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Viver à lei da nobreza: familiaturas do Santo Ofício, Ordens

Terceiras, câmaras e Ordem de Cristo num contexto de mobilidade social
(Minas Gerais, século XVIII)

Aldair Carlos RODRIGUES
Doutorando em História Social - Universidade de São Paulo
aldair@usp.br

O ponto de partida desta comunicação é a caracterização social dos 457 familiares do
Santo Ofício da capitania de Minas Gerais

(século XVIII) 1 por meio do método

prosopográfico. Visto que a familiatura foi obtida nessa região principalmente por um grupo
em processo de mobilidade social ascendente, verificaremos qual era a eficácia dessa insígnia
num movimento mais amplo de busca por distinção social. Qual era o valor da familiatura na
constelação de insígnias e títulos que ofereciam distinção no Antigo Regime? Além da
familiatura, verificaremos quais outras estratégias o grupo analisado utilizou para sua
afirmação social. Será considerada a entrada nas ordens terceiras, Ordem de Cristo e câmaras
municipais. Que estratégias eram adotadas para a penetração em cada uma dessas
instituições? Em qual delas os sujeitos do grupo analisado entravam primeiro? O ingresso em
uma ajudava a abrir a porta de outra? Que impacto todo esse movimento tinha na construção
do “viver à lei da nobreza”? O que significava “viver à lei da nobreza” nessa região da
Colônia? Como a noção do “viver à lei da nobreza” era manipulada nesse contexto de
afirmação social?
No que diz respeito à naturalidade, verificamos que a maioria absoluta dos sujeitos que
compunham a rede de familiares do Santo Ofício de Minas era originária do norte de Portugal
– ¾ do total de agentes – com predominância dos naturais do Minho.
Eles eram, em geral, filhos de lavradores – caso da maioria – e de oficiais mecânicos
que saíam de suas terras natais em busca de melhores oportunidades de vida: queriam trilhar o
caminho da prosperidade, no caso do grupo analisado, na capitania de Minas Gerais. Eles
partiam de suas freguesias muito jovens, depois de alfabetizados, e comumente se apoiavam
em redes de parentesco e de solidariedade para se inserirem em outras regiões, passando
primeiro por Lisboa e depois vindo para a Colônia, onde desembarcavam no Rio de Janeiro.
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ANTT, IL, Livros de provisões, 108-123; ANTT, HSO.

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Aldair Carlos Rodrigues

A ocupação escolhida pelo grupo foi sobretudo a de comerciante. Eles atuavam no
abastecimento da Capitania do ouro via Rio de Janeiro, dedicando-se geralmente ao comércio
de escravos e de fazendas secas. Depois de amealharem recursos no comércio, parte
significativa do grupo passava a investir em lavras e escravos, fixando-se, desta forma, em
Minas.
Depois de estar 10 ou 15 anos, em média, na região, eles pediam a habilitação no
Santo Ofício: era o tempo que levavam para ascenderem economicamente. Quase todos os
indivíduos estudados eram solteiros no momento em que se tornaram agentes da Inquisição e
pouquíssimos se casaram, provavelmente porque tinham dificuldade de encontrar noivas em
Minas que pudessem passar pelo processo de habilitação do Santo Ofício. Além disso, a
historiografia revela que era comum os comerciantes permanecerem solteiros na Capitania.
Quanto ao cabedal, os processos de habilitação do grupo mostram que os pretendentes
eram relativamente abastados, embora, de modo geral, não fizessem parte da elite econômica
da Capitania, já que a maioria dos agentes possuía pecúlios que iam, em média, de 2 a 8
contos de réis.
O perfil sociológico dos indivíduos que compunham a rede de familiares do Santo
Ofício mineira revela-nos claramente um grupo em processo de mobilidade social ascendente.
O primeiro passo dado pelos sujeitos em análise foi a obtenção de recursos econômicos. Se
assim não fosse, por que não pediam a habilitação no Santo Ofício logo que chegavam em
Minas? Eles somente o faziam depois de estarem nesta zona 10 ou 15 anos, em média. Alguns
candidatos ao cargo de familiar chegavam a justificar sua candidatura, dentre outros
argumentos, dizendo que eram ricos. Cosme Martins de Faria – cujo processo não teve
desfecho –, por exemplo, afirmou que “ele suplicante deseja muito servir a Deus e a este
Santo Tribunal no ministério de familiar para aumento e exaltação da santa fé e porque na
pessoa do suplicante concorrem todos os requisitos necessários e é abastado de bens por ser
um mercador rico (...)”.2
Após obterem o capital econômico, os sujeitos passavam a buscar o capital simbólico,
investindo em insígnias, privilégios, enfim, em formas de dignificação e distinção social.3 É
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Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Habilitações Incompletas, mç 15, doc. 31. Negrito nosso.
Sobre esta relação entre mobilidade social, capital econômico e capital simbólico, as nossas referências aqui são
as análises de Jorge Miguel de Melo Viana PEDREIRA, Os Homens de Negócio da Praça de Lisboa de Pombal
ao Vintismo (1755-1822): diferenciação, reprodução e identificação de um grupo social, Lisboa, Universidade
Nova de Lisboa, 1995. (Tese de Doutorado); Nuno Gonçalo MONTEIRO, Elites e Poder: entre o Antigo
Regime e o Liberalismo, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais – ICS-UL, 2003, pp. 37-82. No que diz respeito a
conceitos e termos como capital simbólico e poder simbólico, ambos os historiadores tratam a mobilidade social
no contexto do Antigo Regime português inspirados no sociólogo francês Pierre Bourdieu.
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8 AHCSM. na terra de adoção. Aquela massa. pp. “Metais e Pedras Preciosas”. Difel. Depois de inseridos na sociedade escravista colonial4. para a Santa Casa de Chaves. podemos encontrá-los enviando dinheiro e pálios para as irmandades de prestígio de suas freguesias natais. 296. 28v. t. Segredos Internos: engenhos. 1960. 8 Já 4 Stuart SCHWARTZ. A matriz cultural continuava sendo portuguesa. fazemos das palavras de Sérgio Buarque de Holanda as nossas: É sobretudo a diversidade de aptidões bem ou mal afortunadas. e é forçoso então que essa hierarquia se estabeleça segundo os padrões ibéricos e portugueses que são afinal os disponíveis. Uma testemunha das judiciais do processo de habilitação de Brás Dias da Costa. vai recompor-se. doc. fl. livro 49. 1988. os reinóis em análise nunca perdiam de vista os padrões de estratificação e distinção social do Antigo Regime. as irmandades e as associações leigas assistencialistas ocupavam sempre um papel importante. essas questões estavam presentes até ao final de suas vidas e isso fica patente em vários testamentos dos familiares do Santo Ofício da região de Mariana. Nascidos e criados em Portugal. Reg. Testamentos. fl. 7 AHCSM. Depois de enriquecidos na Colônia. Reg. tendo se tornado familiar em 1731.6 Nos vínculos que os reinóis das Minas continuavam mantendo com Portugal ao longo de suas vidas. por exemplo. II. São Paulo.Viver à lei da nobreza dentro desta estratégia adotada pelo grupo em processo de mobilidade social que a familiatura cumpre um papel relevante. pouco menos do que indiferenciada. São Paulo. pp. Testamentos. eles adaptavam seus valores ao contexto envolvente. Companhia das Letras. Comarca de Bragança.5 A importância que os indivíduos de nossa amostragem davam às formas de distinção social portuguesa fica patente em seus processos de habilitação. legou 100$000 réis para a Santa Casa de Misericórdia da Vila de Chaves. em seu testamento.” Brás era natural da freguesia de Monte Alegre. que servirá para distribuir os vários elementos em camadas sociais. Brás. 5 Sérgio Buarque de HOLANDA. Sobre esta questão. Termo de Mariana. In: História Geral da Civilização Brasileir.7 Gonçalo Rodrigues de Magalhães também deixou de esmola 200$000 réis. vol. informou que ele “do Brasil tem mandado para a confraria do Santíssimo Sacramento desta freguesia 200 mil réis e este presente ano mandou um cofre e um pálio. HSO. mç.). 259-310. 211-213. 48. conforme tradições que lhes venham da pátria de origem. 03. por exemplo. p. In: Sérgio Buarque de HOLANDA (org. e morava na freguesia de São Sebastião. I. Livro 54. 6 IANTT. dos primeiros tempos. 170v-174v Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 3 . Baltazar Martins Chaves. e escravos na sociedade colonial (1550-1835). Mesmo que a maioria não voltasse para o Reino.

cujo processo ganha força na década de 1730 e atinge seu ápice em meados da centúria. (II) os potenciais privilégios inerentes ao título. Ordens Terceiras O estabelecimento das irmandades em Minas e a sua configuração social relacionamse ao movimento de sedimentação e estratificação da sociedade mineradora. em termos de distinção. AHCSM. Ática. como as Ordens Terceiras do Carmo e São Francisco. UFMG. em segundo lugar. trataremos de todos os familiares de Minas que se tornaram Cavaleiros do hábito de Cristo. pp. Reg. a entrada dos habitantes de Minas que se tornaram familiares em duas instituições: as Ordens Terceiras e a Ordem de Cristo.10 Voltando à familiatura. São Paulo. p. 10 4 Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 . “a Inquisição. fl. a nossa referência é Caio César BOSCHI. 80. naturalmente. Segundo Veiga Torres. Revista Crítica de Ciências Sociais.Aldair Carlos Rodrigues Domingos Fernandes deixou 400$000 réis para a Santa Casa da Ponte de Lima. Fritz Teixeira SALLES. 12 Para compreendermos o papel das associações religiosas leigas em Minas. primeiramente. 1986. (Coleção Estudos. livro 64. em relação à segunda. Belo Horizonte.11 É importante situar a familiatura entre outras formas distintivas obtidas pelo grupo em estudo para. e (III) o fato de os familiares serem representantes e servidores em potencial de uma instituição metropolitana robusta como era a Inquisição. Testamentos. 1963. para saber. 105-35. viu-se enredada pelas malhas dos interesses mais prosaicos e profanos de uma sociedade que ganhava mobilidade. escolhemos tratar. a distinção social oferecida pela insígnia estava associada a três elementos que atraíam o interesse do grupo que estudamos: (I) a prova pública de limpeza de sangue que o título oferecia (dado o rigoroso processo de habilitação exigido). verificarmos as potencialidades e os limites da insígnia no processo de diferenciação e reconhecimento sociais. 1). 11 José Veiga TORRES. abordaremos também o trânsito do grupo enfocado nas câmaras e ordenanças do termo marianense. e da qual. Para tanto. No caso da primeira. se nos 9 AHCSM. Além dessas duas instituições. Testamentos. 40 (Outubro de 1994). 9 E João Vieira Aleluia destinou 200$000 réis de esmolas para as obras pias da igreja de São Lázaro do Porto. Reg. pela figura do familiar. o que era peculiar à familiatura. “Da repressão à promoção social: a Inquisição como instância legitimadora da promoção social da burguesia mercantil”. a análise será recortada para o Termo de Mariana e. Centro de Estudos Mineiros. se sustentava e a quem servia”. 203v. 131. mais detidamente.12 Com efeito. fl. Os leigos e o poder: irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. Associações religiosas no ciclo do ouro. livro 51.

na escolha dos testamenteiros. 02 (spring. sobretudo as que agregavam a elite da região.. 126. Nesta região interior da Colônia. In: Colonial Latin American Historical Review. o que indica que naquela Capitania ela não existiu. da segunda metade do século XVIII. WADSWORTH. Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 5 . seja no que toca ao amortalhamento e/ou sepultamento e. as ordens terceiras ofereciam mais prestígio e distinção social aos seus membros. Observando a distribuição dos agentes inquisitoriais em tais instituições. 2003). Associações. vol. 173-227.. no. Agents…cit. que foi instituída em Vila Rica pelo 13 Júnia Ferreira FURTADO. WADSWORTH. Peter Martyr: The Inquisitional Brotherhood in Colonial Brazil”. Rio de Janeiro e Pernambuco. datados. a primeira constatação que nos salta aos olhos é a forte presença dos familiares nas ordens terceiras – de um total de 35 agentes. em sua maioria. 2002. Através dos testamentos dos familiares. a partir do ano de 1750. 228-253. em seus testamentos. Quanto aos demais 32 familiares de nossa amostragem. não fazem qualquer menção à existência da irmandade de São Pedro Mártir na zona mineradora. Brazil. pp. sociais e econômicos mais rigorosos.15 Na verdade. SALES. “Celebrating St. todos destacavam em seus testamentos a filiação a uma das ordens terceiras carmelitas ou franciscanas. p. James Wadsworth afirmou a presença em Vila Rica da irmandade de São Pedro Mártir. Eles apenas celebravam a festa de São Pedro Mártir. 16 J. 15 James WADSWORTH. não houve esforço para fundar uma irmandade específica para os familiares. (Tese de doutorado). o santo de invocação dos agentes da Inquisição. a qual agregava os familiares de Minas. Agents of Orthodoxy: inquisitional power and prestige in colonial Pernambuco.14 É nesse contexto de maior sedimentação e assentamento da sociedade das Minas que devemos compreender a entrada e a distribuição dos familiares do Santo Ofício da região de Mariana nas irmandades leigas. Os Leigos. 20.16 Para os familiares de Minas. os brancos se concentravam principalmente na irmandade do Santíssimo. J. pp.Viver à lei da nobreza primeiros decênios do século XVIII. era mais importante pertencer às irmandades locais. Homens de negócio: a interiorização da metrópole e o comércio nas Minas Setecentistas. Hucitec. até mesmo. University of Arizona.13 Por adotar critérios de admissão étnicos. James WADSWORTH. 1999. fazendo com que pertencer a elas significasse integrar um estrato superior da sociedade escravista colonial. 136-142. os familiares da região de Mariana. 12. Celebrating… cit. os mais abastados vão se aglutinar sobretudo nas ordens terceiras do Carmo e de São Francisco. apenas 3 não pertenciam às ordens terceiras do Carmo ou de São Francisco. encontramos informações concernentes à filiação às irmandades para 35 oficiais de nossa amostragem. São Paulo. Rosário e São Miguel e Almas. pp.cit. BOSCHI. devido à maior complexidade do processo de estratificação social. apesar do grande número de agentes inquisitoriais. C.. 14 F. C.. T. como ocorrera em Salvador. p.

Aldair Carlos Rodrigues Comissário Manuel Freire Batalha. reivindicavam os sepultamentos nas matrizes ou capelas das irmandades locais. 15. Ordem Terceira do Carmo: Mariana. Como podemos observar no quadro abaixo. No caso dos familiares que habitavam as freguesias mais afastadas do núcleo urbano principal. 2/3 dos familiares estavam na ordem Terceira de São Francisco. 17 IANTT. 02. 03. o testador não pertencia a nenhuma das ordens terceiras. A localidade das ordens terceiras às quais os familiares pertenciam era a seguinte: Ordem Terceira de São Francisco: Mariana.18 Os familiares do Santo Ofício de Mariana nas Ordens Terceiras19 Ocupação Ordem Terceira de Ordem Terceira São do Carmo Francisco Homem de negócio 16 05 Vive de seu negócio 02 00 Vive de sua fazenda 00 01 Escultor 01 00 Mestre carpinteiro 00 01 Boticário 01 00 Mineiro 03 01 Militar 01 00 Total 24 08 Fonte: Testamentos do AHCSM e AEAM. 19 Obs. suspeitamos que quase todos estavam na de Mariana. Não encontramos caso algum em que um membro da ordem terceira de São Francisco pertencesse simultaneamente à do Carmo. dos 35 testamentos localizados. 18 6 Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 . ocasião em que os familiares “vindos de fora”17 se reuniram para celebrar seu santo de invocação.: em 03 casos. o corpo deveria ser amortalhado sempre com o hábito terceiro de São Francisco ou de Nossa Senhora do Monte do Carmo. 03. e sem mencionar o local. porém. 01. No caso destes não mencionaram a localidade. Vila Rica. Por meio dos testamentos dos familiares. CGSO. 03. em geral. doc. no ano de 1733. A ordem terceira do Carmo apetecia menos aos agentes leigos da Inquisição. também pertencerem às ordens terceiras. sobretudo na de Mariana – nos casos em que foi possível verificar a sede da irmandade. Vila Rica. Rio de Janeiro. notamos que as ordens terceiras ganhavam mais importância entre os agentes que habitavam a cidade de Mariana. Como as Ordens Terceiras do Carmo e São Francisco agregavam as elites locais tinham condições de oferecer um ritual fúnebre mais pomposo. e sem mencionar a localidade. mç 04. apesar de. 06. em sua grande maioria. pois era nas capelas daqueles sodalícios que eles queriam ser sepultados. 12. bem ao gosto da sociedade barroca das Minas. pois apenas 1/3 se filiou a ela.

Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 7 . SALES. Os Leigos. cit.. fazia parte de um movimento maior: a busca por distinção social.. como a entrada nas irmandades de maior prestígio.) afirmaram em seus testamentos fazer parte da Ordem Terceira de São Francisco da Bahia ou Rio de Janeiro”. 22 Maria Aparecida de MENEZES..cit. ele afirma que devido à polarização social alcançada pelas Minas em meados dos setecentos. pois dois comerciantes (. 146-147. São Paulo. de trabalho detido sobre o perfil ocupacional dos membros das ordens terceiras de Minas. na historiografia. 71. p 164. 21 J. p. contudo estão aptos para estabelecer negócio de que se possam sustentar. O primeiro se relaciona ao perfil ocupacional dos familiares. C. 2007 (Tese de doutorado). na página 50. A predominância dos familiares de Mariana na ordem terceira de São Francisco pode ser explicada por dois fatores.20 Júnia Furtado e Caio Boschi endossam esta mesma tese de Sales. 23 F. a qual pertencia à Ordem 3ª de São Francisco”. pp. exceto as pessoas que forem caixeiros de lojas de fazenda seca. na Ordem Terceira de São Francisco. T. E não as tendo serão admitidos. acreditamos que havia uma tendência entre os comerciantes para estarem predominantemente na ordem terceira de São Francisco.. 51. 147. Na primeira. o momento de entrada nas ordens terceiras coincidiu mais ou menos com o pico da expedição de cartas de familiar para os habitantes das Minas. ou molhados. ao passo que a Ordem Terceira do Carmo englobava ou aglutinava em seu seio. cit. 152-153.29 % do total de irmãos que ocuparam importantes cargos administrativos no sodalício. FFLCH-USP. p. Era 20 F.. A autora acrescenta que “essa divisão nunca foi totalmente rígida.. Associações.22 Na região de Mariana.23 A atenção dedicada aos caixeiros pelos redatores do estatuto do sodalício é um reflexo da presença dos comerciantes. p. de preferência. T.. Não dispomos. pp. A teia mercantil: negócios e poderes em São Paulo Colonial (1711-1765). Homens. a classe de comerciantes”. já que 80% estavam ligados ao setor mercantil quando se habilitaram.Viver à lei da nobreza Embora não possamos precisar exatamente. sobretudo reinóis. que neles concorram os mais requisitos. tanto a obtenção da familiatura. BOSCHI. No estatuto deste sodalício ficava estabelecido que a entrada dos irmãos teria como condição essencial a posse de bens de ofício ou agência de que se possa comodamente sustentar. Apesar do autor colocar essa afirmação na conclusão do capítulo em que são analisados os aspectos sociais e econômicos da irmandade. SALES. Associações. cit.. já existiam classes estratificadas “como a dos comerciantes. contanto. Maria Aparecida de Menezes Borrego verificou “significativa participação dos comerciantes na Ordem Terceira da Penitência de São Francisco e na Irmandade do Santíssimo Sacramento”.21 No caso de São Paulo. para o grupo focado em nossa análise.. a autora observou que os agentes mercantis correspondiam a 46. FURTADO. Isto significa que. porque estes.. ainda que ao presente não tenham. Sales sugeriu que “a Ordem Terceira de São Francisco era a irmandade dos intelectuais e altos funcionários.

Francisco da Ordem Terceira da cidade de Mariana na qual sou irmão (. p. Documento transcrito. Associações. Testamentos. sobretudo no que toca à limpeza de sangue. mais uma vez.28 A influência exercida pelos irmãos familiares na ordem terceira de São Francisco de Mariana acabou se refletindo no seu estatuto. 25 Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana. 8 Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 . depois que “(. tal familiar voltaria a atuar na mesma como ministro. cit. tendo afirmado em seu testamento. 28 AEAM.Aldair Carlos Rodrigues fato comum os imigrantes portugueses iniciarem a carreira mercantil como representantes de outros comerciantes ou de casas mercantis estabelecidas nas praças há mais tempo. O segundo fator que explica a predominância dos familiares na ordem terceira de São Francisco é a atuação desse grupo na fundação da irmandade. mç 05. Ele apresentava o típico perfil de um familiar de Minas: era minhoto.27 Anos depois de redigir o estatuto da mesma Ordem Terceira de São Francisco de Mariana. estava o familiar Tomé Dias Coelho. doc 202. Entre os sete irmãos que compunham a mesa administrativa. 26 Citado em F. no qual se esclarecia que os familiares do Santo Ofício. habilitou-se como familiar. SALES.. Tomé. T. 51. em 175424.. identificava-se como homem de negócio na petição enviada ao Santo Ofício. embora também vivesse de minerar.. juntamente com os Cavaleiros do Hábito de Cristo estavam dispensados dos interrogatórios. T. Na verdade.29 Isso era possível também porque os processos de habilitação exigidos. já que os agentes inquisitoriais que se destacaram na criação do sodalício eram homens de negócio. 68. HSO... E aqui. pois o primeiro era familiar do Santo Oficio. cit. 1109. cit.. HSO. SALES.). doc..”25 A mesa dirigente da ordem Terceira de São Francisco.. vivia de lojas de fazenda molhada e de minerar. mç 12. fls 147v. era minhoto e homem de negócio.. quando tinha 32 anos. 50. 29 F. eram considerados pela sociedade do Antigo Regime português como os mais rigorosos. p. elegeu Miguel Teixeira Guimarães e Francisco Soares Bernardes para serem os redatores do estatuto da irmandade. Os dados da sua habilitação em IANTT. 1774. 27 IANTT. Depois de cerca de 25 anos nas Minas.. Miguel. Associações. e era solteiro.) meu corpo será sepultado na capela do glorioso Seráfico S. O fato de os familiares estarem isentos dos interrogatórios para a entrada na ordem terceira de São Francisco deve ter contribuído para a atração que esta irmandade exerceu 24 A informação de que ele era membro do Definitório da Ordem Terceira de São Francisco obtivemos em F. T. este fator se liga ao primeiro. Registro de Testamento. SALES. 20 anos. da qual o familiar Tomé Dias Coelho fazia parte. Associações. tanto para a familiatura como para entrar na Ordem de Cristo. um agente leigo da Inquisição teve destaque. 50. Livro 47. 1º ofício. p. 26 Miguel Teixeira Guimarães habilitou-se como familiar em 1747.

sobretudo homens de negócio. em detrimento da ordem terceira do Carmo. 30 Diferentemente do que ocorreria nas capitanias do Rio de Janeiro. acreditamos que o fato de a maioria dos familiares de Mariana ser homens de negócio é o fator que mais explica a predominância deles na ordem terceira franciscana. as do Rosário. Pernambuco e Bahia. ele tendia a dar destaque. sobretudo a de São Francisco. onde os indivíduos de nossa amostragem penetraram em larga escala.. Agents. WADSWORTH. Outras irmandades. chegaram a ocupar cargos importantes na câmara: Caetano Alves Rodrigues (vereador. se um mesmo indivíduo pertencia a várias irmandades e às ordens terceiras ao mesmo tempo. por exemplo. Devemos relembrar que as ordens terceiras do Carmo e de São Francisco só passaram a existir em Mariana a partir da segunda metade do século XVIII. De modo geral. apenas 05 deles. Mais do que familiares que se tornaram membros das ordens terceiras. No caso dos familiares de Mariana. Ser familiar e membro de tais sodalícios. aparecendo com maior freqüência na irmandade da Terra Santa de Jerusalém e na do Santíssimo Sacramento – seja a da Sé ou das freguesias mais afastadas de Mariana. Apesar de os familiares do Santo Ofício de Mariana terem se aglutinado nas ordens terceiras. elas eram as associações religiosas leigas que ofereciam maior estima social aos seus irmãos. Isto indica que.Cit pp. eles estavam presentes nas diversas irmandades de brancos da região. eram mencionadas nos testamentos de uma forma secundária.Viver à lei da nobreza sobre eles. em Minas não se constituiu uma companhia militar específica para os familiares servirem. que se tornaram agentes leigos da Inquisição e membros da Ordem Terceira de São Francisco. Câmaras e Ordenanças30 Diferentemente das ordens terceiras. às ordens terceiras. nas câmaras e nas companhias de ordenanças da região de Mariana. A entrada nestas instituições dependia de uma boa posição dentro dos jogos de poder político locais e não apenas da “limpeza de sangue”. elas não eram as únicas associações religiosas leigas às quais pertenciam. faziam parte de um mesmo jogo: a busca por distinção e prestígio social. Antes disso. eles tiveram uma baixa presença. os motivos que levavam os portugueses que moravam em Mariana a procurarem a familiatura eram os mesmos que os levavam a estar predominantemente nas ordens terceiras. Em outras palavras. pelos motivos já mencionados acima.. Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 9 . como. portanto. em seu testamento. tratava-se de arrivistas reinóis. São Miguel e Almas. em algum momento de suas vidas. Sobre a organização das companhias dos familiares no Brasil. 253-264. Apesar de reconhecermos a influência desta isenção. ver J. pelo menos no momento de maior assentamento da sociedade das Minas.

pp. em 1780). 25-80. se tornaram familiares. São Paulo. Obtivemos a listagem de todos os ocupantes de cargos na câmara de Vila Rica em: Memorial Histórico-Político da Câmara Municipal de Ouro Preto. 10 Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 . doc. 93. Manoel José Veloso. mais tarde. No caso de São Paulo. em 1726). (Memorial realizado pela Câmara Municipal de Ouro Preto). M. Suas fortunas advinham de grandes plantéis de escravos. ver: Russel A. encontramos cerca de uma dezena de familiares de Vila Rica que eram comerciantes – na época em que se habilitaram no Santo Ofício – e entraram na câmara daquela cidade. Paulo Rodrigues Ferreira (procurador. as testemunhas apenas informam que ele era “muito rico”. 352v. doc. 117. 30 mil. Sobre o papel das câmaras em Minas. 2004. Ouro Preto Ilimitada. Maria Aparecida Borrego verificou uma significativa participação dos comerciantes na câmara. 35 IANTT. 195-234. pp. em 1721). Sobre a relação entre prestígio social e ocupação de cargos camarários. Quanto ao último. HOC. Os comerciantes de nossa amostragem quase não tiveram inserção na Câmara de Mariana. ver Maria Beatriz Nizza SILVA. concomitante à sua inserção social. 40. M. serviu “de vereador da câmara da dita vila [Rica]. 34 IANTT. mç. vereador e procurador. IL. 55 (1977). presidentes e procuradores da Câmara de Mariana publicada em: Salomão VASCONCELOS. 138-148. 31 Baseamos.34 Alguns agentes mercantis de outras regiões das Minas também conseguiram participar das Câmaras. 19. ou seja. J. habilitado em 1750. 52v. 33 IANTT. “serviu de vereador da câmara e aos mais cargos distintos dela que não ocupara senão pessoas graves”. Belo Horizonte. possuindo. v. 111. FL. durante a primeira metade do século XVIII. Letra M. cit. HSO. n. na lista de vereadores. 1586. Foi o caso do familiar João Furtado Leite. Livro de Registro de Provisões. Editora da Unesp. “Vida Política e Social da Vila do Carmo” in Revista Brasileira de Estudos Políticos. Liv. mercador de fazendas secas. 100 mil e 25 mil cruzados. 13. 04. Ser Nobre na Colônia. ano 25. A. BORREGO. “O Governo Local na América Portuguesa: um estudo de divergência cultural”. IL. que “foi algum dia comboieiro de negros. A teia. e. foi o ano passado vereador na vila do Caeté e. São Paulo. Fl. Letra J. Diferentemente da Câmara de Mariana. Antônio Duarte (procurador em 1747).35 Ele seguiu aquela trajetória comum a muitos comerciantes das Minas que./ 1966). HOC. 128-167. respectivamente 200 mil. mç.. 200. mineiro. mç. Dos 5 citados apenas Antônio Duarte tinha envolvimento com essa atividade. Esta listagem inclui apenas os cargos de presidente. que é capital e de maior autoridade de toda a capitania”. de presente. Nicolau da Silva Bragança (vereador. e presidente.Aldair Carlos Rodrigues em 1718. 20 (jan. a de Vila Rica parecia ser mais aberta aos comerciantes. em meados do século XVIII. doc. Livro de Registro de Provisões. pelo menos aos que se tornaram familiares. aqui. R. 32 IANTT.32 José Veloso Carmo. pp. Ouro Preto. pp.. comerciante de fazendas secas. vive de minerar nas lavras em que é sócio de seu primo”. em 1771) e Francisco Pais de Oliveira Leite (presidente. IL. Revista de História da USP. Liv. várias lavras e roças. WOOD. Livro de Registro de Provisões. ele abandonou a atividade mercantil e passou a viver de minerar.33 Além desses.31 Todos eram muito abastados no momento das habilitações no Santo Ofício. João.

difíceis de serem transpostos. p. HSO. outros dois requisitos. Sobre as ordenanças. 35.36 Em parte. diferentemente do que ocorria na câmara. Rio de Janeiro. Para compreendermos a importância da ocupação de postos nas ordenanças como uma forma de distinção social em Minas. Nuno Gonçalo MONTEIRO. 06 exerciam alguma atividade mercantil. 1735-1777. já que o desempenho daqueles ofícios os ajudava a criar um histórico de serviços prestados à Coroa. 38 IANTT. 03 tiveram também cargos nas forças militares da região de Mariana. ver também: Christiane Figueiredo Pagano MELLO. AHU/ Resgate-MG. Os Corpos de Auxiliares e de Ordenanças na Segunda Metade do Século XVIII: as Capitanias do Rio de Janeiro. eram cobrados pela primeira. 2002 (Tese de Doutorado).37 Nessas instituições marianenses.Viver à lei da nobreza Quanto às ordenanças e outras forças militares da região de Mariana. p. HSO. Chancelaria da Ordem de Cristo. Vila Rica. sobretudo. 2006. HOC. observamos uma maior penetração dos comerciantes. cit. Nuno Monteiro afirmou que “as ordenanças constituíam outra das instituições relevantes da sociedade local portuguesa. em: Ana Paula Pereira COSTA. a qual. HOC. Niterói. nas companhias de ordenança. como recompensa/remuneração. a ocupação de postos nas ordenanças significava “produção ou reproducao de prestígio e posição de comando. bem como isenções de impostos e outros privilégios”.38 Os familiares que ocuparam cargos nas câmaras e nas ordenanças pertenciam à elite das Minas. Atuação de poderes locais no Império Lusitano: uma análise do perfil das chefias dos Corpos de Ordenanças e de suas estratégias na construção de sua autoridade. Elites e Poder. São Paulo e Minas Gerais e a Manutenção do Império Português no Centro-Sul da América. a obtenção de tais postos coincidia com a ocupação de cargos na Câmara: dos 05 familiares que foram vereadores. Além desses. 39 IANTT. Um deles era que os candidatos tivessem prestado serviços à Coroa. mais 08 indivíduos de nossa amostragem ocuparam cargos nas forças militares do Termo de Mariana.. (Dissertação de Mestrado). 37 IANTT. o de mais difícil acesso foi o hábito da Ordem de Cristo. sobretudo nas de ordenanças. Fato que podemos confirmar quando observamos que muitos dos que ocuparam estes postos também se habilitaram na Ordem de Cristo. notamos a entrada de uma pequena parcela dos familiares. enquanto os demais viviam de minerar e de suas fazendas. Sou muitíssimo grato a Fernanda Olival por ter pesquisado. Do total de 457 familiares. UFF. Dos 11 familiares que entraram nas companhias militares. Ordem de Cristo Dos símbolos de distinção social obtidos pelos sujeitos em foco. HOC. AHU/ Resgate-MG. o nome de todos os 457 familiares de Minas para saber quais deles tinham se tornado cavaleiros do hábito de Cristo.39 O reduzido percentual se liga ao fato dos requisitos exigidos para a habilitação na Ordem de Cristo serem mais restritivos do que os do Santo Ofício. exigência comum às duas instituições. 23 se habilitaram para receber o hábito de cavaleiro. bens não negligenciáveis no Antigo Regime. Segundo a historiadora. 36 Estudando as elites de Portugal do Antigo Regime. principalmente. 46... Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 11 . em seu banco de dados sobre as ordens militares. baseamos. UFRJ. certamente uma das mais originais”. Além da limpeza de sangue.

teoricamente.40 Depois de concedido o hábito. segundo. pp. a ocupação destes postos era importante porque ajudava o indivíduo a exibir publicamente. levavam mais tempo para darem entrada na habilitação da Ordem militar. As Ordens Militares e o Estado Moderno: Honra. 2001. segundo a autora. Mercê e Venalidade em Portugal (1641-1789). 166. Estar. 41 Sobre os procedimentos para se habilitar na Ordem de Cristo. ao nível local. 107-137. 374. ver F. 43 Além de contribuir no quesito “serviços”. eles aumentavam a sua consideração e estima social. cit. que se tornaram familiares e também cavaleiros do hábito de Cristo. As Ordens Militares. As Ordens Militares. cit. ver Fernanda OLIVAL. ao requisito de ser cristão-velho. Pelo processo. 377. era mais fácil conseguir a mercê do hábito de Cristo através de serviços próprios à Coroa43. “Rigor e interesses: os estatutos de limpeza de sangue em Portugal” in Cadernos de Estudos Sefarditas. porque essa insígnia funcionava como um “atestado de limpeza de sangue”. eles tinham que provar que não tinham “defeito de mecânica”. p. na ordem militar. com a familiatura. “muitos dos que no século XVIII tinham necessidade de dispensa de mecânica. OLIVAL. nº 4(2004). 40 Sobre a “economia da mercê”.. não averiguava das mecânicas”.. ajudando a compor o modo de vida que no contexto envolvente era considerado o “viver à lei da nobreza”. ou seja.Aldair Carlos Rodrigues concedia a mercê do hábito de Cristo. Segundo Fernanda Olival. “não se conhece. começavam por aquela distinção que. nenhum caso de familiar que tivesse reprovado nas Ordens Militares por questões de sangue”. fosse nos próprios ou nos ascendentes. P. pois os que conseguiam a familiatura antes do hábito de Cristo. sobretudo no que se refere à limpeza de mãos. o que dava garantia ao candidato de que ele atenderia tranquilamente. 151-182. Fernanda. Ser familiar era um passo importante para se tornar cavaleiro. enfrentaram problemas típicos de grupos em mobilidade social ascendente quando se submeteram ao processo de habilitação da Mesa de Consciência e Ordens.. os súditos precisavam passar pela habilitação da Mesa de Consciência e Ordens. In: Fernanda OLIVAL. 42 Fernanda OLIVAL. cit. eram já familiares do Santo Ofício quando lutavam pelo hábito. Na rampa da distinção social escalada pelos 23 habitantes das Minas que obtiveram a familiatura e o hábito da Ordem de Cristo. que não tinham vivido do trabalho de suas próprias mãos. pp. Lisboa. já que. Como eram cristãos-velhos. pp.. geralmente precisavam negociar a compra dos “serviços à Coroa” de terceiros. Devido ao exercício destes cargos. primeiro. exigência esta estendida também aos pais e avós dos candidatos. diferenciação esta que acabava tendo repercussão positiva quando as testemunhas depunham a seu respeito na habilitação da Ordem de Cristo. Fernanda OLIVAL. 12 Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 . As Ordens Militares. para serem armados Cavaleiros. um “viver nobremente” ou “viver à lei da nobreza”. 16 se tornaram primeiramente agentes da Inquisição para depois se tornarem cavaleiros do hábito de Cristo.. Ainda. Os poucos que conseguiram o hábito da Ordem de Cristo antes de obter a familiatura ocupavam postos importantes nas companhias de ordenanças – como o de sargento-mor e de capitão-mor – ou nas outras companhias militares de Minas ou ainda cargos nas câmaras. porque.42 E. por ora. p. exigência importante para se entrar na Ordem de Cristo. 15-38..41 Os habitantes de Minas.

46 IANTT. 45 IANTT. em 1769. 06. vivia de minerar.47 A negociação que os indivíduos de nossa amostragem travaram na Mesa de Consciência e Ordens para terem seus “defeitos de mecânica dispensados” revela mais uma vez um típico grupo em processo de mobilidade social ascendente e ávidos por nobilitação. 1999. HOC. 47 IANTT. Letra C. daqueles para os quais dispomos de dados referente ao “defeito de mecânica”. em 1731. filhos de lavradores e/ou oficiais mecânicos. mç. Caetano Álvares Rodrigues. doc. além de arcar com custos do processo de habilitação. Em números. Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 13 . em algum momento de suas vidas. A trajetória de vida dos indivíduos que se habilitaram na Ordem de Cristo e também no Santo Ofício. 09. o fato de possuírem serviços próprios não significava que teriam uma habilitação tranqüila na Ordem de Cristo. Belo Horizonte. mç. enfrentou problemas com o “defeito de mecânica”. Ao chegar a Minas. naturais do norte de Portugal. mç. 12. sobretudo aqueles que não tinham serviços próprios. João Gonçalves Fraga conseguiu a dispensa de seu “defeito” devido ao “relevante serviço porque foi despachado. em 1732. se tornaram familiares do Santo Ofício. que era guarda-mor em Mariana e fora vereador na câmara da mesma vila. no comércio de escravos e fazendas secas – e depois passavam a investir na mineração. doc.46 Manoel Borges da Cruz. HOC. Letra J. ainda tinham que pagar as altas multas para terem seus “defeitos de mecânica” dispensados. Em virtude daquela “mácula”. 23. Norma e Conflito: Aspectos da História de Minas no século XVIII. Editora da UFMG. atuavam sobretudo no setor mercantil – em geral. depois comboieiro de escravos e. 13. conseguiu ser dispensado dos “impedimentos assim pessoais como de pais e avós dando o donativo de seis mil cruzados por serem impedimentos muitos e alguns de grande abatimento e outros sórdidos”. ele teve o seu “defeito” dispensado pelo Rei. em sua maioria. é muito parecida com aquela dos que se habilitaram somente nesta última48: eram. dando porém dois marinheiros para a armada”. que recaía sobre si e seus progenitores – “seu pai foi caixeiro e depois mercador de loja e o avô materno alfaiate vestimentário”. verificamos que apenas um candidato não enfrentou as dispensas.Viver à lei da nobreza No caso dos que se tornavam cavaleiros antes de se tornarem familiares. HOC. grosso modo. os 12 restantes tiveram que solicitar a dispensa do Rei para se habilitarem. o perfil 44 Laura de Mello e SOUZA. por fim. que foi tanoeiro no Reino. por exemplo. 30-45. Alguns. 48 É claro que isto se deve também ao fato de nossa amostragem só incluir os Cavaleiros que. ourives do ouro quando chegou em Minas. 45 De modo geral. doc. 64. Letra M. através do envio de várias petições e certidões que comprovavam seus serviços à Coroa – sobretudo seu apoio ao Governador Assumar na repressão do motim de Vila Rica ocorrido em 172044 -. pp. Depois de muita insistência. vinham para a Colônia apoiados em redes de parentesco e eram solteiros.

apoiado na quantidade de quinto pago por ele em Vila Rica.50 Ele conseguiu a mercê do hábito de Cristo. quando recebia o hábito. No caso dos 15 comerciantes. 13. Manuel Álvares Ribeiro.49 No caso dos habilitandos que eram homens de negócio. como se pratica e é estilo nas mais partes da América”.cit. As Ordens Militares. o que resultou em defeito de mecânica. 19. Fernanda OLIVAL. por exemplo. comarca do Rio das Mortes. parece ter sido comum ao longo do século XVIII: segundo Olival. Tinha. como ocorreu com Manoel José Veloso. não consideramos a diversificação de seus investimentos ou a mudança de ocupação ao longo de suas vidas. 02 eram militares. assistindo em casa de um tio que era contratador de livros [no Rio de Janeiro]. homem de negócios do grande trato ou caixeiro. eram comuns os problemas na habilitação por causa do “defeito de mecânica”. 01 vivia de sua fazenda e 01 era senhor de engenho. Quando chegou às Minas. quando tinham sido caixeiros ou exercido algum ofício mecânico.)”. mç. na freguesia de Carijós. a maioria deles atuava no comércio de escravos e fazendas secas. não consta a ocupação. Depois de obter 49 IANTT. com 12 mil réis de tença.Aldair Carlos Rodrigues ocupacional dos 23 familiares que se tornaram Cavaleiros era o seguinte: 15 eram comerciantes. 51 Outro comerciante que enfrentou semelhante impedimento por causa do início da carreira foi Antônio de Abreu Guimarães. Quando a Mesa de Consciência e Ordens realizou as provanças para habilitá-lo como cavaleiro do hábito de Cristo. ao declararem que “não teve o trato de comboieiro porque as fazendas que do Rio mandava para as Minas eram nas tropas que alugava aos homens de caminho. Letra M.. em regra. uma testemunha de seu processo. 6 diversificaram seus investimentos investindo em mineração. Além disso. HSO. quando foi possível saber. para 02. Outras testemunhas negaram que ele tivesse sido comboieiro. habilitado no Santo Ofício em 1753 e na Ordem de Cristo em 1765.. por ter quintado 15 arrobas e 23 marcos de ouro na Real Casa de Fundição de Vila Rica “desde 01/08/1755 até 31/07/1756”. informou que ele “era homem de negócio de escravos que comprava no Rio de Janeiro para vender nas Minas (. 376. constatou que ele “teve loja de panos e baetas e. o Pe. p. geralmente “adquirido” no início de suas carreiras. HOC. seja de escravos ou de suas próprias mercadorias. 50 Esta não era uma característica peculiar aos cavaleiros de Minas. doc. “foi trabalhador de enxada e foice e que depois comboiara pretos algum tempo do Rio de Janeiro para as Minas e que para isto vendera as plantas que tinha roçado”. 02 eram mineiros. “o tipo ideal de cavaleiro com mecânica nele próprio estava geralmente ligado ao comércio. Dos 15. 14 Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 . Manoel José Veloso recorreu da decisão da Mesa de Consciência e Ordens em reprovar seu processo de habilitação. A ocupação considerada aqui foi aquela declarada na petição ao Conselho Geral do Santo Ofício quando eles se candidataram ao cargo de familiar. era quase sempre. Portanto.. Acatando seu argumento. o Rei concordou em dispensar o seu “defeito de mecânica” em 20 de julho de 1768. bons recursos financeiros”. também vendia alguns”. 51 IANTT..

Cotejando seu processo de habilitação na Mesa de Consciência e Ordens e no Santo Ofício. onde vendia “por si e seus caixeiros”. pp 47-72. as companhias pombalinas e a nobilitação no terceiro quartel do Setecentos” in Mafalda Soares CUNHA (org. ele passou também a “ter loja de fazendas secas no arraial dos Carijós no qual assistia e tinha outra por sua conta no Serro.53 Outro que escondeu a sua mecânica na Ordem de Cristo foi Manoel Dias Pereira. Nas suas provanças para se tornar Cavaleiro. ele aparecia como mercador de fazenda seca – ocupação que. 11. provavelmente. 106. 40. neto paterno de lavrador e carpinteiro e neto materno de fazedor de telhas e rodízios de moinho. uma vez que iniciara sua carreira numa loja de fazendas secas em Vila Rica. mç. conforme previa o alvará pombalino de 1757. no seu processo da Ordem de Cristo procurou-se enfatizar que ele vivia de minerar com seus escravos.Viver à lei da nobreza lucro com o comércio de escravos. Sobre o Alvará. Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 15 . Esses “defeitos de mecânica” adquiridos no início da vida foram dispensados mediante o fato de “ser interessado em dez ações originais na Companhia” do Grão-Pará e Maranhão. HOC. 1485. na habilitação do Santo Ofício – onde não se exigia limpeza de ofício – constatamos que. constatou-se que seus pais e avós eram lavradores de seus bens. concluída em 1753.). Como aconteceu com outros comerciantes. mç. ele conseguiu a dispensa de seu “defeito” porque. ele omitiu que tinha sido alfaiate em Braga. José. “O Brasil. porém na habilitação do Santo Ofício. seu avô paterno era lavrador e o materno era rendeiro e tecelão. antes de partir para o Brasil. 8 e 9 (dezembro 1998/1999). Já no Santo Ofício. as testemunhas informaram que seu pai viveu do ofício de alfaiate e depois de rendas. Letra L. o que permitiu que ele fundisse “em um só ano mais de 11 arrobas de ouro” na Casa de Fundição de Vila Rica. ele era filho de um carpinteiro/serrador de madeira. após a lei de 03 de dezembro de 1750. 16. Além disso. pp. mç. doc. nº. doc. teria constituído um “defeito de mecânica”. 04. Letra A. ele informou que era filho e neto de lavradores de suas próprias terras. Além de esconder a “mecânica” de seus ascendentes. doc. Évora. já que era comum aos 52 IANTT. Separata da Revista Anais da Universidade de Évora. 7398. Do Brasil à Metrópole: efeitos sociais (séculos XVII-XVIII). 53 IANTT. Para esta última. ver Fernanda OLIVAL. para as quais ia comprar fazendas para sortimento ao Rio de Janeiro”. abandonou o negócio e passou a minerar. percebemos que José Veloso Carmo manipulou as informações de seu passado de modo a enfrentar menos “defeitos de mecânica” na Ordem de Cristo. HOC. seis anos antes de peticionar sua habilitação na Ordem de Cristo. cujo processo teve desfecho em 1760. HSO. porém.52 Como os dois comerciantes acima. na verdade. José Veloso do Carmo enfrentou problemas em sua habilitação na Ordem de Cristo por causa do “defeito de mecânica”.

a de Vila Rica foi a que mais contou com cavaleiros: 17. ver também pp. 97. os Comissários registravam. fato que tinha conseqüências negativas quando da habilitação na Ordem de Cristo. doc.57 Quanto à distribuição dos hábitos da Ordem de Cristo por comarca.54 No caso de grupos em processo de mobilidade social ascendente. O Nome e o Sangue: uma fraude genealógica no Pernambuco Colonial. sobretudo no século XVIII. parece ter sido usual este tipo de manipulação para tentar esconder o passado mecânico diante da Mesa de Consciência e Ordens ou. 269. Segundo Olival. Como na Inquisição a mecânica não era um entrave. mç. os principais compradores de hábitos. As Ordens Militares. HOC. verificamos que 08 compraram os serviços à Coroa. Rio das Mortes aparece com 04 cavaleiros. Chancelaria da Ordem de Cristo. Fernanda. Companhia das Letras. HSO. 10.. tinham. ***** Apesar das barreiras colocadas diante de um grupo em processo de mobilidade social ascendente. Manoel. “eram pessoas cuja ascensão se esboçara recentemente. Outra característica da habilitação na Ordem de Cristo do grupo em análise é o fato de a maioria ter comprado de terceiros os serviços que geraram a mercê do hábito de Cristo pela qual lutavam. Sobre a manipulação das instituições do Antigo Regime português por indivíduos em busca de distincao e nobilitação. mç.55 Alguns eram bem sucedidos e conseguiam esconder o passado mecânico declarado no Santo Ofício. o que representa quase ¾ do total – sendo que 10 residiam no termo de Vila Rica e 07 no de Mariana. por isso. Em relação aos que se tornavam familiares antes de se tornarem Cavaleiros. com alguma exatidão. 1575. como mácula alguma mecânica na geração dos pais e/ ou dos avós. para buscar diminuir a incidência do “defeito”. 154. doc. eles solicitavam ao Conselho Geral do Santo Ofício certidões de “como eram familiares” para provar à Mesa de Consciência e Ordens que eram cristãos-velhos ou para comprovar suas filiações. 56 OLIVAL. ver Evaldo Cabral de MELLO. a ocupação dos pais e avós dos familiares.Aldair Carlos Rodrigues comerciantes desse gênero venderem por si próprios em suas lojas. verificamos que vários indivíduos de nossa amostragem conseguiram atingir o 54 IANTT. IANTT. mas outros não. Serro com 01 e Rio das Velhas também com 01. Letra M. 56 Pelos dados obtidos quanto aos serviços que geraram a mercê do hábito para 13 cavaleiros.cit. 55 16 Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 . 237-282. São Paulo. pelo menos no início da carreira. pelo menos. 1989. com vistas a facilitar a obtenção da dispensa régia.. Sobre a “venalidade/ mercado de hábitos” das ordens militares. 04 obtiveram a mercê do hábito por serviços próprios e 01 a obteve através de serviços próprios e alheios. No que se refere às outras comarcas. caso da maioria. p. por vezes até o próprio candidato” era acusado pela Mesa de Consciência e Ordens de ser portador do “defeito de mecânica”. 57 IANTT. HOC.

espadim. com seus cavalos e pajem”. Na habilitação de Manoel Francisco Peixoto consta que ele vivia com “bom trato. Já no processo de André Ferreira Fialho. ANTT.Viver à lei da nobreza topo da hierarquia das insígnias que ofereciam distinção social em Minas colonial. pelo menos até meados do século XVIII. as menções ao estilo de vida dos candidatos aparecem relacionadas ao item do interrogatório que perguntava se o habilitando “é pessoa de bons procedimentos. se o negócio de que trata tira lucros para passar com limpeza e asseio. Em Minas. analisando o caso das Ordens Militares. A construção da boa reputação nesse nível regional era importante para a obtenção de ganhos no centro quando se candidatava às insígnias emitidas pelas instituições típicas do Antigo Regime português. Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 17 . vida e costumes. pelo menos até conseguirem recursos suficientes para se estabelecerem localmente através da mineração. obviamente. patente aos olhos de todos na rua. 58 No caso do Santo Ofício. sabemos que ele possuía “seu cavalo para andar”. A maioria daqueles que entraram na Ordem de Cristo. (OLIVAL. ser asseado e ocupar os cargos da governança local. cabeleira. de cavalo e pajem”. lemos que ele “vive limpamente com seus cavalos de estrebaria e escravos que o acompanham”. 2001: 374) O ideal de estilo de vida referido aparece nos depoimentos das testemunhas – filtrado. que cabedal terá de seu ou sido. habilitado em 1753. permitiu também que uma pequena parcela deles alcançasse o topo da hierarquia dos símbolos de distinção social na zona mineradora. pelos agentes que realizavam os interrogatórios – e/ ou nos pareceres que os comissários davam a cada etapa das diligências58. “a ascensão protagonizada ao nível concelhio podia ter efeitos nas pretensões defendidas no centro”. capaz de ser encarregado de negócios de importância e segredo e de servir ao santo ofício no cargo de familiar. Através da habilitação de Amaro Romeiro da Costa. servir-se de escravos. TSO/CG/HSO. Da mesma forma que a atividade mercantil possibilitou que os indivíduos de nossa amostragem obtivessem a familiatura. Como afirmou Olival. Outra testemunha acrescentou que ele tinha pajens. se sabe ler e escrever e que anos terá de idade. o que mais nos chama a atenção é o papel exercido pelo comércio de abastecimento da região mineradora enquanto mola propulsora da mobilidade social e a mineração como fator de acomodação do indivíduo na região. dedicavam-se ao comércio. era assim que o esforço para incrementar a aparência e o modo de vida era traduzido nas habilitações ao Santo Ofício e à ordem de Cristo. o viver à lei da nobreza era entendido como andar a cavalo. usar casaca. Procurava-se tratar “à lei da nobreza”. um dos depoentes do processo de Antonio Pinto dos Santos. Por exemplo. Ter criados como acompanhante (ou escravos nas mesmas funções) dava notório status. se vive limpamente e com bom trato. por exemplo. afirmou que ele “trata com limpeza. Dadas as características do conjunto que logrou sucesso. As estratégias de afirmação social adotadas pelo grupo passavam por um pesado investimento no “parecer”.

concluímos que. ainda que havera dois anos somente que principiou a tratar-se de casaca. da ocupação de postos nas companhias de Ordenanças e nas câmaras teria uma eficácia mais local. Quem tinha ocupado cargo nas câmaras. sobretudo as ordens terceiras. doc. mç 03. doc. No topo desta hierarquia. por exemplo. no parecer que deu ao fim das diligências de capacidade do processo de habilitação de Antonio Gonçalves Pereira. cabeleira e espadim”. uma acabava influenciando a obtenção da outra. mç 11. mç 05. doc 1951. usando “casaca. filho de lavradores. afirmou que ele era rico e “trata à lei da nobreza”. aproveitava o fato de ter servido “os cargos da república” 59 Respectivamente: ANTT. o candidato não precisava estabelecer relações políticas ao nível local. como na Ordem de Cristo. a entrada nesses sodalícios era a que possuía menos valor simbólico. ficava a ocupação de postos nas ordenanças e nas Câmaras. na sua base estava a participação nas associações religiosas leigas. além da inegável repercussão local. mç 124. Portanto. Para ser apenas familiar do Santo Ofício. 174. que este último se tratava com “limpeza. Manoel. concluímos que esta última era acessível a todos os indivíduos da nossa amostragem que quisessem ser irmãos terceiros do Carmo ou de São Francisco. era também o que oferecia maior distinção social. doc 2028. como no caso das ordenanças ou câmaras. Amaro. doc. por ser o mais difícil de se conseguir. Portanto. referindo-se ao comerciante Tomé Dias Coelho. teoricamente. depois de ter amealhado recursos através do comércio de fazendas secas e molhadas em Minas. a familiatura e o hábito da Ordem de Cristo ofereciam distinção ao nível do Império português. e. Em termos de projeção social. logo acima. Já a distinção obtida através da entrada nas ordens terceiras. 2157.Aldair Carlos Rodrigues Um depoente. Tomé. 128. Foi justamente nesse momento de sua trajetória que ele se candidatou ao cargo de familiar do Santo Ofício. Antônio. TSO/CG/HSO. afirmou. mç 118. sobretudo no que dependia da consideração pública do indivíduo. por isso. cabeleira e espadim” 59. mercador de secos e molhados. André. estava o hábito da Ordem de Cristo que. doc 49. Colocadas as principais formas de distinção social obtidas pelo grupo que analisamos dentro de uma hierarquia. de todas as formas de distinção consideradas aqui. a familiatura. em 1754. O comissário Geraldo José de Abranches. procurou tratar-se à lei da nobreza. Antonio. todas essas formas de distinção faziam parte de um mesmo jogo social e. Comparando a obtenção da familiatura com a entrada nas ordens terceiras. nem ter limpeza de ofício. Numa posição intermediária. mç. de forma muito perspicaz. Embora variassem na escala do valor simbólico. Negrito nosso. o minhoto Antonio Gonçalves Pereira. 68. 18 Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 .

a tendência era que. As outras formas de distinção social. que não ficava à mercê da configuração do poder local. Além do prestígio de representarem aquela instituição. O título dava-lhes poder no âmbito local. cargos nas câmaras. desse ponto de vista. Enfocando a familiatura dentro da constelação de insígnias e símbolos de distinção social em voga nas Minas setecentistas. No mundo com valores de Antigo Regime. Ser Nobre na Colônia. de maneira geral. São Paulo: Editora da Unesp. ocasionalmente. p. concluímos que. entre 1713 e 1738. segundo Maria Beatriz Nizza da Silva – apoiada no trabalho de José Antônio Gonçalves de Mello – “podemos constatar um certo padrão no processo de nobilitação: postos de ordenança. 2005. Ordem de Cristo”. o parecer. os habitantes das Minas em análise entrassem nas ordens terceiras. nas ordenanças e na Ordem de 60 SILVA. os familiares poderiam manipular a autoridade inquisitorial. provar que o indivíduo era “bem reputado na limpeza de sangue”.Viver à lei da nobreza para argumentar que vivia “limpamente e à lei da nobreza”. Quanto à hierarquia de insígnias e símbolos de distinção social. de modo geral. a Ordem de Cristo. de forma indevida. Podemos considerar os poucos indivíduos que conseguiram percorrer todo esse percurso como aqueles que pertenciam à elite local da zona mineradora. Maria Beatriz Nizza. nomeadamente.60 Por fim. o ingresso nas câmaras. Pensando nas insígnias ao longo da vida dos indivíduos. depois obtivessem postos nas ordenanças. A escalada da distinção social em Minas. temos a medalha de familiar do Santo Ofício. o hábito das Ordens Terceiras e o hábito da Ordem de Cristo como aquelas que poderiam durar para o resto da vida dos que as obtivessem. não se diferenciava muito do resto da Colônia. além da estima pública que oferecia. primeiramente. ela era relativamente acessível. fato que certamente acrescentava-lhe valor simbólico. Por outro lado. A familiatura diferenciava-se de todas as insígnias acima porque ela era a única que oferecia aos seus postulantes a autoridade de uma instituição metropolitana do porte da Inquisição. podemos dizer que a maioria dos indivíduos de nossa amostragem se contentou com a familiatura e a entrada nas irmandades de prestígio. No Recife. a familiatura oferecia uma distinção estável. familiatura. A familiatura era utilizada para. a ocupação de cargos nas câmaras e nas ordenanças tinham prazo determinado para acabar. Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 19 . 161. já que o principal requisito para a habilitação no Santo Ofício era ser “limpo de sangue”. cargo municipal e. para o grupo em análise. a forma de tratamento desempenhavam um papel fundamental na demarcação dos lugares dos indivíduos na sociedade. por fim. Portanto. a favor de seus interesses próprios. a familiatura.

Os poucos indivíduos que galgaram aquelas posições ligadas ao poder político – câmaras. de 02 a 08 contos de réis. ordenanças e hábito da Ordem de Cristo – eram os mais ricos de nossa amostragem e talvez estivessem entre os mais abastados das Minas. em média. 20 Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 . com cabedais variando. Como vimos. dependia de uma boa relação com o poder político local e de uma posição econômica mais elevada. a maioria dos familiares que estudamos não esteve em condições de atender àquelas exigências: eles eram pequenos e médios comerciantes.Aldair Carlos Rodrigues Cristo.