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XIV Encontro Anual da ABEM

Belo Horizonte, 25 a 28 de outubro de 2005

O papel da audição em duas propostas de educação musical
Patrícia Mertzig
Universidade Estadual de Maringá – Uem/
Projeto Guri – Pólo de Maringá
patriciamertzig@hotmail.com
André Luiz Gonçalves de Oliveira
Universidade Estadual de Maringá – Uem
alguns@gmail.com
Resumo. Este estudo tem como objetivo principal refletir sobre o papel da percepção auditiva em duas
propostas de educação musical. Iniciaremos realizando uma revisão das propostas de Shinishi Suzuki e
Murray Schafer. Posteriormente faremos uma descrição de diferentes atividades que envolvem audição em
cada uma das propostas dos autores citados acima. Nossa intenção é investigar as possibilidades funcionais
atribuídas à audição no processo de desenvolvimento musical dentro de cada abordagem metodológica.

Introdução
O presente trabalho propõe-se a ressaltar aspectos importantes relacionados à
cognição musical como forma de fundamentar as propostas e as ações em educação
musical. Partindo para uma utilização mais específica da audição por parte dos seres
humanos, podemos afirmar que esse é o principal sentido a ser desenvolvido em um
trabalho de educação musical, pois, como o próprio nome já sugere, é uma educação que
tem por matéria-prima o som.
Portanto a proposta deste artigo é focar a audição como parâmetro de análise em duas
propostas de educação musical. Os dois autores a serem analisados serão Murray Schaffer
e Shinishi Suzuki que, embora possuam propostas e objetivos diferentes em educação
musical, abordam a percepção auditiva como condição primordial em suas práticas
pedagógicas.

Revisão de duas propostas de educação musical
Shinishi Suzuki
Violinista de nacionalidade japonesa, Suzuki é considerado um dos grandes
educadores musicais do século XX. Seu método de iniciação musical no violino tem
alcance em todo o mundo ocidental com bases sólidas e com seguidores fiéis
principalmente nos Estados Unidos. Isso deu-se pelo enorme sucesso que sua proposta de

Na nossa maneira de entender tal abordagem. 1994 p. é preciso que se dê a mesma atenção que é voltada à aprendizagem da língua materna. Logo. Aqui está. e elas realmente aprendem e falam. basta criar ambientes favoráveis para que isso ocorra. não importando qual a idade e qual o conhecimento sobre música que venha a ter.9). mas essa educação deve começar no dia do nascimento. como podemos deduzir qual delas é capaz de aprender um instrumento musical e qual não é? Para Suzuki o problema está na metodologia adotada. 12) Mas então como fica a audição para Suzuki? Tendo claro qual é a sua proposta de trabalho no campo da educação musical. não vão conseguir trabalhos compensadores. Para ele todos são capazes de aprender música e de tocar satisfatoriamente um instrumento musical. ou seja. a chave do desenvolvimento integral das potencialidades humanas. Suzuki chegou a essa conclusão quando percebeu a facilidade com a qual as crianças aprendem a falar sua língua materna. Nas palavras do autor vemos esse ponto com clareza quando ele afirma que: Todas as crianças que são educadas com perícia e compreensão atingem um alto grau de conhecimento. em seu Instituto de Pesquisa da Educação do Talento em Tókio. porque o método é composto apenas de músicas tonais e de tradição ocidental. acreditamos que o autor também considera o ouvido como peça fundamental para o desenvolvimento de sua metodologia. em primeiro lugar. para se alcançar com eficiência o domínio técnico em um instrumento musical. Todas as crianças normais são aptas a falar a língua materna desde muito pequenas. pois. O primeiro está no fato do aluno ouvir apenas uma . Isso dá-se. Suzuki apresenta três problemas iniciais quanto ao aspecto auditivo. (Suzuki. não considera que algumas pessoas privilegiadas nasceram com talento e outras que não o possuem podem desistir de aprender qualquer coisa na área artística. Mas é evidente que. 1994 p. pelo fato de seu método inserir o aluno direto no instrumento. porém restringe a audição à escuta do repertório tonal que visa desenvolver. Mas o que o autor considera talento? Para ele o talento não é um acaso do nascimento (Suzuki. portanto é pouco abrangente. na minha opinião. e em segundo lugar. pois ela pode falhar por falta de incentivo ou pela utilização de métodos errados.trabalho alcançou a partir de resultados sérios que o autor atingiu com crianças ainda muito novas.

Um desses conceitos é soundscape. à cópia. ele só ouve uma execução que não a sua. Atualmente há conferências nacionais e internacionais a esse respeito e há inclusive um fórum mundial denominado The World Fórum for Acoustic Ecology (Fórum Mundial de Ecologia Acústica). o método limita-a e a execução do aluno tenderá à imitação. R. O segundo aspecto refere-se ao método que não incentiva a audição nem de sua própria execução. são recorrentes em seus textos e que acabam por se tornar familiar ao leitor. ficando assim alienado da arte e da estética contemporânea. uma maneira de tocar. O terceiro aspecto pode ser descrito pela falta de conexão com outros sistemas musicais que não o tonal. mesmo após a sua morte. ou seja. Para tanto alguns termos que. seu método e sua metodologia de trabalho continuam sendo utilizados em vários países tanto do oriente quanto do ocidente. Ao invés de pluralizar sua escuta. o autor expõe de maneira sistemática sua tentativa de estudar o ambiente sonoro. e o método restringe-o à prática apenas do sistema tonal. É necessário destacar. Seu trabalho chamou a atenção de pesquisadores e de educadores em todo o mundo. Sua referência será baseada somente em uma articulação. que essa abordagem de educação musical realizada por meio do estudo de um instrumento musical fez com que muitos dos alunos de Suzuki chegassem a níveis técnicos e musicais altíssimos no instrumento.interpretação. O autor entende ecologia como um estudo que precisa relacionar todos aqueles que vivem em determinado meio-ambiente e que produzem e transformam esse meio. Murray Schafer Em seu livro A afinação do mundo. o que trouxe como resultados de sua proposta um reconhecimento internacional e hoje. que tem sido traduzido para o português como paisagem sonora. no entanto. além de o aluno ter apenas uma referência de interpretação. são criados pelo próprio Schafer no intuito de formar conceitos. já que seu campo de pesquisa ainda não era conhecido na década de 70 do século XX. Nesse sentido sua proposta pode mesmo ser entendida como plano político para o mundo atual. A sistematização de sua pesquisa tem início quando o autor mostra como a paisagem sonora evoluiu no decorrer da história. O aluno está rodeado de diferentes tipos de música e muitas vezes ele opta em estuda-la para executar algum estilo específico. .

suas crenças.Schafer aponta a educação pública como caminho para despoluir a paisagem sonora contemporânea e ao mesmo tempo. . seus valores morais e éticos e estéticos. Para Schafer. Schaefer não faz muito esforço para explicar o que entende por consciência. dessa forma vários são os pesquisadores em áreas de atuação diferentes que estão demonstrando uma crescente preocupação com a quantidade de poluição existente atualmente no planeta. e não por forças imperialistas vindas de fora. sua origem e classificá-los de acordo com suas diferentes propriedades. (Schafer. resultando em uma situação alarmante. em diferentes civilizações de períodos distintos. sua intensidade. desenvolver a perspectiva estética das pessoas. 12. Fica explícita a preocupação do autor com a educação que vai muito além de uma educação musical em direção daquilo que pode ser chamado de educação auditiva. Em uma sociedade verdadeiramente democrática.12) É claro que a preocupação com o meio ambiente e o bem estar físico e mental de todos os seres que habitam esse planeta não é e nem pode ser apenas de Schafer. A proposta do autor é tirar a audição de seu sentido mais restrito. Mais adiante discutiremos adequadamente tais aspectos. talvez até caiba 1 O termo consciente está sendo utilizado aqui por citação do próprio autor. Nos dias atuais as pessoas vão ficando cada vez mais alienadas a ponto de nem perceberem mais os sons ao seu redor. Schafer apresenta como primeiros passos para uma escuta consciente1 perceber os sons à sua volta a ponto de reconhecer sua fonte. suas relações sociais e com o meio ambiente. a paisagem sonora será planejada por aqueles que nela vivem.Assim. No entanto. que é sempre configurada como audição musical. ao menos em suas duas obras principais. e ampliá-la para outros ambientes ou especificamente para todo o meio-ambiente. também traz informações ricas sobre sua cultura. precisamos solicitar sua ajuda para replanejá-la. No entanto a proposta de audição das paisagens sonoras não acontece apenas pela preocupação com o meio ambiente em que vivemos. de A afinação do mundo. A preocupação atual do autor é conscientizar as pessoas que vivem em um mundo onde a poluição sonora alcança níveis estrondosos e a partir daí sugerir comportamentos para tentar reduzi-la. 2001 p. que possui níveis de ruído altíssimos. por meio desses estudos é possível perceber ou. Em primeiro lugar precisamos ensinar as pessoas como ouvir mais cuidadosa e criticamente a paisagem sonora. depois. o autor coloca-se em favor de uma perspectiva Junguiana de análise e de descrição dos processos perceptivos e cognitivos. Sempre achei que a educação pública é o mais importante aspecto do nosso trabalho. Daí pode-se observar forte característica metafísica na explicação dos fenômenos cognitivos e perceptivos. o estudo da paisagem sonora. de acordo com o cap.

trouxe para o ambiente sonoro. Tais sons. ou ainda na observação de desenhos rupestres. artístico e oral que foi preservado e que chegou até nós. na fauna e na flora. Tal material traz consigo uma quantidade de informações. Tais aspectos podem ser notados em afirmações como: A matéria-prima da Odisséia (de Homero) é o oceano. 2001. como já foi dito anteriormente. Schafer (1977) leva o leitor a deduzir não só os ambientes sonoros. Sua proposta é realmente incentivar a audição como ponto central para o aprendiz expandir seu universo sonoro para depois conseguir estabelecer critérios úteis de julgamento e de classificação. o som. p. Propostas como a de Violeta Gainza e H. mas também a perceber a importância que alguns elementos da natureza tinham para as civilizações e como esses afetavam a vida das pessoas naquela época. no entanto não queremos dizer que outros métodos não se preocupem com ela. enfim. Os sons são então percebidos e catalogados para. comparar o que a evolução tecnológica. vivendo na Boécia longe do mar e das suas inquietas águas. serem manipulados. 35). .dizer. em pinturas. não pode evitar a atração do oceano (Schafer. que de certa forma torna possível inferir aspectos do ambiente sonoro de cada época e local. Portanto o foco da audição está primeiramente na paisagem sonora do meioambiente em que os alunos estão envolvidos. em romances. em todo o material histórico. na arquitetura. em épicos. É possível perceber grande abrangência em sua metodologia. na localização geográfica. na formação rochosa. J. posteriormente. a partir da revolução industrial. pois ele parte sempre do estudo da matéria-prima da música. Considerações finais A partir da leitura das duas propostas de educação musical é possível notar a importância de um trabalho de percepção auditiva. As informações sobre a paisagem sonora de outrora são possíveis de serem imaginadas via descrição dos sons em textos sobre a mitologia. O agrário Hesíodo. são colhidos na maior fonte sonora existe no mundo: o próprio meio-ambiente.

Murray. 1991. Publications. SCHAFER. _________. Anne C. ouvir para fruir e depois falar sobre aquilo que está sendo ouvido. Marisa Trench de Oliveira. . Bibliografia FONTERRADA. tocar isso ou aquilo torna-se mais possível e mais provável. Suzuki utiliza audição como meio para conseguir uma execução musical adequada tendo como objetivo final a execução musical. quando ao abordá-las. 2 Ver monografia de especialização em preparação. São Paulo: Editora Unesp. 2) o papel desempenhado pela audição nas duas propostas são diametralmente diferentes. 1983. São Paulo: Editora Unesp. O ouvido pensante. nem é exclusivamente musical.2001. por exemplo. Vol. desenvolver o hábito de escuta cujo o foco está unicamente na audição. Miami: Warner Bros. ________. Por sua vez. Violin School. e isso requer um trabalho de percepção auditiva mais apurado do que simplesmente ouvir para imitar. O que se pode dizer sobre pontos de divergência entre a proposta de Susuki e a proposta de Schafer é que 1) o material a ser ouvido é completamente diferente. e não ouvir apenas para imitar ou ainda para uma execução coletiva. com a audição bem desenvolvida. Santa Maria: Pallotti. 1. Em um primeiro momento ela é mesmo o objetivo e não um meio para alcançar outro propósito. SUZUKI. não para conseguir tocar isso ou aquilo. São Paulo: Irmãos Vitale. 2a ed. É evidente que. Shinichi. Trad. Educação é amor: um novo método de educação. 2004. A afinação do mundo. Música e Meio Ambiente: a ecologia sonora.Koellreuter2 vêem a improvisação como importante abordagem metodológica para o desenvolvimento musical do aluno. ou melhor. a princípio. Schafer propõe uma espécie de ampliação da audição que. 1994. O aluno escuta para desenvolver a audição. na proposta de Schafer podemos observar um papel muito mais central da audição. Enquanto Suzuki sugere a audição de peças que serão futuramente executadas pelo aluno no instrumento. Gottberg. não a audição. mas Schafer propõe mesmo um conjunto de atividades que têm na audição seu meio e fim. Por outro lado podemos localizar como ponto de convergência dessas duas propostas a necessidade do educador musical.