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PRIMEIROS CANTOS (1846), GONÇALVES DIAS: O ABRASILEIRAMENTO DA LITERATURA BRASILEIRA

“Embora a obra de Gonçalves Dias inclua teatro, historiografia e tentativa de romance, é como poeta que ele vai realizar a melhor
e maior parte de seu trabalho. Já nos “Primeiros Cantos” estão presentes as linhas temáticas que marcam a produção gonçalvina:
saudosismo, indianismo e lirismo amoroso. É nessa obra, também que a sensibilidade lírica do poeta, inteiramente sintonizada
com a sensibilidade do público da época, encontra na liberdade de formas e no virtuosismo rítmico, a medida exata entre à
expressão e a construção. Esse, o motivo do imediato e retumbante sucesso, que o crítico Antônio Cândido resume da seguinte
maneira: “...o que era tema – saudade, melancolia, natureza, índio – tornou-se algo novo e fascinante, graças à superioridade da
inspiração e dos recursos formais”.

I – AUTOR:

Gonçalves Dias (Antônio G. D.), poeta, professor, crítico de história, etnólogo, nasceu em Caxias, MA, em 10 de agosto de 1823,
e faleceu em naufrágio, no baixio dos Atins, MA, em 3 de novembro de 1864.
Era filho de João Manuel Gonçalves Dias, comerciante português, natural de Trás-os-Montes, e de Vicência Ferreira, mestiça.
Perseguido pelas exaltações nativistas, o pai refugiara-se com a companheira perto de Caxias, onde nasceu o futuro poeta. Casado
em 1825 com outra mulher, o pai levou-o consigo, deu-lhe instrução e trabalho e matriculou-o no curso de latim, francês e
filosofia do prof. Ricardo Leão Sabino. Em 1838 Gonçalves Dias embarcaria para Portugal, para prosseguir nos estudos, quando
faleceu seu pai. Com a ajuda da madrasta pode viajar e matricular-se no curso de Direito em Coimbra. A situação financeira da
família tornou-se difícil em Caxias, por efeito da Balaiada, e a madrasta pediu-lhe que voltasse, mas ele prosseguiu nos estudos
graças ao auxílio de colegas, formando-se em 1845. Em Coimbra, ligou-se ao grupo dos poetas que Fidelino de Figueiredo
chamou de “medievalistas”. À influência dos portugueses virá juntar-se a dos românticos franceses, ingleses, espanhóis e alemães.
Em 1843 surge a “Canção do exílio”, um das mais conhecidas poesias da língua portuguesa.
Regressando ao Brasil em 1845, passou rapidamente pelo Maranhão e, em meados de 1846, transferiu-se para o Rio de Janeiro,
onde morou até 1854, fazendo apenas uma rápida viagem ao norte em 1851. Em 46, havia composto o drama “Leonor de
Mendonça”, que o Conservatório do Rio de Janeiro impediu de representar a pretexto de ser incorreto na linguagem; em 47 saíram
os “Primeiros Cantos”, com as “Poesias Americanas”, que mereceram artigo encomiástico de Alexandre Herculano; no ano
seguinte, publicou os “Segundos Cantos” e, para vingar-se dos seus gratuitos censores, conforme registram os historiadores,
escreveu as “Sextilhas de frei Antão”, em que a intenção aparente de demonstrar conhecimento da língua o levou a escrever um
“ensaio filológico”, num poema escrito em idioma misto de todas as épocas por que passara a língua portuguesa até então. Em

1849, foi nomeado professor de Latim e História do Colégio Pedro II e fundou a revista Guanabara, com Macedo e Porto Alegre.
Em 51, publicou os “Últimos Cantos”, encerrando a fase mais importante de sua poesia.
A melhor parte da lírica dos “Cantos” inspira-se ora da natureza, ora da religião, mas, sobretudo, de seu caráter e temperamento.
Sua poesia é eminentemente autobiográfica. A consciência da inferioridade de origem, a saúde precária, tudo lhe era motivo de
tristezas. Foram elas atribuídas ao infortúnio amoroso pelos críticos, esquecidos estes de que a grande paixão do poeta ocorreu
depois da publicação dos “Últimos Cantos”. Em 1851, partiu Gonçalves Dias para o Norte em missão oficial e no intuito de
desposar Ana Amélia Ferreira do Vale, de 14 anos, o grande amor de sua vida, cuja mãe não concordou por motivos de sua origem
bastarda e mestiça. Frustrado, casou-se no Rio, em 1852, com Olímpia Carolina da Costa. Foi um casamento de conveniência,
origem de grandes desventuras para o poeta, devidas ao gênio da esposa, da qual se separou em 1856. Tiveram uma filha, falecida
na primeira infância.
Nomeado para a Secretaria dos Negócios Estrangeiros, permaneceu na Europa de 1854 a 1858, em missão oficial de estudos e
pesquisa. Em 56, viajou para a Alemanha e, na passagem por Leipzig, em 57, o livreiro-editor Brockhaus editou os “Cantos”, os
primeiros quatro cantos de “Os Timbiras”, compostos dez anos antes, e o Dicionário da língua tupi. Voltou ao Brasil e, em 1861 e
62, viajou pelo Norte, pelos rios Madeira e Negro, como membro da Comissão Científica de Exploração. Voltou ao Rio de Janeiro
em 1862, seguindo logo para a Europa, em tratamento de saúde, bastante abalada, e buscando estações de cura em várias cidades
européias. Em 25 de outubro de 63, embarcou em Bordéus para Lisboa, onde concluiu a tradução de “A noiva de Messina”, de
Schiller. Voltando a Paris, passou em estações de cura em Aix-les-Bains, Allevard e Ems. Em 10 de setembro de 1864, embarcou
para o Brasil no Havre no navio Ville de Boulogne, que naufragou, no baixio de Atins, nas costas do Maranhão, tendo o poeta
perecido no camarote, sendo a única vítima do desastre, aos 41 anos de idade.
Todas as suas obras literárias, compreendendo os “Cantos”, as “Sextilhas”, a “Meditação” e as peças de teatro (“Patkul”, “Beatriz
Cenci” e “Leonor de Mendonça”), foram escritas até 1854, de maneira que, seguindo Sílvio Romero, se tivesse desaparecido
naquele ano, aos 31 anos, “teríamos o nosso Gonçalves Dias completo”.
O período final, em que dominam os pendores eruditos favorecidos pelas comissões oficiais e as viagens à Europa, compreendem
o Dicionário da língua tupi, os relatórios científicos, as traduções do alemão, a epopéia “Os Timbiras”, cujos trechos iniciais, que
são os melhores, datam do período anterior.

II – CARACTERÍSTICAS DO AUTOR:
Sua obra poética, lírica ou épica, enquadrou-se na temática “americana”, isto é, de incorporação dos assuntos e paisagens
brasileiros na literatura nacional, fazendo-a voltar-se para a terra natal, marcando assim a nossa independência em relação a
Portugal. Ao lado da natureza local, recorreu aos temas em torno do indígena, o homem americano primitivo, tomado como o
protótipo de brasileiro, desenvolvendo, com José de Alencar na ficção, o movimento do “Indianismo”, que conferiu caráter
nacional à literatura brasileira.
Os indígenas, com suas lendas e mitos, seus dramas e conflitos, suas lutas e amores, sua fusão com o branco, ofereceram-lhe um
mundo rico de significação simbólica. Embora não tenha sido o primeiro a buscar na temática indígena recursos para o
abrasileiramento da literatura, Gonçalves Dias foi o que mais alto elevou o Indianismo.
III – OBRAS:
“Primeiros cantos”, poesia (1846); “Leonor de Mendonça”, teatro (1847); “Segundos cantos” e “Sextilhas de Frei Antão”, poesia
(1848); “Últimos cantos” (1851); “Cantos”, poesia (1857); “Os Timbiras”, poesia (1857); “Dicionário da língua tupi” (1858);
“Obras póstumas, poesia e teatro” (1868-69); “Obras poéticas”, org. de Manuel Bandeira (1944); “Poesias completas e prosa
escolhida”, org. de Antonio Houaiss (1959); “Teatro completo” (1979).
IV – “PRIMEIROS CANTOS”:
A obra “Primeiros Cantos” foi recebida com entusiasmo pela crítica e fez grande sucesso junto ao público ledor de poesia.
Alexandre Herculano renomado e recatado escritor romântico de Portugal e o imperador D. Pedro II registram rasgados elogios ao
livro e tecem palavras de simpatia e incentivo ao poeta maranhense.
"Os primeiros cantos são um belo livro; são inspirações de um grande poeta. A terra de Santa Cruz, que já conta outros no seu
seio, pode abençoar mais um ilustre filho. O autor, não o conhecemos; mas deve ser muito jovem. Tem os defeitos do escritos
ainda pouco amestrado pela experiência: imperfeições de língua, de metrificação, de estilo. Que importa? O tempo apagará essas
máculas, e ficarão as nobres inspirações estampadas nas páginas deste formoso livro.”

Alexandre Herculano
Gonçalves Dias foi o primeiro poeta autenticamente brasileiro, na sensibilidade e na temática, e das mais altas vozes de nosso
lirismo. Embora haja, em “Primeiros Cantos”, alguns poemas episódicos, em que existe uma narrativa, predomina no livro o
gênero lírico – um lirismo fácil e espontâneo, perpassando das emoções do poeta. Ao contrário do lirismo racional dos clássicos
nascido da inteligência, o de Gonçalves Dias brota do coração e expressa bem o sentimentalismo romântico.
Alguns dos poemas dos “Primeiros Cantos”, porventura os melhores, repunham em nossa poesia o índio nela primeiro introduzido
por Basílio da Gama e Santa Rita Durão. No entanto, nos poemas desses poetas não entrava o índio senão como elemento da ação
ou de episódios, sem lhes interessar mais do que o pediam o assunto ou as condições do gênero. Nos “Cantos” de Gonçalves Dias,
ao contrário, é ele de fato a personagem principal, o herói e a ele vão claramente as simpatias do poeta, transformando-o em uma
imagem poética, representativa das tradições brasileiras.
As notas predominantes de sua poesia são o nacionalismo e o indianismo. Sua obra poética apresenta três aspectos: o lírico, o
indianista e o clássico.
A sua poesia lírica traduz um amor infeliz e insatisfeito. Sua produção dramática tem fundo histórico e emotividade. Enfim, dada a
espontaneidade de seus versos e a sua inspiração natural, tornou-se um dos nossos maiores poetas.
V - ESTILO DA ÉPOCA:
Como se vê no “Prólogo aos Primeiros Cantos”, o próprio Gonçalves Dias, traça o perfil da sua poesia, que é bem a concepção
romântica de poetar, na qual se destaca a liberdade formal, a imaginação criadora e valorização do indivíduo, de suas contradições
e das emoções particulares e circunstanciais.
“Dei o nome de Primeiros Cantos às poesias que agora publico, porque espero que não serão as últimas.
Muitas delas não têm uniformidade nas estrofes, porque menosprezo regras de mera convenção; adotei todos os ritmos da
metrificação portuguesa, e usei deles como me pareceram quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.
Não têm unidade de pensamento entre si, porque foram compostas em épocas diversas – debaixo de céu diverso – e sob a
influência de expressões momentâneas. Foram compostas nas margens viçosas do Mondego e nos píncaros enegrecidos do Gerez
– no Doiro e no Tejo – sobre as vagas do Atlântico, e nas florestas virgens da América (...)
Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena política para ler em minha alma, reduzindo à
linguagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as ideias que em mim desperta a vista de uma
paisagem ou do oceano – aspecto enfim da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento – o coração com o
entendimento – a ideia com a paixão – colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar
tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia – a Poesia grande e santa – a Poesia como eu a compreendo sem a
poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.
O esforço - ainda vão - para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume. O
Público o julgará; tanto melhor se ele o despreza, porque o Autor interessa em acabar com essa vida desgraçada, que se diz de
Poeta.”
Rio de Janeiro, julho de 1846.
Como se pode ver, no “Prólogo” de Gonçalves Dias, não só se revela a sua postura em face do fazer poético como também nele
sobressaem as principais características do ideário romântico:
• o culto e exaltação da natureza, vista quase sempre como reflexo de Deus;
• a tendência para a solidão, em contato com a natureza, longe da sociedade;
• o derramamento lírico, em que o poeta extravasa as emoções e sentimentos de forma livre e espontânea;
• a necessidade de perpassar a produção poética do sentimento cristão e religioso;
• a metrificação variada e livre, sem o rigor formalista da poesia clássica.
Em “Primeiros Cantos”, obra concebida inteiramente ao gosto do figurino romântico, além desses aspectos alistados, destaca-se
ainda como característica do Romantismo:
• o nacionalismo expresso por meio da temática indianista e também do sentimento da pátria;
• a concepção amorosa a partir de sentimentos puros e castos e como paixão avassaladora na linha do “amor e morte”;
• o uso frequente de reticências e interjeições como recurso que expressa bem os estados da alma.
Como se vê, surgido na esteira do liberalismo da Revolução Francesa, o Romantismo faz uma verdade revolução na literatura
rompendo com a concepção clássica de fazer poesia e libertando o coração da tirania do reinado da razão.
VI – RECURSOS POÉTICOS:

Na época, a concepção artística do Romantismo ainda não tinha evoluído no verdadeiro sentido da técnica. Entretanto, em
Gonçalves Dias, nota-se uma consciência maior. Como vimos, os “Primeiros Cantos” vêm prefaciado pelo autor que se
autodetermina a menosprezar "regras de mera convenção", a adotar "todos os ritmos da metrificação portuguesa", usando deles
"como me pareceram quadrar com o que eu pretendia exprimir", de tal modo que compreende a Poesia como o casamento do
"pensamento" com o "sentimento". Portanto, não se pode negar o alto grau de conscientização artística que existia em Gonçalves
Dias.
Destacam-se, em “Primeiros Cantos”, alguns aspectos de métrica e linguagem que configuram bem o estilo de Gonçalves Dias:
1. “Menosprezando regras de mera convenção”, o poeta sempre procura ajustar a métrica, sem a obsessão de rimas ao assunto,
numa sintonia perfeita entre forma e conteúdo. Na sua poesia, destaca-se a musicalidade, como se vê, por exemplo, no ritmo leve
e saltitante de “Seus olhos”, que se associa bem à ideia de inocência e pureza:
“Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir.
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.”
Por outro lado, nos “hinos” à natureza, como se vê, por exemplo, em “A tarde” e “O Mar”, usa um verso mais lento caudaloso, o
que confere a essas poesias um tom solene e grandioso que combina bem com o caráter reflexivo e o sentimento da divindade que
os perpassa, na descrição dos movimentos da natureza magistralmente captados enquanto cores, sons, perfumes, a passagem para
a ideia de Deus.
“Oh tarde, oh bela tarde, oh meus amores,
Mãe da meditação, meu doce encanto!
Os rogos da minha alma enfim ouviste,
E grato refrigério vens trazer-lhe
No teu remansear prenhe de enlevos!”

“Ó mar, o teu rugido é um eco incerto
Da criadora voz, de que surgiste:
Seja, disse; e tu foste, e contra as rochas
As vagas compeliste.”
2. À primeira vista, destaca-se a feição acadêmica de sua linguagem, bem ao gosto lusitano, com construções tipicamente
portuguesas, como a colação opossinclítica do pronome átono e inversões sintáticas que lembram os estilos clássicos:
“Enquanto a morte me não rouba a vida”.
“Da morte o passo glorioso afronta”.

3. Outro aspecto que chama a atenção é o uso de palavras de sabor arcaico, que ocorrem com alguma frequência: soidão (solidão);
i (aí); al (algo); imigo (inimigo); pego (pélago), mi (mim), frauta (flauta), imo (íntimo), o que se explica, quase sempre, pela
necessidade métrica.
“A corda do prazer que ainda inteira
Que virgem de emoção inda conservo.”
4. Com alguma frequência igualmente ocorre a síncope, que é um recurso métrico para reduzir a sílaba, e a ectlipse (fusão de com
+ a):
“Suspenderei minha harpa dalgum tronco
Em of'renda à fortuna; - ali sozinha,
Tangida pelo sopro só do vento,
Há de mistérios conversar co’a noite.”
5. Constante também, como expressivo recurso estilístico, é a repetição de palavras que reforça a ideia que se quer transmitir:
“Gentil, engraçado infante

Que vives sempre a brincar. embora outros autores também façam uso desse modismo. é que o poeta procura dar uma visão do índio integrado na tribo. principalmente. sua força. Nem pode a noite enegrecer-lhe a face. ritmos bem acentuados e imagens originais. Em “Deprecação”. “O Canto do Índio” e “Deprecação”. Nem viço e nem frescor prestar-lhe a noite!” 7. expressa em alemão e traduzido assim por Manuel Bandeira: “Conhecer o país onde florescem as laranjeiras? Ardem na escura fronde os frutos de ouro. os filhos de Tupã reclamam contra a vingança que esse deus lhes impingiu. o pajé da tribo relata a seus guerreiros a visão que tivera em sua caverna. parente muito próximo do medievismo coimbrão. italiano. Conforme se pode ver. Adormeces a sonhar!” 6. além de revelar a espantosa cultura do poeta e suas influências literárias está sempre relacionada com o tema dominante no poema. além de outros poemas sem grande significado. No “Canto do Índio”. um recurso novo: um prisioneiro canta a desventura de ter visto uma virgem loura. No “Canto do Piaga”. Outro aspecto que se destaca na linguagem de Gonçalves Dias é o gosto por imagens expressas por meio de comparação. que estava adormecida pela tradição e que foi revivida pelo poeta.. como nesta passagem de “Quadras da minha vida”: “Minha alma é como a flor que pende murcha. e que está presente também no restante das “Poesias Americanas”. profeticamente. um índio canta orgulhoso. Conhecê-lo? – Para lá quisera eu ir!” VII . reúne quatro cantos fundamentais para a compreensão do indianismo na literatura brasileira e. na poesia de Gonçalves Dias: “O Canto do Guerreiro”. espanhol. embalde a noite Estende sobre a terra o negro manto: Não pode a luz chegar ao fundo abismo. Não pode a luz à flor prestar maior brilho. acaba sendo um recurso estético e ideológico.. reduzido aos padrões da cavalaria. . encontra na figura do indígena o símbolo exato e adequado para a realização da pesquisa lírica e heróica do passado.Dos teus brinquedos te esqueces À noitinha. que desperta sua paixão e o faz aceitar a condição de escravo do branco em troca de seu amor. Provavelmente por essa razão. “Poesias Diversas” e “Hinos”.e te entristeces. inglês. As primeiras poesias indianistas têm um enredo muito simples. a epígrafe (expressa em francês.ESTRUTURA: Os poemas de “Primeiros Cantos” estão reunidos em três partes: “Poesias Americanas”. alemão. intitulada “Poesias Americanas”.. embora sua recriação poética dê ideia da redescoberta de uma raça. Se os europeus podiam encontrar na Idade Média as origens da nacionalidade. A primeira parte da obra. sua destreza e sua autoridade nas artes da caça. latim e também português). . da pesca e da guerra. .embala estrelas Brilham no azul dos céus. especialmente.Nos teus jogos inconstante. O emprego frequente de epígrafes (citação no início da maioria dos poemas do livro) é outra marca de Gonçalves Dias. a banhar-se. o mesmo não acontecia com os brasileiros. .. Que tens tão belo semblante. a volta ao passado. Como a bonina. que ele cultivou principalmente nas “Sextilhas”. como introduz “Canção do Exílio”. cultuado pelos românticos. mesclada ao culto do “bom selvagem”. adequado a um sentimento de honra tipicamente ocidental. “O Canto do Piaga”.e adormeces. despida. os brancos a fantasmas que viriam destruir sua gente. O índio. É qual profundo abismo. deixando-os entregues à violência do branco. . abre-se com a “Canção do Exílio” e. No “Canto do Guerreiro”. incluídas em “Últimos Cantos”. nos costumes e. O que se nota nesses poemas. identificando.

Im dunkeln die Gold-Orangen glühen. projeção de sentimentos. poetizar uma visão particular da realidade. nesta vida Amor igual ao meu!” (Gonçalves Dias) “Na poesia indianista o poeta soube manejar com habilidade numerosos ritmos. as situações desenvolvidas como episódios da grande gesta heróica e trágica da civilização indígena brasileira. presente nos poemas indianistas. bem como traduzir o gosto e o sentimento da solidão. somada a uma concepção romântica do mundo. Registro do ambiente. vários tipos de versos e diversas formas de composição. ponto de partida para a reflexão. O novo está em. elegias. cuidadoso no uso de imagens. inacessível aos sentidos. que ele não chegou a abandonar inteiramente. a linguagem gonçalvina consegue conferir aos temas românticos um tom bem distante do lamento choroso e exagerado dos poetas conhecidos como ultra-românticos. todos eles muito explorados pela tradição literária. retratação de um mundo visível que leva a imaginação a criar e a refletir a respeito de uma realidade oculta. . “Ah! Que eu não morra sem provar ao menos Sequer por um instante. Comedido no uso de adjetivos.” Beth Brait. dois pólos perfeitamente combinados por um tratamento hábil e personificado da linguagem. dos sofrimentos e da morte. principalmente. na poesia de cunho reflexivo e também na produção lírica. (. baladas. disciplinado na busca da expressão exata para a tradução de realidades exteriores e interiores. modelada nas canções.. a etnografia fantasiada. da tragédia clássica e dos romances de gesta da Idade Média. o autor valoriza a terra e o índio locais. ao manter a disciplina clássica do manejo e do domínio da linguagem e ao assimilar as influências dos românticos europeus. hinos. a natureza assume nos versos de Gonçalves Dias um tom poético raramente encontrado no Romantismo brasileiro. wo die Citronen blühen. “Canção do Exílio” Kennst du das Land. tratar os dissabores da vida.O idealismo. é porque não prestaram muita atenção à magia que atravessa o tempo e permanece instalada em alguns de seus poemas.Dahin. sátiras. amores frustrados e índios meio-irmãos de Tarzan. Já no lirismo sentimental conseguiu não apenas descrever com eloquência os encantos da mulher amada. Seus textos revelam o aproveitamento da disciplina clássica.“POESIAS AMERICANAS”: Em “Poesias Americanas”.) É preciso notar ainda que. é um exemplo de sensibilidade que difere o estilo gonçalvino do de outros poetas românticos menores. in “Literatura Comentada” VIII . mas também particularizar um modo de ver a natureza em profundidade... A natureza. recurso imagético e. Kennst du es wohl? . motes glosados e outras formas exploradas pelo poeta em toda sua obra.. O aspecto novo deste lirismo não pode ser buscado nos temas. dahin! Möcht ich. ziehn. a qual sofre a degradação do branco conquistador e colonizador. Gonçalves Dias coloca em xeque a ideia de que os românticos eram movidos unicamente pela inspiração. cantos. Se alguns leitores insistem em ver nesse maranhense apenas o idealizado de um paraíso cheio de palmeiras. têm na sua forma e na sua concepção reflexos da epopeia.

As aves. Nosso céu tem mais estrelas. no final do livro. Coimbra . Minha terra tem palmeiras. Nossa vida mais amores. Sem qu'inda aviste as palmeiras. à noite. Sem que eu volte para lá. outras são paródias satíricas. especialmente modernistas. à noite Mais prazer encontro eu lá. Em cismar. Que tais não encontro eu cá. sozinho. Nossos bosques tem mais vida. metro ligado à tradição medieval-trovadoresca. o poema é composto por 24 versos distribuídos ao longo de suas cinco estrofes. acomoda-se perfeitamente ao espírito de “Canção do Exílio”.Julho 1843. A epígrafe retirada do romance de formação. algumas são recriações da de Gonçalves Dias. a incômoda sensação do sentir-se fora de lugar e a conseqüente melancolia que reveste a consciência do distanciamento da terra natal. Estas. de quem falamos agora. Essa preferência talvez se explique pelo fato de que tanto . Onde canta o Sabiá. Em cismar . ao discursar na inauguração do busto de Gonçalves Dias no Rio de Janeiro. o poema inaugurou um modo particular de representação da natureza tropical. Minha terra tem palmeiras... O poema pode ser visto como elemento essencial no processo de idealização da imagem do nosso país. e o mais conhecido de nossa literatura. que aqui gorjeiam. por sua vez. A figura de Mignon e de seu melancólico desejo transparecem algumas vezes no contexto do romance de Goethe: por exemplo. “A Canção do Exílio” é o poema que abre o livro “Primeiros Cantos”. afirma a este que existem duas coisas que fazem a menina viver: “ A natureza estranha dessa boa criança.) Predominam. ou seja. contribuindo decisivamente para transformá-la numa espécie de metáfora nacional.. no poema gonçalvino.” Representante máximo do ufanismo brasileiro. Mais prazer encontro eu lá. não teve dúvidas ao afirmar que a “Canção está em todos nós”. de Goethe.sozinho. Onde canta o sabiá. são divididas em três quadras e duas sextilhas com cada verso possuindo sete sílabas poéticas.Goethe Minha terra tem palmeiras. Minha terra tem primores. Onde canta o Sabiá.. assim. redondilhas maiores ou heptassílabo. Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá. Não gorjeiam como lá.) Conheces bem? Nesse lugar eu desejava estar. Onde canta o sabiá. consiste exclusivamente numa profunda nostalgia: o desejo louco de rever sua pátria (. observa-se a moça agonizando e o seu médico. em junho de 1901. “Os anos de aprendizagem de Wilhem Meister. Dotado de um ritmo envolvente e interiorizando-se fundo no imaginário popular brasileiro. de tal modo que Machado de Assis. Não permita Deus que eu morra. Há dezenas de outras canções do exílio.” Gonçalves Dias retira do poema original a expressão de um desejo de voltar à Pátria. Nossas várzeas tem mais flores. Ao escolher o fragmento da “Balada de Mignon” e traduzido por Manuel Bandeira: “Tu conheces a terra onde as limoeiras florescem? Laranjas douradas brilham no verde-escuro da folhagem? (. vendo a sós com Wilhem.

no poema de Gonçalves Dias. A estrutura rítmica da “Canção do Exílio” apresenta. como elementos da nacionalidade. o terceiro elemento rímico – Sabiá que é algo particular à terra natal – provoca um desequilíbrio natural na tensão instalada entre as duas anteriores. A estes. ele a transcende. É curioso notar que existe uma visível articulação entre elas que provoca. enquanto. 22 e 23) não tem um comportamento uniforme. com a acentuação recaindo na 4ª sílaba. a preocupação era a de identificar e nomear os campos de atributos. De acordo com Adélia B. enquanto dado poético. mais pungente. entre elementos comuns tanto ao cá quanto ao lá. e o segundo. No campo de atributos exclusivos existem apenas dois elementos restritos ao lá: palmeira e sabiá. Como facilmente se constata. a predominância da rima aguda (oxítona) em “a” (Sabiá. No entanto. também no nível rímico. quatro vezes no poema. no nível rímico. produzindo modificações importantes no andamento melódico do poema e podem ser divididos em dois grupos distintos: o primeiro. os dois termos se equivalem somente no plano físico e enquanto elementos exóticos e exclusivos à natureza do lá. não era propriamente uma novidade na literatura brasileira. pode-se afirmar que este é construído de modo a realçar. o poeta provoca uma mudança significativa no ritmo da canção. em oposição aos motivos clássicos. entre as palavras “primores” e “palmeiras”. Além da igualdade numérica. O uso simbólico da figura do Sabiá. Uma vez que o termo Sabiá não se restringe apenas à representação física da ave. a referência explícita do poeta à terra alheia suscita a construção de um ritmo diferente. No campo dos atributos comuns instaura-se um esquema comparativo. na 4ª e na 5ª . e por isso colocado. formados pelos versos 21 e 23. havia por parte dos autores a preocupação generalizada com o resgate de formas e motivos populares. 5º e 7º sílabas. por isso. e observada inicialmente por Manuel Bandeira. Como se sabe. uma posição semelhante à ocupada pelo rouxinol na literatura européia. cinco versos (3.a redondilha quanto a canção tenham as suas raízes na cultura popular e. confirmando a também mencionada reiteração obsessiva. Entretanto. consequentemente. por parte de Gonçalves Dias. ao que parece propositais. Essa reafirmação é embalada por um componente imprescindível da cisma romântica: a saudade. através da sucessão obsessiva. acentuando sonoramente. as duas anteriores e o cá. Se. Grafado na “Canção do Exílio” em maiúscula. a predominância de elementos ligados à terra natal. Inicialmente. Além da própria significação etimológica de primores – o que ocupa . o ritmo clássico da redondilha maior é o ritmo alternante. bosques etc. atrás da simplicidade do heptassílabo. a todo instante. o Sabiá transita do espaço físico para o simbólico e vice-versa. a interpretação do poema será feita através da montagem de um esquema comparativo que é possível inferir a partir de características levantadas junto às duas primeiras estrofes e que estabelecem um confronto direto entre um cá menosprezado e um lá altamente valorizado. 21. formado pelos versos 3. no caso brasileiro. associa-se a solidão. que é assimilada aqui como um meio através do qual o eu-lírico se apóia para reafirmar. são apresentados de forma diferenciada. Mas foi com seu poema que a ave ganhou uma significação especial. Entretanto. justificada apenas por sua localização espacial. a “Canção” é marcada pela reiteração obsessiva dos termos exclusivos ao lá. Sabiá e lá. ora a voz superior da natureza brasileira. marcado pela presença do “mais”. com a primeira letra de cada sílaba coincidindo entre si. lá e cá). de maneira a representar a ave em si. e denotando com isso uma intencionalidade em si. a superioridade de sua terra em contraponto ao exílio. O simples fato de pertencerem ao “lá” lhes dá um caráter aurático que encontra a sua justa representação em primores. Observa-se que duas das rimas – cá e lá – constituem um par antitético clássico e se opõem diretamente nas duas últimas estrofes. na acentuação de alguns versos e. as rimas agudas se reduzem a três e comutam de lugar de estrofe para estrofe: na 1ª e na 3ª. Tanto o primeiro com o segundo aparecem do ponto de vista numérico. ou seja. os atributos da terra natal do eu-lírico: estrelas. esta se desloca no sentido de se ater mais demoradamente na análise de cada um. há nas duas últimas estrofes o aparecimento de uma rima muito sutil. uma valorização da terra natal em detrimento do exílio. de Menezes. sentimento motriz que reveste o poema de uma dor nostálgica contida e. Ou seja. no mesmo plano de Deus. Em relação ao aspecto rímico da “Canção do Exílio”. 14 e 22. 3º. aproximando-se de palmeiras. alguns diálogos importantes. imagem simbólica da individuação nacional. Nas três estrofes seguintes. no contexto do poema. 14. aquele em que os versos se apresentam com acentuações na 1ª. preceito romântico. assumindo. flores. o sabiá tornou-se marca de brasilidade. ao se aludir diretamente ao exílio. Vejam-se estes dois exemplos: Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá Entretanto. inicialmente. com acentuação recaindo na 2ª sílaba. Além disso. agora.

ocorre a fusão simbólica entre os dois termos. aí. que chegava. lançar de fora. de contemplação da natureza como manifestação de Deus. solidão e desalento. nos quais paira sobre as tribos a ameaça do invasor branco. em atributos idealizados e exclusivos ao “lá”. É constante a atitude panteísta. Configurando-se a intensidade que envolve a ligação entre primores e palmeiras. Guerreiros. e que pareciam comuns ao “cá”. em que um guerreiro aprisionado se deixa cativar por uma virgem loura: “O Canto do Guerreiro” "Aqui na floresta Dos ventos batida. em que se exaltam as qualidades do índio. sobretudo. Vale lembrar que os românticos não tinham compromisso com a verdade. A imagem da natureza edênica ganha com o poema uma significação maior na medida em que o poeta lança mão da sua condição de exilado para melhor conhecer o país. pode-se se reafirmar que. chega-se à articulação derradeira. para dizimá-los em busca de riquezas. o verso é ecologicamente falso. para melhor representá-la. — Ouvi-me. no limite. a graça). transformando. Há. remete a “Canção” e a sua celebração do Brasil ao mito do paraíso terrestre. e “O canto do índio”. Façanhas de bravos Não geram escravos. nos momentos de saudade. Que estime a vida Sem guerra e lidar. todos os atributos do lá são não somente exclusivos como também idealizados. fundou por si uma tradição na literatura brasileira que. com a fantasia. encontra ecos. Em sequência. — Ouvi meu cantar. uma correspondência velada que ofusca a completa idealidade do lá. II Valente na guerra Quem há. sintetizados em primores. como agente de Anhangá (deus do mal). O distanciamento da terra permite ao poeta se colocar num lugar privilegiado que facilita a escolha de parâmetros de comparação. “O canto do Piaga” e “Deprecação”. mas. dessa feita. Partindo da perspectiva em que os atributos comuns se abrigam sob a sombra sintética de primores. mas com a imaginação. não canta. como eu sou? Quem vibra o tacape . já que este pode. não somente se tornou um referencial paradigmático de louvor à brasilidade através da perpetuação da imagem da natureza edênica. Ocorre que o sabiá. que tem por habitat a palmeira (sabiapioca). A natureza é também refúgio e confidente do poeta. “Canção do exílio” ao também se apoiar em sentimentos universais como a dor do exílio. um olhar idealizado sobre sua terra natal. cujo ponto decisivo consiste no desvendamento da intensa relação que existe entre primores e palmeiras. encontram-se quatro poemas que destacam a temática indianista: “O canto do guerreiro”. os atributos. ainda hoje. No limite das significações. É importante ressaltar que apesar de poeticamente muito sugestivo (a palmeira simbolizando a imponência e o Sabiá.o primeiro lugar.

Quem há que me afronte?! A onça raivosa Meus passos conhece. Mil setas lá voam. Mil gritos reboam. ouvi-me. como eu sou? III Quem guia nos ares A flecha implumada. Mil arcos se encurvam. O imigo estremece. — Quem há. — Quem há. Onde eu a mandar? — Guerreiros. Na altura arrojada. E a ave medrosa Se esconde no céu. — Quem há mais valente. respondem Aos sons do Boré! — Quem é mais valente.Com mais valentia? Quem golpes daria Fatais. Com tanta certeza. IV Quem tanto imigos Em guerras preou? Quem canta seus feitos Com mais energia? Quem golpes daria Fatais. — Mais forte quem é? VII Lá vão pelas matas. Não fazem ruído: O vento gemendo . Ferindo uma presa. — Ouvi meu cantar. como dou? — Guerreiros. ouvi-me. Mil homens de pé Eis surgem. ouvi-me. como eu dou? — Guerreiros. como eu sou? V Na caça ou na lide. — Mais destro do que eu? VI Se as matas estrujo Co’ os sons do Boré.

mas não escravizar. os primeiros. O objetivo central da epopéia é perpetuar na memória das gerações futuras a imagem do passado heróico nacional. no qual (como nos mostra Mikhail Bakhtin) estão os ancestrais. cujos versos afirmam uma concepção de valor da condição indígena que irá distinguir o traço determinante da personalidade desses povos e se constituir em marca de toda a representação do índio na poesia de Gonçalves Dias: a dignidade da condição de homem livre. A narração é conduzida pelo índio. E. Qual fonte que salta De rocha empinada. dizei-me. porque corresponde a continuidade do código de valores dos ancestrais e fundadores de uma nação. têm qualidade épica. A luta é condição maior. “O canto do Piaga” . na qual só há lugar para os fortes. redondilhas menores. VIII E ao Piaga se ruge No seu Maracá. Que faço avançar. adaptada às novas condições. Que vai marulhosa.E as matas tremendo E o triste carpido Duma ave a cantar São eles — guerreiros. as raízes nativas da pátria. os fundadores. — Tão forte quem é?" "O Canto do Guerreiro". O uso da forma épica. a vida é uma epopéia constante. ainda que esta lhe custe á destruição e a morte. é composto por nove estrofes. Os campos juncados De mortos são já: Mil homens viveram Mil homens são lá. Tal eles se escoam Aos sons do Boré. com métrica regular de cinco sílabas. — Guerreiros. os pais. pois o combate só exalta os bravos. isto só é possível. impõe-se enaltecê-la. Portanto. primeiro poema indianista de “Primeiros Cantos”. A morte lá paira Nos ares frechados. e como tais imagens se construíram na vida-combate. aqueles feitos que. Que a raiva apagada De todo não é. Fremente e queixosa. os melhores. que só se desfaz com a destruição e a morte: O índio se deixa enganar. revela a grande preocupação de Gonçalves Dias: não deixar que se percam no esquecimento as grandes tradições dos nossos índios. expandindo sua imagem e perpetuando-a na memória das gerações futuras. Sua resposta à tentativa de escravização é a luta. fator de dignidade e justificativa da existência da nação indígena. Eis a estratégia do poeta: perpetuar na lembrança da nação. na voz do porvir. elevados. resiste. por meio da atualização daquelas imagens elevadas na memória do presente. IX E então se de novo Eu toco o Boré. única condição de sobrevivência das nações indígenas. na luta.

Ó Guerreiros. Feia cobra se enrosca no chão. Não fui eu. meus cantos ouvi! II Porque dormes. Ó Guerreiros. Era feio. inquieto. o espectro que eu vi. Ó Guerreiros da Tribo Tupi. Porque dormes? O sacro instrumento De per si já começa a vibrar. medonho. Frio horror me coou pelos membros. Falam Deuses nos cantos do Piaga. Abro os olhos. Frio vento no rosto senti. que o acendi! Eis rebenta a meus pés um fantasma.I Ó Guerreiros da Taba sagrada. que habito. Eis na horrível caverna. Rouca voz começou-me a chamar. Esta noite — era a lua já morta — Anhangá me vedava sonhar. Manitôs! que prodígios que vi! Arde o pau de resina fumosa. tremendo. . meus cantos ouvi. não fui eu. carnes — tremi. Ó Guerreiros. Liso crânio repousa a meu lado. Todo inteiro — ossos. medroso. Falam Deuses nos cantos do Piaga. O meu sangue gelou-se nas veias. ó Piaga divino? Começou-me a Visão a falar. Um fantasma d'imensa extensão.

E não podes augúrios cantar?! Ouve o anúncio do horrendo fantasma. Que nos ares pairando – lá vão. Hartos troncos. robustos. ó Piaga. Ouve os sons do fiel Maracá.. Esse monstro. Vem roubar-vos a filha. e só! Negro monstro os sustenta por baixo. Mesmo o Piaga inda escravo há de ser! . Vem trazer-vos algemas pesadas. Manitôs já fugiram da Taba! Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá! III Pelas ondas do mar sem limites Basta selva. Profanar Manitôs... Hão de os velhos servirem de escravos. mas com folhas. Oh! quem foi das entranhas das águas. Vem quebrar-vos a maça valente. Não ouviste a coruja. – o que vem cá buscar? Não sabeis o que o monstro procura? Não sabeis a que vem. Com que a tribo Tupi vai gemer. gigantes. Como um bando de cândidas garças. Nem a lua de fogo entre nuvens. O marinho arcabouço arrancar? Nossas terras demanda. o que quer? Vem matar vossos bravos guerreiros. Traz embira dos cimos pendente – Brenha espessa de vário cipó – Dessas brenhas contêm vossas matas. Tais e quais. Vossas matas tais monstros contêm. a mulher! Vem trazer-vos crueza. Maracás. Qual em vestes de sangue.Tu não viste nos céus um negrume Toda a face do sol ofuscar. nascer? E tu dormes. fareja. i vem. de dia.. sem folhas. e não sabes. Brancas asas abrindo ao tufão. ó Piaga divino! E Anhangá te proíbe sonhar! E tu dormes. Seus estrídulos torva soltar? Tu não viste dos bosques a coma Sem aragem – vergar-se a gemer. impiedade — Dons cruéis do cruel Anhangá.

de lhe tirar o bem maior. Triste asilo por ínvio sertão.o que vem cá buscar?" ao que responde: "Vem matar nossos bravos guerreiros. não é ela o motivo principal do brilhantismo do texto. Na 4ª estrofe. E fora a tiritar. percebe-se a pergunta do índio: "Esse monstro. que por diversas vezes. o poema é bem o retrato da alma fragilizada do poeta. Em meio ao canto. poema longo em sete partes. um fidalgo namora a esposa e. pelas ideias de Montaigne e daqueles que as desenvolveram. Mas de nada adiantam suas previsões. conclama os seus guerreiros a ficarem alertas. também. ou seja. e o drama amoroso “O soldado espanhol”. seres capazes de arruinar a vida do índio. o pajé. exatamente no dia do casamento. logo na segunda estrofe.” II – “POESIAS DIVERSAS”: . ele mistura versos octossílabos. O poema é composto por 80 versos divididos em 3 partes e 20 quartetos. "a liberdade". Nesse caso. assim como grande parte dos escritores românticos. morador de um paraíso que seria destruído pelos invasores europeus. Chateaubriand (na França) e Fenimore Cooper.. idealizado. os poemas “Caxias”. percebe-se que o índio teme a cobra. ó Piaga.. inclusive. decassílabos e. pois este está realmente é no “Canto do Piaga”. Há de se notar. Piaga. medonha. Careço do teu amor Como da gota d’orvalho Carece no prado a flor. Nas faces palidez. nos Estados Unidos. Marcha a vingança pressurosa e torva: Traz na destra o punhal. o ritmo e a musicalidade do poema. nem o incitamento à luta. pois ele prevê a aproximação do perigo. revigorando as intenções nacionalistas do romantismo. que traduz a visão épica do mundo. mal este.é representado nesse poema como herói incompreendido. Tal sonoridade atrai até o leitor menos interessado em versificação. Vem roubar-vos a filha. Manitôs já fugiram da Taba. Vendo os vossos quão poucos serão. que é traiçoeira e inimiga deles. os incomuns nonassílabos. como Rousseau. Ó desgraça! ó ruína! ó Tupã! Gonçalves Dias foi muito influenciado. A forma apresentada aos fantasmas é de uma cobra. que prega resistência e luta contra os europeus invasores. fria. Susta as iras do fero Anhangá. já manifesta o seu descompromisso com tal ordem e constrói. o Piaga . O protagonista do poema. através do indianismo heróico. a presença do mal (Anhangá) é facilitada. Na intenção de fugir da tradição clássica. principalmente. já foi interpretada como a invasão dos portugueses. reina o sorriso. conjura. já que pressente a dominação que virá. violar mulheres e profanar sua religião. parte para a guerra e volta depois de muitos anos.que quer dizer pajé . homenagem à terra natal. Em “Primeiros Cantos” encontram-se ainda. o guerreiro volta e assassina o amante e a mulher. Na fala do Piaga o homem branco é o "monstro" que vem roubar terras. o líder. . fruto da imaginação do autor. capazes. que todas essas desgraças só ocorrem quando “Manitôs já fugiram da Taba!”. estão em perigo porque com os seus guardiões ausentes. nos olhos morte. que tem seu assunto tirado dos romances de cavalaria: o cavaleiro despede-se da esposa. deixa uma ideia de que a sua rima será alternada. Vossos Deuses. deve-se entender a sua poesia indianista como antevisão lírica e épica das nossas origens. Inicialmente. me anjo.Fugireis procurando um asilo. “Ferve dentro o prazer. “O canto do Piaga” exalta o índio heróico. virtuoso.” Abordando um tema bem ao gosto romântico – amor e morte. Anhangá de prazer há de rir-se. a mulher!". Há uma preocupação com seres sobrenaturais. fantasmas. contudo. no peito a raiva. mas. Durante sua ausência. com liberdade. na sua busca frustrada do amor: o amor puro e casto como uma flor: “Careço de ti.

de linha programática. Que as flores todas afaga. escritas de abundância de coração. puro e casto: “Tu és vária e melindrosa Qual formosa Borboleta num jardim. que não costuma nem dirigir aos outros elogios encomendados nem pedi-los para si. os acentos De profundo sentir. t. não posso resistir à tentação de transcrever das “Poesias Diversas” uma das mais mimosas composições líricas que tenho lido na minha vida.” Embora esteja presente também a ideia de desventura amorosa. Amanhã menos ardente .” (“A leviana”) “Hoje ainda és tu donzela Pura e bela Cheia de meigo pudor. receba o autor dos “Primeiros Cantos” testemunho sincero de simpatia. passarem." ALENCAR. No poema “Minha musa”. em “A leviana”. Gonçalves Dias dá o tom que predomina nesta segunda parte.) Se estas poucas linhas. os mares. José de.7. como é triste O sincero verter d’amargo pranto D’orfã singela É triste como o som que a brisa espalha. E divaga Em devaneio sem fim. Ama o prado florido. como se vê nestas estrofes: “É triste a minha Musa. 7 ano de 1847-1848. Ela ama a viração da tarde amena.” “Ela ama a solidão. (Aqui vinha transcrita a poesia “Seus Olhos”. "Futuro Literário de Portugal e do Brasil" em Revista Universal Lisbonense. pág. “Inocência” e em outros. a selva umbrosa E da rola o carpir. sobressai o amor idílico. já entrevisto em “O soldado espanhol”: lirismo amoroso e derramado.“Abstenho-me de outras citações. vazados num ritmo leve e suave. marcado pelo sentimentalismo lamuriante e lacrimoso. “Seus olhos”. Que cicia nas folhas do arvoredo Por noite bela. que ocupariam demasiado espaço. ama o silêncio. O sussurro das águas.

prevalecem neles a ideia de que a vida é um “vale de lágrimas”. sempre entrelaçados com a ideia de morte. E sofre até morrer!” .. que me é tão duro.. que não se concretiza. “Visões”.” (“Inocência”) Não obstante.” (“Minha vida e meus amores”) “Meu Deus. vai. predomina. Ou uma dor de mais onde outras reinam?” (“Tristeza”) Entretanto. como se vê nas passagens abaixo: “Podes ir. . o que há no mundo Que não seja sofrer? O homem nasce. “O pirata” e outros: “Meu Deus.mas este amor que me atormenta Que tão grato me foi. foi bom assim! No imenso pego Mais uma gota d’amargor que importa? Que importa o fel na taça do absinto.De repente Talvez sintas meu amor. Podes ir. como se vê nas passagens abaixo: “Seu rosto pálido e belo Já não tem vida nem cor! Sobre ele a morte descansa. João Duarte Lisboa Serra”. Que amor não doirou. nos poemas. Comigo morrerá!” (“O desengano”) “Amar-me! – Eu que sou? Meus olhos enxergam. lampejos de felicidade e algum entusiasmo. Senhor meu Deus. que é desfeito o nosso laço. como se vê em “Sofrimento”. e vive um só instante. Envolta em baço palor. enquanto duvida Minha alma sem crença. nesta parte. solidão. “À morte prematura” e “Ao Dr. de força exaurida..” (“Epicédio”) “E ela morreu no viço de seus anos!. Já farta da vida. desengano. E a lajem fria e muda dos sepulcros Se fechou sobre o ente esmorecido Ao despontar de vida Tão rica de esperanças e tão cheia De formosura e graças!.” (“À morte prematura”) Embora apareçam. o desejo de amar. infelicidade. que o teu nome nos meus lábios Nunca mais soará! Sim. que culmina com a morte infalível.. a presença da morte é mais marcante em “Epicédio”.

a natureza é a tônica em “Quadras da minha vida”. . como se vê nesta passagem: “Houve tempo em que os meus olhos Gostavam de lindo infante. o tempo à eternidade!” (“O oiro”) Presente em muitos poemas. Grandes. Somos hoje Cristãos. e em borbotões se expande. e o grande treme. “O oiro” e “A vila maldita. aspectos que também estão presentes em “Quadras da minha vida”. Gostavam das vivas cores De bela flor vicejante. Mimosa esp’rança ao infeliz legando. . E o infeliz se consola. E o manto além ao mísero raquítico.. Queimadoras palavras se atropelam Nos meus lábios. Gostavam do grave aspecto De majestoso ancião. o crime. E da voz imensa e forte Do verde bosque ondeante. Gostavam da branca nuvem Em céu de azul espraiada. Com a candura e sorriso Que adorna infantil semblante. está sempre presente o sentimento religioso. É o que se vê sobretudo em “O vate”.(“Sofrimento”) Em meio a tudo. Senhor. A terra ao céu. um séc’lo a outro. poemas em que sobressaem o mito da pureza infantil e o respeito ao idoso. grandes Teus prodígios. E da aurora cintilante. E do negro véu da noite. estão “O desterro de um pobre velho” e “A um menino”. são tuas obras.em nosso exílio erramos tristes. Do terno gemer da fonte Sobre pedras despenhada.. Maldizendo a soberba. o romântico gosta de abordar temas que comovem verdadeiros apelos ao coração. teu poder imenso: O pai ao filho o diz.profética harmonia Meu peito anseia. além de “O cometa”. cidade de Deus”: "E hoje.” (“O vate”) “Então do meu Senhor me calam n’alma D’amor ardente enlevos indizíveis. Se tendo às gentes redizer seu nome.” Como já se viu em “Soldado espanhol” e mesmo em “O trovador”. Nesse sentido. Damos ao infante aqui do pão que temos. os vícios. que impregna os poemas da presença de Deus. Tendo nos lábios conselhos. como se vê logo no início do poema: “Houve tempo em que os meus olhos Gostavam do sol brilhante.

e onde Morrer devera! Sofreu tormentos. outro sai dele.. em “A mendiga”. – Ah! Se não fosse Um qual véu transparente. está sempre numa dimensão inatingível. que se confunde com os “anjos”. Recordar o passado. . Outro a verdade sem véu. Do pobre velho compensando as dores. Ambos tão perto do céu! Infante e velho! Princípio e fim da vida! – Um entra neste mundo. Mas era em mora por cismar na terra. Sem o pranto enxugar a triste escrava Pávida voa. a esse propósito. em “A escrava”. que desfrutaste. porque tinha um peito. Transformando o prazer.” Presença marcante nos poemas e responsável direto pelo lirismo amoroso do poeta. tão graves.um sobre a terra.” Ainda nessa linha de apelo ao coração. Mísera escrava! No sofrer cruento. E o outro lá nos céus.. Congo! dizia. Eu a crera mulher. tema que será frequente no Realismo. louco. que a “impossibilidade da realização amorosa encontra no sonho um artifício para contrastar os aspectos físicos e idealizados do amor”: “Á noite quando durmo. O chama para si. constituindo uma “etérea visão”. poema em que se contrapõe a vida livre no Congo distante à dura realidade do cativeiro: “Do ríspido Senhor a voz irada. – Ó Deus. É de se vê. Como que a alma pura ali se pinta Ao través do semblante.. Em lentas agonias?!” (“O delírio”) III – “HINOS”: . que é grande. Um representa a inocência. Ambos tão puros. Onde vivera tão ditosa. como se vê em “O delírio” e outros. Onde nascera. a mulher. e o problema da escravidão. esclarecendo As trevas do meu sono. de acordo com a concepção romântica. Qu’inda sentia.Tendo amor no coração.E tentas. Uma etérea visão vem assentar-se Junto ao meu leito aflito! Anjo ou mulher? Não sei. Rábida soa. o poeta aborda timidamente as diferenças sociais. o Deus clemente Sobre a inocência de contínuo vela. Gozando ambos da aurora.

Senhor. consolo e refrigério para a alma triste do poeta: “Homem que sente dor folga contigo. porque assim sussurra? Que diz o cantar das aves? Que diz o mar que murmura? . Homem que tem prazer folga de ver-te! Contigo simpatizam. no seu trinar. E ajuntarei o meu hino Ao hino da criação. companheira de solidão. O nome do Criador. “Te Deum” e “Adeus aos meus amigos do Maranhão”. sobressai nesses poemas. o tema da natureza. Entre os céus e a terra êxtases doce.” Evocados pelos próprios títulos. nos quais se destaca a visão panteísta.” (“O romper d’alva”) Além desse aspecto. com minhas penas! E o pranto nos meus olhos represado. Alegres. em “A tarde”. Que nunca viu correr humana vista. “Te Deum” e “O templo”: “Oh! Como é grande o Senhor Deus. como se vê sobretudo em “O mar” e “O romper d’alva”. Eu só. a divindade é uma presença marcante em “Ideia de Deus”. “O tempo”. “A tarde”.Dizem um nome sublime. Que ao triste dá prazer. mãe. Entre dor e prazer celeste arroubo. Docemente a gorjear. porque é bela. direi Teu nome – do coração. com minha dor. Acordam trinando as aves. descanso e vida Á mente atribulada!” (“Ideia de Deus”) “Estou só neste mudo santuário. . O nome do que é Senhor.Integram esta parte os poemas “O mar”. Também eu. em que tudo evoca Deus: “Por entre as ramas ocultas. O arvoredo nessa língua Que diz. Marcados por um ritmo que bem combina com o tom reflexivo que deles emana. que se funde com a ideia de Deus. Um nome que os anjos dizem. “Ideia de Deus”. a natureza também sobressai como confidente. “O romper d’alva”. Qu’és mãe de merencórios pensamentos. que rege A máquina estrelada.

gemeu sozinho. Imenso é o teu poder.” (“O templo”) “Senhor Deus Sabaó. em 1864.” Como se sabe. certo de que a morte chega para arrebatá-lo. Que também padeceu sem ter conforto.Favorável a brisa. . três vezes santo.as ondas mansas. fechando o livro de uma forma bem romântica: “Meus Amigos. embora tenha morrido jovem. .irei de novo Sorver o ar puríssimo das ondas. Que também suspirou. o poeta.Professor: Flávio Brito . e sofro.e os céus e a terra Teu ser e nome e glória preconizam. http://valiteratura. despede-se dos amigos. Com eu padeço. Adeus! Já no horizonte O fulgor da manhã se empurpurece: É puro e branco o céu. e gemo. .” (“Te Deum”) Redimido das agruras terrenas e em paz com Deus. isso só vai acontecer muito tempo depois. tua força imensa. .Livremente o derramo aos pés de Cristo.blogspot. entretanto.html O Cortiço – Aluísio de Azevedo .br/2011/08/primeiros-cantos-1846-goncalves-dias-o. E na vasta amplidão dos céus e mares De vago imaginar embriagar-me. Teus prodígios sem conta.com. e choro.

sobretudo. O espírito científico era o critério supremo na compreensão e análise da realidade. O meio ambiente deveria ser considerado como fator de importância fundamental. inclusive a do homem. Ainda se mostraram como influenciadores. a natureza de todos os seres. a ciência e a burguesia encontravam respostas e possíveis soluções para os problemas do momento histórico que o país vivia. a obra de Darwin causou polemica. Negando a origem divina do mundo. oferece novas perspectivas com base científica. diante da natureza. A Revolução Industrial provocara um avanço expressivo no campo das ciências e da tecnologia. tese segundo a qual todos os acontecimentos do mundo e todas as ações humanas são decorrentes de leis físicas. patológicos e anatômicos. concorrendo para o nascimento de um tipo de literatura mais engajada. a burguesia tinha substituído a aristocracia no poder. aplicadas ao estudo da natureza. pela intensificação das contradições da sociedade. A chegada dos imigrantes italianos para substituição da mão-de-obra escrava. corrente filosófica baseada no método empregado nas ciências naturais. intensificadores do descompasso do sistema social. político e econômico em nosso país. A literatura realista e naturalista surge na França com Flaubert (1821-1880) e Zola (1840-1902). A idéia básica de tal mecanismo é a de que o meio ambiente condiciona todos os seres. e o aparecimento dos primeiros jornais periódicos. o Realismo acaba aqui modificado por nossas tradições e. além é claro. aplicando-lhe novos princípios. negando o envolvimento pessoal do escritor que deve. e na economia o liberalismo. político e econômico do Brasil. tendo como fim a objetividade. que se intensificavam e conflitavam cada vez mais. A Teoria da Evolução das Espécies. bastante objetivas. e esse novo contexto influenciou todos os campos. Para ele a arte é impessoal e a fantasia deve ser exercida através da observação psicológica. O conhecimento sobre o ser humano se amplia com o avanço da Ciência e os estudos passam a ser feitos sob a ótica da Psicologia e da Sociologia. deixando sobreviver os mais fortes e eliminando os mais fracos. filtrando pela sensibilidade o real. sustentando uma concepção de mundo predominantemente materialista. A ciência determinava novas maneiras de pensar e viver. aceitavam o determinismo.Contexto Histórico Já na Segunda metade do século XIX. No Brasil. renovadora e preocupada com a linguagem. O telégrafo. Em 1859. Alguns outros fatores importantes desta época que podemos destacar como sendo influenciadores para o contexto social. a abolição do tráfico negreiro. enquanto os fatos humanos e a vida comum são documentados. que resultou no crescimento das cidades e seu conseqüente desenvolvimento econômico. e biológica. Flaubert (1821-1880) é o primeiro escritor a pleitear para a prosa a preocupação científica com o intuito de captar a realidade em toda sua crueldade. Zola. O afastamento do sobrenatural e do subjetivo cede lugar à observação objetiva e à razão. Contudo. suplanta o idealismo do período romântico. orientando toda busca de conhecimento. de Darwin. a psicologia. já que condicionaria a matéria e o espírito. típica do período romântico. foi aos poucos cedendo lugar a novas atitudes diante da realidade: o cientificismo e o materialismo. em que considera a evolução das espécies como resultado do mecanicismo de seleção natural. químicas. inclusive o da arte. Em suma: a ciência. Jornais e revistas divulgavam as idéias de intelectuais que viam no método científico uma base segura para a renovação do pensamento histórico. que tinha conseguido revelar as leis naturais. reforçadas pelos movimentos republicano e abolicionista. das idéias republicanas e socialistas. O positivismo. Em 1888. por volta de 1870. sempre. que a consideravam uma espécie de “nova bíblia”. A concepção espiritualista de mundo. a escola Realista atinge seu ponto máximo com o Naturalismo. Por isso. seria determinada por circunstâncias externas. A grande prosperação da lavoura cafeeira. impetuosa. A origem das espécies. Vindo da Europa com tendências ao universal. O romancista fotografa minuciosamente os aspectos fisiológicos. sendo rejeitada por muitos e exaltado por outros. busca aprofundar o cientificismo. o cientista inglês Charles Darwin publicou uma obra revolucionária. colocar a observação e experiência acima de tudo. direcionado pelas idéias materialísticas. .

localizados com precisão. também. b) Contemporaneidade . abrindo espaço para os retratos literários e a descrição detalhada dos fatos banais numa linguagem precisa. Não há idealização. visando a convencer o leitor da veracidade do que está escrito. b) conflito: juntando-se os fatores herança biológica e ambiente. Além de deter toda sua ação sob o senso do real. educação).As personagens criadas pelos escritores do período assemelham-se ao homem comum. opostos àqueles do Romantismo. o escritor deve ser capaz de expressar tudo com clareza. criam-se condições para que se manifeste o conflito dramático da personagem naturalista. d) enredo e intenção do escritor.O narrador deve ser imparcial e impessoal diante dos fatos narrados e dos seres que inventa para viver esses fatos. Privilegiam a minúcia descritiva. é rejeitado. além de favorecerem o desabrochar do conflito das personagens. pois estes. evidenciam os desequilíbrios que o escritor pretende denunciar.Há uma preferência pelos períodos curtos. diferentemente dos autores do Romantismo. a Igreja. Diferenças entre Realismo e Naturalismo a) personagens: os naturalistas o fato de a hereditariedade física e psicológica determina o comportamento das personagens.No romance realista/naturalista as atitudes das personagens e os acontecimentos sempre apresentam relação de causa e efeito. Tanto o romance realista quanto o naturalista combateram três instituições da época.Os temas. Pretende apresentar situações que façam o leitor refletir sobre as condições da realidade social de seu tempo. com minúcias o espaço e as personagens que cria. mas os combatem ferozmente. A hereditariedade é vista como rigoroso determinismo a que se submetem as personagens. c) espaço: o escritor naturalista dá preferência a espaços miseráveis. raça. não mais engrandecem os valores sociais. que davam grande destaque ao passado. Sua função é de crítica social. .O escritor preocupa-se com o seu momento histórico. clima) e fatores sociais (ambiente. Tudo o que pareça fantástico. à sucessão dos fatos e às circunstâncias ambientais. e) Lei da causalidade . sempre têm uma explicação lógica. autor descreve com detalhes. o romance tipicamente naturalista tem intenções combativas. os casamentos felizes são substituídos pelo adultério. denúncia da exploração do homem pelo homem e sua brutalização. a família e a monarquia. ficando entregues à sensualidade. d) Condicionamento das personagens ao meio físico e social . racional. f) Detalhismo .Como o escritor pretende retratar fielmente a realidade. em locais miseráveis. preferencialmente. c) Semelhança das personagens com o homem comum . ao meio que lhes molda a ação. A ambientação dos romances se dá. os costumes são descritos minuciosamente com reprodução da linguagem coloquial e regional. Os narradores dos romances naturalistas têm como traço comum a onisciência que lhes permite observar as cenas diretamente ou através de alguns protagonistas. Principais características do Realismo/Naturalismo a) Objetividade/ compromisso com a verdade . subordinadas. pois o escritor procura atingir um público mais amplo. de compreensão mais imediata. como ocorria no Romantismo. demonstrando cientificamente como reagem os homens. exibindo cenas chocantes. revelando as reações externas das personagens. sobrenatural. quando vivem em sociedade. como a encontrada no romance de Aluísio Azevedo. O romance sob a tendência naturalista manifesta preocupação social e focaliza personagens vivendo em extrema pobreza. g) Linguagem mais simples que a dos românticos .Nos romances realistas/naturalistas as personagens aparecem condicionadas a fatores naturais (temperamento. não se restringindo à elite intelectual. com todos os seus contrastes.

a reificação.1. Sua obra demonstra menor preocupação formal que seus contemporâneos. uma vez que denuncia o código social vigente criticando o espaço da ideologia dominante. Darwin. Emprego de personagens e linguagem popular. mostrando a gente.Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo nasceu em São Luiz do Maranhão em 14 de abril de 1857. o sexualismo. XIX revertidos para a série literária através do que se convencionou chamar de Naturalismo. Spencer e uma série de outros cientistas e pensadores que Hull rastreia em seu livro Histori y Filosofia da Ciencia para mostrar os focos de idéias estruturadoras da vida do século passado na civilização ocidental. onde já morava seu irmão mais velho. voltou ao Rio onde se engajou na vida diplomática. onde era vice-cônsul. Características específicas:      Considerado o melhor escritor naturalista brasileiro. Aluísio Azevedo fixou no livro que analisaremos alguns modelos científicos vigentes no séc. mas a morte do pai levou-o de volta à terra natal. Ambos os conjuntos estão sujeitos a um sistema de transformações. Já bem sucedido como escritor mas insatisfeito com sua situação econômica e com as críticas do clero. O Cortiço se realiza ao realizar os pressupostos científicos do séc. O evolucionismo é ilustrado insistentemente dentro da estória do cortiço podendo-se localizar aí o revérbero de leis e princípios formulados por Mendell. e chegou a trabalhar em vários jornais como cartunista. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANA) Enquanto O Guarani e A moreninha buscam principal suporte no mito e na lenda. conforme os elementos se identifiquem com as leis da evolução e de entropia de seu universo. Artur Azevedo. Só então dedicou-se como escritor. Nesse sentido. que definindo-se como conjunto simples e conjunto complexo. Veio a falecer em 21 de janeiro de 1913. Na análise que se segue retomaremos algumas colocações teóricas e Hull e as aplicação à narrativa de Azevedo. Através de leituras científicas ou paracientíficas e absorvendo obras naturalista de autores europeus. Essas transformações ocorrem num sentido ascendente e descendente. INTRODUÇÃO . a necessidade de ascensão sócio-econômica e o preconceito. 3. DESENVOLVIMENTO 3. 1. 2. em relação à série literária. em Buenos Aires. O que a ciência nos dá como progresso biológico. Por ora. Todo esse sistema de transformações é exemplificado por personagens protótipos. mantêm entre si um restrito e controlado regime de trocas. Localizam-se aí dois grandes conjuntos: o conjunto 1 (O cortiço São Romão) e o conjunto 2 (a casa do Miranda). respectivamente. Em 1897.. usos e costumes de São Luiz. 2. Seus principais temas são: a ambição. XIX gerados no campo da termodinâmica e da biologia.. ainda que no enunciado sua produção o coloque do lado da contra-ideologia. Huxley. as paisagens. A evolução sob forma de "progresso" aí aparece desfiando os organismos simples e complexos. Como uma célula que se multiplica por meios e a narrativa vai se reduplicando simetricamente na realização de modelos inspirados na série científica. nessa narrativa aparece sob forma sociológica e social. 3. limitando o lúdico e o aleatório. PROPOSIÇÃO Este trabalho se propõe a desenvolver as seguintes observações sobre a estrutura de O Cortiço: 1. basta assinalar introdutoriamente que a ligação desse romance com modelos situados na série científica revela o espírito simétrico de sua composição.(ANÁLISE DO PROF. O Conjunto Simples e o Conjunto Complexo .Biografia . que são reduplicados em uma série de outros personagens secundários. Desde cedo mostrou interesse pela pintura e chegou a ir para o Rio de Janeiro. O Cortiço se identifica como uma narrativa de estrutura simples compromissado com modelos exteriores ao seu texto. foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Fortes críticas à sociedade brasileira e ao clero.

podem ser reestudados pela configuração de dois conjuntos que agrupam elementos de características semelhantes. Aí conta a extensão. portanto. Noutra parte deste estudo nos referimos ao personagem Jerônimo exposto às intempéries dos trópicos revelando-se como elemento mais sensível às transformações. Pombinha. São todos sensíveis a um código sonoro. seu negócio melhorava. reproduziam-se os quartos e o número de moradores (. ia vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos de sua bodega. visual. Neném como uma “enguia”. vivendo de pequenos misteres sendo. portanto. Portanto. crescimento horizontal que reafirma a zoomorfização expressa conteudisticamente. Segue o modelo biológico: “El organismo empieza por ser una sola célula. sem saber onde. por exemplo. e além de Bertoleza tema vários caixeiros. Toda a movimentação de Romão. No primeiro parágrafo encontramos Romão como proprietário de uma venda. encontraríamos a própria fisionomia ou planta da expansão do cortiço desde sua célula inicial. Tome-se como exercício de pesquisa o cap.) dentro de um ano e meio. quando o narrador privilegia o apelido de caracterização zoomórfica. Existe entre seus elementos uma coexistência baseada num maleável regime de trocas. como é narrado no cap. também a grande quantidade de abelhas são as operárias com funções semelhantes. acaba construindo três casinhas “que foram o ponto de partida do grande cortiço São Romão”. cada uma de estas se divide a sua vez e assim sucessivamente. que o narrador insista numa seqüência de imagens de animais e insetos para caracterizar esse conjunto. É tudo um bando de “machos e fêmeas”. naquela gula viçosa de plantas rasteiras”. O conjunto 2 – casa do Miranda – mostra a vigência de certas regras mais definidas culturalmente. todos são empregados e assalariados. Piedade abandonada surge “ululante como um cão”. economicamente dependentes do regime imposto pelos elementos do conjunto 2. IX. e os elementos de outras raças que para aí vêem acabam por se comportar como a maioria. sons de vozes que se alternavam. Ao fim o cortiço já se compõe de 95 moradias. o linear. através de um processo de antropomorfização não se diferenciam objetos. nivelando-as por baixo. O conjunto 1 – cortiço de São Romão – define-se por sua composição elementar. Poder-se-ia fazer um levantamento também da sujeição dos elementos do conjunto 1 ao instinto e aos sentidos mostrando que existe uma abertura maior da parte deles para as coisa físicas. galinha. Este estudo que se poderia fazer partindo do que Lévi-Strauss fez com uma série de mitos sul-americanos em Le Cru et le Cuit encontraria seu melhor exemplo na imagem do sol e sua interferência não apenas sobre a comunidade. que indica a predominância de outros interesses que não o puramente instintivo. Realizou-se o . dentro de uma disposição tradicional. manhã seis. ainda que correndo o risco de simplificar a questão se poderia dizer que o conjunto 1 está do lado da Natureza e o conjunto 2 está do lado da Cultura. Para ressaltar essa horda de seres primitivos. é para sair do solo puramente biológico e instintivo em que se agita o cortiço e entrar numa organização social regida por um sistema jurídico e político representativo da Cultura. E assim. narrativa a dentro persiste um movimento de zoomorfização das criaturas. Jerônimo com sua “lascívias de macaco e cheiro sensual dos bodes”. Romão e Bertoleza trabalham como uma “junta de bois’. Agrupam-se num coletivismo tribal e identificam-se mais pelas semelhanças do que pelas diferenças. Há um “verminar constante de formigueiro assanhado” e “destacam-se risos. pelo que tem de mais elementar. III relatando o despertar do cortiço. De um ponto de vista social. os personagens se xingam de cão. significa a fusão do natural e do cultural. Num cortiço . Esta se divide en dos. Seus elementos têm uma constituição primária e estão ao nível da natureza e do instinto. clímax e desfecho. Por outro lado. metaforicamente falando. a proporção que o conquistava. arrematava já todo o espaço compreendido entre as suas casinhas e a pedreira”. Nivelam-se por baixo pela miséria e pela pobreza. e. A reprodução é quantitativa. com esse nome no diminutivo ocultando seu verdadeiro nome.. aromático e tátil. usa propriedade se expande: compra um pouco de terra ao fundo da taverna. Os elementos marcam-se pela sua impessoalidade. homens. soltando um “mugido lúgubre” como “uma vaca chamando ao longe”. excetuando-se somente a abelha rainha. rouba material do terreno vizinho. grasnar de marrecos. porco. Por aí. depois mais outras. dissolvidos na comunidade instintiva e animal. Paula com “dente de cão” e Pombinha. mas obre uma personagem especial. Leandra com “ancas de anima do campo”. Hoje quatro braças de terra. Não estranha. O conjunto simples nivela-se e vários sentidos.Os 23 capítulos que compõem a narrativa de O Cortiço e que contam uma estória com princípio. porque a sua dominante é a horizontalidade. Estão expostos às leis naturais reagindo dentro de um princípio de estímulo e resposta em relação ao ambiente. cacarejar de galinhas”. mostrando “o prazer animal de existir”. De um ponto de vista racial sua grande maioria é de pretos e mestiços. o cortiço exala um “fartum de besta no coito”. Continuando um estudo semiológico sobre as técnicas que o narrador emprega para nivelar os elementos do Conjunto . vaca.. numa “fermentação sangüínea. animais e vegetais. Depois que se associa a Bertoleza explorandolhe o corpo e o trabalho. cantar de galos. Com sua ‘febre de possuir” ele transformava a simples taverna num bazar com produtos importados. O próprio nome – “cortiço” – marca a sua natureza. o narrador acentua a degradação dos tipos aproximando-os insistentemente de animais e conferindo-lhes apelidos.

que deve ser admirado. Henriquinho (rad. Exemplos: a) Relação Bruno/Leocádia: quando Bruno descobre que Leocádia encontra-se com Henriquinho. naquela umidade quente e lodosa. Miranda. admirar. começou a minhocar. Miranda tolera essa e outras infidelidades por questão de dinheiro e para manter as aparências. ao esfervilhar. um mundo. nesse conjunto. Estela (estrela) é “senhora pretensiosa e com fumaças de nobreza”. mas não fala porque precisa agradar ao marido e à mulher para permanecer na casa. rico. Coabitar é inviável. e num outro ponto da narrativa pelo assassinato de Firmo. Esse conjunto complexo tem a caracterizá-lo sua capacidade de barganha mantendo um regime de trocas necessárias a sua própria sobrevivência. 3. E aí. uma coisa viva. enquanto o conjunto simples resolve seus conflitos ao nível do instinto e da natureza impondo a violência como solução para os impasses. Entre dois elementos em conflito (A e B) a única solução é a eliminação de um deles. d) Relação Rita/Piedade: reduplicando o conflito Firmo/Jerônimo. Bertoleza cometa violência contra si mesma e rasga a barriga derramando vísceras no chão da cozinha. brasileiro/português. poderoso. reafirmando o primitivismo de seu conjunto. Na verdade. Botelho sabe das relações Henriquinho/Estela. Assim a horizontalidade entre Venda ?Avenida passa por diversas etapas progressivamente: Taverna ? venda ? quitanda ? bazar ? grande armazém ? estalagem ? sobrado ? Avenida São Romão. branco/mulato xingando-se as personagens com os mais diferentes nomes de animais. rik. mais objetos do que dons. é ela quem trouxe a fortuna ao Miranda através de seu dote. a multiplicar-se como larvas no esterco”. a crescer. A única solução é a violência e a morte. soluciona os conflitos efetivando trocas de objetos e dons. se instala Botelho. Zulmira – a excelsa. O nível de mediação é muito baixo. diferente dos demais. b) Relação Jerônimo/Firmo: a rivalidade por causa da mulata Rita configura-se por uma briga de porrete versus navalha. “tinha quinze anos e vinha terminar na corte alguns preparatórios que lhe faltavam para entrar na Academia de Medicina (cap. colocada também lá em cima no sobrado em sua palidez de adolescente. seu nome significa parasita. que parecia brotar espontânea. ali mesmo. Retomando as comparações entre um conjunto e outro assim teríamos a caracterizá-los: Conjunto 1 – simples – instinto – animal – horizontal – VIOLÊNCIA Conjunto 2 – complexo – racional – cultural – vertical – TROCA . Conjunto Complexo A expansão do conjunto 1 esbarra na instauração do conjunto complexo em sua verticalidade. Os outros relacionamentos repetem a mesma permissividade. e por ampliação – “evidente”. e depois no casamento de Romão e Zulmira. a solução que encontra é a destruição de sua casa e a expulsão da mulher sob ameaça de morte. Já o outro conjunto – o complexo. Miranda contempla lá de cima o avanço de Romão preparando-se para se beneficiar. gerundivo de miror. daquele lameiro. alga. Metaforicamente se poderia dizer que a atitude de seus elementos é antropofágica: não existe uma possibilidade de mediação constante. uma geração. E o próprio narrador cuida de chamá-lo de “parasita”. c) Relação Romão/Bertoleza: ao se ver traída por Romão. destaca-se a função do dote. Pode-se proceder a uma análise semiológica dos elementos a partir do desenho do sobrado do Miranda e os lugares se explicam e se completam em confronto com os elementos do conjunto 1. uma vez que o romance se esforça por cumprir os preceitos naturalistas ressaltando sempre o aspecto físico/objetivo das relações. II). a) Relação Estela/Miranda: Apontada desde o princípio da narrativa como uma associação de interesses onde a mulher entrava com o capital e o homem com a sua gerência.2. e é lá de cima de sua janela que assiste aos festejos e às brigas do cortiço. mostrando como “vegeta à sombra do Miranda” servindo de mediador nas transas sexuais de Henriquinho e Estela. Instaura-se a verticalidade a partir do nome do Miranda: Lat. príncipe da casa”). na formação dessa sociedade econômicosentimental.modelo biológico da transformação da vida pela meiose progressiva: “e naquela terra encharcada e fumegante.

ou melhor. Poder-se-ia. Assim se poderia visualizar o jogo de imagens no conflito: Romão ? (cão de fila) ? MURO ? (galinha) ? Miranda 3ª fase . 1. sem precisar. se poderia lembrar aqui que este romance de Aluísio se presta muito bem à análise descritivista de Claude Bremond que ressalta a sucessão de obstáculos e tarefas a vencer pelo herói na realização da estória. Tal cão ameaçava a família do Miranda. usando de terminologia biológica e científica tão ao agrado do Naturalismo. ele desenvolve sua capacidade de negociação e troca. representando cada um o seu conjunto respectivamente. Este encontro. fugidos da cerca do vendeiro. p. O sistema de trocas e a passagem do simples ao complexo Até agora estamos considerando as relações internas de cada conjunto. 28). então. Neste sentido há que considerar a relação que envolve os personagens Romão. como a diferença entre Romão e Miranda. Aí procura a verticalidade da cultura. Mas valeria a pena utilizá-la ainda que como exercício para alunos. Símbolo da querela são os termos empregados pelo narrador para fixar no nível zoomórfico o impasse do conflito. Num trabalho mais detalhado pode-se localizar e descrever todo o processo de transformações por que passa o personagem ao se aproximar de Zulmira (metonímia do conjunto complexo). entre a “natureza” e a “cultura”. A relação entre os dois envolve a passagem do simples ao complexo.3. não caía no quintal do Miranda galinha ou frango. negociante de fazendas por atacado. confronto. O muro estabelece-se. é o limite entre a “selva” e o “jardim”. Como a trajetória de Romão implica na aceitação das “regras” da cultura. Na medida em que Romão é bem sucedido nas trocas que propõe escapa às leis quantitativas e horizontais de sue conjunto para ir se comportando segundo os princípios de outro grupo. luta renhida e surda entre o português./ Miranda. A evolução de Romão se dá em duas fases: antes e depois do encontro de suas propriedades com as propriedades de Miranda. Vejamos sucintamente a evolução das fases em Romão até encontrar o obstáculo e superá-lo. Não a empregamos aqui por achar que ela trabalha num setor muito restrito e limitado da análise. 1). na medida em que se caracteriza como mais um obstáculo a vencer no avanço do personagem. “Em compensação. e o português negociante de secos e molhados” (cap. as funções que estabelecem entre si.3. Romão coloca um cão de fila no seu terreno para guardar o material que amealhava. 1ª fase proprietário da venda proprietário de Bertoleza proprietário da terra/casa proprietário de 3 casas proprietário do terreno proprietário da pedreira proprietário do cortiço – 95 casas 2ª fase “travou-se. A propósito. então. perseguindo títulos de nobreza que devem soerguer o indivíduo da massa. dizer que o regime de trocas dá-se num sentido endógeno (dentro do conjunto) e exógeno (entre os conjuntos). O muro passa a simbolizar o conflito e a sua possibilidade de superação. força a construção de um muro entre os dois. que não levasse imediato sumiço"(cap.

sino sólo transformarse”. Esse sistema de transformações engloba o regime de trocas que é um dos elementos que possibilitam a modificação. biológicas. trabalhando eternamente para outro”(cap. No interior do conjunto 1 aos poucos vai se envolvendo sensorial e irracionalmente como novo ambiente. Miranda e Jerônimo. O narrador estabelece uma competição entre a sensibilidade européia e a brasileira. a) Romão: significa o elemento vitorioso segundo uma seleção das espécies. Sistema de transformações comparadas As transformações por que passa os elementos. enraizada na realidade. Ele se modifica. 3. pois saíra da roça onde “tinha que sujeitar-se a emparelhar com os negros escravos e viver com eles no mesmo meio degradante.4. sem aspirações nem futuro. conhecendo a decadência física. econômicas. Romão consegue a mão de Zulmira como forma de conseguir as comendas e títulos futuros. é semelhante. A integração de Jerônimo se realiza segundo uma “fuga dos cinco sentidos” – parafraseando LéviStrauss em suas análises em Le Cru et le Cuit. Para termos uma melhor idéia do contraste entre os personagens. com “aroma quente dos trevos e baunilhas. ela dá e recebe. b) Miranda: sua posição de aristocrata com pequenas variações se mantém e ele atinge o baronato. ela surge sem as idealizações e falseamentos. cumprindo as leis genéticas. Ambos descrevem uma linha ascensional e descendente com evidente sentido ideológico e sua interpretação: a cada avanço na escala social e financeira (no caso de Romão) corresponde a um degrau abaixo na degradação moral e humana. Ele aí chega com ideais de ascensão. a desorganização do lar. Descrita mais objetivamente. ele já não é mais o simples vendeiro. três portugueses que assumem espaços e funções diversas na estória: Romão. a embriaguez. d) Jerônimo: Quando aparece na estalagem de Romão é comparado a um Hércules. que o atordoava nas matas brasileiras” e diante do perfume da mulata prefere-lhe o café e a cachaça em vez do chá preto da mulher (olfativo-gustativo). Miranda. é bem diversa daquela na estética romântica. no interior do qual foi viver. entorpece-se com o seu aroma. Ela perde sua estabilidade quando o marido se envolve por meio ambiente brasileiro (metonimicamente representando por Rita). Todo esse capítulo é a exaltação das virtudes de Jerônimo como um tipo clássico-mitológico. no entanto. Outros dados do código sensorial ainda se associam formando uma rede de envolvimento que levam o português a ser avesso do que no princípio parecia. 3. uma linha ascendente (Romão) que seguiria o modelo teórico do primeiro princípio da termodinâmica e reafirmaria os princípios da seleção natural das espécies. raciais e ecológicas podem ser estudadas através de confrontos. mas ascende na escala social e econômica assumindo os valores tidos como positivos na cultura brasileira. a mulher é descrita principalmente como fêmea. mas ganha mais sentido com a fisionomia do personagem depois que entra em decadência.Inicia-se uma terceira fase entre os dois conjuntos. abriga com Rita e a miséria. em contrapartida. c) Jerônimo: depois de atingir o máximo de sua posição de assalariado. por coincidência. entra em degenerescência. então. a figura de Jerônimo (linha descendente) exemplo de entropia do sistema. A figura mitológica aí não é acidental. Podemos pesquisar essas alterações nos personagens através de três deles. mulher de Jerônimo. A posição da mulher na estética naturalista. Três tipos diferentes de mulher encontramos aqui descritos nessas relações: . Ao se verificar essa transformação de Romão. Teríamos uma linha estável (Miranda) reafirmando que os elementos sempre se transformam pois “la energía no puede crearse ni destruirse. Função da mulher no sistema de transformação Como vimos anteriormente a mulher participa do regime de trocas. Ela reduplica o modelo de transformações de Jerônimo exemplificando a entropia do sistema. e passa pelos mesmos degraus de decadência. descrevendo como o europeu sucumbe quando abre seus sentidos aos sol dos trópicos. V).5. envolvido pelos elementos naturais do conjunto 1. Teríamos. quando resolvem partir para um sistema de alianças. e. tomemos os dois exemplos extremos: Romão e Jerônimo. Ele se entrega à música brasileira (audição) e olvida os fados portugueses: não resiste à luz dos trópicos e à dança da baiana Rita (visual). reforça-se economicamente com esta aliança. mas o proprietário da avenida São Romão. Nessa narrativa de Azevedo. que se acasala com o macho por interesses físicos e materiais. Através de um processo lento de conquista social e econômica. em terceiro lugar. encurralado como uma besta. Esse aspecto da análise deve ser ainda A linha descendente de Piedade.

Ambos se beneficiam. A dupla Rita/Jerônimo exemplifica o mesmo regime de trocas. as transformações são endógenas e não exógenas como se dará com Leonie. a desgraçada descia mais e mais. Repete-se em termos onomásticos o determinismo: a Pombinha vai ser devorada pela leoa através da iniciação homossexual: “a serpente vencia afinal: Pombinha foi. Pode-se destacar ainda que. Outro exemplo é Zulmira: vai ser outro degrau utilizado por Romão. Sua ascensão social permite-lhe o trânsito. Senhorinha. da fêmea sobre o macho em proporções como esta: soberania : escravidão: feminino: masculino Os homens. É relativa à verticalidade do palacete do Miranda. Pombinha. Macho e fêmea trabalham dia e noite. Todas essas personagens têm a caracterizá-las ou a permanência no mesmo status econômico e social ou a decadência. O modelo de Leonie repete-se em Pombinha. c) a mulher-sujeito que regula os regimes de troca capaz de impor condições e manobrar o macho em benefício próprio. Pombinha. agora não no conjunto 1. Ela pode desfilar com os amantes pelas ruas e teatros com. Essa relação ajusta o regime de trocas sexuais. elemento feminino que se associa ao masculino (Romão) para criação do cortiço. mais o macho se afasta da fêmea. pelo próprio pé. o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada. uma vez que ela era peça fundamental apenas no princípio da carreira de Romão: “à medida que ela galgava posição social. Há que retomar e retificar aqui algumas observações que fizemos sob a expansão do cortiço São Romão. seus modelos principais. As mulheres aí são elementos cambiáveis no comércio que ele opera. meter-se-lhe na boca”. que é por ela seduzida.a) a mulher-objeto que é trocada como nas sociedades primitivas. aquelas mulheres (Leonie. “desfere o vôo”. Senhorinha) também se destacam na dependência contínua ao macho e passam a exercer o poder através do sexo-luxúria. e quanto mais o tempo passa. O Narrador vem ao nível do enunciado para dizer que entre eles se cumpria o ritual da atração racial. fazia-se mais escrava e rasteira”. que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria” (cap. Leonie – como protótipo da mulher do cortiço que saiu para a prostituição de elite. deixando de lado seu aspecto angelical para assumir a imagem da “serpente”. existe uma constante a destacar: a estética naturalista em Azevedo acentua a supremacia do feminino sobre o masculino. b) a mulher sujeito-objeto que aceita as regras do sistema dando tanto quanto recebe. e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior” (cap. A passagem de um conjunto ao outro implica na presença de um elemento feminino no regime de troca. O termo “sujeito” aqui implica numa interpretação dos valores ideológicos da comunidade descrita. 15). atraída. elas extrapolam de seu conjunto original e se realizam no conjunto complexo. c) Mulher-sujeito. A sua horizontalidade não é completa. Rita é metonímia da natureza tropical enquanto Jerônimo é o símbolo daquilo que o autor chama de “raça superior” (sic): “mas desde que Jerônimo propendeu para ela. O Cortiço reduplica. 22). malgrado essas diferenciações quanto ao papel da mulher. Reafirmam-se certas regras da sociedade. Assim como Romão consegue se impor afirmando-se enquanto indivíduo dentro dos padrões vigentes na sociedade. daquilo que José de Alencar chamara de “mercado matrimonial”. Reduplicação dos modelos de evolução e entropia Como uma narrativa centrada em modelos conscientes e interessados ideologicamente em defender uma tese determinada. a mesma leveza com que regressa ao cortiço para ver sua afilhada. a) Mulher-objeto. segundo a versão de Leonie. que o narrador maneja para classifica o vigor do instinto e a ameaça sexual. mantém trânsito livre entre um conjunto e outro. fascinado-a com sua tranqüila seriedade de animal bom e forte. As ligações entre ele e Bertoleza e ele e Zulmira são totalmente circunstanciais. Por exemplo. Exemplifica-se inicialmente em Bertoleza. b) Mulher sujeito-objeto. Tal modelo se repete com a filha de Jerônimo/Piedade atraída por Pombinha: “a cadeia continuava e continuaria interminavelmente. Como Romão. A relação Estela/Miranda coloca os dois em nível de igualdade. Pombinha. que são a contrapartida das trocas econômicas e sociais. existem para “servir ao feminino” enquanto as mulheres são “rainhas”. senhoras num “império” onde homens são “escravos”.6. numa série de quadros. o modelo da evolução e da entropia exemplificase agora no confronto entre os dois cortiços: São Romã o e Cabeça de Gato. enfim. o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração. Nenhuma sai de seu conjunto. 3. Na medida em que Romão vai evoluindo econômica e . mas no conjunto 2.

CONCLUSÃO Essa análise. Por aí se poderia chegar a tocar de novo no problema da ideologia que configurou o romance. por exemplo. ela se confirma nas cores da bandeira: Carapicus (vermelha) -----------------. que o mais homem ficaria com a mulher. embricaria nesse nível. o sol. a comuna. surge o narrador reafirmando a ideologia naturalista e servindo-se dos modelos da série científica: “E. 4. Sua língua é mestiça como seus personagens e se espalha pelo simples e pelo complexo. gritando a todos: . O novo cortiço (Cabeça de Gato) não é apenas o que o São Romão era em sua origem. no entanto.Cabeça de Gato (amarela) O autor é explícito coincidindo o enunciado e a enunciação de sua estória: “Em meio do pátio do Cabeça de Gato arvora-se uma bandeira amarela. tomando como símbolos animais que sintetizam as características de ambos: Carapicus (peixe) ----------------------. Veja-se o episódio da luta de Jerônimo/Firmo e a chegada da polícia: “João Romão atravessou o pátio. como de uma podridão” (cap.socialmente. mais abjeto. mostra como o francês. fazendo-se cada vez mais torpe. numa solidariedade briosa. o falar dos salões se mesclam constituindo conjuntos que integralizam a língua brasileira num sentido mais amplo. como se todo o seu ideal fosse conservar inalterável. em vez de “Estalagem de São Romão” lia-se me letras caprichosas “Avenida São Romão”. os dois cortiços guardavam características de uma sociedade primitiva. funciona como uma metonímia de seu conjunto. O narrador tenta dar uma certa dignidade às lutas entre os dois cortiços convertendo a briga numa “batalha” e numa “guerra” de uma tribo contra outra. para sempre. 10).. Antes que se diferenciassem tanto. Estamos entre um torneio medieval e uma festa tribal.. realizando em sua interação todos os quesitos de uma sociedade fechada. brejo de lodo quente e fumegante. e a entrada da estalagem era agora dez braças mais para dentro. a legítima. não esgota o conhecimento da estrutura do livro..Cabeça de Gato (gato) Assinalada a rivalidade nos símbolos totêmicos. Enquanto se tratava de uma simples luta entre dois rivais. como se ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira vez. 22). Enquanto isso: o Cabeça de Gato à proporção que o São Romão se engrandecia. aquela em que há um samba e um rolo por noite. E as duas cores olhavam-se no ar como um desafio de guerra” (cap. Repete-se com os dois cortiços as duas linhas de ascensão e decadência que marcam a trajetória de Romão e Jerônimo. como Firmo. que culmina com o incêndio desencadeado pela Bruxa – sempre envolvida com o fogo. Trazem símbolos clássicos de guerreiros.. Ainda na comparação do primitivismo desses dois conjuntos importa ressaltar as características tribais de ambos. São Romão. Exemplo disto é como reagem diante da lei – o aparecimento da polícia. onde cada um tinha a zelar por alguém ou alguma coisa querida” (cap. E para explicar a gênese do confronto. e então com as cortinas e com a mobília nova impunha respeito. os carapicus responderam logo levantando um pavilhão vermelho.. estava direito! Jogassem lá as cristas. único causador de tudo aquilo”.13).. Centramo-nos aqui mais no nível da narração e dos personagens com incursões pelo nível da língua (gem). Alinha de ascensão do cortiço é a mesma de seu proprietário que. o português de Portugal. tendo entre elas e a rua um pequeno jardim com bancos e um modesto repuxo ao meio. o falar do cortiço. a legendária. paraíso de vermes. Organizam-se contra o elemento estranho-invasor como se fossem uma só comunidade. aquela em que se matam homens sem a polícia descobrir os assassinos. mais e mais ia-se rebaixando acanalhado. Tem início o torneio. Ideologia esta que tanto mais se . o verdadeiro tipo da estalagem fluminense. Foi abaixo aquele grosso e velho muro da frente com seu largo portão de cocheira. Como tal. tinham suas regras próprias excluindo-se e opondo-se aos outros conjuntos da sociedade . o italiano. como um general em perigo. Se agrupam totemicamente. donde brota a vida brutalmente. seu cortiço sofre um processo de modificações também qualitativas até chegar à Av. mas se torna o refúgio daqueles que não evoluem nem se transformam. viveiros de larvas sensuais em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma cama. de cimento. respectivamente. evidentemente. O capítulo 20 conta a transformação final do cortiço na Avenida São Romão: “João Romão conseguira meter o sobrado do vizinho no chinelo. muito maior que a primeira. mas agora tratava-se de defender a estalagem. Fosse um trabalho maior e se teria obrigação de ampliar as observações constatando no nível da frase os modelos que regem a composição da narrativa. Uma análise estilística. em sua plurivalência de nacionalidades. mostrando que a língua de Azevedo. que para lá muda.) Um empenho coletivo os agitava agora. Definidos totemicamente com sua bandeira os grupo se aproximam com suas armas (navalhas) e com suas músicas (danças dos capoeiras). o seu era mais alto e mais nobre. vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro rejeitava. imitando pedra (. na verdade. todos.) e na tabuleta nova. mais cortiço. É um reduto de excluídos reincidentes.Não entra a polícia! Não deixa entrar! Agüenta! Agüenta! – Não então! Não entra! Repercutiu a multidão em coro (. Procura-se uma nobreza para os contendores.

denunciando-lhe o paradeiro. pretos. benzedeiras etc. assassinos. que possuía uma quitanda e umas economias. arma uma emboscada traiçoeira para o malandro e o mata a pauladas. passando a escrava a trabalhar como burro de carga para João Romão. lavadeira gritalhona. forja uma falsa carta de alforria. o Senhor Miranda. Jerônimo e sua mulher. João Romão arranja um piano para livrar. Alexandre. vadios. apontando as falhas do sistema ao denunciar a exploração dos cortiços (alguns dos quais pertencentes ao Conde D’Eu). e João Romão. Jerônimo. mulato pernóstico. No cortiço há festas com certa freqüência. Em relação à série literária. Com o dinheiro de Bertoleza (assim se chamava a ex-escrava). abandonando a mulher. Ao lado vem morar outro português. João Romão tem agora uma pedreira que lhe dá muito dinheiro. dando-lhe nova feição e pretende realizar um objetivo que há tempos vinha alimentando: casar-se com uma mulher "de fina educação". ganancioso. Rita Baiana. Firmo passara a morar no "Cabeça-de-Gato". como revide. acaba construindo vasto e movimentado cortiço. abre a barriga dó rival com a navalha e foge. com certos ares de pessoa importante. Querendo vingar a morte de Firmo.configura quanto mais se sabe que a arte de Aluísio se voltava para o receptor. cortando o ventre com a mesma faca com que estava limpando o peixe para a refeição de João Romão. hábil na capoeira. cuja mulher leva vida irregular. filha do Miranda. A procura de habitação é enorme. mulata faceira que andava amigada na ocasião com Firmo. que havia sido internado em um hospital após a briga com Firmo. moça franzina que se desencaminha por influência das más companhias. Entre outros: a Machona. Ao lado morava uma preta. onde se torna chefe dos malandros. e outros mais.Resumo João Romão. porque teria sido o nosso primeiro escritor profissional. malandro valentão. O negócio dá certo o novos cubículos se vão amontoando na propriedade do português. destacando-se nelas Rita Baiana como dançarina provocante e sensual. o teatro e uma grande massa de leitores. Enciumado. trabalhadeira. aplaina o caminho para João Romão. Botelho. Os dois amasiam-se. Firmo acaba brigando com Jerônimo e. A escrava compreende o destino que lhe estava reservado. Aluísio teria praticado em relação à série social uma narrativa contra-ideológica. em vários barracos do cortiço de João Romão põe fim à briga coletiva. por interesse. porém. No cortiço moram os mais variados tipos: brancos. bronco e ambicioso. português. O português. um velho parasita que reside com a família do Miranda e de grande influência junto deste. Pouco tempo depois. Dentro de uma concepção teórica para compreender a teoria e a prática do romance no Brasil. Naquela mesma rua. Miranda não se dá com João Romão. mediante o pagamento de vinte contos de réis. compra pequeno estabelecimento comercial no subúrbio da cidade (Rio de Janeiro). mas de classe elevada. "cujos filhos não se pareciam uns com os outros". João Romão compra mais terras e nelas constrói três casinhas que imediatamente aluga. se tornam amigos e o casamento é coisa certa. outro cortiço se forma. ajuntando dinheiro a poder de penosos sacrifícios. agora endinheirado. sua obra é ideológica quando cumpre à risca os preceitos naturalistas seguindo de perto o modelo europeu. legitimamente. o que faz Jerônimo perder a cabeça. os moradores do "Cabeça-de-gato" travam séria briga com os "Carapicus". suicida-se. Trabalhou com modelos conscientes. surge a polícia na casa de João Romão para levar Bertoleza aos seus antigos senhores. Só há uma dificuldade: Bertoleza. reconstrói o cortiço. predominantemente. fugindo em seguida com Rita Baiana. recebem o apelido de "Carapicus". O Cortiço . Lança os olhos em Zulmira. mulatos. Um incêndio. realizando uma narrativa da transparência interessada no espaço real. malandros. nem vê com bons olhos o cortiço perto de sua casa. lavadeiras. Com o decorrer do tempo. E em breve os dois patrícios. escrava fugida. segundo afirmou Valentim Magalhães. o português compra algumas braças de terra e alarga sua propriedade. Pombinha. Sua produção tinha um endereço certo: o jornal. . Os moradores do cortiço de João Romão chamam-no de "Cabeça-de-gato". Para agradar a Bertoleza. E parece que ele foi bem sucedido nisto.se dela: manda um aviso aos antigos proprietários da escrava. só tendo largado apenas para um emprego no Ministério da Relações Exteriores.

Suas principais obras são: "Perto do coração selvagem" (1944). Formase em 1943 e casa-se no mesmo ano com o diplomata Maury Gurgel Valente. Ingressa em 1939 na Faculdade de Direito. "Laços de família" (1960). Ucrânia. Perto do coração selvagem. "A maçã no escuro" (1961). Por volta dos oito anos. Laços de família. "A legião estrangeira" (1964). em uma revista. mora em diversos países pela Europa e nos Estados Unidos. Análise da obra . Três anos depois. "Felicidade clandestina" (1971). terra que considerava como sua verdadeira pátria. um cigarro provoca um grande incêndio em sua casa e Clarice fica gravemente ferida. vindo a ser internada pouco tempo depois com câncer. No ano seguinte. A escritora vem a falecer no dia 9 de dezembro do mesmo ano. com quem teve dois filhos.H. Publica em 1977 seu último livro. publica seu primeiro romance. a família mudou-se para o Recife.A HORA DA ESTRELA – CLARICE LISPECTOR Sobre Clarice Lispector Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 em Tchetchelnik. Triunfo. continua com sua carreira literária publicando diversos livros. Durante seus anos de casada. véspera de seu aniversário de 57 anos. publica seu primeiro livro de contos. da Academia Brasileira de Letras. após se recuperar. A hora da estrela. Em 1967. no ano seguinte. onde iniciou seus estudos. vindo a ganhar o Prêmio Graça Aranha. Clarice perdeu sua mãe. Separa-se de seu marido em 1959 e volta para o Rio de Janeiro com seus dois filhos." (1964). e publica no ano seguinte seu primeiro conto. Em 1924. a família muda-se para o Rio de Janeiro. Em 1944. correndo risco inclusive de ter sua mão direita amputada. Porém. seus pais migraram para o Brasil. "Água viva" (1973) e "A hora da estrela" (1977). "A paixão segundo G. Quando tinha cerca de dois meses de idade.

ao mesmo tempo. É Clarice contando uma história e. A linguagem narrativa de Clarice é. com a própria tendência em tornar-se insensível. Ele. Esta identidade.Rodrigo S. ele declara amá-la e compreendê-la. é um elemento de grande significação no romance. Como diz o personagem Rodrigo. conta a história de Macabéa: Esta é a narrativa central da obra: o escritor Rodrigo S. Lançada pouco antes de sua morte em 1977.M. Se por um lado. O enredo de A hora da Estrela não segue uma ordem linear: há flashbacks iluminando o passado.A hora da estrela é também uma despedida de Clarice Lispector. por duas características fundamentais da produção da autora: originalidade de estilo e profundidade psicológica no enfoque de temas aparentemente comuns. 3. aspectualmente parece dar à narrativa uma característica alinear. socializando a possibilidade de ruptura. das digressões. uma nordestina que ele viu.M. apresentando muitas metáforas e outras figuras de estilo. Está presente por toda a narrativa sob a forma de comentários e desvendamentos do narrador que se mostra. 2. Em A hora da estrela Clarice escreve sabendo que a morte está próxima e põe um pouco de si nas personagens Rodrigo e Macabéa. que ultrapassa as questões de classe. a protagonista. além da criação de alguns neologismos. É pelos olhos do narrador e através de seu domínio da palavra que a existência e a essência são expostas como interrogações. há pelo menos três histórias encaixadas que se revezam diante dos nossos olhos de leitor: 1. também. um escritor à espera da morte. Tal presença masculina retrata um universo de fragmentos. às vezes. Narrador e protagonista. onde o ser humano não é respeitado. conta a história dele mesmo: esta narrativa dá-se sob a forma do encaixe. Além da alinearidade. como recurso. o livro a apresenta fartamente. de incoerência. externo. sem saber exatamente o que lhe vai acontecer e torcendo para que não lhe aconteça o pior. Não se engane: ele foge para o passado a fim de buscar informações. se oculta e se exibe diante dos nossos olhos. O foco narrativo escolhido é a primeira pessoa. uma alagoana órfã. aparecem os treze títulos que teriam sido cogitados para o livro. A morte foi a hora de estrela. por sua patética alienação. principalmente. ela. Interessante notar que. M. Rodrigo e Macabéa se confundem. Há. também nos faz conhecê-lo. criada por uma tia tirana. há idas e vindas do passado para o presente e vice-versa. . ele estabelece com ela um vínculo mais profundo. a obra conta os momentos de criação do escritor Rodrigo S. intensamente lírica. onde trabalha como datilógrafa. ele vê a jovem como alguém que merece amor. de relance. mas desacreditado nessa reconstrução de uma realidade mutilada. É um marginalizado conforme lemos: "Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens". antes de iniciar a narrativa e logo após a 'Dedicatória do autor'. não importa muito nesta história. Foco narrativo Quanto à linguagem. Macabéa. é uma invenção do narrador com a qual se identifica e com ela morre. mas. O recurso usado por Clarice Lispector é o narrador-personagem. Ele escreve para se compreender. conta a história de Macabéa. na rua. por exemplo. como um movimento em busca de uma nova estruturação da obra literária similar à insegurança. Quanto à sua relação com Macabéa. Espaço / Tempo O Rio de Janeiro é o espaço. à ansiedade e ao sofrimento. uma solitária que gosta de ouvir a Rádio Relógio e que passou a infância no Nordeste. em todos os momentos em que o narrador discute a palavra e o fazer narrativo. A vida de Macabéa . E também é peculiaridade da autora a construção de frases inconclusas e outros desvios da sintaxe convencional. A despedida de Clarice é uma obra instigante e inovadora. que é o da comum condição humana. que a leva para o Rio de Janeiro. A personagem é criada de forma onisciente (tudo sabe) e onipresente (tudo pode).O narrador conta como tece a narrativa. embora faça contínuas interrogações sobre ela e embora pareça apenas acompanhando a trajetória dela. Faz da vida dela um aprendizado da morte. M. como Clarice. Estrutura da obra É uma obra composta de três histórias que se entrelaçam e que são marcadas. (a própria Clarice) narrando a história de Macabéa. O tema é oferecido. pois conforme nos faz conhecer a protagonista. inseridos em uma escrita descontínua e imprevisível. revelando ao leitor seu processo de criação e sua angústia diante da vida e da morte. por outro lado. O "lado de dentro"das criaturas é o que interessa aos intimistas. estou escrevendo na hora mesma em que sou lido.Rodrigo S. de gênero e de consciência de mundo. O narrador lança mão. A metanarrativa . alguns paradoxos e comparações insólitas. permitem ao leitor a reflexão sobre uma época de transição. A identificação da história do narrador com a da personagem . Ocorre que o espaço físico. O narrador revela seu amor pela personagem principal e sofre com a sua desumanização. paralela à história de Macabéa. o que. que realmente surpreendem o leitor. virgem e solitária. piedade e até um pouco de raiva.

é o que acontece: ao sair da casa da cartomante. Possivelmente o nome Macabéa seja uma alusão aos macabeus bíblicos. pois ele também nada fez de especial (qualquer um escreveria o que ele escreve). criaturas destemidas demais no enfrentamento do mundo.que cada um . ninguém a quer. mora numa pensão em companhia de 3 moças que são balconistas nas Lojas Americanas (Maria da Penha. Olímpico: Olímpico se apresentava como Olímpico de Jesus Moreira Chaves. seu papel diante dela e. 19 anos e foi criada por uma tia beata que batia nela (sobre a cabeça. continuarei a escrever. desencadeia-se. conforme se afirma na dedicatória. mesmo sem saber tais respostas. Glória: Filha de um açougueiro. Ela não sabe nada de nada. Além disso.possivelmente a década de 60 em seu fim ou a de 70 em seus começos . Come bombons. Se há veracidade nela . no entanto. pois quem olharia para alguém com “corpo cariado”. gostava de ver sangue.descubro eu agora .. ou melhor. Maria da Graça e Maria José).” Existe a necessidade constante de descobrir-se o princípio. mas o homem. sobre o processo de elaboração da escritura de sua obra: “Escrevo neste instante com prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. por outro lado. o que lhe sugeria a possibilidade de melhora financeira. A principal característica de Macabéa é a sua completa alienação. Rodrigo S. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu.” Assim. que reluta em mandá-la embora. Triste. Personagens Macabéa: Alagoana. principalmente. momento de libertação para alguém que. O próprio nome da protagonista constitui-se numa grande ironia (tragicomédia). sua saída de dentro do narrador. Contará que foi prostituta quando jovem.tecerá reflexões sobre a posição que o escritor ocupa na sociedade. M. . Um outro escritor sim.. que prevê que ela seria. Feia. cheia de corpo.também não faço a menor falta. não faz falta a ninguém. raramente percebe o que há à sua volta. Glória rouba Olímpico de Macabéa. Embora a história de Macabea seja profundamente dramática. Dessa forma. não se pode esquecer de que quem escreve é Clarice Lispector.” É preciso dizer sim para que algo comece. ela afirma: “Tudo no mundo começou com um sim. símbolo sexual da época). que dirigia um luxuoso Mercedes-Benz. a felicidade viria do “estrangeiro”.) Pensar é um ato. faz-se pelo lado do avesso. porém. colega de trabalho de Macabéa. Ambicioso. que entrecortará a narrativa até o seu desfecho. seu desejo maior era ser igual a Marilyn Monroe. mas nunca escritora.: Narrador-personagem da história. Madame Carlota é uma enganadora vulgar. (. o tempo é época em que Marylin Monroe já havia morrido . trajes sujos. não conhece a resposta a todas as perguntas. nordestino ambicioso. Começa a namorar Olímpico de Jesus. Resumo do livro: Macabéa é uma mulher comum. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e coagular em cubos de geléia trêmula. e um dia queria também ser deputado. Tem um quê de selvagem.. completamente inconsciente. por isso. Madame Carlota: É a mulher de Olaria que porá as cartas do baralho para "ler a sorte"de Macabéa. maus hábitos de higiene. Macabéa é atropelada por Hans. Esta é a sua “hora da estrela”. Macabéa recebe o apelido de Maca e é a protagonista da história. a narrativa é toda permeada de muito humor e ironia. afinal. Alguém que forçou seud nascimento. e até o que eu escrevo um outro escreveria. limitado que é. nossa personagem busca consolo na cartomante. era alvo fácil da propaganda e da indústria cultural (para exemplificar. Aliás . doente. um dia.e é claro que a história é verdadeira embora inventada . feia. O narrador homem . é esperta. teria de ser escritor. ela diz “sim” a Macabéa. a quem qualquer um desprezaria: corpo franzino. que não vê nela chances de ascensão social de qualquer tipo. ela é virgem e inócua. De certa forma.Pelos indícios que o narrador nos oferece. na primeira parte do livro. nascida e criada no Rio de Janeiro. M.mas faz ainda um grande sucesso como mito que povoa a cabeça e os sonhos de Macabéa. pois Macabéa é o inverso deles. que depois montou uma casa de mulheres e ganhou muito dinheiro com isso. Ele tem domínio absoluto sobre o que escreve. Trabalhava numa metalúrgica e não se classificava como "operário": era um "metalúrgico". A personagem narradora não é diferente dos outros homens. abandona-a para ficar com Glória. “vivia numa cidade toda feita contra ela”. Queria ser muito rico. por isso. orgulhoso e matara um homem antes de migrar da Paraíba. afinal. no final. “Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta. finalmente. É o grito do narrador que aparece no corpo de Macabéa: “Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender.Rodrigo S.. teimosos. Um secreto desejo era ser toureiro. ela é uma entre tantas. Sentir é um fato. o pai dela era açougueiro. sete ao todo. tornando-se a nordestina. mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas. seu Raimundo. Outras personagens: As três Marias que moram com Macabéa no mesmo quarto. Na verdade. franzino. o que a torna incapaz de impor-se frente a qualquer um. com força). o médico que a atende e diagnostica a gravidade da tuberculose e o chefe. para quem ninguém olharia. personagem protagonista de seu romance. todo um processo de metalinguagem. Nossa personagem não sabe quem é. de uma coisa ela tem certeza e. Inclusive sobre a morte de Macabéa. diz que é fã de Jesus Cristo e impressiona Macabéa. atenta ao mundo. ovários incapazes de reproduzir? Com ela o narrador identifica-se. a alusão. Assim sendo. feliz.

Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço. Em Alagoas chamavam-se ‘panos’. mesmo não entendendo o que isso significa. o elemento acima do enredo. Só eu. a amo. quando não existe.determino com falso livre arbítrio . ela era café frio. personagem e narrador dão seu grito de resistência em busca da vida. Disfarçava os panos com grossa camada de pó branco e se ficava meio caiada era melhor que o pardacento. “adjetivos esplendorosos”. A história . a classe baixa nunca vem a mim. O narrador está enjoado de literatura. não lhe passa pela cabeça que é uma péssima profissional. com seus dezenove anos. mas nunca procurava. a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la. Ela toda era um pouco encardida pois raramente se lavava. M. aqui. Só eu a vejo encantadora. com manchas bastante suspeitas de sangue pálido (. cheia de sentidos secretos.) Que mais? Sim.. pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade.). marginalizado que sou.. Rodrigo S. M. pois era mais fácil aceitar aceitar-lhe a existência e admirá-lo a distância). este. o que faz de mim de algum modo um desonesto.. o nascimento deles. conhecer o incognoscível. adquire olheiras fundas e escuras. como se não tivesse direito a ela. Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei. A linguagem deve ser despojada para ser precisa e para poder alcançar o corpo inteiro e vivo da realidade. Relato antigo. e entre o leitor e Macabéa.. Não usará “termos suculentos”. o “silêncio e a chuva caindo”. pois teme as conclusões a que pode chegar (arrepende-se em Cristo por tudo.. gosta de cachorro-quente e coca-cola. O próprio emprego de datilógrafa é revelador: ela o era por acreditar que este lhe dava alguma dignidade. a resistência do narrador. A palavra será a mediadora entre o narrador e o leitor. Antecedentes meus do escrever? Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome.) Dormia de boca aberta por causa do nariz entupido. É aqui que o narrador se funde com sua personagem: ambos são marginalizados. a “coisa”.. chegando a dizerlhe que não é muito gente. Clarice Lispector (aqui transfigurada no narrador Rodrigo S. Assoava o nariz na barra da combinação. semi-analfabeta. de tanto encaixar-se num meio que tanto a repele. ela não tem consciência de nada disso). efetivamente.. seu autor. ou seja. Outro dado revelador é seu relacionamento com Olímpico. torna-se personagem “torta”.” Sua falta de percepção física acompanha a psicológica. . num espaço que não os aceita. Alguém com aparência bruta. que marcarão a personagem protagonista. repetidas vezes.” Chegamos. lidando com uma personagem que insiste. mas nunca entendidas).. A classe alta me tem como um monstro esquisito. conta a si mesmo. por exemplo. para poder falar de Macabéa. Mas não importava. Não tinha aquela coisa delicada que se chama encanto. Uma colega de quarto não sabia como avisar-lhe que seu cheiro era murrinhento. A resistência de Macabéa pode ser representada. deixa a barba por fazer. (. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo. Aceita tudo isso sem questionar. No espelho distraidamente examinou as manchas do rosto. principalmente. comparada a uma “cadela vadia”. os fatos e. Ninguém olhava para ela na rua.não apenas no desejo de simplicidade da linguagem despojada. capaz de enojar suas quatro companheiras de quarto (na pensão onde morava). não se vingava porque lhe disseram que isso é “coisa infernal”. fazendo-a acreditar que tal profissão indicava que “era alguém na vida” (aqui. em contrapartida. na busca da palavra. Assim. ficou por isso mesmo.. De dia usava saia e blusa. “o que lhe dava alguma dignidade”. desculpando-se com ele todo o tempo. diziam que vinham do fígado. de noite dormia de combinação. “carnudos substantivos”.. pois tinha medo de ofendê-la. O narrador. dormia de combinação de brim. dorme pouco. meio e ‘gran finale’ seguido de silêncio e chuva caindo. não tenho classe social. Como contar a vida sem menti-la? Para isso. Consequentemente. é claro. apaixona-se pelo desconhecido. a reflexão. pois é por meio dela que conheceremos a história da personagem. Tal fusão se dá em todos os níveis . E como não sabia.reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espíirito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa do que ouro . Dessa união.vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles. verbos “esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação”. Nada nela era iridescente. o desejo que os leitores têm da narrativa tradicional. seus parcos conhecimentos são extraídos da Rádio Relógio (informações ouvidas.”). Tanto Macabéa como a palavra são pedras brutas a serem trabalhadas. ao contar Macabéa. em viver. Sofro por ela. nos momentos em que sorri na rua para pessoas que sequer a vêem. faz-se pobre. “numa cidade toda feita contra ela”. mesmo tendo “corpo cariado”. nasce uma nordestina vinda de Alagoas para o Rio de Janeiro. Eu. como no caso da palavra “efemérides”. deve ser inventada (o narrador escritor como senhor da criação). Buscava a dignidade.existe a quem falte o delicado essencial. não só pelas sucessivas identificações com a personagem. que. Como escreve o narrador? “Verifico que escrevo de ouvido assim como aprendi inglês e francês de ouvido. o escritor torna-se um trabalhador braçal. a narrativa há de ser simples.” Ironizando. Datilógrafa. Começa com o fato de ela ser alvo fácil da sociedade consumista e da indústria cultural: gosta de colecionar anúncios. pondera o narrador. trabalhadoras das Lojas Americanas: “. embora seja obrigado a usar as palavras que vos sustentam. mas porque ela sai de dentro de si. sem arte. imanente que é a ele (“pois a datilógrafa não quer sair de meus ombros. não abre mão de suas características mais marcantes. ao ponto mais importante desse trabalho de metalinguagem: a consciência do escritor como um marginalizado. que só sabe ser impossível. embora a pele do rosto entre as manchas tivesse um leve brilho de opala.

Ao mesmo tempo. Macabéa sente um fundo enjôo de estômago e quase vomitou. vida que era morte.. agora. ligando o prazer à morte: “Ela nada podia mas seu sexo exigia. Também é preciso coragem para morrer. agora. Sim. por tanta aceitação. Intuíra o instante quase dolorido e esfuziante do desmaio do amor. mas aquela vontade do grande abraço. (. (. o pai dela era açougueiro.) Tanto estava viva que se mexeu devagar e acomodou o corpo em posição fetal. e sensual: “Então . pois eram vida.. a possível felicidade.)” A morte dela é o momento em que Eros (Amor) se une a Tanatos (Morte). O momento. virgem que era . na morte passava de virgem a mulher. A cartomante mostra-lhe a tragédia que é sua vida (coisa de que..ali deitada . O prazer em Macabéa é algo que sempre se alia à dor. O instinto de vida. (.. isso seria um desperdício. que ela não admite a idéia de vomitar. ou nos momentos de solidão. Não. de repente a águia voraz erguendo para os altos ares a ovelha tenra. que dirigia um automóvel Mercedes-Benz. e ela era só ela”. Ou é como a pré-morte se parece com a intensa ânsia sensual? É que o rosto dela lembrava um esgar de desejo. dá-lhe a esperança de acreditar que as coisas poderiam ser diferentes. Aquela relutância em ceder. etc. é sensual em seus pensamentos. no momento em que esta lhe revela: a felicidade viria de fora.” De que “relação sexual” se pode falar no caso de Macabéa? Da relação com a própria vida. Sim. enfim o âmago tocando no âmago: vitória!” Sua boca. E tudo isso é.. tão deglutido. No fundo ela não passara de uma caixinha de música meio desafinada. apreciava os ruídos. .. Estrela de mil pontas. não era morte pois não a quero para a moça: só um atropelamento que não significava sequer um desastre.. silêncio para ouvir o grito da vida. ao mesmo tempo. pela primeira vez..” E ainda.) Nesta hora exata. nunca discutindo a validade deles. Diz o narrador: “Penso no sexo de Macabéa (.) seu sexo era a única marca veemente de sua existência. descobrimos. depois de vomitar.) Se iria morrer. vasto espasmo.. (. queria ser atriz de cinema com Marylin Monroe.teve uma úmida felicidade suprema. Meu Deus. Quando sai da casa da cartomante. no seu conceito tão particular de beleza: usava batom vermelho. colega de trabalho de Macabéa. Mas mas eu também?! Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. o macio gato estraçalhando um rato sujo e qualquer. Ao ver o homem. independente da opressão e da marginalização social. Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada. é atropelada por Hans. Seu esforço de viver parecia uma coisa que se nunca experimentara. queria vomitar o que não é corpo. O que é que eu estou vendo agora é e que me assusta? Vejo que ela vomitou um pouco de sangue.. que está ligado ao prazer. doloroso reflorescimento tão difícil que ela empregava nele o corpo e a outra coisa que vós chamais de alma. Essas sensações se intensificam quando vai à cartomante Carlota (por recomendação de Glória). há o sofrimento por não o possuir e por ter a certeza de que alguém assim é mesmo só para ser visto. como quando viu o homem bonito no botequim. afinal. afinal. Olímpico representa o contraponto em relação a Macabéa.Qual é o peso da luz? E agora .) O instante é aquele átimo de tempo em que o pneu do carro correndo em alta velocidade toca no chão e depois não toca mais e depois toca de novo. etc.. vomitar algo luminoso. engolido. entremeado com silêncio. por exemplo. à vida: “E então .” Enfim. do estrangeiro. mais adiante.. ao menos intuíra. Macabéa já havia experimentado essas sensações contraditórias com outra pessoa.. no apogeu orgásmico da morte. ou ainda quando ficou em casa .ao invés de ir trabalhar . que ela insiste em manter. Era uma maldita e não sabia. grita.agora só me resta acender um cigarro e ir para casa.então o súbito grito estertorado de uma gaivota. ao bater na menina. ao momento da epifania do narrador fundido à Macabéa: é a vida que grita por si mesma. quer ser deputado. O destino de uma mulher é ser mulher. só agora me lembrei que a gente morre. afastar-se de Macabéa e ficar com Glória.. a vida come a vida. que. Grotesca como sempre fora.) E havia certa sensualidade no modo como se encolhera. mas tenta adaptar-se aos valores do namorado. vida e morte. Seus valores em nada se relacionam aos dela: metalúrgico. a loira oxigenada. apesar do prazer que tal visão lhe dá. imune à vida. Eu vos pergunto: .vivendo a sensação de liberdade. literalmente. vermelha como a de Marylin Monroe. mas.Ela não se defende por seus próprios valores.. afinal. que tudo começa e acaba com um sim... . não havia tomado consciência). pois ela nascera para o abraço da morte. até o momento. a tia. Etc. momento em que a vida se torna “um soco no estômago”: “Por enquanto Macabéa não passava de um vago sentimento nos paralelepípedos sujos. o que lhe dava maiores perspectivas de vida.” Chegamos... como um nascido girassol num túmulo. pois só agora entendia que mulher nasce mulher desde o primeiro vagido. (. da consciência a que se chega pelo ato de escrever: “(. sentia prazer ao vê-la sofrer: “. vem sustentáa-la. num momento doce.

o Paraíso e Paris. Lisboa é o cenário da crítica de Eça de Queirós.coladaweb. um inquérito da vida portuguesa. O Alentejo é o espaço que rouba Jorge de Luísa. o que se caracteriza pela sua onisciência pelo emprego do discurso livre indireto. da ociosidade daquela sociedade. O Primo Basílio é um dos mais famosos "romances de tese" de Eça de Queirós. A obra combate as principais instituições: a Burguesia. Estes últimos lugares não são mencionados diretamente pelo narrador. nesta etapa de sua carreira.com/resumos/a-hora-da-estrela-clarice-lispector http://www. A história de passa na segunda metade do século XIX. enfoca um lar burguês aparentemente feliz e perfeito mas com bases falsas e igualmente podres. O Paraíso serve de contraponto da vida doméstica e do mundo das alcovas. é por onde transitam as personagens e onde elas expõem suas condições sócioeconômicas e históricas. A casa é o espaço privilegiado do romance. Critica a cidade. . o Alentejo. Influenciado pela fase realista de Balzac e por Flaubert. Há um abuso do recurso da descrição e um exagero no uso de adjetivos. Há uma intimidade-identificação entre quem narra e quem vive a história. desta vez na capital: para tanto. os tipos e os comportamentos humanos das personagens de forma fiel.http://www. As personagens de O Primo Basílio podem ser consideradas o protótipo da futilidade. Narrado em 3ª pessoa.passeiweb. Paris é o cenário que devolve Basílio à Luísa. deixando-a num marasmo sem fim. Eça de Queirós faz. a fim de sondar e analisar as mesmas mazelas. O espaço é Lisboa. mas apenas referidos. é a sociedade portuguesa.EÇA DE QUEIRÓS Publicado em 1878. onde se passam as cenas entre Luísa e Juliana. trazendo alegria e a novidade de uma vida de prazeres e aventuras. a Monarquia e a Igreja.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/a_hora_da_estrela O PRIMO BASÍLIO . A ironia é também intensamente presente neste romance. Eça de Queirós reproduz os acontecimentos. apresenta um narrador onisciente que não consegue distanciar-se por completo de suas personagens.

Leopoldina: encarna o avesso da moral da época. a qual. É nesse meio-tempo que Basílio chega do exterior. Os encontros entre os dois se sucedem. Luísa. uma moça romântica e sonhadora.chamada a "Pão-e-Queijo" por suas contínuas traições e adultérios. no marasmo e em uma melancolia pela ausência do marido. não se detendo diante de qualquer sentimento de fundo moral. A empregada começa chantagear a patroa. a empregada maldosa. É o retrato da futilidade. É um dos tipos mais famosos da galeria queirosiana. que era assanhada e namoradeira. É a representante maior da população que circundava o lar do engenheiro. preocupado com dramalhões românticos. é funcionário de um ministério. devassas. gosta de frases feitas e citações morais. e as empregadas Joana. no final. procura abrigo a proteção nos braços do primo. para. os quais escreve para o teatro. Sebastião. Achava que tinha o direito de julgar as mulheres que tinham amantes. Juliana. Uma delas é interceptada por Juliana. e responsável pelos adjetivos "acaciano" e "conselheiral". Enredo Os protagonistas dessa obra são Jorge que além de ser um bem-sucedido engenheiro. e Luísa. o trai com um caixeiro. inconseqüente em suas atitudes. Personagens Luísa: representa a jovem romântica. despeitada e amarga. por sua vez. graças aos conselhos "sábios" de tia Vitória. agora transformado em ardente paixão e isso faz com que Luísa pratique o adultério. por isso. que morria de amores pelo Conselheiro. Jorge: Personagem caracterizada por certa hipocrisia masculina aliada à sua tranqüilidade. como era chamada a residência pela vizinhança pobre. mas. solteirona. invejosa. Leopoldina .principal consumidora dos romances nessa época . Personagem desprovido de qualquer senso moral. há troca de cartas de amor. responsável pelo conflito do romance. Age conscientemente. da fragilidade e da ociosidade que caracterizavam as mulheres de sua classe e de seu tempo. Conselheiro Acácio: Homem de palavratório complicado e inútil. Ernestinho. Juliana: personagem mais completa e acabada da obra. é um escritor vazio.A criação dessas personagens denuncia e acentua o compromisso de O primo Basílio com o seu tempo: a obra deve funcionar como arma de combate social. lê poemas obscenos de Bocage e mantém como amante a empregada. virgem. o primo não leva muito tempo para reconquistar o amor de Luísa. é inconformada com sua situação e por isso odeia a tudo e a todos. Joga com o sentimento alheio. Luísa ainda mantém amizade com uma antiga colega. Havia um grupo de amigos que freqüentava sempre a casa do casal. Ernestinho Ledesma: primo de Jorge. do "almofadinha". o falso moralismo. a beata que sofria de crises de gasosas. espera apenas uma oportunidade para apanhar a patroa "em flagrante". arrependida. o apego às aparências. Ele e Luísa haviam namorado antes dela conhecer Jorge. Tipifica o formalismo próprio da época. mas ele próprio teve um caso passageiro em Alentejo do qual apenas o amigo Sebastião tinha conhecimento. na vida privada. A felicidade e a segurança de Luísa passam a ser ameaçadas quando Jorge viaja a trabalho para Alentejo afim de fiscalizar suas minas. o que não é bem visto pelo marido. Este grupo era constituído por D. chamando-as de promíscuas. Mimada a sonhadora. o bem letrado. possui vários amantes. amigo íntimo de Jorge. tem sido vista como o símbolo da amargura e do tédio em relação à profissão. Não tem compromisso com nada nem com ninguém.deveria ver-se no romance e nele encontrar seus defeitos analisados objetivamente. Luísa fica enfadada sem ter o que fazer. Após a partida. Conselheiro Acácio. bastarda. do janota. Luísa precisava ser amparada por uma figura masculina. usados quando se deseja aludir ao falso padrão moral de alguém. Para completar a felicidade do casal faltavam-lhe apenas um filho. Adúltera. assim. Amigo do pai de Jorge e padrinho do casamento. O autor critica veementemente o comportamento medíocre da família lisboeta de classe média e usa o adultério como pano de fundo. É o protótipo do filho pródigo. Adelaide. Formam o típico casal burguês de classe média da sociedade lisboeta do século XIX. Basílio: o conquistador e irresponsável. A burguesia . É ele quem serve de elo na medição de forças entre duas mulheres tão diferentes: a frágil Luísa e a obstinada Juliana. Conquistador e "bon vivant". poder alterar seu comportamento. e Juliana que era revoltada. Com isso. à sua capacidade de ponderação. Felicidade. a adúltera ingênua e. escandaliza a toda a sociedade. quando se vê sem o apoio do marido por perto. Luísa se transforma em escrava de Juliana. e . fumante. Por conta disso. Feia. "bom vivant" pedante e cínico.

Durante sua época de estudante começou a escrever contos e artigos com temática política. no dia 3 de junho de 1901. os maus tratos que sofre de Juliana logo lhe tiram o ânimo. http://www. Luísa morre e o lar antes "formalmente feliz". é acometida por uma violenta febre. até que encontra a ajuda desinteressada e pronta de Sebastião. No ano seguinte. torna-se promotor público em Minas Gerais. se desfaz. minando-lhe a saúde.com/estudos/livros/o_primo_basilio FOGO MORTO – JOSÉ LINS DO REGO José Lins do Rego José Lins do Rego nasceu no engenho Corredor. de Joana e da nova empregada. com quem terá três filhas. porém. deixando-a sem apoio. uma vez que seu pai era muito ausente e ele era órfão de mãe. Basílio foge covardemente. Em delírio. quando comenta com um amigo que se soubesse que Luísa havia morrido teria trazido Alphonsine. pois Luísa satisfaz todos os caprichos da criada. Por causa de sua frágil constituição. o qual. perdoar-lhe a traição. ao saber da morte da amante.começa a adoecer. Casa-se em 1924 com Philomena Massa. De nada adiantam os carinhos e cuidados do marido e dos amigos de que foi cercada. armando uma cilada para Juliana. em Pilar (Paraíba). intentando levá-la presa. vindo a manter amizade com diversos escritores e intelectuais importantes da época. nem o zelo médico que chegou a raspar-lhe os longos cabelos. tarde demais: enfraquecida pela vida que tivera de suportar sob a tirania de Juliana. conta a Jorge seu adultério. Formou-se em 1923 na Faculdade de Direito do Recife. Foi criado no engenho de seu avô materno. Dentre eles. fazendo-o entrar em desespero e. destaca-se o sociólogo e escritor Gilberto Freyre.passeiweb. cercada do carinho de Jorge. Em Maceió. Pernambuco. mas transfere-se em 1926 para Maceió (Alagoas). enquanto tenta todas as soluções possíveis. acaba por provocar-lhe um ataque e a morte. É um novo tempo para Luísa. O romance termina com a volta de Basílio e seu cinismo. uma de suas maiores influências. no entanto. Jorge volta e de nada desconfia. a amante que tem em Paris. José Lins do Rego irá conviver com o meio literário formado por .

em seguida Bangüê. Sucede. O regionalismo de 30 Publicado em 1943. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar. com máquinas de fábrica. Dois anos depois. Carlos de Melo havia crescido. Prevalece uma narrativa direta. como Jorge Amado. diretamente influenciado pelo regionalismo do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. em 12 de setembro de 1957. Ricardo morre pelos seus e o Santa Rosa perde até o nome. com ferramentas enormes. Sua obra de estreia.Graciliano Ramos. Mas. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Melo. escrevem com simplicidade. haveria de chamar de O ciclo da canade-açúcar. tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. os Ricardos. A história desses livros é bem simples -. muda-se para o Rio de Janeiro. "Bangüê" (1934). O ciclo da cana-de-açúcar Fogo Morto é também o último suspiro da série de romances a que o próprio José Lins do Rego. a chamada fase heróica.comecei querendo apenas escrever umas memórias que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos. onde passa o restante de sua vida. Carlinhos foge. Mas há uma diferença fundamental. Depois do Moleque Ricardo veio Usina. Jorge de Lima e outros. Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Pode ser que se pareçam. R. "Usina" (1936). vindo a formar sua consciência regionalista. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. considerado por José Lins como o último romance da série. 1936. após o Menino de Engenho. os chamados "moleques de bagaceira". sofrido e fracassado. como Memórias Sentimentais de João Miramar. popular. Rio de Janeiro. com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas. o uso da linguagem coloquial. Rachel de Queiroz. Viveram tão juntos um do outro. espatifado. A prosa de ficção dos anos 30 deu continuidade ao projeto dos primeiros modernistas. ou do Macunaíma de Mário de Andrade. de 1922. Doidinho. o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Melo. Pelo contrário. foram tão íntimos na infância. Veio. já livres das convenções da linguagem parnasiana acadêmica. enfatizam. do velho José Paulino. a história do Santa Rosa arrancado de suas bases. Suas principais obras são: "Menino de Engenho" (1932). L. Ricardo e o Santa Rosa se acabam. que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior. na obra de arte literária. porém. grande contador de histórias. reproduzindo as incorreções gramaticais da fala popular de maneira programática na linguagem literária.J. Fogo Morto é a última obra-prima do regionalismo neo-realista surgido no Brasil durante a década de 30. foi publicada em 1932 e recebeu o prêmio da Fundação Graça Aranha. Seria apenas um pedaço de vida o que eu queria contar. "Menino de Engenh"o. Enquanto os modernistas de 22 procuravam "escrever errado". sem as ousadias formais dos romances de Oswald de Andrade. se escraviza. têm o mesmo destino. falece no Rio de Janeiro. preocupada em apresentar os problemas e as desigualdades sociais do Brasil. Em 1935. apenas ocasionalmente desrespeitando a norma culta da língua portuguesa. "Riacho Doce" (1939) e "Fogo Morto" (1943). os regionalistas de 30. Carlos de Melo. assim como o modernismo inicial. de caráter neo-realista. avô de seu alter-ego. Uma grande melancolia os envolve de sombras. Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos. Em 15 de setembro de 1955 é eleito para a Academia Brasileira de Letras. Linguagem Os regionalistas de 30. de aprofundamento nos problemas brasileiros através de uma literatura regionalista. . estão tão intimamente ligados que a vida de um tem muito da vida do outro. que têm como matéria básica o engenho Santa Rosa. o próprio escritor nos explica suas intenções ao realizar este ciclo de romances: Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de "Ciclo da Cana-de-açúcar". Em nota à primeira edição de Usina (1936). Carlos de Melo. "Doidinho" (1933).

o romancista maduro e consciente se sobrepõe ao memorialista nostálgico para construir sua obraprima: síntese. é mandado ao colégio interno. então. Na cidade. de quem contrai uma "doença do mundo". em Doidinho (1933). originalmente. Mais do que isso. voltaria a aparecer na obra-prima de José Lins do Rego. a objetividade e a consciência compositiva que o caráter sentimental e espontâneo das obras anteriores encobria. pois. Pressionada por interesses estrangeiros e pela usina Santa Fé. o processo de decadência dos engenhos da zona da mata nordestina. no seu romance seguinte. conhece a sexualidade através da "rapariga" Zefa Cajá. perder os hábitos da "bagaceira". Considerado por José Lins o último livro do ciclo. assim como o engenho Santa Rosa e a figura do coronel José Paulino. por fim. Criado entre os "moleques de bagaceira". o Dr. a usina vai perdendo a sua força. acaba invadida por miseráveis em busca de alimentos e. tornando-se engenhos "de fogo morto". Dirigida pelo Dr. estabelecimentos agrícolas destinados à cultura da cana e à fabricação do açúcar. acaba por ser a maior obra deste mesmo ciclo. para "endireitar". o ambiente de engenho em que o garoto Carlinhos é criado após seu pai.Em Menino de Engenho (1932). Fogo Morto. Carlos acaba por levar o Santa Rosa à ruína. com uma regressão temporal à época da fundação do engenho Santa Fé. que mais lembra um contador de histórias marcado pela oralidade e pela naturalidade. deixando de "botar". aos poucos. às margens do Rio Paraíba. retoma a mesma idéia nuclear dos romances anteriores. Aos doze anos. portanto. o romancista paraibano acrescenta à sua extraordinária facilidade de narrar. Juca a vende e a abandona melancolicamente. próxima a Itabaiana. A maior parcela da ação se desenvolve nas terras do engenho Santa Fé. ao final de Fogo Morto. desequilibrado mental. de maneira lírica e saudosista. pode ser considerado com um integrante tardio do "ciclo" que José Lins havia considerado acabado. primeiro romance do ciclo. O desenrolar dos acontecimentos se dá durante os primeiros anos do século XX. Mas o engenho Santa Rosa. . Espaço e tempo O romance se passa no município de Pilar. ao minimizar o caráter autobiográfico e nostálgico das obras precedentes. Decadência O ciclo apresenta. sempre permeado por uma sensação de impotência frente ao espírito autoritário de seu velho avô. E embora seja traçada rapidamente a história do engenho até o momento narrado. se readaptar ao engenho. Carlinhos tenta. em 1850. em 1936. ainda que de maneira periférica. Bangüê (1934). Juca. já formado em Direito. O romance. portanto. aos 24 anos. a cana de açúcar ainda não processada. José Lins do Rego lançaria Fogo Morto sete anos mais tarde. para fabricar o açúcar. e abandona para sempre as suas terras. Com a ascensão das usinas. Em Fogo Morto. assim. Passam. Perdem. o decadente engenho Santa Fé. que perdem seu poder e são engolidos pelas forças emergentes da usina e do capitalismo moderno. nos arredores do Pilar. Nesta obra. boa parte de seu poder. portanto. assim como alguns de seus moradores. vende o engenho ao tio Juca. Usina (1936) apresenta o engenho transformado na usina Bom Jesus. José Lins do Rego nos mostra o seu retorno ao Santa Rosa. Por fim. moer a cana para a fabricação do açúcar. passa-se boa parte da última seção da obra. José Lins do Rego mostra. aprofundamento e condensação de todas as outras. É como se encontra. ter assassinado a mãe. Obra-prima Embora desse o ciclo por encerrado com a publicação de Usina. Após descrever a vida de Carlos de Melo no colégio interno. O título Os "engenhos" do Nordeste eram. e se tornar um legítimo "senhor de engenho". Após a morte do velho José Paulino. a maior parte desses engenhos foi. então. as ações em si não duram mais do que alguns meses. distante cerca de 50 quilômetros de João Pessoa. o garoto cresce sob o poder patriarcal avassalador do avô José Paulino. tornando-se reféns dos preços pagos pelas usinas. que domina toda a região. apenas a vender a matéria prima às usinas. que passaram a comprar dos engenhos sua produção bruta. na Zona da Mata paraibana.

conservada em sua autenticidade regional. As oligarquias açucareiras são dominadas pelas oligarquias cafeeiras. São elas: o mestre José Amaro. Mário apenas mostrou o que poderia e deveria ser a experiência coletiva de um povo. O compromisso regionalista de José Lins do Rego é sobretudo de âmbito popular. escondido que estava sob uma capa de “civilizado”. José Lins do Rego manifesta a tendência regionalista de nossa literatura e de nossa ficção entre 1930 e 1945. seleiro pobre e orgulhoso. ameaçada com a chegada do capital proveniente da industrialização. sem dúvida. senhor de engenho inepto e decadente. podemos observar essa diretriz no romance Fogo Morto: o ritmo fraseológico remontando à mais antiga tradição dos contadores de histórias. e é exatamente a linguagem popular da Paraíba. Ora. que retrata o Nordeste e a oligarquia composta pelos senhores de engenho. memorialistas. nas primeiras décadas do século XX. os romances do ciclo da cana-de-açúcar são. o cangaço. Mas as três partes se entrecruzam. na verdade. As três personagens centrais estão envolvidas no cenário de miséria. Desponta assim um regionalismo novo. o major Luís César de Holanda Chacon. Personagens Cada uma das personagens principais representa. diferente do regionalismo romântico: o exotismo e o pitoresco não interessam mais. revela o processo de mudanças sociais passados no Nordeste brasileiro. Na verdade. uma classe social da população nordestina. e o capitão Vitorino Carneiro da Cunha. distribuída. José Lins traz para a literatura a estilização da linguagem regional com absoluta autenticidade espontânea e pura. doenças. o senhor de engenho decadente. num período desde o Segundo Reinado até as primeiras décadas do século XX. isolada de influências externas. Análise da obra Fogo Morto (1943) foi o décimo romance e é a obra-prima de José Lins do Rego. o artesão. em suas andanças e na sua busca ingênua de justiça. Cada uma delas traz no título o nome de um dos três personagens principais do romance. e por uma politicagem e prepotência policial que defendem as minorias fortes e. Fogo Morto é um documento sociológico. Surge agora um Brasil doente. quem estabelece as relações entre todas as personagens. que foram os únicos artistas populares do Nordeste. o papa-rabo. . pois retrata o mundo da casa grande e o mundo da senzala com as conseqüências sociais do relacionamento de um com o outro. Romance de feição realista. em Macunaíma. configurando a situação política. uma população dominada por uma classe minoritária. São engenhos de “fogo morto”. herói quixotesco. nessa literatura oral de que o romance de José Lins contém traços marcantes. O coronel Lula de Holanda. já não se discutia mais a necessidade de renovar a linguagem literária brasileira na ficção. o banditismo. com um ritmo narrativo mais tradicional. procurou usar uma língua comum a todas as regiões do Brasil. a maior personagem do livro e de todos os romances de José Lins do Rego. Convém frisar que José Lins do Rego poderia ser colocado sob a bandeira do Manifesto Regionalista de Gilberto Freyre. Linguagem Quando José Lins do Rego publicou Fogo Morto. como saída.Estrutura Triangular Fogo Morto é dividido em três partes. outros menos. que o escritor utiliza. ele estava consciente de estar realizando um experimento e não de estar criando uma linguagem. que é. a superstição. defensor estabanado dos oprimidos. colhida na própria fonte. mantidos por Estados que se sustentam nos coronéis dos municípios. Surgem os problemas mais graves: o baixo nível de vida. servindo como ponto central da narrativa. agora. Essas memórias enraízam-se também na linguagem dos cantadores nordestinos. É Vitorino. os personagens aparecem ao longo de todo o livro. que são as três mais fortes personagens da sua criação ficcional. revelando um sistema político apoiado em acordos de interesses. apesar de sua estrutura literária sólida. sem influência erudita. Quando Mário de Andrade. O tema central de Fogo Morto é o desajuste das pessoas com a realidade resultante do declínio do escravismo nos engenhos nordestinos. Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. O romance é a expressão de uma cultura. econômica e social do Brasil. com fome. Gira em torno de três personagens empolgantes. o mestre José Amaro. e Vitorino Carneiro da Cunha. Assim. É a linguagem dos poetas populares. uns mais. onde decai o patriarcalismo com suas tragédias humanas. misto de Dom Quixote e Sancho Pança. Esse tipo de regionalismo crítico aparecerá também nas obras de Jorge Amado.

José Amaro é um homem amargurado e sofrido que rebela-se contra a prepotência dos senhores de engenho através de uma altivez que beira a arrogância. Em um dos momentos mais dramáticos de todo o romance. Vitorino Carneiro da Cunha . agora. Marta vive em estado de torpor.Mulher de José Amaro. Em Fogo Morto análise e sexo se fundem. poderoso e forte. Revela forte orgulho por ser branco e alta consciência de seu humano.Mulher do coronel Lula de Holanda. Marta que. e sobretudo sua filha. É uma narrativa multifacetada. uma das maiores criações de José Lins do Rego. educada na cidade e. Convém destacar o caráter lúdico da composição. . Vitorino representaria um D. presa à tristeza do sertão. Moça prendada. o mestre seleiro caminha à noite pelas estradas próximas. Tenente Maurício . Assim. na transição da economia mercantil para a economia pré-capitalista. que aceita todas as lutas. a obra é dividida em três partes que se ligam e se completam: O mestre José Amaro. salvo sua coragem e o apoio ao cangaço. ele manifesta sua rejeição aos poderosos e à ordem constituída.Representa o eterno opositor. A presença patética do romance é a de Vitorino Carneiro da Cunha. Vitorino tem sua figura exterior: gordo. Antônio Silvino . Plebeu e ao mesmo tempo aristocrata pelo parentesco com o coronel José Paulino. Refugia-se na religião. A obsessão angustiante do sexo é vencida pela análise da alma humana. tem o vício da bebida. corajoso. Enredo e estrutura da obra Narrada em terceira pessoa. É um romance recheado de tristeza. Coronel Lula de Holanda . mora nas terras do engenho Santa Fé. É o romance cheio de loucura. o Papa-Rabo. com a história pungente de três personagens trágicas. maltrata sua esposa. falando coisas sem nexo. como a morte e o sexo. De fato. as três personagens entrecruzam-se no espaço e no tempo narrativo. Contudo. ele tem de D. que é uma das obsessões de José Lins. Primeira parte O mestre José Amaro . sempre montado em seu burro velho. alegre. no amor ao passado.Figura como representante da aristocracia arruinada dos engenhos. com trinta anos. José Amaro espanca longa e violentamente a filha em meio a uma dessas convulsões. pertencente ao coronel Lula de Holanda Chacon.Mulher de Vitorino.José Amaro . D. Quixote sertanejo. Cabra Alípio . Cada vez mais infeliz. Freqüentemente fazem-se comparações entre Vitorino e a figura de D. Assim. figura poderosa. De Sancho Pança. O Cego Torquato . com pluralidade de visões. Quixote. É uma espécie de síntese de toda a obra ficcional de José Lins do Rego. É o imenso painel da sociedade rural do Nordeste. O povo da região passa ver nele a encarnação de um lobisomem e o evita cada vez mais. inesquecível.Cangaceiro. Três novelas interligadas. isola-se. O desprezo que sente pelos “coronéis” leva-o a engajar-se como informante do bando de cangaceiros chefiado por Antonio Silvino. Sabe que é explorado e não quer aceitar. mas perde o poder econômico. Negro Passarinho .Artesão que lida com couro. continua solteira e começa a ter agudas convulsões nervosas. Possuí o orgulho despótico de um senhor feudal.Extremamente devotado ao cangaço. O autor nos envolve com seu estilo lírico. revelando a decadência do Engenho Santa Fé e das famílias que lá moravam. a luta pelos fracos e pela justiça (verdadeiro moinho de vento no Nordeste). ruminando as suas frustrações. espirituoso. O engenho do Seu Lula.Escravo recém-libertado.Elemento de ligação do cangaceiro Antônio Silvino.Desempenha o papel do opressor. naquele áspero mundo de fatalismo e misticismo. Por isso. Amélia . apoiado por mestre José Amaro. José Amaro tem o coração moldado pelos valores patriarcais dominantes. Representante feminino da aristocracia feudal do Nordeste. já que o autor entrelaça as ações das personagens em todas as partes. aceitando pacificamente as perseguições dos moleques. que o chamam de “Papa-Rabo”. Quixote o idealismo. e O Capitão Vitorino. outorga-se o título de capitão. um idealista em defesa dos mais fracos. sem deixar de lado suas vaidades.Senhor de engenho. oportunista politicamente. Sinhá . Sinhá. porém não tem alternativa. A partir de então.Trabalhador branco livre do Nordeste. Adriana . Humilhado pela decadência e sofrendo as pressões do cangaço. comandando uma tropa de homens mais temíveis que os próprios cangaceiros. Coronel José Paulino . O fantasma da decadência econômica – mais sugerida do que descrita – ronda o seu trabalho.

impede que sua filha Nenén namore um rapaz de origem humilde. Vitorino possui o sentido nobre dos gestos e uma percepção limitada da realidade. filha do poderoso capitão Tomás Cabral de Melo. revelando a decadência do Engenho Santa Fé e das famílias que lá moravam. Não havia vozes que amansassem as dores que andavam no coração de seu povo.mundovestibular. fazem parte de sua personalidade multifacetada. assumindo a condição de um homem idealista e quixotesco.Senhor do engenho Santa Fé. Acredita que. Estas faces contraditórias da visão de mundo de Vitorino não lhe retiram a grandeza humana e literária. D. chorando uma morta. Convém destacar o caráter lúdico da composição que o autor entrelaça as ações das personagens em as partes. o Santa Fé. Acabara-se o Santa Fé. a compreensão lúcida e triste do fim de tudo: Os galos começaram a cantar. sem medir a força do inimigo. com a alma mais pesada que a de Nenén. alienado dos problemas econômicos que causam a derrocada de seu mundo. Viu a réstia que vinha do quarto dos santos. o capitão Vitorino é uma figura ridícula.br/articles/2437/1/FOGO-MORTO---Jose-Lins-do-Rego-Resumo/Paacutegina1. o desequilíbrio psíquico decorre do processo de decadência social. São engenhos de "fogo morto". Na terceira parte. após a Abolição. ele se eleva.Agora ouvia uma cantoria fanhosa. em dado momento. “seu” Lula é prepotente e mesquinho. O negro saiu e D.Personagem cujas origens o vinculam às famílias tradicionais da região açucareira. No entanto. Da casa de Macário saíam vozes. Sinhá e Marta o abandonam e o artesão percebe sua incapacidade de opor-se às classes dirigentes. Enquanto isso. Lula de Holanda Chacon mantém a pose de grande senhor. Esta. condenada a permanecer solteira. das quais se encarrega Amélia. a ponto de ser denominado de Papa-Rabo pelos moleques. contudo.. Cabe a mulher do senhor de engenho. http://www. Nas duas primeira partes da obra. não produz mais açúcar.com. defendendo ideais éticos que parecem inviáveis na vida cotidiana da região. que o leva investir contra tudo aquilo que lhe parece injustiça. Como em outros momentos de Fogo morto. Caiu nos pés de Deus. De Dom Quixote. Segunda parte O Engenho do Seu Lula . Amélia ficou a olhar a noite. Lula entrega-se à práticas místicas. ameaçada com a chegada do capital proveniente da industrialização. Fogo Morto é um documento sociológico. que obtivera através do casamento com Amélia. nem pesar as conseqüências de suas ações. as quais já pertenceu socialmente. Face a incapacidade de seu proprietário. da luz mortiça da lâmpada de azeite. da polícia militar e até dos cangaceiros. fecha-se sobre si própria e torna-se alvo de riso e deboche da vizinhança. sem cumprimentar ninguém. possa instaurar uma ordem institucional num meio em que a única lei é o arbítrio dos latifundiários. Apesar de sua estrutura sólida. um gemer que abafava o canto dos galos. Contesta o poder absoluto dos senhores de engenho. Autoritário. levando-o a rápido declínio. Terceira parte O Capitão Vitorino . a esposa do decrépito coronel. um negro que era seu afilhado. administra pessimamente o engenho. quase grotesca. onde decai o patriarcalismo com suas tragédias humanas. abandonam em massa a propriedade rural Desinteressado das questões práticas. trata tão mal os escravos que estes. mais preocupado com o uso e abuso da força do que propriamente com os desníveis sociais existentes na sociedade da cana-de-açúcar. sob influência de Floripes.com/estudos/livros/fogo_morto . pose traduzida no cabriolé (pequena carruagem de luxo) com que percorre as estradas. A sobrevivência familiar fica restrita à criação de galinhas e à produção de ovos.. Amélia fechou a porta da cozinha. Dentro de sua casa uma coisa pior que a morte. que retrata o Nordeste e a oligarquia composta pelos senhores de engenho.html http://www.passeiweb. pelo poder do voto.O destino de José Amaro se decide apenas na terceira parte da obra. Ao contrário.. Trata-se de um liberal humanista. com o corpo mais doído que o de Lula. embora hoje seja apenas um pequeno proprietário que vive de maneira modesta. o chocalho de um boi no curral batia como toque de sino. Dirige então o seu temperamento violento contra si próprio e suicida-se com o mesmo instrumento que representava sua sobrevivência: a faca de cortar sola.

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