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Voto ADPF/54

Em primeiro lugar, deixo claro que a Corte não está decidindo pela aprovação
do aborto no Brasil, nem pela permissão de aborto em caso de deformações. O que
está em pauta, é somente a interrupção da gravidez em caso de feto anencefálico.
Na petição inicial, foi pedido o julgamento da inconstitucionalidade da interpretação
dos artigos 124, 126 e 128, incisos I e II, do Código Penal, que impede a realização
da interrupção da gravidez de feto anencéfalo mediante diagnóstico por profissional
capacitado.
De

um

lado,

existem

aqueles

que

servem-se

de

discursos

com

fundamentações religiosas, é de grande importância ouvi-los, assim como todas as
outras opiniões, que foram ouvidas nas audiências publicas e agora se fazem
presentes por meio dos amicus curiae. Todavia, como assegura nossa Magna Carta,
no Artigo 19, I, o Estado é Laico, e decorrente de tal fato, as concepções religiosas
não podem influenciar as decisões. Devem ser tomadas a partir de pressupostos
médicos e jurídicos que garantam a gestante o direito de escolha, a sua privacidade
e ao feto, o direito a uma morte digna.
A anencefalia é uma máformação letal do cérebro e do crânio que afeta a
maioria das ações necessárias para um ser humano. O feto anencéfalo não teria
capacidade de vida extrauterina, em todos os casos, se o feto não morrer no ventre
de sua mãe, a morte ocorre logo após o parto e uma parcela muito pequena ainda
consegue sobreviver por dias ou poucos meses. O notado caso da menina Marcela
de Jesus, que sobreviveu por um ano e oito meses e que segundo o primeiro
diagnóstico, possuía anencefalia, foi negado por uma junta médica que afirmou que
Marcela sofria de meroencefalia, que também é uma máformação do tubo neural,
entretanto, possuía algumas partes do cérebro, possibilitando, ainda que
precariamente, a vida extrauterina . Segundo o conceito de vida do Conselho Federal
de Medicina (CFM), um feto anencefálico nunca terá condições de desenvolver vida
com todas as capacidades inerentes ao ser humano, como atividade psíquica, física
e afetiva, já que não possuirá atividade cerebral. Desta maneira, não existe
discriminação, tampouco caracteriza prática eugênica a interrupção da gravidez no
caso analisado.

É defendido por uma certa parte da sociedade que não seja aceita a
interrupção da gravidez dos anencéfalos com a intenção de doar os órgãos do feto.
O que é completamente contraposto por dois fatores: primeiro, fazer a mulher
carregar em si um feto somente para a doação de seus órgãos, seria uma maneira
de coisificar a gestante, ademais, pode ser como um carcere para a mulher, já que
estaria presa, sem reação; segundo, a viabilidade do uso dos órgãos dos fetos
anencéfalos é muito pequena, já que devido a anomalia, os outros órgãos também
ficam comprometidos.
Não podemos falar em direito a vida do feto, já que como foi exposto, o feto
não possui potencialidade de vida, além de que tal direito não é um direito absoluto,
podemos citar nossa própria Constituição para que isto seja constatado, segundo o
Art. 5º, XLVII em tempos de guerra, a pena de morte é permitida e ainda, o Código
Penal, no Art. 128, I e II admite que o aborto não será punido nos casos de aborto
ético ou humanitário. Por conseguinte, não se caracteriza aborto a interrupção da
gravidez de anencéfalo, já que o aborto é um crime contra a vida em potencial. Ainda
que o feto sobreviva por pouquíssimo tempo, ele não será capaz de continuar a viver.
A interrupção da gravidez é uma pratica que visa uma morte digna e segura, além de
que resguarda a vida da mulher. A época do Código Penal de 1940, não existiam
diagnósticos, nem meios capazes de prever a anomalia no feto, o que é
compreensível a falta de um dispositivo que garanta que a interrupção de gravidez no
caso de feto anencéfalo, assim, repetindo, como o feto não possui potencialidade de
vida, ele não pode ser tutelado pela lei penal.
Falamos aqui em vários direitos da gestante, a autonomia: cabe a ela sopesar
seus valores e sentimentos, afim de decidir em interromper ou não sua gravidez, já
que tal gravidez pode ser um verdadeiro martírio: carregar em si um feto que não terá
potencialidade de vida poderá acarretar em problemas psíquicos e até físicos.
Entretanto, nenhuma mulher será obrigada a praticar tal ato, como foi dito, a decisão
cabe a ela e não ao Estado. O governo tem a única obrigação de garantir o tratamento
adequado e a realização segura do aborto, com o intuito de não causar possíveis
danos na grávida, além de todo o sofrimento que esta já passa. Além disso, o
diagnostico de anencefalia é garantido com completa certeza, estando o Sistema
Único de Saúde apto a realizar tal diagnóstico e realizar todos os procedimentos. O
Direito a Saúde, já que a grávida corre sérios riscos se persistir com a gravidez, e

ainda pode sofrer danos psíquicos, não só ela, mas afeta toda uma família, já que
aquele bebê não terá continuidade em sua vida. A mulher tem o direito a dignidade,
de interromper a gravidez, a fim de não se martirizar e ainda poder engravidar
novamente, já que se a gravidez perdurasse, o trauma seria ainda maior.
Não se deve proteger somente o feto, que não possui expectativa de vida
extrauterina, deixando de lado os anseios de sua mãe. Cabe ao Estado assegurar a
interrupção de gravidez de feto anencefálico, seguindo os preceitos de que todos tem
direito a liberdade de escolha, a privacidade, a dignidade. Impor a uma mulher que
continue com a gravidez, como já foi citado anteriormente, causará vários danos a
ela, impondo um sacrifício a sua dignidade, a sua saúde, quer seja mental ou física,
é reconhecer os direitos pelo qual elas sempre batalharam. Deve se primar pela
mulher, interrompendo seu sofrimento e garantindo a ela toda assistência necessária,
para que apos a interrupção, ela continue sua vida e possa novamente conceber um
filho, já que para muitas delas, a maternidade é um dos maiores benefícios que a
vida pode dar.
Deste modo, feita uma breve explanação sobre o caso julgado, deixo claro que
julgo procedente o pedido para considerar inconstitucional a interpretação dos artigos
124, 125 e 126 do Código Penal brasileiro, que segundo a qual, considera a
interrupção da gravidez de feto anencefálico como crime.