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Modernista – Revista do Instituto de Estudos Sobre o Modernismo - ISSN 2182-1488

O engenheiro judeu, de Tavira, cidadão do mundo, afilhado de Mário de Sá-Carneiro,
protagonista do romance-drama – Teresa Rita Lopes

Vou tentar dizer coisas novas, não tanto para vos surpreender mas para me surpreender a mim,
que detesto referver um chá já feito.
Olhar para Campos de um novo ângulo, reunir informações avulsas num recado único,
é o que gostaria que fizéssemos , nestes dois dias aqui reunidos em torno de Álvaro de Campos.
Reparemos que esta comemoração – dos 120 anos do protagonista do “drama em gente”, a que
costumo chamar “romance-drama em gente” – não nos ocorreria para dar os parabéns a Alberto
Caeiro ou a Ricardo Reis. Porquê, então, este privilegiado estatuto?
E privilegiado por quem, por nós ou por Pessoa?
Para começar, por Pessoa. Senão, repare-se:
Álvaro de Campos, tal como Pessoa o descreveu na célebre carta a Adolfo Casais
Monteiro, é o seu retrato melhorado: tem, como o seu criador, o vago aspecto de um judeu
português mas é mais novo (dois anos), mais alto (dois centímetros), mais elegante, mais
desenvolto, mais moderno, mais endinheirado (viaja pelo mundo, pernoita em hotéis
cosmopolitas), e, em suma, mais vivido. Fez as viagens com que Pessoa apenas sonhou, teve as
aventuras amorosas e, até, conjugais de que Pessoa se absteve, barafustou escandalosamente a
sua eterna rebeldia em poemas e periódicos. Parafraseando o poema “Autopsicografia”, fingiu
(isto é, representou) a dor que Pessoa deveras sentiu ou se esqueceu de sentir, vivendo a vida
que Pessoa deveras teve mas em mais interessante – em combustão viva, por assim dizer, já que
o seu criador só ardia para dentro, em combustão lenta (essa que Bernardo Soares assumiu).
Muito tenho já falado das qualidades de dramaturgo de Pessoa mas vem ao caso lembrar,
pelo menos, outra que muito o caracteriza: a sua capacidade de ver – como diz, em itálico, nessa
carta – as caras e os gestos dos seus três heterónimos. Qualidades de pintor, de cineasta, de
vidente? Tal como conta, dá a impressão que os viu, de repente, ao três, “no espaço incolor mas
real do sonho”: “cara rapada todos”, “o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago
moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo
porém liso e normalmente apartado ao lado, monóculo.” Eis as aparições – ou os retratos.
Vamos reparar sobretudo no de Campos, completado pelo desenho da silhueta : “alto
(1m.75 de altura – mais dois cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se”.
Feitas as contas, Campos tem mais dois centímetros que Pessoa e menos dois anos (o que
lhe alonga a silhueta e a vida) e o mesmo “tipo vagamente de judeu português” do seu criador.
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em Tavira. “Aqui jaz o Livre Pensador Jacques Cesário Pessoa”. de Tavira. No poema com que Campos se deu a conhecer. do “rodar férreo e cosmopolita dos comboios estrénuos” : “Na nora do quintal da minha casa / O burro anda à roda. Nessa casa. diz que chegou “finalmente” (a viagem era longa) à “vila da [sua] infância”.” No poema de 1931. em poesia e prosa. onde fez a instrução primária e a primeira comunhão). ficou certamente abalado na sua condição de católico. num poema (precisamente para exprimir a criatura prosaica. Data de então a sua “cruzada”. o “chá com torradas na província de outrora” serão sempre recordados com lágrimas ao longo da sua vida errante. vindo de Newcastle-upon-Tyne – escreve o entrevistador. junto ao cais onde ia “tomar o vapor para o rápido do Algarve”. dos “motores como uma natureza tropical”. a mãe matriculou Fernando num colégio de freiras irlandesa. à 1h30 da tarde – precisa. errará depois das tias morrerem e será deixado ao cuidado “do primo padre tratado por tio” e depois de um tutor que decide enviá-lo para a Escócia estudar engenharia. não baptizada e reconhecida como militantemente anti-clerical. como diz – que recorda . e um descendente mandou mesmo lavrar na pedra da sua campa. Numa entrevista que. cidadão do mundo. “Ode Triunfal”. de que fala. quase catorze. / E o mistério do mundo é do tamanho disto. o púcaro de barro junto ao pote que chiava enquanto ele bebia. no seu pessoal jeito de ousar o prosaico. anda à roda. protagonista do romance-drama – Teresa Rita Lopes Fazê-lo nascer em Tavira. visitou em 1901-1902 a família paterna. “A ampla sala de jantar das tias velhas”.O engenheiro judeu. com treze anos. “o penico antigo” a que punham “uma tampa”. pejorativamente. de que essa família Pessoa era maçónica. Ficciona então ser um judeu dos quatro costados. ainda hoje no cemitério de Tavira. até proclama provocatoriamente o “futuro império de Israel” a que diz que temos que aderir “para nos 6 . o pequeno Fernando quando. com certeza. lá está o cenário da nora algarvia. diz noutro poema. É que se apercebeu. “Notas sobre Tavira”. dará. A sua ruptura com a Igreja Católica iria jurar que aconteceu nessa altura. como. avó materna e tia-madrinha açoreanas. Apesar de ter sido educado por mãe. Deve ser também dessa casa – único sítio em que viveu na província . lhe chamou até morrer. desinteressante e sem horizontes em que se tinha tornado). afilhado de Mário de Sá-Carneiro. assim como o seu “horizonte de quintal e praia”. a 15 de Outubro de 1890. aos 41 anos. nesta carta – é significativo privilégio: nesta terra nasceram e viveram antepassados ilustres e por ele venerados: o avô General Joaquim Pessoa e o tio-Avô Cesário Pessoa. no meio de todo o estardalhaço sensacionista das ruidosas fábricas. “na casa antiga da quinta velha”. contra a Igreja de Roma.“nesses lugares tradicionais da província”. Combateram ao lado das tropas liberais. foram presos. mais tarde. católicas (em Durban. e identifica-se com o que vê: “ o que vejo sou eu”. escolheu como cenário o Terreiro do Paço.

413). uma carta para ser publicada num jornal diário a congratular-se com a queda de um eléctrico de Afonso Costa (político que particularmente abominava. na sua própria pessoa. Pessoa.) Pessoa. Pessoa disse a Casais Monteiro.” Esse “império de Israel” que propõe seria.II. Quando mandou.Pessoa. submersos pelo espírito da nação. se o não lembrar o poeta que os cante. e. que o “Quinto Império” seria um “Império da Cultura”. Estampa vol. no que racial” e o de todo “o processo de deixar emergir as raças em desproveito das nações”. “nacionalista místico”. T.ll.” Na sua própria pessoa.) Campos afirma mesmo. desaparecem como raça.” ( D. (Numa polémica com Ricardo Reis quanto à classificação das artes. chefe do partido Democrático). Campos afirma que “há cinco artes”. É claro que Pessoa nunca subscreveria essas afirmações. o dos políticos passa e esquece. mais do que um mito congregador – Pessoa afirmou-o claramente. especifica. em seu próprio nome. por casamento. Noutro texto inédito. nas nações e. que “o único império que pode haver é o de Israel e a única maneira de realizar hoje um império é utilizando a técnica”. Álvaro tinha os rompantes de que Pessoa se abstinha. pp. em tudo isto. como Soares o será em combustão lenta. seria contra o tal “Império de Israel”. o “dos técnicos”. assinada Álvaro de Campos.Modernista – Revista do Instituto de Estudos Sobre o Modernismo . para deixar a revista a salvo de represálias. “ingressam.1119-1125. nesse texto. no que racial – afirma – consiste apenas em um nacionalismo nítido e definido”. nem a burguesia nem nenhuma outra dessas fórmulas vazias mas a civilização actual – a civilização greco-romana e cristã. sendo as duas primeiras a Literatura e a Engenharia. por outras palavras. tendo referido mesmo. pugnava por um “Império da Cultura” e por uma pátria-língua-portuguesa mas incumbiu Campos de continuar a tradição dos seus antepassados judeus. ele que afirmou. “o perigo judeu. na carta conhecida: “pus em Álvaro de Campos a emoção que não dou a mim nem à vida”.Sebastião não é. como se declarou. “a aristocracia dos judeus” – essa mesma a que se orgulhava de pertencer quando definia as suas origens. nessa entrevista. 7 . em 1915. de viva voz e por escrito. os seus companheiros de Orpheu. algo que um judeu nunca admitiria: o proveito da assimilação dos judeus que.ISSN 2182-1488 salvarmos”. na sua própria pessoa.1 E acrescenta que “o que está morrendo” “não é o capitalismo. Obras de F. ed. E encara. “um imperialismo de poetas” : “O imperialismo de poetas dura e domina. sendo “a nação um estádio evolutivo superior à raça”. vol. num texto inédito. Pessoa considera os judeus portugueses e espanhóis. (Lisboa. “O remédio contra o perigo judeu. que publiquei em Pessoa por Conhecer. escreveram ao dito jornal a 1 António QUADROS. Poderíamos metaforizar que Campos é Pessoa em combustão viva. como um “misto de fidalgos e judeus”.

) De facto. num texto pouco conhecido sobre “ritmo paragráfico”. afilhado de Mário de Sá-Carneiro. sabe genialmente sentir aquilo de que me confessa mais e mais cada dia se exilar. desdobre-se você como se desdobrar. cidadão do mundo. como reza a tradição do Dia Triunfal de 8/3/1914 .se “à incrível idiotia de Marinetti. não só a maior – é a única coisa admirável. a discordar de um anterior artigo de Pessoa sobre a poesia de António Botto. não correspondia a nenhuma emoção verdadeiramente sentida por Pessoa mas ao desejo de exaltar. largas. O “futurista Álvaro de Campos “. sinta-de-fora como quiser o certo é que quem pode escrever essas páginas se não sente. meu Amigo. em particular. em geral. para supremo enlevo do amigo. na “Ode Triunfal”. a expressão “sentir-de-fora” aplica-se que nem uma luva a esse que confessou. contrariando o artigo de fundo do 1º número dessa revista. de onde desafiava a fantasia do amigo com o seu entusiasmo pela grande capital.adivinhamos. seja como for. nomeadamente à Contemporânea. Mário escreve a Pessoa: “A sua “Ode Triunfal” – a que chamou a obra-prima do Futurismo – é. e pela Europa. do que até hoje eu conheço futurista. pejadas de trânsito e movimentos – rendez-vous cosmopolitas. cuja banalidade mental lhe não permitia inserir qualquer ideia no ritmo irregular. e à Athena. apenas escrita em Junho de 1914 – e não em Março. Se este até escreveu cartas aos periódicos. afigura-se-me qualquer coisa de muito próximo – pondo de parte todas as complicações.” (carta de 13/7/1914. refere . porque lhe não permitia inseri-la em coisa nenhuma”.” Diga-se. como começou a ser considerado e chamado (até por Pessoa . Saber sentir e sentir. uma dessas cidades que o fascinavam. de acordo com a tradição. o consideram futurista praticante: “como se a expressão futurismo contivesse qualquer sentido 8 . esquecendo que era em relação a Campos que eles tomavam posição e não em relação a Pessoa. A celebração das cidades modernas. em seu próprio nome: “Sentir é tão complicado!” Em carta de 20/6/1914.O engenheiro judeu. Delas fala assim Sá-Carneiro em carta de 17/ 7 / 1915: “as cidades da minha ânsia e dos meus livros – rútilas de Europa. que Pessoa ainda era mais reticente do que Sá-Carneiro a respeito do Futurismo. de que Pessoa era co-director! Não hesito em admitir que “o nascimento” de Campos não teria acontecido se Pessoa não tivesse conhecido Sá-Carneiro e este não tivesse ido para Paris. protagonista do romance-drama – Teresa Rita Lopes dessolidarizar-se do autor da carta – e ainda hoje os exegetas relatam o acontecido como tendo provocado a ruptura de Pessoa com esses amigos.” No mês seguinte à criação da “Ode Triunfal”. farfalhantes de acção.para simplificar. suponho). de passagem. de Tavira. através dos dizeres de Mário. E vai mais longe no seu julgamento do Futurismo – que nisto atentem os que. que Pessoa lhe dissera que tudo aquilo era “fingido” : “Meu amigo.

escreve: “Fico interessadíssimo com o novo filme Álvaro de Campos.2 Seja como for. “Futurista” é só toda a obra que dura. edição de Teresa Rita Lopes. 1992 (2ªed. para dar à ode o seu corpo inteiro. E as acções do Engenheiro Sensacionista por belas e intensas – fazem-me tremer pelo meu caro Fernando Pessoa…” É claro que pensava no escândalo provocado pelo Campos a quando da queda do eléctrico de Afonso Costa. para Lisboa. Surpreendentemente – só esta correspondência disso nos informa – Pessoa encarava fazer o mesmo com a “Ode Triunfal”.124. contemplado com uma dedicatória no original da 2 Álvaro de Campos.Modernista – Revista do Instituto de Estudos Sobre o Modernismo .” Campos tornou-se. esses finais nocturnos a que Álvaro queria acrescentar os anteriores “andamentos” . com a “Cena do Ódio”. engenheiro. Mário torna a manifestar a mesma preocupação em relação às “acções” revolucionárias que Pessoa-Campos estavam engendrando. Mário tenta dissuadir o amigo dessa publicação. Pessoa considerava apenas um excerto de algo maior – como considerou “excertos” os “fins de duas odes” que Sá-Carneiro acusa em carta de 5/7/1914. Os outros parceiros de Orpheu até lhe dedicaram poemas: assim fez Almada Negreiros.ISSN 2182-1488 compreensível”. e o Pessoa. “no caso combativo. tendo talvez em mente o escândalo provocado pela já referida anterior carta de Campos a regozijar-se com a queda do eléctrico de Afonso Costa. damo-nos conta de que Mário admirava ilimitadamente Álvaro mas tinha um certo medo das suas ousadias…Em carta de 30/8/1915. E inquieto: não sei se se trata com efeito de mero filme literário (obras) ou de filme de acção. que tinha obrigado os de Orpheu à farsa (que os exegetas ainda hoje levam a sério) de se dessolidarizarem dele. depois da sua criação até ao suicídio de Mário. Lisboa. “a um herói estúpido”. sendo. Álvaro de Campos é presença assídua nas cartas que os dois amigos trocam. Se passarmos em revista essa interessantíssima correspondência. como o que deu à “Ode Marítima”. editorial Estampa. o seu pseudónimo”…Trata-se ainda do tal “filme” anunciado por Pessoa em carta anterior. o Capitão Aragão. afinal um artigo a publicar em forma de carta (certamente a carta que ficou inédita. esses e outros sensacionismos. segundo se fica a saber por uma carta de Mário. p. até para Mário de Sá-Carneiro. em 26/4/1916. 9 . E então eu lhe editaria. você estava aqui em Paris comigo. foi a provocação futurista que desencadeou o aparecimento de Álvaro de Campos através da sua “Ode Triunfal” que. regressado do cativeiro alemão). por seu lado. para mim é o Campos que existe. de facto. Vida e Obras do Engenheiro. E diz-lhe: “Se eu fosse rico. um verdadeiro ente. e não deixa de lhe dizer que. Apesar de achar “a ideia admirável”. e por isso os disparates de Marinetti são o que há de menos futurista”. para poupar a revista a represálias… Em carta de 30 de Agosto do mesmo ano.).

nunca por eles publicado: “Almada Negreiros. numa carta de San Sebastian.” Enquanto raciocinava. em seu lugar…O mesmo afirmou aos discípulos da “presença”. Campos assume ser um blagueur. correspondia. Num texto em prosa afirma mesmo que “o paradoxo alegra no contágio das almas”3. se lhe dirigia também.145 Ibidem. num Café de Lisboa – coisa que (Simões disse-mo) nunca ambos lhe tinham perdoado. ia passando rasteiras: “É nosso dever 3 4 Álvaro de Campos. Sem deixar de ser poeta. (no Espólio da Biblioteca Nacional). em Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro. p. Camposdizia de Pessoa. de Tavira. Desde o “nascimento” de Campos – que provavelmente não teria acontecido sem as notícias sobre os derniers cris do Futurismo e outros –ismos que Sá-Carneiro.O engenheiro judeu. p. em Campos. João Gaspar Simões e José Régio. Diz dos seus apontamentos para uma “Política do Futuro”: “Escrevoos como se escrevesse um poema. Lisboa. quando o foram conhecer pessoalmente. O sociólogo que Pessoa praticou ser tinha em Campos um provocante émulo. finalmente. de Paris – Mário confessa que simpatiza “singularmente com este cavalheiro” (carta de 27/6/1914). por escrito e até pessoalmente: Pessoa. manuscrito. por sua vez. ia enviando a Pessoa. a propósito da referida carta que os do Orpheu enviaram ao jornal a dessolidarizar-se de Álvaro de Campos… Também Ofélia. edição de Teresa Rita Lopes. Na desenvolta caligrafia de Campos. ostenta a assinatura deste seu autor. a um excesso de extroversão. anunciada pelos exegetas. 1992 (2ª ed.). que devia figurar no Orpheu 3. que mandou”dois postais ao Engenheiro” e apenas um.148.” Em 13/7/1915 diz. às vezes. como se falasse de um generoso vinho…Noutra prosa. a ele se dirige. sempre sedento das novidades europeias. como declara. protagonista do romance-drama – Teresa Rita Lopes “Passagem das Horas”. Vida e Obras do Engenheiro. E diz ainda: “Acho-o perfeitamente maquinado. o texto. 10 . dizia-lhe que era Álvaro que nesse dia tinha vindo. acrescentando: “Blagues? E as de Deus?4 – como se considerasse Deus o blagueur o supremo. a fiel namorada que nunca desistiu de Pessoa até ao final da sua vida. foi… O excesso de introversão de Pessoa. para ele. sentindo-se “gozados” por ele…Não souberam aparar o jogo. Pessoa… Noutra carta de 17/7/15. cidadão do mundo. soberbo” e confessa-se “ansioso pelas obras do Álvaro de Campos. afilhado de Mário de Sá-Carneiro. Campos seria esse mesmo novelo mas desenrolado para fora… O “recortador de paradoxos” que Pessoa confessava ser tinha em Campos a sua pujança máxima. escrevia cartas a Álvaro de Campos que. que ele era “um novelo enrolado para dentro”. com a inteligência que Ofélia sempre demonstrou nesse ménage-à-trois que o namoro. interseccionando-lhe o nome: “Fernando Álvaro Pessoa de Campos” lhe chama…Estas cartas e postais de Mário são contemporâneas da tal “ruptura” com Pessoa. você não imagina como eu lhe agradeço o facto de você existir”.

Paris. usando a expressão de Sá-Carneiro…) Campos. ainda que seja com lágrimas. a sua visão de uma evocada mulher “explodindo literariamente”…. para que a humanidade que os não sabe saltar se engolfar neles para sempre. isto é.ISSN 2182-1488 de sociólogos untar o chão. noutro poema. 5 6 Ibidem. José Corti. em verso. como também. como nesse magnífico poema que começa “Passo. preferindo sempre sonhar o amor a praticá-lo. (Não esqueçamos que Campos. até. Por vezes. a quem os operários da fábrica em que era engenheiro chamavam “o engenheiro doido”. bilingue.Modernista – Revista do Instituto de Estudos Sobre o Modernismo . “Tenho a loucura aqui. É ele. onde vinha visitar a família…) Noutro poema. na sua intimidade conjugal… Disse “fotografava” porque Campos confessa. os homens de que Pessoa se absteve. de facto. que desenrolou para fora o tal novelo enrolado para dentro que Pessoa figurava ser. na praia. de Teresa Rita Lopes. na noite da rua suburbana” – também só conhecido em 1990.” O “criador de anarquias” que Pessoa afirmava ter que ser todo o intelectual digno desse nome é assumido inteiramente por Álvaro de Campos. “Mensagem ao Diabo”.5 E começa assim esta “Mensagem”: “É preciso criar abismos. num conto dos primeiros tempos. ter um “cérebro fotográfico”.140-141. esse que era. cinema. dialogando com uma voz de mulher que lhe fala do jardim. (Era provavelmente numa praia dos arredores de Tavira. F.) 11 . seu “único amor” lhe chama. 2000 (3ªed. situa-se num interior conjugal. exactamente na cabeça” declara Campos. assim como Pessoa. também ausente da Ática.Pessoa. ou toca piano e fala ao mesmo tempo. “como um elemental inferior”. fala de uma inglesa que queria casar com ele. concomitantemente. que levará às últimas consequências o fascínio pelo Diabo manifestado por Pessoa. Podemos dizer que Campos não só “fingiu” (parafraseando o poema “Autopsicografia”) a dor que Pessoa deveras sentia mas também a vida que deveras teve. a que poderia ter tido e. em poemas dos últimos anos. um “criador de abismos”. sobretudo. purgando Pessoa desse medo de enlouquecer (como a avó paterna) que toda a vida o atormentou. Campos emparceirou-se com as mulheres e. vai mesmo mais além. para que escorreguem nele os que dançam. desse “pobre rapazito que [lhe] deu tantas horas tão felizes”. Noutro ainda.6 Álvaro de Campos. ed. Por exemplo. “sentiam de fora”. num célebre soneto a uma Daisy com quem teria tido um caso. e temos fotografias em movimento.” – declara. a que não teve mas sonhou ter. (inéditos até 1990)) o vemos espojar-se. viveu catarticamente a loucura que Pessoa receava ser-lhe hereditariamente destinada – isto é. sublimando o instinto. pp. Ed. não só fala provocatoriamente. num poema. num texto intitulado. Todos estes poemas só foram conhecidos em 1990: ignorámos até então esse Campos que também gostava de mulheres e até se fotografava. L’Heure du Diable / Hora do Diabo.

Pessoa fez todas as viagens que sonhou mas nunca empreendeu porque. o que mostra que este “enredo” é dos primeiros tempos.) Noutro projecto. Denunciando a loucura estéril do mundo seu contemporâneo. que reuniria as obras de Alberto Caeiro. como “Anti-teses”. Ricardo Reis aparece como o coadjuvante mais directo de António Mora: poeta mas também. António Mora aparecia como o profeta de um novo messias. Enfim. de Caeiro). também o Livro do Desassossego é considerado à parte. de que foi acusado pelos neopagãos do “grupo”. que Sá-Carneiro se refere a António Mora numa das cartas. cujos ensinamentos não eram mais que paradoxos luminosamente expostos. exprime as suas teorias sobre o mundo moderno. António Mora. uma espécie de Cristo ao contrário. de passagem. Neste manicómio-templo. vestido com uma túnica grega e recitando Ésquilo. neste esquema que tenho referido. era um manicómio. figura o título de um livro a compor. mas dela independente. 12 . vindo ao mundo para combater o Catolicismo e curar o mundo moderno do “morbo mental” que o Cristianismo viera trazer. que recusa. o Engenheiro Álvaro de Campos não reside dentro do manicómio-templo: é um visitante. porque. segundo Mora. pasme-se. solar. os poemas de Caeiro aparecem. de Tavira. (Note-se. prosador. num poema. tornar o sonho real seria perder a coisa ou pessoa sonhada: “Viajar. por si só. sejamos prosaicos e admitamos que Pessoa não viajou porque não teve nunca dinheiro para o fazer . perder países!” . contribuindo para a revelação do Mestre Alberto Caeiro.exclamou ele. significativamente associado a uma outra obra múltipla. cidadão do mundo. Vida e Obras do Engenheiro. mas dessa loucura fecunda enaltecida no poema de Mensagem: “Sem a loucura o que é o homem / mais do que a besta sadia /cadáver adiado que procria?”) Curiosamente. intitulada Na Casa de Saúde de Cascais – que. anunciava um novo Deus. Assim. tal como em relação ao amor. então assumido por Vicente Guedes. (Não esquecer que Pessoa e os seus “outros” escreveram várias vezes que Cristo tinha sido louco. afilhado de Mário de Sá-Carneiro. protagonista do romance-drama – Teresa Rita Lopes Através de Campos. o louco Profeta. não pode ser mais do que isso. o igualmente internado Alberto Caeiro.mas que fez todas as viagens sonhadas na mais endinheirada pessoa de Campos… Nos planos de Pessoa dos anos 10.O engenheiro judeu. “metafísica recreativa”. E. Esta uma das versões do romance-drama em gente. apelidada de “Novo Paganismo”. às vezes. e difusão da “religião individual”. nele internado. esse “Deus que faltava” (expressão usada no VIIIº poema do Guardador de Rebanhos. apesar de discípulo de Caeiro. nunca pôde abandonar as atitudes místicas de desequilíbrio. segundo Ricardo Reis. um grandioso paradoxo. o louco António Mora apresenta-se assim não só como o Profeta mas também como o Evangelista de Caeiro. como ficção independente. ao lado do Banqueiro Anarquista. que é. Há mesmo um texto em que António Mora. Ricardo Reis e António Mora.

Recolhi mais oitenta textos que a Edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda e o triplo dos da Ática (digo “textos” porque as grandes odes são constituídas por textos que se apresentam soltos. publicada por João Gaspar Simões e Luís de Montalvor: 102 poemas a que Maria Aliete Galhós. apoiando-se ou contradizendo-se. não respeitaram a tal “evolução” da personagem que Pessoa previra. de que era director. O longo conto que foi a obra pessoana concilia três géneros: a poesia. num escrito já do fim da vida. acrescentou dois inéditos. perfaziam outro drama. a narrativa (porque Pessoa ou seus heterónimos se contam em prosa. E assim aconteceu. os seus leitores só dispunham da edição da Ática. brasileira. todos juntos. da responsabilidade da Equipa Pessoa. Até 1990. Obrigada pelo meu mestre e amigo David-Mourão Ferreira a fazer a crítica dessa edição para a revista Colóquio-Letras. da Ática. 1990. publicada nesse ano. ano do centenário do nascimento de Álvaro de Campos. mas as leituras defeituosas. cinco poemas e da Edição da Equipa Pessoa dezanove poemas. tornaram essa edição imprópria para consumo.ISSN 2182-1488 Pessoa. em geral). Mas não tenho a inconsciência de supor que a minha edição da Poesia de Campos está perfeita e é a última. por categorias definidas por ter ou não atribuição ou data. assim como a sua “entreacção”. cheguei à conclusão de que as lacunas e os erros eram tantos que mais valia fazer um novo livro. Eu própria. as erradas articulação dos textos e atribuição de autoria. a não identificação de muitos textos como pertencentes às chamadas “grandes odes” do início. E anunciava mesmo que as suas ficções seriam ilustradas com fotografias e horóscopos. lhe notarei defeitos e lacunas… 13 . pela Imprensa Nacional Casa da Moeda. já que os poemasmonólogos dos heterónimos se respondem. quando a refizer. E retirei. precisou que cada um dos seus “outros” constituía um drama e que. E ao conjunto chamou “drama em gente”. Além disso. de Campos. na edição que fez para a Editora Aguilar. que me não parecem atribuíveis a A. Por isso proponho a expressão romance-drama em gente. em 1960. E disse também que a “evolução” de cada personagem estava perfeitamente prevista. como em gavetas. as colagens abusivas de textos soltos. uns aos outros) e o drama. A edição da Poesia de Álvaro de Campos. ampliou largamente esse número de poemas para mais do dobro. indicando o primeiro e último poemas do Livro: arrumaram os poemas. embora para isso necessitem da colaboração do leitor.Modernista – Revista do Instituto de Estudos Sobre o Modernismo .