ficam ai assentadas. as casas de música. corações unidos de cocada.97 [.

garapa. Figura 3 – Vista parcial da Praça Gonçalves Dias. terminada a qual. Todos se descobrem em atenção à santa. chupas de laranja. e abrem o chapéu-de-sol com medo das tabocas. levanta-se uma fumarada capaz de sufocar um fole. e. pastéis. tomam sucessivamente as irradiações do prisma. situar no tempo a relevância social da Praça Gonçalves Dias para os citadinos. doces.] balões de papel fino. deslumbrante de luzes. sorvetes. sentem-se arder charutos de canela. . 2010. giram aos pares os janotas.. narrando que se soltam [. Foguetes de lágrimas voam aos milhares pelo espaço.. Os momentos de maior fervor eram vivenciados além dos estritos limites da igreja de Nossa Senhora dos Remédios. está terminada a festa! (AZEVEDO. repleto e movimentado do então Largo dos Amores. gastam-se os últimos cartuchos. todos os grupos.98 atenções de devotos entusiasmados. todas as fisionomias. Há uma chuva de luzes multicores. o céu some-se. tudo se ilumina fantasticamente. com o exemplo. A alusão à obra de Aluísio Azevedo permite. cruzam-se moças aos pares. 82). aparece no castelo. cerveja. A esses instantes de exaltação ou de divinização Aluísio Azevedo faz menção. a imagem de Nossa Senhora dos Remédios. esvaziam-se de todo as algibeiras e. p. com grande júbilo geral arde o invariável fogo de artifício. Então rebentam todas as bandas de música a um só tempo. finalmente. Durante esta apoteose o povo se concentra numa contemplação mística. vinham desenrolar-se no recinto amplo. todas as casas. no meio do estralejar das bombas e do infrene entusiasmo da multidão. vendem-se roletos de cana.

Situado o contexto das interações. Fonte: Google Mapas. Considera-se o espaço dos ajuntamentos sociais na praça. Pesquisar os usos e as apropriações sociais no espaço público da Praça Gonçalves Dias é remeter às dinâmicas sociais básicas de convivência. nesse lugar onde se verificam os ritos sociais da interação. Após essas digressões com que se intentou ilustrar usos e apropriações sociais passados que se têm consagrado à Praça estudada.99 Foto do autor. considerando como permitem elas negociar formas de usos e apropriações do espaço na Praça. marcadas por chegadas. observando as ações dos atores sociais em atividades interacionais temporárias. as práticas sociais dos diferentes atores copresentes são analisadas. quando as pessoas entram em copresença ou na presença imediata umas das outras. Figura 4 – Fotografia de satélite da Praça Gonçalves Dias. permanências e partidas. Os diversos indivíduos envolvidos devem observar e revigorar cotidianamente as regras sociais que possibilitam pluralidades de ações mútuas no mesmo ambiente. são situados os termos do estudo ora empreendido. . Deve-se evidenciar a ordem comportamental encontrada na praça.

Muitos vizinhos vêm cedo com suas crianças e preferem trechos mais internos. as relações de vizinhança permanecem. narrado de maneira recorrente nas entrevistas que foram feitas. os residentes queixam-se da insegurança nos vários horários. estudam ou circulam pelo Centro da cidade. o que facilitou ou possibilitou a prática do skate ou patins no local. Existe uma diversidade de motivos para a interação na Praça. por vezes em pares de adjacência. em que estas podem brincar com mais segurança. e estendem sua prática por todo o espaço físico da Praça. que não são bem vistos pelos moradores da vizinhança. Como têm de conviver com indivíduos e grupos que não habitam próximo. Como informado acima. Reforçam suas redes sociais de vizinhança trocando lembranças e histórias. o que os faz não ficar muito tempo sentados. Neste horário estão os praticantes da caminhada que circulam a praça e dividem o espaço com idosos. que cumprimentam ou sentam-se ao lado. Eventualmente. Relatam diversos episódios com riqueza de detalhes associados à violência. As disputas por espaços de uso são negociadas com mais hesitações com os skatistas. Os skatistas compõem agrupamentos importantes numericamente.100 Mesmo localizada no Centro da cidade (ver Figura 4). as idades são variadas. mas que trabalham. mas as práticas sociais são diferenciadas. A Praça Gonçalves Dias ainda conserva certa vida comunitária. Entre os impulsos e finalidades para isso está desfrutar de um espaço agradável e do sol da manhã. preferiu-se dizer agrupamentos de skatistas. a qual reformada há nove anos. mas em razão de ocorrências centradas em um histórico de violências. Alguns também permanecem nos bancos. Reconhecem nos outros a condição de vizinhos. são relatados nas entrevistas conflitos que envolvem moradores ou frequentadores. como suas práticas e atitudes diferenciadas. não apenas em razão de o skate poder representar . Estabelecem acordos para ir à Praça em duplas ou em grupos para conversas. mas reclamam que a falta de encosto cansa as costas. pois não formam um grupo coeso apenas. pois há moradores residindo nas circunvizinhanças da Praça. teve seu piso remodelado e aplainado de forma regular. os quais a frequentam ocasional ou regularmente. Entre as atitudes próprias de vizinhos parece estar um sentimento de apego e desejo de conservação da Praça. Isso não está associado apenas à presença de desconhecidos. O esporte é o mesmo. Mães com filhos e indivíduos que trazem seus animais domésticos (cães).

Quando entrevistados em conjunto sobre seu estado civil referem-se àquela relação do momento. se é que se pode manter distância em um espaço sem paredes e muros. com ênfase no preto. mas por atitudes de alguns que são reputadas como socialmente reprováveis. As ações desses casais lembram vergonha e decoro de José de Souza Martins (1999). dependendo de expressões de afetos. do futuro. se casados ou não. Devem preservar certos limites de carícias no espaço público. Exercitam o skate e juntam-se para ouvir música. Muitos frequentadores evitam ficar perto quando percebem a presença dos roqueiros. em tom de brincadeira. que consideram como preconceituosos. Roqueiros estão ligados a outros agrupamentos que se associam aos skatistas. O motivo pode ser o uso de entorpecentes. há muitos adolescentes e adultos jovens praticando o esporte. Os agrupamentos nos quais os skatistas se reúnem estão concentrados no centro da Praça e podem ser classificados de acordo com as idades. Casais podem ser visto na Praça durante todo o dia e à noite. Os skatistas reclamam dos olhares de reprovação de outros usuários. O epíteto “largo dos amores” com que se nomeia também a Praça Gonçalves Dias continua atual. pode-se escutar durante a observação alguém perguntando: “estava preso?”. revivido diariamente. Nem todos os skatistas são roqueiros. Em seu vestuário prevalecem cores escuras. uma parcela menor.101 potencial risco de acidentes na Praça. o que explica o contexto da brincadeira. Além de algumas crianças. Situam-se o mais afastados que podem de outros frequentadores. . Há relatos de histórico de prisão por porte de droga. Casais de namorados estão presentes em todos os espaços da praça. Às redes de skatistas e roqueiros são atribuídas práticas sociais designadas como inconvenientes e indesejadas pelos usuários da Praça. da paixão. sem obstáculos físicos para impedir a visão. O agrupamento composto por indivíduos de mais idade se destaca pelas roupas também. entreolhando-se de soslaio. Reúnem-se na Praça para ouvir músicas tocadas por bandas de rock pesado – heavy metal ou black metal. Falam de sentimentos. Quando alguém entre os roqueiros não aparece por algum tempo. Alguns usam jaquetas que enaltecem a prática do skate. mas alguns roqueiros são skatistas. O volume do som incomoda os que estão nas proximidades. do amor. o hip hop. a maioria deles prefere rock e. Preferem essas díades sentar nos bancos e gramados.

Quanto mais adensado de . É uma praça linda. o que de melhor a Praça tem a oferecer àqueles que a frequentam e utilizam? . mesmo nos turnos de aula. Os estudantes universitários ficam em grande número em frente ao edifício da Universidade Federal do Maranhão em que funcionam turmas da área da saúde. mas há vendedores que moram em outras regiões da cidade. Aqueles que acessam o espaço para fins de comércio desejam pessoas na Praça para ampliar suas vendas. acompanhados. no entanto. (M. Em sua maioria. São facilmente identificados pelos uniformes. para o qual vêm já. penso. os estudantes podem ser subdivididos em estudantes uniformizados e estudantes universitários. As interações aí são momentâneas. ou faltaram às aulas para ficar em ociosidade. A presença desses é para fins de trocas habituais e profissionais voltadas para a venda de alimentos e outras mercadorias. sorveteiros. Podese presumir que..A paisagem é o melhor. Posicionam-se naquele pedaço da Praça aguardando a próxima aula ou algum colega que faz companhia na volta a casa. Vendedores ambulantes são igualmente verificados em pontos de vendas no entorno e áreas interiores da praça. 19 anos). converso.Em sua opinião. são homens que residem nas proximidades. bonita e agradável. em sua maioria.Um bom lugar para namorar. não gera constrangimentos para eles. Portam mochilas.O que você costuma fazer nos momentos em que está na praça? .O que você poderia dizer sobre esta praça? . Enquanto atores nesse espaço social. vendedores de doces e camelôs chineses.Namoro.102 Entre os casais entrevistados são comuns algumas respostas às perguntas formuladas pelo pesquisador. Entre os vendedores ambulantes estão pipoqueiros. Ficam sentados nos bancos. mas alguns vestem camisas de curso da Universidade. Destacam a beleza do local. o que. movimentada e melhor vista da cidade. que compartilham o espaço. brincam de correr. como no trecho: . A maioria não usa um uniforme padrão. conversar. . conversam em rodas. circunscritas a intervalos menores de tempo. Os estudantes uniformizados são encontrados na Praça em horários variados ao longo do dia. fornecedores de lanches (alguns se autodenominam de bike lunch ou “bike lanche”). . maços de papéis fotocopiados e livros. ou por algum motivo não houve aula na escola.

parando em lugares de concentração. Atitude que pode permitir identificar quem tem pretensão em ser pregador é verificar se ele porta um exemplar da Bíblia. pois conhecem e reconhecem quem é estranho na Praça. Em depoimentos nas entrevistas. que identificou. A esse uso comercial por parte de flanelinhas estão associadas. Recebem pagamento para vigiar ou “tomar de conta” (sic) dos carros dos “patrões” – como costumam nomear os motoristas. Por sua localização. pois passagens são estratégicas para oferta de bens e serviços. contratando o serviço e retendo parte do pagamento. os vendedores ambulantes se aproximam ou por ali transitam para realizar suas vendas. Esboçam satisfação ao dizer que estão incluídos em um projeto da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Maranhão em parceria com a Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social e o Ministério do Trabalho e Emprego. Parecem querer contribuir com a segurança. Usualmente são vistos dois guardadores. entregando a cada um deles certificado. crachá e fardamento.103 pessoas o espaço físico. o que pode ser interpretado como estratégia para ampliar os ganhos e garantir fidelidades. com autorização a guardar automóveis na região do Centro da cidade. existe um fluxo de pessoas que assistem à missa na igreja de Nossa Senhora dos Remédios situada na Praça. assim. Os ambulantes circulam a Praça. que negociam suas frações. Nessas ocasiões. Outros pregam aos que se encontram sentados nos bancos no espaço em frente à igreja. Durante a observação constatou-se indivíduo . como a frente da Igreja dos Remédios. em ocasiões extraordinárias podem ser observados até quatro. relações baseadas na amizade e na confiança com aqueles que estacionam seus veículos no entorno da Praça. demonstram como conhecem os frequentadores usuais e costumeiros do espaço. assim. A fiscalização municipal não permite a instalação de vendedores na Praça. os que a frequentam exercem atividade não autorizada. Os que se situam em ponto ou pedaço fixo preferem os degraus que dão acesso à praça de baixo (Maria Aragão). a Praça Gonçalves Dias é local em que muitos motoristas estacionam seus veículos. Desse modo. melhor. Entre eles há relações de parentesco. Religiosos ou fiéis regularmente se reúnem em frente à igreja para aguardar o início das missas. cadastrou e treinou os guardadores “legalizados”. que dividiram e lotearam o espaço ao redor da Praça. Alguns dentre eles lavam carros e outros agenciam as lavagens. Diariamente. são encontrados guardadores autônomos de veículos (flanelinhas). Determinados indivíduos conversam sobre assuntos religiosos.

que conferem a este espaço uma relevância administrativa. no qual outrora estivera instalada a Reitoria da Universidade Federal do Maranhão e sede atualmente de eventos culturais ligados à Universidade.104 com o Livro em mãos. não fechado. Os vizinhos mais antigos lamentam. Nas manhãs. Imbuído da convicção de quem adere à fé para servir ao Senhor. Esses servidores não permanecem na praça. com as facilidades de transporte e deslocamentos. como marchas e corridas em grupos pequenos. empostava a voz com segurança de modo entusiasmado para convencer. a presença de um templo ali também faz sugerir esta atitude. o orador falava aos presentes sobre as glórias de Deus. Esses usos têm diminuído. A presença militar não chega a inibir certas condutas tidas como desviantes ou inadequadas a um pacífico convívio social. Servidores públicos que trabalham no entorno também fazem uso de pedaços da Praça. Muitas vezes não se tem a reverência devida ao poder público e à coisa pública. mas marcado com o dedo indicador. o Exército faz uso da Praça para exercícios físicos. O piso mais liso e não rugoso facilitou o . usam o espaço para estacionar seus carros. pode-se articular uma ação individual ou coletiva sem a vigilância das forças de segurança. Estão situadas em suas laterais repartições públicas. pois. A interferência das instituições relacionadas com o poder público nas interações decorre de sua imediação ao entorno da Praça. Parece uma prática desconexa pregar a retidão em um ambiente voltado ao lazer. ainda que desconectada dos usos conferidos por certos agentes ao espaço frontal à igreja. o Comando substitui por vezes o espaço da praça pela praia para animar sua tropa. deixando sempre “algum” [dinheiro] para o guardador de veículos. Alguns moradores criticam o projeto de reforma. entretanto. Ressaltam-se os prédios das Forças Armadas (Marinha e Exército) e o Palácio Cristo Rei. haja vista a presença de uma igreja deste credo. quando se quer agir de modo desrespeitoso. que criaram uma feição nova do passado. Funciona também curso da área da saúde em edifício da Universidade Federal. A atual configuração tenta estimular a lembrança de outros tempos. Esse uso religioso na Praça Gonçalves Dias é exercitado principalmente por católicos. à diversão e ao extravasamento. Deve-se notar que as intervenções arquitetônicas e paisagísticas na Praça efetivadas na década passada tornaram-na mais acessível aos visitantes. essas alterações “modernizantes”. Mas. pois a pequena ponte com lago que existia no local foi retirada e a Praça perdeu certo encanto bucólico que possuía.

que fica ao lado. Na Figura 5 está assinalado o panorama de cenários nos quais ocorrem os usos e apropriações do espaço público na Praça Gonçalves Dias. a presença da PM está restrita à circulação em rondas motorizadas ou com presença ostensiva maior nos momentos extraordinários de festas na Praça Maria Aragão. Há alguns anos havia um trailer da Polícia Militar (PM) no local. Depois da admiração da beleza da região. Muitos evitam ir ali por receio a essas circunstâncias que ensejam perigo. Atualmente. Policiais militares também são vistos eventualmente na Praça. o medo da violência é o sentimento mais percebido quando se conversa com os usuários da Praça. descendo a Gonçalves Dias. . que são praticados sem limites em toda a área física da Gonçalves Dias. Figura 5 – Cenários dos usos e apropriações na Praça Gonçalves Dias. o qual foi deslocado para bairro vizinho.105 exercício de esportes sobre rodas.

106

Vêm também à praça muitos turistas para apreciar o casario centenário e a vista
privilegiada de parte da baía de São Marcos e da foz do Rio Anil. Os visitantes não residentes
percebem o espaço pela sua beleza paisagística e pelos equipamentos em ordem ou
danificados. Reclamam da falta de lugares adequados para refeições ou banheiros públicos.
Por sua atitude curiosa, seus gestos que buscam olhar contemplativa e fixamente o espaço
enquanto paisagem, suas roupas diferentes do que habitualmente se traja na cidade e na praça,
são identificados com facilidade como europeus ou latino-americanos.
Muitas pessoas vão à Praça enquanto passantes ou transeuntes, pois, como ela está
em uma área situada na região central da cidade, o acesso é facilitado. O bairro é servido pela
maioria das linhas de ônibus e transporte por vans. Aos moradores nas proximidades, são
somados visitantes vindos de outras localidades da cidade, que conferem à Praça um mosaico
de procedência de frequentadores, com destaque para usuários provenientes do Centro e do
bairro adjacente da Liberdade.
Nesse local no Centro da cidade – Praça Gonçalves Dias – encontram-se, portanto,
indivíduos e grupos conhecidos e desconhecidos. Com referência aos ritmos dos
comportamentos, nos denominados dias úteis da semana, a frequência mais verificada ocorre
pela manhã ou no final da tarde. Os usuários são em sua maioria estudantes. No horário
vespertino, podem ser vistas pessoas que se dirigem à igreja. Em ocasiões extraordinárias,
além das festas populares na praça vizinha (Maria Aragão), é possível testemunhar a partir do
espaço da Praça a chegada de noivos e seus convidados às cerimônias de casamento que são
realizadas na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios.
Nos fins de semana os usos sociais da Praça são marcados por um número maior e
mais diversificado de atores. O processo de interações é efetivado com a ocupação do
território da Praça por diferentes indivíduos e grupos. O agrupamento não afeito a limites
físicos é o de skatistas que, circulando, parecem ter mais meios de dialogar com os que se
fazem presentes. Isso nem sempre é necessariamente verdadeiro. Pode-se pensar que, por
andar de skate, alguém já esteja incluído em tal grupo. É até provável que seja bem-vindo, mas
não é essencialmente coparticipante. Existe um conjunto de predicados e reputações, ou ainda
um capital simbólico, para iniciar e conservar a interação nesses grupos. Apóiam-se
mutuamente, dissimulando por vezes algo que um de seus companheiros inadvertidamente

107

tenha feito. Adicionam à sua linguagem expressões compreensíveis somente em seu restrito
círculo de amizades.
Com referência ao modo como os frequentadores chegam à Praça, de acordo com
o que foi apurado nas entrevistas, equivale em números os que até ali caminham e os que vêm
de transportes, o que comprova a imediação de moradias. O principal critério de escolha é,
então, a proximidade, seguido da beleza e da limpeza da Praça.
A falta de segurança, entretanto, é fator de afastamento. As mães que trazem filhos
pequenos entendem que deveria existir um pedaço cercado e com sombra para deixar as
crianças brincarem em segurança. Não é comum um uso solitário, os indivíduos vêm
acompanhados à Praça e reúnem-se a outros ao chegar. Entre os múltiplos agrupamentos na
Praça, os usuários reconhecem mais facilmente os skatistas. Declaram ainda os frequentadores
que não permanecem nos mesmos lugares quando vêm à Praça; mudam conforme os dias e
horários. Essas variações permitem supor a composição de negociações entre os atores para a
apropriação de seus respectivos pedaços da Praça, já que, a cada nova vinda, são ordenados
outros arranjos socioespaciais.
Como dito acima, a marca da Praça Gonçalves Dias é sua beleza paisagística de
cartão-postal. No que se refere às interações que possibilitam os usos e as apropriações sociais,
existe uma grande variedade de atores que fazem desse espaço público citadino seu local de
permanência e sociabilidades. Os atores e práticas relatadas não se reproduzem da mesma
forma nas demais praças estudadas, há certas nuanças que carecem ser ainda analisadas a
seguir.
4.2.3 A Praça da Ressurreição
Diferentemente do Centro da cidade, onde está situada a Praça Gonçalves Dias, o
adensamento populacional que fez surgir o bairro do Anjo da Guarda, localizado a sudoeste da
região central, está relacionado às migrações populacionais direcionadas a partir do interior do
Estado à capital. O nome que é dado à região não é recente. No citado livro (O mulato), de
1881, Aluísio Azevedo – do mesmo modo que tratou outras partes da cidade de São Luís –
comentava a respeito do então arrabalde Anjo da Guarda, que, com sua vegetação,
proporcionava sombra e brisa que compelia ao descanso. Narra o autor que

108

[...] a viração do Bacanga refrescava o ar da varanda e dava ao ambiente um tom
morno e aprazível. Havia a quietação dos dias inúteis, uma vontade lassa de fechar os
olhos e esticar as pernas. Lá defronte, nas margens opostas do rio, a silenciosa
vegetação do Anjo da Guarda estava a provocar boas sestas sobre o capim, debaixo
das mangueiras; as árvores pareciam abrir de longe os braços, chamando a gente para
a calma tepidez das suas sombras. (AZEVEDO, 2010, p. 21).

A ocupação tomou maior impulso com a construção da ponte e da barragem sobre
o rio Bacanga no final da década de 1960 e início da seguinte. O Anjo da Guarda aos poucos
foi deixando de ser o retiro bucólico às margens do Bacanga, passando a receber um número
crescente de moradores. Mudanças importantes no território do bairro do Anjo da Guarda e
adjacências decorreram da instalação da Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, na década
de 1980.
Em 1998, como parte de um programa de edificação de espaços públicos
destinados ao lazer, o Governo do Estado do Maranhão concluiu a urbanização de uma área
destinada à construção de praça que denominou “Viva Anjo da Guarda”, à qual a população
renomeou de Praça da Ressurreição por ser ali celebrado, anualmente, o episódio da Paixão de
Cristo, conforme o calendário religioso cristão. Havia também a estátua do anjo da guarda em
outro espaço público, onde se situa a Praça do Anjo, que tem como limites a Avenida Odilo
Costa Filho e a Avenida Vaticano. Essa praça teve a escultura retirada, sofrendo também a
intervenção paisagística na mesma época em que se reurbanizou a Praça que passou a ser
nomeada oficialmente de “Viva Anjo da Guarda”.
A encenação do auto da paixão de Cristo na Via Sacra é evento que consta como
atração na programação cultural e turística da cidade. Nele estão envolvidos de forma direta
ou indireta aproximadamente 1.500 (mil e quinhentos) moradores das redondezas, que servem
de figurantes, coadjuvantes e atores principais. Nesse momento extraordinário de interações
predominam sentimentos de cooperação comunitária, com a distribuição de tarefas que devem
ser cumpridas para permitir a realização do espetáculo. No ano de 2011 fez 30 (trinta) anos
que a representação é apresentada nas ruas e praças do bairro. Um público estimado em mais
de duzentas mil pessoas assiste ao espetáculo, que envolve também a presença ostensiva de
policiais e bombeiros militares. Guardadores autônomos de veículos (flanelinhas) são
cadastrados para operar nos dias das exibições públicas. Em 2011, quando foi desenvolvida a

a Via Sacra do Anjo da Guarda teve o patrocínio da mineradora Vale. Nas ocasiões em que parques itinerantes são instalados na Praça. sua configuração reflete uma amplitude espacial. . esta é a que apresenta o maior espaço físico. Fonte: Google Mapas. A Praça da Ressurreição proporciona aos moradores do bairro um espaço público no qual são exercitadas as sociabilidades comunitárias. bem como o apoio da Prefeitura Municipal de São Luís e do Governo do Estado do Maranhão. o que pode facilitar a copresença e manter certo distanciamento corporal. Na extensa área central não existem árvores ou construções que originem sombras da luz do Sol. a Avenida Palestina. o que é entendido pelos frequentadores – conforme apurado nas entrevistas – como empecilho a um maior uso durante as horas do dia em que o calor é acentuado. sua largura é uma vantagem que permite a montagem de brinquedo popular. Está localizada entre duas avenidas: dentro do bairro. conhecido e apreciado como roda gigante. na parte externa. a Avenida dos Portugueses (consultar Figura 6). e. Entre as praças pesquisadas.109 pesquisa. Figura 6 – Mapa com a localização da Praça da Ressurreição.

casais.110 A pesquisa na Praça da Ressurreição contou com observação direta entre os meses de abril a agosto de 2011. quando a copresença é maior e mais pessoas se encontram na praça. estudantes uniformizados. adultos. servidores públicos que trabalham no entorno. policiais militares e comerciantes. jovens. Nesta Praça foram delimitados atores que se apropriam do espaço. caminhando ao redor da Praça. Figura 7 – Fotografia de satélite da Praça da Ressurreição. díades e grupos que se exercitam fisicamente. quando foram realizadas em diferentes horários entrevistas estruturadas com os usuários frequentes e ocasionais da praça. quando a frequência à praça é maior. Do mesmo modo. . prática que se repete com menos intensidade ao anoitecer. Nas manhãs os usos mais percebidos são próprios de indivíduos. a fluência de usuários verifica-se com mais intensidade nos fins de semana. os horários. Para identificar e analisar os ritmos e comportamentos. devem ser percebidos de forma diferenciada. nos quais ocorrem determinadas formas de apropriação dos espaços da Praça por indivíduos e grupos. que podem ser distribuídos em díades. grupos e ajuntamentos classificados como vizinhos.

Indivíduos e grupos procedem principalmente do bairro do Anjo da Guarda. As casas têm melhor acabamento e várias são edificadas contando com varandas e sacadas que dão vista para a Praça. Os fins de semana não apresentam muita variação em comparação com os demais dias. aproveitando a localização que pode atrair clientela. A vizinhança reconhece na Praça um lugar importante na região (Figura 7).111 Fonte: Google Mapas. Nos ritmos diários. No curso do ano é comum a instalação de eventos como festas. Depois da praia. . Os indivíduos muitas vezes são “chegados” e participam do que seria confidencial para um forasteiro. Nas interações e relações sociais existe uma maior expressão de afetos públicos que contribuem para conservar a ocasião. Gapara e Vila Fumacê. a praça é o principal lazer dos jovens. Alguns empreendedores. Vila Mauro Fecury II. Esse pedaço conta com lugares para comer e beber. encenações e parques de diversões itinerantes. Vila Nova. indiferença ou até uma relativa aversão. Essas lanchonetes favorecem os encontros e a conversação (vide Figura 8 abaixo). Morar no entorno da Praça da Ressurreição é sinal distintivo. a Ressurreição é bastante usada a partir do anoitecer. que se juntam nas imediações das barracas lanchonetes. A maioria reside no bairro [Anjo da Guarda] e chega à Praça andando. O local é frequentado principalmente por agrupamentos que reúnem jovens. provavelmente em razão de os usuários residirem nos arredores. instalaram empresas em pontos comerciais em frente à Praça. Entre os recursos de interação empregados para manter as situações sociais está uma linguagem que inclui expressões e atitudes próprias de grupos primários. Vila Gancharia. demonstradas de maneira discreta. mas são encontrados usuários de regiões adjacentes como Vila Isabel. As interações entre indivíduos que se conhecem com estranhos ou forasteiros são assinaladas por um sentimento aparente que pode ser graduado como curiosidade. As relações entre vizinhos são mais intensas que na Praça Gonçalves Dias. onde parece ser maior o consumo de bebidas. Em princípio. quando o movimento é grande.

Entre os jovens são encontrados principalmente estudantes. Assistir aos eventos é motivo de seleção identificado pelos usuários. no entanto. param para conversar. conforme a faixa etária. cerveja. churrasco. Existem aqueles que declaram ir para conhecer pessoas. o grupo social ou a classe econômica. Foto do autor. sorvete.112 Figura 8 – Vista parcial da Praça da Ressurreição. mas há os que exercem ofícios remunerados como armadores e soldadores. trabalhando no setor da construção civil em empreiteiras. que. lanchar com os amigos tomando guaraná. Lanchar nas barracas é também opção bastante acionada. Como principais usos conferidos à Praça pelos jovens estão: ficar sentado observando e olhando as pessoas e o movimento. pois percebem a Praça como lugar de paquera e namoro. namorar e conversar com os amigos. comendo cachorro quente. Outros têm ocupação em confecções e comércio de roupas. chopp. ao transitarem por ela. reconhecendo alguém. Há relatos nos quais se diz que . Alguns a consideram como parte de seu trajeto e. o gênero. reclamam das poucas alternativas de lazer existentes no bairro. Quando indagados dos motivos para frequentar a Praça as respostas são variadas.

Esses pares de adjacência apresentam uma complexidade maior. acompanhados. Muitas vezes casais vêm à Praça com outros indivíduos ou lá se encontram. outros os retiram para ficar mais à vontade. que não mais tiveram oportunidades em prosseguir. O conceito de pedaço parece ser mais aplicável. os jovens representam os atores que mais andam e caminham no perímetro da Praça. Os casais de namorados são em menor número em comparação aos observados na Praça Gonçalves Dias. Investigar os usos e apropriações dos espaços da Praça pelos jovens possibilita que se pense igualmente em ajuntamentos de adultos. quando vão à Praça. em sua maioria. Muitos não usam uniformes. com poucas variações. mas foram deixando de comparecer por outros compromissos ou pela perda de amizades cultuadas com a conversa. para onde vêm. Casais são vistos à noite na Praça. Realçam a amplitude do lugar. Estes. no qual estão situadas muitas escolas. como no trecho: . mas na companhia de outras pessoas. às interações nesta localidade. Mas é à noite que a presença de estudantes é maior. em regra. No cotidiano. Preferem os pedaços onde estão outros indivíduos. nos mesmos trechos da área. Entre os jovens entrevistados na Praça da Ressurreição os usos e apropriações do espaço social são exercitados. filhos e netos aos momentos extraordinários nos quais transcorrem os eventos realizados sazonalmente. participando como arranjadores dos preparativos ou público para assistir com suas famílias. Têm de peculiar o fato de poderem ficar no carro ou perto dele. pois a proximidade da residência tende a facilitar a intromissão e gerar comentários de vizinhos. enquanto modelo teórico explicativo. por se tratar de curso noturno. Em outras ocasiões comparecem também acompanhados de familiares. O decoro nas interações entre casais pode parecer mais intenso nas atitudes de afeto. A possibilidade de vigilância é marcada como desagradável pelos jovens casais.113 usavam mais os espaços da Praça. No final da tarde os momentos de permanência aumentam. Durante o dia podem ser vistos estudantes que transitam e pouco permanecem na Praça. parecem estar direcionados a eventos que serão lá organizados. o qual tende a ser usado por seus possuidores como recurso para a atração de potenciais consortes. Estudantes uniformizados são vistos na Praça ou em deslocamento pelo bairro. não se importando em serem vistos e notados apesar do uso de uniforme.

Durante a semana.Conhecer pessoas legais e bancos para repousar. . festas juninas. Atraem grande quantidade de indivíduos que afluem às suas dependências. o ambiente livre. Uma destas é nomeada “Encontro Social”. Assim. As atividades econômicas de comércio de alimentos estão bem presentes na Praça: em quiosques.O que você costuma fazer nos momentos em que está na Praça? . . que visa disciplinar os usos do recinto da Praça e proximidades. como a moral e os bons costumes.Acompanhado. em razão de não serem ocupados nesses horários. .Em sua opinião. Os serviços desenvolvidos nesses dois prédios contribuem para as movimentações na Praça nos dias úteis da semana. Nestas relações econômicas há um sentido interativo de amizade.Conhecer pessoas. as interações entre frequentadores e o poder público podem ser expressas pelas repartições nos extremos da Praça ou pela presença da Polícia Militar em algumas ocasiões. nos chamados dias úteis. um bom momento de lazer. sobretudo em momentos extraordinários de festas.Conversar e lanchar com amigos. paquerar.. com quem? . que movimenta o comércio e o transporte de passageiros.Qual foi o critério de escolha utilizado para frequentar esta praça? . lanchar.Quais os horários do dia que você frequenta a Praça? . conversar.Sim. não havendo então movimentação de pessoas. . recebem e atendem uma clientela maior.114 . bom espaço e o lanche. (V. o que de melhor a Praça tem a oferecer àqueles que a frequentam e utilizam? .Você vem sozinho ou acompanhado (a)? Se acompanhado (a). é um bom lugar para descansar e conversar. coibindo comportamentos que excedam os admitidos pela lei e convenções sociais. não apenas entre frequentadores. shows. Durante a noite e fins de semana esses edifícios são ensejos para afastar frequentadores da Praça. . Determinados usos resultam das atividades de servidores públicos que trabalham nas repartições localizadas em pontos opostos ao redor da Praça.À noite. mas também entre estes e os donos das lanchonetes. Comerciantes estabelecidos têm pontos de venda de lanches e bebidas instalados na Praça. 21 anos). . como na encenação da Paixão de Cristo. Nesses episódios é grande a presença do contingente da Polícia Militar. com os amigos. como a biblioteca Farol da Educação Antônio Neves e o Centro de Saúde Clodomir Pinheiro Costa. trailers e barracas ofertam e vendem diariamente ao público.Quando vem à Praça você se estabelece sempre no mesmo local ou parte da Praça? . compondo um fluxo permanente nas imediações.

Figura 9 – Cenários dos usos e apropriações na Praça da Ressurreição. ainda assim.115 principalmente composta por jovens. mas que poderia melhorar e se tornar mais agradável. A escuridão em alguns trechos e a falta de . Mas. o qual é valorizado pelos usuários entre as preferências de lazer. que se reúnem em pedaços mais próximos à Avenida Palestina. pois a delinquência os preocupa. com mais iluminação à noite e melhor segurança. a Praça é avaliada pelos frequentadores como apresentando condições satisfatórias de limpeza. entretanto. como algo negativo trazido pelo comércio de alimentos. Os usuários percebem a Praça como um espaço asseado e com boa estrutura física. O lixo gerado por essas ações é percebido. no limite da Praça voltado para o interior do bairro.

Por vezes. são os investimentos em expressões culturais da região feitos por grandes grupos econômicos situados nesta zona da cidade. percebendo a copresença de estudantes. em sua maioria. A descrição e a análise da Praça da Ressurreição devem considerar aspectos pautados pelas vivências comunitárias. A Praça é usada para facilitar reuniões entre membros dos ajuntamentos. Deve ser avaliada como positiva a intervenção realizada pelo poder público no que se refere à construção da Praça. Mas a Praça é apreciada como um lugar divertido e bom para passear. conversar e conhecer pessoas legais são usos igualmente apontados pelos usuários. Os ritos sociais de interação nesta localidade são compostos fundamentalmente por relações entre próximos. onde as pessoas vão para conversar. De fato. A maioria dos frequentadores não vem sozinha. preferem estar sempre no mesmo pedaço da Praça. entre as praças estudadas é a de maior extensão física. Modelo de apropriação que difere do que predomina na Praça Gonçalves Dias. cuja apropriação tem permitido manter e ampliar a atração de frequentadores.116 policiamento regular são fatores que repelem usuários. conforme os cenários traçados na Figura 9. É possível aventar a suposição de que. Quando indagados nas entrevistas. mas acompanhada de amigos. netos e familiares. os indivíduos têm seu pedaço reservado no espaço social da comunidade. namorados. divertimento e brincadeiras. Mudanças no posicionamento poderiam implicar em disputas por territórios e espaços sociais de influência. que patrocinam e apoiam eventos que são apresentados na Praça da Ressurreição. podem ocorrer conflitos que acarretam brigas. permanência e partida da Praça evidenciam os usos e apropriações da Praça como espaço de sociabilidades e manifestações culturais comunitárias. filhos. lazer. jovens. Descansar e repousar nos bancos. cônjuges. Outro padrão é que indivíduos e grupos. os usuários identificam indivíduos e grupos que frequentam a Praça. Um diferencial a ser destacado. por se tratar de uma Praça de bairro. e parentes com famílias. as festas juninas e as programações de eventos. As lanchonetes e bares montados na Praça são sempre citados como espaços disponíveis aos usos coletivos. As relações e representações de indivíduos e grupos a respeito . Outros usos visados são o futebol jogado na quadra esportiva. afastando potenciais usuários. Quando indivíduos e grupos são indagados sobre o que de melhor a praça tem a oferecer àqueles que a frequentam e utilizam entre as respostas está a sua imensidão espacial. As atividades interacionais que transcorrem nos ajuntamentos nas ocasiões de chegada.

pois na designação dos logradouros do bairro as vias são identificadas por números e quadras. apesar das recorrentes reclamações quanto à insegurança no bairro. onde são situadas negociações que permitem os usos e apropriações do espaço e a producente construção de uma identidade local de seus moradores. As dimensões espaciais da Praça são bem menores quando comparadas às outras analisadas. . foi urbanizada a área ao lado da antiga cooperativa dos funcionários da Vale e em frente à sede da Associação de Moradores do Conjunto dos Ipês (ASCOPE). Toda a infraestrutura urbana inicial foi instalada pela mineradora. Em forma de um triângulo (Figura 11). 4. que marcam o cotidiano do Anjo da Guarda e arredores. As reivindicações por segurança são semelhantes para os que usam o espaço para finalidades comerciais. A percepção desse espaço pelos moradores ou por aqueles que os acessam por motivos comerciais são francamente favoráveis às benfeitorias na região. As casas que compõem o Conjunto foram erguidas pela Companhia Vale do Rio Doce. que se localiza a nordeste do Centro da cidade (Figura 10). É possível apurar que a Praça é valorizada pelos usuários moradores. em 1979.2. É a praça de bairro na qual são vivenciadas importantes atuações dos atores sociais. atual Vale.4 A Praça do Conjunto dos Ipês A Praça do Conjunto dos Ipês está situada no bairro do Recanto dos Vinhais. O que se destaca na Praça da Ressurreição é sua adequação como local de interações comunitárias.117 da Praça são bastante aprovativas. Cinco e Seis. seus limites são as ruas Dois. com o propósito de dotar seus trabalhadores de residências. Figura 10 – Mapa com a localização da Praça do Conjunto dos Ipês. Na mesma época.

comerciantes e rodoviários de uma empresa de ônibus que tem ponto final na Praça. Entrevistas do tipo estruturado. com rol invariável e padronizado de perguntas. frequentadores. grupos juvenis. em horários diferentes. vizinhos e transeuntes. entre eles estão incluídos vizinhos.118 Fonte: Google Mapas. Apuraram-se categorias de atores sociais que se apropriam do espaço. casais. . foram aplicadas aos usuários. Na Praça do Conjunto dos Ipês a pesquisa foi realizada também com observação direta entre os meses de abril a agosto de 2011. associados da ASCOPE.

A fluência nos dias úteis da semana é diferente do que ocorre nos fins de semana. além disso. e outras residências edificadas em lotes de ocupação fundiária não regularizada na área de baixo confinante ao Conjunto.119 Figura 11 – Fotografia de satélite da Praça do Conjunto dos Ipês. Logo. apropriações e interações sociais no espaço da Praça do Conjunto dos Ipês são distinguidos por sua característica comunitária. além dos moradores. Definiramse. horários nos quais determinadas apropriações dos espaços ocorrem. afluem trabalhadores domésticos e empregados nas empresas ali instaladas. Os usos. . nas quais residem famílias de renda média. Do ponto de vista socioeconômico. Fonte: Google Mapas. foram identificados indivíduos e grupos frequentes ocasional e habitualmente na Praça. o fim da tarde e o início da noite são momentos de usos mais intensos da Praça. O início da manhã. Desse modo. com o propósito de analisar os ritmos e comportamentos. Ao bairro. Entre segundafeira e sexta-feira a copresença é maior. com um padrão de ritmo em seu uso e apropriação social diferente das duas outras praças pesquisadas. o Conjunto é composto por uma vizinhança com casas erguidas ao final da década de 1970.

que reside nas cercanias do Conjunto. mesmo em dias com intenso movimento (Figura 12). Destacam a percepção comunitária. a qual realiza intervenções que o poder público municipal ou estadual deveria fazer. ventilada. pois as demandas de conservação são maiores do que os recursos. No que se refere às relações de vizinhança. destacam entre as motivações para frequentar a Praça a proximidade de suas casas. que se foi deteriorando com o tempo sem a manutenção devida e removido há uma década. que alguns. pouco variando as áreas usadas. as duas comunidades existentes convivem bem. os vizinhos que a Praça é boa. Suas interações sociais devem suceder em outros cenários. a Associação faz as vezes de poder público. Os moradores do Conjunto. serviços e medidas que a Associação de Moradores pode prover. Percebem os moradores a necessidade de melhoramentos. mas dão usos à Praça nem sempre semelhantes. O fornecimento de água é por conta da Associação que cobra pelo serviço. recalcitram em pagar. desempenhado seu papel em substituição. Reconhecem. poder lanchar no quiosque instalado. comparece à área.120 as condições socioculturais apresentam-se diferenciadas. Os moradores residentes no entorno da Praça do Conjunto dos Ipês usam e apropriam-se do espaço social também nos mesmos trechos. agradável. que têm a Praça como sua. mas reclamam do pouco envolvimento dos habitantes do Conjunto nos problemas da comunidade. A Praça é mais usada por indivíduos e grupos que procedem de bairros como Recanto dos Vinhais. aconchegante. Nas origens do Conjunto havia um parquinho equipado com brinquedos para crianças. A outra parcela. Os moradores do Conjunto conferem a ela usos comunitários e associativos. com atores diversos dos que se situam nesse contexto público. no entanto. sobretudo. dos locais de espera de transporte. como no trecho de entrevista a seguir: . Os vizinhos. Indivíduos e grupos marcam também suas relações no espaço da Praça sob a presença constante da Associação de Moradores. tranquila. Em muitos aspectos. Outros atrativos são aproveitar a tranquilidade da região. quando provocados em entrevistas. usando-a como local de passagem. entretanto. Vinhais e Bequimão.Como você chega à Praça? . apropriando-se. apropriam-se pouco dela. o que tem gerado disputas entre vizinhos no ambiente da comunidade. ter momentos de lazer com filhos ou passear com o cachorro.

. caminhar.Conversar.121 . Precisa ser melhorada.. está mal tratada .Há quanto tempo você vem frequentando esta Praça? . quando é grande o fluxo ao mercado existente em frente à Praça. O dia mais movimentado da semana é o sábado pela manhã. fica próxima à minha casa.Diariamente. Os horários preferidos para usos da Praça são as manhãs e finais da tarde. . Figura 12 – Vista parcial da Praça do Conjunto dos Ipês. . À tarde os moradores usam para passear com seus cães. tendo a Praça como local de lazer e circulação.Qual foi o critério de escolha utilizado para frequentá-la? . 65 anos).Andando.É uma Praça boa. “para aproveitar o sol e a ventilação saudável”.Oito anos. lanchar.Quantas vezes na semana você vem à Praça? .O que você poderia dizer sobre esta Praça? .O que você costuma fazer nos momentos em que está na Praça? . . passear com o cão. Na manhã é comum caminhar pelo bairro. .Comunidade. Entre as principais práticas adotadas pelos vizinhos estão: conversar com os amigos e pessoas conhecidas. (B. Foto do autor.

com filhos. ler. Casais usam a Praça nos diversos horários da semana. Em sua maioria. Os casais veem a Praça como espaço adequado às interações entre namorados. à noite. finalidades utilitárias. O decoro nas interações entre casais não parece ser intenso como se poderia supor. com mais incidência à tarde e. Por vezes. Os que expressam afetos excessivos nos bancos não residem nas proximidades. os grupos de jovens chegam andando. familiares. A Praça está situada em local elevado na paisagem.122 observar o movimento. A maioria reside e frequenta a Praça há mais de dez anos. o que expressa certa permanência entre os comunitários. o que permite um arejamento com a brisa vinda do litoral e apreciada pelos moradores. restaurante e lanchonete. cinema. praça. além disso. Dizem que nos momentos de lazer preferem frequentar. cônjuges. netos. vizinhos e grupos de igreja que já estão aguardando. granjeando a atenção dos vizinhos para os arroubos nas carícias. Pode-se notar que a frequência à Praça não está entre as escolhas prioritárias. clube. vizinhos e animais de estimação. os usuários vêm acompanhados à Praça. em ordem de preferência: shopping center. os usuários moradores estabelecem-se no mesmo pedaço. As relações na Praça atendem. não existe nesta a presença física de igreja. motivo reconhecido como fator de atração pelos frequentadores. Como os demais usuários. Constataram-se interações sociais nas quais existe a presença de atores sociais que habitual e . esperar o ônibus. Grupos juvenis ocasionalmente apropriam-se de espaço para fins de exercício de sociabilidades como conversas nos bancos da Praça. sendo pequena a permanência de grupos juvenis nesse espaço. Alguns residentes deixaram de ir à Praça por determinado período. ficam nos bancos ou em automóveis estacionados ao largo da Praça. praia. na qual os mesmos lugares costumam ser apropriados de modo reiterado pelos grupos que se reconhecem e identificam-se nos espaços das praças. Entre os pretextos estão a falta de tempo e a insegurança durante a noite. namorados. Alguns casais chegam à Praça de carro e aí permanecem sem ser importunados. acompanhar filhos e netos menores. reúnem-se com grupos de conhecidos como familiares. Do mesmo modo que na Praça da Ressurreição. pois residem nos arredores. bar. sobretudo. são de outras localidades. Diferentemente das outras duas praças (Gonçalves Dias e Ressurreição). repetindo o padrão da praça de bairro. que podem sentar nos bancos e conversar em paz. quando vêm à Praça. amigos. contemplar o céu e o horizonte. igreja e sítio.

os usuários identificam grupos que habitualmente frequentam. Supõem os moradores que o estranho está aguardando o ônibus no ponto final ou indo ao mercado para fazer compras. Existe uma desatenção civil associada à presença de indivíduos desconhecidos na Praça. fácil estacionamento e consumidores com poder de compra. Eventualmente. Quando necessário. usam e apropriam-se de espaços da Praça (Figura 13). com passageiros e moradores que se encontram no abrigo de passageiros. servindo à clientela do bairro. roubos e furtos no bairro. Queixam-se da falta de sanitários. Uma empresa de transporte urbano de passageiros tem ponto final na Praça e os rodoviários compõem outro grupo que usa e se apropria de seus espaços. mas que tendem a despertar suspeitas de perigo iminente. que é resultado de episódios de invasão de residências. que os moradores fingem não ver nem encaram fixamente. Nas interações com indivíduos desconhecidos vigora certo grau de distanciamento social. O poder público não tem realizado intervenções na região. que liga o bairro ao terminal da Cohama. fundado ou sem causa. Indicam moradores e vizinhos. Um supermercado atrai para a área fregueses que a acessam com a finalidade de fazer compras.123 profissionalmente comercializam no entorno da Praça. De um modo geral. Quem exerce atividades comerciais percebe a Praça como lugar com boas perspectivas de usos comerciais por sua localização. Motoristas e cobradores ao chegarem à Praça fazem pausas em intervalos para retomar o percurso da linha de ônibus urbano. a vizinhança tem criticado a ausência de prestação de serviços ou de colaboração do poder público com a comunidade do Conjunto. Outrora existia uma cabine com pequeno escritório e banheiro para os rodoviários. não providenciando o poder público municipal os reparos devidos. que pertencia à ASCOPE e foi demolida para dar lugar a um jardim. cadeiras e televisão. Nesses momentos lancham. Quando indagados. quando chegam lá. estacionando seus automóveis nas dependências da Praça. Esses momentos são marcados pela sensação de insegurança. o que deixa os moradores intranquilos. O asfaltamento no entorno da Praça é antigo e começa a se desfazer. Indivíduos frequentam ocasionalmente esse espaço para adquirir produtos nos estabelecimentos de comércio varejista ou em lanchonete. ampliando a área verde da Praça. conversam entre si. contase com alguma ronda policial. . usam os rodoviários o lavabo do mercado próximo ou os do terminal da Cohama. Interações são também efetivadas na lanchonete/quiosque onde há mesas.

Dentre as praças investigadas é a que apresenta a maior população de cães que perambulam. Ainda do ponto de vista dos usuários. por se tratar de um lugar alto. tranquilidade e ventilação. Figura 13 – Cenários dos usos e apropriações na Praça do Conjunto dos Ipês. sujando e depreciando o espaço comunitário. tranquilidade. o que a Praça tem a oferecer de melhor são ventilação. familiares e membros da igreja do bairro. passageiros da linha de ônibus. Como pontos fortes para um melhor uso do espaço da Praça os usuários apontam o que reputam como a boa localização. casais.124 estudantes uniformizados. Como fatores para afastamento e desuso da Praça listam os frequentadores a falta de uma área ou parque para as crianças brincarem. a pouca presença de estabelecimentos comerciais e a quantidade excessiva de cachorros abandonados ou criados soltos por donos relapsos. a insegurança causada pelos assaltos. .

125

sossego, ponto de ônibus, lanchonete, sombra das árvores, ambiente agradável para encontrar
e conversar com os amigos.
Deve-se analisar de modo detido o fato de a Praça não ter um nome oficial nem
oficioso conferido pelos usuários. Indivíduos e grupos frequentadores não sabem responder
qual o nome desse logradouro público. Dizem que a Praça não tem nome, outros sugerem
"Praça do ponto final do ônibus", "Praça do Mercadinho", "Praça da ASCOPE" ou “Praça sem
nome”. A Praça é valorizada pelos usuários por sua ventilação, tranquilidade e localização
central no interior do bairro, apesar de não usada como poderia ser. O fato de não ter o espaço
um nome pode denotar a insuficiente apropriação, que se revela logo pela designação do lugar.
Um espaço sem nome tende a sugerir afastamento e pouca intimidade, proporcionada pelo
distanciamento afetivo. Deve-se realçar o que a Praça do Conjunto dos Ipês tem de peculiar,
que é a atuação da Associação de Moradores como importante agente participante das
interações sociais, contribuindo para os usos e apropriações sociais do espaço no ambiente
onde convive a comunidade.

126

5

CONCLUSÃO
Foram considerados no presente estudo os usos e as apropriações sociais de praças

situadas na cidade de São Luís–MA, decorrentes das interações sociais constituídas e mantidas
no espaço público contemporâneo. A finalidade essencial foi evidenciar a ordem
comportamental encontrada, quando indivíduos e grupos entram na presença imediata uns dos
outros no espaço dos ajuntamentos sociais nas praças. Os espaços públicos específicos
selecionados foram: Praça Gonçalves Dias, Praça da Ressurreição e Praça do Conjunto dos
Ipês.
Ao término do percurso, é preciso expressar as conclusões sobre o estudo, como
forma de analisar criticamente o que se observou e subsidiar futuras pesquisas. A investigação
dos diferentes usos e apropriações sociais das praças, sua relação com os padrões de
sociabilidade em atuação nos bairros permitiu constatar determinados comportamentos
cotidianos no espaço da cidade. O estabelecimento de regras de convívio e padrões de
civilidade puderam também ser examinados. Pôde-se investigar o que acontece nas praças, o
que aí se faz. As particularidades próprias aos espaços públicos, consubstanciadas em
conversas, palavras, gestos e vestimentas de indivíduos e grupos.
Inicialmente, foi examinado, em perspectiva histórica, como as transformações
urbanas e os movimentos populacionais de migração afetaram a composição socioespacial da
cidade com reflexos nas condições de uso e apropriação de suas praças. A estrutura de São
Luís e de seus prédios passaram do precário e artesanal às edificações aformoseadas com
pretensões em observar estilos europeus de construção. No que se refere ao espaço público,
não se deve entender que estivesse caracterizado em sua acepção hodierna no período colonial.
Havia a intimidade das famílias em suas casas, sobrados e engenhos. Mas a vida pública no
sentido moderno ainda não estava configurada. A modernidade se firma com a República,
ainda que de modo excludente, com reflexos nas praças que devem expressar o novo, com
desprezo ao que é centenário.
Na metrópole contemporânea a vida social transcorre em espaços sociais de uso
coletivo que não são precisamente públicos, como os shopping centers. São as praças, porém,
os locais por excelência em que o acesso é franqueado de maneira mais ampla. É possível,
então, perceber que as praças públicas passaram por um processo de transformação em suas

127

funções sociais. Os usos políticos dos primórdios, que expressavam o exercício de uma
cidadania voltada à discussão dos rumos da vida na pólis, já não se evidenciam com a mesma
intensidade. Os usos coletivos estão associados às interações e sociabilidades em que
prevalecem comportamentos diversificados, conforme os ritmos naturais e as diferenças entre
os atores que usam e se apropriam do espaço público.
Nesse contexto, a pesquisa cuidou das dinâmicas sociais básicas que se processam
no curso da copresença, quando os envolvidos na interação dispõem de recursos interrelacionados como a contextualidade das ações comuns, a observação das convenções
normativas e o uso da linguagem com os quais são interpretadas, organizadas e mantidas as
situações de ação. Com a contextualidade as ações comuns são interpretadas pelos agentes
sociais de acordo com a ordem que ocupam as expressões entre os sujeitos nas ocasiões de
troca. Os citadinos ao fazerem usos das praças procedem a vivências que permitem
caracterizar o comportamento como apropriado ou desviante. Existe, portanto, uma percepção
das responsabilidades entre os agentes nos contextos das ações. São estabelecidas, ainda que
tacitamente, expectativas e obrigações morais entre os atores nas situações sociais.
São as praças públicas concebidas como lugares típicos para o transcurso dos ritos
sociais da interação. Refletiu-se sobre os espaços públicos urbanos, os atores sociais
copresentes e suas práticas interacionais. Nessas interações estão envolvidos um período de
tempo, uma extensão limitada no espaço, e os eventos são restritos àqueles que devem ser
completados depois de iniciados. Visou-se, portanto, compreender o espaço público
considerando suas destinações e a concorrência relativa às suas apropriações sociais,
articuladas pelos moradores da vizinhança, pelos que ali permanecem algumas horas dos dias,
pelos que circundam aquele espaço ou pelos que por lá transitam.
Foram apontadas diferenças entre as praças, em relação aos seus usos e
apropriações sociais. Esses ritmos e comportamentos tendem a variar conforme os padrões
locais de sociabilidade, a existência de uma memória que estabeleça ligações afetivas com o
bairro onde se situa a praça, a vivência de uma vida comunitária na qual sejam verificadas
associações de moradores e outras entidades congêneres, ou o perfil sociocultural dos
moradores. Pode-se dizer que a praça se completa ou se perfaz pelo uso, realizado a partir das
diversas formas de apropriação pelos citadinos. Pois, de maneira contrária, o desuso traz a

foi edificado para servir de palco à vida comunitária. visitantes. religiosos. o número de homens nas praças é um pouco maior que o de mulheres. rodoviários. O espaço público modifica-se continuamente em sua configuração social com esses novos usos. estudantes uniformizados. ou igualmente redes sociais que permitem agendar encontros nas praças. condição econômica e cultural. O espaço público viabiliza a copresença e situações sociais de encontros. como skates. a copresença é maior e encontra-se nas praças um número mais expressivo de pessoas. Em relação à origem socioespacial. Idosos são vistos em menor número nas praças investigadas. estudantes universitários. skatistas. Em relação ao gênero. Quanto à condição econômica e cultural. jovens. admitindo usos distintos daqueles de antigamente. as praças estudadas comportam a copresença de jovens. vendedores ambulantes ou instalados. que totalizam a maioria dos frequentadores. Podem ser pensados de acordo com sua procedência espacial. as diferenças puderam ser observadas em cada uma das praças e conforme o bairro. Os atores sociais são múltiplos. gênero. Novas práticas. Ajuntamentos. guardadores autônomos de veículos (flanelinhas). No contexto social das praças de São Luís é possível constatar interações e sociabilidades que se repetem no tempo. grupo social. os usuários podem ser analisados como residentes nas cercanias e vivenciando plenamente a vida comunitária ou serem forasteiros e frequentadores ocasionais. Além de identificar usuários individuais e coletivos. casais de namorados. faixa etária. entre estes são arrolados moradores da vizinhança. idosos. a fluência nos dias úteis é diferente em relação àquela verificada nos fins de semana. mas estão incluídos usos e costumes tradicionalmente antigos e reiterados que se tornaram diferentes na atualidade. Nestas ocasiões. Entre as novas sociabilidades podem ser pensadas aquelas que têm a intermediação de equipamentos novos. afinal. O início da manhã ou o fim da tarde são momentos de maior frequência à praça. . policiais militares. fiéis. Não se tratam apenas de práticas novas. díades e grupos estão presentes em todas as praças. As sociabilidades podem ser verificadas e confrontadas ao pesquisar as praças. novos hábitos e costumes permitem o arranjo de novas sociabilidades. Outro grupo etário é o de adultos. Pela faixa etária. que coexistem com os consagrados tradicionalmente. foram delimitados horários nos quais ocorrem determinadas formas de apropriação dos espaços.128 perda de oportunidades para a sociabilização e o não proveito de um espaço que.

e a menor a do Conjunto dos Ipês.129 No processo de interação são articuladas as condições sociais para o uso e a apropriação de determinados territórios. apesar de admitir concorrência de usos com entradas e saídas. Por meio de demarcações consensuais procuram assegurar espaços ou pedaços que supõem apropriações exclusivas temporárias. Episódios ilustrativos são representados pela convivência entre os usuários e os skatistas na Gonçalves Dias. os indivíduos notam-se uns aos outros. O espaço público é usado e apropriado por conjuntos de citadinos que ajustam suas presenças recíprocas nas praças. Na região do Centro imperam interações que mudam de acordo com a procedência diversificada do público. Os diversos atores sociais foram investigados em suas interações condicionadas pelo contexto da copresença. indivíduos e grupos interagem em ajuntamentos sociais não delimitados de forma clara. No que se refere às dimensões físicas de tamanho. As interações entre indivíduos e grupos tendem a ocorrer entre aqueles que se conhecem. com a atuação de um ator coletivo que se define socialmente como a Associação de Moradores. visões de mundo. Em certas ocasiões sociais uns precisam permitir usos pelos demais copresentes. Essas modalidades de usos sociais tendem a variar conforme a localização da praça. Simpatias. Cotidianamente. Essas se perfazem por ajustes e acordos tácitos ou expressos em que são processualmente combinados modos e limites de atuação. Conforme a copresença seja mais evidente ou velada. que. há similitudes entre os usos e apropriações. antagonismos expressos ou velados e idiossincrasias interferem nas interações sociais no espaço público das praças. em processo de constituição de sociabilidades locais. como usos. Nas interações diárias os aspectos culturais. hábitos. a maior dentre as praças pesquisadas é a da Ressurreição. projetos pessoais ganham relevo e ajudam a conduzir as ações comuns nas praças estudadas. Entre as práticas sociais que possibilitam os usos e apropriações do espaço público das praças pelos citadinos estão as negociações dos pedaços onde se instalam indivíduos e grupos. Na região do Anjo da Guarda é possível apurar uma frequência intrabairro com a prevalência de interações entre jovens vizinhos. No Recanto dos Vinhais ocorre também uma frequência de bairro. os quais devem diariamente evitar choques físicos com os transeuntes decorrentes de sua prática desportiva. tendem a evitar esses ingressos. As relações em que se compartilham sentimentos e afetos ou as aproximações com desconhecidos . De acordo com os bairros onde estão situadas as praças.

devem ser os afastamentos intuídos como demarcados simbolicamente. Nas interações no espaço público indivíduos e grupos lançam mão de recursos contextuais comuns para cultivar as relações e situações sociais. podem ser citados grupos de vizinhos que ocupam um espaço na praça e excluem consciente ou inconscientemente outros pretendentes ao mesmo recinto. sobretudo. códigos e linguagens que possibilitam a copresença entre seus integrantes e estranhos. antes de palavras que mostram se alguém é ou não bem-vindo. devem ser destacadas as praças de bairro – Ressurreição e Conjunto dos Ipês –. de gênero. Devem ser consideradas as especificidades sociais das praças pesquisadas. muitas vezes insuperáveis. São. olhares de aprovação ou de reprovação. maledicências. A aceitação ou condenação deve ser apurada tendo em vista o contexto em que ocorre a interação. posturas corporais e atitudes. Os limites instituídos parecem ser aqueles que possibilitem usos compartilhados pelos envolvidos. onde o fluxo de usuários é mais intenso.130 são marcadas por tensões. Nesse aspecto. gestos de crítica. como número de integrantes. A título de ilustração. a mais homogênea em termos de procedência de atores. Na Praça Gonçalves Dias. parece orientar as bases das escolhas. de faixa etária e atitudes mais ou menos favoráveis à aceitação de comportamentos considerados como desviantes. são percebidas variações de atitudes. há um número maior de agrupamentos heterogêneos. Não há como traçar marcas físicas que evidenciem clara separação ou sinalizem áreas de influência. Entre os recursos para isso podem estar falar alto. A percepção desses sinais indicativos torna possível a formação de contratos de convivência. Determinadas configurações dos ajuntamentos influenciam na constituição dos acordos. principalmente entre os mais jovens. xingamentos e admoestações físicas. como eventuais choques com a prancha devido ao rápido deslocamento dos praticantes. as interações obedecem a determinados padrões. nas quais fica mais evidente a presença de estranhos. afastam aproximações de curiosos sob o temor implícito da ocorrência de acidentes. Cada um com meios e códigos de identificação e reconhecimento entre seus componentes. Ou os praticantes do skate que. homogeneidade de procedência. por suas manobras. Conforme o agrupamento há diversos recursos como convenções normativas. A ética da aventura. Assim. Conforme o contexto social onde se localiza uma interação. Na Praça da Ressurreição. De certo .

As interações com as instituições ou o poder público acontecem em todas as praças. As intervenções outrora realizadas pelo poder público em praças de São Luís modificaram as relações e representações dos atores sobre espaços da cidade. não apresentando ingerências pronunciadas do poder público. implantada como Viva Anjo da Guarda no final dos anos 1990. seguem ritmos diferentes. que imprimem certos usos ao redor daquele espaço. Essas formas de expressão servem para manter a coesão dos grupos que se instalam em certos espaços. Sua não percepção pode levar a sérias rupturas da ordem com conflitos abertos. as fronteiras sociosimbólicas devem ser mantidas. O poder público. A Praça Gonçalves Dias passou por ampla reforma há cerca de oito anos que readequou sua configuração ao cartão-postal. A Praça da Ressurreição. como não poderia deixar de ser. Na Praça da Ressurreição uma biblioteca e um centro de saúde pública. exercendo atração atualmente sobre um diversificado e maior público frequentador. Logo. como em jogos entre estudantes uniformizados na Praça da Ressurreição. advêm disputas e lutas. admiradas pelos demais. Logo. que atraem usuários nas horas de funcionamento. usos e apropriações. Quando desequilíbrios ficam evidentes. A Praça do Conjunto dos Ipês. Podem ser oferecidas recompensas em forma de status e poder. como as proporcionadas ao jogador que desempenhe habilidades incomuns. quando são improvisadas traves. . Mas. Onde antes havia um terreno pouco apropriado socialmente. é palco de múltiplas interações. conserva a estrutura erguida pela mineradora Vale. não tem ações localizadas na Praça do Conjunto dos Ipês.131 modo. Para manter a harmonia. enquanto ator social. entretanto. existem grupos ou ajuntamentos que ultrapassam os limites costumeiramente convencionados para frear certas condutas sociais. toda vez que indivíduos de um grupo invadem territórios de outros. acolhendo uma dinâmica e variada série de usos promovidos pelos citadinos. O equilíbrio de poder nas praças é muitas vezes sutil. desprezo ou rejeição. Algumas vezes objetos são espalhados para assinalar territórios. nas praças estudadas o poder público está instalado fisicamente. mas com poucas intervenções efetivas sendo processadas no curso das interações cotidianas. hoje há um local propício aos encontros e que se integra aos espaços sociais do bairro. Na Praça Gonçalves Dias existe a presença de repartições públicas federais. a censura pode ser verificada com atitudes de frieza.

Indagam os frequentadores/residentes como se pode estar tranquilo quando existe a possibilidade de choque com uma prancha. dificultar ou negar ingressos a lugares da Praça. são perceptíveis códigos ou padrões de conduta característicos nos revezamentos aos usos e apropriações dos espaços das praças. Não se pode negar. sua infringência levanta obstáculos à comunicação. relacionam-se por vezes de modo não amistoso com os que têm procedência diversa. tradições. por ter um piso adequado àquele exercício. Proibições e interdições compartilhadas reforçam os laços que unem os atores.132 Foram observados indícios de conflitos interativos motivados por códigos de condutas. Em alguns momentos cresce a tensão sobre o destino a ser dado ao espaço. De certo modo. Os moradores da região veem a Praça como local de lazer. interfere no exercício dos usos sociais. Quando casais estão em determinado lugar. que a extensão numérica do grupo. que têm antagonismos em relação a outros frequentadores. Tem prevalecido o desígnio do grupo mais presente e coeso. Um desses mais visíveis decorre dos excessos dos skatistas na Praça Gonçalves Dias. Os moradores querem a comodidade de fazer um lanche perto de suas residências. principalmente a vizinhos e guardadores de veículos. contudo. Os comerciantes tendem a ver a praça como o mercado no qual podem servir e vender a uma clientela de consumidores. outro casal não fica tão junto sem que se possa caracterizar uma intenção dissimulada de intromissão nos assuntos alheios. por residirem em áreas diferentes do bairro. Outra incompatibilidade não aparente está nos grupos de jovens na Praça da Ressurreição que. . não necessariamente o mais numeroso. A adesão a eles facilita as trocas. onde podem recrear despreocupados. desde que isso não lhes retire o espaço das praças em razão de uma apropriação excessiva por comerciantes estabelecidos ou ambulantes. Os vizinhos e aqueles que usam e apropriam-se das praças para fins comerciais apreciam o espaço de maneira diversa. que os rotulam como criadores de confusão. o que permite concluir que algumas aproximações não são bem recebidas. Predomina uma categorização com a qual os indivíduos são vistos considerando seu pertencimento ao pedaço da vizinhança. Díades de namorados não são observadas imediatamente adjacentes. regras e normas divergentes entre os frequentadores desses espaços. apurada em uma contagem dos copresentes. Os skatistas percebem o espaço como dotado das características certas para a prática de seu esporte. para permitir. cujo manobrista circula por toda a área.

Como dito. portanto. Por vezes. O que consegue é “safo”. Procuram observar o que pode e deve ser feito em determinadas ocasiões. De acordo com relatos nas entrevistas. Quando alguns se apropriam de determinados pedaços outros aguardam. evitando entradas nos territórios de outros. Mas consensos são formados para a distribuição e seletividade dos usos sociais. O espaço público é mais compartimentado. Esse padrão de repulsa pode ser apurado nas entrevistas ou por meio da observação ao longo de meses em que mudam as configurações interacionais.133 Dessa maneira. e muitas vezes respeitado pelos demais. Não há porque questionar o uso . Na Praça Gonçalves Dias há também grupos e ajuntamentos que têm seus espaços e privilégios reservados em certos lugares. Diferenças foram. Nas praças de bairro – Ressurreição e Conjunto dos Ipês – os processos sociais não transcorrem dessa forma. iniciando os indivíduos novos intercursos e não mais se comunicando com parceiros de outrora. então. que são empregados para manter um senso coerente dos eventos centrais das trocas. pois os ajuntamentos costumam ter seus pedaços reservados conforme os usos e costumes. indivíduos e grupos para cultivar as relações e sustentar as situações sociais de interação lançam mão de recursos. executada por agentes públicos. Indivíduos e grupos não podem estar permanentemente em conflito ou em tensão. como sucedeu com frequentador da Praça Gonçalves Dias. as praças de bairros apresentam localizações ou pedaços mais definidos. o que é mais comum na Gonçalves Dias. em determinadas praças. verificadas quando se comparam os usos sociais em bairros diversos. acarretar o exercício de punição mais contundente como a privação da liberdade por meio de prisão. “malandro”. que são vistos. sofrendo repreensões que podem chegar à recusa ao convívio com os demais. O que não percebe nem se enquadra nos valores dos ajuntamentos é discriminado. Demarcados pela presença reiterada de indivíduos naquele espaço. assim. houve detenção de um dos roqueiros em consequência dos excessos na manipulação de substância tóxica ilícita. identificados e reconhecidos posteriormente. não se questionando sem resistência quem deve ou pode ocupar um espaço. Pode. mas às regras legais vigentes para regular o convívio social mais amplo. onde as margens para negociações e concessões são mais estreitas. a não observação a imperativos normativos está relacionada não apenas aos ajuntamentos particulares.

134

reiterado pelos estudantes da Universidade Federal do pedaço em frente ao edifício da
Universidade.
O processo de construção cotidiana de sociabilidades pelos citadinos, enquanto
habitantes de uma região da cidade, tende, assim, a apresentar variações que podem ser vistas
em comportamentos e ritmos próprios. O fato de usar um espaço social no qual haja uma
prévia definição dos lugares marca as relações sociais nas praças de bairro. Deve-se ressaltar
que o contexto social no qual transcorrem as interações assinala essas diferenças.
As variantes nos comportamentos e nos ritmos, que foram identificadas a partir da
observação direta e da aplicação de entrevistas, parecem apresentar, então, uma amplitude
maior na Praça Gonçalves Dias, localizada no Centro da cidade. Determinadas condições e
aspectos culturais, como costumes e valores, ganham relevo nas situações de interação, pois
são recursos utilizados para mediar as relações sociais. Como foi possível apurar, a frequência
às praças de bairro manteve-se mais uniforme no período da pesquisa, o que pode comprovar
uma tendência de menor mobilidade socioespacial nos bairros em comparação com a área
central da cidade. As práticas que se reiteram entre vizinhos aparecem quando informam os
entrevistados sobre as mudanças nos frequentadores dos espaços, que majoritariamente têm
sido os mesmos. Proximidade e acesso facilitado são fatores que contribuem para estar, usar e
apropriar-se das praças públicas.
Na Praça Gonçalves Dias as interações entre conhecidos referem-se àquelas entre
os skatistas, os estudantes universitários, os estudantes uniformizados, os guardadores de
veículos. As demais sociabilidades são assinaladas por certo distanciamento, circunstância a
partir da qual a situação social deve ser mantida por meio de observância mais estrita de
controles mútuos de aparências, atitudes e linguagem corporal. Desconhecidos recolhem
indícios com os quais julgam as ações dos estranhos, visando um reconhecimento.
Quando são cogitados os usos das praças de bairro – Praça de Ressurreição e Praça
do Conjunto dos Ipês –, é possível constatar também a busca por utilidades mais imediatas.
Além de um lazer localizado nas cercanias das residências, os usuários acessam as praças à
procura do ponto de ônibus, do mercado, do bar, de pessoas conhecidas. Intencionam algo ou
alguém. De maneira diversa, a ida à Praça Gonçalves Dias está associada a finalidades como o
desfrute da convivência em ambiente socioespacial aformoseado. Não se quer dizer que não se
possa ir à Praça do Centro para satisfação de necessidades essenciais ou encontrar pessoas; o

135

que se afirma é que os usos e apropriações sociais do espaço público nas praças da vizinhança
são destituídos da reverência com a qual são tratados locais em que não se está habituado a
permanecer continuadamente. A percepção de intimidade com o espaço é sentimento
importante para as apropriações sociais mais intensas nos usos e constantes na frequência.
As interações entre indivíduos conhecidos transcorrem de modo acentuado nas
ditas praças de bairro. As associações com mais reservas se dão na Praça Gonçalves Dias,
onde as relações de proximidade afetiva entre os usuários são menores. Verifica-se um maior
número de interações com estranhos e desconhecidos na região central da cidade. Nos bairros,
as redes de interdependência entre os envolvidos distinguem principalmente as trocas entre
indivíduos que se conhecem e reconhecem. As interações se processam com mais intensidade,
têm maior duração, sendo dotados de permanência e coerção. Os grupos juvenis da
Ressurreição e os associados da ASCOPE do Conjunto dos Ipês são exemplos de atores
sociais, que orientam os indivíduos a se comportarem de determinadas maneiras, conservando,
assim, as condições da interação, bem como a estabilidade das práticas de usos e apropriações
sociais das praças.
Assim sendo, a proximidade e o distanciamento estão presentes nas ações
intersubjetivas. As noções de conhecimento e estranhamento norteiam as relações sociais e
permitem indagar como o local e o estranho são habitualmente vividos, percebidos e
concebidos nas praças. Do mesmo modo, ao serem considerados os usos sociais do espaço
público nas praças, as relações sociais que perpassam determinados espaços são situadas
territorialmente. As interações transcorrem em certos territórios da cidade, que são
apropriados por indivíduos e grupos que aí transitam. As praças são usadas em turnos de
revezamento em disputas pelos espaços, em que os concorrentes procedem às negociações que
possibilitam apropriações discutidas na dissertação.
Estudar usos sociais das praças de São Luís do Maranhão permitiu especificar
como atores individuais e coletivos estabelecem interações, ações e relações que tornam
possíveis as apropriações desses espaços públicos urbanos contemporâneos. Examinar os usos,
desusos, contrausos objetiva traçar um perfil da ordem da interação social na cidade. As praças
são constituídas de diferentes pedaços que se mantêm mais definidos nas chamadas praças de
bairros, que nos limites deste estudo foram a Praça da Ressurreição e a Praça do Conjunto dos

136

Ipês. Em uma praça central na cidade, como a Gonçalves Dias, a frequência é heterogênea,
existindo posicionamentos que se intercambiam ao longo do tempo no curso das interações.
As relações entre vizinhos, que têm do mesmo modo as praças como cenários do
dia a dia, transcorrem mais intensamente onde está presente a vida comunitária, isto é, nos
bairros. Mesmo nestas regiões onde se tem destacado atualmente usos comerciais das praças, a
amizade e a vontade de interagir são os motivos destacados pelos diversos atores sociais para
estar, usar e apropriar-se desses espaços sociais públicos de São Luís, os quais devem
possibilitar demonstrações de pertencimento a determinadas redes de relações. Mesmo na
chamada pós-modernidade, as praças são vistas como espaços propícios às interações entre os
citadinos. Por fim, acredita-se então que a compreensão dos recursos incorporados por
indivíduos, díades e grupos para obter a aprovação social necessária à validade dos usos
sociais das praças, permita refletir sobre os meios para a conservação das condições de
interação no espaço público urbano contemporâneo.

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ANEXO .

os usuários têm mudado ou são os mesmos? _____________________________________________________________ 13- Qual foi o critério de escolha utilizado para frequentar esta praça? _______________ 14- O que você poderia dizer sobre esta praça? __________________________________ 15- Quantas vezes na semana você vem à praça? _________________________________ 16- Quais os horários do dia que você frequenta a praça? __________________________ 17- Quanto tempo por semana (horas) você faz esse lazer na praça? _________________ 18- Se pudesse você gostaria de vir à praça em outro horário? Qual? Por quê? __________ ________________________________________________________________ 19- Deixou de frequentar a praça em algum momento? Se afirmativo.142 ANEXO – QUESTIONÁRIO Data:___/___/____ Perfil do usuário: 1. qual foi o motivo? 20- O que você costuma fazer nos momentos em que está na praça? _________________ _________________________________________________________________ . residem quantas pessoas? _____________________________________ 9- Que lugares você frequenta nos momentos de lazer? ___________________________ ________________________________________________________________ 10- Como você chega à praça? _______________________________________________ 11- Há quanto tempo você vem frequentando esta praça? __________________________ 12- Desde que você começou a frequentar esta praça.Sexo: ( ) Feminino ( ) Masculino 2- Estado Civil: __________________________________________________________ 3- Idade: _______________________________________________________________ 4- Escolaridade: __________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 5- Profissão: ____________________________________________________________ 6- Você está trabalhando atualmente? ________________________________________ 7- Você reside em São Luís? Se afirmativo. em que bairro? _______________________ _________________________________________________________________ 8- Em sua casa.

143 21- Você vem sozinho ou acompanhado(a)? Se acompanhado(a). qual? _______________________________________________________ 24- Quando vem à praça você se estabelece sempre no mesmo local/parte da praça? ____ _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 25- Qual o ponto forte e o ponto fraco para um melhor uso do espaço da praça que você pode assinalar? _____________________________________________________________ 26- Em sua opinião. com quem? __________ _____________________________________________________________________ 22- Quando vem à praça você se reúne com algum grupo de conhecidos? Quem? _____________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 23- Você identifica algum grupo de usuários que constantemente frequenta a praça? Se afirmativo. o que de melhor a praça tem a oferecer àqueles que a frequentam e utilizam? _____________________________________________________________ 27- Você sabe o nome desta praça? ____________________________________________ .