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Ciência Política

UNIRIO

RELAÇÕES DE PODER NA ESCOLA
(Pesquisa Antropológica)

Antropologia Política II

2015

Aluno: Artur Ennes

Segundo Periodo

Todo individuo que pertença a uma “sociedade moderna” se submete e/ou exerce
poder, a estrutura social de poder é complexa e é possível se achar essa relação de
dominante e dominado, desde um grupo de amigos à um partido político, quase que
em todos, se não todos, grupos de pessoas há relações de poder. As relações
“macro” de poder podem ser facilmente percebidas, já as relações “micro” precisam
de uma análise mais individual, sendo assim, devemos pesquisar sobre grupos
menores, não necessariamente, menos importantes, mas grupos que precisem de
uma investigação mais singular.
Ao se pensar nas relações de poder vividas no cotidiano de um indivíduo, ao meu
modo de ver, é necessário descobrir e analisar tais fenômenos desde o nascimento.
Para facilitar a identificação e compreensão das relações de poder, podemos nota-la
incluída em instituições, sendo a primeira a família, segunda a escola e
posteriormente o trabalho, logicamente as relações de poder não são somente
encontradas nessas três instituições, podemos citar inúmeras possibilidades onde
encontraremos esse acontecimento, dentre as quais a mais forte e mais evidente é a
exercida pelo estado e as autoridades. Quanto à pesquisa antropológica, restringirei
à escola, pois considero um campo mais apropriado e menos intimo do que o
ambiente familiar. Essa escolha também se deve a facilidade de acesso ao campo,
seja pela proximidade entre eu e a escola (o campo), seja pela fácil imersão, por eu
estar mais familiarizado ou ainda pela facilidade de dialogo com os indivíduos do
campo.
Para a observação das relações de poder em uma escola, escolhi um colégio
particular que recebe alunos da pré-escola ao ensino médio no município de Maricá,
Rio de Janeiro, ao qual prefiro não expor o nome. Passei três dias colhendo
informações no período de tempo compreendido entre oito horas e onze horas na
parte da manhã, e presente em duas aulas por dia, observando e adquirindo
depoimentos em diversas turmas. Consegui facilmente a permissão para realizar a
pesquisa e tive, por parte da diretoria e dos professores, total liberdade para assistir
as aulas que me fossem convenientes e fazer perguntas à todos os funcionários.
Meu foco eram as classes do nono ano do ensino fundamental até o terceiro ano do
ensino médio, devido (de acordo com meu julgamento) a facilidade de se conseguir
informações mais coesas e maduras, ao passo que, se fizesse a pesquisa com
turmas mais novas, a meu ver, a pesquisa perderia em precisão e em confiabilidade.
Consequentemente os professores tratados aplicam suas aulas às respectivas
turmas.

Durante a primeira aula que presenciei (uma turma do nono ano do ensino
fundamental, aula de História), pude rapidamente observar o conceito de
“Dominação Carismática” de Weber, onde a relação aluno-professor aparentava ser
muito harmoniosa, e assim o professor conseguia correr sua aula e mantinha os
seus alunos sob controle. As evidencias da existência de poder estavam quase que
completamente invisíveis, passando uma imagem de horizontalidade. Porém com o
decorrer da aula algumas situações explicitavam a hierarquia existente na sala de
aula, por exemplo, em determinado momento um aluno teve de pedir a permissão do
professor para poder ir ao banheiro. Essa situação momentaneamente me deu uma
ideia de poder em um sentido único, no entanto percebi que existe uma espécie de
rede de poder no ambiente dessa escola particular. O professor recebe legitimidade
de poder sobre os alunos (pela diretoria), o professor por sua vez é cobrado pelos
diretores, logo ele está subordinado a “Dominação Burocrática” da diretoria, a qual
se submete ao poder dos responsáveis pelos alunos que pagam a mensalidade e de
certa forma tornam os diretores dependentes deles. Os alunos tecnicamente não
exerceriam poder sobre ninguém, porém, eles podem apresentar uma espécie de
contra poder, pois eles conseguem, por via dos responsáveis ou não, expor ou impor
suas vontades perante a escola. Essa rede de relações de poder me ajudou a
entender melhor o ambiente escolar nos dias posteriores.
Após o termino da aula conversei com o professor e alguns alunos. Fiz uma série de
perguntas aos dois e minha ideia de rede de relações de poder ganhou força.
Quando questionei o professor sobre como ele conseguia manter a classe sob
controle e ainda sim ter uma relação aparentemente harmoniosa com os alunos ele
me respondeu: “Não é fácil, a gente precisa tentar se colocar na mesma posição dos
alunos, de certa forma nós realmente estamos em posições parecidas, até porque
nós temos que demonstrar resultados seja para os diretores, seja para os pais.”.
Na segunda e última aula do primeiro dia (turma do terceiro ano do ensino médio,
aula de matemática) observei um ambiente mais sério em relação ao da aula
anterior, é fato que nesse momento da vida de um estudante é cercado de pressão e
medos, o que já demonstra o poder exercido pelos responsáveis dos alunos que os
cobram (em alguns casos obviamente) veementemente bons resultados no
vestibular, o poder exercido pela sociedade, que passa aos vestibulandos uma
posição na sua conjuntura, principalmente quanto ao mercado de trabalho. Nessa
situação a diretoria também esta sujeita ao poder do responsável pelo aluno que
corelaciona o resultado do aluno ao ensino dado pela escola. Analisando, agora,
isoladamente o ambiente de classe, o conceito de “Dominação Tradicional” é
evidente, além do interesse mútuo de que a aula decorra bem. No depoimento que
colhi após a aula de um aluno deixa explicito as características do conceito
weberiano de dominação onde a autoridade do professor é legitimada naturalmente,
para eles isso se da por uma espécie de institucionalização da posição de professor,
“O professor esta ai para nos dar o que precisamos e nós os respeitamos por que
ele é o professor ‘né’”, neste mesmo depoimento o aluno também demonstra que o

“respeito” ao professor também é conseguido através de uma espécie de troca, nada
mais natural na estrutura social do que esse fenômeno.
No meu segundo dia, assisto à uma aula de química no primeiro ano do ensino
médio, professor e alunos oscilam momentos de “ordem” e “desordem”,
demonstrando, assim, um certo equilíbrio de poder. A professora inicialmente tenta
“coagir” carismaticamente, o que funciona de início, porém isso se transforma em
uma aula pouco produtiva e desorganizada, logo a atitude da docente muda, porém
a rede de poder novamente fica explicita quando o aluno passa a exercer certo
poder sobre a professora que não consegue “render” sua aula e é precionada pelos
alunos, logo a coação passa a ser “moral” (algo que foge do conceito de dominação
de Weber, pois, mesmo que momentaneamente, o poder da professora foi
deslegitimado, provocando uma necessidade de uso da força, no caso não física,
para se recuperar a legitimidade do poder da professora), após alguns gritos e um
aluno expulso de sala, a classe voltou a “render”, não para todos eu diria, já que um
grupo ainda se mantinha irritada com a professora. Ao fim da classe perguntei ao
aluno expulso o porquê do ocorrido: “A –nome omitido- não tem moral nenhuma com
a turma, todo mundo estava conversando, ai do nada, ela resolve se irritar e brigar
com a gente e me culpar...”. A professora por sua vez se justificou: “Eu tentei ser
legal, mas a turma perdeu o limite”. Nessa aula, a Dominação exercida pela
professora foi abalada e assim como o previsto em Weber, a coação foi tomada
como ultima instancia para se retornar a legitimidade do poder, que ainda assim
permaneceu abalado.
Na aula seguinte, assisto novamente à aula do terceiro ano do ensino médio,
porém a disciplina não é a mesma (desta vez é aula de inglês), a “ordem” da aula do
dia anterior não é mantida, e a relação professor-aluno é distante, desta forma o
poder do professor só é garantido pela burocracia (Dominação Legal), o que nessa
turma não basta. Em quase nenhum momento o professor consegue exercer poder
para com os alunos, logo o poder dos alunos acaba superando e a aula em si
praticamente não acontece. Perguntei para alguns alunos depois da aula o motivo
para eles exercerem tanto poder sobre o professor ao ponto de quase não haver
aula, e tendo em mente o que foi colhido no dia anterior, como isso influi no
vestibular e como já esperava, a resposta foi quase unanime, a maioria dos alunos
já faziam ou se formaram em cursos de inglês fora da escola. Neste caso, o
professor, por mais que tenha legitimidade de poder garantida “legalmente” pela
diretoria, os alunos não viam na classe algo que os interessassem, logo, de acordo
com o conceito weberiano de dominação, onde o dominado assume a ideologia do
dominador e consequentemente se submete ao poder do dominador, não funciona
pelo simples fato de que o conteúdo oferecido pelo docente não satisfazia as
necessidades dos alunos.

Terceiro dia, escolhi assistir a uma aula de Geografia na única classe que ainda
não havia analisado até então (segundo ano do ensino médio), logo percebi que não
se tratava de uma aula comum, era a última aula antes da primeira avaliação
bimestral (o sistema de avaliações da escola se baseava em três avaliações - a
primeira valendo dois pontos, a segunda quatro pontos e a última valendo 10 – além
de um trabalho de peso quatro, a nota final do aluno era calculada dividindo a soma
das notas por dois - média simples - considerando as duas primeiras avaliações e o
trabalho como uma única prova). As relações de poder estavam muito mais
expostas, e o conceito de Dominação Tradicional “funcionando” como o descrito em
Weber, e talvez um pouco de temor maquiavélico, já que era notório o medo dos
alunos mediante a prova, pois a prova é um momento crucial para o clico de poder
existente, já que dependendo do resultado da avaliação a pressão poderia cair sobre
os alunos ou sobre os professores, e ainda as relações de poder iriam se alterar. Os
alunos, inquestionavelmente, seguiam a aula de acordo com a vontade do professor,
viam na figura do docente além da legitimidade tradicional, viam nele a possibilidade
de conseguir algum tipo de vantagem para a avaliação que estava por vir, tendo em
vista que essa seria uma espécie de aula de revisão, onde dúvidas seriam sanadas
e o professor podia ou não dar indícios sobre o conteúdo da prova, “A gente
depende disso (revisão dada pelo professor) para conseguir ‘tirar’ uma nota boa no
teste, por isso essa aula é tão importante” disse um dos alunos quando perguntei o
porquê a aula estava com o clima tão tenso e porque seguiam tão a risca a
metodologia da aula.
Segunda aula do dia, assisto uma aula de matemática na turma do primeiro ano do
ensino médio. A diferença entre as aulas da mesma matéria no primeiro ano e no
terceiro ano (ambos do ensino médio) é notável, no entanto, assim como a aula que
presenciei no primeiro dia, o professor consegue exercer sua “Dominação
Tradicional”, o que faz com que a metodologia aplicada por ele seja quase que
incontestáveis pelos seus alunos, sendo assim, a aula flui normalmente, porém em
contrapartida ao ocorrido na classe do terceiro ano, a troca de “interesses” não é tão
intensa, na minha concepção essa diferença se dá devido a distância entre o aluno
do primeiro ano do ensino médio e o vestibular, tendo em vista que na atual
conjuntura educacional brasileira, e talvez mundial, a escola serve como uma fábrica
de mão de obra para o mercado, em outras palavras, os moldes educacionais,
infelizmente, resumem o período escolar como uma preparação para o vestibular, o
que torna desinteressante toda a possibilidade de conhecimento que um estudante
pode alcançar, logo, o foco maior de um estudante é passar em uma prova e não
adquirir conhecimento, tal situação explica o porque do desinteresse da classe para
com a matéria. Contudo, no que diz respeito ao poder, neste caso, do professor
sobre os alunos, a ‘Dominação Tradicional’, logicamente aliada com a “Burocrática”
(como em todas as turmas), se faz presente, de modo que os alunos, assim como
previsto em Weber, assumem a “ideologia” do professor (seguem a aula de acordo
com a vontade do docente).

Pude perceber que o poder concedido pela diretoria ao professor existe em todas
na condições (em todas as turmas), porém a legitimidade desse poder, ou seja, a
aceitação da turma, depende do relacionamento direto professor-aluno, e de que
maneira o docente vai exercer a sua dominação, contudo, nas situações
observadas, conclui que a troca de “interesses” é fundamental para que o conceito
weberiano de dominação se mantenha sem necessidade de uso de “força” (no caso,
punições, sejam advertências ou apenas um tom mais imperativo).
Quanto à rede de relações de poder, cheguei a conclusão que a mesma é
alimentada por essas disputas e trocas, tornando assim, essas duas situações,
fatores determinantes para o equilíbrio do sistema. Se em uma classe, por exemplo,
o professor não conseguir legitimidade para exercer poder sobre a classe, ou seja,
não fazer com que os alunos sigam a aula da maneira desejada, e isso afeta os
resultados da turma em geral, a escola será cobrada pelos responsáveis, que por
sua vez irá cobrar o professor, ou ainda, no caso de em uma turma onde o professor
consegue aplicar sua “ideologia” (neste caso, o rumo da aula) e somente certos
alunos não conseguirem os resultados desejados, os responsáveis irão cobrar os
alunos e provavelmente irá cobrar (menos do que em relação ao outro caso citado
anteriormente) a escola. Estes são apenas dois exemplos que ajudam a entender o
funcionamento da rede de relações de poder em uma escola, logicamente existem
outras situações que também se adéquam à rede.