Público • Sexta-feira 19 Fevereiro 2010 • 39

Numa democracia é tão importante ter confiança no Governo como saber que, na oposição, existe uma real alternativa

Conseguirá o PSD deixar de fazer parte do problema?

José Manuel Fernandes

O

Extremo ocidental

s portugueses têm por hábito culpar os governos de todos os males. Porventura até dos males próprios. Mas por muitos defeitos que um governo possa ter, quando cai sobre um país uma sensação de desesperança e de fim de ciclo como aquela que hoje vivemos, há sempre mais responsáveis. E, com o sistema político que temos, temos de os procurar na oposição: a normal respiração de uma democracia pressupõe que os cidadãos tenham a percepção de que, querendo, podem despedir um governo e escolher outro. Ora uma das razões para o mal-estar actual é que muitos portugueses deixaram de acreditar no Governo que têm, mas não acreditam que os partidos da oposição possam dar-lhes um melhor. Por isso o PS perdeu a maioria, por isso o PSD repetiu um mau resultado, por isso os partidos que subiram foram os das franjas do sistema partidário. Isto significa que o PSD, ao não se ter conseguido firmar como alternativa real ao PS, passou a ser parte do problema, não da solução. Sobretudo pelo espectáculo de intriga e divisões que ofereceu ao país. Sobretudo por não ter sido capaz de mostrar, de forma suficientemente clara e inspiradora para os eleitores, como e onde faria diferente. Isto também significa que, ao escolher um novo líder, o PSD tem nova oportunidade – e não deverá ter muito mais – para construir um pólo político que possa ser visto como alternativo ao PS, partido que governa o país há 15 anos com um breve e conturbado hiato de dois anos e meio. Nada garante que o PSD consiga sair melhor desta disputa pela liderança – e nada garante porque um dos principais problemas do PSD é ser demasiado parecido com o país, e o país ter decaído muito nos últimos anos. Isto significa que, tal como o país, o PSD tem demasiados militantes que se confundem com o aparelho de Estado, que alimentaram dependências várias e, mesmo nas empresas, parecem ter perdido o gosto pelo risco e pela liberdade. Ora só um partido que olhe para o país e para o Estado de forma radicalmente diferente da do actual PS pode aspirar a, um dia, vir a fazer parte da solução em vez de continuar a ser parte do problema.

RUI GAUDÊNCIO

Qualquer alternativa política devia basear-se na devolução aos portugueses da autonomia e da liberdade que, de forma imperceptível, lhes foi retirada nos últimos anos

A

quilo a que assistimos nos últimos anos em Portugal foi a uma perigosa confusão entre o que deve ser o Governo e o que tem de ser o país, a uma submissão de boa parte do tecido económico privado a um Estado que, formalmente cada vez mais “empresarializado”, se tornou controleiro e dirigista como poucas vezes o foi no passado. Isto não correspondeu a qualquer “socialização” da economia, antes correspondeu à sofreguidão de tudo dirigir e tudo controlar. Os episódios recentes em torno da PT são apenas mais um exemplo de como, seguindo por caminhos directos ou por vielas ínvias, temos vindo a passar de uma economia concorrencial a uma economia tutelada onde é mais importante estar bem com a “corte” do que conquistar os favores dos consumidores e do mercado. Do sector bancário ao das obras públicas, não faltam exemplos para ilustrar uma derrapagem que, mesmo quando embrulhada numa retórica pseudokeynesiana, no fundo revela uma mentalidade centralizadora e jacobina. Os resultados destas políticas – que, não nos enganemos, correspondem ao caldo cultural, social e empresarial do país e têm profundas raízes históricas – estão à vista: uma economia que tem vindo a perder competitividade e um ambiente claustrofóbico em que até a regra dos concursos públicos entrou em desuso, vigorando o princípio generalizado do “ajuste directo”. Cortar com estas políticas é difícil, pois todos os partidos de governo estão, mesmo que em graus diferentes, comprometidos.

Mas a experiênca destas receitas está a deixar um sabor muito amargo na boca dos portugueses. Ninguém gosta de descobrir, por exemplo, um “boy sem cv que aos 32 anos foi alçado a administrador executivo da PT pelo Estado, a ganhar escandalosamente mais num ano do que o meu marido ganhou em toda a vida, ao longo de 40 anos como servidor do Estado nos mais altos escalões”, como escreveu sobre Rui Pedro Soares a insuspeita Ana Gomes. E já se percebeu que acabar com os privilégios que permitem aos governos, em empresas públicas ou em empresas privatizadas, realizar tais nomeações e depois delas tirar partido é uma questão de higiene elementar. E o mesmo tem de suceder face às práticas que distinguem as empresas “amigas” das empresas “hostis”, algo que se tornou tão comum que até já se percebeu fazer parte da linguagem oficialista. Qualquer alternativa política teria assim de basear-

se na devolução aos portugueses da autonomia e da liberdade que, de forma imperceptível, lhes foi sendo retirada nos últimos anos. Há 30 anos um líder do PSD, Francisco Pinto Balsemão, chamou a isso “libertar a sociedade civil”, e hoje tal programa implica assumir que cabe aos governos mandarem menos do que mandam, tal como é necessário que o Estado atrapalhe menos do que atrapalha. Até porque é fácil provar que o dirigismo centralista e jacobino em nada tem contribuído para a justiça social, bem pelo contrário, como se pode verificar em áreas tão sensíveis como a educação, a saúde ou o sistema de segurança social, onde os sinais de uma sociedade dual são cada vez mais fortes. Pior: onde se têm agravado os sintomas de dependência e aversão ao risco e à inovação, tal como se tem tornado mais difícil a mobilidade social. Pedir isto, ou tudo isto, a um partido português, mesmo que na oposição, é talvez pedir demais – sobretudo quando ele também esteve e está na mesma gamela. Mas alguém terá de abrir a janela para deixar, ao menos, entrar algum ar fresco. Jornalista

Uma semana em http://twitter.com/jmf1957
a 18Fev10 – Então o Vara ñ suspendeu funções mantendo ordenado? RT @P_S_G: Rui Pedro Soares resigna à administração mas fica na PT http://bit.ly/9FGXGA – Há quem ache ético colocar o Estado, e os seus recursos, ao serviço de um partido na campanha eleitoral http:// is.gd/8DSqk Eu não acho a 17Fev 10 – Chávez Tightens His Inner Circle: Venezuela’s president is using tactics like secret-police raids to consolidate power. http://is.gd/8B1c1 – Porque é que pessoas como Mário Lino acham que somos todos parvos e tontinhos? http://is.gd/8zB1R a 16Fev10 – Enlouqueceram: PS e Governo apostados em aproveitar audições parlamentares pra abrir nova frente de conflito c/ Presidente http://is.gd/8xJFk a 15Fev10 – Em 2009 o líder reuniu-se três vezes com os órgãos do PS, para as eleições. Agora marcou quatro reuniões de uma assentada http://is.gd/8uyK3 – The fate of the PIIGS: A. Gilligan finds half of Europe broke, the currency tottering & a president that cnt read a speech http://is.gd/8qdkG – More than half of women think that rape victims should take responsibility for their assault, a survey has found. http://is.gd/8q2gh a 14Fev10 – Marcelo tratou Sócrates do princípio ao fim do programa por mentiroso (com razão), mas depois quer que continue (para o fritar aos poucos) – Uma boa análise do NYTimes: Afghan Offensive Is New War Model http:// is.gd/8mcd0 – Dirigentes do PS dizem que 1 moção de censura poderia beneficiar Sócrates - e enterrar o país. O animal ferido é perigoso http://is.gd/8m96a a 13Fev10 – Importante ler este texto de uma cientista: Computers in schools could do more harm than good http:// is.gd/8jho1 a 12Fev10 – Ou há um sobressalto no PS, ou estamos num beco sem saída. É tempo d perceber q Sócrates já ñ faz parte d solução, mas d problema, até d PS