You are on page 1of 16

O simulacro do jornalismo na construção discursiva da propaganda eleitoral

Ébida Rosa dos Santos1

Resumo: O jornalismo e a propaganda se caracterizam como gêneros discursivos
secundários, planejados e elaborados a partir dos discursos primários (cotidianos).
Muitos de seus elementos são similares e, em muitos momentos, os mesmos. Desse
modo, o que se propõe neste artigo, a partir da pesquisa de mestrado ainda em
andamento, é refletir sobre a aproximação entre o discurso informativo e o
propagandístico. Parte-se do objetivo de verificar como se constrói o simulacro do
jornalismo no discurso da propaganda. A partir disso, propõe-se questionar e refletir
sobre como o rompimento dessa fronteira entre os dois discursos pode provocar uma
hibridação entre os gêneros e quais prejuízos essa nova estratégia pode causar ao
público. Para estudar o assunto escolhemos os programas de propaganda eleitoral
radiofônica dos candidatos à presidência do Brasil em 2014: Aécio Neves, Dilma
Rousseff e Marina Silva.

Introdução
Não é de hoje que jornalismo e propaganda bebem da mesma fonte na hora de montar
seus discursos. Uma tendência é a adaptação de características demarcadas como
jornalísticas pela propaganda. Essa questão remete ao uso da língua que, como adverte
Bakhtin, dá-se por meio da oralidade ou da escrita, já consolidadas em nossa
civilização. Os enunciados produzidos são balizados pelo conteúdo temático, pelo estilo
e pela construção composicional, que são determinados pela especificidade de cada
campo da comunicação. "Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas
cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de
enunciados, aos quais denominamos gêneros do discurso" (BAKHTIN, 2011, p. 262) .
Tomando como referência a teoria bakhtiniana, tanto os produtos de propaganda
quanto os jornalísticos, são gêneros secundários ou complexos, que "no processo de sua
formulação [..] incorporam e reelaboram diversos gêneros primários (simples)"
(BAKHTIN, 2011, p. 263). Os secundários são gêneros mais complexos, desenvolvidos
e organizados, que se apropriam dos gêneros primários, constituídos por diálogos orais,
familiar-cotidiano, filosófico, entre outros, para, ao reelaborá-los, construir discursos de
modo a atender aos seus interesses. No jornalismo essa relação entre as duas categorias
1Mestranda em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis,
Brasil. E-mail: ebidasantos@gmail.com

Nesse contexto. que permite ao jornalismo. é responsabilidade dele organizar a realidade discursivamente. A ação testemunhal parte do compartilhamento da língua. do que trata a questão dos gêneros?".pode ser observada. tipologias. mas inclui a situação social e a intenção do falante determinada pelo lugar de fala. intrinsecamente relacionado ao tema e à composição. ou tema. O conteúdo temático.que integra o gênero primário . Ou seja. critérios e classificações possuem múltiplas variações. o objetivo deste texto é refletir de modo inicial sobre a aproximação entre propaganda eleitoral e jornalismo e a hibridação resultante desse . bem como à propaganda. p. em uma tradução do diálogo com a fonte . o que torna a tarefa analítica ainda mais complexa. tornando possível apreender e descrever determinada situação ou acontecimento como real (GOMES. O mais relevante nessa situação é reconhecer a necessidade de falar "a língua" do público para o qual a construção discursiva se destina. sendo essa a "prática jornalística por excelência". A composição responde ao modo como os enunciados são organizados dentro de cada gênero. próprias de sua dinâmica. por exemplo. citações e demais elementos que compõem a estratégia de referencialidade. o autor defende que o objetivo dos gêneros "é fornecer um mapa para a análise de estratégias do discurso. De forma que define como simplista. entrevistas. É nessa organização discursiva da realidade que se sobressaem os campos institucionalizados: a ação testemunhal e o testemunho do testemunho (GOMES. 2000). A autora discute a questão apresentando o jornalismo como um "fato de língua". Isso se dá a partir do momento em que as matérias jornalísticas são fundamentadas em depoimentos.para o texto jornalístico. Nesse cenário. trata de conteúdos ideologicamente conformados que se tornam comunicáveis (dizíveis) por meio do gênero. fazersecompreender. não é só o objeto (assunto) e o sentido. falarem para determinado público e estabelecerem com ele uma aliança social. dentro da perspectiva de simulação. Cabe. Pena (2005. as fronteiras tênues e as conceituações diversificadas. que dá sentido ao modo de utilização da língua. Já o chamado "testemunho do testemunho" permite ao jornalismo criar um efeito de real. 2000. passando então a integrar o gênero secundário. 66) questiona: "Mas afinal. utilidades e outras categorias". destacar dois elementos fundamentais do jornalismo apresentados por Mayra Rodrigues Gomes (2000). funções. então. p. A construção da realidade envolve o estilo adotado. 19).

Referencialidade/ Credibilidade. violência. Para desenvolver a análise elegeram-se como objeto empírico programas radiofônicos dos candidatos à presidência da República Aécio Neves. O corpus é constituído de sete edições. veiculados de agosto a outubro de 2014. Citação indireta. desigualdade. entre outros. fome. veiculados no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral. A análise se dá a partir das categorias pré-estabelecidas e apresentadas a seguir: Quadro 1: Composição geral dos programas Categoria Tema do programa Enlaces ligação Aliança social com o público por meio da língua/ linguagem Subcategoria Regiõe Norte Nordeste s do Centropaís oeste Sudeste Sul Relação com notícias publicadas por outras mídias. saúde. justiça. Objetivo Verificar as temáticas mais abordadas conforme o contexto histórico-social relação "região-tema" Verificar de que modo o conteúdo jornalístico de outras mídias dá suporte à propaganda eleitoral Identificar quais elementos reforçam a "verdade" trazida ao tema abordado e como isso pode influenciar na aliança social . Depoimentos. sendo o primeiro programa de cada semana. no período matutino. educação. desenvolvimento. Dilma Rousseff e Marina Silva.processo. Dados (citações). torna-se necessário observar quais elementos do radiojornalismo se fazem presentes e em que medida são utilizados. Citação direta. Componentes Política. Para isso. Entrevistas.

126-127) vai especificar como método dedicado ao recolhimento e à análise de textos. Precisão Concisão voltadas ao rádio Tamanho médio do texto (2. 31). gravados ou veiculados.em bloco Sonora . p. 1. E de que modo essa escolha interfere ou pode interferir no discurso. Optou-se pela AC porque permite descrever e classificar os gêneros. de modo a enquadrá-los em categorias previamente testadas."solta" - Técnicas jornalísticas Lead Pirâmide Invertida identificadas Fontes . com o objetivo de fazer inferências sobre o conteúdo e seu formato.Quadro 2: Elementos do jornalismo e do radiojornalismo Categoria Formatos radiojornalísticos Sub-categoria Nota Notícia Reportagem Entrevista ping-pong Entrevista . Uma arcaica relação . de acordo com Laurence Bardin (1977. Esta.5 a 12 linhas) Elementos "avulsos" Tema (s) do "dia" específicos da informação Quadro/programete no rádio Objetivo Identificar quais gêneros/formatos são apropriados e se isso se dá de maneira integral ou parcial. as técnicas e os formatos jornalísticos e posteriormente avaliar como essas características atuam no produto apresentado. a qual Herscovitz (2010. p.pessoas Citação de Dados Fontes pesquisas/documentos Características da Clareza redação jornalística. Investigar se a estrutura do texto obedece padrões jornalísticos e quais aspectos se destacam Verificar se a redação dos textos respeita características básicas do texto jornalístico para rádio Conferir como se dão as divisões de temas dentro do programa A observação e a análise do objeto empírico são realizadas com base na Análise de Conteúdo (AC). sons e imagens impressas. é "um conjunto de técnicas de análise das comunicações".

e ainda não possuíam grande significado como fonte de rendimento" (2003. por vezes simplesmente propagandísticos. Foi nesse mesmo período. Marshall (2003) explica que os primeiros anúncios "tinham principalmente uma função informativa. 80) já nos séculos XVIII e XIX era possível perceber "notícias “orientadas” e “selecionadas” para servirem determinadas causas. que se inseriu na rotina produtiva do jornalismo elementos como o lead e as premissas da objetividade e da isenção. que prefiguraram a imprensa política de partido". está submetido a uma série de pressupostos. O objetivo já era contar os fatos de interesse de quem noticiava. especialmente. Desde os séculos XVI e XVII os jornais impressos europeus. como o bem estar social que resulta da eleição de determinado político e no informativo o status da verdade é da ordem do que já foi¸ algo que já aconteceu. trabalha-se com a demonstração racional dos fatos. A razão de ser do jornalismo é o discurso informativo. p. conforme Bakhtin (2011). ou seja. dois gêneros influenciados diretamente pela língua e que se alteram para provocar novas relações e buscar resultados específicos diferenciados. Tudo começa a partir do ato comunicativo que. ou seja. . opinativos e persuasivos. de rompimento de fronteiras. já apresentavam conteúdo noticioso híbrido. como explica Wilson Gomes (2009). que nada mais são do que regras e convenções que orientam o uso da linguagem. excertos argumentativos. que se tornaria sua característica referencial. Contudo. o gênero primário. Charaudeau (2012) explica que no discurso propagandístico o status da verdade é da ordem do que há de ser. permitem a existência de pontos de convergência. desencadeando uma produção jornalística ancorada na premissa da verdade. publicizá-los. Como aponta Jorge Pedro Sousa (2008. muitas vezes. p. utilizando-se. de caráter noticioso. à adoção de linguagens e de construções discursivas que. o que começaria a despontar no século XIX. Essas referências históricas demonstram de modo simplificado que o fenômeno de hibridização também não é recente. que difere do propagandístico especialmente no que se refere à verdade. de onde derivam as construções discursivas. de estratégias similares. com o surgimento do chamado modelo jornalístico americano.A discussão pautada nesse texto pretende apresentar alguns aspectos da antiga relação entre propaganda e jornalismo. ou seja. embasados na credibilidade. por não terem limites ou contornos rígidos. especialmente a fala. tal característica não foi capaz de estabelecer fronteiras rígidas entre jornalismo e propaganda. devido. 108). tais como as gazetas.

interpretamos.Uma das primeiras práticas aceitas pelos profissionais do jornalismo e pelo próprio código deontológico é o que Cornu (1994) denomina de publi-reportagem. Por outro viés. uma vez que o anunciante usa todos os ardis para dar à sua mensagem o aspecto de um artigo redactorial" (1994. "abrangemos. "livre de contratos informativos que o obriguem a ser fiel aos fatos ou a transmitir informações" (2013. a vontade discursiva do falante está associada a escolha de um gênero de discurso. p. abordando em perspectiva antropológica a relação entre publicidade e sociedade. 281) o enunciado é afetado principalmente pela intenção do falante. ou enganar o consumidor. p. Para Bakhtin (2011. Segundo o autor tal prática permite ao anunciante comprar um espaço e utilizá-lo para publicar um texto com a aparência jornalística e assim promover seus interesses de forma menos explícita. isso não dá ao discurso publicitário-propagandístico o direito de mentir. que são julgadas por seu Conselho de Ética. sustenta que o discurso publicitário visa defender interesses privados e que é. que determina o todo do enunciado. como o jornalismo. o seu volume e suas fronteiras". é que "na prática. um efeito de credibilidade maior ou a ilusão de que tal material foi produzido segundo critérios jornalísticos. O principal problema. Resultado da compreensão que 2 No Brasil. mesmo havendo sinalização. por isso. Simplificadamente. Gastaldo. 65). Contudo. como reitera o próprio Daniel Cornu. que pode se dar por motivos variados. A publicidade deve ser sempre identificada como tal. por vezes. 2011). O autor destaca ainda que "o discurso publicitário não possui o poder de definição da realidade de outros gêneros. sentimos a intenção discursiva de discurso ou a vontade discursiva do faltante. por exemplo" (idem). o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) foi fundado em 1980 e tem como função atuar sobre as denúncias de propagandas enganosas ou mentirosas. as coisas não são assim tão claras. contudo. entre eles a especificidade do campo da comunicação e a composição dos participantes. uma prática iniciada no impresso e que se expandiu para outras mídias. Partindo dessa reflexão fica claro que não há comprometimento com a representação da realidade tal qual é. . p. A seguir age a intenção discursiva. uma vez que em todo o enunciado. a simples adoção de uma linguagem similar ou idêntica à jornalística pode causar. por exemplo. por parte dos consumidores. ao menos não quando se trata de produtos físicos à venda2. 19). sejam conversas cotidianas ou obras científicas. que é aplicada ao gênero escolhido e vai se constituir e desenvolver por meio de tal gênero (BAKHTIN. abrindo-se precedentes para interpretações mais metafóricas.

Quanto à forma jornalística. o apelo para a responsabilidade social e a tentativa de mostrar o sentido de exclusividade do conteúdo/produto que está sendo ofertado. produzida e apurada nos moldes jornalísticos. 29). p. Nesse sentido Sampaio (2013. possa convencer o público da relevância da candidatura e . ao menos. a exemplo de expressões características de determinado programa já consolidado. ainda. O que permite um viés interpretativo. que permitem recriar a estética jornalística nos programas de propaganda eleitoral indica. é que o interlocutor . 27) ratifica que "sempre há a combinação de uma abordagem formal com uma abordagem retórica. Retoricamente há também elementos como a contraposição de ideias. uma vez que suas intenções são explícitas no próprio nome do programa. Sampaio cita o exemplo de uma notícia sobre o lançamento de algo conceitual ou visualmente novo. 280).vai "ocupar em relação a ele uma posição responsiva (por exemplo. É sabido que os programas de propaganda eleitoral têm como objetivo o convencimento. A apropriação de elementos. p. atenção quanto aos aspectos éticos. A propaganda baseia sua constituição em elementos formais e retóricos. 2011.ou público . Os momentos em que ambos os gêneros aparecem juntos ou próximos e de forma assemelhada. uma intenção de que o discurso soe verdadeiro e que. cumprir uma ordem)" (BAKHTIN. do ponto de vista de convencimento e de direcionamento do modo de enxergar determinada realidade. uma vez que a propaganda é constituída de forma e conteúdo". podem levar a uma interpretação equivocada de determinado assunto ou a compreensão de que a publicidade e/ou propaganda é informação. enquanto a abordagem retórica se refere a elementos racionais ou emocionais usados para atingir o público alvo. Esta última característica pode compor estratégias comuns ao jornalismo e à propaganda. assim. 2013. É dentro dos aspectos formais que se começa a identificar a presença de formatos que se assemelham aos radiofônicos e radiojornalísticos. seja de rádio ou televisão. que é a propaganda do candidato e seus projetos.tem sobre o que o enunciado quer dizer. são o formato e a linguagem adotados para o tratamento das informações que serão repassadas por meio de tais programas. p. demanda. em que a composição da "notícia" teria a "estética do anúncio de uma informação ou coisa muito importante ou de alto interesse" (SAMPAIO. A utilização de formatos já assimilados e com amplo reconhecimento público. A forma se refere à maneira como as mensagens são apresentadas e desenvolvidas.

sonoras.das propostas veiculadas. que apresenta oito formatos radiojornalísticos. 93). de maneira a contextualizar a informação.]. com o intuito de informar ao ouvinte que o fato está acontecendo. metaforicamente. Desse modo. descrição e efeitos sonoros não usuais na nota e na notícia. Paula e Kennedy afirmam ser uma tarefa difícil. p. texto curto. Os elementos que a enriquecem. tais como dados.. mas cabe a ressalva de que. opiniões. por exemplo. ao utilizar o rádio como ferramenta política. É caracterizado por um texto curto. que compreende a resposta objetiva do lead. Para tanto. o formato jornalístico é instrumentalizado como mais um mecanismo estratégico para fortalecer o discurso político. 2. A reportagem é. 93) destacam que o profissional "editará as sonoras mais positivas. O problema é que a informação traz apenas a visão de interesse do candidato" (2013. sobre um fato que pode estar concluído ou não. Toma-se como ponto de partida a categorização proposta por André Barbosa Filho (2003).. e em alguns casos até encerramento com assinatura do repórter [. Não se propõe discutir a atuação do jornalista dentro da campanha. ao adotar uma postura publicitária. Os elementos norteadores do jornalismo de rádio Considera-se aqui a importância da influência dos formatos jornalísticos na produção do conteúdo. A partir da nota constitui-se a notícia. com a inclusão de detalhes descritivos e depoimento de envolvidos. podem ser dispostos na estrutura narrativa com . dos quais elegeu-se quatro para integrar essa análise. Considerando a possibilidade de o ouvinte identificar tal conteúdo como propaganda. baseada nas perguntas clássicas – Quem? O quê? Quando? Onde? Como? e Por quê? –. É seu produto maior e permite a demonstração de todas as possibilidades expressivas do meio. faz-se necessário adaptar o conteúdo aos formatos e linguagens mais eficientes para a comunicação persuasiva-informativa. O primeiro deles é a nota. o jornalista adequará o conteúdo à linguagem com a qual é habituado a trabalhar. Inerente a isso é usar os formatos jornalísticos consagrados para produzir propaganda. a "menina dos olhos" do rádio. que emocionem e conquistem o eleitor". pois "a matéria é fiel ao formato jornalístico: tem lead. entrevistas. adotando uma regra propagandística para simular jornalismo. p. Nesse cenário Paula e Kennedy (2013.

Técnicas como essa servem como um facilitador para o repórter e. p. Isso implica que a produção do texto radiojornalístico possua uma extrema simplificação. essas características são essenciais. existe desde a década de 1960. ou seja. Sampaio (2008. uma vez que permite textos estruturados de forma padrão. que explicitam a relação direta entre o gênero. é "a condição fugitiva da impressão auditiva" que impõe restrições à linguagem radiofônica. p. 39) pondera que os radiojornais devem primar pela linguagem coloquial. são 45 dias destinados à propaganda eleitoral. Entre elas destaca-se. p. expressas de forma clara e concisa de modo a neutralizar ambiguidades que possam surgir para o ouvinte. paga com dinheiro público. aliadas a outras como clareza. que rege o período. Barbosa Filho comunga de definições de outros autores. simples e direta. mas que vai ao ar recortada somente com o trecho que interessa. A propaganda eleitoral brasileira em 2014 O Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral brasileiro. o formato e a linguagem. cotidiana. Habituar-se a responder as questões do lead é outro exemplo comum. proporcionada pela entrevista breve e a informação em profundidade. precisão e concisão. 184). especialmente vocabular. são . cuja ordem de contar os fatos se desenvolve do mais importante para o menos importante. que oferece ao ouvinte informações adicionais. De acordo com a Lei n. por meio de isenção fiscal das emissoras que retransmitem de forma obrigatória. associada a um maior tempo de duração. No caso do rádio. a destacar Prado (1989. que acredita que ela pode gerar dois tipos de informação: a estrita. a pirâmide invertida. 3. Para Meditsch (2007. Para os presidenciáveis. Pensar formatos jornalísticos implica lembrar que há técnicas especiais que foram sendo desenvolvidas e aperfeiçoadas ao longo do tempo.034/09. 6263). para o público.maior liberdade criativa e desta forma possibilitar ao ouvinte a reconstituição mental do fato com maior riqueza de detalhes. em tese. com ideias únicas. proporcionando reflexão. para que se estabeleça um certo diálogo entre o apresentador e o ouvinte. Além destes é observada a presença de sonoras. por exemplo. presente em praticamente todas as matérias jornalísticas. A entrevista é apontada como uma das mais importantes fontes de coleta de informação. derivadas obviamente de uma entrevista anterior. nos moldes atual. Sobre a entrevista. embora isso não impeça a pirâmide de estar em pé ou deitada como defendem alguns teóricos. 12.

Em 2014 foram 11 candidatos na disputa.1 O que se evidenciou em uma semana de propaganda eleitoral A primeira categoria observada foi o tema dos programas. e que não se refere a nenhum problema social do país. sendo comparados cada quesito de cada candidato. com 11 minutos e 24 segundos.destinadas as terças. 3. Petrobras (funcionários de carreira e pré-sal) Educação de tempo . do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Marina Silva. e diversos outros motivos que apresentavam o candidato como o salvador ou único capaz de governar. com homenagem* 26-08 Gestão de Aécio como governador em Minas. Os temas dos candidatos seguem resumidos no quadro abaixo: Quadro 3: Temas dos programas Data 19-08 Aécio Morte de Eduardo Campos com perfil comparativo entre ambos. grandes obras no país: hidrelétricas. a vida política e as realizações. Para esta análise optou-se pelos três candidatos com maior tempo de programa. Dilma Marina Porque Dilma tem a preferência dos brasileiros Morte de Eduardo Campos. Bolsa Família e Poupança Jovem (Educação) Obras de abastecimento de água no nordeste. quintas e sábados. em ordem alfabética. com construções emocionais. com 2 minutos e 3 segundos. Para além disso. Nesse quesito entrou história de vida. também apareceram os temas que dizem respeito diretamente à sociedade e que afetam o eleitor. saúde e internet banda Agradecimento de Marina por ouvirem o programa e pela solidariedade Eixos centrais do plano de governo da candidata Educação. sendo 30 minutos divididos entre os candidatos de acordo com o número de partidos coligados. foi o enaltecimento das qualidades dos candidatos. ampliação e recuperação de portos e aeroportos e Bolsa Família 02-09 Economia (inflação) Mobilidade e Pré-sal 09-09 Política (Corrupção. Aécio Neves. A análise se dá a partir da descrição dos programas seguindo a ordem categórica dos quadros analíticos. do Partido dos Trabalhadores (PT). O comum em todas as edições analisadas. sendo Dilma Rousseff. com 4 minutos e 35 segundos e a candidata. do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Saúde. Mensalão e Petrobrás) Pré-sal 16-09 Mudança e segurança Educação. ferrovias.

março de 2014: ex-diretor da Petrobras é preso com 1 milhão e 160 mil reais" e "Deu nas revistas: Veja. a especulação de um desejo de mudança por parte da população. Claramente. depoimentos de pessoas comuns e personalidades (famosos e políticos). pela emocionalidade. e do portal de internet UOL em 2014.23-09 30-09 (comparativo entre Aécio. entre os candidatos a presidente. dia 30/09. saúde e transporte (passe livre) Petrobras (corrupção na estatal) Proximidade da eleição e não apresentação de plano de governo pela candidata Dilma Rousseff. referente ao governo da candidata. com citação de manchetes da Folha de São Paulo. seguida da manchete do seu texto que dizia: "No debate da Record. Já o de Dilma se deu antes. Além disso. ao contrário dos demais. 20 de agosto de 2014. Inicialmente com a morte de Campos. em 19/9. sobre o governo tucano e a última positiva. O de Aécio foi no dia 30/09. povo" e de personalidades (também famosos e políticos). Quanto ao enlace ou ligação com publicação midiática jornalística. Também se utilizou de depoimentos populares no formato "fala. Marina e Dilma) Necessidade de o ouvinte votar certo Saúde. todos os candidatos apresentaram apenas uma utilização dentro do período analisado. que é descrita como sendo "de um dos mais importantes jornalistas políticos do Brasil". que significa ter sido muito superior. o que seria anunciado apenas na quarta-feira. a exemplo de: "Deu nos jornais: O Globo. Aécio deu um banho em Dilma e foi o melhor". a opção pela manchete se deu pelo enaltecimento do candidato e minimização de Dilma ao utilizar a expressão "deu um banho". inflação e recessão (recortes de falas do debate) larga Habitação Combate a corrupção e à impunidade e mudanças na vida das pessoas depois dos governos petistas integral. utilizou-se da participação de ouvintes no formato de perguntas para Dilma. educação. Marina se utilizou da estratégia na véspera da eleição. Na tentativa de estabelecer alianças sociais Aécio utilizou a citação de gentílicos. quando foi citada a coluna do jornalista Ricardo Noblat. 2014). sendo a primeira negativa. no dia 26/08. A aliança social foi buscada por Marina Silva. com citação de manchetes de jornais e revistas. Os programas de Dilma abusaram da citação de dados das suas realizações em comparação com os governos anteriores. . depois com a história de superação da candidata e somente no dia 9 de setembro foram citados dados referentes à educação que balizaram a fala de Marina. especificamente o do PSDB. abril de 2014: Como o PT está afundando a Petrobras" (HGPE. quase na sua totalidade. * Marina ainda não havia sido escolhida como substituta do candidato.

4%.2 bilhões em 2002 para 24. 2014) .hoje tá muito bom. Como exemplo de nota. Porque eles merecem também. com Dilma e Lula o Brasil gerou mais de 20 milhões e 800 mil empregos com carteira assinada". vem transformando a vida de milhões de brasileiros. saúde e principalmente dignidade para quem antes não tinha nada. mas dá tristeza ver um país desse com tanto problema. Nos programas de Dilma. E tem mais. Além dela. habitação. apresentado no dia 19 de agosto: "Em 2002 a taxa de desempregados era de 12. Seu José Veit (grafia incerta) do Rio Grande do Sul. educação. 2014). como demonstra a transcrição a seguir: Loc 1: Tem mudança de vida na cidade e no campo. Manu/repórter: O programa Brasil sem Miséria. Hoje. né?!E tá continuando e eu espero que continue mais.. conta como aconteceu a mudança. Após a resposta do candidato. Nesses sete dias foram duas reportagens.1 bilhões este ano. O candidato responde novamente e então o mesmo locutor questiona novamente: "Mas Aécio. né? Eu vou dar também uma oportunidade de uma vida melhor pra eles.. sonora e entrevista. A nossa colega Manu Nunes preparou uma reportagem sobre isso. a entrevista apareceu nos programas de Aécio balizadora. garantindo renda. Dilma e Lula reduziram os juros e triplicaram o crédito para o pequeno produtor rural.No que se refere aos formatos noticiosos observados. O pescador Eduardo Silva. A primeira reportagem foi anunciada como tal pelo locutor. Sonora pescador: "Teve uns anos atrás aí que nós era desprezado. Uma abordou as mudanças na vida da população e a outra o transporte público no Rio de Janeiro. que identificou também a "repórter" que a fez.. o locutor questiona: "Aécio. Em um exemplo de trecho da entrevista que se deu em forma de diálogo. com Dilma a taxa caiu para menos que a metade alcançando os menores índices da nossa história. do Pará. as características observadas foram mais vastas. a agricultura familiar emprega mais de 12 milhões de pessoas e responde por 70% dos alimentos consumidos no país. o que é que houve com o Brasil?". que saltou de 8. foram utilizadas sonoras de pessoas comuns que serviram como fonte confirmatória ou como dúvidas relacionadas ao tema do programa. criado por Dilma. Sonora agricultor: "com a vinda dos Pronafs que a gente conseguiu uma aquisição de máquinas e implementos com um juro barato. Então chegou a nossa vez também. conta como foi essa mudança. como é que resolve isso na prática?". reportagem. descontentes. (HGPE.. pode-se considerar o seguinte trecho. Foram identificadas estruturas similares à nota.". a gente tá vendo por aí os brasileiros de mau humor. (HGPE. outro apresentador comenta: " É Aécio. quem quiser desenvolver algum trabalho na agricultura tem toda a possibilidade de crescer". eles também são gente. né?! Nós fomos muito desprezados e aí entrou uns governo que enxergaram os pobre e disse esses pobre aqui também são gente. Manu/repórter: no campo também houve mudanças. inclusive a grande maioria quer mudanças.

adequados ao meio rádio. Quanto às características da redação jornalística. e "Dilma criou. O segundo apresentou dois quadros: "Ô de casa". Dilma avançou". e o lead e a citação de dados respectivamente nos dias 2 e 23 de setembro. Marina explora a pirâmide invertida. a exemplo de lead ou de pirâmide invertida. alem de se utilizarem da pirâmide invertida e da citação de dados e uso de fontes. para falar sobre habitação. sendo o primeiro os interesses diferenciados dos candidatos e o segundo o tempo de cada coligação. Marina apresentou um único quadro. Nos programas de Aécio não foi identificado o uso de técnicas jornalísticas. perdeu 108 posições e ocupa o lugar 120. ocasião que serviu para a citação de jornais e revistas. Apenas a citação de dados e a utilização de pessoas como fonte. Hoje. tais . todos mantiveram clareza. presença da opinião nas falas dos locutores e participantes. quem compara pode ver". nota e sonora. sempre com textos curtos. 226 bilhões de dólares. Aécio focou nos pontos fracos do governo. como pode-se perceber na nota citada anteriormente. metade do seu valor. Os programas de Aécio não apresentaram quadros ou subdivisão temática dentro dos programas. em 2007. Dilma teve divisão estrutural nos programas dos dias 26 de agosto e 23 e 30 de setembro. e óbvia. Os programas de Dilma atenderam às questões do lead.Os programas de Marina Silva apresentaram notícia. Hoje a empresa tem uma dívida 4 vezes maior do que tinha quando Dilma assumiu. foram apresentados dados resumidos das realizações da candidata em comparação com gestões anteriores. cita-se uma espécie de notícia veiculada no dia 23 de setembro: A Petrobras valia. bem como a quantidade deles. 4 Considerações finais A primeira constatação que se faz ao observar os temas é quanto à variação entre os assuntos abordados por cada candidato. Como exemplo. denominado "Quem compara sabe. embora nem todos tenham se utilizado demasiadamente dos formatos noticiosos. No primeiro. É necessário registrar a nítida. Credita-se isso a dois fatores principais. Em 2010 a Petrobrás era a décima segunda maior empresa do mundo. Os programas não contaram com quadros ou subdivisão dentro de sua estrutura. Todos também utilizaram linguagem coloquial. Nas mãos da Dilma e do PT a nossa empresa mais importante perdeu cerca de 110 bilhões de dólares. concisão e precisão praticamente o tempo todo. para falar sobre programas criados pela candidata e que foram ampliados ou melhorados e o terceiro um quadro sobre o combate a corrupção. Perdemos esse dinheiro que poderia manter o bolsa família por 10 anos.

A mescla dos gêneros jornalístico e propagandístico não pode ser desconsiderada. O fato que não pode ser desconsiderado nesse caso é que a produção planejada para ser executada com Eduardo Campos foi perdida e. tais como a nota e a reportagem. vende uma propaganda. por contar com menos tempo. Ou seja. que se deu pelos formatos adotados. fato que amplia a aliança social com o público. Ela abordou no total sete temas a mais que Aécio Neves e seis a mais do que Marina Silva. ao afirmar que o produto era uma reportagem. que apareceram em três programas. que se identifica com a história que está sendo relatada por um igual. ao estarem presentes nos diálogos diários da população. Os programas de Dilma foram os que mais mantiveram simulação de jornalismo. A diferença entre eles se deu ainda na profundidade dos temas que puderam ser explorados e relacionados com as regiões do país. os programas de Dilma que se utilizaram dos formatos jornalísticos foram marcados pelo uso da nomenclatura comumente pertencente ao jornalismo. O menos afetado nesse quesito de hibridização foi Aécio Neves. teve maior tempo e isso permitiu que explorasse mais assuntos do que os concorrentes. foi forçada a abordar todos os temas de modo mais superficial. bem como os discursos secundários.como os problemas econômicos do país e o esquema de corrupção na Petrobrás. com isso. Para camuflar essa ausência. 2011) a partir de uma tentativa de alteração da compreensão sobre o que o enunciado realmente quer dizer. o espaço foi permeado por apelos emotivos que prendiam o eleitor mais pela empatia ou simpatia com seus ideais do que pelas propostas expostas. A candidata Dilma Rousseff. seguido de Marina Silva. hibridizada ou disfarçada entremeio a elementos do jornalismo. ao serem reportados pelos meios de comunicação informativos. Marina Silva. Talvez sejam tentativas . assuntos que integram o gênero primário. Nesses momentos há uma clara apropriação dos modelos jornalísticos que não remete à outra intenção do falante que não seja credibilizar a sua fala e levar o público a uma atitude responsiva (BAKHTIN. Ambos são reelaborados e aparecem no discurso propagandístico do candidato de modo hibridizado. bem como o coordenador de campanha. fator que invariavelmente acarretou em prejuízos. Mas. além disso. foi preciso mudar a estratégia em cima da hora. Nesse quesito é importante destacar que não há qualquer delimitação sobre as formas utilizadas na propaganda eleitoral e nem controle de órgãos jornalísticos sobre tais apropriações ou os efeitos que elas podem provocar. ao dizer que quem produziu o conteúdo foi uma repórter. o lead e a pirâmide invertida.

uma vez que há certo preconceito com o espaço. promovem um status idealizado sobre o que há de ser da partir da eleição de tal candidato. deveria ser credível por trabalhar com a realidade. 5 Referências BAKHTIN. Mas. Estética da criação verbal. como sugerem Paula e Kennedy (2013). estudioso da propaganda. que. quando negativas em relação ao adversário. mas. Mikhail. não são relações definidamente claras. Ao contrário. cumprindo com as recomendações de Meditsch (2007). Nesse caso há tentativa de fazer o outro parecer ruim. são consumidas e repercutidas na pela esfera pública. já aconteceu e que se torna credível por estar em um jornal. 2013) feita nos programas pode afetar tanto jornalismo quanto propaganda. Acontece que a verdade apresentada por meio das manchetes. assemelha-se com o informativo por tratar-se de uma demonstração aparentemente racional dos fatos que promovem um status de verdade em relação a algo que já foi. especialmente o primeiro. em tese. a combinação formal e retórica (SAMPAIO. Esses exemplos podem ser vistos de duas formas para esclarecer os status relacionados à verdade. As considerações apresentadas aqui não pretendem. 2011. mas são tendências que precisam ser acompanhadas porque integram o âmbito da comunicação e porque circulam. nem de longe. Acontece que o texto radiofônico precisa respeitar algumas características que permitem à comunicação efetiva. elas têm a pretensão de estimular o estudo de uma questão que se considera merecedora de maior aprofundamento e pesquisa. São Paulo: WMF Martins.incipientes de tornar a propaganda mais digerível. Outro aspecto que não pode ser ignorado é a utilização de informações veiculadas por empresas jornalísticas para avalizar o discurso político. explicados por Charaudeau (2012). que é um estudioso do radiojornalismo e Sampaio (2013). Contudo. Não se pode deixar de registrar que houve uma evolução nos programas no que concerne à elaboração de texto adequado para rádio. sem o preconceito de que não pertence ao campo do jornalismo. para além de ser jornalismo ou propaganda. realmente pode-se dizer que corresponde a uma instrumentalização para fortalecer o discurso político. Como perceptível. Do modo como foram utilizados os elementos do jornalismo. ao mesmo tempo. esgotarem o tema. .

2009. 2010. Acesso em: ago. Heloiza Golbspan. PAULA. Teoria do Jornalismo. BARBOSA FILHO. São Paulo: Summus. Discurso das mídias. MARSHALL. 3ed. GOMES. 2012. Biblioteca OnLine de Ciências da Comunicação. Análise de Conteúdo. Jorge Pedro.Código Eleitoral. 2008. In: BENETTI. PENA. 2000. Jornalismo e publicidade no rádio: como fazer. Patrick. São Paulo: Contexto. Amadeu Nogueira de. 2009. Brasília. 2013. e 4. O jornalismo na era da publicidade. DF. 9. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. que estabelece normas para as eleições. Marcia. O rádio na era da informação. KENNEDY. Laurence. . Felipe. Rafael. 2013.096. de 15 de julho de 1965 . Florianópolis: Insular. MEDITSCH. Vozes. GOMES. Portugal: Lisboa. Leandro. 1994.bocc.034 de 29 de setembro de 2009. São Paulo: Hacker/Edusp.BRASIL.737. 2003. SAMPAIO. de 19 de setembro de 1995 . Wilson. CHARAUDEAU. Disponível em: <http://www. 2013. fatos e interesses: ensaios de teoria do jornalismo. HERSCOVITZ. Altera as Leis nos 9. Cláudia (ORG's): Metodologia de Pesquisa em Jornalismo. São Paulo: Contexto. Mayra Rodrigues.pdf>.ubi. França: Presses Universitaires de France: 1977. BARDIN. Petrópolis: RJ. Lei nº 12. SOUSA. 2007. Análise de conteúdo em jornalismo. 30 set. São Paulo: Paulinas. Jornalismo e verdade: para uma ética da informação. Roseann.pt/pag/sousa-jorgepedro-uma-historia-breve-do-jornalismo-no-ocidente. 2005.504. Daniel. LAGO. Propaganda de A a Z: como usar a propaganda para construir marcas e empresas de sucesso. Jornalismo e ciência da linguagem. Eduardo. Uma história breve do jornalismo no Ocidente. Rio de Janeiro: Campus. Jornalismo.Lei dos Partidos Políticos. São Paulo: Contexto. A. 2003. de 30 de setembro de 1997. Florianópolis: Insular. Gêneros radiofônicos: os formatos e os programas em áudio. CORNU.