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Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura

Leituras de/sobre gênero nas Literaturas Africanas
de Língua Portuguesa: olhares e percursos
Maria de Fátima Fernandes (USP)
O conhecimento, a divulgação e os estudos das Literaturas
Africanas de Língua Portuguesa (LALP), dentro e fora do domínio
académico, conheceram uma profunda viragem iniciada com o período
pós-independência dos países que as integram, motivada pelo interesse
das academias, pela partilha de pontos de vista, discussão teórica sobre
as vertentes literária, sociológica, histórica e cultural, entre outras, a que
elas se oferecem. Atualmente, graças a reflexões e espaços de encontro
internacionais, tais literaturas consolidaram o seu lugar de interesse,
variedade e expansão, sendo disputadas para abordagens teóricas e
leituras inovadoras que as vão incentivando a se afirmarem cada vez mais
como originais e autónomas.
Este trabalho, intitulado Leituras de/sobre gênero nas Literaturas
Africanas de Língua Portuguesa - olhares e percursos, objetiva aplicar
algumas das perspectivas teóricas sobre a problemática do gênero nessas
literaturas, concretamente:
»» o modo como se apresenta e se problematiza a

questão dos gêneros nas Literaturas africanas de língua
portuguesa, do século XIX à atualidade;

»» propôr subsídios para uma reflexão teórica sobre os
aspetos que enfocam os problemas de gênero e poder do

discurso na expressão da homossociabilidade, bem como
a masculinidade VS discurso no feminino nas LALP.

1. Intenções, metodologia e pressupostos teóricos
Antes da análise dos textos propostos, importa salientar a relação
e a correspondência ESPAÇO-TEMPO como importantes para delimitar o
horizonte temporal desta reflexão. Tendo por horizonte espacio-temporal a

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África lusófona e os séculos XIX-XX, vale destacar:
»» o

percurso

histórico

desses

territórios/espaços

literários (do colonialismo ao pós-colonialismo) como
condicionante do percurso identitário, pois a construção

de identidades processa-se em contextos distintos e
complexos, insulares e continentais, rurais e urbanos;

»» o posicionamento híbrido do colonizador relativamente

ao colonizado marcado por relações de gênero/poder
muito particulares e interessantes, como:

»» homem branco e colonizador/mulher negra e escrava
versus homem negro colonizado/mulher negra e escrava;

»» homem branco sujeito versus homem negro (mulato/
mestiço/instruído) sujeito de criação literária

»» a configuração de uma mestiçagem orientadora de um

discurso homossocial próprio, que nos leva a questionar
até que ponto as relações de poder determinaram(rão)

interpretações próprias dos binómios PODER-RAÇA;
GÊNERO-PODER; SEXO-GÊNERO; SEXO-PODER.

Nossa idéia é apresentar linhas de análise apartir dos suportes teóricos
fornecidos pela Ordem do Discurso, de Michel Foucault, a desconstrução
do gênero in Problemas de Género, de Judith Butler e finalmente a Teoria
queer e as relações homossociais. Partimos da colocação de Foucault sobre
a necessidade de ser apanhado pelo continuum do discurso, em que este
se deixa retomar por outro então iniciado, em suspensão, para que o orador
não tenha de se sentir sob a responsabilidade e o peso das suas próprias
palavras. Confessando querer ser levado para antes e além do começo,
Foucault afirma que gostaria de ser antecedido por uma voz que dissesse:
“É preciso continuar, eu não posso continuar, é preciso continuar, é
preciso pronunciar palavras enquanto as há ... talvez me tenham levado ao

mas em cruzamento com o pensamento foucaultiano. diferente em percurso. perguntamos se para esses autores. em luta contra o absolutismo das monarquias europeias e o conservadorismo da ordem do discurso pelas forças colonizadoras do espaço africano. em meados do século XIX. p.. que há muito se cuida de sua aparição. fazia mais sentido a resposta institucional de que “. De África vislumbravam-se as luzes da libertação do homem negro das amarras da escravidão de séculos. na expansão do Romantismo. modos de agir e interesses. senhor-escrava. eu me surpreenderia se ela se abrisse”.6). numa relação de . instalava-se o prelo em vários países e criavam-se condições materiais para a manifestação individual e coletiva das ideias e dos modos de ser e de sentir poéticos apartados da força e da ordem do discurso europeus. (Foucault. participando ao mesmo tempo no continuum processo de manifestação de novos discursos protagonizados por novos sujeitos. senhor-escravo. assumindo-se a pluralidade existêncial e verbal.. o discurso está[va] na ordem das leis. Esse trecho levou-nos a pensar no momento em que grande parte dos autores africanos começaram a reivindicar o direito e o espaço de usar a palavra e a criatividade na construção de um novo discurso.7) Tratando-se de autores africanos. e que.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura limiar de minha história. que ele lhe advém” (idem. na altura. no contexto em questão. se lhe ocorre ter algum poder. só de nós. em que a ordem do discurso assume(ia) o carácter hegemónico. p. costumes e comportamentos. normativo e indissolúvel? O sentido das nossas perguntas coloca-se no limiar da história de homens que começam a escrever num contexto em que o domínio dos seus horizontes espaciais pertence a um outro. 1996. diante da porta que se abre sobre minha história. ou trata-se apenas num nós enfático. se resume à voz do poder instituído. faz sentido perguntar: -Quem é ou quem seria esse “Nós”? Estaremos a pensar no binómio branco-negro. colonizador-colonizado. No contexto lusófono. Voltando ao Foucault dos nossos tempos. que lhe foi preparado um lugar que o honra mas o desarma. no final de contas. novos sujeitos que então surgiam. cultural e identitário universal. que. seria possível continuar? É que. no processo histórico. europeu-africano. é de nós. buscava-se consenso em torno da ideologia liberal portuguesa.

por permitir tratar concretamente: »» a emergência de olhares sobre o problema da relação gênero e poder. Referirmo-nos a um discurso e leis de quem? Trata-se da realidade de um discurso instituído e no qual o homem africano teve de se encaixar. que Foucault analisa na sua Ordem do Discurso. subverter e inovar? Se recuarmos aos primeiros registros literários na África de língua portuguesa. neste caso nas LALP. que temas cabem nessa ordem de discurso. em Problemas de Gênero. Fica lançada a possibilidade de vermos na ousadia dos autores que então emergiam. O segundo suporte teórico que consideramos imprescindível para a compreensão da emergência das questões de gênero e para esses olhares do sujeito sobre o espaço é-nos dado por BUTLER (2003).Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura convívio conflituoso que os próprios textos atestam. estaremos igualmente a chamar a atenção para olhares e conteúdos exóticos veiculados sobre África – nos sujeitos e discursos que falam e sobre os quais se fala. Finalmente. »» os olhares heteronormativos versus olhares de mulheres como sujeito de um certo feminismo. da qual interessanos descortinar a ordem social contemporânea compreendiada através . que “O discurso está na ordem das leis…” outras questões poderão ser levantadas e equacionadas. como lembra Foucault. considerando. aproximadamente. assimilando-o ou adaptando-se a ele ou. o propósito de subversão dos procedimentos de exclusão e de interdição. que ele pôde desconstruir. meados do século XIX. reflexo de como o sujeito comunica o seu modo de ver o mundo. »» a aceitação do sexo (no sentido biológico) não só como natural mas também discursivo – para se chegar à nocão de “performatividade”. de uma África e homem africano substimados ou sobrestimados e por isso há-que perguntar também sobre que conteúdos. em sentido contrário. Por outro lado. teremos o suporte da Teoria queer.

resume-se a visão de uma África imaginada no seu exotismo. será conduzida de acordo com as impressões que os textos nos causam e não necessariamente objetivando o levantamento de uma ou outra intenção dos autores em discutir essas questões. retrato e discussão da relação de gênero. Olhares sobre problemas de gênero. o africano foi reduzido à condição de escravo. na exuberância das suas cores e ritmos. nem fé nem rei1. o que significa a possibilidade de os analisar e compreender nos diferentes momentos anteriormente indicados e em função desse tópico. na Ásia e na América . data em que os europeus se embrenharam com mais vigor pelos espaços africanos. 2. Desse período (séculos XVI a XIX). poder e discurso literário 2. materiais e sexuais. o primeiro grupo de autores/textos apresentados aponta para o descortinar de um espaço literário emergente no quadro do exótico que vigorava nos meios e nos registros europeus desde o século XVI. Por exemplo. portugueses em particular. porém.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura dos estudos sobre a sexualidade e percepcionar essa ordem em alguns dos autores selecionados. legitimando o uso do corpo e da mente dos homens e mulheres para satisfação das suas necessidades e objetivos económicos. das tribos sem lei. Território a ser conquistado. mas sobretudo na animalidade e bestialidade das suas criaturas. sobretudo explorado. Neste quadro a discussão sobre a relação de gênero. a África conhecida até o século XIX colocava o homem europeu sob o signo da descoberta e do grande esforço de adaptação ao clima e às gentes selvagens aí encontradas.1 Questionando o binarismo e a heteronormatividade O conjunto de textos e autores que nos possibilitam a visão panorâmica aqui exposta foi formado tendo em conta a noção de Literatura como espaço de constituição. poucas vezes “civilizado”. colocada a posteriori. 1  Expressão utilizada pelos europeus. servindo apenas ao serviço braçal e doméstico do império colonial. para designar o comportamento dos povos encontrados e/ou conquistados em África. Os apontamentos das relações homossociais entre europeus e africanos dão conta da superioridade intelectual e civilizacional daquele sobre estes.

Arnaldo França (Cabo Verde. . do angolano Cordeiro da Mata. encontramos o homem africano a manifestar-se na referência de um espaço afro-europeu querendo com isso dizer que os textos revelam a necessidade do sujeito imergir no seu espaço de origem embora ainda se denote uma expressiva dependência do modelo estético e formal europeu. terem aberto espaço para a emergência de novos discursos e até para a subversão da ordem do discurso então instituída. mas. mas linda.18571894). bem como as alterações impostas pela política colonial europeia às então províncias ultramarinas. Caetano da Costa Alegre (S. mimosa e bella. Tomé Príncipe. tendo nos claros olhos. de as consequências da Independência do Brasil. Autores como Joaquim Cordeiro da Mata (Angola. juntamente com a conferência de Berlim e o Ultimatum inglês imposto aos portugueses em 1890. deixam perceber claramente nos seus textos a hegemonia do discurso masculino colocando a Mulher como objeto de desejo. em conformidade com o modelo ideológico e formal europeu. 1864-1890). Numa primeira tentativa de inverter o olhar normativizado. 1842. 1867-1930). reforçamos o fato de o fim da escravidão. Entrando no domínio dos textos. o primeiro momento distinguese por poemas assinados por autores africanos sob uma perspectiva da colocação do sujeito face ao objeto. o olhar mais límpido e puro! Negra!negra!como o ébano. em Cabo Verde. como a mais gentil beldade! Negra!negra!como a asa do corvo mais negro e escuro. atesta esse sentir: I Negra!negra!como a noite d’uma horrível tempestade. 1925). seductora como Phedra. O poema Negra!. nomeadamente a instalação da imprensa. Eugénio Tavares (Cabo Verde. e de seguida nas demais colónias africanas.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura No entanto.

. desejo que nada acalma. em que a boa graça medra! Negra!negra!.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura possuindo as celsas formas. gerou-te em agro torrão.. 1889 Neste poema.. S’elevar-te ao sexo frágil temeu o rei da criação. é qu’és. eu sinto nos seios d’alma arder-me forte desejo. embora com evidente “colagem” ao ritmo. justifica-se porém a mudança de discurso ainda que permaneçam algumas reminiscências da relação europeu-africano. a deusa da formosura!. como te vejo. quer por um lado pela excessiva negatividade dos elementos com que essa mulher é comparada (horrível tempestade. ó negra creatura. dentes de marfim. Se considerarmos a pertinência da colocação no fato de o homem africano tomar o espaço do sujeito poético face a um objeto de desejo que é a mulher negra (gentil beldade. II Só. Se te roubou este clima do homem a cor primeva. branca que ao mundo viesses. in Delírios. negra.…).. sobressai a construção de um olhar local sobre a relação Cor/Raça/Poder. olhar mais límpido e puro.. ó negra. asa do corvo mais negro . construção estrófica (métrica e rima regulares) e ideais de beleza tendo por modelo o Europeu... não sei o que sinto em mim!.mas tão linda co’os seus dentes de marfim.. serias das filhas d’Eva em belleza. que quando os lábios entreabre. a prima!. o eu e o outro.

baixinha. infinida que enlouquece a um mortal. Cambuta.  Seus olhos claros. celsas formas. que dois astros fulgurantes não lhe ganham em primores. isto é. não sendo horrenda. brilhantes derramam uns taes fulgores. o seu corpo pequenino de plástica singular tem um quê tão peregrino. nem é linda. a graça attrahente.  . quer pela recorrência aos tópicos e padrões de beleza feminina europeus (seductora como Phedra. como o seu.   Que a alma logo s´invade d´uma estranha sensação e palpita o coração de febril anciedade….  É cambuta. de divino ou sedutor. nem feia. porém. um todo que encante. e posto seja negrinha tem as formas d`uma hebreia. reforça mais essa perspectiva: Não é feia.  Nada possui de galante.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura e escuro). filhas d’Eva). não há melhor.  Quando airosa a vejo andar. a cor primeva. a que se junta a escolha cuidada do vocabulário na sua forma arcaica e a rima perfeitamente equilibrada. da última década de XIX. O poema seguinte. mas tem o encanto ideal.

Se as formas divinaes do corpo teu Se escondem. a fim de se perceber a complexidade das relações de gênero-poder nessas literaturas. conforme nos mostra na relação COR-RAÇA-PODER. assombradas por estigmas e estereótipos de índole sociocultural ainda por categorizar e analisar. egual luz?   E menos bella. Numa outra perspectiva. pouco a pouco. se afirma a mudança de sujeito e. acaso.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura A antiga esthetica grega que pelo bello morria. o tópico Imagens de/sobre a mulher africana. ligeiro véu?   Que importa a cor. se as graças. se apercebem Sob esse tão subtil. o da relação do “novo” eu com o outro. o poema seguinte. a violeta Por que o céu lhe não deu nevada cor? . se vai desmistificando a obsessiva topicalização da beleza clássica da mulher europeia para se passar a retratar a beleza da mulher africana. ou no ébano. se a candura. se adivinhão. se visse este raro specimen Uma estatua lh´esculpia!  In Almanach de Lembranças. se o sceptro da belleza Co’o mesmo enleio e brilho nos seduz? E se o facho d’amor reflecte a esparge Ou no jaspe. porém. 1890 Este período marca a ausência de escritura feminina. de Joaquim Cândido Furtado:   NO ÁLBUM DE UMA AFRICANA   Qu’importa a cor. constitui um espaço de pesquisa ainda por descobrir. a ponto de assistirmos à busca de um equilíbrio no olhar do homem africano relativamente à mulher africana. nos textos de meados do século XIX e início do século XX.

protagonista das primeiras reações críticas. se adivinhão. quando o tópico de comparação enfatiza . Não deleita então mais o rouxinol? Não serão do crepúsculo as sombras pallidas Mais bellas do que a luz d’ardente sol?   Não vive o alvo lyrio um dia apenas. para desnaturalizar o senso comum que insistia em afirmar a mulher como frágil e submissa. se apercebem Sob esse tão subtil. como protótipo de beleza e chamariz do desejo masculino (relação sexo/gênero/ desejo). Se observarmos bem. por outro. revelando-nos o espaço literário todo o conjunto de perceções estético-formais e também a dinâmica das relações sociais e raciais de poder e saber. Butler nota como o movimento feminista. identificase a Literatura como reflexo de uma crise ou da dinâmica de ressignificação dos gêneros. Se as formas divinaes do corpo teu Se escondem. p. (Butler:2003) propiciam uma reflexão mais consolidada. se as graças. se a candura. Em quanto que nas balsas a saudade De cada vez mais viço e vida tem?   Que importa a cor. 1864. E praso egual a cândida cecém.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Não é gentil a escura peônia Ou do verde lilaz a roxa flor?   Não tem encantos mil a noute escura. Ao identificar as “mulheres” como sujeito do feminismo. ligeiro véu? in Almanach de Lembranças. sob as quais os escritores atuavam. os estudos de Problemas de gênero. nos primeiros textos selecionados está presente essa imagem de mulher que a crítica fatalizou por um lado enquanto objeto sexual. se baseou no sexo como naturalmente adquirido e gênero como culturalmente construído. 116 Situando os textos no tempo de produção e publicação. percebemos que o espaço África orientou esse fatalismo tanto biológico quanto cultural. Nessa dinâmica.

o quadro das relações sociais. Vale notar que.” (BUTLER. 2003. em que o hibridismo toma os contornos de uma crise social. até os anos setenta do século XX. num segundo momento. as imagens dão-nos conta de uma presença da mulher africana e suas características nos textos de autoria masculina. que: “…o gênero nem sempre se constituiu de maneira coerente ou consistente nos diferentes contextos históricos. instalando uma espécie de crise ou apontando para a dinâmica de ressignificação de gênero que os autores vivenciaram e que literatura registrou. Com efeito. 1864- . Tomé Príncipe. crioula. com enfoque para a relação mente/ imaginação e escrita. isto é ambos aparecem como sujeitos do sexo/ gênero/desejo e abre-se a possibilidade de. O que se observa é que o discurso literário passa. a condição de colónia. Por outro lado. se analisar o conteúdo dos textos como crítica aos sistemas jurídicos de poder que criam os sujeitos que representam. Resulta que se tornou impossível separar a noção de ‘gênero’ das interseções políticas e culturais em que invariavelmente ela é produzida e mantida. a apresentar o autor africano/homem africano/sujeito masculino face à mulher africana. Sobre este aspecto.20). classistas. … porque o gênero estabelece interseções com modalidades raciais. revelando a perceção de um espaço próprio. Daí que as Imagens de e sobre a mulher se desbobrem em tópicos consolidados pelos elementos Sexo/Cor/Raça/Beleza/Idealização/Divinização da mulher. apesar de a afirmação identitária dessas literaturas se ter pautado por um traçar de linhas originais e autónomas a partir do século XIX. no ínicio do século XX. étnicas. parece ir-se alterando à medida que se afirma uma sociedade mestiça.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura a cor branca como superior à negra. Butler frisa em concordância com Foucault. terá justificado uma certa reserva de expressão perante o poder colonial. p. sexuais e regionais de identidades discursivamente constituídas. Caetano da Costa Alegre (S. inspiração e cânone literário. sobretudo de poder.

explorando o sexo para além do biológico e reflectindo sobre as dimensões do poder (social. Butler problematiza a centralidade que o gênero tomou ao pensarmos em identidade e dá conta que muitos outros indicadores sociais participam na construção de uma identidade. A crítica a uma hegemonia do patriarcado nas discussões feministas. 2. como se essa fosse uma premissa que atravessa todas as experiências das “mulheres no geral” (BUTLER. a mulher escreve e assume o que sente na sua escrita. colocando sobre a mesa as diferentes dimensões dessas relações. p. Judith Butler lembra que a emergência do sujeito não é anterior à construção das instituições. coincidem com a abertura de um espaço no discurso literário para a representação e problematização de . o homem africano e a mulher africana. a forma de sentir a relação como o outro. já no período pós-independência. mas um efeito dessas: desconstrói uma ontologia pré-social da mulher explicada por um poder pulverizado. mais concretamente anos oitenta do século XX. inspirou-nos no desenho do segundo momento em que a mulher se posiciona como objeto e sujeito do desejo no texto literário. 20). discursivo.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura 1890) assume o problema da cor da pele como obstáculo nas relações entre o homem africano e a mulher europeia. Desconstruindo a sua relação com o homem. sujeito e objeto de desejo no sentido de que o texto literário testemunha. como também estão na origem de uma problematização sem preconceito das relações de gênero. 2003. Os casos selecionados. assume-se a importância da teoria e estudos feministas. numa linguagem auto e hetero afirmativa. Para tal. as relações homo e hetero sociais e sexuais expandem-se no texto literário permitindo-se mesmo novas leituras de textos de séculos passados.2 Mulher objeto de desejo/mulher sujeito do desejo Num segundo momento desta trajetória se prontifica a mulher como autora dos textos. sociológico) em que se evidenciam a manifestação do feminino muito para além da clássico relação sexo/gênero. que não só vieram dar visibilidade às experiências e vivências protagonizadas por mulheres enquanto escritoras.

gordinha. querendo com isso dizer que o próprio discurso no/do masculino sobre o feminino se altera. tão macia aos olhos vacuda. quando não vai mais longe a ponto de o feminino se fundir no masculino. isto é. alternando-se entre os dois sujeitos a liberdade de explorar o corpo. o feminino assume-se pelo feminino. Nos novos tempos se descrevem.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura gêneros.A abóbora menina) Tão gentil de distante. nomeadamente na escrita. em universos literários muito conservadores. 1952 . apontando-se como fixa a exclusão da mulher da atividade inteletual. três referências contemporâneas para as literaturas africanas de língua portuguesa no campo da produção poética. em presença e em conteúdo. O universo literário. escolhemos os angolanos Ana Paula Tavares (1952) e João de Melo (1955) e a cabo-verdiana Vera Duarte (1952). em busca da satisfação mais plena do desejo em papel. é preechido pelo masculino. de segredos bem escondidos estende-se à distância procurando ser terra quem sabe possa acontecer o milagre: folhinhas verdes flor amarela ventre redondo depois é só esperar nela deságuam todos os rapazes . do olhar e do discurso masculino. marcado pela hegemonia do cânone. ainda se mantém no quadro geral uma quase ausência de textos de autoria feminina. como se vê a seguir: Ana Paula Tavares (Angola. No momento em que a produção literária dessas autoras se expande. no seu erotismo e despudor. e uma solidariedade entre os homens. Pelos estudos de e sobre gênero.

Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura João de Melo (Angola. UEA.Acto segundo o corpo) Sob a ternura de tuas mãos o meu corpo explodiu em fogo de artifício e míriades de estrelas animadas de vida me envolveram em seu brilho delirante Breve instante? Quimera fugaz? Que me importa se foi vida se por ele me transcendi e me alcei etérea para lá do . 1989 Vera Duarte (Cabo Verde. 1955-Novo Amor) Já vi antes esse corpo esbelto e esguio como uma palmeira suave docemente entregue ao vento Já vi antes esse ar inquieto mas forte essas mãos terrivelmente promissoras essa boca madura e cruel Já vi antes esse rio voraz e esse incêndio só pressentidos no fundo dos teus olhos transparentes como vidro Já senti antes esse temor imperceptível que escondes em teu ventre sazonado Permite que eu o colha in Tanto amor. 1951. Luanda.

situam-se obras como Mornas eram as noites (1984). Neste momento II persiste o sujeito masculino (homem africano) mas com uma mudança de olhar face ao objeto (mulher africana). nos traços em que a palavra. Da mulher como sujeito e objeto literário é feita a prosa dessas escritoras. Danny Spínola e Tomé Varela da Silva. e Paulina Chiziane. em Cabo Verde.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura desamparo e da solidão Por um breve e fugaz instante que durou eternamente ficaste incrustado no calor da minha pele em ondas multicolores com sabor d’eternidade Por um instante eterno fizeste-me deusa e rainha foste amo e senhor e nos rendemos maravilhados à quimera do amor In Arquipélago da Paixão. e também do corpo sujeito e objeto do discurso – o fálico no masculino/feminino. de Chiziane. Moçambique. Dina Salústio e Fátima Bettencourt. de Dina Salústio. pela marcação de certos tópicos corporais como as mãos e o ventre. teríamos de considerar os nomes de Conceição Lima em São Tomé. numa linguagem marcada pelo erótico e por meio da qual o homem se permite ser tomado e levado ao extremo do gozo. 2001 Os textos mostram uma nova opção de escrita. nos instantes que se quer fazer perdurar. A mudança verifica-se porque o protótipo da mulher objeto de desejo desfazse perante o homem sujeito do desejo como que anunciando uma sintonia do gênero. do prazer pelo . A Louca de Serrano (1999). as sensações e emoções parecem ganhar uma expressão nunca dantes conseguida. marcada pela intensidade dos olhares e dos movimentos do corpo. os romances Balada de amor ao Vento (1999) e Niketche (2002). como exemplos no domínio da prosa. Tal são os exemplos de João Melo. mais concretamente o experimentar ser mulher/experiência feminina do corpo. os contos e crónicas de Fátima Bettencourt. Indo mais longe nesta panorâmica de emergência da escritura de autoria feminina.

de forma despudorada. aceitando-se novos olhares e um novo percurso nas relações entre gênero e poder. apartada do poder já não social. Os gêneros vão procurando a sintonia e o equilíbrio que nos conduzem ao terceiro momento deste trabalho. noção sobre a qual recai a crítica de Foucault aos sistemas jurídicos de poder que criam os sujeitos que representam. como novo sujeito e objeto de escrita. é assinalado por textos que registam ainda a persistência do sujeito (homem) em interlocução com a mudança do seu próprio olhar face ao objeto de desejo (mulher) e ao mesmo tempo com a mulher sujeito e objeto literário (escrita de autoria feminina). neste caso decorrente da abertura dos horizontes culturais. bem como a dos estudos feministas desconstruída pelos estudos seguintes. Este momento afirma-se como o de gêneros em sintonia e assenta sobre A Canção do corpoamor. contraria a sua inferioridade e não permite que a conotação se sobreponha ao explícito. Neste espaço. como se a ordem do discurso não os intimasse (ao masculino e ao feminino) ao normativo ou.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura prazer. a través da qual se permite um reformulação do discurso sobre o corpo. geográficos. 2. já não político. porém sensual e feminina. a mulher interioriza o discurso da masculinidade. como se ambos se assumissem preparados para uma nova orientação discursiva. a construção cultural do gênero. do espaço muito tempo dominado pelo masculino e pela linguagem em que o corpo e a relação com o corpo eram modelados no esquema do “como se…” alimentado pela metáfora. educacionais e relacionais nessas sociedades anteriormente marcadas por uma ordem de discurso instituída e que insistia em estereotipar a mulher como frágil e submissa. comparativamente aos períodos anteriores. assume vez e voz nos textos.3 Gêneros em sintonia: linguagem do erótico : “A Canção do CorpoAmor” O terceiro momento. indo mais longe. já contemporâneo. Nota-se. . A leitura dos textos de autoria femininina aqui apresentados observa o movimento da mulher no espaço-texto mas sobretudo o assumir. o desejo e o sentido do gozo. expressão emprestada a um poema da escritora cabo-verdiana Vera Duarte.

Danny Spínola e Vera Duarte trazem de Cabo Verde essa busca contemporânea de sintonia de gêneros nos trechos apresentados a seguir: Danny Spínola A minha língua ao redor de ti o sol do teu corpo no sal da minha carne Como uma espiga serena entre as minhas mãos resvalas-te escrevendo na memória da pele o gosto fugitivo da brisa sobre a seda Vibram os dedos pelos acordes desse corpo o ritmo às vezes lento. Tais textos mostram-nos que o sexo não é absolutamente físico. em que a concepção universal da pessoa é deslocada pelas posições históricas e antropológicas que compreendem o gênero como uma relação entre sujeitos socialmente constituídos. A ideia de sexo correspondente a uma dimensão meramente física vai ao encontro da noção de sexo prédiscursivo que Butler contradiz: “não se pode dizer que os corpos tenham uma existência significável anterior à marca de seu gênero”. p. às vezes louco . 2003. Pensamos que o estudo das relações entre gênero e poder nas LALP poderá ser amplamente sustentado pela teoria social de gênero. (BUTLER. O gênero. Butler na problematização da centralidade que a questão do gênero tomou no universo africano. que não pode ser concebido apenas como um efeito cultural no corpo. em contextos especificáveis. apresenta alguns indicadores sociais que concorrem para se contemplar uma identidade que se quer descortinar e compreender sob a hegemonia do patriarcado que as discussões feministas não deixam de vincar e generalizar como premissa que atravessa todas as experiências das “mulheres no geral”.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Também nos parece que as implicações entre sexo-gêneropoder poderão levar-nos a olhares inovadores. mas também constitui-se no registro do gênero. prolonga-se no sexo que não é apenas natural mas é também discursivo: uma “construção discursiva do corpo” na perspetiva de Butler. 20).

) Por teu corpo de homem me faço e refaço desfaço e renasço Por teus braços de homem me entrelaço e teço compasso e enlouqueço Por teu cheiro de homem me dou e me troco vendo e me ofereço (.) E quando meu corpo renascido suadamente repousar sobre o teu ouvirei o som distante de um batuque original .) Teu corpo é corpo de homem onde desagua meu rio de mulher (. Há uma dança de peixe no olhar e as palavras quedam-se inúteis na soleira da voz Não sou mais do que uma sombra ou um relâmpago trémulo nessa paisagem de luz Vera Duarte Quero beber-te na canas que crescem desordenadas no meu paul esquecido (.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Salivas e suores afluem sobre os poros e as respirações se encontram no ar.......

uma das especialistas em avaliação e divuldação dessas literaturas. Assim se celebra a emergência da voz e do corpo feminino. no momento do encontro de corpos almas e febres…) (GOMES. executado somente por mulheres. sensual e telúrico) e dança. de todos os povos do mundo é o que nos apresenta. denota-se uma maior proximidade de olhares e de experienciamento. de corpo ressignificado. como afirma Simone Caputo Gomes. de exaltação dos sentidos. .Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura nas batidas de teu coração e em teu ventre liso e marinho abrirei uma clareira luminosa onde dançarei nua e voluptuosa essa dança tão africana de alegria de amor e de júbilo Como se pode verificar nos dois textos. de seu Povo. com a mulher a ocupar um papel preponderante em ambos. de vivências intensas. das utopias. referindo-se à produção de Vera Duarte.251). que trazem a linguagem do erótico na “Canção do CorpoAmor”: “…o eu lírico feminino. p. união. 2008. de experiência de mulher. que celebram os gêneros em sintonia. de momentos de plenitude. apoteoticamente ouve a música da terra (o batuque de Santiago. são imagens da mulher fornecidas em primeira voz e em primeiro plano. possibilitando-se a (re)invenção de novas masculinidades na relação com o feminino. …O Arquipélago da paixão…” (GOMES. 2008. em textos de homem ou de mulher. que não esquece das guerras. desencanto. das revoluções de homens e mulheres.243) Efetivamente. estamos face a: “Uma poesia intimista. beatitude alternados com extremos de sofrimento. solidão e dolorosa alteridade. E. p.

não apenas um núcleo metafísico pré-estabelecido ou uma construção. p. Partindo da conclusão de Butler sobre gênero como um fenômeno inconstante e contigencial. visando caracterizar a elaboração dos discursos de masculinidade. fundamentado no corpo orgânico. na ressignificação do corpo. biológico e genético. Neste contexto. falar de sexualidade é também se referir à produção dos saberes que a constituem. através das quais os indivíduos se dão a conhecer e procuram conhecer-se através das experiências homossociais. hetero e transsexuais que os sujeitos vivenciam. Por sua vez. sexo é o resultado complexo de uma experiência histórica singular e não uma invariante passível de diversas manifestações. sob o título (Re)Inventando masculinidades na relação com o feminino/emergência da voz e do corpo feminino/o homoerotismo pretende-se percorrer a produção de autores como o moçambicano Eduardo White e os caboverdianos Danny Spínola e Tomé Varela da Silva. a-histórico. ao passo que o gênero é algo que se adquire através da cultura. levou o primeiro a considerar que o dispositivo da sexualidade na modernidade só pode ser compreendido através dos mecanismos de poder e saber que lhes são intrínsecos.10). Butler defende o sexo como uma construção materializada . Tal pressuposto. homosexuais.é um dado natural. e de que o gênero é uma construção histórica e social. Assim. Esta compreensão baseia-se na percepção de que o sexo – homem ou mulher . problematizado por autores como Michel Foucault e Judith Butler. repetida. mas uma norma por se tornar constantemente reiterada.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura 2. De um modo geral. a teoria dá conta de que sexo é algo definido pela natureza. 1990. Os textos literários questionam os poderes instituídos e possibilitam a orientação de novas práticas. aos sistemas de poder que regulam suas práticas e às formas pelas quais os indivíduos podem e devem se reconhecer como sujeitos sexuados (FOUCAULT. a leitura do tópico em causa será feita neste espaço de acordo com o paradigma da revelação do eu no sexo. no gênero e no desejo.4 (Re)Inventando masculinidades na relação com o feminino emergência da voz e do corpo feminino/o homoerotismo Finalmente no momento IV destes olhares e percursos.

permitindo-nos notar que os mesmos deixam entrever uma certa libertação dos sujeitos dessas “amarras” sociais e restritivas. GÊNERO-PODER. o qual nos leva a questionar até que ponto as relações de poder determinaram(rão) interpretações próprias dos binómios PODER-RAÇA. Da mesma forma. afigurou-se-nos também como preocupação o modo como as realidades a elas associadas. parece ter-se igualmente diluído a ponto de mostrar que não se trata somente de uma questão da relação de dominação masculinista. de encontro de raças e de culturas. Danny Spínola e Tomé Varela da Silva. a qual adquire uma estabilidade em função da repetição e da reiteração de normas. . SEXO-GÊNERO. isto é. Parece-nos interessante analisar os textos de autoria masculina que passam a desenhar novas masculinidades na relação com o feminino. o colonial. e Eduardo White. fazendo o feminino emergir no texto. podendo esse encontro se estabelecer com outra(s) categoria(s) do mesmo gênero ou não. e sim um efeito performático que possibilita a constituição e o reconhecimento de uma trajetória sexuada. aquela lógica de fazer corresponder às formas de opressão a raça e a classe social. gênero não é uma construção social imposta a uma matéria anteriormente determinada (o sexo).Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura no tempo e não uma condição estática. em todo o percurso traçado neste olhares sobre relação de gênero de poder. como se a lógica binária fosse subvertida. para Cabo Verde. ganham contornos particulares. na explicitação do prazer e na libertação de consciências. Por outro lado. Portanto. passando a explorar o corpo ressignificado. Finalmente. Este embasamento teórico faculta-nos definições pertinentes e orientam a leitura dos textos literários escolhidos. sobretudo no movimento do corpo. Há situações em que o peso do sexo diminui para permitir uma maior projeção de gênero. do século passado. Um exemplo dessa preocupação prende-se com a configuração de uma Mestiçagem orientadora de um discurso homossocial próprio. como é o exemplo da libertação do masculino no momento do encontro de corpos. novas atitudes face às relações de gênero. o masculino pemitese experienciar novas sensações. no seu percurso histórico. SEXO-PODER. é importante pensar através de que normas reguladoras se materializam os sistemas sexo-gênero. de Moçambique apontam para essa dimensão.

o mulato. voz e sujeito masculino não significa ser a ordem do discurso (ex: ter em conta a emergência da escritura feminina e a reinvenção de novas masculinidades na obra de Danny Spínola e Tomé Varela da Silva. a mestiçagem de modo geral e a crioulidade.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura A questão central que nos inquieta neste domínio foca a circunstância de. deixamo-las sob forma de pistas para desenvolvimento desta problemática: »» O papel do escritor hoje. que por vezes poderá ser sinónimo de ambiguidade. a nível social. o mestiço. ter permitido a identificação de um ser social com caraterísticas próprias. em territórios como Cabo Verde e São Tomé e Princípe. Possivelmente os textos refletem um discusso homossocial a descobrir a partir do suporte que os estudos de gênero e a teoria queer têm vindo a fornecer nas abordagens interdisciplinares e nos estudos culturais para as quais tais literaturas encaminham. descendente de branco. Vera Duarte e outras que ficaram por ler como Fátima Bettencourt. . económico e cultural. a origem (filho de branco com negro. nos espaços de língua portuguesa. que aspectos como a cor (raça). Dina Salústio e Paulina Chiziane…) »» Do olhar ao sentir – do sentir para construir – apontando para a necessidade urgente de uma reflexão sobre a dinâmica da sexualidade e do desejo na organização das relações sociais de modo a poder-se elencar linhas de discussão e propôr fundamentação teórica capaz de assegurar estudos comparados com outras literaturas (francófonas e anglófonas). pelo que as preocupações mais evidentes. descendente de negro). forro. cujo desempenho homossocial revela tonalidades interessantes pela mobilidade. de África/em África – sujeitos e objetos de gênero: nesta linha importa considerar que ser escritor. João Melo. a condição social (escravo(a). o crioulo. …para concluir O factor tempo impôs-nos algumas condicionantes. Eduardo White. liberto) possibilitam.

Por isso. textos. assinalámos a pertinência de se fazer corresponder a linha ESPAÇO-------TEMPO. em espaços geograficamente dispersos. justifica-se que as nossas intenções e posicionamentos devam ser avaliados no quadro das limitações que esta reflexão encerra. num universo ainda por revelar. não orientou a ordem do discurso em que o masculino imperou? .Como relacionar gênero. registamos os seguintes questionamentos: . a uma África Lusófona------Séculos XIX-XX. mulheres e mulheres.De que forma os discursos que acompanham os movimentos de afirmação do Negro e reformulação da identidade – subjacentes na idéia de herói colectivo e autonomia . Considerando que o percurso identitário e a construção de identidades se processaram em situações distintas. poder e construção de Identidade(s)? – Como se processa a passagem da ideia do sujeito individual para o sujeito colectivo e destes para a ausência de sujeito(s) que os textos literários tendem a revelar? Num universo de sujeitos imerso na linguagem e identidades múltiplas.Até que ponto o tipo de relação social entre homens e homens. o discurso literário em particular dispõe de instrumentos .Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura No início desta reflexão. se movimentam.puderam substituir o discurso “normativo” e será possível falar-se em novos discursos nos anos 60 século XX e seguintes? . Estamos a falar de mais de um século de produção literária. em contextos desta natureza. dialogam e exploram sujeitos e temáticas que poderão manifestar um quadro das relações de gênero e poder em linhas de aproximação e diferenças. linguagens e dinâmicas discursivas se apresentam. homens e mulheres. de séries literárias com percursos de afirmação própria onde autores.

explicando assim a possibilidade de desenhar relações entre: � Colonialismo e homossociabilidade .pensar nessa ontologia como produtor/ efeitos de poder é uma forma de compreender essa epistemologia como uma construção e não de forma natural. político. acto.Emergência do novos sujeitos – o homem. mulher subalterna embora não necessariamente marginalizada.Homemespaço – homemidentidade – descentralização da identidade cultural � Pós-colonialismo e questionamentos sobre gênero e sexualidade . orgão. leitores e críticos desbravam o poder de legitimar a proliferação dos discursos a que se refere Foucault.O que é ser homem na literatura africana pós 1850??? .Binarismo – o poder e a produção de uma ontologia heterossexual . desejo) . .Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura poderosos com que os autores. econímico) tem vindo a se manifestar nas literaturas africanas de língua portuguesa. polígamas. a saber: »» Sociedades conservadoras. Tal observação permitiu-nos perceber como alguns setores sociais passam a demonstrar uma crescente aceitação da pluralidade sexual e.O que é ser homem em África na 1ªmetade sec XX?? � Colonialismo e construção de identidades . o escritor africano .Libertação do corpo no texto literário (sexo:gênero. Os nossos percursos foram conduzidos sob o olhar atento à forma como a questão do gênero na sua relação com o poder discursivo (social. o herói. Para dar corpo ao desenvolvimento inteletual desses percursos há que considerar alguns exemplos situacionais concretos. até mesmo. passam a permitir orientação que os textos literários ousam explorar.

interrogar o discurso heteronormativo e o binarismo da colocação sexogênero. entre os demais autores aqui referenciados. SPIVAK (2010). tais olhares e percursos permitiram-nos abrir caminhos para um novo entendimento dos textos ao questionar a oposição heterossexual/homossexual. Em conclusão. . poderão levar-nos à leitura dos estereótipos e discriminação no colonialismo e a compreender a ambivalência do discurso colonial na orientação da dinâmica dos movimentos (e das teorias) sexuais e de gênero. Acreditamos que uma leitura mais atenta de ANDERSON (2009). aplicadas às chamadas literaturas emergentes. o conhecimento e as relações entre os sujeitos. mais espaço ao entendimento da problemática das identidades em África e à formulação de uma política pós-identitária sugerida pelos/as teóricos/as queer. incluindo a teoria queer.Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura »» Homossexualidade socialmente camuflada. compreendida como a categoria central que organiza as práticas sociais. HALL (2006). admitindo ser possível dar uma maior projeção. »» Emergência (tardia?) de um discurso literário feminino a poder significar o redimensionamento da ordem do discurso.