SITUAÇÃO METODOLÓGICA E NATUREZA JURÍDICA

DO DIREITO AMAZÔNICO*

LUCAS ABREU BARROSO (BRASIL)
Mestre em Direito Agrário pela Universidade Federal de Goiás
Doutorando em Direitos Difusos e Coletivos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Coordenador da Faculdade de Direito Promove
Membro da ABLA – Academia Brasileira de Letras Agrárias (Cadeira n. 11)
Sócio da UMAU – União Mundial dos Agraristas Universitários
Membro da ABDA – Associação Brasileira de Direito Agrário
Membro do IDCLB – Instituto de Direito Comparado Luso-Brasileiro
SUMÁRIO: 1 O Direito como sistema. 2 A tradicional divisão da Ciência Jurídica
em Direito público e Direito privado. 3 Direito Amazônico: polissistematicidade e
pensamento pragmático. 4 Referências bibliográficas.

1 O Direito como sistema
Conseqüência do racionalismo que impregnou a Filosofia e a Ciência do Direito,
como nota determinante do pensamento jurídico ocidental, no século XIX, o significado de
sistema para a construção do Direito é, ainda hoje, “dos temas mais discutidos da metodologia
jurídica”1.
Francisco Amaral ensina que este tema integra o “movimento de revisão crítica por
que passa o direito atual, com a hermenêutica e a praxis superando a concepção dogmáticoexegética da ciência jurídica e a correspondente visão positivo-legalista herdada do século
passado [...]”2.
A seguir, apresenta um conceito de sistema, não sem antes admitir a ausência de

*

Os agradecimentos do autor aos professores Antônio Cota Marçal (UFMG e Promove), Francisco Amaral
(UFRJ) e Mário Lúcio Quintão Soares (PUC/MG e Promove) pela presteza em atuar como interlocutores e
por todo o inestimável apoio concedido na elaboração deste trabalho.

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CANARIS, Claus-Wilhelm. Pensamento sistemático e conceito de sistema na ciência do direito. Introdução
e tradução de A. Menezes Cordeiro. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. p. 5; LARAIA,
Ricardo Regis. Sistema jurídico e antinomia de normas. In: LOTUFO, Renan (Coord.). Cadernos de teoria
geral do direito. Curitiba: Juruá, 2000. p. 187, preleciona: “A idéia de sistema na ciência jurídica já existia
antes mesmo das grandes codificações. Nos séculos XVI, XVII e XVIII, o sistema era tido como instrumento
metódico do pensamento científico, sendo reputado como a única via pela qual o espírito cognoscente
poderia assegurar-se da verdade, o que levou Savigny a pregar a interpretação das leis segundo métodos
histórico e sistemático”; Vide MARTINS-COSTA, Judith. A boa-fé no direito privado: sistema e tópica no
processo obrigacional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999, acerca da construção da idéia de sistema
jurídico.

2

AMARAL, Francisco. Racionalidade e sistema no direito civil brasileiro. Revista de Informação Legislativa,
Brasília, n. 121, p. 233-243, jan./mar. 1994. p. 234.

p. para Karl Larenz. até um certo grau. uma criação intelectual. ed. Tradução de José Lamego. Ob. desponta como outro nome que não deve ser olvidado.2 consenso em torno da matéria. 236. Mesmo porque. São Paulo: Malheiros. chegar ao ponto de tomar o modelo como realidade. cada vez mais. p. no sentido de aglutinação desses elementos. para atender a uma demanda crítica do saber”4. como ligação entre si e ausência de contradição. Em outras palavras. produto da relação dialética entre a intenção sistemática. que torna clara a «racionalidade intrínseca». aduzindo complementarmente: “Não se deve. decifrando em parte a natureza peculiar do Direito e mostrando que a jurisprudência deve ser vista também como discussão de problemas”. mas também de valores e princípios jurídicos. marcado pela unidade. ou pensamento problemático. princípios e valores. hierarquia. juízos normativos elaborados para atender a problemas concretos. p. A busca de um tal sistema e a orientação dada por ele em questões fundamentais é uma parte constitutiva irrenunciável do labor jurídico”7. contrapondo-se ao Direito enquanto sistema. exigida pelo postulado da ordem. de sua vez. 2002. 44: “Theodor Viehweg. 6 7 AMARAL. os valores directivos e os princípios do Direito. está o Direito como problema.. 4 Ibidem. 3. rev. coerência e hierarquia”3. Juarez. por isso. ed. vendo-se no direito características que na realidade não possui”. resgatando – não sem enormes incompreensões – a Tópica aristotélica. passa hodiernamente por um momento de ruptura no campo do pensamento jurídico. Metodologia da ciência do direito. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. “como um ordenamento formado não só de normas. uma ‘ficção controlada pela experiência’. e a experiência 3 Ibidem. e ampl. 1997. 237. 241. assevera que “o sistema nada mais é do que um modelo. 5 FREITAS. a idéia tradicional de sistema. Francisco. “a única espécie de sistema ainda possível é o sistema «aberto» e. a que acrescenta: “Unidade. Este conflito epistemológico não prosperou por falta de quem insistisse em defender uma estruturação sistêmica exclusivamente lógico-dedutiva. em torno de um princípio básico. A interpretação sistemática do direito. Isto porque. não obstante sua indiscutível utilidade. E o fez. LARENZ. no sentido de dependência e dedutibilidade lógica”. ou pensamento sistemático. normas. 3. o Direito é reconhecido. E apesar de admitir a relevância da concepção do Direito como sistema no estágio atual do conhecimento jurídico. em face do meritório esforço de evidenciar que a determinação do sistema jurídico nunca é completa. p. Nestes termos. «móvel» em si. geral e comum. coerência. que nunca está completo e pode ser continuamente posto em questão. defendido por Theodor Viehweg5 quando “considera o direito como conjunto de topoi. consoante com o pensamento em vigor na construção jurídica da modernidade: “conjunto ordenado de elementos. sem concessões à unidade sistemática”6. . cit. Karl.

pois como aponta Niklas Luhmann9 “el concepto de la construcción jurídica de Ihering exige como consecuencia el paso a otro concepto de sistema. 237. en concreto a la concepción del sistema jurídico como sistema de la realidad social. segundo Claus-Wilhelm Canaris. b) evita a crença exacerbada na completude fechada e autosuficiente do sistema.. O efeito imediato da adequação do sistema jurídico à realidade social pode ser constatado no fato de que “el paso del pensamiento jurídico de sistemas de conceptos a sistemas de acciones posibilita una problematización funcional de la dogmática. 280. como núcleo do nosso conceito jurídico. o sistema jurídico torna-se “ordem axiológica ou teleológica de princípios jurídicos gerais”10. p. 9 LUHMANN. cada vez mais. no trato de temas como antinomias. impedindo abordagem meramente formal.]”. Francisco. a hierarquização de cunho principiológico e axiológico”12. pero el nuevo concepto de 8 AMARAL. Esto no significa que la dogmática pueda ser sustituida por la problemática. até para explicitar a englobante presença axiológica em todos os processos de racionalização ou de produção do fenômeno jurídico”. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales. p. 10 CANARIS. Claus-Wilhelm. a partir das idéias de adequação valorativa e de unidade. Niklas. p. 53-54: “Esta hierarquização faz as vezes de uma espécie de metacritério que permite arbitrar a disputa entre princípios. possui as seguintes principais virtudes: a) salienta. 1983.. ou seja. Mister erigi-la. paulatinamente. d) permite ver o papel decisivo da interpretação ponderada. a substituição do sistema fechado pelo sistema aberto. p.. c) resguarda o papel da interpretação sistemática. pois tal abertura não contradita (antes. a função do sistema como a de traduzir coerência valorativa. atribuindo aos princípios um sentido que ocorre numa combinação complementar ou de restrição recíproca. Ob. regras e valores no seio do Direito positivo. 11 FREITAS.11 enfatiza que é “útil ir além do conceito de sistema jurídico como ordem axiológica ou teleológica de princípios gerais. Ob. Destarte. a fonte mesma da unidade interior do Direito. imposta pela realidade social”8. 19. 12 Ibidem. certo como é que a Hermenêutica recomenda não só constituição mútua.3 problemática.. mas a identidade essencial entre o pensamento tópico e o sistemático. permitindo pensar a completude e a coerência como processos abertos. com vistas a contemplar a demanda imposta pela sociedade. .. que vê o sistema como ordem axiológica ou teleológica. ou seja. sem descurar do controle estatal das formulações jurídicas. Ob. entre outros. em virtude do manejo concertado de princípios no bojo do sistema jurídico. havendo. como sistema parcial de la sociedad”. pois. “se trata de adjudicar siempre a la sociedad misma en primer lugar la creación de sistemas [. afastando. depois de elencar as vantagens desta conceituação. donde a conveniência de inserir no próprio conceito aquela que parece ser. Foi Ihering o precursor desta mudança de direção introduzida na teoria jurídica. cit. Juarez Freitas. 53: “Tal formulação. cit. Juarez. o mito da excessiva e imoderada autonomia do texto”. cit. Sistema jurídico y dogmática jurídica. p. pelo contrário) a exigência de ordem e de unidade interna.

17 13 LUHMANN.) sostiene que la fuente originaria de todas nuestras ideas es la experiencia. substituindo-se o rigor lógico pela probabilidade dos fatos”14. Luis Recaséns. etc. puede decirse que el empirismo (representado por los cirenaicos. las cuales se habrían formado a través de la experiencia por vía de repetición y generalización de los datos de ella. na Constituição”15. dar cumprimento aos objetivos justificadores do Estado Democrático. um entrelaçamento de relações sob o predomínio ou a orientação de princípios jurídicos que funcionam como pautas abertas de comportamento. Com efeito.. expressa ou implicitamente. mas circular. 20: “La cuestión. “o pensamento sistemático dá lugar ao pensamento pragmático. de normas estritas (ou regras) e de valores jurídicos cuja função é a de. . p. 14 AMARAL. Com a revalorização da praxis e da experiência. a unidade que caracterizava a sistemática jurídica em sua feição tradicional evolui no sentido da pluralidade. 237. p. p. Según el empirismo. evitando ou superando antinomias em sentido lato. Para Francisco Amaral. e cada vez mais. assim como se encontram consubstanciados. la conciencia sería una tabla rasa en la que nada hay escrito. cit. 16 AMARAL. “desse modo. Así pues. por Hume. p 237. 16. o caráter de uma prática social. México: Porrúa. no dizer de Francisco Amaral16. por los epicúreos.. Ob. por los positivistas. cit. mas como uma rede. assumindo o Direito. incluso las ideas aparentemente más abstractas. Ob. de suerte que todo cuanto encontramos en ella habría venido de la experiencia. Ob. à espera da necessária concretização. Ob. 17 SICHES. cit. 15 FREITAS.4 sistema da a la reflexión sobre la función y el concepto de la dogmática una base distinta”13. Em idêntica direção Juarez Freitas. reconceituando o sistema jurídico: “uma rede axiológica e hierarquizada topicamente de princípios fundamentais. a sistematicidade entra em crise e desenvolve-se o empirismo na doutrina”. Francisco. E enquanto o sistema axiomático usava a razão em sentido teorético o sistema circular usa-a em sentido prático. ed. 386: “Resumiendo. en definitiva.. y también todos los ingredientes de todo conocimiento se derivarían de ella”. “o novo modelo não se apresenta mais como uma estrutura lógico-dedutiva.. según el empirismo todo conocimiento procedería de la experiencia. Niklas. 2002. por Locke. com o predomínio da razão prática”. es si una dogmática edificada sobre la consideración de las consecuencias estará en situación de mantener y conservar la diferenciación social del sistema jurídico incluso dentro de una sociedad altamente compleja y de desarrollar dentro de este sistema una política autónoma de justicia”. 54. Tratado general de filosofía del derecho. Francisco. Juarez. O movimento interno do sistema não é ascendente. cit. ao mesmo tempo em que.

. 161-162. p. Francisco. 19 Ibidem. 87: “[. o percurso do sistema jurídico moderno”. Direito civil: introdução. mas sim experiência’”.. Ob. pois. Francisco. pela ruptura da lógica positivista do direito. as relações. 2000. coerente e dinâmico. 22 AMARAL. até às últimas décadas deste século tem marcado o pensamento jurídico ocidental”. 21 AMARAL. Historicidade e racionalidade na construção do direito brasileiro. as instituições. Revista Brasileira de Direito Comparado. 24 AMARAL. n. com a recusa da tirania dos conjuntos e dos sistemas. e aum. sem prejuízo da sua ordenação sistemática”. Ob. aquela que o concebe dentro de “uma totalidade social e dinâmica. principalmente. atual. pela complexidade social e. se pode dizer que vem marcado pela fragmentação e pelo pluralismo das fontes. rev. 41. p. 20 Ibidem. p. suficientemente aberta para acolher os problemas que se renovam. Francisco. p. cit. 2001... à falta de melhor caracterização. o que pressupõe “uma visão global e compreensiva da totalidade que se forma com as normas. concretizados em disciplinas ou estruturas do Direito implicadas na ordenação e disciplinamento dos problemas e relações resultantes do cotidiano social na pós-modernidade. ainda que tardio.] o que ora se nos apresenta é o panorama da pósmodernidade. o que.. p. verdadeiros microssistemas jurídicos. O direito na sociedade complexa. 240. Racionalidade.5 Houve o reconhecimento. Vislumbra-se. que a história fortalece. Rio de Janeiro. p. muito embora o “postulado inicial.. o surgimento de “novos ramos jurídicos. 23 CAMPILONGO... 30. Celso Fernandes.22 Celso Fernandes Campilongo23 explica que este fenômeno teve lugar no momento em que “no interior do sistema social.. e assevera ser “esse. integradas em um conjunto unitário. 2003. cit.. que se processa sob a égide de valores e princípios fundamentais”. 20. Historicidade.18 de “que o direito não mais satisfaz às necessidades de uma sociedade que evolui mais depressa do que ele”19. consoante Francisco Amaral24. Nessa esteira. especiais e autônomos”21. 1º sem. 5. 31. ed. Rio de Janeiro: Renovar. algumas formas de comunicação ganham especificidade tão grande que chegam a formar subsistemas com funções particulares”. o qual. podemos concluir por melhor compreensão da idéia de sistema no Direito contemporâneo. o que é evidenciado pela “fragmentação dos sistemas e o pluralismo das fontes”20. p.. São Paulo: Max Limonad. 29-87.. particularmente. 18 AMARAL. é a convicção de que ‘a vida do direito não foi nunca pura lógica. Francisco.

p. por isso. da emissão de normas.].. haja vista que “em todos os países da família romanogermânica a ciência jurídica agrupa as regras do direito nas mesmas grandes categorias. submetidos”27. Entenda-se por sistema estático uma organização das normas que leva em conta sua estrutura ou a matéria normada (relação autoridade/sujeito. Trata-se. abstração feita de seu câmbio permanente. o qual caracteriza uma dinâmica. 132-133: “As grandes dicotomias permitem uma sistematização. Tradução de Hermínio A. em alocar as disciplinas jurídicas em um dos grupos resultantes da tradicional divisão da Ciência Jurídica: o Direito público e o Direito privado. A fragmentação de diversos ramos clássicos em microssistemas reforça a perspectiva 25 DAVID. 1998. p. O sistema estático concebe o conjunto normativo como um dado. 27 Ibidem.6 2 A tradicional divisão da Ciência Jurídica em Direito público e Direito privado Sem razão se consubstancia a insistência da doutrina. rev. Introdução ao estudo do direito: técnica. no caso. ed. as relações que se formam entre os sujeitos). isto é. na qualidade de “distinções amplas. de uma sistematização estática. atuação e desaparecimento das normas. de um sistema fechado (em torno da abstração racional na criação da norma jurídica). para usar uma terminologia de Kelsen. tir. Tércio Sampaio. 141. René.. Não se indaga. as grandes dicotomias. Pensadas. 3. Por toda a parte se encontra a mesma grande divisão básica de direito público e de direito privado”25. 26 FERRAZ JÚNIOR. e ampl. 2. . Carvalho. ainda hoje. O caráter estático do sistema significa que se prescinde do processo contínuo de formação. o que não mais satisfaz sob o enfoque de um sistema fulcrado na experiência jurídica. Remontar à natureza jurídica de uma estrutura do Direito representa sempre um retorno à dogmática e à sua característica sistematizante. p. René David demonstra ser esta divisão uma tendência consagrada no transcurso da história do pensamento jurídico. ed. sua revogação e da emissão de novas normas: o quadro é estático”. no sentido dogmático [. são apenas pontos de orientação e organização coerentes da matéria”. a dogmática jurídica utiliza a natureza pública ou privada dos ramos que compõem o sistema jurídico a fim de estabelecer “a que princípios teóricos estão. entre estas o Direito público e o Direito privado. Os grandes sistemas do direito contemporâneo. São Paulo: Martins Fontes. 67. desenvolvidas historicamente no trato dogmático do direito”. decisão. São Paulo: Atlas. do direito analiticamente concebido como conjunto de normas. conforme indica Tércio Sampaio Ferraz Júnior26. A divisão em tela somente encontra pertinência no contexto de uma lógica positivista. dominação. a facti species e a conseqüência jurídica. 4. 2003. “não são logicamente rigorosas.

ao romper os limites que traçou a Dogmática. portanto. no intuito de levar a efeito a resolução dos problemas concretos postos pela realidade social para apreciação e recepcionamento pela ordem jurídica vigente. José de Oliveira. 197-198. a mais notável contribuição de Solari para o estudo do Direito foi ter definitivamente rompido as distinções casuísticas para ver o Direito Privado como um todo e transpor o fosso que o separava ou mesmo até hoje separa do Direito Público.7 integradora do Direito com a praxis. Solari deu notável contribuição para o conhecimento da Dogmática.]. ed. Cláudio De. . nos dias que se seguem. Estas novas classificações restam deslocadas ou inadequadamente arranjadas quando insertas na dicotomia tradicional. enquanto ramos do saber da Ciência do Direito. cada vez maior.. entre “temas de Direito Público” e “temas de Direito Privado”.28 José de Oliveira Ascensão corrobora tal posicionamento: “Acentue-se mais uma vez que divisão não significa contradição. para usar a expressão de Cláudio De Cicco). Sim. do Direito público e do Direito privado. 11. exerceu papel de acentuada relevância a doutrina de Gioele Solari: A nosso ver. Cláudio De Cicco informa que na remoção dos obstáculos erguidos para separar rigorosamente em compartimentos estanques o Direito público e o Direito privado. São Paulo: Ícone. p. com vistas ao atendimento da arché do sistema jurídico em sua concepção contemporânea. pois a esfera do privado e do público se intuem com facilidade. Mesmo porque. O Direito privado não pode ser considerado o direito dos egoísmos individuais.. dentro desta consideração. uma tendente publicização dos ramos jurídicos. O que se tem em foco. 29 ASCENSÃO. é uma aproximação (“interpenetração”.. qual seja. O direito – introdução e teoria geral: uma perspectiva luso-brasileira. mas na sua coordenação em fórmulas sucessivamente mais perfeitas”29. como o Direito público não pode ser considerado o direito das relações de dominação. 2001. 28 CICCO. São ambos indispensáveis e entre si complementares. 327. sendo problema que a Metodologia da Ciência do Direito deverá enfrentar na consecução da melhor alocação das matérias abrangidas dentro da teoria jurídica. 1995.. rev. mas não é admissível que alguém queira separar totalmente o estudo analítico de ambas [. Coimbra: Almedina.] Ora. p. [. O progresso não está na absorção de um pelo outro. o integral cumprimento dos princípios fundamentais constitucionalmente postos com a finalidade de servir de alicerce ao Estado Democrático de Direito. verifica-se. Uma crítica idealista ao legalismo: a filosofia do direito de Gioele Solari.

porquanto. [. nem públicos nem privados. Belo Horizonte: Del Rey. isto é. cit. Tércio Sampaio Ferraz Júnior30 assevera que a separação em comento é “tarefa difícil de realizar-se”. cuidar da abordagem do tema proposto por este estudo. tem como signatários: Bolívia. uma vez que define os campos do conhecimento de interesse da Amazônia. p. um sistema aberto. Equador. ed. do ponto de vista jurídico. levando-se em consideração as especificidades e peculiaridades da região amazônica. articulado consoante uma visão “regionalizada e multidisciplinar”33. 34 SICHES. PASSOS. no bojo da experiência jurídica é onde. daqui em diante. sobre os quais é feito um estudo jurídico”.. sugere a elaboração teórica e a aplicação prática de um sistema jurídico. 3 Direito Amazônico: polissistematicidade e pensamento pragmático Superados os tradicionais conceito de sistema e divisão do Direito. Lucas Abreu. 31 Firmado em 3 de julho de 1978.] e os tradicionais conceitos dogmáticos sentem dificuldade de impor-se”. [. Guiana. 33 Ibidem.8 Sentenciando o debate em torno da questão. sendo essa experiência “la que en cada caso opera como estímulo para producción de cada una de las normas 30 FERRAZ JÚNIOR. 14. “se engendra la producción de todo Derecho”. México: Porrúa.. cabe. delinear a situação metodológica e a natureza jurídica do Direito Amazônico. Visão regionalizada do direito: o direito amazônico. Alcir Gursen de. 2003. . 52. 137. ou Pacto Amazônico. “surgem campos jurídicos intermediários. Introducción al estudio del derecho. Recordando as lições de Luis Recaséns Siches34. p. em termos gerais.] seria a verdadeira base científica de um Direito Amazônico. Brasil. O Tratado de Cooperação Amazônica31.. No prelo: “O Tratado de Cooperação Amazônica. 32 MIRANDA. Dentro de uma postura pragmática. In: BARROSO. Cristiane Lisita. Luis Recaséns.32 Trata-se. Direito agrário: lineamentos no início do século XXI. vez ou outra.. Tércio Sampaio. da estruturação supra-estatal e transnacional de uma construção sistêmica alicerçada na experiência jurídica da Amazônia. Ob. Peru.. Colômbia. a nosso ver. Suriname e Venezuela.

del choque de intereses contrapuestos entre individuos. problemas que demandan un tratamiento adecuado. Ob. hechos en los que encarna una dimensión conflictiva. (p. o que proporciona “uma pluralidade de sistemas que podem ser concebidos por cada jurista a partir de sua peculiar concepção”36. o Direito é uma ciência social aplicada.. 37 CATALANO. bem como a individualidade das relações que se estabelecem do convívio em sociedade. impositiva. por ser tales. (p. 52)”.. posto que destinada “a aprofundar o estudo das relações entre ‘áreas jurídicas’ e ‘áreas culturais’. incluyen como ingredientes de las mismas unas valoraciones – creencias y convicciones estimativas – diferentes a veces en los varios interesados. conforme a criterios valoradores. es decir. al menos relativamente satisfactoria. A primeira destas tendências particularmente interessa muito de perto aos objetivos deste trabalho. sino realidades vistas ya a través de lentes estimativos. de manera firme y decisoria. no tan sólo ser resueltas en el plano de la teoría. y una solución. p. por lo tanto. obviamente. entre otros componentes de ellas. de necesidades.]”38.]. esto es. de modo terminante y perentorio.. 1998. (p.] En suma. un choque entre diversas aspiraciones humanas. 44. cit. ambas direta ou indiretamente conexas à individualização.. entre individuos y grupos. 51-52) [. los cuales están entretejidos entre sí de modo recíproco. una experiencia a la vez de realidades. en la que se da una tensión dramática.. Agrário e Empresarial. Sintetizando o entendimento esposado por este eminente jurista. sobre uma comunhão de caracteres jurídico-formais e doutrinários)”37.. Pormenorizando: Um dos aspectos mais significativos do estudo jurídico contemporâneo é a caracterização. Imobiliário. Revista de Direito Civil. de ‘sistemas jurídicos’ que os englobam e os superam (sistemas fundados em realidades étnicas. figuran unos hechos de relaciones interhumanas.. (p.. 186. entre Rechtskreise e Kulturkreise [.. (p. se trata de ideas de justicia en los sujetos principales de esa experiência [. en tanto que tales. econômicas.] la ‘experiencia jurídica’ es un conjunto muy complejo. pero unitario. propiamente de relaciones sociales y colectivas. 51) [. São Paulo.. e também.]. una cuestión de conducta. de acuerdo con pautas de justicia. mais além dos direitos (ordres.35 Outrossim. 7-27.. a valorizar a praxis e os fatos sociais concretos. así como de valoraciones o ideales. Ricardo Regis. realidades que. 36 LARAIA. sino al nivel de la práctica en la realidad efectiva. vale lembrar. 50) [. abr. se trata de la experiencia de problemas prácticos de convivencia y cooperación interhumana. (p. erizados de dificultades. 11. 51) [. Pierangelo. transcrevemos: “[.. de sistemas jurídicos 35 Ibidem.. 50) En ese conjunto de datos. além dos direitos estatais e nacionais. 50-52. p. Direito romano atual./jun. 38 Ibidem. tal y como ellas son. complejísimo pero unitario.9 jurídicas”. entre grupos diferentes [.. de afanes.. ordenamentos) estatais e nacionais. profesadas por los diversos hombres y por los distintos grupos sociales involucrados en esos hechos conflictivos. un problema práctico. Esos problemas prácticos. de muchos y diversos datos. Pierangelo Catalano traz à colação o desenvolvimento entre os juristas de “duas tendências. Se trata también del peso propio de determinadas realidades sociales [.] la expresión experiencia jurídica se toma como conocimiento inmediato y directo de una serie de datos que intervienen en la formación y en el desarrollo del Derecho. consisten en colisiones.. y precisamente ser solventadas de modo ejecutivo. n. y entre éstas y las limitaciones que la realidad impone.]. Esas realidades no son simplemente realidades frías. sistemas jurídicos e direito latino-americano. y de valores..] Es decir.] Esa experiencia es. ideológicas. en disputas que requieren ser solventadas prácticamente. p. .. p..

Enciclopédia Saraiva do Direito. Segundo este mesmo autor. justificação e causação. nossa prática discursiva estruturou e contrapôs dois sistemas de asseverações e de convencimentos com fins de fundamentação racional. R.. o sistema jurídico precisa contemplar “as condições particulares geográficas. baseados em realidades étnicas. A este modelo de explicação foi contraposto um modelo semântico. Refazer os respectivos percursos. v.. Cambridge: Harvard University Press. 40 Ibidem. Brandom. and discursive commitment. Ob. em contraposição ao lógico-dedutivo. econômicas. ideológicas. Tales of the mighty dead: historical essays in the metaphysics of intentionality. de un modo previo a las interpretaciones que nuestra inteligencia pueda añadir sobre tales objetos”. Luis Recaséns. a propósito de intencionalidade e normatividade. cria uma nova forma de elaboração dos sistemas 39 CATALANO. se trata de objetos pre-existentes. cit. In: FRANÇA. 41 SICHES. los cuales nos aparecen como datos ante nuestra conciencia.. do particular e do específico.. Articulating reasons: an introduction to inferentialism. numa comunidade de caracteres jurídico-formais e doutrinais. evidenciar seus elementos e torná-los complementares é o propósito do programa por ele denominado de “inferencialismo”. Making it explicit: reasoning. sociais e políticas”40 do espaço no qual se encontra instituído.] al hablar de experiencia. Cambridge: Harvard University Press. Ao contrário. o que lhe possibilita funcionar como elemento de resistência contra a penetração externa que tende a desnaturar as características que lhe são próprias. p.. Pierangelo. como é obvio. Robert B. 1977. 1994. 44 Vide BRANDOM.41 identifica um sistema inferencial. São Paulo: Saraiva. Robert B. ao correlacionar certeza e necessidade. 69. Robert B. se intenta manifestar que no se trata de objetos elaborados por la mente o la razón. por el contrario. p. Robert B. Introducción. . Limongi. baseado na representação. 2000.10 (Rechtskreise) que os incluam e superem. 4. 2002. como na Ética e no Direito. 42 Vide BRANDOM.43 Esta retomada da inferência nos parece muito promissora quando aplicada ao conhecimento de valores. sino que.39 Ou seja.44 Isto não impede (a aplicação) ou contrasta com a existência dos sistemas legais vigentes nos países envolvidos. Cambridge: Harvard University Press. articulada num processo de construção indutivo. econômicas e também. que no se trata de aportaciones del sujeto pensante. 43 Vide BRANDOM. 50: “[. p. das normas e da fundamentação prática. mostrou ser necessário refazermos os caminhos da inferência enquanto processo de constituição do conhecimento. Esta novel formulação sistemática.. representing. Sistema jurídico latino-americano.42 Este programa é levado aos campos do agir. 3. Na linha da ciência empírico-objetivista deu-se ênfase à construção inferencial-dedutiva.

destarte. na visão de Norberto Bobbio apud Miguel Reale. cit. ed. assim. Direito do Comércio Exterior e Direito Comunitário”45. das quais exsurgem seus princípios informadores e servem de fato gerador para as proposições 45 MIRANDA. p. Ob. especialmente no que tange às matérias de interesse imediato da região. 2. Direito da Navegação (Fluvial). aspecto preponderante para sua autonomia. além do fundamentado. O direito como experiência. de consolidar a posição que deve ocupar no quadro da Ciência Jurídica. orientado e organizado coerentemente no intuito de recepcionar os ditames transpostos do Direito público. 47 REALE. Miguel. em sentido estrito. tir. Cuida-se. Tal postura torna-se peremptória. da qual esta proposição tirou não só a sua razão de ser. que se tome o Direito Amazônico. O pensamento pragmático que a acompanha é o resultado natural de uma pluralidade de sistemas que interagindo com a experiência e a praxis encontram suas fontes materiais. porquanto “o jurista não pode compreender o significado de uma proposição normativa sem remontar à realidade social. abarcadas pelo “Direito Ambiental. princípios e instituições. p. São Paulo: Saraiva. LXV. um verdadeiro sistema inferencial. 2. Propugnamos. Sedimentar o Direito Amazônico como sistema é. maior visibilidade ao objeto que o constitui. 1999. 257. cit. em Direito”46. Ob. desta forma. conseqüentemente sistema – quanto à situação metodológica –. O Direito Amazônico seria. assim. . um conjunto ordenado. diferencial que vincula o legislador à completa observância da matéria que envolve e razão suficiente para que discipline as respectivas proposições normativas atinentes ao seu conteúdo. Direito Agrário. pelo simples fato de que nenhum sistema (mesmo o mais formalizado) é auto-suficiente para explicar e resolver a si próprio.] a base de qualquer discurso científico. do Direito privado e das áreas intermediárias a estes – no concernente à natureza jurídica –. haja vista que “a idéia de sistema é [.. muito menos às questões que lhe são submetidas..11 legais nacionais e de sua justificação. dando. Claus-Wilhelm. assim. Direito Minerário. Direito Indígena. gerados dentro de um processo indutivo de construção do Direito. A idéia polissistemática aqui se justifica. como sistema jurídico. formando normas. 46 CANARIS.. mas também as noções de que é composta”47. Alcir Gursen de.

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