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Quando coloquei Os meninos da Rua Paulo na minha lista de leituras, imaginava

que se trataria do fim daquilo que algo pomposamente chamava de “ciclo húngaro”
(ciclo apenas exploratório, por certo). Não pensei que estava, na verdade, começando
outro: o de livros infanto-juvenis sobre o mundo de meninos. Tão logo decidi ler o livro
de Ferenc Molnár, surgiu o nome do francês Louis Pergaud e do seu livro A Guerra dos
Botões (Ática, 1997). Como o enredo era parecido, decidi lê-lo também.
E, de fato, as histórias são bem parecidas. Trata-se da guerra entre dois grupos de
garotos rivais: os de Longeverne contra seus vizinhos de Velrans. E aí tem tudo que esse
tipo de história possui: suas estratégias de guerra, seus líderes, seus imediatos, sua tropa.
Sim, esses grupos de garotos também se organizam como um exército. As ações vão da
fidelidade absoluta ao grupo até a traição.
Mas para quem lê os dois livros um em seguida do outro, são as diferenças que
chamam atenção. Assim, ao contrário dos meninos de Molnár, que se movimentam em
Budapeste, os de Pergaud são garotos do campo, da pequena cidade de Longeverne:
“Os trabalhos dos campos haviam acabado, e um a um, ou em pequenos grupos,
após duas ou três semanas, viam-se voltar à escola os pequenos pastores de pele curtida,
bronzeadas pelo sol, de cabelos cerrados, cortados rentes com a tosquiadora (a mesma
que servia para os bois)” (p.13)
Enquanto Molnár simplesmente ignora a questão de se saber se seus combatentes
são meninos de classe média ou não (com apenas uma exceção), Pergaud não deixa
dúvidas quanto ao fato de serem também meninos pobres, camponeses. Assim descreve
suas roupas:
“... de calças de droguete ou de fio de seda remendadas, cheias de reforços nos
joelhos e nos fundilhos, mas limpas, de camisas novas de pano barato, duras, que ao
desbotar deixavam, nos primeiros dias, as mãos pretas como pernas de sapo, diziam” (p.
13)
São meninos mais velhos também. Ainda que Pergaud descreva a certa altura suas
idades como girando em torno de doze anos, há ali alguns que chegam já aos quatorze.
Por que isso é importante? Simples, ao contrário dos húngaros, esses franceses já se
interessam por meninas. Os húngaros são muito jovens ainda. Lebrac, o líder dos
Longevernes, namora a irmã de um de seus colegas. Nada muito, digamos, profundo.
Em momento algum os dois estão juntos. Apenas trocam olhares na Igreja, durante a
missa. Ela é, na verdade, a única personagem feminina da trama – além, obviamente,
das mães dos garotos, que aparecem apenas como mães, significando que não chegam a
ser personagens mais trabalhados. Há uma passagem francamente engraçada no livro
em que os garotos falam sobre mulheres. Pergaud caprichou na descrição de como os
meninos veem as meninas.
Os garotos de Pergaud são também bem bocas sujas. Antes das batalhas entre os
grupos, eles costumam se insultar abertamente. Palavrões são atirados de parte a parte,
insultos escatológicos atingem a honra dos adversários, seus pais e mães são xingados.
Tudo isso acaba por justificar as brigas e as pedras que são lançadas pelos exércitos. Na
verdade, a trama começa quando alguns garotos de Longeverne são insultados por um
grupo maior de Velrans. São chamados de “culhões moles” e antes da aula procuram

“por botões” “os jovens guerreiros mostram toda sua coragem contra adversários implacáveis”. os pais punem os filhos – quase sempre fisicamente – quando os pegam fazendo arte. o livro seja tão lido. o grupo de meninos também desafiam este mundo com alguma frequência (ridicularizando bêbados. É interessante ver como os tais botões vão gradualmente ganhando um significado maior do que o originalmente têm. uma necessidade de guerra. Fico imaginando se a pessoa que escreveu a contracapa do livro o entendeu. mais verossímil. simples. Molnár diz que os meninos apenas não temiam os adultos. ignorar o mundo dos adultos (que apenas tangencia a trama na figura do rígido professor e de um vigia bêbado). Talvez por isso. São. não a doura (os meninos estão longe se serem anjos). que a adaptação de 1994 prefere segui-la. Nada disso é pouca coisa. jogar com seus pares e. . O livro já recebeu pelo menos quatro adaptações diretas para o cinema. Criam-se ali laços de fidelidade e de pertença. mas não a renega – como pode-se inferir. por exemplo. Voltando à comparação com o Molnár. assim. eles o desprezam.seus amigos para contar o que aconteceu. Pergaud capricha: uma das primeiras questões do grupo é decifrar o que significa o xingamento. atualizada. A mais famosa é a dirigida pelo francês Yves Robert. brigam pelo prazer de brigar e brincar de exército – ainda que essa brincadeira seja às vezes bastante violenta e bem humilhante. passam a ser uma preocupação do grupo de Longeverne (mas apenas deste grupo) que atentou para sua importância. estátuas de santos. a relação da turma de Pergaud é muito mais forte e matizada e. isto é. de ser alguém – por isso a certa altura a história da rivalidade é contada e. Pelo que pude ver esta adaptação fez tanto sucesso. Uma história. sim. roubando o que precisam para melhor aparelhar seu exército). contada sem nenhum tipo de pretensão maior. e que. Por Favor! –. Eles são inicialmente apenas uma utilidade: servem para esconder dos adultos a punição a que eram submetidos caso fossem capturados pelos rivais. por que brigam então os dois grupos de garotos? Como são traquinas. portanto. Todas elas mostram a força da história de Louis Pergaud. Estão sempre se movimentando em seu mundo e neste os adultos são um tanto ridículos. Só uma única vez eles se veem obrigados a lutar para recuperá-los. Brigam também porque são um grupo. pelo senso de ser parte de algo. Ali pode-se ler que “por botões” “os meninos de um vilarejo francês fazem a guerra”. Pergaud em várias ocasiões afirma peremptoriamente que estes não compreendem o mundo dos garotos. mas que fala francamente da experiência da meninice. Os garotos são também bem ardilosos. cujos meninos estão apenas preocupados em brincar. vigias. em 1962. pois sabe que ali há muito sendo aprendido. talvez por isso. mas o temem por seu poder punitivo. Brigam pelo sentimento de honra pessoal e grupal. um recurso. quando foram roubados pelo grupo rival com a ajuda de um traidor enciumado pois rejeitado pela garota que prefere um dos líderes do grupo à ele. das memórias do personagem de George Orwell presentes em Um Pouco de Ar. Há uma de 2011 que transpõe a história para o contexto da ocupação nazista da França. Como são muito importantes. Mais uma vez. O professor vigia mais de perto os alunos. portanto. mantendo o que foi modificado em relação ao livro. Se não é pelos botões. Mas os garotos não pelejam pelos botões.

tenha morrido ainda muito jovem na Primeira Guerra Mundial. com suas anotações a respeito da guerra foi encontrado e publicado (Carnet de Guerre).Não deixa de ser algo irônico que o autor que ficou conhecido por contar uma história de meninos em guerra. Desta vez. . é da guerra de adultos que ele trata. há uma espécie de consolo: seu caderno. Para aqueles que admiram sua literatura.

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