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DA VISÃO TRICOTÔMICA

À VISÃO COMPLEXA
DO DIREITO - UM NOVO
PARADIGMA
Bruna Molina Hernandes da Costa

Defensora Pública do Estado. Especialista em Direito Processual Civil.
Mestranda na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em Direito
das Relações Sociais, subárea direitos difusos e coletivos.

INTRODUÇÃO
A dicotomia Direito Público versus Direito Privado, ainda ministrada nas faculdades de Direito, encontra-se mais do que superada. Com o surgimento da sociedade
moderna, massificada, consumerista, desenvolveu-se a visão tricotômica do Direito,
que alia a estes dois conceitos a categoria dos direitos Difusos, categoria esta que
abrange princípios tanto do Direito Privado quanto do Direito Público.
O que se buscará no presente artigo é superar também a visão tricotômica
do Direito, por meio da demonstração de um novo paradigma. Apresenta-se, assim,
como base teórica desta nova visão, chamada visão complexa do Direito, a teoria da
complexidade, desenvolvida pelo filósofo francês Edgar Morin.
Importante frisar que não iremos discutir a teoria da complexidade, não tendo
esta sido pesquisada na visão de outros estudiosos. Baseamos nossas divagações
apenas nos ensinamentos de Morin, visando utilizá-los para melhor entender as divisões do direito e sua necessidade de superação.
SUPERAÇÃO DA DICOTOMIA DIREITO PÚBLICO VERSUS DIREITO PRIVADO
O Direito Romano, base de toda nossa estrutura jurídica, se baseava em uma
tutela de interesses estritamente individuais, posto que eram os interesses individuais
que estavam no centro das atenções da sociedade antiga. Após a revolução francesa, se acentua a ideia do direito individual como fundamento da tutela jurisdicional.
Foi no Corpus Iuris Civilis Justinianeu, em definição de Ulpiano1, que se diferenciou o Direito Público e o Direito Privado como aquele referente ao Estado e à pessoa,
1  

Reale (2002, p. 339).

com a Revolução Industrial. o tipo de interesse jurídico que se busca resguardar. 2  3    Nery (2002.   Nery (2002. Já o professor Miguel Reale entende que “toda ciência.    Na lição do professor.    Na lição da professora Rosa Nery. enquanto às regras de Direito Privado buscariam a mantença da liberdade. caracterizado por grandiosas transformações que culminaram na edificação da chamada sociedade de massa. Se a relação é de coordenação. o Direito é público. 2002. 6 . 93). tal diferenciação entre as situações privadas e públicas acabou por resultar na diferenciação e divisão das disciplinas. de Direito Privado. tradicionalmente. Assim. Na seqüência. considera-se de Direito público a situação jurídica vivenciada pelo sujeito que atua com poderes de autoridade (ius imperii). p. a natureza jurídica do sujeito de direito sob análise ou a qualidade da posição jurídica de tal sujeito. Se a relação é de subordinação. p. 92). p. 4 5   Reale (2002. dos quais os da autoridade e da competência são os mais marcantes”2. intimidade e dignidade do homem. jurisdições e ramos de atividade profissional em segmentos do Direito Público e do Direito Privado. a classificação do direito é dividida entre público e privado. Todo pensamento jurídico antigo e contemporâneo estruturaram-se pautados neste conceito. sem a ingerência das sobreditas estruturas de poder. Quando imediato e prevalecente o interesse particular. 2002. distinguindo tais categorias de acordo com o conteúdo ou objeto da relação jurídica e quanto à forma da relação existente6. o que implica dividir as normas jurídicas a partir dos sujeitos aos quais elas são endereçadas. trata-se. geralmente. de Direito Público” (REALE. ter suas partes claramente discriminadas”5. o Direito é privado. As regras de Direito Público diriam respeito às estruturas de poder. “as situações jurídicas privadas pautam-se pela igualdade e pela liberdade. ele defende a distinção entre Direito Público e Direito Privado. 91-92). a saber. Assim. o segundo critério busca distinguir o Direito público do privado a partir da natureza do sujeito de Direito. Num terceiro momento. Se dirigidas ao Estado. e de Direito privado a situação de quem atua sem a invocação desses poderes” (NERY.n. são normas de Direito Público. geralmente.1 . Ainda no dizer da citada jurista. “Quando é visado imediata e prevalecentemente o interesse geral. p.3 Tal diferenciação baseia-se em diversos critérios. “quem opta pelo primeiro critério de distinção parte do pressuposto de que o sistema de Direito público visa à proteção de interesses públicos. Na lição da professora Rosa Nery. precisa ser dividida.4 Muitos defendem que a finalidade da criação deste dualismo foi a necessidade de se resguardar o indivíduo dentro da sociedade e face ao Estado. enquanto o sistema de Direito privado corresponderia à proteção de interesses privados. 339). 340). se endereçadas aos particulares.Ano 5 . enquanto as situações jurídicas públicas têm embasamento em princípios diferentes. para ser bem estudada. trata-se. deu-se o ponto de partida para o fenômeno da massificação social. p. normas de Direito privado.2012 respectivamente. Ocorre que.104 Revista da Defensoria Pública . iniciada na Inglaterra na segunda metade do século XVIII e difundida para outros países.

Em consequência. A antiga classificação entre direito público/privado não leva em conta a lesão nem sua forma de reparação. Em decorrência desta massificação social. à saúde.um novo paradigma 105 A estrutura social dos países que adotaram a industrialização foi alterada radicalmente. à tributação. concentrando-se em regular os fatos sociais. Dessa massificação. pois leva em conta a qualidade jurídica da pessoa sem se preocupar em atentar para a lesão por ela sofrida. Isso ocorre em razão da forma tradicional de enfrentar as questões jurídicas a partir do individualismo encravado na sociedade que se reflete na lei. bem como os problemas próprios de cidades sem a organização e gestão adequadas para proporcionar uma vida digna aos seus habitantes. na medida em que o ordenamento jurídico é espelho de seu tempo. cujos danos são de uma nova espécie. A classificação que emerge com o novo ordenamento jurídico é resultado da sociedade de massa que surge no século XX e se aprimora no século XXI. cuja extensão e a forma de reparação não podem mais ser determinadas individualmente. à moradia e à segurança. isto é. A complexidade cada vez maior da sociedade moderna e pós-moderna dá lugar a atividades que podem trazer prejuízos aos interesses de um grande número de pessoas. sem atentar para a reparação do dano em si mesmo. a lei desloca a atenção do indivíduo para o fato. os conflitos. para se inserirem num contexto global. na qual as relações jurídicas não se projetam em indivíduos determinados. A própria essência do conceito de interesses difusos nos leva a uma nova caracterização dos direitos. deixando de contemplar aqueles direitos que não estão na esfera pública ou privada. verificou-se que tais conflitos evidenciavam a existência de uma nova espécie de interesses – os metaindividuais -. exigiram do Direito o reconhecimento e a criação de instrumentos adequados de tutela. e. ao meio ambiente. sua abrangência. sem com isso estabelecer previamente a fórmula de sua solução. mas em fenômenos coletivos. A dicotomia público/privado destoa dessa moderna concepção de direito. ganharam dimensão ampliada. respectivamente. não mais se limitando à dimensão meramente individual. globalmente. Assim. principalmente ligados às relações de trabalho. cujo traço mais característico é a plurissubjetividade. os direitos públicos e privados. de massa. na ordem coletiva Dessa forma. resultado da agregação do trabalho de máquinas ao humano e transformação da fábrica no centro da vida social e econômica. Os ditos interesses metaindividuais. acelerou-se a urbanização. fazendo surgir . fazendo com que os acontecimentos da vida em sociedade se submetam ao regramento legal. ao transporte. mas oferecendo caminhos diversos. compreendem aqueles que extrapolam a órbita individual. mas apenas as pessoas envolvidas no litígio. mas que dizem respeito a todos indistintamente. evidenciaram-se interesses e conflitos de massa. estreitando o espectro jurídico. os quais.Da visão tricotômica à visão complexa do direito . por via de consequência. ao consumo. à educação. tendo peculiaridades que não permitiam o enquadramento conceitual em nenhuma das duas categorias de direitos até então reconhecidas pelo Estado. intensificada após a Segunda Guerra Mundial.

muitos autores apontam para o surgimento da divisão tricotômica no direito moderno que. Em seu livro O Método. percebeu-se o verdadeiro abismo existente entre Direito Público e Direito Privado. quando se fala em público. o autor desenvolve a chamada teoria da complexidade. Atualmente. vez que possuem caracteres típicos de ambos os conceitos doutrinários.1 . Evidências deste fenômeno estão no Direito do consumidor e no Direito ambiental. pensa-se em algo que não é do indivíduo. Está ocorrendo uma mudança de paradigma. e formado em História. Ainda. mostrando que. Diferencia-se do direito público. Com a superação da citada dicotomia. por vezes até mesmo contraposta ao Estado. há diversas zonas de intersecção dos direitos ditos difusos tanto com o direito público quanto com o direito privado. a uma biosfera saudável. composto de seis volumes. tais diferenciações têm perdido o sentido. Assim. BREVE OLHAR SOBRE A TEORIA DA COMPLEXIDADE. vez que. Porém. nascido em Paris. pois. por vezes possuindo o Estado como parceiro. para os defensores desta corrente. tais conceitos são amplamente coligados. mas que é do governo. interesses gerais. e não se opondo a ele. e não da sociedade enquanto tal. atualmente. o direito deve ser entendido como um todo.2012 problemas ignorados às demandas individuais. cada vez mais. e não apenas interesses de um indivíduo. não se confundem nem com os direitos privados. tendo migrado para a Filosofia. Diferencia-se do direito privado por abranger situações em que interesses de mais de uma pessoa estão sob proteção. com o surgimento dos direitos metaindividuais. Geografia e Direito. E este não é o caso dos direitos difusos. Entretanto. este novo fenômeno é explicitado pela entrada da empresa na atividade pública. de toda a sociedade. E tais lesões têm-se tornado cada vez mais frequentes em nossa sociedade de consumo e de massa.106 Revista da Defensoria Pública . em 1921. Também. nestes casos. vez que até entre estes mesmos existem tais coincidências. Atentamos para a publicização do Direito Privado e para a privatização do Direito Púbico. os quais. passa a dar tratamento autônomo e diferenciado aos interesses transindividuais. que pertencem a todos e a ninguém ao mesmo tempo. tampouco com os direitos ditos públicos.Ano 5 . tempo. o próprio filósofo redigiu um resumo de sua . na vida prática. DE EDGAR MORIN Edgar Morin é um filósofo francês da atualidade. por meio de dispositivos do Direito Público. que é do Estado.n. que pertencem à sociedade. Os direitos difusos não se inserem em nenhuma dessas categorias. o direito a um produto que não cause danos à saúde e segurança. que visam proteger um bem difuso e coletivo. transindividuais ou direitos difusos lato sensu. Sociologia e Epistemologia após ter participado da resistência ao nazismo durante a segunda Guerra Mundial. ao lado dos direitos públicos e privados. notoriamente pelas parcerias público-privadas (PPPs). ao mesmo. Isso traz ao Direito Público institutos caracteristicamente privados. protegem-se.

formulou o que o autor estudado chama de paradigma da simplificação. embora adquiramos conhecimentos cada vez maiores sobre o mundo físico. 5). A Teoria da Complexidade surge com a percepção pelo citado filósofo de que. Buscamos sempre a clareza do real. ao contrario. entre outras. sendo que “a palavra complexidade só pode exprimir nosso incômodo. mas não consegue ver que o uno pode ser ao mesmo tempo múltiplo. biológico. redução e abstração. p.um novo paradigma 107 teoria no livro intitulado Introdução ao Pensamento Complexo.7 Entretanto.Da visão tricotômica à visão complexa do direito . operando por seleção de dados significativos e rejeição de dados não significativos. Porém. paradigma essencial do Ocidente. Assim. isola todos os seus objetos do seu meio ambiente (. justapõe a diversidade sem conceber a unidade. Assim. qual seja. que fragmenta ainda mais o tecido complexo das realidades. no entanto. . ou o múltiplo. mutilações do real e do conhecimento. para nomear de modo claro. 8    Morin (2007. chegou-se a uma outra simplificação do pensamento.) As realidades-chaves são desintegradas. psicológico. para ordenar nossas idéias”. os adeptos não se ativeram à ideia de que o pensamento simplificador é incapaz de conceber a conjunção do uno e do múltiplo. O conhecimento científico (incluindo aqui as ciências sociais) tem como missão dissipar a complexidade apresentada pelos fenômenos. nossa incapacidade para definir de modo simples. chega-se à inteligência cega. As disciplinas das ciências humanas não têm mais necessidade da noção de homem. 9). ignorância e cegueira progridem ao mesmo tempo que os nossos conhecimentos.9 A simplicidade vê o uno. Para Edgar Morin. estes cortes. Ou ele unifica abstratamente ao anular a diversidade.. precisamos tomar consciência. a hiperespecialização. mas no modo de organização do nosso saber num sistema de ideias (teorias. Ou o principio da simplicidade separa o que está ligado 7    Morin (2007. erro. tornando simples e inteligível o que antes era obscuro. p. Descartes. à sua época. sociológico. que destrói os conjuntos e as totalidades. nossa confusão. na verdade. livro utilizado para o desenvolvimento do presente trabalho e para a exposição sucinta da citada teoria. apenas produzem mais cegueira. ideologias)”8. onde imperam os princípios da disjunção. Elas passam por entre as fendas e separam as disciplinas. 12). de que “a causa profunda do erro não está no erro de fato (falsa percepção) ou no erro lógico (incoerência). pelo contrário. ou. não exprimem as realidades.. por todo lado. erros e ignorância. 9    Morin (2007. p.

que a inteligibilidade do sistema deve ser encontrada. Num segundo momento.108 Revista da Defensoria Pública . distinguir. nem mesmo a ação. 22. substituir um paradigma de disjunção/redução. Mas então a complexidade se apresenta com os traços inquietantes do emaranhado. afastar o incerto. hierarquizar. 13-14). p. que constituem nosso mundo fenomênico. em sua teoria. sabendo que não se pode programar a descoberta. a fim de melhor estudar os fenômenos sociais. e que não sabe que uma parte do real é irracionalizável12. 10 11    Morin (2007. que encerra o real num sistema de ideias coerente. em resumo. mas também nos conceitos. mas tais operações. Edgar Morin. mas de desequilíbrio. . ações.. acasos. pois entende que tudo é solidário. não apenas nos fenômenos. clarificar. Então. da desordem. e mais. A incerteza. p. na racionalização. e que esta relação não é uma simples    “A um primeiro olhar. 14). 2007. mas também na sua relação com o meio ambiente. É verdade que a complexidade não isola os objetos. neste momento. se elas eliminam os outros aspectos do complexus” (MORIN. explica que a complexidade é a teoria que aceita o acaso.Ano 5 . da incerteza. o determinado.. onde entende que “as leis de organização da vida não são de equilíbrio. 13    Ibidem. por outro que permita distinguir sem disjungir. 12    Morin (2007). determinações. “É preciso aceitar certa imprecisão e uma imprecisão certa. não confundir complexidade com completude. da ambigüidade.. selecionar os elementos da ordem e da certeza. p. de dinamismo estabilizado”13. recuperado ou compensado. Porém. a própria consciência da complexidade nos faz compreender que jamais poderemos escapar da incerteza e que jamais poderemos ter um saber total. necessárias à inteligibilidade. possuindo um caráter multidimensional da realidade. correm o risco de provocar a cegueira. Por isso o conhecimento necessita ordenar os fenômenos rechaçando a desordem.2012 (disjunção) ou unifica o que é diverso (redução). 15..1 . a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos. sem mutilações.”11 Observe que o pensamento complexo não recusa de modo algum a clareza. de associar sem identificar ou reduzir. mas parcial e unilateral. a contradição. a ambiguidade. as contradições são ínsitas aos limites de nosso conhecimento e aos fenômenos naturais. a incerteza. retroações. p.n. o acaso. a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido junto) de constituições heterogêneas inseparavelmente associadas: ela coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. A patologia moderna está na hipersimplificação do conhecimento. isto é. a imprecisão. o que seria a complexidade? O próprio autor elabora um conceito para sua teoria onde. Morin propõe uma ideia de sistema aberto. sem cortes. Importante. o conhecimento. propõe substituir paradigmas. tendo sempre em vista que um pensamento mutilador conduz necessariamente a ações mutilantes. precisar. completo. a ordem. Assim. interações. Ele apenas os considera insuficientes. não penas no próprio sistema. de modo a não provocar “cegueira” e não retirar o aspecto complexo do real10.

44. se complementam. vez que escapa ao campo das ciências fechadas. p. 49-50. Essa é a visão do sistema aberto. Essa visão se instaurou na física do século XVII ao XIX. “Um processo recursivo é um processo onde os produtos e os efeitos são ao mesmo tempo causas e produtores 14    Ibidem. sabendo que a coisa jamais será totalmente fechada no conceito. Ele associa dois termos ao mesmo tempo complementares e antagônicos. . desprovido de um principio de decidibilidade nele próprio. simplificadas. 15    Ibidem. especializadas. Para isso. O primeiro é o principio dialógico. Necessário que a ciência possa integrar. o mundo jamais aprisionado no discurso”16. numa causalidade unilinear14.Da visão tricotômica à visão complexa do direito . atravessando as disciplinas. não ideal/idealista. portanto. O discurso torna-se multidimensional. se abre necessariamente e continua a abrir-se para além dos limites de nosso entendimento. Tal princípio nos permite manter a dualidade no seio da unidade. reducionista. continuidade e rupturas. mais amplamente. o objeto deve permanecer aberto. onde o sujeito deve permanecer aberto. p. posto que conceber todo objeto e entidade como fechado implica em uma visão de mundo classificadora. por sua vez. de outro lado sobre seu meio ambiente. Morin dá como exemplo a ordem e a desordem que. que o conhecimento não pode preencher.15 Assim. O segundo princípio é o da recursão organizacional. que se suprimem. que evitam o real complexo. também se colaboram e produzem organização e complexidade. teoria autossuficiente e. unidade e diversidade. e não fechado em uma doutrina. p. 16    Ibidem. sem deixar de lado outras ciências que proporcionam outros conhecimentos sobre a mesma realidade. são termos antagônicos. e não estar fechada em doutrinas prontas. que vai além da transdisciplinariedade. Homem e objeto não são entidades que se anulam. porém. mutilando o conhecimento e o próprio real. Morin estabelece três princípios que ajudam a pensar a complexidade. nem mundo aberto. que. insuficiente. “aberto para a incerteza e a superação. pelo contrário. articular. 23. No desenvolvimento desta teoria. refletir sobre seus próprios conhecimentos. necessária uma visão indisciplinar. homem e objeto devem ser concebidos em seu ecossistema e. ao mesmo tempo. que em certos casos. num primeiro olhar. são constitutivos um do outro. vista de forma diferente. analítica. de um lado sobre o sujeito. ela é constitutiva do sistema. A ciência deve ser capaz de apreender.um novo paradigma 109 dependência.

o menor ponto da imagem do holograma contém a quase totalidade da informação do objeto representado.Revista da Defensoria Pública . Por fim. o terceiro princípio é o hologramático. simplificador. Para ele. 74-75. Rompe-se com a ideia linear de causa/efeito. redução.   Ibidem. A ideia pois do holograma vai alem do reducionismo que só vê as partes e do holismo que só vê o todo. 19   Ibidem. de novas descobertas.2012 110 do que os produz”. Explica o autor que num holograma físico. histórico. para um paradigma complexo. a visão unidimensional se alterem. de novas reflexões que vão se acordar e se reunir”20. não ocorre da noite para o dia. hierarquização. cada célula de nosso organismo contém a totalidade da informação genética deste organismo. produto/produtor. a solução. com os outros contraprocessos que 21   . as ciências. mas o todo está na parte. “e não uma redução arrogante que acredita possuir a verdade simples. Necessário todo “um conjunto de novas concepções.1 . p. Explica que o indivíduo produz a sociedade que produz o indivíduo. a fim de aprofundarmos o conhecimento especializado. Por fim. “já que tudo o que é produzido volta-se sobre o que produz num ciclo ele mesmo autoconstrutivo. Morin dá como exemplo o homem e a sociedade. desafio de pensar através da complicação. civilizatório para que o pensamento.   Morin (2007. 20  “A complexidade é a união da simplicidade e com a da complexidade. Somos ao mesmo tempo produtos e produtores. auto-organizador e autoprodutor”18. podemos verificar tal principio na máxima a ninguém é permitido ignorar a lei. p. No Direito. através das incertezas e das contradições.19 O todo está na parte que está no todo. e sim o desafio. Necessário todo um desenvolvimento cultural. Não apenas a parte está no todo. de novas visões.Ano 5 . É um pouco da ideia formulada por Pascal: Não posso conceber o todo sem as partes e não posso conceber as partes sem o todo. 74. separação. 77. atrás da aparente multiplicidade e complexidade das coisas”21.n. de um paradigma reducionista. O principio hologramático está presente no mundo biológico e no mundo sociológico. a complexidade não é a resposta. p. mesmo se a divisão do trabalho e a fragmentação de nossas vidas fazem com que ninguém possua a totalidade do saber social. a qual impõe a presença forte do todo social sobre cada indivíduo.17 Para melhor explanar este segundo principio. 74). Edgar Morin entende que essa mudança de paradigma. p. é a união dos processos de simplificação que são seleção. No mundo biológico. 17  18    Ibidem. Porém. Importante ressaltar que o autor entende necessária a simplificação. tal simplificação deve ser relativa. no sentido de que essa redução seja consciente de que ela é uma redução.

Devido a esta junção de disciplinas e a criação de microssistemas.um novo paradigma 111 Para encerrar. 102-103). nem na categoria de Direito Público. pois em uma sociedade como a atual é tarefa bastante difícil localizar um interesse privado que seja completamente autônomo. Logo. Tais áreas do conhecimento jurídico encerram. outrossim. p. por aglutinar a dicotomia antes existente. 2007. os ditos direitos podem ser classificados ora como submetidos aos princípios de Direito Privado. em si mesmas. formando uma categoria autônoma e instituindo. Edgar Morin leciona: para mim.Da visão tricotômica à visão complexa do direito . é que surgiu uma terceira categoria nesta classificação: os Direitos Difusos. Mesmo se didaticamente tratados em separado. isolado do interesse público. a visão tricotômica do direito. as distinções se diluem. Não se deve perder de vista. será que estas categorias. p. É certo que a distinção entre privado e público está em profunda crise. a ideia fundamental da complexidade não é a de que a essência do mundo seja complexa e não simples. os interesses individuais. constituem-se em sistemas fechados de conhecimento? Será que as disciplinas nelas embutidas realmente respeitam seus conceitos (interesse público versus interesse privado/Estado versus indivíduo/subordinação versus coordenação)? Atualmente. como já dito acima. coletivos são a comunicação. 23    Nery (2002. Essa dificuldade aumenta ainda mais diante das categorias de interesses difusos. O mérito da complexidade é o de denunciar a metafísica da ordem.22 UM NOVO PARADIGMA: DA VISÃO TRICOTÔMICA À VISÃO COMPLEXA DO DIREITO A visão tricotômica do direito. sociais e estatais assumem contornos de difícil separação. que o público não se esgota no estatal. 94). estas distinções teóricas. microssistemas que aglutinam várias disciplinas jurídicas23. que não se enquadram nem na categoria de Direito Privado. Entretanto. por trás da complexidade. por meio da junção de conceitos de Direito Público e de Direito Privado. que são a articulação do que foi dissociado e distinguido. Mas. como o Direito do Consumidor. é a maneira de escapar à alternação entre o pensamento redutor que só vê os elementos e o pensamento globalizado que só vê o todo” (MORIN. a ordem e a desordem se dissolvem. independente. É que esta essência seja inconcebível. com a complexidade da sociedade moderna. ao invés da antiga visão dicotômica. o Direito Ambiental e o Direito da Criança e do Adolescente. A complexidade é a dialógica ordem/desordem/organização. 22    Morin (2007. . não há como negar que o público e o privado se complementam. p. 104). ora como submetidos aos princípios de Direito Público. surgiu com a necessidade de desenvolvimento de novas áreas do direito.

buscando guarida em outras áreas do conhecimento. dentro do estudo jurídico. saindo. fora do Direito. Assim. dispõe o ambiente como direito fundamental.). a Antropologia (levantamento de populações indígenas. as especializações tradicionalmente feitas e estudadas não mais tem guarida (se é que um dia a teve por completo). isoladamente. O Direito Ambiental ajuda-nos a explicitar o fato de que. noções-chaves. como se vê. o Direito do Ambiente é multidisciplinar. p. que disciplina regras de competência. que prevê a existências de crimes ambientais. o que demonstra que as classificações. fato geralmente atribuído ao Direito Público. as áreas do Direito. visto que. 26   . p. Também. estando em contato direito com a Ecologia (estudo de caracterização dos ecossistemas.24 Ainda na lição do citado doutrinador. que dispõe sobre licenças. intimidade. princípios-chaves. 25    Milaré (2004. p. mantém estreitas relações com o Direito Constitucional. os contratos. tida como afeta ao Direito Público.Ano 5 .ex. Veja como exemplo: a disciplina Direito Constitucional. A ordem se reduz 24    Milaré (2004..Revista da Defensoria Pública . Do mesmo modo. não mais assim pode ser considerado. dentre outros. protegendo sua honra. tomando-se como exemplo a disciplina do Direito Ambiental. 155). com o Direito Administrativo. tido como disciplina afeta ao Direito Privado. o Direito Civil. enfim. por exemplo). por exemplo). com o Direito Penal. a todo momento. Vê-se. p. de toda a sociedade com o mundo natural. p. são muito mais amplas. Na lição de Edgar Morin. não pode mais assim ser exclusivamente tratada. alvarás relacionados à matéria ambiental25. etc. até mesmo. 59). nós somos a sua consciência. são hoje totalmente atrelados à sua função social. a Economia (avaliação econômica do dano ambiental. “a palavra paradigma é constituída por certo tipo de relação lógica extremamente forte entre noções mestras. a inter-relação existente cada vez mais entre as áreas do Direito. se a Terra é um imenso organismo vivo. ante as diversas normas que afetam diretamente o indivíduo. destinado a embasar novo tipo de relacionamento das pessoas individuais. as reduções. dentre outros. ex. nas palavras do jurista Edis Milaré é um ramo novo e diferente. expulsa dele a desordem.. Com isso. abrangentes do que os cortes nela realizados. Deixamos o paradigma simplificador: o paradigma simplificador é um paradigma que põe ordem no universo. 132). Tome-se o Direito Ambiental que.n. Estas relações e estes princípios vão comandar todo os propósitos que obedecem inconscientemente a seu império” (MORIN. temos a consciência de um novo paradigma26. considerados a expressão máxima da volição da pessoa. das organizações e. 2007.2012 112 e individuais homogêneos.1 .

E tudo o que. que cria estruturas lógicas. 70. 70. Para Edgar Morin. dos acasos. Partimos para a especialização. . doutrinas. um lembrete. ideologias. 27  28    Ibidem. Quando este mundo não está de acordo com nosso sistema lógico. de todo modo. “a razão corresponde a uma vontade de ter uma visão coerente dos fenômenos. Por isso. de todo modo. base estrutural do Direito. 83. criamos teorias. p. Exercemos uma atenção seletiva sobre o que favorece nossa ideia e uma desatenção seletiva sobre o que a desfavorece. visto como ilusão ou aparência.”30 Temos uma tendência inconsciente de afastar de nossa mente o que possa contradizê-la. mas tem a vontade de dialogar com o que lhe resiste. 29   Ibidem. é preciso admitir que nosso sistema lógico é insuficiente. avisando: ‘Não esqueça de que a realidade é mutante.um novo paradigma 113 a uma lei. Se a sociedade é complexa. 59). das contradições existentes na sociedade. racional. primeiramente.   Morin (2007. esquecido. que só encontra uma parte do real. E partimos para uma visão complexa do Direito. não esqueça que o novo pode surgir e. abandonar a razão. a cada um. A racionalidade.29 Já a palavra racionalização “consiste em querer prender a realidade num sistema coerente. a um princípio. A racionalidade é o jogo. A simplicidade vê o uno. conturbá-la. “o que o pensamento complexo pode fazer é dar. das coisas e do universo”28. 70. Tendemos a minimizar ou rejeitar os argumentos contrários. posto de lado. Ou o principio da simplicidade separa o que está ligado (disjunção) ou unifica o que é diverso (redução)27. jamais tem a pretensão de esgotar num sistema lógico a totalidade do real. que as aplica ao mundo e que dialoga com este mundo real. contradiz este sistema coerente. na realidade. p. vai surgir’”31. é o diálogo incessante entre nossa mente. Devemos. a racionalidade e a racionalização absolutas do nosso pensamento. p. p.Da visão tricotômica à visão complexa do direito .   Ibidem. é afastado. como pode o Direito querer deixar de sê-lo? Nas palavras de Edgar Morin. mas não consegue ver que o uno pode ser ao mesmo tempo múltiplo. para a hipersimplificação do real. Esquecemo-nos das incertezas. ou o múltiplo. 30  31   Ibidem. ir contra o que temos por correto. p.

impondo-se ao poder publico e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. a proteção ao patrimônio histórico. consumidor. a tutela de tais interesses começa a ser tratada já na década de 1960 pela Lei n. Mais tarde. o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). cultural. Em 1988. a defesa do consumidor. Assim. já naquela época. No Brasil. E o Direito é fruto desta contínua mudança. é editada a Lei n. que não podemos nos fechar no contemporaneísmo. revela enorme preocupação com interesses que dizem respeito a todas as pessoas indistintamente. o artigo 5º da nova Constituição Federal estabelece os Direitos Individuais e Coletivos. leis de amparo às pessoas portadoras de deficiência. . ainda mais. adolescente e idoso e mesmo algumas regras vinculadas à comunicação social demonstram a existência e preocupação do legislador na tutela constitucional destes direitos transindividuais em sua ótica material. se verifica no artigo 225 a fixação das bases institucionais para o desenvolvimento dos direitos difusos ao determinar que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.2012 O Direito. leis ambientais esparsas. isto é. As leis que amparam os direitos ditos difusos não se esgotam em si mesmas. Mais especificamente. a saúde. na crença de que o que acontece hoje vai continuar indefinidamente. a Constituição Federal. marco histórico da redemocratização do país. Ainda na Constituição Federal.Ano 5 . de natureza indivisível de que são titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstância de fato. necessitando de complementação legislativa para sua correta e possível aplicação.1 . o consumidor. dentre outros. Modifica-se juntamente com a sociedade. despertada pelo desenvolvimento dos chamados Direitos Difusos. incentivo à pesquisa e ao ensino científico e amparo à cultura. o princípio de que todos são iguais perante a lei. pois a defesa do erário constituía. artístico e paisagístico. além de outros direitos de interesse difuso.n. Tais inovações legislativas demonstram.º 4. o uso da propriedade.347/85 – lei que disciplina a Ação Civil Pública. rompendo com o modelo estatal inflexível experimentado até então. instrumento importante no combate à lesão ao meio ambiente. Frutos das novas disposições constitucionais surgem o Código de Defesa do Consumidor sobredito. criança. a higiene e segurança do trabalho.º 7. na forma da lei. a todo tempo. Temos várias outras normas que assumem claramente a característica ou natureza de direitos transindividuais. com seus anseios. família. o que se deu por meio da edição do Código de Defesa do Consumidor (Lei n. na década de 1980. que se constitui em mais uma demonstração inequívoca da vocação difusa embutida na Carta Magna. está em desenvolvimento. atualmente. o Estatuto do Idoso. bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida.717/65 – lei da Ação Popular. cuja abrangência se mostra metaindividual. o que hoje chamamos de microssistemas. um interesse metaindividual.º 8. na medida em que se trata de bem público.078/90).114 Revista da Defensoria Pública . É no inciso XXXII do artigo 5º da Constituição Federal que encontramos a ordem para que o Estado promova. a educação. Mudança esta. E a teoria da complexidade nos mostra exatamente isto. o meio ambiente. a complexidade da sociedade moderna e a necessidade da criação de sistemas abertos.

Os sistemas abertos devem ser estudados como estruturas inter-relacionáveis. não penas no próprio sistema. p. mas também na sua relação com o meio ambiente. Devemos superar a ideia de Norberto Bobbio que diz que “um ordenamento jurídico constitui um sistema porque não podem coexistir nele ‘normas incompatíveis’. Um sistema complexo admite sim as contradições. Trata-se da superação do sistema por um metassistema. p. Esta é a visão de Edgar Morin sobre sistema aberto: Duas conseqüências capitais decorrem da ideia de sistema aberto: a primeira é que as leis de organização da vida não são de equilíbrio. Numa visão complexa de sistema. e que esta relação não é uma simples dependência. 80). reducionista. possui tais características. p. 23). Aqui. 33    Morin (2007. que os Direitos Difusos em muito se aproximam da visão complexa do Direito. 35  . ela é constitutiva do sistema. Se num ordenamento vêm a existir normas incompatíveis. tendo em vista que o real. “Infelizmente . Vê-se. claramente. Somente com essa complementação legislativa nos é possível aplicar a citada lei em sua inteireza e atingir os objetivos visados. nunca como entidades radicalmente isoláveis. analítica. ‘sistema’ equivale à validade do principio que exclui a ‘incompatibilidade’ das normas. de dinamismo estabilizado.um novo paradigma 115 Assim. data máxima venia. por óbvio. e também em conceitos estranhos ao Direito. necessita ser revisto. 34   Bobbio (1995. 22). as incertezas. como exemplificamos ao tratar do Direito Ambiental acima. sendo vistos como a vertente mais moderna do ordenamento jurídico. numa causalidade unilinear”33.35 32    Morin (2007. lacunas. apreendendo ao mesmo tempo unidade e diversidade. na Constituição Federal. o entendimento externado por Bobbio. A segunda consequência é que a inteligibilidade do sistema deve ser encontrada.   Na lição de Edgar Morin. a lei de Ação Civil Pública imiscuiu-se na lei de Ação Popular. antinomias. Enquanto isso. A ciência jurídica deve ser tida como única. no Código de Processo Civil. no Código de Defesa do Consumidor. uma das duas ou ambas devem ser eliminadas”34. recuperado ou compensado.32 A noção de microssistemas torna ainda mais fácil o entendimento dos sistemas abertos.ou felizmente – o universo inteiro é um coquetel de ordem. a sociedade que embasa todo o ordenamento jurídico. continuidade e rupturas. as demais disciplinas do Direito encontram-se em sistemas fechados. mas de desequilíbrio. implicando uma visão “classificadora.Da visão tricotômica à visão complexa do direito .

a complexidade é o desafio. 2007. desvios com relação a uma estrutura dada. que submetiam os consumidores a leis estagnadas e atentatórias a seus anseios. embora neles não escritos. novas doutrinas. especializa e simplifica. incompatíveis. das mudanças. devido à evolução da sociedade. confiança e cuidado. necessário se fez a criação de um Código de Defesa do Consumidor. constância. Com o surgimento da sociedade de consumo. Ainda mais quando tratamos da ciência jurídica.1 . há casos em que tal dever inexiste. tudo devido ao principio da função social do contrato. o incerto. CONCLUSÃO Como já disse Morin. necessário se fez a criação de novas regras. enquadrado sob a dependência de uma lei. constata que. desordem e organização. Não haveria existência viva nem humana (MORIN. acaso. e que visa estabelecer regras para o convívio de uma sociedade pós-moderna repleta de novas ideias. Nós devemos viver e lidar com a desordem. contemporâneas36. ou seja. partes do Direito. onde se previa a possibilidade de alterações nos contratos consumeristas ante a simples existência de cláusulas onerosas ao consumidor. p.116 Revista da Defensoria Pública . e não a resposta. Ainda. novas teorias. 89). vamos enxergar a necessidade de uma perspectiva transdisciplinar. Estamos num universo do qual não se pode eliminar o acaso. imprevisibilidade. abusivas. reduz. em sua obra Teoria do ordenamento jurídico. . Num universo de pura ordem. de novos anseios. e à desordem surgida deste cenário. É o caso das normas de mesmo nível. A ordem? É tudo o que é repetição.n. logo. a imprevisibilidade são necessárias para a evolução do conhecimento. rumo a uma visão complexa do ordenamento e da ciência jurídica. que hierarquiza. mas que proporcionaram a evolução do ordenamento jurídico. 36    Bobbio (1995. ciência que surge da sociedade. em completa mitigação ao principio do pacta sunt servanda. não haveria inovação. às contradições antes existentes no sistema jurídico. com as normas anteriores. ao tratar do dever de coerência das normas jurídicas. A complexidade não busca estabelecer uma nova ordem. A desordem? É tudo o que é irregularidade. pelo contrário. Através da complexidade. invariância. O acaso. o principio de que o contrato fazia lei entre as partes. ante a completa submissão dos consumidores aos fornecedores. Tomemos um exemplo. como a obrigação de se observar os deveres de lealdade. o incerto são ínsitos à sociedade pós-moderna. a incoerência existentes dentro de toda ciência. tudo o que pode ser posto sob a égide de uma relação altamente provável. 112). a desordem. ideias e anseios estes que se alteram a todo tempo. Assim. sendo que transdisciplinar significa hoje indisciplinar. criação. Assim. resta demonstrado que devemos superar a visão tricotômica do Direito. a desordem. o principio da boa fé objetiva prevê a existência de deveres anexos aos contratos. p. as contradições. dentro de todo sistema. No Código Civil de 1916 regiam os contratos o principio da liberdade contratual e o pacta sunt servanda.2012 A irregularidade. o imprevisível. a princípio. evolução.Ano 5 . O próprio Norberto Bobbio. visa demonstrar a desordem.

As disciplinas jurídicas precisam umas das outras. um no todo e todo no um. de modo abrangente. O individualismo. 16. deve dar lugar ao ato de partilhar. A atuação. temos que ter em mente que ainda “estamos na pré-história do espírito humano. hierarquização. p. a fim de melhor se estudar e se compreender as partes. 37  38    Morin (2007). mas não considero menos impossível a possibilidade de conhecer o todo sem conhecer singularmente as partes’”37. Os problemas do mundo real unem todos esses ramos em um só emaranhado. Os cortes.”40   Morin (2007. utilizando-se de tudo o que aprenderam.um novo paradigma 117 Para Morin: “como dizia Pascal: ‘Considero impossível conhecer as partes enquanto partes sem conhecer o todo. um conhecimento parcial. não só do profissional. os atores do Direito não são preparados para atuar de modo completo.103). 39    Morin (2007).Da visão tricotômica à visão complexa do direito . “Talvez estejamos no fim de um certo tempo. A complexidade é a união da simplicidade e com a da complexidade. 102-103. p. que são a articulação do que foi dissociado e distinguido. Afinal. pois deixaram de aprender o mais importante: a visão do todo. que fragmentam e despedaçam o tecido complexo das realidades. redução. p. 120. é a maneira de escapar à alternação entre o pensamento redutor que só vê os elementos e o pensamento globalizado que só vê o todo. do Direito penal. sem reduções. . que necessita se inserir no todo para melhor se compreender o real. porém. característico da pós-modernidade. do Direito processual. sem nunca perder de vista que estamos tratando de uma redução. a “vida real” vai além do Direito administrativo. tem que buscar o bem comum. e pior. é a união dos processos de simplificação que são seleção. 40    Morin (2007). o indivíduo reflete a sociedade que reflete o indivíduo. inseridos no “mundo real”. Assim. no começo de novos tempos. a teoria da complexidade entende a necessidade da especialização. do Direito tributário. reduções. separação.38 E por fim. especializações ensinados nas faculdades geram uma inteligência cega nos bacharéis. e nós o esperamos. mas do indivíduo perante a sociedade em que se insere. de como unir as disciplinas jurídicas. sem rupturas. Urgentes são as mudanças no modo de se ensinar e de se aprender o Direito. p. sentimento e atitude de solidariedade. tais profissionais são incapazes de bem atuar. Só o pensamento complexo nos permitirá civilizar nosso conhecimento”39. com os outros contraprocessos que são a comunicação. de como aplicá-las sem cortes. um pensamento mutilador conduz necessariamente a ações mutilantes. Entretanto. Depois de formados. visto que o dia-a-dia das pessoas. da simplificação.

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