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Colégio Batista Mineiro

Disciplina: Literatura – 2º ano
Professora: Rosana Gondim
Aluno: _________________________________________
O Parnasianismo é a manifestação poética do Realismo, embora ideologicamente não mantenha todos
os pontos de contato com os romancistas realistas e naturalistas.
O Parnasianismo surgiu na França, a partir de 1866, com uma antologia de poetas de tendências
diversas, mas, em sua maioria, desejosos de reagir contra o sentimentalismo romântico. Essa publicação
chamava-se Le Parnase Contemporain e tinha, entre seus partícipes e teorizadores, entre outros, os poetas:
Théophile Gauthier, Laconte de Lisle e Charles Baudelaire.
Na Brasil, inaugura-se em 1882, com a publicação da obra Fanfarras de Teófilo Dias. A consagração
efetiva do movimento ocorre com as edições de três volumes daqueles que são considerados os maiores poetas
parnasianos brasileiros: Sinfonias (1883), de Raimundo Correia; Meridionais (1884), Alberto de Oliveira; e
Poesias (1888), de Olavo Bilac. Esses três poetas formam a chamada Tríade Parnasiana.
Embora o Parnasianismo brasileiro tenha cultuado a forma e manifestado apreço por temas universalistas,
extraídos do ideário greco-latino e oriental, a subjetividade às vezes suplanta a desejada impassibilidade que os
franceses tanto pregavam, como se pode observar em Vicente de Carvalho, o mais subjetivo dos parnasianos.
CARACTERÍSTICAS
A poesia parnasiana preocupa-se com a forma e a objetividade, com seus sonetos decassílabos ou
alexandrinos perfeitos. Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira formam a trindade parnasiana. O
Parnasianismo é a manifestação poética do Realismo, dizem alguns estudiosos da literatura brasileira, embora
ideologicamente não mantenha todos os pontos de contato com os romancistas realistas e naturalistas. Seus
poetas estavam à margem das grandes transformações do final do século XIX e início do século XX. Preocupados
em combater o estilo romântico, resgatam os valores clássicos de beleza, equilíbrio e harmonia, mas desenvolvem
uma poesia “alienada”, decorativa, ornamental. Daí a justificativa para a maioria de seus poemas apresentar
descrições de objetos decorativos, de grande valor e raridade (“Vaso grego”, “Vaso chinês”). Os poetas
consideram-se verdadeiros ourives, capazes de lapidar seus textos até atingirem a extrema perfeição.
Arte pela arte: Os parnasianos ressuscitam o preceito latino de que a arte é gratuita, que só vale por si
própria. Ela não teria nenhum valor utilitário, nenhum tipo de compromisso. Seria auto-suficiente. Justificada
apenas por sua beleza formal. Qualquer tipo de investigação do social, referência ao prosaico, interesse pelas
coisas comuns a todos os homens seria “matéria impura” a comprometer o texto. Restabelecem, portanto, um
esteticismo de fundo conservador que já vigorava na decadência romana. A arte passava apenas a ser um jogo
frívolo de espíritos elegantes.
Culto da forma: O resultado dessa visão seria o endeusamento dos processos formais do poema. A
verdade de uma obra residiria em sua beleza. E a beleza seria dada pela elaboração formal. Essa mitologia da
perfeição formal e, simultaneamente, a impotência dos poetas em alcançá-la de maneira definitiva são o tema do
soneto de Olavo Bilac intitulado “Perfeição”. A nova estética se manifesta a partir do final da década de 1870,
prolongando-se até a Semana de Arte Moderna.
Objetividade temática e culto da forma: eis a receita. A forma fixa representada pelos sonetos; a
métrica dos versos decassílabos ou alexandrinos perfeitos; a rima rica, rara e perfeita. Isto tudo como negação da
poesia romântica dos versos livres e brancos. Em suma, é o endeusamento da forma, a valorização extrema do
aspecto formal, o cuidado com a linguagem refinada, o rigor métrico. Contrário ao sentimentalismo exagerado dos
românticos, propunha uma postura mais contida do poeta.
Entende-se por FORMA a maneira de o poema se apresentar, seus aspectos exteriores. A forma seria, assim,
a técnica de construção do poema. Isso constituía uma simplificação primária do fazer poético e do próprio conceito de
forma que passava a ser apenas uma fórmula resumida em alguns itens básicos:





Metrificação rigorosa;
Predomínio das rimas ricas;
Preferência pelo soneto;
Objetividade;
Racionalismo/ Impassibilidade;
Descritivismo;

O gênio sem ventura e o amor sem brilho! ( Olavo Bilac) 2. És. “Profissão de Fé”. Na descrição desses assuntos. ilustra essa concepção formalista: “Invejo ourives quando escrevo Imito o amor Com que ele. forma rejeitada pelos românticos. Uso frequente do enjambement (encadeamento/ cavalgamento). mudo e sombrio.) São características marcantes desse estilo: 1. f) Com a freqüência do enjambement (ou encadeamento) –. num mistério enorme. E o arrolo da saudade e da ternura! Amo o teu viço agreste e o teu aroma De virgens selvas e de oceano largo! Amo-te. inculta e bela. Da aceitação desse princípio decorre a busca da perfeição formal. a arte deveria ter um fim em si mesma. d) Concepção de amor mais carnal e erótica do que a observada nos românticos. Tuba de alto clangor. Amo-te assim. paisagens são os assuntos prediletos. e. Vênus. ó rude e doloroso idioma.. de Olavo Bilac. desconhecida e obscura. . Portas fechadas.) Por isso.. Que tens o trom e o silvo da procela.. verdadeira obsessão dos parnasianos. 2. distantes do falar cotidiano. Dessa concepção. Uso frequente do hipérbato (inversão sintática). o tema central e quatro características parnasianas. alteia. e) Impassibilidade: o poeta deve conter suas emoções. dando preferência ao português do Portugal.. ser impassível. enfim No verso de ouro engasta a rima Como um rubim (. Última flor do Lácio Última flor do Lácio. E em que Camões chorou. esplendor e sepultura: Ouro nativo. nos poemas a seguir. lima A frase. imoto em seu leito. objetos valiosos e decorativos. não se envolver emocionalmente como assunto de que trata. a idéia de um verso só se completa através da leitura do outro.. b) Com a utilização de um vocabulário erudito. seguidas de seus devidos exemplos. não considerando os sentimentos e emoções do artista ou os problemas sociais. Torvo. d) Com a clareza e lógica impecáveis. EXERCÍCIOS Tendo como base a teoria apresentada acima. (.. resultam: a) Descritivismo: cenas históricas. somada à retomada do Classicismo. que seria conseguida: a) Com o emprego de rimas ricas. a um tempo. Principio aceito: arte pela arte.) Torce. no exílio amargo.   Seleção vocabular. aprimora. em que da voz materna ouvi: "meu filho!". lira singela. Fantástica Erguido em negro mármor luzidio. o alto relevo Faz de uma flor. Numa terra de reis. identifique. Sono de lendas um palácio dorme. e) Como o uso do hipérbato (inversão sintática). os parnasianos apresentam suas teorias de escrita e sua obsessão pela “Deusa Forma”. em ouro. que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela. um rio o cinge. f) Purismo gramatical: o poeta parnasiano segue rigorosamente as regras de gramática normativa. b) Aproveitamento de figuras e fatos de mitologia clássica. corre por servir-me Sobre o papel A pena. deusa da beleza e do amor na mitologia grega. c) Com a recuperação do soneto. enfocando sensualmente a mulher. preocupa-se somente com a perfeição técnica de seu verso.. encarna o modelo de mulher. ou seja. constituído de palavras incomuns. 1. o parnasiano mostra-se extremamente detalhista. como em prata firme Corre o Cinzel(. c) Vocabulário incomum.. Em vários poemas.

Vaso grego Esta de áureos relevos. vêm rindo. mais outra . talvez por contraste à desventura. (Alberto de Oliveira) E inda ornada de gemas e vestida De tiros de matiz de ardentes cores. E as trompas a soar vão agitando O remanso da noite embalsamada. Sentia um não sei quê com aquele chim De olhos cortados à feição de amêndoa. e. Ignota voz. Colo mais claro do que a espuma jônia. Era o poeta de Teos que a suspendia Então. de um calor sombrio. um por um. Já de aos deuses servir como cansada. punhais. E lamentam-se arbustos encantados.. Vêm alegres. Casualmente. Os sonhos. Mas.. Também dos corações onde abotoam. No azul da adolescência as asas soltam. Depois... penduradas Pelo muro panóplias. trabalhada De divas mãos.. move-se. Dentro. sem mácula. Na tinta ardente. Traz o colo estrelado de diamantes..... qual se da antiga lira Fosse a encantada música das cordas. armaduras. Entre o frio esplendor dos artefactos. a um novo deus servia. à luz dos plenilúnios argentados. Voltam todas em bando e em revoada. Como voam as pombas dos pombais.. Fino artista chinês. Entre um leque e o começo de um bordado.. Ruflando as asas. sacudindo as penas.. Em seu régio vestíbulo de assombros. assombro e mudez! quedas figuras De reis e de rainhas.. E o bosque estala. E à tarde. Nele pusera o coração doentio Em rubras flores de um sutil lavrado. E o silêncio outra vez soturno desce. aos pombais de novo elas. Que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a. Fogem. As pombas Vai-se a primeira pomba despertada . Vê-se em bronze uma antiga e bronca esfinge. céleres voam. (Raimundo Correia) 6. ora repleta ora esvaziada. Mas aos pombais as pombas voltam. 5. uma vez. (Alberto de Oliveira) 3. quando a rígida nortada Sopra.. brilhante copa.. Mas o lavor da taça admira.. estremece.. Só a lua.. alvacenta A lua a estrada solitária banha. um raio baço Põe da morta no tálamo de flores... E límpida. E rolam-lhe os cabelos abundantes Sobre peles nevadas de Issedônia. Vaso chinês Estranho mimo aquele vaso! Vi-o... Da cavalgada o estrépito que aumenta Perde-se após no centro da montanha. Toda de roxas pétalas colmada. vêm cantando. Vai-se outra mais . Com trombetas de ébano nos ombros. A taça amiga aos dedos seus tinia.. A Cavalgada A lua banha a solitária estrada.. apenas Raia sanguínea e fresca a madrugada . confuso e brando. São fidalgos que voltam da caçada. enamorado. mas além. Vinda do Olimpo.E. Qual se essa voz de Anacreonte fosse. canora e doce.. E eles aos corações não voltam mais. enfim dezenas De pombas vão-se dos pombais. um dia. espadas. O som longínquo vem se aproximando Do galopar de estranha cavalgada.. Uma bela princesa está sem vida Sobre um toro fantástico de flores. Quem o sabe?. Há uma guarda de anões estupefactos. de um perfumado Contador sobre o mármor luzidio. serenas. Dardos.. piques. (Alberto de Oliveira) 4. (Raimundo Correia) . elmos. às bordas Finas hás de lhe ouvir. Toca-a. E o silêncio por tudo! nem de um passo Dão sinal os extensos corredores... alta noite. de um velho mandarim Também lá estava a singular figura. e do ouvido aproximando-a.. Silêncio!.

O ônix prefiro. Erguer de Atene o altivo porte Descomunal.. corre. Que outro . mudo. como em prata firme Corre o cinzel. em ouro. lima A frase. E. desenha. E. Deixa-a crescer. Mais que esse vulto extraordinário. O olhar atento. Assim procedo.Bando feroz! Não se te mude a cor da face E o tom da voz! Olha-os somente.não eu! .tanta perícia. armada e pronta. enfim. é em vão Que brande no ar a maça bruta A bruta mão. Por te servir. saia da oficina Sem um defeito: E que o lavor do verso. em jato. Invejo o ourives quando escrevo: Imito o amor Com que ele. E horas sem conto passo. que se avoluma De um torvo mar. Dobrada ao jeito Do ourives.a pedra corte Para. por servir-me. brutal. nem de Carrara A pedra firo: O alvo cristal. Tanta requer. Torce. PROFISSÃO DE FÉ Não quero o Zeus Capitolino Hercúleo e belo. 4 . acaso. e. No verso de ouro engasta a rima.. Quero que a estrofe cristalina. Por isso. e o lodo e a espuma Deixa-a rolar! Blasfemo> em grita surda e horrendo Ímpeto. A idéia veste: Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem Azul-celeste. Cruel e audaz. alteia.1. longe de tudo O pensamento. Talhar no mármore divino Com o camartelo. de entre os mais. Imito-o. enfeita a imagem. Não morrerás. Por tão subtil. Este. Deusa serena. A trabalhar. Radiante e bela: E. que. Deixa-o: que venha e uivando passe . Vociferando. aprimora.. Possa o lavor lembrar de um vaso De Becerril. o vulto Ferrenho alteia. a pedra rara. Que assombra a vista. Seduz-me um leve relicário De fino artista. Corre. Que oficio tal. Porque o escrever . Sobre o papel A pena. e o todo Possui minaz De um vândalo ou de um visigodo. se morreres por ventura. Como um rubim. Minha pena Segue esta norma. E. expele o amargo insulto Que te enlameia: É em vão que as forças cansa. pois. o alto relevo Faz de uma flor. e â luta Se atira. Serena Forma! Deusa! A onda vil.. o bando Venha dos bárbaros crescendo. ao braço o escudo> a raiva afronta Dessa procela! Este que à frente vem. nem há notícia De outro qualquer. Deusa sublime! Do trono egrégio Assistirás intacta ao crime Do sacrilégio.

esplendor e sepultura: Ouro nativo. Inda. A ara partida E a Arte imortal aos pés calcada. ah! que eu fique só contigo. Se inda é pequeno o sacrifício. desconhecida e obscura. Não! Morra tudo que me é caro. que cultivo. Sem sacerdote. presa à minha A tua mão. E em que Camões chorou. Sozinha.. Sem ouropéis. Hoje segues de novo. Na partida Nem o pranto os teus olhos umedece. Porém tranqüilo. em que da voz materna ouvi: "meu filho!". Tuas custódias esculpindo No ouro mais puro. Em casa a esposa deixando..Colégio Batista Mineiro Literatura – Rosana Gondim Possa eu morrer Contigo. E alma de sonhos povoada eu tinha. e o som Ouvir da queda do Acropólio. ó rude e doloroso idioma.. És. NEL MEZZO DEL CAMIM. volto a face. E paramos de súbito na estrada Da vida: longos anos. sem esperança. LÍNGUA PORTUGUESA Última flor do Lácio. e o susto Ver. Mas. 3.. nos tristes lares.. Ver derribar do eterno sólio O Belo. e a mesma noite escura Nos envolver! Ah! ver por terra. Resolve.. Fique eu sozinho! Que não encontre um só amparo Em meu caminho! Que a minha dor nem a um amigo Inspire dó. Celebrarei o teu oficio No altar: porém. inculta e bela. E o arrolo da saudade e da ternura! Amo o teu viço agreste e o teu aroma De virgens selvas e de oceano largo! Amo-te. a vista deslumbrada Tive da luz que teu olhar continha. lira singela.. Ver esta língua. piedoso. E. entrando a porta Do templo augusto!. solitário. varão casado Porém de sorte mofina. no exílio amargo.. Em prol do Estilo! 2. Mirrada ao hálito nocivo Dos infiéis!. Tinhas a alma de sonhos povoada. Vinhas fatigada E triste. Ir até a Palestina.... ao cair. a um tempo. Que tens o trom e o silvo da procela. Do Partenon!. e triste e fatigado eu vinha. desesperado. Pelos gemidos que solta. Pede ao Senhor que consagre. obscuro.. Chegaste. e.. e tremo. Morra eu também! Caia eu também. Vendo o teu vulto que desaparece Na extrema curva do caminho extremo. a Crença morta Sentir. Cheguei. Parte.. O gênio sem ventura e o amor sem brilho! 4. Contigo só! Vive! que eu viverei servindo Teu culto. dia a dia. que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela. Porque não tem descendência.. Para fazer penitência. e o extermínio. 5 . E eu. vibrando a lança.. Amo-te assim. Prostituída!.. Nem te comove a dor da despedida. Passa três anos rezando Pelos Sagrados Lugares. enceta a romaria. profanada.. Tuba de alto clangor. BILAC EM DOIS TEMPOS Velho conto Nicolau.

mexe. De pensar e mais pensar. Volta ao lugar do casório E logo das nuvens cai. Invejosos. Quase o revelo no final de um verso.. REMORSO 6 . em lugar de acalmar as penas. e aos meus beijos de fogo palpitava.. Pois ao ver no consistório Da igreja. apontem-me com o dedo.. vira. de hora em hora: "Beijemo-nos! amemo-nos! espera!" E esse corpo de rosa recendia. Diz a criança: PAPAI! 5. uma dor me desespera. Nestas ânsias e dúvidas em que ando. se. Portanto. pelo braço! Olha: não posso mais! Ando tão cheio Deste amor. Entregando o coração A Alexandrina Balão. Acha três filhos em casa. quando volta.. E. quando eu passe. sem dúvida .. não conheço cousas tristes.. era o tal pimpolho. o padre Libório.. Nina-o.. Cismo e padeço. — E efetua-se o milagre. fatigado de calar teu nome. Pois Nicolau. inda nos comovesse! Ah! quem nos dera que inda juntos pudessemos agora ver o desabrochar da primavera! Saíamos com os passaros e a aurora. Depois de um bom par de meses. 8... em tudo o leio: Versos e amores sufoquei calando. Não os viu Deus com bom olho. Debalde suspira e chora: Palavra não sai p'ra fora. E. sentavas-te sorrindo. Além de tudo. Mas amastes. Encantado e aumentando o próprio encanto. Os referidos fregueses Abalaram do lugar. que o filho adora.Colégio Batista Mineiro Literatura – Rosana Gondim Esse desejo que o abrasa. Meditai nas tristezas que sentistes: Que eu. por mim. afrontando-os face a face: Quero que os homens todos. Conrado. DEIXA O OLHAR DO MUNDO Deixa que o olhar do mundo enfim devasse Teu grande amor que é teu maior segredo! Que terias perdido.. Pois se um filho rechonchudo Deu-lhes. Às vezes.. no chão. E discutir muitas vezes.. PRIMAVERA Ah! quem nos dera que isso. Nascia a primavera. Que mais aflijam. e. Basta de enganos! Mostra-me sem medo Aos homens. Quem ama inventa as penas em que vive. Que o recebeu por marido. sobre os troncos cheios de hera. Palavra alguma lhe tira. Tereis notado que outras cousas canto Muito diversas das que outrora ouvistes. acima de tudo. 6. Todo o afeto que sentes se mostrasse? Em mim também.. EM MIM TAMBÉM Voz do sangue Matou Conrado a paixão Que o trazia sucumbido. neste outono. antes Busca novo pesar com que as avive. alquebrado de amor e de cansaco.. quando Calculo o que perdi na primavera. primavera de carne. que descuidado vistes.E eu te levava. beija-o. A alma da terra gorjeava e ria. que torturem tanto. mais cedo. caolho E mudo. Pois sabei que é por isso que assim ando: que é dos loucos somente e dos amantes na maior alegria andar chorando 7. como outrora. Ouço em tudo teu nome. que minh'alma se consome De te exaltar aos olhos do universo.

Mártir da hipocrisia ou da virtude.. sem Deus Sem fé. neste começo de velhice. quando estão contigo?" E eu vos direi: "Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas. E as justas ambições que me consomem Não me envergonham: pois maior baixeza Não há que a terra pelo céu trocar. 10. Não choremos. ao vir do sol. A BONECA Deixando a bola e a peteca. Vencedoras da idade e das procelas. a fera e o inseto. E nenhuma se continha. O homem. . Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera Mais viver. saudoso e em pranto.."É minha!" a outra gritava. sem lar. amigo. Choro. 13. SÓ Este que um Deus cruel arremessou à vida Marcando com um sinal da sua maldição Este que desabrochou com uma erva má Nascida apenas para os pés ser calcada no chão. VELHAS ÁRVORES Olha estas velhas árvores.. no exílio em que a chorar me vejo. na maior pureza. Sente.. 7 Os beijos que não tive por tolice. E homem há de morrer como viveu: Sozinho. 11. Cintila. Tanto mais belas quanto mais antigas. E. Não basta o afeto simples e sagrado Com que das desventuras me protejo. Duas meninas brigavam. no entanto. Por timidez o que sofrer não pude.. Ter na boca a doçura de teu beijo. perdida à-toa no caminho. Com que inda há pouco brincavam. crespa crescer a selva retorcida Dos pensamentos maus. Dando sombra e consolo aos que padecem! E conversamos toda a noite. Direis agora: "Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem. Ficar na terra e humanamente amar. enquanto A via-láctea. E por pudor os versos que não disse! 9. Roto casco de nau desprezado no mar E árvore acabará sem nunca dar um fruto.. Longos dias sem sol. Dizia a primeira: "É minha!" . a mocidade! Envelheçamos rindo. pálido de espanto. De motejo em motejo arrasta a alma ferida Sem constância no amor dentro do coração. para ouvi-las. sem ar. separado Do teu. AO CORAÇÃO QUE SOFRE Ao coração que sofre. Que. Noites de eterno luto. E mais eleva o coração de um homem Ser de homem sempre e. Na glória de alegria e da bondade. Alma cega. Envelheçamos Como as árvores fortes envelhecem. sem luz. muitas vezes desperto E abro as janelas.Colégio Batista Mineiro Literatura – Rosana Gondim Sem os gozar numa explosão sincera. Nem só desejo o teu amor: desejo Ter nos braços teu corpo delicado. sem pão. filhos da solidão. OUVIR ESTRELAS "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!" E eu vos direi. como um pálio aberto. Agasalhando os pássaros nos ramos. mais penar e amar cantando! Sinto o que desperdicei na juventude. livres da fome e de fadigas: E em seus galhos abrigam-se as cantigas E os amores das aves tagarelas." 12. mais amigas. Inda as procuro pelo céu deserto. mais belas Do que as árvores moças. à sombra delas Vivem. Não me basta saber que sou amado. Nem a boneca largava. Por causa de uma boneca.

meu prêmio e meu castigo. Doudejantes.. que no alto a Noite leva Presas. enches-me o pensamento.. ao chegar.. Por que surge tão cedo a luz do dia?!. eu não morri contigo? Sinto-me o ardor. Disse o luar: “Espera! Que eu te sigo: Quero também beijar as faces dela!” E disse o aroma: “Vai. e é um turbilhão de lava: A Forma.. E tudo me falou. 14. desfeito em lodo. Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!” 17.. Sobem.Colégio Batista Mineiro Literatura – Rosana Gondim Quem mais sofria (coitada!) Era a boneca.. Beijam-te a boca tépida e macia.. XVIII Dormes. contigo fui pela infernal descida! Morreste. teu corpo inteiro... em breve. Soube logo o lugar para onde eu ia. e do teu gosto amargo me alimento... feliz. perfume e clarão... 8 . Dos despertados pássaros o bando: “Vai mais depressa! Parabéns!” dizia. INANIA VERBA Ah! quem há de exprimir. E. Quem o molde achará para a expressão de tudo? Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta? E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo? E as palavras de fé que nunca foram ditas? E as confissões de amor que morrem na garganta? 16. O Pensamento ferve. batismo e extrema-unção. naquele instante por que... Perdendo a estopa amarela Que lhe formava o recheio. Olhas. abafa a Idéia leve. E amarrotada a carinha. Que a pobre rasgou-se ao meio. que eu vou contigo!” E cheguei. Ambas. UM BEIJO Foste o beijo melhor da minha vida. luzindo. e ei-los correndo. o que a mão não escreve? .. ao ver-me tão depressa andando. XII Sonhei que me esperavas. e rolo-te na boca malferida. contigo à luz subi do firmamento. é um sepulcro de neve. refulgia e voava. o que te deslumbrava. descem. teu hálito sorvendo. Encher teus sonhos. disse uma estrela: “Como és feliz! como és feliz. O que a boca não diz. por causa da briga. rompendo a treva. na perpétua saudade de um minuto. Saí ansioso por te ver: corria.. amigo.Glória e tormento. 15. Já tinha Toda a roupa estraçalhada. com os seios nus. tudo! Escutando Meus passos. falenas que a saudade eleva De meu seio. e o crepitar te escuto. E. e que vão. subtis. ou talvez o pior. E tudo... fria e espessa. Voltando à bola e à peteca.. alma impotente e escrava. Mas que sussuro a umedecida Terra desperta? Que rumor enleva As estrelas. à túnica estendida? São meus versos! Palpita a minha vida Neles. Tanto puxaram por ela. sangras. e o meu desejo não te olvida: queimas-me o sangue.. ao fim de tanta fadiga.Ardes. Que. E a Palavra pesada. beijo divino! e anseio delirante.. Beijo extremo. através da ramaria. pomba adormecida! Dorme. sonhando. E. no travesseiro Solto o cabelo negro . Ficaram sem a boneca . pregada à tua cruz e.

que é feito da felicidade em adivinhar pouco a pouco. PORTANTO. Contrariando os parnasianos. sinestesias (mistura de sentidos). tais como o espiritualismo. Contrariamente ao materialismo e à objetividade dos realistas e dos parnasianos. COMO A ALITERAÇÃO E A ASSONÂNCIA. com a liturgia e com os símbolos (muitas vezes. através da letargia estado de sono profundo). impregnando a poesia de misticismo e espiritualidade.  EXPRESSÃO DA REALIDADE DE MANEIRA VAGA E IMPRECISA. Para isso.. de suas angústias. Desta feita. os simbolistas procuram resgatar a relação do homem com o sagrado. e é objeto da poesia evocar os objetos” (Mallarmé)  Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira O MOVIMENTO SIMBOLISTA O Simbolismo foi um movimento poético que revalorizou o subjetivismo. o poeta simbolista volta-se para o misticismo.  ÊNFASE NO IMAGINÁRIO E NA FANTASIA. imagens. Assim. a poesia. fosse uma religião. Duvidavam também das explicações “positivas” da ciência. sugeri-lo. o desejo de transcendência e de integração com o universo. eis o sonho. e não retratá-la objetivamente.. que se daria numa integração da poesia com a vida cósmica. deve haver sempre enigma em poesia. enfatizou o poder de sugestão das palavras e a musicalidade da linguagem. cair na afetação sentimental romântica). como queriam os realistas (daí o apuro vocabular). que julgava poder explicar todos os fenômenos que envolvem o homem e conduzi-lo a um caminho de progresso e fartura material. para a sondagem do mundo interior da alma humana. de seus estados psicológicos.  PESSIMISMO. o misticismo.  GOSTO PELA TRANSCENDÊNCIA. a dor existencial ( sem. recorrendo principalmente às aliterações e assonâncias. metáforas. o mistério. tudo com a finalidade de exprimir o mundo interior. Como movimento antimaterialista e anti-racionalista. 9 . Os principais poetas simbolistas são Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens. além de recursos cromáticos e sonoros – aliterações (repetição de sons consonantais) e assonâncias (repetição de sons vocálicos).  SUBJETIVISMO. às vezes excessivamente. representam um grupo social que ficou à margem do cientificismo do século XIX e que procurou resgatar certos valores românticos varridos pelo Realismo.  EMPREGO ABUNDANTE DE SINESTESIA. Fez uso freqüente de elementos que lembram rituais religiosos. revelando alguns pontos em comum com a postura romântica. Explorou. a morte. AS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO TEXTO SIMBOLISTA SÃO:  MISTICISMO E ESPIRITUALISMO. Buscam o sentimento da totalidade. a musicalidade dos versos. promovendo a aproximação com a música. antilógico e anti-racional. ALÉM DA RIMA. OS SIMBOLISTAS LANÇAM MÃO.  MUSICALIDADE – PARA APROXIMAR A POESIA DA MÚSICA. intuitivo. o Simbolismo buscou uma linguagem que fosse capaz de sugerir a realidade. SOBRETUDO LETRAS MAIÚSCULAS EM SITUAÇÕES NÃO JUSTIFICADAS GRAMATICALMENTE. DE MUITOS RECURSOS FONÉTICOS. como se ela.Colégio Batista Mineiro Disciplina: Literatura – 2º ano Professora: Rosana Gondim Rezende Oliveira Aluno: ______________________________________ Data: ___/ ___/ ___ “Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema. fazem uso de símbolos. contudo. fazendo da poesia uma forma de evocação do mundo interior do poeta.  EMPREGO DE RECURSOS GRÁFICOS. os simbolistas não acreditavam na possibilidade de a arte e a literatura poderem fazer um retrato total da realidade. considerada por eles como exemplo de arte abstrata.  ANGÚSTIA EXISTENCIAL.

foi recusado como promotor de Laguna por ser negro. ri. SATÃ Capro e revel. Ei-lo Satã dentre os Satãs augustos. E solta aos sóis e estranha e ondeada e espessa Canta-lhe a juba dos cabelos flavos! 2. com os fabulosos cornos Na fronte real de rei dos reis vetustos. desde pequeno recebeu a tutela e uma educação refinada de seu exsenhor. levando-a à loucura. com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais. ri. Agita os guizos. quando seus restos mortais foram acolhidos no Museu Histórico de Santa Catarina . o Marechal Guilherme Xavier de Sousa . Deus triunfador dos triunfadores justos. todos mortos prematuramente por tuberculose. alcunhado Dante Negro e Cisne Negro. inflado De uma ironia e de uma dor violenta. Ao chegar. retesa Nessas macabras piruetas d'aço. Aprendeu francês. dirigiu o jornal Tribuna Popular. choros ao vento.. Bocas murmurejantes de lamento. e convulsionado Salta. Pedem-te bis e um bis não se despreza! Vamos! retesa os músculos. Em novembro desse mesmo ano casou-se com Gavita Gonçalves. Alarga as asas de relevos bravos. VIOLÕES QUE CHORAM. varado Pelo estertor dessa agonia lenta. Em 1883. de cuja cadeira 15 é patrono. Tristes perfis. Com bizarros e lúbricos contornos. num povoado chamado Estação do Sítio.de quem adotou o nome de família. salta clown. Em Fevereiro de 1893.. Faleceu a 19 de Março de 1898 no município mineiro de Antônio Carlos. I897) Ah! plangentes violões dormentes. também negra. mornos. num riso de tormenta. Filho de negros alforriados. Por verdes e por báquicos adornos Vai c'roado de pâmpanos venustos O deus pagão dos Vinhos acres. fremente. O Sonho agita-lhe a imortal cabeça. 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro. mornos. além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller.. com quem tem quatro filhos. onde trabalhou como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil.. latim e grego. Sutis palpitações a luz da lua.. Nervoso. os mais vagos contornos. Quando lá choram na deserta rua 10 .. Em 1885 lançou o primeiro livro. Broquéis (poesia). Foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.. Foi integrante da Academia Catarinense de Letras. colaborando também com o jornal Folha Popular. Vou constelando de visões ignotas. remotas...Onde permaneceu até 2007. Cinco anos depois foi para o Rio de Janeiro. dentre eles José do Patrocínio. publica Missal (prosa poética) e em agosto. Noites da solidão. que eu recordo. Da gargalhada atroz. sanguinolenta. Soluços ao luar. foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier por seus amigos. num riso absurdo. Teve o seu corpo transportado para o Rio de Janeiro em um vagão destinado ao transporte de cavalos.. ACROBATA DA DOR Gargalha. 3. nos sóis radiantes. (jan. Anseio dos momentos mais saudosos. para onde fôra transportado às pressas vencido pela tuberculose.. Afogado em teu sangue estuoso e quente Ri! Coração. Arcangélico e audaz.Palácio Cruz e Sousa no centro de Florianópolis. tristíssimo palhaço. dando início ao Simbolismo no Brasil que se estende até 1922. noites remotas Que nos azuis da Fantasia bordo.. que desengonçado. no qual combateu a escravidão e o preconceito racial. gavroche. A púrpura das glórias flamejantes. Como um palhaço. Em 1881. 1. Noites de além.CRUZ E SOUZA João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis) 24 de novembro de 1861 — Estação do Sítio. E embora caias sobre o chão. Tropos e Fantasias em parceria com Virgílio Várzea.

cegos. E o canto sobe para a flor deserta Soturna e singular da lua cheia. que no espaço morrem. com a graça virgem dos garotos. languidez infinita. que risos. Essas lacerações como me embalam.. Mágoas amargas e melancolias. Que esses violões nevoentos e tristonhos São ilhas de degredo atroz. em trêmolos. funéreo. Para onde vão. Um concerto de lágrimas sonoras! Quando uma voz. E no silêncio astral da Imensidade Por lagos encantados adormecem As pálidas ninféias da Saudade! 11 Como me embala toda essa pungência. incerta.. Tudo nas cordas dos violões ecoa E vibra e se contorce no ar. que lágrimas. E sons soturnos. Que ouros. Oh! languidez. amargamente triste. Quanto magoado sentimento eterno Nesses ritmos trêmulos e indecisos.As cordas vivas dos violões chorosos. Dedos Nervosos e ágeis que percorrem Cordas e um mundo de dolências geram. Sob abóbadas lúgubres de enterros. ondula. diluídas. que profundo inferno. que laceram. Por entre as ânsias dilaceradoras.. vaporosas brumas. Rasgando as almas que nas sombras tremem.. No sussurro monótono das águas.. fatigadas do sonho Almas que se abismaram no mistério. veludosas vozes. longos véus de viúvas Enclausuradas nos ferais desterros Errando aos sóis. nostálgicos. Que céu. Tudo na noite. Nos lânguidos bordões plangendo passa. Quando as estrelas mágicas florescem. Palpitando no espaço. Quando os sons dos violões vão soluçando.. aos vendavais e às chuvas. E vão dilacerando e deliciando. Que montanhas de dor. que azuis. Volúpias dos violões. vivas. mudas. Noturnamente. De espectros. entre ramagens frias.. vozes veladas. Que procissão sinistra de caveiras. Quanta plebéia castidade obscura Vegetando e morrendo sobre a lama. Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos. Gemidos. que inferno. Como abrem asas brancas de clemência As harmonias dos Violões que falam! Que graça ideal. velhinhas e velhinhos Sepulcros vivos de senis segredos. tudo clama e voa Sob a febril agitação de um pulso. vãs. Vagando no recôndito das celas.. Longo desolamento dos inquietos Navios a vagar a flor de espumas. Vibrado coração de ânsia esquisita E de gritos felinos de ciúmes! Que encantos acres nos vadios rotos Quando em toscos violões. pelas sombras mortas. secretos. Vibram. por lentas horas. Finas. Quanta melancolia de anjo existe Nas visões melodiosas dessa graça. Nebulosas de sons e de queixumes. suspiradas magoas. convulso. Harmonias que pungem. Sons perdidos. Proliferando sobre a lama impura. Quando os sons dos violões nas cordas gemem. prantos. vulcanizadas. Vozes veladas. Como em perpétuos turbilhões de chama. Que anelos sexuais de monjas belas Nas ciliciadas carnes tentadoras. . Velhinhas quedas e velhinhos quedos Cegas... Véus neblinosos. ondeia. que cordilheiras De agonias aspérrimas e agudas.

mórbidos... Harmonias da Cor e do Perfume. Toda essa labiríntica nevrose Das virgens nos românticos enleios. Como que feitos de um poder extremo Para vencer a convulsão das mortes.. brancas. Ó Formas alvas. Formas do Amor. Os ocasos do Amor. 12 ... Têm nos violões secretos Evangelhos. Tipos intonsos. de neblinas! Ó Formas vagas. Tudo isso. Dos temporais o temporal supremo. Vagos aromas. constelarmante puras. lúbricos. Incensos dos turíbulos das aras Marinheiros que o mar tornou mais fortes. De Virgens e de Santas vaporosas. Visões. dos suicidas.. E na expressão de quem se vai sorrindo. felizes. Procuram nos violões horas estranhas. adormidos. tábidos palhaços De carapuças. Sentindo nos violões os velhos mundos Da lembrança fiel de áureos passados. Passam todos os lívidos defuntos. cândidos. Toda a Bíblia fatal da dor insana. Para os enterros dos seus sonhos mortos Nas queixas dos violões buscando alivio.. Caricaturas tétricas e errantes Dos malditos.. Revive nos violões. Brilhos errantes. Meigos perfis de tísicos dolentes Que eu vi dentre os vilões errar gemendo. Enrugados por fundas cicatrizes.. Ébrios antigos. Frouxos. Indefiníveis músicas supremas. esgrouviados. Em ais de dor. largos. salmos e cânticos serenos. Das luas tardas sob o beijo níveo. trêmulas. Dormências de volúpicos venenos Sutis e suaves... Horas do Ocaso.. Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos E um lenço preto o queixo comprimindo. soluçantes. Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume. mole e morna melopéia Das valsas alanceadas. E como que há histéricos espasmos na mão que esses violões agita. Fantasmas de galés de anos profundos Na prisão celular atormentados. Toda a mórbida música plebéia De requebros de faunos e ondas lascivas. dos réus. num grotesco desconforme. E o som sombrio é feito de sarcasmos E de Sonambulismos e letargos. Enxovalhados. Todas as ironias suspirantes Que ondulam no ridículo das vidas. tortos.. extremas. Lembrando a florescência dos incestos. dormentes. devassos. Formas claras De luares.. nas serpentes Dos vícios infernais desfalecendo.. doloridos. Prostituídos de outrora. acorda e dorme Através do luar das meias noites! 4. mádidas frescuras E dolências de lírios e de rosas .. Surdinas de órgãos flébeis. quebrados. máscaras e gestos Lentos e lassos. de neves. A langue. fluidas. toda a clorose Que ocultamente lhes lacera os seios. vagabundos velhos. convulsivas. Veteranos de todas as campanhas. langues Na degenerescência dos vencidos De toda a geração. todos os sangues. radiantes .. Torvos despojos da miséria humana. em contorsões de açoites. cristalinas..Eternamente a caminhar sozinhos. ANTÍFONA Corpos frágeis.

. Inefáveis. graça De carnes de mulher. Forças originais. dos desejos as mornas florescências. edênicos... tentadoras serpes que prendem. luminosamente. vibrações. tetanizam como os herpes. Cristais diluídos de clarões alacres.. fúlgidas brancuras. alentos Fulvas vitórias. produzem sensações de agres torturas. aéreos.. febril. BRAÇOS Braços nervosos. torcicolosamente... Galgando azuis e siderais noivados De nuvens brancas a amplidão vestindo. SIDERAÇÕES Torva. dos delírios na trêmula coorte . empinava todo 13 . Que brilhe a correção dos alabastros Sonoramente. Os mais estranhos estremecimentos.. alvuras castas.. 6. Todo esse eflúvio que por ondas passa Do Éter nas róseas e áureas correntezas.. límpido e leve.. virginais alvuras. As fascinantes. Ondas nevoentas de Visões levanta. Ah! que agonia tenebrosa e ardente! que convulsões. quanta volúpia e quantos bamboleios. Passe. cantando.. As asas de ouro finamente abrindo. abertas. Para as Estrelas de cristais gelados As ânsias e os desejos vão subindo. delicadezas... E as ânsias e os desejos infinitos Vão com os arcanjos formulando ritos Da Eternidade que nos Astros canta.... Fundas vermelhidões de velhas chagas Em sangue. Desejos. todas as castidades Da alma do Verso.. Tudo! vivo e nervoso e quente e forte. brancas opulências. as cítaras ferindo. doentios. latescências das raras latescências. mórbidas dormências dos teus abraços de letais flexuras. pelos versos cantem. braços de estranhas correções marmóreas. nos olhos e nos seios fluíam-lhe os venenos da serpente.. que lúbricos anseios. Fecundai o Mistério destes versos Com a chama ideal de todos os mistérios. Os arcanjos. DANÇA DO VENTRE 5.. escorrendo em rios. Dos etéreos turíbulos de neve Claro incenso aromal. Que o pólen de ouro dos mais finos astros Fecunde e inflame a rima clara e ardente. abertos para o Amor e para a Morte! 7. das vestes nos troféus prateados. em pinchos.. brumais brancuras. tantálicos. Braços nervosos. essência. Nos turbilhões quiméricos do Sonho.. Pompa de carnes tépidas e flóreas. triunfamentos acres. ante o perfil medonho E o tropel cabalístico da Morte. que brusco e horrível sensualismo quente. Do Sonho as mais azuis diafaneidades Que fuljam. Flores negras do tédio e flores vagas De amores vãos. Num cortejo de cânticos alados O ventre. na cabeça. que na Estrofe se levantem E as emoções. ânsias.. Passam. numa espiral de elétricos volteios..Infinitos espíritos dispersos.

os céus resplendem de sidéreas rosas. da Lua e das Estrelas majestosas iluminando a escuridão das furnas. Onda nervosa e atroz. como um ópio letal. e convulsionado salta. do demônio sangrento da luxúria! Da gargalhada atroz. ri! Coração.. 9. Os plenilúnios mórbidos vaporam. de José de Freitas Vale.. De seus livros. nervoso. que desengonçado. ri. Sobe. Pedem-se bis e um bis não se despreza! Vamos! retesa os músculos. numa volúpia dolorosa. colaborou na imprensa e frequentou a Vila Kyrial.. letes sinistro e torvo da agonia. 8.como réptil abjecto sobre o lodo. como um palhaço. imensa música sombria. . Era a dança macabra e multiforme de um verme estranho.. ALPHONSUS DE GUIMARAENS (1870-1921) Poeta em que devoção e equilíbrio se dão as mãos desde o início. gavroche. afogado em teu sangue estuoso e quente. imponderada e larga. num riso de tormenta. espolinhando e retorcido em fúria.. tremenda. retesa nessas macabras piruetas d'aço. conheceu Cruz e Souza. .. passa a tremer pela minh'alma e fria gela. Sacrários virgens. tristíssimo palhaço. num riso absurdo. sacrossantas urnas. tumultuando e amarga. MG. sombras veladas e musselinosas para as profundas solidões noturnas. bandolins.. Ah! por estes sinfônicos ocasos a terra exala aromas de áureos vasos. Afonso Henriques da Costa Guimarães nasceu em Ouro Preto MG em 24 de julho de 1870. maravilhosa. harpas. estranha. fica a tremer. MÚSICA DA MORTE A música da Morte.... recresce. incensos de turíbulos divinos. letárgica.. colossal. agita os guizos. inflado de uma ironia e de uma dor violenta. fremente. SINFONIAS DO OCASO Musselinosas como brumas diurnas descem do ocaso as sombras harmoniosas. vertiginando. salta clown. de pavores e trevas alucina. recresce a lancinante sinfonia sobe. Apaixonou-se por sua prima Constança. Em 1895. ri. que morreu logo depois. Foi juiz e promotor em Conceição do Serro. E embora caias sobre o chão. onde se reuniam os jovens simbolistas. em que busca e sublima a amada entre o luar e as sombras. enorme. os três primeiros 14 .. ACROBATA DA DOR Gargalha. onda nervosa. 10. Estudou Engenharia e Direito. fascina. Alphonsus de Guimaraens foi mestre de um lirismo místico. violinos. a nebulosa. os meus nervos. no Rio de Janeiro. varado pelo estertor dessa agonia lenta . E alucinando e em trevas delirando. o amor e a morte.. Em São Paulo. sanguinolenta. E como que no Azul plangem e choram cítaras. absurda..

. E. divina. E como um anjo pendeu As asas para voar.. ou a célebre "Ismália". entre os indícios materiais da morte e a expectativa do sobrenatural. Em ritmo elegíaco e de solene musicalidade. Queria subir ao céu... Queria a lua do céu. sua coletânea mais representativa. Pôs-se na torre a sonhar. Que outro terias entre humanas damas. Viu outra lua no mar. Alphonsus de Guimaraens morreu em Mariana MG em 15 de julho de 1921.. ISMÁLIA Quando Ismália enlouqueceu. Belo nome tu tens. que te chamas. Que parece ordenar mas que suplica. em meio à noite constelada. porque és luar. No sonho em que se perdeu.. Ester. Pulchra Ut Luna II Celeste. 15 . Oscila. Banhou-se toda em luar. no entanto.. mallarmaicos. Um dos principais representantes do movimento simbolista no Brasil. De tons marfíneos.. Viu uma lua no céu.. não temes chamas.. não temes sol. Mas a evolução da linguagem é permanente e a tendência a um barroco discreto — de Ouro Preto.. adquire com frequência acentos arcaizantes e de envolvente conteúdo lírico. se inova com acentos verlainianos.. descendo juntas. Erguem-se ao longe como se as eleve Alguém que ante os altares sacrifica: Mãos que consagram. Andas em tudo: o sol no poente vasto Pede-te a mágoa do findar do dia. Seu corpo desceu ao mar.. ao luar.. Brumosas mãos que vêm brancas. magoadas. uma vez que o exprime num misticismo enraizado no fundo da subjetividade e.. E como tu és do céu não amas: Forma imortal que o espírito reveste De luz.. 12. aquelas mãos de neve.. de que brotam imagens muitas vezes ousadas.... são "As onze mil virgens". Seguiram-se Pauvre lyre e Pastoral aos crentes do amor e da morte (1923). As asas que Deus lhe deu Ruflaram de par em par. mãos que partem breve. Estava perto do céu. multiplica a imagem da amada: são "Sete damas". distantes. E a lua. Tu que embora na terra do céu vieste? Celeste.. Sinto-as agora. Porque és sol.. Grandes. sua obra. não longe da invenção surrealista.. no desvario seu. Mas cuja sombra nos meus olhos fica. Mallarmé — que traduziu). Pairando no ar. de ossatura rica. Estava longe do mar. tateantes.. Celeste. Câmara ardente e o Setenário das dores de Nossa Senhora. Dona Celeste. Sua alma subiu ao céu. Nossa Senhora (com quem identifica Constança). como uma compulsão do inconsciente. 11.foram publicados no mesmo ano (1899): Dona mística. assim. como se toda a sua poesia se fizesse em variações de um mesmo réquiem. num gesto brando e leve. Mãos de esperança para as almas loucas. Ossa Mea II Mãos de finada. Queria a lua do mar.. Mariana — se flexibiliza. É assim. o Kyriale (1902). Cerrando os olhos das visões defuntas. Foi escrito antes. 13.. desse modo... de influência francesa (Verlaine. Queria descer ao mar. Fechar ao mesmo tempo tantas bocas. Na torre pôs-se a cantar. sendo celeste. pálidas. Incoercível como a melancolia...

A partir de 1917. Na época já trabalhava como colaborador no jornal A Cidade. em uma produção que se destacou no sul do país e que é uma das obras mais significativas do Simbolismo brasileiro. por um instante despertada. Nessa maviosa música embebido. A Catedral Entre brumas ao longe surge a aurora. Alceu Wamosy escreveu poemas cheios de desencanto. pela editora Global. lutou na Revolução Federalista. abandonada. em 14/02/1895. A catedral eburnea do meu sonho Aparece na paz do ceu tristonho Toda branca de luar. e Poesia Completa (1994). Velha cítara poenta. Do relâmpago a cabeleira ruiva Vem acoitar o rosto meu. A catedral ebúrnea do meu sonho Afunda-se no caos do céu medonho Como um astro que já morreu. fundado por seu pai. na “Coleção Memória”. A catedral ebúrnea do meu sonho Aparece na paz do céu risonho Toda branca de sol.Pede-te o luar indefinido e casto Da tua palidez de hóstia sagrada. Continuou colaborando para diversos periódicos. como os jornais A Notícia. O hialino orvalho aos poucos se evapora. Postumamente foram publicados Poesias Completas (1925). e faleceu em Livramento (RS). cítara dolente. em Alegrete (RS). tornou-se proprietário do jornal O Republicano. E o sino canta em lúgubres responsos: "Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!" O astro glorioso segue a eterna estrada. combatendo em Santa Maria Chica. Pontes do Ibirapuitá e Ponche Verde. Por entre lirios e lilases desce A tarde esquiva: amargurada prece Poe-se a luz a rezar. Poeta simbolista. Flâmulas. em 1913. sendo o seu soneto “Duas Almas” um dos mais belos produzidos em língua portuguesa. 16 . E o sino chora em lúgubres responsos: "Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!" O céu e todo trevas: o vento uiva. Alferes republicano. em Porto Alegre. apoiando o Partido Republicano. onde foi ferido — ferimento este que provocaria a sua morte. O Diário e a revista A Máscara. Publicou as obras poéticas Na Terra Virgem (1914) e Coroa de Sonho (1923). em 13/09/1923. Toda a tua alma. Onde os meus olhos tao cansados ponho. trêmula. Agoniza o arrebol. A Federação. da EDIPURCS. Uma aurea seta lhe cintila em cada Refulgente raio de luz. Na mesma vibração profunda e ardente De outrora freme. E o sino clama em lugebres responsos: "Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!" 14. A catedral eburnea do meu sonho. Publicou seu primeiro livro de poesia. cítara dormente. 15. E assim. CÍTARA Firo-te as cordas. antigamente. Recebe a bencao de Jesus. pulsada Pela divina mão. E o sino chora em lúgubres responsos: "Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!" ALCEU WAMOSY (1895 — 1923) Nasceu em Uruguaiana (RS). acordada. Que um régio artista fez vibrar.

Desse que as cordas te tangeu primeiro. 17 . ao meu ouvido. Revelo-me banal. numa ronda constante. 18. ─ a saudade que o sol deixa na alma do espaço pelas águas do lago vai levando a doidice errante do seu passo. à flor azul dos lagos. Se não ando a tecer teias de luar. anjos de mãos de pluma tangendo harpas de luz.Escuto as notas. talvez! E sempre sou igual ─ medalha sem reverso Aquilo que ontem fui. no passado. em um sonho arcangélico e vago. passa a visão sonâmbula de Hamleto. como um triste cisne preto. Trago nos olhos meus. chatíssimo. todas as rosas de um jardim de sonho e de loucura.. que são dolentes e profundos. No último som que morre. a alma. na sombra... se já deixei do verso. delirante. emoldurando a imagem rua.. bizarras. de uma fonte. 17. A MUSA Perguntas-me.. como uma virgem nua. bem vês. em tudo que converso. E a minha pobre Musa ─ ó lânguida Quimera ─ Sofre muito do peito. despetalando. 16. no derradeiro. OFÉLIA A lua. escutei. saudades de rosais que pisei. pela bruma. como quem volta de uma terra tristíssima e distante.. a sorrir. que.. então.. a dizer rezas de águas. gestos de adeus. desertos de alegria... há a calada expressão dos cisnes moribundos sob o beijo da tarde. reminiscência de outra voz. tristes e vagos. sentir. é gêmea das cigarras: ─ E a cigarra só canta ao sol da Primavera!. É que o Inverno já vem ─ o seu prelúdio é o Outono... Há camélias de luz florindo entre a água verdeescura. E em tudo que eu te digo. uma por uma.. Se eu agora deixei o Verso em abandono. Dizes que eu tenho agora um modo mui diverso Do que eu tinha primeiro. POEMA TRUNCADO Volto do teu amor. como um eco apagado feito de lágrimas e mágoas. onde passam. nos meus gestos.. chegando Como um coro celeste. E. sempre o serei. múrmuras. E eu julgo. É engano teu. burguês. Que eu não produzo nada há muito mais de um mês. nostalgia de loureiros dormindo à luz clara da Lua Anda na minha voz. chorando.