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Por Jamil Chade, estadao.com.

br, Atualizado: 19/6/2011 0:02

A luta secreta de D. Paulo Arns
No auge da violência promovida pelo governo militar, parte
da Igreja e centenas de líderes religiosos no Brasil passaram
a ser alvo da repressão. Documentos guardados há décadas
em Genebra obtidos pelo Estado revelam como o cardeal d.
Paulo Evaristo Arns liderou um lobby internacional, coletou
fundos de forma sigilosa e manteve encontros com líderes
no exterior para alertar sobre as violações aos direitos
humanos no Brasil.
A atuação do arcebispo de São Paulo mobilizou uma
rede de informantes, financiadores e apoiadores secretos
pelo mundo. Dentro do País, os documentos mostram que
ele e seus aliados organizaram manifestações, incentivaram
líderes operários e pagaram despesas das famílias dos
Janete Longo/AE grevistas no ABC em 1980.
"Engajado. D. Paulo, diante de presídio: busca de apoio contra
Relatórios, testemunhos, cartas, informações de
repressão"
dissidentes e dezenas de acusações fazem parte de três
caixas de documentos entregues ao Brasil na terça-feira, para que possam ser estudados e eventualmente, como
espera a ONU, sirvam de base para processos contra autores de crimes contra a humanidade. Os documentos
originais foram mantidos no Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra. O Estado teve acesso às mais de 3 mil
páginas e, nos próximos dias, publicará parte do conteúdo que está nas caixas entregues à Justiça no Brasil.
A máquina de tortura instalada no Estado não havia poupado nem sacerdotes. Em dezembro de 1978, o
Centro Ecumênico de Documentação e Informação, no Rio, coletaria vasto material sobre a repressão sofrida
pela Igreja naquela década.
O texto de introdução do levantamento deixa claro que o material havia sido encomendado por d.
Paulo, que já tentava organizar um dossiê que compilasse as violações aos direitos humanos e pudesse ser
usado em algum momento pela Justiça.
Segundo o relatório, entre 1968 e 1978, 122 religiosos foram presos pelo regime militar. Havia 36
estrangeiros, 9 bispos, 84 sacerdotes, 13 seminaristas e 6 freiras. Outras 273 pessoas 'engajadas no trabalho
pastoral' tinham sido detidas. Dessas, 34 foram vítimas de torturas como choques elétricos, paus de arara e
pressões psicológicas. 'Há registros de pessoas que ficam inutilizadas física e/ou psicologicamente por motivo
da tortura.'
Entre os motivos mais frequentes de prisão estava o fato de proferirem homilias que desagradavam às
autoridades, além de ajudarem a organizar manifestações operárias.
Até aquele momento, pelo menos sete pessoas haviam sido mortas como forma de pressão ao clero,
tidas como 'subversivas' ou suspeitas de passar informações a dissidentes. Foram registrados 18 casos de
ameaça de morte e uma dezena de sequestros. A repressão também intimou 75 líderes religiosos a depor, para
que denunciassem bispos e sacerdotes.
Reação. Na segunda metade dos anos 70, d. Paulo e líderes religiosos do exterior avaliaram que era
hora de reagir nos bastidores para reunir apoio internacional e demonstrar a insatisfação popular nas ruas. Em
27 de setembro de 1977, o então encarregado de Direitos Humanos na América Latina do Conselho Mundial de
Igrejas enviou de São Paulo uma carta a Genebra alertando para a 'crescente tensão entre a Igreja e as
autoridades'. A correspondência foi classificada como 'confidencial' e seu autor, Charles Harper, pediu que o
documento 'não fosse publicado'.
A carta relata dois fatos fundamentais daqueles dias. O primeiro foi o ato que reuniu 6 mil pessoas na
Igreja da Penha, em São Paulo. 'Foi a primeira vez que uma articulação tão lúcida, sob a iniciativa da Igreja no
Brasil, foi feita desde 1964 em relação aos direitos humanos', disse Harper. O segundo relato trata da invasão
da PUC, no qual Harper aponta para a apreensão de uma tonelada de 'material e equipamento subversivo' e para
a prisão de 1,5 mil alunos, 'alguns em plena prova' nas salas de aula. Para ele, o ocorrido 'deve ser visto como
uma retaliação contra a Igreja'.
O relato alerta para a pressão sobre d. Paulo, considerado alguém de 'coragem, firmeza e sentido de
timing'. Para Harper, os movimentos de liberalização do regime eram acompanhados por uma hesitação dos
militares, temerosos de terem de responder pela violência dos anos anteriores e pela corrupção. 'Muitos
acreditam que há um forte endurecimento das ações repressivas.'
Harper sugere que o Conselho Mundial de Igrejas demonstre apoio às instituições religiosas no Brasil.

cujo irmão. portanto. vindo da Suíça. de Brasil: Nunca Mais. o cardeal escreveu ao então secretário-geral do Conselho de Igrejas. Paulo e do arquivo em Genebra fez com que a tortura no País e suas vítimas não sejam esquecidas. Depois de copiados. Paulo. pela publicação desse material. Para Harper. De lá. O Conselho confirmava que havia conseguido 'levantar a maior parte dos recursos necessários à realização do projeto especial'. o pastor optou por se aliar a d. d. A solução era pedir dinheiro de forma ilegal. Potter garantia que a pesquisa sobre a tortura no Brasil seria divulgada nas igrejas 'em todo o mundo para sua reflexão'. o cardeal receberia uma carta de Potter com duas notícias importantes. Mas era a segunda notícia que mais impactaria d. 'Sentimos que as igrejas precisam tomar a iniciativa de garantir que. d. em Cortes militares. Clandestinos. Paulo precisava de US$ 329. em 1985. 'Por todo Brasil. Em vez de procurar sua igreja. Paulo ganharia novas dimensões. E afirmou: 'Esse projeto terá efeitos duradouros. Para se preparar para a Lei da Anistia.com/ultimas-noticias/a-luta-secreta-de-d-paulo-arns Acesso em 19 de jun. sob o alerta de que o 'conteúdo dessa carta deve ser confidencial. O grupo usaria uma brecha na lei para compilar os dados. mesmo que os criminosos nunca tenham ido à Justiça. Paulo. havia sido morto pelo regime. o trabalho de d. afirmou d. lutou contra a ditadura. O projeto foi ideia do reverendo protestante Jaime Wright. Para Charles Harper. seguiam escondidos para Genebra. escondido dentro do cinto. como mostra uma carta de 1996.msn. Mas o cardeal resistia em pedir dinheiro para a Igreja Católica no Brasil. Philip Potter. que o Conselho Mundial de Igrejas aceite a tarefa de levantar a grande maioria dos fundos necessários. Paulo e Jaime Wright tornaram-se amigos. a entidade em Genebra enviaria telegramas para manifestar sua oposição à repressão e apoio à democracia.Poucos dias depois. dada suas implicações'. Em 19 de fevereiro de 1983. A primeira era de uma doação às ' famílias dos operários em greve no ABC'. há uma abundância de material que substanciam 15 anos de repressão. tais coisas não ocorram de novo'. Mais que aliados. Quase um ano depois. dissidentes e advogados tiveram acesso por 24 horas a seus dossiês. Paulo deu apoio moral e espaço físico para quem. A relação entre o Conselho e d. http://estadao. apontaria a dimensão da repressão no País. Quem chegava à cidade suíça com as informações retornava ao Brasil com dinheiro para o projeto. o cardeal chegou a citar o caráter 'enciclopédico da tortura' no Brasil. temendo que a ala conservadora abafasse o projeto e o denunciasse. Paulo. Paulo fez questão de informar a Potter que o dinheiro 'estava sendo gasto estritamente de acordo com os planos aprovados'. d. Foi o suficiente para que o grupo detalhasse a repressão em 1 milhão de páginas coletadas. Era o pedido por fundos internacionais clandestinos para a operação que culminaria na publicação. dentro da Igreja. os processos eram enviados para São Paulo. onde eram transformados em microfilmes. O projeto valeu a adesão do Brasil nos anos 80 à Convenção da ONU contra Tortura. em 23 de junho de 1980. 'Pedimos. O equipamento comprado seria doado para a PUC. Paulo.1 mil para completar seu projeto. que hoje vive na França. D. Paulo.' E não só políticos. Em outra carta. de uma forma confidencial. Era um projeto ambicioso. 2011 . 242 centros de tortura no Brasil e. argumentou d.' Os arquivos guardaram tabelas detalhadas sobre os custos e as viagens dos pesquisadores. Dois anos após a invasão da PUC. A pesquisa revelaria nomes de 444 torturadores. contidas em centenas de dossiês'.br. com os testemunhos de milhares de vítimas.