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RECONFIGURAÇÃO DAS POLÍTICAS SOCIAIS NO BRASIL NO CONTEXTO DO

NEOLIBERALISMO
Américo Ribeiro
RESUMO
Este artigo pretende mostrar os impactos do governo Fernando Henrique Cardoso,
principalmente em seu segundo mandato a partir de 1998 sobre as políticas sociais no Brasil,
tendo em vista o contexto de neoliberalismo adotado por ele e implantado em praticamente
todo o país.
Palavras-chave: Políticas Sociais. Neoliberalismo. Sociedade brasileira.

INTRODUÇÃO

Ao longo dos anos 90, se propagou pela mídia falada e escrita, nos meios políticos
e intelectuais brasileiros uma grande campanha por reformas. A era Fernando Henrique
Cardoso (FHC) foi marcada por essa ideia, já vinha desde os tempos de Collor e Itamar, do
qual foi ministro da Fazenda e um dos principais responsáveis pelo chamado Plano Real. Mas
da mesma maneira de seus antecessores, faltava a FHC legitimidade política para a condução
desse processo de reformas no país. O que se observou foram “reformas” orientadas ao
mercado, num contexto em que os problemas no âmbito estatal, eram as causas centrais da
profunda crise econômica e social vivida no país desde o começo dos anos 80. A Reforma do
Estado enfatizou as privatizações e a previdência social, e, acima de tudo, o novo “projeto da
modernidade” cujo principal documento foi o Plano Diretor da Reforma do Estado
(PDRE/MARE, 1995), elaborado por Bresser Pereira, ex-ministro da Fazenda do presidente
Sarney e autor do desastroso Plano Bresser. A partir da instituição do Plano Real em 1994,
começa

a

ocorrer

algo

diferente

do

crescimento

mal

dividido

herdado

do

desenvolvimentismo. Houve uma espécie de reformatação do Estado brasileiro para a

 Graduado em História pela Universidade Estadual do Maranhão – Centro de Estudos
Superiores de Caxias (CESC-UEMA) e Pós-Graduado em História do Brasil pelo Instituto de
Ensino Superior Franciscano (IESF).

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adaptação passiva à lógica do capital, revelando a natureza pragmática, imediatista, submissa
e antipopular das classes dominantes brasileiras, o que equivaleria dizer, que o que realmente
aconteceu foi uma contrarreforma do Estado, conduzida por uma coalizão de centro-direita e
protagonizada por Fernando Henrique Cardoso. A “reforma”, tal como foi conduzida, acabou
tendo um impacto pífio em termos de aumentar a capacidade de implementação eficiente de
políticas públicas, considerando sua relação com a política econômica e o aumento exagerado
da dívida pública. Houve uma forte tendência de tirar do Estado a responsabilidade pela
política social – que supostamente seria o alvo da reforma – acompanhada pelo desprezo das
conquistas contidas na Constituição de 1988 no terreno da seguridade social. Isso ocorreu
concomitantemente ao crescimento da demanda social, associado ao aumento do desemprego
e da pobreza, aprofundados pelo Plano Real. Embora não tenha significado uma ausência de
política social, suas formulações de política social foram adaptadas ao novo contexto do
neoliberalismo, conforme veremos nos itens que se seguem.

2 O GOVERNO FHC: A “Reforma” Neoliberal

Acerca do significado dos processos de privatização no Brasil, o jornalista
Aloysio Biondi (1999) ao comparar os argumentos difundidos e seu impacto socioeconômico
efetivo, mostra de forma contundente e com riqueza de dados, o sentido da “reforma” do
Estado: retira-lo de suas funções produtivas. Biondi aponta como se desencadeou uma
verdadeira campanha da mídia para legitimar e facilitar as privatizações, criando uma
subjetividade antipública, tarefa que não foi difícil, haja vista como seu a expansão do Estado
brasileiro na ditadura militar e a pouca vontade política na recente democracia, no sentido da
construção da esfera pública, já sob orientação neoliberal.
Os argumentos centrais presentes na justificativa dos processos de privatização
foram: atrair capitais, redução da divida externa, reduzir preços ao consumidor, melhoria da
qualidade dos serviços e atingir a eficiência econômica das empresas que estariam nas mãos
do Estado. O resultado aponta ele, foi exatamente o inverso: aumento de preços e tarifas,
demissões antes e depois das privatizações, dividas engolidas pelo governo, assumindo os
fundos de pensão e aposentadoria. Denunciou ainda, as facilidades oferecidas aos

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compradores, com juros muito abaixo do mercado e outros truques e financiamentos que não
só ficaram escondidas da população brasileira como a lesaram repetidas vezes.
Outro aspecto que chama a atenção nas privatizações foi a entrega significativa do
patrimônio público brasileiro ao capital estrangeiro, bem como a não-obrigatoriedade das
empresas privatizadas de comprarem insumos (custos da produção de mercadorias e serviços)
no Brasil, o que levou ao desmonte de parte do parque industrial nacional e uma enorme
remessa de dinheiro ao exterior, provocando desemprego e desequilíbrio da balança
comercial. Novamente o inverso do que foi prometido: o combate à crise fiscal e o equilíbrio
das contas públicas nacionais, mostrando uma disparidade entre a “reforma” e a
implementação da política econômica, o que não surpreende, pois na verdade era
perfeitamente compatível com a política econômica do neoliberalismo.
Podemos destacar, ainda, nessa “reforma” do Estado o Programa de Publicização,
expressado na criação de agências executivas e organizações sociais, bem como na
regulamentação do terceiro setor para a execução de políticas públicas. Esta ultima
estabeleceu um Termo de Parceria com ONGS e Instituições Filantrópicas para a implantação
dessas políticas. A essa nova reconfiguração institucional na área social, como já dito
anteriormente, ignorando o conceito constitucional de seguridade, combinou-se o serviço
voluntário, retirando a intervenção profissional dessas áreas e remetendo-as a mera
solidariedade e filantropia não remuneradas.
Para Vieira, essa nova reconfiguração neoliberal dos anos 90 em diante significou
para a política social
[...] a confusão da política social com a política pública, e ainda a aplicação aos
países latino-americanos de diretrizes e programas socioeconômicos gerados nas
agencias internacionais de financiamento, com a enganosa designação de
“neoliberalismo”. No âmbito da política social, privatização, parceria do público
com o privado, descentralização, renda mínima. [...] O que na atualidade tem sido
chamado de políticas sociais (e comumente de políticas públicas) resume-se quase
sempre em programas tópicos, dirigidos a determinados focos, descontínuos,
fragmentados, incompletos e seletivos, com atuação diversa, sem planejamento [...]
sem controle da sociedade. (VIEIRA, 2009, p. 111, 113)

O impacto desta reconfiguração neoliberal na política social do Brasil com o
Programa de Publicização pode ser resumido basicamente em três termos que serão
discutidos adiante: privatização, focalização/seletividade e descentralização.

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3 O IMPACTO DO NEOLIBERALISMO NA POLITICA SOCIAL

Neste ponto estaremos abordando uma segunda dimensão do custo social
provocado pela reforma neoliberal: o seu impacto sobre as Políticas Sociais. Para esta tarefa a
caracterização de Laura Tavares Ribeiro Soares na obra Os custos sociais do ajuste neoliberal
na América Latina (2000) é esclarecedora: o quadro de retrocesso social com aumento da
extrema e de uma “ nova” pobreza, decorrente do desemprego gerado pelas medidas de ajuste,
reestruturação e flexibilização das relações de trabalho, é acompanhado uma pauperização das
políticas sociais. De acordo com ela, o aumento da demanda por benefícios e serviços
vinculou-se à um Estado de mal estar, resultante da contenção/limitação/desintegração das já
poucas experiências de seguridade social na América Latina e principalmente no Brasil.
Prevalece o já referido trinômio articulado do ideário neoliberal para as políticas
sociais, a saber: privatização, a focalização e a descentralização. Enquanto a privatização
gera uma dualidade discriminatória entre quem pode e quem não pode pagar pelos serviços,
ao mesmo tempo em que gera lucros para o capital, como no caso da previdência
complementar e o ensino superior, a focalização seleciona o acesso aos comprovada e
extremamente pobres. Já a última, a descentralização, trata-se não de uma partilha do poder
entre as esferas públicas, mas uma mera transferência de responsabilidades para entes da
federação ou para instituições e novas modalidades jurídico-institucionais como o “terceiro
setor” substituindo as políticas públicas. Ao não se constituir como uma rede complementar
mas sim como uma “ alternativa eficaz” esse apelo ao terceiro setor ou à “sociedade civil”,
aqui mistificada, configurou-se como um verdadeiro retrocesso histórico conforme denuncia
Soares
Cabe discutir se o que resta hoje como alternativa de política social seriam as ações
específicas e focalizadas [...] Esses pequenos e pulverizados programas quase
sempre são associados a uma estratégia mais geral - chamada de Descentralização que é a da total responsabilização dos Municípios pela implementação de Políticas
Sociais. [...] venho denominando esse processo de Descentralização Destrutiva: de
um lado se tem o desmonte de Políticas Sociais existentes - sobretudo aquelas de
âmbito nacional - sem deixar nada em substituição; e de outro se delega aos
Municípios as competências sem os recursos correspondentes e/ou necessários. Em
todos os âmbitos da Política Social – Saúde, Educação, Saneamento Básico – onde
essa estratégia de descentralização foi acompanhada por um desmonte, o resultado
foi um agravamento da iniquidade na distribuição e oferta de serviços. [...] Baixo os
argumentos de que o cidadão vive no “município” e de que o controle e a
participação social se realizariam plenamente se os serviços fossem geridos pelo
“poder local”, a descentralização de programas sociais tem provocado um enorme

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reforço do “caciquismo” ou do “coronelismo” local, expressões que no Brasil
significam o reforço de esquemas tradicionais de poder das elites locais. É só
observar como se dá a distribuição de cestas de alimentação nos municípios, onde
proliferam todas as formas de clientelismo político e de dominação social. (2000,
p.176-177).

Os resultados foram desastrosos como todos sabem: as reformas da previdência de
1998 e 2003 introduziram critérios que focalizaram ainda mais os direitos na população
contribuinte e restringindo direitos, reduziu também o valor dos benefícios, limitando outros
como o auxilio-familia ao mesmo tempo em que elevaram a permanência no mercado de
trabalho e não incorporam os trabalhadores pobres do setor informal, que totalizavam quase
50 milhões de brasileiros na época. A saúde publica, com as privatizações, padece de recursos,
o que se evidencia nas longas filas, na demora do atendimento, na falta de medicamentos e na
redução de leitos. Em lugar da universalidade e gratuidade da saúde pública, jornais da época
como a Folha de S. Paulo denunciavam uma forte tendência a reduzir a um pacote de “cesta
básica” aos mais pobres.
Segundo a concepção neoliberal de política social, o bem estar social pertence ao
âmbito privado. Esta concepção como afirmou Soares (2000) marca um retrocesso cruel: no
Brasil, mesmo com as conquistas de 1988, ao invés de evoluirmos para um conceito de
Política Social como constitutiva da cidadania, retrocedemos ao focalismo, ao emergencial e o
mínimo, onde os pobres têm de dar conta de seus próprios problemas encobertas sob nomes
como “participação comunitária”, “autogestão”, onde a solução dos problemas se resume a
“mutirão”.
Para Vieira (2009) no modismo neoliberal, os pobres, e claro a pobreza, são
resultados de sua de sua própria condição. Sua miséria segundo os neoliberais é fruto somente
de sua falta de aptidão pessoal, desventura ou “exclusão” do mercado.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como vimos nos itens anteriores, a trajetória recente das políticas sociais
brasileiras, profundamente conectadas à política neoliberal e de duro ajuste fiscal, acabou
seguindo

pelos

caminhos

da

privatização

para

os

que

podem

pagar,

da

focalização/seletividade e políticas pobres para os pobres bem como da descentralização, vista

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como desresponsabilização do Estado, apesar das inovações da Constituinte de 1988. Essa
escolha de política econômica conjugada a esse perfil de política social teve impactos
prejudiciais na sociedade brasileira, tornando dramática as expressões objetivas da questão
social no Brasil. A consolidação da seguridade social e da política social brasileira, com
possibilidade de ampliação e universalização depende sobretudo da reestruturação da
economia, com investimentos, geração de empregos estáveis com carteira de trabalho,
fortalecimento das relações de trabalho e não do que ocorreu na reconfiguração neoliberal das
políticas sociais com ajustes fiscais que expropriaram recursos das políticas sociais.
É importante concluir este trabalho apontando que a política social, no contexto
do capitalismo em sua fase atual, não é capaz de reverter o quadro social brasileiro, nem é sua
função estrutural. Entretanto, fazer das políticas sociais uma bandeira de luta dos
trabalhadores, é tarefa de todos os que se comprometem com a emancipação política e
humana, tendo sempre em vista elevar o padrão de vida das maiorias. Debater e lutar pela
ampliação dos direitos e das políticas sociais é fundamental porque envolve necessidades
básicas de milhões de pessoas, com impacto real nas suas condições de vida e trabalho, pois
ao recusarmos essa tarefa e definir política social como “incômoda” estaremos ampliando
ainda mais o típico quadro de pobreza, desigualdade e exclusão de hoje.
REFERÊNCIAS

BEHRING, Elaine Rossetti; BOSCHETTI, Ivanete. Política Social – fundamentos e história.
São Paulo: Cortez, Biblioteca Básica de Serviço Social, 2011.

BIONDI, Aloysio. O Brasil privatizado: um balanço do desmonte do Estado. São Paulo: Ed.
Fundação Perseu Abramo, 1999.

SOARES, Laura Tavares R. Os custos sociais do Ajuste Neoliberal na América Latina. São
Paulo: Cortez. 2000.

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VIEIRA, Evaldo. Os direitos e a política social. São Paulo: Cortez, 2009.