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TOQUE DE TENTAÇÃO

A TOUCH OF TEMPTATION

Tara Pammi

NOTAS DE ESCÂNDALO
Olivia e Kimberly são gêmeas idênticas, porém o único ponto em comum entre as duas é o
rastro de escândalos que deixam por onde passam...
De volta às manchetes!
A CEO Kimberly Stanton costumava ser uma mulher calma e recatada, mas agora está seguindo
os passos escandalosos de sua irmã Olivia. Não só tornou público seu casamento com o magnata
brasileiro Diego Pereira, como também revelou sua gravidez. Mas esse romance é ameaçado por
rumores de brigas, problemas financeiros na empresa de Kim e segredos do passado vindo à tona.
Digitalização: Simone R.
Revisão: Cassia

Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Tradução: Rodrigo Peixoto
HARLEQUIN
2014
PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A.
Todos os direitos reservados.
Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
Título original: A HINT OF SCANDAL
Copyright © 2013 by Tara Pammi
Originalmente publicado em 2013 por Mills & Boon Modern Romance
Título original: A TOUCH OF TEMPTATION
Copyright © 2013 by Tara Pammi
Originalmente publicado em 2013 por Mills & Boon Modern Romance
Projeto gráfico de capa: Núcleo i designers associados
Arte- final de capa: Ô de casa
Editoração eletrônica: EDITORIARTE
Impressão: RR DONNELLEY
www.rrdonnelley.com.br
Distribuição para bancas de jornal e revistas de todo o Brasil:
FC Comercial Distribuidora S.A.
Editora HR Ltda.
Rua Argentina, 171,4° andar
São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380
Contato:
virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

CAPÍTULO 1

Kimberly Stanton olhava para retângulo branco de plástico sobre o brilhante balcão
de mármore do banheiro feminino. O terror tomava conta dela e apertava sua garganta,
quase a sufocando. Ela se sentia uma alienígena, um peixe fora d’água. E não ajudavam
em nada aqueles espelhos limpíssimos, o cheiro de lavanda e as superfícies
envidraçadas.
Os poucos minutos se estendiam como se fossem uma eternidade. O murmúrio de
pessoas do lado de fora era amplificado em ecos distorcidos.
A pulsação estava frenética. Uma dor em seu ventre a deixava sem fôlego. Kimberly
se apoiou no balcão de superfície fria e firmou as pernas, querendo seguir em frente.
A confirmação mais assustadora aparecera no objeto plástico e retangular: grávida.
Não havia sinais, cores nem símbolos. A mensagem era clara. Escrita em uma
palavra pura, simples e direta.
O seu coração veio à boca. As pernas tremiam. Kim se apoiou na parede e baixou a
cabeça, tentando respirar e não dar importância ao zumbido em seus ouvidos.
O seu único erro, um erro que ela tecnicamente cometera duas vezes, não poderia
arruinar o resto de sua vida, certo?
Mas não havia como alterar as conseqüências. Ela nunca foi, nem quis ser tão boba
ou inocente.
Girou a torneira brilhante e pousou os dedos na água corrente. O som da água
atingindo a superfície da cuba amorteceu o som do seu coração, ajudando-a a se
concentrar na respiração.
Inspire, expire. Inspire, expire...
Ela fechou a torneira e endireitou o corpo. Estava a ponto de tocar a toalha de mão
quando mirou o espelho e ficou paralisada.
Encarava o próprio reflexo, notando os círculos escuros sob os olhos, a falta de cor
no rosto, a pele pálida sobre os ossos. Gotas de água tinham atingido sua blusa,
revelando a pele escondida logo abaixo.
Ela parecia à beira de um ataque de nervos. E talvez estivesse mesmo. Mas não
havia tempo para isso. O ataque de nervos teria que esperar. Kim pressionou as pontas
dos dedos na testa, e a frieza deles atingiu sua alma.
Não podia lidar com aquilo naquele momento. Deveria priorizar... E deixar para
pensar nisso quando estivesse sozinha, quando pudesse raciocinar com toda a lógica,
quando o susto tivesse se transformado em uma desagradável dor de cabeça, nada mais.
Quando enfim se acalmasse, tomaria o controle da situação, entraria em ação e
resolveria o problema. Estava acostumada a lidar com a dor e com o choque.
Por que escolhera aquele momento para fazer o teste de gravidez, isso ela não
sabia. E o tal teste estava enfiado em sua bolsa havia mais de uma semana. Talvez
estivesse sofrendo mais um daqueles curtos-circuitos emocionais que atingiam, em cheio
a sua capacidade de raciocínio.
Aliás, recentemente esses momentos vinham sendo cada vez mais freqüentes.
Pegou o gloss na bolsa e retocou a maquiagem com os dedos trêmulos. Em
seguida, esfregou a mão sobre o terninho que vestia. O contato com a seda ajudou que
trazê-la de volta à realidade.
Precisava sair dali. Tinha de circular entre os convidados... Especialmente entre um
grupo de investidores que cortejava fazia meses, e vinham demonstrando interesse no
patrocínio de sua página na internet chamada Ajuda diária.
Kim devia fazer uma apresentação. Era preciso que falasse com eles sobre o seu
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plano financeiro para os próximos cinco anos. Tinha de convencê-los a investir em um
negócio no qual milhares de competidores surgiam a cada dia.
Queria convencê-los de que o recente escândalo envolvendo o seu nome, o de
Olivia e Alexander não tinha nada a ver com a maneira com que ela conduzia seus
negócios. Aliás, o fato de esses investidores terem aparecido era um sinal da força do
negócio que ela tentava abrir, apesar do escândalo.
Kim endireitou a roupa no corpo e seguiu em direção à saída. Mas parou no meio do
caminho.
Olhando para trás, pegou o tubo de plástico, envolveu cuidadosamente em papel e o
atirou na lixeira. Enfiou o tubo mais para o fundo, tentando vencer o nó que não se
afrouxava em sua garganta. Apoiou a mão na barriga, na altura do estômago, e respirou
fundo, esperando que a súbita dor que sentia passasse.
Saindo do banheiro, pegou um copo de água da bandeja de um garçom que passou
à sua frente, e acenou com a cabeça para um amigo de Harvard.
Ela estava feliz por ter conseguido agendar aquela conferência em um dos hotéis
mais badalados de Manhattan, mesmo tendo sido necessário vencer a desconfiança do
seu diretor diante dos altos custos.
Kim não imaginava que uma noite naquele local sem infra-estrutura, no porão de um
edifício de Nova York, encorajaria a confiança dos investidores.
Deu uma olhada em seu relógio Patek Philippe, presente do seu pai no dia da
formatura na Universidade de Harvard e pediu a todos que a acompanhassem à sala de
conferência, pois chegara o momento da sua apresentação.
Kimberly sentiu uma inexplicável relutância ao ligar o projetor. Quando terminasse a
apresentação, ficaria sozinha com seus pensamentos. A sós com coisas sobre as quais
não queria nem pensar...
E o pior aconteceu no momento em que ela estava quase terminando sua
apresentação.
Com seu raio laser apontado para uma parede, e não para o que era mostrado pelo
projetor, Kim perdeu o fio da meada... Como se alguém tivesse desligado o seu cérebro.
Teve de dar uma olhada no público, em busca de uma pista... Um movimento de
cabeça, um murmúrio ou algo parecido. Estaria imaginando coisas? Todos haviam
desaparecido em uma massa de movimentos descontínuos. Kim finalizou a apresentação
com o estômago embrulhado.
As luzes se acenderam, e ela sorriu; aliviada. Várias mãos se ergueram, querendo
fazer perguntas. Por sorte, ela sabia todas as respostas na ponta da língua, pois conhecia
muito bem os estudos de viabilidade do negócio que queria montar.
As primeiras indagações pediam mais detalhes, números mais acurados, estatísticas
e projeção de ganhos para os primeiros anos.
Nem mesmo a aberração do que acontecera minutos antes a tiraria do foco e
enevoaria a satisfação que tomara conta das suas veias. Kim estava conseguindo o que
queria, e o que alcançava era fruto do próprio trabalho, do próprio esforço.
Ela respondeu à última pergunta, desligou o projetor e as luzes do palco.
Lá estava ele. A razão daquela reviravolta em seu estômago. A causa de uma
sensação que ela mal podia explicar.
Diego Pereira. O homem que a seduzira e abandonara sem olhar para trás. O pai do
bebê que ela esperava.
Kim ficou paralisada naquele pequeno palco improvisado, sentindo um nó
incrivelmente fechado na garganta. Foi mais ou menos como no dia em que sua irmã
gêmea a arrastara até um brinquedo de queda livre em um parque de diversões.
Porém, naquele dia, Kim sabia que o seu terror chegaria ao fim quando o brinquedo
parasse de funcionar. Por isso resolveu se manter firme, com os dentes incrivelmente
trincados, enquanto Liv gritava de medo e prazer.
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Mas tudo mudara. Afinal, sempre que Diego aparecia na sua vida Kim se esquecia
de uma lição aprendida muito tempo atrás.
As mãos, instintivamente, pousaram em seu ventre, e ele a observava no meio da
multidão.
Kim não deveria olhar para ele. Não deveria encarar aqueles olhos dourados que
sempre a hipnotizavam. Não deveria olhar para aquele rosto cruel que conseguia brincar
com a sua vida.
Estava reunindo todas as suas forças para fitar adiante, concentrando-se em outros
rostos que esperavam para conversar com ela. Aquela fora a meia hora mais cansativa de
toda a sua existência.
Kim podia sentir o olhar de Diego, um olhar que a observava atentamente...
Preparado para causar ainda mais destruição.
Pelo menos não foi complicado evitá-lo, pois Diego se sentou na última fileira da
sala.
Ao descer do palco, Kim passou bem perto dele, e nesse momento sentiu o seu
cheiro, que abalou os seus nervos.
O que ele estaria fazendo ali? Aliás, que destino mais cruel: por que Diego tinha que
aparecer justo no dia em que ela confirmou que estava grávida?
Diego Pereira ficou observando, imóvel, Kim fechar a porta da sala de conferências,
com o corpo visivelmente tenso. Ela estava nervosa, e ele, claro, adorava isso.
Ele prestara atenção a sua apresentação. Todos os detalhes do que ela dissera
permaneceram em sua mente... E ele ficara impressionando, mesmo estando de mau
humor. Mas a verdade era que não deveria se surpreender. Kim era boa convencendo os
demais.
E o seu pedido por investimentos foi bem claro, inovador, fora do comum,
excepcional.
Assim como a sua empresa. Em três anos, ela conseguira transformar uma idéia
simples em algo exclusivo, lotando de informações interessantíssimas o seu portal na
internet, atraindo mais de um milhão de membros, enquanto outro milhão permanecia na
lista de espera, aguardando uma vaga.
Diego fechou os olhos e foi imediatamente assaltado pela imagem de Kim.
Vestida de maneira formal — uma calça preta que deixava suas pernas ainda mais
longas e uma blusa branca ajustada ao tronco —, ela era a pura imagem do
profissionalismo. Bem distante da mulher que gritara de prazer em seus braços um mês
antes.
Diego se esquecera do motivo que o levara a Nova York durante a apresentação
perfeita de Kim. Porém, ao perceber que ela o localizara entre o público, Diego sentiu que
atingira o seu objetivo.
Ela falseou um pouco, deu uma olhada nos ouvintes. Aquele segundo de troca de
olhares entre os dois foi suficiente para que Kimberly fosse obrigada a engolir um grito de
nervoso.
Mas não havia nada de comum na mulher com quem ele se casara. Ela era linda,
brilhante, sofisticada. A perfeição em pessoa... E os seus sentimentos eram como uma
rocha, inabaláveis.
Uma rocha que ele estava aprendendo a desvendar... E que adoraria poder afastar
para sempre de sua vida. Era hora de seguir em frente, e o nervosismo que Kimberly
demonstrara ao vê-lo não ajudava muito a pacificar o seu ácido ressentimento.
Diego seguiu em direção ao elevador e apertou o botão do décimo andar. Quando
chegou ao quarto de Kim, pegou a chave que conseguira subornando o rapaz da
recepção do hotel, chave que guardara no bolso do casaco.
Ele entrou no quarto e fechou a porta.
O aroma sutil de lírio-do-vale tomou conta das suas narinas. Diego ficou paralisado
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onde estava, visto que o tal cheiro foi como um soco em seu nariz.
Respirou fundo, aspirando aquele perfume com toda a força possível. Como um
viciado atrás de droga.
Em seguida, observou o quarto, que era luxuoso, com móveis de madeiras finas. Os
papéis de Kim estavam todos bem ordenados em cima de uma escrivaninha, o seu laptop
moderníssimo logo ao lado. A sua bolsa — prática, mas de um ótimo couro e com um
design exclusivo — se achava em cima de um sofá, perto da escrivaninha.
O quarto refletia sua ocupante: de alta classe, luxuoso, mas sem nenhum traço de
calor. Tudo muito, muito frio.
Ele girou o corpo ao ouvir o som de uma porta sendo aberta à sua direita.
Ao fechá-la, uma perplexa Kim recostou-se na madeira. Um fio de suor tomou conta
da sua testa.
Ele franziu o cenho, curioso.
Ela tremeu os lábios ao vê-lo ali, e pousou as mãos no ventre.
A sua pele ficou pálida. Os seus ombros, sempre bem colocados, se curvaram no
exato momento em que ela secou o suor da testa com a palma de uma das mãos.
Diego a olhava com cada vez maior curiosidade. Kim se livrara do terninho. Uma
blusa branca de seda com gola em V deixava à mostra seus braços bronzeados. O
enorme mostrador do seu relógio dourado marcava ainda mais a delicadeza do pulso. Um
cordão fino de ouro balançava em seu pescoço.
As sombras dos seus seios, por baixo da blusa de seda, atraíram os olhos de Diego.
Ele engoliu em seco e arregalou os olhos. A lembrança dos seios de Kim em suas
mãos o deixava sem fôlego. A sensação de tê-la tremendo de prazer entre os seus
braços, o cheiro erótico da sua pele, o sexo... Diego foi tomado por uma torrente de
imagens e sensações.
Ele não poderia lutar contra tudo o que o tomava de assalto. Caso contrário, seria
obrigado a parar de respirar.
Os olhos de Kim estavam mais arregalados do que nunca, um calor dançava
incessantemente no interior do seu corpo.
Kim era a personificação da perfeição feminina... Sempre impecavelmente vestida,
exalando sofisticação, uma classe que funcionava como uma segunda pele para ela. Mas,
naquele momento, parecia um pouco descontrolada.
Diego se aproximou, pois era impossível evitar a atração que sentia.
— Você está bem, gatinha? — perguntou Diego.
Ela passou a palma da mão pelo rosto, deixando marcas rosadas em sua pele
pálida. Dando um passo para trás, começou a arrumar a escrivaninha, já impecavelmente
arrumada. Os seus dedos tremiam ao pegar uma caneta.
Kim estava mais do que nervosa.
— Não, eu não estou bem. — Kim deu de ombros. Aliás, que ombros elegantes... E
aquela admissão de fragilidade não era normal. — Mas isso não é nenhuma surpresa,
certo?
Ele arqueou uma sobrancelha e diminuiu a distância entre os dois.
— Você costuma se sentir mal quando me vê?
Ela cravou os dedos na borda da mesa, e os nós ficaram brancos.
— Quando o vejo, eu me lembro de um comportamento estúpido que preferia ser
capaz de esquecer.
Ele sorriu.
— Você não quer se lembrar nem das partes boas, como aquelas em que gritou de
prazer?
As faces de Kim ficaram rosadas. Ela ergueu os ombros, em uma pose defensiva.
Depois se aproximou de uma poltrona de couro e se sentou.
— Por que está aqui, Diego?
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Ele a observava com uma fascinação estranha, um pouco louca, vendo-a cruzar as
pernas e depois encará-lo.
O nervosismo que o invadira minutos antes desaparecera por completo. Embora a
tivesse visto pela última vez nua na sua cama, a palidez no rosto de Kim demonstrava
que eles não fariam nada mais juntos.
Não havia censura no tom de voz de Kim, ela não parecia querer revanche pelo que
tinham feito um mês antes.
A sua compostura o atingia, em cheio, deixando bem claro qual era o seu objetivo.
Ela o guiava para que ele agisse da pior maneira possível, repleto de frustração e
desejo, ao mesmo tempo em que permanecia incrivelmente não afetada.
Ele sentou-se à mesa de centro, em frente à poltrona onde Kim se acomodara, e
esticou as pernas, aproximando-se das dela. Depois abriu uma pasta pousada na mesa,
bem ao seu lado, e disse:
— A sua proposta é brilhante.
— Eu sei disso, não preciso da sua chancela — retrucou-a, empinando o queixo.
Diego sorriu. A confiança no tom de voz de Kim não era algo fora do normal. Quando
o assunto eram os seus negócios, ela nunca deixava a peteca cair.
— É isso o que costuma responder a um provável investidor? — perguntou ele.
Kim engoliu em seco, depois fez um movimento mais elegante e arrebitou o nariz.
— Não. Essa é a minha resposta padrão para homens que tentam causar o maior
dano possível à minha carreira.
Diego franziu a testa.
— Sério? Eu alguma vez tentei fazer isso?
Ela arrancou a pasta das mãos de Diego. Nesse momento, ele sentiu o cheiro de
Kim com ainda maior intensidade, por isso respirou fundo, e os músculos do seu
abdômen se retesaram.
Droga... apenas dois minutos ao lado dela e ele já...
Diego expirou o ar dos pulmões com toda a força. Não queria se lembrar do prazer
que desfrutara ao lado dela, pois isso não seria bom.
— Você já teve direito à sua vingança, Diego. Quando desisti do nosso casamento,
há seis anos, você se recusou a assinar o divórcio, pois não queria que eu me casasse
com Alexander. Depois disso, você me seduziu e me teve... Há quatro semanas. Não foi
suficiente?
— Ver que você está retomando a sua carreira, e com grande sucesso, talvez não
esteja ajudando muito... — Ele notou algo no olhar de Kim enquanto falava.
— Eu envolvi a minha irmã e Alex em um escândalo, e Alex arriscou tudo o que tinha
nessa história.
— Mais uma vez, tudo tem a ver com eles... não com você. Pelo que estou vendo,
você não sofreu nenhum dano. Pelo jeito, nada é capaz de atingi-la.
Kim passou os dedos pelo colo, afastando os olhos de Diego. De repente, sentiu
uma tensão invadir o seu corpo.
— Você me deixou completamente humilhada e me sentindo uma idiota naquela
manhã. Gostou de saber disso?
Ele queria a sua raiva, a sua dor, e tudo isso estava presente em seu tom de voz,
com força total. Mas isso era pouco, e era tarde demais. Naquele momento, o que a
irritava era a mera presença de Diego no seu quarto.
— Não sei. — Ele se livrou do paletó que vestia.
Ela o encarava; ansiosa.
— Diga-me uma coisa: o que eu preciso dizer para que me deixe em paz? De que
maneira eu poderia me livrar da ruína que você está planejando para a minha vida?
— Eu imaginava que a sua confiança nos negócios fosse inabalável, que as suas
estratégias fossem perfeitas.
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— E são... A menos que você resolva sabotar tudo. — A voz de Kim denotava
acusação, raiva e, sobretudo, uma profunda dor. — Quer dizer que a questão é essa?
Quem quer que cruze o seu caminho, que o desaponte; você resolve arruinar? E agora
chegou a minha vez, certo?
Ela estirou o corpo, e isso fez com que os seus pequenos seios ganhassem
evidência. Diego tentou manter o olhar fixo no rosto de Kim, e tentou com todas as forças,
como se a sua própria vida dependesse disso. Talvez não a sua vida... Mas a sua saúde
mental sem dúvida.
E ele não queria voltar a perdê-la.
— Há seis anos, você estava obcecado com a idéia de vingança, e só queria uma
coisa: arruinar o seu pai. E não ligava para as pessoas que poderia ferir nesse processo.
Você pegou a pequena empresa de construção do seu pai e a transformou em um
império... Minando tudo o que havia pelo caminho. Se eu acreditasse em tudo o que a
imprensa diz... E, o conhecendo, talvez devesse acreditar... Eu deveria chamá-lo de
idiota. Aliás, você deve ser chamado de idiota com muita freqüência, pois não teve pena
de ninguém, nem mesmo do seu pai. — Kim se levantou da poltrona e começou a
caminhar pelo quarto. — Não quero ser obrigada a perder tempo tentando evitar o
inevitável. Portanto, se você está planejando fazer alguma coisa: faça! Mas saiba que eu
vou lutar. A minha empresa...
— Significa tudo para você, não é? Deveria ser um exemplo de como as mulheres
também podem ser vitoriosa nos negócios, Kim, tão insensíveis e rudes quanto qualquer
homem — disse ele, percebendo que a raiva de Kim voltava a crescer em intensidade.
Ela o encarou com um olhar impossível de ser desvendado.
— Por que não diz todas essas coisas como se fosse um elogio?
— Porque não são um elogio.
Ela cravou os dedos na janela atrás de suas costas.
— Chega Diego. Deixe as coisas como estão.
Ele se aproximou. Diego podia ver o seu reflexo nos olhos de Kim, que ergueu os
ombros e respirava profundamente.
Ela olhava para a boca de Diego, sentindo uma onda de desejo invadir suas veias.
Era impossível não se lembrar de tudo de bom que experimentara ao lado dele, do prazer
que aquele homem lhe proporcionara, dos grunhidos que deixara escapar ao seu lado.
Se ele a beijasse, ela não se afastaria. Se ele passasse os dedos em seu pescoço,
Kim não soltaria um grito. Ela ficaria em suas mãos.
E não era exatamente por isso que ele sentia tamanha atração por Kim? Quando a
tocava, quando a beijava, era como se fosse o dono daquela mulher... O seu único dono.
O dono dos seus pensamentos, das suas emoções, do seu ponto mais íntimo.
Ele transformou as mãos em punhos. Aquilo não provaria nada novo, nem para ele
nem para ela. Diego sentiu um enorme desgosto por si mesmo só de pensar nisso.
Deveria se esquecer de tudo aquilo, deveria se esquecer completamente do passado.
Aquilo nunca mais deveria voltar a acontecer.
Ele precisava recomeçar sem o fantasma das lembranças daquela mulher. Ele
precisava fazer isso e ir embora... Imediatamente.
— Eu percebi o que fiz de errado no momento em que fui embora — falou ele,
incapaz de calar o que queria dizer. Diego nunca fingiu ser um grande homem. A
verdade? Era mesmo um idiota, desde o dia do seu nascimento, e continuava sendo. —
Eu vim até aqui para corrigir o meu erro.
Kim tremia da cabeça aos pés, e um zumbido terrível tomava conta dos seus
ouvidos.
— O seu erro? — perguntou ela, praticamente sem fôlego.
O olhar dourado de Diego brilhava mais do que nunca, um sorriso tomava conta do
seu lábio superior.
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— Eu me esqueci de um pequeno detalhe. Pequeno, porém o mais importante de
todos. — Ele pegou alguns papéis no bolso do paletó e deixou tudo em cima da
escrivaninha.
As palavras escritas naqueles papéis, que eram bem familiares para Kim, se
juntavam em um borrão.
— Eu preciso que você assine os papéis do divórcio — pediu ele.
Ela lutou para não gritar qualquer coisa, e também para conseguir fazer com que os
seus pulmões voltassem a funcionar.
Aqueles papéis destruíam todas as suas defesas, convidando-a a sentir uma dor
que não sentia havia seis longos anos, convidando-a a corrigir um erro que ela mesma
cometera, convidando-a á se esquecer de um sonho inalcançável.
As palmas de suas mãos suavam quando Kim tocou os papéis.
— O pessoal que trabalha na minha casa não conseguiu encontrar os originais que
você levou para lá — disse Diego.
Kim tremia descontroladamente ao tentar ler as palavras à sua frente. A verdade era
que ela destruíra tudo após a primeira noite, quando Diego fez amor com ela.
Amor não. Sexo. Sexo por vingança. Foi isso o que aconteceu. Era incrível perceber
que uma mulher como Kim cometera o mesmo erro duas vezes.
Diego desapareceria da sua vida. Ela nunca mais enfrentaria aquelas bobagens que
engolia em nome do amor. O que ela queria fazia tanto tempo estava finalmente ao
alcance das suas mãos. No entanto, ainda assim, parecia impossível pegar a caneta, pois
não encontrava forças...
— Você poderia ter enviado pelo seu advogado — disse ela, em tom suave,
baixinho, por conta de todo o choque e de toda a confusão que tomara conta da sua
cabeça. O seu estômago dera um nó.
— Não precisava ter vindo pessoalmente.
Ele se recostou na mesa, com uma pose que era pura arrogância e incrível charme.
Mas nada poderia ser mais cruel que o sorriso estampado em sua boca. Ele queria
sangue... E ela podia sentir o cheiro de vingança no ar.
— E perder a oportunidade de me despedir de você pela última vez?
— Está dizendo que queria presenciar o desmantelamento de sua eterna sedução?
— Da minha eterna sedução? — perguntou ele, com uma expressão endurecida no
rosto, e a força de sua raiva a atingiu como um duro golpe. — Por que não assume isso?
Você nunca assume nada! Nunca houve sedução alguma! — E aproximou-se dela antes
que Kim pudesse dizer qualquer coisa. — Após seis anos, nós nos vemos e acabamos
numa cama. O que será que isso revela sobre nós? E agora, olhe só... Aqui estamos nós,
pressionados contra uma parede.
O estômago de Kim dava voltas sem parar. Os seus pelos estavam completamente
eriçados.
Tudo o que vinha à sua cabeça era sexo. Diego estava tão perto... E ela só pensava
em sexo, em um sexo quente, fora de controle, enlouquecedor, de tirar o fôlego, um sexo
que havia sido o pior erro de toda a sua vida.
Morreria antes de admitir tudo isso, mas era a mais absoluta verdade.
Kim pegou o papel e assinou, com os dedos trêmulos.
Em seguida, empinou o queixo e o encarou, reunindo tudo o que lhe restava das
piores emoções possíveis e traduzindo-as em palavras:
— O que existe entre nós não é nada mais do que o famoso resultado de estímulo e
reação, como o que acontece com o cachorro de Pavlov. Não importa quantos anos
passem, quando eu o vejo, só penso em sexo. Talvez por você ter sido o meu primeiro...
Talvez por você ser tão bom nessa tarefa.
Os papéis caíram no chão, de repente.
Kim percebeu que Diego estava furioso. E ele a pressionou contra a parede,
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demonstrando estar perdendo espaço para o desejo que o consumia.
No entanto, Kim o encarou com o olhar mais frio do mundo. Por outro lado, o vazio
que sentia no interior do seu corpo era cada vez mais pronunciado.
Ele curvou a boca em um sorriso cínico e disse:
— Claro. Eu me esqueci dessa história. E dos meses que você passou ao meu lado.
Mas acho que esse tempo não foi mais que um exercício de louca rebeldia de uma rica
princesinha, certo?
Ela experimentou um estranho aperto no peito, e o pior era que não poderia lutar
contra tal sensação. Um nó muito apertado tomava conta da sua garganta. Ela ficou
muda.
E odiou Diego por estar arruinando os momentos mais incríveis de sua vida,
reduzindo-os a nada. E odiou a si mesma por, seis anos atrás, ter amado esse mesmo
homem... E odiou ainda mais o fato de ter perdido a cabeça por ele há meras quatro
semanas.
Para uma pessoa com o lado emocional sempre tão controlado, Kim não entendia
como fora capaz de se deixar guiar daquela maneira, afastando completamente a razão
de sua mente.
Kim mergulhou os dedos no bolso do terninho que usava, com o coração saltando
no peito.
— Quer saber de uma coisa? Foi bom você ter vindo. Tenho notícias fresquinhas
para lhe dar.

CAPÍTULO 2

— Você tem notícias para mim? — Ele franziu a testa, com as mãos fechadas em
cima das dela. — O que foi princesa? Arrumou um novo homem, agora que a sua irmã
roubou o seu último namorado? E você acha que eu ligo para isso?
— Estou grávida.
Diego não se moveu. Não piscou. Nem um único músculo se moveu em seu rosto.
Kim foi tomada por uma onda de satisfação, uma onda quente. Ela queria abalar
aquela arrogância toda. Precisava fazer isso. E queria fazer com que ele, de alguma
maneira, se sentisse culpado.
No entanto, ela estava fraca, muito fraca, e só permanecia de pé porque Diego
segurava sua mão com força.
Deus, ela não deveria sair ilesa dessa história? E o pior era que ainda nem tivera
tempo de pensar no que aquela gravidez significava para ela, no que implicava na sua
vida...
Pior ainda era perceber que, na sua cabeça, o único ponto positivo daquela gravidez
era a chance de finalmente chocar Diego Pereira.
Após a forma como ele a tratara, Kim não lhe devia mais nada. No entanto, fazer
com que ele se sentisse mal exigiria que ela pagasse um preço mais alto do que estava
disposta.
Ele lhe oferecera a melhor oportunidade para que ela contasse toda a verdade, para
resolver aquele assunto. E Kim imaginava que ele não daria à mínima. Diego queria
vingança, e conseguiria — com uma dose muito baixa de escrúpulos — e os papéis do
divórcio estavam prontos. Ele poderia seguir em frente com a sua vida.
Mas o olhar de Diego era matador, e ele a encarava. Kim ficou sem saber o que
fazer diante de tamanho silêncio.
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A arrogância sumira do rosto de Diego, sendo substituída por uma calma resoluta.
Ela, por sua vez, tremia por inteiro.
— Esse filho é meu?
Ele voltou a sentir um enorme nó na garganta. Precisava se controlar. Diego era um
mestre lendo os seus pensamentos. Ele faria exatamente o oposto do que ela queria. E
complicaria ao máximo a vida de Kim.
Desse modo, precisava manter a calma.
— Por que você acha que estou lhe contando esta ótima novidade?
— Você dormiu comigo poucas horas após ter voltado a me ver — disse ele, com os
olhos repletos de fúria. — E o homem com o qual se casaria caiu nos braços da sua irmã
gêmea, como um cachorrinho...
Ela tremia quando Diego finalmente se afastou. Era como se ele não fosse capaz de
respirar o mesmo ar que ela.
— Mas você voltou para ele assim que eu a deixei. No entanto, descobriu que ele a
estava enganando, assim como você o enganava. Portanto, eu repito a pergunta: esse
bebê é meu?
— Isso não é verdade. Eu e Alex... — Ela fechou a boca, engolindo o resto da frase
que pretendia dizer, recostando-se no sofá de couro, tremendo dos pés à cabeça.
A culpa tomava conta do seu ventre. A imprensa, o seu pai... O mundo inteiro
crucificara Liv, mas a verdade era que ela, Kim, era a única responsável por tudo aquilo.
Porém, Diego sabia onde ela estivera e o que fazia. E claro que Diego pensou que
Kim voltara para Alex, que nada mudara em sua vida.
Em resumo, Diego concluiu que ela saltara em sua cama, vinda da cama de Alex, e
que depois voltara imediatamente à cama do outro.
Mas isso era uma mentira, uma mentira total.
Ainda antes que Diego pudesse verbalizar suas reais intenções, Kim terminara tudo
com Alexander. Mas Diego não sabia disso.
Ela respirou fundo e sentiu o cheiro de Diego. Um cheiro misterioso, poderoso, que a
fez arregalar os olhos.
Ele ergueu uma das sobrancelhas, observando-a com crescente curiosidade.
— A minha pergunta é simples, gatinha, e infelizmente você é a única mulher capaz
de respondê-la.
O seu tom de voz era neutro, impenetrável, com uma leve nuança de sarcasmo, mas
nenhum toque de acusação. Nada que ela pudesse aproveitar para alimentar sua fúria e
aplacar seu desespero.
— Eu e Alex... — murmurou Kim, sentindo um arrepio na pele. — Nós...
— Tudo o que eu quero... — ele a interrompeu, falando por entre os dentes —... É a
sua palavra, e não um resumo da sua vida sexual.
Ela foi tomada por uma total mortificação. Precisava se acalmar, urgentemente.
Tinha de parar de dizer coisas que ele não precisava saber.
Para que insistir na sua inexistente vida sexual? Afinal de contas, era isso o que ela
possuía: uma vida sexual praticamente nula, além de um aviso do quão equivocadamente
se comportara... E agora Alex e Liv, e o seu pai... o mundo inteiro descobriria a verdade.
Kim voltou a falar; desta vez demonstrando grande ferocidade, e respondendo à
pergunta de Diego:
— Claro que é seu.
Ele trincou a mandíbula, depois fez que sim com a cabeça. A sua fácil aceitação, a
sua total falta de reação, fez com que ela sentisse um arrepio na espinha. Kim esperava
uma reação enlouquecida, furiosa, e se preparou para o ataque envolvendo o corpo com
os próprios braços.
Por que motivo ele confiara nas suas palavras com tanta facilidade? Diego tinha
todo o direito de exigir um teste de paternidade, tinha todo o direito de questionar o que
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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ela dizia. E era isso o que ela queria dele. Era isso o que esperava dele.
No entanto, a calma de Diego Pereira, uma calma que ela costumava ter, á estava
deixando mais nervosa do que nunca. Kim começava a se desesperar. Soltara a grande
novidade com fúria em sua voz, mas ele nem sequer piscou.
Ela gargalhou, e o som de sua gargalhada beirava a histeria.
— O quê? Você não vai me fazer nenhuma acusação? Não exigirá provas? Não irá
querer um teste de DNA? Não vai dizer nada, Diego?
Ele se afastou, recostou-se na parede e cerrou as pálpebras. Em seguida, passou
uma das mãos pelo rosto.
Diego estava tenso, muito tenso, e seu nervosismo tomava conta do quarto,
invadindo-o em ondas invisíveis, chegando até ela. Os olhos de Diego se arregalaram, de
repente, e ela notou.
— Os testes de DNA são para mulheres que engravidam de homens ricos em busca
de uma vida melhor. O meu pai sempre acusou minha mãe de ter feito isso, desde o dia
em que ela apareceu na porta da casa dele, carregando-me nos braços e pedindo ajuda.
As palavras de Diego estavam carregadas de emoção. Mas ele mantinha a
compostura corporal, que, aliás, não casava bem com as suas palavras.
— No entanto, no nosso caso, não acredito que você esteja buscando esse tipo de
coisa.
Kim escondeu o rosto com as mãos. Se pudesse, ela voltaria no tempo e não lhe
diria nada.
Outro nó se formou em sua garganta; falar qualquer coisa seria complicado demais.
Ele poderia ter transformado aquela história no pior pesadelo da vida de Kim... Mas não
fizera nada disso.
O pior era que ela deveria ser grata a ele por isso... E ser grata, nessa situação,
enfraquecia Kim, transformando-a em uma mulher inútil, sem nenhuma capacidade de
ação.
Ela não poderia permitir uma coisa dessas. Não poderia se esquecer do motivo que
a levara àquela situação, não poderia se esquecer de que ele, um dia, orquestrara tudo
aquilo.
E pensar que ela sucumbira tão rápida ao calor do corpo de Diego Pereira...
— Para uma mulher que mantém uma aura de confiança inabalável, como você,
esse tipo de hesitação é divertida. Pena que tem uma criança envolvida na história. Você
tem certeza de quem é o pai desse bebê? — perguntou Diego em um murmúrio, com um
tom de profunda tristeza em sua voz.
— Não resta a menor dúvida — respondeu ela.
Pensando com a razão, Kim sabia que deveria contar tudo a Diego. Nunca dormira
com Alexander. Mas Diego provavelmente não acreditaria nessa história.
— Agora que já resolvemos esse mistério, o que quer de mim?
Ela demorou alguns instantes para perceber que ele esperava uma resposta. E
sentiu um frio na espinha.
— Eu... Não quero nada de você.
— Claro que não. — O tom de voz de Diego era duro, cortante, e o seu olhar a
devorava. Algo tomara conta daquela calma. — Sendo assim, por que me contou essa
história?
— Honestamente, não sei... — Kim se perguntava se estava destinada a viver
cometendo erros quando o assunto era Diego Pereira. — Você estava aqui e...
— É bom saber que certas coisas são capazes de afetá-la — disse ele, com fogo
saindo dos olhos.
Ela abriu a boca, querendo argumentar, mas tornou a fechá-la.
— E se eu não tivesse aparecido por aqui? Você teria me ligado para contar a
novidade?
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— Não preciso responder a essa pergunta, pois você está aqui. E chega de fingir
que isso significa algo para você, Diego. Estava pronto para sumir da minha vida, não é?
E eu permiti, assinando esses papéis.
— A sua arrogância, achando que me conhece, é inacreditável, minha querida. Será
que não lhe ensinei nada há quatro semanas?
As palavras de Diego não saíam de sua cabeça, embaralhando-se em sua mente,
gerando imagens e lembranças que ela preferia esquecer. Mas Kim se recusava a
entregar os pontos.
— Você assume riscos. As suas táticas nos negócios beiram o ilegal. A última coisa
que você precisa na sua vida é de um bebê. Se eu escondesse essa história de você,
tudo o que teria iria ser mais uma razão para me odiar.
— Por um momento, imaginei que você não estivesse fazendo isso por razões
puramente egoístas, mas pelo bem do bebê que carrega no ventre...
Ela trincou os dentes, os seus piores medos ganhando vida com as palavras duras
de Diego.
Os seus temores se intensificavam Ele deveria ter pensando nessa
possibilidade. Ela deveria ter pensado no bem do seu filho.
— Tudo o que quero é o divórcio e distância de você.
O sorriso no rosto de Diego desapareceu e o seu rosto foi tomado por sombras. Ele
pegou os papéis que ela assinara alguns minutos antes e amassou-os entre as palmas
das mãos.
Os movimentos calmos de Diego a irritavam ainda mais.
— O que está pensando em fazer? Acha que vamos nos beijar e esquecer tudo o
que passou? Você está achando que vamos formar uma família feliz?
Ele se aproximou, tanto que Kim podia ver os pontos dourados em seus olhos, sentir
o cheiro misterioso que a sua pele exalava.
— Eu não vou virar as costas ao meu filho.
O ventre de Kim se contorceu.
— Você está louco! Não foi isso o que planejei para a minha vida.
— Tenho certeza de que você já fez uma lista de requerimentos para produzir o
melhor filho possível, na hora mais indicada, com a pessoa perfeita — disse ele,
demonstrando uma pitada de satisfação em seu tom de voz —, mas você perdeu o
controle, minha querida.
— Eu sei. No entanto, posso controlar a situação na qual estou envolvida. Ser mãe
já será duro o suficiente. Lidar com a sua presença, o tempo todo, será muito pior.
Ela sentia uma raiva perversa tomando conta do seu corpo. Aliás, além de perversa
era irracional e completamente inútil. Diego poderia deixar tudo àquilo de lado. Kim
precisava que ele sumisse da sua vida, pois tinha planos para o futuro. Ela deveria amar o
seu filho, sim, deveria amar o que carregava no ventre...
— Você não queria ter esse bebê?
— Claro que não! Aliás, eu iria mais longe e diria que isso foi à pior coisa que
aconteceu na minha vida! — gritou ela, e as palavras saíam como uma torrente de seus
lábios trêmulos.
Diego ficou em choque, mas Kim não tinha energia para pensar em nada, nem
mesmo em voltar no tempo e evitar ter dito tudo aquilo.
— Este bebê será uma lembrança viva do maior erro da minha existência. Você
conseguiu o que queria Diego. Você fez o pior possível: mudou a minha vida. E agora não
posso controlar nada. No entanto, por favor, deixe que eu siga em frente com isso, e
sozinha.
Diego expirou o ar dos pulmões entre os dentes e bateu no saco de areia. O seu
gancho de direita vinha perdendo a força nos últimos tempos. O problema no bíceps
direito cobrava o seu preço.
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Era o mesmo problema, aliás, que o afastara das lucrativas brigas de rua,
obrigando-o a correr atrás do pai em busca de ajuda, aos 16 anos, pois era cada vez mais
complicado pagar o tratamento de saúde da sua mãe.
Mas Diego não pararia de bater naquele saco, mesmo sentindo muita dor no braço,
pois precisava continuar lançando socos para aliviar o estresse.
O relógio dependurado na parede oposta tocou, avisando-o de que ele estava se
exercitando havia duas horas.
O suor escorria de sua testa, e ele o limpou com o braço. A sua camiseta estava
empapada, e os músculos dos braços pareciam pedras. A adrenalina tomara conta do seu
corpo, e ele começava a sentir um zumbido nos ouvidos. Seria culpa da circulação de
sangue. Mas Diego não parou.
Nem mesmo tentando chegar à agonia física ele conseguia se esquecer das
palavras de Kim.
Estímulo e reação!
Deus, aquela mulher o reduzira ao menor denominador possível em sua escala de
lógica.
Ninguém o atingia tanto quanto ela. E Kim carregava o seu filho no ventre.
O ressentimento que o atingia fez com que Diego sentisse uma forte dor em todos
os músculos.
E desferiu um novo soco.
Claro que este filho é seu.
Mais um novo soco.
Isto é a pior coisa que já aconteceu na minha vida.
E deu um novo soco.
Este bebê será um lembrete vivo do pior erro que cometi.
E outro novo soco.
Diego sentiu uma pontada de náusea, e tal sensação ameaçava aumentar em
intensidade. A rejeição que sofrera por parte do pai o acompanhava durante toda a vida.
Diego preferia morrer a que fazer o mesmo com o próprio filho.
Ele socou uma última vez e descalçou as luvas. Depois pegou uma garrafa de água,
tomou um bom gole e jogou o resto sobre a cabeça. A água chegou aos seus olhos, mas
o frescor do líquido não foi o bastante para acalmar o turbilhão que tomara conta de sua
mente.
Pois Kim estava certa... Ele não queria ser pai... Não nascera para ser pai.
Diego xingou alto e resolveu dar mais um soco, pois a raiva e a vergonha o atingiam
em cheio. Ondas de dor invadiam suas veias, os seus pelos estavam eriçados.
Ele não era um homem bom, mas sim um homem movido pelo ódio, pelo ciúme.
Não possuía nenhuma qualidade que deveria oferecer como herança a um filho.
Desde cedo, Diego decidira fazer o seu caminho na vida pelo lado mais duro,
lançando mão das mesmas estratégias utilizadas pelo pai. Os seus pelos se eriçavam
cada vez mais ao pensar nisso tudo. No entanto, ele sabia exatamente o que fizera para
chegar a tal situação.
E ao mesmo tempo também sabia o que deveria fazer naquele momento: queria
roubar o seu filho de Kim e desaparecer. Tudo o que Diego Pereira desejava era a
custódia completa da criança.
Mas não poderia arriscar tanto, não poderia mergulhar tão fundo outra vez.
Durante o seu caminho na vida, ele permitiu que o ódio que sentia do pai destruísse
a vida do seu irmão. Se não fosse pela obsessão cega de Diego, Eduardo...
Ele tremeu e os seus músculos ficaram em alerta.
Diego não poderia arriscar a vida do próprio filho. Se por conta da obsessão que
sentia por Kim ele arrasasse o coração do filho, não conseguiria viver em paz. Não
poderia permitir que a raiva o guiasse, levando-o a cometer um novo erro... Isso não, de
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jeito nenhum! Muito menos agora, pois um novo erro poderia atingir em cheio o seu filho.
Só de pensar em bancar a família feliz ao lado de Kim... Só de pensar em vê-la
todos os dias... Ele ficava altamente revoltado.
Mas nem assim poderia evitar sua responsabilidade. Não poderia sumir e
transformar-se em um estranho na vida do próprio filho.
À sua frente, surgia uma oportunidade de alterar o ciclo de negação e abuso que ele
o irmão sofreram
Diego seria capaz de mover montanhas para garantir que o filho teria tudo o que ele
nunca teve: pai e mãe amorosos e uma vida estável. Mesmo que isso significasse atar
sua existência à mulher que trouxera à tona os seus piores medos.

CAPÍTULO 3

Kim escondeu a cabeça com o travesseiro de cetim e grunhiu quando o celular
tocou. Só conseguira dormir às três da manhã, após ter revisto os pontos principais
do Daily Help e escrito o texto que publicava todas as terças-feiras.
Olhou para o relógio digital na mesa de cabeceira. Sete da manhã. Quando o
telefone tocou pela terceira vez, ela ligou o Bluetooth.
— Kim, você está bem?
Era Liv.
A tensão que sentia não foi aliviada ao ouvir a voz da irmã. Fazia duas semanas que
não retornava suas chamadas.
Sentou-se na cama e recostou-se na cabeceira de ferro.
— Eu estou bem. E com você e Alex?
— Tudo em ordem, eu só... — A hesitação incomum na voz de Liv deixou Kim
intrigada. — Meu Deus, Kim... Isso é verdade? Por que não me contou nada?
Kim engoliu em seco, com uma pontada de medo no peito.
— Sobre o que está falando?
— Você conseguiu alcançar as primeiras páginas dos jornais. E não com
escândalos, como eu. Você atraiu até as emissoras de economia da televisão.
— O quê?
— Todo mundo está afirmando que você está grávida. É verdade?
Diego...
Kim fechou os olhos e respirou fundo. Diego começava a jogar sujo.
— Sim
— E quando planejava me contar? Você... Está gostando dessa história? Diego já
sabe? O que planeja fazer, Kim?
Todas as perguntas de sua irmã eram válidas, mas Kim evitou respondê-las a fundo.
— Estou perfeitamente bem, Liv. Apenas não tenho tempo para processar essa
notícia agora. Quando essa história da minha empresa se assentar... Vou marcar um
horário com Mommy Mary.
— Quem é Mommy Mary?
— A especialista em assuntos maternais da minha equipe.
— Especialista em quê?
— Em assuntos que devo aprender, já que serei mãe. Nós não tivemos um bom
exemplo em casa, certo?
— Até quando você pretendia esconder essa história?
O que ela deveria fazer? Concentrar-se no nó em seu ventre sempre que pensava
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que havia um ser crescendo ali dentro?
— Não posso perder essa oportunidade de alavancar minha empresa. Não posso
perder o foco neste momento.
— Avise-me se precisar de alguma coisa, certo?
Kim apertou a mão com força quando sua irmã desligou. O amor de Liv não entendia
de condições nem de julgamentos.
Mas Kim... Ela sempre fora a mais forte, sempre fora a responsável por proteger a
sua mãe, e depois Liv, da fúria paterna.
Não poderia confiar os seus medos a qualquer um, muito menos à sua irmã gêmea,
a quem amava e de quem tentava cuidar a todo custo.
Por outro lado, Kim treinara a si mesma para evitar as emoções, para não ser
atingida por elas.
E foi obrigada a fazer isso quando sua irmã descobriu os planos de sua mãe.
O pior era que ela alcançara seu objetivo — assim como alcançava tudo o que
queria na vida e não sentia nada pelo filho que carregava no ventre.
Mesmo passada uma semana desde o momento em que confirmara a gravidez, Kim
se desesperava só de pensar no assunto. Gastara uma fortuna comprando vários testes,
sempre na esperança de ter sido vítima de um falso positivo. E toda vez que a palavra
“grávida” surgia no leitor do teste, sentia uma dor mais profunda no âmago.
Será que o problema seria a identidade do pai do seu bebê? Será que a raiva que
sentia de Diego atrapalhava tudo? Será que, por trás dessa raiva, continuava não
sentindo nada pelo filho?
Sem se levantar da cama, Kim pegou os óculos de leitura e ligou o iPad. O seu
coração batia bem alto. Ela entrou em um dos seus sites favoritos, onde poderia
conseguir notícias de qualidade e confiáveis.
O segredo mais bem guardado de Kimberly Stanton, presidente do Daily Help, era a
sua gravidez — será o fruto de um casamento secreto? Alguém arriscaria dizer qual é a
identidade do pai do seu filho?
Era a primeira vez que ela não chegava às páginas dos jornais por mérito de seu
trabalho.
O artigo era perfeito para leitores interessados em fofocas. Porém, de repente, ela
mesma começou a desejar alguma especulação. De certa maneira, seria melhor que as
pessoas imaginassem coisas, não que tentassem investigar a sua vida pessoal.
O artigo falava também sobre como uma mulher — sobretudo grávida, com sua vida
pessoal devastada — conseguiria expandir suas empresas e ter sucesso nessa tarefa.
Os investidores deveriam se preocupar ao empregar o seu dinheiro numa empresa
cuja chefe talvez não esteja com a cabeça completamente voltada para os negócios?
Uma mulher envolvida em dois escândalos? Poderia essa gravidez significar a morte de
uma importante inovação do Daily Help, que culminaria na brilhante carreira de sua
presidente, Kimberly Stanton?
Ela deixou o iPad de lado e se levantou da cama, com a mente em pânico. Aquele
texto parecia ter sido escrito por ela, já que deixavam em evidência todos os seus medos
e todas as suas inseguranças.
Kim passara muito tempo concentrando a vida no desenvolvimento do seu negócio,
sempre em busca de maior êxito financeiro. E nunca deixou de sonhar... Nunca teve um
momento de dúvida quanto à sua carreira.
Abriu o calendário do celular. O seu dia seria cheio de compromissos, incluindo
encontros com cinco investidores diferentes. No final do dia, pretendia começar a pôr em
prática os seus planos para a expansão da empresa.
Portanto, não poderia ficar pensando em outras coisas. Não iria gastar suas
energias mentais especulando questões levantadas por aquele artigo tendencioso.
Lidaria com Diego mais tarde.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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Ninguém mais sabia dessa história. Só ele poderia ter vazado a novidade à
imprensa.
Aliás, não era isso o que ele pretendia fazer o tempo todo? Kim seria uma boba se
acreditasse, por um mísero momento que fosse; que ele estava atrás de outra coisa além
de arruiná-la.
Kim desligou sua ligação pelo Spype e se recostou na poltrona. O seu dia só piorara
desde a ligação de Liv. Aquela fora sua quinta reunião falida com investidores. Ninguém
estava disposto a emprestar dinheiro à sua empresa.
Recostou a cabeça na poltrona e coçou a nuca. O seu projeto para a empresa, a
vontade de trabalhar da sua equipe, tudo poderia ir por água abaixo.
Precisava lidar com uma quantidade enorme de afazeres, e a pilha só aumentava.
Kim foi tomada por uma sensação de pânico, e pela dificuldade para respirar. Assim,
respirou fundo, enchendo o pulmão de ar.
Inspire, expire... Inspire, expire...
Ela repetiu o processo por alguns minutos, passando as mãos pelas placas
comemorativas expostas em sua mesa, pois elas poderiam lhe dar forças para lutar
contra o pânico.
Fique firme, Kim. Tem muita gente contando com você.
Ela dissera a mesma coisa aos 17 anos, quando sua mãe, certa noite, preparou a
bagagem e foi embora. O pior foi encontrar o bilhete que ela escrevera para o marido. As
palavras da mãe deixaram Kim sem fôlego.
Mas ela sobrevivera àquela noite. E poderia sobreviver a qualquer coisa.
Teria de fazer como antes... Para o bem de sua empresa e para o seu próprio bem.
Se perdesse a companhia, ficaria sem nada. Não seria ninguém sem seu negócio.
Pegou o celular e ligou para Alex. Sempre confiara nele, que sempre demonstrou ter
ótimas idéias para os negócios. No entanto, passara um mês evitando-o.
Mas precisava de conselhos objetivos e desinteressados, e Alex era a única pessoa
capaz de lhe oferecer esse tipo de coisa. Kim lançaria mão de todas as suas cartas antes
de desistir do sonho da expansão de sua empresa.
Uma fúria gélida tomava conta das veias de Diego ao observar a imagem ao vivo em
seu tablet: repórteres acampados, com câmeras e microfones, na porta do prédio de Kim,
em Manhattan.
Ele abriu o vidro que o separava da parte dianteira do carro e gritou o endereço ao
motorista.
O seu olhar voltou à tela, e Diego franziu a testa ao ver uma pessoa se aproximando
dos portões. Era o ex de Kim, seu atual cunhado, um homem alto, perfeitamente
reconhecível, e Diego já imaginava o que diriam os profissionais da imprensa.
A notícia da gravidez de Kim alcançara o topo da lista de escândalos do mês, e
quando descobrissem quem era aquele homem que entrava na casa dela... A conclusão
seria imediata.
Aquela criança ainda não nascida — o filho dele — seria confundida com o filho de
Alexander King.
E não foi isso o que Diego planejou quando deixou que o chefe da sua segurança
vazasse a notícia à imprensa.
Ficou olhando para a imagem de Alexander King, que entrava no prédio sem
pestanejar, mesmo com um bando de repórteres ao seu redor. Diego sentiu um ácido
acesso de ciúme. Depois desligou o tablet, fechou os olhos e se lembrou da imagem do
frágil corpo de Eduardo.
Isso deveria ser suficiente para evitar os maus pensamentos e enfiar alguma razão
em sua mente.
Ele já fizera o mesmo antes: deixara que sua obsessão obliterasse a razão. E já se
esquecera de que Eduardo precisava de sua ajuda...
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Paixão Especial nº 03.2

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Não poderia fazer o mesmo de novo. Essa história não seria guiada por Kim, mas
pelo bem do filho que eles teriam, juntos.
Kim tomou um gole de água assim que Alex desligou o telefone. Porém, após ter
combinado seu encontro, ela achou que teria sido melhor esperar pelo fim de semana.
Fora uma idiota imaginando que a imprensa não registraria a visita de Alex ao seu
apartamento... Em plena noite de sexta-feira.
Nunca sentira tanta vergonha de si mesma.
Kim resolveu dar uma olhada nas estatísticas enviadas pela pessoa que controlava
os acessos à sua página na internet.
Baseado nos números dos últimos quatro meses e em sua brilhante proposta de
expansão, investir na sua empresa soaria como uma proposta de ouro a muitos
investidores... Se não fosse o escândalo pessoal no qual ela se envolvera.
Os números diários, a quantidade de perguntas que chegaram pelo portal e pela
página, foram muito acima do normal.
Mas ela sabia — e ficava claro com as estatísticas que tinha à sua frente — que tal
alteração se devia mais que tudo às perguntas sobre sua gravidez. Todos queriam saber
também se ela se casaria. E o pior de tudo: se já estava casada com o pai do seu filho.
Precisava lançar um comunicado o mais rápido possível.
Enfiando o celular no bolso, Alex olhou para ela.
— Sinto muito, Kim. Você sabe que confio nas possibilidades do seu negócio.
Porém, por mais brilhante que sejam os seus planos, eu não investiria nada neste
momento.
O estômago dela dava voltas. Aquilo era exatamente o que esperava: o pior
prognóstico possível.
Ela piscou, pois não queria chorar, e Alex envolveu um dos braços em seus ombros.
— Com tudo tão confuso lá fora, por mais que eu odeie admitir isso, minha
associação com a sua empresa só pioraria sua imagem e credibilidade.
Kim fez que sim com a cabeça.
— Eu sei. E lamento por envolver você e Liv nessa história... Sinto muito por tudo.
Se pudesse voltar no tempo, faria tudo de outra maneira. — Kim sorriu e endireitou o
corpo. — Exceto a parte em que deixei você ir embora com Liv.
Ele sorriu, e o desespero de Kim foi brevemente aplacado por esse momento.
— Não precisa enfrentar tudo isso sozinha, Kim. Você poderia ficar...
— Ela não está sozinha nessa história. Aliás, se eu fosse você, pensaria duas vezes
antes de tocar a pele da minha esposa outra vez.
Kim girou o rosto tão rápido que os músculos do pescoço doeram.
Diego estava parado à soleira, encarando-os tão firme que a boca de Kim ficou
seca.
Ao seu lado, Alex se manteve o mais calmo possível ao girar nos calcanhares. Assim
como Kim, ele sabia quem estava por trás do vazamento da notícia à imprensa. Porém,
sendo um cavalheiro, não lhe fizera nenhuma pergunta pessoal.
Alex era o completo oposto do homem que, tomado de fúria, esperava à porta de
Kim.
Ela ficou mortificada, com o rosto cada vez mais vermelho, ao encarar os frios olhos
dourados.
— Não faça isso, Diego. Não me obrigue a me arrepender do dia em que o conheci.
Ele deu de ombros.
— Você ainda não se arrependeu? Aliás, não vai apresentar seu marido ao seu ex,
minha querida?
Alex se afastou de Kim, aproximando-se de Diego antes que ela pudesse piscar. Kim
ficou sem fôlego. Os dois se encaravam.
— Pode me ligar quando quiser Kim, quando precisar de qualquer tipo de ajuda. —
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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E Alex foi embora, fechando a porta.
O silêncio tomou conta do ambiente. Kim foi até a cozinha, de onde continuava
vendo Diego, e pegou uma garrafa de suco de laranja na geladeira. Serviu o suco em um
copo.
Diego se recostou numa pilastra. Ela levou o copo à boca e tomou um gole. Ele
continuava observando-a, dos pés à cabeça. Sempre que olhava para ela, Kim se sentia a
um passo da escravidão.
— O que foi isso? Uma lição magistral sobre o comportamento dos homens das
cavernas?
— Não entendo o seu relacionamento com esse sujeito.
— Não mude de assunto. Você me arrastaria pelo cabelo se ele não fosse embora?
Diego sorriu, dizendo:
— Nunca fiz esse tipo de coisa... Mas se alguém seria capaz de me levar a fazê-lo,
esse alguém é você. Aliás, não tenho vergonha de a minha vida ter começado nas ruas
do Rio de Janeiro. Não tenho vergonha de ter usado os meus punhos para sobreviver.
— Isso não tem nada a ver com o seu passado, mas sim com a maneira como você
está agindo agora.
— É verdade... A culpa é minha. Eu deveria ter imaginado que você pediria ajuda a
ele.
Não era isso o que ela esperava ouvir.
Kim imaginava que Diego a chamaria de vários nomes diferentes, que especularia
sobre a paternidade do bebê... Mas isso? Não.
A confiança de Diego em Kim estava cada vez mais abalada. Será que era isso o
que ele queria?
Ela foi tomada pelas dúvidas, pela possibilidade real de ver sua empresa afundar, e
as suas veias foram tomadas por uma onda gélida.
— Como você parece ter transformado sua vida em uma missão para me destruir, fui
obrigada a pedir ajuda ao homem que enganei para dormir com você. Satisfeito?
Diego ficou observando Kim cuidadosamente. Uma blusa de manga comprida,
colada ao corpo, revelava seu ventre plano. O jeans apertado delineava suas longas
pernas. Seu cabelo curto estava preso, deixando apenas alguns fios caídos sobre o rosto.
Tudo lhe dizia que o bebê que ela esperava era dele. Kim não teria nada a ganhar
mentindo.
Aliás, ela teria tudo a perder, isso sim.
O problema era que ele não entendia como. Ela fora quase literalmente arrastada do
altar por Diego, deixando para trás um homem que, naquele momento,
estava aparentemente feliz ao lado de sua irmã gêmea. Mas o estranho era que ela
continuava mantendo algum tipo de relacionamento com Alexander.
Será que continuava apaixonada por ele? Por que pedira ajuda a Alexander?
— Você tem uma semana, minha gatinha. Recuso-me a ser ignorado. E não
permitirei que você coloque sua empresa à frente dos interesses do nosso bebê e...
Kim deixou o copo na mesa com força, sua postura indicando certa ansiedade.
— Este bebê vai ficar aqui durante nove meses. Acha que vou ficar sentada, sem
fazer nada, esse tempo todo? Não abrirei mão de algo que passei a vida construindo, só
porque estou grávida.
Mais uma vez ela se recusava completamente a aceitar que as coisas teriam de
mudar.
— Espero que você diminua o ritmo. Espero que você retorne minhas ligações.
Espero que pare de trabalhar 16 horas por dia.
Ela parecia cansada e estressada. A culpa suavizou as palavras de Diego:
— Você parece morta de cansaço.
— E de quem será a culpa? Estou tentando minimizar o dano que você causou...
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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Com seus truques sujos.
— Você não tem a menor idéia do quanto posso ser sujo quando quero. Eu não
pretendia aproximá-la dele, sabia? Mas me esqueci de que você é uma mulher muito
independente.
— Cuidado, Diego. Você está soando quase ciumento. E creio que sabe que não
devo nada a ninguém.
— Lembre-se de que sou um homem muito pouco civilizado. Eu costumava brigar
nas ruas do Brasil. Claro que estou com ciúme.
Kim agarrou firme um pano de prato, sentindo um calor subindo pela nuca.
Lógico que ela lembrava. Lembrava-se de cada momento do seu curto casamento
com Diego Pereira, e com total clareza.
— Mas por quê? Todo mundo sabe que Alex adora a minha irmã.
Ele se aproximou de Kim, franzindo a testa.
— E isso não a deixa chateada?
— Como?
— O homem com o qual você esteve a ponto de se casar acabou se casando com a
sua irmã gêmea.
— Se algo deu certo nessa história toda, foi o amor entre Liv e Alex.
— Nada mais deu certo? Será? Você tem certeza? — perguntou ele, olhando para o
ventre de Kim.
Ela sentiu um frio na espinha, e ele se aproximou ainda mais.
— Uma criança que é produto de nós dois não pode ser uma coisa boa.
— Você fala como se fosse um produto artificial que criamos juntos. — As palavras
de Diego soavam suaves, mas ainda assim a penetravam com força.
— Sinto muito se não sou a perfeição materna que você sempre buscou.
— Os seus genes precisam ser um pouco diluídos. Você tem de relaxar um pouco.
Trabalhar sem parar, sem tempo para diversão, deixou a Kimberly que eu conheci um
pouco enferrujada.
— Sei... Enferrujada... Mas veja bem aonde isso tudo me levou. — Ela respirou
fundo, sendo tomada por uma sensação de exaustão completa. — Nós nem sequer
somos capazes de ter uma conversa sem agarrar a garganta um do outro, Diego. Como
acha que isso poderia afetar... O bebê?
Sem afastar dela os olhos, Diego tocou suas mãos. Assustada, Kim se afastou,
tentando ao máximo evitar uma discussão. Mas ele conseguiu pousar uma das mãos em
suas costas e guiá-la à sala de estar, fazendo Kim se sentar em um sofá. E Diego se
acomodou em uma poltrona, bem à frente do sofá.
Kim sentia a força do olhar de Diego, por isso baixou os olhos e ficou observando os
próprios pés.
— Você talvez não queira esse bebê, mas quer fazer a coisa certa... Não é?
Kim engoliu em seco e fez que sim com a cabeça, sentindo uma pontada no peito.
— Ótimo. Aliás, por mais que espere que eu vá embora, desista. — Ele a encarou
firme, decidido. — Pode acreditar em mim, gatinha, muita gente gostaria de ter o que eu
posso oferecer.
Será?
Talvez, se a mãe dela não tivesse saído de casa aquela noite, ou se a tivesse
incluído na viagem, a sua vida fosse diferente. Mas seria melhor? Não, era uma bobagem
querer imaginar um presente ou um passado diferente.
— Por que sente ciúme de Alexander? — Assim que terminou de fazer a pergunta,
Kim se arrependeu.
Diego cerrou as pálpebras, depois voltou a erguê-las, devagar. O ressentimento era
claro na sua expressão.
— Alexander King ganhou sua confiança, certo? Mas eu não ganhei... Na minha
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

posição, a minha primeira reação é odiar qualquer homem que tenha o que eu gostaria de
ter.
Ela ficou sem chão ao ouvir essas palavras.
— Você quer ganhar a minha confiança? Que tal parar de tentar me destruir por um
momento? Depois a gente conversa...
Diego curvou o corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, com uma
expressão assustada no rosto.
— Não é interessante ver que a sua empresa entra em crise quando você diz que
estou destruindo a sua vida? No entanto, quando destruí o seu casamento, você não
disse nada. Portanto, será que ele concordou em salvar a sua empresa, e, portanto salvar
a sua vida?
A suposição de Diego de que a vida de Kim girava em torno da sua empresa era
certíssima, e isto á deixava muito nervosa.
— Não.
— Será que tem a ver com o fato de você ter decepcionado esse homem? Aliás,
você já notou que abandona todos os homens da sua vida, e sempre sem deixar boas
impressões?
— Nem todo mundo está tão preocupado com vingança quanto você, Diego.
— Por que o Sr. King se recusou a ser o seu salvador?
— Por conta das suas armadilhas, Diego, e da minha estupidez, da minha imagem
pública, que está em pedaços. A minha empresa está baseada na idéia de um painel de
especialistas que dão conselhos às mulheres sobre qualquer assunto, de saúde, carreira
e moda a política, finanças e sexo. A palavra-chave é especialista. Embora seja injusta,
uma mulher que parece não ter vida pessoal não é como as outras... E nenhuma mulher
vai querer conselho de alguém assim. Não importa que nada tenha mudado na maneira
como eu penso desde que soube que estou grávida. Mas é assim que as coisas
funcionam.
— Em algum momento, a notícia surgiria. Eu apenas acelerei o processo.
Ele estava certo. Ela teria que encarar essa situação mais cedo ou mais tarde. E
quanto antes melhor, pois teria tempo para encontrar uma solução para a sua empresa.
Kim precisava de um investidor, mas não estava tão preocupada com a direção da
empresa, ela era boa nisso.
O problema era a gravidez, que não saía de sua cabeça.
Conseguira alcançar o êxito em tudo o que fizera na vida. Com a gravidez não seria
diferente, certo?
Preparando-se bem, querendo trabalhar duro, ela poderia fazer um bom trabalho
como mãe. E recusava-se a pensar de outra maneira; recusava-se á preocupar-se
demais.
— Qual é o objetivo disto tudo, Diego? — perguntou ela, sentindo-se exausta. —
Você se sentiria melhor se eu implorasse por ajuda? Se eu lhe pedisse dinheiro para dar
comida a uma criança?
— Sim
Ela piscou diante de resposta veemente.
— O que eu quero é espantar todos os outros investidores. Quero ser sua única
esperança de salvação.
— Por quê?
— Porque deixar sua empresa em crise é a única chance que tenho de chamar sua
atenção.
Ela voltou a se alterar.
— Esta é a segunda vez que você menciona o meu sucesso, a minha empresa,
como se essas coisas devessem ser vencidas. Mas você perseguiu o sucesso com a
mesma determinação que eu. Aliás, não foi por isso que se casou comigo há seis anos?
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Porque eu era inteligente, ambiciosa... Agora estou grávida, e você quer que eu deixe
tudo o que conquistei de lado para me transformar na sua visão de uma mãe ideal?
Nunca imaginei que você tivesse uma dupla moral.
Diego passou a mão pelo cabelo. A menção ao seu curto casamento o tirava do
sério. Kim não parava de fazer isso, não parava de tirá-lo do sério. E essa história só
poderia terminar de uma maneira.
— Você quer mesmo cavar fundo no nosso passado, gatinha? — Ele não queria
discutir com Kim
Sem sombra de dúvida, havia algo naquela gravidez que a descontrolava. Sendo
assim, por que ela não relaxava?
Levantando-se, ele voltou a se sentar, desta vez no sofá, ao lado dela. Kim fugiu
para a outra ponta. Diego suspirou. Os dois acabariam discutindo ou gritando, mas ele
não queria fazer nada disso, ainda que uma das opções parecesse bem mais interessante
que a outra.
— Não estou pedindo que você abra mão do seu trabalho. Só peço que enxergue
que a gravidez muda algumas coisas.
— E que coisas são essas? Devo marcar uma festa e convidar todo mundo, para
que todos fiquem sabendo que estou grávida?
— Você não tem amigos, não fala com a sua irmã e é viciada em trabalho. Vive em
uma fortaleza, isolada do resto do mundo. Isso não pode continuar assim.
— Nem mesmo passando horas a fio sem fazer nada eu me transformaria na “mãe
do ano”. Na verdade, acho que isso apenas...
— Apenas o quê?
A paciência de Diego estava chegando ao fim, mas algo no tom de voz de Kim —
uma nota de desespero — atraiu sua atenção.
— Eu vou investir na sua empresa.
Kim franziu a testa. Depois moveu a cabeça da direita para a esquerda.
— Recusarei a sua oferta.
— Nada disso. — Diego se curvou na direção dela. — As coisas, hoje, são
diferentes do que era há uma semana.
— Porque você manipulou a situação para tirar vantagem.
— Eu estaria morto há muitos anos se não tivesse aprendido a tirar vantagem das
situações. — Diego sorriu, adorando o silêncio de Kim — Agora você ficou sem saída, não
é? Eu sei que a sua cabeça está dando voltas e mais voltas.
— Por que está dizendo isso?
— Ah, gatinha... Nós somos como um velho casal, sempre discutindo e enchendo a
cabeça do outro com paranóias. Se isso não é amor, amor verdadeiro, eu não sei o que é.
— Chega Diego. Por que resolveu investir agora?
— Talvez por não querer ver o seu trabalho jogado no lixo. Estou sendo guiado por
uma compulsão para ajudá-la. Será que ainda existe um lado doce na minha
personalidade?
Kim tremeu dos pés à cabeça, como se alguém tivesse jogado um cubo de gelo em
sua espinha. Ela se lembrava de coisas que um dia pareceram verdadeiras, mas que logo
se revelaram completamente falsas. Diego zombava de sentimentos importantes para ela,
de emoções que ela nunca conseguiria vencer.
— Isso não tem graça, Diego. O que você quer de mim?
— Quero que o nosso casamento funcione. Para sempre.
Ela saltou do sofá. Ele não poderia estar falando sério. Aquilo tinha de ser uma
brincadeira.
Kim engoliu em seco ao ver o quanto Diego se mantinha calmo.
— Agora entendi. Ninguém pode dizer “não” a você, pois isso desperta o ninja que
carrega aí dentro... Não sou algo que você não conseguiu conquistar e agora quer
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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retomar a qualquer custo.
— Serei claro sobre uma coisa, princesa. Voltar a estar com você, a atar a minha
vida à sua, é como assinar um contrato de puro tormento. Mas trata-se de um sacrifício
que estou disposto a aceitar em nome do meu filho. Quero oferecer a ele um lar estável,
coisa que nunca tive. É só isso, nada mais do que isso. Planejo ser um grande pai. E não
espero menos da sua parte.
Ela sentiu um nó na garganta. Kim seria o seu troféu, o seu prêmio, seria a
recompensa por uma infância terrível. E simplesmente por ser mãe do seu filho.
Isso não deveria doer. Mas doía. E a dor era acompanhada pela mesma culpa que
não abandonava a sua vida.
Kim nem podia pensar no que isso significava para ela. Precisava pensar no bebê.
Devia fazer a coisa certa.
Amor incondicional. Nunca recebera esse tipo de coisa, não sabia o que era, mas o
sentimento de responsabilidade e de ser forte em nome de outra pessoa... Disso ela
entendia muito bem
— É outra armadilha que você vai usar para me assustar pelo resto da minha vida?
Não vou permitir que você utilize o meu filho como escudo.
— O que eu mais queria era ficar bem longe de você. Todas as células do meu corpo
se arrependem de ter dormido ao seu lado. Mas o que fizemos teve conseqüências. Tudo
isso foi motivado pelo fato de que vamos ter um filho juntos. Um filho que terá um
verdadeiro pai, e não um pai que aparece nas festas de aniversário e posa para as fotos,
além de uma verdadeira mãe. Uma família. E vou fazer tudo que puder para garantir que
o meu filho tenha tudo o que eu nunca tive.
Ela engoliu em seco; o vazio que sentia ganhava força com as palavras de Diego.
Naquele momento, era impossível duvidar do que ele afirmava.
Diego faria qualquer coisa pelo seu filho. Pena que, quando eram casados, ele não
dizia essas coisas... Pena que ela não parecia tão emocionada com a gravidez quanto
ele.
— Nós não precisamos nos casar para termos isso. Poderíamos compartilhar a
custódia.
— O meu filho não passará metade da vida viajando de uma casa à outra, como se
fosse uma bola de tênis. Nós formaremos uma família... Uma família de verdade.
— Eu não vou dormir na mesma cama que você.
Ele riu bem alto...
— Será que você vai ser capaz de resistir? Não se preocupe Kim. Eu já aprendi que,
nesta vida, certas coisas são capazes de me assustar... E uma dessas coisas é voltar a
dormir com você.
— Finalmente, concordamos em algo — disse ela, bem alto, tentando emudecer as
batidas pesadas do seu coração.
Ela estava ficando louca; mais louca a cada minuto...
E voltou a se sentar no sofá, com as pernas trêmulas.
— Então... Um casamento sem sexo, com um homem que me odeia; que é dono de
grande parte da minha empresa, que não vai ter escrúpulos na hora de afirmar que sou
uma péssima mãe... Tudo isso pelo resto da minha vida? Nossa, parece um plano
perfeito, um verdadeiro paraíso!
— Felizes para sempre? É isso o que você quer? — Ele se aproximou de Kim,
encarando-a de forma perturbadora. — Vou falar pela última vez. A sua empresa é uma
bobagem para mim. Só peço que você faça o melhor pelo nosso filho. Quanto ao sexo...
Se você realmente quiser, nós poderíamos pensar no assunto. Quem sabe em alguns
anos? — E sorriu, erguendo uma sobrancelha.
Ela arregalou os olhos. Aquela situação era inacreditável, um verdadeiro absurdo.
Nem parecia ser a sua vida.
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Toque de Tentação

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— Um sistema de recompensas? Que maravilha! Sexo em troca de bom
comportamento?
Ele tornou a sorrir. Ela ficou sem fôlego. Kim sempre adorou aquele sorriso. Em
qualquer outro homem poderia parecer um sorriso afeminado, mas no caso de Diego
apenas emprestava uma boa dose de charme à sua masculinidade.
— Viu? É assim que você gosta. Tudo reduzido a uma simples transação comercial.
Seja uma boa esposa e terá todo o sexo que quiser.

CAPÍTULO 4

De pé diante da porta de metal do elevador do andar de sua casa, Kim mirava seu
reflexo.
Respirou fundo. Com um pouco de sorte, ela poderia ser uma dessas grávidas
lindas, com ótima pele e um brilho constante no rosto.
Sei...
Na verdade, o que sentia eram náuseas, cansaço, o rosto cheio de espinhas... E
alterações bruscas de humor, embora tivesse deixado de lado os antidepressivos. Além
disso, ela não queria nem ouvir falar em bebês.
A única coisa que há deixava um pouco animada eram as horas que passava no
trabalho, pensando nos futuros investidores e na expansão da empresa.
Dois dias após ter sido encurralada por Diego no seu quarto, a equipe de advogados
dele entrou em contato com ela. Kim, por mais que quisesse, não perguntou por ele.
As negociações foram fechadas em um dia, e ela receberia dois milhões de dólares
para investir em sua empresa. Isso era muito mais do que ela sonhava conseguir.
Kim deveria estar mais do que feliz. Conseguira um investidor, e receberia o prêmio
de Empreendedora do Ano, naquela mesma noite, pelo Business Bureau Guild.
Mas era impossível esquecer-se das palavras de Diego. Era mais ou menos como
voltar no tempo, seis anos antes, quando retornara a Nova York, com o coração em
frangalhos, imaginando se um dia ele ligaria; se viria atrás dela.
Porém, não tinha se passado nem um mês de sua reaparição e Diego a reduzira a
pó... A uma pessoa capaz de arrastar-se aos seus pés.
Ela talvez devesse aceitar o convite de Liv e ir à cerimônia de premiação. Liv iria
com Alex.
Mas estava evitando o cunhado, e aparecer por lá só aumentaria os rumores e as
especulações que a tiravam do sério.
Conduzir sua empresa sempre significou trabalhar 16 horas diárias, sem tempo para
sair com amigos... Ou algo parecido. Era assim que ela vivia sua vida. E adorava.
O que não gostava era de pensar em momentos como a noite que estava por vir...
Quando ficava sozinha.
Entrou no elevador e ouviu o barulho das portas se fechando. Recostando a cabeça
no espelho, lutou contra as lágrimas que insistiam em saltar dos seus olhos.
De certa maneira, a ameaça à expansão de sua empresa bloqueou os pensamentos
sobre gravidez de sua mente. Mas naquele momento ela não tinha nada mais a fazer,
exceto ouvir a voz interior do seu corpo. Aliás, com tantas náuseas, seria impossível não
pensar que algo acontecia com o seu corpo.
Kim chegou ao lobby e pediu um táxi ao porteiro. Uma limusine preta parou na porta
do prédio.
Ela deu um passo atrás quando o motorista abriu a porta da limusine. E logo depois
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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sentiu a presença de Diego às suas costas, saindo do seu prédio.
— Pronta?
O coração de Kim batia forte do peito. Ela girou o corpo tão rápido que quase perdeu
o equilíbrio. A mão dele á amparou antes que ela pudesse cair no chão.
Com o braço ao redor da cintura de Kim, Diego a envolveu em seu cheiro puramente
masculino e, os músculos dele á deixaram mole; muito mole...
Kim sentiu um calor invadindo o seu corpo, um calor que tomava conta da solidão
que sentira até poucos minutos atrás. Ela respirou fundo, expandindo e contraindo os
pulmões.
Seu estômago se encheu de algo diferente — uma espécie de prazer. Por que ele
não piorava ainda mais as suas náuseas? Que estranho...
Vestindo um terno cinza Armani, que deixava bem marcados seus ombros largos, e
com o cabelo penteado para trás, Diego parecia saído dos sonhos mais impossíveis de
Kim. Ele exalava magnetismo, fazendo com que o coração dela batesse descontrolado no
peito.
Sua pele bronzeada ganhava ainda mais vitalidade sob as luzes noturnas, e o nariz
proeminente e os olhos brilhantes aumentavam ainda mais o seu charme. Uma
sensualidade lânguida se irradiava de Diego Pereira.
Até na gélida Nova York ela podia sentir o calor da pele daquele homem.
— Cuidado, minha pequena — murmurou Diego.
Um frisson subiu pelo corpo de Kim quando sentiu a palma da mão de Diego nas
suas costas.
— Sei que os saltos altos são parte integrante da sua imagem, mas você precisa ser
cuidadosa.
Ela ergueu os olhos, e continuava tremendo em todos os pontos do corpo, nos quais
Diego a tocara. Após uma semana sem ser procurada por ele, Kim começou a pensar que
Diego poderia estar arrependido da sua proposta. Pelo menos da parte pessoal.
Assim que ela conseguiu se equilibrar, ele a soltou. Era como se Diego não quisesse
tocá-la mais do que o estritamente necessário.
— O que está fazendo aqui? — perguntou ela, em voz alta, tentando evitar que ele
escutasse as batidas do seu coração.
— Eu vou à cerimônia de premiação com você.
Ela fechou os olhos e contou até dez, odiando a excitação que tomava conta do seu
corpo.
— Por quê?
Diego sorriu.
— Para ver o mundo inteiro aos pés da minha mulher, embasbacado com a sua
inteligência.
— Ah, sei... E de onde você veio?
— Da cobertura — respondeu ele, observando-a e devorando-a com os olhos.
— Que cobertura? O que estava fazendo na cobertura?
Ele estaria visitando alguma mulher? Será que ela realmente queria saber o que
Diego fazia em seu tempo livre? Já fora duro o suficiente descobrir certas coisas no
passado, seis anos atrás.
— Estou me mudando, caríssima. E você também. A cobertura será nossa casa, até
encontrarmos algo mais permanente.
— Você está se mudando para Nova York? Quando? Por quê? — Kim preferia nem
tocar no segundo tema abordado por ele.
— Por que acha que estou me mudando para cá? Aliás, já notou que sua
inteligência seca quando estou ao seu lado?
— Isso não é novidade. — Kim suspirou. Na verdade, seria melhor aceitar do que
lutar contra esse fato. — A cada passo seu, meu QI cai alguns pontos. Aliás, a minha
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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mente funciona muito melhor quando existe um oceano a nos separar.
Ele deu um passo à frente, e ela pôde sentir o aroma de seu sabonete e da sua
pele, tudo ao mesmo tempo. O coração de Kim acelerou.
— Pronto; cinco pontos a menos, — disse ela.
Ele sorriu e deu mais um passo na sua direção. Kim sentiu o calor do corpo de
Diego roçando a sua pele.
Ela produziu mais um som, que desta vez saiu um pouco trêmulo, e disse:
— Outros cinco pontos a menos.
Diego se aproximou ainda mais, pegou seu xale, que roçava no chão, e pousou-o
sobre os seus ombros nus. Tão perto daquele corpo, ela sentia como se o mundo
parasse.
Kim umedeceu os lábios.
— Acho que eu pronunciaria meu nome errado se você perguntasse agora como me
chamo.
Atirando a cabeça para trás, Diego gargalhou. Ao ouvir aquele som, Kim sorriu, pois
não poderia fazer outra coisa. A beleza daquele homem era incrível. Ela sentiu algo fora
do comum. Era sua vez de ver-se como uma mulher das cavernas.
Ele se afastou de Kim, ainda sorrindo.
— Eu acho que você deveria estar funcionando perfeitamente esta noite, concorda?
Kim deveria ficar contente ao ver que Diego mantinha certo controle, pois ela, pelo
visto, perdera totalmente o seu quando ele se aproximou. Engolindo em seco, ela desviou
o olhar.
— Você vai mesmo se mudar para Nova York?
— Ah... Você pensou que eu não voltaria?
— Eu tinha me esquecido de que agora você tem um motivo precioso para voltar.
Diego fechou os olhos por um bom tempo, sua garganta parecendo tensa.
— Está me acusando de alguma coisa, minha pequena?
Kim fez que não com a cabeça. Era muito covarde para ouvir o que já sabia, ela não
era suficientemente importante para que ele voltasse à Nova York por sua causa, muito
menos após seis anos.
Com tal pensamento na cabeça, Kim fez um sinal para a limusine, que os esperava.
Ela se sentou, lutando para manter as pernas bem colocadas. Perdia o senso crítico
quando Diego estava por perto, mas haveria de se controlar.
Kim resolveu cruzar as pernas. O seu vestido girou nas coxas, e ela o puxou para
baixo, sentindo um calor no rosto. Observando-há o tempo inteiro, Diego não perdia um
lance.
Ela se sentou direito, como uma estátua, completamente rígida.
Dando uma rápida olhada para a janela, que refletia a sua imagem, Kim quase se
desesperou.
O cabelo não estava como gostaria, mas ela não tinha forças para arrumá-lo ali,
dentro do carro. Tudo o que fez foi retocar o gloss que passara nos lábios. Mas ela estava
pálida, ainda mais após mais uma noite sem dormir. Mexeu um pouco no cabelo e só; não
poderia fazer nada mais.
O seu vestido não parava de subir pelas pernas. Deveria ter trocado por outro, mas
não tinha tempo, acabaria se atrasando. Aquele traje marcava demais o seu corpo, as
suas curvas, os seus seios.
Droga. Tudo parecia estar dando completamente errado.
Diego não tirava os olhos dela.
Kim o encarou e perguntou a primeira coisa que lhe ocorreu:
— Eu estou bem?
— O quê?
— A minha pergunta foi simples, Diego.
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Paixão Especial nº 03.2

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— Sério? Nunca imaginei que você precisasse de reafirmação.
— Engano seu. Preciso de reafirmação muitas vezes. E essa gravidez está trazendo
à tona o pior de mim. Náuseas, mal-estar... E você não ajuda nem um pouco a aliviar os
sintomas.
Ele lhe tomou a mão e a acariciou. O seu toque a acalmou — o que era estranho,
mas verdade, embora se tratasse de um gesto mínimo.
— Tudo bem. Como eu poderia ajudar?
— Para começar, que tal me dizer... — Ela respirou fundo. —... Como estou?
Diego a observou com cuidado.
— Tudo bem. Tire esse xale.
Ela estreitou os lábios e se sentou rígida, com as mãos no colo.
— Você quer ou não quer a minha opinião?
— Quero.
Diego estendeu uma das mãos e tirou o xale dos ombros de Kim. Lenta e
metodicamente, foi liberando as curvas dos seus ombros. Ela tornou a respirar fundo.
Era cada vez mais complicado agüentar os pés naqueles saltos altos Prada.
— Você está diferente...
— Diferente como?
— O que quer é um elogio, minha esposinha querida?
— Talvez... E não me chame de esposinha querida — disse ela, pousando as mãos
nas coxas. — Eu prefiro...
—... Roupas mais conservadoras, que informam que o seu cérebro vale mais que as
suas curvas.
Será que ele entendia tudo errado?
— Preciso apresentar a imagem mais correta possível, e trabalhar duro e tentar
atingir o nível dos homens, o nível de respeito dos homens. Nem todos, no mundo dos
negócios, têm a mesma confiança que você deposita na minha capacidade... Muito
menos me ofereceriam dinheiro se eu... — Ela não terminou a frase, embora tudo o que
estivesse dizendo fosse a mais absoluta verdade.
Kim sabia, em primeira mão, que Diego era um rude homem de negócios, que vivia
trabalhando com afinco. E ele investira em sua empresa, talvez por uma razão pouco
óbvia, mas investira. Caso quisesse deixá-la completamente sem opção, não teria feito
isso.
— Obrigada por seu investimento... Por confiar em mim — Kim tentava respirar
normalmente, mesmo com um nó apertado na garganta.
Ele deu de ombros.
— Só um idiota duvidaria das possibilidades da sua empresa... Ou da sua habilidade
para gerir o dinheiro. No entanto, tenho de lhe dizer que isso não funciona.
— O que não funciona?
Ele sorriu, pelo visto achando sua estupidez muito divertida.
— Seja lá o que você vista... Mesmo as roupas mais recatadas não podem esconder
o fato de que é linda.
Havia algo no olhar de Diego... Um brilho... Por que ele dissera tudo isso? Como era
capaz de olhar para ela com todo o desejo do mundo para depois atirar tudo na lama,
como se não significasse nada?
Ela ficou encarando Diego enquanto ele ligava o tablet.
Kim sempre imaginou que nada teria mudado naquele homem em seis anos. Mas se
enganara.
Muita coisa estava diferente, e não apenas em relação ao seu êxito nos negócios.
O homem com quem ela se casara, na época com 20 e poucos anos, deixara de
lado o amor e abraçara a raiva... Voltando depois ao amor. Suas emoções sempre
estiveram à flor da pele, como um brilho, como uma energia que muitas vezes atraía as
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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pessoas na sua direção.
Sim, ela entendia aquela ambição, pois também a possuía. Mas aquele homem novo
e refinado, aquele homem calado, sempre no controle de tudo, já não deixava suas
emoções sempre tão à vista de todos. Ou pelo menos era isso o que ele lhe dizia com a
sua terrível honestidade.
Kim esperava que Diego questionasse sua gravidez. Mas não questionou. Ela
esperava que ele fosse embora sem olhar para trás. Mas ele não foi. Aliás, ali estava
Diego, em Nova York, pois queria dar uma chance ao seu casamento.
Ela não o entendia, pois o Diego que conhecera anos antes se escondia por trás de
uma capa de puro e sofisticado charme e educação.
Mas ela conhecia o homem que vivia por trás de tudo isso, e não engoliria aquela
fachada tão fácil. Se baixasse á guarda, se permitisse que ele entrasse completamente
em sua vida, ele acabaria vencendo de novo. E desta vez ela não conseguiria sair ilesa.
Fazendo uma careta, ele desligou o tablet.
— Diga-me: por que você mudou a maneira de se vestir?
Algo lhe dizia que Diego queria perguntar outra coisa, mas estaria se controlando.
— Este vestido foi desenhado por uma amiga. Eu concordei e resolvi lhe fazer um
favor usando sua criação esta noite. Mas ela só me entregou o vestido uma hora atrás,
pois sabia que eu não...
— Que você não usaria; se recebesse antes? A sua amiga é esperta. Ela sabe que
você só agrada os demais quando é manipulada.
As palavras de Diego a atingiram em cheio.
— É isso o que chama de criar um ambiente feliz para um filho? Você não para de
lançar farpas na minha direção. Eu já vivi isso, Diego. Sou o produto de um casamento
falido. Acredite em mim, tudo isso só causa danos aos filhos.
Ela se recostou, sentindo-se tão frágil quanto um jarro de vidro. Que estúpida fora ao
confiar, por um segundo que fosse à possibilidade de paz entre os dois. Seis anos de
separação não seriam suficientes para aplacar a raiva que sentiam um do outro. Nem a
atração, aliás.
— Eu... Tenho toda a intenção de fazer com que isso funcione.
As palavras de Diego não pareciam despojadas de emoção. Muito pelo contrário,
elas vibravam repletas de intensidade.
— Mas é sempre tão complicado ser civilizado ao seu lado...
— Sobre o que você está falando?
Ele ergueu o tablet.
— Eu acabei de ver a notícia sobre o seu comunicado à imprensa.
— E daí?
— Você deixou de fora o mais importante... Mais uma vez.
— Não sabe do que está falando. Meu comunicado foi conciso. Eu listei os detalhes
do contrato de investimento, exatamente como sua equipe me ditou, e resolvi não abrir
espaço para perguntas sobre minha vida pessoal.
— Sua vida pessoal, Kim, já não é apenas sua.
Ela ficou em silêncio, esperando, querendo saber se ele diria algo mais.
A limusine parou na porta do elegante Hotel Plaza de Nova York, onde aconteceria a
cerimônia de premiação. Kim ouvia o barulho da multidão parada na porta.
Antes que ela pudesse dizer algo, Diego abriu uma pequena caixa de veludo.
Respirando fundo, Kim se recostou no assento, com o coração saltando no peito.
Ele fizera isso de propósito... Esperou até o último segundo.
O diamante brilhava no escuro, lindo, um diamante digno de uma princesa. E estava
acompanhado de ouro, o que marcava um contraste incrível.
— Eu não quero usar isso. Não sei o que significa para você...
— Isto colocaria um ponto final nas especulações sobre nós dois — disse ele, frio.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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— E também nas especulações sobre o meu filho.
— E você se importa com o que o mundo está dizendo?
— Sabe como foi quando a minha mãe me levou para conhecer o meu pai?
Ela ficou muda, sem saber o que dizer; simplesmente olhando para ele. Kim sabia
que Diego não gostava de falar sobre sua infância, e ela nunca tocava no assunto.
— Eu tinha 6 anos. Nós ficamos de pé, na porta da casa dele, durante três horas...
Até que ele apareceu. Depois ela me levou de novo, quando fiz 7 anos. Ela sempre me
levava todos os anos, esperando que algum dia ele me aceitasse como filho. Cresci
ouvindo murmúrios da vizinhança, como “bastardo” e daí por diante. Ela queria uma vida
diferente para mim, uma vida melhor, mas eu nunca liguei. Minha mãe não me devia
nada. Até o dia em que ela foi parar no hospital.
Ele ficou mudo, com uma expressão sombria no rosto. O nó na garganta de Kim era
cada vez maior. E o pior era que ela sabia, em primeira mão, o que era a negligência
paterna.
— Quantos anos você tinha?
— Dezesseis. O corpo dela se deteriorava a cada dia. Minha mãe sempre trabalhou
muito, e se alimentava muito mal. Eu não podia pagar pelo seu tratamento, mas fiz uma
promessa de que não voltaria a brigar nas ruas. Por isso fui até ele. Sozinho. Pela
primeira vez.
Dezesseis anos, pensou Kim. Ele não passava de uma criança. De repente, ela
percebeu aonde chegariam com aquela conversa. E finalmente entendeu por que Diego
guardava tanto rancor. Kim sentiu muita culpa.
— Fui ao escritório da empresa de construção do meu pai. Implorei para que ele
pagasse o tratamento da minha mãe. Eu disse que trabalharia para ele pelo resto da
minha vida. Ele pediu ao guarda-costas que me arrastasse para fora. E eu jurei que
acabaria com ele. E não parei até conseguir.
— Diego, como eu poderia...
— Sempre pedi muito pouco da sua parte. Porém, quando o assunto for o meu filho,
eu não vou descansar. Não repetirei a minha história. E quero que todos saibam que o
filho é meu. Você teve uma chance de fazer isso no seu comunicado à imprensa, mas não
fez. Portanto, eu o farei, e do meu jeito.
Diego agarrou a mão de Kim quando desceram da limusine. Eles estavam no tapete
vermelho, em frente ao Hotel Plaza de Nova York.
Diego sentiu os dedos de Kim rígidos, o seu corpo, trêmulo.
Por um minuto, tudo ao redor dele desapareceu. Só existia aquela mulher. Aquela
figura gloriosa de pé ao seu lado.
E o vestido era perfeito, o mais sexy de todos os tempos, com uma fenda que
chegava à altura do traseiro.
Diego sentiu uma pontada de desejo no estômago, e isto enevoava o seu
pensamento. Já era difícil resistir quando ela usava jeans e camiseta. Com aquele vestido
então...
Kim abriu um sorriso e posou para as câmeras à sua frente. As suas pernas
pareciam ainda mais longas com aqueles saltos vertiginosos.
As pessoas aplaudiam enquanto eles desfilavam. Flashes espocavam em seus
olhos. Diego engoliu em seco, evitando todas as perguntas que eram lançadas ao ar.
A verdade era que o comunicado à imprensa de Kim fora sensacional, mas ela não
respondera às perguntas que interessavam de verdade. Essa tarefa, lógico, caberia a ele.
Por sorte, Diego sempre foi obrigado a lutar pelo que queria.
Primeiro lutou pela mãe, depois por si mesmo, e agora lutaria pelo seu filho ainda
não nascido.
Ele trincou os dentes e abraçou a cintura de Kim, com um sorriso nos lábios e a
cabeça erguida. Ela fez o mesmo. Era pura fachada, mas ninguém percebia isso.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

A mídia parecia engolir cada centímetro da pose de perfeição que ela tentava fazer
passar, mas não a deixava em paz.
Nada traria maior satisfação a Diego do que destruir esse pedestal, destruir essa
mulher, para que ela terminasse em suas mãos. Claro que, fazendo isso, seria obrigado a
pagar um preço, e tal preço poderia ser alto demais.
— Srta. Stanton é verdade que continuava casada quando ficou noiva do marido da
sua irmã gêmea?
— Quem é o pai do seu filho?
— A senhora está namorando o Sr. Pereira?
Diego percebeu que Kim engolia em seco, ficando cada vez mais nervosa. Será que
ela não esperava por isso? Ela não sabia que os repórteres viviam secos atrás de uma
história bombástica?
Ele se aproximou dos microfones e disse:
— O nome dela é Sra. Pereira. — E olhou para Kim, sorrindo, depois se aproximou e
beijou sua face. — Nós estamos muito felizes por podermos reconstruir a nossa vida
juntos, e com um bebê a caminho.
Os repórteres ficaram em polvorosa, mas Diego a agarrou com mais força e afirmou:
— Nós voltamos, após seis anos separados. Minha esposa percebeu o erro
cometido e voltou para mim. Estamos felicíssimos. É como se nunca tivéssemos estado
separados.
Kim olhou para ele e sussurrou:
— Idiota.
Diego sentiu um calor subindo pelas veias.
Kim era sua esposa.
Diego esperava por esse momento havia muito tempo. Queria gritar aos quatro
ventos que ela era sua.
O fato de ter chegado a esse ponto por meios tortuosos, e após seis anos, não
diminuía nem um pouco a sua sensação de vitória.
Diego aprendera muito tempo atrás, que jogando limpo não conseguiria nada além
de um corpo destruído e um coração partido.

CAPÍTULO 5

Foi á pior noite da vida de Kim.
E não deveria ter sido.
A cerimônia de premiação foi na sala de banquete do Hotel Plaza. A comida estava
deliciosa, e ela se encontrou ao lado de grandes representantes do mundo dos negócios.
Porém, entre evitar os olhares curiosos de Liv e receber os parabéns de colegas —
que tinham sido preteridos pelo prêmio que ela ganhara — Kim só pensava em fugir dali.
Dois minutos antes de entrar no salão, ela percebeu que a fala furiosa de Diego à
imprensa alterara completamente a situação.
A notícia do seu investimento de dois milhões de dólares na empresa de Kim, junto
com a revelação de que ele era o pai do seu filho, além da notícia de
que estavam casados, tudo isso fez com que Kimberly se transformasse no maior alvo de
fofocas da noite.
E não importava se os mesmos convidados, e a mesma imprensa, o chamavam de
monstro poucos dias atrás, por conta de suas táticas predatórias quando o assunto eram
os negócios, mas também por conta da enorme quantidade de dinheiro que Diego gastara
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recentemente comprando uma ilha na costa brasileira. Um paraíso ecológico, nem mais
nem menos, local que provavelmente destruiria por conta da descoberta de minas de
metais preciosos.
O sorriso forçado no rosto de Kim fazia sua boca doer, e as pessoas não paravam
de lhe dar os parabéns por ter resolvido seus problemas com Diego Pereira.
Ela não sabia o que a deixava mais furiosa: se os sorrisos charmosos de Diego à
multidão ou os olhares que lançavam na direção dela, com comentários nada elegantes
sobre sua gravidez.
Além do mais, muita gente parecia considerar que a mera presença de Diego na sua
vida pudesse fazer sua mente trabalhar melhor. Ela só poderia rir da ironia dessa história.
Quando a cerimônia chegou ao fim, quando Kim finalmente terminou seu discurso,
tudo o que queria era escapar daquela multidão, mergulhar em sua banheira de mármore
e acalmar sua mente, que não parava de girar.
Mas o seu tormento estava longe de ter chegado ao fim.
Diego a puxou para a pista de dança; passou a mão ao redor da sua cintura,
envolvendo-a de tal maneira que seria impossível desvencilhar-se dos seus braços.
A repentina intimidade daquele momento a desequilibrou. Kim foi obrigada a deixarse levar pelo corpo musculoso e forte de Diego Pereira.
Ela sentia os dedos de Diego passeando pelas suas costas, causando sensações
até então inéditas. Os músculos de Kim estavam retesados, o seu corpo se lembrava de
coisas que ela preferia esquecer para sempre.
Respirou fundo, louca de vontade de se livrar daqueles braços, rezando para deixar
de sentir tanto prazer com aquela dança. Pois aquilo não passava de teatro. Diego
brincava com os meios de comunicação. E isso a deixava cada vez mais sem saída.
Ele a observava, curioso, divertindo-se.
— Você não está gostando da noite?
— Nunca estive tão desapontada quanto hoje, nunca... E sou a mesma pessoa que
era ontem, com os mesmos defeitos e qualidades. Mas você está fazendo de tudo para
me desmoralizar.
Ele abriu um leve sorriso, o que a enfureceu ainda mais.
— Você não estava tão chateada quando a prendi na ilha.
— Não gosto de ser vista como uma completa idiota — disse ela, trincando os
dentes.
Ele franziu a testa.
— Quer dizer que não gosta sequer da ilusão de estar apaixonada? Você tem o seu
investimento, a reputação da sua empresa está intacta, e tem o meu total apoio para a
gravidez. Não sei por que está tão aborrecida.
Visto dessa maneira, ela parecia o mais perfeito retrato do egoísmo. Mas Kim não
poderia deixar de lado o horror que sentia por conta de tudo estar saindo do seu controle.
Diego roubava tudo o que ela precisava para sobreviver. Fossem lá quais fossem suas
intenções, a verdade era que ele a deixaria de joelhos, arrastando-a há mesma
tempestade de antes.
— Qual é a razão dessa farsa de que vamos viver felizes para sempre? Não somos
uma versão atualizada de Romeu e Julieta, Diego!
— Não? Você já imaginou como isso poderia afetar a vida da sua irmã? Já imaginou
o que a mídia poderia dizer se deduzisse que você está carregando o bebê do marido
dela no ventre?
Kim ficou de boca aberta.
— Liv sempre soube da verdade.
— E você acha que isso não a incomoda? Acha que isso não dói? Acredita que isso
não lança uma sombra no casamento da sua irmã? E quanto a Alexander King? Você
pediu ajuda a ele, diz se sentir culpada por ter decepcionado esse homem, mas nem
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Toque de Tentação

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assim pensa no que as especulações poderiam gerar na vida dele?
Ela ficou envergonhada e afastou os olhos de Diego. Deus, tudo o que ele dizia era
verdade!
Vinha evitando aqueles assuntos. Evitava o problema que poderia causar à irmã...
— Já pensou em mim? Ou será que, egoísta como sempre, manteve a linha de
pensar em você, você e você, e em ninguém mais?
— Como eu poderia saber como você se sente sobre esse assunto? Até algumas
horas atrás, eu não sabia que o seu pai o tratava de forma tão cruel... Nem que a sua
mãe morreu. Você nunca me contou nada. Quando zarpamos naquele barco, você me
manteve no escanteio, como se...
E será que ela agiria de maneira diferente se soubesse a verdade?
Diego franziu a testa, e Kim percebeu que ele se perguntava a mesma coisa.
— O fato é que você não seria capaz de evitar esta gravidez, nem o meu
envolvimento nesta história. — Os olhos de Diego deixavam clara sua frustração. — Tudo
o que deixaria qualquer mulher feliz causa uma enorme frustração em você.
— O problema é que você pensa que eu sou como qualquer outra mulher, Diego.
— Não, eu não penso assim... Nem deveria pensar. Você é a mulher mais perfeita
do mundo.
Ela abriu um sorriso amarelo, sentindo o coração vir à boca. Diego era o único
homem capaz de dizer tal coisa com palavras tão cruas.
Os músculos do rosto de Kim doíam de tanto ela tentar manter o sorriso estampado
no rosto, um sorriso praticamente intacto, embora o interior do seu corpo estivesse em
frangalhos.
Mas ela não poderia permitir que Diego ou o seu casamento significasse alguma
coisa em sua vida. Ele já fora o pior dos seus pesadelos antes. Se baixasse novamente a
guarda, permitindo-se envolver-se, poderia perder completamente o controle da sua
existência.
— Isso quer dizer que você já não quer uma esposa perfeita?
— É você a obcecada pela perfeição. Eu jamais quis uma esposa perfeita.
— Ou será que não quer agora?
— O quê?
— Agora que conseguiu alcançar tanto status, tanta riqueza, agora que já se provou
melhor que o seu pai, melhor que o mundo inteiro. Neste momento, você não precisa de
um troféu... Como precisava há seis anos.
Ele cravou os dedos nas costas de Kim, como se a quisesse possuir. A pele dela se
arrepiou por conta daquele toque duro. O mundo inteiro pareceu ter desaparecido daquele
salão. Ela estava ficando corada...
— Você não quer usar a mesma aliança que eu. Não quer reconhecer que esse
bebê é meu filho. Embora eu esteja decidido a dar uma chance ao nosso casamento,
você parece determinada a destruí-lo.
Ele murmurava tudo isso ao seu ouvido, e a cada palavra destilava um pouco mais
do seu ódio.
— Não fui o único que fugiu. Você sabia, ao se casar comigo, o que eu procurava.
Quando aquele cruzeiro chegou ao fim, quando a suja realidade das minhas raízes e do
meu passado começaram a ser desenterradas, você deixou de me querer. Portanto, não
me culpe pelo passado.
Diego afastou Kim da sua frente, os seus músculos palpitando com uma energia
furiosa. Ele precisava escapar daquele momento. Caso contrário, poderia fazer algo
realmente estúpido.
Como beijá-la de repente ou socar a parede mais próxima.
Nada a atingia, nem mesmo o fato de ele estar de volta, nem mesmo o fato de ela
estar gerando um filho seu. Quanta vez Diego teria de aprender a mesma lição?
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Como Kimberly ousava atirar a culpa pelo seu casamento falido aos pés dele?
Ao mesmo tempo, Diego poderia jurar ter visto uma enorme tristeza em seus olhos
no momento em que ela se descreveu como um “troféu”, e sentiu um tremor ao ouvir tais
palavras.
Ele estava a ponto de abandonar o salão, afastando-se da multidão, quando alguém
bateu no seu ombro. Diego girou o corpo.
Lindos olhos castanhos — grandes, felizes, parecidos com os de Kim, mas ao
mesmo tempo muito diferentes — o cumprimentaram Olivia King.
Ela usava um vestido vermelho até os joelhos. Um pingente de rubi caía sobre suas
costas nuas. O cabelo de Kim estava cortado de maneira elegante, mas o de Olivia era
curto, encaracolado, selvagem. Não havia nada drasticamente diferente da maneira como
Kim estava vestida, sobretudo considerando que Kim fugira ao seu estilo aquela noite.
Além disso, a sensualidade de Olivia era provocadoramente emudecida em Kim.
— Oi, Diego — disse ela, com pouca hesitação na expressão.
Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso. Ela acenou, e ele se aproximou. O gesto, o
mero movimento, não continha a mesma graça nem o mesmo veneno encontrado em seu
rosto. Ele ficou um momento em silêncio.
— Sinto muito por surpreendê-lo assim, no meio da pista de dança, mas preciso
aproveitar essa oportunidade. Você é o pai do meu sobrinho... — Ela abriu um leve
sorriso. —... E eu só tenho alguns minutos antes que Alexander apareça por aqui.
Com cada vez mais raiva, Diego apertou sua mão.
Kim era pura sofisticação, brilhantismo, e mantinha uma armadura sempre a postos,
mas Olivia era pura irreverência, sempre com um sorriso aberto, sempre seguindo
adiante. As suas emoções eram cristalinas.
Um homem, ao olhar para aqueles olhos, poderia dizer se estava no paraíso ou no
purgatório.
Elas pareciam iguais, mas eram muito diferentes. E Diego achou tudo isso
desconcertante e humilhante, pois não sentia nenhuma atração por Olivia...
Franziu a testa.
— Uma chance de que, Sra. King?
— Pode me chamar de Liv. Uma chance de conversarmos. Todo mundo está
comentando o que você disse à imprensa, e Kim não está muito... Feliz.
— Não? — perguntou ele, sentindo que sua ira voltava a crescer. — Vamos dizer
que sou o segredo perfeito da sua irmã, o mais sujo, o mais íntimo.
Ele olhou na direção de Kim, que estava ao lado de uma mesa, de pé, conversando
com Alexander.
Os dois pareciam um par de jarras, eram similares em tudo. Mas ainda assim
Alexander abandonara Kim pela sua irmã, Olivia.
— Mas você fez questão de transformar esse segredo íntimo e sujo em algo público
— disse ela, emanando calor em suas palavras.
Diego voltou a encará-la.
— Esperar que a sua irmã fizesse a coisa certa seria um exercício de futilidade.
Liv franziu ligeiramente a sobrancelha.
— A minha irmã... — Ela hesitou, mas resolveu seguir em frente: — Ela sempre
mantém seus sentimentos e medos em segredo.
— Está querendo dizer que Kim se esconde debaixo de tanto brilho?
— Kim sempre foi a mais forte da família... Para a minha mãe e para mim. Foi à
única maneira que ela encontrou de sobreviver, a única maneira que encontrou de me
proteger.
— De quem? Sabe de uma coisa? Eu só espero que ela tome as decisões corretas
para o meu filho.
Olivia fez que sim com a cabeça.
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Toque de Tentação

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— Veja bem... Eu só quero dizer que estou feliz por saber que tudo está dando certo
entre vocês dois.
— Se um olhar pudesse matar, eu teria morrido algumas vezes por conta dos
olhares fulminantes do seu marido na minha direção, e todos eles foram lançados nos
últimos minutos.
Ela olhou para a irmã e o marido.
— Por favor, ignore Alexander — pediu Olivia. — Ele é muito possessivo quando o
assunto sou eu.
— Ele não gosta muito de mim
Liv sorriu.
— O meu marido tem um senso de certo e errado muito rígido.
— Sério? E ainda assim ele continuou namorando você, enquanto fingia que se
casaria com Kim? E depois a trocou por você, sem pensar duas...
— Alexander e Kim... O que havia entre eles não era bem um relacionamento —
disse Olivia, interrompendo-o. — Ainda antes de ela descobrir tudo sobre nós, ainda antes
de ter passado aquele tempo com você na ilha, Kim acabara tudo com Alexander. Eles
nunca sequer...
— Nunca sequer o que, Olivia?
— Você falava sério quando se dirigiu à imprensa? É séria essa história de um
recomeço com Kim?
— É.
— Alexander e Kim nunca tiveram um relacionamento físico.
Diego sentiu uma enorme satisfação percorrendo suas veias. Logo depois, o que ele
sentiu foi uma enorme frustração. Realmente, Kim nunca oferecia nada pessoal a
ninguém.
Por outro lado, o próprio Diego lhe dera o motivo perfeito para que ela o imaginasse
como o seu perfeito inimigo. E isso teria que mudar se ele quisesse que o seu casamento
tivesse alguma chance de dar certo.
Ele olhou para Olivia, que permanecia ao seu lado. Em poucos segundos, o rosto
dessa mulher perdera cor e vivacidade. Ela fora invadida pelo medo. E olhava para o seu
pai, Jeremiah Stanton, que apertava a mão de alguém.
Diego fitou sua esposa, depois Olivia, e perguntou:
— Você está bem?
Liv ô encarou assustada, com uma expressão de dor no rosto.
— Sinto muito. É duro contornar certos hábitos. Você precisa correr atrás de Kim
imediatamente... Entendeu?
— Sobre o que está falando?
— Sobre o meu pai. Ele não gosta do que a imprensa está falando sobre a sua filha.
— Nem eu gosto.
— Você não entende. Ele vai cair em cima dela. Por favor, seja qual for o problema
que você tenha com a minha irmã, proteja-a.
Kim caminhava em um canto da sala de banquetes, seus músculos tremendo.
O que mais queria era confrontar Diego, desafiar cada palavra arrogante que ele lhe
dissera seis anos atrás. Ela poderia aceitar tudo o que ele lhe lançava — as suas táticas
para controlar a empresa, suas manipulações. Mas não iria agüentar suas últimas
acusações. O seu passado nunca fora um problema para ela... Nunca! E se alguma vez
Kim imaginou ser melhor que ele, foi apenas quando Diego resolveu utilizá-la como troféu.
Com o seu pai longe do país durante um mês inteiro, Kim quase se esquecera da
sua sombra.
E ele só chegara naquele mesmo dia. Portanto, Jeremiah estaria sabendo de tudo
pela primeira vez.
Ela sorriu quando seu pai se aproximou, e uma sensação de derrota a invadiu.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Passou uma das mãos pelo ventre. Foi impossível evitar o gesto.
Jeremiah exalava raiva por todos os poros, o que não era estranho. No entanto, sua
raiva costumava ser dirigida a Liv.
Kim lhe ofereceu o rosto para ser beijada, como sempre fazia, mas ele não a beijou;
simplesmente ficou olhando para a filha. A fúria de Jeremiah parecia perfurar seu
estômago.
— Você perdeu completamente a cabeça, Kimberly? — perguntou ele, em tom
duríssimo. — Eu fico fora um mês e você acaba com a sua vida, e também com a sua
empresa?
Ela respirou fundo antes de responder:
— Pai, isso deve soar terrível aos seus ouvidos, mas eu estou fazendo o possível
para controlar os danos. Sinto muito que você tenha recebido a notícia dessa maneira.
— Sério? Você sente muito? As notícias que estou recebendo das minhas duas
filhas são inacreditáveis.
— Sei que dei um passo em falso, mas a verdade é que...
— A menos que você me diga que tudo o que ouvi é mentira, não precisa dizer nada.
— Ele a observava dos pés à cabeça. — Você fugiu do seu casamento, ficou grávida de
sabe lá quem... Após tudo o que ensinei você provou que não é nem um pouco melhor
que o lixo da sua mãe. As minhas filhas não deveriam fazer esse tipo de coisa... Muito
menos a filha de quem sempre tive tanto orgulho.
Com o coração na boca, Kim agarrou as mãos do pai. Ela não era como a sua mãe,
não era uma mulher fraca.
— Ele não é alguém que apareceu do nada, pai — disse ela, que pela primeira vez
admitia esse fato para si mesma.
— Quer dizer que é verdade?
— O quê?
— Você se casou com ele, há seis anos. Ele é o pai do seu... Filho.
Ela fez que sim
— Diego é o pai do meu filho. E sim, nosso casamento ainda é válido.
— Sendo assim, acho melhor você resolver os problemas com ele e arrumar essa
bagunça. A última coisa que quero é ter um neto bastardo.
— Farei isso, pai. Prometo. Eu posso te ligar...
— Não me ligue até conseguir sair das notícias. Se não conseguir, você estará tão
morta para mim quanto sua irmã.
Fazendo que sim com a cabeça, Kim se recostou na parede mais próxima no exato
momento em que ele foi embora.
Kim respirou fundo, lágrimas surgiram nos seus olhos. Só poderia ser coisa dos
hormônios... Pois a reação do seu pai não devia ter sido uma surpresa. Ela já o vira fazer
coisas semelhantes com Liv.
Recentemente, Kim decepcionara muita gente: Liv, Alex, o seu pai e a si mesma...
Pelo visto, Diego era o único que não ligava para as conseqüências.
Ela girou a cabeça e o viu. Diego observava o seu pai indo embora.
E ele não acreditava no que vira. Um pai nunca deveria dizer aquelas coisas a um
filho, nunca.
Queria dar um soco em Jeremiah.
Em outra época, teria dado... Mas ele já não era esse tipo de homem. Diego
prometera à sua mãe que se livraria da violência, que nunca mais se envolveria em lutas
físicas.
Embora manter tal promessa fosse tarefa dura.
Kim parecia assustada, muito assustada. O seu vestido era mais colorido que o seu
rosto. Ele pousou uma das mãos em seu ombro e perguntou:
— Você está bem?
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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— Estou perfeitamente bem — respondeu ela.
— Você estava se desculpando quando ele disse as piores coisas possíveis...
— O meu pai é assim.
Diego deu um passo atrás, franzindo a testa.
— Ele falou coisas horríveis na frente de muita gente. Por quê? Porque dormiu
comigo? Porque está grávida? Porque perdeu o controle uma única noite? Você é a
presidente da sua empresa... Quer dizer que ele sempre foi assim?
— Sempre, mas o alvo costumava ser minha mãe, e depois minha irmã.
— E você, nunca?
— Nunca dei motivo... Nunca fiz nada errado. Eu fazia tudo o que ele pedia. E fazia
bem.
— Quer dizer que não está chateada?
— Estou chateada porque dei um motivo a ele. Mas você já sabia que estou
arrependida do que fiz...
— Você o está defendendo?
— O meu pai é o responsável por todo o sucesso que alcancei. Se ele não tivesse
me dado força, como sempre deu, eu não seria... Nada. Essa é a forma que ele encontrou
de me dar avisos.
— Você comete um erro, se é que isso pode ser chamado assim, e ele acaba com
você? Será que não enxerga, Kim?
— Está interpretando demais, Diego.
— Eu vi o medo nos olhos de Olivia. Foi ele quem plantou esse medo?
— Sim, foi ele. Aliás, você sabe onde ela está?
— Com Alexander.
— Sempre fiz o melhor que pude para proteger Liv... E a melhor maneira foi jogar o
jogo do meu pai.
Por que Kimberly tinha de proteger a irmã? Por que tudo em sua família parecia
recair em suas costas?
— E você se transformou na mulher perfeita.
— Será que ele é muito diferente de você, Diego?
— O seu pai é um idiota da pior qualidade. Eu participei de brigas de rua, sim, mas
foi para sobreviver.
— Não estou dizendo que você seja um idiota. Apenas sugerindo que todos vocês
parecem querer a mesma coisa de mim: os meus êxitos, os meus ganhos, as minhas
capacidades. Foi por isso que você se casou comigo, há seis anos, foi por isso que Alex
me escolheu para ser sua esposa, foi por isso que meu pai começou a aprovar tudo o que
eu fazia.
Mais uma vez, entravam no campo das acusações.
Ela engoliu em seco, depois respirou fundo. Sua cabeça estava repleta de
questionamentos.
De repente, a perspectiva de Diego mudava de forma radical.
— Acho que já tive emoções demais esta noite — disse ela. — Vamos embora?
Ele fez que sim e a levou à saída, com a palma da mão nas suas costas.
Kim estava linda, lindíssima, com cada curva do seu corpo bem visível naquele
vestido maravilhoso. Apesar de tudo, o seu caminhar continuava sendo admirável.
Ele se lembrou da noite em que a conheceu, naquele cruzeiro, seis anos atrás... E
tal lembrança o atingiu como uma droga pesada, deixando-o perdido.
Kim estava sozinha no deque, longe do resto da multidão. O vento batia no seu
cabelo...
Nada do que costumava atrair meninas de 19 anos, como bailes ou bebidas atraíam
sua atenção. Ela parecia incrivelmente só, e Diego a observou durante quase uma hora,
antes de se aproximar.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Aquela noite, eles simplesmente disseram seus nomes um ao outro, mas ele passou
duas horas tentando arrancar um sorriso de Kim. Quando ela finalmente sorriu, Diego
sentiu uma satisfação enorme. Sentiu-se o dono do mundo.
Naquele momento, porém, Kim estava ferida pelas acusações do pai, embora os
motivos alegados fossem uma loucura.
Diego queria agarrar-lhe os ombros e sacudi-la, mas sacudi-la com vontade, até que
ela entendesse que não precisava da aprovação do pai. Diego queria beijá-la até que
seus lindos olhos voltassem a brilhar, voltassem a emitir aqueles raios repletos de lógica e
desejo. Mas não poderia fazer isso, pois queria manter a sua mente intacta.
Era difícil lidar com o fato de que conhecia tão pouco a mulher com quem se casara
havia seis anos.
Existiria algo mais na separação deles dois? Seria ele o culpado de alguma coisa?
Sendo assim, por que Kimberly afetada não reclamava diretamente com ele?

CAPÍTULO 6

Kim se levantou da luxuosa cama do quarto de hóspedes de Diego — um dos seis
quartos de hóspedes que ele mantinha em casa. Deu uma olhada no despertador. Sete e
cinco da manhã.
A governanta de Diego, Anna, falara sobre uma piscina na varanda. Ela precisa
queimar um pouco de sua incessante energia.
No closet, que era do tamanho da sua sala de estar, ela pegou um biquíni. Assim
que trouxe suas coisas para a casa de Diego, a governanta arrumara o armário.
Dando uma olhada nos trajes moderníssimos, que comprara recentemente, ela
vestiu o biquíni.
Sabia por que se sentia daquela maneira. Coordenar sua mudança para a residência
de Diego enquanto ele estava fora de casa parecia à melhor idéia do mundo, mas Kim
não pôde fazer nada mais.
Ele gostaria da surpresa? E se tivesse mudado de idéia?
Após a cerimônia de premiação, ela passou dias imaginando que Diego faria alguma
manipulação para que ela se mudasse o quanto antes para a cobertura.
No entanto, ele simplesmente a surpreendeu com um desapontador silêncio.
E as palavras ditas por Diego durante a cerimônia, por outro lado, não saíam de sua
cabeça.
Da mesma maneira, não conseguia se esquecer da expressão no rosto de Liv.
Tudo o que Kimberly não queria era revelar a mínima fraqueza na frente de Diego.
Por isso se afastou da irmã, por mais que Olivia parecesse preocupada.
Em que momento Kim resolveu deixar de lado os pensamentos dos demais e
concentrar-se nos seus próprios? Qual era a fronteira entre ser forte e egoísta? Ela
continuaria mantendo Diego à distância?
O que faria quando o bebê nascesse? Seguiria mantendo suas prioridades à frente
de tudo?
Repetiria o erro cometido pela mãe?
Tais questões não saíam de sua mente. Porém, antes que perdesse o controle, ligou
para Anna e avisou que estava de mudança.
Lembrando-se disso tudo, vestiu o roupão e saiu ao corredor.
Chegando ao grande salão, suspirou. Enormes pilastras dominavam o ambiente,
oferecendo apoio a tetos altíssimos. A sala poderia ser um apartamento completo. O chão
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

era de mármore; as paredes de vidro se desdobravam em múltiplas vistas de Manhattan e
do Central Park.
Obras de arte modernas tomavam conta das paredes. Kim sorriu ao reconhecer
quadros de alguns artistas regionais brasileiros.
Aquele era exatamente o luxo espetacular que ela esperava de uma casa de Diego,
mas ainda assim era diferente. Não havia ostentação. Apenas uma simples e delicada
elegância... Junto com uma foto de lutadores nas ruas do Rio de Janeiro, que refletia a
natureza de Diego.
O melhor, no entanto, era que a cobertura era tão grande que ela poderia passar um
bom tempo sem vê-lo.
Ao entrar na varanda, alguém surgiu das sombras. Kim imaginava estar sozinha com
Anna, por isso deu um passo atrás e engoliu em seco.
Era um adolescente, com os bíceps repletos de tatuagens elaboradas e um rosto
familiar. Kim ficou de boca aberta.
— Você é a esposa de Diego? — perguntou ele, com um sotaque tão forte que ela
teve dificuldade para entender, mas fez que sim com a cabeça.
O garoto se aproximou. Os dois ficaram muito perto um do outro.
— Meu nome é Miguel — disse ele, mantendo um sorriso perpétuo no rosto, quase
lascivo. — Se você ficar... Entediada com Diego... Pode me ligar. Eu vou te tratar bem.
Ela ficou paralisada, sem piscar.
— Muito prazer, Miguel — disse, por fim
A ampla varanda estava banhada pelo sol. Assim como os arranha-céus de
Manhattan, a vista era de tirar o fôlego, além de oferecer a paz que ela queria.
A piscina chamou sua atenção. Uma das bordas acompanhava a linha do edifício,
precipitando-se sobre as ruas de Nova York. O coração de Kim batia como um tambor.
O adolescente desapareceu. No entanto, de repente, ela ouviu um barulho na água.
Era Diego, que olhou para ela e perguntou:
— Está tudo bem?
— Sim, está tudo bem. Eu só...
— Você veio nadar?
— O quê? Ah, não... Quero dizer, sim. Eu vim nadar. Mas não vim do meu
apartamento.
Ele franziu a testa e perguntou:
— De onde você veio, então?
— Anna não lhe contou? Eu me mudei quando você foi para... Sei lá para onde você
foi.
Com extrema agilidade, ele saiu da água. Como Kim imaginava, Diego estava nu.
Kim engoliu em seco e fechou os olhos. Porém, após ter visto de relance aquele
peito musculoso, sentiu um calor no seu sexo. E isso não ajudava nada.
Aquele homem era uma maravilha...
— Pode abrir os olhos.
E ela abriu.
Uma toalha branca estava dependurada na cintura de Diego. Ele se aproximou do
bar da piscina, em silêncio. Os músculos de suas costas se moviam em um ritmo perfeito.
Aquela tatuagem nas costas de Diego, aqueles seus ombros largos... E pensar que
ela já passara os dedos naquele corpo, já sentira o gosto daquela pele com a língua.
Seis anos tinham se passado. Seis anos!
— Essa tatuagem... Essa água... O adolescente que estava por aqui, ele...
— Miguel? Vocês se conheceram? Ele disse algo assustador?
— Não... Mas eu tomei um susto, pois não esperava...
— Foi só isso?
Ela fez que sim com a cabeça.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Kim sentia um calor invadindo seu corpo, seu coração saltava no peito. Precisava
mergulhar naquela piscina.
Ele a encarou, com uma expressão séria no rosto.
Com aquele peito glorioso à sua frente, era complicado para Kim concentrar-se em
sua fisionomia.
— Vou encontrar alguma coisa para ele. Anna está cansada, e Miguel está a apenas
algumas horas nesta casa. Deve ter sido por isso que ela não me contou sobre sua
mudança. Ele não lhe fará mal, mas eu sei que você fica nervosa com gente ao seu redor.
— Eu disse isso? — perguntou ela. — Eu sabia que seria má idéia... Você tem as
melhores intenções, mas nunca...
— Espere. — Diego passeou os dedos pela cintura de Kim.
Ela fechou os olhos, sem forças para dizer o que quer que fosse.
— Eu não queria chateá-la. Esta casa é sua, eu quero que você se sinta feliz e em
segurança aqui dentro.
Kim respirou fundo, querendo aprisionar uma boa sensação que atingira o seu peito.
Pela primeira vez em sua vida, Kim se sentia cuidada.
— Quando nosso casamento deu errado... Éramos apenas nós dois. Agora existe
alguém mais envolvido. Você está me entendendo, Kim?
Ela fez que sim, engolindo seu desapontamento.
— Não me preocupo com isso. Este apartamento é enorme. Se eu não quiser, nem
preciso vê-lo. Ah... Obrigada por se preocupar comigo.
Diego estava certo. Aquela história não tinha nada a ver com o que eles queriam.
Quando Diego fez que sim com a cabeça, ela agarrou a cintura dele e disse:
— Eu agradeço o seu apoio desde... Desde que você soube que estou grávida. Você
está sendo maravilhoso.
Diego sentiu uma enorme vontade de beijá-la, de tocá-la, de invadir o seu corpo.
Mas resolveu dar um passo atrás. Não queria prolongar aquele tormento.
Percebendo, ela disse a primeira coisa que veio à mente:
— O que aconteceu com o rosto do Miguel?
Ele parou e girou o corpo, surpreso. Por que o interesse naquele adolescente era
tão chocante para Diego?
— Ele começou a participar em lutas de gangues na semana passada. Com tudo o
que está acontecendo; eu não pude evitar.
— Miguel tem a mesma tatuagem que você. Ele faz parte da mesma gangue em que
você estava?
— Sim
Afastando-se de Kim, ele pegou uma camiseta branca e a vestiu.
Kim ficava ainda mais curiosa com a aparente recusa de Diego a entrar no assunto.
— E você tirou esse menino das ruas?
— Sim...
— Mas ele não queria?
— Eu o forcei a deixar para trás a única vida que conhece. E preciso ficar de olho
nele. Como disse; Miguel não lhe fará mal. Mas esse menino tem algo contra mim...
— Agora tudo faz sentido.
— O que está querendo dizer?
Ela foi tomada por uma satisfação perversa.
— Em um primeiro momento... Eu imaginei que fosse a antiga atração pela mulher
mais velha, sabe? — perguntou Kim — Mas agora entendo que tem algo a ver com você.
No entanto, devo admitir que, mesmo com o rosto coberto de cicatrizes, ele é bonito. E
me fez uma proposta muito interessante.
— Você disse que ele não tinha dito nada.
— Ele não falou nada assustador.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

— E o que ele disse?
Kim sorriu, adorando aquele momento.
— Pare de agir como se você fosse um homem das cavernas simplesmente porque
ele conversou comigo. Se você parar, eu conto tudo.
Diego fechou os olhos, segurou a beira da pia e contou até dez. No dois, ele se
lembrou do rosto sorridente de Kim. No cinco, de suas longas e tonificadas pernas. No
oito, do seu roupão de seda colado no corpo. A imagem de pura luxúria ficara pregada à
sua retina.
Deus, que tentação... E ainda por cima estava na sua casa, transformando aquele
espaço em seu território.
A sua viagem ao Rio de Janeiro, para ver seu meio-irmão no hospital... Tudo isso foi
determinante para que Diego decidisse aceitá-lo em sua casa. Diego sabia o que esperar,
mas nunca conseguia se livrar da imagem de Eduardo.
Agora, tinha Miguel ao seu lado... E não poderia cometer erros na condução de um
adolescente.
Ele só poderia estar louco ao convidar Kim para morar na cobertura, ainda mais
imaginando que seria capaz de controlar sua libido.
— Diego?
Ele engoliu em seco, pego de surpresa pela voz rascante de Kim.
— O que ele lhe disse?
— Que posso contar com ele... Se você me deixar entediada.
— Isso não é uma brincadeira. As mulheres, como os pássaros e as terras, são
possessões muito valiosas neste mundo. Você é um desafio atirado na minha direção.
Ela franziu a testa, demonstrando interesse.
— Mas você veio do mesmo lugar que ele e nunca me tratou dessa maneira. Na
verdade, com você foi o oposto.
— Como eu a tratei?
— Como uma princesa.
— Mas nem assim você... — Não, Diego não iria de novo transformar aquilo em uma
discussão. — Isso tem a ver com minha mãe. O que existe de bom em mim tem a ver
com ela. Aos 10 anos, eu via como o meu pai a tratava, e era terrível. Dessa maneira,
aprendi que devemos respeitar as mulheres.
— Nossa... Você... Você nunca...
— Eu nunca o quê? Por favor, eu quero que você me conte.
— Aquele cruzeiro... Eu aceitei fazer para que Eduardo se divertisse. Mas você foi
um presente que caiu no meu colo. Na primeira semana, tive medo de tocá-la.
— Foi por isso que demorou tanto para me beijar? — Kim soltou uma gargalhada. —
Só faltava eu estar usando uma camiseta com os dizeres: “Sou virgem, mas quero deixar
de ser em uma semana.”
— Eu não me lembro de você ter sido tão direta.
— Não seria uma surpresa. Todas as mulheres daquele cruzeiro estavam loucas por
isso. A competição teria sido dura.
— O que as mulheres queriam?
— Carne fresca. Carne masculina fresca.
— Ah... Entendi...
— Palavras de Liv. Dois minutos depois de encontrar você, entendi o que ela queria
dizer. Mas agora, com você fora de forma... Acho que podemos passar o título a Miguel.
Sem pensar duas vezes, Diego a beijou.
Um mínimo contato entre eles era capaz de lançar faíscas. Ele a puxou para mais
perto e devorou sua boca.
Kim cravou os dedos nos braços de Diego.
As mãos dele roçavam sua cintura, subindo à curva dos seus seios.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Kim era pura maciez e, beleza.
Vencendo o tecido do biquíni, ele lhe acariciou os seios.
— Meu Deus... Basta eu tocá-la e... — Diego começou a beijar sua nuca, mas Kim
se afastou, com o cabelo revolto, encarando-o, quando as luzes da varanda piscaram.
— Deve ter sido Miguel, certo?
— Sinto muito...
— Não. Foi bom ele ter nos interrompido. Claro que eu merecia um beijo, mas você
não vai querer me dar tantos pontos.
Ele ergueu uma das sobrancelhas.
— Você se esqueceu? — perguntou Kim — Pontos sexuais por bom
comportamento. Você me beijou porque me mudei para esta cobertura, certo? Ou será
que se esqueceu do seu...
Ele estava ficando louco. Sua esposa era deliciosa, não havia outra palavra para
defini-la.
Como tudo o que vestia, o biquíni era perfeito para o seu corpo, mas ela voltou a
atar o cinto do roupão.
— Fique e aproveite a piscina, Kim. Preciso conversar com Miguel.
— Esqueci de perguntar: como vai Eduardo?
Só de ouvir o nome do meio-irmão Diego sentiu um arrepio na pele. A sensação de
culpa era enorme.
— Ele está em uma clínica de reabilitação, em São Paulo.
— O quê? — perguntou ela. — Por quê?
— Eduardo vem recebendo tratamento contra o vício em cocaína.
— Eduardo é viciado em cocaína? Mas ele costumava ser tão... Que tristeza! Ele
sempre foi muito amável comigo.
Amável — eis uma palavra perfeita para descrever Eduardo.
O seu irmão sempre fora um bom menino, mas eternamente intimidado pelo homem
que deveria protegê-lo... E Diego só descobriu isso tarde demais. Diego deveria ter
protegido Eduardo.
No entanto, por culpa de Diego, o irmão tomou o caminho da autodestruição.
Mas Diego não desistiria. Isso nunca. Se Eduardo perdera a vontade de lutar pela
própria vida, Diego lutaria pelo irmão. E usaria cada centavo que tivesse para trazer
Eduardo de volta à vida.

CAPÍTULO 7

Kim fechou os olhos com força e tentou se lembrar de tudo o que lera no último mês.
A pequena Jennie estava nos seus braços.
Fora uma boa idéia ter pedido a Laura, uma amiga arquiteta, que lhe permitisse
tomar conta de sua filhinha Jennie durante duas horas. Kim passara um mês lendo muito
sobre cuidado de bebês.
Estava pronta para um teste prático.
Não, não estava pronta.
A testa de Kim ficara empapada de suor. Os seus braços doíam.
Ela se ajoelhou e pegou o papel no qual resumira as dicas de Laura, embora as
soubesse de cor.
Kim esquentou o leite perfeitamente, experimentou em seu pulso, deu mamadeira a
Jennie e chegou a tentar fazer com que arrotasse. Depois a deitou, para que tirasse um
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

cochilo. O ritmo foi perfeito.
Mas o cochilo durou apenas dez minutos, terminando com um choro estridente. De
acordo com o planejamento de Laura, Jennie devia ter dormido ao menos uma hora.
Com o bebê contra o peito, ela a ninou, imitando o que vira Laura fazer.
Mas Jennie chorava cada vez mais alto. Os músculos dos braços de Kim doíam
muito. Sua cabeça se achava a ponto de explodir.
A tensão era crescente. Ela deveria ligar para Laura e pedir que levasse a menina
para casa.
E você vai tentar se desfazer do seu filho quando ele chorar? Pensou ela.
Não, Kimberly nunca aceitava uma derrota. Nunca!
Kim ouviu a porta se abrir e girou o corpo. Era Diego, e ele franzia a testa.
— Eu demorei tanto assim? — perguntou ele.
— Você disse que iria a São Paulo.
— Minha viagem foi adiada. Que bebê é esse?
— Ela é...
— A filha de Laura, eu sei. Encontrei com ela na semana passada.
Kim fez que sim com a cabeça. Claro que ele conhecia Jennie. Era Kim quem nunca
se lembrava do nome da menina.
— Kim...
Ela suspirou. Jennie voltava a chorar.
— Eu me ofereci para cuidar dela durante duas horas.
— Por quê? — Diego arqueou uma sobrancelha.
— Achei que era hora de fazer um test drive, e Laura é mãe solteira.
— Está ensaiando porque está grávida?
— Mais ou menos.
— Não é um pouco exagerado?
— Devo me preparar.
— Para quê?
— Eu... Não sei o que há de errado com esta menina. Ela não para de chorar. Já dei
comida, já troquei a roupa, já ninei de todas as formas possíveis. Não sei mais o que
fazer.
O que ela queria, naquele momento, era devolver Jennie à sua mãe e fingir que
nada daquilo estava acontecendo.
Meu Deus, onde eu estava com a cabeça quando...
O choro de Jennie era incessante. O coração de Kim estava na boca. Diego não
parava de olhar para elas duas.
— Ela não para de chorar, Diego! — disse Kim, desesperada.
Ele pegou a menina nos braços e, pouco a pouco, Jennie foi se acalmando.
— Talvez você a estivesse segurando com muita força. Jennie devia estar sentindo
sua tensão.
— Ela já estava chorando quando a peguei no colo.
— Os bebês são muito sensíveis quanto ao humor e à personalidade das pessoas.
— O que isso significa?
Diego a encarou, depois respondeu:
— Isso significa que eles sentem quando estamos nervosos, quando estamos
cansados, estressados, sem forças... Entendeu? O que você sente, passa para o bebê.
Se você simplesmente...
— Tudo bem, eu entendi! — Os músculos do seu corpo tremiam, o seu peito estava
tão apertado que ela mal podia respirar. — Ela percebeu que eu preferia estar fazendo
outra coisa. — Kim suspirou. — É isso, certo?
Diego deixou a menina deitada no moises e acariciou-lhe o seu rosto.
Embora o seu passado tivesse sido repleto de pecados, sua nova vida reservava um
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

presente incrível.
O pior de tudo era se controlar quando estava ao lado de Kim. Suas mãos pareciam
ter vida própria, querendo acariciá-la a qualquer momento... E os dois tentavam se evitar
ao máximo!
Ela ainda não diminuíra as horas de trabalho, mas passara o último domingo em
casa vendo um jogo de futebol com ele e com Miguel — que conversou mais com Kim do
que o próprio Diego.
Pouco a pouco, ela parecia baixar á guarda, exceto quando Anna ou ele tocavam no
assunto “gravidez”. Nesse momento, ela se retraía. Não dizia nada. E várias vezes Diego
a surpreendera lendo artigos sobre maternidade em jornais e revistas.
E Kim pedira um bebê emprestado por algumas horas, pois sabia que Diego estaria
viajando, bem longe de casa.
Ele deu uma olhada na sala. Kim se sentara no sofá, com os ombros ainda rígidos
de tensão.
Diego se aproximou rápido.
— Eu queria olhar para o seu rosto, Kim. Deixe...
Lágrimas escorriam dos olhos castanhos de Kim.
Ele nunca a vira chorar. Nunca. Nem mesmo quando a humilhou, nem mesmo
quando a tratou mal, nem mesmo quando ela ouviu todas aquelas palavras rude da boca
do próprio pai.
— Deixe-me...
— Não... — murmurou ele. — Só quero olhar para você.
Kim pousou as mãos no peito de Diego e o encarou, com o rosto úmido de lágrimas.
Algo a atingira em cheio. Kim parecia fora de controle. Ele a abraçou, esperando que
o tremor passasse.
O rosto de Kim estampava uma profunda exaustão.
Diego passou os dedos pela cintura de Kim, depois pelo cabelo. Ele sabia que o seu
toque não a machucava, mas ao mesmo tempo parecia impossível controlar essa mulher,
atingir o centro das suas emoções.
Ela o reduzira à sua essência, e permanecia intocável de certa maneira, inatingível.
— Você não para de tremer, Kim
— Passei a noite inteira trabalhando e nem tive tempo de tomar um banho quando
voltei para casa.
— Não está trabalhando demais para aceitar um extra de babá?
— Eu só... Só queria ver se agüentava por algumas horas.
— Meu Deus... O que está acontecendo com você?
Silêncio...
Diego franziu a testa, resistindo à vontade de agarrá-la pelos ombros. Nunca a vira
daquela maneira.
— Você parecia a ponto de se entregar. Responda minha pequena... O que está
acontecendo?
Lágrimas rolaram pelo rosto de Kim.
— São dois Diego.
— Dois? Dois ô que, gatinha?
— Dois corações.
— O quê?!
— Fui ao médico hoje, para um exame de rotina... E ele fez uma ultra-sonografia.
São dois Diego. Gêmeos.
Ele ficou mudo, como se não acreditasse no que ela dizia.
Impossível compreender a magnitude daquela notícia.
Fora um choque saber da gravidez, mas aquilo era uma bênção excepcional. Pela
primeira vez em sua vida, ele teria a chance de fazer algo bem-feito, e desde o início.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Diego abraçou Kim e beijou-lhe a boca, sentindo o gosto salgado de suas lágrimas.
Em seguida se afastou, perguntando:
— Foi por isso que você pediu Jennie emprestada?
Ela ergueu o rosto, fazendo um esforço para encará-lo.
— É impossível alcançar a perfeição nesse assunto, minha gatinha. As pessoas
simplesmente tentam fazer o melhor possível.
— Mas isso não é suficiente, certo? Ter boa intenção não basta. Você me disse que
sua mãe não tinha dinheiro para alimentá-lo bem... Mas que você nunca se importou, pois
sabia que ela o amava.
— E nós vamos amar os nossos filhos. Não precisamos ser os pais perfeitos,
simplesmente devemos amá-los o suficiente.
Ela não conseguia dizer nada. Seu corpo estava em frangalhos.
— Seja lá o que a estiver assustando, saiba que vou ajudá-la, gatinha. Mas pode me
dizer: qual é o problema?
— Não sou boa com bebês, e nunca serei. Por isso é bom que você esteja por perto.
Caso contrário, nossos filhos não vão parar de chorar. E eles acabarão como eu: odiando
a mãe que têm.
Diego sentiu um aperto no peito e respirou fundo.
— E você acha que o seu cansaço não tem nada a ver com isso?
Ela mordeu o lábio inferior.
— Você aceitaria ser pai 24 horas por dia?
— E você? O que faria?
— Todo o resto. Eu posso trabalhar; cozinhar, limpar a casa... Não sinto nada, Diego.
— O que está dizendo?
— Pelos bebês. Não sinto nada por eles.
Ele engoliu em seco, sem saber o que dizer.
— Tudo o que sinto é um vazio, como se não existisse nada dentro de mim. Eu
deveria estar acostumada com a idéia. Num primeiro momento, imaginei que a culpa
fosse à raiva que sentia de você. Mas não... A culpa é minha. O problema sou eu. Tenho
medo de me olhar no espelho e ver mudanças no meu corpo. Os meus colegas de
trabalho estão mais animados do que eu. O meu médico está mais animado que eu. E
agora são dois... E se eu nunca sentir nada por eles? E se nunca conseguir amar os
meus filhos? Eu preferia morrer antes de...
— Não diga nada...
Era terrível vê-la dessa maneira. Tanta dor...
A indiferença de Kim quando o assunto era a gravidez não passava de um incrível
disfarce para aquele terrível pânico.
Ele sentiu uma pontada de arrependimento.
— Você construiu uma empresa milionária do nada, baseando-se no seu talento e
no trabalho duro. Não me diga que os problemas com Jennie indicam que não será capaz
de amar os seus filhos.
— Passei anos me afastando de todos os sentimentos, tanto que acho que nada é
capaz de me atingir.
— Isso não faz sentido. — Diego acariciou-lhe o pescoço. — Você cuida da sua
irmã. Você me disse que sempre a protegeu das garras do seu pai. Quando os bebês
chegarem, tenho certeza de que...
— Se Liv sofreu nas mãos do meu pai, a culpa foi minha. Protegê-la é um dever.
Nada mais que isso.
— O que está querendo dizer?
— Você acha que é a única pessoa assolada pela culpa?
Diego parecia, como sempre, incapaz de compreender aquela mulher.
Sentindo que Diego se aproximava, Kim escapou. Os seus joelhos tremiam, mas ela
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

não agüentaria aquele abraço.
A sensação era ótima, mas poderia ser perigoso.
Morar com ele seria assim. Ela teria que reaprender a arte de sobreviver.
— Como você conseguiu ser tão bom nisso? — perguntou ela.
— Marissa sempre tinha um bebê por perto, e acho que aprendi algumas coisas ao
longo dos anos.
— Marissa?
Ele fez que sim com a cabeça, devagar.
— Vocês... — Kim engoliu em seco, sentindo um nó na garganta e uma acidez no
estômago. — Durante todos esses anos, vocês...
Ele deu de ombros.
— Ao longo dos anos, nós vivíamos nos esbarrando. Entre esposas que fugiam,
mortes e até... — Ele abriu um sorriso. — Ela é muito maternal.
A última frase foi como uma faca sendo cravada no peito de Kim.
— E vocês se separaram por minha causa?
— Porque você está grávida de dois filhos meus. Quando fiquei sabendo do seu
casamento, me enfureci. Marissa não gostou da minha reação e me deu um ultimato. Eu
deveria esquecer você se quisesse ficar com ela.
— Mas isso quer dizer que... Que você não foi à ilha para... Para dormir comigo...
— Não. Eu queria vê-la pela última vez, queria que você visse no que me
transformei. Queria entregar-lhe os papéis do divórcio e ir embora. Porém, quando a vi,
tudo mudou.
— E eu engravidei, e isso arruinou os planos de vocês.
Diego se levantou do sofá e disse:
— Seria muito mais fácil se eu pudesse culpar você, mas nós dois estávamos lá.
— Por favor! Deixe de lado essa honra fajuta. Eu preferia ter visto ódio nos seus
olhos.
— Eu feri Marissa, Kim, não você. Ela só pediu que eu terminasse tudo com você.
Marissa queria que eu deixasse para trás minha obsessão por você, minha recusa a
deixá-la em paz. Mas eu... Arrasei o coração dela, e não posso reparar esse dano. Vou
viver a minha vida inteira com essa culpa.
Diego deu um passo atrás, afastando-se de Kim
— Vou chamar Anna. Ela cuidará de Jennie. Coma algo e descanse Kim. Pense nos
bebês.
Kim se sentou no sofá e ele fechou a porta.
Tudo o que ela queria era que Diego voltasse a ser o mesmo homem rude de
sempre.
Como poderia resistir ao novo Diego Pereira?
Ele a abraçara; tentara fazer com que ela se sentisse melhor, demonstrara
preocupação genuína.
Mas Kim não queria depender de ninguém, não queria se entregar.
Suas pernas tremiam. Ela precisava de Diego em sua vida. Aliás, queria Diego em
sua vida.
No entanto, a verdade era que ele só estava ao seu lado por honra.
Ela, Kim, não tinha o poder de mantê-lo por perto.

CAPÍTULO 8
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Aquela seria sem dúvida, uma festa do sexo. Diego não tinha outro nome para dar.
Seus pensamentos passaram de levemente curiosos a uma agitação tremenda
quando o segurança checou sua identidade na entrada e anunciou que o ingresso
custava dez mil dólares.
Ele gastara a maior parte da noite tentando encontrar Kim. Eram 10h30 da noite, e
aquele era o lugar para onde fora levado.
A festa acontecia num loft de dois andares, em Manhattan, e Diego foi obrigado a
fazer muitas ligações para encontrar. Ele foi atrás de uma garçonete vestida num traje de
empregada francesa servindo hors d’oeuvres.
A música leve e sensual transmitida pela sala ricamente atapetada vinha de caixas
de som escondidas. Luzes de néon cor-de-rosa estrategicamente colocadas no teto baixo
banhavam o ambiente, iluminando o mobiliário de estilo retro e um bar. Era tudo muito
elegante, com uma atmosfera parisiense de alta classe.
O andar de baixo estava lotado de futons encostados nas paredes retro chique, e no
canto, uma mulher magra e vestida exoticamente massageava com óleo as costas de um
homem. Do outro lado do bar lotado, numa grande pista de dança, pelo menos vinte
casais esbarravam suavemente uns nos outros.
Ele trincou os dentes e afrouxou a gravata. Que diabo Kim fazia ali? Isto era para
compensar a vulnerabilidade que ela não conseguira esconder no dia anterior? Ou era um
ato de desafio para irritá-lo porque ele organizara o seu dia hoje?
Diego olhou para cima, pela escadaria curva, em direção ao piso superior. Cada
músculo do seu corpo se contraiu quando seu olhar caiu em mais de um casal ficando
quente lá em cima, seus gemidos sendo acrescentados à música soul no andar inferior.
Um frio súbito atingiu Diego. Em que andar estaria Kim?
Passando a mão na nuca, ele foi até a sala mal iluminada. Não tinha idéia do que
faria se não a encontrasse no andar de baixo. Todos os seus instintos primitivos estavam
afiados para o fato de que ela estava ali, quanto a isso não restava dúvida.
Se ele a encontrasse com... Não, não devia nem pensar nisso.
Chegou à borda externa da pista de dança, procurando por ela. Congelou na
multidão quando enfim a localizou. Kim estava bem no meio de todos, com as mãos
acima da cabeça, movendo-se em ritmo perfeito com a música, enquanto um homem
muito bem-vestido envolvia sua cintura.
Seu sangue rugia nas veias. Ela é minha, a parte pouco civilizada nele rosnava.
Kim só estava dançando, Diego disse si mesmo, antes que cedesse ao impulso de
bater no homem que a tocava. Um troglodita, exatamente como Kim o chamara.
Ele caminhou devagar pela multidão.
Com os olhos fechados e as pernas arqueadas, ela se movia com uma combinação
irresistível de graça e sensualidade que acendia o seu sangue. Cada músculo de seu
corpo se contraía com uma fome avassaladora.
Seu cabelo brilhava como seda. Sua boca estava pintada de um vermelho escuro
vívido, quase preto, que não parecia com nada que já tivesse visto nela. Normalmente,
seus lábios brilhavam com um pouco de brilho. Um vestido de couro preto envolvia cada
centímetro do corpo de Kim, destacando seus seios, mal cobrindo suas nádegas.
O vestido tomara que caia e as curvas expostas de seus seios era a visão mais sexy
da sua vida.
Seu rosto se mostrava diferente também, com uma maquiagem mais pesada do que
o usual.
Em geral, a falta de maquiagem só servia para aumentar a vibração gelada que ela
projetava.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Naquele dia, porém, era o oposto: aquela roupa, a maquiagem, tudo sinalizava
disponibilidade sexual.
Ela parecia à fantasia mais obscura de Diego se tornando realidade.
A luxúria o dominou. Tudo o que ele queria era puxar o vestido para baixo, até que
seus seios pousassem em suas mãos, até que ela estivesse exposta para ele, e em
seguida mergulhar nela, até que nenhum deles pudesse recuperar o fôlego, até que o
rugido em seu sangue cessasse.
Diego se aproximou, sem piscar, com o coração batendo forte, sua pele vibrando
com o desejo. O olhar de Kim pairou sobre ele. Deus... Ela o reconhecera!
Ele pisou na plataforma elevada, segurou o homem que dançava com ela pelo
colarinho e o tirou do caminho. Ele tocou seu rosto e inclinou-se com brusquidão.
— Você está alta?
— O quê? — Mesmo diante daquela pergunta ela pareceu diferente. — Claro que
não.
Ele a cheirou. Nada além de um aroma erótico de sua pele se fundiu em suas
narinas. Sua calça jeans parecia incrivelmente apertada.
— Você está bêbada? — perguntou, observando uma nota rouca em suas próprias
palavras.
Ela fez que não com a cabeça, com algo perigoso avançando em seu olhar. Passou
a mão sobre a barriga, levando o olhar de Diego para o vestido novamente.
— Se veio até aqui para estragar minha diversão...
Diego a bloqueou enquanto ela se afastava, e os seus seios roçaram o peito dele.
Fechou os dedos em torno de seu braço e puxou-a.
Kim se virou para encará-lo. Um raio iluminou a curva exuberante de sua boca,
deixando o resto de seu rosto na sombra.
— O que você está fazendo?
Ele baixou a cabeça e mordeu o lábio de Kim. Seu pênis doía pela rigidez. A
respiração sibilante dela parecia música aos seus ouvidos.
— Estou levando você para casa.
Ela ficou parada e ele afrouxou os dedos.
— Não estou pronta para ir embora.
— Está sim.
Ela era sua, sabendo disso ou não, gostando ou não. E não apenas porque seria a
mãe de seus filhos.
Kim apertou a jaqueta de couro de Diego em torno do corpo e saiu da limusine. Uma
rajada de vento a alcançou. Ela cruzou as mãos contra a barriga, a boca aberta, enquanto
notava que o caminho da festa até lá tinha levado muito tempo. Diego falara sem parar
em seu celular, silenciando eficazmente quaisquer perguntas que ela tivesse.
Estavam em uma pista de pouso particular. A equipe de terra terminava sua
preparação, e a aeronave começava a acelerar. Um tremor perpassou sua coluna.
Kim caminhou em direção a Diego, que ainda falava ao telefone.
O olhar dele á percorreu mais uma vez, inescrutável.
— O que está acontecendo?
Ele desligou o celular.
— Tenho algo urgente para cuidar.
O estômago dela se contraiu.
— Então vá. Eu vou me despedir com um sorriso...
— Você vem comigo. Pode descansar em um spa, nadar em uma praia, comprar
roupas de grávida... Entre outras coisas.
Sua pele queimou pelo duplo significado da última parte.
— Tudo o que você deveria estar fazendo — disse ele.
— Gosta de mandar em mim, não é? Eu não vou a lugar algum com você.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Diego deu um passo em direção a ela e apoiou-a contra a limusine. Segurou a mão
de Kim e entrelaçou seus dedos. Ela suspirou.
— Eu estava preocupado com você. Ainda estou. Então, cale a boca e aceite.
Seu coração batia forte. O calor a inundava. Ninguém jamais se preocupara com ela.
Nunca.
Na verdade, sempre fora trabalho seu se preocupar com os demais.
Primeiro, ela se preocupou com a mãe, protegendo-a de seu pai. Após ter saído de
casa, tentou o seu melhor para proteger Liv da ira de seu pai. Ninguém nunca a
enxergara além do seu verniz de perfeição... Nem mesmo Liv, que se preocupava com
ela.
Com o polegar e o indicador, ele esfregou a testa de Kim.
— Chega de pensar tanto. Vai ficar comigo para que eu possa manter o olho em
você.
— Por quê?
— Você parecia fora de órbita ontem à noite... E agora também.
— Na noite passada, eu estava cheia de hormônios. Hoje estou excitada.
Um fogo líquido brilhou em seu olhar.
— Essas são as únicas cores do meu arco-íris ultimamente.
Diego riu, a covinha sexy em seu rosto piscava para ela.
— Mulheres cheias de hormônios e excitadas precisam de cuidados.
Aquele fora um dia muito estranho, e de muitas maneiras diferentes.
Uma vez que o zelador a trancara fora das instalações da sua empresa, Kim voltou
para o apartamento, furiosa. Afinal, durante os últimos seis anos, trabalhara todos os
sábados, exceto no dia em que fora ao seu casamento.
No momento em que terminou cada pedaço do sanduíche delicioso que Anna lhe
preparara, Kim percebeu, embora tarde demais, que tudo aquilo fora orquestrado por
Diego.
A total falta de sono da véspera significava que ela se comportaria como um zumbi
pelo resto do dia.
— Vim verificar duas vezes, e você estava dormindo. Qualquer pessoa veria que o
seu corpo precisa de descanso. Por que tenho de forçá-la a fazer isso?
Ela corou, com um calor espontaneamente jorrando do seu corpo. Ele a verificara.
Duas vezes. Kim deveria se ressentir de sua atitude arrogante. Deveria, pelo menos,
oferecer resistência simbólica. Mas não foi capaz de formular um protesto após aquilo.
Alguém a verificara antes? Aquela era a mesma sensação enfraquecedora de ser
cuidada... Uma sensação que a levara a se casar com ele seis anos atrás. Ela queria
estupidamente que esse sentimento durasse para sempre.
— E o que você estava fazendo lá?
— Eu estava ficando louca, depois de ter dormido o dia todo. Por isso, fiz uma lista
de tudo que preciso resolver antes que os bebês venham. Então eu...
— Vou curar você disso, nem que seja a última coisa que eu faça.
—... Comecei a pensar em todas as coisas que não vou conseguir fazer depois que
os bebês nascerem.
— Ir a um clube de sexo é uma delas? — A carranca de Diego se aprofundou. — O
que mais está presente nessa lista?
O surto de interesse em seu olhar a atingiu em cheio. A noite anterior fora terrível, e
de várias formas.
— Fazer sexo com um estranho era o número dois da lista, e sexo em um lugar
público, número três. Pensei que poderia matar dois coelhos com uma...
Ele se reclinou para frente, com todos os seus noventa quilos e sua masculinidade
concentrados nela. Um formigamento surgiu no fundo da parte inferior de suas costas e
avançou.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Suas mãos bateram em seu peito enquanto ele inclinava a parte inferior do corpo,
ficando mais perto de Kim
— Você está me provocando, pequena. Está pronta para as conseqüências?
Sua coxa, dura como pedra, ficou entre as coxas dela, o que provocou uma dor num
ponto exato. Kim emitiu um gemido e o empurrou. A sensação de músculos rígidos e do
trovão de seu coração debaixo de seus dedos era torturante.
— Tudo bem, tudo bem. Eu inventei isso — disse ela, segurando-lhe o queixo. —
Eu... Não sabia o que fazer sozinha. No entanto, se você pretende reorganizar minha vida
cotidiana, o mínimo que pode fazer é...
Seu olhar fixou em sua boca, e ele diminuiu a pressão de sua coxa.
— O quê? — perguntou Diego.
— Deixe-me apreciar isto do jeito que eu quiser.
— Covarde.
Um sorriso lento, que deveria vir com um aviso de prejudicial à saúde, cavou sulcos
profundos em seu rosto. Um calor glorioso se desvelou dentro dela. Kim adorava quando
Diego a olhava daquela maneira, quando sorria daquele jeito. Era como se ela fosse à
única pessoa no mundo que poderia fazer isto.
Era uma ilusão, na melhor das hipóteses; uma indulgência perigosa, na pior. Mas
Kim não podia lutar contra esse sentimento.
— Você morreria se eu pedisse, não é? Admita, mesmo que apenas por um
segundo, que queria me ver?
Ela sorriu; incapaz de resistir, naquele momento.
— Eu liguei para sua secretária. Ela não tinha idéia de quando você voltaria. Por
isso aceitei a oferta da Carla.
— A especialista em sexo da sua equipe... Carla estava lá também?
Kim bateu no peito dele diante do interesse exagerado em suas palavras.
Um carro parou ao lado de sua limusine, os faróis iluminando a pista de pouso.
Miguel saiu do sedã escuro, abriu o porta-malas e tirou uma mala rosa e bonita de lá.
Mala que, mesmo com pouca luz, parecia familiar.
— Essa é minha.
— Eu pedi a Anna que colocasse algumas coisas suas na bagagem. — Diego
acenou para Miguel, que desapareceu de volta no carro sem dizer uma palavra para Kim.
— Vamos.
Diego falava sério. Ele a estava levando para longe em um feriado. Kim não deveria
ficar tão feliz com isso, mas ficou.
— Mas eu...
— Você está tirando uns dias de folga. Quer gastá-los sozinha? Talvez entrevistar
mais algumas babás? Quer pegar outro bebê emprestado? Esquivar-se ainda mais das
ligações de Olivia?
O calor contraía suas bochechas. Kim estava ficando mais do que um pouco
obsessiva em seu planejamento para a fase de gravidez. Era como se ela pudesse, de
alguma forma, compensar a parte mais necessária de todas. E, a julgar pela forma como
Diego a olhava, ele sabia que estava ficando um pouco louca.
Pela primeira vez em sua vida, ela não queria ficar sozinha, não tinha mais forças.
— Não posso viajar assim, Diego. Eu dirijo uma empresa. O meu laptop...
Ele se virou.
— Está ali — disse ele, com um aceno de cabeça em direção a uma bolsa que ela
não notara; a bolsa do seu laptop.
Kim odiava quando alguém pegava aquela bolsa. Seu bem mais precioso estava lá
dentro.
Ela se moveu para tirá-la dele, mas Diego a segurou por trás.
— Vou avisar de novo. Este é um período de férias. Mary e Amber já foram
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

informadas.
Sua assistente e sua vice-presidente de operações.
— Vou enviar isto de volta com Miguel, a menos que você concorde que o tempo
que usará será limitado.
— Limitado? O que significa isso? — perguntou Kim, correndo atrás dele.
Diego parou ao pé da escada do avião, com a mão estendida em sua direção.
— Você vai poder usá-lo durante uma hora, todos os dias — afirmou ele.
Alcançando-o, ela fez uma pausa.
— O que devo fazer no resto do dia?
Com a mão segurando a dela, Diego sorriu, malicioso.
— Tenho certeza de que encontrará algo agradável para fazer — respondeu Diego.
Kim esperou até que estivessem acomodados no vôo e tivessem escolhido o jantar,
antes de começar a olhar ao redor de seu assento.
Sem perguntar, Diego sabia o que ela procurava. Ele não podia acreditar.
Aquela mulher realmente era uma workaholic.
— Onde está a bolsa do meu laptop? — Kim o encarou.
— Deve estar em algum lugar por aqui.
Com expressão ansiosa, ela soltou o cinto de segurança e se levantou.
Ele se inclinou para frente e agarrou-lhe a mão, fazendo-a parar.
— É disso que estou falando. O que é tão importante que você precisa fazer agora?
Com a outra mão, ela o empurrou.
— Não preciso fazer nada. — Kim parecia quase em pânico. — Eu só... Quero ter
certeza de que nada fique fora de lugar.
Ele a observou por alguns segundos, antes de responder:
— Está na cabine traseira.
Após alguns minutos, ele a seguiu, incapaz de manter sua mente em qualquer outra
coisa.
Kim se ajoelhou próximo à pequena mesa de cabeceira, ao lado da cama, e abriu o
laptop.
Sorrindo, Diego se ajoelhou ao lado dela.
— O que está procurando? — perguntou ele.
Arregalando os olhos, Kim congelou com a mão dentro da caixa.
— Ah, apenas um... Um velho CD de canções que fiz algum tempo atrás. Quero
fazer um upload para o meu iPod e... — Ela engoliu em seco quando ele não se moveu.
— Prefiro fazer isso sozinha.
Ele sorriu.
— Quer que eu saia para que você possa trabalhar? — perguntou ele. — Pois eu
não saio.
— Não importa. — Ela começou a fechar tudo. — Acho que o CD não está mesmo
aqui dentro.
Diego tomou o estojo de couro das suas mãos.
Kim o puxou de volta.
— Não, Diego... Não...
— Você está agindo de maneira muito estranha — murmurou ele, e abriu o zíper do
estojo do laptop.
Um envelope caiu, com uma logomarca que Diego reconheceu na hora. Era um
estúdio de fotografia no Rio de Janeiro, onde Diego costumava revelar suas fotos.
E onde ela revelara as fotografias das câmeras descartáveis que Eduardo e ela
levaram para o cruzeiro.
Kim agarrou o envelope e o colocou às costas, rápido.
Diego encontrou seu olhar, o peito incrivelmente apertado. A última coisa que queria
era se lembrar da dor que sentira quando ela se fora.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

A memória envolveu suas palavras com dureza:
— Estou surpreso ao ver que você não as queimou.
A dor brilhou em seu olhar. Kim se afastou dele, como se estivesse protegendo algo
precioso.
— Estas fotos estão catalogadas como “Erros que nunca deveriam ser repetidos”.
— Por que estão no seu laptop? — perguntou ele.
Sua resposta foi extremamente relutante:
— Quando arrumei minhas coisas para me mudar, eu as coloquei aqui, para mantêlas no trabalho.
E para que ele não as encontrasse, nem mesmo por acidente.
Com a raiva perpassando-o, ele fez um movimento brusco. O envelope caiu das
mãos dela, espalhando fotos ao seu redor. Cada uma delas mostrava Kim e Diego felizes,
sorrindo, como se o mundo ao redor tivesse desaparecido.
Ele pegou duas e as amassou.
Kim suspirou e puxou sua mão.
— Não... O que está fazendo?
— Vou fazer o que você deveria ter feito: rasgá-las e jogá-las no lixo.
Kim tremia.
— Não se atreva...
Ele pegou outra, fervendo por dentro. Estava prestes a rasgá-la ao meio, quando
Kim segurou seu pulso, apertando-o forte como um torno.
Ela fez que não com a cabeça, com fúria ardente estampada em seus olhos.
— Pare com isto, Diego.
Ele soltou a foto e puxou-a para si.
— Por que você foi embora?
— O quê?
— É uma pergunta que eu deveria ter feito anos atrás.
— Acredite em mim, a resposta não o deixará feliz. — Com um grunhido, ela
meneou a cabeça. — Deixe para lá, Diego.
— Não, a menos que você responda à minha pergunta. E quero a verdade desta
vez.
— Nunca menti para você.
— Você nunca me disse a verdade. Como o fato de que nunca dormiu com
Alexander.
Seu olhar voltou-se para ele, mesmo com os dedos ainda penetrando sua carne.
— É só isso? Você quer saber com quantos homens dormi na minha vida? Dois.
Você, primeiro, e outro cara, um ano depois que o deixei, porque eu não conseguia
esquecer você. Mas foi horrível. Então, está feliz?
Uma névoa vermelha desceu na frente dos olhos dele.
— Por que me deixaria feliz o fato de que você faria qualquer coisa para me tirar da
cabeça? Tudo o que você me deu... Sua palavra, uma promessa, ou mesmo um maldito
beijo... Tive que lutar por tudo isso. Mas quer saber? Eu lutei por tudo em minha vida, lutei
mesmo. Sendo assim, a menos que você queira que eu rasgue cada foto que estou vendo
aqui...
Seus esforços dobraram, Kim se aproximou; se esticou e, em seguida, inclinou a
cabeça para ver o retrato que ele segurava.
— Meu Deus, Diego, não se atreva...
Ele se afastou e ergueu a mão, olhando para a foto.
Seu estômago revirou.
Aquela foto fora tirada na noite em que ele fizera amor com ela. Por mais que
tentasse, Diego não poderia diminuir a importância daquela noite.
Será que ela sentia o mesmo? Por isso a foto era tão importante para Kim?
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Ele estava exausto de tanta adivinhação.
Diego a segurou com ambas as mãos. Já havia um pequeno rasgo na foto.
Kim bateu nele ao tentar alcançá-la.
— Devolva Diego...
— Não.
— Tudo bem. — Ela não gritou. No entanto, suas palavras vibravam com a dor crua
e desolação. — Fui embora porque você me transformou em um prêmio para desfilar para
o seu pai, em um troféu que significava uma vitória sobre sua infância.
— Você disse que eu a tratava como uma princesa.
— Sim... Uma princesa vestida com roupas brilhantes e exibida como prova de
status. A qualquer pessoa que perguntasse; você recitava minhas realizações, como se
fosse o meu currículo. Estava obcecado em assumir a empresa do seu pai, Diego.
Passava cada minuto desenvolvendo maneiras de obter mais acesso, mais informações.
E eu... Eu o amei, e você destruiu o meu coração.
— Como poderia ter feito isso? Eu estava pronto para me mudar, para que você
pudesse ir para Harvard. Eu queria lhe dar tudo o que tinha antes de...
— Eu não queria dinheiro, nem uma vida grandiosa. Não queria voltar para Harvard.
Eu queria ficar com você.
A cabeça de Diego flutuava com cada palavra que ela dizia.
— O quê?
— Tentei lhe dizer isto na semana passada. Tudo o que eu queria era estar com
você. Mas você não passava um minuto comigo. Todas as noites; íamos para algum baile
ou evento de caridade. Durante o dia, você desaparecia. Deus sabe onde. Fez todos
esses planos sobre como viveríamos nossa vida em Nova York... Mas eu não queria essa
vida. Quando o conheci, estava fugindo dessa vida. Liv tinha ido embora, e eu me sentia
muito só. Fui àquele cruzeiro por impulso e o conheci. Ninguém nunca olhou para mim
como você olhou... Mas, no final, você era igual a qualquer outra pessoa.
Diego se forçou para respirar apesar do peso em sua garganta. Kim tornou a
apertar-lhe o pulso, mas seu aperto era escorregadio, seus dedos tremiam. Ela respirou
devagar, suavemente, como se isso custasse muito esforço.
— Essa foto... — Suas palavras eram baixas, pesadas, desoladas. —... Representa
o momento mais feliz da minha vida, Diego. O único momento feliz. Então, por favor, me
devolva.
Com o coração na boca, Diego deixou a foto cair. Ela a pegou do chão, depois
apanhou as outras e as enfiou no envelope, rápido, como se não confiasse nele.
Diego fizera tudo o que ela dissera e muito mais. Ele chegara às suas próprias
conclusões sobre por que ela o deixara, permitindo que isso o apodrecesse por dentro.
Permitiu que suas próprias inseguranças cobrissem suas ações. Ele destruíra a sua
felicidade com as próprias mãos...
Tudo em busca da riqueza e do status que o roubara das duas pessoas que
realmente o amavam, que tinham se importado com ele.
Diego ergueu o queixo, com as mãos tremendo de raiva, impotente. Essa culpa
familiar o feria. Outra pessoa que ele machucara, outra marca negra na sua crescente
lista de pecados.
Acariciou a face de Kim, traçando os ângulos salientes de suas maçãs do rosto com
os dedos.
As palavras passaram por ele com uma onda de impotência que fustigou seus
músculos.
— Eu te amei. E não podia suportar a idéia de não tornar a vê-la quando
estivéssemos fora do navio. Foi por isso que me casei com você. Eu... Era obcecado por
derrotar meu pai, sim, mas nunca quis magoá-la. No entanto, é claro que nenhum de nós
tinha fé suficiente no outro, não é? Você não tinha o suficiente para me dizer à verdade, e
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Toque de Tentação

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eu, para trazê-la de volta para mim.
— Por que não?
Uma fúria, como ele nunca ouvira antes, abalava suas palavras. Mas ela não
esperou por uma resposta.
Diego deveria ter ido atrás dela, mas não conseguia enxergar nada além do que
denominara como rejeição a ele. Diego elevara a si mesmo a novas alturas, impiedosas,
manipuladas... E eventualmente impulsionara Eduardo sobre o penhasco.
Tudo porque Kimberly ô fez perceber a verdade amarga que ele enfiara debaixo de
sua luta pela sobrevivência, e a verdade era esta: ele nunca seria o suficiente.

CAPÍTULO 9

Kim saiu do chuveiro, na cabine luxuosa. Amava aquele espaço circular e sua
iluminação, mas a água quente não ajudara muito.
Com um short de cetim e uma blusa de seda combinando, vestiu um roupão e o
amarrou na cintura. Olhou para a enorme cama, ansiosa. Deslizou os dedos sobre o
algodão egípcio macio.
Eles dividiriam a cama mesmo sem poder sequer suportar olhar um para o outro?
Kim pousou a mão trêmula na testa. Seus pensamentos frenéticos lhe causavam
uma dor surda. Na única vez em que alguém a colocara em primeiro lugar, ela fugira.
Ela queria fugir e... O quê? Pedir desculpas por ser a covarde que arruinara suas
vidas?
Seu celular tocou um alarme. Era à hora de sua multi-vitamina. Kim empurrou o saco
estranho e brilhante que estava em cima de sua bolsa com um pouco de ruído. A bolsa
caiu, seu conteúdo escorregou no tapete exuberante aos seus pés. Era a bolsa de brindes
da tal festa de sexo que ocorrera mais cedo, aquela mesma noite.
Ela olhou, horrorizada, para a variedade de objetos de bom gosto espalhados no
tapete elegante.
Algemas de pelo cor-de-rosa, prendedores de mamilos dolorosos, duas garrafas de
óleo de massagem com sabor de chocolate e morango, um artefato rosa - choque com a
forma de um... Era um vibrador.
Um som — uma mistura de suspiro e gemido — escapou-lhe. Um ardor coloriu suas
faces. A excitação deixou sua boca seca. Ela olhou para a porta, uma idéia selvagem
ganhando corpo nela.
Kim pegou o vibrador e se sentou em um pequeno sofá, de costas para a entrada da
cabine principal. O silicone liso era suave, mas duro em sua mão. Ofegante, clicou no
botão pequeno na lateral.
Um zumbido suave tomou conta da cabine.
Ela não sabia o que a levara a isso. Talvez fosse a parte maliciosa que não
conseguia controlar. Ou a auto-aversão correndo por suas veias, pois ainda era uma
covarde que, em vez de se aproximar de Diego e beijá-lo, como cada célula sua queria,
só se atrevia a sentar-se ali e brincar de esconde-esconde sexual com ele.
Ela não se importava.
Encostou-se na parede, puxou o roupão e o empurrou para trás, sobre os ombros.
Seu baby-doll nunca estaria no catálogo da Victoria Secret, mas pelo menos era de
cetim, em um tom bonito de pêssego, com pequenos arcos. Não era convencional nem
sem graça, como Diego lhe dissera.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

O short expunha suas pernas, que depilara para a festa. Suas unhas, pintadas do
mesmo tom pink sexy do vibrador, brilhavam contra o sofá de couro creme.
Ela segurava a cabeça vibrante contra sua panturrilha lisa. Fez cócegas na pele, e
uma risadinha escapou dos seus lábios.
Rindo, arrastou a cabeça vibrante para cima. As batidas de seu coração ao ouvir um
movimento na cabine principal se sobrepunham ao zumbido calmante do dispositivo.
Kim paralisou quando alcançou o joelho, e o levou de volta para baixo. Começou a
movê-lo para cima e para baixo, cobrindo uma área cada vez maior.
Um formigamento começou a perpassar seu pescoço, seu rosto, espalhando-se por
toda a pele.
A umidade molhou sua calcinha. Até a palma de sua mão estava escorregadia.
Sua boca secou.
A palma da mão, úmida, não tinha nada a ver com o que o dispositivo que segurava
estava fazendo ao seu corpo, e tudo a ver com a presença poderosa do homem que
aparecera na entrada da cabine, olhando-a por trás.
Kim podia sentir seu olhar sobre ela, desafiando-a a virar a cabeça e encará-lo.
Podia sentir sua respiração forte, de forma que o oxigênio rapidamente esgotava em
torno dela.
Sentia a excitação de Diego no modo como seu corpo reagia à presença dele, de
maneira que se alimentava do desejo que ele emanava, mesmo que ela não pudesse
ouvir ou ver nada disso.
Seu coração martelava. Suas pernas tremiam. Cada músculo do seu corpo
estremecia com um frio quase febril. Ainda bem que ela se sentara no sofá, ou teria
derretido em uma poça aos seus pés.
Inclinando a cabeça, moveu o vibrador além do joelho. Sua pele já sensibilizada
vibrou.
Ela chegou até a coxa.
Ele não a interrompeu.
Ela abriu um pouco a perna direita, afastando a coxa com a mão. Sua respiração se
acelerou, e o cheiro de excitação enchia o ar rarefeito da cabine.
Diego não emitiu nenhum som.
A ponta vibratória chegou à pele sensível da parte interna da coxa. O ardor
percorreu cada centímetro de sua pele enquanto ela movia o objeto. O calor dominou seu
sexo.
Ele não se moveu.
Sentada ali, aberta na frente dele, mesmo com o short cobrindo a carne dolorida,
Kim sentiu uma forte emoção erótica em seu baixo-ventre.
Nos últimos segundos, aquilo se transformara em uma batalha de vontades. Ele
achava que era um blefe, desafiando-a a continuar. E ela estaria condenada se desistisse.
Kim desejava as mãos de Diego sobre o seu corpo, os dedos em sua carne dolorida, e
não se contentaria com nada menos.
Recusando-se a olhar para cima, Kim moveu o pulso mais um centímetro, sob a
bainha de seu short. Isso não estava nem perto de onde ela queria.
Kim jogou a cabeça para trás, fechou os olhos e imaginou que eram os longos
dedos de Diego percorrendo o caminho até a coxa, impulsionando-a para o êxtase. Um
gemido começou a seguir seu caminho pela parte inferior das costas... E ela o deixou sair.
O som era erótico e a excitava.
Duas mãos ásperas tiraram o vibrador de seus dedos fracos. Seus olhos se abriram,
seu corpo clamava pelo desejo insatisfeito.
Com o olhar dourado, cintilante escuro como fogo, Diego pairava sobre ela, as faces
coradas.
O desejo em seu olhar era suficiente para assustá-la de volta para sua concha, onde
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

era seguro, onde não arriscaria nada.
Não...
Um músculo saltou em sua mandíbula quando ele desligou o vibrador e jogou-o
longe. O aparelho aterrissou com um baque.
Ela ficou ajoelhada. O roupão escorregou de seus braços.
— É melhor você ter uma boa razão para jogar isso fora.
A tensão ardia em torno deles, contraindo todos os seus músculos em uma massa
trêmula de antecipação.
— Que diabos você pensa que está fazendo? — O sotaque dele ficou mais
carregado, suas palavras caíam umas sobre as outras.
Ela passou a mão pelo pescoço. O olhar de Diego seguiu o movimento avidamente.
— Com a lembrança explosiva do que acabamos de viver, imaginei que demoraria
muito antes que você quisesse me tocar de novo. Por isso, eu estava resolvendo ô
problema sozinha.
Diego a atraiu para perto, até que os seios dela fossem esmagados contra a
musculatura sólida de seu peito. Era o paraíso. Era o inferno. Era tudo o que ela queria,
com clareza cristalina.
— Você quer que eu a toque?
— Quero. — Kim passou a mão de Diego em seu peito, com o coração acelerado.
Seus seios clamavam por seu toque. — Aqui... — Arrastou-a para a barriga. — E aqui. —
E puxou-o mais para baixo, chegado à união de suas coxas.
Em todos os lugares. Nada além do toque de Diego poderia apagar aquela dor.
Ele tomou sua boca, engolindo suas palavras. Seus lábios estavam apertados contra
ela, com uma necessidade selvagem, obrigando-a a se abrir para ele.
Com um gemido que nunca saíra de sua garganta, ela agarrou seus ombros e abriu
a boca.
Diego mergulhou a língua, com investidas ardentes e rápidas que enviavam flechas
de desejo.
A volúpia derretia entre suas pernas, e ela tentou aproximá-lo ainda mais.
Mas a coxa dele estava entre as dela. E, meu Deus, ele era tão deliciosamente
musculoso... Ela roçou em seus músculos duros como pedra, gemendo, pedindo,
implorando...
Kim o desejava tanto, precisava tanto... E deixaria que Diego a preenchesse,
deixaria que ele preenchesse cada centímetro do seu corpo, com ele, com seu cheiro,
com seu toque, até que o arrependimento que a estava aniquilando tivesse desaparecido.
Porque ela queria outra chance.
Diego nunca sentira um desejo tão avassalador como sentia por essa mulher. Ela
arrepiava sua pele, fazendo da ereção um instrumento de tortura. Vê-la com aquele
vibrador nas mãos, com as pernas abertas, num convite ao pecado, foi o suficiente para
deixá-lo quase descontrolado.
E ele nunca precisava de muito para ficar assim. Não quando se tratava dela.
Enfiou a língua em sua boca com todo o requinte de um adolescente impaciente.
Depois mordiscou a carne sensível.
Não houve hesitação nela também. Na verdade, as pinceladas ousadas de sua
língua roçavam em Kim como um animal excitado.
Meu Deus, o gosto dela era de sol e morangos... E a promessa de sexo, selvagem e
quente.
Um leve cheiro de lírio-do-vale se agarrou à sua pele e encheu suas narinas.
Um gemido alto emanou dela quando ele chupou sua língua. As mãos de Kim foram
até sua nuca, chegando ao cabelo. Quando ela puxou o lábio inferior dele entre os dentes
Diego estremeceu violentamente, roçando a parte inferior do corpo no dela.
O sulco de suas pernas embalou a ereção perfeitamente enquanto ela se esfregava
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

nele. O calor subia por suas costas.
Ele queria tomá-la ali mesmo. Porque Kim era dele, e ela o queria... E aquele era o
único lugar onde havia somente a verdade entre os dois.
Diego deslizou as mãos sob o cetim frágil de sua blusa. Sua pele, sedosa, suave e
quente ao toque, deslizou aveludada sob as palmas das mãos ásperas de Diego. Sua
respiração era forte; seus suspiros e gemidos suaves o incitavam.
Ele estava prestes a puxar a alça de cetim de seu ombro quando ela balançou a
cabeça e se afastou.
Diego grunhiu instantaneamente, como um animal selvagem a quem sua presa
fosse negado naquele momento.
No minuto seguinte, as mãos dela estavam em sua calça jeans. Ele gemeu — no
que foi mais um pedido do que uma exigência — enquanto ela desabotoava a calça.
Estava no limite, vendo sua calça ser baixada, e ela envolveu seus longos dedos em
torno dele.
Com um gemido gutural, Diego empurrou a mão de Kim, com o sangue rugindo em
suas veias.
Seus olhos se abriram quando a mão dela parou com as carícias alucinantes.
Com o suor brilhando em sua testa, ela tentava puxar o short para baixo, mas seus
dedos escorregavam na bainha de cetim. Ela puxou um pouco mais, e a visão da calcinha
preta fez com que a pressão dele subisse rapidamente.
Cada centímetro de seu corpo estava tenso, antecipando o prazer, lembrando quão
apertada, molhada e boa ela se mostrará na última vez. Ela tirou a blusa e a luxúria o
cegou.
Mas foi a visão de sua barriga que clareou seus pensamentos. Não estava muito
aparente ainda, mas também não era plana. E isso fez com que ele diminuísse o ritmo.
Diego não queria colocá-la contra a parede e terminar em um minuto o que estava
muito perto de fazer. Aquilo não poderia se resumir simplesmente a saciar sua luxúria. Ele
não queria perder o controle, como da última vez. Não naquele momento... Nem nunca
mais.
Uma vez que fizessem isto, não parariam durante a noite inteira. Ele a queria em
sua cama pelo resto da vida. Se Diego mantivesse o controle de sua sanidade mental, se
conseguisse se controlar, talvez houvesse esperança de um relacionamento civilizado.
Era isso o que ele faria, pelo bem de seus filhos.
Diego queria que ela perdesse o controle, que ela ficasse louca de prazer,
que ela implorasse.
Desta vez, ele iria saborear cada centímetro do corpo de Kim, e apreciar seu corpo.
Desta vez, Diego queria que ela se revelasse por inteiro.
— Eu quero você dentro de mim, agora! Por favor, Diego... — implorou, num
sussurro sensual.
Trincando os dentes, ele lhe apertou os pulsos e a conteve.
— Não.
Kim piscou sentindo um aperto na garganta.
Aquela fora a palavra mais cruel. Ela caiu contra ele, sua respiração um pouco
agitada. Ainda bem que seu corpo rígido a apoiava ou ela teria derrapado no chão. Kim
escondeu o rosto em seu peito, que subia e descia; relutante em revelar as lágrimas
queimando seus olhos.
Ele a levantou em seus braços. Só quando a pousou na cama, por cima das
cobertas, Kim tornou abrir os olhos. Diego ficou em cima dela, com o rosto fechado em
uma máscara de pedra arrepiante... Determinado. Eis a única palavra para descrever
aquele momento: determinação.
O que ela viu em sua boca, no calor persistente de seu olhar faminto, ligava todos os
seus alarmes internos.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Ele a percorreu com o olhar, lentamente, do cabelo às unhas dos pés, pintadas de
cor-de-rosa, sem perder um centímetro no processo. Algo vibrava em seu ventre.
Ela continuava vestida, ainda que as curvas superiores de seus seios estivessem
visíveis ao longo do sutiã e o short estivesse enrolado nas coxas.
Diego desapareceu e reapareceu na cama em um piscar de olhos. Com algo na
mão.
— Tire a roupa — pediu ele.
Sua respiração era rápida e apressada. As algemas cor-de-rosa pareciam
absolutamente frágeis em suas mãos grandes. Um pulsar incessante, um tremor, surgiu
no corpo de Kim. Ela tentou rolar para longe dele, mas Diego não deixou.
Com o tornozelo de Kim em sua mão livre, ele agitou o pulso e ela deslizou para
baixo na cama, com as pernas presas entre os joelhos de Diego.
Um sorriso sombrio, cheio de promessas pecaminosas, curvou sua boca. As
algemas pendiam no ar, bem acima dela.
— Eu quero ver cada centímetro do seu corpo. Quero lamber e beijar
cada centímetro da sua pele. Quero que você fique louca de prazer.
Ela fez que não com a cabeça, com a boca seca como um deserto. Suas palavras
tiveram um efeito muito excitante para ela. Kim sentiu seu sexo começar a pulsar e,
lentamente, uniu as coxas.
Mas render-se seria impossível.
Ela precisava entregar tudo. Suas palavras e seus pensamentos colidiam; sua
mente e seu corpo se enfrentavam, enquanto uma emoção ilícita disparava através de
seu corpo.
— Não...
Ele deu de ombros, sentando-se sobre as pernas.
— Vamos fazer do meu jeito ou de jeito nenhum. Última oferta, gatinha. Desista do
controle. Caso contrário, eu vou embora.
Havia uma satisfação selvagem, um orgulho irritante em suas palavras, o que a
aborreceu.
Ela queria dizer “Tudo bem”, depois sair da cama e ir embora. A parte sensível do
cérebro de Kim gritava para que saísse dali. No entanto, o que todos aqueles anos sendo
cuidadosa e lógica trouxeram para ela?
A solidão e nada mais.
Desse modo, assentiu com a cabeça, incapaz de traduzir em palavras sua
aceitação.
Seus dentes estavam à mostra num sorriso, brilhando de modo faminto e ousado.
Subindo na cama, tremendo com uma série de emoções conflitantes, ela abriu o
sutiã e deu de ombros.
Um gemido faminto foi arrancado de Diego, que estremeceu.
Ele pareceu congelar na frente de Kim, sorvendo-a. O desejo tomou seus mamilos e
moveu-se incessantemente para baixo. Apertando o queixo, ela se recostou na cama e
tirou devagar o short, em um único movimento.
Diego se inclinou para frente, e ela tomou fôlego, os dedos parando na borda da
calcinha. Ele pegou suas mãos e levantou seus braços. Sua camisa roçou nos mamilos,
deixando a pele em chamas. A calça jeans roçou em sua barriga. Ela gemeu e quase caiu
da cama.
Ele envolveu seus pulsos com as algemas e ficou de joelhos.
— Vire-se e deite de bruços — disse, de maneira rude, antes de deslizar para fora
da cama.
Ela se irritou com seu comando, ainda que a nota rouca em suas palavras, a
maneira como ele se afastara, como se não confiasse em si mesmo, tivesse enviado uma
onda de poder feminino pelo corpo de Kim
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

CAPÍTULO 10

— Chocolate ou morango?
A pergunta, vinda do outro lado do quarto, surgia cheia de fome. O algodão egípcio
macio roçava os seus seios e a sua pele. Ela soltou um suspiro.
— Eu tenho escolha?
Um silêncio de espera, ameaçador, foi o que ela ouviu.
Kim fechou os olhos, apertou os lençóis entre os dedos e murmurou:
— Chocolate...
Cada segundo em que ele não a tocava a reduzia a um estado sem sentido de
antecipação e desejo.
Ela não sabia o que esperar... Não sabia o que a sua pergunta significava. Seria o
deslizar quente das palmas de Diego cheias de óleo em suas costas?
Óleo de massagem...
Ela gemeu quando ele esfregou os nós em seu ombro. O cheiro de chocolate escuro
combinado com o dele próprio infiltrava-se por todos os poros de sua pele. Seus calos a
arranhavam, provocando pequenas alfinetadas de prazer por toda parte.
Após acabar com os nós em seus ombros, suas mãos se moviam para baixo, para a
parte inferior das costas, perto das nádegas. Ela fechou os olhos e saboreou a sensação,
enquanto os dedos de Diego viajavam sobre as nádegas, as coxas, as panturrilhas e até
mesmo os pés.
Puxavam e amassavam, esfregavam e acariciavam, até que todos os seus músculos
estivessem dóceis e moles. Sua garganta arranhava com os sons que fazia. Kim se sentia
como se estivesse flutuando nas nuvens.
Mas ele não parou...
De repente, o ritmo de seu toque se alterou.
Um tipo diferente de prazer deslizou sobre sua pele. A boca secou. A respiração
ficou presa na garganta.
Aliás, a respiração de Diego também parecia diferente, mais rasa, e os movimentos
dos dedos, mais calculados.
Um rubor de calor ultrapassou cada centímetro de seu corpo quando ele abriu um
pouco suas coxas.
Suas mãos escorregadias moldavam os músculos das coxas de Kim. Com a nova
tensão substituindo nós antigos, ela respirou fundo. Ele lhe puxou a calcinha para baixo.
Ela estremeceu e se esforçou para se mover.
— Relaxe, minha pequena. — E disse essas palavras de modo rude, brusco.
Ela sentiu os lábios quentes, aberta e ardente contra a base de sua espinha. Kim
gemeu; um som gutural que encheu a cabine.
Ele roçou os dentes sobre uma das nádegas de Kim. Ela fechou bem as pernas,
tentando conter a excitação. Com uma enorme palma entre suas coxas, não seria
possível sentir qualquer alívio.
Kim choramingou; pronta para implorar.
— Por favor, Diego... Apenas...
— Não, gatinha. Lembre-se: as minhas regras, o meu jeito.
Suas palavras provocaram uma emoção erótica que ela não tinha como controlar.
Deslizando a mão esquerda por baixo de sua barriga, ele há puxou um pouco, enquanto a
mão direita seguia firme, mas lentamente, na direção de seu sexo.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Uma corrente elétrica perpassou seus nervos. Ela mordeu o lábio inferior com força,
esforçando-se para segurar um gemido que fazia de tudo para escapar de sua garganta.
— Não morda o lábio! — ordenou ele, com voz gutural.
Ela fez que não com a cabeça, em negação, ou algo parecido.
Diego, sorrateiro, enfiou um dedo nela. Milhões de terminações nervosas entraram
em combustão.
Kim estremeceu de prazer e, em seguida, estremeceu toda, com seus dedos
cravados na cama.
Meu Deus, o que ele estava fazendo?
Kim estava em suas mãos, como uma boneca de pano, com tudo aberto e visível
para ele.
Nunca se sentira tão vulnerável e fora de controle. Ainda assim, não poderia esperar
que ele fizesse o que quisesse com ela.
Sua mão alcançou os cachos, mergulhou por suas dobras. Ela estava louca por seu
toque, pela pressão que a levaria ao infinito.
— Nossa; você está tão molhada, tão pronta...
Um grito se formava em seu peito, e ela tremia da cabeça aos pés.
— Por favor, Diego... — sussurrou ela em um soluço.
Outro dedo se juntou ao primeiro em sua vagina. Ela se esfregou no seu toque e
ouviu seu gemido.
Os dedos finalmente acariciaram seu clitóris.
— Chegue lá, minha gatinha. Para mim...
Ela abriu a boca e respirou fundo. O prazer aumentava enquanto ele movia seus
dedos, cada vez mais rápido, dentro e fora, com a palma da mão esfregando a pele de
suas coxas a cada movimento. Kim fechou os olhos, o calor ganhando força em seus
músculos pélvicos, seus gemidos soando eróticos.
Até que ele pressionou para baixo com o polegar e o indicador, ateando fogo a esse
pacote excitado de nervos.
Ela gritou no momento em que foi atingida por um violento orgasmo, luzes brancas
explodiam atrás de seus olhos, sua respiração estava presa em algum lugar entre a base
da garganta e seus pulmões, seu corpo se desgastava com todo o prazer, sua mente
parecia completamente encharcada de satisfação.
O som de seu clímax, áspero e gutural, arrancou uma resposta tremula e
atormentada de Diego, que pousou a palma da mão na parte inferior das costas dela,
enquanto os tremores em seu corpo diminuíam aos poucos.
Em seguida, colocou-a de joelhos, com suavidade. O aroma de sua excitação era
espesso no ar. Sua pele estava quente ao toque, com um leve brilho de suor, as mãos
fechadas na frente dela. O pescoço de Kim se inclinava para trás, sobre seu ombro.
Sua ereção estava na curva de suas nádegas. Ele se esfregou contra ela e gemeu,
excitado de desejo.
Sentia-se tão frágil em suas mãos ásperas...
E os tremores em seu corpo esbelto, sua nudez, revelavam uma fragilidade que ela
escondia embaixo de sua perfeição.
Diego há beijou um pouco acima das nádegas, e ela se esticou como uma flecha. O
gosto de Kim era de chocolate e suor. Ele a cobriu de beijos, saboreando e lambendo-a,
até que chegou à graciosa curva do pescoço.
Ele abriu a boca e mordeu sua carne tenra. Kim gemeu e lutou contra as algemas.
— Me solta, Diego...
Suas palavras eram um sussurro desesperado. Seus músculos abdominais se
transformavam em rochas duras.
— Eu gosto de você assim, minha esposinha — disse ele, sem se importar se soava
como o bandido sujo que era.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Diego afastou o cabelo do rosto de Kim e lambeu sua orelha.
Sua resposta foi um delicioso tremor.
— Você ainda está completamente vestido...
Ele moveu o braço direito até colocar a palma da mão em sua barriga, empurrou-a
de volta para a cama e se juntou a ela, deitado de lado. Kim não fez um som. Ele sorriu.
Um tom de rosa delicado polvilhou suas bochechas, e ela tentou cruzar os braços
sobre os seios.
Kim olhou para ele.
— O que foi?
— Gosto muito de vê-la assim, tão maleável e nua como está agora. Toda minha,
para eu fazer o que quiser.
— Solte as algemas, Diego — disse ela, com um toque de súplica em suas palavras.
Ele sorriu e deslizou a palma de uma das mãos em direção aos seios de Kim,
apertando a carne macia.
Ela fechou os olhos, em um longo suspiro, e girou para o lado. Era como se fosse
negar-lhe o acesso. Ele se levantou da cama e olhou para as depressões e vales de seu
corpo.
Diego se despiu, em silêncio, e se juntou a ela na cama.
— Os seus seios já estão cheios, gatinha? — perguntou ele, com suas palavras
enrolando em torno da língua. — Você não está demonstrando muito, mas eu vejo os
sinais. — E beijou a curva de seu quadril. — Aqui... — E plantou outro na barriga. — E
aqui...
Os olhos de Kim se arregalaram, passando pelo seu corpo nu com uma cobiça que
o deixou louco.
— Você continua me punindo por ter ido embora, certo?
— Não, eu adoro vê-la nua, adoro procurar pelas pequenas mudanças em seu
corpo, mudanças que os meus filhos podem estar causando.
Ela engoliu em seco, com seu olhar destilando puro medo.
— Prefiro me deitar na cama com você... Saborear cada polegada sua, em vez de
transar com você contra a parede.
Uma lágrima rolou de seus olhos, e ele a capturou com a boca. Isso tirou o fôlego de
Kim.
Diego colocou as mãos em seu rosto e a forçou a encará-lo.
— Você quer que eu pare?
Ela fez que não com a cabeça. O resto das suas lágrimas deixava seus olhos
brilhando como pedras preciosas.
— Eu estou... Feliz porque seus filhos estão dentro de mim, Diego.
Ele sentiu um aperto estranho no peito ao capturar-lhe a boca mais uma vez. Mesmo
a pressão erótica de seus lábios não era suficiente para diluir o desapontamento que o
atingia. Diego sentiu que ela queria dizer algo mais. No entanto, como sempre, Kim se
fechava.
Mas por que ele se apegava a cada palavra de Kim, como um cãozinho fiel? Ele
precisava manter aquela relação nos seus próprios termos.
Espalmou os seios e sentiu um tremor perpassá-lo enquanto um mamilo de Kim
roçava a palma de sua mão. Seu gemido, quase um suspiro, preencheu seus ouvidos.
Seus dedos pareciam mais do que ásperos contra o mamilo. Ele o estimulou com o
polegar e ela se curvou contra sua mão.
Diego manteve os olhos fixos nela, os sons que ela fazia vinham do fundo de sua
garganta... E a luxúria que ela não conseguia esconder sugava o ar em sua volta, dando a
ele uma satisfação incomparável.
Ela era sua mulher. Seria a mãe de seus filhos. Aquela mulher forte, brilhante,
obstinada, que estava preocupada por não se importar com os bebês em seu útero...
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Precisava dele, precisava de algo que somente Diego poderia lhe oferecer.
Naquele momento, Kim estava entregue ao seu toque... E a um fio de cabelo de
explodir de prazer novamente.
O desejo batia de forma muito selvagem em suas veias. Ele endureceu um pouco
mais, o calor emanava de sua própria pele.
Nada além de um curto suspiro poderia tê-lo parado, tão concentrado que estava em
se perder em seu corpo e em sua suavidade.
— O que foi minha pequena?
Seu olhar demorou alguns segundos para se concentrar nele. Kim mexeu os pulsos
algemados e torceu o nariz.
— Está começando a doer.
Ele abriu as algemas, na hora.
O momento seguinte foi um borrão em seu cérebro encharcado de luxúria. Assim
que tirou as algemas, ela rolou para longe dele.
Mas Diego não estava com disposição para jogos ou sorrisos. Em algum momento,
entre esfregar óleo no seu corpo e vê-la nua, ele começara a perder o controle sobre si
mesmo mais uma vez... E começara a perder uma pequena parte de si mesmo.
— Venha, Kim — disse ele, com arrogância.
Os olhos dela se arregalaram. Kim não tinha, obviamente, deixado de lado o aspecto
obscuro de suas palavras. Mas é lógico que ela não prestara atenção à sua advertência.
Kim nunca prestava atenção... Com ela, o que havia era sempre uma batalha de
vontades.
— Eu quero que você me obrigue.
Kim gritou quando Diego a prendeu na cama. Ela deu socos. Nada o perturbava. Ela
ainda preparou a perna para um chute. Era tarde demais.
Diego a segurou debaixo de si, o seu corpo, um forno ardente de desejo rigidamente
controlado.
Ele baixou a boca e tomou seu mamilo entre os lábios. Ela perdeu a capacidade de
pensar de forma coerente. Diego o sugou longa e profundamente, deixando-a excitada...
Enquanto sua ereção pulsava contra as coxas de Kim.
Ela lutava; um gemido gutural rasgando sua garganta. Kim, de forma sorrateira,
colocou as mãos no cabelo de Diego e segurou-o por lá. Diego, suavemente, tocou em
seu mamilo e voltou à atenção para o outro. Ele o rolou entre os dedos, roçou sua barba
contra uma das partes mais sensíveis do corpo de Kim. Ela estava pronta para o clímax,
de novo.
Kim moveu-se, inquieta, e o contato das pernas peludas dele contra as suas
enviaram sensações espirais ao seu corpo. Diego fechou os lábios sobre o mamilo e
puxou-o entre os dentes.
O que ela sentiu foi além de suportável, na fronteira da dor e do prazer.
— Eu quero tocar você, Diego — implorou ela, empurrando-o para trás, com as
mãos em seus ombros.
Ele não lhe deu ouvidos, e continuou a se concentrar no que fazia, arrastando beijos
quentes e molhados entre seus seios, em direção ao ventre. Cada centímetro de sua
pele, ao ser beijado, parecia acordar de um longo sono.
No minuto em que ela sentiu a respiração de Diego em suas coxas, decidiu que já
era suficiente. Kim rolou na cama, para deslizar sobre ele, com um sorriso que se
estendia de orelha a orelha.
Antes que ele pudesse detê-la, Kim o empurrou e deitou em cima dele. Seus
gemidos misturados enchiam a cabine silenciosa.
O roçar de sua pele contra a dele... Aquele atrito; era incomparável. Seus seios
roçavam o peito de Diego. A ereção pressionava sua barriga. Suas pernas se
entrelaçavam com as dele.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Sem lhe dar um momento para respirar, ela o beijou.
Mas não com ternura. Ela o beijou com tudo o que tinha dentro de si, infundindo seu
contato com cada pequena emoção que nunca fora capaz de traduzir em palavras e
nunca seria. Ela traçou seu lábio inferior com a língua, mordeu o interior úmido, sugou-lhe
a língua, esfregando-se contra ele, como um gato.
Deus, o que quer que ela faça, nunca conseguiria parar de roçar naquele corpo...
— Dessa maneira, você vai acabar me matando — sussurrou ele, enquanto ela
arrastava a boca até o pescoço de Diego.
Ele parecia no limite, e ela gostava de vê-lo assim. Kim mordeu seu mamilo, e os
dedos de Diego apertaram seus braços.
Ela se moveu para baixo e a fricção de seus corpos suados ameaçava deixá-la
louca. Kim se esfregou sobre sua ereção. Ele grunhiu.
Kim arrastou a ponta da língua ao longo dos cumes duros de seu abdômen. Ele
rugiu.
Ela o envolveu com os dedos e deslizou sua mão para cima e para baixo. O suor
brilhava em sua testa.
Diego empinou os quadris ao seu toque, sua respiração entrecortada tomava conta
dos seus ouvidos. Kim se inclinou e lambeu a cabeça inchada... E o gosto e o cheiro dele
enviaram sensações formigantes ao seu núcleo molhado.
Ela pousou a palma da mão em seus músculos abdominais, que tremiam, e lambeu
outra vez.
A parte superior do corpo de Diego se ergueu, e antes que ela pudesse piscar, ele
puxou Kim até que ela estivesse montada nele.
Diego agarrou seus quadris e penetrou-a devagar, com veemência, de forma
precisa, até que tudo o que ela poderia sentir era sua posse. Kim apertou os braços ao
redor dele, que enterrou o rosto entre os seus seios.
Uns bilhões de nervos; despertaram à medida que seus quadris se tocavam. Ela
cravou as pontas dos dedos nos ombros de Diego, que estavam duros, como pedra. Kim
abriu os olhos, pronta para implorar por mais, e congelou.
O olhar dele á estudava, extasiado, brilhando com intensidade crua. Era como
enxergasse a própria alma e á encontrasse deformada. Era uma sensação que não
poderia ter. No entanto, ao mesmo tempo, era um sentimento que não poderia evitar.
Mas ela estaria condenada se estragasse aquele momento, o mais precioso de sua
vida.
Kim beijou sua boca e moveu-se rapidamente para cima.
Depois voltou.
Ambos gemeram, emitindo sons de desejo, desesperados, no limite.
Kim inclinou a cabeça e mordeu-lhe o ombro, cravando os dentes em seu músculo,
muito gentilmente. Era o sinal de que ele precisava...
Com um gemido áspero, Diego inverteu as posições, até que estivesse em cima
dela. Jogando as pernas de Kim sobre os ombros, ele a penetrou, mais forte, mais rápido,
até que nenhum dos dois pudesse ver claramente, não conseguindo nem respirar
corretamente, até que os seus corpos estivessem prontos para voar...
Kim deixou escapar um grito, que foi arrancado em uma onda de necessidade. O
prazer a perpassava... Ondas e mais ondas de pressão implacável se estilhaçavam e se
espalhavam por seu corpo todo.
Com um ímpeto final, Diego desabou sobre ela.
Em certo momento, após o que pareceu uma eternidade, as ondas de prazer
recuaram, trazendo em seu rastro a compreensão dolorosa. Era como se sempre
houvesse um preço para a alegria que encontrava nos braços dele.
Kim estava apaixonada por Diego. E sempre estaria.
Alguma vez deixara de amá-lo?
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Essa era uma verdade simples, tão simples e cortante como os bebês que cresciam
dentro dela.
Cada centímetro de Kim queria recuar, se esconder, até que ela pudesse enfrentar a
verdade aterradora. Precisava se preparar, definir a expectativa para si mesma. Não
poderia deixar que isso a enfraquecesse.
Não poderia deixar que seu amor por ele definisse sua existência.
Diego sentiu Kim endurecer antes mesmo de se separar, mas se recusou a deixá-la
se esconder. Muito menos depois do orgasmo mais intenso de sua vida.
Porém, na verdade, tudo com ela era intenso, certo?
Ainda junto dela, Diego caiu de costas e puxou-a, até que ambos estivessem
deitados lado a lado. Ele segurou seu seio e beijou-lhe a curva superior, incapaz de
resistir à tentação.
Kim abriu os olhos, com um gemido desamparado e excitado. Além de uma sombra
de retraimento, claro...
— Não, não, não... — sussurrou Diego, colocando a mão livre em sua têmpora e
pressionando.
Ela abriu um meio sorriso.
— Não o quê? — perguntou Kim.
Ele bateu na têmpora com o dedo.
— Não pense em nada.
As sombras desapareceram do seu olhar, e sua boca se curvou em um sorriso largo.
— Não pense; certo? Isso é como pedir que você...
Diego arqueou uma sobrancelha.
— Como pedir que você não seja sexy. — Ela passou as unhas sobre seu abdômen,
e ele suspirou de prazer. — No entanto, com você nu desta maneira, eu realmente não
consigo pensar.
Diego sorriu. Gostava dela assim. E não apenas porque estava nua e sensual, e o
deixara louco de desejo. Mas porque uma parte inerente dela — um lado de Kim que ele
raramente enxergava — ficara exposto a ele quando fizeram amor.
Essa intimidade, ele percebeu aos poucos, era algo que ela guardava com cuidado,
como fazia com todos os seus sentimentos. Era algo que Kim compartilhara apenas com
ele. Havia uma satisfação selvagem nisso.
— Sendo assim, vamos ficar nus o tempo todo. Quero dizer... Se isso é o que é
necessário para termos um casamento feliz, eu aceito.
Kim deu risada, e aquele som maravilhoso o rodeou.
Diego moveu as mãos para seus seios e os envolveu.
— Você estava certa. A minha sofisticação reside apenas do lado de fora... Por baixo
disso, sou um homem antiquado e machista.
— Sim... — afirmou Kim, com um desafio brilhando em seus olhos.
Mas o seu olhar sombreou quando ele tocou um mamilo duro com os dedos, sua
respiração se tornava cortante.
— Sim... Eu gostaria que minha esposa não pensasse muito, mesmo sendo uma
das mulheres mais brilhantes que já conheci. Eu gostaria de proteger minha esposa do
mundo grande e mau... Ainda que ela seja a mulher mais forte que já conheci. Gostaria de
ser o único homem... Ou o único dispositivo — emendou brincalhão, e ela sorriu — capaz
de tocá-la. Gostaria de ser o único capaz de...
— De algemá-la? De fazer com que ela se esqueça do que é certo ou errado? De
virar o seu mundo de cabeça para baixo, de mergulhar sua vida no caos?
Seu coração batia tão forte que ele se perguntou se poderia sair pela boca.
— Você faz tudo isso e muito mais por mim, Diego.
Antes que ele respirasse de novo, ela o empurrou de costas e montou sobre o seu
corpo. Com movimentos certeiros, Kim o guiou dentro de sua umidade, como se já tivesse
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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falado demais... Como se não quisesse que ele perdesse tempo com palavras.
Quando Kim começou a se mover sobre ele, vendo seus seios altos movendo-se
com suavidade e seus olhos traídos pelo desejo, ele se esqueceu de tudo. A luxúria o
levava ao limite.
Diego entrou no ritmo, e ergueu o corpo quando o ritmo aumentou. Ele colocou o
mamilo de Kim na boca e sugou-o entre os dentes.
Ela explodiu de prazer, com seus músculos se contraindo. Ele a penetrou fundo mais
uma vez e chegou ao orgasmo.
Diego empurrou seus quadris contra Kim para aproveitar cada centímetro de prazer
que ela pudesse lhe dar. No entanto, algo mais estava alimentando o prazer em cima
dele.

CAPÍTULO 11

Sentada no terraço com vista para a costa brasileira, Kim passou as mãos sobre os
braços nus.
O céu da noite brilhava com estrelas, e a brisa carregava o perfume das flores
exóticas nativas da ilha, que era um paraíso ecológico.
Os últimos dez dias passados ali foram os melhores da sua vida.
Ela viu Diego à maioria dos dias, exceto quando viajava ao Rio de Janeiro. E ele fez
diversas viagens... Porém, muitas vezes, voltava antes que ela percebesse que tinha ido.
Em dez dias de estada, Kim fez um passeio ao redor da ilha, com Miguel, que se
juntara a eles logo em seguida. Ela conheceu quatro jovens, do melhor amigo de Miguel,
de 18 anos, até um rapaz bruto e pesadão, cuja idade era indeterminada. Foi aí que ela
percebeu a verdade.
Diego estava fazendo o possível para tirar os garotos da gangue de rua da qual ele
mesmo fizera parte, levando-os àquela ilha. Ali ele lhes dava um trabalho honesto,
mostrando-lhes um modo de vida diferente. Alguns vinham de bom grado, em busca de
algo melhor, e outros, como Miguel, que já tinham visto muita violência, não acreditavam
que um mundo melhor existisse.
Kim pensava que Diego estava obcecado com riqueza, determinado a tomar tudo
que o mundo lhe negara. Não poderia estar mais errada, e sentiu uma urgência insana de
mostrar a todos o homem honrado que ele era; mostrar a quão errada era a percepção da
mídia sobre ele. Por isso, dera início a um projeto com a ajuda de Miguel, ficando feliz de
fazer algo para Diego.
No entanto, estar apaixonada continuava sendo algo terrível.
Não que não gostasse da atenção que ele estava demonstrando. Ela nunca se
sentira tão mimada na vida. Aliás, ninguém sequer preparara uma refeição para ela.
Kim andava em praias de areia branca todos os dias, nadava em uma piscina infinita
que ia da vila ao oceano, cochilava por uma hora toda tarde. No terceiro dia, Diego a
levou para um passeio de balão pela ilha. Foi à coisa mais maravilhosa do mundo.
Ele lhe mostrara a exótica flora local, o lugar onde começara a construir uma casa
para os adolescentes. Eles tinham visto Miguel e os outros garotos jogando futebol em
uma vasta área de terra intocada.
Tudo que ela pedia, conseguia em algumas horas... Como a câmera que requisitara.
Diego chegou a pedir a Miguel que cuidasse dela, e que confiscasse o seu laptop
após uma hora de uso.
Foram necessários alguns dias, mas ela enfim conseguiu superar o temor sobre sua
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

empresa.
Sua equipe tinha especialistas; claro que eles poderiam cuidar de tudo por algumas
semanas.
Kim deveria se sentir no topo do mundo.
O dia dela, da manhã ao anoitecer, era gasto imaginando por que Diego não a
beijava novamente, e também o que a estaria impedindo de arrastar-se para a cama
dele... Onde quer que ele durma. Ela estava cansada de esperar por um movimento de
Diego, quando tudo o que queria era ficar cercada por ele.
Kim o desejava, e estava muito certa: ele também a desejava. Aquela mesma noite
ela...
Todas as suas intenções se desintegraram em poeira quando ele entrou no terraço,
com sua melhor amiga brasileira.
O ciúme queimou em seu peito. Ela tremeu dos pés à cabeça. A força disso era
selvagem.
Kim se levantou em um movimento súbito que lhe causou vertigens, e se agarrou ao
corrimão de ferro.
A mera visão dele com Marissa foram suficientes para abrir um buraco em seu
coração.
Pela primeira vez naquela semana, Kim não tinha apetite para jantar, mesmo Anna
tendo preparado tudo da maneira que ela gostava.
Ela sorriu e assentiu, respondendo a tudo com sim ou não durante há, primeira meia
hora, empurrando a comida no prato. A outra mulher — ou ela seria a outra neste caso?
— era apenas educada, perguntando a Kim sobre sua saúde, sobre como estava sendo
sua estada na ilha.
Isso era tudo o que Marissa poderia fazer para terminar com a frieza do encontro,
enquanto Kim continuava resolutamente muda. Mas o que poderia dizer?
Ela sentia um enorme fluxo de emoções — ciúme envolvido com a culpa de que
destruíra a vida daquela mulher com um simples ato; raiva direcionada a Diego por
submetê-las a isso.
Algumas vezes, Marissa falava em português, e Kim ficava quase grata pela
humilhação.
Esperou dez minutos antes de pedir licença e ir para o terraço.
A solidão passou por ela, e Kim de repente sentiu falta de Liv. Precisava tanto de sua
irmã... Sua vida estava em farrapos, como costuma acontecer com os apaixonados não
correspondidos.
Ela voava alto em um minuto e despencava no próximo.
No dia seguinte, ainda bem cedo, Diego encontrou Kim andando pela praia, bem
perto da vila.
Aquela parte da ilha era mais intocada do que o outro lado. Areia branca primitiva,
águas turquesa... Diego amava essa vista.
De tudo o que adquirira na vida, aquela ilha era o que mais lhe dava satisfação e
alegria. Era um lugar onde não havia nada alem do céu e dos acres de terra ao seu redor.
Algo que podia chamar de seu.
Ali, Miguel e outros meninos podiam aproveitar a liberdade que vinha de saber que
suas vidas não dependiam de sua habilidade de dar socos e lutar sujo.
Naquele momento, porém, Diego não estava interessado na vista, mas sim na figura
solitária à sua frente, mais importante do que o sucesso que obteve ao comprar a ilha que
desejara por tanto tempo.
Para quebrar o feitiço, ele trouxera Marissa. Poderia ter se encontrado com ela em
sua próxima viagem ao Rio, mas ele sabia que ela queria ver a ilha. E Diego estava
relutante em mudar sua vida simplesmente porque Kim fazia parte dela.
Essa era a única maneira de manter as coisas em ordem. Mas Kim parecia como se
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

tivesse levado uma surra de Diego na véspera.
Foi duro para ele não correr atrás dela quando Kim saiu do terraço, depois do jantar.
Em vez de passar a noite com Marissa, Diego ficou resolvendo os últimos aspectos
legais. No entanto, os problemas com os vistos de outros dois meninos como Miguel não
foram suficientes para manter sua mente longe de Kim.
Ele lutava contra a atração que sentia...
E nem sequer tinha uma idéia clara do motivo. A cada dia que passava, um
crescente sentimento de incerteza rastejava em seus pensamentos.
Ele aprendera, desde cedo, que o bem sempre tem um preço elevado.
Diego enfiou as mãos nos bolsos da calça e chegou a um impasse, observando-a.
Mas o seu coração continuava batendo forte, o que colocava um peso extra em seu peito.
O silêncio absoluto, perfurado apenas pelas ondas do oceano, tecia sua própria
magia.
Ela estava de pé, descalça na areia, com o mar batendo em suas canelas.
Suas costas delgadas, sua pele brilhando ao sol, eram pura tentação, marcadas por
duas cordas amarelas amarradas no pescoço e mais embaixo. Seu olhar seguiu a curva
das costas de Kim. Uma espécie de sarongue a envolvia. Suas longas pernas estavam
visíveis apenas a partir dos joelhos.
Ele soltou um suspiro. Não queria cair de cabeça em seu desejo por ela,
esquecendo-se do certo e do errado daquela situação, esquecendo-se de si mesmo.
Queria que a camaradagem confortável que havia entre eles durasse. Queria algo
estável para seus os filhos. E pela primeira vez desde que ela lhe dissera estar grávida,
Diego sentiu certa afabilidade entre os dois.
Isto parecia certo. Fazia com que ele se sentisse bem. E ele faria qualquer coisa
para manter a situação como estava.
Seus ombros se contraíram, ela envolveu o próprio corpo com os braços.
Isso foi o bastante para furar a bolha de tranqüilidade que Diego sentia um segundo
antes. A tensão contraía seus músculos, e sua mente se preparava para qualquer briga
que surgisse no caminho. Seu corpo exultava com a emoção que passava por seu
sangue.
Ela se virou e o encarou.
Ele sentiu a intensidade do seu olhar. Era como se ela tivesse passado seus longos
dedos por ele. Seus músculos estavam flexionando e ansiando pelo toque dela. A luxúria
o perpassou.
A parte de cima de seu biquíni moldava seus seios perfeitamente. Não podia negar
que estavam ficando arredondados. Ela ganhara um pouco de peso, estava perdendo o
visual magro, excessivamente trabalhado.
Havia um ligeiro alargamento dos quadris, a plenitude de seus seios, o rubor
saudável da pele.
Sua barriga, embora não arredondada ainda, começava a crescer. Diego dirigiu o
olhar a Kim, aproveitando o erotismo do momento.
Ela era a mulher mais sexy que ele conhecia, e sua modéstia inata a deixava ainda
mais atraente.
— Você sente falta de estar com ela? — perguntou Kim.
Diego piscou. Por um segundo, não entendeu a pergunta.
— Droga, eu sabia que não deveria ter deixado você sozinha por tanto tempo. Está
pronta para uma briga, não é?
— Isso é ridículo.
— Você fica muito mais confortável quando estamos brigando. Nós sorrimos,
aproveitando a companhia um do outro, por mais de uma semana. Sendo assim, é
claro que chegou a hora de estabelecer novos limites.
— Eu... Estou falando sério, Diego.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Ele não sentia falta do que quer que fosse que compartilhara com Marissa. Aquela
fora uma relação confortável, e a única coisa positiva era que se manteve firme, apesar
de todas as dificuldades que enfrentaram.
Diego só desejava ter percebido mais cedo que ele significa muito mais para
Marissa do que ela para ele. O que sentia por Kim — uma obsessão louca, que não
conhecia certo ou errado — nunca sentira por nenhuma outra mulher.
Ela parou bem na frente dele. O cheiro de Kim provocou-lhe as narinas. Uma
excitação quente avançava por sua pele.
— Você não tem que poupar meus sentimentos. Eu posso agüentar Diego.
A curiosidade ardia como um incêndio florestal pelo corpo de Diego.
— Isso quer dizer que você ficaria magoada se eu dissesse que sinto falta dela?
— Sim — respondeu ela, trincando os dentes.
Seria sádico se ele ficasse feliz com o fato de que ela poderia ficar magoada por
suas ações?
Seria terrível se ele descobrisse ter um poder sobre ela, ainda que tênue?
— Não confio em mim mesma... Poderia ter perdido a cabeça bem na frente dela.
Foi por isso que saí. E vou entender se você... Quiser me deixar.
Ele xingou... E usou uma palavra tão feia que teria feito sua mãe lavar sua boca.
— Que diabos isso significa?!
— Eu não sinto falta dela.
— Então por que Marissa está aqui? Quem você está tentando punir? A mim ou a si
mesmo?
Diego franziu a testa.
— Você quer que eu afaste Marissa da minha vida? Quer que eu diga que ela não
tem mais nada a ver comigo, agora que você está aqui? Ela é a única pessoa que ficou
ao meu lado a minha vida inteira. Como espera que eu aja?
Kim fez que não com a cabeça, sentindo-se mal do estômago. Entendia tudo, enfim.
Marissa era constante, enquanto ela sempre fora à variável... A única que poderia
desaparecer da vida dele a qualquer momento.
— Não sei... — disse ela, com a ansiedade tomando suas palavras. — O que quero
saber é se você vai dar a isto... A nós... Uma chance verdadeira ou não.
— E trazer uma amiga minha aqui significa que não vou? — Ele sorriu. — Você está
com ciúme, gatinha?
Kim se encolheu.
— Sinto muito. Não sei o que deu em mim. Eu não tenho o direito de...
Ele a puxou para si.
— Sim, você tem todo o direito de me perguntar o que quiser. Manter o silêncio é
sempre pior. Por que você fez isso?
— Isso o quê?
— Saiu em silêncio.
Ela tentou desviar o olhar.
— Não sei do que está falando.
— Sim, você sabe. Naquela ilha... Quando eu disse que tudo estava acabado, você
não disse uma palavra. Deveria ter me chamado de idiota naquele momento, em vez de ir
embora sem dizer nada. Você luta mais por sua empresa do que por si mesma.
— Se eu não pergunto nada a você, se eu não espero nada de você, não pode me
magoar.
Ele fez que não com a cabeça.
— Nada é tão simples, Kim
— É a única maneira de sobreviver.
— Quem a magoou?
Ela tentou se afastar, mas ele não permitiu. Kim não queria ter aquela conversa com
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

Diego Pereira.
— Ninguém me magoou, Diego. No entanto, você vai me desprezar...
Segurando-a firme, ele a encarou.
— Nada que você faça ou tenha feito me levaria a desprezá-la, Kim. Você me deixa
com raiva, sim. Deixa-me louco, sim... Mas desprezo? Não! Eu já lhe mostrei isso, certo?
— Na noite anterior à fuga da minha mãe, eu encontrei um bilhete.
— Um bilhete?
Ela tremeu só de lembrar-se daquela ocasião.
— Era uma frase. Endereçada ao meu pai. Ela o estava deixando e levando Liv
junto.
Deixando-a para trás...
Kim fora ao quarto da mãe para ver como estava, para contar o que o pai planejava
para o dia seguinte, para dizer a ela que ele tomara conta de tudo que era necessário
para a festinha na casa deles.
E encontrou uma maleta no chão do closet. Lá estava às jóias da mãe, dinheiro,
passaporte... E o objeto que lançou um tremor por sua espinha: o passaporte de Liv. Por
um minuto frenético, Kim esvaziou a mala, procurando seu próprio passaporte, os
pulmões se contraindo penosamente.
Não estava naquela mala.
Imaginando que a mãe cometera um erro, caminhou até a cama e achou o bilhete.
Foi o pior momento de sua vida... Sentada lá, querendo saber o que fizera de
errado, como poderia ter agido de forma diferente, por que sua mãe decidira levar Liv,
mas não ela...
Sua visão ficou turva. A mesma confusão, a mesma desolação saltou dentro dela
com a lembrança. As palavras que não se atrevera a verbalizar, os pensamentos que não
a abandonavam, mesmo depois de todos esses anos, os medos que ela não
compartilhara com outra pessoa, derramados dentro dela, em uma onda de dor
incontrolável.
— Fiz tudo que pude para protegê-la do meu pai... Sempre fui forte por ela. E fiquei
ao seu lado quando ela estava doente. E nunca lhe pedi nada, Diego. E no final, ela... —
A voz de Kim falhou; suas entranhas se retorcendo em uma massa de dor.
As palmas das mãos ásperas de Diego em seu rosto, o cheiro reconfortante dele,
puxaram-na para fora das profundezas do desespero. Diego a forçou a olhar para ele.
— Diga-me que você a confrontou, Kim. Diga que perguntou o porquê.
— Não. E não pedi para ela me levar... Se for isso o que você quer ouvir. — Parecia
que havia pedaços de vidro em sua garganta. — Eu ameacei ir até o meu pai com o
bilhete se ela chegasse perto de Liv. Fiquei acordada ao lado de minha irmã a noite
inteira. E a minha mãe... Foi embora em algum momento, durante a noite. Mas você está
certo. Eu sou uma egoísta insensível.
— Você não fez nada errado.
Suas palavras eram um grunhido frustrado.
— Não?! Entenda, eu estava determinada a não deixar que ela tirasse a única
pessoa que me amava da minha vida. Mas você sabe o que aconteceu?
Com o estômago revolto, Diego olhou para Kim. Ela se afastou, tremendo da cabeça
aos pés, suas palavras vibrando de dor.
— Liv pagou por isso. Quando nossa mãe se foi, meu pai virou sua atenção
corrosiva e controladora para ela.
— Você não pode se culpar por isso. Você era uma criança.
— Ele tornou a vida de Liv miserável, Diego. Você sente nojo de mim agora?
Como poderia odiá-la quando ele teria feito o mesmo? Kim viveu sua vida com as
cartas que podia.
Ela se afastou antes que ele pudesse dizer que entendia como esse tipo de dor
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Toque de Tentação

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nunca acabava.
Kim poderia ter odiado Olivia depois que sua mãe se foi, mas foi forte por ambas,
tentou protegê-la de seu pai, quando ela não passava de uma adolescente abandonada.
Ele a puxou para si e a abraçou. Ela não relaxou imediatamente. Diego estreitou o
abraço.
Ela cheirava a oceano e limões.
Diego ficou segurando-a assim, correndo os dedos por suas costas. Tantas coisas
passaram por sua cabeça... O espanto com a força de Kim roubou-lhe a capacidade de
falar.
Ela fugira de sua mãe, de seu pai, fugira dele... E só assim conseguira sobreviver.
Um nó na garganta cortou-lhe a respiração, e Diego relaxou o abraço.
Lidar com ela não era diferente de lidar com um adolescente ferido como Miguel.
Miguel atacou o mundo para viver com sua dor, enquanto Kim internalizou tudo para
sobreviver, deixando de lado os próprios sentimentos e desejos, praticamente
cauterizando a si mesma contra qualquer mágoa.
Se a infância de Miguel fora um inferno, a dela não havia sido melhor. Apenas um
tipo diferente de inferno.
— Você me faz lembrar, de Miguel — sussurrou ele, inalando o cheiro de Kim até o
fundo de seus pulmões.
Ela o encarou; relutante.
— Não sei o que fazer com isso...
— Sempre que o vejo sofrendo, quero matar todos que o magoaram. É o mesmo
que sinto agora. Em vez de protegê-las, sua mãe costumava usar as filhas como escudo
contra o marido. Ela não estava apta para ser mãe. E eu vou estrangular você se sê
comparar a ela.
Lágrimas escaparam dos seus olhos vidrados.
Diego moveu a palma da mão para a barriga de Kim e sentiu seu coração saltando
dentro do peito.
— No entanto eu nunca quis beijar Miguel... Como quero fazer com você sempre
que estou acordado.
Dia após dia, palavra por palavra, ele removia toda sua armadura. Suas emoções
estavam transbordando sem parar. Era assustador e emocionante ao mesmo tempo.
Kim estremeceu e se aconchegou nele. Seus braços eram como aço ao redor de
Kim, seu corpo, um forno de necessidade e desejo. Pela primeira vez em sua vida, ela se
sentia querida. Era como se seus desejos importassem, como se ela importasse. E não o
seu cérebro, as suas realizações, mas ela, a pessoa que estava sob tudo isso... Morta de
medo e dor... E congelada.
Kim se moveu em seus braços e pressionou a boca em seu peito, que retumbou sob
seu toque.
— Venha comigo — sussurrou Diego.
Eles caminharam por cerca de cinco minutos.
Ela parou de repente, arrastando Diego até que chegasse ao mesmo lugar que ela.
O crepúsculo começava a deixar o céu laranja acima deles, e uma cabana feita sob
medida estava a cerca de dois metros, grande o suficiente para acomodar duas pessoas.
E estreita o bastante para deixá-los bem próximos.
Um calor invadiu o ventre de Kim, suas pernas ameaçavam ceder ao seu peso.
E isso não era tudo.
Havia uma mesinha na frente da cabana, com velas e jantar para dois, além de uma
caixa de papelão rosa com um pequeno laço. O “A” em cima da caixa parecia muito
familiar...
Diego passou os braços em torno de Kim, suas pernas fortes apoiando as dela.
— Essa é uma caixa de Angelina, de Paris.
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Paixão Especial nº 03.2

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Era sua pâtisserie favorita na Champs Elysées.
De repente, ela soube o que estava na caixa. Kim se virou para ele, sorrindo.
— Anna me disse que você mencionou as tortas desse lugar uma ou duas vezes.
— Ou seria um milhão de vezes? — perguntou ela, sorridente.
— Feliz aniversário, minha esposinha.
Sua respiração ficou presa na garganta. Ela assentiu com a cabeça, esforçando-se
para falar após o nó ter cortado sua respiração. Ficando na ponta dos pés, apertou-se
contra ele até que sua ereção se esfregou contra seu traseiro.
Ele gemeu e abraçou-a com mais força.
— Não quero a torta...
Ele lambeu sua orelha.
— O que você quer, querida? Seja lá o que for; eu vou trazer para você.
— Você — a disse, claramente, e alto o suficiente para que qualquer um na
vizinhança pudesse ouvir. Não era tudo o que ela queria dizer, no entanto. — Eu
quero você, Diego.
Sem esperar pela resposta, ela o arrastou para a cabana. Tudo o que desejava era
demonstrar, com suas ações, o que não tivera a coragem de colocar em palavras.
Eles tiraram as roupas um do outro com movimentos frenéticos, como se ambos
estivessem conscientes de quão frágil e precioso era aquele momento.
Deitando-a no colchão macio, Diego se estendeu em cima dela, seus músculos
tensos como um peso celestial. Sua boca, sua língua, suas carícias, ele estava em todos
os lugares... Beijando-a, lambendo-a, saboreando-a, reduzindo seu corpo a uma massa
de sensações e desejo. Ele não lhe deu um minuto para pensar.
Kim gritou quando ele sugou um mamilo profundamente em sua boca. Seus dedos
ásperos tocavam o outro, e vibrações de prazer quente passavam por suas pernas.
Ele cheirava a mar. Ela soluçou quando ele tocou seu sexo excitado com a palma da
mão, enquanto sua boca traçava beijos molhados em torno de seu umbigo. O prazer
percorria sua barriga, ativando cada nervo. Todo seu corpo se envolvia, sem pensar, em
sintonia com seus golpes eróticos.
Com suas pernas cabeludas se esfregando contra as dela, ele inverteu as posições
com um movimento suave, até que ela estivesse em cima dele.
Seu sexo tremia com a necessidade da ereção, que se esfregava contra suas coxas,
e um arrepio avançava por toda a sua pele.
Sua boca estava seca, seu olhar, nublado pelo desejo.
— Este não é o momento para um de seus argumentos, gatinha.
Kim sorriu por conta da maneira como que ele falou; seu sotaque dominando suas
palavras.
Diego gemeu; um som doloroso e gutural, e as pontas dos seus dedos começaram a
traçar o comprimento de sua ereção.
Com a boca seca, ela tentou traduzir seus pensamentos em palavras.
— Eu quero você em cima de mim.
— Por quê? — perguntou ele.
Kim deslizou na cama e ficou ao seu lado.
— Você vai saber em pouco tempo... Nos próximos meses será difícil.
— Não vai querer mais fazer sexo? Saiba que isso me mataria.
Ela sorriu.
Deus, ela nunca se cansaria daquela honestidade penetrante.
— Vou, mas hoje quero sentir o seu peso enquanto você estiver dentro de mim.
Quero sentir cada centímetro seu.
Ele não disse nada. Simplesmente a beijou na boca, se ajoelhou entre suas pernas
e a penetrou.
Ela estava molhada, pronta para ele. Seus seios roçavam contra o peito de Diego
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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enquanto ele se movia dentro dela. O suor escorria por sua testa. Sua respiração era
irregular, sua pele estava em chamas. A deliciosa fricção de suas estocadas despertava
um bilhão de terminações nervosas em seus músculos da virilha.
O desejo se reunia de forma intensa em sua pélvis. Ela sentiu seu controle
escapando, seu desejo tomando conta, e cada estocada era mais desesperada e menos
comedida. Cada som que ele fazia era mais áspero e deixava clara uma deliciosa falta de
controle.
Quando atingiram o ápice e o prazer eclodiu, Kim sabia que nada protegeria o seu
coração.
Que estúpida fora ao pensar que teria controle sobre isso, que poderia suportar o
sexo sem perder a cabeça.
Seu coração pertencia a Diego... Ele poderia fazer o que quisesse.
Kim só esperava que não o atropelasse novamente.

CAPÍTULO 12

Estavam quase chegando à vila. O fato de estar perto da meia-noite, num local
isolado, fez com que a chamada alta e estridente de seu celular quebrasse a paz, o
momento de perfeição.
Diego congelou antes mesmo de pegar o aparelho. A melodia dissonante tornou a
soar, e Kim entendeu por que sentira um arrepio descer por sua espinha no primeiro
toque.
Aquele som era diferente do habitual.
Seria uma chamada específica. E ele parecia esperar o pior.
Diego se afastou, escondendo-se dela, e pegou o telefone.
A conversa durou dois minutos, no máximo.
Com um grunhido, ele arremessou o celular, que caiu no mar e afundou em
segundos.
Um pressentimento avançou sobre ela, que o alcançou.
— Diego, o que houve?
— Ele está morto.
— Quem?
— Eduardo.
— Sinto muito, Diego...
— Falência múltipla de órgãos.
— Eu...
— Eles estão errados.
— O que você quer dizer?
— Eu o matei.
— O que está dizendo? Eduardo te amava!
— E eu usei o seu amor e sua confiança para obter vantagem. Ele estava
desmoronando sob o peso das expectativas de meu pai. E você sabe o que fiz? Fiz
amizade com ele sob falsos pretextos, ganhei acesso a informações da empresa e roubei
tudo dele. Quando você foi embora, então, eu perdi a cabeça de vez. Em vez de ajudá-lo,
eu o impulsionei para sua própria destruição. Deveria saber que Eduardo estava usando
drogas, deveria saber que ele estava perto de se destruir. Quando me dei conta, era tarde
demais. Você continua feliz por estar carregando meus filhos, gatinha?
— Sim, porque você não é mais aquele homem, Diego. Veja o que você está
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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fazendo com Miguel. Seja qual for à culpa que tenha em relação à morte de Eduardo,
você já pagou por isso um milhão de vezes.
Ela o abraçou pelas costas e sentiu que o corpo de Diego tremia. Sentiu que ele
respirava com o máximo de esforço.
Kim faria todo o possível para aliviar sua dor.
— Você tem que perdoar a si mesmo. Caso contrário...
Diego se afastou sem dizer uma palavra.
O peso da culpa era esmagador sobre seus ombros.
Kim ficou observando Diego ir embora.
E passou dois dias sem vê-lo. Foi Miguel quem disse que Diego fora para São Paulo
enterrar Eduardo, e que Marissa estava ao seu lado.
Marissa era a única pessoa que Diego não afastara de seu sofrimento. Isso doeu
muito. Seria assim para sempre? Kim odiava essa sensação que vinha das profundezas
de sua alma... Odiava que sua felicidade, que seu estado de espírito, dependesse do
sorriso de Diego.
Era um sentimento de impotência.
Poderia viver assim para sempre?
Ele nunca a amaria. Ela nunca seria nada na vida além da mãe de seus filhos. E
isso parecia terrivelmente insuportável.
A dor apertou no seu peito. Kim caiu de joelhos no chão de madeira do seu quarto.
Queria uma chance com ele, mas não ao preço de sua sanidade, de sua saúde.
Diego não podia acreditar no que via. Ele checara metodicamente cada aposento da
vila. E deixou o quarto dela por último... Como uma postergação covarde do momento da
verdade.
Ela fora embora.
Miguel lhe enviara uma mensagem havia duas horas.
Kim não fazia birra. Ela não discutia nem queria lutar... Saiu em silêncio, como se
Diego não valesse nem um adeus.
Ele bateu com o punho na parede mais próxima e xingou.
Estaria condenado se a deixasse sumir de sua vida.
Diego moveria céus e terra para arrastá-la de volta para si. Ele destruiria tudo o que
construíra... Destruiria a si mesmo se fosse preciso.
Diego acabara de falar com seu advogado pelo celular quando Miguel entrou em seu
escritório, jogou uma pasta em sua mesa, ligou a TV e saiu.
Ele estava prestes a desligar a TV quando uma visão familiar surgiu na tela.
As praias, as águas turquesa, Miguel, a sua ilha...
Atordoado, ele se sentou no sofá.
O documentário começou com Miguel sendo questionado sobre sua vida.
E Diego estremeceu ao ver que Kimberly respondia às perguntas. O seu tom gentil
ajudava Miguel a revelar seu terrível passado.
— O mundo deve conhecer os esforços de Diego Pereira para tirar essas crianças
das ruas e levá-las a uma vida melhor — disse Kim.
Ele desligou a televisão, com o coração batendo forte, e abriu a pasta que Miguel lhe
trouxera.
Havia planos detalhados para a infra-estrutura de um abrigo para crianças viciadas
em drogas.
Eram planos precisos, exatamente o que ele tinha em mente quando comprou a ilha.
Mas Diego nunca revelara seus planos a ela...
Cerrou os olhos e jogou a cabeça para trás. Queria trazê-la de volta para sua vida.
Mas não podia.
Diego não podia obrigá-la a amá-lo.
No entanto, Kim amaria os bebês, por mais medo que tivesse.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

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No final das contas, ele estava se sentindo terrivelmente impotente mais uma vez...
E sozinho.

CAPÍTULO 13

— Você vai me evitar pelo resto das nossas vidas?
Kim respirou fundo. Ela se esquecera de que Liv ainda tinha a chave de seu
apartamento de Nova York.
Liv se juntou a ela à mesa de jantar, seu olhar repleto de preocupação e algo mais.
Quase medo.
— Oi, Liv.
— Você está horrível, Kim. E não deveria ficar assim.
Kim assentiu e passou a mão sobre a barriga.
— Não venho dormindo bem, mas diminuí as horas de trabalho. Tenho comido
muito...
— Está me assustando.
— Você e Alex estão bem?
Por mais diferentes que fossem; Alex era o homem perfeito para sua irmã.
— Não estou aqui para falar sobre mim e Alexander.
— Isso significa que vocês estão brigando de novo?
Liv deu de ombros.
— Ele está com raiva por eu ter forjado sua assinatura no formulário de autorização
de Emily para que ela possa fazer um teste para um papel em um filme.
— Você...
— Atuar é tudo para ela, Kim. Emily não percebe quão facilmente pode magoar o
irmão, e eu prefiro que Alex fique chateado comigo do que...
— Do que ser magoado pela irmã?
Elas pareciam iguais, mas eram tão diferentes.
— Estou preocupada com você, Kim. Alexander me disse que você pediu a
recomendação de um bom advogado de custódia. E ontem Diego veio me ver.
— Ele fez o quê? Diego está em Nova York?
— Ele... Queria me dar algo para entregar a você. Diego disse que não queria que
você abrisse sozinha. Acho que está preocupado com seu bem-estar. Quando perguntei
por que ele não fazia isso, Diego disse que está cansado de correr atrás de você.
Liv abriu a bolsa e pegou um envelope.
Diego me processará para obter a custódia. Vai levar os bebês para longe de
mim... Pensando nisso, Kim se sentou no chão e enfiou a cabeça entre as pernas.
Liv se juntou a ela no chão e a abraçou.
— Kim, o que você está fazendo consigo mesma?
— Abra esse envelope, Liv.
Olivia rasgou o envelope e examinou os documentos, rapidamente.
— É o processo de divórcio. Você terá a custódia total dos filhos... Filhos? O que ele
quer dizer com filhos? Você vai ter gêmeos?
Segurando a mão de Liv, Kim assentiu.
— Ele nunca vai disputar os direitos de custódia com você. Ele...
Um frio vazio tomou conta de Kim.
— Ele finalmente desistiu de mim
— O quê?
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

— Ele finalmente percebeu que não sou digna dele.
— Isso é uma besteira, e você sabe muito bem.
Kim enxugou as lágrimas com as costas da mão. Quanto mais cedo aceitasse a
verdade, melhor.
— Eu menti para você, Liv. Estou mentindo desde que a mamãe foi embora.
Liv a encarou.
— Como?
— Eu achei um bilhete. Ela queria levar você...
— Ela não me disse nada.
— Porque eu impedi. E ameacei contar ao papai se ela tocasse em você. Fui
egoísta. Não podia agüentar o fato de que ela tiraria você de mim. Eu não podia...
— Você não perguntou por que ela não a levaria?
— Tudo que papai fez com você foi minha culpa. Se você tivesse ido com ela...
Ela amava você, Liv. Você precisa saber disso.
— Você não pode se culpar, Kim. Fez tudo o que podia para me proteger. E mamãe
não me amava, nem amava você... Não o bastante. No momento em que você a
ameaçou, ela decidiu que eu não valia à pena. Não percebe? Ela não era forte o
suficiente. Ela nunca foi forte o suficiente.
O coração de Kim parecia queimar com a emoção. O amor brilhando no rosto de Liv
era suficiente para tirar o último pedaço de ilusão de seus olhos.
— E você acha que eu teria ido com ela? Acha que eu a deixaria para trás? Você é
minha irmã, Kim. É tudo que eu tinha... Tudo que tenho. O que não entendo é por que
você deixou isso magoá-la tanto.
— O que eu deveria fazer?
— Não deveria ter deixado a decisão covarde dela ter tanto poder sobre você.
Sempre lutou por mim, Kim, e enfrentou papai toda vez que ele me atacava...
Isto era o que ela estava fazendo com Diego. Em vez de lutar por si mesma, por seu
amor, em vez de lutar pelos bebês, afastava-se para se proteger.
Kim esfregou as bochechas e pegou os papéis da mesa.
— Você está certa. Vou lutar por mim mesma.
Seu estômago se contorceu de medo, mas ela não poderia parar. Seus dedos
tremiam quando ela rasgou os documentos que Liv trouxera em múltiplos pedaços.
— Você pode, por favor, ligar para Alex? Eu preciso de uma carona. — Kim pegou
sua mala, que ainda não esvaziara, e jogou mais algumas roupas lá dentro: shorts,
camisetas e roupas de dormir.
Ela colocou o laptop na bolsa, o carregador de celular e a carteira. Ligou
rapidamente para sua assistente e a informou que poderiam começar a procurar outra
diretora. A partir de agora, ela reduziria suas horas de trabalho. E quando chegasse o
momento, tiraria uma licença-maternidade.
— Nossa Kim... Pare um pouco... Você realmente vai fazer isso?
— Não posso parar Liv. Preciso me movimentar, tenho que pegar um avião antes de
começar a raciocinar.
— O piloto de Alex deve chegar em meia hora. Quer que eu vá junto?
Kim beijou a face de Liv, abraçando-a.
— Não, eu vou ficar bem. Diego sempre lutou por nós. Depois de todas as coisas
que eu disse a ele, Diego continuou confiando em mim. Ele lutou pelo nosso
relacionamento. Agora é a minha hora de fazer o mesmo.
Liv assentiu e beijou a irmã.
— O que quer que aconteça, você sempre terá a mim.

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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

CAPÍTULO 14

Diego já nem se lembrava de há quanto tempo malhava na ótima academia que
montara na ilha.
Mas não poderia parar. Aliás, não parava desde a partida de Kim. E ele fora a Nova
York e voltara no mesmo dia. Estava exausto.
No entanto, a viagem não dera em nada. Os dias se passavam, e as lembranças de
Kim estavam por todos os lados.
Ele começava a odiar aquela ilha.
Miguel e Anna pareciam preocupados, mas nada seria capaz de aliviar o vazio no
interior do seu corpo.
Já era meia-noite quando Diego seguiu para o quarto, e continuava com disposição.
Olivia decerto se encontrara com a irmã... E lhe entregara os documentos.
Ele estava nervoso, e ficou paralisado ao chegar à porta do quarto.
A luz estava acesa. Havia uma mulher deitada no centro de sua cama.
Por quanto tempo estaria esperando? Quando chegara ali?
Kim estava de volta. A mulher que ele amava mais do que qualquer outra coisa no
mundo voltara.
Ele foi até a cama, sem piscar. E sentia medo. Tremia de medo. Amava tanto aquela
mulher que temia piscar e ela sumir.
Lentamente, ele subiu na cama e afastou o lençol do corpo de Kim, que dormia.
Ela usava uma camisola sem mangas que delineava perfeitamente o seu corpo, a
curva dos seus seios.
Droga...
Ele acariciou a face de Kim com a ponta dos dedos. A pele era suave e delicada,
como sempre.
Nunca mais a deixarei ir embora.
Nunca mais.
Mesmo que fosse obrigado a amarrá-la na cama.
Ele já não ligava se ela o amava ou não, se estava louca ou não por ele. Tudo o que
queria era viver ao lado de Kim, cuidar, amar e contar histórias para ela.
Uma imensa calma começou a invadir o seu corpo. Seus ombros relaxaram
Diego beijou-lhe a testa e fechou os olhos.
Kim se levantou de repente, sentindo um calor e um peso ao seu lado. Dos pés à
cabeça, ela se sentia melhor do que nunca.
A luz continuava acesa. Diego dormia ao seu lado. Ela deixou escapar um grunhido
da garganta.
O seu coração acelerou em segundos.
Diego usava apenas um short, nada mais. Ela engoliu em seco ao ver suas pernas
longas, peludas. O seu peito estava ainda mais musculoso que antes, com uma linha de
pelos que desaparecia na cintura do short.
Fora louca ao deixar aquele homem...
Respirando fundo, traçou as pernas de Diego com os dedos. Ele alterou o ritmo da
respiração e ergueu uma das mãos, que ela levou à boca.
Os seus olhares se encontraram, e ela disse:
— Você precisa parar de lutar com Miguel.
— Eu não estava lutando.
— O que são essas feridas nos seus dedos?
Ele deu de ombros.
— Não gosto de vê-lo machucado, Diego. E não quero ver isso novamente. — Ela
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

não conseguia manter o tom de voz.
Ele não disse nada, simplesmente fez que sim com a cabeça.
Kim colocou a mão dele em seu rosto e beijou todos os seus dedos.
— Rasguei os papéis do divórcio. Nunca mais quero ver essas coisas. Nunca mais
fugirei de você, Diego. Nunca mais.
Ele fez que sim, novamente.
Por que ele não diz nada?
Mas ela precisava falar. Reunindo todas as suas forças, sorriu, e finalmente disse:
— Eu sou um pouco desastrada.
— Eu sei... — disse ele.
Kim tornou a sorrir; lágrimas tomando conta dos seus olhos.
Aquilo era mais do que ela merecia.
— Estou aprendendo, pouco a pouco.
— Posso tocá-la?
— E precisa perguntar?
Diego pousou a mão no ventre de Kim; a barriga estava enorme.
— Você não quer saber por que voltei?
— Não.
Ela precisava lhe perguntar uma coisa. Era muito importante.
— Eu... Quero que me diga algo. E quero uma resposta sincera, tudo bem?
Ele fez que sim, encarando-a.
A garganta de Kim ficou seca.
— Você... Por que levou Marissa ao enterro? Para mim, foi terrível. Foi cruel. Eu
conhecia Eduardo. Poderia ter ido com você.
— Eu não queria magoá-la, Kim.
Ele não sorria, mas Kim percebeu que a expressão no rosto de Diego era mais leve.
Ele entendera a importância de sua pergunta.
— Eu queria levá-la comigo, mas Eduardo... Sempre me fazia lembrar o homem que
eu não era. E deixar você em casa foi à maneira que encontrei de dizer a mim mesmo
que não precisava de você. Marissa, no entanto... Quando ela pediu para ir, não pude
negar.
— Quero estar nos bons e maus momentos com você, Diego. — Ela respirou fundo.
— Eu estava falando sério quando disse que nunca mais irei embora.
— Bom saber disso.
— Por que está agindo assim?
— O que quer que eu faça? Diga. É só dizer que eu faço.
— Você desistiu de mim...
Lágrimas saltaram dos olhos de Kim.
Aquele era apenas o primeiro dia... Ela teria que conquistar Diego de uma vez por
todas.
— Estou apaixonada por você, Diego. Aliás, sempre estive. Quero passar o resto da
vida provando que o nosso amor vale à pena. Eu só peço que...
Imediatamente, ele se postou à sua frente, depois a beijou. Kim gemeu e abraçou
Diego, que começou a acariciar seu cabelo, depois desceu aos seios...
— Diego, espere...
— Eu a machuquei?
— Claro que não, Diego. O que eu mais quero é senti-lo dentro de mim. Mas... Você
não disse nada... Está com raiva de mim?
— Raiva? Eu nunca me senti tão sozinho quanto na semana passada. Tudo o que
tenho não significa nada sem você ao meu lado.
O coração de Kim foi à boca. Ela se sentiu um pouco tonta.
— Eu te amo muito, minha esposinha querida. Se você me deixar de novo, vou
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

acabar me destruindo.
O coração de Kim pulsava cada vez mais forte. Era impossível controlá-lo. Abraçou
Diego com toda a força.
— Você me ama?
— Eu poderia sobreviver se perdesse a minha riqueza, e também se perdesse as
outras pessoas da minha vida, mas não poderia sobreviver se perdesse você, Kim. Sem
você, eu não sou nada.
— Diego, não diga isso. Você é o homem mais incrível que conheço. Mas, para mim,
era difícil permanecer ao seu lado pensando que você não me amava. Eu queria te
perguntar... Mas não tive coragem...
— Você é decidida, arrogante, e às vezes me deixa louco. Mas é a mulher mais forte
que conheço, e eu te amo. Não poderia haver uma mãe melhor para os meus filhos.
Aquele homem incrível a amava.
— Está falando sério?
— Claro que sim. E tenho certeza de que você amará os nossos filhos, Kim.
Ela sorriu e se aninhou no peito de Diego.
— Promete que vai continuar lutando por mim, que nunca desistirá de mim? —
perguntou ela.
Ele sorriu e disse, com as mãos pousadas na cintura de Kim:
— Nós sempre lutaremos um pelo outro. Nunca nos contentaremos com menos do
que o que merecemos. Eu juro gatinha.
Olivia sorria ao lado de Alexander, que a seguira até a ilha de Diego.
— Você foi embora sem avisar — murmurou ele.
Liv fechou os olhos e respirou fundo, sentindo o cheiro do marido.
— Fiquei preocupada com ela — respondeu, acenando em direção à irmã.
Kim e Diego caminhavam de mãos dadas, à beira-mar. Liv não parava de sorrir ao
ver o cuidado de Diego com sua irmã gêmea. E Kim não parava de sorrir desde a
chegada de Liv.
Alexander beijou a esposa e disse:
— Não vejo motivo para preocupação.
— Não mesmo... Ela nunca esteve tão feliz, tão radiante. E você sabe que ela...
— Você pegou um avião após termos discutido, Liv, e não atendia ao telefone. Foi
Emily quem me disse que você estava aqui. Aliás, você assinou aquele papel... — Ele a
beijou novamente, dessa vez com mais paixão. — Acho que já entendi o que fez. É
estranho me sentir protegido pela minha própria esposa. Eu te amo Liv.
Ela nunca imaginou que escutaria isso de Alexander. E ele disse ainda:
— E estou feliz por sua irmã ter encontrado a felicidade.
Liv fez que sim e retribuiu o beijo.
— Acho que já chegou á hora de você conhecer o verdadeiro Diego, certo?
Ela sorriu quando Alexander ergueu exageradamente uma das sobrancelhas.
O seu marido e seu cunhado eram tão diferentes quanto ela e sua irmã gêmea.
A vida seria muito interessante para todos eles, e também cheia de alegrias e amor.

Fim

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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

RIVAIS DA COROA DE KADAR
CORAÇÃO CAPTURADO
Kate Hewitt
— Alguma coisa está errada...
Elena Karras, rainha de Thallia, mal registrara a voz do comissário de bordo atrás
dela, quando um homem em um terno escuro, com expressão inescrutável, encontrou-a
na base dos degraus que levavam do avião da realeza à grande extensão do deserto.
— Rainha Elena. Bem vinda a Kadar.
— Obrigada.
Ele fez uma reverência, então indicou um dos três carros blindados esperando perto
da pista de decolagem.
— Por favor, acompanhe-nos ao nosso destino — disse ele, a voz tensa, porém
cortês. Deu um passo ao lado, de modo que ela passasse, e Elena endireitou os ombros
e levantou o queixo, enquanto andava em direção aos carros esperando.
Então, lembrou-se que sheik Aziz queria manter sua chegada em segredo, por
causa da instabilidade dentro de Kadar. Desde que ele assumira o trono, pouco mais de
um mês atrás, houvera, segundo Aziz, algumas atividades insurgentes. No último
encontro deles, ele a assegurara que estava tudo resolvido, mas Elena supunha que
algumas medidas de segurança eram uma precaução necessária.
Como o sheik, ela precisava desse casamento. Mal conhecia o homem, mas
precisava de um marido, assim como ele precisava de uma esposa.
Desesperadamente.
— Por aqui, Vossa Majestade.
O homem que a cumprimentara primeiro andara do seu lado para o carro, a
escuridão infinita do deserto os cercando. Ele abriu a porta do veículo e Elena olhou para
o céu, para as estrelas brilhando tão friamente acima deles.
— Rainha Elena.
Ela enrijeceu ao som da voz, em pânico, reconhecendo-a como a do comissário de
bordo do avião da realeza de Kadar. As palavras que o homem falara mais cedo
registraram: alguma coisa está errada.
Ela começou a se virar, e sentiu uma mão pressionada em suas costas, detendo-a.
— Entre no carro, Vossa Majestade.
Elena começou a suar frio. A voz do homem era baixa e repleta de propósito, e não
mais cortês como antes. E ela teve certeza absoluta de que não queria entrar naquele
carro.
— Só um momento — murmurou ela, e abaixou-se para ajustar seu sapato, para
ganhar tempo. Precisava pensar.
Alguma coisa dera errado. O pessoal de Aziz não a tinha encontrado ali, como
esperado. Este estranho fora recebê-la, e ela sabia que necessitava fugir dele. Planejar
uma fuga... E nos próximos segundos.
Uma onda de determinação envolveu-a, enquanto ela lutava contra um sentimento
de irrealidade. Isso estava acontecendo. Novamente, o pior estava acontecendo.
Elena sabia tudo sobre situações perigosas. Sabia como era encarar a morte de
frente e sobreviver.
E sabia que, se entrasse no carro, fugir se tornaria uma possibilidade remota.
Mexeu no sapato, sua mente girando. Se tirasse os sapatos, poderia correr de volta
para o avião. O comissário era obviamente leal a Aziz; se eles conseguissem fechar a
porta antes que este homem a alcançasse...
Era uma opção melhor do que correr pelo deserto escuro. Era sua única opção.
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Paixão Especial nº 03.2

Toque de Tentação

Tara Pammi

— Vossa Majestade. — A voz do homem era impaciente.
Respirando fundo, Elena livrou-se dos sapatos e correu.
O vento jogava areia em seu rosto, enquanto ela corria em direção ao avião. Ela
ouviu um som atrás de si, então uma mão firme circulou sua cintura, erguendo-a do solo.
Mesmo então, ela lutou. Chutou a forma sólida atrás de si; o corpo do homem agora
parecia uma parede de pedra. Ela inclinou-se para frente, tentando encontrar alguma pele
exposta para morder, qualquer coisa para ganhar sua liberdade.
Elena envolveu uma perna ao redor da dele e chutou-lhe a parte de trás do joelho,
de modo que a perna do homem dobrasse. Chutou e chutou, até que ambos caíram no
chão.
Ela levantou-se em segundos, se arrastando na areia. O homem derrubou-a de novo
e cobriu-a com seu corpo, efetivamente prendendo-a.
— Eu admiro sua coragem, Vossa Majestade — disse ele no seu ouvido, em um
sussurro rouco. — Assim como sua tenacidade. Mas lamento que ambas sejam
inapropriadas.

E leia também em Rivais da Coroa de Kadar, edição 004, Coração comandado
Kate Hewitt.

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