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UM ATEU EM GILWELL

“Nos meus sonhos volto sempre a
Gilwell, onde
alegre
e
feliz
eu
acampei.”

Estou há seis anos no Escotismo.
E neste tempo passei do adulto que se emocionou extremamente quando da sua promessa
para um feroz opositor deste estado de coisas em que se encontra o Movimento Escoteiro
Brasileiro.
Mas é claro que entre a ovelha e o lobo, tive vários estágios. A metamorfose, longe de
instantânea, demorou longo tempo e fez com que eu enxergasse que, afinal das contas,
estava participando de mais uma instituição composta por pessoas e, sendo assim,
interesses de todos os tipos davam o tom das coisas.
O ser humano é politico por natureza e, claro, a União dos Escoteiros do Brasil não estaria
livre de um viés político.
É claro que em minha modesta opinião, deixamos de ter “política” e passamos a ter
“politicagem” dentro de nossas fileiras, o que leva a pessoas absolutamente ineptas a ocupar
altos cargos, ditar normas, favorecer amigos, perseguir inimigos e, claro, dispor de alguns
milhões de reais anuais para gastar com ações judiciais inócuas e outros fins que não cabe
dissertar aqui.
Mas estou divagando.
Não estou aqui para falar sobre esta falida política escoteira.
Se bem que ateísmo tem estado na ordem do dia da associação escoteira brasileira e, talvez,
o que vem a seguir tenha uma natureza política.
Talvez eu pareça pretensioso, mas acredito que sou o único escotista Insígnia de Madeira
publica e declaradamente ateu. E posso garantir que não foi fácil ter estes “tacos” no
pescoço, muito mais pela tal “política escoteira” do que pelo fato de eu ser ateu.
Permitam-me falar um pouco sobre isto.
Mal havia concluído o nível preliminar e um destes “cardeais escoteiros” que andam por ai
cheios de medalhas, cargos e fama, disse com todas as letras que eu JAMAIS seria um IM.
De acordo com tal “Eminência”, eu não era enquadrado (leia-se “ovelha”), não tinha
qualificações como indivíduo (ui... esta magoou) e muito menos como profissional (parece
que algumas associações internacionais às quais sou associado, discordam.) e assim eu
estaria “amaldiçoado” a vagar por todo o sempre como um “Zé Ninguém”, nas sombras do
Movimento Escoteiro.
Fiquei tão “famoso” por me recusar a fazer parte do “rebanho” que certa vez um dirigente
me disse que passou todo o seu mandato “de olho em mim”, algo que até hoje não sei se
soou como uma honra ou uma ofensa, já que nunca imaginei que o “Alto Clero” soubesse da
minha humilde existência.

se concretizou. ¹Comte-Sponville. antipatia ou resistência. permitam-me dizer que foi um curso maravilhoso. ao fanatismo. nada ali estava de acordo com o que queriam ler. Nada poderia ser pior do que nos deixarmos encerrar num facea-face mortífero entre o fanatismo de uns – seja qual for a religião que adotem – e o niilismo dos outros. que passa a mão na cabeça de dirigentes. Também não gosto do niilismo e da apatia. Pedi socorro aos filósofos. que compactuo com perseguições e autoritarismo institucional. Pelo contrário. O “Caderno” foi elogiado pelo IM encarregado de lê-lo e criticá-lo. busquei expor minhas convicções pessoais. aos padres (quem diria). principalmente.-P. pareceu-me que estaria contida em três questões: Pode-se viver sem religião? Deus existe? O que é Espiritualidade para os ateus? Falta responder a elas. parceiro. Nada do discurso oficial de que “sem deus isto. Outros questionaram como um ateu poderia trabalhar a espiritualidade do jovem sem acreditar em um deus. condenado às sombras do Movimento Escoteiro. com certeza. esquecendo-se que espiritualidade nada tem haver com deuses e religiões. fazendo uma releitura de alguns conceitos deixados por B. minha visão particular sobre o Escotismo. Meus posicionamentos pouco ortodoxos não geraram espanto. à superstição. ninguém quer uma pessoa como eu por perto quando não tem a intenção de seguir as regras. sem confundi-los e sem cair em seus respectivos defeitos. no entanto fiz um trabalho honesto e pautado em farta pesquisa e bibliografia. Afinal eu não sou o tipo de pessoa que justifica mal feitos. A espiritualidade é importante demais para que a abandonemos aos fundamentalistas. Não sei se seria o caso de tanto. Pelo menos dentro do Movimento Escoteiro Brasileiro.Fato é que pelo menos uma parte da “maldição”. E. André. disse que meu trabalho merecia ser matéria de estudo na Região de Minas Gerais. não existe Escotismo”. sem deus aquilo. aos psicólogos mas. “destruir Tradições”. chegou a vez de responder o famoso “Caderno” e por lá me deparo com três ou quatro perguntas sobre religião que incluía ateísmo.¹ O essencial? Em se tratando de espiritualidade. um bem precioso demais para que confundamos com a indiferença ou a frouxidão. É melhor combater todos eles. “perverter a ordem”. Aliás. Apesar de jogado em um canto (mas sempre lembrando com “carinho” pelas “matildes escoteiras) insisti em completar minha formação como escotista e cheguei ao CAE – Curso Avançado Escotista – e o completei. novamente contrário a tudo que se acredita e se prega no ME brasileiro. mostrei que filosoficamente não há o menor conflito em ser ateu e escotista. A tolerância. Em resumo. Desnecessário dizer que respondi conforme minha consciência e. que me encheu de alegria e renovou meu entusiasmo pelo Escotismo. Tenho horror ao obscurantismo. à minha consciência. Mais do que “Ctrl-C – Ctrl-V”. in “O Espirito do Ateísmo” . Alguns mais afoitos (para não dizer fanáticos) acusaram-me de querer destruir a Fé. Concluído o curso avançado (em outro artigo falarei melhor sobre esta odisseia). Mas sou brasileiro e não desisto nunca. mudar as “Normas do Clube”. na melhor acepção da palavra desta palavra. aos pedagogos. aquela que dizia que eu viveria isolado.