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DITADURA MILITAR, MOVIMENTO DE RECONCEITUAÇÃO E SERVIÇO

SOCIAL
Américo Ribeiro
RESUMO
O objetivo deste texto é apresentar contribuições para a análise do processo de renovação do
Serviço Social durante a Ditadura Militar ocorrido no Brasil no período de 1964 a 1985 e a
redemocratização na década de 1980, pois este momento histórico brasileiro reflete muitas
concepções a serem debatidas. A análise da reconceituação tornou-se um desafio para os
pesquisadores devido as suas várias razões, motivos e aspectos, pois resgata o
desenvolvimento, o funcionamento e o fim do sistema ditatorial burguês como um todo.
Palavras-chave: Ditadura. Serviço Social. Reconceituação.
INTRODUÇÃO
O espaço de tempo que é sustentado pela duração da Ditadura Militar determinou
um período que se traduz de extrema importância na evolução do Serviço Social no país.
Pode-se sustentar com segurança que esse momento histórico restringe uma etapa do
desenvolvimento da profissão nas quais refletem de modo imediato e indireto, uma falta de
opinião em momentos anteriores de sua história com exceção da transição do Serviço Social
durante as décadas de 1930 a 1940, ou seja, o surgimento da profissão no cenário brasileiro.
Sob a ótica profissional a renovação do Serviço Social torna-se a expressão mais característica
desse momento político do país. No campo da qualificação e funcionalidade representativa,
alteram-se muitas demandas do exercício profissional e de sua colocação no mercado de
trabalho; sofrem-se modificações na formação dos quadros técnicos; e as referências teóricas,
ideológicas e metodológicas recebem influências consideráveis. Este novo modo de lidar com
essas novas determinações ordena, especialmente, uma distinção e uma resignificação da
profissão sem antecedentes na sua própria história. Durante a década de 1980, a liderança do
Serviço Social apresenta de forma contraditória e simultânea, correntes construídas durante a
formação profissional desde a sua origem: a mudancista, o conservadorismo e a intenção de

 Graduado em História pela Universidade Estadual do Maranhão – Centro de Estudos
Superiores de Caxias (CESC-UEMA) e Pós-Graduado em História do Brasil pelo Instituto de
Ensino Superior Franciscano (IESF).

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ruptura. A partir da década de 1980, com a abertura política no Brasil, o serviço social
apresenta-se eclética no seu pensamento ideológico, mas o marxismo se afirma como o
pensamento mais hegemônico e crítico à realidade política e social brasileira.

2 A RENOVAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL SOB A DITADURA MILITAR
O estabelecimento e as novas situações impostas pela ditadura militar burguesa
contribuem para as bases histórico-sociais do Serviço Social e antecipam uma lista de
portadores que se desenvolvem a partir da segunda metade da década de 1950 para a perda da
tradicional prática conservadora do exercício profissional anteriores à ditadura.
Pois o avanço da industrialização no cenário econômico e social ocorrido no final
da década de 1950, ampliava as demandas de intervenção na “questão social” que se
desenvolveu e incrementou-se às práticas profissionais concretizadas nas intervenções de
abordagem individual e de grupo e o desenvolvimento da abordagem de comunidades. Essa
elevação teórica e interventiva se fazem em sintonia com a nova realidade social, provocando
mudanças significativas no desempenho do profissional para questões mais amplas na
sociedade.
Mesmo que ainda acrítico e não manifestando rompimento com o tradicionalismo,
permitiu uma pequena abertura num espaço de questões microssociais. O assistente social foi
inserido em equipes multiprofissionais, elevando o status da profissão nos quadros
administrativos e decisórios do Estado.
O cenário político brasileiro contribuía para o novo processo profissional dado
pela era do desenvolvimentismo. O Desenvolvimento de Comunidades se desenvolvia porque
a questão social no Brasil exigia uma intervenção técnica mais ‘eficiente’ e ‘qualificada’. O
assistente social desejava sair da condição caritativa para ‘agente de mudança’, o “II
Congresso Brasileiro de Serviço Social”, realizado no Rio de Janeiro, 1961, exprime como o
serviço social exalta a intervenção no desenvolvimento de Comunidades como a forma mais
eficaz para atender as demandas da sociedade brasileira. A crise no serviço social ‘tradicional’
apenas se apresenta como sinalizadora de sua erosão. Posteriormente, o amadurecimento de
setores da categoria profissional; a articulação com outros profissionais e com movimentos
sociais, e outras instâncias (setores administrativos), provocam a erosão do tradicionalismo do
serviço social de forma mais intensa.

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Como consequência, a profissão desvincula-se de segmentos da Igreja Católica
devido ao conservadorismo cristão. O surgimento de ‘católicos progressistas’ e de uma
‘esquerda católica’ militante influi fortemente na profissão. Outro desenvolvimento influente
foi uma extensão do movimento estudantil nas escolas de serviço social. Por fim, as ciências
sociais exercem referencial significativo no serviço social, carregado por formas de expressão
crítica e nacional populares.
O resultado dos elementos caracterizadores do processo de renovação do serviço
social faz crítica às práticas tradicionais da profissão ao mesmo tempo em que traz diferenças
às novas exigências, com destaque ao Desenvolvimento de Comunidades devido a mudanças
socioeconômicas na estrutura política do Brasil, dinamizado pelo sistema capitalista. Em abril
de 1965, o golpe da ditadura militar interrompeu o programa de Desenvolvimento de
Comunidade modificando sensivelmente o seu ambiente de desdobramento. Isso se deu
contraditoriamente: no início, a ditadura militar instalada suprimiu os atores sociopolíticos
que sustentavam o ideal crítico e progressista à crise em desenvolvimento no serviço social
‘tradicional’ e que estavam envolvidos com a democratização da sociedade e do Estado.
Porém, a ditadura com o cumprimento de seu projeto de ‘modernização conservadora’,
propiciou a antecipação dessa crise na categoria profissional. Mesmo que as formas
tradicionais tenham seus fundamentos de legitimação esgotados, o conservadorismo
sociopolítico ligado a essas práticas produziu outros elementos de apoio e legitimação para
suas concepções profissionais.
A crise do serviço social tradicional que emergiu no início da década de ’60, não
se limitou ao contexto histórico da política social brasileira manifestando-se sob vários
aspectos em muitos países dado ao seu envolvimento na organização social do trabalho e da
união com bases de legitimação. Uma série de fatores favoreceu a crise ocorrida no
tradicionalismo da profissão. O esgotamento do desenvolvimento capitalista originado a todo
vapor desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, vigorou até a década de 1960. O
estado de incerteza das sociedades capitalistas e os avanços tecnológicos no mundo
favoreceram os movimentos sociais dos trabalhadores que reivindicaram seus interesses
imediatos de políticas sociais para a classe operária. Neste ambiente, surgem movimentos de
classes mais direcionados, tais como: negros, mulheres, estudantes, questões socioambientais.
Este quadro é extremamente favorável ao movimento de reconceituação contra as práticas
profissionais tradicionais.
A ordem burguesa do sistema capitalista é discutida, o aparente conjunto de
processos tecnicamente oficializados visa evitar manifestações políticas e são negados pelos

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resultados expostos pela intervenção institucional. A mudança no interior da profissão se dá
pelo novo exame crítico que as ciências sociais com cunho socialista em negação ao
funcionalismo e superficialidade acadêmica; pela desvinculação do pensamento cristão
católico em sua maioria, e protestante em sua menor representação. Por fim, o movimento
estudantil se destaca pela atuação dos alunos na capacidade em atrair professores dos cursos
de serviço social.
A reconceituação do serviço social divide particularidades tanto no Brasil como
nos outros países da América Latina, porém, deve ser analisados dentro do contexto histórico
político e social de cada país. Na América Latina, a reconceituação do serviço social está
ligada ao circuito político na década de 1960, o que vai demandar a função da profissão na
superação das expressões da questão social e nas relações sociais com aumento da sua
clientela pauperizada, principalmente sob o colapso dos acordos políticos do pós-guerra e o
surgimento de novos atores no cenário político. Nesse movimento é que os profissionais do
serviço social se unem para a renovação da profissão nas dimensões do continente sulamericano. O “I Seminário Regional Latino-Americano de Serviço Social”, em Porto Alegre,
em maio de 1965, desempenhou um papel fundamental no processo de atualização da classe.
Nesse seminário se discute os eixos temáticos que desenvolvem a corrente modernizadora.
Mas num prazo de 50 anos, essa união latino-americana de desfaz pela imposição da ditadura
pela sua imposição repressiva para impedir as alternativas de reforma e democrática por
meios revolucionários. O crescimento do movimento de reconceituação que se esgota por
volta do ano de 1975, explicita a heterogeneidade de correntes teóricas e ideológicas,
eliminando assim a homogeneidade que determinou o seu surgimento. O pensamento
marxista emerge mais claramente aos assistentes sociais. A partir desse aumento de
pensamentos mais pluralista, o marxismo cria espaço para interlocução com os assistentes
sociais e realizar análises críticas da realidade social. Outro elemento importante para a
reconceituação da profissão é a articulação dos assistentes sociais nos limites intercontinentais
com o intuito de intervir nas questões e problemas inerentes à América Latina com a
apropriação das teorias marxistas.
Os Seminários de Serviço Social foram desenvolvidos em grande parte pelo
CBCISS para a elaboração das teorias profissionais, os cursos de pós-graduação também
contribuíram para a formação dessas teorias. Soma-se a estes, organismos ligados às agências
de formação profissional – ABESS, associações e sindicatos profissionais. Houve um
aumento considerável dos interlocutores devido à existência de vários organismos envolvidos,

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aumento da categoria profissional, e o surgimento de segmentos cada vez maiores com
profissionais divulgadores dos eixos temáticos da renovação.
A perspectiva modernizadora é um esforço no sentido de adaptar o serviço social
como instrumento de intervenção para aplicar estratégias desenvolvimentismo do capitalismo
e às exigências postas pelos processos sócio-político surgidos na ditadura, ápice da
formulação ideológica modernizadora. Os seminários de Araxá – MG em 1967, e Teresópolis
– RJ em 1970, revelam o pensamento do Estado fundado na predominância do técnico
burocrata social. O desenvolvimento da modernização profissional apresenta fortes
vinculações com a ditadura vigente através de contratações dos assistentes sociais nas
instituições e organizações estatais e paraestatais, o assistente social deixa de exercer funções
nas obras sociais para desempenhar funções na estrutura administrativa estatal. A
característica principal desta perspectiva modernizadora é o seu papel acrítico à ordem
societária capitalista e ditadura instaurada em abril de 1965, e a preocupação em aperfeiçoar
as técnicas, instrumentos e apropriação das referências positivistas para atender as demandas
sociais. A reatualização do conservadorismo aponta para uma vertente que recupera os
elementos extraídos na origem da história da profissão; apresenta uma auto-afirmação e
autojustificação com a negação do positivismo dominante e do marxismo dialético. Assume a
corrente fenomenológica distanciando-se da ideologia positivista da ditadura e uma ausência
nos debates promovidos no interior do serviço social.

3 DA DITADURA À REDEMOCRATIZAÇÃO NA DÉCADA DE 1980
A intenção de ruptura do serviço social manifesta o propósito de romper com suas
origens teórico-metodológicos do pensamento conservador e positivista, e com os padrões
interventivos e reformista. Na sua formação, emerge a crítica social desenvolvidas no início
da década de 1960 que supunham rupturas com o sistema político dominante, mas a ditadura
isolou esta vertente até a segunda metade da década de ’70. No início da década de 1980, esta
perspectiva direcionava o pensamento politizado da profissão. Muitos profissionais aderiram a
esta nova vertente, tornando-a hegemônica. O Congresso Brasileiro de 1979 e os congressos
seguintes confirmam esta tendência. As atividades desenvolvidas no final da década 1970 e
durante a década de 1980 permitiram as pesquisa, seminários, aumento das publicações para a
conscientização e enriquecimento da análise crítica do serviço social. A reconceituação

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marcou de forma definitiva o serviço social latino-americano. O movimento aponta para
algumas conquistas que se interam da atuação profissional na América Latina como um todo:

A unificação de uma nova concepção ideológica, negando as influências confessionais
das ideologias religiosas e da tutela dos organismos internacionais, com integração
profissional e intercâmbio cultural para atender as demandas da realidade sulamericana.

Explicitação da atuação política profissional – em geral, esquerdista.

Nova interlocução crítica com as ciências sociais, abrindo espaço para novas
tendências do pensamento social atual.

A inauguração do pluralismo profissional como recurso para a aplicação de práticas
teórico-metodológicas na sua atuação.

Recusa do assistente social como mero executor técnico das políticas sociais para se
tornar profissional de atividades de planejamento, valorizando o intelecto adquirido
nas pesquisas como atributo do assistente social também.

4 CONCLUSÃO
Através da elaboração deste texto por meio de comparação crítica entre os textos
“O Movimento da Reconceituação” e “Ditadura e serviço social no Brasil” (José Paulo Netto)
podemos ver como a Renovação do Serviço Social se processou durante e após a Ditadura
Militar burguesa conservando uma ligação intrincada e bastante complicada com a
representação conservadora anterior da profissão. A renovação surge sobre a crise e o
esgotamento da legitimação das constituições profissionais ‘tradicionais’, recuperando os
pontos centrais, como também surge a restrição das opções de escolha inseridas nos contextos
da crise. Se a ditadura afligiu o poder de um grupo sociopolítico que compôs as tendências
profissionais mais avançadas e de pensamento crítico em abril de 1964, essa mesma
autocracia societária não conseguiu eliminar de fato com as influências que os movimentos
democráticos, progressistas e marxistas exerceram sobre a sociedade brasileira, e sobre mim
como estudante de Serviço Social. Pois mesmo sem mecanismos para confrontar o poder
dominante pelo exercício profissional, os assistentes sociais críticos determinaram mais
ganhos e conquistas à hegemonia de classe do que perdas e limitações neste espaço de tempo
histórico.

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REFERÊNCIAS
NETTO, José Paulo. Ditadura e serviço social no Brasil: uma análise do serviço social no
Brasil pós-65. 9 ª ed. São Paulo: Cortez, 2005. Capítulo II.
_________.

O Movimento da Reconceituação – 40 anos depois. In: Revista Serviço Social e
Sociedade, 84, Ano XXVI, novembro de 2005, São Paulo: Cortez.