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ESTE UPLEMEN ESTE SUPLEMENTO FA PARTE INTEGRANT DA EDIÇÃ Nº 7218 DO PÚBLICO ESTE SUPLEMENTO FAZ PARTE INTEGRANTE DA EDIÇÃO Nº 7218 DO PÚBLICO, E NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE STE UPL MENT FAZ PARTE NTEGRAN T A PARTE NT GRAN ART ART T RANT TE RA A AN EDIÇÃ DIÇ DIÇ DIÇÃ IÇ 721 2 21 218 LICO CO O ÃO PO E SE VENDID VE DIDO EPARADAM NTE I EPA ADAME EPARADAM TE PA DAME A AM

Sexta-feira 8 Janeiro 2010

www.ipsilon.pt

Um clique na década

A cultura nos anos 00

Flash

Em época de balanço, não resisti a escrevinhar também as minhas escolhas. Dos consagrados, haveria muito por onde escolher mas limitar-me-ei a referir duas hipóteses: os escoceses Camera Obscura e o veterano norte-americano Bill Callahan. No entanto, curiosamente, este ano

Espaço Público

as minhas referências vão para dois projectos estreantes: os semiobscuros Girls (de Christopher Owen) e os consensuais XX. Ambos criaram obras notáveis, ainda que, bastante distantes musicalmente. Se o primeiro prima pela diferença e intensidade (elejo o tema “Hellhole Retrace” como épico do ano), os segundos movemse num terreno devedor

do “shoegazing” dos anos 80, o que, por si só, poderá levar a pensar que se trata de mais uns teenagers pseudodeprimidos. Desenganemse. Não cabendo em nenhuma das categorias anteriores, seria pecado capital deixar de referir o segundo trabalho de Elvis Perkins (“Elvis Perkins in Dearland”). António Freitas, radialista, 38 anos

David Maranha em aventuras além-fronteiras no início de 2010
A editora Roaratorio prepara-se para lançar, no final de Fevereiro, um novo álbum do português David Maranha. “Antarctica”, o sucessor de “Marches of the New World” (décimo lugar na lista de música pop do Ípsilon, em 2007), terá o selo da casa editorial norteamericana, que já lançou trabalhos de gente como Chris Corsano, Ben Chasny (Six Organs of Admittance), Joe McPhee e Vibracathedral Orchestra. Ao Ípsilon, Maranha adiantou que o som não será muito distante do de “Marches of the New World”. Ou seja, dizemos nós, música contínua, de desenvolvimento lento, mas vigoroso, algures entre o minimalismo de Tony Conrad e o lado mais exploratório dos Velvet Underground. A formação será composta pelo próprio Maranha (órgão e violino), Riccardo Dilon Wanke (guitarra eléctrica), João Milagre e Stefano Pilia (baixo, no lado A e B, respectivamente) e Afonso Simões (bateria). O álbum será lançado em vinil, com uma peça de cada lado. A confirmar que o início de 2010 será preenchido para David Maranha (que pertence aos históricos Osso Exótico) está a participação no projecto Box, em Bruxelas, entre 30 de Janeiro e 2 de Fevereiro. Nesses quatro dias, Maranha e outros músicos (estão já confirmadas as presenças de Ben Frost e Helge Sten, dos Supersilent) vão estar em estúdio, sem quaisquer planos prévios. O resultado será editado pela Rune Grammofon, importante editora norueguesa de música experimental. Pedro Rios

Sumário
Música 8 Eu sou a minha cena musical Cinema Cinema anos zero Exposições Os anos da sincronia absoluta Livros Os livros estão nas nuvens Teatro/Dança As artes performativas à porta dos teatros 12

O dia em que Cormac McCarthy viu “A Estrada”
Foi um momento de agonia para o realizador John Hillcoat e para John Penhall, o argumentista que adaptou para cinema o livro “A Estrada”, de Cormac McCarthy: o próprio autor – “frequentemente descrito como ‘o maior autor americano vivo’”, explica Penhall – vinha assistir à apresentação do filme. “Sabíamos que só a aprovação de McCarthy nos permitiria lançar o filme que realmente queríamos fazer. Sem ele ficávamos à mercê de investidores cada vez mais nervosos e o nosso futuro em Hollywood estava em risco”, escreve Penhall num texto no diário “The Guardian” no qual recorda esse momento em que o escritor chegou a numa sala de projecção deserta em Albuquerque, vindo de Santa Fé no seu velho Cadillac prateado. Assim que a projecção teve início, McCarthy “começou a tomar notas no seu bloco”. No final “tinha páginas cheias das malditas notas”. A agonia prolongou-se. Quando o filme terminou, Hillcoat, tentando controlar o nervosismo, perguntou: “Então?”. Mas McCarthy disse apenas que precisava de ir à casa de banho. Demorou o que pareceu uma eternidade. Mas quando voltou lançou: “É bastante bom”. Hillcoat mal conseguia acreditar. “Verdade? Não está só a ser simpático?”. “Ouçam”, respondeu, “não fiz estes quilómetros todos só para vos dizer uma mentira”. A adaptação é “muito poderosa”, continuou McCarthy. Gostou muito da voz “off” (opção que tinha sido polémica) – o que fez Penhall ter vontade de “o levantar no ar e dar-lhe um abraço”. Acabaram a comer – e a beber – juntos. Falaram de John, o filho de 11 anos de McCarthy (que tem 76 anos), e a inspiração para a personagem da criança de “A Estrada A Estrada” – história sobre a ligação entre um pai e um filho que tentam sobreviver no pós-apocalípse. Quando se despediram, Penhall pediu um autógrafo. McCarthy assinou um exemplar de “Meridiano de Sangue”: “Do teu amigo Cormac, Albuquerque, Novembro 2002”. Mas era Novembro de 2008. O argumentista virou-se para o realizador em pânico: “Meu Deus, John, quanto é que nós bebemos? Ele tem que guiar de volta para Santa Fé à noite – se acabar numa vala seremos os responsáveis. Teremos morto o maior escritor americano vivo.” Mas no dia seguinte, às oito da manhã, estavam a receber por fax as páginas das notas que McCarthy tomara durante a projecção. Havia um diálogo “importante” que não estava no filme e, segundo o escritor, devia estar: quando o filho diz ao pai: “O que farias se eu morresse?”, e o pai responde: “Quereria morrer também”. “A Estrada” está nas salas portuguesas [ver crítica neste suplemento]. A.P.C.

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Ficha Técnica
Director Bárbara Reis Editor Vasco Câmara, Inês Nadais (adjunta) Conselho editorial Isabel Coutinho, Óscar Faria, Cristina Fernandes, Vítor Belanciano Design Mark Porter, Simon Esterson, Kuchar Swara Directora de arte Sónia Matos Designers Ana Carvalho, Carla Noronha, Mariana Soares Editor de fotografia Miguel Madeira E-mail: ipsilon@publico.pt
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John Hillcoat

Darth Vader

Darth Vader quer ser seu amigo no Facebook!
Como seria se houvesse um Facebook interplanetário e as personagens da “Guerra das Estrelas” de George Lucas tivessem contas? É a improvável premissa do que o humorista Brian Murphy, do site College Humor, fez num post que anda a dar a volta à internet que propõe “cinco status updates da Guerra das Estrelas no Facebook” - desde os pilotos da Aliança Rebelde a combinarem saídas para bjecas ali ao planeta do lado a Darth Vader a descobrir que os seus generais gozam com ele quando ele não está a ler, passando por piropos românticos de Han Solo à princesa Leia, pelos resmungos de Chewbacca e pelas inconveniências do robot tradutor C3PO, vale tudo. Com direito a um grande momento de humor quando um dos stormtroopers do Exército Imperial fica transtornado por ter morto um Ewok. Está tudo em http://www. collegehumor.com/article:1794889 . E agora desculpem mas vamos ali desamigar o Darth Vader.

e serão precisamente as suas canções aquilo que ouviremos. Ou seja, uma apresentação em primeiríssima mão: o público a ouvir a novíssima música que Panda Bear tem para mostrar, Panda Bear a averiguar como resulta perante o público aquilo que criou num quarto no Bairro Alto. Os bilhetes, ao preço de 15 €, são postos à venda quarta-feira, dia 13, nas lojas Flur e Louie Louie e no Lux.

As 12 mil mulheres de Warren Beatty
Qualquer uma das mulheres que esteve nos braços de Warren Beatty até pode, no momento, ter sentido ser a única. Agora ficará a saber, ou pelo menos a desconfiar, que não foi “uma em mil” mas sim “uma em 12.775”. E se mais dias houvesse entre o momento em que o intérprete de “Bonnie and Clyde” perdeu a virgindade, com 19 anos, e aquele em que conheceu Annette Bening, em 1991, com quem se casou já com 54 anos, mais mulheres haveria na vida, e na cama, de Warren Beatty. É o que sugere o escritor Peter Biskind na biografia “Star: How Warren Beatty Seduced America”. Para chegar a esse número, o autor de “Easy Riders Raging Bulls: How the Sex-Drugs-And Rock ‘N Roll Generation Saved Hollywood” – a crónica da ascensão dos “movie brats” a Hollywood, nos anos 70, a partir das idiossincrasias das “personagens”, figuras como Al Ashby, Spielberg, Michael Cimino ou William Friedkin – usou nesta biografia a “simples aritmética”. E partiu do princípio que Beatty teve, em média, uma mulher por dia. Se for verdade, “é impressionante”, escreve o jornal “The Guardian”, que lembra que, segundo o libretista de Mozart, Lorenzo da Ponte, Dom Juan “apenas” dormiu co com 2065. “Quantas mulheres estiveram lá? Mais fácil será

The XX na Aula Magna em Maio

Panda Bear apresenta novo álbum no Lux

Tendo-o por perto, colhemos este tipo de benefícios. Noah Lennox, que conhecemos como Panda Bear nos Animal Collective e na carreira a solo, que nasceu em Baltimore, mas vive em Lisboa, actua dia 12 de Fevereiro no Lux. Quando editou o celebrado “Person Pitch”, álbum maior, pessoalíssima visão do universo que ajudou a desbravar com os autores de “Feels”, apresentou-o num B Leza esgotado onde se viveu ambiente de acontecimento. Mas o Panda não pára e, no Lux, não se ouvirão as canções de olhos e coração nos céus de “Person Pitch”. Panda Bear começará a gravar o seu próximo álbum a solo nas próximas semanas

Chamam-se XX e a estreia foi um dos discos mais celebrados de 2009, transformando dois miúdos e duas miúdas de Londres, 20 anos de idade, em celebridades pop (à escala indie, naturalmente). Sabemos agora que vamos vê-los no tempo certo. Dia 25 de Maio actuam na Aula Magna, em Lisboa. A música dos XX, onde o minimalismo dos ritmos e texturas e electrónicas se ligam a vozes s, desencantadas, existe num espaço entra onde se concentra tudo o que a pop o criou de etéreo e nocturno nos últimos vinte anos: o pós-punk e o shoegaze, os Young Marble Giants e dytron os Cure, os Ladytron e uns Pixies . sem distorção. tiva O que mais cativa neles, porém, erências será essas referências cruzarem-se de uma forma que só neles parece er realmente fazer sentido. es Representantes perfeitos ão de uma geração onde es são inexistentes as teiras habituais fronteiras Jane Fonda X de estilo, os XX tanto servem o urbano depressivo e quarentão que cresceu com os Joy Division quanto o ue adolescente que ma descobre numa pista de dança que, a partir ento, daquele momento, “Crystalised” será a sua ida. canção preferida. mente, Daí, provavelmente, a presença em variadíssimas ores listas de melhores álbuns de cupado 2009, tendo ocupado o quinto orada lugar na elaborada pelo Ípsilon. ra Os bilhetes para o concerto, à ais venda nos locais habituais, os. custam 25 euros.

contar as estrelas no céu”, escreve o “New York Post”. Algumas delas, estrelas de Hollywood, dão testemunhos pessoais, citados por este jornal. Joan Collins: “Não sei se posso durar muito mais tempo. Ele nunca pára – deve ser de todas aquelas vitaminas que ele toma... Daqui a uns anos, estarei gasta.” Ou Jane Fonda: “Oh meu Deus. Beijámo-nos até nos arrancarmos p at ca e te praticamente a cabeça u ao um outro.” Também houve Madonn por Madonna, altura das filmagens de “Dick Tracy”, ou a Louise Br Bryant de “Reds”, Diane Keaton que Keaton, confessa ter ficado surpreendida, po porque achava não fazer d todo de “ “o tipo” de Warre Warren

Diane Keaton

Beatty: “Lembro-me de olhar para a cara dele e me questionar: Como estou eu aqui?” Houve ainda Isabelle Adjani, que terá sugerido um “ménage-à-trois” com Fran Drescher, que recusou depois de já antes ter dormido com o actor. E, entre todas as outras, houve também Julie Christie e Janice Dickinson. Verdadeiro ou não, este lado da vida de Warren Beatty circulou nos últimos dias por sites de notícias do mundo, da Austrália à Malásia. E não apenas por causa da polémica de esta ser ou não uma biografia autorizada – alguns jornais referiram-na como tal, Beatty diz que não o é, enquanto o editor Simon & Schuster omite essa informação – mas mais pelo “extraordinár “extraordinário” ou o “surpreenden “surpreendente” do número”, como qualific qualificam alguns jornais. Warren Beatt desmente tal Beatty s número e o seu advogado Bertram Fields acusa B Biskind de “muitas falsas afirmaç afirmações” e de citar o actor de 72 anos “a dizer coisas que disse” nunca di ”. disse”.

Joan Collins

Madonna

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ser famosos pa

A década em que

O pior dos tempos ou o melhor dos tempos. A cultura da Internet em par t se passou ao longo de dez anos no campo da criação artística - e, claro, do c

Capa

Perdidos. Na imensidão do espaço digital. No excesso de informação. Na proliferação de suportes, de maneiras de ouvir, ver, ler. Em todo o lado, a toda a hora, procurando, com ansiedade, a qualidade na quantidade. Foi assim que vivemos a primeira década do século XXI. Foram dez anos em que as condições de produção, existência, partilha e distribuição da música, do cinema, da literatura ou das artes, plásticas e performati-

vas, se alteraram profundamente. Foram dez anos esquizofrénicos em que as actividades culturais se confrontaram com uma espécie de esvaziamento, mas em simultâneo foram vistas como veículo de desenvolvimento económico, servindo para imaginar soluções para o crescimento sustentável. “Perdidos” é também nome de uma das séries de televisão mais iconográficas da década. Uma espécie de mitologia unificadora destes anos. A

estrutura narrativa reproduz estratégias de propagação viral no imaginário colectivo, alegando teorias e interpretações paranóicas, assentes na procura de um sentido para um punhado de personagens que se encontram algures, sem noção de espaço e de tempo, lembrando o dispositivo cenográfico criado por Lars Von Trier no filme “Dogville”. Quem tentasse ver “Perdidos” recorrendo aos modelos habituais para descodificar as séries de TV, ficaria

perplexo, num primeiro momento. O mesmo apetece dizer em relação ao que se passou na década que finda. Quem continuou a usar velhas grelhas de leitura para pensar o que se passou na música, no cinema ou nas artes, saiu dessa análise confundido, sugerindo que nada de expressivo aconteceu, não porque nada tivesse sucedido realmente, mas porque o que se passou se manifestou de maneira diversa, a um nível micro, de forma rápida, disseminada, sem que muitas

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ara 15 pessoas

e todos puderam

r ticular, e os desenvolvimentos tecnológicos em geral, marcaram o que o consumo. Nunca se passou tanto em tão pouco tempo. Vítor Belanciano
vezes chegasse a formar um todo coerente. Não espanta que muitos tenham proclamado que vivemos um período de cultura derivativa, esgotada, devorando-se a si própria, em ciclos curtos. Quem tentou perceber procedimentos em aberto, não receando a desarrumação e as contradições que se apresentavam à sua frente, compreendeu que as rupturas continuam a existir mas manifestam-se de forma distinta. Para eles, foram os melhores dos tempos. Nunca aconteceu tanto em tão pouco tempo.

Somos todos artistas
No centro de todas as discussões e de todas as mudanças, a tecnologia, com destaque para a Internet. No início era aquela coisa estranha a que chamávamos ciberespaço. Depois tornouse no nosso ambiente quotidiano, na nossa casa, o habitat onde hoje passamos o tempo. Muitas das transformações opera-

das na década já eram perceptíveis no final do século passado – era visível, por exemplo, a contínua desmaterialização dos suportes musicais ou o previsível impacto das câmaras digitais no cinema –, mas a Internet acelerou todos os processos. Antes, já todos tínhamos escrito um poema ou um conto, criado uma canção numa roda de amigos, tirado uma fotografia que até nos disseram ser muito “artístic” ou feito um pequeno filme, documentário ou vídeo.

Mas na maior parte dos casos essas “obras” ficavam na gaveta. Graças ao fácil acesso aos meios de produção, esta foi a era em que todos proclamaram “eu-também-posso-ser-artista”. A maior parte continuará incógnita, nunca alcançando a consistência de um percurso, mas outros, como os Arctic Monkeys ou Lily Allen, acederam ao panteão dos famosos graças a plataformas como o MySpace, o YouTube, os blogues ou as redes sociais.

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Que o consumidor tenha passado a ser também criador não é uma novidade. A diferença é que, hoje, essa produção espontânea pode convergir directamente para o espaço virtual. Ao passo que até aqui um artista, para o ser, tinha que ser criativo mas também de garantir o acesso aos meios de produção, distribuição e legitimação. Não vale a pena romantizar. Esse processo mantém-se. Mas é mais fácil contorná-lo. Nunca a fantasia do “faça-você-mesmo” pareceu tão real, com plataformas da Internet a substituírem-se a editoras de discos e livros, estúdios de cinema, galerias de arte, estações de rádio e TV, jornais. A maior parte do que conflui para a internet é lixo. Carradas de lixo. Há uma ínfima parte que não o é. E isso é imenso. A multiplicidade de escolhas promete mais diversidade e inovação. Mas as audiências também são mais segmentadas e estilhaçadas. Daqui resulta uma cultura de inúmeros pequenos cultos, que não se intersecta entre si, dispersa por infindáveis pequenos nichos. A célebre máxima de Andy Warhol nos anos 60 – “No futuro todos serão famosos por 15 minutos” – não perdeu sentido, mas poderia ser actualizada. Nesta década, não só foi possível ser famoso por 15 minutos, como foi possível sê-lo apenas para 15 pessoas. A nova (des)ordem digital não significou forçosamente que os dias em que as grandes editoras, os estúdios de cinema ou o circuito das artes geravam estrelas duráveis, de dimensão planetária, desapareceram. A força da cultura popular pôde ser avaliada pelo impacto da morte de Michael Jackson, ou pelo sucesso de Madonna, U2, Eminem, Angelina Jolie, Brad Pitt ou Jeff Koons, ou de nomes alegóricos destes anos, como Beyoncé, Justin Timberlake, Kanye West, Amy Winehouse, Scarlett Johannson, Clint Eastwood ou Damien Hirst. Mas as cifras macroeconómicas deram lugar a um novo pragmatismo – vender menos de mais produtos. Foi assim que

na nasceram novos ícones. Mais M human humanos. Mais pr próximos de nós. Verdadeiros criad criadores e não figuras dese desenhadas a régua e esqua esquadro. Não se obrigando a comunicar comun para o planeta mas comunica planeta, comunicando de facto para imensas minorias. Foi assim que, na música, se impuseram nomes como M.I.A, LCD Soundsystem, Animal Collective, Arcade Fire ou, de Portugal para o mundo, os Buraka Som Sistema, todos beneficiando do novo contexto digital.

Do macro para o micro
Os anos 00 foram protagonistas de inúmeros micro-fenómenos (revitaliza- ção do rock com Strokes, entronamento do hip-hop com Jay-Z, restabelecimento da folk com Devendra Banhart, cruzamentos dança-rock com Franz Ferdinand, afirmação da geração pós-hip-hop com M.I.A., minimalismos electrónicos com Villalobos, emergência do dubstep com Burial), sucedendo-se de forma veloz, dispersa e ampla, impedindo a focagem. Na música, foi um período de contínua experimentação, com editoras, músicos (os Radiohead puseram um álbum à venda tabelado pelo público) e consumidores tentando adaptar-se à convulsão. Seguiram-se o cinema, os livros, a TV, a rádio e os jornais. No cinema, os “blockbusters” não desapareceram e heróis de outras décadas até foram recuperados (Indiana Jones, Rambo). Para alguns, a morte de Antonioni e Ingmar Bergman simbolizou o fim de uma forma de estar no cinema, mas a verdade é que a ideia de autoria, em realizadores tão diferentes como Lynch, Gus Van Sant ou Pedro Costa, continuou viva. Como na música, no cinema falouse menos de autores e mais de formatos, contaminações e revoluções tecnológicas. O cinema documental (de “Fahrenheit 9 11“, de Michael Moore, a “Grizzly Man”, de Werner Herzog) conheceu um impacto inaudito; as séries de TV (“Os Sopranos”, “Sete Palmos de Terra”, “Perdidos”) foram incensadas; o cinema contaminou a arte e viceversa – o artista Douglas Gordon realizou “Zidane” e Steve McQueen fez “Hunger”, enquanto Julian Schnabel mostrava que é melhor realizador do que pintor.

Vivemos num mundo de 24 horas de filmes, discos ou livros, passíveis de serem experienciados onde e quando nos apetece – às vezes, mesmo quando não queremos. Essa imersão contínua tanto pode estimular como banalizar a experiência. Talvez por isso, como reacção ao consumo indiferenciado e individual, no computador ou no iPod, os espectáculos ao vivo tiveram uma época dourada. A experiência social de um concerto é irrepetível, bem como de uma peça, de uma coreografia ou de uma obra como “Avatar”, que explora uma tecnologia (3-D) que reafirma o prazer de ver filmes em comunidade. Em todas as áreas criativas se assistiu ao irromper de novos centros. Nova Iorque, Londres, Paris ou Berlim continuaram a servir de farol para perceber o que de mais importante se passou na música, no cinema ou nas artes. Mas da China ao Brasil, da Índia a África, depende-se cada vez menos desses centros de legitimação. Mais uma vez, o contexto é o de um mundo que se confronta com a circulação infinita de informação, onde há partilha e recriação generalizada do conhecimento. Em muitos casos, do cinema oriental à música desqualificada de cidades como Luanda, Cidade do Cabo ou Rio de Janeiro (kuduro, kwaito, baile funk), passando pelos impulsos estéticos de artistas como o indiano Subodh Gupta, foi daí que saiu uma nova energia, forma de resolver o impasse das práticas artísticas ocidentalizadas, demasiado conscientes da História, onde tudo já parece ter sido tentado. A modernidade produz-se agora ao ritmo de uma negociação planetária feita de inúmeros centros. E também de múltiplas temporalidades. Até agora o acesso ao passado era parcial, não cumulativo. Com a Internet, talvez pela primeira vez na História, temos a sensação de poder aceder a todas as obras, de diferentes épocas, num ápice. Não admira que subsista uma impressão em que passado, presente e futuro se sucedem, não apenas um atrás do outro, mas todos ao mesmo tempo, conectando-se entre si, permeáveis. Em vez de uma História com percurso preciso e contínuo, passámos a ter regressos, anacronismos, descontinuidades, recuperações e convivências. Sempre foi assim. Mas essa consciência é agora nítida. Ou seja, continuam a existir desenvolvi-

mentos e mudanças – e não apenas revivalismos ou recalcamentos do passado, como não parámos de ouvir ao longo da década – nos campos artísticos, mas são agora percepcionadas de outra forma. No limite, de maneira mais subtil. O mundo, e com ele o mundo da cultura, está mais desordenado, mas também mais estimulante, do que há dez anos. É natural que aqueles que não sabem guiar-se na desordem se sintam desnorteados e acabem por regressar ao que sempre conheceram ou aos valores perenes – talvez por isso, esta foi também a década em que a memória mais foi celebrada, seja ela personificada pelos Beatles, por António Variações (Os Humanos) ou por Andy Warhol. Como acontece quase sempre em circunstâncias de mudança profunda, parte do público, dos criadores e dos gigantes das indústrias culturais, tem nostalgia dos dias em que parecia existir uma espécie de unidade cultural, produtora de um sentido, em que todos se reflectiam um pouco. Mas esses dias, é quase certo, não vão regressar. Mas também não vale a pena mistificar o papel da Internet, e das tecnologias em geral. Por um lado porque a Internet ainda é terreno de ambivalências, celebrada como abertura para novas possibilidades, mas também temida por constituir um sinal do fim da criatividade como a conhecíamos. Nos próximos anos, muito provavelmente, iremos assistir à sua domesticação. Por outro, porque independentemente das tecnologias, o que interessa é a maneira como as artes e a cultura asseguram alguma forma de compromisso com a vida, reflectindo, ampliando e até antecipando o que acontece à nossa volta, num período histórico de grande experimentação politica, económica e social. Agora que chegámos aos anos 10, os anos zero estão só a começar.

Nunca a fantasia do “faça-vocêmesmo” pareceu tão real, com plataformas da Internet a substituíremse a editoras de discos e livros, estúdios de cinema, galerias de arte, estações de rádio e TV, jornais

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SÃO LUIZ
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Os anos 2000 serão mais recordados pela tecnologia que pela música. Não que a música seja n mais marcantes. Não por acaso, só nos encontramos todos em volta dos Beatles o

Eu sou a minha

Si Sintonizar o rádio às escondidas, maintonizar drugada drugada dentro, era abrir uma porta para para um outro mundo, longe da pequena quena cidade em nenhures que a janela nela revelava. Algo longínquo, misterioso, soprado no éter desde mil e erioso, e m muitos quilómetros de distância. Ele distância que ouvia o rádio não estava sozinho ue sozinho. Mas quem seriam os outros: comunidade agrupada em volta da rádio madrugada dentro? Nunca o saberia. Na melhor das hipóteses, iria descobri-los anos depois, quando uma conversa conduzisse a uma canção, essa canção trouxesse a recordação do quarto e da caixa de madeira e circuitos eléctricos produzindo som e, com ela, a revelação de que, há muito, aquele momento havia sido par-

tilhado sem o saberem, noite após noite. Se a descrição parece arcaica, é porque o é. Extrapolámo-la das recordações de Bob Dylan de como descobriu a folk na rural Duluth, a cidade do Minnesota onde nasceu. Evoca imanasceu ima gens a preto e branco, irreais por pabranco recerem hoje tão improváveis – houve mesmo um tempo em que a rádio era a única porta aberta para o mundo? Contudo, não precisamos de recuar tanto. Tão perto quanto os anos 80, ainda era ela que servia de farol agregador e formador de comunidades de melómanos - basta recordar, cá dentro, o trabalho ímpar de António Sérgio, o mais influente radialista português.

Claro que entre os anos 50 de Dylan e os 80 do “Som da Frente”, assistiu-se ao nascimento da era do single e, depois, do LP. Claro que apareceram depois as cascas setes e, com elas, gravando, desgrae elas gravando vando e regravando, a música passou a circular de forma livre e personalizada. Depois, nasceu o CD e, anos 90 dentro, o CD gravável – em termos de impacto, um pequeno e pouco significativo upgrade da cassete. Porém, estes saltos tecnológicos não alteraram radicalmente a forma como ouvíamos música. Não alteraram radicalmente a forma como nos relacionávamos com os músicos: a cultura

po po pop juveop nil, nil, tal como estabelecida estabelecida com o menear de ancas de Elvis Presley no Ed Sullivan Show, em 1956, manteve, mais hippie, menos rockabilly, mais punk, menos metaleiro, os mesmos gestos, as mesmas normas de idolatria, os mesmos processos de mitificação. Em 1995, com o CD estabelecido, com a indústria a lucrar como nunca antes – às novas edições juntavam-se as reedições, de custo próximo do zero, de álbuns prévios ao novo for-

ma mato mato -, não seria descabido que que alguém anunciasse com pompa pompa e circunstância o “fim da história” do fenómeno pop, tal como entendido por Fukuyama. Instalados no final da primeira década do século XXI, não demoramos a encontrar XXI expressão adequada a tal raciocínio: balelas. No que à música diz respeito, esta foi a década em que tudo recomeçou, para nada ser como dantes.

A imparável democratização
E não é por acaso que passámos os parágrafos anteriores a falar da tecnologia a ela associada. Nos anos 2000, Google, MP3, iPod ou MySpace: foram eles que mudaram tudo. Foi a agressiva e imparável democratização

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a cena musical
Ninguém quer líderes ou pregadores. Ainda assim, continuamos fascinados com figuras dessa dimensão icónica. Durante os anos 2000, foram os Rolling Stones, não os Coldplay, a banda que mais lucrou em digressão. Os Beatles, com a edição da sua discografia remasterizada, escalaram os topes mundiais. Michael Jackson foi chorado e reavaliado e reconquistou o trono de Rei da Pop
h

a negligenciável. Será até das décadas mais ricas da pop. Mas paradoxalmente, longe de ser das s ou Michael Jackson, ícones de um passado que já não existe. Mário Lopes
f Os Animal Collective, tendo em conta as marcas da sua música, são o grupo mais influente deste tempo. Mas seria igualmente válido afirmar que as bandas mais influentes da década não nasceram nela: não são os Cure e os Joy Division aquilo que ouvimos nesse saturante revival pós-punk/80s que nos acompanha desde 2001?

e

Numa década que teve como último álbum consensual, enquanto marca geracional, “Funeral”, dos Arcade Fire, ninguém se destaca, ninguém pode ser entronizado como seu máximo representante

g A exclusividade, tão querida da ética indie, passou dos álbuns obscuros, propriedade de uns poucos resistentes à dominação do “mainstream”, para aquele “I had everything before everyone else” que os LCD Soundsystem cantaram em “Losing My Edge”, a canção que melhor expressou a decisiva ruptura com o passado vivida nos anos 2000

da experiência musical, da audição de música à criação de música, que nos trouxe até aqui: a um ponto em que já não nos reconhecemos naquilo que éramos quando, na passagem de ano de 1999 para 2000, festejámos a inexistência do apocalíptico “bug” do milénio. Recentemente Alexei Petridis, crítico do “Guardian”, propôs um exercício. Olhando para a música que se ouvia no início de uma década, e aquilo em que se transformara no final, teríamos uma panorâmica da sua dinâmica transformadora. Nos anos 1960, alega Petridis, passou-se do “skiffle” para Jimi Hendrix. Nos 1970, de Jethro Tull para Gary Numan – e qualquer um que se visse teletransportado

de um extremo da década para o outro, perguntar-se-ia que raio se tinha passado entretanto. Nos anos 2000, porém, o choque não seria tremendo. Praticamente nada de 2009 seria irreconhecível em 2000 – esta foi a década em que toda a história pop se reencontrou, se misturou e remisturou nas mesmas ou em novas combinações, em que todos os tempos coexistiram num imenso caleidoscópio de sons. Em retrospectiva, esta década será mais recordada pelas transformações tecnológicas que pela música ela mesma. Não porque a música seja negligenciável. Pelo contrário, com a democratização dos meios de produção (qualquer um pode gravar um disco

em casa e disponibilizá-lo a partir de casa), com as mil possibilidades criativas geradas pela facilidade de acesso a toda a história que a antecedeu (“o câmbio actual do conhecimento de álbuns obscuros está abruptamente tão desvalorizado quanto o dólar zimbabueano”, lia-se na última edição da Word), esta será uma das décadas mais ricas da pop – mas paradoxalmente, longe de ser das mais marcantes. Porquê? Porque o cenário está sobrepovoado e o consenso é inexistente (nunca se anunciaram tantos “álbuns do ano” ou “melhores discos da década” como hoje, nunca se desconfiou tanto dos “álbuns do ano” ou “melhores discos da década” anunciados). Porque o iPod e os MP3 tor-

naram a música omnipresente no quotidiano, mas não a tornaram mais importante: “O tempo voa quando estou a ouvir música. É assim: ‘hmm, o que é que estava a ouvir há dois segundos?’ Mas como que nos habituamos a isso”, descrevia um nova-iorquino de 18 anos em artigo publicado no site da NPR. E, finalmente, porque a net e as suas redes sociais, a intensa actividade divulgadora dos blogues e a capacidade de agregar gente em seu redor, geram pequenas comunidades de consensos, tornando profético algo que Momus escreveu no distante ano de 1991: “no futuro, todos serão famosos para 15 pessoas”. A noção de exclusividade, tão querida da ética indie num passado que

já não existe, passou dos álbuns obscuros, propriedade de uns poucos resistentes à tenebrosa dominação do “mainstream”, para aquele “I had everything before everyone else” que os LCD Soundsystem cantaram em “Losing My Edge”, a canção que melhor expressou a decisiva ruptura com o passado vivida nos anos 2000. Numa década iniciada com a aclamação geral a “Is This It?” dos Strokes e que teve como último álbum consensual, enquanto marca geracional, “Funeral”, dos Arcade Fire; numa década em que se assistiu à ascensão de M.I.A. como alguém que transportou para o centro da pop expressões musicais até então marginais e em que Timbaland e os Neptunes transfor-

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maram, perante todos, produções arrojadíssimas em matéria “mainstream”; neste década em que as grelhas de gosto se pulverizaram numa amálgama sem hierarquia (os Velvet Underground podem ser tão relevantes nd quanto bandas sonoras televisivas dos anos 1980), nesta década a que, de Amy Winehouse a Jay-Z, não faltaram pero sonagens, ninguém s, se destaca, ninaca, ode guém pode ser zado entronizado como seu máximo representannte. Poderr-

se-ia argumentar, por exemplo, que os Animal Collective, tendo em conta as marcas da sua música que reconhecemos hoje em tantas bandas, são o grupo mais influente deste tempo. Mas seria

igualmente válido afirmar que as bandas mais influentes da década não nasceram nela: não são os Cure e os Joy Division aquilo que ouvimos nesse saturante revival pós-punk/80s que, dos She Wants Re Revenge aos Editors, nos acompanha desde 2001? Ao contrário do que muitos espequ ravam, a net não trouxe verdadeira democra democratização comunitária, antes uma demoante cracia in individualista. Cada um define o seu p percur percurso na rede, recolh colhendo informação ção, saltando de me meta ligação em m meta ligação.

Ninguém quer líderes ou pregadores: John Lennons seria hoje em paternaria lista com a mania do actia vismo, Joe Strummer, mmer, muito genericamente, mente, um chato. Ainda asa sim, continuamos fass cinados com figuras uras dessa dimensão icónica. Durante os anos 2000, foram os Rolling Stones, não os Coldplay, a banda que mais lucrou em digres, são. Os Beatles,

com a edição da sua discografia remasterizada, escalaram os topes esc mundiais e voltaram a ser ouvidos em massa nas rádios e nos iPods. E Michael Jackson, com a sua morte precoce, foi chorado e reavaliado e reconquistou o tron de Rei da Pop. trono Todos eles nos fascinam por rep presentarem presentarem um passado e uma possibilida possibilidade pop que desaparece pareceu e que só reconhe nhecemos por conting gência etária. Estam mos num novo mundo e, para o bem e para o mal, n nada será como d dantes.

Álbuns da década
João Bonifácio a 1. cLOUDDEAD DEAD Ten; 2. Scott Walker The Drift; 3. Silmmo ver Jews Bright Flight; 4. Kimmo y Pohjonen Kalmuk; 5 Edan Beauty and T The Beat; 6. Radiohead Kid A; 7. The N pre National Boxer; 8. Camané Sempre de M Mim; 9. Zé Mário Branco Resistir É Venca er; 10. Danny Cohen We’re All Gunna Die; 11. El-P Fantastic Damage; 12. Wilco Yanke Hotelk nke Foxtr 13. Galandum Galundaina Modas I AnzoFoxtrot; 14. nas; 14 M.I.A. Kala; 15. Notwist Neon Golden; 16. Bill Callaha Sometimes I Wish We Were An Eagle; 17. Jan n Callahan Jelinek Kosmicher Pitch; 18. Murcof Remembranza; 19. K membranza; D’Angelo Voodoo; 20. Boards of Canada Geogaddi Vo gaddi
a a Luís Maio a 1. Antony and the Johnsons I am a Bird Now; 2. An Vampire Weekend Vampire Weekend; 3. M.I.A. Arular; 4. Buena ar; Cacha s; Vista presents Cachaito Lopez; 5. Sonantes Sonantes; 6. Tinarie wen Radio Trisdas Sessions; 7. The Avalanches Since I Left You; . 8. TV On The Radio Return To Cookie Mountain; 9. Ali Farka on; Toure & Toumani Diabate In The Heart Of The Moon; 10. LCD hart Soundsystem Sound Of Silver; 11. Devendra Banhart Rejoicg t e a ing in the Hands; 12. Benjamin Biolay. negative; 13. Youssou Egypt; 14. Grizzly Bear Veckatimest; 15. Salif Keita 5 N’Dour - E Mouffu; 1 Lila Downs La Cantina; 17. Herbert Bodily Functions; 16. 18. Spacek Curvatia; 19. Rokia Traouré Tchamatche; 20. OrchesSpac t Baob tra Baobab Specialist In All Styles tra a

OutKast, “Speakerboxxx The Love Below”

Mário Lopes a 1. LCD Soundsystem Sound Of Silver; 2. The Stroke Is This It?; 3. Animal Collective Feels; 4. White Stripes Strokes B White Blood Cells; 5. The Shins Oh Inverted World; 6- Fiery Furnaces Blueberry Boat; 7. Franz Ferdinand Franz Ferdinand; 8. Tinariwen Aman Iman; 9. OutKast Speakerboxxx The T Lo Below; 10. Beachwood Sparks Beachwood Sparks; 11. Love B Fachada B Fachada; 12. Cass McCombs; Dropping The Writ; 13; Joanna Newsom Ys; 14. Norberto Lobo Mudar de Bina; 15. The Streets Original Pirate Material; 16. Arcade Fire Funeral; 17. The Go Team! Thunder Lightning Strike!; 18. Devendra Banhart Rejoicing in the Hands; 19. Primal Scream XTRMNTR; 20. Kanye West Late Registration

M.I.A., “Arular”

a Pedro Rios a 1. Radiohead Kid A; 2. Animal Collective Feels; 3. Panda Pit Bear Person Pitch; 4. Outkast Speakerboxxx The Love Below; 5. Arcade Fire Funeral; 6. Queens of the Stoge Age Songs For The Deaf; 7. Six OrAdmitt gans Of Admittance School Of The Flower; 8. At The Drive-In Relationship of Comman 9. Black Dice Beaches and Canyons; 10. Radiohead Command; Amnesiac; 11. Fugazi The Argument; 12. The Streets Original Pirate MateFu Devend rial; 13. Devendra Banhart Rejoicing in the Hands; 14. Animal Collective Merriweath Post Pavillion; 15. M.I.A. Kala; 16. The Strokes Is This Merriweather It?; 17. Justin Timberlake FutureSex/LoveSounds; 18. LCD SoundsysT tem Sound Of Silver; 19. Burial Untrue; 20. Gang Gang Dance Saint Dymphna

Vítor Belanc Belanciano a 1. The Knife Silent Shout; 2. LCD Soundsystem LCD Soundsystem; 3. M.I.A. Arular; 4. Burial Untrue; 5. D’ Angelo VooSoundsy doo; 6. Arcade Fire Funeral; 7. Herbert Bodily Functions; 8. TV On Arcad The Radio R Return To Cookie Mountain; 9. OutKast Speakerboxxx The Love Below; 10. Dirty Projectors Bitte Orca; 11. Kanye West Late Reg1 istration; 12. Robert Wyatt Cuckooland; 13. Animal Collective MerPo ost riweather Post Pavillion; 14. Spacek Curvatia; 15. Panda Bear Person Pitch 16. Björk Vespertine; 17. The Strokes Pitch; h; This Is It; 18. Buraka Som Sistema From Buraka To 1 Weekk The World; 19. Vampire Weekend Vampire Weekend; 20. Ricardo Villalobos Alcachofa Ricar rdo
a

LCD Soundsystem, “Sound Of Silver”

Herbert, “Bodily Functions

The Strokes, “Is This It?”
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Animal Collective, “Feels” e “Merriweather Post Pavillion”

D’Angelo, “Voodoo”

ESTÚDIO

Nuno Ramalho & Renato Ferrão
Exposição de 11 de Novembro até 22 de Janeiro de 2010 Horário: de quarta-feira a sábado, das 15h às 20h
Visita guiada com os Artistas e com Bruno Marchand (autor do texto do catálogo) 11 de Dezembro, sexta-feira, às 18h30

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Edifício Soeiro Pereira Gomes (antigo Edifício da Bolsa Nova de Lisboa) Rua Soeiro Pereira Gomes, Lte 1- 6.º D 1600-196 Lisboa (Bairro do Rego / Bairro Santos) Tel. 217 803 003 / 4 www.fundacaocarmonaecosta.pt Autocarro: 31 Metro: Sete Rios / Praça de Espanha / / Cidade Universitária

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Com Clara Ferreira Alves, António Lobo Antunes e Júlio Pomar, entre outros.

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dos heróis, com leituras de Cármen Dolores e Ruy de Carvalho, actores que estrearam esta peça em 1965. 30º Aniversário da publicação de Corpo Delito na Sala dos Espelhos, com leituras de Lia Gama, Mário Jacques, Rui Mendes e António Montez.

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A colaboração entre o pianista João Paulo, figura fundamental da música portuguesa, e o trompetista texano Dennis González iniciou-se com a gravação do álbum em duo Space Grace, que agora apresentam. Um encontro sem destinos premeditados que resulta em música plena de espiritualidade, com raízes no pós-bop mas de dimensão universal.

Cinema Exposições Livros Música Teatro/Dança

Cinema anos zero
O cinema chegou a 2009, com “Avatar”, a anunciar uma “nova era”, final perfeito para uma década obcecada com a mudança. E nós, espectadores: o que é que vimos nos “anos zero”, o que foi isto? Outra boa pergunta: o que é um espectador de cinema? Que venha a década nova. “No surrender”, como na canção de Bruce Springsteen. Luís Miguel Oliveira
1. Uma década é uma unidade de
tempo tão arbitrária como outra qualquer, um utensílio fornecido pelo calendário para tentar impor uma “ordem” ou, como nas narrativas, um “princípio, meio e fim” àquilo que, na imparável dinâmica das coisas, não possui nada disso. Fazer “balanços”, impor um princípio de ordenação, encontrar uma “narrativa” que se distinga de outras, é um impulso humano antes de ser um impulso cultural (ou é um impulso cultural porque é um impulso humano). Não é mau, não é bom, é o que é. Um tipo de arbitrariedade para tentar domesticar a arbitrariedade “cósmica”. Se não esquecermos isto, pode-se esperar do exercício que seja minimamente proveitável. Arbitrário por arbitrário, faz tanto sentido falar do decénio 1997-2007 como de 2001-2010 (como, tecnicamente falando, devia ser). Mas por que não, e viva a força dos números redondos, os “poderes do 10” e o “mistério do zero”, falar de 20002009? Os segundos “anos 00” da história do cinema: o simbolismo é inescapável, para mais numa década em que nos foi sendo garantido que tudo – da política, ao jornalismo, ao cinema – estava a mudar ou já tinha mudado. No princípio da década o 11 de Setembro “mudou” o mundo, e no final da década foi a prometer “mudança” que um novo presidente foi eleito nos EUA. O cinema chegou a 2009, com “Avatar”, a anunciar uma “nova era”, um “cinema do futuro”, final perfeito para uma década obcecada com a mudança. E nós, espectadores (outra boa pergunta posta pela década: o que é um “espectador de cinema”?), o que é que vimos nos “anos zero”, o que foi isto? Vale a pena ensaiar uns passos por esse sinuoso caminho, na certeza de que ficaremos longe de o esgotar e, outra advertência prévia, que para uma visão mais clara e seguramente mais completa dos “anos zero” do século XXI o melhor é dar um salto a 2030. O tempo é severo mas é dele que vem a luz e, como sabem todos os que gostam de cinema, é o futuro que anuncia o passado e não o contrário. dor, o que vê filmes mas não paga. Faz “downloads”, duplica, copia, vê os filmes mas não paga – é um espectador de cinema que deixou de contar, economicamente, como “espectador de cinema”. Só existe como buraco (de milhões) nas contas de Hollywood. O filme de James Cameron, renovando a “experiência da sala” (para preservar, chamemos-lhe, a “experiência da caixa”) através das 3D, é a solução milagrosa para rechamar os tresmalhados e garantir a manutenção da indústria como a conhecemos ou é um estertor a prenunciar uma transformação ainda inimaginável? Pese o optimismo das máquinas de “marketing” (cuja função é promover o optimismo) e as certezas dos cretinos das caixas de comentários (cuja função é promover o “marketing”), “Avatar”, no que toca ao “cinema do futuro”, deixa mais perguntas do que respostas.

2. Houve uma coisa que sempre, ou
desde cedo, tinha sido sólida e ruiu durante os “anos zero”. A boa pergunta do parágrafo anterior: o que é um espectador de cinema? Em 2010, passar os olhos pelos “anos zero”, e particularmente pela indústria americana durante este período, não pode ignorar isto, tanto mais que alguns dos passos decisivos dessa indústria (“Avatar”, mais espectacularmente) foram uma resposta. Mesmo durante a grande crise provocada pela expansão da TV, nos anos 50 e 60, as coisas continuaram relativamente claras: sabia-se o que era um espectador de cinema e o que era um espectador de televisão. Qualquer deles pagava, de uma maneira ou de outra, para ver filmes, para ver televisão, para ver filmes na televisão – desde a primeira sessão dos Lumière que o “espectador de cinema” era aquele que pagava para ver um filme. Os “anos zero” trouxeram um novo tipo de especta-

3. O espectador de cinema dissolveuse como entidade económica estável porque a tecnologia chegou a um pon-

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f

“Avatar”, renovando a “experiência da sala” através das 3D, é a solução milagrosa para re-chamar os tresmalhados e garantir a manutenção da indústria ou é um estertor a prenunciar uma transformação ainda inimaginável?

to culminante das possibilidades da sua própria vulgarização. Qualquer pessoa com um computador e umas noções rudimentares de circulação pela Internet tem os filmes que quer (e de resto nem precisa da Internet). A tecnologia digital, “maravilha” durante as últimas décadas, revelou nos anos 2000 a sua faceta “monstruosa”. A “luz e a magia” deixaram de ser “industriais”, como na empresa criada por George Lucas, e passaram a ser “domésticas”. Não é a mesma coisa? Talvez não, mas não é seguro que não se trate apenas de um capítulo da mesma história. Só que antes discutiase o digital na origem, na raiz, na essência da imagem que era captada ou era interposta na imagem captada: o vídeo e a película, o “efeito especial”. Os “anos zero” impuseram a discussão do digital no momento da chegada e da recepção, em termos (e numa escala) em que nunca tinha sido posta. Do digital como modo de fabrico ao digital como modo de consumo. Do digital como facto tecnológico ao digital como facto cultural. É um círculo demasiado perfeito para que se possa dizer que não se trata da mesma história. Fenómenos como o YouTube encarregaram-se de garantir o fecho do círculo. Que tem o YouTube a ver com o cinema? Quase nada, ou quase tudo, com menos contradição do que parece. Há muitos anos que o cinema não estava “só” (para usar a expressão de Godard nas “Histoire(s) du Cinéma”), mas nunca esteve tão acompanhado como nos anos 2000, tão arrastado para dentro duma “cultura da imagem”, enorme “bulldozer” de indiferença, com que ele só marginal-

mente alguma vez teve a ver. Como, numa estranha premonição de todo este excesso de imagens dos “anos zero” (e num estranho luto?), a “Branca de Neve” de João César Monteiro (ah, o escândalo), pareceu querer assinalar, logo em 2000.

lícula foram de John Carpenter, “Cigarette Burns”, ainda mais paradoxal visto que, episódio de uma série de TV, dele não foram tiradas quaisquer cópias em película; e claro, o “À Prova de Morte” de Tarantino, furioso e reaccionário manifesto em favor do arcaísmo e do analógico).

4. Curiosamente (ou previsivelmente)
o cinema dos “anos zero” trabalhou a integração do digital, em todos os seus estados, na sua própria tradição. Enrijecido por cem anos de periódicas ameaças de “morte”, o cinema quis mostrar que a morte da película (apesar de tudo, também ela mais resistente do que se previa nos anos 90) pode ser uma “libertação”, assim como uma cobra se livra da pele velha e a troca por uma nova. Vimos grandes mestres, mestres vindos de outro tempo, como Ingmar Bergman e a sua “Sarabanda”, atirarem-nos uma última espreitadela, dominando o vídeo digital como se a questão dos suportes não passasse de um detalhe, e em última análise provando que não passa de um detalhe. Logo a abrir, em 2000, Pedro Costa estreou “No Quarto da Vanda”, um dos mais influentes filmes da década (despertou vocações, gerou inspirações e imitações), apontando um caminho, estético e metodológico (que o próprio Costa ainda não parou de explorar, vide “Ne Change Rien”), para o casamento entre o cinema (como tradição) e o digital (como suporte tecnológico). O mesmo Costa que, de resto, nos deu (em vídeo digital) um dos últimos três grandes filmes sobre a película cinematográfica, “Onde Jaz o Teu Sorriso”, com os Straub. (Os outros grandes filmes sobre a pe-

5. A questão película/digital também
é um problema económico, pelo que só surpreende a quem tenha passado estes anos com os olhos postos em Hollywood e na “conversão da indústria” que essa conversão tenha arrancado, de facto, das margens, estéticas e geográficas, onde o dinheiro é escasso e os orçamentos se fazem a uma escala diferente. No Irão, Abbas Kiarostami não estreou, durante os anos 2000, nada feito em película, antes se obstinando, em filmes como “Ten” e, sobretudo, “Five Dedicated to Ozu” (o título, neste contexto, já é “todo um programa”), em explorar o vídeo digital como meio de ultrapassar a “vocação narrativa” do cinema (e conduzi-la, de facto, para um terreno próximo da “vídeo arte”). Na Rússia, Aleksandr Sokurov serviu-se das possibilidades de “armazenamento” das câmaras de vídeo digital para concretizar, livre do constrangimento causado pelos 12 minutos das bobinas de 35mm, o sonho de Hitchcock em “A Corda”: um plano-sequência de hora e meia pelos corredores do Hermitage, sem os truques que Hitchcock teve que empregar. Foi “A Arca Russa”, “tour de force” entre os mais ousados e “vanguardistas” da década, por acaso ou não (na sua relação com a história russa) mais um

exemplo em que o “moderno” foi posto ao serviço de uma reflexão sobre a “tradição”. O filme de Sokurov também põe em evidência a questão da invenção de um “peso” para estas novas câmaras digitais: a sua resposta em “Arca Russa” (mobilidade, flutuação, suspensão da gravidade) aproxima-o de Michael Mann (quem, na América “mainstream”, mais aprofundou o trabalho sobre o vídeo digital, em filmes como “Miami Vice” e “Inimigos Públicos”), tanto quanto o afasta (a ele e a Mann) da resposta de Pedro Costa, que submete a sua câmara a uma gravidade descomunal, impondo-lhe um “peso” que ela de facto não tem (o que, para além de ter origem no facto de Costa ser um cineasta do plano e do enquadramento, configura uma espécie de ética, e de resistência ao próprio digital). O que aproxima Mann e Costa, evidentemente, é a crença na luz como coisa a redescobrir: que ninguém diga que já tinha visto a luz da “Vanda” ou a luz de “Miami Vice”. Mencionar, ainda, já que se falou de “resistência”, o espantoso trabalho sobre as possibilidades plásticas do digital, conduzidas em direcção ao minimalismo, do espanhol Albert Serra em “O Canto dos Pássaros”, o filme mais “2D” desde há muito. Em “double bill” com “Avatar” mostraria bem como um filme pode ser “chato” sem ser “achatado”, e “achatado” sem ser “chato”.

6. Ainda a propósito da questão económica, importaria referir que o eterno “parente pobre” dos géneros cinematográficos, o documentário, sobreviveu aos 2000 em grande parte

E

Em 2000 Pedro Costa estreou “No Quarto da Vanda”, um dos mais influentes filmes da década (despertou vocações, gerou inspirações), apontando um caminho para o casamento entre o cinema (como tradição) e o digital (como suporte tecnológico)

f Quem, na América “mainstream”, mais aprofundou o trabalho sobre o vídeo digital, em filmes como “Miami Vice” e “Inimigos Públicos”, foi Michael Mann

h O “À Prova de Morte” de Tarantino, foi um furioso e reaccionário manifesto em favor do arcaísmo e do analógico

As propriedades “domésticas” dos aparatos digitais propiciaram uma nova voga do registo diarístico, pessoa, de que os exemplos mais conhecidos serão os filmes de Agnès Varda: “Os Respigadores e a Respigadora”, a abrir a década, e “As Praias de Agnès”, a fechar
g

No caos de um mundo encharcado de imagens: “Afterschool”, de Antonio Campos, “Caché” de Michael Haneke. Mas houve quem continuasse como se nada fosse: Rohmer, James Gray, Wes Anderson, Oliveira, Rivette, Godard, Kaurismaki
g

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“Disponível para Amar”, Wong Kar-wai

“Cartas de Iwo Jima”, Clint Eastwood

“Ne Touchez pas la Hache”, Jacques Rivette

“O Elogio do Amor”, Jean-Luc Godard

Filmes de uma década
a Jorge Mourinha a 1. Lost in Translation Sofia Coppola, 2003; 2. Moulin Rouge Baz Luhrmann, 2001; 3. O Novo Mundo Terrence Malick, 2005; 4. Kill Bill Quentin Tarantino, 2003/2004; 5. Disponível para Amar Wong Kar-Wai, 2000; 6. Fala com Ela Pedro Almodóvar, 2002; 7. WALL-E Andrew Stanton, 2008; 8. A Última Hora Spike Lee, 2002; 9. O Despertar da Mente Michel Gondry, 2004; 10. O Grande Peixe Tim Burton, 2003; 11. Monstros e Cª Pete Docter, 2001; 12. Sarabanda Ingmar Bergman, 2003; 13. O Tempo que Resta François Ozon, 2005; 14. O Estádio de Wimbledon Mathieu Amalric, 2001; 15. Milk Gus van Sant, 2008; 16. Miami Vice Michael Mann, 2006; 17. Elogio do Amor Jean-Luc Godard, 2001; 18. Ocean’s Eleven - Façam as Vossas Apostas Steven Soderbergh, 2001; 19. O Tigre e o Dragão Ang Lee, 2000; 20. Cartas de Iwo Jima Clint Eastwood, 2006

Mário Jorge Torres (por ordem cronológica) a 1. A Casa da Felicidade Terence Davies (2000); 2. Disponível para Amar Wong Kar-wai (2000); 3. Mulholland Drive, David Lynch (2001); 4. Moulin Rouge, Baz Luhrman (2001); 5. A. I. - Inteligência Artificial Steven Spielberg (2001); 6. Gosford Park, Robert Altman (2001); 7. Longe do Paraíso, Todd Haynes (2002); 8. Vai e Vem João César Monteiro (2002); 9. Lost in Translation Sofia Coppola (2003); 10. A Má Educação, Pedro Almodóvar (2004); 11. Charlie e a Fábrica de Chocolate Tim Burton (2005); 12. Odete João Pedro Rodrigues (2005); 13. O Segredo de Brokeback Mountain, Ang Lee (2005); 14. Cigarrette Burns John Carpenter (2005)*; 15. Cartas de Iwo Jima, Clint Eastwood (2006); 16. Os Amores de Astrea e de Celadon Éric Rohmer (2006); 17. I Don’t Want to Sleep Alone Tsai ming liang (2006)**; 18. Ne Touchez pas la Hache Jacques Rivette (2007)**; 19. Milk Gus Van Sant (2008); 20. Ne Change Rien Pedro Costa (2009)
a

Luís Miguel Oliveira (por ordem alfabética dos nomes dos realizadores) a 1. The Life Aquatic with Steve Zissou Wes Anderson, 2004; 2. Sarabanda Ingmar Bergman, 2003; 3. No Quarto da Vanda Pedro Costa, 2000; 4. Uma História de Violência David Cronenberg, 2005; 5. Homecoming Joe Dante + John Carpenter’s Cigarette Burns, John Carpenter, 2005 *; 6. Gran Torino Clint Eastwood, 2009; 7. Elogio do Amor, 2001 + Dans Le Noir du Temps (Episódio de Ten Minutes Older, 2002) Jean-Luc Godard; 8. Nós Controlamos a Noite, James Gray, 2008; 9. Le Monde Vivant Eugène Green, 2003*; 10. En Construccion Jose Luis Guerin, 2001 *; 11. Plataforma Jia Zhang-Ke, 2000; 12. Five Dedicated to Ozu Abbas Kiarostami, 2003*; 13. O Homem Sem Passado Aki Kaurismaki, 2002; 14. Miami Vice Michael Mann, 2006; 15. Ne Touchez Pas La Hache Jacques Rivette, 2007**; 16. A Inglesa e o Duque Eric Rohmer, 2001; 17. Arca Russa Aleksandr Sokurov, 2002**; 18. Vai e Vem, João César Monteiro; 19. Une Visite au Louvre Straub/Huillet, 2004*; 20. À Prova de Morte Quentin Tarantino, 2007
a

Vasco Câmara (por ordem cronológica) a 1. Plataforma Jia Zhang-ke (2000); 2. Disponível para Amar Wong Kar-wai (2000); 3. Mulholland Drive David Lynch (2001); 4. En Construccion, Jose Luis Guerin (2001) *; 5. R Xmas, Abel Ferrara (2001); 6. Gerry Gus Van Sant (2002); 7. Irreversível Gaspar Noe (2002); 8. Kill Bill I e II Quentin Tarantino (2003); 9. Tie Xi Qu: West of the Tracks Wang Bing (2003) *; 10. The Brown Bunny Vincent Gallo (2003); 11. I Don’t Want to Sleep Alone Tsai Ming-liang (2006) **; 12. Juventude em Marcha Pedro Costa (2006); 13. Cartas de Iwo Jima Clint Eastwood (2006); 14. Ne Touchez pas la Hache Jacques Rivette (2007)**; 15. A Mulher sem Cabeça Lucrecia Martel (2008); 16. Quatro Noites com Ana, Jerzy Skolimowski (2008); 17. Shirin Abbas Kiarostami (2008)*; 18. Afterschool Antonio Campos (2008); 19. Go Get Some Rosemary Ben e Joshua Safdie (2009) *; 20. Lola Brillante Mendoza (2009)*
a

*Inédito comercialmente em Portugal; ** Inédito comercialmente em Portugal, editado em DVD

“I Don’t Want to Sleep Alone” Tsai Ming-liang

“Sarabanda”, Ingmar Bergman

“Mulholland Drive”, David Lynch

“Lost in Translation”, Sofia Coppola

“Plataforma”, Jia Zhang-ke graças ao digital. Para o bem ou para o mal, ou melhor dizendo, para o bem e para o mal (não se pode quea rer ter só uma coisa). As propriedades “domésticas” dos aparamésticas” tos digitais (novo sentido para a s “câmara-stylo” de Astruc) protylo” piciaram até uma nova voga do arístico, registo diarístico, pessoal e quotidiano, de que os exemplos mais e conhecidos serão os filmes de Agos nès Varda (“Os Respigadores e a a Respigadora”, a abrir a década, e ora”, “As Praias de Agnès”, a fechar). Esta ameaça difusa que vem da sensação de o 11 de Setembro ter sido dissecado “clandestinamente”, com imagens de telemóveis, de câmaras de segurança, e etc. Para uma geração inteira (para mais do que geração), corresu m a pondeu à noção de uma perda da inocência. Uma câmara de telemóvel não pode ser um brinquedo se serve para registar o mais traumático assassínio em massa de tempos recentes. O vídeo – o vídeo caseiro, vulgar de Lineu – como instrumento dúbio, invasor e invasivo ao mesmo tempo, como aparelho capaz de construir, por “roubo”, uma verdade para a além das verdade s ofidades o ciais. U Uma menção para p todos os filmes que foram atrás atr deste “zeit“ze gest” tão “anos 2000”. 200 . O “Caché” de “Caché e Haneke e o seu eu par perfeito, o perfe , “Aftersch ” “Afterschool” de Antonio C pos. O Campos. “Redacted “Redacted” de Brian de Palma, sobre a guerbre ra do Iraq Iraque, e a sua vermelho a, são melhorada, mais abstracta e mais paródica (mas muito ródica menos vista e muito discutida, “são zombies, senhor”), o “Diário dos Morhor”), tos”, dessa velha “térmita” do cinema americano que é George Romero. amargura am em coisa e b bela de se ver. Kaurismaki, sozinho e maltratado que nem um c cão vadio, a autor dos d dois filmes ma comomais ven ventes da década (“Um Homem s sem Passado” e “ “Luzes no Crepúscul Crepúsculo”). A majestade mag magoada de Outr Eastwood. Outros, muitos outros. Aquilo a q dantes que se chamava os “autore “autores”. Estão quase varridos das salas de cinema d portuguesas. São zombies, senhor, e encontram-se numa das cinquenta salas dedicadas ao Harry Potter.

7. O caos de um mundo encharcado
em imagens. O YouTube. O 11 de Sens. m tembro (em rigor, e num sentido que levaria demasiado tempo a explicar, masiado a televisão desse dia devia entrar numa lista do mais “relevante” da década), cujas imagens assombraram o resto da década, inclusive no YouTube, e muito para além da América (o mais genial contracampo do 11 de Setembro é o plano final do “Filme Falado” de Oliveira, e pouco que importa que o filme seja o seu mais fraco).

8. E todos, velhos e novos, solitários
quase sempre, obstinados por obrigação, que inauguraram ou continuaram as suas obras como se nada fos-

se. O velho Rohmer, que na “Inglesa e o Duque” des-diabolizou e domesticou o “efeito especial” (digital...), transformando-o em cartão pintado. James Gray e Wes Anderson.. Oliveira. Rivette. Godard, a transformar a

9. Que venha a década nova. “No surrender”, como na canção de Bruce Springsteen.

14 • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • Ípsilon

sŽrie ’psilon II

Filmes premiados para os amantes da sŽtima arte.

Melhor Argumento Original

îscares 2008

Festival de Cannes 2007
Vencedor C‰mara de Ouro

Globo de Ouro 2003
Melhor Actor ( Jack Nicholson)

Globos de Ouro 2008
Melhor Filme Estrangeiro Melhor Realiza‹o

Cannes Film Festival 1958
Palma de Ouro PrŽmio Especial do Jœri Academy Awards

15 de Janeiro

Juno

22 de Janeiro

de Jason Reitman

Control

29 de Janeiro

de Anton Corbijn

As confiss›es de Schmidt

5 de Fevereiro

de Alexander Payne

O Escafandro e a Borboleta

12 de Fevereiro

O Meu Tio

de Jacques Tati

de Julian Schnabel

Melhor Guarda Roupa

PrŽmios CŽsar 1990

Bergen International Film Festival
PrŽmio do juri 2004

Melhor direc‹o de arte, Melhor fotografia e Melhor figurino

îscares 1981

Festival de Roterd‹o 2005
Melhor Filme

Nomeado para Melhor Argumento Original

PrŽmio Coup de Coeur 2007 PrŽmios CŽsar

19 de Fevereiro

Valmont

26 de Fevereiro
de Gregg Araki

de Milos Forman

Mysterious Skin

5 de Maro

Tess

12 de Maro

de Roman Polanski

O CŽu Gira

19 de Maro

de Mercedes Alvarez

2 dias em Paris
de Julie Delpy

In’cio da Colec‹o: 15/01/2010 á Fim da Colec‹o: 28/05/2010 á Preo total da colec‹o: Û39 á Promo‹o limitada ao stock existente

Golden Orange Awards 2006
Melhor Realizador

îscares 1999 Melhor Document‡rio

PrŽmios CŽsar 2004
Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento

British Independent Film Awards 2002
Melhor Produ‹o

Cannes Film Festival, 1991
PrŽmio do Jœri

26 de Maro

Climas

2 de Abril

de Nuri Bilge Ceylan

Os òltimos Dias
de James Moll

9 de Abril

A Esquiva

16 de Abril

de Abdellatif Kechiche

24 Hour Party People

23 de Abril

Europa

de Lars Von Trier

de Michael Winterbottom

Festival de Veneza 2004
PrŽmio UNESCO

Cannes Film Festival 2002
PrŽmio do Jœri

Festival de Sundance 2003
PrŽmio do Pœblico, Melhor Argumento, Melhor interpreta‹o

Cannes Film Festival 2005
Vencedor da Palma de Ouro

Festival de Veneza 2003
Selec‹o Oficial Le‹o de Ouro

30 de Abril

Terra da Abund‰ncia
de Wim Wenders

7 de Maio

Interven‹o Divina
de Elia Suleiman

14 de Maio

A esta‹o

21 de Maio

de Thomas McCarthy

A Criana

28 de Maio

de Jean Pierre Dardenne e Luc Dardenne

As irm‹s de Maria Madalena
de Peter Mullan

Cinema Exposições Livros Música Teatro/Dança
RUI GAUDÊNCIO

“Le Temps, Vite”, a exposição que o Pompidou inaugurou na vertigem da entrada no novo milénio, foi um prognóstico do estado da arte nos anos 00

Com a Internet alcançámos uma forma de estar e pensar tão antiga quanto os Veda hindus: uma realidade sincrónica, viral, não-linear. A contemporaneidade absoluta é agora. Vanessa Rato

Os anos da sincr
Chamava-se “Le Temps, Vite”, ou seja “O Tempo, Rápido”, e inaugurou no Centro Pompidou, em Paris, no ano 2000, em plena vertigem da entrada no novo milénio. Na entrevista que deu para o catálogo, Umberto Eco usava a expressão: contemporaneidade absoluta. “Todas as sociedades, como todos os indivíduos, vivem sobre a memória. Sem memória não há duração, não há alma”, dizia. Explicando: “Todas as épocas tentaram captar toda a memória possível por todos os meios possíveis, como se a memória dos anciãos não fosse suficiente.” O desenho, a escrita e os livros; o teatro e a dança; a arquitectura e a estatuária; a pintura, a fotografia e o cinema; os museus e as bibliotecas... “Hoje, o que é que acontece? O arquivo, tanto quanto a memória que contém, tornou-se enorme. A Internet encerra a memória de todo o universo. Donde o problema da escolha, da filtragem. É preciso aprender a amestrar esta memória para que ela não nos subjugue.” A Internet, pois, esse não-tempo contínuo, espécie de super-consciência extática, onde o Big Bang está constantemente a criar o universo, hoje. Onde as Torres Gémeas e os Budas de Bamyian caem e voltam a erguer-se todos os dias. Onde os bailarinos de Pina Bausch hão-de dançar uma e outra vez “A Sagração da Primavera” ao som de “Thriller”, de Michael Jackson, porque estranhamente resulta, como se sempre tivesse sido assim. Onde Leonardo da Vinci e Picasso são contemporâneos de Warhol, Bansky, Jagdish Swaminathan, Subodh Gupta e todos os artistas conhecidos e desconhecidos de antes, agora e por vir. Onde arte é arte, mas também tatuagem e pornografia, ao mesmo nível. Onde, vistos de cima, Telheiras e Brooklyn são e não são a mesma coisa. Onde o jardim babilónico que falta plantar no Dubai é fabuloso no mesmo momento em que o atentado de agora em Carachi é um horror a cair-nos em cima com todo o pó, os mortos e o sangue (e, afinal, onde é que fica Carachi?, perguntamos ao tipo que, ao mesmo tempo, temos na outra ponta de um chat Lisboa-Bombaim, um tipo que não conhecemos mas que, em segundos – quando esquecermos Carachi – , nos vai fazer chegar o filme que está a montar e estreia daqui a um mês em Los Angeles). “Convém não esquecer que a contemporaneidade é, por vezes, uma ilusão. Assim, no momento em que dispomos da contemporaneidade absoluta, podemos também ser marionetas da ilusão da contemporaneidade”, dizia Eco.

Modernidade, pós-moderni dade, altermodernidade
Foi há dez anos. Entretanto, ao que tudo indica, a maior parte de nós habituou-se a fazer da ilusão, do caos e de todos os nivelamentos, por baixo ou por cima, uma experiência positiva, e isso foi suficiente para o nascimento de um novo universo global, de uma nova forma de estar e pensar tão antiga quanto a filosofia holística dos Veda hindus: uma forma de estar e pensar sincrónica, em vez de diacrónica, viral, não-linear – um universo de contemporaneidade absoluta, de facto. Tão absoluta que se tornou categoria, em si. “Nos primeiros anos do século XXI a arte flutuou livre de qualquer ligação à História e à teoria. Tornou-se, de certa forma, numa categoria artística em si. Um campo independente”, dizia-nos há semanas o crítico e his-

toriador norte-americano Hal Foster. Continuando: “Apesar de haver uma longa história de vanguardas modernas e de a vanguarda se ter definido sempre através da ruptura com o passado, na verdade, sempre ficou ligada ao passado. Já a arte contemporânea, especialmente porque é uma arte global, perfila-se como uma vasta presença que vemos mais como um grande campo horizontal.” E depois a pergunta recorrente: “Terá a tensão entre o presente e o passado sido esticada ao ponto de ruptura?” E a resposta: “Acho que sim.” “Ao longo dos últimos 20 anos, a arte tornou-se internacional e depois global. Hoje há todo o tipo de tradições e histórias da arte a considerar. Não há uma, duas ou três linhas que possamos traçar ao longo do tempo e que funcionem e possam conferir um sentido narrativo ao presente. De uma forma ou outra [até há algum

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h Ainda que o Brasil e a Índia se tenham juntado à discussão, a modernidade foi um conceito ocidental. Hoje o labirinto é muito mais complexo e as cidades já não chegam: é preciso um nómada global, um errante cultural à procura do inverso do enraizamento absoluto, encenando as suas raízes em contextos heterogéneos
RAJESH KUMAR SINGH/AP

Depois mil discussões sobre se seríamos, finalmente, pós-modernos, podíamos pôr esse ponto de interrogação na gaveta, tornado caduco por um singular evento: a actual crise económica mundial. Nem modernos nem pós-modernos. Submersa em nova crise, a humanidade teria visto nascer a primeira era cultural do mundo globalizado
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JEAN-PIERRE MULLER/AFP

f Entretanto, um conceito relegado há 40 anos para os circuitos académicos mais obscuros voltava ao centro das discussões estéticas mais actuais (talvez como reacção a todos os nivelamentos): a obra-prima. Ultrapassado o espectro do modernismo, voltámos a poder ligar-nos “à grande tradição da obra-prima”, dizia-nos há seis anos o crítico e ensaísta norte-americano Arthur C. Danto

cronia absoluta
tempo] éramos todos ‘hegelianos’. Até o pós-modernismo se definia em relação ao modernismo, até as neovanguardas se definiam em relação às vanguardas históricas. Os artistas pensavam no seu trabalho em relação aos precedentes. Os novos artistas já não trabalham assim. Tudo parece estar a ser empurrado para um arquivo histórico que nem sequer parece ser já muito consultado. De certa forma, o período pré-guerra parece o século XIX de hoje e o século XIX parece a Renascença.” Posto de outra forma: será que a modernidade se transformou na nossa antiguidade? Foi uma das perguntas lançadas pela mais recente edição da mítica Documenta de Kassel. Há dois anos, sob o tema geral “Migração da forma”, Roger M. Buergel, director artístico da mais importante mostra de arte contemporânea do mundo, propunha, também ele, com esta pergunta, uma reflexão sobre a possibilidade da passagem de presente a passado de uma era que podemos defender como sendo ainda a nossa. Propunha mais: a transformação da Modernidade num equivalente da Antiguidade clássica, ali onde se articulou o conceito do que o Ocidente entenderia como arte. A Modernidade como ciclo (re)fundador que se abriu e fechou no tempo, matéria passível já de revisitação arqueológica? Buergel explicou num breve texto o que o levou à questão: “A modernidade, ou o seu destino, exercem uma influência profunda nos artistas contemporâneos. Parte da atracção pode derivar de ninguém saber realmente se está viva ou morta. Parece estar em ruínas depois das catástrofes totalitaristas do século XX (exactamente as mesmas catástrofes que de alguma forma instigou). Parece totalmente comprometida pela aplicação brutalmente parcial das suas demandas universais (liberdade, igualdade, fraternidade) ou pelo simples facto de a modernidade e o colonialismo terem andado, e provavelmente ainda andarem, de mãos dadas. Ainda assim, a imaginação das pessoas está cheia das visões e formas da modernidade. Resumindo, parece que estamos tanto dentro como fora da modernidade, tão repelidos pela sua violência mortal como seduzidos pelas suas mais imodestas aspirações ou potenciais: que possa, apesar de tudo, haver um horizonte planetário para todos os vivos e os mortos.” Foi um salto até, já este ano, nos ser proposto o passo seguinte: a abertura de uma nova era cultural, uma outra modernidade – uma Altermodernidade. Na IV edição da trienal da Tate, Nicolas Bourriaud, co-fundador do Palais de Tokyo, de Paris, lançava o debate ao dizer que, depois de várias vidas a interrogar gigantes – Heidegger, Wittgenstein, Benjamin, Baudelaire, Bataille, Lyotard, Foucault, Baudrillard, Derrida, Lipovetsky... – e depois de mil discussões sobre se seríamos, finalmente, pós-modernos, podíamos pôr esse ponto de interrogação na gaveta, tornado caduco por um singular evento: a actual crise económica mundial. Nem modernos nem pós-modernos. Submersa em nova crise, no final da primeira década do século XXI a humanidade teria visto nascer a primeira era cultural do mundo globalizado. Nem uma visão linear da História, como a do modernismo, nem uma imagem desta a avançar em espirais de eternos retornos, como defendido pelo pós-modernismo; agora, uma visão da História constituída por múltiplas temporalidades simultâneas em que a vida e a arte surgem como experiências positivas de desorientação, traçando linhas em todas as direcções de tempo e de espaço e, assim, explorando todas as dimensões do presente. Por outras palavras: uma era em que se age e cria a partir de uma visão de caos articulado. “Ainda que, à época, países como o Brasil e a Índia se tenham juntado à discussão, a modernidade foi um conceito ocidental. Hoje vivemos num labirinto mais complexo e temos que extrair dele significados específicos para o século XXI. A modernidade de hoje não é nem pode ser totalizadora nem continental”, dissenos a dada altura Bourriaud, enumerando os “depois” em que temos estado mergulhados nos últimos 35 anos: pós-modernismo, pós-feminismo, pós-colonialismo, pós-político, pós-histórico... “Acabamos com a

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TIMOTHY A. CLARY/AFP

e A Internet é o não-tempo contínuo onde as Torres Gémeas e os Budas de Bamyian caem e voltam a erguer-se todos os dias, onde os bailarinos de Pina Bausch hão-de dançar uma e outra vez “A Sagração da Primavera” ao som do “Thriller”, onde da Vinci e Picasso são contemporâneos de Warhol, Bansky, Subodh Gupta e todos os artistas conhecidos e desconhecidos de antes, agora e por vir

MASSOUD HOSSAINI /AFP

sensação de estar em eterna nostalgia do passado, o que redunda numa preguiça de pensar. Pareceu-me produtivo tentar decretar o fim desse conforto, tentar periodizar de outra forma.”

A civilização-arquipélago
Já não se trata do “flâneur” oitocentista, aquele que se deixa perder na observação da vida das cidades. Hoje as cidades não chegam. É preciso um nómada global, ou, em rigor, um errante cultural à procura do inverso do enraizamento absoluto, com as suas raízes sempre em movimento, encenando-as em contextos heterogéneos, negando-lhes qualquer valor como origem, traduzindo ideias, transcodificando imagens, transplantando comportamentos, trocando, mais do que impondo. Uma nova “flânerie” como técnica de geração de criatividade e conheci-

mento. Uma técnica ligada à viaécnica gem clássica, sim, mas também m, (ou, sobretudo) a esse outro ) tipo de viagem da era da m hipermobilidade da Inde ternet, em que nascemos a conceber forer mas de entender o der que é o espaço do humano para lá das formas clásssicas no Ocim dente, e em que o hipertexto se generalizou como processo de estruturaç ão de pensamento, uma janela a abrir directamente para ouutras, infinitas, s, todas ligadas.

“E se a cultura do século XXI fosse inv inventada a partir daqueles trabalhos qu que se lançam a si mesmos o desafio de apagar as suas origens e falar de mu multiplicidades de enraizamentos suces cessivos ou simultâneos? Este processo de rasura”, diz Bourriaud, “é parte da condição do errante, uma figura ce central da nossa precária era e que ap aparece insistentemente no coração d da criação artística contemporân nea”. “O pós-modernismo saiu da depressão da Guerra Fria rumo a uma preocupação neurótica com as origens típicas da era da globalização. É este modelo de pensamento que hoje está em crise, esta versão multicultural da diversidade cultural que tem que ser questionada, não a favor de um ‘universalismo’ de p princípios nem de um novo esperanto modernista, mas no enquadramento de um novo movimento moderno

O edifício de Siza Vieira, a programação e o modelo odelo de parceria com o Estado fazem de Serralves um exemplo ainda único em Portugal

A programação de Miguel Wandschneider programaç na Culturgest permitiu ao público descobrir obras como a de Angela de La Cruz

A exposição de Bacon comissariada por Vincente Todolí trouxe a Portugal um dos mais relevantes artistas do século XX

A década de Serralves
Serralves, o acontecimento da década Há um antes e um depois da inauguração do Museu de Arte Contem- porânea de Serralves. A abertura do edifício projectado por Siza Vieira, a programação desenhada por Vicente Todolí, João Fernandes e Ulrich Loock, a colecção e a parceria entre o Estado e os privados, fazem da instituição um exemplo ainda único em Portugal. É o acontecimento da década. Óscar Faria CCB: a melhor opção? Depois de várias indecisões, divergências e demissões, a deriva do Centro Cultural de Belém parou. O Estado entregou o seu Centro de Exposições ao Museu Berardo de Arte Moderna e Contemporânea e o CCB ficou “refém” de uma colecção. Hoje ainda há quem se questione: foi a melhor opção? José Marmeleira Portugueses em trânsito Com as bolsas e as residências, a circulação dos artistas portugueses no estrangeiro tornou-se um facto. Concorrem e vão, naturalmente. Uns voltam, outros permanecem em trânsito e há quem vá ficando, depois de fazer do exterior o lugar central da sua actividade. Como Leonor Antunes, Bruno Pacheco, Carlos Roque ou Jorge Queiroz. J.M. Culturgest e Project Room, trabalho de prospecção O ciclo Project Room no CCB (2000-2002), comissariado por Jürgen (200 ürgen g Bock, e a Culturgest com a programação de Miguel Culturg uel el cal l Wandschneider trouxeram à realidade local nexposições mem memoráveis, afirmando uma sinoutro ho o tonia com outros contextos e um raro trabalho er de “prospecção” O público, esse, pôde conhecer “prospecção”. as obras de artis an artistas como Renné Green ou Allan Sekula, Angela d La Cruz ou Atlas Group. J.M. de Porto “do-it-your “do-it-yourself” Perante a ausência de espaspae ços no Po Porto, os artistas mobilizaram-se e cria s, criaram os seus próprios espaços, alt alternativos aos contextos institu tucional e galerístico da cidade, on onde durante uma década foi po possível fazer, organizar e expe a perimentar. Eis uma da história lo da arte portuguesa criada pelo so o-itsolidário e prático espírito “do-ity yourself”. J.M. U Um corpus para a arte em Kassel De cinel c co em cinco anos, em Kassel, Alemanha, tem lugar a Documenta, exposição que procura definir um corpus para a arte produzida nas últimas décadas. A revisão organizada, em 2002, sob o comissariado do nigeriano Okwui Enwezor foi a primeira com carácter global, acentuando a dimensão política da edição anterior, com curadoria da francesa Catherine David. O.F. Escultura no espaço público, modo de usar A ideia tem início em 1977. De dez em dez anos, durante cem dias, decorre a iniciativa “Escultura. Projectos em Münster”. A última edição, 2007, comissariada por Brigitte Franzen, Kasper König e Carina Plath, sublinhou a necessidade de um debate alargado sobre questões relacionadas com a escultura no espaço público. O.F. Uma história da arte realmente contemporânea Há muito que se esperava uma história que tivesse em conta os desenvolvimentos artísticos do século XX sob um ponto de vista teórico esclarecido. Em 2004, quatro dos mais singulares historiadores da arte actuais – Hal Foster, Rosalind Krauss, Yve-Alain Bois e Benjamin Buchloh – publicaram “Art Since 1900”. Uma obra polémica, ainda à espera de resposta. O.F. Cinema vs. arte contemporânea O fenómeno de fluxos e interpenetraç ções entre o cinema e as artes plásticas não é novo; e ste praticaa o; existe p at ca ções e t e c e a m mente desde o nascime mento. , mente nascimento da imagem em movimento. Mas, a ao longo da última dé década, assistimos a uma quase inv versão m versão de papéis, com os cineastas a tomarem os mus seus a em seus de assalto e os artistas plásticos a usarem cada p . vez mais estratégias próximas do cinema. V.R. Jorge Queiroz, Carlos Roque, Bruno Pacheco e Leonor Antunes (da esquerda para a direita): alguns dos artistas portugueses que fizeram do estrangeiro casa e local de trabalho

O Centro de Exposições do CCB ficou “refém” da colecção Berardo

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baseado na heterocronia e na liberdade de explorar”, diz Bourriaud. Dá o exemplo de um conceito que criámos a partir da natureza: “O arquipélago é o exemplo da relação entre o uno e o múltiplo. É uma entidade abstracta; a sua unidade deriva de uma decisão [humana] sem a qual nada seria lido a não ser um espraiar de ilhas unidas por nenhum nome comum. A nossa civilização, que leva as marcas da explosão multicultural e da proliferação de estratos culturais, parece-se com uma constelação sem estrutura, à espera da sua transformação em arquipélago.” Tudo isto ao mesmo tempo que um conceito relegado há 40 anos para os circuitos académicos mais obscuros voltava ao centro das discussões estéticas mais actuais (talvez como reacção a todos os nivelamentos): a obra-prima. Ultrapassado o espectro do mo-

dernismo, em que a arte se tomou sujeito de si mesma, “estamos de novo capacitados a voltar a ligar-nos à grande tradição da obra-prima na procura das visões mais formidáveis”, dizia-nos há seis anos o crítico e ensaísta norte-americano Arthur C. Danto. Na mesma altura, em Paris, Jean Galard deixava-nos com uma pergunta: “Passámos por uma época de relativismo tal que houve uma perturbação no julgamento, uma espécie de pânico. Uns viveram isso muito bem, dizendo que era a liberdade, a diversidade das culturas, das obras, das orientações. Mas, agora, há um contra-golpe, uma demanda por determinadas chaves que permitam o reconhecimento das obras que valem o olhar. E, no final de contas, perguntamos: não há mesmo uma forma de nos pormos de acordo em relação a certos princípios?”

A obra de Amadeo Souza-Cardoso foi finalmente exposta no contexto da arte europeia dos anos 10

Amadeo em contexto Em “Amadeo de Souza-Cardoso – Diálogo de Vanguardas” (Fundação Calouste Gulbenkian, 2006), a obra do pintor português foi pela primeira vez exposta em contexto com a arte europeia dos anos 10 – graças a um trabalho de investigação extraordinário, que permitiu tirar a medida da qualidade inquestionável de Souza-Cardoso. Luísa Soares de Oliveira Bacon em Serralves Com um trabalho de comissariado assinado por Vicente Todolí, a grande exposição sobre os espaços claustrofóbicos da pintura de Francis Bacon (“Caged Uncaged”, Museu de Serralves, 2003) trouxe a Portugal a obra de um grande pintor da segunda metade do século XX. L.S.O. As imagens em movimento de João Tabarra Na Galeria Zé dos Bois, em 2006, esteve uma das exposições mais belas e inquietantes da década, para lá das referências, das citações, da ficção, da política, do quotidiano. Amorosa e exemplarmente pensada e concebida com imagens em movimento. “G”, de João Tabarra, foi uma oferta dolorosa ao espectador. J.M. O resistente Robert Frank Fotografias, livros e colagens de fotografias e textos numa exposição do CCB (2001) que mostrou uma uma obra resistente, livre, sempre aberta ao rejuvenescimento das imagens pela experimentação, a intuição e a poesia: “Hold Still- Keep Going”, de Robert Frank. J.M. A instalação-puzzle de Francisco Tropa O modelo da instalação “L’Orage”, de Francisco Tropa (Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, 2003), veio de “A vida: Modo de Usar”, romance-puzzle de Georges Perec. Foi um dos momentos mais relevantes da década q que agora termina. Do mesmo artista pode ainda citar-se o projecto “Assembleia de Euclide em processo desde 2005. O.F. Euclides”, Dan Brown no m momento certo Em 2001, numa exposição em Serralves, Dan exposiçã Graham demonstrou as razões por demo q que o rock é uma religião. Por cá, que e esta esta foi a ex exposição da década. Nela reuniam-se reuniam-se, sob o comissariado de M Marianne Marianne Brouwer e Corinne Dise erens, trabalhos realizados entre erens, trab 200 1965 e 2000. Uma mostra feita no momento certo, quando a obra do artista nor artista norte-americano começou a ser redes redescoberta. O.F.

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Cinema Exposições Livros Música Teatro/Dança

Começamos a década com Stephen King a lançar e-books por sua conta e risco. E terminamo-la c os seus clientes descarregaram mais e-books do que compraram livros i
KAI PFAFFENBACH/REUTERS

Os livros estão na

Lembram-se do ano em que Stephen King fez a experiência de vender “The Plant”, romance por capítulos, em formato electrónico, no seu site, marimbando-se para a sua editora? Foi em 2000. O escritor escrevia na época no seu website: “Meus amigos, temos a chance de nos tornarmos o pior pesadelo das grandes editoras”. Uns meses antes, em Março de 2000, a sua editora Simon & Schuster lançara o primeiro e-book para as massas. “Riding the Bullet” era uma novela escrita por King, um e-book que começou a ser disponibilizado de graça em livrarias online, como a Amazon e a Barnes & Noble, e mais tarde passou a ser vendido a 2,50 dólares. Só nas primeiras 24 horas foram descarregadas 400 mil cópias. Foi um sucesso. King passou a ser o “príncipe do ‘e-publishing’”. Não resistiu a dar o passo seguinte: colocar no seu “site” “The Plant”, de que se podiam descarregar novos capítulos por semana, e que ele iria continuar a escrever se os leitores fossem pagando. Era uma questão de princí-

pio: “If you pay, the story rolls. If you don’t, the story folds” (Se pagares, a história continua. Se não pagares, a história fica encerrada). King explicava que só continuaria a escrever “The Plant” se 75 por cento das pessoas que estavam a descarregar os capítulos pagassem. Mas só 46 por cento dos “downloads” feitos pelos internautas é que foram pagos naquele que ficaria a ser o último capítulo disponibilizado. Até hoje o romance permanece inacabado.

Os escritores e a sociabilidade
Estávamos no início da década mas nos anos seguintes não se falou de outra coisa nas feiras de Frankfurt, Londres ou na Book Expo America. Ano após ano, os editores e agentes interrogavam-se: “Os livreiros vão ser ultrapassados pelos editores que vão passar a vender os seus livros nos seus ‘sites’ directamente aos consumidores? Será que os autores vão seguir a mesma via? Como é que vão funcionar as bibliotecas no futuro? Vamos emprestar livros online? As livrarias, tal como as conhecemos, vão desapa-

recer? Para onde vai evoluir o livro electrónico?” Não temos ainda respostas para todas as perguntas. Mas o que parecia uma maluquice de uns passou a fazer parte do nosso quotidiano. Se em 2000 alguém dissesse a Stephen King que em 2009 ele iria voltar a ser pioneiro ao escrever a novela “Ur” para o lançamento do Kindle 2, a segunda versão do aparelho para ler e-books imaginado por Jeff Bezos e que revolucionou a maneira de aceder aos livros quando foi lançado no final de 2007, talvez se risse. É como se, por desígnios insondáveis, tudo fizesse finalmente sentido. Aconteceu tudo tão depressa que agora bastam 60 segundos e um cartão de crédito para termos “o prazer de receber imediatamente um livro que se quer ler, sem ter de dar um passo”, como escrevia Miguel Esteves Cardoso na crónica, no PÚBLICO, do último dia de 2009. Em qualquer lugar do mundo, onde funcione a rede 3G ou uma ligação à Internet, podemos, no momento em que um livro vai para as lojas, tê-lo

em nossa posse em versão e-book. E foi isto que fez com que o mercado acelerasse. Por estes dias o acesso imediato é decisivo. Embora nem todos os editores concordem: algumas das editoras americanas estão a tentar lançar as suas novidades primeiro em papel e só meses mais tarde em digital. Arriscam-se a que a pirataria os ultrapasse. Ou que lhes aconteça na vida um Paulo Coelho. É que se os editores portugueses ainda andam a ver se apanham o comboio da digitalização, no Brasil o autor de “O Alquimista” é o primeiro escritor em língua portuguesa, vivo, a ter todas as suas obras disponíveis no Kindle. Coelho, que em 2008 colocou online à socapa vários dos seus livros para serem descarregados gratuitamente (acredita que isso aumenta a venda dos livros em papel), foi o primeiro a negociar directamente com a Amazon e “receberá 37,5% do preço final de venda, quase quatro vezes mais do que um autor costuma receber quando um livro é vendido numa livraria convencional”, escrevia a revista “Veja”.

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Livros da década
Eduardo Pitta a 1. A Torre do Desassossego Lawrence Wright (2006); 2. Hitler Ian Kershaw (2008); 3. Lisboa. História Física e Moral JoséAugusto França (2008); 4. Jóia de Família Agustina Bessa Luís (Trilogia 2001-03); 5. As Benevolentes Jonathan Littell (2006); 6. Amigos até ao Fim John Le Carré (2003); 7. Carnaval no Fogo Ruy Castro (2003); 8. A Grande Guerra Pela Civilização Robert Fisk (2005); 9. Pós-Guerra Tony Judt (2005); 10. Shalimar o Palhaço Salman Rushdie (2005); 11. Todo-o-Mundo Philip Roth (2006); 12. A Paciente Misteriosa P. D. James (2008); 13. Estado de Negação Bob Woodward (2006); 14. A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao Junot Díaz (2007); 15. Hooking Up. Um Mundo Americano Tom Wolfe (2000); 16. Tempos Interessantes Eric Hobsbawm (2002); 17. Onde Está a Sabedoria? Harold Bloom (2004); 18. Shakespeare. A Biografia Peter Ackroyd (2005); 19. Uma Vida Inacabada John F. Kennedy Robert Dallek (2003); 20. Brando Mas Pouco Darwin Porter (2006)
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EMMANUEL DUNAND/AFP

as nuvens
a com a Amazon a dizer que no dia de Natal s impressos. Isabel Coutinho
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Lembram-se do ano em que Stephen King fez a experiência de vender “The Plant” em formato electrónico, no seu “site”, marimbando-se para a sua editora? Foi em 2000. O escritor escrevia na época no seu website: “Meus amigos, temos a chance de nos tornarmos o pior pesadelo das grandes editoras”

Gustavo Rubim a 1. Fernanda Ernesto Sampaio (2000); 2. Ou o Poema Contínuo: Súmula Herberto Helder (2001); 3. Da Democracia na América Alexis de Tocqueville tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira e Lívia Franco (2001); 4. Antropologia e Império: Fonseca Cardoso e a Expedição à Índia em 1895 Ricardo Roque (2001); 5. Nove Noites Bernardo Carvalho (2002); 6. Século de Ouro: Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX Osvaldo M. Silvestre e Pedro Serra (2002); 7. Odisseia Homero tradução de Frederico Lourenço (2003); 8. Vozes da Poesia Europeia (I e II) traduções de David Mourão-Ferreira revista Colóquio-Letras nº 163-164 (2003); 9. Respiração Assistida Fernando Assis Pacheco (2003); 10. A Universidade sem Condição Jacques Derrida tradução de Américo Lindeza Diogo (2003); 11. Poesia Daniel Faria (2003); 12. Poética Aristóteles nova tradução de Ana Maria Valente (2004); 13. Peças Escolhidas I Henrik Ibsen traduzidas do norueguês por Pedro Fernandes Karl Eric Schollhammer e Fátima Saadi (2006); 14. Antropologia em Portugal: Mestres Percursos Transições João Leal (2006); 15. Desmedida Luanda – São Paulo – São Francisco e Volta Ruy Duarte de Carvalho (2006); 16. Uma Grande Razão: os Poemas Maiores Mário Cesariny de Vasconcelos (2007); 17. A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita Herberto Helder (2008); 18. Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português org. Fernando Cabral Martins (2008); 19. O Homem Livre: Mito Moral e Carácter numa Sociedade Ameríndia Filipe Verde (2009); 20. Caderno de Memórias Coloniais Isabela Figueiredo (2009)
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Scott Sigler passou 15 anos a ser rejeitado por editoras até que, em 2005, teve a ideia de lançar a primeira experiência mundial de um Podcast em que o ficheiro áudio era de um livro de ficção. Hoje nenhuma editora o ignora

Helena Vasconcelos a 1. O Assassino Cego Margaret Atwood (2000); 2. Expiação Ian McEwan (2001); 3. Austerlitz W. G. Sebald (2001); 4. Ler Lolita em Teerão Azir Nafisi (2003); 5. A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao Junot Díaz (2007); 6. A Linha da Beleza Alan Hollinghurst (2004); 7. O Ano do Pensamento Mágico Joan Didion (2005); 8. Elizabeth Costello J. M. Coetzee (2003); 9. O Mar John Banville (2005); 10. Nunca Me Deixes Kasuo Ishiguro (2005); 11. A Vista de Castle Rock Alice Munro (2006); 12. A Estrada Cormac McCarthy (2006); 13. Corpo Presente Anne Enright (2007); 14. Millennium Stieg Larson (2005 2006 2007); 15 Na Praia de Chesil Ian McEwan (2007); 16. 2666 Robert Bolaño (2004); 17. A Feiticeira de Florença Salman Rushdie (2008); 18. Os Anagramas de Varsóvia Richard Zimler (2009); 19. Wolf Hall Hillary Mantel (2009); 20. The Children’s Book A.S. Byatt (2009).
a a Isabel Coutinho (por ordem cronológica) a 1. Dentes Brancos Zadie Smith (2000); 2. Correcções Jonathan Franzen (2001); 3. A Vida de Pi Yann Martel (2001); 4. Expiação Ian McEwan (2001); 5. Middlesex Jeffrey Eugenides (2002); 6. Está Tudo Iluminado Jonathan Safran Foer (2002); 7. Pode um Desejo Imenso Frederico Lourenço (2002)-trilogia; 8. The Whole Story and Other Stories Ali Smith (2003); 9. O Código Da Vinci Dan Brown (2003); 10. O Estranho Caso do Cão Morto Mark Hadoon (2003); 11. Equador Miguel Sousa Tavares (2003); 12. Jerusalém Gonçalo M. Tavares (2004); 13. O Ano do Pensamento Mágico Joan Didion (2005); 14. Nunca me Deixes Kazuo Ishiguro (2005); 15. Millennium Stieg Larsson (2005 2006 2007); 16. Longe de Manaus Francisco José Viegas (2005); 17. As Benevolentes Jonathan Littell (2006); 18. A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao Junot Díaz (2007); 19. O apocalipse dos trabalhadores valter hugo mãe (2008); 20. Ofício Cantante - Poesia Completa Herberto Helder (2009)

f O que é um livro? Um livro impresso em papel, alguma coisa que se pode ouvir, ou será um livro que se pode ler num aparelho como o Kindle ou o Sony Reader?

Também Rubem Fonseca e a sua editora, a Agir, lançaram “O Seminarista” numa versão que pode ser lida no Kindle e nem sequer têm o livro à venda na Amazon. É vendido através de um “site” dedicado ao livro mantido pela editora. Ou seja: Fonseca, do alto dos seus oitenta e tal anos, dá lições a qualquer aprendiz de marketing editorial, pois utilizou a sua voz magnífica para promover o livro num “book trailer”. Estes vídeos, que depois são replicados em blogues e “sites”, foram uma das invenções da década. Agora editores utilizam várias ferramentas na divulgação sem investirem em publicidade em jornais. E como sabemos, nos anos 2000 os suplementos literários e os críticos literários encartados tornaram-se espécies em extinção. Outro escritor, o norte-americano James Ellroy, também percebeu (por insistência do seu editor, é verdade) que tinha de estar no Facebook, a rede social que de forma fácil e gratuita permite aos escritores perceberem melhor quem são os seus leitores.

Será que com esta sociabilidade toda os escritores terão tempo para fazer aquilo que deviam estar a fazer, ou seja, escrever? O tempo se encarregará de mostrar o melhor caminho.

Definitivamente “retro”
Ainda somos crianças nesta realidade que, a uma velocidade espantosa, está a acontecer. E se a meio da década se acreditava que todos os formatos se iam manter porque até agora “nunque nun ca nenhum ‘media’ matou outro”, na ’ última Book Expo America (BEA), em Maio de 2009, pairou no ar algo diferou rente. Lance Fensterman, director da feian, te: ra, lançou o debate: “O que é um livro? Um livro impresso em papel, presso alguma coisa que se pode ouvir, ou será um livro que se pode ler num e aparelho como o Kindle ou o Sony Reader?”. Faltou-lhe referir o telemóhe vel, o aparelho que em 2000 ninguém suspeitaria que ia ter papel imporo tante no futuro do livro. “Ler um livro num telemóvel não móvel é melhor do que ler em

papel. Mas entre ler no telemóvel e não ler nada, o que é que vamos escolher?”, perguntava Jens Redmer, do Google Search Books, há três anos, em Frankfurt. E tinha razão. Por muito que nos custe, o conceito de livro mudou. O suporte ou o formato passaram a ser secundários, o conteúdo é o mais importante. Tal como explicou, na BEA, Mike Shatzkin, consultor e especialista no futuro da edição, em breve acederemos e aos livros através de mú é múltiplos apareúltiplos apare lhos ou ecrãs; ecrã rãs; e os livros estarão rã

Junot Díaz, “A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao”

Salman Rushdie, “Shalimar o Palhaço”

Jeffrey Eugenides, “Middlesex”

Cormac McCarthy, “A Estrada”

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armazenados algures no ciberespaço (”all in the clouds”, disse). Ler em papel passará a ser “retro”, concluiu. E não é que tinha razão? Meses depois, em Outubro, o grupo norteamericano Google esteve na Feira de Frankfurt a anunciar ao mundo que lá para o Verão vamos poder comprar um livro à Google Editions e lê-lo em qualquer aparelho com ligação à Internet. Os livros estarão armazenados nos servidores da Google (a tal nuvem...) e os leitores terão acesso online às obras a partir de um computador, um ecrã de televisão, um leitor de livros electrónicos, um telemóvel, etc... Mike Shatzin considerou no seu blogue que vão existir dois mercados de e-books: um mais tradicional, das pessoas que querem ler um livro impresso em versão digital num ecrã, e um outro, o dos que desejam ler o livro mas também aceder a “links”, ver vídeos, ouvir ficheiros de som er ou outro género de coisas u que “realmente muue dem a nossa exem eriência periência de ler um livro r

impresso”. Isto não se vai iniciar na próxima década. Isto já começou. Lembrem-se de dois livros publicados nos últimos anos: “The 39 Clues” (“As 39 pistas”), série escrita por vários autores publicada pela editora que lançou Harry Potter, e “Level 26 , de Anthony E. Zuiker, o criador e produtor da série “CSI”. “Leia o livro, jogue o jogo e ganhe prémios” era o “slogan” da campanha de “marketing” da série 39 pistas que se destina a pré-adolescentes. Cada livro é acompanhado por cartas que se podem coleccionar e que são essenciais para se saber mais sobre as personagens, para se entrar no website, participar num jogo e ganhar prémios. “Level 26” é um livro para adultos. Ao fim de 20 páginas aparece um código que permite ao leitor entrar na página oficial do romance e ver vídeos com actores que reconhecemos das séries de TV. A partir daqui nada ficará como antes. Se os livros in-

fantis ou os livros que precisamos de ver antes de os comprarmos (os de arte, que valem pelas imagens ou grafismo) vão continuar a ter peso no mercado do livro impresso, haverá cada vez mais livros só editados em e-book ou através do Print-on-Demand, impressão a pedido. Com o desenvolvimento de máquinas como a Espresso Book Machine, da On Demand Books – com capacidade de imprimir um livro de 300 páginas em sete minutos – tudo está a mudar. E o florescimento de sites como o Lulu. com, que existe desde 2006, onde qualquer pessoa pode concretizar o sonho de publicar seja em que formato for, também marcou a mudança. Há uns anos, numa edição da feira de Frankfurt, Jens Redmer, do Google Search Books, avisava: “Quem usa os e-books hoje é um consumidor passivo, mas no futuro vai passar a ser activo na criação de conteúdos. Pensem nos primeiros ‘bloggers’. Isso vai fazer com que os editores questionem o seu pape papel na indústria editorial”. E os editores questionaram. E viraram-se para o imenso mundo virtual. Andaram nos últimos anos à caça de best-sellers ú em v versão digital, de novos autores

nos blogues e de edições de autor que venderam através da Internet. Para depois os editarem da maneira tradicional. Eis o caso de Scott Sigler. Passou 15 anos a ser rejeitado por editoras até que, em 2005, teve a ideia de lançar a primeira experiência mundial de um Podcast em que o ficheiro áudio era de um livro de ficção. Podia ser descarregado para um computador ou ouvido num leitor de mp3. Conseguiu 10 mil assinantes para este livro que se podia ouvir por capítulos. No segundo romance atingiu os 30 mil e uma pequena editora apercebeu-se do fenómeno e publicou o livro. Foi colocado à venda na Amazon.com e chegou ao segundo lugar do “top” de ficção. Depois do sucesso, nenhum agente podia ignorar Scott. Foi contactado por uma editora note-americana importante e lançou “Infecção” (Gailivro). Outro exemplo: Markos Moulitsas. Em 2002 criou o blogue Daily Kos. Em 2008 esteve na BEA a apresentar o seu livro: “Antigamente era esperado que ficássemos sentados quietos e deixássemos os ‘gatekeepers’ decidir o que devíamos ver, o que devía-

mos pensar e o que devíamos fazer. Hoje a tecnologia permite que tomemos conta das nossas próprias vidas - quer seja através de blogues, de podcasting, das redes sociais, do My Space ou do Facebook ou do YouTube. As pessoas estão rapidamente a adoptar uma miríade de tecnologias da informação que emergem da Internet e estão a utilizá-las para se tornarem participantes activos na cultura”. E isto faz com que se volte ao princípio, quando em 2000 Stephen King brincava dizendo que queria tornar-se no maior pesadelo das editoras vendendo os seus próprios conteúdos. Teremos mais autores a publicar do que nunca. E todos vamos ser autores, editores e livreiros. No dia de Natal, os clientes da Amazon.com descarregaram mais e-books da loja online do que compraram livros impressos. Pelo que se pode vislumbrar, e a acreditar nas opiniões de Mark Coker, fundador da editora de e-books Smashwords, se calhar vamos deixar de chamar aos livros digitais e-books. Vamos passar a chamar-lhes “livros”. Ler em papel será definidamente “retro”, como dizia o outro.

José Manuel Fernandes a 1 1. História de Portugal Coordenação de Rui Ramos (2009); 2. O Futuro da Liberdade Fareed Zakaria (2003); 3. Glória: biografia de J. C. Vieira de Castro Vasco Pulido Valente (2001); 4 4. Portugal Hoje: O Medo d de Existir José Gil (2004); 5. Impasses - seguido de coi coisas vistas e coisas ouvidas Fern Fernando Gil e Paulo Tunhas (2004 6. Colapso Jared Diamond (2004); (2005); 7. Álvaro Cunhal Uma Biografia Política vol. II – Duarte o Dirigente Clandestino José Pacheco C Pereira (2001); 8. A Conspiração contra a Roth América Philip Ro (2004); 9. O Ocidentalismo: d Uma Breve História de Aversão ao Ocidente Ian Buruma e Avishai Margalit (2004); 10. A Queda de Berlim Antony Beevor (2002); 11. Suite Francesa Irène Némirovsky (2004); 12. A Queda de Roma e o Fim da Civilização Bryan Ward-Perkins (2005); 13. Pós-Guerra Tony Judt (2005); 14. O Jovem Estaline Simon Sebag (2008); 15. Finest Years: Churchill as Warlord Max Hastings (2009); 16. César: A Vida de um Colosso Adrian Golsworthy (2006); 17. O Sentimento de Si António Damásio (2001); 18. A Vingança de Gaia: Porque está a Terra a Retaliar James Lovelock (2006); 19. 1948: A History of the First ArabIsraeli Ben Morris (2008); 20. O Código Da Vinci Dan Brown (2003)
a a José Riço Direitinho a 1. 2666 Roberto Bolaño (2004); 2. Austerlitz W. G. Sebald (2001); 3. A Estrada Cormac McCarthy (2006); 4. As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay Michael Chabon (2000); 5. Está Tudo Iluminado Jonathan Safran Foer (2002); 6. Atlas das Nuvens David Mitchell (2004); 7. Correcções Jonathan Franzen (2001); 8. As Benevolentes Jonathan Littell (2006); 9. A Heartbreaking Work of Staggering Genius Dave Eggers (2000); 10. Ruhm. Ein Roman in

neun Geschichten Daniel Kehlmann (2009); 11. Middlesex Jeffrey Eugenides (2002); 12. Cavalos Roubados Per Petterson (2003); 13. O Peso dos Números Simon Ings (2006); 14. Os Soldados de Salamina Javier Cercas (2001); 15. O Acto de Amor do Povo James Meek (2005); 16. A Vida de Pi Yann Martel (2001); 17. Expiação Ian McEwan (2001); 18. Istambul Orhan Pamuk (2002); 19. O Teu Rosto Amanhã – 1. Febre e Lança Javier Marias (2002); 20. Trilogia Millennium Stieg Larsson (2005 2006 2007)
a Maria da Conceição Caleiro a 1. Migrações do Fogo Manuel Gusmão (2004); 2. Alta noite em alta fraga Joaquim Manuel Magalhães (2001); 3. A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita Herberto Helder (2008); 4. O Livro do Meio Maria Velho da Costa e Armando Silva Carvalho (2006); 5. Caderno de Memórias Coloniais Isabel de Figueiredo (2009); 6. Jerusalém Gonçalo M. Tavares (2004); 7. Amigo e Amiga - Curso de Silêncio de 2004 Maria Gabriela Llansol (2006) 8. O Apocalipse dos Trabalhadores valter hugo mãe (2008); 9. Campo de Sangue Dulce Maria Cardoso (2002); 10. O homem Lento J. M. Coetzee (2005); 11. O Homem em Queda Don DeLillo (2007); 12. As Benevolentes Jonathan Littell (2006); 13. A Estrada Cormac McCarthy (2006); 14. 2666 Roberto Bolaño (2004); 15. Terraço em Roma Pascal Quignard (2000); 16. Luiz Pacheco: 1 Homem Dividido Vale Por 2 concepção e org. Luís Gomes (2009); 17. Literatura defesa do atrito Silvina Rodrigues Lopes (2003); 18. Amor Líquido Zygmunt Bauman (2003); 19. L’Animal Que Donc Je Suis Jacques Derrida (2006) 20. A Audácia da Esperança Barack Obama (2006)

Pedro Mexia (por ordem cronológica estrangeiros e portugueses) a 1. Ravelstein Saul Bellow (2000); 2. A Mancha Humana Philip Roth (2000); 3. Austerlitz WG Sebald (2001); 4. Expiação Ian McEwan (2001); 5. The Coast of Utopia Tom Stoppard (2002); 6. Istambul – Memórias de uma Cidade Orhan Pamuk (2003); 7. 2666 Roberto Bolaño (2004); 8. A Estrada Cormac McCarthy (2006); 9. District and Circle Seamus Heaney (2006); 10. As Benevolentes Jonathan Littell (2006); 11. Lillias Fraser Hélia Correia (2001); 12. Poesia Daniel Faria (2003); 13. Jerusalém Gonçalo M. Tavares (2004); 14. A Ronda da Noite Agustina Bessa-Luís (2006); 15. Ofício Cantante - Poesia Completa Herberto Helder (2009)
a

Ian McEwan, “Expiação”

Herberto Helder, “Ofício Cantante - Poesia Completa”; “Ou o Poema Contínuo: Súmula” e “A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita”

Jonathan Littell, “As Benevolentes”

Yann Martel, “A Vida de Pi”

Irène Némirovsky, “Suite Francesa”
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"O poder s— desgasta aqueles que n‹o o tm."
Giulio Andreotti

êVEL ÒA O N H O R EL DO M SE ORSE DE SC OLAÓ COPP E
mes NY Ti

Il Divo. Um filme envolvente e provocador sobre a vida e o poder de Giulio Andreotti.
Em ÒIl DivoÓ, o reconhecido realizador Paolo Sorrentino oferece-nos um retrato da vida atribulada, e de certa enigm‡ticas liga›es ˆ m‡fia e ˆ forma como sempre conseguiu sair intoc‡vel das suas batalhas pol’ticas e dos mœltiplos processos judiciais. Uma vis‹o sat’rica mas comprometida, surrealista mas, ao mesmo tempo, profunda. Um filme sobre poder. A n‹o perder.
Edi‹o limitada ao stock existente.

forma espectacular, do pol’tico italiano Giulio Andreotti. Uma viagem aos seus tempos de poder, ˆs suas

Quinta-feira dia 14 de Janeiro, o DVD inŽdito e exclusivo ÒIl DivoÓ por mais Û12,50, com o Pœblico.

Cinema Exposições Livros Música Teatro/Dança
LUÍS RAMOS/ARQUIVO

Ao mesmo tempo que se construíam dezenas de novas salas e o objectivo-lua de uma rede nacional de cineteatros se mostrava cada vez mais realizável, desapareciam projectos pensados e criados por artistas, como A Capital, dos Artistas Unidos, fechada em 2002 por ordem da Câmara Municipal de Lisboa
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“Não há distinções rígidas entre o que é real e o que não o é, nem entre o que é verdadeiro e falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; pode ser, ao mesmo tempo, verdadeira e falsa”. A frase, escrita em 1958 por Harold Pinter, serviu de epígrafe ao discurso que o dramaturgo britânico fez perante a Academia Sueca quando, em 2005, recebeu o Prémio Nobel da Literatura, tornando-se, em 106 anos, o quinto dramaturgo a merecê-lo (depois de Dario Fo, em 1997, Samuel Beckett, em 1969, Luigi Pirandello, em 1934, e George Ber-

nard Shaw, em 1925). O discurso de Pinter versou, depois, sobre a invasão do Iraque, numa violenta resposta à Administração Bush. Mas as suas palavras, em 2005 como 44 anos antes e mesmo agora, no fim da década, servem bem de mote para uma análise sobre as fronteiras que limitaram, bem para lá dos palcos, as artes performativas. Abertos pela incisiva análise de Hans-Thies Lehmann no ensaio “Teatro Pós-Dramático”, editado em 1999 na Alemanha e cinco anos depois em Inglaterra (em Portugal aponta-se pa-

ra final de 2011, pela Orfeu Negro), os anos 00 começaram como reacção a uma tentativa de integração dos discursos “in-yer-face” preconizados pela geração inglesa do “Young British Drama” (Mark Ravenhill, Sarah Kane, entre outros) e da vaga alemã “esperma e sangue”, associada a nomes como Marius von Mayerburg ou Dea Loher. Era, para uns, a chegada ao poder e, para outros, uma marcação de território a partir de discursos que revolviam os cânones dramatúrgicos e que, aliando às palavras um dispositivo cénico (Thomas Ostermeier,

Romeo Castelluci, Rodrigo García, Pippo Delbono, Árpád Schilling, Alvis Hermanis, Emma Dante, René Pollesch, entre outros), rompiam com a fronteira utópica do teatro militante e documental para ir ao encontro do que, e de quem, ficava às portas dos teatros engalanados. Na viragem do milénio, as artes de palco resolviam expor as feridas acumuladas por anos de reorganização social, agora pela mão de uma geração com a responsabilidade de perpetuar um legado que só era artístico porque era político. Enquanto edifício

As artes perfor à porta dos t

Em dez anos, as artes performativas tiveram, a seu favor e contra elas, o que se passou f construiu numa década em que, apesar de tudo, o sector se organizou - pelo m
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e disciplina, o teatro tinha perdido o seu lugar de catalisador dos discursos sociais, com as novas tecnologias e a indiferenciação disciplinar a tomarem entretanto conta de uma função antiga: reflectir sobre a sociedade.

Mais e menos metáfora
Isso mesmo se confirmou na crise de 2005 quando, em França, pelo Festival d’Avignon adentro irromperam protestos do público contra a crítica que depressa legitimara discursos no teatro e na dança sem conseguir enquadrá-los completamente, da crítica contra os artistas por não conseguirem ultrapassar o gozo na exploração da violência e da sujidade cénicas, de uma crítica contra outra crítica, discutindo ética, valores, princípios, cumplicidades e gostos, dos artistas contra todos por não aceitarem as regras do contrato “carta branca” que se estabelece entre quem compra o bilhete e quem faz o espectáculo, do público contra os programadores acusados de imporem gostos, dos programadores contra o público por se
e Harold Pinter, Nobel da Literatura em 2005, foi o quinto dramaturgo em 105 anos a receber o prémio. O seu discurso perante a Academia Sueca - “Uma coisa (...) pode ser, ao mesmo tempo, verdadeira e falsa” - serve bem de mote para uma análise sobre as fronteiras que limitaram as artes performativas nesta década
HENRIK MONTGOMERY

político e o económico. Quando, em 2002, um grupo de separatistas tchetchenos invadiu o teatro Dubrovka, em Moscovo, durante a representação de uma peça de incidência nacionalista, pode defender-se que o fizeram porque consideraram ser aquela a melhor forma de alertar para o perigo da reescrita histórica que o teatro instrumentalizado pelo poder procurava impor. O público, composto na sua maioria pela alta sociedade russa (Tarantino anyone?), demorou a reconhecer nas armas, granadas e mascaras de gás outra coisa que não adereços. Os espectadores aplaudiram o realismo da peça quando as primeiras balas se provaram verdadeiras. Tinham passado mais de 15 minutos desde a invasão do palco e aqueles pretensos figurantes, de metralhadoras em riste, tiveram ainda tempo de gritar por um teatro verdadeiro. A história escrevia-se através de uma dramaturgia improvisada, e o público, ainda que desconfiado, tomava partido. Mas, ao contrário dos heróis bidimensionais,

naquele palco morreu-se como na vida real, por ordem de Putin, que quis, literalmente, que o espectáculo continuasse. Defendia-se assim, disse, a memória dos heróis que o teatro sempre procurou inscrever. A metáfora, “a pior invenção da humanidade”, como escreveu Ortega y Gasset, sofreu, nesta década, a mais violenta das respostas, num área que sempre procurou ampliá-la, usá-la a seu favor, torná-la seu cavalo de batalha, muitas vezes de Tróia. O espectáculo voltou a continuar em Dezembro de 2004, quando parte da comunidade indiana sikh residente em Birmingham se manifestou violentamente contra “Behzti”, a segunda peça de Gurpreet Kaur Bhatti, forçando a autora a um exílio físico e intelectual em tudo contrário ao esforço de integração que a própria comunidade procurava. O caso tem particular relevância quando uma das linhas que nesta década atravessou os palcos, e os seus discursos, foi a da preocupação com o outro, numa tradução criativa dos discursos globaliRTR RUSSIAN CHANNEL

zantes sobre as comunidades, bem como com a sua integração artística, uma consequência directa dos estudos pós-coloniais que levaram a um (falso) reconhecimento de territórios anteriormente marginalizados e/ou colonizados (era também de novas colónias que Pinter falava no seu discurso). A apresentação de uma família sikh disfuncional punha em causa uma politicamente correcta opção governamental por um sistema de quotas temáticas e estilísticas com reflexo nos apoios financeiros. Apoios esses que, sendo de monta, como em Inglaterra, viriam a ser desviados para a concretização de outros projectos. A 1 de Fevereiro de 2008, o Governo britânico anuncia que os Jogos Olímpicos de 2012 teriam um investimento de 1,3 milhões de libras vindos do Arts Council, paradigma europeu do apoio à criação artística no campo do teatro e da dança. A greve dos intermitentes do espectáculo em França, no Verão de 2003, lançou a Europa na discussão oficial

(mas sem grande resultado prático) acerca da responsabilidade social perante estes profissionais. Com os principais festivais do país anulados, afectando não apenas o investimento das organizações, mas também as relações entre os festivais e os patrocinadores, a crise teve também efeitos na circulação de artistas internacionais que vivem do circuito francês. A precaridade dos profissionais foi uma das principais linhas de combate de um sector que, apesar de ter visto reconhecido o seu contributo para o PIB da União Europeia (2,6%, mais do que a indústria química e do plástico, por exemplo – dados de 2003), ficou à porta da justiça social. O impacto da greve foi de tal ordem que o Festival d’Avignon, criado em 1947, foi cancelado; tinha acontecido apenas uma vez, em 1968.

Construção, destruição
Em Portugal, o reconhecimento do sector começou a ser feito apenas a partir de 2001, com o primeiro programa de apoio a projectos de ini-

ter esquecido de ser exigentes, de todos contra todos em nome de uma área cujo poder nunca ninguém quis, e bem, saber onde acabava. Não será por isso surpreendente verificar que, numa década em que a questão da comunidade esteve tão presente (a abertura a Leste e o novo mapa geopolítico alargado ao Médio Oriente e a África, por exemplo, trouxeram novas formas de pensar o teatro e, muito em particular, a dança na sua relação simbolista e metafórica com o corpo), os que fizeram regressar as artes performativas a essa função eminentemente social, responsabilizando-a por um papel menos metafórico e mais interventivo, se tenham tornado exemplos não apenas do campo estritamente cultural (ou da criação e do seu discurso), mas também de campos como o

Quando, em 2002, um grupo de separatistas tchetchenos invadiu o teatro Dubrovka, em Moscovo, os espectadores aplaudiram o realismo da peça. Tinham passado mais de 15 minutos e aqueles pretensos figurantes, de metralhadoras em riste, tiveram ainda tempo de gritar por um teatro verdadeiro. Mas naquele palco morreu-se como na vida real, por ordem de Putin, que quis, literalmente, que o espectáculo continuasse
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rmativas teatros
u fora dos palcos. Destruiu-se tanto ou mais do que se o menos em Portugal. Tiago Bartolomeu Costa
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e No fim de 2006, o autosequestro de alguns criadores no Rivoli, em protesto contra a sua anunciada a concessão a La Féria, foi o último acto de verdadeira afirmação do lugar que um teatro pode ter na memória colectiva de uma cidade

MANUEL ROBERTO

ciativa não governamental nas áreas da dança, do teatro e da música para períodos de quatro, dois e um anos. A medida encontra um terreno em que a dança contemporânea era uma realidade recente (existe oficialmente em Portugal desde 1989 com a criação da Bienal Universitária de Coimbra, feita para a selecção dos coreógrafos que representariam Portugal na Europália, em Bruxelas) e em que, no teatro, companhias cria-

das circa 1974 iam competir com os seus primeiros e segundos descendentes directos. É nessa altura que companhias acabadas de surgir ou que tinham, até então, sido apoiadas pontualmente e (Teatro Praga, Mónica Calle/ e/ Casa Conveniente, Clara Anderdermatt ou Bomba Suicida), comemeçam a construir um percurso mais sólido a nível financeiro que, natu,

PAULO PIMENTA

RUI GAUDÊNCIO

A década em dez “flashbacks”
Novos criadores, novos pro gramadores (da esquerda para a direita): Nuno Cardoso, Mark Deputter, José Maria Vieira Mendes, Pedro Penim, Miguel Lobo Antunes, Rui Horta Fim do Ballet Gulbenkian Em Julho de 2005, o anúncio da extinção do Ballet Gulbenkian deixou mais do que a comunidade artística em choque. Acompanhando um ciclo internacional de morte natural de grandes companhias, não se traduziu nem na melhoria de condições da única companhia de âmbito nacional, a Companhia Nacional de Bailado, nem num efectivo programa complementar de apoio à dança. Encerramento do Rivoli Encabeçado da primeira à última hora por Isabel Alves Costa, o Rivoli funcionou como modelo de um teatro que, sendo municipal na tutela, era nacional na ambição. O precedente aberto por Rui Rio com o encerramento de um serviço público em nome da rentabilidade legitimou outras câmaras e marcou a des i s t ê n c i a de um pr programa plural para uma cidade com a responsabilidade do Porto. sabi Cr Crise no Teatro Nacional D. Maria II Na década em que os teatros nacionais passaram a empresas públicas, para alívio orçamental do pr Ministério da Cultura, assistiu-se à tumultuM osa os substituição, na direcção do D. Maria II, de António Lagarto por Carlos Fragateiro. A nova An d direcção foi contestada c direcção com manifestações à porta e o manda de três mandato anos não chegou ao fim, com a a direcção a ser dire dispe dispensada, por despa despacho, depoi de acusapois da de gestão d danosa. Um novo perfil de programação A saída de António Pinto Ribeiro e a entrada de Miguel Lobo Antunes na Culturgest cria um outro paradigma de programação - sobretudo no teatro, com Francisco Frazão - e marca a chegada de uma geração que inclui nomes como Paulo Vasques (Circular) e Marta Furtado (ZDB/Negócio) e que vem juntarse a outra, anterior (Paulo Ribeiro, Rui Horta, Cristina Grande e Pedro Rocha, Nuno Cardoso, Mark Deputter, e até Diogo Infante), que assume um entendimento plural e complementar das artes performativas. Novos nomes, valores… e prémios Muito porque o mapa e a filosofia dos espaços se modificaram, e também porque o quadro de atribuição de apoios públicos se alargou, a década permitiu o surgimento de nomes nos mais diversos domínios, alguns dos quais acabaram premiados: Teatro Praga, Patrícia Portela, Tiago Guedes, Tânia Carvalho, Cláudia Dias, Circolando, Mala Voadora, Sónia Bapuita, tista, Tiago Rodrigues, José Maria Vieira Mendes, André Mesquita, Primeiros Sintomas e Miguel Pereira. A Capital, presente adiado Ao longo da década, o projecto Artistas stas omo Unidos, dirigido por Jorge Silva Melo, foi uma batalha que teve como airro objectivo principal a recuperação do edifício A Capital, no Bairro 002. Alto, fechado por ordem da Câmara Municipal de Lisboa em 2002. Desde então, o que aquele edifício entaipado representa é também bém o diálogo de surdos entre os criadores e os decisores politicos e os económicos. Descentralização Falar de descentralização significa, hoje, falar r em novos centros, com casos exemplares como o Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo), o Teatro Viriato (Viseu), o Devir/Capa (Faro), o Festival Materiais Diversos (Minde), e as Comédias do Minho. Companhias houve ainda que saíram das suas casas,

26 • Ípsilon • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 on Sexta-fe r n Sexta-feira Janei 2010 xta-fe ra Ja eir 010 t f Janeiro 010 an ir 1

JORGE MIGUEL GONÇALVES/N FACTOS

“Otelas”, do lituano Eimuntas Nekrosius, um dos maiores triunfos internacionais do TNSJ

A extinção do Ballet Gulbenkian, um choque ao fim de 40 anos de actividade

Comédias do Minho, um caso exemplar de trabalho com a comunidade

ralmente, terá consequências a nível artístico. Muitas delas beneficiarão da criação de uma outra frente de apoio, para os projectos Trans e Pluridisciplinares. O Ministério da Cultura reconhecia então a existência de projectos híbridos ou complementares, para lá das fronteiras clássicas, acompanhando uma alteração de valores artísticos a nível europeu. Foi, por isso, e ao longo de dez anos, um sector em aprendizagem e teste, optando o poder central por políticas de “hardware”, nomeadamente a errática e ambiciosa rede de cineteatros, iniciada no fim da década anterior, e entretanto contrariada pelo processo Rivoli, ou pelos megaeventos centralizadores (Faro 2005 - Capital Nacional da Cultura fica marcado por um protesto de diversos coreógrafos contra uma Plataforma de Dança Internacional sem condições logísticas). A ideia de geração que podia tomar o pulso da sociedade através da criação teve contra si, pelo menos em Portugal, a efectivação de políticas complementares. Ao mesmo tempo que se construíam os teatros, desapareciam projec-

tos criados e pensados por artistas. A Capital, o Espaço Ginjal, o CENTA e o Teatro Camões, entre outros, começaram e deixaram de existir no espaço de uma década; criadores houve (como Vera Mantero) que começaram a ter mais financiamento no exterior, outros ainda (como João Fiadeiro) deixaram de dançar para se dedicarem à investigação sem que alguma vez os programas de apoios previssem, convenientemente, essa área. Se em França o regime de intermitência levou à paralisação do sector cultural, em Portugal um projecto-lei sobre a intermitência, ainda que pecando por falta de coragem política, foi aprovado a 30 de Novembro de 2007 pelo Partido Socialista, não merecendo mais do que protestos formais da parte dos profissionais, com uma discussão tépida, em tudo contrastante com as manifestações por causa de atribuição de verbas, recorrentes nos vários concursos de apoio. Ficam para a memória, e para reflexão, a discussão entre “o grupo dos 31 e os outros” (formado pelas estruturas que em 2001 receberam apoio

g A greve dos intermitentes do espectáculo em França, no Verão de 2003, obrigou à suspensão dos principais festivais do país; as ondas de choque da crise afectaram a circulação de artistas internacionais dependentes do circuito francês

e viram as verbas congeladas por decisão de José Sasportes, um dos sete ministros da Cultura que tivemos em dez anos), e uma providência cautelar da Panmixia, em 2005, que paralisou toda o tecido teatral da região Norte, por não existirem mecanismos de salvaguarda dos apoios atribuídos aos projectos concorrentes. Foi para esta ideia de contaminação, de acção com consequência, e da necessária avaliação (e validação) do impacto que isso produz no futuro que Harold Pinter chamou a atenção no discurso de aceitação do Nobel da Literatura. “Acredito”, continuava ele, “que estas asserções ainda fazem sentido e devem ser aplicadas na exploração da realidade através da arte”. Então como agora, no balanço de uma década que assistiu ao desenvolvimento de um sector que continua a precisar de entender que a defesa da arte pela arte só existe porque existem, à volta, atrás e ao lado, políticas claras para a sua protecção, o que ficar não pode ser apenas arquivo. Deve ser o alerta mais vivo para o futuro que se prepara a cada representação.

com destaque para o Teatro Meridional, que criou “Por Detrás dos Montes” com o Teatro Municipal de Bragança, e para a residência do Teatro da Garagem no mesmo interior profundo. Internacionalização A presença regular de espectáculos internacionais teve nesta década um peso significativo. É hoje comum ver o nome de instituições nacionais nas listas de co-produções. Caso particular: o Teatro Nacional S. João que, em 2004, aderiu à União dos Teatros da Europa. O esforço levado a cabo por Ricardo Pais e José Luís Ferreira teve os seus pontos altos nos festivais PoNTI e Portogofone. Formação Não só o Centro de Estudos de Teatro, da Faculdade de Letras de Lisboa, conseguiu encontrar condições para avançar para um programa completo de formação que inclui agora mestrados e doutoramen doutoramentos em Estudos de Teatro, como a Escola Superior de Dança e a Escola Superior de Teatro e Cinema passaram a oferecer licenciaturas e mestrados. Formaram-se ainda aluli nos em E Estudos Artísticos em Coimbra e Évora, alargando assim o leque de possibilidades. le RIP Isabel Alves Costa, Mário Barradas, Raúl Solnado, Dalila Rocha, Paula Castro, Morais e Castro, Augusto Boal, Ro Pi Pina Bausch, Merce Cunningham, Harold Pinter, M Maurice Béjart, Henrique Viana, Paulo Autran, Ale exandre Babo, Canto e Castro, Isabel de Castro, Cam macho Costa, Glicínia Quartin, Carlos Porto, Manue João Gomes, Mónica Lapa, Jorge Vasques, Paulo el Claro… *Tiago Bartolomeu Costa a partir de uma selecção de temas feita com Jorge Louraço Figueira, Luísa Roubaud, Rita Martins e Rui Pina Coelho

NUNO FERREIRA SANTOS

ho

Vigília de protesto contra o afastamento de António Lagarto do D. Maria II

FRANCOIS MORI

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Teatro

Ciclo

Acompanhando o “tour de force” de Eunice Muñoz em “O Ano do Pensamento Mágico”, em cena desde ontem no Teatro Nacional S. João, o Teatro Carlos Alberto recebe a partir de hoje um ciclo de solos que começa com este “Dois Homens”, de José Maria Vieira Mendes. Ivo

Alexandre é o primeiro a entrar sozinho em cena; seguem-se, até 7 de Fevereiro, João Reis (“A Febre”, de Wallace Shawn), Flávia Gusmão (“Amor”, de André Sant’Anna), Ana Bustorff (“Concerto à la Carte”, de Franz Xavier Kroetz) e Olga Roriz (“Electra”).

Depois da temporada no D. Maria II, “O Ano do Pensamento Mágico” muda-se para o Porto anteontem. E mais ainda por termos visto este mesmo texto montado no inicio do ano passado por Gonçalo Amorim, depois de 32 anos sem ser encenado em Portugal. O director da Companhia de Teatro de Almada sempre quis trabalhar “A Mãe”, mas só agora conseguiu reunir os ingredientes para a montagem integral da peça: um espectáculo de três horas, com 18 actores e uma orquestra ao vivo, dirigida pelo maestro Fernando Fontes, a tocar os originais de Hanns Eisler. Para Benite, a fidelidade ao texto e às didascálias é um traço do teatro ocidental que não se deve perder. O encenador não é uma vedeta nem um criador, mas antes um “equivalente ao maestro, que apresenta o texto na sua atmosfera”. Também foi pelo desejo de mostrar a peça na sua mais perfeita integralidade que Benite foi rigoroso na escolha da tradução. Depois de ler a versão de Yvette Centeno e Teresa Balté sentiu que tinha a qualidade literária para enfim trabalhar “A Mãe”. O teatro brechtiano é dialéctico e cheio de contradições, com construções ambivalentes. Por isso, “a tradução deve ser muito cuidadosa”. Há quem diga que em Portugal tem havido um regresso subtil aos textos de Brecht. É um fenómeno europeu, contrapõe Benite. “A Mãe” mantém “uma grande actualidade, mas há muita gente que a considera propaganda comunista”. Evidentemente, continua, “traduz o pensamento marxista e fala do comunismo como um ideal”. Mas o que está em causa é o processo de aprendizagem que resulta da prática social. A mãe, viúva e mãe de um operário, aprende a ler depois de distribuir panfletos da greve para ajudar o filho. É na mudança de consciência que reside o acto revolucionário, como diz Vlassova: “Ler é luta de classes”.

Ler é luta de classes
“A Mãe”, de Bertolt Brecht, é um clássico que sobre a crise económica: greves, desemprego, redução salarial. Tempos modernos. Cláudia Silva
A Mãe De Bertolt Brecht. Pelo Teatro Municipal de Almada. Encenação de Joaquim Benite. Com André Albuquerque, Carlos Gonçalves, Daniel Fialho, Teresa Gafeira, Teresa Mónica, entre outros.
Almada. Teatro Municipal de Almada. Av. Professor Egas Moniz. Até 31/01. 4ª a Sáb. às 21h30. Dom. às 16h. Tel.: 212739360. 6€ a 13€.

Agenda Teatro Estreiam
A Cidade
108. Até 17/01. Sáb. e Dom. às 16h. Tel.: 222003595. 5€ a 7,5€.

Eu Sou a Minha Própria Mulher De Doug Wright. Pela Seiva Trupe. Encenação de João Mota. Com Júlio Cardoso.
Porto. Teatro do Campo Alegre. R. das Estrelas s/n. Até 14/02. 4ª a Sáb. às 21h45. Dom. às 16h. Tel.: 226063000.

Cratera De valter hugo mãe. Pelo Teatro Bruto. Encenação de Ana Luena. Com Carlos António, Pedro Mendonça, Sílvia Silva.
De Aristófanes. Pelo Teatro da Cornucópia. Encenação de Luis Miguel Cintra. Com Márcia Breia, Rita Durão, Nuno Lopes, Maria Rueff, Bruno Nogueira, Gonçalo Waddington.
Lisboa. Teatro Municipal de S. Luiz. R. Antº Maria Cardoso, 38-58. De 14/01 a 14/02. 4ª a Sáb. às 21h. Dom. às 16h. Tel.: 213257650. 12€ a 25€. Porto. Fundação Escultor José Rodrigues. Rua da Fábrica Social. Até 23/01. 4ª a Sáb. às 22h00. Tel.: 220109020. 7€.

Cão Que Morre Não Ladra Pela Companhia do Chapitô. Encenação de John Mowat. Com Jorge Cruz, Marta Cerqueira, Tiago Viegas.
Lisboa. Chapitô. R. Costa do Castelo, 1/7. Até 21/02. 5ª a Dom. às 22h. Tel.: 218855550. 7,5€ a 10€.

Três horas, 18 actores, uma orquestra ao vivo: é esta a escala de “A Mãe”, a nova produção da Companhia de Teatro de Almada

Há um certo simbolismo cronológico inerente à encenação, hoje, de “A Mãe”, de Bertolt Brecht. O dramaturgo alemão escreveu-a com base no romance homónimo do escritor russo Máximo Gorki (18681936) mas, enquanto Gorki situou a história em 1905, focando a Revolução Russa desse ano, Brecht acrescentou cenas novas e estendeu a trama até 1917, criando uma alegoria à sociedade alemã, massacrada por uma crise económica. O contexto é de redução salarial, greves e luta de classes. Mas a peça só foi estreada no inicio da década de 30, período que dividiu as águas entre a quebra da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, e a recuperação económica mundial. Entretanto, vemo-nos em 2010, no inicio de uma nova década economicamente ressacada, muito próxima do espaço-tempo de “A Mãe”. Por isso é tão significativo ver esta encenação de Joaquim Benite abrir a programação de 2010 do Teatro Municipal de Almada, desde

Maria Mata-os De Miguel Castro Caldas. Pelos Primeiros Sintomas. Encenação de Bruno Bravo e Gonçalo Amorim. Com Anabela Brígida, Bruno Bravo, Bruno Simões, Catarina Mascarenhas, entre outros.
Lisboa. Teatro Municipal Maria Matos. Av. Frei Miguel Contreiras, 52. De 12/01 a 20/01. 2ª a Sáb. às 21h30. Tel.: 218438801. 5€ a 12€.

Hannah e Martin De Kate Fodor. Pelo Teatro Aberto. Encenação de João Lourenço. Com Ana Padrão, Cátia Ribeiro, Cristóvão Campos, Rui Mendes, entre outros.
Lisboa. Teatro Aberto - Sala Vermelha. Pç. Espanha. Até 31/12. 4ª a Sáb. às 21h30. Dom. às 16h. Tel.: 213880089. 7,5€ a 15€.

No Rasto de Miguel Torga A partir de Miguel Torga. Pelo Urze Teatro. Encenação de Pompeu José. Com Fábio Timor, Glória de Sousa, Isabel Feliciano, Rui Félix.
Vila Real. Teatro de Vila Real. Alameda de Grasse. De 13/01 a 14/01. 5ª às 10h30 e 15h. 6ª às 22h. Tel.: 259320000.

D. Quixote (de Coimbra) A partir de Miguel Cervantes. Pelo Teatrão. Encenação de Isabel Craveiro. Com Inês Mourão, João Castro Gomes, Luís Carlos Eiras e Margarida Sousa.
Coimbra. Oficina Municipal do Teatro. Rua Pedro Nunes. Até 16/01. Sáb. e Dom. às 21h30. Tel.: 239714013. 4€ a 10€.

Continuam
Tragédia A partir de Eurípides e Jean-Paul Sartre. Pela Casa Conveniente. Encenação de Ana Ribeiro. Com Maria do Carmo, Mónica Calle, Rita Só, Teresa Sobral, Vítor D’Andrade.
Lisboa. Teatro da Trindade. Largo da Trindade, 7a. Até 31/01. 4ª a Sáb. às 21h45. Dom. às 17h30. Tel.: 213420000. 5€ a 8€.

Dança Estreiam
Veralipsi De Sofia Silva. Com Joana Ratão, Patrícia Cabral.
Lisboa. Instituto Franco-Português. Av. Luís Bívar, 91. De 14/01 a 16/01. 5ª a Sáb. às 21h30. Tel.: 213111400. 5€.

O Ano do Pensamento Mágico De Joan Didion. Pelo Teatro Nacional Dona Maria II. Encenação de Diogo Infante. Com Eunice Muñoz.
Porto. Teatro Nacional S. João. Praça da Batalha. Até 31/01. 4ª a Sáb. às 21h30. Dom. às 16h. Tel.: 223401900. 3,5€ a 15€.

Continuam
Inferno

Dois Homens De José Maria Vieira Mendes. Pelo Teatro Municipal de Almada. Encenação de Carlos Pimenta. Com Ivo Alexandre.
Porto. Teatro Carlos Alberto. Rua das Oliveiras, 43. De 8/01 a 10/01. 6ª e Sáb. às 21h30. Dom. às 16h. Tel.: 223401900. 5€ a 15€.

A Febre De Wallace Shawn. Pelo Teatro Oficina. Encenação de Marcos Barbosa. Com João Reis.
Porto. Teatro Carlos Alberto. Rua das Oliveiras, 43. De 14/01 a 17/01. 5ª a Sáb. às 21h30. Dom. às 16h. Tel.: 223401900. 5€ a 15€.

De Olga Roriz. Com Catarina Câmara, Adriana Queiróz, Rafaela Salvador, Bruno Alexandre, Pedro Santiago Cal.
Faro. Teatro Municipal de Faro. Horta das Figuras - EN125. 09/01. Sáb. às 21h30. Tel.: 289888100. 10€ a 12€

João Sem Medo A partir de José Gomes Ferreira. Encenação de Ricardo Alves. Com Sara Costa, Sara Pereira, Teresa Alpendurada.
Porto. Teatro Sá da Bandeira. R. Sá da Bandeira,

Talvez Ela Pudesse Dançar Primeiro e Pensar Depois + Olympia De e com Vera Mantero.
Portimão. Teatro Municipal de Portimão. Largo 1.º de Dezembro. 09/01. Sáb. às 21h30. Tel.: 282402475.

28 • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • Ípsilon

Discos

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

Ricardo Rocha deixa inscrita a sua marca na história da guitarra

Pop

Inteligente passo em frente
Sendo aquilo que nos levou a celebrá-los, mostram que também podem ser algo mais. Mário Lopes
Vampire Weekend Contra XL; distri. Popstock

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Os Vampire Weekend chegam então ao segundo álbum, o tal difícil segundo álbum, se confiarmos nas anciãs regras da pop, e, antes mesmo de o ouvirmos, já sabemos que não provocará a mesma euforia que a estreia homónima. Contra isso, fizessem o que fizessem, nada podiam os Vampire Weekend – o primeiro álbum, com os seus “Mansard roof” e os seus “Cape Cod kwassa kwassa”, com aquela forte luminosidade pop filtrada de audições atentas do Paul Simon “africano” de “Graceland”, com música contagiante e canções em estado de graça foi surpresa irrepetível. Ainda assim, há algo clássico na forma como “Contra”, fiel ao “look” de universitários letrados (como sabemos, não é redundância) dos Vampire Weekend, se alinha na

Os Vampire Weekend, sendo aquilo que nos levou a celebrá-los, mostram que também podem ser algo mais

perfeição com aquele que o antecedeu. Menos exuberante e menos festivo, mas imediatamente reconhecível, é um inteligente passo em frente. Recordemos os Strokes, outros célebres nova-iorquinos desta década. Depois do terramoto provocado por “Is This It?”, gravaram “Room on fire” e conseguiram prolongar o encantamento. Conseguiram-no da forma aparentemente mais fácil, ou seja, criaram o segundo álbum como reflexo detalhado do primeiro. Pagaram por isso: hoje, naturalmente, o reflexo é memória esbatida perante o corpo reflectido. Pois bem, os Vampire Weekend fizeram o mesmo, com uma diferença substancial. Observaram o reflexo no espelho e caracterizaramno, maquilharam-no, moldaram-no até ao ponto em que, reconhecendo-o, não o confundíssemos com aquilo que era antes da operação. “Horchata”, com as suas marimbas, tem aquela textura fantasiosa que é felicidade sublimada em dança e “Holiday”, com o baixo gingão e as guitarras em tangente indie às “africanices” habituais da banda, é um adorável pedaço de pop a pedir o Verão que há-de chegar – e ainda há o contagiante frenesim do single “Cousins”, com bateria a rufar, guitarras a silvar e os Devo a espreitar por trás da cortina. Não fosse o contexto, todas elas poderiam ser aquilo que lhes conhecíamos antes. Em “Contra”, servem como ponte. Porque nele se ouvem menos guitarras e mais electrónicas, porque aqui há samples de M.I.A. (na melancólica “Diplomat son”) e sintetizadores erguidos ao alto como secção de metais eufórica (a magnífica “Run”). Ao ouvir “Contra”, recordamo-nos que, recordam este ano, Rostam Batmanglij, multiBatmang instrumentista e instrume produtor dos prod Vampire Va Weekend, se W apresentou num delírio estival sintético s chamado c Discovery. D Talvez venha daí Tal o equilíbrio e “electrónico “el orgânico” do org álbum - vem daí álb certamente o ce Auto-Tunes na Au voz de Ezra vo Koenig na lenta Ko e encantatória e “California “C english”. eng Certo é que em C

“Contra”, os Vampire Weekend temperam a euforia com contenção, contrapõem sintetizadores borbulhantes às guitarras luxuriantes e, sendo aquilo que nos levou a celebrá-los, mostram que também podem ser algo mais..

Ceci n’est pas un fado
Obra incomum pela forma como se apresenta: fiel ao destino da guitarra sem jurar fidelidade ao seu fatalismo. Mário Lopes
Ricardo Rocha Luminismo Mbari Música

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No disco, ouve-selhe a respiração acompanhando o trinado da guitarra. Claro que é uma luta o que por ali vai, mas só o afirmamos porque sabemos da relação conturbada de Ricardo Rocha com o instrumento que o escolheu e do qual não pode agora escapar. Porque o que nos chega, quando o ouvimos, não é uma luta. É aquele som único a desenvolver-se corpo sem se metamorfosear numa outra coisa. Ricardo Rocha sempre fez

questão de afirmar que não é nem poderia ser seguidor de Carlos Paredes porque Paredes iniciou e fechou uma linguagem (a sua, inimitável). Digamos então que Ricardo Rocha, depois de “Voluptuária”, e, agora, com este surpreendente “Luminismo” (à guitarra, no CD1, sucedem-se peças para piano, no CD2, com homenagens ao compositor russo Alexander Skrajbin, de um romantismo etéreo, e perturbantes composições serialistas, ambas interpretadas pela austríaca Ingeborg Baldaszti), deixa também inscrita a sua marca na história do instrumento. O que se ouve em “Luminismo” não é fado. Sendo-o, só o será no sentido em que a guitarra, por mais que tente, não consegue escapar-lhe – é destino inscrito no código genético. Quanto ao mais, Ricardo Rocha transborda: nas dinâmicas conturbadas de “Abismo satânico”, no lirismo torrencial da versão de “Dança das sombras”, de Pedro Caldeira Cabral, ou na força cava, profunda, que emerge da imensa “Porto Santo”, de Carlos Paredes. Obra incomum pela forma como se apresenta, fiel ao destino da guitarra sem jurar fidelidade ao seu fatalismo, sem ambições de modernização e sem subjugação ao tradicionalismo, “Luminismo” é música inspirada, a música de um percurso único – e da guitarra em que essa música se exprime.

Ípsilon • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • 29

Discos
O norueguês Lindstrom também caiu na tentação da canção; com a cumplicidade de Christabelle Manu Dibango: ainda não a retrospectiva que ele merece

O novo ano começa quente
Um dos mais conhecidos produtores das electrónicas encontra uma musa inspiradora e o resultado é um álbum de canções ‘disco-pop-electrónicas’. Vítor Belanciano
Lindstrom & Christabelle Real Life Is No Cool Smalltow Supersound

alusões a “Wanna be startin’ something” de Michael Jackson e “Dr beat” de Miami Sound Machine, ou em “Let’s practise”, onde é quase inevitável pensar em algumas das canções mais conhecidas de Giorgio Moroder e Donna Summer. Mas há também digressões mais bizarras, como “Never say never”, com efeitos sonoros e vocais na mesma linha de improviso, ou “Lovesick”, pop electrónica de cabaret com libido lá dentro. No total são dez canções onde a falsa racionalidade electrónica compacta a sensibilidade pop provocando uma torrente de calor em pleno Inverno. O novo ano começa quente.

BlakRock: os “niggas” rockam e os “whiteys” groovam

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O norueguês Lindstrom também caiu na tentação. Parece fazer parte da ordem natural das coisas. Depois de se imporem com temas predominantemente instrumentais é natural que alguns dos músicosprodutores mais reconhecidos das chamadas músicas de dança queiram experimentar o formato canção. Aconteceu nesta década com Herbert (ao lado de Dani Siciliano ou Roisin Murphy) ou com o finlandês Vladislav Delay, com o projecto Luomo, para nos ficarmos por dois dos casos mais conseguidos. Para entramos em 2010 acontece agora com Lindstrom, um dos mais importantes produtores da última meia dúzia de anos, no campo das sonoridades dançantes de inspiração “disco”. A solo, ou ao lado do compatriota Prins Thomas, tem conseguindo impor-se com um número razoável de álbuns, máxisingles e remisturas. Faltava no seu currículo uma obra de maior sensibilidade pop. “Real Life Is No Cool” é essa obra, um álbum onde a voz macia e sensual da companheira de aventuras, a também norueguesa Isabelle Haarseth Sandoo, mais conhecida por Christabelle, lhe impõe novos desafios, superados com distinção. Quem conhece os elementos da música de Lindstrom vai reconhecê-los nesta obra – desenvolvimentos rítmicos orgânicos provenientes do “disco”, traços de funk borbulhante, ocasionais psicadelismos, dinâmica evolutiva – mas o todo final, resulta diferente, em canções aveludadas e ondulantes. Enquanto Christabelle canta palavras com algum erotismo, misto de malícia e inocência, a música subverte referências, algumas delas expostas à flor da pele. É isso que acontece em “Baby can’t stop”, com
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Carreira excepcional em resumo
Manu Dibango Makossa Man Demon, distri. Megamúsica afrobeat que responde pelo nome de “African boogie”. Mas, à semelhança de compilações prévias, esta enferma de problemas de licenciamento e há longos períodos que são omitidos, como é o caso das brilhantes parcerias com Eliades Ochoa e Simon Booth, nos anos 90. As notas que acompanham a compilação também são lacunares, reforçando a ideia de que aqui o propósito foi construir um alinhamento dançante em função do material disponível. O que não é nada mau, atendendo à prodigiosa elegância e versatilidade com que Manu Dibango sempre promoveu a festa. Mas também é certo que esta não é ainda a retrospectiva definitiva que ele há muito merece. Luís Maio

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Guitarras funk e ritmos makossa – essas são as premissas sobre as quais o sax vai improvisando, lânguido e sensual, em “Soul makossa”. É o tema mais célebre de Manu Dibango (Camarões, 1933), que em 1972 antecipou o disco sound, o afro jazz e a word music. Mas o fascínio de “Soul makossa” não reside tanto em ser uma receita vencedora, antes uma base susceptível de mil e uma piruetas musicais – o género que pode dar voltas durante horas sem nunca se repetir. É o que comprova mais prosaicamente “Reggae makossa” (1980), que transplanta o tema para um contexto jamaicano, acrescentando-lhe um hipnótico solo de vibrafone. Em retrospectiva, ou em função de uma compilação como a presente, a matriz de “Soul makossa” acaba por se reconhecer em muitas outras gravações, efectuadas ao longo de mais de 40 anos de carreira. Graças à incrível elasticidade das suas premissas musicais, o saxofonista camaronês pôde tocar um vasto ramalhete de estilos musicais - desde o psicadelismo ao highlife, passando pelo gospel e pelo reggae-, conservando-se actual, criativo e quase invariavelmente dançante. “Makossa Man” resume-lhe a carreira excepcional em 32 títulos distribuídos por dois CD, o primeiro centrado nos finais dos anos 60/ inícios do 70, o segundo abarcando um arco temporal mais largo que se estende até meados da década de 90. Estão lá os êxitos mais óbvios, mas também títulos menos conhecidos tão ou mais combustivos, como o ultra funk “Ah freak sans fric” e esse tratado de

Rockando o hip hop
BlakRoc BlakRoc V2; distri. Nuevos Medios

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Há alguns anos, os nossos olhos passaram por uma crónica em jornal britânico onde se cronista defendia que os génios do hip hop tinham dificuldade em compreender o rock. Como argumento definitivo, recordava-se um qualquer programa televisivo em que Jay-Z (ou seria Ice T ou Timbaland?), percorrendo a sua discoteca caseira, passava por nomes sagrados da soul. Depois, para demonstrar o seu ecletismo, Jay-Z, Ice T ou Timbaland retirou um CD da prateleira e exibiu-o à câmara: “Phil Collins. Este é o meu gajo!” É certo que as voltas insondáveis do gosto popular definiram que, neste preciso momento na história, Phil Collins está “in”. Ainda assim, o argumento do cronista, recorrendo a uma memória selectiva e

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

Espaço Público instrumental “Songs Tenho muito gosto em by the tumbled sea” partilhar as dos norte-americanos minhas escolhas The tumbled sea; “Soil pessoais, em termos creatures”, o quinto musicais, do ano de 2009. trabalho de Paddy Nos álbuns internacionais Mann que assina como os meus destaques vão Grand Salvo; e, acima de para: “Sometimes I wish tudo, Brian Borcherdt, we were an eagle”, de músico canadiano com as Bill Callahan, o Sr. Smog; excelentes colecções de “Collected recordings” do canções de 2004 a 2008 escocês Gareth Dickson; o incluídas nos álbuns
Amanda Blank: quase sempre divertido, quase sempre dançável contrição, há ainda “Leaving you behind”, que corta com o teatro porno e revela a cantora pop que há em Amanda Blank, num elegante dueto com Lykke Li. Luís Maio

“Torches”, “The Ward Colorado demos” e “Coyotes”. Na música a, portuguesa, a olha minha escolha mente recai novamente rto em Norberto a Lobo, desta feita um com o álbum “Pata lenta”. g, João Semog, 40 anos, artista

Jazz

Alemão suave
O lirismo, levemente abstracto, de um jovem pianista europeu. Rodrigo Amado
Jurgen Friedrich Pollock Pirouet, dist. Mbari esquecendo, por exemplo, que existe algo como a editora Stones Throw, poderá ter alguma sustentabilidade. Recordemos que os NERD se lembraram de gravar com os insignificantes Good Charlotte ou que Jay-Z “brincou” ao rock atirando-se de cabeça no lagar de azeite que é o agrupamento musical Linkin Park. Portanto, nem que seja para apagar tais atrocidades da memória, BlakRoc é bem-vindo. Colaboração dos Black Keys com nomes como Mos Def, RAZ, Raekwon, Q-Tip, um Ol’ Dirty Bastard vindo do além e um Noe anunciando-se desde Baltimore, nada tem de atroz. Estreita a relação óbvia que existe entre o hip hop e blues, com os Keys a criarem as bases bluesy-fumarentas, bluespsicadélicas, de batida mastodôntica à Led Zeppelin ou sinistras à filme de zombies, e os convidados a falar daquilo que interessa: de dores do coração, do dinheiro que chega ou não chega, de vidas difíceis tornadas mais fáceis porque, afinal, “The Black Keys got so much soul”. Perspectivando 40 anos de história, encontramos paralelismos entre este “BlakRoc” e o “Electric Mud” de 1970, álbum maldito de Muddy Waters, onde as canções do mítico bluesman foram banhadas em acidez psicadélica. Muddy Waters renegou o álbum, os puristas detestaram-no. Sobreviveu subterraneamente e, vinte anos depois, alguém como Chuck D, o imenso MC dos imensos Public Enemy, reabilitou-o orgulhosamente enquanto obra-prima. “BlakRoc” está longe de o ser - apesar dos falsetes de Dan Auerbach, o guitarrista dos Black Keys, ser contraponto perfeito ao imponente Noé de “Hard times”, apesar de Raekwon espalhar magia negra sobre o rock’n’roll tétrico de “Stay off the fuckin’ flowers”, apesar da soul-woman Nicole Wray, longínqua “protegida” de Missy Elliot. Mas, não sendo uma obra-prima, tem uma evidente honestidade estética e demonstra uma compreensão mútua que nos satisfaz. Basicamente, os “niggas” rockam e os “whiteys” groovam e o pessoal aprecia acompanhar a empatia que daí nasce. M.L. Amanda Blank I Love You Downtown, distri. Popstock O lirismo de Jurgen Friedrich seus conceitos harmónicos. John Hebert, particularmente, revela aqui enorme talento lírico, desenvolvendo imaginativas variações em torno das linhas do piano. Apesar de tocar frequentemente a solo, o pianista alemão revela-se um mestre na arte do trio, sabendo dar o espaço necessário para que as notas de Hebert e Moreno possam respirar. Ouça-se a suspensão dos tempos em “I am missing her”, original de Hebert, ou a introspecção lírica que transforma “Round midnight”, única versão do álbum, numa delicada canção repleta de dramatismo e nostalgia. belos momentos nas árias mais meditativas que apostam na dimensão “cantabile” das melodias, mas é menos convincente nas peças “di bravura”. Não se trata de uma questão técnica, pois Piau é bastante precisa na “coloratura”, mas sim retórica (no sentido em que a dimensão virtuosística tem de sublinhar o conteúdo semântico e dramático do texto) e de colorido vocal. Os seus agudos são acutilantes mas carecem de brilho e maior densidade. Assim, a sua versão da ária que abre a gravação (“Disserrativi, o porte d’Averno”, da oratória “A Ressurreição”) deixa bastante a desejar, sobretudo se a compararmos com a interpretação de Cecília Bartoli no disco “Opera Proibita”. Mas nos excertos da “Ode para o Dia de Santa Cecília” e das oratórias “Theodora”, “Alexander Balus” ou “Il Trionfo del tempo e del disingano”, Sandrine Piau mostra porque razão é uma conceituada intérprete de música barroca. Destaca-se ainda a participação do excelente tenor Topi Lehtipuu no dueto “As steals the morn upon the night” (extraído de “L’Allegro, il penseroso e il moderato”). Sob a direcção do violinista Stefano Montanari, a Accademia Bizzantina toca com brio e expressividade peças a solo como a sinfonia “The Arrival of the Queen of Sheba” ou o Largo do Concerto Grosso op. 2 nº3 (com óptimas intervenções dos oboés) e fornece uma base consistente para as peças cantadas. Todavia, podia explorar mais a dimensão teatral deste repertório. Cristina Fernandes

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Jackson Pollock, artista famoso pela sua “action painting”, pintava a ouvir jazz. Para além dessa ligação directa, poucos são os pontos em comum entre este “Pollock” e a obra do pintor norte-americano, um dos expoentes do expressionismo abstracto, possuidor de um estilo baseado na fisicalidade crua do movimento. Neste registo, todo o movimento é ponderado, elegantemente executado e calmamente reflectido. E é aí que está a grande beleza de “Pollock”, oitavo álbum do pianista e compositor alemão Jurgen Friedrich. Tendo conquistado inúmeros prémios, entre os quais os Gil Evans Award e Julius Hemphill Composition Award, Friedrich colaborou com nomes como Kenny Wheeler, David Liebman, Maria Schneider Jazz Orchestra ou NDR Bigband, conquistando reputação como um dos mais brilhantes jovens pianistas europeus. Neste segundo CD para a Pirouet, Friedrich faz-se acompanhar novamente pelo contrabaixista John Hebert e pelo baterista Tony Moreno, secção rítmica que revela a mais profunda empatia com o pianista, explorando e ampliando da melhor forma os

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“I Love You” é sobre as vicissitudes da maquilhagem e da toilette certa para dar nas vistas, sobre quem são as “gatas” que abanam melhor as ancas e o traseiro, sobre quem paga as bebidas mais o táxi para casa, mesmo que ela e o parceiro da noite saiam separados para não dar muita bandeira. Mas é sobretudo um disco de paleio de engate twentysomething, repleto de rimas hardcore e de diálogos de telenovela, conjugados com o único intuito de manter a pista de dança ao rubro. Seria vulgar, ou rasteiro, se Amanda não tivesse ao seu serviço produtores do quilate de Diplo, Switch e XXXChange (Spank Rock) e ela própria uma voz versátil que conjuga na perfeição o artifício pop e crueza rap. Todas as batidas em voga, dos revivalismos disco sound e electro ao tecno e aos ritmos marciais ao estilo M.I.A., são convocados, em receitas elásticas e aparatosas, que pelo meio vão introduzindo uma pilha de samplers, incluindo recitações de LL Cool J, Romeo Void e Santigold. É quase sempre divertido, quase sempre dançável e pelo menos um par de vezes a miúda de Filadélfia rebenta com a escala, produzindo hinos de discoteca estonteantes com “Something bigger, something better” e “Might like you better”. Para rematar, quase em jeito de

Clássica
Handel entre o céu e a terra Handel Between heaven and earth Sandrine Piau (soprano) Accademia Bizantina Stefano Montanari (violino e direcção) Naïve OP 30484

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Sob a designação “Céu e Terra”, o último CD da soprano Sandrine Piau reúne uma série de árias de oratórias e óperas de Handel, intercaladas por breves páginas instrumentais. A selecção é criteriosa, mas o resultado é desigual. A cantora oferece-nos

Ípsilon • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • 31

Concertos

Stefano Bolllani já foi considerado pela “Downbeat” um dos dez maiores jovens talentos do jazz

O organista João Vaz, figura central do agrupamento Capella Patriarchal, que actua este fim-de-semana nas sés de Lisboa e Porto fora do vulgar, nunca antes interpretada em Portugal. Trata-se de “A Floresta Encantada”, de Francesco Geminiani, resultante de uma encomenda ao compositor efectuada pelo arquitecto e cenógrafo Giovanni Niccolò Servandoni (1695-1766). A música devia servir como uma espécie de banda sonora para a pantomima “La Forêt Enchantée”, inspirada na obraprima do poeta italiano Torquato Tasso, “La Gerusalemme Liberata”, de 1580. Nela se descrevem combates imaginários entre cristãos e muçulmanos durante o cerco de Jerusalém, no fim da primeira cruzada. O texto centra-se nas tentativas de Goffredo di Buglione e Rinaldo para retomar o cerco de Jerusalém, depois de o mago Ismeno ter encantado a floresta de onde os guerreiros queriam trazer a madeira para construir as suas máquinas de guerra. A temática oferecia a Servandoni a oportunidade para realizar um espectáculo com grandes efeitos e ilusões cénicas, convocando os artifícios da maquinaria teatral barroca, o trabalho dos actores no domínio da pantomima e a música de Geminiani. Segundo consta, a apresentação deste projecto em Paris em 1754 não teve o sucesso que se esperava, mas Geminiani publicou pouco tempo depois em Londres uma versão para concerto da partitura, dividida em duas partes e intitulada “The Inchanted Forrest. An Instrumental Composition Expressive of the same Ideas as the Poem of Tasso of that Title”. Será esta a versão que poderemos ouvir no CCB, acompanhada pela leitura de excertos dos Cantos XIII e XVIII da “La Gerusalemme Liberata”, de Tasso, pelo actor Tiago Rodrigues. Não se trata propriamente de música programática ou descritiva, mas antes de música que serve de pano de fundo à acção, a complementa ou sublinha ou seu carácter, incluindo a reciclagem de vários “concerti grossi”, um género que muito contribuiu para a celebridade do compositor. Vicente de Fora e na Sé de Lisboa desde 2004 esde ram-se converteram-se já numa tradição. Este ano, o destaque vai para a estreia moderna de um conjunto de obras de Fr. unto Fernando de Almeida (ca. 1620o 1660) — uma Missa a quatro vozes e quatro Responsórios a oito vozes — pelo s agrupamento Capella mento Patriarchal, dirigido pelo hal, organista João Vaz Vaz. a Paralelamente, será possível escutar peças para órgão solo e para voz e órgão, de Dieterich Buxtehude (16371707), por João Vaz e pela contralto Inês Madeira. O programa do concerto de Lisboa (amanhã às 21h30, na Sé) será repetido no domingo, às 18h, na Catedral do Porto. Natural de Lisboa, Fr. Fernando de Almeida era frade professo da Ordem de Cristo, tendo sido mestre de capela no Convento de Tomar. Aluno do grande polifonista Duarte Lobo, foi autor de várias partituras religiosas, sobretudo para o ciclo de cerimónias da Semana Santa. Contase que D. João V ficou tão impressionado com a sua música, quando a ouviu no Convento de Tomar, que solicitou cópias para a sua Capela Real. Actualmente, a obra de Fr. Fernando de Almeida é quase desconhecida, constituindo os próximos concertos uma rara oportunidade para a reavaliar. Criado recentemente por João Vaz, o grupo Capella Patriarchal tem como principal objectivo a divulgação da música sacra portuguesa escrita entre os séculos XVI e XIX, apoiada na pesquisa de fontes musicais e nas práticas interpretativas históricas. Tem estreado várias obras inéditas em concertos em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente em Espanha e na Alemanha. C.F. “Downbeat” como um dos dez mais talentosos jovens músicos no jazz, uma distinção reafirmada pelos críticos do “site” All About Jazz, que o consideraram um dos mais importantes músicos de 2007. Com o álbum “Stone in the Water”, lançado no ano passado na editora ECM e gravado com este mesmo trio, Bollani aprofundou ainda mais o seu estilo bem característico, marcado por um profundo lirismo e uma suave delicadeza harmónica, ambos bem característicos de um determinado jazz de câmara europeu. Nascido em Milão, Bollani foi projectado para o meio profissional do jazz através de Enrico Rava, que o convidou a integrar uma das suas muitas formações. Desde então nunca mais parou, tendo participado em projectos de personalidades tão distintas como Phil Woods, Lee Konitz, Pat Metheny ou Gato Barbieri. Neste concerto, com Jesper Bodilsen no contrabaixo e Morten Lund na bateria, são de esperar interpretações de temas de Caetano Veloso, Tom Jobim ou Francis Poulenc, presentes no já referido “Stone in the Water”, assim como improvisos e variações em torno de composições originais, numa actuação que será certamente marcada pela profunda interacção musical do trio e pela técnica virtuosa de Bollani.

Clássica

Uma banda sonora setecentista
A música escrita por Francesco Geminiani para a pantomima “A Floresta Encantada” preenche o próximo concerto do Divino Sospiro, sob a direcção de Chiara Banchini. Cristina Fernandes
Divino Sospiro Direcção musical de Chiara Banchini. Com Tiago Rodrigues (narração).
Lisboa. Centro Cultural de Belém - Pequeno Auditório. Praça do Império. Sáb., 9, às 21h. Tel.: 213612400. 12,5€ a 15€.

“A Floresta Encantada”, de Francesco Geminiani O Divino Sospiro tem mantido com regularidade colaborações com instrumentistas e maestros de renome internacional na área da música barroca em programas sempre aliciantes. Entre as parcerias mais assíduas, conta-se o trabalho com a violinista italiana Chiara Banchini, que actuará mais uma vez com o agrupamento no próximo sábado, no Centro Cultural de Belém. O programa inclui uma obra

Pop O outro nome do mentor dos Mesa
Andrew Thorn
Coimbra. Salão Brazil. Largo do Poço, 3, 1º. Hoje, às 22h. Tel.: 239824217. 5€.

LUÍS RAMOS/ARQUIVO

Jazz

Sangue novo
Jovem revelação do piano abre a época jazz na Culturgest, este ano com sete concertos programados por Manuel Jorge Veloso. Rodrigo Amado
Stefano Bollani Trio Com Stefano Bollani (piano), Jesper Bodilsen (contrabaixo), Morten Lund (bateria).
Lisboa. Culturgest - Grande Auditório. Rua Arco do Cego - Edifício da CGD. Dom., 10, às 21h30. Tel.: 217905155. 18€.

Ano Novo com polifonia portuguesa
Capella Patriarchal Direcção musical de João Vaz.
Lisboa. Sé Patriarcal. Largo da Sé. Sáb., 9, às 21h30. Tel.: 218876628. Porto. Sé Catedral. Terreiro da Sé. Dom., 10, às 18h. Tel.: 222059028.

Andrew Thorn é João Pedro Coimbra, “inventor” dos Mesa e exBandemónio, mas não soa à elegância pop dos Mesa ou ao acid jazz de Pedro Abrunhosa por altura de “Viagens”. Precisamente por isso, aliás, é que João Pedro Coimbra, que agora ouvimos cantar pela primeira vez, e em inglês, escolheu inventar o heterónimo que se revelou no Verão passado com o EP de cinco temas “Brutes On The Quiet”, apresentado

Concerto de Ano Novo Com a particularidade de se centrarem no repertório sacro português das várias épocas da história da música, incluindo a recuperação de obras esquecidas, os concertos de Ano Novo que o Patriarcado de Lisboa e a editora Althus têm realizado na Igreja de São

A violinista italiana Chiara Banchini volta a dirigir o Divino Sospiro num concerto com um programa invulgar
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Apenas com 38 anos, o pianista italiano Stefano Bollani foi já considerado pela prestigiada revista

João Pedro Coimbra é Andrew Thorn

Espaço
Álbum-confirmação: Animal Collective, “Merriweather Post Pavillion”; Álbum-compilação: Vários, “Dark Was The Night”; Álbumbanda revelação: The XX, “XX”; Álbum-revelação artista masculino: DM Stith, “Heavy Ghost”; Álbumrevelação artista feminino: Fever Ray, “Fever Ray”; Álbum-esquecido: Patrick Watson, “Wooden Arms”; Álbum-regresso mais aguardado: The ar, Flaming Lips, “Embryonic”; Público MP3: Grizzly Bear, Álbum para matar saudades “Veckatimest”; de Burial: Boxcutter, “Arecibo Hidden Message”; Álbum-desilusão: Cameras, “Origin: Beirut, “Realpeople Holland/March Orphan”; Wild Beasts, of the Zapotec”, ex-aequo com “Two Dancers”; Yeah Fischerspooner, “Entertainment”; Yeah Yeahs, “It’s Blitz!”; Álbum mais sobrevalorizado: Dirty Royksopp, “Junior” Projectors, “Bitte Orca”; e... the last, but not the Canção do ano: Grizzly Bear, “Two least... Yeasayer, “Odd Weeks”. Álbuns que teimaram em não Blood”. deixar o leitor de CD José Couto, Tavira

O maestro polaco Krzystof Penderecki dirige a Orquestra Gulbenkian esta noite em Coimbra, no Salão Brazil. Com ele estão o guitarrista Jorge Coelho, o baterista Jorge Queijo e o baixista Miguel Ramos. Juntos, criaram um rock’n’roll de gingar nervoso, onde a tensão do pós-punk se cobre de um intenso mas sereno psicadelismo: ou seja, em “Me Jane”, põem a malta a dançar com riffs irrequietos e teclado efervescente, depois avançam por “Strip machine” como rockabillies futuristas, quais Wire de poupa bem medida, e acabam “Brutes On The Quiet” com uma óptima versão de “Overcome”, de Tricky. Esta noite, tocam em Coimbra. Mais lá para a frente, talvez os encontremos do outro lado do Atlântico. O EP chamou a atenção de Tom Sarig, manager de Lou Reed ou Blonde Redhead, e quando chegar o novo álbum, com edição prevista para este ano, é provável que viajem com ele pelos Estados Unidos. s. Mário Lopes com as redescobertas de coisas que julgávamos perdidas e o maravilhamento com o novo que é mesmo novo e o corpo mexe porque é novo, entre euforias e deslumbramentos, dizíamos, descobrimos alguém que a atravessou com uma discrição que, em perspectiva, só o engrandece. Old Jerusalem, Francisco Silva, cultor da Americana, dono de uma voz poética com a rara capacidade de se fixar num pedaço de vida particular, ínfimo, e transformá-lo em algo universal, editou esta década “April”, “Twice The Humbling Sun”, “The Temple Bell” e, já este ano, “Two Birds Blessing”, mote para o concerto que o leva amanhã ao Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. Ouvindo os seus discos em sequência, podemos falar de evolução – a música vai-se tornando menos rarefeita, vai crescendo em instrumentos e arranjos, vai-se st u concentrando cada vez mais con naquilo que lhe vimos logo a na início: são as histórias que conta iní que conduzem o que canta. Mas, qu ouvindo-os, percebemos algo mais: que evolução é, neste contexto, palavra feia e redutora. Old Jerusalem, ele que retirou nome a uma canção q Francisco Old Jerusalem de Will Oldham, foi caminhando d Silva leva Guimarães. Centro Cultural Vila Flor a nosso lado, oferecendo-nos “Two Birds Café-Concerto. Avenida D. Afonso palavras e melodias que se p Henriques, 701. Sáb., 9, às 23h. Tel.: Blessing” a 253424700. 2,5€. tornaram sombra t Guimarães retemperadora para os nossos Estamos em tempo de passos. Palavras e melodias, balanços e, olhando para acrescente-se, que o tornam trás, para esta década que um dos nomes inescapáveis da vai terminando, entre o u música que por cá vimos nascer estremecer dos mil mú nos conturbados anos 2000. M.L. cruzamentos, o entusiasmo

Agenda sexta 8

Os Minta no Maxime, esta quinta-feira
“A Miragem das Mil e Uma Noites”, de Rimsky-Korsakov. Áustria 2010 - Sinfonia nas Margens do Reno. Obras de Schumann.

Manuel Barrueco e Orquestra Gulbenkian Direcção musical de Miguel HarthBedoya.
Lisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian Grande Auditório. Avenida de Berna, 45A, às 19h. Tel.: 217823700. 10€ a 20€.

Jorge Moyano
Braga. Theatro Circo - Sala Principal. Av. Liberdade, 697, às 21h30. Tel.: 253203800. 8€.

Obras de Chopin e Schumann.

David Maranha + Manuel Mota + Riccardo Dillon Wanke
Lisboa. Galeria Zé dos Bois. Rua da Barroca, 59 Bairro Alto, às 23h. Tel.: 213430205. 6€.

Coral de São José e Orquestra do Algarve Direcção musical João Tiago Santos. Com Sandra Medeiros (soprano), Mário Alves (tenor), Luís Rodrigues (barítono).
Ponta Delgada. Teatro Micaelense. Largo de S. João, às 17h. Tel.: 296284242. 15€.

Alicia Nafé e Orquestra Nacional do Porto Direcção Musical de Joana Carneiro.
Porto. Casa da Música - Sala Suggia. Pç. Mouzinho de Albuquerque, às 21h. Tel.: 220120220. 16€. Áustria 2010 - Romantismo vienense. Obras de Webern, Wolf, Lieberson e Schumann..

Concerto de Reis.

Orquestra Clássica de Espinho Direcção Musical de Pedro Neves. Com Dora Rodrigues (soprano).
Arouca. Cinema Globo D’Ouro. R. Alfredo Vaz Pinto, Campo do Mosteiro, às 21h30. Tel.: 256944109.

terça 12
Carla Caramujo e João Paulo Santos
Lisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian Auditório 2. Avenida de Berna, 45A, às 19h. Tel.: 217823700. 10€.

Orquestra Filarmonia das Beiras Direcção Musical de António Vassalo Lourenço.
Vila do Conde. Teatro Municipal. Av. Dr. João Canavarro, às 21h30. Tel.: 252290050.

Strauss Festival Orchestra e Strauss Ballet Ensemble
Porto. Coliseu. R. Passos Manuel, 137, às 21h30. Tel.: 223394947. 15€ a 45€.

Grande Concerto de Ano Novo.

Obras de Berg, Schreker, Zemlinski, Strauss, Debussy, Chabrier, Lalo e Gounod.

Concerto de Ano Novo e Reis. Obras de Freitas Branco, Strauss, Healey e Cardoso.

Grupo de Cantares de Portalegre
Portalegre. Centro de Artes do Espectáculo - Grande Auditório. Pç. da República, 39, às 17h. Tel.: 245307498. Entrada gratuita.

Sean Riley & The Slowriders
Guimarães. CC Vila Flor - Café-Concerto. Av. D. Afonso Henriques, 701, às 23h. Tel.: 253424700. 2,5€.

Concerto de Reis.

Daniel Bernardes Trio Com Daniel Bernardes (piano), António Quintino (contrabaixo), Joel Silva (bateria).
Porto. Casa da Música - Sala 2. Pç. Mouzinho de Albuquerque, às 19h30. Tel.: 220120220. 7,5€.

Anneleen Lenaerts
Vila Real. Agência de Ecologia Urbana. R. do Corgo, às 16h. Tel.: 259308100. Entrada gratuita.

Maria Anadon Com Victor Zamora (piano), Léo Espinoza (baixo), Marcelo Araújo (bateria).
Lisboa. Onda Jazz. Arco de Jesus, 7 - ao Campo das Cebolas, às 22h30. Tel.: 919184867. 7€.

FAN - Festival de Ano Novo 2010.

quarta 13
B Fachada + Orquestra Invisível
Lisboa. Bacalhoeiro. Rua dos Bacalhoeiros, 125 - 2º, às 22h30. Tel.: 218864891.

Desbundixie Com Maria João (voz) e Filipe Melo (piano).
Leiria. Teatro Miguel Franco (Centro Cultural). Lg. Santana, às 21h30. Tel.: 244860480.

À sombra retemperadora de Old Jerusalem m

Orquestra Clássica de Espinho Direcção Musical de Pedro Neves. Com Dora Rodrigues (soprano).
São João da Madeira. Paços da Cultura. R. 11 de Outubro, 89, às 21h45. Tel.: 256827783. Entrada gratuita.

Vozes da Bulgária: Tríada + Hristov
Bragança. Teatro Municipal. Pç Cavaleiro Ferreira, às 15h. Tel.: 273302740. 5€.

Concerto de Ano Novo. Obras de Strauss, Gluck, Respighi, Canteloube, Hindemith e Bartok.

FAN - Festival de Ano Novo 2010.

L’Occasione Fa il Ladro + Trouble in Tahiti Direcção Musical de Moritz Gnann. Com João Merino, João Oliveira, João Cipriano, Marco Alves dos Santos, Raquel Alão, Ana Franco, Luisa Francesconi.
Lisboa. Teatro Nacional de São Carlos. Lg. S. Carlos, 17, às 20h. Tel.: 213253045. 10€ a 15€.

Adriana Miki Com Desidério Lázaro (saxofone), Joel Silva (bateria), Paulo Barros (piano), Sérgio Crestana (baixo).
Lisboa. Museu do Oriente - Auditório. Av. Brasília Edifício Pedro Álvares Cabral - Doca de Alcântara Norte, às 21h30. Tel.: 213585200. 10€.

Gala de Ópera de Ano Novo Com Sérgio Martins (tenor), Marina Pacheco (soprano) e Opera Ensemble.
Guarda. Teatro Municipal - Grande Auditório. R. Batalha Reis, 12, às 21h30. Tel.: 271205241. 10€.

Estúdio de Ópera - Programa Jovens Intérpretes. Obras de Rossini e Bernstein.

Tim Tim por Tim Tum
Fundão. A Moagem, Cidade do Engenho e das Artes Auditório. Lg. da Estação, às 22h. Tel.: 275774052. 4€.

OrangoTango Direcção Musical de Daniel Schvetz.
Lisboa. CCB - Pequeno Auditório. Pç. do Império, às 19h. Tel.: 213612400. 10€.

Pedro Moutinho
Oeiras. Auditório Municipal Eunice Muñoz. R. Mestre de Aviz, às 21h30. Tel.: 214408411. 12€.

Moazz - Ciclo de Jazz do Fundão.

B Fachada + Orquestra Invisível
Lisboa. R. dos Bacalhoeiros, 125 - 2º, às 22h30. Tel.: 218864891.

domingo 10
Coral Vértice Direcção Musical de Sérgio Fontão.
Lisboa. Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves. Av. 5 de Outubro, 6/8, às 16h. Tel.: 213540823. Entrada gratuita.

Concerto de Ano Novo.

quinta 14
Gábor Boldoczki, Jonathan Luxton e Orquestra Gulbenkian Direcção musical de Krzysztof Penderecki. Com Gábor Boldoczki (trompete), Jonathan Luxton (trompa).
Lisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian - Grande Auditório. Av. de Berna, 45A, às 21h. Tel.: 217823700. 10€ a 20€.

sábado 9
Joanna MacGregor
Lisboa. Culturgest - Grande Auditório. Rua Arco do Cego - Edifício da CGD, às 18h. Tel.: 217905155. 10€.

Concerto de Reis.

Orquestra Gulbenkian Direcção musica de Miguel cção musical al Ha Harth-Bedoya. arth-Bedoya a.
L Lisboa. Fundaçã e Museu Fundação ão Calouste Gulbe enkian Gulbenkian Grande Auditó Auditório. ório. Avenida de Berna, 45A, B às 16h. Tel.: 217823700. : 6€.

Strauus Festival Orchestra e Strauss Ballet Ensemble
Sintra. CC Olga Cadaval - Auditó Jorge Auditório Sampaio. Pç. Dr. Francisco Sá C Carneiro, às 18h. Tel.: 219107110. 25€ a 30€.

Obras de Haydn, Penderecki e Dvorák.

Grande Concerto de A Ano Novo.

Minta
Lisboa. Maxime. Pç. Alegria, 58, às 22h. Tel.: 213467090.

Orquestra Nacional do o Porto Direcção Musical Music de Joana

Young-Choon P Park
Chaves. Centro Cultural. Lg. Estação, Cultura às 21h30. Tel.: 276333 276333713. Entrada gratuita.

B Fachada com a Orquestra Invisível no Bacalhoeiro, em Lisboa
Carneir Carneiro.
Porto. Casa da Música - Sala Sugg Pç. Suggia. Mouzinho de Albuquerque, às 12 Tel.: 12h. el.: 220120220. 5€.

F FAN - Festival de Ano N Novo 2010.

Os A Azeitonas A pianista Joanna MacGregor amanhã na Culturgest
Lisb Lisboa. Cinema São Jorg Jorge - Sala 2. Av. Lib Liberdade, 175, às 22h30. Tel.: 22 21 213103400. 10€.

Sean Riley no Café-Concerto do Vila Flor, em Guimarães

Ípsilon • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • 33

Expos

É nos desenhos a carvão e nas litografias que a obra gráfica de Nikias Skapinakis mais se autonomiza da sua pintura

A independência do desenho
50 anos de trabalhos sobre papel de Nikias Skapinakis estão em Cascais. Luísa Soares de Oliveira
Desenho a preto e branco e a cores. Antologia gráfica (1958-2009) De Nikias Skapinakis.
Cascais. CC de Cascais. Av. R. Humberto II de Itália. Até 28/02. 3ª a Dom., das 10h às 18h.

Desenho.

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Nikias Skapinakis, ou Nikias, é um pintor que não deveria necessitar de apresentação. Embora tenha começado a expor em 1948, aos 17 anos, foi um dos protagonistas, durante a década de 60 (juntamente com Lourdes Castro, René Bertholo e Costa Pinheiro, por exemplo), da primeira conjunção entre arte portuguesa e arte internacional: ao mesmo tempo que, em Londres, Paris ou Nova Iorque, os artistas desenvolviam a Pop ou a figuração do “Nouveau Réalisme”, Nikias trabalhava contrastes de figuras planas e esquematicamente coloridas sobre fundos lisos. Para além da evolução própria da sua obra, que desenvolveu numa entrevista recente publicada no último Ípsilon, a sua pintura é até

hoje marcada por esta característica: campos coloridos rigorosamente delimitados pelo desenho, e uma radicação figurativa desenho constante. Mesmo quando parecem abstractas, as pinturas de Nikias possuem sempre essa longínqua filiação na realidade visível – ou, como sucede em certas séries, na realidade tal como foi imaginada pela história. Contudo, paralelamente a este trabalho de pintura, e em consonância ou não com ele, Nikias sempre praticou o desenho. Esta exposição, como outras demasiado raras que a precederam (uma na galeria 111, ainda na década de 90, e outra no Palácio Galveias, além da retrospectiva em Serralves, em 2000), dá apenas conta dos seus trabalhos sobre papel, apresentando duas selecções distintas que a própria montagem ajuda a diferenciar: uma, centrada nos cartazes e nas serigrafias, onde a cor intervém de forma explícita; e outra, nos desenhos a carvão e nas litografias, evidenciando uma autonomia desta disciplina em relação à pintura que o próprio artista situa como tendo começado em 1985. E são estas últimas obras, que se afastam daquilo que conhecemos da pintura de Nikias de uma forma marcante, que importa aqui destacar logo à partida. O artista elege dois tipos distintos de suporte: o rolo de papel higiénico e o papel de embrulho. O primeiro, que lhe terá sido sugerido pela descoberta

da pintura japonesa em rolo, convoca efectivamente o sentido narrativo: percebemos que há um início e um provável fim, e que o desenho se desenvolve sobre este suporte como um automatismo, um “doodle”, uma emergência de formas apenas regulada pelo ritmo da mão que desenha. Já os desenhos sobre papel kraft instituem quase sistematicamente a proeminência de uma figura sobre o fundo pardo. Esta figura, que apenas se identifica como tal não pelas suas características miméticas mas por o seu traço se fechar e encerrar um interior em oposição a um exterior, nunca é identificável. E inclusive Nikias, numa série conhecida, presta homenagem aos “tags” grafitados utilizando este tipo de signos abstractos como inspiração. Outras obras na exposição merecem atenção: as ilustrações feitas para “Quando os Lobos Uivam”, de Aquilino Ribeiro (1958), e as peças da série de “desenhos do Aljube”, entre as quais uma “Pomba” de 63 que recorda a mesma ave desenhada por Picasso; cenas populares dos anos 60, em litografia, também integráveis na produção modernista da época; e finalmente as serigrafias dos anos 70 e 80, muito próximas daquilo que a sua pintura era na altura, e em que a própria técnica utilizada favorecia a aplicação de manchas saturadas de cor pura, tal como acontecia nas telas.

Ap Apropriação, ilu ilusão ec crítica
“Pintura Para Uma Nova Sociedade” é o momento mais relevante na obra de um artista que tem permanecido indiferente ao reconhecimento e à consagração institucionais. José Marmeleira
The Return of The Real IX - João Fonte Santa
Vila Franca de Xira. Museu do Neo-Realismo. R. Alves Redol, 45. Tel.: 263285626. Até 31/01. 3ª a 6ª das 10h às 19h. Sáb. das 15h às 22h. Dom. das 11h às 18h.

Ilustração.

mmmnn
Vinte anos depois, João Fonte Santa (Évora, 1965) realiza finalmente a sua primeira exposição individual no espaço de uma instituição. Foi uma delonga solitária, quase esquecida, mas também a verdade é que este artista sempre se furtou, com maior ou menor responsabilidade, às instâncias dominantes da consagração do meio. Com uma produção afirmada, no passado, noutras artes visuais (banda desenhada e ilustração), um desenho e pintura figurativos e expressionistas (e devedores dessas A anatomia de Alberto Korda na Co

Agenda
EscoladeMulheres
oficinadeteatro

Inauguram
Debret De Vasco Araújo.
Lisboa. Museu da Cidade de Lisboa. Campo Grande, 245. Tel.: 217513200. Até 07/03. 3ª a Dom. das 10h às 18h. Inaugura 14/1 às 22h.

É Proibido Proibir! De Archizoom Associati, Studio 65, Grupo Sturm, Pierre Paulin, entre outros.
Lisboa. MUDE - Museu do Design e da Moda. R. Augusta 24. T. 218886117. Até 31/1. 3ª a 5ª e Dom. das 10h às 20h. 6ª e sáb. das 10h às 22h.

Jesper Just
Lisboa. Centro de Arte Moderna - José de Azeredo Perdigão. R. Dr. Nicolau Bettencourt. Tel.: 217823474. Até 18/01. 3ª a Dom. das 10h às 18h.

Temps d’Images 09. Vídeo, Instalação.

Escultura.

Design, Objectos, Outros.

Continuam
O Inverno do (nosso) Descontentamento De André Romão.
Lisboa. Kunsthalle Lissabon. R. Rosa Araújo, 7-9. Tel.: 918156919. Até 14/02. 5ª a Sáb. das 15h às 19h.

Moby Dick De João Pedro Vale.
Lisboa. Galeria Filomena Soares. R. da Manutenção, 80. Tel.: 218624122. Até 16/01. 3ª a Sáb. das 10h às 20h.

BES Revelação 2009 De Susana Pedrosa, Ana Braga, Inês Moura.
Porto. Museu de Serralves. R. Dom João de Castro, 210. Tel.: 226156500. Até 07/01. 3ª a 6ª das 10h às 17h. Sáb., Dom. e Feriados das 10h às 19h.

Outros.

Instalação, Outros.

Fotografia, Outros.

Crying My Brains Out De António Olaio.
Lisboa. Galeria Filomena Soares. R. da Manutenção, 80. Tel.: 218624122. Até 16/01. 3ª a Sáb. das 10h às 20h.

She is a Femme Fatale De Louise Bourgeois, Paula Rego, Cindy Sherman, Helena Almeida, Nan Goldin, entre outros.
Lisboa. Museu Colecção Berardo. Praça do Império - CCB. Tel.: 213612878. Até 31/01. Sáb. das 10h às 22h. 2ª a 6ª e Dom. das 10h às 19h.

Emissores Reunidos - Episódio II: Senhor Fantasma, Vamos Falar De Marcelo Cidade, Renato Ferrão.
Porto. Radiodifusão Portuguesa (Antiga RDP). R. Cândido dos Reis, 74. Até 24/01. 3ª e 4ª das 17h às 20h. 5ª e 6ª das 17h às 01h. Sáb. das 15h às 01h. Dom. das 15h às 20h.

Pintura.

The Hustler De João Louro.
Coimbra. Centro de Artes Visuais - CAV. Pátio da Inquisição, 10. Tel.: 239826178. Até 28/02. 3ª a Dom. das 14h às 19h.

Pintura, Escultura, Fotografia, Desenho, Vídeo, Outros.

Objectos, Outros.

David Claerbout
Lisboa. MNAC - Museu do Chiado. R. Serpa Pinto, 4. Tel.: 213432148. Até 28/02. 3ª a Dom. das 10h às 18h. Festival

Sem Saída, Ensaio Sobre o Optimismo De Augusto Alves da Silva.
Porto. Museu de Serralves. R. Dom João de Castro, 210. Tel.: 226156500. Até 31/01. 3ª a 6ª das 10h às 17h. Sáb., Dom. e Feriados das 10h às 19h.

Instalação.

Pronounciations De Katarina Zdjelar.
Coimbra. Centro de Artes Visuais - CAV. Pátio da Inquisição, 10. Tel.: 239826178. Até 28/02. 3ª a Dom. das 14h às 19h.

Temps d’Images 09. Instalação, Vídeo, Fotografia.
34 • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • Ípsilon

Fotografia.

Vídeo.

“Senhor Fantasma, Vamos Falar” na antiga RDP

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

“Estúdio”, de Nuno Ramalho e Renato Ferrão, na Fundação Carmona e Costa

João Fonte Santa opera sobre as imagens e os imaginários da ficção científica oitocentista mesmas artes) e uma inclinação para o apropriacionismo, João Fonte Santa foi sempre “marginal” ao acertar dos relógios; como aliás Alice Geirinhas, Pedro Amaral ou Pedro Pousada (este aparentemente afastado do circuito artístico), todos artistas com quem vai partilhando referências e preocupações. Pese embora o contexto institucional de “Pintura Para Uma Nova Sociedade”, João Fonte Santa não abandonou essa condição, a de um artista periférico. Dito de outro modo, a sua exposição no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, no âmbito do ciclo comissariado por David Santos, reafirma um trabalho (pictórico) que torna imagens preexistentes (vinda dos media ou das outras artes visuais) em imagens com uma premência crítica. Como uma arte pop mais “comprometida” com as suas próprias fontes, menos impessoal, mais “politicamente” debruçada sobre o real. Oito telas de grandes dimensões reproduzem um desenho de Jack Kirby (autor de banda desenhada clássica dos EUA) e ilustrações de Alphonse de Neuville e Edouard Riou para “Vinte Mil Léguas Submarinas”, de Júlio Verne (1870) e de Léon Benett para “Dois anos de Férias”, do mesmo escritor. Contrastam com o laranja saturado das paredes e, prateadas pela técnica do acrílico, brilham a espaços sob a luz artificial em pleno ambiente de salão oitocentista. Evidencia-se mesmo, perante o espectador, um jogo teatral, ilusório, com as superfícies das telas – situação que, se não é inédita na na Cordoaria Nacional obra de João Fonte Santa, ganha agora uma outra coerência. Movemo-nos e focos de luz apagam pormenores das pinturas. Criam buracos, vazios. Outros paradoxos, porque reconhecíveis, não são tão surpreendentes, mas “Pintura Para Uma Nova Sociedade” consegue ser a melhor exposição individual deste artista. Há na operação sobre as imagens e os imaginários evocados (a ficção científica, as utopias do século XIX, Júlio Verne) uma fluência conceptual mais assertiva e um uso ágil dos signos e significantes escolhidos. E são estes aspectos que permitem às pinturas libertar sentidos acerca da representação do outro utro (os índios em “Ces indigènes rôdèrent prés du Nautilus”, o monstro em “Un de ces longs bras se glissa par l´ouverture”), da condição existencial e da história do homem da pintura, travestida e pintu revelada revelad aqui sob a de forma d grandes e fantásticas fantástic ilustrações. Imagens que do passado simples, vêm simp despretensiosas, mas despreten acordadas, acordadas como a voz de Chomsky que se Noam Cho escuta em “Selling the story”, capitalist story” no ecrã escuro do vídeo colocado no centro da sala por João Fonte Santa.

(“Und wer´s nie gekonnt, der stehle weinend sich aus dem bund”, título retirado do bund” verso do libreto do “Hino à Alegria”, de Beethoven) ou da própria história

Obras de Referência dos Museus da Madeira: 500 Anos De História De Um Arquipélago
Lisboa. Galeria de Pintura do Rei D. Luís I. Calçada da Ajuda - Palácio Nacional da Ajuda. Tel.: 213633917. Até 28/02. Sáb. das 11h às 20h. 2ª a 6ª e Dom. das 11h às 18h.

Pintura, Escultura, Objectos, Fotografia, Outros.

Ínsulas De João Margalha.
Porto. Centro Português de Fotografia - Cadeia da Relação do Porto. Campo Mártires da Pátria. Tel.: 222076310. Até 16/02. 3ª a 6ª das 10h às 18h. Sáb. das 15h às 18h.

Fotografia.

Korda - Conhecido Desconhecido De Alberto Korda.
Lisboa. Galeria Torreão Nascente da Cordoaria Nacional. Avenida da Índia - Edifício da Cordoaria Nacional. Tel.: 213642909. Até 31/01. 3ª a 6ª das 10h às 19h. Sáb. e Dom. das 14h às 19h.

Fotografia.

Estúdio De Nuno Ramalho, Renato Ferrão.
Lisboa. Fundação Carmona e Costa. Ed de Espanha - R. Soeiro Pereira Gomes L1 - 6º A/C/D. Tel.: 217803003. Até 22/01. 4ª a Sáb. das 15h às 20h.

Instalação, Desenho, Outros.

Ípsilon • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • 35

Livros

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

Espaço Público

“o remorso de baltazar serapião”, de valter hugo mãe, é um retrato da brutalidade e do miserabilismo feudal, que reivindica que em todas as sociedades e regimes se esconde uma idade média armada de bestas. A violência pareceu-me porém excessiva, às vezes anti-natural,

contraponto forçado a uma escrita onde a poesia, a espaços, arranja tempo para dançar. 7 pais nossos (em 10) para que o remorso não seja em vão. Pedro Miguel Silva, 36 anos, Técnico de Comunicação Blogue: http://fuscolusco.blogspot.com

Ficção

Não ter um lugar
Mais que um grande livro sobre o Sul ou que um grande livro sobre o crescimento, é um grande livro sobre não ter um lugar João Bonifácio
Outras Vozes, Outros Lugares Truman Capote Sextante

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Um cânone não é somente uma lista de chaves para abrir a porta da erudição e assim ter acesso à classe ilustrada, para conforto dos nossos egos. No caso da literatura, o cânone serve, supostamente, de Redescobrir o extraordinário potencial de um escritor que nunca foi tão bom quanto poderia ter sido – à conta da sua extrema necessidade de exibir talento

fundação: ali se encontram ilustradas as pulsões que movem desde sempre os homens, ali se encontram as questões eternas. Claro que pode ler-se uma vida inteira de Eurípides, Sofócles, Hesíodo e Homero e ter o progresso “humano” (perdoem o exemplo caricatural) de um empreiteiro alistado nas fileiras do PS com ou sem D. E a um homem sensato e prudente não há nada que lhe garanta que os escritos de Heisenberg ou de Norbert Weiner não são mais fundamentais para a compreensão do mundo contemporâneo que os de Hanna Arendt. Podemos fazer o nosso próprio cânone e preferir Geoffroy Saint-Hilaire, Cabeza de Vaca, ou o Gilgamesh à saga proustiana, porque o cânone, por mais que queiramos, é “um” cânone. Só que um cânone, mesmo o nosso, o pessoal, depende da sua época e do vínculo aos valores dessa época, pelo que um cânone pessoal tem sempre uma dívida “ao” cânone da sua época. E o cânone literário ocidental foi sendo lentamente revisto desde o final da II Guerra. (Não há aspirante a literato que hoje não comece por Roth ou Faulkner em vez de Camus ou Flaubert.) A ascendência americana manifesta-se também nesse processo de releitura do cânone. “A Sangue Frio”, obra inúmeras vezes laudada como obra-prima de Truman Capote, faz hoje figura de ícone – o que nos causa dúvidas. Em tempos idos, se permitirem uma nota pessoal, seria capaz de apostar o mindinho em como “Outras Vozes, Outros Lugares”, romance de estreia do autor de “Breakfast at Tiffany’s”, era a sua carta de alforria ao génio. Isto há uns bons 15 anos. Relê-lo agora, com cuidada distância, é redescobrir o extraordinário potencial de um escritor que – parece-nos agora – nunca foi tão bom quanto poderia ter sido, à conta da sua extrema necessidade de exibir talento, seja o da pena, seja o da sua vingança sobre o mundo (que é ao que “A Sangue Frio” soa). Certo é que em “Outras Vozes, Outros Lugares”, escrito com precoces 23 anos, diversas marcas da escrita de Capote já estão formadas: a obsessão pelos “marginais”, aqueles a quem falta o centro de afecto sustentador do ego (a família); a obsessão pelas figuras que carregam tragédia; uma espécie de fundo de loucura, surdo, a perpassar o ambiente geral da narrativa; um olhar agudo sobre detalhes mínimos que permitem, por ampliação do objecto olhado, aferir do grau de desespero que escorre das personagens página fora. Se quisermos ser simplistas, há em Capote uma espécie de fascínio e repulsa pelas gentes sem eira nem beira, não no sentido da pobreza material, mas da sua própria inconsistência tectónica.

“Outras Vozes, Outros Lugares” narra a história de um garoto de 13 anos, Joel Harrison, que é enviado, após a morte da mãe, para junto do pai, no Sul dos EUA. Durante páginas a fio o pai não surge, e Joel fica entregue ao que se pode sem pejo designar por uma trupe de freaks: a mulher do seu pai, cujas rendas dos vestidos escondem uma histeria latente; Randolph, um sujeito doente e efeminado que passa os dias de roupão e cujo cavalheirismo deve tanto à sua opção sexual quanto à sua boa educação; a empregada negra que se queixa de ter sido abusada pelo exmarido; e o avô desta, um velho assustador e moribundo. Tudo naquela casa é ruína: material, já que a casa vai caindo numa degradação endémica; existencial, já que aquelas gentes vivem para nada: o velho à espera que a morte o leve, a neta à espera de fugir dali, a histérica à espera de não se sabe o quê, talvez adoptar Joel, talvez da aprovação de Randolph às suas manias; e Randolph à espera, claro, da morte, mas também do retorno de um tal Pepe. A escrita, aqui, ainda não é a lâmina fria de “A Sangue Frio”: é esguia como uma serpente, bruxuleando de imagens. Pode-se, com facilidade, tomar cada um dos ademanes de escrita de Capote como demonstração de génio, mas diga-se que um pouco de rédea na caneta não o teria prejudicado: perde-se demasiado tempo em descrições surrealistas da natureza (ainda que isso sirva para demonstrar a desintegração do inadaptado Joel), há demasiados sonhos estranhos e há demasiada escrita que tenta enfiar pelos olhos do leitor adentro demonstrações de talento. No entanto, é meticulosa a construção de um universo: mais que um grande livro sobre o Sul ou que um grande livro sobre o crescimento (esse é “Por Favor, Não Matem a Cotovia”, de Harper Lee, amiga de Capote), é um grande livro sobre não ter um lugar e não ser dono do seu caminho: Joel não é do Sul, não compreende o Sul e não compreende os seus próprios acessos de afecto, ora por uma pequena das redondezas, ora pelo próprio Randolph; Randolph não pertence àqueles maneirismos cavalheirescos, antes devia pertencer a um mundo que aceitasse a sua sexualidade; o pai, enfermo na cama, comunica apenas por uma bola de ténis que lança quando quer atenção – está igualmente preso a um lugar que não é o de um ser humano, preso a um vegetalismo que o condena à nulidade. Todos estão doentes, ou virão a estar – e essa condição é a visão do mundo que enforma o trabalho de Capote: todos estão no sítio errado, o corpo trai-nos, não conseguimos dominar as pulsões ou se conseguimos

pagamos um preço. Estamos, portanto, condenados a estar divididos. É uma visão terrível que torna (mais uma vez: numa opinião pessoal) “Outras Vozes, Outros Lugares” o grande livro de Capote, excessos de pena à parte.

Uma romena em Paris
Uma história intrigante sobre identidades no universo singular dos imigrantes vindos de Leste. José Riço Direitinho
A Bela Romena Dumitru Tsepeneag (trad. por Isabel Fraga) Oceanos

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Em 2008, o júri da 18.ª edição do Prémio da União Latina das Literaturas Românicas (que contava entre os seus membros Lídia Jorge e José Eduardo Agualusa) distinguiu o romeno Dumitru Tsepeneag (n. 1937). Entre os argumentos justificativos da distinção conta-se a “excelente qualidade artística dos seus romances, ensaios e memórias, mas também o seu empenho na defesa das formas literárias e da liberdade de expressão”, isto para além do facto de associar “na sua obra o experimentalismo literário à preocupação social e histórica”. Na Roménia dos anos 60 e 70, Dumitru Tsepeneag foi o líder da única corrente literária – o “Onirismo”, vagamente inspirada no “Surrealismo” – que se opunha ao “realismo socialista” do regime de Ceausescu. Tal destemor valeu-lhe desentendimentos com a polícia secreta romena (a temida “Securitate”), que culminaram em 1975, estando Tsepeneag em Paris (onde viria a pedir asilo político), com a retirada da nacionalidade romena em decisão assinada pelo próprio ditador. Tsepeneag faz parte do grupo de asilados romenos – com Herta Müller (a recente distinção do Comité Nobel), o poeta Oskar Pastior, entre outros – que começaram a escrever na língua do país que lhes deu acolhimento. Se até à queda do regime do tirano Ceausescu a obra de Tsepeneag procurava descrever a situação social e política na Roménia – o desejo das personagens deixarem o país e de irem ver o mundo –, no período que se lhe seguiu (e até hoje) ele tem procurado fazer um

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Espaço Público

O livro de Marin Gilbert, “A Segunda Guerra Mundial”, extraordinariamente bem escrito e com base em vasta documentação é de leitura obrigatória para todos, mesmo para aqueles que acham já tudo saber sobre este conflito mundial contemporâneo.

É até uma forma de sabermos ainda melhor entender o que não poucas vezes o ser humano consegue desfazer...de tão irracional que consegue ser... Augusto Küttner de Magalhães, ex–gestor de recursos humanos, 60 anos

retrato da Europa e dos seus imigrantes chegados do Leste, muitas vezes descritos a partir de dois pontos de vista, o do antigo exilado e o do novo emigrante. A literatura romena – à excepção do teatro de Ionescu e de umas quantas obras avulsas de ficção de Mircea Eliade – não tem despertado o interesse dos editores portugueses. Que me lembre, o único autor romeno recentemente por cá editado foi Mircea Cartarescu (“Porque Gostamos de Mulheres”, 2007), autor da genial trilogia Orbitor, já traduzida em mais de uma dezena de línguas. Mas agora, e graças ao prémio da União Latina – que reserva parte do montante para a tradução de obras do distinguido –, podemos ler também “A Bela Romena”, o mais recente romance de Tsepeneag. Nele se narram as muitas histórias de uma inquietante e bonita mulher que vive em Paris, diz ser romena e chamar-se Ana. A estrutura, algo fragmentada, do romance permite ao autor ir semeando a narração com factos que vão intrigando o leitor porque não fazem parte do que está a ser linearmente contado. Mas, aos poucos, eles parecem começar a obedecer a uma certa ordem interna que tem a ver com o passado desconhecido de Ana, a “mulher misteriosa, vinda das nascentes do Danúbio”. Com “o seu olhar de um azul tão escuro como o mar Negro em

Odessa”, como uma feiticeira, vai deixando marcas em todos os homens que com ela se cruzam. Pelo meio, há o dono de um café parisiense, Jean-Jacques, que por ela se apaixona e começa a ter sonhos eróticos. Um antigo cliente do café, o russo Iegor, envolve-se com ela e começa a ser atormentado pelos muitos mistérios que vão surgindo desde que encontra um pequeno gravador debaixo da cama. De que vive ela? Como consegue viver numa das zonas mais exclusivas da cidade? São perguntas para as quais Iegor não consegue obter respostas nas suas conversas pós-coito, que, mais do que esclarecedoras, vêm apenas adensar o mistério. Terá ela sido médica ou enfermeira na Roménia? Porque transporta para o café um livro escrito em alemão se diz não conhecer a língua? De que parte do seu passado vem Johannes, o seu amante alemão que a besunta com mel? Por que tem ela uma águia em casa presa numa pequena gaiola e a esconde na despensa sempre que Iegor a visita? A mulher que alguns homens quase juram ter avistado no Bosque de Bolonha é a mesma bela romena que se senta a bebericar vodca no café de Jean-Jacques? Porque dizia chamar-se Hannah e ser judia quando vivia em Berlim? E há ainda muito mais. Dumitru Tsepeneag, dono de um universo muito singular, é um autor que merece continuar a ser descoberto. Se até à queda do regime de Ceausescu a obra de Tsepeneag procurava descrever a situação social e política na Roménia, no período que se lhe seguiu tem retratado a Europa e dos seus imigrantes chegados do Leste

Infância sem limites
Ana Maria Matute regressa à infância, o território onde encaixam as metáforas de uma vida inteira. Rui Lagartinho
Paraíso inabitado Ana Maria Matute (Tradução de Maria do Carmo Abreu) Editorial Planeta

Matute comprova com este livro a confissão feita um dia de que desconfiava que a infância dura mais que a vida inteira.

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Há quase oito anos que não havia notícias de Ana Maria Matute (Barcelona, 1925). Não que os seus silêncios literários sejam uma novidade. Quem começa a publicar romances aos 17 anos ganha o direito ao ócio ou à reflexão mais cedo. “Paraíso Inabitado”, publicado o ano passado em Espanha e agora traduzido para português pela editorial Planeta, faz a síntese ente os dois capítulos da sua longa biografia literária. Num primeiro tempo, Matute pertence por direito próprio à geração conhecida por “Niños asombrados”, a que se fez adulta durante os anos da Guerra Civil espanhola (1936-1939). São romances filiados num realismo rural mas já dotados de uma prolífera imaginação que lhe permite desdobrar em sombras e sol cada personagem que a sua memória recria de forma poética. “Pequeño Teatro”, um dos primeiros Prémios Planeta (1954), é um exemplo dessa produção. Passam algumas décadas e descobrimos Ana Maria Matute imersa no imaginário das fadas, duendes, bosques e respectivos cavaleiros medievais. O tijolo “Olvidado Rei Gudú” (Difel 2001) é corolário desse sonho. Havia pois alguma expectativa sobre “Paraíso Inabitado”, escrito numa altura da vida (84 anos) que mesmo de forma involuntária é sempre de arrumações. Podemos dizer que Matute comprova com este livro a confissão feita um dia de que desconfiava que a infância dura mais que a vida inteira. Adriana cresce numa família madrilena burguesa durante a República Espanhola da década de 30 do século passado. A casa é grande, estratificada, densa, solene de lustres, veludos e tapetes. De um deles escapa-se uma noite um unicórnio que, passado breves instante, regressa à sua moldura.

Adriana estava atenta: “Às vezes, as recordações parecem-se alguns objectos, aparentemente inúteis, pelos quais sentimos um confuso apego. Sem saber muito bem por que razão, não nos decidimos a deitá-los fora e acabam por se amontoar no fundo dessa gaveta que evitamos abrir, como se lá fôssemos encontrar alguma coisa que não desejamos, ou inclusive tememos vagamente” A viagem do unicórnio é ponto de partida para esta longa viagem por um território geometricamente dividido e onde os “gigantes” raramente se misturam com quem

ainda não cresceu. Este livro cheira a cera dos soalhos recentemente polidos, sentem-se as mãos frias das criadas cúmplices dos primeiros segredos da protagonista tocaremnos através das páginas. Há uma mãe, e três irmãos que são o eixo central da casa, e depois há uma tia excêntrica que conduz um carro apelidado de “cafeteira” e um pai que se mudou com os livros para uma cidade onde há mar mas que às vezes regressa para levar a filha, vestida à Shirley Temple, aos cinemas da Gran Via madrilena. E há o pátio do prédio onde às vezes assomam “‘os pobres’. Uma

Ípsilon • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • 37

espécie de tribo assentada do outro lado das muralhas, vagamente ameaçadora, que era necessária acalmar de Natal em Natal com roupas usadas, latas de conservas e brinquedos com os quais já ninguém se divertia”. Também no pátio vive Gavrila, o filho de uma bailarina ausente. É com ele que Adriana vai aprender a voar e a perceber o que é e quais são os limites desse mesmo amor. É como se Alice se cruzasse com Peter Pan. “Paraíso Inabitado” é, pois, um bosque de cimento onde a recriação mágica que se pode fazer da infância não tem limites, mas de onde se tiram lições: “Podemos passar dias, mesmo anos, movendo-nos numa neblina onde quase não tomamos conhecimento do que se passa à nossa volta. Algo semelhante penso agora me aconteceu”. Um livro que se constrói com uma prosa transparente semelhante ao cristal com que se armaram os lustres que caem do tecto em forma de aranha. Mas depois não sabemos nunca se a mesma aranha, o próprio bicho, não se cruzará connosco vinte páginas mais tarde. Se o fizer entra e sai fugaz como o unicórnio, sem deixar qualquer marca de sadismo no território que atravessou. Ou pelo menos disso não há recordação. Nem trauma. Apenas constatação de um facto. Apostamos que Ana Maria Matute dificilmente aceitaria que um livro seu fosse um dia ilustrado por Paula Rego. Aqui, a magia é mesmo branca.

Livros

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

O conto mais interessante deste volume é o de Dulce Maria Cardoso

O inexprimível nada
Dez autores de língua portuguesa escrevem contos sobre a felicidade. Pedro Mexia
Em Busca da Felicidade - Dez histórias Vários autores Dom Quixote

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Além de algumas panorâmicas substanciais do conto português, como as de João de Melo e Vasco Graça Moura, saíram nos últimos anos uma quantas antologias que geralmente reúnem autores de determinada editora. A Campo das Letras e a Quasi, por exemplo, ou a Cotovia, que publicou um volume de qualidade. Quanto à Dom Quixote, casa de muitos ficcionistas portugueses, fez em 2005 uma arca
38 • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • Ípsilon

de Noé chamada 40 – Quarenta, que ia ao fundo porque entre os autores seleccionados não havia, nem de longe, quarenta escritores propriamente ditos. Esta nova antologia, “Em Busca da Felicidade”, reduz o número a dez, com resultados um nadinha mais apresentáveis. A “felicidade” é um tema literário difícil, muito mais difícil do que a infelicidade. Se a felicidade é, para citar um poeta italiano, o “inexprimível nada”, então o conto mais interessante deste volume é o de Dulce Maria Cardoso, pequena vinheta de um casal em férias que talvez lembre Hills Like White Elephants, de Hemingway, em registo mais leve. Não se passa nada, quase nada, lazer e bom tempo, copos de vinho e discussões amáveis. A felicidade aparece como sinónimo de beleza, de beleza como estado de espírito, como plenitude, os sentidos todos lassos mas atentos. E, no entanto, surgem indícios de infelicidade, da vida dos insectos às crianças com problemas, rumores ou incidentes mínimos que turvam a felicidade ou mostram que a felicidade tem um contexto, é um parêntesis sempre ameaçado. Um dos motivos de interesse deste “Em Busca da Felicidade” é a presença de três vencedores do Prémio Saramago, geralmente apontados como três dos mais interessantes autores novos. Nesta colectânea, valter hugo mãe (1971) é de longe o mais forte. Trata-se, como de costume, de uma história rural e visceral, neste caso sobre um homem que se envolve com mulheres casadas até as fazer viúvas, e que depois se desinteressa: “(…) passava-me pela cabeça que o mal que este queria às mulheres casadas seria mais exactamente um mal que queria aos maridos, se era destas que se ia livrando. não o comentei senão com a minha avó, que o zequelino haveria de escolher a dedo as

mulheres dos homens que queria matar. e elas, burras, caíam por ele e faziam por ele o que lhes pedisse. Uma velha de coração perdido é uma suicida” (pág. 134). Uma espécie de maldição sexual, amores desenfreados que levam à perdição dos “corações estragados” (o conto de Maria do Rosário Pedreira é muito semelhante, enquanto Maria Antonieta Preto opta por um quase realismo mágico bastante frouxo). José Luís Peixoto (1974) antecipa a felicidade sexual de um casal, ainda antes de ter acontecido alguma coisa, e o conto oscila entre o sentimentalismo e o engenho de um texto que é um programa que pode ou não ser cumprido. Quanto a João Tordo (1975), continua fiel à sua concepção da narrativa como jornalismo, com um português em Londres que investiga um caso de violência racista. O conto não tem nada de errado, mas lê-se e esquece-se. A presença africana vai do trivial (o primeiro dia de aulas narrado por Ondjaki) ao desagradável (um conto revanchista de Pepetela sobre os autores angolanos exilados). Pelo que o outro ponto alto é o conto de Lídia Jorge, uma tocante descoberta do cristianismo por duas crianças. Duas crianças que não acreditam que o menino deitado nas palhinhas e o homem pregado numa cruz sejam a mesma pessoa, que não aceitam aquela cruel repetição anual de nascimento e morte, e que por isso, na sua ingenuidade, dão sumiço a uma imagem religiosa valiosa. Ao contrário do conto de Patrícia Reis, que figura directamente Deus como personagem, uma tentativa sempre condenada a um retumbante fracasso, Lídia pega numa hipotética memória infantil e, por assim dizer, salva o cristianismo de si mesmo, ou seja, destaca aquilo que nele é bondade daquilo que é sofrimento. Claro que se trata de uma ilusão infantil, mas é uma bela ideia de felicidade.

Cinema

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

Espaço Público

“Where The Wild Things Are” é um filme para crianças pouco convencional e bastante deslocado. Esqueçam a varinha do Harry Potter ou as crónicas semanais da Narnia, aqui navegamos por territórios estranhos ao cinema infanto-juvenil do costume numa

honestidade desarmante no que diz respeito à infância e ao que julgamos poder vir a ser o mundo, reis e senhores de um universo que é perfeito até medirmos forças com a realidade. Está tudo lá: a irreverência, o medo, a descoberta, a desilusão, num retrato descomprometido

mas incisivo sobre os fantasmas que percorrem a infância. 8 monstros em 10. iguel Pedro Miguel Silva, 36 cnico anos, Técnico de cação Comunicação Blogue: http: usco. co o /fusco-lusco. t. blogspot. com

“Estrela Cintilante” fala: do poder quase sagrado da palavra (escrita ou falada) para nos abrir portas, caminhos, janelas que nos mostram quem somos, quem podemos ser, quem queremos ser

câmara que a saúde frágil de Keats confina a salas, salões, quartos. A natureza, em “Estrela Cintilante” é uma Natureza idealizada, que Keats regista na sua memória num dos espaçados planos de exteriores do filme e depois reconstitui na sua poesia ornamentada à qual a voz de Ben Whishaw dá uma vida extraordinária (à atenção da distribuidora: é inexplicável e lamentável que o poema lido por Whishaw ao longo do genérico final não esteja legendado). Retrato assombroso de um romance moderno antes do seu tempo, “Estrela Cintilante” é um poema em cinema. E o primeiro grande filme de 2010.

O dia do desespero
responsabilidade dela mas sim das expectativas que o triunfo improvável de “O Piano” (1993) colocaram nos ombros de uma cineasta que segue uma musa muito pessoal e ainda mais peculiar. De tal modo que os olhares mais mercantilistas olharam para “Retrato de uma Senhora” (1996), “Fumo Sagrado” (1999) e “Atracção Perigosa” (2003) como “suicídio comercial” a longo prazo – esquecendo o modo como cada um desses três filmes se inscrevia com naturalidade no percurso de uma realizadora mais atenta às correntes subterrâneas das suas personagens do que à recepção comercial de filmes que não foram pensados para serem “blockbusters”. Isto tudo para dizer que, como é habitual em Campion, “Estrela Cintilante”, primeiro grande (que dizemos? Grandíssimo, extraordinário) filme que estreia em 2010, vai começar por ser visto como uma daquelas biografias históricas muito britânicas de irrepreensível reconstituição de época. Ou não contasse a história verídica (mas livremente romanceada por Campion a partir da pesquisa realizada por Andrew Motion, biógrafo do poeta) do romance entre John Keats, um dos grandes poetas românticos do princípio do século XIX, e Fanny Brawne, a sua jovem e arrebatada vizinha. Romântico é a palavra certa para descrever o amor de Keats e Fanny, noivado que a morte prematura do poeta impediu de consumar, mas se à superfície o filme cumpre muitas das figuras obrigatórias do género, um simples olhar por baixo do tapete descobre mais um daqueles “retratos de senhora” em que a realizadora é perita – uma mulher imperiosa e insegura ao mesmo tempo, à frente do seu tempo, moderna, determinada. A Fanny de Abbie Cornish é uma jovem que pode não ter verdadeiramente experiência de vida, mas entrevê nas palavras que Keats escreve a possibilidade de uma emoção de tal modo transcendente que raia o sagrado. E é disso que “Estrela Cintilante” fala: do poder quase sagrado da palavra (escrita ou falada) para nos abrir portas, caminhos, janelas que nos mostram quem somos, quem podemos ser, quem queremos ser; da palavra poética como ponte espiritual entre as pessoas; do amor como experiência sensorial de uma transcendência inexplicável mas que, em condições ideias de temperatura e pressão, consegue ser traduzida em palavras. E, para melhor o traduzir para os seus espectadores, Campion filma tudo isto no âmbito de um peculiar triângulo amoroso (o terceiro vértice é Charles Brown, amigo, anfitrião e auto-nomeado protector de Keats com quem Fanny se pega desde o primeiro encontro), como se fosse um idílio pastoral literalmente de

Estreiam

A defesa do poeta
O novo filme de Jane Campion finta todas as expectativas do filme de época para contar uma arrebatada paixão moderna despoletada pelo poder da palavra. Jorge Mourinha
Estrela Cintilante Bright Star De Jane Campion, com Paul Schneider, Thomas Sangster, Abbie Cornish, Kerry Fox. M/12

O filme que John Hillcoat tirou do romance de Cormac McCarthy é uma viagem sem regresso a um mundo pós-apocalíptico onde a humanidade enfrenta o fim da esperança. Jorge Mourinha
A Estrada The Road De John Hillcoat, com Viggo Mortensen, Kodi SmitMcPhee, Robert Duvall. M/16

MMMMn
Lisboa: Castello Lopes - Cascais Villa: Sala 1: 5ª 2ª 3ª 4ª 16h20, 18h50, 21h50 6ª 16h20, 18h50, 21h50, 00h10 Sábado 13h30, 16h20, 18h50, 21h50, 00h10 Domingo 13h30, 16h20, 18h50, 21h50; Castello Lopes - Loures Shopping: Sala 4: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h55, 15h20, 18h10, 21h40, 00h10; CinemaCity Alegro Alfragide: Sala 5: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 13h45, 16h, 18h30, 21h40, 24h Sábado Domingo 11h30, 13h45, 16h, 18h30, 21h40, 24h; CinemaCity Campo Pequeno Praça de Touros: Sala 7: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 14h05, 16h30, 18h55, 21h45, 00h05 Sábado Domingo 11h45, 14h05, 16h30, 18h55, 21h45, 00h05; Medeia Saldanha Residence: Sala 8: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h30, 17h, 19h30, 22h, 00h30; UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 5: 5ª 6ª Sábado 2ª 3ª 4ª 14h10, 16h40, 19h05, 21h55,

MMMMn
Lisboa: Castello Lopes - Londres: Sala 1: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 14h, 16h30, 19h, 21h30 6ª Sábado 14h, 16h30, 19h, 21h30, 24h; CinemaCity Campo Pequeno Praça de Touros: Sala 6: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h45, 16h20, 19h, 21h25, 23h50; Medeia Monumental: Sala 4 - Cine Teatro: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h30, 17h, 19h30, 22h, 00h30; UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 14: 5ª 6ª Sábado 2ª 3ª 4ª 14h05, 16h40, 19h15, 21h45, 00h15 Domingo 11h30, 14h05, 16h40, 19h15, 21h45, 00h15; ZON Lusomundo Amoreiras: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 15h40, 18h20, 21h20, 24h; ZON Lusomundo Oeiras Parque: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 15h50, 18h40, 21h35, 00h20; ZON Lusomundo Almada Fórum: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40, 16h30, 20h55, 23h45; Porto: Arrábida 20: Sala 14: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 14h05, 16h45, 19h25, 22h10, 00h55 3ª 4ª 16h45, 19h25, 22h10, 00h55; Medeia Cidade do Porto: Sala 1: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h10, 16h40, 19h10, 21h40; ZON Lusomundo NorteShopping: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h30, 18h, 21h10, 00h10;

série ípsilon II
Sexta-feira, dia 15 de Janeiro, o DVD “Juno”, de Jason Reitman.
Todas as sextas,

por €1,95.

20
anos

Um filme de sucesso pode fazer muito mal a um realizador que não lhe está habituado – no caso da neozelandesa Jane Campion, o problema não é tanto

O apocalipse tem sido recorrente no cinema recente, mas o que Hillcoat faz ultrapassa a fancaria digital de Emmerich ou até a visão da metrópole abandonada do “Ensaio Sobre a Cegueira” de Meirelles
Ípsilon • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • 39

Cinema

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

00h25 Domingo 11h30, 14h10, 16h40, 19h05, 21h55, 00h25; ZON Lusomundo Alvaláxia: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40, 16h25, 19h, 21h50, 00h25; ZON Lusomundo CascaiShopping: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h30, 16h20, 18h50, 21h40, 00h15; ZON Lusomundo Colombo: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h40, 15h25, 18h, 21h15, 23h50; Castello Lopes - Rio Sul Shopping: Sala 3: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 15h20, 18h50, 22h, 00h40 Sábado Domingo 12h40, 15h20, 18h50, 22h, 00h40; ZON Lusomundo Almada Fórum: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h40, 15h15, 18h, 21h45, 00h25; Porto: Arrábida 20: Sala 2: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 14h05, 16h45, 19h25, 22h10, 00h45 3ª 4ª 16h45, 19h25, 22h10, 00h45; ZON Lusomundo Dolce Vita Porto: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h20, 15h50, 18h40, 21h30, 00h10 ; ZON Lusomundo GaiaShopping: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h50, 16h30, 19h10, 21h40, 00h20 ; ZON Lusomundo NorteShopping: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 16h20, 19h10, 22h, 00h40; ZON Lusomundo Parque Nascente: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40, 16h10, 18h50, 21h40, 00h25; ZON Lusomundo Fórum Aveiro: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 13h30, 16h15, 19h, 21h45 6ª Sábado 13h30, 16h15, 19h, 21h45, 00h30;

Enquanto víamos “A Estrada”, demos por nós a pensar que o filme de John Hillcoat apenas vai ter uma fracção infinitesimal dos espectadores que assistiram à super-produção de Roland Emmerich “2012”. Vai de si: as pessoas hão-de sempre preferir um apocalipse que “encha o olho”, cheio de milagres tecnológicos que salvam o futuro da humanidade à última hora, do que um que nos recorde como a nossa existência na Terra é frágil, à mercê dos elementos e, apesar de toda a esperança, sem salvação garantida. O apocalipse tem sido assunto recorrente no cinema recente, mas o que Hillcoat faz a partir do romance de Cormac McCarthy ultrapassa a fancaria digital de Emmerich ou até a perturbante visão da metrópole abandonada do “Ensaio Sobre a Cegueira” de Fernando Meirelles. O mundo destruído, moribundo, angustiantemente plausível de “A Estrada” é um daqueles “milagres” que ainda só o cinema consegue criar – um equivalente invertido, cinzento e “flat”, da demiurgia Cameroniana de “Avatar”. Não é, no entanto, nessa oposição fácil e gratuita do filme inane de grande espectáculo ao filme intimista de prestígio que reside o discreto triunfo de “A Estrada”. Nem no facto do australiano Hillcoat (que apenas conhecemos entre nós do western dos Antípodas “Escolha Mortal”, 2005) e do argumentista inglês Joe Penhall terem conseguido adaptar o supostamente inadaptável romance de McCarthy, transcendendo uma pós-produção complicada que viu a estreia do filme, rodado em 2008, atrasada de quase um ano. Esses factores ajudam, claro, e não é pouco – a par de uma impecável produção artística e técnica (a fotografia cinzenta, dessaturada de Javier Aguirresarobe, o design de produção meticuloso de Chris Kennedy), a par das interpretações assombrosas de Viggo Mortensen e do estreante australiano Kodi Smit40 • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • Ípsilon

McPhee no papel do pai e do filho que percorrem uma América pósapocalíptica em busca de uma quimera que talvez já não exista. Mas o verdadeiro triunfo de “A Estrada” é no modo como Hillcoat articula todos esses elementos numa visão angustiante, aterradora, incomodativa, de um mundo morto e sem esperança, onde a humanidade está reduzida a uma selvajaria animal e impiedosa, a uma sobrevivência primal. Onde um homem e um menino procuram, quase como D. Quixote investindo contra os moinhos, manter viva a chama de uma civilização, por mais trémula que ela seja, no mais absoluto negrume. Hillcoat faz deste mundo perdido em que nos mergulha impiedosamente o palco improvável de uma meditação sobre a herança, a transmissão, a esperança. Inverte de modo hábil as coordenadas habituais do cinema de género e da ficção apocalíptica para as reduzir a um mero esqueleto, amputado de heroísmos e fantasias, do qual apenas resta um instinto tribal de sobrevivência confrontado com um mundo onde todas as referências e padrões desapareceram para talvez nunca mais regressarem e onde o desespero e a morte são perseguidores incansáveis. Talvez haja mais de super-herói neste pai que teima em sobreviver no que em todas as fitas de super-heróis jamais feitas (e não é inteiramente casual que seja Viggo Mortensen, consagrado pelo heróico Aragorn do “Senhor dos Anéis”, a entregar-selhe com esta paixão). O que reside no fim da estrada que Hillcoat desenha não sabemos, tal como não sabemos o que causou o apocalipse que destruiu a civilização; o que sabemos é que a viagem em que ele nos leva exige um estômago forte (espíritos frágeis, abstenham-se) e nos devolve à realidade singularmente impressionados.

Porto: Arrábida 20: Sala 13: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 14h20, 16h35, 18h55, 21h30, 00h10 3ª 4ª 16h35, 18h55, 21h30, 00h10; ZON Lusomundo Dolce Vita Porto: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40, 16h20, 19h, 21h50, 00h25;

Spike Jonze, até nos telediscos (alguns nada maus), tem um interesse particular por neuroses e outros macaquinhos no sótão (“Being John Malkovich”, “Adaptation”). Não é, portanto, razão para grande surpresa que agora apareça com esta fábula levemente freudiana, feita de tristeza, raiva, uns pozinhos de Édipo e toda aquela “quirkiness” (falta-nos melhor palavra em português), aliás já a caminho de se tornar um bocado irritante, característica dos filmes dele, dos de Charlie Kaufman, e doutros que andam por essa órbita. “O Sítio das Coisas Selvagens” diz que está tudo na mente; e se na mente está tudo o que entristece e enfurece, que se encontre na mente o remédio. É a moral da história, aparentemente fiel à do livro adaptado pelo argumento, espécie de “clássico moderno” da literatura infantil americana, da autoria de Maurice Sendak, e publicado nos anos 60 (um bocadinho de investigação rapidamente nos deixa mais curiosos com o livro do que interessados no filme de Jonze). Reduzida ao esqueleto, a intriga tem a limpidez de qualquer fábula. Um miudo zanga-se com a irmã, com a mãe, com o namorado da mãe, e no cúmulo da raiva abre-selhe uma porta mental qualquer que o conduz a um mundo imaginário, povoado por criaturas vagamente parecidas com bois, cães e outros animais, e mais ainda com os Marretas (o que não é de estranhar, porque as criaturas foram feitas pela Jim Henson Creature Shop). Depois dos quipróquós iniciais os bois e os cães (que têm vozes famosas: James Gandolfini, Forest

Marretas no sótão
O Sítio das Coisas Selvagens Where the Wild Things Are De Spike Jonze, com Catherine Keener, Max Records, Mark Ruffalo. M/12

MMnnn
Lisboa: CinemaCity Alegro Alfragide: Sala 6: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 13h30, 15h30, 17h30, 19h30, 21h30, 23h30 Sábado Domingo 11h35, 13h30, 15h30, 17h30, 19h30, 21h30, 23h30; Medeia Monumental: Sala 1: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40, 15h40, 17h40, 19h40, 21h40, 00h15; UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 13: 5ª 6ª Sábado 2ª 3ª 4ª 14h30, 16h45, 19h15, 21h30, 23h50 Domingo 11h30, 14h30, 16h45, 19h15, 21h30, 23h50; ZON Lusomundo Amoreiras: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h30, 16h10, 19h, 21h50, 00h10; ZON Lusomundo CascaiShopping: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 16h10, 18h40, 21h25, 23h50; ZON Lusomundo Oeiras Parque: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h15, 16h, 18h35, 21h15, 23h50; ZON Lusomundo Almada Fórum: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 15h25, 17h50, 21h50, 00h20;

Sorry, Spike, das outras vezes funcionou um

As estrelas do público
Avatar Cinzas e Sangue Deixa Chover Depois das Aulas Estrela Cintilante A Estrada $9.99 Sherlock Holmes O Sítio das Coisas Selvagens Um Profeta

Jorge Mourinha mmmnn mmnnn mmmnn mmmmn mmmmn mmmmn mmmmn mmnnn mmmnn mmmmn

Luís M. Oliveira mnnnn nnnnn mmnnn mmmmn nnnnn nnnnn nnnnn nnnnn mmnnn mmmmn

Mário J. Torres mmnnn mnnnn nnnnn mmmmn nnnnn nnnnn nnnnn mmnnn nnnnn mmmmn

Vasco Câmara mmnnn nnnnn nnnnn mmmmm mmmnn mnnnn nnnnn nnnnn mmnnn mmmmn

Whitaker, Chris Cooper) tratam o miudo nas palminhas, aclamam-no como o “Rei” (o “rei” que ele gostava de ser em casa, naturalmente). Finalmente, o miudo farta-se de tanto mimo, ou lembra-se que não há amor como o amor de mãe. Causa um certo efeito, durante algum tempo. A aposta é confrontar uma psique infantil, no que ela tem de mais definido, com a estranheza desconexa do universo das criaturas, que é uma representação enviesada de uma mistura de sentimentos (a tristeza, a raiva, o amor, o despeito) e de uma teia de relações, complicadas e incompletamente explicadas, que por sua vez está no lugar do “mundo dos adultos”. A cena da chegada à ilha (é duma ilha que se trata) é francamente boa: há ali uma violência vinda do nada (as criaturas andam a destruir casas, ou lá o que é), uma reformulação dos clássicos “ogres” ou clássicas “fadas” (todos têm um pouco das duas coisas), que figura bem o choque, o “choque mental”. A gravidade e a dicção perfeita com que a bicharada diz os seus diálogos - absurdos, neuróticos, angustiados - cria uma sensação de estranheza que tanto atrai como repele (certas cenas são um bocado “Beckett com peluches”). Depois começa a cansar, a tornar-se demasiado óbvio (as rimas, as frases que aludem à “vida real” do miudo) como alegoria terapêutica, e ao mesmo tempo demasiado aleatório (caminhada para aqui, caminhada para ali, mas progressivamente mais mole e mais esgotado). O miudo é bom (chama-se Max Records), as vozes são boas (Cooper e Gandolfini, sobretudo), mas rapidamente se percebe que se Jonze tem um “projecto melancólico” não desprovido de originalidade e poder de sedução,

esse projecto está condenado ao semi-fracasso (sejamos positivos: ao sucesso relativo!), à míngua de um talento que dê para mais do que diálogos estrambólicos e uma meiadúzia de, chamemos-lhes assim, “ideias de visual”. Sorry, Spike, das outras vezes funcionou um bocadinho melhor. E as canções de Karen O (dos Yeah Yeah Yeahs), em modo gata a miar (é a “melancolia”, a “tristeza”), que encharcam a banda sonora, não ajudam muito. Luís Miguel Oliveira

mas não supera os “vícios” de uma primeira obra – o querer falar de tudo, uma ambição desmedida de ritualizar gestos e relações, sem domínio da linguagem, que corresponde à intensidade anímica do projecto, nem da montagem, confusa e aleatória. Até existe, por vezes, nesta história de vingança e morte uma interessante vontade de construir

graças ao atmosférico trabalho fotográfico de Gerard De Battista, toda a guerra de clãs soa a falso. Os actores desconhecidos bem se esforçam por “fazer das tripas coração”, mas aparecem perdidos numa ficção de que não entendem bem as implicações, como estátuas hirtas e impotentes ou, no caso da protagonista, a israelita, Ronit Elkabetz, a adoptar um “overacting”

Seja responsável. Beba com moderação.

Cinzentas bodas de sangue
Cinzas e Sangue Cendres et sang De Fanny Ardant, com Ronit Elkabetz, Abraham Belaga, Marc Ruchmann. M/12

Mnnnn
Lisboa: Medeia King: Sala 1: 5ª Domingo 3ª 4ª 14h, 16h, 18h, 20h, 22h 6ª Sábado 2ª 14h, 16h, 18h, 20h, 22h, 00h30; Porto: Medeia Cine Estúdio do Teatro Campo Alegre: Cine-Estúdio: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 18h30, 22h;

tom impiedoso dos “Short Cuts” de Altman a partir de Carver e os momentos mais fantasiosos da velhinha “Quinta Dimensão” a meio termo entre o trivial e o desconcertante, pacientemente filmado em “stop-motion” (a técnica de animação usada pela Aardman na série “Wallace e Gromit”). O melhor elogio que se pode fazer ao filme da israelita radicada em Nova Iorque Tatia Rosenthal, meditação triste mas esperançosa sobre a solidão e o isolamento pontuada por um humor escuro de tão seco, é que ao fim de pouco tempo nos esquecemos de que estamos a ver uma animação para nos deixarmos embalar pela inteligência do guião e pela elegância com que Rosenthal transforma estes bonecos mal acabados em gente de carne e osso. E, no entanto, é-nos difícil acreditar que este filme pudesse existir em imagem real. Na sua recusa terminante das gavetas, “$9.99” é uma pequena surpresa que merecia outra atenção. J. M.

Continuam
Para quem leva o riso bem a sério e se aplica na boa disposição, a Jameson preparou um conjunto de festas verdadeiramente divertidas. Entre num caso sério de gosto pela vida. Há poucas oportunidades assim.

A passagem de um actor para o outro lado das câmaras é uma tentação cujos resultados nem sempre correspondem ao carisma evidenciado em filmes de outrem. O caso de Fanny Ardant, com carreira prestigiosa desde os tempos em que funcionou como musa das últimas obras de François Truffaut até à participação bastante criteriosa em películas internacionais, não constitui excepção: “Cinzas e Sangue” parece revestir-se de uma certa força trágica, revelando cicatrizes abertas na memória colectiva de uma sociedade ancestral, dá boas indicações quanto à construção de personagens, sobretudo no início,

Um Profeta Un prophète De Jacques Audiard, com Tahar Rahim, Niels Arestrup, Adel Bencherif.

www.jameson.pt

MMMMn
Lisboa: Medeia King: Sala 3: 5ª Domingo 3ª 4ª 14h45, 18h15, 21h30 6ª Sábado 2ª 14h45, 18h15, 21h30, 00h20; Medeia Saldanha Residence: Sala 5: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h45, 15h40, 18h35, 21h30, 00h20; UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 7: 5ª 6ª Sábado 2ª 3ª 4ª 15h, 18h05, 21h20, 00h20 Domingo 11h30, 15h, 18h05, 21h20, 00h20; ZON Lusomundo Amoreiras: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 20h50, 23h50; Porto: Arrábida 20: Sala 17: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 14h15, 17h40, 21h15, 00h35 3ª 4ª 17h40, 21h15, 00h35; Medeia Cidade do Porto: Sala 2: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h45, 18h15, 21h30;

ou um bocadinho melhor

uma dimensão operática, que confere relativa força a um argumento recheado de boas intenções, embora mal construído e com diálogos inacreditáveis: uma viúva que escapara à terra dos seus antepassados, algures nos Balcãs (o filme foi rodado na Transilvânia, mas parte de um romance de Ismael Kadaré, ambientado na sua Albânia natal), na companhia dos três filhos, regressa dez anos depois para um casamento de família e vê-se confrontada com todo o tipo de animosidades, acabando por sossobrar a um ambiente hostil que desencadeia a “tragédia” no meio de um conflito pela terra e pelo direito à “vendetta”. No entanto, com orçamento reduzido, numa produção de Paulo Branco, a actriz-realizadora debatese com inúmeros problemas resultantes da inexperiência, mas também do facto de contar com elevado número de personagens, cenas de acção com lobos e cavalos, tudo a escapar-lhe por entre os dedos, sem conseguir soluções satisfatórias para evitar uma sensação de involuntário improviso e de desconchavo narrativo. Se a paisagem desolada ainda funciona,

insuportável. O facto de Ardant ter optado por um não-tempo e nãoespaço também ajuda pouco: nem realista, nem mítico, o filme arrastase numa lentidão sem sentido, entre olhares vazios e figuras de negro vestidas, a fingir um “Lorca balcânico” (tragédia grega nem sonhar) com mais sinais exteriores do que nervo. Preferimos a Fanny Ardant, ardente actriz de outras “aventuras” mais afortunadas. Mário Jorge Torres $9.99 De Tatia Rosenthal, com Joel Edgerton (Voz), Geoffrey Rush (Voz), Anthony Lapaglia (Voz).

MMMnn
Lisboa: CinemaCity Classic Alvalade: Sala 4: 5ª 2ª 3ª 4ª 13h45, 15h30, 17h10, 19h, 21h35 6ª 13h45, 15h30, 17h10, 19h, 21h35, 23h30 Sábado 11h30, 13h45, 15h30, 17h10, 19h, 21h35, 23h30 Domingo 11h30, 13h45, 15h30, 17h10, 19h, 21h35;

2010 começa com um daqueles OVNIs de que o espectador incauto não se recompõe facilmente: uma animação para adultos baseada nos contos surreais do escritor israelita Etgar Keret, cruzamento entre o

Moldado no filme de gangsters e no clássico filme de prisão, “Um Profeta” faz implodir todas as regras e códigos, mais interessado numa espécie de realismo ontológico que questiona as próprias formas fílmicas. O que a câmara de Jacques Audiard faz é percorrer os corpos e os espaços, procurando a iconografia do mundo moderno e desmitificando as razões da violência que estala em cada plano. Por isso, se permanece atento ao mundo mafioso que retrata, não tem contemplações ao focar um ambiente claustrofóbico, sem embelezamentos, mas de um modo poético. Desde os tempos de Gabin com Carné e os irmãos Prévert que o cinema francês não evidenciava esta força, esta pujança maléfica, embora vulnerável e comovente, dando ao protagonista um misto de representação crística e de anjo exterminador. M.J.T.
Ípsilon • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • 41

DVD

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

Cinema

De François Truffaut Edição: Valentim de Carvalho / MK2

Vida paralela
Truffaut nunca disse “Doinel, c’est moi”, mas esteve quase a dizer “Doinel, c’est Léaud”, e entre o que é “moi” e o que é “Léaud” se joga muita da singularidade da série centrada na personagem de Antoine Doinel. Luís Miguel Oliveira
As Aventuras de Antoine Doinel: Os Quatrocentos Golpes; to o e e jos Antonoie e Coette; Beijos Roubados; Domicílio Conjugal; Amor em fuga

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Extras

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Antoine Doinel foi a mais recorrente personagem de François Truffaut. Não se tratava propriamente de um “alter ego” ou de um “duplo”, mas ao mesmo tempo não deixava de o ser. Alguém em quem se Truffaut se projectava, muito ou pouco conforme as circunstâncias, mas também “amigo imaginário”, ou um “filho” de existência apenas cinematográfica. Em que também conta, e muito, o facto de o

Truffaut e Jean-Pierre Léadu por alturas de “Amor em Fuga”, que seria o final da série iniciada com “Os Quatrocentos Golpes” (em cima)
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intérprete de Doinel ter sido sempre esse “ex-libris” de Truffaut em particular e da “nouvelle vague” em geral, Jean-Pierre Léaud: Truffaut nunca disse “Doinel, c’est moi”, mas esteve quase a dizer “Doinel, c’est Léaud”, e entre o que é “moi” e o que é “Léaud”, como se imiscuem e como se cindem, se joga muita da singularidade da série centrada na personagem de Antoine Doinel. Quatro longas-metragens e uma curta (“Antoine e Colette”), realizadas num período de vinte anos (entre 1959 e 1979), retratando diferentes etapas da vida (sentimental, sobretudo) da personagem de Doinel. A adolescência (“Os Quatrocentos Golpes”, 1959); as paixonetas ainda adolescentes (“Antoine et Colette”, 1962); a descoberta do amor adulto (“Beijos Roubados”, 1968”); o casamento (“Domicílio Conjugal”, 1970); e a ruptura (“Amor em Fuga”, 1979). Vemo-la hoje como uma série fechada, mas Truffaut tinha planos para continuar as “aventuras” de Doinel enquanto continuasse a realizar filmes. Só que morreu prematuramente em 1984, cinco anos depois de “Amor em Fuga”, e a vida sentimental de Antoine Doinel ficou interrompida no momento da “ruptura”, quando tinha, contando pela idade de Léaud nessa altura, uns meros 35 anos. Evidentemente, se há elementos autobiográficos disseminados por estes filmes, isso não faz deles mais “pessoais” ou “confessionais” do “pess que a maior parte da outra vintena de filmes realizada por Truffaut – o film seu “testamento”, biográfico, “t intelectual, poético, está espalhado intele por toda a sua obra, de resto to abundante em rimas, jogos de abun espelhos, e “fintas” na relação com a espel vida pessoal (foi a esse pretexto que p se deu a zanga definitiva entre ele e de Godard, nos anos 70). Que essas Goda rimas, que existem dentro dos rimas “filmes Doinel”, facilmente se abrem “film para fora deles provam-no os “flash backs” de “Amor em Fuga”, onde backs pelo menos uma cena é recuperada m (e “desviada”) da “Noite “de Americana”. Amer Mas Ma nada disto obsta à pertinência de uma edição como pertin esta, que reúne todos os “filme Doinel” e dá consistência efectiva a Doine uma ideia de “série”. Potencia, além do mais, uma das suas características principais, um cara sentimento crescente de sen familiaridade que não anda fa longe de recuperar uma lógica lo folhetinesca. Com elipses e f buracos, no que é outra b característica da série acentuada pela visão de conjunto, até porque a cada reencontro os actores estão mais velhos, Paris está um pouco diferente, a própria imagem, no sentido mais material do termo, tem

qualidades diferentes, no limite o próprio cinema de Truffaut vai mudando. “As aventuras de Antoine Doinel” também são vinte anos revistos elipticamente, numa crónica pontual que funciona a vários níveis – e onde o mais impressionante e o mais comovente é mesmo o crescimento e amadurecimento de Léaud entre a adolescência dos “Quatrocentos Golpes” e a idade de homem feito por altura do “Amor em Fuga”. A maneira como Léaud habita estes filmes ajuda a perceber a que se referia Truffaut quando dizia que Doinel foi ficando “cada vez mais Léaud e cada vez menos Truffaut” – a um nível não especialmente rebuscado, é quase uma “coautoria” (e isto sem falar da lindíssima Claude Jade, por quem, num efeito autobiográfico “ao contrário”, Truffaut se teria apaixonado, já depois de a ter escolhido para ser a paixão do seu “duplo”…). Para além dos cinco títulos da série Doinel, apresentados em quatro discos, a edição inclui um bónus, “Os Putos” (“Les Mistons”), uma curta feita por Truffaut em 1957. Está muito bem assim como está, mas fica-se com vontade de mais um bonuszitos, uns elementos para contexto, umas surpresas…

Ele e ela
Um filme notável sobre uma relação dilacerada surge numa boa edição em DVD que contextualiza um projecto onde tudo podia ter corrido mal mas tudo correu pelo melhor. Jorge Mourinha
Quem Tem Medo De Virginia Woolf? Who’s Afraid of Virginia Woolf? de Mike Nichols, com Elizabeth Taylor, Richard Burton, George Segal Warner Home Video, distribuição Zon Lusomundo

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Extras

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Imagine-se um jovem realizador a quem “sai na rifa” dirigir, logo à primeira longa, o casal de estrelas de cinema mais badalado da época, e receber a imprensa de todo o mundo logo no primeiro dia de filmagens. Imaginese, em seguida, que esse filme

A fotografia a preto e branco foi imposta por Nichols, contra a vontade de Warner, para permitir a Taylor, muito mais jovem que a sua personagem, ser credível no papel adapta ao cinema uma peça que é tudo menos um produto óbvio para o “star system” que ainda é o centro da produção hollywoodiana, e que o faz sem cedências ao convencionalismo ou ao conservadorismo dominantes. Isto tudo para explicar que “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, êxito de bilheteira aclamado pela crítica, nomeado para treze Oscares da Academia e vencedor de cinco, é uma espécie de milagre: um filme notável onde tudo podia ter corrido mal (a começar pela reunião no écrã do tumultuoso casal Elizabeth Taylor/ Richard Burton) mas onde tudo correu improvavelmente pelo melhor. O próprio Mike Nichols admite isso no comentário audio: “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” foi uma “operação de guerrilha” no interior do sistema cada vez mais desagregado dos estúdios. Numa espécie de “prenúncio” da vaga de jovem cinema americano que começaria a desabrochar no ano seguinte com “Bonnie e Clyde”, as circunstâncias conspiraram para um resultado final que conseguia ser inovador para o habitual da produção Hollywoodiana sem trair a crueza do material de origem nem destoar nas fachadas das salas populares. A peça de Edward Albee, estreada em 1962, encena um “jeu de massacre” à volta de um casamento dilacerado no espaço de uma noite. George, professor de história, e a sua mulher Martha, filha do presidente da universidade, recebem um casal recém-chegado que se torna testemunha e participante dos jogos psicológicos que George e Martha mantêm permanentemente, onde a verdade e a ficção estão constantemente a trocar de fronteiras e a humilhação verbal é a palavra de ordem. Viagem alucinante e claustrofóbica aos abismos de uma relação onde o amor e o ódio se cruzaram até já não se conseguirem distinguir, a peça foi bem servida por uma adaptação cinematográfica que manteve intacta a estrutura, construção e diálogos originais mas, segundo Nichols, “preencheu os vazios que não se podiam ver em palco”. Nichols ainda não era então o cineasta de “A Primeira Noite”, “Iniciação Carnal”, “Anjos na América” ou “Perto Demais” – era apenas um homem do teatro que dava com “Virginia Woolf ” os primeiros passos no cinema parecendo compreender instintivamente o que diferenciava ambas as artes. A reprodução intacta do ambiente claustrofóbico da peça, com apenas quatro papéis principais, é feita através de uma alternância entre takes longos e cortes rápidos, grandes planos quase invasivos e composições de conjunto impecavelmente geridas, desorientando a espaços o espectador com câmaras ao ombro e zooms velozes. Mas os truques visuais nunca distraem do essencial – são as performances uniformemente extraordinárias dos actores que transportam o filme, e se foram Elizabeth Taylor e Sandy Dennis que levaram os Óscares para casa, seria escandaloso não mencionar as interpretações igualmente assombrosas de Richard Burton e George Segal. Este bom duplo DVD (idêntico à edição americana de 2006 coincidente com o 40º aniversário da estreia) contextualiza sagazmente o filme e faz interessantíssimas revelações históricas. A peça fora comprada por Jack Warner para Bette Davis e James Mason; Nichols foi contratado a pedido expresso de Taylor (o realizador originalmente escalado era John Frankenheimer); a fotografia a preto e branco foi imposta por Nichols contra a vontade de Warner, essencialmente para permitir a Taylor, muito mais jovem que a sua personagem, ser credível no papel. O principal extra é o excelente comentário audio de Mike Nichols, conduzido por Steven Soderbergh, fascinante contextualização da produção do filme; acompanha-no um outro comentário, mais técnico e bem menos interessante, do director de fotografia Haskell Wexler (igualmente vencedor do Óscar pelo seu trabalho no filme). Wexler surge também, a par do crítico Richard Schickel, de Edward Albee e de Bobbie O’Steen, viúva do montador Sam O’Steen, em dois curtos documentários (30 minutos no total) que contextualizam a importância do filme no seu tempo: quer em termos técnicos (graças à utilização da câmara à mão e da sobreposição de diálogos na montagem de som, técnicas inéditas em Hollywood), quer em termos socioculturais (foi um dos primeiros filmes “adultos” estreados pelos grandes estúdios, antecipando de poucos meses a entrada em vigor da classificação etária que ainda hoje existe). O leque de extras completa-se com um curioso documentário televisivo de 1975 sobre Elizabeth Taylor, com declarações de colegas de trabalho como Rock Hudson e Roddy MacDowall e realizadores como Richard Brooks e Vincente Minnelli, onde a hagiografia hollywoodiana abre algumas brechas incautas muito interessantes; fragmentos de uma entrevista televisiva de Mike Nichols realizada pouco depois da estreia; o trailer de época e o teste de câmara de Sandy Dennis. À excepção, como seria de esperar, dos comentários audio, todo o material adicional está legendado.
Ípsilon • Sexta-feira 8 Janeiro 2010 • 43

20 anos

Colecção Série Ípsilon II
No ano em que completa 20 anos, é o PÚBLICO quem oferece presentes aos seus leitores. A colecção Série Ípsilon II reúne 20 dos filmes mais aplaudidos pela crítica e premiados internacionalmente. Uma oportunidade única de ver ou rever películas de Lars Von Trier, Roman Polanski, Milos Forman, Jean Pierre e Luc Dardenne ou Jacques Tati. A melhor selecção de cinema, com o selo de garantia do suplemento Ípsilon. Todas as sextas-feiras, com o PÚBLICO, por apenas mais 1,95 euros

Juno

1.º DVD

Juno

Sexta-feira, 15 de Janeiro

Por apenas + 1,95 euros na compra do PÚBLICO

Control

As Confissões de Schmidt

Série Ípsilon II

À descoberta de novas vidas e novos mundos
Do universo da ficção à realidade, pela mão de grandes mestres ou de novos talentos da sétima arte, 20 filmes que foram premiados na Europa ou nos Estados Unidos pela sua história, técnica ou personagens
Ana Filipa Gaspar a Quando entramos numa sala de cinema, experienciamos novas vidas, novos mundos, novos tempos. As hipóteses são infinitas – desde o drama de uma adolescente que engravida nos anos 2000 à recriação cómica da efervescência musical no Reino Unido na década de 1970. Por vezes, somos conduzidos pelo olhar de grandes mestres, como Roman Polanski, Jacques Tati ou Lars von Trier. Noutras ocasiões, é a primeira tentativa cinematográfica de um realizador que nos surpreende. Em comum, apenas a capacidade de pôr em movimento realidades mais ou menos distantes, com personagens que nos convidam a percorrer os seus dias. É o caso, por exemplo, de Warren Schmidt, interpretado pelo oscarizado Jack Nicholson em As Confissões de Schmidt (2002). Quando finalmente chega o último dia de trabalho antes da merecida
O Céu Gira

Nos bastidores…
• Juno, de Jason Reitman, foi filmado em apenas 31 dias. • James Anthony Pearson, que interpreta o músico Bernard Summer em Control, aprendeu a tocar guitarra em apenas dois meses para melhor dar vida ao guitarrista. • Ao receber o Globo de Ouro para Melhor Actor num Filme Dramático pela sua interpretação em As Confissões de Schmidt, Jack Nicholson afirmou: “Estou um pouco surpreendido. Pensava que tinha feito uma comédia.” • Em 2 Dias em Paris, os pais de Marion são interpretados pelos próprios pais da actriz e realizadora Julie Delpy. • Joseph Gordon Levitt, o Neil de Mysterious Skin, viajou durante uma semana por várias cidades do Kansas, acompanhado pelo escritor Scott Heim, para
Europa

conhecer as pessoas em que as personagens do filme foram inspiradas. • Roman Polanski dedicou Tess à sua mulher Sharon Tate que fora assassinada, em 1969, pela família Manson. • O argumento original de O Escafandro e a Borboleta foi escrito em inglês mas o realizador Julian Schnabel conseguiu convencer o estúdio Pathé a filmar em francês para ser mais fiel à vida de JeanDominique Bauby. • O actor Peter Dinklage, o Finbar de A Estação, é vegetariano. Na realidade, o bife que come durante a película era feito de tofu. • Jimmy, o bebé de Sonia e Bruno em A Criança, de Jean-Pierre e Luc Dardenne, foi interpretado por mais de 40 bebés diferentes.
O Escafandro e a Borboleta

reforma, Warren não sente alívio, mas sim angústia. Quem é esta mulher de rosto envelhecido que habita a sua casa? Em que momento do seu passado desistiu de todos os sonhos e conformouse com um emprego seguro? Está na altura de fazer as malas e partir à descoberta da América e de si próprio, não antes de mais algumas surpresas, nem sempre agradáveis. Quem também parte à procura de uma nova vida é o jovem Neil McCormick ( Joseph GordonLevitt), em Mysterious Skin (2004). Vítima de abuso sexual aos oito anos, Neil não encontrou na mãe o apoio de que precisava e, dez anos depois, é mais um prostituto masculino em Nova Iorque, incapaz de vencer os demónios que o atormentam. Apesar de se encontrar a mais de 1400 milhas de distância, Hutchinson, no Kansas, continua demasiado presente na sua memória. Espírito igualmente torturado,
O Meu Tio

Ian Curtis é, em Control (2007), uma personagem baseada na vida real do vocalista dos britânicos Joy Division. Interpretado por Sam Riley, Curtis entra numa espiral de desespero à medida que o seu talento se torna cada vez mais visível. A fama e a família escapam ao seu controlo, tal como os ataques de epilepsia que constantemente o fulminam em palco. Até que o suicídio se apresenta como única resposta possível. São estas e muitas outras histórias que a colecção Série Ípsilon II reúne agora em 20 DVD. Dramas e comédias, factos reais ou pura ficção, retratam o quotidiano de pessoas espalhadas pelo globo, com as mais diferentes nacionalidades, imortalizadas através da película de realizadores consagrados, novos talentos e cineastas de culto. Todos dignos de alguns dos mais importantes prémios do universo da sétima arte, na Europa ou nos Estados Unidos.

20 Filmes Premiados
1958 – O Meu Tio Palma de Ouro e Prémio Especial do Júri no Festival de Cannes – Jacques Tati 1979 – Tess Óscar para Melhor Fotografia – Geoffrey Unsworth e Ghislain Cloquet Óscar para Melhor Guarda-roupa – Anthony Powell Óscar para Melhor Cenografia – Pierre Guffroy e Jack Stephens César para Melhor Realizador – Roman Polanski César para Melhor Filme – Roman Polanski Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro – Roman Polanski Globo de Ouro para Actriz Revelação do Ano – Nastassja Kinski 1989 – Valmont César para Melhor Guarda-Roupa – Theodor Pistek César para Melhor Desenho de Produção – Pierre Guffroy

1991 – Europa Prémio do Júri no Festival de Cannes – Lars Von Trier Grande Prémio Técnico no Festival de Cannes – Lars Von Trier 1998 – Os Últimos Dias Óscar para Melhor Documentário – James Moll e Ken Lipper 2002 – A Intervenção Divina Prémio do Júri no Festival de Cannes – Elia Suleiman Prémio FIPRESCI no Festival de Cannes – Elia Suleiman 2002 – As Confissões de Schimdt Globo de Ouro para Melhor Actor em Filme Dramático – Jack Nicholson Globo de Ouro para Melhor Argumento – Alexander Payne e Jim Taylor 2002 – 24 Hour Party People Prémio para Melhor Produção nos British Independent Film Awards 2002 – As Irmãs de Maria Magdalena Leão de Ouro no Festival de Veneza – Peter Mullan

2003 – A Estação BFATA para Melhor Argumento Original – Thomas McCarthy Prémio do Público no Festival de Sundance – Thomas McCarthy Prémio para Melhor Actriz em Filme Dramático no Festival de Sundance – Patricia Clarkson Prémio Waldo Salt para Melhor Argumento no Festival de Sundance – Thomas McCarthy 2004 – A Esquiva César para Melhor Filme – Abdellatif Kechiche e Jacques Ouaniche César para Melhor Realizador – Abdellatif Kechiche César para Melhor Argumento – Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix César para Melhor Jovem Actriz – Sara Forestier 2004 – Terra da Abundância Prémio UNESCO no Festival de Veneza – Wim Wenders 2004 – Mysterious Skin Prémio do Júri no Bergen International Film Festival – Gregg Araki

2004 – O Céu Gira Prémio para Melhor Documentário no Buenos Aires International Festival of Independent Cinema – Mercedes Álvarez Prémio Tiger no Festival Internacional de Cinema de Roterdão – Mercedes Álvarez 2005 – A Criança Palma de Ouro no Festival de Cannes – Jean-Pierre e Luc Dardenne 2006 – Climas Prémio FIPRESCI no Festival de Cannes – Nuri Bilge Ceylan 2007 – O Escafandro e a Borboleta BAFTA para Melhor Argumento Adaptado – Ronald Harwood Prémio para Melhor Realizador no Festival de Cannes – Julian Schnabel César para Melhor Actor – Mathieu Amalric César para Melhor Montagem – Juliette Welfling Globo de Ouro para Melhor Filme

Estrangeiro Globo de Ouro para Melhor Realizador – Julian Schnabel 2007 – Juno Óscar para Melhor Argumento Original – Diablo Cody BAFTA para Melhor Argumento Original – Diablo Cody Prémio Satellite para Melhor Actriz em Musical ou Comédia – Ellen Page 2007 – Control Prémio Carl Foreman para Actor Mais Promissor nos BAFTA Awards – Matt Greenhalgh Prémio para Melhor Filme nos Independent Film Awards Prémio para Melhor Realizador nos Independent Film Awards – Anton Corbjin Prémio para Melhor Actor Secundário – Toby Kebbell Prémio Jovem Olhar no Festival de Cannes – Anton Corbjin 2007 – 2 Dias em Paris Prémio Coup de Coeur no Mons International Festival of Love Films – Julie Delpy

15 de Janeiro

Juno (2007)
Realização: Jason Reitman Argumento: Diablo Cody Elenco: Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner e Jason Bateman Uma gravidez inesperada é o ponto de partida de Juno, comédia dramática que se centra na adolescente Juno MacGuff (Ellen Page). Aos 16 anos, a pragmática e independente Juno descobre que está grávida, consequência de uma única experiência sexual com o seu amigo Paulie Bleeker (Michael Cera). Ambos concordam que uma relação não é a melhor opção, quanto mais formarem uma família. E, com o apoio de Bleeker, Juno marca um aborto. No entanto, a jovem não consegue avançar com o planeado. Depois de contar aos pais, decide ter a criança e entregá-la para adopção. Mas a história não fica por aqui...

Depois de sofrer um acidente vascular cerebral, o prestigiado jornalista e editor da revista Elle desenvolve a síndrome do encarceramento, uma rara patologia que lhe deixa o corpo totalmente paralisado, à excepção do olho esquerdo. A partir de então, Bauby tem de aprender a conviver com o seu novo estado. O filme é baseado no livro das memórias ditado pelo próprio Jean-Dominique Bauby, também intitulado O Escafandro e a Borboleta.

Shue) o percebesse. Já Brian ficou amnésico durante quatro horas e, ao voltar a si, tinha o nariz em sangue. Dez anos mais tarde, os dois reencontram-se.

Gregg Araki
O californiano Gregg Araki, 50 anos, ocupa um lugar de culto no cinema americano independente, distinguindo-se principalmente entre o chamado New Queer Cinema. Formado pela Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, foi crítico de músico da publicação L.A. Weekly e estreou-se no grande ecrã em 1987 com Three Bewildered People in the Night.

Julian Schnabel
Multifacetado e famoso pela sua personalidade boémia, Julian Schnabel trabalhou como taxista e cozinheiro, mas foi como pintor que se destacou na cena artística nova-iorquina nos anos 1980. Em 1996, Schnabel apostou também no cinema ao realizar Basquiat e não mais parou. Do seu currículo fazem também parte títulos como Antes que Anoiteça (2000) ou O Escafandro e a Borboleta (2007).

5 de Março

Tess (1979)
Realização: Roman Polanski Argumento: Gérard Brach, Roman Polanski e John Brownjohn Elenco: Nastassja Kinski, Peter Firth, Leigh Lawson e John Collin Tess (Nastassja Kinski), uma camponesa da Inglaterra dos finais do século XIX, procura emprego na mansão dos D’Urbeville. Seduzida pelo dono da casa, Tess engravida e foge para a casa dos pais mas também aí não encontra apoio. Escorraçada pela família acaba por dar à luz um bebé que não sobrevive ao parto. Mais tarde, a rapariga procura reconstruir a sua vida ao lado de Angel (Peter Firth), o filho do pastor da igreja local. Na véspera do casamento, Tess decide revelar o seu passado ao noivo mas conseguirá ele aceitar a verdade?

Jason Reitman
O realizador nasceu em Montreal, no Quebec (Canadá), em 1977 e é conhecido por realizar comédias a partir de assuntos sérios, como os perigos do tabaco, a gravidez adolescente ou a crise económica. O seu mais recente trabalho, Nas Nuvens (2009), lidera a corrida aos Globos de Ouro e chega às salas portuguesas a 21 de Janeiro.

12 de Fevereiro

O Meu Tio (1958)
Realização: Jacques Tati Argumento: Jacques Tati Elenco: Jacques Tati, Jean-Pierre Zola, Adrienne Servantie e Lucien Frégis Meio século após a sua criação, as aventuras de Monsieur Hulot (Jacques Tati) não perderam uma pitada de graça. Em O Meu Tio, Hulot é cunhado do gerente de uma fábrica de plásticos e, à semelhança do automatismo fabril, tudo na casa dos Arpel é automático e ultramoderno, pouco adequado às brincadeiras dos mais novos. Por isso, o sobrinho de Hulot (Gerard Arpel/Alain Bécourt) prefere passar o seu tempo no pequeno e modesto apartamento do tio. Mas, para Charles Arpel (Jean-Pierre Zola), a influência de Hulot é nociva e é necessário convertê-lo aos tempos modernos.

22 de Janeiro

Control (2007)
Realização: Anton Corbijn Argumento: Deborah Curtis e Matt Greenhalgh Elenco: Sam Riley, Samantha Morton, Alexandra Maria Lara e Joe Anderson Baseado no livro Touching From a Distance, de Deborah Curtis, Control é um filme biográfico sobre Ian Curtis, vocalista da banda inglesa de pós-punk Joy Division, que se suicidou em 1980. A película retrata a vida do jovem músico e acompanha o seu tortuoso percurso na emblemática banda que liderou. Também o seu casamento, as suas relações extraconjugais e os seus problemas de epilepsia são explorados no filme que, apesar de ter sido filmado em 2007, foi depois convertido para preto e branco.

Roman Polanski
Apaixonado pela arte dramática, o polémico Roman Polanski realizou, em 1962, a sua primeira longa-metragem, Knife in the Water, que seria nomeada para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Seis anos depois o realizador de origem polaca tentaria a sua sorte em Hollywood mas uma série de acontecimentos macabros envolvendo a mulher levá-lo-iam a abandonar o país.

Jacques Tati
Realizador e actor francês, Jacques Tati morreu em 1982, em Paris, vítima de pneumonia. Os seus filmes são, em regra, protagonizados pelo excêntrico Monsieur Hulot, eternamente atormentado pelo mundo moderno. Foi classificado como o 46.º maior realizador de todos os tempos pela revista americana Entertainment Weekly.

12 de Março

O Céu Gira (2004)
Realização: Mercedes Álvarez Argumento: Arturo Redin e Mercedes Álvarez Elenco: Elias Álvarez, Mercedes Álvarez (voz), Pello Azketa e Hicham Chate Um ano numa pequena aldeia no Norte de Espanha é o que nos propõe O Céu Gira, o documentário de estreia da realizadora espanhola Mercedes Álvarez. Natural de Aldealseñor, na província de Soria, Mercedes foi a última criança a nascer no local, agora limitado a 14 habitantes. À beira do desaparecimento, a aldeia torna-se numa metáfora para a perda de visão do pintor Pello Azketa. Num registo emocional, a narradora observa o actual estado de Aldealseñor, ao mesmo tempo que recupera memórias da sua infância quando, aos três anos, deixou a aldeia na companhia dos pais e dos irmãos.

Anton Corbjin
Fotógrafo e realizador, o holandês Anton Corbijn tornou-se conhecido pelos trabalhos que efectuou com bandas como os U2, os REM, os Nirvana ou os Depeche Mode, para quem dirigiu os videoclips Personal Jesus e Enjoy the Silence. Em 2007, estreou-se no cinema com Control, um filme biográfico sobre o vocalista dos Joy Division, Ian Curtis.

19 de Fevereiro

Valmont (1989)
Realização: Milos Forman Argumento: Choderlos de Laclos, Jean-Claude Carrière e Milos Forman Elenco: Colin Firth, Annette Bening, Meg Tilly e Fairuza Balk Na França do século XVIII, a Marquesa de Merteuil (Annette Bening) e o Visconde de Valmont (Colin Firth) são um par engenhoso a cujas manobras de sedução ninguém consegue escapar. Ligados pelos seus conluios e segredos, Merteuil e Valmont reinam nos salões e nas antecâmaras de uma aristocracia progressivamente minada por uma série de segredos obscuros. No entanto, os dois eternos aliados acabarão por se enfrentar e, nesse duelo impiedoso, qualquer sentimento sincero poderá constituir uma falha mortal.

29 de Janeiro

As Confissões de Schmidt (2002)
Realização: Alexander Payne Argumento: Alexander Payne e Jim Taylor Elenco: Jack Nicholson, Kathy Bates, Hope Davis e Dermot Mulroney Baseado no romance de Louis Begley, As Confissões de Schmidt traz-nos a história de Warren Schmidt (Jack Nicholson), um homem prestes a entrar na desejada reforma. Contudo, a viagem que tinha planeado com a mulher Helen (June Squibb) para partir à descoberta a América dá lugar a outros eventos, desde logo a morte de Helen e, pouco depois, o casamento da filha Jeannie (Hope Davis) com um vendedor de colchões de água, Randall Hertzel (Dermot Mulroney). Estes novos desafios representam, porém, uma oportunidade de autoconhecimento para o angustiado Warren.

Mercedes Alvarez
Oriunda de Aldealseñor, em Soria (Espanha), onde nasceu em 1966, Mercedes Álvarez deu os primeiros passos no mundo do cinema com a curta-metragem El Viento Africano, de 1997. O Céu Gira (2004) foi a sua primeira e única longa-metragem até ao momento, conquistando a atenção de vários festivais de cinema independente na Europa e na América latina.

Milos Forman
Milos Forman nasceu na antiga Checoslováquia, em 1932, mas foi nos Estados Unidos que se notabilizou na sétima arte. Voando Sobre um Ninho de Cucos (1975), Amadeus (1984) ou The People vs Larry Flint (1996) são alguns dos filmes que lhe deram um lugar na história do cinema e lhe valeram dois Óscares para Melhor Realizador.

19 de Março

2 Dias em Paris (2007)
Realização: Julie Delpy Argumento: Julie Delpy Elenco: Adam Goldberg, Julie Delpy, Daniel Brühl e Marie Pillet Como tentativa de reatarem o seu relacionamento, Marion (Julie Delpy), uma fotógrafa francesa, e Jack (Adam Goldberg), um decorador norteamericano, decidem viajar pela Europa. A sua primeira paragem é Veneza, mas os namorados acabam por adoecer com gastroenterites e, por isso, optam por viajar até Paris, cidade onde vivem os pais de Marion. Os problemas não tardam em aparecer. Intolerantes e autoritários, os pais da fotógrafa recusam-se a falar inglês com Jack. Por seu turno, este último irrita Marion por desejar fotografar todos os ângulos da famosa “cidade da luz”.

Alexander Payne
Natural de Omaha, no estado americano do Nebrasca, Alexander Payne, 48 anos, gosta de filmar nos arredores da zona onde cresceu. A sua imagem de marca é o humor negro com que satiriza a sociedade americana, presente em obras como As Confissões de Schmidt (2002) e Sideways (2004). Actualmente, está a trabalhar na pré-produção de The Descendants, previsto para 2011.

26 de Fevereiro

Mysterious Skin (2004)
Realização: Gregg Araki Argumento: Gregg Araki Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Brady Corbet e Elisabeth Shue A partir do romance de Scott Heim, Mysterious Skin é uma viagem ao passado de dois jovens, Neil McCormick (Joseph Gordon-Levitt) e Brian Lackey (Brady Corbet). Ambos cresceram em Hutchinson, Kansas, e aos oito anos sofreram experiências que os traumatizaram para a vida. Neil foi vítima de abuso sexual por parte do seu treinador de beisebol (Bill Sage) e não conseguiu que a sua mãe (Elisabeth

5 de Fevereiro

O Escafandro e a Borboleta (2007)
Realização: Julian Schnabel Argumento: Ronald Harwood e Jean-Dominique Bauby Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, MarieJosée Croze e Anne Consigny Aos 43 anos, Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric), mais conhecido por Jean-Do, vê a sua vida mudar radicalmente.

Julie Delpy
Actriz, cantora e realizadora, Julie Delpy nasceu em Paris em 1966, no seio de uma família ligada ao mundo do espectáculo.

Como actriz, Delpy destacou-se ao lado de Ethan Hawke em Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Anoitecer (2004), de Richard Linklater. Em 1995 estreou-se na realização, sendo 2 Dias em Paris a sua película de maior destaque.

26 de Março

Climas (2006)
Realização: Nuri Bilge Ceylan Argumento: Nuri Bilge Ceylan Elenco: Ebru Ceylan, Nuri Bilge Ceylan, Nazan Kirilmis e Mehmet Eryilmaz O drama turco Climas é um relato de uma relação falhada entre Isa (Nuri Bilge Ceylan), um professor universitário, e a mulher Bahar (Ebru Ceylan), directora de arte para a indústria televisiva. Tudo começa com as férias do casal na região turística de Kas, onde Bahar manifesta o seu descontentamento face à distância de Isa. Após um jantar com uns amigos e um dia na costa, a ruptura é mais do que evidente e Bahar regressa sozinha para Istambul. Entretanto, Isa entrega-se nos braços de uma ex-namorada, Serap (Nazan Kirilmis), mas Bahar continua, de algum modo, presente.

própria editora de música, a Factory Records. Os Joy Division, James e os Happy Mondays e uma série de artistas que marcaram a criação musical na Grã-Bretanha dos anos 70 rapidamente assinam contrato com a nova editora de Wilson que assim se vê enredado num turbilhão de música, sexo e drogas que culmina com o nascimento de um dos dance clubs mais famosos do mundo, o Hacienda.

em Al-Ram, junto ao posto de controlo de Jerusalém Leste...

Elia Suleiman
Palestiniano oriundo de Nazaré (Israel), o realizador e actor Elia Suleiman, 49 anos, viu o seu talento reconhecido através de Intervenção Divina (2002), vencedor do prémio do júri em Cannes. O seu estilo cinematográfico é frequentemente comparado ao de Jacques Tati e de Buster Keaton, por conciliar a sobriedade e o burlesco.

Michael Winterbottom
O seu realismo e a sua notável capacidade de conjugar características do documentário e da ficção são dois dos aspectos que melhor identificam o trabalho do realizador britânico Michael Winterbottom. As questões de política internacional são temas recorrentes na sua obra, em particular em filmes como Welcome to Sarajevo (1997), The Road to Guantanamo (2006) ou A Mighty Heart (2007).

14 de Maio

A Estação (2003)
Realização: Thomas McCarthy Argumento: Thomas McCarthy Elenco: Peter Dinklage, Paul Benjamin, Jase Blankfort e Paula Garcés Finbar (Peter Dinklage) só queria encontrar um pouco de paz quando decide mudar-se para uma antiga estação de comboios de uma pequena cidade no campo. No entanto, está longe de adivinhar a mudança que vai acontecer na sua vida. Aos poucos, Finbar envolvese na vida dos vizinhos Olivia (Patricia Clarkson), uma artista que tenta lidar com o fim do seu casamento, e Joe (Bobby Cannavale), um trintão que adora cozinhar e conversar. A Estação é um filme sobre três pessoas sem nada em comum, excepto a solidão que partilham.

23 de Abril

Europa (1991)
Realização: Lars von Trier Argumento: Lars von Trier e Niels Vørsel Elenco: Jean-Marc Barr, Barbara Sukowa, Udo Kier e Ernst-Hugo Järegård No pós-II Guerra Mundial, Europa, de Lars von Trier, é um testemunho da impossibilidade de manter a neutralidade num cenário de guerra. Em 1945, Leopold Kessler (Jean-Marc Barr), um americano com descendência alemã, chega a Frankfurt e encontra uma Alemanha destruída. O tio (ErnstHugo Järegård) arranja-lhe trabalho na companhia ferroviária Zentropa e, embora Leopold tente ser neutro, rapidamente percebe que, de ambos os lados, há interesses que tentam manipulá-lo. E é a paixão pela poderosa herdeira do império Hartmann, Katharina (Barbara Sukowa), que o vai obrigar a escolher um dos lados.

Nuri Bilge Ceylan
Dividindo-se entre o cinema e a fotografia, o turco Nuri Bilge Ceylan nasceu em 1959 em Istambul e é casado com Ebru Ceylan, a co-protagonista de Climas (2006). Ao receber o prémio de melhor realizador em Cannes, em 2008, dedicou-o ao seu país, “solitário e belo, que amo apaixonadamente”.

2 de Abril

Thomas McCarthy
Natural de New Jersey, nos Estados Unidos, onde nasceu em 1966, Thomas McCarthy começou a sua carreira como actor, tendo participado em várias séries televisivas como The Wire ou A Lei e a Ordem, bem como em filmes como Um Sogro do Pior (2000) ou Boa Noite e Boa Sorte (2005). A Estação (2003) marcou a estreia de McCarthy na realização.

Os Últimos Dias (1998)
Realização: James Moll Os Últimos Dias são um testemunho pessoal de cinco judeus húngaros que escaparam à morte nos campos de concentração nazi. Os sobreviventes recordam o difícil período do domínio das tropas hitlerianas e revisitam as casas onde passaram a sua infância. O documentário reúne ainda os depoimentos de um Sonderkommando – nome dado aos prisioneiros encarregues dos trabalhos nas câmaras de morte –, um médico que efectuou experiências em prisioneiros de Auschwitz e soldados norte-americanos que participaram na libertação em Abril de 1945.

21 de Maio

A Criança (2005)
Realização: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne Argumento: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne Elenco: Jérémie Renier, Déborah François e Jérémie Segard À primeira vista, A Criança fala-nos de um romance. Bruno (Jérémie Renier) e Sonia (Déborah François) são dois jovens imaturos, apaixonados, que fazem de pequenos crimes o seu estilo de vida. Contudo, o casal tem agora um filho e a situação transtorna as suas vidas. Acabada de sair do hospital, Sonia procura Bruno no seu apartamento, quando descobre que foi arrendado a um outro casal. Depois de o procurar nas ruas, encontra-o com o seu gangue e, juntos, passam a noite num abrigo. No dia seguinte, registam a criança como Jimmy. Mas Bruno decide vender o filho para adopção.

Lars von Trier
Um dos grandes nomes do cinema dinamarquês, Lars von Trier nasceu em 1956 em Copenhaga. As suas fobias são célebres e, aparentemente até hoje, nunca pôs os pés na América. Mesmo depois de, na sequência do sucesso de Europa (1991), Steven Spielberg lhe oferecer um argumento para dirigir um filme nos Estados Unidos.

James Moll
Dada a sua paixão pelo piano, o realizador e produtor norte-americano James Moll chegou a pensar trocar a escola de cinema pela escola de música. O talento para a sétima arte acabou, porém, por falar mais alto. Nos últimos anos, Moll tem realizado vários trabalhos de natureza documental, dando especial atenção ao período da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto.

30 de Abril

Terra da Abundância (2004)
Realização: Wim Wenders Argumento: Wim Wenders, Scott Derrickson e Michael Meredith Elenco: Michelle Williams, John Diehl e Shaun Toub Filha de missionários norte-americanos, Lana (Michelle Williams) foi criada na África do Sul e no Médio Oriente. Uma missão de apoio a pessoas sem-abrigo leva-a, porém, de volta ao seu país de origem. De regresso aos Estados Unidos, a rapariga procura o seu único familiar ainda vivo: o tio Paul (John Diehl) que nunca conheceu. Veterano da Guerra do Vietname, Paul vive num permanente estado de paranóia desde os ataques terroristas do 11 de Setembro. Tio e sobrinha parecem não ter nada em comum mas a morte de um emigrante paquistanês vai uni-los numa mesma missão.

9 de Abril

A Esquiva (2003)
Realização: Abdel Kechiche Argumento: Ghalya Laroix Elenco: Osman Elkharraz, Sara Forestier, Sabrina Ouazani e Nanou Benhamou O drama romântico A Esquiva conta-nos a história de Krimo (Osman Elkharraz), um jovem de 15 anos que vive nos subúrbios de Paris. Apesar de a sua mãe trabalhar num supermercado e o seu pai estar preso, Krimo continua a alimentar o sonho de um dia partir com os pais num veleiro até ao fim do mundo. De resto, vive um dia-a-dia habitual para um rapaz da sua idade, na companhia dos amigos. Até que, em plena Primavera, se apaixona por Lydia (Sara Forestier), uma jovem tão fascinante quanto maliciosa...

Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, 58 e 55 anos respectivamente, estrearam-se no universo cinematográfico em 1978 com o documentário Le Chant du Rossignol. Mas foi com a ficção La Promesse, de 1996, que se tornaram famosos a nível mundial, recebendo vários prémios internacionais.

28 de Maio

As Irmãs de Maria Madalena (2002)
Realização: Peter Mullan Argumento: Peter Mullan Elenco: Anne-Marie Duff, Nora-Jane Noone, Dorothy Duffy e Eileen Walsh Numa Irlanda profundamente católica, Margaret (Anne-Marie Duff), Bernadette (Nora-Jane Noone), Rose (Dorothy Duffy) e Crispina (Eileen Walsh) são acusadas de manifestarem um comportamento devasso e, por isso, internadas num convento das Irmãs de Maria Madalena. Ali estão à mercê da vilania da Irmã Bridget (Geraldine McEwan), a madre superiora do convento que, além dos trabalhos forçados na lavandaria da instituição, as submete aos mais duros e pesados castigos.

Wim Wenders
Wim Wenders queria ser pintor mas foi o cinema que o acabou por conquistar. O realizador alemão que nasceu em Düsseldorf, em 1945, é um dos mais prestigiados cineastas da actualidade. Paris-Texas (1984), Asas do Desejo (1987), Buena Vista Social Club (1999) e Terra da Abundância (2004) são algumas das suas obras mais conhecidas.

Abdel Kechiche
Actor, realizador e argumentista, Abdel Kechiche, 49 anos, é natural de Tunis, na Tunísia, mas cresceu em Nice, França. O seu primeiro filme, La Faute à Voltaire, viu a luz do dia em 2000 e uma das suas principais características é incluir actores amadores no elenco.

7 de Maio

Intervenção Divina (2002)
Realização: Elia Suleiman Argumento: Elia Suleiman Elenco: Elia Suleiman, Manal Khader e George Ibrahim Drama, comédia, guerra e romance: Intervenção Divina, do palestiniano israelita Elia Suleiman, combina todos estes ingredientes para transpor para o grande ecrã o quotidiano palestiniano em Israel, num bairro de Nazaré. Trata-se de várias histórias, entrelaçadas por personagens, locais e emoções. Umas são demasiado absurdas e outras parecem lendas, mas têm em comum o facto de poucas palavras serem ditas. Há, por exemplo, um homem que sofre um ataque de coração, um filho que o visita no hospital e que regularmente visita uma mulher

16 de Abril

24 Hour Party People (2002)
Realização: Michael Winterbottom Argumento: Frank Cottrell Boyce Elenco: Steve Coogan, John Thomson, Nigel Pivaro e Shirley Henderson Em 1976, durante um concerto dos Sex Pistols, Tony Wilson (Steve Coogan) e um grupo de amigos decidem criar a sua

Peter Mullan
Desde os 19 anos que o britânico Peter Mullan queria realizar filmes. O facto de não conseguir entrar na escola de cinema levou-o, contudo, a apostar na carreira de actor, tendo participado em filmes como Braveheart (1995) ou Trainspotting (1996). Só 1993 cumpriria o sonho antigo da realização, ao dirigir a curta-metragem Close.