TERRY EAGLETON: SOBRE LEITURA, INTERPRETAÇÃO E SOCIEDADE1 Valéria Moura Venturella2 O britânico Terry Eagleton encontra-se hoje entre

os mais influentes críticos e teóricos da literatura no mundo ocidental. Além de uma respeitada carreira como professor, Eagleton tem desenvolvido um trabalho prolífico como escritor, tendo publicado mais de 40 títulos. Teoria Literária: Uma Introdução3, publicado em 1983 e revisado em 1996, é possivelmente seu trabalho mais conhecido. A obra aborda a história do estudo de textos, do Romantismo às correntes pós-modernistas da segunda metade do século XX, sob uma ótica Marxista, orientação que é assumida pelo autor sem rodeios. Eagleton inicia a a terceira parte do Capítulo II de Teoria da Literatura esquematizando a moderna da teoria literária em um trilátero, cujos vértices seriam o autor, o texto e o leitor. O romantismo do século XIX exemplifica as abordagens centradas no autor. A Nova Crítica, por sua vez, teve no texto seu foco principal. Já as abordagens que privilegiam o papel do leitor foram desenvolvidas na segunda metade do século XX. Um de seus expoentes é a Teoria da Recepção, que Eagleton define como uma manifestação da hermenêutica, ou seja, do estudo da interpretação dos signos e de seu valor simbólico, que se ocupa de examinar o papel do leitor na literatura. A seguir, Eagleton coloca suas definições de texto e de leitura, que parecem estar de acordo com com as concepções apresentadas pelos teóricos da Recepção. Para o crítico britânico, um texto é um conjunto de indícios que convidam o leitor a dar sentido a ele, ou seja, um processo de significação que se materializa com o ato da leitura. Na leitura, somos levados a um processo – muitas vezes inconsciente – de especulação e dedução a respeito das indicações dadas pelo texto. Ao lermos, constantemente construímos suposições a respeito dos significados do texto que serão confirmadas ou refutadas à medida que continuamos a leitura. Ao leitor cabe, assim, o papel essencial de concretizar a obra literária: estabelece conexões, preenche lacunas, constroi hipóteses, confirma-as ou refuta-as – “e tudo isso significa o uso de um conhecimento tácito do mundo em geral e das convenções literárias em particular” (EAGLETON, 2003, p. 105). É devido a esse uso de conhecimentos próprios que a interpretação é sempre questionável. A respeito da definição dada por Eagleton, é importante destacar que ele não
1 Texto produzido como pré-requisito para a aprovação na disciplina Introdução aos Estudos Literários, ministrada pelo Prof. Dr. Sérgio Bellei no Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Teoria da Literatura da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Porto Alegre – de março a julho de 2009. 2 Mestre em Educação e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Teoria da Literatura da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 3 EAGLETON, Terry. Teoria literária: uma introdução. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

considera a leitura como um processo linear e progressivo. Embora nossas especulações iniciais constituam uma moldura referencial que nos auxiliará a interpretar o que se segue, a continuidade do processo de leitura pode mudar nossos primeiros entendimento. Assim, à medida que o processo de leitura avança, formulamos novas hipóteses e realizamos deduções cada vez mais complexas e continuamente abandonamos suposições e revemos crenças. A partir dessas definições, então, o teórico britânico recupera as ideias centrais apresentadas pelos pensadores da Teoria da Recepção, sempre em uma perspectiva crítica. O primeiro teórico a ser abordado é o polonês Roman Ingarden, autor do fundante A Obra de Arte Literária, de 1931. É de Ingarden a definição da obra literária como uma série de direções gerais que devem ser materializadas pelo leitor no ato da leitura. E é também do mesmo teórico a ideia de que, ao ler, nos aproximamos da obra com o conjunto assistemático de pré-entendimentos, crenças e expectativas – não fixado, mas modificado à medida que a leitura avança – a partir do qual compreendemos. Essa é a parte do trabalho de Ingarden que Eagleton aceita. O problema surge a partir do momento em que o filósofo polonês parte do pressuposto de as obras literárias formam todos orgânicos. E ele supõe também que o leitor, ao adequadamente preencher-lhe as indeterminações, completa também essa organicidade. Eagleton critica essa visão organicista e totalizante da literatura e do leitor, considerando-a dogma, um axioma do pensamento de Ingarden que não tem de necessariamente ser assim. O próximo teórico revisado por Eagleton é o alemão Wolfgang Iser, considerado o fundador da chamada Escola de Constância, que se dedicou a estudar a Estética da Recepção. Em O Ato da Leitura, de 1976, Iser explora as relações estabelecidas entre o leitor e o texto quando o processo de leitura ocorre. Os textos contém “estratégias”, “repertórios” de temas e alusões familiares, além de certas regras que governam o modo como seus significados são expressos. Para ler, o leitor necessita estar familiarizado com esses elementos da obra, e deve também mobilizar todo seu conhecimento, correlacionando-o com os códigos e convenções presentes nos textos. Assim, diferentes leitores interpretarão a mesma obra de modos diversos, uma vez que têm experiências e vivências particulares. No entanto, toda interpretação deve necessariamente ser feita de modo a apresentar coerência em relação ao texto. Por outro lado, a correspondência entre os recursos do texto e o conjunto de conhecimentos do leitor não pode ser total, sob o risco de tornar a literatura um ato banal. A grande obra literária força o leitor a reconhecer seu repertório de conhecimentos, visões e crenças, questioná-lo e até mesmo transgredi-lo. Assim, à medida que o leitor preenche – e modifica – o texto no ato de ler, também por ele é modificado.

Para Eagleton, Iser apresenta a literatura em uma perspectiva humanista liberal, ao atribuir à literatura a função de promover o auto-reconhecimento, a desestabilização, a autocrítica e a modificação da própria identidade do leitor. Para isso, no entanto, o leitor deve estar aberto à reflexão e à revisão das próprias crenças. O problema, para Eagleton, é que só pode ser transformada pela leitura um leitor aberto ao auto-questionamento e à mudança – o próprio leitor que a literatura visa formar. Além disso, uma pessoa sempre disposta a rever sua crenças porta, para começar, convicções provisórias e superficiais. E essa não é a única ressalva que Eagleton faz ao trabalho de Iser. O autor britânico vê o trabalho do teórico da Estética da Recepção como, por um lado, uma formulação conservadora e autoritária de leitura, em que o leitor busca sempre fechar as aberturas da obra literária, preenchendo suas indeterminações e estabilizando seus significados. Por outro lado, ele critica a posição visão de Iser da obra de arte deve literária como renovadora e transgressora das normas literárias, culturais e sociais instituídas. Eagleton lembra que grande parte do que é considerado hoje como “literatura válida” confirmou – e não, como afirma Iser, desestabilizou e infringiu – os códigos de sua época. Para Eagleton, a atitude dos ditos liberais europeus não passa de uma suspeita vã e infundada dos sistemas de pensamento vigentes. Eagleton contrapõe ao que ele denomina o “modelo normativo sombrio” de Iser o pensamento que o filósofo francês Roland Barthes expressa em O Prazer do Texto, de 1973. Nessa obra, Barthes discute a leitura do texto modernista, “que dissolve todos os significados precisos num jogo livre de palavras, [...] com uma incessante oscilação da linguagem” (op. cit., p. 113). Os textos assim instáveis e indeterminados não podem ter seus sentidos fixados. Ao se engajar em sua leitura, o leitor, em vez de tentar combinar os elementos textuais para constituir um sistema coerente, deve se entregar à experiência das impressões imprecisas, indefiníveis e fragmentadas que o texto lhe provoca. Longe de consolidar a identidade social e cultural do leitor, o texto modernista simplesmente provoca seu colapso. Para Eagleton, a experiência de leitura definida por Barthes é essencialmente privada e definitivamente anárquica. Por isso, não guarda qualquer valor social. O autor britânico também aproxima esse modelo ao de Iser, no sentido de que ambos rejeitam a prática do pensamento sistêmico, além de – e essa soa como a crítica mais importante – deixarem de levar em conta a posição do leitor na história. Nesse ponto, Eagleton identifica o alemão Hans Robert Jauss, também integrante da Escola de Constância, como um teórico da Recepção que se ocupou da historicidade do leitor. Jauss considera que toda obra literária está situada um “horizonte histórico”, ou seja, imersa e resultante de um determinado contexto de significados culturais. Por sua vez, os leitores também se aproximam das obras a partir de seus “horizontes de expectativa”, esses

também determinados pelo tempo pelo espaço em que se encontram. Ao propor uma concepção de história da literatura a partir do estudo dos diferentes momentos de “recepção” histórica de uma determinada obra, Jauss define as obras literárias como essencialmente instáveis, sendo transformadas à medida que suas interpretações se modificam, uma vez que são recebidas em diferentes “horizontes históricos” ao longo do tempo. Para Eagleton, a recepção, do modo como a entendem Jauss e Iser, apresenta impasse epistemológico: se o texto é uma série de possibilidades a serem concretizadas pelos leitores de maneiras diversas – tanto de leitor para leitor quanto ao longo da história – como podemos discutir as possibilidades sem tê-las já concretizado? Qualquer discussão só pode se dar a respeito de nossa própria concretização, e esta é inevitavelmente parcial. Eagleton então passa a discutir as ideias do teórico literário americano Stanley Fish, autor de para quem esse relativismo não se apresenta como problema, ao admitir não haver qualquer tipo de objetividade possível no tratamento de obras literárias: uma obra literária só pode ser definida como todas as suas compreensões possíveis. Para Fish, a leitura não consiste na descoberta dos significados do texto, mas sim no reconhecimento das impressões que ele evoca no leitor. A crítica literária, por sua vez, é a tentativa de explicar e estruturar as reações do leitor frente ao texto. Apesar dessa concepção aberta de leitura, no entanto, Fish não aceita o que Eagleton denomina “anarquia hermenêutica”. Ele resolve a questão ao conceber que leitores de uma mesma comunidade compartilham “estratégias de interpretação” que acabam por direcionar suas impressões individuais. As leituras realizadas por membros de uma mesma comunidade de interpretação, desse modo, não são muito divergentes entre si. Eagleton compartilha da visão de Fish de que – no mundo da literatura, nas ciências sociais e até mesmo nas ciências exatas – não há fatos brutos, independentes da experiência e da interpretação humana. Um fato nada mais é do que um interpretação com que todos concordam. E geralmente há mais de uma teoria para interpretar um mesmo fato. Porém, o teórico literário britânico não pode deixar de indagar – considerando que a obra literária é definida como o conjunto de entendimentos que ela pode provocar – o que exatamente é interpretado com o ato da leitura? Fish, com honestidade, admite não saber a resposta a essa pergunta. Mas vai além e afirma que ninguém sabe. De modo geral, as críticas feitas por Terry Eagleton ao conjunto do pensamento dos teóricos da Estética da Recepção estão centradas em dois problemas principais. O primeiro deles é a falta de limites claros para as possibilidades de interpretação; o segundo é a ausência de uma consideração histórica do sujeito-leitor. Embora Eagleton se recuse a aceitar qualquer tipo de conservadorismo em relação às normas de interpretação – como as que percebe no modelo de Wolfgang Iser – ele

também não pode consentir na liberdade ilimitada. Essa tensão entre autoritarismo e liberalidade, o autor britânico resolve através de sua concepção de linguagem, e os desdobramentos dessa concepção para a leitura e a interpretação. Eagleton não nos deixa esquecer que a linguagem é uma produção humana. E, como toda produção humana, é determinada na e pela prática social da comunicação, que é característica do momento e do local em que se desenvolve. Desse modo, qualquer interpretação deve ser validada no tempo e no espaço em que ocorre, pelo uso da linguagem naquele contexto. “A língua é um campo de forças sociais que nos modelam até as raízes, sendo uma ilusão dos acadêmicos considerar a obra literária como uma arena de possibilidades infinitas, que fogem a isto.” (op. cit., p. 120). Assim, para Eagleton, os usos sociais da língua limitam a quantidade de significados que é possível um leitor atribuir a um texto. Eagleton não deixa de denunciar que, fazendo uso dessa limitação, algumas instituições – entre elas a escola – tomam para si o papel de legitimar certas leituras e rechaçar outras. O problema é que essas leituras nunca são neutras ou puramente acadêmicas, mas tendem a confirmar formas dominantes de leitura e de interpretação que vigoram na sociedade em que essas instituições estão inseridas. O crítico nos lembra, no entanto, que até mesmo em uma instituição acadêmica consolidada e tradicional pode haver interpretações conflitantes, o que nos leva a questionar o caráter totalitarista das interpretações confirmadas por essas instituições. Mas a observação mais importante apresentada por Eagleton se refere à posição histórica do leitor, que tende a ser desconsiderada pelos teóricos da Estética da Recepção. Para ele, a leitura – e, por conseguinte, a interpretação – não pode ser considerada ahistoricamente. “Os leitores não se encontram com os textos no vácuo: todos os leitores estão social e historicamente situados, e a maneira pela qual interpretam as obras literárias será profundamente condicionada por esse fato” (EAGLETON, p. 114). O leitor não se aproxima do texto isento de experiências, pré-concepções e outros envolvimentos sociais e literários anteriores. E o repertório pessoal que ele movimenta quando do ato da leitura é determinado, ou pelo menos influenciado, por sua época e por seu lugar. E isso não pode, segundo o crítico marxista, ser ignorado. E ele vai ainda além, afirmando que, em se tratando quer de leitura, quer de interpretação, não existem reações puramente literárias. “Todas as reações, sem exclusão das reações à forma literária [...] estão profundamente arraigadas no indivíduo social e histórico que somos” (op. cit., p. 123). Isso significa que toda resposta produzida em relação a uma obra literária é definida e delimitada pela posição do leitor na sociedade. Para ele, para além de diferentes pontos de vista sobre leitura e literatura, o que está em jogo nessa importante discussão é o fato de que toda e qualquer teoria literária é definida no interior de

uma realidade social. “Romper com as instituições literárias [...] significa romper com as maneiras pelas quais são definidas a literatura, a crítica literária e os valores sociais que as apoiam” (op. cit., p. 123). Desse modo, qualquer entendimento a respeito das teorias e instituições literárias – e também das leituras e interpretações consideradas válidas em qualquer sociedade – devem necessariamente passar pelo estudo das demais instituições sociais e culturais com as quais a literatura se relaciona. E qualquer questionamento e crítica feitos às concepções de leitura, literatura e interpretação vigentes devem levar em conta o contexto humano que, ao mesmo tempo, as permitem e limitam.