You are on page 1of 19

1

O QUE AS PROFESSORAS PENSAM DO ECA: uma investigação acerca de
representações sociais.
Rogério Pádua Cavalcanti

1

1 – APRESENTAÇÃO
Este artigo apresenta os resultados de uma breve pesquisa de cunho qualitativo,
baseada na análise de entrevistas abertas, não estruturadas, realizadas junto a
dezessete professoras que atuam em três escolas da Rede Municipal de Ensino de Belo
Horizonte 2, visando captar suas representações sobre o Estatuto da Criança e do
Adolescente – o ECA. A questão central foi estruturada da seguinte maneira: o que as
professoras entrevistadas pensam a respeito do ECA? Qual a percepção que elas têm
do Estatuto e de sua relação com o trabalho docente? As entrevistas aconteceram
durante a implementação do projeto “ECA vai à escola”, desenvolvido pelo Instituto da
Criança e do Adolescente – ICA, numa parceria entre a Pró-Reitoria de Extensão da
PUC Minas, a UNESCO e a Prefeitura de Belo Horizonte, no segundo semestre de
2003. O objetivo geral do projeto foi a divulgação e o debate, nas escolas selecionadas,
do tema da promoção e da defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes no
Brasil.
Na primeira parte do trabalho, o ECA é abordado numa perspectiva macrosociológica, sendo enfatizado como um conjunto de novos valores e atitudes criadas
pela sociedade em relação à criança e ao adolescente de uma forma geral. Nessa
abordagem, o Estatuto é visto não apenas como uma ordenação jurídica sobre o
assunto, mas também como um quadro de idéias e representações a respeito da
infância e da adolescência e que, historicamente, tem-se confrontado com outras idéias
e representações criadas sobre a questão no país.
Posteriormente é apresentado o referencial teórico-metodológico utilizado na
análise das entrevistas. O artigo prossegue com a apresentação dos dados coletados a
partir das falas das professoras, tendo como pano de fundo o contexto sociocultural no
1
2

Professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC Minas.
A lista das escolas participantes da pesquisa encontra-se nos arquivos do ICA / PROEX / PUCMINAS.

metas de políticas públicas. em substituição às representações. de maneira especial. mas também serve como referência para a construção de um novo tipo de conhecimento a respeito do tema da criança e do adolescente. e talvez um dos mais contundentes. 2 – INTRODUÇÃO: O ECA. O ECA substitui o Código de Menores. a lei. 1993:17). têm-se empenhado em denunciar a crueldade e a extensão de situações específicas de risco em que têm vivido milhares de crianças e adolescentes em todo o planeta. governamentais ou não. que prevaleceram em vários momentos da história social da infância no país. e de esta não ser uma prerrogativa das sociedades modernas. contra crianças e adolescentes pobres no Brasil. “tem-se observado uma mobilização mundial pela ampliação e aplicação dos direitos civis a crianças e adolescentes” (ROSEMBERG. O Estatuto traz em seu contexto não apenas informações de ordem jurídica. Esse tipo de violência permanece em contraposição aos avanços jurídicos do Estatuto da Criança e do Adolescente. No entanto. Um desses problemas. é apontada a percepção geral que as professoras têm do Estatuto da Criança e do Adolescente e suas implicações na prática escolar.2 qual elas estão profissionalmente inseridas. é importante destacar alguns pontos que permanecem como problemas a serem enfrentados. nacionais e internacionais. de 1979. nas últimas décadas do século XX. A operacionalização do ECA supõe que os . diversas organizações sociais. muitas vezes considerados como estereotipadas e estigmatizantes. No entanto. por si só. a sociedade e a escola Tornou-se notório o fato de que. Na conclusão. estímulos à solidariedade coletiva e bandeiras de campanhas em determinadas mídias. Ela se constitui como referência normativa. Os problemas apontados por tais organizações passaram a ser objetos de investigações científicas. pela qual governantes e sociedade civil devem construir o novo Estado de Direito para as crianças e adolescentes. não modifica a realidade. de 1990. diz respeito à recorrência da “violência simbólica” cometida. proteção e desenvolvimento da criança e do adolescente no Brasil. e se constitui em ampla legislação de defesa. Apesar da evidência histórica de violência adulta contra crianças.

ela passa a ser caracterizada “como se ela fosse um ‘tipo especial’ de criança e não correspondesse à grande maioria da população infantil nacional” (p. da realidade das crianças e dos adolescentes no país. qualificada enquanto ‘menor’. Tais mentalidades. Na história social da infância em geral. carrega o estigma da exclusão e da marginalização. no sentido mais amplo do termo. como por exemplo. no Brasil. . para todo o universo da infância e da juventude. 3 BRANT. M. uma proposta política de construção e de afirmação do Estado Social de Direito no país. com isso. o Estatuto representa a emergência de uma nova forma de compreensão.] cujo título dizia: ‘Menor assalta criança na porta da escola' ”. e da infância pobre em particular. Em suma. ela encontra-se permeada por representações específicas sobre a questão. Introduz novo conceito de criança e adolescente e legisla. Notas sobre o “menor” e a “criança” na recente legislação brasileira. o termo “menor”.30). mas. permeiam o imaginário da população contribuindo para formatar a sua opinião não apenas a respeito do ECA. Ao utilizar-se de representações negativas sobre a infância e a adolescência. acaba sendo usado para designar apenas uma parte desses brasileiros. 1989. com o ECA. tem-se que: “O termo ‘menor’.. Finda. de maneira especial. além de outras representações correlatas. exatamente aquela menos favorecida da população que.3 agentes que lidam direta e indiretamente com a questão reconheçam que essa lei representa. (Mimeo). percebe-se que. Rio de Janeiro. citado por VARGAS (1990:30).ed. pessoas e instituições tendiam (e ainda tendem) a estigmatizar a criança e. representações oriundas de mentalidades culturalmente constituídas no interior de determinados grupos sociais. sem discriminar os diferenciados pela “situação de risco” ou “situação de pobreza”. algumas mais arcaicas como a questão do “menor abandonado” e do “menor carente”. a era da “situação irregular” – da criança e adolescentes menorizados – e funda a era da “proteção integral” – da criança e adolescentes cidadãos.. repetidas vezes. de maneira genérica. nas palavras de BRANT (1989:6-7) 3. [s. L. sobre a própria condição de pobreza em que têm vivido milhares de crianças e adolescentes brasileiros. que a princípio deveria designar todos os brasileiros até 18 anos. como se pôde constatar em uma notícia de jornal (do Rio de Janeiro) [. Desse modo.]. pela primeira vez. em determinadas épocas da história.

“trombadinha”. A escola constitui-se. “pivete”. sobretudo quando aplicados ao contexto escolar atual. Para que ele se efetive como idéia-ação. GOHN (1997) chama a atenção para a terminologia presente também nas leis. como uma das principais instituições responsáveis pela formação do indivíduo socialmente integrado. surge como necessárias. Além disso. decretos e programas de instituições. etc” (p. especialmente nas escolas públicas e . acompanhar o movimento político da sociedade. apesar dos inúmeros problemas que tem enfrentado. histórica e ideologicamente. O ECA.112). Para tanto. desamparado. criança de conduta anti-social. desassistido. com a criação de canais internos e externos de debate e de informação que abarquem as inúmeras e incessantes transformações que ocorrem na vida social contemporânea. do cidadão crítico e participativo. abandonado. a concepção e a execução de programas sociais relacionadas à proteção e divulgação dos direitos da infância e da juventude. “pixote”. a qualificação constante do quadro de professores e funcionários. tem contribuído para que a escola não fique num estado de defasagem em relação aos acontecimentos da sociedade em geral e de seus reflexos na comunidade na qual se encontra inserida. Um dos maiores responsáveis pela estigmatização dessas crianças foram os próprios órgãos públicos encarregados de atendê-los. menores em situação de risco. dentre outros. é necessária a sua mais ampla divulgação no seio da sociedade. outras representações permeiam o imaginário social: “infrator”. onde “o segmento social das crianças na faixa da pobreza aparece como: carente. a mesma sociedade na qual pretende que seus alunos atuem de forma efetiva. Em vista dessa luta ideológica em torno da representação social da infância e da adolescência pobre no país. infrator. a escola precisa estar atenta aos diversos acontecimentos sociais e.4 Associadas ao termo “menor”. fruto de um amplo movimento histórico e social. no intuito de romper com determinadas atitudes e mentalidades arraigadas. representa um avanço institucional no país e atua de forma positiva em relação à proteção dos direitos da infância e da adolescência. de certa forma. Para que possa cumprir com êxito sua “missão”.

formando a base ou a estrutura da sociedade. de acordo com DURKHEIM (1989). de modo a dar continuidade ao processo de socialização do indivíduo. O indivíduo. . 3 – APORTE TEÓRICO-METODOLÓGICO: o estudo das representações sociais As representações sociais podem ser entendidas como um conjunto de categorias de pensamento. Portanto. as quais formam um sistema quando são compartilhadas pela grande maioria dos indivíduos que constituem um determinado grupo social. demanda ser amplamente estudado e comparado com outras leis e políticas para que possa fazer sobressair a sua lógica na prática. dentro do grupo. As categorias formam um sistema que se realiza de modo histórico quando o sentido das relações sociais de um grupo é transmitido de geração a geração. morais. econômicas. é compelido a repetir as ações que nele possui os sentidos adequados para a sua conservação e realização: “À medida que participa da sociedade o indivíduo vai naturalmente além de si mesmo. 44 – 45). de novas mentalidades a respeito da infância e da adolescência. que é a da proteção integral dos direitos da criança e do adolescente no Brasil. seja quando age” (p. as representações sociais. através da “pressão” que a sociedade exerce sobre ele. os indivíduos mantêm entre si relações sociais relativamente estáveis. ou seja. complementa o autor.46). o ECA. dependem da maneira pela qual esta é constituída e organizada. Dessa forma. etc” (P. quando. das instituições religiosas. Nas palavras do autor: “As categorias são representações essencialmente coletivas. exprimem sempre realidades que são coletivas e não meramente individuais. seja quando pensa. elas traduzem antes de tudo estados da coletividade. para que os professores e educadores em geral possam “saber lidar” com a criança e o adolescente contemporâneos. da sua morfologia. que nessa perspectiva pode ser compreendido como um conjunto de novas idéias e valores. valores e crenças morais. num contexto de inclusão social. quando interage e integra-se ao meio social.5 privadas.

ser analisado fora dos processos sociais e históricos que influenciam e. coibi-o de julgar com liberdade as noções que a própria sociedade criou. Por ser um fenômeno bastante complexo. Entretanto. que pode ser abordado através de várias perspectivas analíticas. da Pró-Reitoria de Extensão da PUC Minas. O percurso que o indivíduo faz da elaboração mental do conteúdo. ambas em constante interação. sua dimensão autônoma (individual) e sua dimensão estrutural (social).6 Essa “pressão” exercida pela sociedade sobre o indivíduo não permite que ele se manifeste integralmente como tal. que participaram do projeto “ECA vai à escola”. é orientado . não devendo. por isso. o indivíduo pode elaborar uma visão particular dos fatos e do meio a que pertence (DURKHEIM & MAUSS. A linguagem enquanto discurso não representa apenas um instrumento de comunicação. Para o estudo da representação social do ECA. ela permite que o indivíduo reflita mais livremente sobre a sociedade. fisiológicos e psíquicos. dentre outros. quais sejam. podendo ou não mudar os seus conceitos e. Compreende-se que o ponto de articulação das ideologias e. desenvolvido pela equipe do Instituto da Criança e do Adolescente – ICA. revelando as relações intrínsecas entre o lingüístico e o social. Representa também um modo de interação e de produção social. elemento de mediação entre o homem e sua realidade imediata. determinam sua produção. torna-se necessário uma investigação que envolva tanto a análise lingüística em seus variados matizes. 2003). pode-se considerar a linguagem e sua variante discursiva – o enunciado – em dois níveis fundamentais. em parceria com a UNESCO. Dessa maneira. conseqüentemente. isto é. no caso específico desta pesquisa. a ser expresso à objetivação externa – a enunciação – desse conteúdo. em que o outro desempenha papel fundamental na constituição do significado. a linguagem compreende aspectos individual e social. De acordo com BRANDÃO (1998:10): “Essa visão da linguagem como interação social. das representações sociais que emergem da linguagem das professoras entrevistadas é o discurso. Quando a “pressão” se enfraquece. além de conter aspectos físicos. em muitos casos. mudar de atitude em relação a ela. lugar de conflito. integra todo ato de enunciação individual num contexto mais amplo. captado através das entrevistas concedidas pelas professoras da Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte. assim como a análise sócio-histórica do discurso e de seus processos de produção e de reprodução.

valores ‘positivos’ ou ‘negativos’. pode ser individual. revela os anseios. opiniões e figuras que compõem a visão de mundo que ele engendra. o falante pode contribuir tanto para a manutenção das estruturas sociais vigentes. Nesse sentido. como para a construção de outras. muitas vezes sob a forma de mitos. mas é também social porque o indivíduo que fala (profere o discurso) utiliza-se de elementos sintáticos abstratos (temas. em que o homem cria outros universos. por seu turno. Ao enunciar um discurso. figuras. a análise aponta a formação discursiva à qual pertence determinado tipo de discurso. assimilando-o ou não. “lê” o discurso a partir do seu universo social e dialoga com ele. imagens) que materializam valores. provérbios. As permanências históricas. os temas. Por isso. buscando adaptar-se ao contexto imediato do ato da fala e. Como afirmou BACCEGA (1995: 21-22): “O embate entre os discursos ocorre tanto em nível sincrônico como diacrônico. a linguagem humana não deve ser encarada apenas de forma abstrata e sim como o lugar em que as ideologias. Este. as carências e os valores da sociedade em que vive”. Na ficção científica. os temores. Isso porque a sociedade se movimenta através da produção incessante de discursos que se cruzam. Desse modo. sobretudo. enfim. carências. por exemplo. o discurso de uma professora. justificativas e racionalizações presentes em seu contexto social. se anulam ou se complementam. O homem não escapa de suas coerções nem mesmo quando imagina outros mundos. e sim devem-se . Portanto. revelando sua materialidade. desejos. os desejos. Essa dinâmica tem seu momento crítico quando o discurso-texto se materializa e é captado pelo receptor. se esbarram. os desejos e os valores de cada agrupamento social específico se manifestam de forma concreta. as mentalidades. também constituem parte importante desse diálogo”. tomando corpo. estereótipos. Produzir um discurso e divulgá-lo é também agir em sentido mais amplo. do ponto de vista da análise do discurso. isto é. explicações.7 socialmente. por exemplo. se objetivando. deve-se considerar a linguagem não apenas como a manifestação individual dos sentidos. Nas palavras de FIORIN (1998: 149-150): “O que importa para o analista é que todo discurso desvela uma ou várias visões de mundo existentes numa formação social. a interlocutores concretos”.

“O Estatuto é maravilhoso desde que ele seja cumprido conforme está na lei”. “Eu vejo mais um lado negativo a questão da criança estar envolvida na questão do direito dela”. 15 anos na escola estadual e 13 anos na prefeitura.27). “Eu sabia que tinha sim”. -- H I Atualmente na coordenação da escola. suas opiniões sobre o ECA e sobre a questão da promoção e defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes na escola. na mesma escola. Tem uma diferença: tem ações que podem ser realizadas até 12 anos e acima de 12”. “Tenho o ECA e nunca li”. 35 anos na prefeitura. 4 – APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS: O que as professoras falaram a respeito do ECA Para melhor organizar a fala das dezessete professoras entrevistadas. Profª A B C D E F G Experiência profissional 18 anos na mesma escola. -- Conhecimento sobre o ECA Já ouviu falar. na história”.8 perceber os deslocamentos destas significações: “a produção de sentido está na sociedade. 4 anos na prefeitura. mais a questão teórica mesmo”. Leu por curiosidade. Os discursos trazem inscritas as diferenças de interesses e as propostas de caminhos diversos para os processos social e histórico da humanidade. A primeira etapa da análise. “Há muito tempo”. 17 anos de sala de aula. “Eu só ouvi falar e nunca peguei para ler. mas não sabe falar sobre ele. e outra. mas nota uma má compreensão sobre ele. “Deveria ser um Estatuto para a criança e outro para adolescente”. “dei uma olhada”. A análise do discurso infere sobre a visão de mundo dos sujeitos enunciadores e depois mostra o que determinou ou influenciou essa visão neles revelada. “Eu conheço e vejo que ainda está muito na teoria”. Acha importante. no entanto. adverte a autora acima citada (p. Só ouvi falar pela televisão”. “Veio garantir esses direitos. O quadro abaixo demonstra essa relação: QUADRO 1: O conhecimento que as professoras entrevistadas têm do ECA. 1 ano na prefeitura. . centrou-se na tentativa de identificar o grau de conhecimento das professoras sobre o Estatuto em relação ao tempo de experiência profissional. J L 12 anos de magistério. 8 anos no estado. “Vinte e poucos anos”. “Conheço um pouco do ECA. foram criadas duas grandes categorias analíticas: uma que se refere ao contexto social no qual se encontram inseridos os alunos das escolas visitadas durante a implementação do projeto “ECA vai à escola”. 12 anos na rede estadual.

.1 – Contexto sociocultural das escolas Num primeiro momento da entrevista. FONTE: ICA / PROEX / PUCMINAS. apesar de terem uma experiência profissional de muitos anos na escola. Quando eu entrei no. inclusive. “Tem duas coisas que eu queria rasgar e jogar no mar: uma é o Estatuto e outra é o Bolsa Escola”. baseado nos Direitos Humanos”. “Eu não tenho conhecimento do Estatuto”. A visão que eu tenho desse contexto é de uma crise social” (Professora M). Isso atrapalhou bastante. N 16 anos na rede municipal O 24 anos na rede municipal P Q R -Dá aula há 16 anos -- “Esta questão do Estatuto a gente conhece porque é muito falada e muito polêmica”. a violência que a criança sofre em casa. As professoras parecem resignar-se com esta situação e procuram quase sempre explicações nos fatores ambientais externos à escola para justificar o insucesso de alguns de seus alunos. [nome da escola]. Esse fato. elas mesmas não detêm um conhecimento um pouco mais sistematizado sobre o Estatuto. “Eu acho que temos o excesso de direitos e a falta de dever”. a família não tem como assumir seu dever” (Professora G).9 M Trabalha na escola desde 1996. Nota-se. “Primeiro a situação sócio-econômica: na situação de miséria que vemos aqui.. fica patente um certo incômodo provocado nas professoras pela situação de pobreza. Destaca mais os direitos e menos os deveres da criança e do adolescente. violência e indisciplina que vivencia a maioria dos alunos atendidos nas escolas. [ela] traz para a escola”. “Não conheço nada do Estatuto. que as professoras. porque aqui no. “Às vezes percebo que os pais são muito piores do que os meninos. o povo daqui piorou demais. alguns pré-conceitos. ele. neste ano. mas vejo como algo que protege uma criança indefesa”. ele não funcionava aqui. o não conhecimento prévio do ECA. gerando.. certamente vai interferir nas suas representações sobre ele. Observamos que o aluno que foi da gente no ano anterior. . Está apresentando uma série de problemas. Eu acho que o ambiente. está mais indisciplinado. 4.. [bairro da escola] é de nível baixo. Outro fator. “A questão do Estatuto foi uma boa intenção. A professora A reclama: “O que notamos é que a indisciplina está piorando a cada ano. pelo quadro acima.

Apesar disso. Existe. a questão da pobreza continua sendo vista como um fator real que interfere.. Aqui nós pegamos os meninos meio que largados à própria sorte. parece tomar. Para mim é uma realidade totalmente diferente da que eu era acostumada. A indisciplina. na rede estadual. no que tange à questão das representações sociais. com o tempo. [nome da escola] desde o ano passado e trabalho no Estado há doze anos. Eu estranhei demais no princípio. em certos casos. Há aquelas que clamam abertamente por atitudes “firmes” por parte das famílias e dos educadores a fim de controlar a “rebeldia” ou a “imprevidência” dos alunos. de forma bastante negativa. percebe-se que. principalmente. é uma outra preocupação constante na fala das professoras. apesar de refletir diretamente na organização do trabalho pedagógico das professoras. a situação de pobreza da grande maioria dos alunos. argumenta a professora B. são apresentados a ela como “naturais” ou “normais”. nota-se a dificuldade inicial na adaptação à sua nova escola – a do município – e sua estranheza em relação aos alunos que lá encontrou. A professora C argumenta: . ou a falta de disciplina do aluno na sala de aula e na escola. portanto. meninos de famílias mais centradas.10 No entanto. Hoje tenho mais facilidade de trabalhar com esses meninos do que com os meus lá”. em geral. uma família “convencional” – que segue algumas convenções – e uma outra “diferente”. Eu trabalho também numa escola mais central. Suas expectativas em relação à família seguem determinados padrões culturais.. ao menos em parte. Pela fala da professora B. com uma estrutura de família diferente da convencional”. ela deve ter conseguido romper. o que equivale a dizer que. o que se torna um desafio para algumas professoras. na vida escolar das crianças e na organização da própria escola. Hoje não. capaz de gerar conflitos de ordem cultural. capazes de disciplinar os alunos. A professora B relata: “Trabalho aqui no. ela encontrou “mais facilidade de trabalhar”. os quais. na “desestruturação” da família dos alunos: “A maioria é de pais separados. No entanto. uma dimensão estrutural bastante forte. certamente. com os rótulos ou imagens estereotipadas que comumente são associados às crianças que freqüentam as escolas da periferia nas grandes cidades. composta por pais separados e meninos “largados à própria sorte”. no imaginário da professora.

Não estamos preparados. respeita o seu corpo. Se não respeitam os pais. a violência no entorno da escola e a própria situação de pobreza em si. “Eu vejo que a maior parte das famílias. Reclama. mas pouco trabalhada no interior das escolas do município: o enorme abismo cultural que separa dois mundos bastante distintos – o mundo das professoras. bêbada. por não quererem nada mesmo. é possível perceber o porque da situação: a mãe chega mais desestruturada do que o menino. Então. Estamos trabalhando os valores..]. pode-se notar a sua expectativa em relação a uma “educação adequada que vem do berço”. não é nossa função. O que eles [os alunos] recebem em casa. quando um aluno está problemático na sala de aula. a “alimentação ruim”. E. Novamente. da nossa clientela nos dias de hoje. Os filhos não respeitam. Alunos indiferentes. menina. da falta de rigor dos pais na educação de seus filhos e também do reflexo disso no seu ambiente de trabalho. tais como a falta moral. a socialização o tempo inteiro” (Professora D). Geralmente. a escola trabalhar com um programa a ser desenvolvido é o que menos se tem feito.. hoje. Tem mãe que fala conosco perto do filho que não dá conta mais dele”. de um modo geral. fazendo uma incursão no imaginário da professora C. como vão respeitar outras pessoas?” (Professora E). com seus valores solidificados e expectativas determinadas. a educação vem do berço. A professora C continua: “Eles são extremamente carentes.11 “Dentro da sala de aula nós enfrentamos um problema seríssimo com relação a disciplina do aluno. reflete para nós. Toda essa situação de indisciplina por parte de alunos. a professora em questão. da falta de rigor na educação promovida pelos pais. A família não tem autoridade sobre os filhos. é de alunos que não tem uma educação adequada. aqui na escola. é uma instituição praticamente falida [. E não é a questão de estar preparada. Os pais não dão apoio. quando você chama a mãe. “A família está desestruturada. os pais não têm aquele pulso firme com eles [. O povo também está desestruturado. ou por terem uma alimentação ruim. Geralmente. A escola não tem condições de estar lidando com isso. a perda de alguns valores considerados como fundamentais na estruturação da “família convencional”. e o mundo dos alunos. . principalmente. revela uma questão fundamental. não têm disposição para aprender. Que futuro esses alunos vão ter? Eu me sinto pequena diante disso tudo.]. E esse reflexo. às vezes. com suas mazelas econômicas e dificuldades peculiares. Ninguém tem autoridade sobre ninguém.. O que mais temos trabalhado são os valores: respeita o seu colega. desmantelada”..

4.. nota-se uma contradição nos discursos das professoras entrevistadas: a maioria concorda que o ECA representa um grande avanço institucional e histórico a respeito da questão dos cuidados com a criança e o adolescente . é do ECA assumir um papel de vilão na história.” (Professora E). uma babá. “Tinha um menor no regime de liberdade assistida e a escola virou um verdadeiro inferno.. urgentemente.2 – Representações do ECA Diante dessa situação social que as professoras “desenharam” e na qual encontram-se inseridos seus alunos. o ECA passa a ser visto mais como um elemento “complicador” e menos como uma solução para os problemas por elas enfrentados no ambiente escolar. A tendência detectada na fala da maioria. Eu falei com Deus: me dê paciência” (Professora Q). o professor está precisando. Ao invés de ajudar. Quero ser simplesmente professor. de um projeto [de estatuto]. “O professor é uma pessoa sobre-humana. Eu nunca vou poder ser e não quero ser tudo isso. é o de um enorme choque cultural. um psicólogo. no embate entre as expectativas e os valores revelados pelo discurso das professoras entrevistadas e a dura realidade de seu trabalho docente. pois não sabe o que fazer [. No entanto. o Estatuto só atrapalharia ainda mais o trabalho das professoras na sala de aula e na escola em geral. Eu estou dando graças a Deus que já estou aposentando. “Ontem eu dei uma sacudida num [aluno].. atender aos alunos” (Professora F). O resultado desse embate refletese no desabafo de algumas professoras entrevistadas: “Eu acredito que. Todo mundo conhecia ele. é um médico. Ele está pedindo socorro. “Dá vontade de fazer um monte de buracos no muro e deixar esses meninos escaparem. inclusive policial. Graças a Deus voltou tudo ao normal depois que ele ficou tetraplégico em um combate no tráfico de drogas” (Professora G). como ontem foi aprovado o Estatuto do Idoso. senão todas as professoras entrevistadas.].. porque travamos uma luta com eles” (Professora L).12 O quadro que se desenha. mas quem fica.

da prática.] Por outro lado. Eles só tem direitos e não tem deveres” (Professora B). agora. se bater eu denuncio’ ” (Professora A). “Em algumas coisas eu concordo com minhas colegas. vejo que o momento em que ele [o ECA] veio foi extremamente importante.]. a pessoa escolhe. É muito complicado para nós lidarmos com o menino.]. mas. Eu acho que nenhuma lei vai ter esse trabalhão todo para piorar a nossa vida. nesta redondeza: ‘se encostar em mim. eu denuncio’. olhando o ECA como essa manutenção desses direitos que esses meninos têm.. Acho que tinha que dar um basta a determinados casos de violência que extrapolavam. Para a escola.. mas. eles perderam o limite. As diretrizes do ECA só valeriam no papel e. pois acham que estão totalmente cobertos por essa lei e que eles estão acima do bem e do mal. Às vezes nós falamos em mandar chamar a família e eles falam: ‘minha mãe não me bate. apesar da boa intenção da lei. Crianças queimadas com cigarro.. Tanto os pais. Principalmente aqui. quanto os filhos. Acho que.. com a família. Na escola. ele tem que ter vindo para melhorar a vida da gente. estão enxergando [no ECA] o que interessa a eles [. Agora. para mim é um avanço da sociedade. Ele veio. Ele [sic] só como questão do direito. dar um temor às pessoas que praticavam esses tipos de crimes [. Por que a criança não pode apanhar? O problema é a interpretação. “Olhando ele [o ECA] como lei. o professor está sem autoridade com o aluno por essas e outras coisas” (Professora E). mãe que bateu na moleira da menina. segundo as professoras.]. “O Estatuto é maravilhoso desde que ele seja cumprido conforme está na lei.. mas por outro lado. mas tem também o caso da criança ficar muito sem limite porque ela ameaça o pai.. o ECA é um complicador.. o ECA está longe de ser implantado ainda” (Professora G). caso de estupro. Não quer dizer que é para espancar o filho. no sentido de solucionar problemas vivenciados no cotidiano escolar das professoras: “Em certos pontos eu acho que [o ECA] foi bom. a família não tem como corrigir [. tem a má compreensão do Estatuto [. “Em termos de lei.. A Bíblia fala: castiga seu filho quando criança para que mais tarde ele não venha a te envergonhar. Por exemplo: a parte que fala sobre a preservação dos direitos da criança. por outro lado também. por outro lado. as quais seriam. Na questão da prática.]. elas não se aplicariam de maneira efetiva. irrealizáveis em seu contexto profissional. de uma certa forma.. Quer dizer: a criança tem direito de fazer o que quiser. porque eles só vêem a questão do direito [. As pessoas .13 brasileiros. Às vezes castigamos até mesmo numa conversa. ainda está muito longe. na prática social da escola. ou seja. há uma indignação compulsiva contra as novas orientações trazidas pelo Estatuto..

no nosso país. ao invés de tomarem atitudes que sejam educativas. não gosto de comentar” (Professora O). as pessoas têm um discurso bonito nas reuniões e não são pessoas da prática mais efetiva. Ela tudo pode. na grande maioria das vezes. O que eu observo é que. Esse direito é tão extrapolado que o adulto. quem educa.. um certo “mau uso” generalizado da lei provoca revolta e indignação nas professoras. o papel que. da sociedade e do Estado na conservação desses direitos. somos de falar muito e fazer pouco. “A sociedade vai criando um tanto de estatutos e um monte de baboseiras que estão por aí. enquanto lei que protege direitos da criança e do adolescente e aponta deveres da família.14 que trabalham com o Estatuto. baseada nos Direitos Humanos. algumas professoras entrevistadas. a menor parcela. passam a mão por cima e.. em detrimento de seu “lado positivo”: “Eu vejo mais um lado negativo a questão da criança estar envolvida na questão do direito dela. de fato. com uma hipocrisia tão grande que.. “Eu acho que a questão do Estatuto foi uma boa intenção. elas têm uma compreensão equivocada e. Isso é muito da nossa cultura. de Estatuto. Nós temos leis maravilhosas.]. Portanto. quando nos deparamos com a nossa realidade. a outra é o Bolsa Escola [. fica sem poder estar agindo com a criança [. fica a ‘Deus dará’ ” (Professora J). tanto o professor como o pai. aqui na escola. no conjunto de suas representações. “Tem duas coisas que eu gostaria de rasgar e jogar no mar: uma é o Estatuto.. na sala de aula. A nossa realidade é a seguinte: alguém deu um pum e eu não estou agüentando (Professora D). atestando a incapacidade de assegurar sobrevivência ao ser humano” (Professora R). simplesmente. “Antes do Estatuto. torna-se algo bastante necessário. atribuem aos educadores no contexto social em que atuam. a percepção inicial que as professoras têm do ECA é que ele. Às vezes assistimos e ouvimos muitas coisas e. você faz” (Professora P). mas que não funcionam. a autoridade do professor era maior: eu peço. às vezes. na questão de lei. Como conseqüência.]. como que. Então às vezes. Não temos cultura de seguir lei” (Professora N). é totalmente diferente. . No entanto. Eu vejo o Brasil. principalmente por sentirem-se sem autoridade moral para assumirem. apenas conseguem enxergar o “lado negativo” do Estatuto.

15 Nota-se uma forte resistência ao ECA por parte das professoras em geral. “Eu não acho que é humilhação uma criança ajudar a mãe em casa porque eu tinha deveres dentro de casa. meu filho mais velho tem trinta e seis anos e não me desafia.. O amor que existe é hipocrisia pura [. nós podíamos não concordar com o nosso pai. porque não aprenderam. eu tinha uma tarefa. A criança já vem de uma criação errada. uma outra realidade e que. a escola foi obrigada a atender um público que. Essa nova clientela da escola. assim como valores e expectativas inerentes a ela. mas meu pai estava em casa” (Professora Q). E a geração que virá vai ser pior porque não terão valores para passar para os filhos que virão” (Professora E). não teria a menor chance de se matricular e que ficaria excluída do sistema de ensino público do país.]. para tal.. até dez ou quinze anos atrás. Nunca fui chamada na escola. representam para o universo cultural das professoras entrevistadas. mãe. elas não se encontram preparadas para lidar. Acho que o que está faltando é o amor. a quase totalidade delas com muitos anos de magistério. Meu pai nunca batia. As professoras entrevistadas vêem-se presas a experiências educacionais e práticas pedagógicas adotadas em épocas passadas e definidas por determinados padrões culturais ou estilos de vida que hoje se encontram em fase de transformação ou transição. crianças e adolescentes oriundos de comunidades carentes. onde. Não obedeceram a pai. Até hoje. mas não por desconhecerem a importância de uma lei na organização da vida social. com um precário padrão de vida sócio-econômico. a religião “séria” e a própria escola ou a educação que tiveram. por um lado. Uma professora chega a ponto de criticar a própria escola na qual trabalha. Algumas professoras recorrem até mesmo a exemplos de sua própria vida familiar. Essa resistência deriva da própria dinâmica cultural. . em contraposição a uma “má socialização” de certos alunos: a família estruturada. mas ele era o nosso pai. um dever de ajudar a minha mãe e isso não me fez mal algum” (Professora R). como argumentos contrários ao ECA: “Eu nunca tive problema na escola com filho. Elas referem-se a exemplos de sua história pessoal para reafirmar a importância e a crença coletiva em modelos de instituições sociais considerados como os pilares de sua “boa socialização”. buscando argumentos para relacionar o suposto fracasso escolar de alunos com o ECA. “Na minha família.

até mesmo. Então. Eu estudei em escola pública e. Os filhos chegam com a pasta vazia.. que não foi feita para eles: “Quando o Estatuto coloca que a criança tem direito à educação. resulta em problemas genéricos no ambiente da escola: “Para mim. de famílias “desestruturadas”. sem discriminação. nas palavras da Professora G. se hoje estudasse em escola pública igual a essa. pra se divertir ou porque a mãe ganhou a bolsa-escola e ele tem que vir.]. não te dá uma atenção. atrapalham os professores. em suma. Ele vem para cá para merendar.. tidos como “sem cultura”. Mas dentro da escola tem um outro tipo de criança e adolescente que. eu tenho certeza que não seria o que sou hoje. Para que quer avançar ela não [sic] condições” (Professora L). no imaginário das professoras entrevistadas. de estarem freqüentando a escola “errada”. Ou a família o obriga... Acho que o Estatuto e a sociedade tem que discutir sobre isso. crianças e adolescentes pobres. o ECA. mas ele não quer saber disso. sem nenhum material. Temos um tanto de crianças que tomamos conta delas para não estarem na rua [. Por que a escola pública de hoje não oferece qualidade de ensino. por esta ter que aceitar. essa escola que está aqui. A família deixa o menino aqui e diz: ‘toma conta dele pra mim’. porque o ser humano não é igual. ao garantir o acesso de todas as crianças e adolescentes a uma vaga na escola pública. Não é que ele não tem. nenhum lápis. Essa minoria não deixa os colegas avançarem. qualquer tipo de lazer [. devido a essa meia dúzia que não querem estar nessa escola. nos desgastamos com aqueles meninos que não querem essa escola. não é para todos [. será que a criança quer estar na escola? Ela tem direito de escolher que escola quer? Será que tal escola é a necessária a ela? Eu vejo que é aí que começa esse angu de caroço todo.. Então. Ele gosta da escola se tivesse uma piscina. tem-se que. sem condições morais e materiais. você vê. o Estatuto seria um dos responsáveis pela má qualidade do ensino escolar da rede municipal. É a creche.. Desse modo.]. estão sendo prejudicados. tem meninos que adoram estar na escola. mas não estudando. coordenadora de uma das escolas participantes do . resulta num elemento “complicador” do processo de ensino-aprendizagem. segundo ela. Não vem aqui em hora alguma. sem “necessidade” de freqüentarem a escola ou. A Professora L continua seu discurso buscando questionar o direito à educação previsto no ECA. professores.]. a escola não é para todos.16 Na sua visão. ou o Estado o obriga”. mas a escola não é um lugar para todos. o qual. A lei fala que todos têm direito a escola. a escola deu a ele no início do ano. Nós.

certa maneira. sendo caracterizado por elas como um avanço históricoinstitucional do país. o respeito pelo próximo versus a violência praticada por alunos no interior e fora da escola. 5 – RESULTADOS DA PESQUISA: O que as professoras pensam do ECA A análise das entrevistas realizadas com as dezessete professoras da rede municipal de ensino de Belo Horizonte. de maneira ambígua. Mas o Estatuto os superprotegeria e. o ECA protegeria. seu avanço enquanto um conjunto de leis que vem promover a defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes. mais “cruéis” estariam fadados à sua “própria sorte”. precisam. mas que. No entanto. e uma outra representação “negativa” dele. mas principalmente por sua pretensa “falta de rigor” que limitaria as ações mais assertivas dos educadores em relação aos alunos. lotadas em três escolas de regiões diferentes da capital. Elemento “complicador” devido à compreensão que. o ECA é uma lei distante de suas realidades. por isso. Ao mesmo tempo em que percebem sua importância histórica. que moram nos morros e favelas da cidade. dentre outros. revelou que as mesmas têm uma compreensão difusa do ECA. o ECA de pouco adiantaria na solução dos problemas enfrentados na prática. que pode ser sintetizada como: uma representação “positiva” do Estatuto. por alguns motivos. devido à situação de pobreza e violência na qual se vêem envolvidas nas escolas. por lei.17 projeto “Eca vai à escola”. Na visão das professoras entrevistadas. mais “violentos”. mais “carentes”. devido a sua condição de risco pessoal e social. consideram que o Estatuto é necessário. para as professoras. . as professoras também têm uma percepção do ECA como um “complicador” para a escola. alunos que. os alunos mais “indisciplinados”. Acreditam que muitos alunos de origem pobre. as próprias professoras fizeram dele ao utilizarem como critério de verdade seus próprios valores e crenças morais: a família “convencional” ou “estruturada” em contraposição a família “desestruturada” de alunos os quais elas são. de uma educação mais ríspida no intuito de garantir a eles um futuro mais promissor. cabe frisar que as professoras. obrigadas a atender. segundo as professoras.

ficando mais “indisciplinados” e “violentos”. Representações “negativas”              Torna a criança sem limite.18 Existe a crença generalizada na fala das professoras de que o Estatuto protege demais a criança e o adolescente. Punição para quem maltrata ou comete “erros” em relação as crianças e adolescentes. fazendo com que eles se tornem pessoas “sem limites”. Representações “positivas”           Garantia de direitos. Longe da prática. pode-se notar uma confusão generalizada entre as opiniões das professoras entrevistadas. Maravilhoso no papel. “Angu com caroço”. Boa intenção. Abaixo. Não funciona. Longe de ser implantado. assim como seus direitos encontram-se publicados no Estatuto. assim como de suas famílias. as professoras entrevistadas. que as professoras tanto reclamam do ECA. algumas representações do ECA captadas na fala das professoras entrevistadas: QUDRO 2: Representações sociais do ECA segundo a fala das professoras entrevistadas. Melhoria de vida. Evolução da sociedade. Essa falta de responsabilidade da família em relação a seus filhos acaba “estourando” na escola. Daí o sentimento de “impunidade” por parte de crianças e adolescentes. onde as professoras são obrigadas a lidar com as mais constrangedoras situações envolvendo seus alunos. A confusão que. Permite má compreensão da questão dos direitos. Promove a impunidade. Baseado nos Direitos Humanos. Deveria ser mais divulgado na íntegra. Hipocrisia. de certa maneira. Provoca inércia das famílias. FONTE: ICA / PROEX / PUCMINAS Em vista dessas representações ambíguas. Extremamente importante. Atende a interesses específicos. acusam o ECA de só listar direitos e não deveres. “Baboseira”. Apesar de reconhecerem que é importante preservar os direitos da criança e do adolescente. Acreditam que as crianças e os adolescentes precisam ter seus deveres listados também. num . Fora da realidade. Não aponta deveres da criança e do adolescente. Discurso bonito.

E. 1990. 9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BACCEGA. 208p. 13 de julho de 1990. M. de fato. Linguagem e ideologia. a implementação efetiva do ECA nas escolas e na sociedade brasileira em geral. ONGs e cidadania: a sociedade civil brasileira na era da globalização. L.19 movimento dialético. N. DURKHEIM. M. Dentro do contexto que ora se apresenta. E. E. atrapalhe. M. V. São Paulo: Ática. F.87. São Paulo: Cortez. mas também de debatê-las com as professoras. As formas elementares da vida religiosa. J. In: RODRIGUES. Emile Durkheim : sociologia. Lei 8. FIORIN. n.069. 1997. Introdução à análise do discurso. (relatório da pesquisa Quanto vale uma criança negra? para o projeto Direitos humanos entre urubus e papagaios) . por isso. coordenação e funcionários para evitar construções de sentidos que sejam historicamente equivocadas e que. BRANDÃO. ROSEMBERG. Breve análise do trabalho desenvolvido junto às “crianças pobres” no Brasil. São Paulo: Paulus. Brasília. H. DURKHEIM. MAUSS. Cadernos de Pesquisa. A.ed. Palavra e discurso: história e literatura. nov. no sentido de não apenas divulgar as diretrizes do Estatuto. mas não compreende ou não aceita as determinações do ECA. São Paulo: Atica: 2003. reconhece.M. Estatuto da Criança e do Adolescente. 1998. São Paulo: Ática. BRASIL. H. VARGAS. Algumas formas primitivas de classificação. 1993. GOHN. 1998. Os sem-terra. O discurso sobre crianças de rua na década de 80. Rio de Janeiro.G. Campinas: Editora da Unicamp. torna-se premente a concepção e realização de projetos como o “ECA vai à escola”. José Albertino. 1995. São Paulo: Fundação Carlos Chagas. 1989.