SER E TER: UMA LEITURA DA IDENTIDADE DOCENTE1

(Trabalho realizado a partir do documentário Ser e Ter2 e do texto O Mundo como Representação3)

Valéria Moura Venturella4 O documentário Ser e Ter, do diretor francês Nicolas Philibert, permite ao espectador compartilhar do dia-a-dia de um professor e de sua turma multi-seriada em uma escola com uma única sala de aula localizada em uma aldeia no interior da França, ao longo de quatro estações. Nessa pequena e bucólica localidade, em que não há um número de crianças e pré-adolescentes que justifique a existência de um professor para cada série, todos os alunos da educação básica – da pré-escola ao final das séries iniciais – se reúnem ao redor de Georges Lopez, um professor de meia-idade, já com trinta e cinco anos de experiência docente e há poucos meses da aposentadoria. O documentário retrata também parte da vida quotidiana dos alunos da escola e de suas famílias, e a influência familiar na formação das crianças. O filme permite que o espectador divise as estreitas relações e a cumplicidade que existem entre as famílias e o professor, o que parece resultar numa intervenção muito positiva na percepção que as crianças têm da escola. É importante mencionar que o documentário mostra que o professor da turma é um membro participativo da pequena comunidade, em que ele é bem-quisto e considerado um bom cidadão e um bom educador. Philibert faz, em seu documentário, uma leitura idílica e otimista da França rural de hoje. Através dessa pequena escola e do trabalho de Lopez com suas crianças, longe da violência, da crueldade e da falta de segurança presentes nas grandes cidades, o documentário nos diz que ainda há paz e harmonia no mundo. E mais do que isso: ainda há esperança. E que a esperança pode vir da educação. É visível que, além de ensinar os alunos a ler, escrever e realizar operações matemáticas básicas, Lopez se preocupa em prepará-los para uma vida adulta responsável e decente. Ele interfere com serenidade, firmeza e eqüidade nos conflitos, se preocupa em escutar cada criança em seus problemas, oferece condições para uma convivência harmoniosa e para a cooperação entre colegas, exige que os alunos pensem, reflitam e se
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Texto produzido como pré-requisito para a aprovação na disciplina Sociedade, Cultura e Educação, ministrada pela Profa. Dra. Maria Helena Câmara Bastos no Mestrado do Programa de PósGraduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Porto Alegre – de março a julho de 2004. 2 ÊTRE ET AVOIR. Nicolas Philibert. França: Canal+: Mercure Distribution/New Age Entertainment, 2002. 3 CHARTIER, Roger. O mundo como representação. In: À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietude. Porto Alegre: Ed. Universidade, 2002. 4 Mestranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Porto Alegre; Professora do curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Uruguaiana.

empenhem na resolução de problemas, e demonstra em todos os seus atos respeito por cada um de seus alunos, explicitando um exemplo de convivência fraterna e ética. O documentarista nos apresenta uma interpretação particular do bom educador. A vocação de Georges Lopez parece permear todas as suas ações. Pode-se perceber sua preocupação constante com o aprendizado tanto individual quanto coletivo de seus alunos, e seus esforços para fazer emergir os talentos e as habilidades de cada um, apesar das diferenças de idade e de personalidades. É possível ver que ele tenta fazer com que cada criança desenvolva uma atitude positiva em relação ao estudo, além de estimular cada criança a construir seu próprio aprendizado e sua maneira particular de ver o mundo. Ele está empenhado, em suma, em fazer com que cada aluno construa sua autonomia e sua individualidade. E o mais surpreendente é que ele parece ter êxito nessa missão. Por sua vez, as crianças da turma parecem sintetizar o entusiasmo e a curiosidade infantis, seu orgulho frente a suas conquistas, a confiança ingênua que depositam em seu professor. Elas demonstram também a eventual crueldade, a insegurança e os conflitos interiores que fazem parte de seu crescimento como pessoas. Embora não sejam retratadas no filme como crianças idealizadas, esquemáticas e irreais, os alunos da escola, por outro lado, não apresentam características que tanto inquietam os professores de hoje em dia, como o permanente desinteresse pelo aprendizado e a arrogância em relação a seus pais e professores, entre outras. Após assistirmos o documentário, chegamos a desejar que todas as nossas experiência de sala da aula fossem como a do professor Lopez. Ser e Ter, assim, é um recorte nem sempre realista da realidade. Embora não tenha pretensões propagandísticas explícitas, e não se esforce para nos catequizar a respeito do que é certo e errado, bom ou ruim em termos de educação, acaba por nos apresentar uma oportunidade para refletirmos a respeito do trabalho docente em geral, e de nosso próprio trabalho em particular. Cada espectador acaba projetando sobre as cenas que assiste suas próprias memórias, seus desejos e suas expectativas em relação ao mundo em que vive, isto é, acaba atribuindo ao filme um sentido próprio. No caso dos educadores, porém, acredito que esse efeito seja mais forte, uma vez que o documentário fala mais diretamente à nossa identidade profissional e à representação que temos de nós mesmos e de nosso trabalho. O documentário mostra como é possível para um professor real lidar com habilidade com a heterogeneidade discente, mesmo quando não domina técnicas de ensino ou dispõe de recursos especiais. Embora seja um professor visivelmente tradicional, e não se revele como um ser dotado de características excepcionais, Georges Lopez se configura como um modelo para educadores em todo o mundo, ao nos mostrar que um professor deve ter, acima de tudo, bom senso, muito amor e respeito por suas atividades, além de uma profunda consciência de sua importância na vida de cada um de seus educandos. Um

exemplo de amor e de dedicação a sua profissão, Lopez parece influenciar de maneira muito positiva a formação integral de seus alunos, conduzindo-os com autoridade e placidez da infância à adolescência, e, nesse processo, deixando marcas indeléveis nas crianças e em suas famílias. Quem de nós, educadores, não gostaria de ter êxito em tal projeto? Ser e Ter é um trabalho sensível, que aborda múltiplos aspectos da existência humana, tais como vocação, crescimento, aprendizado, partilha. Um elogio à missão do educador, ao aprendizado coletivo e ao respeito pelo outro, esse é um documentário que tem o poder de, ao nos levar a uma reflexão sobre nossa tarefa como professores, renovar nossa esperança na educação em seu papel na construção de um mundo mais bonito e harmônico.