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Anais do 45º Congresso Brasileiro de Cerâmica

0206201

30 de maio a 2 de junho de 2001 - Florianópolis – SC

PROPRIEDADE ESTRUTURAL DE DUAS BENTONITAS APÓS ATIVAÇÃO COM
HCl - CLARIFICAÇÃO DE ÓLEO DE ALGODÃO

Edson L. Foletto1, Cristina Volzone2, Ayres F. Morgado1, Luismar M. Porto1
1

Departamento de Engenharia Química e Engenharia de Alimentos - EQA

Universidade Federal de Santa Catarina, C. Postal 476 - 88040-900 Florianópolis-SC
E-mail: edson@enq.ufsc.br
2

Centro de Tecnología de Recursos Minerales y Cerámica - CETMIC

C.C. 49, Cno Centenario y 506 (1897) M. B. Gonnet, Prov. Buenos Aires, Argentina

RESUMO
A ativação de argilas bentoníticas com o uso de ácidos inorgânicos consiste
em processos para incrementar a sua capacidade adsorvente, com finalidade de
clarificar óleos vegetais, animais e minerais. No presente trabalho, duas bentonitas
naturais de Mendoza (Argentina), com diferentes composições mineralógicas, foram
tratadas com HCl (4 e 8N) durante 2 horas e os efeitos desse tratamento sobre as
propriedades estruturas das argilas foram avaliados através de difração de raios-X,
análises térmicas e análise química. As mudanças estruturais decorrentes do
tratamento também foram avaliadas através de ensaios de clarificação com óleo de
algodão. A habilidade de clarificação foi fortemente dependente da concentração de
ácido usado na ativação da argila. A composição mineralógica das argilas naturais
influenciou nas propriedades das argilas tratadas e essas propriedades ditaram o
poder clarificante das argilas ativadas.
Palavras-chaves: Bentonita, argilas, ativação ácida, clarificação de óleo

As argilas usadas na clarificação são argilas bentoníticas que. A composição mineralógica. animais e minerais. Até o presente. No final de cada experimento. desenvolvem elevado poder de clarificação. os sólidos foram filtrados e lavados com água destilada até ficarem livres de íons cloretos. quando atacadas por ácidos inorgânicos fortes. como por exemplo. sob refluxo. Alguns aspectos sobre condições operacionais de tratamentos com ácidos. A seguir. As amostras ativadas foram . Argentina. 40 g de cada argila foram tratadas sob agitação mecânica com 400 ml de solução de ácido clorídrico 4 e 8N a 90 C. porém. influenciam nas características do produto ativado. As argilas secas e moídas foram passadas totalmente em peneira 200 mesh. possuem baixo poder clarificante. e como consequência. no estado natural. por duas horas. Essas amostras foram caracterizadas em um trabalho prévio (6).Florianópolis – SC INTRODUÇÃO A clarificação com argilas ativadas é uma etapa essencial no refino de óleos vegetais. foram postos para secar a 55 C. Os ácidos geralmente usados são o clorídrico e o sulfúrico. incluindo as impurezas presentes. e as composições mineralógicas estão apresentadas na Tabela 1. sabe-se que as impurezas presentes na argila original prejudicam a qualidade do material obtido após a ativação.Anais do 45º Congresso Brasileiro de Cerâmica 0206202 30 de maio a 2 de junho de 2001 . diminui a capacidade de clarificação de óleos. tempo e temperatura de tratamento têm sido analisados em diversos trabalhos(1-5). tipo de ácido. O objetivo desse trabalho foi avaliar a capacidade de clarificação do óleo de algodão em função das mudanças estruturais das bentonitas provocadas pelo tratamento com HCl. no próximo item. O material seco foi desagregado e passado em peneira 200 mesh. MATERIAIS E MÉTODOS Foram utilizadas como material de partida duas argilas naturais (denominadas de K e W) provenientes da Província de Mendoza.

O sistema foi mantido sob atmosfera inerte (nitrogênio) e pressão absoluta de 310 mmHg. A porcentagem de remoção de cor foi calculada pela equação [(A0 .0 % de amostra bentonítica em relação ao peso do óleo de algodão semi-refinado.I. RESULTADOS E DISCUSSÃO A Tabela 1 mostra a composição mineralógica das amostras estudadas.. esmectita. De acordo com os resultados de .Anais do 45º Congresso Brasileiro de Cerâmica 0206203 30 de maio a 2 de junho de 2001 . quartzo.A)/A0] x 100. na faixa de temperatura de 25-1000 C. no comprimento de onda de 405 nm. A análise química foi determinada por flourescência de raios-X com o uso do instrumento Philips PW-2400. Os difratogramas de raios-X foram obtidos usando um equipamento Philips 3020 com controlador PW 3710. O óleo de algodão foi obtido da empresa Vicentín S. K8. análise térmica diferencial (ATD) e termogravimétrica (TG) e análise química (AQ). Argentina. Detectou-se as seguintes fases principais em cada amostra: esmectita. onde “A0” é a absorbância do óleo semi-refinado (antes da clarificação) e “A” é a absorbância do óleo após o processo de clarificação. avaliadas em um trabalho prévio (6).C. A temperatura de ensaio foi de 100 C e o tempo de contato foi de 30 minutos.Florianópolis – SC denominadas de K4. W4 e W8. O ensaio de clarificação foi realizado usando-se 1. Para a caracterização dos materiais. operando em atmosfera de ar seco (35 ml/min). onde “4” e “8” correspondem à concentração ácida usada no processo de ativação. caulinita e gesso na amostra W. quartzo e feldspato na amostra K. O capacidade de clarificação foi determinada pelas leituras de absorbâncias.A. As curvas de ATD/TG foram obtidas utilizando um analisador térmico Netzsch STA 409 com uma razão de aquecimento de 10 C/min. usou-se as técnicas de difração de raios-X (DRX).5405 Å ) e filtro de Ni a 40 kV e 20 mA. A velocidade angular foi de 1(2)/min e o intervalo de varredura foi de 3 a 40(2). usando radiação Cu-K ( = 1. feldspato. O ensaios foram realizados com os materiais no estado natural e os obtidos após ativação ácida. usando um espectrofotômetro digital WFJ525-W(724) UV-visível.

feldspato. Tabela 1: Composição mineralógica das bentonitas. A principal mudança ocorreu no espaçamento correspondente ao pico da esmectita d(001).Florianópolis – SC composição mineralógica quantitativa. 70 .s.p. que sofreu deslocamento e redução de intensidade após o ataque ácido. feldspato e acessórios) da amostra K.5 %) que a amostra K (35%) e contém menor porcentagem de impurezas. A presença do pico da esmectita após o ataque ácido indica que a estrutura foi parcialmente preservada. observa-se que a bentonita W é mais rica em componentes argilosos (esmectita+caulinita) (49. gesso e acessórios) contra 65 % (quartzo. como pode-se observar através dos difratogramas da Figura 1. natural e ativadas. Q Q E Intensidade (c.) E K8 K4 F K W8 W4 G 10 F C W 20 30 40 50 60 2 Figura 1: Difratogramas das amostras K e W. Bentonita K Esmectita (%) 35 Caulinita (%) - Quartzo (%) 37 W 47 2.5 O tratamento com ácido clorídrico na amostras K e W originaram mudanças estruturais.5 27 Feldspato Gesso Acessórios (%) (%) (%) 20 8 13 4 6.Anais do 45º Congresso Brasileiro de Cerâmica 0206204 30 de maio a 2 de junho de 2001 .5 % (quartzo. 50.

As quantidades de Ca+2.05 5.46 15. principalmente o feldspato.79 0.35 0.11 1.18 17.93 0. observado pela diminuição da porcentagem dos óxidos octaédricos. No entanto.11 1.12 13.55 0.18 2.71 1.71 Os resultados mostrados na Tabela 3 foram obtidos a partir das análises de ATD/TG (não mostradas nesse trabalho).58 0.09 0.01 PF 4.24 0.42 0.15 1.49 2.58 K4 75.41 0.86 0.35 Na2O 2.54 0. MgOt MgOoct 1. Nas amostras ativadas.23 1.76 0.95 0. O aumento da concentração de ácido utilizado (para ambas as bentonitas) ocasionou um maior ataque à estrutura. O MgO interlamelar foi determinado pelo método do acetato de amônio.11 TiO2 0.52 MnO 0.62 0.18 % para a amostra W) e o teor de MgO interlamelar (0. A temperatura do primeiro pico endotérmico correspondente à perda de água interlamelar.57 0. Amostra SiO2 Al2O3 K 69. As duas bentonitas naturais apresentaram dois picos endotérmicos na região da perda de hidroxilas (faixa entre 450-720 oC).23 % para a amostra W).60 5.77 0.Florianópolis – SC O teor de magnésio octaédrico (MgO oct) presente nas amostras naturais foi calculado pela diferença entre o teor total na amostra original (MgO t: 1.Anais do 45º Congresso Brasileiro de Cerâmica 0206205 30 de maio a 2 de junho de 2001 .24 6.01 0.78 W8 72. o MgO interlamelar foi extraído durante a ativação ácida e os resultados obtidos pela análise química por FRX correspondem ao MgOoct. uma quantidade considerável desses elementos permanece nas amostras ativadas devido à presença de impurezas.01 6.54 13.51 1.88 3.56 % para a amostra K e 1.66 0.09 1.65 0. Tabela 2: Composição química das bentonitas (% em peso).60 1.53 15.90 W 65.18 0.56 1.08 0.48 PF: Perda ao Fogo a 1000 oC.49 K8 75.15 1.24 0.79 0. que é insolúvel em soluções ácidas e que contém esses cátions (7).51 4. Na+ e K+ que foram removidas pelo tratamento correspondem aos cátions trocáveis que estão presentes nas amostras.91 15. e a presença de um pico em 690 oC indica a .70 0. aumentou ligeiramente após o tratamento com ácido para ambas as amostras.20 5.31 3. O primeiro pico localizado em 540-550 oC corresponde a presença de beidelita como espécie esmectítica. O aumento do teor de sílica se deve à saída dos cátions estruturais da esmectita.11 CaO 0.86 K2O 1.05 % para a amostra K e 0. A ativação ácida originou um material com maior conteúdo de sílica e pode-se observar também uma significativa remoção de óxidos localizados em posição octaédrica (Al2O3 +Fe2O3 +MgOoct).01 0.00 Fe2O3 3.53 W4 71.40 0.

640 .Florianópolis – SC presença de montmorilonita.642 3. Isso deve-se ao fato de que as amostras K sofreram maior ataque durante o processo de ativação (como mostra os resultados da Tabela 3.32 2. respectivamente.69 2. provocada pelo ataque ácido. Observa-se também.00 11.16 octaédrica 0.00 13.89 14.28 2. foi calculada pela diminuição da perda de peso no intervalo de temperatura de desidroxilação. O aumento da concentração ácida proporcionou uma maior destruição estrutural nas duas amostras. utilizando outras condições operacionais de ativação ácida (por exemplo.79 0. que a bentonita K sofreu um maior grau de ataque com relação à W na duas concentrações usadas.89 2. Tabela 4: Capacidade de clarificação das amostras. . 690 .75 19. Observa-se que as amostras K4 e K8 apresentaram capacidade de clarificação ligeiramente superior às W4 e W8. o pico da beidelita desapareceu quase que totalmente. Tabela 3: Resultados obtidos das curvas de ATD/TG. O tratamento com ácido modificou esses picos. devido ao maior conteúdo de material argiloso na amostra W é de se esperar que.Anais do 45º Congresso Brasileiro de Cerâmica 0206206 30 de maio a 2 de junho de 2001 .640 2.5 e 7 vezes. Entretanto. maior tempo ou concentração de ácido). os resultados de clarificação melhorem. sendo portanto mais eficazes na clarificação de óleo de algodão em relação as amostras W.642 .70 W W4 W8 157 162 155 540. 690 . com relação às perdas sofridas nessa região pelas amostras não atacadas (naturais). Temperaturas (C) Amostra desidratação Perda de peso desidroxilação entre 450 e 750 C % de destruição da folha K K4 K8 (H2O) 150 155 157 (OH-) 550. dependendo do tipo de bentonita e da concentração ácida. A porcentagem de destruição da folha octaédrica. “% de destruição da folha octaédrica”).94 O tratamento ácido nas bentonitas aumentou a capacidade de clarificação de óleo entre 2. deslocando-os até temperaturas mais baixas.

É evidente que o tratamento ácido originou mudanças estruturais nas bentonitas.93 7. a capacidade de clarificação aumenta com o aumento de “R”.60 7.6). Amostra (1) Razão (2) R I esmectita / I quartzo K K4 0. quartzo esse que permanece inalterado após o tratamento ácido. observado pelas análises químicas.02 11.48 13.49 (3) % de destruição da folha octaédrica 0.48 .00 13.Anais do 45º Congresso Brasileiro de Cerâmica 0206207 30 de maio a 2 de junho de 2001 . De acordo com os nossos resultados.75 (4) Capacidade de clarificação (%) 2. a razão entre a intensidade do pico (001) da esmectita e a do pico do quartzo (2 = 26. difração de raios-X e análises térmicas. Esta remoção dos cátions das folhas octaédricas também é observada nos resultados obtidos ao avaliar a perda de peso correspondente ao segundo pico endotérmico localizado na faixa de 450-750 C. cujos valores da tabela correspondem a destruição da folha octaédrica. As razões entre as intensidades diminuíram com o aumento da concentração ácida usada na ativação das amostras naturais K e W. indica o grau de ataque sofrido pela esmectita com relação ao sofrido pelo quartzo.Florianópolis – SC Amostra Capacidade de K clarificação (%) 2. a capacidade de clarificação aumenta à medida que se vai extraindo os cátions octaédricos das estruturas das bentonitas. Na mesma tabela.37 4. obtida pelos difratogramas.26 0. isto é.73 W W4 W8 1.33 A Tabela 5 mostra um resumo dos resultados mais relevantes encontrados nesse trabalho. indicando que o tratamento ácido vai destruindo a estrutura das bentonitas.93 K4 K8 7. Tabela 5: Correlações entre os efeitos do ataque ácido às estruturas das bentonitas e a capacidade de clarificação de óleo.23 3.

E. As mudanças observadas à nível octaédrico da estrutura das bentonitas influenciam consideravelmente na capacidade de clarificação. Activación ácida de un material esmectítico. Apl.20 4.70 13.60 11. .73 (1) Razão entre a intensidade do pico da esmectita 19. Volzone. Pereira.71 W 0. Volzone. Estudo mineralógico. Ing. obtida a partir dos difratogramas da Figura 1. (4) Dados da Tabela 4. 76.M. obtida a partir dos dados da Tabela 2. E.89 7. realizada nas bentonitas utilizadas nesse trabalho. com relação ao poder das amostras naturais. Zalba.22 3. Pereira.Florianópolis – SC K8 0. C. P. 2.. Rev.73 0. AGRADECIMENTOS À CAPES pelo suporte financeiro do trabalho. Argent. (2) R: Razão SiO2 / (Al2O3 + MgOoct + Fe2O3). Quím. J. Asoc. (1988).94 11. C. Quím. An. (3) Dados da Tabela 3. A concentração de ácido clorídrico e a composição mineralógica influenciam notavelmente no poder de clarificação do óleo de algodão. López.00 1.33 d(001) e a do pico do quartzo (2 =26.31 2. p. 16. 205-215.02 14.Anais do 45º Congresso Brasileiro de Cerâmica 0206208 30 de maio a 2 de junho de 2001 . E.49 W8 0. REFERÊNCIAS 1. (1986). aumentou o poder de clarificação de óleo de algodão em até 7 vezes.30 3. CONCLUSÕES A ativação com ácido clorídrico. Latinoam. Activación ácida de esmectitas: II. p.80 W4 0. 57-68.6). Quím.

L. Barrios. Morgado. 1998. 2000. Volzone.F. C. Argentina.F. Modificação estrutural de bentonitas e sua utilização como agente descorante. Argentina. Tese de doutorado. C.F.Florianópolis – SC 3. CD ROM. 14º Congresso Brasileiro de Engenharia e Ciência dos Materiais. A. (1995). Foletto.M.F. São Paulo. Universidade de São Paulo. At the present work. 2000.V. Volzone. IV Coloquio Latinoamericano de Fractura y Fatiga. 6. Salta. M. Morgado. Análise comparativa da ativação ácida de dois materiais argilosos com diferentes composições mineralógicas.A.M. 5. (2000). Applied Clay Science. 7. Pozas. São Pedro/SP. Gonzáles. E. Porto. Influência do tipo de ácido usado e da sua concentração na ativação de uma argila bentonítica.S. E. L. Foletto.Anais do 45º Congresso Brasileiro de Cerâmica 0206209 30 de maio a 2 de junho de 2001 . 4. L. 10. 72.L. A. to vegetable. M. textural and surface properties.M. A. STRUCTURAL PROPERTY OF TWO BENTONITES AFTER ACID ACTIVATION WITH HCL . L.COTTONSEED OIL BLEACHING ABSTRACT Bentonitic clay activation using inorganic acid consist in processes to increase its adsorbent capacity. resumo. Rodríguez. p. p. Caracterização e propriedades tecnológicas de uma argila esmectítica de Santa Catarina. Neuquén.L. Morgado. Volzone. C. animal and mineral oils bleaching. p. E. VI Jornadas Argentinas de Tratamiento de Minerales. A. Acid activation of a palygorskite with HCl: development of physico-chemical.V. two bentonites from Mendoza (Argentine) with different mineralogical .M. 1081-1086.F. Morgado. 43-48. 247-258. Foletto. Porto. J. p. L. Porto.M.

were treated with HCl (4 and 8N) for 2 hours and its treatments effects under clays structural properties were tested by X-ray diffraction. Bleaching capacity was strongly dependent on acid concentration used for clay activation. Key-words: Bentonite. The activated samples were tested in order to verify their bleaching cottonseed oil capacity. clay.Florianópolis – SC composition. oil bleaching . acid activation.Anais do 45º Congresso Brasileiro de Cerâmica 0206210 30 de maio a 2 de junho de 2001 . chemical analysis and thermical analysis. The mineralogical composition of natural clays have influenced the properties of treated clays and these properties have influenced its bleaching power.