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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ – UFPI

CENTRO DE CIENCIAS HUMANAS E LETRAS – CCHL
BACHARELADO EM CIENCIA POLITICA
DISCIPLINA: METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTÍFICO
PROFESSORA: ANA PAULA DE ARAUJO LIMA
ALUNO: AMÉRICO RIBEIRO

RESUMO

TERESINA – PI
2015

OLIVEIRA, Nythamar de. Rawls. (Coleção Filosofia Passo-a-Passo; 18). Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2003. p.7-24.

De uma maneira geral, pode-se dizer que toda a obra de Rawls, em particular a
sua trilogia (Uma teoria da justiça, O liberalismo político e O direito dos povos), defende sua
concepção procedimental de liberalismo, apropriadamente denominada de “justiça como
equidade”. Assim, o intuito inicial de generalizar e elevar a um nível mais alto de abstração
teórica a concepção de justiça inerente ao contratualismo de Locke, Rousseau e Kant é
corroborado através de suas revisões e reformulações de um modelo procedimental de
liberalismo, capaz de conjugar o igualitarismo (igualdade de bem-estar social) e o
individualismo (liberdades individuais). O contexto histórico e político da obra-prima de
Rawls é marcada pela Guerra do Vietnã. Em Harvard, Rawls encontrava-se no meio do fogo
cruzado entre o conservadorismo de W.V. Quine e o maoísmo de Hilary Putnam. Além de
assumir publicamente sua posição pacifista contrariando os republicanos americanos, Rawls
preocupava-se com os rumos do Welfare State. Sua filosofia política se desenvolve sobretudo
pela questão do igualitarismo e uma resolução das desigualdades sociais do capitalismo
tardio. Intercambiando moral e política, ele caracterizará mais tarde sua Teoria da Justiça
como uma “doutrina moral abrangente”. A obra não é uma leitura fácil, mas chamou a atenção
pela precisão, clareza e coerência. Divide-se em três partes: “Teoria”, “Instituições” e “Fins”
com nove capítulos. As duas primeiras partes apresentam uma teoria geral da justiça,
enquanto a terceira fala da teoria não-ideal. É uma analise deontológica, isto é, para
problematizarmos a sociedade como ela é, partimos da ideia de como ela deveria ser,
enquanto sociedade justa. Seu igualitarismo liberal encontra-se em conceitos como “posição
original” e “sociedade bem-ordenada”. Em sua teoria não-ideal, Rawls vê a cultura política,
movimentos sociais e reformas constitucionais como uma aproximação dos ideais de justiça,
liberdade e igualdade. Afastando-se do positivismo jurídico e do jusnaturalismo clássico,
podemos caracterizar sua obra conceitual como mais próxima da filosofia prática de Kant.
Segundo Rawls, o conceito de justiça na filosofia prática equivaleria ao de verdade para uma
teoria do conhecimento. Tal como a gramática é pressuposto da linguagem e a razão é
pressuposto do juízo e do pensamento, a justiça e o bem são inerentes às pessoas morais,
livres e iguais, vivendo em uma democracia. A “justiça como equidade” apenas revela que
liberdade e igualdade são ideias latentes no ser humano. A posição original propõe uma nova
versão do contratualismo: hipoteticamente, todos se reúnem (pessoas livres e iguais) para

decidir sobre a distribuição dos bens e direitos básicos. Na posição original, estaríamos sob
um “véu de ignorância”, ou seja, esta situação aumentaria a probabilidade de escolhermos
com imparcialidade o que realmente acharíamos justo. Contra uma teoria de escolha racional
hobbesiana, Rawls propõe uma racionalidade deliberativa, inspirada no utilitarismo de Henry
Sidgwick, na qual a escolha de um bem individual deve levar em consideração os interesses
dos outros envolvidos, otimizando as possibilidades de concretização dos fins racionalmente
escolhidos por cada um. Assim como o contratualismo postula um contrato social que vai da
passagem do estado de natureza (“guerra do todos contra todos”) ao estado de direito
(“sociedade civil”) o modelo de Rawls recorre ao dispositivo procedimental da posição
original para justificar a sociabilidade como um sistema justo de cooperação social entre
pessoas livres e iguais. Sua filiação kantiana decorre da concepção de justiça como
imparcialidade em oposição a Hobbes que vê a justiça como regramento de interesses ou
barganha; de sua argumentação deontológica, a posição original como teste universalibizante
e seu liberalismo constitucional baseado na ideia de liberdade e tolerância de John Locke e na
igualdade e vontade geral de Rousseau. Os princípios adotados por pessoas racionais na
posição original seriam os seguintes:

Princípio Primeiro ou Principio da igual liberdade: Cada pessoa tem direito ao
conjunto de direitos que podem ser distribuídos igualmente a todos sem prejudicar
ninguém. A liberdade política, liberdade de expressão, liberdade de pessoa etc. Esse
primeiro princípio diz respeito ao conjunto de direitos que incluem todos os direitos

políticos e civis básicos.
Principio Segundo: as desigualdades sócias e econômicas só serão justas quando: a) as
posições privilegiadas da sociedade estiverem abertas a todos que preenchem certas
condições de talento e esforço ou princípio da igualdade equitativa de oportunidades;
b) as desigualdades beneficiarem os cidadãos menos privilegiados ou princípio da
diferença.

Sobre o primeiro principio, traduz a ideia de primazia do justo sobre o bem, no sentido
deontológico (moral do dever) em que a liberdades individuais são invioláveis na medida
em que se asseguram acima de todos os ajustes sociais envolvendo oportunidades e
desigualdades, evitando privilegiar indivíduos em detrimento de outros. Sobre o segundo
principio, o mais polêmico dos defendidos por Rawls, as desigualdades se inserem na
esfera maior das igualdades, sendo justas e mesmo aceitáveis na medida em que
beneficiem os menos privilegiados em casos como a ação afirmativa, (o sistema de cotas).

Mas essa distribuição de bens sociais não é um igualitarismo social como no socialismo
ou comunismo. A polêmica seria porque, na posição original, sob um véu de ignorância,
não levaríamos em conta, por exemplo, o talento e habilidades das partes e dos cidadãos
representados. A saída aponta a Rawls seria “maximizar o mínimo”, isto é, optar pelo
“menor dos piores resultados possíveis” ou pelo “melhor resultado dentre os menos
favorecidos pela escolha realizada na posição original”. Em suma, o racional seria adotar
o principio da diferença: deixar as pessoas mais talentosas prosperarem, já que elas
também podem estar entre os mais pobres. Vemos, portanto, que o igualitarismo liberal
visa efetivar uma justiça distributiva e não uma justiça alocativa. Foi erroneamente
apontado como um Welfare State, uma social democracia. Rawls admitiu que a questão
central de suas colocações foi de oferecer subsídios para uma defesa da democracia
constitucional através de uma ideia de razão pública. Na Teoria da Justiça, Rawls
estabelece o critério público como procedimento para uma sociedade em termos morais.
Esse procedimentalismo puro opõe-se tanto ao procedimentalismo perfeito de Aristóteles
e quanto ao procedimentalismo imperfeito judiciário. Essa suposta simetria das partes na
posição original parecia comprometer, para seus críticos, seu pensamento em dois pontos
principais: sua concepção normativa de pessoa ou noumênica no sentido kantiano, seria
capaz de efetivar as transformações sociais dos dois princípios? Ou por outro lado, Rawls
não seria suficientemente kantiano na própria ideia de racionalidade prática. O conjunto
de críticas mais contundentes partiu, obviamente, dos comunitaristas que acusavam a
teoria rawlsiana de favorecer o status quo e de desconhecer a natureza humana,
socialmente condicionada e movida por interesses de classe. Segundo eles, a sociedade
sempre precede o indivíduo, argumentando que toda identidade seja social, cultural ou
étnica é determinada a priori na inserção do indivíduo num determinado contexto social.
Rawls acatou estas e varias outras críticas, onde vinte anos depois publicaria o seu
Liberalismo Político, revisando conceitos que lhe eram caros como o de “justiça como
equidade” não mais vista como concepção filosófica, mas em sua especificidade política,
isto é, não partindo mais de uma posição original mas do consenso sobreposto de uma
sociedade cujo poder político é exercido de acordo com a constituição endossada por um
pluralismo democrático e razoável. A partir de 1980, Rawls publicará cada vez mais
estudos sobre o “construtivismo kantiano” mantendo tanto suas premissas políticofilosóficas quanto ajudando a entender essa nova guinada pragmática da justiça como
equidade.