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O rio e o homem

Lúcio Flávio Pinto

Estive pela primeira vez no local onde seria construída a
hidrelétrica de Tucuruí em 1973. Nessa época, nada sugeria
que aquela paisagem – física e humana – iria se transformar
tanto. Andei pelas pedras situadas exatamente no ponto onde
seria levantada a grossa parede de concreto, de 78 metros de
altura. Ela seguraria as águas do rio Tocantins, o 25º maior
curso d’água do planeta, com mais de dois mil quilômetros de
extensão e que já chegou a verter quase 70 milhões de litros de
água por segundo, em 1980, drenando uma bacia que ocupa
10% do território brasileiro.
Quando a obra da 4ª maior hidrelétrica do mundo foi iniciada,
em 1975, imaginava-se que ela custaria 2,1 bilhões de dólares
(acabou saindo por pelo menos cinco vezes mais) e inundaria
uma área de 1.160 quilômetros quadrados (alcançou 3.100 km2).
Supunha-se também que iria colocar o Pará entre os Estados mais desenvolvidos da Federação. Um quarto de século depois que a usina entrou em operação, o Pará, com o 2º
maior território e a 9ª maior população do Brasil, é o 16º em
desenvolvimento humano e o 21º em PIB per capita. É o terceiro Estado que mais exporta energia no país. É sangrado em
suas riquezas, que vão para outros rincões. Por isso é pobre.
Pode-se mudar esse modelo de desenvolvimento “rabode-cavalo”, que só cresce para baixo? A julgar pelo modelo da segunda grande hidrelétrica do Tocantins, mais de

200 quilômetros a montante de Tucuruí, não. A AHE (nova
nomenclatura das UHEs, talvez de sentido marqueteiro) se
propõe a gerar 2.160 megawatts (ou seriam 2.760 MW? Os
prospectos não esclarecem), à custa de inundar 1.115 km2
e absorver dois bilhões de dólares em oito anos. Este é o
ponto de partida, geralmente embandeirado e festivo. Qual
será, porém, o ponto de chegada?
Quando planejava sem prestar contas a ninguém, a Eletronorte achava que podia extrair 22 milhões de MW em 27
barramentos na bacia do Araguaia-Tocantins. Concluída a
usina de Tucuruí, faria duas hidrelétricas no Araguaia (Couto Magalhães e Santa Isabel). Aí voltaria ao Tocantins para
levantar a barragem de Marabá.
Os anos passaram e o cronograma, felizmente, não se
cumpriu. Sinal de que as projeções de consumo, que exigiam
fazer obras monumentais, a toque de caixa, não estavam certas. Mas e agora? Qual a garantia que temos? É a verdade o
que nos anunciam, de forma tão escassa? Talvez só a conquistemos quando, ao invés de sair furando os rios e concretando seu leito, num ziguezague sem controle da sociedade, se
passe a considerar o que a natureza está cansada de mostrar:
um rio não é uma sucessão de pontos isolados, mas um conjunto harmônico, integrado, completo. Não se pode modificar
parte dele sem afetar o todo.
Por isso, antes de fazer, é preciso saber, conhecer a amplitude e respeitá-la. Para não destruir a pretexto de construir, não
construindo o melhor para a maioria.

O setor energético brasileiro e a construção de barragens
A construção de barragens no Brasil tem causado inúmeros
impactos sociais e ambientais à população e ao meio ambiente.
Segundo estudos, já se construíram mais de 2 mil barragens no
Brasil, expulsando mais de 1 milhão de pessoas de suas terras e
alagando mais de 3,4 milhões de hectares de terras férteis. Segundo estudos de viabilidade, prevê-se a construção de mais de
1.400 novas barragens até 2030, sendo que mais de 300 estão
em solos Amazônicos, para atender às empresas multinacionais.
Essas barragens têm mostrado que a energia gerada serve
para atender as grandes indústrias multinacionais instaladas
aqui, que pagam 10 vezes a menos de tarifa que o povo brasileiro. Só a VALE consome quase 5% de toda a energia brasileira e paga 3 centavos pelo Kw consumido, enquanto o povo
paraense, paga mais de 30 centavos/Kw.

Realização:
Projeto Nova
Cartografia Social
da Amazônia

A barragem de Marabá também tem essa finalidade. Ao invés de gerar desenvolvimento, emprego e oportunidades para
a região, significa gerar energia para as grandes indústrias de
mineração da região e regiões mais desenvolvidas do país.
Além disso, vai servir para o saqueio ainda maior das riquezas
naturais da região, através da Hidrovia Araguaia-Tocantins. E o
povo só fica com os impactos e as migalhas desses projetos.
São mais de 10 mil famílias que serão atingidas em 9 municípios. E para onde vão essas famílias?
Vamos lutar contra a construção dessa obra, contra a
privatização de nossos rios e exigir um plano de desenvolvimento pautado no respeito ao meio ambiente e à população
paraense.
Movimento dos Atingidos por Barragens - MAB

Boletim Informativo

Nova Cartografia Social da Amazônia
Edição Especial Novembro de 2010

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O DIREITO DE DIZER “NÃO” à
construção da HIDRELÉTRICA
DE MARABÁ.
Convenção 169: OIT
PARTE 1 - POLÍTICA GERAL
Artigo 3o
1. Os povos indígenas e tribais deverão gozar plenamente dos direitos
humanos e liberdades fundamentais, sem obstáculos nem discriminação.
As disposições desta Convenção serão aplicadas sem discriminação aos homens
e mulheres desses povos.
2. Não deverá ser empregada nenhuma forma de força ou de coerção que viole os direitos
humanos e as liberdades fundamentais dos povos interessados, inclusive os direitos contidos
na presente Convenção.
“Vangloria-se o Tocantins
de já nascer grande, porque
logo desde a sua fonte a pouco
mais de três tiros de espingarda, de nenhuma sorte dá vau,
ainda na maior estação do verão. Recolhe o rio Tocantins
muitas águas em muitos rios.
Tem quatro braços, ou ramos
principais”.
“Mas do Tocantins podem
ver, e inferir os leitores, quanto
se poderia dizer dos mais, se
deles já tivéramos as noticias
necessárias.”
(DANIEL, João 1722-1776, 2004. Vol. 1, p. 60 e 69)

Eliana Teles Rodrigues (UFPA. CDU 316. Igreja de São João do Araguaia . Peixe Angical. Rosa Elizabeth Acevedo Marin UFPA-NAEA/UNAMAZ Colaboradores: Irislane Pereira de Moraes (UFPA. Thiago Cruz (Ciências Sociais. pescadores. sob a hegemonia norte-americana.NCSA/CESTU/UEA. B688 Boletim Informativo Nova Cartografia Social da Amazônia: O DIREITO DE DIZER “NÃO” à construção da HIDRELÉTRICA DE MARABÁ. Intervenções deste tipo já marcaram o rio Tocantins com a construção das hidrelétricas de Tucurui (1976 . ouvir e partilhar das questões relativas à construção dessa hidrelétrica. extrativistas. A hidrelétrica Marabá é mais um empreendimento dentre os diversos que têm sido implantados na Amazônia para atender a estes interesses. quilombolas.UFPA-NAEA/UNAMAZ Organização desta edição: Joseline Simone Barreto Trindade .AHE Luis Eduardo Magalhães (1998 . “Vida em primeiro lugar: a força da transformação está na organização popular. realizaram-se diversas reuniões e atividades em Marabá. desenvolve-se o centro do capitalismo mundial com a participação de sete países.” (Grito dos(as) excluídos(as) 2009). coligiram e organizaram dados tanto no Pará quanto no Maranhão e Tocantins com objetivo Expediente Série: Movimentos sociais e conflitos nas cidades da Amazônia. Raimundo Gomes da Cruz Neto CEPASP . 2010. Semestral ISSN . quebradeiras de coco babaçu.48 (811)(05) Ficha elaborada por Rosenira Izabel de Oliveira . Este documento tem a finalidade de divulgar e ampliar o conhecimento sobre este projeto que desconsidera o direito dos povos e comunidades tradicionais (indígenas. A atividade de pesquisa continuou até outubro de 2010 para sua finalização. Visitaram e entrevistaram indígenas em suas aldeias.4 (Nov.em construção). agosto e setembro de 2009. Alfredo Wagner Berno de. econômica e politicamente. partindo de Marabá até a sede do município de São João do Araguaia para realizar observações sobre este trecho do rio. bibliotecas. produziram levantamento de informações em órgãos públicos. Agnelo Queiroz Catalogação na Fonte: O Direito de dizer “não” à construção da hidrelétrica de Marabá de montar este Boletim Informativo Nº 4 do PNCSA. Itacaiunas II e Santa Isabel. 16 p. na vila de Apinajés e acompanhamento de duas outras reuniões.. pescadores.Amazônia . UFPA). Arquivo Fundação Casa da Cultura de Marabá. Joseline Simone Barreto Trindade. agentes de movimentos sociais. a primeira na aldeia Parkatejê no dia 28 de abril e a segunda. subordinando às suas regras as periferias asiáticas.1984-6371 1. que passam a dirigir. Vilas desaparecerão com a construção da AHE de Marabá Tocantins Festa do Divino Espirito Santo . Canabrava. julho. [et al]. solicitada pelos vereadores da Câmara Municipal de São João do Araguaia. A hidrelétrica e o lago que será formado expulsarão de suas terras 10 mil famílias de agricultores.2010) / Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia. extrativistas). sim para as poucas empresas que comercializarão a energia produzida pelo empreendimento. Coordenação: Alfredo Wagner Berno de Almeida .Bairro Santo Rosa Marabá (11/07/2009) Ponte Rodoferroviária sobre o rio Tocantins Nos meses de maio. Equipes de pesquisadores. Bruno Malheiros (UFPA-Marabá). Daniela Hohn (MAB).: il. . aconteceram reuniões no assentamento Araras. econômicas e ecológicas que produzirá sobre a vida de mais de 40 mil pessoas com a construção de uma nova hidrelétrica sobre o rio Tocantins.2 Boletim Informativo 4 Nova Cartografia Social da Amazônia 15 Cidades. ribeirinhos e moradores diversos de cidades de nove municípios dos Estados do Pará. moradores nos seus povoados. Nessa sequência. Na ocasião. que produzirá a desterritorialização de grupos sociais e profundos conflitos socioambientais. Ipueiras. Ainda na bacia do Araguaia-Tocantins estão Itacaiunas I. Ano 3. de organizações não-governamentais realizaram uma viagem pelo rio Tocantins. UFPA-Marabá ) Eric de Belém Oliveira (FUNAI. Serra Quebrada e Marabá. com a desagregação social própria desta lógica.Programa de Aceleração do Crescimento do Governo do Presidente Luis Ignácio Lula da Silva) e procederam a examinar as situações e problemas sociais já em curso e as projeções sociais. portanto. estudaram o Projeto de Aproveitamento Hidrelétrico de Marabá – AHE Marabá (prevista no PAC ..Marabá-Pará Barraram-me de ser menino Barraram-me de cumprir o meu caminho Barraram-me de escolher o meu destino Agora sou chamado à existência para não mais existir De quem serão as horas contadas por minha correnteza? Como discorrer o tempo ao vento se querem me afogar? São as lágrimas de um mundo doente que vão me inundar? No verde destas águas que ainda me restam Reflete um passado infeliz que teima em voltar Não basta de insanidades? Deixem que eu seja tribo Deixem que eu seja vivo Tenho um sentido com milhões de sentidos Não vou deixar de ser adulto Não vou desviar o meu trajeto Não vou seguir o absurdo Da ganância de um projeto Querem me roubar a alma E justificam isso por escusos fins Mas permanecerei firme Às margens de mim Tocantins Bruno Cezar Malheiro 11 de fevereiro de 2010.UFPA-Campus Marabá – PPGA. Conflitos Sociais . segunda. Lajeado . Como este empreendimento não trará benefícios para a população regional mas. Estreito (2007 . PPGA).Periódicos I.2002) e outras estão previstas: Serra da Mesa. consideradas como potencialmente fornecedoras de matérias-primas necessárias ao desenvolvimento econômico do centro.1984). não poderá ser construído. Almeida. organizado por Alfredo Wagner Berno de Almeida. n. no dia 15 de maio de 2010. Raimundo Gomes da Cruz Neto (CEPASP). vista do Rio Tocantis Hidrelétrica: mais um enclave A partir da Segunda Guerra Mundial. nas quais participaram representantes de instituições públicas. o planeta terra. ele não nos interessa. PPGA). Destaques. Rogério Paulo Hohn (MAB). Ulisses Guimarães (PPGG-UFPA) Revisão: Camila do Valle Projeto Gráfico: FATO Comunicação Fotografia: Arquivos do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB). participaram de reuniões. Tupirantins. associações. Maranhão e Tocantins.CRB 011/529 Capa: Primeira: Foto do Rio Tocantins retirada do livro de Ignácio Moura. CNPq e Rosa Elizabeth Acevedo Marin . Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia II. de 1925. movimentos sociais. Irislane Pereira Moraes.Manaus:UEA Edições / PPGAS-UFAM. Cynthia Martins (UEMA). Rosa Elizabeth Acevedo Marin. São Salvador. sudeste do Pará. africanas e a América Latina.

no Ubá. vereadores opinam a favor de sua construção por entender que representa “benefícios” para o Estado. Bom Jesus do Tocantins. São João do Araguaia. experimentam a diminuição dos recursos da ictiofauna pelas alterações do regime hidrológico do rio Tocantins. ribeirinhos e indígenas. proprietários de chácaras entre 10 a 20 hectares. ribeirinhos. Eu já plantei muitas fruteiras”. O cemitério. desconsiderando os direitos dos sujeitos sociais. As Consultoras elaboram os estudos “instantâneos” de EIA. A hidrelétrica de Marabá está planejada para ser construída distante 4 km a montante da Ponte Rodoferroviária do Tocantins. vai ser processado. a região e os municípios. está rodeada de fazendas (a maior com extensão de 200 alqueires). Indígenas. No verão de 2008. são indiferentes às vozes. A barragem atingirá mais de 10 mil famílias. E quando se pergunta o que fazem? Dizem que cumprem ordens” (Sr. tiveram inúmeras “visitas” de funcionários das empresas terceirizadas. Ribeirinhos. cerca de 40 mil pessoas. A FUNAI decide.impedem esse projeto. Nova Ipixuna.PGC. A formação do lago irá atingir em cheio seu centro histórico. que são os principais interessados na construção desta obra de infraestrutura. Também serão submergidas fazendas. inseguranças e outros sentimentos dos Indígenas. Palestina do Pará). as condições de trabalho dos pescadores foram profundamente afetadas com a construção da hidrelétrica de Tucuruí. onde é Mãe Maria. 3 Projeto da Hidrelétrica de Marabá A construção da hidrelétrica de Marabá invade. Quebradeiras de coco babaçu. a área do reservatório. Jorge da Associação dos Moradores de Espírito Santo. O quadro dos expulsos não é para provocar sorrisos. marca novos passos com os chamados “estudos de viabilidade” e as “reuniões públicas”. também irá submergir. detém informações sobre o que ocorrerá nos assentamentos adjacentes: “A hidrelétrica expulsará 40. marisqueiros. Isto aqui é do INTERPA. provocado pela barragem de Tucuruí. São João do Araguaia foi fundada em 1911 e é o município com maior população rural do Sudeste do Pará. onde está a igreja matriz em honra a São João Batista. Pescadores. Os primeiros anúncios situam o cálculo de quantos serão “atingidos”. na ocupação Landi (ocupação com mais de sessenta famílias). O senhor Artemiro. Esta hidrelétrica terá capacidade de produção de 2. dos pescadores. quebradeiras de coco babaçu.055 km – bem maior do que o lago formado pela hidrelétrica de Tucuruí. Na casa do senhor Benedito. assentados. senadores. Eles cortaram e não pediram licença para ninguém”. reuniu-se ao grupo que conversava no Bar de dona Cláudia. O INCRA omite-se em tratar o que ocorrerá com os assentados. Como todos os projetos de construção de hidrelétricas na Amazônia. os denominados “chaqueiros”. seus modos de vida. FUNAI. onde também estão previstas mais duas barragens. São João do Araguaia tinha um total de 17. marcando a autoridade e a irreversibilidade da decisão: “vocês não podem embargar. que vai até Flecheira. Na atualidade. dito de forma tão espontânea. A hidrelétrica formará um lago 3. desviar a atenção sobre esses sujeitos sociais. que estão sendo feitos sem o consentimento dos assentados. como ouvimos falar em Espírito Santo. dos moradores de bairros das cidades. Ele disse: “esse meu sítio tem quatro alqueires. deputados.. no Programa Grande Carajás . Atingirá 12 municípios em 3 estados: Pará (Marabá. eles guardaram. também estão em estado de alerta com a construção da hidrelétrica de Marabá. o custo da obra e o número de empregos. Governo do Estado e ainda com as empresas de consultoria e construtoras. O senhor Jorge comentou: “as pessoas das empresas entram e o primeiro que fazem é destruir. As chamadas “reuniões públicas” se realizam sob um esquema de convencimento e de autoridade por parte dos técnicos a partir do discurso que anuncia os benefícios. dos ribeirinhos. Se você impedir. A vila e terras do povoado de Espírito Santo têm limites com a Nova Cartografia Social da Amazônia Reserva Mãe Maria. angústias.14 Boletim Informativo 4 Vila de Espírito Santo Escola da Vila de Espírito Santo Localizada na margem esquerda do rio Tocantins. São dez assentamentos. Localmente fornecerá energia para empreendimentos siderúrgicos ampliação das minas de ferro e cobre e projetos do parque de Ciência e Tecnologia de Marabá. pois nela será construído um muro de contenção. O Sr. receberá o canteiro de obras e está em posição estratégica. moradores de povoados e cidade estão sendo ameaçados pelo projeto. produzindo um espaço de relações específicas com cada uma dessas categorias. A razão maior é a lucratividade do empreendimento para os setores energético e mineral. Os caras cortaram arame e foi encontrado o gado do Benedito em Bacabal. tornando-se um aporte considerável para o Sistema Interligado Nacional. Serão inundados 1115km² de terras (mais de 110 mil hectares de terras férteis). escolas. com um prazo de construção médio de oito anos. O custo de sua construção está estimado em dois bilhões de dólares. “chaqueiro de Bacabal”. Esperantina e Araguatins) e Maranhão (São Pedro da Água Branca e Santa Helena). aqui é do tempo do GETAT. Esse jogo de relações se estabelece com a Eletronorte. em Brasília. Em alguns pontos está tudo controlado por meio de radar . Com este busca-se. eles cortaram arame e foi a empresa. Mais acima entra. Muitos políticos. centenário. Moradores de novos e antigos povoados ou cidades do vale do rio Tocantins. Em 2007. que está na margem do rio Tocantins. O novo empreendimento barrageiro da AHE Marabá repercutirá nas suas práticas desenvolvidas nesta bacia do Araguaia-Tocantins. opiniões. Na proximidade de Bacabal há algumas pedras. os prefeitos unem-se em “consórcios”. Está na Gleba Geladinho. Síntese do Projeto da Hidrelétrica Atingidos pelo projeto A Eletronorte continua a prática de ordenar e decidir projetos deste tipo.160 MW. Jorge ) O diálogo com os funcionários das empresas é também ríspido. Em São João do Araguaia e Tocantins.957 habitantes sendo que mais de 80% (14. Em Bacabal e Espírito Santo. na área do assentamento Mãe Maria. Brejo Grande do Araguaia. O Projeto da Hidrelétrica de Marabá já estava formulado. Tocantins (Ananás. na faixa que foi invadida por “posseiros”. Retomado em 2001.419 habitantes) estava classificada como rural. O Ministério do Meio Ambiente e o IBAMA procuram acelerar a aprovação do Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental. O documento da Gleba está com o INCRA. as chácaras têm sido adquiridas por moradores da cidade de Marabá como espaço de lazer nos finais de semana e de famílias que ali vivem e cultivam”. Nós não sabemos o que vai acontecer com a gente. interfere na vida dos assentados. territorialidades específicas ameaçadas e ainda sobre os conflitos socioambientais que o empreendimento hidrelétrico provocará. desde 1980. tão natural como a quantidade de megawatts a ser produzida. No trecho entre Marabá e São João do Araguaia. a forma como os indígenas serão “convencidos a aceitar” o empreendimento. Os governadores. Assentados. INCRA. e em Itacaiúnas. Fonte: MAB e Eletronorte . segundo dados fornecidos pela Eletronorte. IBAMA. pescadores. dos indígenas. vai à cadeia..000 pessoas. postos de saúde. Nós fomos com o senhor Benedito. RIMA.

Ao se referir a sua mão. Após o deslocamento compulsório. ou a reposição de novas terras. a estrada de Ferro Carajás. Payaré afirma que aquele fato só serviu para lhe fortalecer e continuar a luta contra os desmandos dos que queriam a ferro e a fogo lhe usurpar o território ancestral. (Oficina 27 de junho de 2010. Momentaneamente. assim meus avós contava. Juarez Monteiro Chavito Payaré é um líder reconhecido na luta em defesa dos direitos indígenas. Eu era castanheiro. Além disso. trabalhei de castanha muito tempo. localizadas na margem direita do rio Tocantins. nasci e me criei dentro do Apinajés. quando com os demais integrantes do seu povo Akrãtikatejê (Gavião da Montanha) resistiu para permanecer no território ancestral. tô com 35 anos que labuto na colônia. a maior paixão que eu tenho. registrou uma declaração pública de ameaça de morte. quando era 5 horas eu vinha carregado de peixe. isso que eu tenho medo de perder. boto roça também. eu vou contar do começo. no Cartório do 2º Ofício de Marabá. pra onde nós vamos? Tenho seis filhos. em 2001. em virtude de uma das inúmeras ações de pressão para que saísse das Terras da Montanha. eles reclamam uma indenização pelos prejuízos sofridos quando da transferência e por ter ficado tantos anos privados de seu território. Apinajés. Quando foi a época em 42. Meu nome é Maria Eliene Ferreira da Silva. é uma alegria da minha vida tá tendo essa oportunidade de tá no meio de vocês. A história que eu tenho pra contar sobre Apinajés. ao contar sua história de dizer “não”. a maior paixão que eu tenho”. Meu nome é Juarez Monteiro Chavito. a gente não quer a que a barragem chegue e tome ela. não tem tartaruga. nascido e criado nessa região. me filiei na colônia de pescador. porque é muito im- portante pra gente. O direito de dizer “não”! Wakymãhã mekto kônhito nxàkaka significa: “Nós não aceitamos a construção de barragem. de jeito nenhum”. Hõpryre Ronore Jõnpikti Payaré. Sou pai de 21 filhos. Tenho 30 anos. e o que eu digo. ficou como Apinajés aqui. E aí. Vista do rio Araguaia. nós veve disso. e tenho 60 netos. os Akrãtikatejê tiveram que enfrentar com os demais grupos indígenas. Payaré foi torturado. liderança indígena. né? Sou pescadora tenho minha carteira de pescadora. hoje não tem caça. tenho 75 anos. coloca os índios Gaviões em estado de alerta. Eu não tenho mais força pra sair daqui e fazer outra casa. fato que configura grave violação dos seus direitos. a história de Apinajés. deslocando o conflito com a empresa para desencontros entre indígenas e posseiros. Ante esta violência. Hõpryre Ronore Jõnpikti Payaré . eu amo esse lugar. hoje não tem tracajá. Sâo João do Araguaia Em Apinajés está a Colônia de Pescadores Z-45. Eu vivo da pesca. ai muitos tempos. esse Apinajés aqui era uma aldeia de índio. Ai se destruir tudo. na língua Gavião. Payaré. me aposentei e me afastei. 13 Akrãtikatejê. pra onde que eu vou correr? (Oficina 27 de junho de 2010. Apinajés.4 Boletim Informativo 4 Nova Cartografia Social da Amazônia Wakymãhã mekto kônhito nxàkaka: “Apinajés. Vila de apinajés. onde foi levantado o canteiro de obras da hidrelétrica de Tucuruí. mostra sua mão esquerda. por ser de direito. . o território indígena foi ocupado por “posseiros”. é uma vila muito histórica pra gente. porque vai destruir a nação brasileira. Mais se Deus ajudar nós. O povo Akrãtikatejê continua a exigir. conhecido por Zé Chavito. I Seminário Nacional de Educação Indígena realizado na aldeia Kiykateje. se vocês pudesse fazer um passeio lá na vazante para conhecer e vê que eu tô falando a verdade. A retomada do projeto da Hidrelétrica de Marabá. a época do garimpo do diamante. em relação ao projeto de hidrelétrica de Marabá. marcada com uma cicatriz profunda de corte de facão. na vila de Apinajés) Sr. A construção da Hidrelétrica de Tucuruí não significou somente a perda de seu território. Sua liderança foi construída. novas intervenções em seu território: construção da BR-222 (antiga PA-70). em julho de 2009. que fora quase decepada. e seja destruída. e ai se acabou. Na década de 1970. eu tenho felicidade. a Eletronorte pressionou-os a sair das Terras da Montanha. trabalhei no garimpo. nos não pode destruir com a nação brasileira. eu tenho poucas palavras pra dizer. a linha de transmissão de alta tensão da Eletronorte. em igual dimensão e qualidade ecológica. era uma aldeia de índio Apinajé. a devolução da área (o que não vai ocorrer já que está debaixo d’água). Esta frase foi dita por um Akrãtikatejê. na vila de Apinajés). hoje não tem mata. A linha de alta tensão de Tucuruí na Terra Indígena Mãe Maria resultou no desmatamento de uma faixa de 19 km de castanhais. 20 bisnetos. em 1984. Eu tenho um jardim muito lindo. isso se acabou. Mas eu trabalho na minha roça. eu saía três hora da madrugada. que congrega o maior número de pescadores ativos. Os parentes lhe aconselharam a vir para Mãe Maria.

Deles entra na justiça dele num entra. o que a gente vê passa na televisão é que as próprias pessoas que moram perto da hidrelétrica não tem energia. Né? Infelizmente. nem no Landi. porque os que saírem dos assentamentos lá na frente. Mais recente. talvez seja até um fato consumado né.. houve uma reunião na vila.262 Fonte: site do Instituto Socio-Ambiental (acessado maio de 2010) Quebradeiras e Assentados: o que dizem? Quem garante que nós vamos receber indenização?! Mulheres pescando a beira do rio Tocantins Entrevista com Sra. todas em áreas que estão ameaçadas de ficar submersas pela formação do lago da Hidrelétrica de Marabá. A Sra.Estado do Tocantins. . porque o quê que você vai ficar fazendo dentro d’água. fazer manifestação. você tem tantos dias pra dá o lote desocupado. no dia 29 de agosto de 2009.. Resultado. não. vai ficar na pior. a expansão desordenada do rebanho bovino e. Terra Área Situação População Município Etnía Indígena total(ha) Fundiária (hab) TI Mãe Maria Bom Jesus do Tocantins 62. Minha casa ainda não terminou e já está ameaçada. vão vir para cá.12 Boletim Informativo 4 5 Nova Cartografia Social da Amazônia Quadro I : Terras indígenas ameaçadas pela AHE de Marabá . é o mesmo que dizer para fazer despejo. Ana Rosa) As quebradeiras de coco babaçu têm feito denúncias frequentes sobre a devastação dos babaçuais através do desmatamento indiscriminado. daquilo. então vai sair? Vai. Só isso que eu vejo. pra sair da terra. que poderia ser até pra baratear mais o nosso consumo. indenização disso. Vila São Benedito. São Bento e Cachoeirinha Homologada (03/11/1997) Apinajé 1. recebemos a terra no dia 19 de dezembro de 1987. vem ocorrendo a entrada de técnicos de empresas contratadas para fazer medições. São Domingos do Araguaia. E eu sonhei com essa casa”. Tocantinópolis. O Sindicato orienta pra nos fazer algo. o pessoal da Associação. né.Estado do Pará. né. né? depois que. só vai acabar com tudo que a gente tem e poderá deixar gente sem receber nada.257. Maria Raimunda Benicio dos Santos coordena o Grupo de Mulheres do Castanhal Araras e faz parte do MIQCB. Terra Área Situação População Município Etnía Indígena total (ha) Fundiária (hab) TI Apinayé Carta dos Indígenas Parkatejê à Funai. pra passar o vídeo mostrando justamente a situação que acontece com os alagados. não acontecerá. eu luto mesmo! Cada uma das quebradeiras de coco e assentadas pensa assim” (Sra. porque pra nós a energia mais caro que eu acho é a nossa. vejo tanta gente que perdeu o que tinha e hoje vive na pior. quando na verdade a gente sabe que construindo uma hidrelétrica aqui perto. Também virão muitos problemas com essa estrada asfaltada”. mas eu num acredito muito.. No Castanhal Araras. Porque eu vejo falar muito em questão de indenização. Assim que vamos receber essa casa. pode morrer muita gente se quebra o muro”. quando fosse pra começar ia passar alguém tomando o nome de todo mundo pra poder fazer essa indenização. a produção de carvão vegetal feito de coco babaçu nas carvoarias para alimentar os fornos de ferro gusa. Castanheira. mesmo que receba. além de quatro mulheres de Palestina do Pará. Deveria ser uma energia mais barata. acho que há uns dois anos. Eu tenho 80 pés de laranja. Em São Domingos do Araguaia. enfrentam as incertezas da construção da hidrelétrica de Marabá.45 Demarcada e Homologada 21/08/1986 Gavião Parkatejê 342 Gavião Kyikatejê 242 Gavião Akrãtikatejê 39 TI Sororó São Geraldo do 26. São João do Araguaia. 21 de Abril. explicou a Sra. Outra observação feita na oportunidade dizia respeito aos compromissos do INCRA com o programa de moradia: “O INCRA mandou fazer cinquenta casas e quem vai inundar é a barragem. que vai cortar o povoado e tudo vai mudar. trouxeram um pessoal aí. que sabe que alguns dele quando disser assim: a barragem vai sair. A Sra. alguns recebem outros no recebem. deles recebe o que ele dé. Agora quem garante que nós vamos receber essa indenização?! né? Então se sair. “Eles fizeram levantamento dos lotes que vão ser ‘atingidos’ e marcaram três reuniões. Você tem que sair. Se a gente fincar pé. a importância que eu vejo é só pra aumentar os cofres públicos. um bucado de coisa aí. A senhora acha que a barragem tem alguma importância para a sua família e para a comunidade? Qual? Não. Que. Eles não informam sobre seus propósitos e entram sem solicitar licença. Maria Luzimar da Silva. “Se depender de mim. tenho mais frutas e não estou pensando em barragem. Assentada do PA Araras (17/07/2009) A Senhora sabe o que é uma hidrelétrica? Imagino. assim é um fato que vai sair a barragem é um fato.904. porque também além de uma indenização. Maria Raimunda.89 Araguaia Demarcada e Homologada Suruí Aikewara (aldeia Sororó) Suruí (aldeia Itahi) 314 49 Fonte: Mapa demonstrativo das Populações Indígenas Arquivo Funai (AERMAB)-Funasa (2009) Quadro II: Terras indígenas ameaçadas pela AHE de Marabá . mas nunca vieram”. 141. Nós estamos sabendo. Nos municípios de São João do Araguaia. vai ficar sem a terra. Muita gente que não quer. A Sra. Se aqui pode eclodir. mais recentemente. Maria Raimunda Benício falou: “Nós estamos com 22 anos.488. mas é a barragem que vai ocupar. Nesse ano vai festejar 22 anos do Araras. estavam reunidas 19 quebradeiras que vivem e trabalham nos assentamentos Araras.. E nós tamos usando a hidrelétrica aqui no nosso estado. A gente está reunindo pra fazer grupos. Edna Santos mora na vila São Benedito e diz que a “Eletronorte chega para fazer cadastro e mais cadastro. do Sindicato (STR). Palestina do Pará e Brejo Grande organiza-se a coordenação regional do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu – MIQCB. As pessoas não estão querendo essa hidrelétrica. É uma fonte de energia. Ubá. além disso. Emater. Apinajés. porque vimos no mapa de uma estrada que vai ser aberta que vai para Carajás.00 Mauritânia do Tocantins. que ninguém se preocupasse que todo mundo ia ser indenizado né.

9892 1 de Março 15-06-1998 350 São João do Araguaia 1. No Assentamento 21 de Abril moram “49 famílias” e ali os mais “atingidos serão os de baixo. Os lugares altos têm lugar que vai ficar seco”.576.699. do zero. sair.0000 Tambor Centro Velho * 206 Santa Helena 5.9730 Novo Horizonte I * 65 Santa Helena 1.636. Às vezes. Outras situações tornam-se insuportáveis para quem tem crédito. O capim vai morrer. goiaba e você vai ficar rica. Eu amo aquele lugar!”. Uma assentada relatou que em uma reunião ficaram sabendo que “alguém que tinha tempo morando e tinha cem alqueires tinha a mesma indenização de um que tinha cinco. Quando eu vejo falar disso eu fico triste demais. A Sra. na representação da Sra.0000 Pimenteira * 16-09-1998 137 São João do Araguaia 3468. As quebradeiras de coco e assentadas reconhecem que trabalharam e ficaram com mais idade e sentem a ameaça de perder a terra e as dificuldades para recomeçar tudo. constituem o núcleo dos que permanecem. A gente luta muito.6 Boletim Informativo 4 As quebradeiras de coco e assentadas. sem nada!.064.0000 Ubá * 17-06-1997 62 São Domingos do Araguaia 4289.3148861 N S Perpetuo * Socorro 24-12-1999 60 Marabá 1593. Sustentável) 22-12-2009 43 Bom Jesus do Tocantins 28507500 Santa Helena II Araguatins CU 2 Nova União Araguatins CU 79 Sabino São Pedro * 22-09-1999 75 Marabá 2. a maioria. A Eletronorte já entrou. porque eu amo aquele lugar.. Eu amo aquele lugar.5284 Angical * 27-05-1998 97 Palestina do Pará 4. da Água Branca 3. E eu não sabia que sou uma atingida. .8240 Dibom II * 30/09/2005 260 Palmeirandia 1. As questões que dizem respeito à indenização tomam a forma de um jogo de imposições e cinismo. Raimunda Alves Costa refletiu sobre o que representa o lote e afirmou: “com a hidrelétrica..292 Mãe Maria 09-12-1999 92 Bom Jesus do Tocantins 3. tamarina. Acessado (17/09/2010) . vamos ter que entrar na justiça e ela não vai querer saber”.. que está devendo 11 Nova Cartografia Social da Amazônia quatorze mil reais e tomou conhecimento que fariam desconto: “Falaram que vão indenizar e se está devendo ao banco vai ser descontado.876. e nós estava em reunião do Sindicato e das Quebradeiras.INCRA Oficina na Vila de Apinajés.6640 Tobasa Esperantina CU 29 Araguaiala Esperantina TD 34 Boa Esperança Esperantina TD 39 Lago Preto Esperantina TD 33 Mulatos Esperantina TD 34 Bico do Papagaio Esperantina TD 14 Tocantins Esperantina TD 10 Portela Esperantina TD 16 Vazante São Sebastião do Tocantins TD 2 Nova Estrela São Sebastião do Tocantins TD 41 Pingo d’Água São Sebastião do Tocantins TD 40 Jurandi Belizário São Sebastião do Tocantins CU 2 Primavera do * Araguaia 16-09-1998 174 São João do Araguaia 3. Palestina do Pará é.425.. eu luto por aquele lugar. sobretudo açaí.2471 4 de julho * 2-09-2002 62 São João do Araguaia 1350. como a senhora Ana Rosa...822. “quase uma ilha. onde a gente criou nossos filhos. Acessado (25/03/2010) .600. de repente. quebradeira de coco babaçu. Tudo que a gente sofreu aqui por um pedaço de terra. eu digo que só vou sair daqui quando os bichos tiver tudo boiando por aí.1720 * Assentamentos Criados Fonte: Sistema de Informação de Projeto de Reforma Agrária. é muito difícil a gente chegar ver o lote da gente. Assentamentos que serão atingidos pela Hidrelétrica de Marabá Assentamentos que serão atingidos pela AHE Hidrelétrica de Marabá no Estado do Pará Assentamentos criados nos municípios da Área de Influência de AHE Marabá no Estado do Tocantins.INCRA Assentamentos que serão atingidos pela AHE Hidrelétrica de Marabá no Estado do Maranhão Nome do PA Ano de Criação N° de Localização Famílias / Munícipios Área (ha) ÁGUA BRANCA * 12/01/2007 42 S.773. pra gente sair de repente? Não é fácil não. Eu luto por aquele lugar. enquanto eu puder lutar.8463 Trecho seco Araguatins TD 1 Ouro Verde Araguatins TD 87 Nova Vida Araguatins CU 6 Ronca Araguatins CU 6 São José Araguatins TD 59 Atanasio Araguatins TD 67 Marco Freire Araguatins TD 43 Padre Josimo Araguatins TD 41 Assentamento em consolidação 92 São João do Araguaia 21 de Abril 9-11-2000 48 São João do Araguaia 1. Eles nem vão nos indenizar! Vai ser como em Tucuruí que não indenizaram e vamos ficar sem nada”.”.”. O que depender de mim eu luto mesmo. Edna Santos acrescentou: “Eletronorte vai dar mixaria.0960. A fala da senhora Rosa dos Santos Silva.820. P.. e volta. “Eu amo.084. Quadro III.7145 Açaizal * 27-05-1998 85 Palestina do Pará 3. Não tem condições de colocarem a gente debaixo da água. E difícil demais. eu amo este lugar” Sra...216. de um lado o Araguaia e de outro o Tocantins. Maria Romana.. virar só água”.1100 Dona Eunice Araguatins TD 44 Lago Azul * 30-12-1999 96 Nova Ipixuna 3596. vamos perder tudo que construímos. Eu estou cheia de filhos.5006 Mutirão Araguatins TD 24 Castanheira II * 14-01-1999 156 Brejo Grande 3894.. trabalhou.5955 * Assentamento Criado Fonte: Sistema de Informação de Projeto de Reforma Agrária. foi enfática no temor à construção da hidrelétrica: “Hoje todo mundo tá velho. Este é o trecho da fala de Francisco Silva.”. têm 20 anos na terra conquistada Portanto. do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu e “assentada” no PA 21 de abril. Maria Romana (75 anos).9550 Rio Mar * 09-12-1998 90 Palestina do Pará 3. vou ficar na rua.INCRA TD: Título de domínio CU: Concessão de uso Fonte: Sistema de Informação de Projeto de Reforma Agrária. pra hoje a gente.. A Sra. Uma entrevistada comentou a recomendação do técnico: “Vocês plantem.258 Bom Jesus * 22-12-2003 48 Brejo Grande 1. que depois vamos indenizar.326. filho da senhora Rosa dos Santos Silva... “Ali vai encher as grotas. em São Domingos do Araguaia.8209 Rancho Alegre Araguatins TD 28 Moreschi * 27-05-1998 122 São João do Araguaia 3...7090 Dibom I * 30/09/2005 484 Palmeirandia 3.841. durante o encontro realizado no Sítio do Bispo.7200 Assentamento em consolidação Assentamento em Instalação Títulos Concedidos Prata * 22-12-2009 79 São João do Araguaia 3.” À direita a senhora Edna Santos explica a forma impositiva dos cadastros dos assentados realizados pela Eletronorte. vão plantando bastante açaí. Acessado (08/04/2010) .0800 Campo Novo * 34 Santa Helena 96.3000 Petrônio Araguatins CU 18 Bacabal Grande * (Projeto Estadual de Assent.576.0910 Deus Proteja * 09/05/2005 138 Vila Nova dos Martírios 3. já tenho netos.506. Meus filhos todos foram criados naquele lugar. novamente. acerola. Nome do PA Ano de Nºde Localização criação famílias / Munícipios Área (ha) Nome do Assentamento Município Castanhal Araras 4 -08 -1987 5. moradora em Palestina do Pará.

de dispor dos recursos naturais e de estabelecer normas para a ocupação. este irrompe contra essa conquista dos assentados. a mulher num gostava dessa ida pra né? A gente enfrentô. cá. né? Pra tirar a gente de lá e dá outra área. Eu digo: Vamo. com muita dificuldade. né? Aí fumo tirado. Eu cidido essa mudança nossa pra cá. só água quente e 7 Políticas fundiárias no sudeste do Pará: decisões arbitrárias Nova Cartografia Social da Amazônia Desde os anos setenta. me foi na rede. disistir. no INCRA vocês vão pascomunidade. Os assentamentos do INCRA no Sudeste estão calculados em 500. aí logo de frente a gente eninvasão lá no Mãe Maria. Qual é a sustentabilidade da política de assentamento? No quadro 3. o que está em evidência é a forma como o Estado assume o poder de mudar o destino de grupos humanos. certo que foi mais de Oficina no PA Araras um mês e vinte e cinco dia. E cada mês vinha essa história em baixo. como fica a autonomia dos assentados em decidir face à intervenção do Estado para construir a hidrelétrica? Com esta ação. como ontem. já quase.. quase esfraquejando. eu achei e um companheiro. ciação. ou morrer de tanta coisa. garimpeiros. mas se realizou e hoje na realidade assim continuamo. eu pensava. mas enquanto isso eu num saio(. aí a mulher dizia: num vamos mais lá mais não. pura. graças a Deus. e guento sete mês Adquiri aqui o seguinte. O fenômeno da violência contra os “posseiros”. vive há 20 anos no PA Castanhal Araras) Fumo lá pro INCRA. lá em baixo. As enfermeira. uma vitória. e por bem controu uma história duma malária. a gente chegou a enfrentamo lá essa dificuldade. na região sul e sudeste do Pará. porque botamo logo no convidou e eu pensei assim: ‘daqui caminhão na porta do madereiro. o sofrimenComeçamo a entrar lá e começamo a to. né? lá. vai desaparecer sar lá quinze dia. (17/07/2005) Como o senhor adquiriu o lote? muriçoca. por que ela queria que eu nós. encontrou muita dificuldade nós num recebe. nenhum atingiu o título de “emancipado”. (Senhor Raimundo Barbosa. Mas quando se decide a construção da hidrelétrica de Marabá desmontam-se os projetos familiares e coletivos dos assentados. aqui vô morrer de fome. convertidos seus membros em pecuaristas. a gente vai escapar. Então isso num é moleza.) e na estrada. Aí teimemo e voltemo mesmo pra enterro ou então eu vejo levantar sadio. o uso. a exploração e a distribuição de terras nos denominados assentamentos. Aí topei e fumo. Foi depois desses acontecimentos que alguns receberam lotes nos assentamentos e passaram a ser classificados de assentados do programa de Reforma Agrária do governo federal. hoje tamos. aquela conversa. a permanência de um sistema social repressivo no campo e de forças conservadoras amparadas no aparato policial militar e em recursos jurídicos do Estado favoreceu a impunidade. né? Digo rer. Todavia. a gente tá zes em quando muita bagaceira de conflito. Vale do Rio Doce. passou sete mês. de maneira alguma. Num tem vitória sem uma história. né? É uma era pirigoso. Enquanto isto. Os movimentos de camponeses e índios reivindicaram e conquistaram o direito de continuar a utilizar os recursos. veio o momento de negociação. satisfeito. Chamou. às catástrofe. num barracão véi lá. mas ele num contou uma história. vamo dizer um doente. estão os assentamentos que serão total ou parcialmente inundados com a formação do lago. Luís Gonzaga. mora lá o quê. lá passemo de mês a mês. então borá lá que é ligeiro não sei lá. No conjunto dos assentamentos. aí começou a carretilha. vamo e não vamo perder ninguém.que a gente se encontra hoje. Eu disse: morro se ficar aqui. teve dia da gente ficar até assim num vá não que você vai perder sua família. uma entra a FUNAI. de instituições de defesa e assessoria às reivindicações camponesas e indígenas. tudo o que num prestava. indígenas. Nesta situação.10 Boletim Informativo 4 Assentados: O que perdem? Entrevista com o Sr. “Essa hidrelétrica vai ser uma A gente como já tava na luta. mata virge de tudo quanto era trabalhava na vazante. Cheguemo ainda na morava. aquela história: foi um então ou lá eu recebo a terra ou então desenganado que sonho que a gente sonhou. das empresas mineradoras e da oligarquia da castanha. um financiamento elevado nesta política. exigir condições dignas de trabalho e respeito às normas contratuais. cheguemo ainda era mata e aí trabalhava lá. foi que formou essa nego. cum oito dias eu vim lá do SESP enfrentar a batalha. aí eu decido sair. essas possibilidades expressam e potencializam o poder do Estado. Passar só um mês ou quinze dia. essa terra. não eu lá to cum um difunto. 52 anos. a mulher assombrou tava pra conversar: Não. vai dizimar uma vezes vai miorar e graças a Deus miorô mesmo. e representa. Joguei tudo resolvida e a gente já vai ganhar a terem cima do madereiro e fumo pra ra. num lá num era muito fácil. menino mais velho. deixamo tudo aí largado. tal mês vai e disse: Eu num fico. hoje estamos aqui. Digo: Vamo meio abusado uns aos outros. tudo. vocês já vão direto pra dentro da terra lá. Hoje. O sucesso de suas lutas concretizou-se nos assentamentos. ser todo mundo remanejado pra cá. na época. de permanecer na terra e circular livremente. Dizendo que era fui visitar os outros e tinha dois do de um mês pra outro a gente adquiria mesmo jeito. como política oficial de regularização das terras. o doutor dizia: só deixando ela sozinha. coisa boa. na viagem. Babaçuais no PA Castanhal Araras .luta. num foi fácil. bem no Maranhão. com quize dia. aí cum sete mês foi deadquirir esse lote. eu pra lá não. oferecendo-lhes uma alternativa de localização espacial. um cumné? Eu cum quinze dia que cheguei pade meu foi pra lá e depois chegou cum minha família aqui no assenanimado que também ia entrar nessa tamento fui logo tirando meus dois guerra né? Lá era tipo uma guerrinha. chegava hora de eu dizer que eu ia até derradeiro foi eu e a mulher. né? Quando a gente senlevei também. aí surgiu essa jeito. e uns dia eu vou topar’. até que graças a Deus começaram a entrar em luta. no máximo é quinze dia com uma história” ou um mês. cobrou dezenas de vítimas. até os tando pra frente. esse mesmo Estado assume o poder de mudar o destino desses grupos desfazendo e desmontando os projetos individuais e coletivos dos assentados. As ocupações de terra vieram se contrapor à lógica dos “patrões dos garimpos”. o maior número em todo o país. vamo pro INCRA.. aferidos pelo índice de concentração fundiária. na situação presente. Vocês vão mordismanecesse da caminhada e eu num queria. lá num tinha terra. que re- Mulheres quebradeiras reunidas em São Domingos do Araguaia (19/08/2009) presentaria a “territorialização do campesinato” no sul e sudeste do Pará. e graças a Deus. que ninguém ia ganhar mais essa terra. na ótica do Estado. Grupos de assentados retornam à situação de reassentados. que é essa aqui. Com a construção da hidrelétrica. Quando vê uma pessoa contar uma história que tem acordo pra negociar a área. assentado do PA Araras . essa coisa toda. ele entrou pela porta do fundo. A gente chegou. o Estado faz e refaz políticas. ampliaram-se os níveis de disparidade no controle dos recursos naturais. era só um ano nessa luta e cada dia aumendando alta um e outro caindo. cheguemo lá acampemo debaixo de um pé de manga. né? Caminhando pra lá direto e as ve. os que pareciam difíceis de serem revertidos pela ação de entidades de representação dos trabalhadores rurais (Sindicatos).

.2010 Hidrelétrica de Marabá: Territorialidades Específicas e Conflitos 49°30'0"W 49°0'0"W 48°30'0"W 48°0'0"W 47°30'0"W APA LAGO DE TUCURUÍ Jacundá Rondon do Pará TI Nova Jacundá Rondon do Pará Legenda Siderúrgica de Ferro Gusa Vila Espírito Santo Nova Ipixuna ocantins Ri o T Abel Figueiredo Bom Jesus do Tocantins Bom Jesus do Tocantins Vila de Santana 5°0'0"S 5°0'0"S Nova Ipixuna Vila de Açaizal RPPN FAZENDA SÃO JOSÉ GLEBA ITINGA A Vila Nova dos Martírios Abel Figueiredo São Pedro da Água Branca Vila Nova dos Martírios Vila de São Benedito Cidelândia Vila de São José Itupiranga Itupiranga Vila de Apinajés São Pedro da Água Branca TI Mãe Maria Cidelândia Canteiro de Obra Ri São Sebastião do Tocantins Esperantina Marabá Área de Conflito .PNCSA Novembro .000.Bico do Papagaio RESEX DO CIRIACO Buriti do Tocantins Esperantina São João do Araguaia ocantins oT Hidrelétrica Projetada Carrasco Bonito Sampaio Buriti do Tocantins Antigo Castanhal RESEX DO EXTREMO NORTE DO ESTADO DO TOCANTINS Praia Norte A ra Augustinópolis gu ai Araguatins RPPN FAZENDA PIONEIRASão Domingos do Araguaia Brejo Grande do Araguaia R Sedes Hidrografia APA DO RIO TAQUARI Araguatins Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu Área a Ser Inundada Sítio Novo do Tocantins a Marabá Imperatriz São Miguel do TocantinsDavinópolis 5°30'0"S 5°30'0"S Rio São Domingos do Araguaia RPPN TIBIRIÇÁ Marco de Instalação Sem Autorização Augustinópolis São João do Araguaia Sítio Novo do Tocantins Axixá do Tocantins Unidades de Conservação Brejo Grande do Araguaia Palestina do Pará Projeto de Assentamento Ameaçado de Inundação Projeto de Assentamento Itaguatins Terra Indígena Itaguatins Área de Influência Indireta Limites Municipais São Bento do Tocantins Municípios do Pará Situados na Área de Influência Indireta 6°0'0"S São Bento do Tocantins Maurilândia do Tocantins Maurilândia do Tocantins Curionópolis Eldorado dos Carajás Municípios do Tocantins Situados na Área de Influência Indireta 6°0'0"S Palestina do Pará TI Sororó Cachoeirinha Cachoeirinha Municípios do Maranhão Situados na Área de Influência Indireta ® Área de Estudo PE DA SERRA DOS MARTÍRIOS/ANDORINHAS Luzinópolis São Geraldo do Araguaia Luzinópolis Ananás Nazaré Ananás Angico São Geraldo do Araguaia Xambioá Angico Riachinho 6°30'0"S Riachinho Santa Terezinha do Tocantins Santa Terezinha do Tocantins Mosquito APA SAPUCAIA 49°0'0"W Tocantinópolis AguiarnópolisEstreito Araguanã 49°30'0"W Porto Franco Nazaré 48°30'0"W 48°0'0"W 47°30'0"W 5 0 10 20 Km 30 Sistema de Coordenadas Geográficas Lat/Long Sistema de Referência WGS-84 Tocantinópolis APA DE BARREIRO DAS ANTAS Piçarra 10 6°30'0"S APA LAGO DE SANTA IZABEL APA DE SÃO GERALDO DO ARAGUAIA Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia Cartografia: Ulisses Guimarães Eliana Teles Joseline Trindade Rosa Acevedo Base de Vetorial: SIPAM/IBGE (2004) em escala original de 1:250. Base de Projetos de Assentamentos do INCRA.

Base de Projetos de Assentamentos do INCRA.Hidrelétrica de Marabá: Territorialidades Específicas e Conflitos 49°30'0"W 49°0'0"W 48°30'0"W 48°0'0"W PNCSA Novembro .000.2010 47°30'0"W APA LAGO DE TUCURUÍ Jacundá Rondon do Pará TI Nova Jacundá Rondon do Pará Legenda Siderúrgica de Ferro Gusa Vila Espírito Santo Nova Ipixuna ocantins Ri o T Abel Figueiredo Bom Jesus do Tocantins Bom Jesus do Tocantins São Pedro da Água Branca Itupiranga Itupiranga Vila Nova dos Martírios Esperantina Marabá Vila de São José Vila de Apinajés Cidelândia Ri São Sebastião do Tocantins ocantins oT Canteiro de Obra Área de Conflito . .Bico do Papagaio RESEX DO CIRIACO Buriti do Tocantins Esperantina São João do Araguaia Vila de São Benedito Cidelândia São Pedro da Água Branca TI Mãe Maria Vila de Santana 5°0'0"S 5°0'0"S Nova Ipixuna Vila de Açaizal RPPN FAZENDA SÃO JOSÉ GLEBA ITINGA A Vila Nova dos Martírios Abel Figueiredo Hidrelétrica Projetada Carrasco Bonito Sampaio Buriti do Tocantins Antigo Castanhal RESEX DO EXTREMO NORTE DO ESTADO DO TOCANTINS Praia Norte Rio São Domingos do Araguaia RPPN TIBIRIÇÁ A ra gu Augustinópolis Imperatriz São Miguel do TocantinsDavinópolis ai Domingos do Araguaia Araguatins Brejo Grande do Araguaia Sítio Novo do Tocantins Axixá do Tocantins Projeto de Assentamento Ameaçado de Inundação Projeto de Assentamento Itaguatins Terra Indígena Itaguatins Área de Influência Indireta Limites Municipais São Bento do Tocantins 6°0'0"S São Bento do Tocantins Eldorado dos Carajás Municípios do Tocantins Situados na Área de Influência Indireta Cachoeirinha Cachoeirinha PE DA SERRA DOS MARTÍRIOS/ANDORINHAS APA LAGO DE SANTA IZABEL APA DE SÃO GERALDO DO ARAGUAIA Luzinópolis Ananás Nazaré 6°30'0"S Angico Angico Riachinho Riachinho Tocantinópolis Santa Terezinha do Tocantins Santa Terezinha do Tocantins Mosquito APA SAPUCAIA 48°30'0"W 48°0'0"W 47°30'0"W 5 0 10 20 Km 30 Sistema de Coordenadas Geográficas Lat/Long Sistema de Referência WGS-84 Porto Franco Nazaré AguiarnópolisEstreito Araguanã 49°0'0"W 10 Tocantinópolis Ananás Piçarra ® Luzinópolis APA DE BARREIRO DAS ANTAS São Geraldo do Araguaia Xambioá Municípios do Maranhão Situados na Área de Influência Indireta Área de Estudo 6°30'0"S São Geraldo do Araguaia 49°30'0"W Municípios do Pará Situados na Área de Influência Indireta Maurilândia do Tocantins 6°0'0"S Palestina do Pará Maurilândia do Tocantins Curionópolis Sedes Unidades de Conservação Brejo Grande do Araguaia Palestina do Pará TI Sororó R Hidrografia APA DO RIO TAQUARI Araguatins Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu Área a Ser Inundada Sítio Novo do Tocantins a Marabá RPPN FAZENDA PIONEIRASão Marco de Instalação Sem Autorização Augustinópolis 5°30'0"S 5°30'0"S São João do Araguaia Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia Cartografia: Ulisses Guimarães Eliana Teles Joseline Trindade Rosa Acevedo Base de Vetorial: SIPAM/IBGE (2004) em escala original de 1:250.

o sofrimenComeçamo a entrar lá e começamo a to. e guento sete mês Adquiri aqui o seguinte. e graças a Deus. bem no Maranhão. tudo o que num prestava. Os movimentos de camponeses e índios reivindicaram e conquistaram o direito de continuar a utilizar os recursos. foi que formou essa nego. porque botamo logo no convidou e eu pensei assim: ‘daqui caminhão na porta do madereiro. de instituições de defesa e assessoria às reivindicações camponesas e indígenas. o que está em evidência é a forma como o Estado assume o poder de mudar o destino de grupos humanos. vive há 20 anos no PA Castanhal Araras) Fumo lá pro INCRA. tal mês vai e disse: Eu num fico. Digo: Vamo meio abusado uns aos outros. A gente chegou. vamo e não vamo perder ninguém. mora lá o quê. vocês já vão direto pra dentro da terra lá. aquela história: foi um então ou lá eu recebo a terra ou então desenganado que sonho que a gente sonhou. na época. Passar só um mês ou quinze dia. cum oito dias eu vim lá do SESP enfrentar a batalha. Grupos de assentados retornam à situação de reassentados. Os assentamentos do INCRA no Sudeste estão calculados em 500. Nesta situação. eu pensava. indígenas. e representa. aí cum sete mês foi deadquirir esse lote. que re- Mulheres quebradeiras reunidas em São Domingos do Araguaia (19/08/2009) presentaria a “territorialização do campesinato” no sul e sudeste do Pará. mas enquanto isso eu num saio(. essa coisa toda. Aí teimemo e voltemo mesmo pra enterro ou então eu vejo levantar sadio. vai dizimar uma vezes vai miorar e graças a Deus miorô mesmo. chegava hora de eu dizer que eu ia até derradeiro foi eu e a mulher. nenhum atingiu o título de “emancipado”. aí logo de frente a gente eninvasão lá no Mãe Maria. com quize dia. Dizendo que era fui visitar os outros e tinha dois do de um mês pra outro a gente adquiria mesmo jeito. ou morrer de tanta coisa. aqui vô morrer de fome. né? Aí fumo tirado. Mas quando se decide a construção da hidrelétrica de Marabá desmontam-se os projetos familiares e coletivos dos assentados. das empresas mineradoras e da oligarquia da castanha. né? Pra tirar a gente de lá e dá outra área. uma entra a FUNAI. (Senhor Raimundo Barbosa. no INCRA vocês vão pascomunidade. de maneira alguma. na situação presente. vamo pro INCRA. este irrompe contra essa conquista dos assentados. Então isso num é moleza. ser todo mundo remanejado pra cá. então borá lá que é ligeiro não sei lá. essa terra. aí começou a carretilha.10 Boletim Informativo 4 Assentados: O que perdem? Entrevista com o Sr. Eu disse: morro se ficar aqui. “Essa hidrelétrica vai ser uma A gente como já tava na luta. Luís Gonzaga. cheguemo lá acampemo debaixo de um pé de manga. Eu cidido essa mudança nossa pra cá. era só um ano nessa luta e cada dia aumendando alta um e outro caindo. aí a mulher dizia: num vamos mais lá mais não. hoje tamos. como ontem. até os tando pra frente. encontrou muita dificuldade nós num recebe. Com a construção da hidrelétrica. aferidos pelo índice de concentração fundiária. tudo. a mulher num gostava dessa ida pra né? A gente enfrentô. vamo dizer um doente. a mulher assombrou tava pra conversar: Não.. mata virge de tudo quanto era trabalhava na vazante. vai desaparecer sar lá quinze dia. ele entrou pela porta do fundo. que ninguém ia ganhar mais essa terra. Joguei tudo resolvida e a gente já vai ganhar a terem cima do madereiro e fumo pra ra. Todavia. a exploração e a distribuição de terras nos denominados assentamentos.) e na estrada. né? Caminhando pra lá direto e as ve. ampliaram-se os níveis de disparidade no controle dos recursos naturais. não eu lá to cum um difunto. assentado do PA Araras . No conjunto dos assentamentos. o Estado faz e refaz políticas. menino mais velho. deixamo tudo aí largado. o doutor dizia: só deixando ela sozinha. até que graças a Deus começaram a entrar em luta.que a gente se encontra hoje. com muita dificuldade. As enfermeira. mas se realizou e hoje na realidade assim continuamo. de dispor dos recursos naturais e de estabelecer normas para a ocupação. (17/07/2005) Como o senhor adquiriu o lote? muriçoca. lá passemo de mês a mês. na ótica do Estado. mas ele num contou uma história. Vale do Rio Doce. estão os assentamentos que serão total ou parcialmente inundados com a formação do lago. satisfeito. a gente chegou a enfrentamo lá essa dificuldade. Num tem vitória sem uma história. esse mesmo Estado assume o poder de mudar o destino desses grupos desfazendo e desmontando os projetos individuais e coletivos dos assentados. oferecendo-lhes uma alternativa de localização espacial. como política oficial de regularização das terras. disistir. coisa boa. aquela conversa. Cheguemo ainda na morava. lá em baixo. passou sete mês. num foi fácil. Eu digo: Vamo. Quando vê uma pessoa contar uma história que tem acordo pra negociar a área. no máximo é quinze dia com uma história” ou um mês. já quase.luta. eu pra lá não. aí eu decido sair. os que pareciam difíceis de serem revertidos pela ação de entidades de representação dos trabalhadores rurais (Sindicatos). cobrou dezenas de vítimas. né? Digo rer. um financiamento elevado nesta política. e uns dia eu vou topar’. a gente tá zes em quando muita bagaceira de conflito. né? É uma era pirigoso. às catástrofe. convertidos seus membros em pecuaristas. teve dia da gente ficar até assim num vá não que você vai perder sua família. Chamou. como fica a autonomia dos assentados em decidir face à intervenção do Estado para construir a hidrelétrica? Com esta ação. de permanecer na terra e circular livremente. o uso. O fenômeno da violência contra os “posseiros”.. exigir condições dignas de trabalho e respeito às normas contratuais. hoje estamos aqui. num lá num era muito fácil. O sucesso de suas lutas concretizou-se nos assentamentos. só água quente e 7 Políticas fundiárias no sudeste do Pará: decisões arbitrárias Nova Cartografia Social da Amazônia Desde os anos setenta. ciação. na região sul e sudeste do Pará. Foi depois desses acontecimentos que alguns receberam lotes nos assentamentos e passaram a ser classificados de assentados do programa de Reforma Agrária do governo federal. que é essa aqui. uma vitória. um cumné? Eu cum quinze dia que cheguei pade meu foi pra lá e depois chegou cum minha família aqui no assenanimado que também ia entrar nessa tamento fui logo tirando meus dois guerra né? Lá era tipo uma guerrinha. E cada mês vinha essa história em baixo. As ocupações de terra vieram se contrapor à lógica dos “patrões dos garimpos”. o maior número em todo o país. cheguemo ainda era mata e aí trabalhava lá. eu achei e um companheiro. Enquanto isto. me foi na rede. Qual é a sustentabilidade da política de assentamento? No quadro 3. quase esfraquejando. aí surgiu essa jeito. por que ela queria que eu nós. né? lá. Hoje. na viagem. a gente vai escapar. pura. veio o momento de negociação. cá. Aí topei e fumo. e por bem controu uma história duma malária. garimpeiros. essas possibilidades expressam e potencializam o poder do Estado. num barracão véi lá. graças a Deus. né? Quando a gente senlevei também. a permanência de um sistema social repressivo no campo e de forças conservadoras amparadas no aparato policial militar e em recursos jurídicos do Estado favoreceu a impunidade. certo que foi mais de Oficina no PA Araras um mês e vinte e cinco dia. Vocês vão mordismanecesse da caminhada e eu num queria. Babaçuais no PA Castanhal Araras . lá num tinha terra. 52 anos.

em São Domingos do Araguaia. Maria Romana.” À direita a senhora Edna Santos explica a forma impositiva dos cadastros dos assentados realizados pela Eletronorte. durante o encontro realizado no Sítio do Bispo. enquanto eu puder lutar. “Ali vai encher as grotas. sobretudo açaí. Sustentável) 22-12-2009 43 Bom Jesus do Tocantins 28507500 Santa Helena II Araguatins CU 2 Nova União Araguatins CU 79 Sabino São Pedro * 22-09-1999 75 Marabá 2. A gente luta muito. e nós estava em reunião do Sindicato e das Quebradeiras.7145 Açaizal * 27-05-1998 85 Palestina do Pará 3. têm 20 anos na terra conquistada Portanto.822.7200 Assentamento em consolidação Assentamento em Instalação Títulos Concedidos Prata * 22-12-2009 79 São João do Araguaia 3. sair.876... moradora em Palestina do Pará.1720 * Assentamentos Criados Fonte: Sistema de Informação de Projeto de Reforma Agrária. pra hoje a gente.5955 * Assentamento Criado Fonte: Sistema de Informação de Projeto de Reforma Agrária.0800 Campo Novo * 34 Santa Helena 96.8209 Rancho Alegre Araguatins TD 28 Moreschi * 27-05-1998 122 São João do Araguaia 3.8463 Trecho seco Araguatins TD 1 Ouro Verde Araguatins TD 87 Nova Vida Araguatins CU 6 Ronca Araguatins CU 6 São José Araguatins TD 59 Atanasio Araguatins TD 67 Marco Freire Araguatins TD 43 Padre Josimo Araguatins TD 41 Assentamento em consolidação 92 São João do Araguaia 21 de Abril 9-11-2000 48 São João do Araguaia 1.1100 Dona Eunice Araguatins TD 44 Lago Azul * 30-12-1999 96 Nova Ipixuna 3596.”. vou ficar na rua. Meus filhos todos foram criados naquele lugar. E eu não sabia que sou uma atingida..8240 Dibom II * 30/09/2005 260 Palmeirandia 1.9892 1 de Março 15-06-1998 350 São João do Araguaia 1. “Eu amo.”. O que depender de mim eu luto mesmo.326. que depois vamos indenizar.576.0000 Ubá * 17-06-1997 62 São Domingos do Araguaia 4289.. goiaba e você vai ficar rica. Acessado (08/04/2010) .600. e volta.0960. Quando eu vejo falar disso eu fico triste demais. Outras situações tornam-se insuportáveis para quem tem crédito. Os lugares altos têm lugar que vai ficar seco”..0000 Tambor Centro Velho * 206 Santa Helena 5. Palestina do Pará é. constituem o núcleo dos que permanecem. Nome do PA Ano de Nºde Localização criação famílias / Munícipios Área (ha) Nome do Assentamento Município Castanhal Araras 4 -08 -1987 5.084. já tenho netos.699. Assentamentos que serão atingidos pela Hidrelétrica de Marabá Assentamentos que serão atingidos pela AHE Hidrelétrica de Marabá no Estado do Pará Assentamentos criados nos municípios da Área de Influência de AHE Marabá no Estado do Tocantins. vão plantando bastante açaí.. Acessado (25/03/2010) . quebradeira de coco babaçu. Eu luto por aquele lugar.064.. eu digo que só vou sair daqui quando os bichos tiver tudo boiando por aí.INCRA Oficina na Vila de Apinajés. filho da senhora Rosa dos Santos Silva. A Eletronorte já entrou. Quadro III. na representação da Sra.773.. As questões que dizem respeito à indenização tomam a forma de um jogo de imposições e cinismo. que está devendo 11 Nova Cartografia Social da Amazônia quatorze mil reais e tomou conhecimento que fariam desconto: “Falaram que vão indenizar e se está devendo ao banco vai ser descontado. eu luto por aquele lugar. tamarina.576.9550 Rio Mar * 09-12-1998 90 Palestina do Pará 3..”.820. a maioria. vamos perder tudo que construímos. Uma assentada relatou que em uma reunião ficaram sabendo que “alguém que tinha tempo morando e tinha cem alqueires tinha a mesma indenização de um que tinha cinco. . Eu amo aquele lugar!”.425. de repente.3148861 N S Perpetuo * Socorro 24-12-1999 60 Marabá 1593. Eu amo aquele lugar.. virar só água”.0000 Pimenteira * 16-09-1998 137 São João do Araguaia 3468. sem nada!. pra gente sair de repente? Não é fácil não. do zero.6 Boletim Informativo 4 As quebradeiras de coco e assentadas. Não tem condições de colocarem a gente debaixo da água. Eles nem vão nos indenizar! Vai ser como em Tucuruí que não indenizaram e vamos ficar sem nada”.. eu amo este lugar” Sra.2471 4 de julho * 2-09-2002 62 São João do Araguaia 1350.INCRA TD: Título de domínio CU: Concessão de uso Fonte: Sistema de Informação de Projeto de Reforma Agrária.INCRA Assentamentos que serão atingidos pela AHE Hidrelétrica de Marabá no Estado do Maranhão Nome do PA Ano de Criação N° de Localização Famílias / Munícipios Área (ha) ÁGUA BRANCA * 12/01/2007 42 S. Maria Romana (75 anos). P..0910 Deus Proteja * 09/05/2005 138 Vila Nova dos Martírios 3. E difícil demais. é muito difícil a gente chegar ver o lote da gente. Às vezes.. trabalhou. A Sra. As quebradeiras de coco e assentadas reconhecem que trabalharam e ficaram com mais idade e sentem a ameaça de perder a terra e as dificuldades para recomeçar tudo. No Assentamento 21 de Abril moram “49 famílias” e ali os mais “atingidos serão os de baixo.216. da Água Branca 3.7090 Dibom I * 30/09/2005 484 Palmeirandia 3..9730 Novo Horizonte I * 65 Santa Helena 1. novamente.258 Bom Jesus * 22-12-2003 48 Brejo Grande 1.5006 Mutirão Araguatins TD 24 Castanheira II * 14-01-1999 156 Brejo Grande 3894. A fala da senhora Rosa dos Santos Silva.. Uma entrevistada comentou a recomendação do técnico: “Vocês plantem.506. Acessado (17/09/2010) . Edna Santos acrescentou: “Eletronorte vai dar mixaria. vamos ter que entrar na justiça e ela não vai querer saber”. do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu e “assentada” no PA 21 de abril.6640 Tobasa Esperantina CU 29 Araguaiala Esperantina TD 34 Boa Esperança Esperantina TD 39 Lago Preto Esperantina TD 33 Mulatos Esperantina TD 34 Bico do Papagaio Esperantina TD 14 Tocantins Esperantina TD 10 Portela Esperantina TD 16 Vazante São Sebastião do Tocantins TD 2 Nova Estrela São Sebastião do Tocantins TD 41 Pingo d’Água São Sebastião do Tocantins TD 40 Jurandi Belizário São Sebastião do Tocantins CU 2 Primavera do * Araguaia 16-09-1998 174 São João do Araguaia 3. foi enfática no temor à construção da hidrelétrica: “Hoje todo mundo tá velho. de um lado o Araguaia e de outro o Tocantins. “quase uma ilha. Tudo que a gente sofreu aqui por um pedaço de terra. A Sra.5284 Angical * 27-05-1998 97 Palestina do Pará 4. porque eu amo aquele lugar. O capim vai morrer. como a senhora Ana Rosa.841.. Eu estou cheia de filhos.3000 Petrônio Araguatins CU 18 Bacabal Grande * (Projeto Estadual de Assent. Este é o trecho da fala de Francisco Silva. onde a gente criou nossos filhos. Raimunda Alves Costa refletiu sobre o que representa o lote e afirmou: “com a hidrelétrica.292 Mãe Maria 09-12-1999 92 Bom Jesus do Tocantins 3.636. acerola.

pra sair da terra. Maria Raimunda Benício falou: “Nós estamos com 22 anos. Emater. É uma fonte de energia.89 Araguaia Demarcada e Homologada Suruí Aikewara (aldeia Sororó) Suruí (aldeia Itahi) 314 49 Fonte: Mapa demonstrativo das Populações Indígenas Arquivo Funai (AERMAB)-Funasa (2009) Quadro II: Terras indígenas ameaçadas pela AHE de Marabá . estavam reunidas 19 quebradeiras que vivem e trabalham nos assentamentos Araras. o que a gente vê passa na televisão é que as próprias pessoas que moram perto da hidrelétrica não tem energia. então vai sair? Vai. eu luto mesmo! Cada uma das quebradeiras de coco e assentadas pensa assim” (Sra. A Sra. Nos municípios de São João do Araguaia.. Ubá. assim é um fato que vai sair a barragem é um fato. a expansão desordenada do rebanho bovino e. explicou a Sra. E nós tamos usando a hidrelétrica aqui no nosso estado. Eles não informam sobre seus propósitos e entram sem solicitar licença. Agora quem garante que nós vamos receber essa indenização?! né? Então se sair. que ninguém se preocupasse que todo mundo ia ser indenizado né. talvez seja até um fato consumado né. Maria Raimunda Benicio dos Santos coordena o Grupo de Mulheres do Castanhal Araras e faz parte do MIQCB. Em São Domingos do Araguaia. E eu sonhei com essa casa”. um bucado de coisa aí. vai ficar na pior. Eu tenho 80 pés de laranja. no dia 29 de agosto de 2009.12 Boletim Informativo 4 5 Nova Cartografia Social da Amazônia Quadro I : Terras indígenas ameaçadas pela AHE de Marabá .00 Mauritânia do Tocantins. do Sindicato (STR). Muita gente que não quer. Também virão muitos problemas com essa estrada asfaltada”. 141. Tocantinópolis. A Sra. o pessoal da Associação.. não acontecerá.904. Resultado. As pessoas não estão querendo essa hidrelétrica. fazer manifestação.257. mais recentemente. São Bento e Cachoeirinha Homologada (03/11/1997) Apinajé 1. recebemos a terra no dia 19 de dezembro de 1987. “Eles fizeram levantamento dos lotes que vão ser ‘atingidos’ e marcaram três reuniões. O Sindicato orienta pra nos fazer algo. acho que há uns dois anos. porque o quê que você vai ficar fazendo dentro d’água. alguns recebem outros no recebem. além disso. né. Se aqui pode eclodir. A senhora acha que a barragem tem alguma importância para a sua família e para a comunidade? Qual? Não. todas em áreas que estão ameaçadas de ficar submersas pela formação do lago da Hidrelétrica de Marabá. Deveria ser uma energia mais barata. que poderia ser até pra baratear mais o nosso consumo. São Domingos do Araguaia. mesmo que receba.Estado do Tocantins. a produção de carvão vegetal feito de coco babaçu nas carvoarias para alimentar os fornos de ferro gusa. pra passar o vídeo mostrando justamente a situação que acontece com os alagados.262 Fonte: site do Instituto Socio-Ambiental (acessado maio de 2010) Quebradeiras e Assentados: o que dizem? Quem garante que nós vamos receber indenização?! Mulheres pescando a beira do rio Tocantins Entrevista com Sra. pode morrer muita gente se quebra o muro”. além de quatro mulheres de Palestina do Pará. vão vir para cá. porque os que saírem dos assentamentos lá na frente. vejo tanta gente que perdeu o que tinha e hoje vive na pior. Né? Infelizmente. Nós estamos sabendo. Vila São Benedito. Nesse ano vai festejar 22 anos do Araras. . mas é a barragem que vai ocupar. No Castanhal Araras. Você tem que sair. 21 de Abril. é o mesmo que dizer para fazer despejo. quando fosse pra começar ia passar alguém tomando o nome de todo mundo pra poder fazer essa indenização.Estado do Pará. daquilo. Edna Santos mora na vila São Benedito e diz que a “Eletronorte chega para fazer cadastro e mais cadastro. porque pra nós a energia mais caro que eu acho é a nossa.488. quando na verdade a gente sabe que construindo uma hidrelétrica aqui perto. Castanheira. né. mas nunca vieram”. Ana Rosa) As quebradeiras de coco babaçu têm feito denúncias frequentes sobre a devastação dos babaçuais através do desmatamento indiscriminado. enfrentam as incertezas da construção da hidrelétrica de Marabá. A gente está reunindo pra fazer grupos. a importância que eu vejo é só pra aumentar os cofres públicos. Maria Luzimar da Silva. houve uma reunião na vila. Porque eu vejo falar muito em questão de indenização. tenho mais frutas e não estou pensando em barragem. Palestina do Pará e Brejo Grande organiza-se a coordenação regional do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu – MIQCB... deles recebe o que ele dé. né? depois que. só vai acabar com tudo que a gente tem e poderá deixar gente sem receber nada. Mais recente. A Sra. não. Deles entra na justiça dele num entra. Minha casa ainda não terminou e já está ameaçada. Terra Área Situação População Município Etnía Indígena total (ha) Fundiária (hab) TI Apinayé Carta dos Indígenas Parkatejê à Funai. São João do Araguaia. que vai cortar o povoado e tudo vai mudar. indenização disso. Apinajés. trouxeram um pessoal aí. vai ficar sem a terra. você tem tantos dias pra dá o lote desocupado. que sabe que alguns dele quando disser assim: a barragem vai sair. porque vimos no mapa de uma estrada que vai ser aberta que vai para Carajás. Se a gente fincar pé. Assentada do PA Araras (17/07/2009) A Senhora sabe o que é uma hidrelétrica? Imagino. “Se depender de mim.45 Demarcada e Homologada 21/08/1986 Gavião Parkatejê 342 Gavião Kyikatejê 242 Gavião Akrãtikatejê 39 TI Sororó São Geraldo do 26. Que. Assim que vamos receber essa casa. mas eu num acredito muito. Maria Raimunda. nem no Landi. Terra Área Situação População Município Etnía Indígena total(ha) Fundiária (hab) TI Mãe Maria Bom Jesus do Tocantins 62. Só isso que eu vejo. Outra observação feita na oportunidade dizia respeito aos compromissos do INCRA com o programa de moradia: “O INCRA mandou fazer cinquenta casas e quem vai inundar é a barragem. porque também além de uma indenização. vem ocorrendo a entrada de técnicos de empresas contratadas para fazer medições.

Esta frase foi dita por um Akrãtikatejê. liderança indígena. Os parentes lhe aconselharam a vir para Mãe Maria. a devolução da área (o que não vai ocorrer já que está debaixo d’água). Além disso. porque é muito im- portante pra gente. marcada com uma cicatriz profunda de corte de facão. coloca os índios Gaviões em estado de alerta. tô com 35 anos que labuto na colônia. Tenho 30 anos. . Na década de 1970. I Seminário Nacional de Educação Indígena realizado na aldeia Kiykateje. Payaré afirma que aquele fato só serviu para lhe fortalecer e continuar a luta contra os desmandos dos que queriam a ferro e a fogo lhe usurpar o território ancestral. em virtude de uma das inúmeras ações de pressão para que saísse das Terras da Montanha. Momentaneamente. localizadas na margem direita do rio Tocantins. fato que configura grave violação dos seus direitos. Ao se referir a sua mão. Sou pai de 21 filhos. nascido e criado nessa região. né? Sou pescadora tenho minha carteira de pescadora. e o que eu digo. eu vou contar do começo. Payaré. Ante esta violência. eles reclamam uma indenização pelos prejuízos sofridos quando da transferência e por ter ficado tantos anos privados de seu território. Eu vivo da pesca. em 1984. (Oficina 27 de junho de 2010. assim meus avós contava. em julho de 2009. novas intervenções em seu território: construção da BR-222 (antiga PA-70). a época do garimpo do diamante. Vila de apinajés. pra onde que eu vou correr? (Oficina 27 de junho de 2010. deslocando o conflito com a empresa para desencontros entre indígenas e posseiros. de jeito nenhum”. Ai se destruir tudo. hoje não tem mata. A construção da Hidrelétrica de Tucuruí não significou somente a perda de seu território. A linha de alta tensão de Tucuruí na Terra Indígena Mãe Maria resultou no desmatamento de uma faixa de 19 km de castanhais. quando era 5 horas eu vinha carregado de peixe. Eu tenho um jardim muito lindo. e seja destruída. Meu nome é Juarez Monteiro Chavito. Eu não tenho mais força pra sair daqui e fazer outra casa. Mas eu trabalho na minha roça. A história que eu tenho pra contar sobre Apinajés. em 2001. eu tenho felicidade. Mais se Deus ajudar nós. ai muitos tempos. Hõpryre Ronore Jõnpikti Payaré. hoje não tem caça. os Akrãtikatejê tiveram que enfrentar com os demais grupos indígenas. 20 bisnetos. em relação ao projeto de hidrelétrica de Marabá. era uma aldeia de índio Apinajé. isso que eu tenho medo de perder. a gente não quer a que a barragem chegue e tome ela. me filiei na colônia de pescador. ficou como Apinajés aqui. ou a reposição de novas terras. se vocês pudesse fazer um passeio lá na vazante para conhecer e vê que eu tô falando a verdade. isso se acabou. conhecido por Zé Chavito. 13 Akrãtikatejê. Apinajés. E aí. esse Apinajés aqui era uma aldeia de índio. onde foi levantado o canteiro de obras da hidrelétrica de Tucuruí. eu amo esse lugar.4 Boletim Informativo 4 Nova Cartografia Social da Amazônia Wakymãhã mekto kônhito nxàkaka: “Apinajés. Hõpryre Ronore Jõnpikti Payaré . O direito de dizer “não”! Wakymãhã mekto kônhito nxàkaka significa: “Nós não aceitamos a construção de barragem. e ai se acabou. na vila de Apinajés). nos não pode destruir com a nação brasileira. em igual dimensão e qualidade ecológica. Meu nome é Maria Eliene Ferreira da Silva. Vista do rio Araguaia. que fora quase decepada. hoje não tem tracajá. Apinajés. Juarez Monteiro Chavito Payaré é um líder reconhecido na luta em defesa dos direitos indígenas. ao contar sua história de dizer “não”. me aposentei e me afastei. na vila de Apinajés) Sr. pra onde nós vamos? Tenho seis filhos. no Cartório do 2º Ofício de Marabá. trabalhei de castanha muito tempo. a maior paixão que eu tenho. e tenho 60 netos. registrou uma declaração pública de ameaça de morte. Após o deslocamento compulsório. a maior paixão que eu tenho”. eu tenho poucas palavras pra dizer. quando com os demais integrantes do seu povo Akrãtikatejê (Gavião da Montanha) resistiu para permanecer no território ancestral. por ser de direito. a estrada de Ferro Carajás. Payaré foi torturado. boto roça também. a linha de transmissão de alta tensão da Eletronorte. Sâo João do Araguaia Em Apinajés está a Colônia de Pescadores Z-45. a Eletronorte pressionou-os a sair das Terras da Montanha. tenho 75 anos. a história de Apinajés. nós veve disso. trabalhei no garimpo. Eu era castanheiro. o território indígena foi ocupado por “posseiros”. mostra sua mão esquerda. Sua liderança foi construída. Quando foi a época em 42. é uma alegria da minha vida tá tendo essa oportunidade de tá no meio de vocês. porque vai destruir a nação brasileira. que congrega o maior número de pescadores ativos. A retomada do projeto da Hidrelétrica de Marabá. O povo Akrãtikatejê continua a exigir. eu saía três hora da madrugada. na língua Gavião. nasci e me criei dentro do Apinajés. é uma vila muito histórica pra gente. não tem tartaruga.

. São João do Araguaia foi fundada em 1911 e é o município com maior população rural do Sudeste do Pará. Nós não sabemos o que vai acontecer com a gente. Em Bacabal e Espírito Santo. deputados. As Consultoras elaboram os estudos “instantâneos” de EIA. quebradeiras de coco babaçu. territorialidades específicas ameaçadas e ainda sobre os conflitos socioambientais que o empreendimento hidrelétrico provocará. São João do Araguaia. marcando a autoridade e a irreversibilidade da decisão: “vocês não podem embargar. dos pescadores. A FUNAI decide. angústias. O quadro dos expulsos não é para provocar sorrisos. Quebradeiras de coco babaçu. Tocantins (Ananás. Está na Gleba Geladinho. detém informações sobre o que ocorrerá nos assentamentos adjacentes: “A hidrelétrica expulsará 40. na ocupação Landi (ocupação com mais de sessenta famílias). Os governadores. RIMA. desde 1980. dito de forma tão espontânea. provocado pela barragem de Tucuruí. O senhor Artemiro. Com este busca-se. cerca de 40 mil pessoas. como ouvimos falar em Espírito Santo. Palestina do Pará). que estão sendo feitos sem o consentimento dos assentados. Jorge da Associação dos Moradores de Espírito Santo. São João do Araguaia tinha um total de 17. marisqueiros. aqui é do tempo do GETAT. na faixa que foi invadida por “posseiros”. a forma como os indígenas serão “convencidos a aceitar” o empreendimento. dos indígenas. marca novos passos com os chamados “estudos de viabilidade” e as “reuniões públicas”. também irá submergir. Nova Ipixuna.419 habitantes) estava classificada como rural. Esta hidrelétrica terá capacidade de produção de 2. Síntese do Projeto da Hidrelétrica Atingidos pelo projeto A Eletronorte continua a prática de ordenar e decidir projetos deste tipo. Governo do Estado e ainda com as empresas de consultoria e construtoras. Isto aqui é do INTERPA. tornando-se um aporte considerável para o Sistema Interligado Nacional. O Sr. opiniões. ribeirinhos e indígenas. Serão inundados 1115km² de terras (mais de 110 mil hectares de terras férteis). receberá o canteiro de obras e está em posição estratégica. está rodeada de fazendas (a maior com extensão de 200 alqueires). Na atualidade. onde é Mãe Maria. no Programa Grande Carajás . desconsiderando os direitos dos sujeitos sociais. Pescadores. senadores. os denominados “chaqueiros”. tão natural como a quantidade de megawatts a ser produzida. vai ser processado. Muitos políticos. A barragem atingirá mais de 10 mil famílias. reuniu-se ao grupo que conversava no Bar de dona Cláudia. também estão em estado de alerta com a construção da hidrelétrica de Marabá. Eles cortaram e não pediram licença para ninguém”. ribeirinhos. O documento da Gleba está com o INCRA. onde está a igreja matriz em honra a São João Batista. postos de saúde. Eu já plantei muitas fruteiras”. Retomado em 2001. proprietários de chácaras entre 10 a 20 hectares. Ele disse: “esse meu sítio tem quatro alqueires. O custo de sua construção está estimado em dois bilhões de dólares. Moradores de novos e antigos povoados ou cidades do vale do rio Tocantins. Ribeirinhos.055 km – bem maior do que o lago formado pela hidrelétrica de Tucuruí. Indígenas. desviar a atenção sobre esses sujeitos sociais. Atingirá 12 municípios em 3 estados: Pará (Marabá. A hidrelétrica de Marabá está planejada para ser construída distante 4 km a montante da Ponte Rodoferroviária do Tocantins.957 habitantes sendo que mais de 80% (14. centenário. eles guardaram.160 MW.PGC. A razão maior é a lucratividade do empreendimento para os setores energético e mineral. que vai até Flecheira. Esperantina e Araguatins) e Maranhão (São Pedro da Água Branca e Santa Helena). em Brasília. FUNAI. vereadores opinam a favor de sua construção por entender que representa “benefícios” para o Estado. Brejo Grande do Araguaia.14 Boletim Informativo 4 Vila de Espírito Santo Escola da Vila de Espírito Santo Localizada na margem esquerda do rio Tocantins. são indiferentes às vozes. inseguranças e outros sentimentos dos Indígenas. Em 2007. que está na margem do rio Tocantins.. IBAMA. A vila e terras do povoado de Espírito Santo têm limites com a Nova Cartografia Social da Amazônia Reserva Mãe Maria. Localmente fornecerá energia para empreendimentos siderúrgicos ampliação das minas de ferro e cobre e projetos do parque de Ciência e Tecnologia de Marabá. 3 Projeto da Hidrelétrica de Marabá A construção da hidrelétrica de Marabá invade. moradores de povoados e cidade estão sendo ameaçados pelo projeto. O novo empreendimento barrageiro da AHE Marabá repercutirá nas suas práticas desenvolvidas nesta bacia do Araguaia-Tocantins.000 pessoas. seus modos de vida. no Ubá. as condições de trabalho dos pescadores foram profundamente afetadas com a construção da hidrelétrica de Tucuruí. experimentam a diminuição dos recursos da ictiofauna pelas alterações do regime hidrológico do rio Tocantins. Os primeiros anúncios situam o cálculo de quantos serão “atingidos”. segundo dados fornecidos pela Eletronorte. A hidrelétrica formará um lago 3. No verão de 2008. Em São João do Araguaia e Tocantins.impedem esse projeto. dos moradores de bairros das cidades. vai à cadeia. Jorge ) O diálogo com os funcionários das empresas é também ríspido. que são os principais interessados na construção desta obra de infraestrutura. Também serão submergidas fazendas. As chamadas “reuniões públicas” se realizam sob um esquema de convencimento e de autoridade por parte dos técnicos a partir do discurso que anuncia os benefícios. na área do assentamento Mãe Maria. o custo da obra e o número de empregos. pois nela será construído um muro de contenção. INCRA. assentados. onde também estão previstas mais duas barragens. Assentados. pescadores. eles cortaram arame e foi a empresa. O INCRA omite-se em tratar o que ocorrerá com os assentados. Mais acima entra. com um prazo de construção médio de oito anos. “chaqueiro de Bacabal”. A formação do lago irá atingir em cheio seu centro histórico. Na casa do senhor Benedito. Como todos os projetos de construção de hidrelétricas na Amazônia. O Ministério do Meio Ambiente e o IBAMA procuram acelerar a aprovação do Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental. Fonte: MAB e Eletronorte . Se você impedir. Esse jogo de relações se estabelece com a Eletronorte. e em Itacaiúnas. produzindo um espaço de relações específicas com cada uma dessas categorias. Bom Jesus do Tocantins. dos ribeirinhos. E quando se pergunta o que fazem? Dizem que cumprem ordens” (Sr. O senhor Jorge comentou: “as pessoas das empresas entram e o primeiro que fazem é destruir. os prefeitos unem-se em “consórcios”. O cemitério. Na proximidade de Bacabal há algumas pedras. Em alguns pontos está tudo controlado por meio de radar . a área do reservatório. as chácaras têm sido adquiridas por moradores da cidade de Marabá como espaço de lazer nos finais de semana e de famílias que ali vivem e cultivam”. São dez assentamentos. No trecho entre Marabá e São João do Araguaia. Nós fomos com o senhor Benedito. Os caras cortaram arame e foi encontrado o gado do Benedito em Bacabal. a região e os municípios. interfere na vida dos assentados. escolas. O Projeto da Hidrelétrica de Marabá já estava formulado. tiveram inúmeras “visitas” de funcionários das empresas terceirizadas.

2010.. Ano 3. Thiago Cruz (Ciências Sociais. Canabrava.” (Grito dos(as) excluídos(as) 2009). “Vida em primeiro lugar: a força da transformação está na organização popular. Serra Quebrada e Marabá. ribeirinhos e moradores diversos de cidades de nove municípios dos Estados do Pará. Rosa Elizabeth Acevedo Marin.2002) e outras estão previstas: Serra da Mesa. africanas e a América Latina. sob a hegemonia norte-americana. movimentos sociais.. n. Cynthia Martins (UEMA). Almeida. organizado por Alfredo Wagner Berno de Almeida. Nessa sequência. bibliotecas. Conflitos Sociais .Bairro Santo Rosa Marabá (11/07/2009) Ponte Rodoferroviária sobre o rio Tocantins Nos meses de maio. UFPA). .UFPA-Campus Marabá – PPGA. Irislane Pereira Moraes. Agnelo Queiroz Catalogação na Fonte: O Direito de dizer “não” à construção da hidrelétrica de Marabá de montar este Boletim Informativo Nº 4 do PNCSA. Intervenções deste tipo já marcaram o rio Tocantins com a construção das hidrelétricas de Tucurui (1976 . coligiram e organizaram dados tanto no Pará quanto no Maranhão e Tocantins com objetivo Expediente Série: Movimentos sociais e conflitos nas cidades da Amazônia. Na ocasião. Eliana Teles Rodrigues (UFPA. Tupirantins. Ainda na bacia do Araguaia-Tocantins estão Itacaiunas I. A hidrelétrica Marabá é mais um empreendimento dentre os diversos que têm sido implantados na Amazônia para atender a estes interesses. Rosa Elizabeth Acevedo Marin UFPA-NAEA/UNAMAZ Colaboradores: Irislane Pereira de Moraes (UFPA. não poderá ser construído. aconteceram reuniões no assentamento Araras. Raimundo Gomes da Cruz Neto CEPASP .Amazônia .4 (Nov. A hidrelétrica e o lago que será formado expulsarão de suas terras 10 mil famílias de agricultores. Maranhão e Tocantins. de organizações não-governamentais realizaram uma viagem pelo rio Tocantins. o planeta terra. extrativistas.CRB 011/529 Capa: Primeira: Foto do Rio Tocantins retirada do livro de Ignácio Moura. com a desagregação social própria desta lógica.1984).48 (811)(05) Ficha elaborada por Rosenira Izabel de Oliveira . realizaram-se diversas reuniões e atividades em Marabá. ouvir e partilhar das questões relativas à construção dessa hidrelétrica. associações. produziram levantamento de informações em órgãos públicos. partindo de Marabá até a sede do município de São João do Araguaia para realizar observações sobre este trecho do rio. extrativistas).Programa de Aceleração do Crescimento do Governo do Presidente Luis Ignácio Lula da Silva) e procederam a examinar as situações e problemas sociais já em curso e as projeções sociais. pescadores. sudeste do Pará. PPGA). que passam a dirigir. vista do Rio Tocantis Hidrelétrica: mais um enclave A partir da Segunda Guerra Mundial. desenvolve-se o centro do capitalismo mundial com a participação de sete países. Ulisses Guimarães (PPGG-UFPA) Revisão: Camila do Valle Projeto Gráfico: FATO Comunicação Fotografia: Arquivos do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB).2010) / Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia.Marabá-Pará Barraram-me de ser menino Barraram-me de cumprir o meu caminho Barraram-me de escolher o meu destino Agora sou chamado à existência para não mais existir De quem serão as horas contadas por minha correnteza? Como discorrer o tempo ao vento se querem me afogar? São as lágrimas de um mundo doente que vão me inundar? No verde destas águas que ainda me restam Reflete um passado infeliz que teima em voltar Não basta de insanidades? Deixem que eu seja tribo Deixem que eu seja vivo Tenho um sentido com milhões de sentidos Não vou deixar de ser adulto Não vou desviar o meu trajeto Não vou seguir o absurdo Da ganância de um projeto Querem me roubar a alma E justificam isso por escusos fins Mas permanecerei firme Às margens de mim Tocantins Bruno Cezar Malheiro 11 de fevereiro de 2010. ele não nos interessa. Este documento tem a finalidade de divulgar e ampliar o conhecimento sobre este projeto que desconsidera o direito dos povos e comunidades tradicionais (indígenas. Itacaiunas II e Santa Isabel. quilombolas. portanto. julho. consideradas como potencialmente fornecedoras de matérias-primas necessárias ao desenvolvimento econômico do centro. agentes de movimentos sociais. nas quais participaram representantes de instituições públicas. a primeira na aldeia Parkatejê no dia 28 de abril e a segunda. que produzirá a desterritorialização de grupos sociais e profundos conflitos socioambientais.UFPA-NAEA/UNAMAZ Organização desta edição: Joseline Simone Barreto Trindade . [et al]. subordinando às suas regras as periferias asiáticas. solicitada pelos vereadores da Câmara Municipal de São João do Araguaia. Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia II. CDU 316. Lajeado . Joseline Simone Barreto Trindade. Peixe Angical. A atividade de pesquisa continuou até outubro de 2010 para sua finalização. segunda.2 Boletim Informativo 4 Nova Cartografia Social da Amazônia 15 Cidades. Arquivo Fundação Casa da Cultura de Marabá. Igreja de São João do Araguaia . moradores nos seus povoados.Manaus:UEA Edições / PPGAS-UFAM.Periódicos I. quebradeiras de coco babaçu.1984-6371 1. Estreito (2007 . Raimundo Gomes da Cruz Neto (CEPASP). Ipueiras. de 1925.: il. São Salvador. sim para as poucas empresas que comercializarão a energia produzida pelo empreendimento. 16 p. Alfredo Wagner Berno de. econômicas e ecológicas que produzirá sobre a vida de mais de 40 mil pessoas com a construção de uma nova hidrelétrica sobre o rio Tocantins. Vilas desaparecerão com a construção da AHE de Marabá Tocantins Festa do Divino Espirito Santo . Destaques. Visitaram e entrevistaram indígenas em suas aldeias. no dia 15 de maio de 2010. Bruno Malheiros (UFPA-Marabá). UFPA-Marabá ) Eric de Belém Oliveira (FUNAI.NCSA/CESTU/UEA. participaram de reuniões. agosto e setembro de 2009. Daniela Hohn (MAB). Equipes de pesquisadores. Semestral ISSN . Rogério Paulo Hohn (MAB).AHE Luis Eduardo Magalhães (1998 . na vila de Apinajés e acompanhamento de duas outras reuniões. econômica e politicamente. pescadores. Como este empreendimento não trará benefícios para a população regional mas.em construção). Coordenação: Alfredo Wagner Berno de Almeida . CNPq e Rosa Elizabeth Acevedo Marin . B688 Boletim Informativo Nova Cartografia Social da Amazônia: O DIREITO DE DIZER “NÃO” à construção da HIDRELÉTRICA DE MARABÁ. PPGA). estudaram o Projeto de Aproveitamento Hidrelétrico de Marabá – AHE Marabá (prevista no PAC .

João 1722-1776. porém. o 25º maior curso d’água do planeta. 60 e 69) . conhecer a amplitude e respeitá-la. E o povo só fica com os impactos e as migalhas desses projetos. ao invés de sair furando os rios e concretando seu leito.” (DANIEL. sem obstáculos nem discriminação. Movimento dos Atingidos por Barragens . o ponto de chegada? Quando planejava sem prestar contas a ninguém. Este é o ponto de partida. As disposições desta Convenção serão aplicadas sem discriminação aos homens e mulheres desses povos. Aí voltaria ao Tocantins para levantar a barragem de Marabá. em 1975. Por isso. para atender às empresas multinacionais. que pagam 10 vezes a menos de tarifa que o povo brasileiro. Pode-se mudar esse modelo de desenvolvimento “rabode-cavalo”. Supunha-se também que iria colocar o Pará entre os Estados mais desenvolvidos da Federação. integrado. E para onde vão essas famílias? Vamos lutar contra a construção dessa obra. porque logo desde a sua fonte a pouco mais de três tiros de espingarda. Para não destruir a pretexto de construir. Além disso. Por isso é pobre. talvez de sentido marqueteiro) se propõe a gerar 2. O setor energético brasileiro e a construção de barragens A construção de barragens no Brasil tem causado inúmeros impactos sociais e ambientais à população e ao meio ambiente. Sinal de que as projeções de consumo. é o 16º em desenvolvimento humano e o 21º em PIB per capita. prevê-se a construção de mais de 1. Ela seguraria as águas do rio Tocantins. se deles já tivéramos as noticias necessárias. Andei pelas pedras situadas exatamente no ponto onde seria levantada a grossa parede de concreto. de nenhuma sorte dá vau. num ziguezague sem controle da sociedade.4 milhões de hectares de terras férteis. Concluída a usina de Tucuruí. Convenção 169: OIT PARTE 1 . a toque de caixa. Não deverá ser empregada nenhuma forma de força ou de coerção que viole os direitos humanos e as liberdades fundamentais dos povos interessados. “Mas do Tocantins podem ver. emprego e oportunidades para a região. em 1980. 2. nada sugeria que aquela paisagem – física e humana – iria se transformar tanto. ainda na maior estação do verão.160 quilômetros quadrados (alcançou 3. Essas barragens têm mostrado que a energia gerada serve para atender as grandes indústrias multinacionais instaladas aqui. Mas e agora? Qual a garantia que temos? É a verdade o que nos anunciam. Segundo estudos. felizmente. Recolhe o rio Tocantins muitas águas em muitos rios. 1. São mais de 10 mil famílias que serão atingidas em 9 municípios. através da Hidrovia Araguaia-Tocantins.1 bilhões de dólares (acabou saindo por pelo menos cinco vezes mais) e inundaria uma área de 1. geralmente embandeirado e festivo. p. drenando uma bacia que ocupa 10% do território brasileiro. mas um conjunto harmônico. à custa de inundar 1. Vol. Quando a obra da 4ª maior hidrelétrica do mundo foi iniciada. Segundo estudos de viabilidade. inclusive os direitos contidos na presente Convenção. paga mais de 30 centavos/Kw. faria duas hidrelétricas no Araguaia (Couto Magalhães e Santa Isabel). Um quarto de século depois que a usina entrou em operação.160 megawatts (ou seriam 2. contra a privatização de nossos rios e exigir um plano de desenvolvimento pautado no respeito ao meio ambiente e à população paraense. 2004. se passe a considerar o que a natureza está cansada de mostrar: um rio não é uma sucessão de pontos isolados. quanto se poderia dizer dos mais. É sangrado em suas riquezas. Ao invés de gerar desenvolvimento. ou ramos principais”. já se construíram mais de 2 mil barragens no Brasil. sendo que mais de 300 estão em solos Amazônicos. não estavam certas. antes de fazer. não construindo o melhor para a maioria. completo. de forma tão escassa? Talvez só a conquistemos quando. Qual será. não. é preciso saber. enquanto o povo paraense. o Pará. “Vangloria-se o Tocantins de já nascer grande. de 78 metros de altura. mais de 200 quilômetros a montante de Tucuruí. A AHE (nova nomenclatura das UHEs. que só cresce para baixo? A julgar pelo modelo da segunda grande hidrelétrica do Tocantins. a Eletronorte achava que podia extrair 22 milhões de MW em 27 barramentos na bacia do Araguaia-Tocantins. com o 2º maior território e a 9ª maior população do Brasil. com mais de dois mil quilômetros de extensão e que já chegou a verter quase 70 milhões de litros de água por segundo.400 novas barragens até 2030. Os anos passaram e o cronograma.MAB Boletim Informativo Nova Cartografia Social da Amazônia Edição Especial Novembro de 2010 4 O DIREITO DE DIZER “NÃO” à construção da HIDRELÉTRICA DE MARABÁ. Os povos indígenas e tribais deverão gozar plenamente dos direitos humanos e liberdades fundamentais. Só a VALE consome quase 5% de toda a energia brasileira e paga 3 centavos pelo Kw consumido. que vão para outros rincões.100 km2).760 MW? Os prospectos não esclarecem). que exigiam fazer obras monumentais. Não se pode modificar parte dele sem afetar o todo. expulsando mais de 1 milhão de pessoas de suas terras e alagando mais de 3. Tem quatro braços. não se cumpriu. significa gerar energia para as grandes indústrias de mineração da região e regiões mais desenvolvidas do país.POLÍTICA GERAL Artigo 3o 1. vai servir para o saqueio ainda maior das riquezas naturais da região. Nessa época.115 km2 e absorver dois bilhões de dólares em oito anos. Realização: Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia A barragem de Marabá também tem essa finalidade.O rio e o homem Lúcio Flávio Pinto Estive pela primeira vez no local onde seria construída a hidrelétrica de Tucuruí em 1973. É o terceiro Estado que mais exporta energia no país. imaginava-se que ela custaria 2. e inferir os leitores.