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Relatividade Ontológica e Subdeterminação;
Naturalismo e Pirronismo
Marcos Bulcão Nascimento
UFBA
marcosbulcao@yahoo.com.br

resumo A tese quine a na da re l a t i v ida de ont o l ó g ica é certame nte um dos aspectos ma i s
conhe c idos de sua obra. O que freqüent e me nte passa sem no t í c ia, ent re t a nto, é que sua
concepção de subdeterminação mudou ao longo de sua obra e que isso altera substancialme nte algumas cons e q ü ê ncias-chave no r ma l me nte tira das da tese supra - c i t a da. Caberá
aqui examinar, portanto, tais mudanças conc e i t uais e ex p l o rar algumas de suas cons eqüências, particularmente aquelas relacionadas ao realismo. Caberá, ainda, tentar aproximar a postura realista quine a na com o que se pode r ia pensar como uma postura realista
neopirrônica.
palavras-chave na t u ralismo; relatividade ontológica; subdeterminação; re a l i s mo; linguagem;
neopirronismo

I
Durante toda sua vida Quine declarou ser um realista. Durante toda sua
vida, não menos, se instaurou a polêmica quanto a ele poder ser, de direito e de fato, um realista. A razão principal, ou uma delas em todo caso,
alega-se, é que sua tese da relatividade ontológica seria incompatível com
uma postura realista em ciência.
O que argumentaremos aqui é que essa alegada incompatibilidade é
fruto de uma incompreensão, de um lado, do que está em jogo no naturalismo quineano e, de outro, do que está em jogo na própria tese da relatividade ontológica, particularmente em sua relação com a importante tese
de subdeterminação.
Recebido em 08 de abril de 2007.Aceito em 19 de setembro de 2007.
doispontos, Curitiba, São Carlos, vol. 4, n. 2, p.133-158, outubro, 2007

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Pelo primeiro aspecto, esclarece-se que o realismo quineano não se
concebe do mesmo modo que o realismo científico, permitindo ao primeiro
– mas não ao segundo – conciliar-se com a tese da relatividade ontológica.
Pelo segundo, tenta explorar-se, ainda que talvez um tanto brevemente, um aspecto da filosofia quineana que talvez venha sendo negligenciado, a saber, que a visão de Quine a respeito de subdeterminação
ganhou diferentes contornos ao longo de sua obra e que isso pode ter
conseqüências importantes para o modo como enxergamos tanto a tese
da relatividade ontológica quanto o realismo quineano.
Feito esse trabalho preliminar, gostaríamos ainda de explorar (ou, em
todo caso, indicar) uma possível – ainda que muitos a re p u t e m
improvável ou mesmo impossível – afinidade filosófica entre o realismo
naturalista quineano e o que se poderia conceber como uma p o s t u ra
realista neopirr ô n i c a.

II
O realismo científico, nós podemos definir brevemente como uma tese
filosófica que argumenta a favor da idéia de que as teorias científicas
descrevem o mundo apropriadamente.Admite que a ciência ambiciona a
verdade e que tem tido sucesso em sua bu s c a . Seu argumento principal,
bastante plausível à primeira vista, é que ou as teorias científicas da ciência moderna realmente descrevem apropriadamente o mundo (ainda que
apenas aproximadamente), ou o seu incrível sucesso preditivo só poderia
ser obra de um milagre (BOYD, 1984, p. 49).
O realismo científico entende, então, que as teorias científicas oferecem sentenças (aproximadamente) verdadeiras, cujos termos centrais típica e re l evantemente se re f e rem a objetos no mundo. Isto significa dizer
que a ciência nos propicia adquirir não apenas conhecimento empírico,
tecnológico (conhecimento dos observáveis, manifesto no acerto das
predições científicas, seu sucesso instrumental), como também conhecimento teórico (afirmação da existência das entidades pressupostas por
suas leis, mesmo daquelas que são inobserváveis).
De fato, é uma característica marcante das teorias científicas atuais a
postulação ou assunção de existência de determinadas entidades ou estrudoispontos, Curitiba, São Carlos, vol. 4, n. 2, p.133-158, outubro, 2007

1990. A r g umentos contra as noções de verdade aproximada. além da tese da indistingüibilidade evidencial e dos importantes casos advindos da história da ciência em que entidades postuladas por teorias muito bem sucedidas foram mais tarde descartadas (o caso do éter sendo o mais famoso deles) podem ser aqui mencionados.Assim.. outubro. 2007 .”. vol. a tese da indistinguibilidade evidencial. p. 4. crer que essas entidades inobserváveis supostas ou postuladas (a) realmente existem e (b) são aproximadamente tais como as descrevem as teorias científicas maduras. *** Contudo.133-158. 2. pp. São Carlos. R e a l m e n t e. 355-6). se diferentes teorias podem doispontos. não propri amente uma substituição. há uma depuração. no quadro conceitual em questão). A essas duas. a saber. “o realista [científico] deve poder defender uma tese histórica a respeito da história recente das ciências relevantes segundo a qual suas realizações envolvem aproximado conhecimento teórico e de acordo com a qual progresso teórico tem sido feito. A partir desse procedimento padrão no modo de fazer ciência hoje. Curitiba.135 turas inobserváveis subjacentes aos fenômenos macroscópicos que observamos. acrescenta-se ainda uma terceira tese. as quais são compostas de átomos. mais conhecido como pro blema da subdeterminação da teoria pelos dados.. os quais são compostos de outras partículas ainda menores. de conhecimento aproximado e de progresso teórico que dê sentido ao recente desenvolvimento das teorias científicas” (BOYD. a saber. n. que (c) a substituição eventual de uma teoria madura por outra implica uma preservação relevante da estrutura explicativa da teoria anterior (isto é. como elétrons e quarks. dado o fantástico sucesso preditivo. teorias físicas dizem que as mesas que observamos são na verdade compostas de moléculas. Um dentre esses nos interessa particularmente. Com efeito. por exemplo. “O realista deve empregar uma concepção de verdade aproximada. de progresso e pre s e rvação relevante (dos elementos de uma teoria na outra). o argumento central do realismo científico diz então que devemos. a tese realista científica enfrenta algumas dificuldades.

então não se veria como deduzir – do fato de uma teoria científica ser extremamente bem sucedida – que sua ontologia é a verdadeira ontologia do mundo. tudo isso posto. O que ele claramente mostra é que “é indiferente para o sucesso da teoria em suas predições” possuir esta ou aquela ontologia: para propósitos estritos de predição e suporte evidencial. o que importa é a estrutura lógica da teoria. Pareceria. 4. sem alterar sua relação de suporte evidencial. e mesmo depois de avançar um argumento que acaba por fazer “referência e ontologia retrocederem assim ao status de meros auxiliares” (QUINE. 1990. 2. Ora.136 ser suportadas pelo mesmo conjunto de dados. então. O que é ainda mais interessante é que Quine declara – aparentemente bem ao gosto da tese realista científica – que “o mundo é como a ciência natural diz que ele é. outubro. 1992. Quine mostra que a relação entre a teoria e seu suporte empírico depende antes da estrutura lógica da teoria do que de sua ontologia assumida. nossos grifos). de algum modo.9. as conexões lógicas entre suas sentenças (QUINE. responde perante o teste experimental das predições” (QUINE. Mas se isso é correto. ele mostrou que se pode alterar a ontologia de uma teoria qualquer sem comprometer seu sucesso preditivo. sempre tentativo. na medida em que a ciência está certa. como assumir uma como sendo a verdadeira. que Quine estaria. isto é. 1990. vol. em detrimento da outra? Nesse ensejo. certamente doispontos. Quine diz de si mesmo que ele é antes um “realista robusto e irregenerado”. a tese da re l a t ividade ontológica parece desferir à tese realista científica golpe ainda mais duro. p. 31). p. e nosso julgamento quanto a se ela está certa. como que reeditando o argumento realista científico da passagem do sucesso preditivo à assunção ontológica.133-158. p. no sentido de ser a única e correta ontologia capaz de dar conta dos fenômenos observados e observáveis. Ora. São Carlos. 2007 . 31). n. Quine não assume uma posição anti-realista. p. neste caso. o argumento central do realismo científico – a respeito da passagem do sucesso preditivo para a existência dos objetos postulados – parece estar severa ou mesmo irremediavelmente comprometido. Curitiba.Ao contrário. *** Entretanto. Com efeito. De fato.

Com efeito. onde. embora não no realismo científico.133-158. é em relação a estes que as principais argumentações – e objeções – têm lugar. pelo menos.137 não é esse o caso. São Carlos. à assunção de objetos em geral. vol. 2. embora o pro blema central do realismo científico diga re s p e i t o. os argumentos dados – pró ou contra – dizem respeito. quanto aos inobserváveis. Mas. em sua maioria. por que devemos permanecer agnósticos a respeito de tal existência. a por que devemos estar confiantes em crer na existência de tais objetos postulados pelas nossas melhores teorias científicas ou a por que não devemos crer ou. Com efeito. continuemos agnósticos (VAN FRAASSEN. Nos objetos observáveis. imperiosa. conseqüentemente. se se quiser. não o sendo. à falta de uma garantia contumaz. Devemos ou não crer em objetos inobserváveis? – eis a pergunta que guia todo o debate. quanto da tese da re l at ividade ontológica – no realismo quineano. Nós poderíamos até melhorar nossas concepções quanto às suas características doispontos. 2007 . 1980). à alteração freqüente em sua ontologia (muitas vezes radical) e. p. portanto. então. n a t u r a l m e n t e. no naturalismo. por que deveríamos dar nosso assentimento a tais objetos? Van Fraassen pode ser aqui invocado para sumariar o ponto: deveríamos crer no que as teorias científicas nos dizem a respeito dos observáveis. vimos brevemente. há claramente um enfoque especial concernindo à assunção de objetos inobserv á ve i s. teríamos razões para estarmos confiantes em sua existência. p a receríamos ter amplas razões para crer. A desconfiança ou prudência. n. III Podemos desde logo perceber que. absoluta quanto a tal existência. outubro. diz respeito à constatada falibilidade das teorias científicas. Curitiba. Não havendo tal garantia. está atrelada à confiança no sucesso das respectivas teorias científicas que os postulam. situar a diferença entre essa afirmação quineana e aquela do realismo científico? Em uma palavra. Cabe investigar.A confiança na crença de tais objetos. definitiva. 4. assim. que arcabouço conceitual o naturalismo disponibiliza que permite neutralizar os impactos aparentemente negativos – tanto da falibilidade alegada da ciência.

veio a oferecer um outro complexo de cadeias inferenciais que nos conduzem a uma outra ontologia inteiramente diferente. ao contrário. p. pareceria mais prudente recusá-la. p. que nos mostram a possibilidade de diferentes ontologias com o mesmo suporte empírico e. não pareceríamos ter razões. 6). Os objetos inobserváveis. incompleta ou desnecessária. IV Ora. n. outubro. melhor. O problema aqui é que. pelo menos na medida em que somos razoáveis. São Carlos. O que Quine nos faz perc eber é que nossa aceitação de uma ontologia se torna “similar em pri n c ípio à nossa aceitação de uma teoria científica. 4. garantias suficientes para crer em tais entidades. tal cadeia inferencial pode acabar sendo posta de lado. 1953. Para não mencionar o clássico argumento da subdeterminação ou da própria relatividade ontológica. em alguma medida. 2. indicam uma certa “ a r b itrariedade” quanto a que ontologia assumir. 2007 . seja pela falibilidade. dada sua utilidade no processo científico. que deixou. Podemos lembrar o caso do éter.138 ou propriedades. A observação dos mesmos pareceria fornecer toda a garantia necessária para nossa assunção deles e nossa crença neles. doispontos. teríamos de aceitá-las. como parte da teoria. dado o desenvolvimento constante da ciência. particularmente no que diz respeito à questão da assunção ontológica. Não podendo ser observados. Em outras palavras. seja porque uma outra teoria. Naturalmente. de ser uma entidade do mundo descrito pela ciência. Curitiba. seja porque ela se revelou equivocada. portanto. por definição. seja pela suposta arbitrariedade envolvida nos casos de subdeterm i n a ç ã o. um sistema de física: nós adotamos. vol.133-158. mas não pareceríamos poder estar errados quanto à sua existência. mas nossa cre n ç a . escapariam. só podem ser assumidos a partir de uma cadeia inferencial. após Einstein. acontece que o naturalismo nos oferece um novo modo de pensar as relações entre conhecimento e crença. à possibilidade mesma de nos fornecer tal garantia. por exemplo. o esquema conceitual mais simples nos quais os fragmentos desord e n ados da experiência bruta podem ser agrupados e arranjados” ( QU I N E .

de modo que a diferença entre os objetos observáveis e inobserváveis. Vulneráveis. lhes concede. é certo que a diferença existe. por exemplo. Além disso. o grau “superior” de confiabilidade de que os objetos observáveis parecem desfrutar poderá ser explicado pelo fato doispontos. ela se mantiver consistente com os fenômenos observados). se há alguma importante. nas próprias considerações sobre o holismo podemos perceber que. aquela concernente aos objetos observáveis) do que na outra. acontece ainda que. por isso. é de grau. nesse caso. sob uma reflexão cuidadosa. São Carlos. p. em relação aos objetos observáveis versus objetos inobserváveis e/ou abstratos? Se as considerações que fazemos a respeito da ciência são holísticas e se. uma “maior confiabilidade”. outubro. Nesse raciocínio. deste modo. teóricos. ao afirmarmos (a verdade de) uma teoria. ou no momento em que. Com efeito. todos os objetos são. quando realizamos o teste de uma teoria. na visão quineana. pre f e re re nunciar a outros grupos de enunciados a sacrificá-las. a elas ele renunciaria mais fa c i l m e n t e. como agora declarar maior ou menor confiança em relação às suas partes? A ve rdade é que. 21). dada a concepção holista de ciência. 2. Curitiba. o cientista em geral já tomou sua decisão quanto a que enunciados considerar como sendo mais “vulneráveis”. isto é. 2007 . elas obteriam seu estatuto de “verdades necessárias” não porque são “analíticas” ou ve rdadeiras necessariamente por convenção lingüística. de grau ou não. 4. Vemos. pedras. Como interpretar agora esse grau diferenciado de crença. paus. vol. o cientista entende que sua rejeição reverberaria intolerave lmente ao longo de seu sistema e. 1994. e o próprio Quine concede certo “privilégio” aos objetos observáveis.Tomemos as verdades matemáticas. Quine diz acreditar inabalavelmente em coisas externas – pessoas. por exemplo. E diz acreditar também. partes de seu sistema sejam vistas como mais vulneráveis. Numa concepção holista. em átomos e elétrons e classes” (QUINE. afirmamo-la como um todo. que não é estranha ao cientista a idéia de que. Bem. mas antes porque. a evidência que suporta a nossa melhor teoria disponível a suporta como um todo e. Com efeito.139 Ora. não pareceríamos mais bem garantidos em crer numa parte da teoria (por exemplo. em algum sentido. p. embora ele possa adotar uma teoria como um todo (enquanto.133-158. não há grandes mistérios aqui.“se menos firmemente. n.

mas a uma crença. por sua vez. por certo. São Carlos. p. cotidiana e outra. Afinal. para a retirada da crença nos objetos inobserváveis. podemos conceber como seria a vida. vemos a história da ciência acenar-nos com modos revolucionários de pensar as partículas elementare s . doispontos. a alta confiabilidade em relação aos objetos observáveis. 1966. são pre s u m i velmente os nossos conceitos mais antigos. outubro. estaria calcada em que. tal superioridade. Entretanto. desconfiança – em relação aos objetos inobserváveis. Concebemos isso pelo fato de que vemos a história da ciência presentear-nos com exemplos de entidades descartadas. 2007 . n. as categorias mais enraizadas em nosso processo de conceitualização. observáveis e inobserváveis. Isso porque. a “inferioridade” – e. sistematizar a nossa experiência. 4. o que devemos perceber é que a evidência que dizemos ter para a existência dos corpos de senso comum é. p o d e remos compre e nder que essa “prudência agnóstica” deve dar lugar a uma crença. e cuja última vindicação reside na antecipação dos dados dos sentidos do futuro” (QUINE. portanto. Nesse caso. Realmente. poderíamos lembrar ainda que é a tais conceitos que voltamos quando a comu n icação enfrenta problemas.133-158. O ponto-chave aqui é que. se compreendermos que tipo de evidência temos para a assunção de objetos. é sobre eles que temos menos mal-entendidos na comu n i c a ç ã o ) . sem fazer a eles referência (além disso. 237). do mesmo tipo que aquela que se pode dizer que temos para a existência de moléculas. são os conceitos sem os quais o próprio processo de sistematizar a experiência parece perder o sentido. cotidiana e outra. De outro lado. Curitiba. a uma crença matizada.140 de que os enunciados que afirmam sua existência são enunciados aos quais nós também não veríamos como re nu n c i a r. conversamente. vol. num certo sentido.“A postulação dos dois tipos de corpos é boa ciência na medida em que nos ajuda a formular nossas leis – leis cuja última evidência reside nos dados dos sentidos do passado. porque vemos até mesmo a ciência acenar-nos com a possibilidade de sequer pensarmos em termos de partículas elementares. num certo sentido. a sistematização da experiência. sem a eles fazer referência. p. se é verdade que podemos conceder algum tipo de privilégio epistemológico aos objetos observáveis. isso não deve servir de argumento. se deveria ao fato de que não saberíamos (ou não imaginaríamos como seria) viver. 2.

desde o ponto de partida. método de hipótese e teste de suas predições. s e m p re via conceitos feitos pelo homem.141 “tendo notado. um método que se revelou. a ciência decide sobre seus problemas e respostas.133-158. é o que evidência é. uma realidade que seria concebida transcendentalmente ao pensar em modos de existência fora dos parâmetros ditados pela própria ciência. que o homem não tem evidência para a existência de corpos além do fato de que sua assunção o ajuda a organizar a experiência. nós deveríamos. então.As justificações e garantias. deve ele resolver seus próprios problemas. ela as obtém a partir do respeito ao seu método hipotético-dedutivo. p. 4. O que o naturalismo faz. Método este que está. 238.A ciência oferece uma resposta a tais questões. assim. então. nossos grifos). e não pode oferecer melhor (nem precisamos pedir mais). p. n. concluir: tal. Desde então. como falível. tanto para corpos ordinários como para moléculas” (QUINE. ao que é real. suas próprias questões. privilegiado. Concebendo-se. que. 2007 . Curitiba. a ciência pensa a questão da ve rdade imanentemente. Não podendo escapar para um esquema conceitual exterior. 2. não reconhecendo o naturalismo nenhuma verdade mais elevada do que aquela que a ciência oferece ou procura. sujeito a alterações. infalível. no fundo. até aqui. outubro. sobre seus métodos para resolvê-los bem como sobre a confiabilidade relativa deles. a ciência nessa visão naturalista não pretende obter justificações e garantias absolutas. melhorias. correções: ou seja. V Ora. é compreender a ciência como um empreendimento humano. com os recursos que lhe são disponíveis. Faltando um árbitro superior. ele também. por não haver uma filosofia primeira ou tri bunal superior. O ponto é. nós doispontos. mas que não oferece nenhum tipo de garantia absoluta. perde sentido ou legitimidade toda busca que persiste em tentar definir como é ou seria a realidade em termos absolutos. em vez de desacreditar a evidência para a existência de corpos. vol. o melhor método de que dispomos. falível por certo. acontece que uma parte importante da investigação científica diz respeito ao que existe. mas que. São Carlos. assim. 1966.

O ponto importante a ressaltar aqui é que. outubro. que deve ser feita de dentro de uma teoria do mundo:“é incoerente de outro modo”. Que Quine não pode ser um realista científico. vol. p. Ocorre que. Quine e o naturalismo. deve também recusar a idéia de um parâmetro último para além da teoria que ora entretemos. nós dizemos que nós havíamos erroneamente suposto que algo era verdadeiro e aprendemos depois que não.133-158. vemos que assumir uma postura naturalista implica recusar parte crucial do próprio cenário em que a argumentação realista científica tem lugar. ainda que tacitamente. apesar de criticar seve r amente a posição realista científica. 2. nós não dizemos que a verdade mudou com ele. mas mesmo o obriga. Falibilismo é a palavra-chave. n. sim. De outro lado. que aquilo que conta como condição necessária e suficiente para um realista se dizer “científico” não é o que conta como condição necessária e suficiente para um realista se dizer “naturalista”. É certo que “nosso sistema muda. E o mesmo vale para toda atribuição de realidade. São Carlos. não relativismo. Falibilismo e naturalismo” (QUINE. Curitiba. isso significa que aquilo que conta como crítica e ameaça à postura realista científica não necessari amente se constitui como crítica ou ameaça à postura realista naturalista. e não há mais elevada”. isso é que tentamos mostrar não ser o caso. as doutrinas anti-realistas parecem aceitar. Que Quine não possa abraçar nenhuma concepção de realismo. pelas mesmas razões por que o naturalismo recusa uma filosofia primeira. sendo esse o caso. O cenário em questão é o apelo para uma noção transcendente de ve rdade (e realidade) com que se compromete o realismo científico. 2007 . 33-34. esse é um ponto praticamente incontroverso. Mas. ao contrário. num certo sentido. a sê-lo. 1981.142 não podemos senão falar sempre de dentro de nosso sistema de mu n d o corrente quando estamos atribuindo verd a d e. não há outro modo de falar. Quando ele o faz. nossos itálicos). com sua concepção imanentista de verdade e realidade. A possibilidade de reconciliação entre realismo e re l a t ividade ontológica é o naturalismo. as “ re gras do jog o ” . em primeiro lugar. De fato. pp. O que vemos é que essa “redefinição do cenário” não apenas permite a Quine ser realista. elas parecem desendoispontos. entendem que a “verdade é imanente. Estabelecer essa distinção é crucial. Isso significa. 4. essa distinção mostra imediatamente por que a “conciliação” propiciada pelo naturalismo (entre relatividade ontológica e realismo) não está disponível para o realismo científico.

O realista científico diz que as teorias científicas atuais. 2. isto é. por exemplo). suas dúvidas devem ser entendidas como doispontos. isto é.Antes. não temos como decidir a respeito. mas dadas as nossas condições presentes de conhecimento (que incluem considerações sobre subdeterminação. agnóstico sobre a existência dos objetos inobserváveis. 2007 . A aceitabilidade da proposta do realismo científico depende assim. implica a aceitação de uma noção transcendente de verdade. Entretanto. mas o máximo que podemos fazer é crer em sua ve rdade quanto aos observáveis (lembremos de Van Fraassen: o cientista só deve crer na adequação empírica da teoria. 4. R e a l m e n t e. Quarks podem existir realmente ou não.133-158. A posse efetiva de tal teoria final decidiria a questão. dado seu sucesso preditivo. O anti-realista. a postulação de certa entidade –. Quanto aos inobserváveis. em segundo lugar. não fica bem claro o que significa ser. n. vol. se elétrons existem e quão próxima da verdade a descrição do elétron fornecida pela teoria T chegou. recusada a noção de uma ve rdade transcendente. capaz de fornecer as respostas cabais para todas as nossas possíveis questões. da noção de uma teoria verdadeira última e. não se trata de um agnosticismo “em princípio”. É claro que uma posição naturalista não impede o cientista de declarar-se agnóstico sobre a existência de determinadas entidades. p. que ela é verdadeira quanto aos observáveis).143 volver todo seu enredo no interior desse “cenário”. diria se realmente as nossas seqüências de teorias constituíram aproximações sucessivas a essa descrição verdadeira última. por exemplo. por outro lado.A existência de tal teoria ultimamente verdadeira. quando um cientista declara ser agnóstico ou ter dúvidas sobre um determinado aspecto da teoria científica – digamos. em princípio. Curitiba. em primeiro lugar.Acreditamos que a teoria dá conta dos fenômenos. devemos ser agnósticos. do fato de as teorias científicas atuais se aproximarem dessa verdade. por sua vez. diz não saber se tais entidades existem realmente ou não. as entidades postuladas por tais teorias são assumidas como existentes e aproximadamente tais como as descrevem as teorias científicas atuais. o que parece ser tacitamente assumido também pelo anti-realismo é a existência possível de uma teoria verdadeira que pode servir de parâmetro último. outubro. Definiria. devem ser consideradas boas aproximações em relação a essa teoria verdadeira última. São Carlos.Vamos explorar um pouco essa idéia. Acontece que. Nesse caso.

que esse anti-realismo científico quineano não se alinha junto às demais propostas anti-realistas científicas. uma atitude realista quanto às entidades requeridas para a teoria ser verdadeira – no caso de satisfeitos os critérios metodológicos do método científico em questão – parece decorrer naturalmente. Curitiba. é a desse “óbvio anti-realismo científico quineano” das tradicionais propostas anti-realistas em filosofia da ciência. dentro do naturalismo. para perceber que Quine é não apenas um anti-realista científico. São Carlos. Realmente. entretanto. vol. como uma espécie de “falha”. Recusado o cenário anterior. o ponto é estabelecido por Quine de modo ainda mais impactante: se não há verdade a ser encontrada fora da ciência. mas também – se nos for permitida a expressão – um anti-anti-realista científico. isto é. não há questões que sejam ao mesmo tempo significativas e em princípio irrespondíveis1. Essa algo longa digressão sobre agnosticismo e anti-realismo tem o intuito de realizar um trabalho de descolagem. então. não há como sustentar que incertezas sobre matéria de existência sejam em princípio insolúveis dentro da própria ciência. se se quiser. Tal descolagem é crucial para perceber. em satisfazer os próprios critérios do método científico. trata-se de descolar a proposta quineana não apenas do realismo científico. 4. assim. n. não parece aqui ter lugar. recusando pontos de vista privilegiados exteri o res ou futuros. outubro. mas um realista natura l i s t a. por parte desse aspecto da teoria ou dessa entidade. Ora. Se a ciência for tida como o árbitro final e mais elevado. 2. Com efeito. desde já. tratando ve rdade e realidade imanentemente. Deste modo. 2007 . Na verdade. se a ciência presente é o árbitro mais elevado para decidir questões de verdade e realidade. A descolagem mais importante. nenhuma dessas dúvidas tem suas possíveis respostas fora de uma ciência humana. questões não muito bem definidas e algumas respostas em aberto. A ciência presente pode. sim. p. recusados ambos os lados da contenda. ter dúvidas. resta a Quine assumir a posição que lhe cabe. se a ciência atual tem a palavra final. doispontos. é a ciência atual que tem a palavra final sobre o que considerar como existente ou não. um agnosticismo tout court sobre inobserváveis. mas das tradicionais propostas anti-realistas. não importa quão amplas e boas sejam as evidências que venham a estar disponíveis para o cientista. se somos naturalistas.144 tensões internas à própria teoria científica. atual. então a conclusão que se impõe é que. a de realista.133-158.

assim. e nuncia-se que. eles são distinguidos doispontos. pela tese da relatividade ontológica. Essa tese pode ser demonstrada. ainda assim. e n t re t a n t o. 1969. 2007 . p. Corpos continuam. n. São Carlos. em seu lugar. ser empiricamente equivalentes e. Que duas teorias podem. Deste modo. a t r avés do que Quine chamou de proxy functions. Proxy function é uma espécie de mapeamento de um universo dentro do outro. seu complemento cósmico. 2. do ponto de vista estrito da evidência..“Reinterp retando o re s t o de nossos termos para corpos de modo corre s p o n d e n t e. p. sob cada reinterpretação. 31). outubro. Um exemplo que pode ser dado é o seguinte. elas são empiricamente indistingüíveis. Gostaria aqui. Empiricamente equivalentes. nós term inamos com uma ontologia interc a m b i á vel com a nossa familiar”2. o mesmo valendo para os demais objetos. 1994. apontar para o fato de que a relação da teoria com a evidência depende fundamentalmente da estrutura lógica da mesma e que. pp. elas têm as mesmas conseqüências empíricas. mapeamento que nos mostra como um domínio de objetos pode ser eliminado – por meio de uma reinterpretação – em favor de algum outro universo (ou domínio de objetos) (QUINE. a ser distintos de seus complementos cósmicos (.“como [ocorre com] todas [as demais].“é indiferente para o sucesso da teoria em suas predições possuir esta ou aquela ontologia” (QUINE. 1990.133-158. Naturalmente. vol. isto é. 4. Com efeito.“Zeca” não mais designaria o cachorro. mas o cosmos inteiro menos o cachorro. Suponhamos uma proxy que re i n t e rp rete cada objeto de uma formulação de modo a designar. por exemplo.145 VI Acreditamos que os argumentos ora aventados são inteiramente suficientes para defender uma coerente postura realista para Quine.). Curitiba.. portanto. QUINE. portanto. A relatividade ontológica vai. p. 55. se pode mudar a ontologia da teoria sem dano para seu suporte evidencial. ter ontologias distintas. 17-19). contam com o mesmo suporte empírico. de explorar adicionalmente um aspecto da teoria quineana que talvez venha sendo negligenciado: o fato de que a visão de Quine a respeito de subdeterminação mu d o u ao longo de sua obra e que isso pode ter conseqüências importantes para o modo como enxergamos tanto a tese da re l a t ividade ontológica quanto o realismo quineano.

isto é. 1994. ao examinar a questão concernente a duas teorias empiricamente equivalentes. 320. não haveria como justificar. 1969. exceto pelo fato de que alteramos dois de seus termos que são puramente teóricos.Tendo observado os nativos dizerem ‘gavagai’ sempre que na presença de um coelho. 33-4). em que as re s p e c t ivas ontologias seriam subdeterminadas pela evidência empírica disponível. o que uma formulação chama de molécula. 2007 . a duas formulações da mesma teoria)? Em busca dessa resposta. Curitiba. p. pp. o lingüista propõe “coelho” como sua tradução privilegiada. por seus papéis re l a t ivos um ao outro e ao re s t o da ontologia” (QUINE. Assim. porém. Entendamos o que está em jog o através de alguns casos. pp. 4. portanto. outubro. n.146 num modo re l a t ivístico. aqui à mente. essa é uma questão que parece crucial. 1990. portanto. Mas o que impediria o lingüista de escolher “coelhidade” ou “‘partes indestacáveis de coelho’”? – pergunta Quine. molécula e elétron. embora com ontologias diferentes. Assim. embora incompatíveis entre si. naturalmente. teriam o mesmo suporte evidencial. de um modo puramente empírico. ele define: duas formulações expressam a mesma teoria se elas são empiricamente equivalentes e há uma reconstrução de pre d i c a d o s3. e. Exemplo similar de subdeterminação pode ser obtido através do famoso experimento quineano da tradução radical. em que sentido são duas teorias (em oposição. (A). Sendo empiricamente equivalentes. reinterpretação de termos ou inter-tradução que transforma uma teoria num equivalente4 lógico da outra (QU I N E . p. p. de um caso clássico de subdeterminação. O exemplo de ‘gavagai’ vem.133-158. cabe salientar que tais traduções. Quine se pergunta: se elas são empiri c amente equivalentes. Sem entrar aqui em maiores detalhes. ambas as teorias. que não aparecem em nenhuma sentença de observação. 29). e vice-versa doispontos. a outra chama de elétron. Suponha duas formulações de teoria. São Carlos. 1975a. são compatíveis com todos os comportamentos verbais dos falantes. QUINE. 31-35). Queremos chamar a atenção aqui. idênticas uma à outra. vol. por exemplo. para as alterações que a doutrina da subdeterminação sofreu e que podem dar novas cores à problemática da re l a t ividade ontológica e suas implicações para a discussão sobre realismo ou anti-realismo. por exemplo. Tratar-se-ia. 2. a preferência de uma tradução em relação à outra (QUINE. De fato.

1987. Relativamente a outro e melhor manual de tradução. p. 517). “relativamente ao manual de tradução homofônico – a transformação de identidade –. Deste modo. 1975a. QUINE. 1975b. Em termos mais técnicos. as duas formulações da teoria estão em contradição. 80. Entretanto. 1987. vol.133-158. p. 517). 1987. 2007 . 1987. 319-320. p. são logicamente incompatíveis. Quine. os dois textos de física estão em contradição lógica. p. 319.147 ( QU I N E . 517. p. QU I N E . pp. deste modo. p. 1994. outubro. os dois textos concordam inteiramente. p. p. doispontos. 28-9). n. p. duas opções. pois o que uma diz sobre moléculas. Em outras palavras. a outra nega e atri bui aquelas propriedades a elétrons (QUINE. Quine entende que optar pela primeira altern a t iva seria como que trivializar a diferença entre teorias. De fato. 80. Temos. ou temos uma teoria e uma diferença terminológica (QUINE. Ou entendemos tratar-se de duas teorias alternativas ou rivais explicando as observações. QUINE 1975b. o conflito poderia ser trivialmente “resolvido tratando uma formulação como não inteiramente portuguesa. p. 28). 1975a. 4. QU I N E . QUINE. 198 7. nega que haja qualquer diferença re a l : as duas formulações devem ser consideradas. com a reinterpretação dos termos em uma formu l a ç ã o. QU I N E . p. 2. 517) (nossos grifos)5. 319. pois mesmo o “homem da rua” protestaria dizendo que se trata da mesma teoria. 1975a. já que bastaria trocar de volta os dois termos para o conflito ser resolvido. QUINE. 1994. pois implicam os mesmos categóricos observacionais. desde então. já que eles não contêm aqueles termos. O segundo manual de tradução é melhor no fato de que ele maximiza a concordância” (QUINE. os categóricos observacionais permanecem idênticos. p. pp. como formulações da mesma teoria (QU I N E . Curitiba. e traduzir suas re s p e c t ivas palavras ‘molécula’ e ‘elétron’ pelas portuguesas ‘elétron’ e ‘molécula’” (QUINE 1975a. as quais discordam a respeito das propriedades de elétrons e moléculas. 517). as duas formulações são tornadas idênticas e. esse exemplo não vale como um bom caso de rivalidade entre teorias. São Carlos. por isso. Claramente as duas formulações são empiricamente equivalentes. 319. antes. o qual é homofônico exceto para traduzir molécula por elétron e vice-versa.

relativamente agora a esse outro e melhor manual de tradução. nesse caso (como no caso visto de Zeca e seu complemento cósmico). todas as conexões lógicas? Mas. nesse caso “reinterpretando ‘linha reta’ no glossário riemanniano como ‘círculo máximo’” (QUINE. o mesmo procedimento sendo aplicado aos demais objetos. p. 1990. De fato. o que faz uma proxy function senão realizar uma reinterpretação dos predicados (da formulação) da teoria. e outras não. *** doispontos. os seus respectivos conteúdos empíricos. os dois textos passam a concordar inteiramente. fazendo correlações um-a-um entre os antigos e os novos objetos e preservando. o conflito pode ser resolvido por meio de uma reinterpretação. esse manual de tradução é melhor pelo fato de que ele maximiza a concordância. Entretanto. uma qualquer e sua p r ox y. ele reconcilia uma formulação com a outra sem perturbar. outubro. Desta forma. Novamente. 4. isto é. A geometria euclidiana diz que algumas se encontram. De fato. 2007 . elas tampouco valerão como um bom caso de rivalidade no momento em que tal conflito pode ser resolvido também por meio de reinterp retação de termos ou predicados. Mas. 2.133-158. A geometria riemanniana diz que linhas retas sempre se encontram. o que devemos observar nesse momento é que também a permutação dos objetos realizada pelas proxy functions gera. deste modo. vol. Um outro “exemplo familiar é a geometria riemanniana e a euclidiana enquanto aplicada à superfície de uma esfera. nós poderíamos tratar a segunda formulação como não sendo (inteiramente) portuguesa e traduzir “complemento cósmico de Zeca” por “Zeca” e vice-versa. naturalmente. Aqui também. São Carlos. também aqui. Com isso. se assim é. (C). similarmente. um conflito que pode ser facilmente resolvido. diante de tais formulações conflitantes. p. e em particular que não há nenhuma numa esfera”. nesse caso fazendo o mapeamento contrário. as duas formulações são tornadas idênticas [reconciliadas] via reinterpretação dos termos em uma das duas formulações. nós também poderíamos declarar tal conflito como meramente terminológico. n. Curitiba. Ora. 96). no caso de duas formulações de teoria. as duas formulações estão em conflito relativamente a um manual de tradução homofônico.148 (B).

n. que o caso das proxy functions podem ser relidos como casos de indeterminação da tradução. Ora. então. vimos. Os únicos casos agora que contam como exemplos legítimos de subdeterminação. que não possam ser reconciliadas via qualquer tipo de re c o n s t rução de predicados ou tradução. seu conteúdo empírico. É esse o conflito que requer reconhecimento. Curitiba. 2. São Carlos. – A primeira é que a tese da re l a t ividade ontológica talvez não possa ou não deva mais ser utilizada como argumento para dizer de Quine que é anti-realista. parece que aqui se podem tirar pelo menos duas conseqüências a nosso ver importantíssimas. o que Quine está dizendo é que formulações de teoria empiricamente equivalentes para as quais encontramos um modo de intertradução não contam como exemplos válidos de rivalidade ou de subdeterminação. 2007 . 1975a. vários d i s c u rsos igualmente defensáveis capazes de descrever o mundo. ocorre que o conflito posto pela relatividade ontológica não entra nesse caso específico. que vamos descrever a realidade. as palavras e conceitos que utilizamos teriam um papel meramente instrumental e que. podem agora ser pensadas como duas formulações da mesma teoria e. de outro lado. o discurso. E isso simplesmente porque não se pode mais dizer que se tratava de duas teorias. l ogicamente incompatíveis e. Ora. como um conflito não significativo ou desinteressante. – A outra conseqüência é perceber que há várias maneiras. Ora. aquele entre “f o rmulações de teoria que se mostrem empiricamente equivalentes. mas concordar com isso não equivaleria a dizer que. mas. outubro. se de um lado. o conflito verdadeiramente significativo será. apesar disso. p. p. as proxy functions nos ensinam a gerar teorias com ontologias distintas preservando sua estrutura lógica e. é esse conflito que explicita o que está realmente em jogo na doutrina da subdeterminação” (QUINE. portanto. para Quine. 322)6. a partir de um manual de tradução adequado. portanto.149 Ou seja. Sim. precisamos re c o rrer a um deles. pois vimos que. Em outras palavras. portanto. Pelo menos não quando vemos como enu n c i a r regras de tradução que reconciliariam as duas teorias empiricamente equivalentes. e que é nesse discurso. ponto-chave. em suas palavras. vol. o universo. Mas que. as acusações de anti-realismo entrariam pela porta do fundo? doispontos.133-158. 4. temos que essas duas teorias contavam a p a r e n t emente como duas teorias.

2007 . o pirrônico aceita. p. não há verdade transcendental. Entretanto. tampouco. nos termos dessa teoria. que muitas vezes se opõe à primeira de modo drástico. a possibilidade de uma realidade não conceitualizada. o cético pirrônico não pode “deixar de reconhecer que temos uma experiência de mundo que epokhé nenhuma vem afetar” (PORCHAT. Ao investigar com rigor e espírito crítico as várias doutrinas que pretendem ter atingido o conhecimento absoluto do mu n d o. porém. por exemplo. sim. em nenhum sentido – para tomar de empréstimo uma expressão de Rorty – um “espelho da natureza”. para Quine. que a realidade será descrita. não há filosofia primeira. mas ele a aceita doispontos. Comecemos ressaltando alguns pontos centrais da postura pirrônica. 14). Essa experiência de mundo. Não pode ser diferente e não precisamos pedir melhor.133-158. fenomênica. sem problemas. Se tomarmos como base o cenário em que se movem realistas e anti-realistas científicos. a resposta seria certamente sim. 2001. vol. Curitiba. Deste modo. ainda assim temos de escolher um discurso e será nos seus termos.150 Aqui devemos lembrar do debate anterior. imanentemente portanto. Uma vez. Usamos o discurso para falar da realidade. A conseqüência que talvez tenhamos de tirar é não que Quine não possa ser um realista – ele o é – mas que. o discurso. mas o mesmo não é. 4. para Quine. não podemos esquecer que. outubro. as palavras e conceitos utilizados não têm nenhum vínculo essencial com a natureza descrita. VII Ora. n. se é verdade que a decisão quanto a que discurso utilizar – entre dois discursos empiricamente equivalentes e inter-traduzíveis. tendo suspendido o juízo sobre as doutrinas e teorias que tentam dizer como é o mundo em si mesmo. 2. como não há. o cético pirrônico chega à conclusão de que não há ou não tem havido por que dar o seu assentimento antes a uma determinada doutrina do que a uma outra. p. São Carlos. naturalmente – traz algo de arbitrário (no sentido de empiricamente indeterminado). o que podemos acrescentar e perceber é que essa postura filosófica quineana pode ser bem aproximada de uma postura pirrônica ou neopirrônica.

o pirrônico falará de verdade e realidade “no interior de um quadro mundano reconhecidamente moldado com a contribuição de seu aparato conceitual e lingüístico” (PORCHAT. o pirronismo: – recusa a noção de uma filosofia primeira. doispontos. saber empírico. fazer a apologia das t é k h n a i. “Mas se trata sem dúvida de um empirismo sem dog m a s ” . Entretanto. vimos.Todo o saber de que se vale o cético é agora saber do fenômeno. Ora. que podem ser utilizadas e defendidas pelos céticos porque elas precisamente lidam apenas e diretamente “com os fenômenos. e ainda seguindo Porchat. enquanto aparecer. enquanto ela se dá. p.151 precisamente enquanto fenômeno. clara e forçosamente. 44). se fará no interior do quadro fenomênico. mesmo no limite. privilegiar o fenômeno não equivale a transformá-lo em critério de verdade absoluta. Ora. sendo assim. parece-nos que essa postura pirrônica não difere tanto da postura naturalista quineana. – recusa o fato de que a ciência venha a se tornar. o pretenso saber teórico e dogmático pelo saber da experiência. Essa descrição. 4. o pirrônico não deixa de reconhecer a necessidade de se valer de um discurso para descrever o mundo. última e acabada do mundo. que elas observam e sistematizam” (PORCHAT. e o método científico-empírico da ciência moderna como uma sofisticação do método empírico das tékhnai que o pirronismo. assim. à sua experiência. Isto é. isto é. n. Por quê? Porque para o ceticismo. o conhecimento do mundo e das coisas. Realmente. de fora. e x p l i c i t amente adota. É assim que o cético pirrônico pode. Curitiba. outubro.133-158. um conhecimento das coisas em si mesmas. estamos autorizados a dizer que um pirrônico moderno bem poderia ver as teorias científicas modernas como uma espécie de sofisticação das antigas tékhnai. São Carlos. para descrever essa experiência de mundo que nós temos. capaz de oferecer um ponto de vista privilegiado e exterior. ao fazê-lo. capaz de fundar. assim como Quine. p. 17-8). de modo irrecusável. mesmo “tendo suspendido o juízo sobre toda a e p i s t é m e. – recusa a existência de uma descrição definitiva. 2007 . 2001. O ceticismo pirrônico substitui coere n t e m e n t e. 2. pp. 1995. vol.

Também o cético não dará às palavras um peso metafísico. não lhes atri buirá o papel ou a capacidade de “espelharem” a realidade em si mesma. um realismo. sim. as palavras. não nos resta outra possibilidade senão dar o crédito e o mérito às palavras de nossas melhores teorias de dizerem do mundo o que ele é. Essas palavras. o mundo e seus objetos. mas. Não a realidade em si mesma. 2. não é possível ou mesmo coerente. o anti-realismo científico).152 Ora. cabe ver que tanto em Quine quanto no neopirronismo. doispontos. não a descrição absoluta e plena da realidade – já que abdicamos das pretensões absolutas de justificação disso que chamamos nosso conhecimento – mas ainda assim a realidade. de dizer como ele é. uma vez rejeitado esse papel “essencialista” da linguagem. Freqüentemente se ouve de críticos e debatedores do tema que tal definição de realismo. uma vez rejeitadas as pretensões de uma descrição absoluta da realidade. são nossos instrumentos privilegiados a partir dos quais podemos relatar nossa experiência de mu n d o. afinal. Não um realismo científico (ou sua contra-parte. o que vemos aqui é que também o cético – assim como o naturalista quineano – falará de verdade e realidade apenas imanentemente. a linguagem. o que talvez haja em comum tanto na postura quineana quanto numa postura neopirrônica é que. outubro. d e s c revem. p. VIII Talvez uma última observação ainda deva ser feita. dessas noções – eleitas por razões reconhecíveis (por exemplo. por sua capacidade de sistematizar a nossa experiência de mundo) – descrevemos a realidade e dizemos o que existe. Seja ele naturalista. através dessas palavras. n. desde o momento em que abandonamos toda pretensão absoluta de conhecimento. Mas que. Ou seja. esses conceitos de nossas melhores teorias. nem por isso a linguagem precisa ser reduzida a um papel meramente instrumentalista. quineano por exemplo. vol. Que essa alegada postura realista nada tem. 4. de espelhar a natureza através de nossos discursos ou teorias. Não um realismo metafísico. 2007 . São Carlos.133-158. Em outras palavras. seja ele neopirrônico. ainda assim. Curitiba. de realista.

Ocorre que eles têm razão enquanto. Sim. São Carlos. assumindo isso. o realismo científico se distancia – e muito – das antigas propostas realistas metafísicas e suas pretensões de conhecimento da “coisa-em-si-mesma”. De fato. eterno. o doispontos. verdade da qual nos aproximaríamos com nossas teorias científicas atuais. mas por ressignificá-la. indubitável. n. Nesse sentido. ficaríamos como que “órfãos”. eles se apegam ao cenário anterior de debate. Quis o bom senso que os filósofos tenham optado não por abandonar a noção de conhecimento. e apenas enquanto. 2. o problema. Ocorre que o cenário de discussão epistemológica mudou. Ora. mas a noção de conhecimento agora comporta falibilidade. Ora. vol. p o rque se é ve rdade que as reflexões epistemológicas contemporâneas nos fizeram aceitar que nossas melhores teorias científicas são falíveis. probabilidade. a nosso ver. Se entendermos a noção de conhecimento como epistéme ou como conhecimento absolutamente certo. a um conceito de extrema importância filosófica.133-158. Certamente não devemos aqui – a partir da crítica feita em relação à aceitação de uma noção transcendente de verdade – conferir ao realismo científico o mesmo estatuto que aquele dado ao realismo transcendental ou metafísico. outubro. a doutrina do realismo científico como que reintroduz – pela porta dos fundos – a noção de conhecimento absoluto ao postular tácita ou explicitamente uma teoria ultimamente verdadeira. é essa re i n t rodução do absoluto – ilegítima a nosso ver porque apela para uma noção transcendente de verdade – que pre c i s amente norteia o debate entre realismo e anti-realismo científicos. sem poder recorrer a uma noção. Acontece que. nenhuma entidade é jamais admitida como existente sem o respaldo do sucesso empírico. O pro blema todo parece estar em que precisamente a discussão sobre realismo versus anti-realismo protagoniza o último ou um dos últimos baluartes da “vontade de absoluto” em matérias epistemológicas. graus de confiabilidade. acompanhar o mesmo processo de ressignificação. Com efeito. incerteza e hoje nos parece plenamente natural assim pensarmos. redefini-la. preditivo da teoria científica em questão. Curitiba. p. mutatis mu t a n d i s. 2007 . para o realismo científico. poderíamos bem ser levados a admitir que o conhecimento é impossível. Não foi um processo simples ou rápido. é que a noção de realismo precisa. crescentemente poderosas. Tomemos como analogia o debate histórico a respeito da noção de conhecimento. 4.153 E certamente eles têm razão.

p.154 realista científico pretende oferecer não descrições das coisas-em-simesmas (como faz o realista metafísico). cabe ressaltar que. como tantas outras vezes na história da doispontos. ocorre que. Quine encontra a via para uma concepção renovada – e não dogmática – de realismo em ciência. Entretanto. teremos de decidir se queremos ficar “órfãos” dessa noção. em seu lugar. Ora. o empirismo quineano nem por isso é menos realista. realismo metafísico e realismo científico. desse conceito filosófico de inequívoca importância e utilidade ou se.133-158. Via naturalismo. 4. Quine consegue isso. Isso porque “Kant foi o primeiro filósofo a ter mostrado (. distante embora do realismo metafísico. p. outubro. que o idealismo transcendental não é incompatível com um realismo empírico8. De fato. um elemento indisfarçavelmente “metafísico” nas suas concepções. n. via naturalismo. Ora. acaba por ancorar suas teses sobre um modo transcendente de justificação e reintroduz.. de fato. na sua filosofia. o realismo científico. lembrar Kant pode ser oportuno. sem pretensões absolutas ou transcendentes de justificação. São Carlos. 2007 . Neste contexto. 1995. acabaremos fatalmente por perceber que o debate tradicional entre realismo e anti-realismo científicos perdeu seu único sustentáculo e não tem mais lugar ou mesmo pertinência. Curitiba. se podemos dizer que Kant nos mostrou que não é preciso ser metafísico para ser realista. Mas se assim é. 2. Quine nos mostrou que não é preciso recorrer a nenhum modo transcendente de justificação para defender uma concepção realista para a ciência. no momento em que realmente conseguirmos abdicar dessa idéia de uma teoria ultimamente verdadeira e assumirmos toda tentativa de conhecimento como um empre e n d i m e nto eminentemente humano e falível. Quine consegue prescindir da idéia de uma teoria ultimamente ve rdadeira como parâmetro de justificação para as verdades propostas pelas teorias científicas e. assim. mas antes das “coisas-para-asteorias-científicas-bem-sucedidas” 7. vimos. ao rejeitar ambos. E..) que a rejeição do realismo metafísico (que ele chamou de transcendental) não implica necessariamente a recusa de toda postura que se possa legitimamente chamar de realista” (PORCHAT. o filósofo mostrou. vol. no momento em que isso acontecer. oferecer uma doutrina da realidade e da verdade imanente ao discurso teórico que organiza o domínio empírico. ao se comprometer com uma teoria ultimamente verdadeira. Com efeito. 19). quer nos parecer que.

não importando se efetivamente existe uma palavra em nossa linguagem com a mesma extensão que aquela sentença aberta”.“Por uma reconstrução de predicados de nossa linguagem. 320). 2007 . doispontos. nós deveríamos permitir permutação de mu i t o s . 4 Note-se que a reconciliação via reconstrução de predicados não precisa exigir a identidade de formulações. a relação da formulação da teoria com o suporte evidencial. supra). Nesta filosofia. Finalmente. que o apego ao absoluto perca sua força remanescente para que essas posturas filosóficas possam ganhar toda a legitimidade que merecem. 1975a. 1976. Quine nos diz que “não deveríamos limitar a permutação a uma troca de dois pre d i c a d o s . um mapeamento de identidade não mudando nada. de formulações de teoria. nós não deveríamos exigir que uma troca de termos torne as formulações idênticas. essa redefinição já pode ser vislumbrada. p. A noção intuitiva. no caso das proxy functions. Diremos. que as teorias são as classes de equivalência daquela relação de equivalência.133-158. São Carlos. “desde que formulações logicamente equivalentes deveriam em qualquer caso contar como formulações da mesma teoria (cf. quero dizer qualquer mapeamento de nosso léxico de predicados em nossas sentenças abertas (predicados de n-lugares para sentenças de nvariáveis). n. 320-321). Realmente. portanto. enquanto os pre d i cados ‘molécula’ e ‘elétron’ podem ser mapeados para as respectivas sentenças abertas ‘x é um elétron’ e ‘x é uma molécula’. era uma reconstrução de predicados. nós deveríamos exigir apenas que ela as torne logicamente equivalentes”. p. que esse antigo ranço ceda. p. uma vez que a reinterp retação feita não altera em nada a sua estrutura lógica e. Com efeito. não há pro blema de os termos eventualmente ocorre rem também nos categóricos observacionais. Resta apenas esperar que a resistência. seria arbitrário requerer dessa transformação que se limitasse a transformar predicados sempre em predicados simples de uma palavra. optaremos por ressignificar. a resposta a esta questão é não” (QUINE. 2. Curitiba. 2 Observe-se que.155 filosofia. Assim. 67). redefinir o conceito de realismo de um modo condizente e consistente com a evolução do resto do debate epistemológico9. 1 “A questão era se há questões – questões significativas a que o homem poderia em princí- pio nunca responder. 3 Observe-se que essa reconstrução ou reinterpretação de predicados não precisa obedecer a limites estreitos. pp. Na seqüência. outubro. correspondentemente. produzindo nosso exemplo” (QUINE. São classes. quer nos parecer que tanto o realismo naturalista quineano quanto o que poderíamos pensar como um realismo neopirrônico podem fazer plena justiça ao estado atual das reflexões filosóficas. 4. afinal. e o modo geral de reconstruir um predicado de n lugares é provendo uma sentença aberta em n variáveis. conseqüentemente. o predicado “mais pesado que” pode ser mapeado para a sentença aberta “x é mais pesado que y”. E quer nos parecer que essa ressignificação. 1975a. (QUINE. Quine precisa sua definição de reconstrução de pre d i c a d o s . vol. assim.

4. p. tem essa idéia de “progre s s o ” qualquer relação com uma “direção” preestabelecida. logicamente compatíveis. 1990). a questão da incompatibilidade lógica é superada. porém. Naturalmente. Uma proveitosa analogia pode ainda ser feita. melhores do que as passadas. E é por essa razão que o naturalismo não apre s e n t a . também Theories and Things ( QU I N E . 2007 .133-158. Observe-se que. Em cada momento pontual. uma doutrina da aproximação à verdade ou da pre s e rva ç ã o relevante de elementos da teoria anterior na posterior. dentro de nossa visão. por sua vez. O realismo naturalista. nem pre c i s a . doispontos. ao defender o abandono dos “absolutos” em filosofia. no presente. e muito. assim como o próprio método científico a elas subjacente. coerente com a postura naturalista (e/ou pirrônica). Ao contrário. imanentes a essa visão. Deste modo. 1994. São Carlos. outubro. naturalmente entendemos que isso re p resenta um “ p rogre s s o ” em relação ao modo de pensar anterior. segundo nossos parâmetros pre s e n t e s . ver PORCHAT. necessariamente. 29): “A resposta natural a esse exemplo trivial é que as duas formulações são realmente formulações da mesma teoria em palavras ligeiramente difere n t e s . seja do presente em relação ao futuro. no entanto. essa alteração não traz efeitos significativos. mas conflitantes agora no sentido de a teoria alternativa à nossa conter termos teóricos não redutíveis aos nossos. podemos falar no abandono dos absolutos como um progresso sem com isso pretender estabelecer nenhuma dire ç ã o ou rumo preestabelecido para as reflexões filosóficas. 2. pp. Para efeitos da argumentação aqui empreendida. Curitiba.Trivial no sentido de que nós sempre e naturalmente defendemos aquelas concepções que acreditamos serem as melhore s . Deste modo. O realismo científico é aquela concepção que entende que as teorias científicas progridem numa determinada direção (na direção da teoria ultimamente verdadeira) e seu progresso é mensurado de acordo com isso. com o abandono dos absolutos. porém. No entanto.156 5 Cf. não estabelece nenhuma direção prévia para onde a ciência deve caminhar. ao contrário. p. 7 Gostaríamos de registrar aqui nossos agradecimentos aos comentários e sugestões recebidos no parecer a esse trabalho. temos va l o res e parâmetros a partir dos quais julgar os méritos e deméritos das teorias ou concepções concorrentes. de acordo com os parâmetros a t u a i s. e a subdeterminação passa a dizer respeito apenas a (formulações de) teorias empiricamente equivalentes. nunca queremos mudar para pior. que tal caminho tomado foi ruim ou equivocado. concebemos esse “progre s s o ” de modo “trivial”. 19 e segs. 1995. seja do passado em direção ao presente. de nosso sistema global de mundo. 9 Um adendo pode ser feito aqui. nem tampouco implica isso que as doutrinas filosóficas futuras serão. 8 Para uma argumentação mais detalhada sobre o realismo empírico kantiano. entendemos que a filosofia tem a ganhar. n. Similarmente. o assim chamado “progresso científico” não precisa ser linear nem caminhar numa direção pré-determinada. Mas nunca estamos livres de dizer. retroativamente. 6 Em Pursuit of Truth (QUINE. vol. Em nenhum momento. e que uma pode ser traduzida na outra trocando as duas palavras novamente” (nosso itálico). ele entende que os parâmetros que permitem julgar as teorias científicas são mutáveis.

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