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A concepção de Psyché em Jung e no Romantismo Alemão

Zilda Marengo Piacenti Gorresio

Mesmo os seres aparentemente inanimados
podem estar vivos; o mundo está cheio de deuses.
Tales de Mileto
(Kirk, Raven, Schofield. 1994, p.92)

A psyché é um daqueles
conceitos que envolve tamanha complexidade, que devemos ter muito cuidado ao tratar dela, a fim
de não nos enredarmos na trama dos conceitos que usamos para descrever esse grande enigma.
Por quanto sejam imprecisos, as palavras, as imagens e os conceitos são os nossos únicos
recursos.
Falamos de alma como algo que não exigisse maiores indagações. Esse conceito faz parte da
nossa linguagem cotidiana, como algo muito natural e, na psicologia, alma é palavra recorrente, mas
nela, toma vários significados.
Alma ou psyché são conceitos que sofreram constantes transformações na história do pensamento
e, apesar de estarmos familiarizados com a palavra alma ou psyché, seu conceito não é tão óbvio
assim. O conceito de alma é um conceito extremamente complexo, que junto com os conceitos do
Uno e do Ser, é um dos vértices absolutos da Filosofia Antiga, e que permanece sendo até hoje no
pensamento filosófico e no pensamento psicológico.
Portanto, de fato do que estamos falando quando dizemos psyché na psicologia em geral e mais
especificamente na psicologia junguiana?
A análise da noção de psyché na psicologia junguiana demanda uma rigorosa delimitação do objeto
em exame, pois devemos partir da problemática central colocada por sua metapsicologia, a saber:
quais são os pressupostos filosóficos adequados para argumentar conceitualmente os problemas da
sua metapsicologia, e qual é seu pressuposto filosófico concernente à psyché, já que o mergulho de
Jung num vasto oceano de erudição filosófica, coloca o risco de desviarmos da questão central.
Segundo nossa leitura há dois momentos decisivos na história do pensamento ocidental que
marcaram a visão de mundo no Ocidente. Ao nosso ver, esses dois momentos estão ligados ao
início e ao fim da Metafísica e, portanto, à concepção de alma, de homem, do cosmos e do divino.
Abordaremos rapidamente esses dois momentos, sem nos aprofundarmos neles, com o propósito
de marcar a importância deles para o sentido da existência humana, e para inserir a visão de alma
de Jung num contexto histórico filosófico.
Historicamente, no que diz respeito à alma, foi Platão quem concebeu o conceito ontológico de
psyché ou alma, no pensamento da Filosofia Ocidental. Nos meados do séc. IV aC. Platão funda, o
que será denominado por Aristóteles, posteriormente, de Metafísica, que é a ciência do ser
enquanto ser.
A alma foi pensada por Platão como substância, como um ser em si, produto da ação mimética do
Demiurgo ou o Noûs, assim como o entendemos, que contemplando as Idéias as mistura formando,
assim a Alma do Mundo. E será pela intermediação da Alma do Mundo e pela ação do Noûs que a
matéria será ordenada, pois, a matéria, como descreve Platão no Timeu, é uma espécie de

(Hume. pôs o (Noûs) entendimento na alma.. tomou a massa das coisas visíveis. 1993.. acompanhada do empirismo e do materialismo psicofísico. Assim. Conforme Kant. a revolução que ele empreendeu no pensamento filosófico. Kant. essa visão de mundo e de homem sofreu uma mudança radical no século XVIII.] . pela ação demiúrgica. à semelhança das Idéias.. se a separa da alma.b.. p. jamais poderia surgir um todo privado de Noûs (inteligência) que fosse mais belo que um Todo inteligente. o cosmos é um organismo vivo. sendo o conceito grego de psiché o eixo em torno do qual se construiu todo o discurso da Filosofia. E. Como podemos ler em Platão no Timeu em 30 a..) A “fabricação” da Alma do Mundo pelo Noûs (Demiurgo). De acordo com essa reflexões. errática e caótica. é ela que imprime a ordem do mundo. Kant irá averiguar se a metafísica é possível.. estreme de defeitos. feita à imagem das Idéias pelo Demiurgo. fê-la passar da desordem para ordem [. p.). possui uma intencionalidade. na medida em que isso estava em suas mãos. O desenvolvimento das civilizações antigas até o florescimento do classicismo helenístico marcou a grande odisséia do desenvolvimento da consciência do homem. inteligência e movimento próprios e.9) Como pronunciou o empirista inglês David Hume. Já antes dele. outro empirista inglês. quer mostrar que alma nela mesma. já que segundo ele. contemporâneo de Kant. a alma no corpo. Para Platão. mas movimentando-se desordenadamente e sem medida.existência desordenada. (Gusdorf.) há que dizer que o mundo é realmente um ser vivo. no seu Ensaio filosófico concernente ao entendimento humano (1690). Assim. Na Crítica da Razão Pura (1781). ou do mundo inteligível. A Filosofia greco-romana instalou. a metafísica pretendia que a Razão tivesse a possibilidade de conhecer não os fenômenos. a alma é compreendida como uma substância de origem divina. provido de alma e de entendimento (Noûs) e que foi feito pela Providencia divina. a imagem do homem ideal fundada na concepção de alma enquanto participante do divino. a metafísica ilude as condições indispensáveis de todo conhecimento possível. (Prónoia).( Platão. ele mesmo chamou de revolução copernicana.. concluiu que partindo de coisas visíveis por natureza. portanto. no seu Tratado da Natureza humana de 1734: Nós não temos alguma idéia de uma substância. e. e pela eutanásia da teologia[. Como nos diz Gusdorf: O século VXIII europeu é caracterizado pelo enfraquecimento da ontologia. dotado intencionalidade e movimento próprios. até a crítica do conhecimento efetuada por Kant. Desde então. A alma é a oculta e misteriosa realidade subjacente ao todo existente.] Depois de madura reflexão. (. e. também havia comparado a alma humana à uma página em branco. que o entendimento não pode produzir-se em nenhuma coisa. in Gusdorf. E. por outra parte. e modelou o Cosmos(. segundo nossa interpretação. desprovida de repouso e quietude.c : Desejando a divindade que tudo fosse bom. evidentemente. forma o corpo do mundo ou o Cosmos. portanto. aquela consistência substancial que dava equilíbrio ao tipo humano da idade precedente.. O que para . decisivo para o futuro da cultura ocidental. Essa conotação fez dela o pilar de sustentação da Metafísica ocidental. mas as coisas em si mesmas. e o conseqüente fim da Metafísica. No entanto. dirá que não.9) referindo-se à alma como substância como pensara a metafísica clássica. pois. 1993. ao longo das idades. Locke. inteligente. que unindo a Alma do Mundo à essa existência errática.O homem das Luzes perdeu sua segurança transcendente. 1993.

a alma. a condição última da possibilidade do conhecimento. a psicologia que não quiser se ver destituída de seu objeto metafísico último. que como tal. de . já que a alma não pode ser objeto de conhecimento. da compreensão da alma como substância. e do outro lado. Sobre a alma não podemos predicar nada. compete ao uso transcendental da Razão. a totalidade. no entanto. Com isso Kant marca o fim da Metafísica clássica. a alma. uma capacidade de síntese e de apreensão daquilo que captamos pela sensibilidade. nem “por si”. com Kant a alma como tabula rasa. reenviando esse princípio a outro fundamento.330) Kant introduz na “caixa craniana”. mas um transcendental. e que é captado pelos órgãos dos sentidos. e a possibilidade dela ser conhecida racionalmente. um ser para ser conhecido. pois. um puro pensável. ou seja. p. “ pura espontaneidade da unificação do múltiplo”. substitui o problema metafísico da arché da realidade. No entanto. compreendida pelos empiristas com tabula rasa um eu a priori. e se são pensados. Kant teve como tarefa mostrar. Nas palavras de Kant: Por esse “eu”. aquilo que chamamos de ser em si. Kant. sujeito do saber. pois longe está de ser substância. é um “ser objeto”. pois não é fenômeno dado na experiência. o Cosmos e Deus. já que não são objetos sensíveis. Kant refutou a doutrina Metafísica clássica da alma como substância simples e imortal. a alma substância-substrato de toda receptividade. como na relação do conhecimento. deverá desconfiar dessa “crença racionalista”. a Alma. um incognocível. esse eu transcendental é um X. que funda a possibilidade do conhecer. então.1997. por esse “ ele” ou por esse “ aquilo” (a coisa) que pensa. O Eu penso kantiano não é função da alma. um período que começara com Descartes. Esse “X” interior.ele é impossível. Portanto. substância não passa de um predicado. centro dos julgamentos válidos aos limites do entendimento. ganhou um “X” dentro dela. e fora concluído com Kant: o período do idealismo transcendental. suporte do conhecimento teórico dentro do limite do paradigma físico-matemático. para Kant não se trata da alma compreendida pela Metafísica como substância. a possibilidade que a Metafísica seja ciência. não podemos ter o menor conceito. Para Kant. a pluralidade. os objetos que se dão a conhecer às categorias a priori da Razão. que de um lado é vivência de um eu. o menor conceito. da misteriosa e oculta estrutura da realidade vivente. Kant marca um novo período da Filosofia. não passam de ilusões. pensada pelos empiristas. vivência de uma coisa. e admitir que o homem é um ser imerso numa natureza carregada de símbolos. nada mais se representa além de um sujeito transcendental dos pensamentos = X. são impossíveis de ser conhecidos. que é onde se dá a apreensão dos fenômenos anímicos. A identidade do Eu penso como unidade transcendental do sujeito cognoscente exclui. a única coisa que obtemos são os fenômenos que são inerentes apenas ao sujeito. aquilo que se dá a conhecer ao sujeito. Assim. ou. mas função da mente: suprema função unificadora da Razão. Para Kant o eu penso em sua individualidade universal. isto é. porque o único nível de realidade possível de conhecimento. isoladamente. como uma realidade transcendente. à parte esses. por conseqüência. de um juízo. que são seus predicados e do qual não podemos ter. é um incognocível. é um X que só pode ser conhecido através dos pensamentos que são seus predicados e dos quais. pois. (Kant. um ser posto logicamente pelo sujeito pensante ou cognoscente. Esse X a priori . como a essencialidade. Portanto. da qual nada se tem a declarar. ou seja. à Razão ela mesma. Portanto. contudo. e consagra o Eu penso como função transcendental. a unidade. de linguagem cifrada. Portanto. ou melhor. para ele. é o sensível. a unidade da autoconsciência que não é uma substância. não é nada mais que um X. também não se identifica com o res cogitans cartesiano. a ação recíproca. a partir dessa colocação de Kant. mas não “em si”. ou seja. a alma é um numeno. é uma forma lingüística. o sujeito transcendental. que apenas se conhece pelos seus pensamentos. e o fim da Metafísica. O eu transcendental de Kant. O eu penso de Kant. no tempo e no espaço. a causalidade. portanto.

330) Ainda citando Adickes. ( Lebrum. (Kant. p. devendo esquecer as utopias metafísicas e as suas vãs consolações. não passa de fantasmagoria. Como nos diz Kant: Somos levados pelo menos à fundada suspeita de que as idéias cosmológicas e com elas todas as afirmações sofísticas em conflito umas com as outras terão. segundo nossa visão. Rx43. e como é o caso da psicologia analítica. p. imortal. Todos as movimentos no mundo são explicados pelas forças da natureza. Kant e o Fim da Metafísica. já que para Kant. como podemos ler: Qualquer matéria animada move-se apenas pelo fato de que ela move algo de outro em uma direção oposta e vice-versa. Sendo assim. ao invés de pensar que é o quimismo glandular que engendra a alma. com finalidade. o homem se viu e se vê desligado do seu fundamento ontológico. a verdade passou a ser somente a verdade epistemológica (Kant). como pensou a tradição filosófica. (Rx40. Lebrum acrescenta o comentário desse: A matéria animada não merece nenhum lugar especial em relação à matéria inanimada. para as psicologias racionalistas. por uma “metafísica da Razão”.( Lebrum. p. portanto. Pois. mas do qual não podemos tirar nenhuma conclusão. dessa inversão. a realidade passou a ser somente a pretensa realidade dos fatos e. é blasfemo pensar que é a alma quem ordena o corpo. sua individualidade se apresentou e se apresenta a ele mesmo como problemática. que apesar do fato da metafísica da alma ter sido substituída. sendo essa última um epifenômeno da matéria.330) Segundo a interpretação de Gérard Lebrum em. 2002. já que seu íntimo não lhe propõe nada mais do que ilusão.436). no que concerne aos primeiros princípios do movimento. esse trecho é assim compreendido: Compreendamos: ( o movimento) apenas enquanto obedece à lei da ação e da reação e também à lei da inércia . por isso terá que se ater somente a exterioridade e à ordem dos fatos. possivelmente. pois. (A 490 B518) . p. É importante ressaltar. e como fizeram os pensadores românticos. é ultrapassar os limites da razão e do empiricamente verificável. é uma heresia ou uma presunção intelectual. para Kant deixa de ser um “organismo inteligente” ou um Zóon noétikon (animal inteligente) . como disse Platão. p. por fundamento um conceito vazio e puramente imaginário da maneira como o objeto dessas idéias nos é dado. como possuidor de uma alma substancial de natureza divina e. Pensar. Eles não nascem portanto nem sobrenaturalmente. e tornam absurdo o fato orgânico tal como Kant sempre o definiu. 1997. 2002. só se inverteu astuciosamente o fundamento anímico pela Razão.afeções e paixões.2002.330) Para Kant aceitar o ponto de vista da Metafísica sobre um Cosmos orgânico. A metafísica. inteligência e movimento próprios. Portanto. . Essas afirmações proclamam a impossibilidade de qualquer causalidade exercida por um princípio imaterial. as conseqüências. dos instintos e das pulsões. e tal suspeita pode já conduzir-nos ao caminho certo que nos fará descobrir a ilusão que durante tanto tempo nos extraviou. como a tradição metafísica pensou o homem. pois. como pretendemos demonstrar. Quanto ao Cosmo ou o mundo. 262). nem por um espírito. pela prestidigitação do intelecto ao longo do século XVIII e XIX. foram revolucionárias para a visão de mundo. qualquer interioridade invisível até hoje. atribuindo a ela uma substancialidade. é um desses conceitos ilusórios que se faz para a descrição da realidade. ou empiricamente comprovada (Empirismo). inteligente e dotado de finalidade própria. (Kant. ainda hoje. aqui novamente comete a falha essencial de querer conhecer o incognocível. portanto. in Lebrum. Até nos dias de hoje.

.. seu conceito vivo. exprime o mundo em perpétuo devir. filósofo romântico que sintetizou as idéias do Romantismo: Sem escuridão antecedente não existiria qualquer realidade da criatura. p.isto é.40) Ou ainda: O nascimento é nascimento da escuridão para a luz. e não um produto lógico do pensamento. esses processos têm a qualidade de consciência. também se compreende: apenas comportamentos mensuráveis. cuja tradução literal dessa palavra grega é abismo ou sem fundo. 1997. para os românticos a Totalidade. a saber. Essa é a sua tônica diferencial..1996. que seria o estudo da alma. O Romantismo: . pode apenas ser encontrado enquanto um sistema em si. passa a ser compreendido como uma totalidade viva e orgânica.G. é um complexo de luz e sombra e de matéria e espírito. pois. o Romantismo retomou a antiga concepção da Alma do Mundo tentando restaurar a tradição milenar do Cosmos estético-religioso. No entanto. na sua unidade encarnada. em alma ou psyché Portanto. uma visão pela mente (Noûs)... ao contrário. Ele abrange o sentido grego de theós . por Jung. O objetivo do movimento romântico foi pôr em evidência o Organismo total da Natureza.(Schelling.Renascença.(Schelling. Do seu modo. A Psicologia.130). até mesmo a compreensão mecanicista do mundo pensou a relação entre a parte e o todo. a expressão dos processos do substrato material e físico. p. Como? Não sabemos. O real pensado como Organismo é compreendido como um Todo preexistente às suas partes. in Schuback. o ser humano. H. reergueu a soberania da alma humana. pelo Romantismo alemão. e etc.. apesar da alma ser.Por isso. Para os românticos o mundo retoma a sua antiga concepção. Para eles.41) Essa escuridão antecedente. como produto do pensamento ou da Razão. como dizem alguns autores. uma idéia. Ao contrário.. são as psicologias da consciência. foi um movimento contra-iluminista. p. para se tornar “científica”. com a noção de inconsciente coletivo ou psique objetiva. o que temos hoje são as “psicologias sem alma”. dotado de sentido e movimento próprios.75). teve que amputar a alma. isto é.] Uma visão cósmica se situa na origem de cada uma de . esse grande organismo ou sistema vivo que é Cosmos. já existente. rompe com a concepção restritiva do paradigma físico-matemático e remete o homem no centro do universo humano. posteriormente. percepções empiricamente comprovadas . afetou a tendência dominante da Filosofia Iluminista.1991. chamada por Schelling de Ungrund. p. Como nos diz Schelling. no seio do qual se desenvolvem o homem e todos os organismos particulares. Os românticos contestaram as correntes racionalistas e empiristas do pensamento pós. Somente Deus __ Ele mesmo existente__ habita a pura luz. sendo por isso. Ou seja: o verdadeiro sistema não pode ser inventado. embora de maneira formal. para essas psicologias. porque. ao menos. e sua visão. seu estatuto ontológico.. em sua multiplicidade. Mas. pois somente ele é por si mesmo.[. se assim não fosse. é um princípio vital ou ontológico. não poderíamos falar. (Murachco. portanto. o ser humano não se reduz apenas à clara razão. para elas alma é igual à consciência. isto é.. no melhor dos casos. O movimento romântico do final do século XVIII e início do século XIX assinalou um momento decisivo na filosofia européia e. exprime a unidade de uma diferenciação incessante. devolvendo-lhe seu lugar privilegiado. como revelação do Uno.1991. As trevas são a sua herança necessária. reafirmada e altamente elaborada.(Schelling. isto é. aceita pela história das idéias como a verdadeira descoberta do inconsciente. é uma projeção. a descoberta do lado noturno da natureza da alma. porque sobre o rótulo de Psicologia. no entendimento divino.

. a hipótese de uma harmonia preestabelecida do mundo. in Gusdorf. do qual ele só pode ser suprimido por manipulações arbitrárias. Portanto. p. providência imanente. como tentou o homem romântico. O Romantismo restaurou assim.1993. Sua tese central. Essa idéia é tão antiga e se manteve sob formas as mais variadas até nossos dias de uma forma tão constante[. Essa intuição se afirmou.471) Criticando o racionalismo. de seu verdadeiro ser. como a organização só pode ser representada pelo relacionamento com um espírito. criando com isso uma ilusão de autonomia. intelectuais ou espirituais. sem zona de sombra.] O consciente banha-se no inconsciente. o homem romântico. ao numinoso e ao sagrado. em todos os tempos e lugares e segundo Schelling: . excessivamente unilateral da Razão. a respeito do homem contemporâneo. E é realmente assim.. A submissão às suas prescrições. enigma da própria vida e dos poderes do inconsciente.] que se é obrigado a supor que há no próprio espírito humano uma razão para essa crença de vida da natureza.. recolocando-se novamente como parte de um Todo maior. pois os valores coletivos atuais aplaudem e aprovam o homem que se identifica com o pensamento esclarecido.. mesmo dentro das incertezas. lógico e que acredita ter decifrado o enigma da Esfinge. por meio da inteligibilidade dos sinais . tomado pela hýbris da Razão e do subjetivismo. temos que admitir que o espírito e a matéria foram desde sempre indissoluvelmente unidos nas coisas. Compreendendo que foi exatamente isso que lhe restringiu o sentido da vida. o homem deverá abrir-se ao inconsciente. a fim de restituir a saúde mental do homem moderno. Essa neurose é fruto de um desenvolvimento. foi ter pretendido distanciar-se da vida e da natureza e fundar uma ordem de racionalidade independente. p. tornando-o prisioneiro da clausura dos axiomas.. o que Schelling chamou. Esse desenvolvimento unilateral da consciência é um fato. pretendeu dominar a si mesmo. (Gusdorf. assim como. Para tanto. para os românticos. a antiga imagem de uma realidade vital infinita em perpétuo devir. O homem racionalista. mas é necessário corrigir a dissociabilidade da alma causada pela hýbris da razão. os românticos viram que o grande “pecado” deste.[.. Com isso. na verdade. Essa característica de nosso tempo histórico afastou o homem das suas mais profundas raízes e. pressentindo seus ritmos e suas pulsões. o que conseguiu foi a perda de sua verdadeira identidade humana. sem pretender dominá-los.460) Para Schelling. por conseguinte.. é que nossa civilização ocidental contemporânea é neurótica. p. já pensada nos primórdios da Filosofia pelos presocráticos e depois por Platão. parece-nos. A característica de nosso tempo histórico é considerada neurótica. tornou-se um homem sem destino e sem espessura. in Gusdorf. é como o sentido da vida encontra sua fonte e seus recursos para se orientar através de seus obscuros traçados.”( Schelling. o universo e a natureza.. da natureza e do espírito. que se mostra perfeitamente racional.1993.nossas intenções práticas. “de estado de natureza da filosofia.] é por essa razão que o espírito humano concebeu a idéia de uma matéria organizando-se ela mesma e. (Schelling. O homem romântico deixou-se guiar e agir em conformidade com a ordem da Natureza. recobrou aquela imagem tão antiga do divino como ordem da natureza. Também Jung criticou o homem das Luzes. a primitiva aliança do homem com o universo e com o divino. 1993. que falsificou a compreensão da condição humana. recusou ser prisioneiro da ordem mental limitadora do homem das Luzes. que pressupõe o campo total do mundo.321) O mundo retomou. [.

Para Jung. 1997. em busca da totalidade. pertencer é um modo de ser cuja especificidade é revelar em si mesmo o outro sobre o qual se assenta. como podemos perceber. Também para Jung essa é a grande tarefa humana. na compreensão dos símbolos. que em sua psicologia.. Um novo centro ontológico e antropológico é retomado pelo Romantismo e pela Psicologia junguiana . entre realidade fenomenal e noumenal. Ele se pronuncia na história individual. pois a ele pertence.] revela uma concepção do homem que se funda sobre tudo que se denominou de espírito (Geist) na filosofia. e onde o microcosmo que é o homem. [. Como nos coloca Márcia de Sá Schuback. como todos os substantivos em língua alemã) [. p.. por isso a existência não nega o fundamento mas o realiza. na psicologia e na teoria da cultura.. ser é pertencer ao Todo. buscar. revelando-se e se afirmando a cada instante de sua existência.do espaço de dentro. une-se ao macrocosmo que é o divino ou a Natureza . O Selbst para os românticos. Os pensadores românticos. recebe o nome de individuação. expressão da unidade dos opostos. nostálgico do fundamento.] das Selbst. Para Schelling. buscaram um único princípio ontológico ou metafísico. (com letra maiúscula. para resolverem essa cisão. a doença. Kant. tratavam de resolver as antinomias do sistema filosófico que o mestre de Köenigsberg. seria o centro que se situa no coração espiritual de cada ser humano. como ser único que é. entretanto. Selbst é um substantivo alemão neutro que revela a concepção do homem que se funda sobre tudo que se denominou de substância ou sobre tudo que se denominou de espiritualmente essencial. bem como da Psicologia Analítica. é um dado ontológico e ao mesmo tempo antropológico. uma existência à qual os fenômenos de uma vida se subordinam e da qual derivam. Sendo assim. individuar-se é revelar o “outro de si mesmo”. desde o instante em que o ser pessoal vem ao mundo. como se costuma referir. enquanto participante e pertencente à unidade cósmica na qual se insere. Centro de convergência do “de fora” e do “de dentro”. o que define a eternidade da nossa existência e de nossa consciência.. Jung propôs também uma nova subjetividade em que o macrocosmo e o microcosmo se unem no coração espiritual de cada homem.] é menos empírico e experiencial do que o correspondente em inglês (self minúsculo) e. o qual é chamado de Selbst.208) Herdeiro do Romantismo. também. pois. dois termos: “ die Sucht” que não significa. os quais intervêm como um guia interior e escapam às conceituações do entendimento racional. e a irredutível oposição entre o mundo da natureza e o mundo da espiritualidade. de difícil tradução para outras línguas. manifestado no começo do começo. e . espaço da imaginação ativa. linguagem do fundamento.. como a personalidade verdadeira. em si mesma. (Balenci. é revelar o fundo e fundamento de si mesmo.. que se define como ímpeto de espalhar-se sempre mais. e. foi a busca da totalidade. o que lhe restituiu o sentimento de unidade com o divino que o funda. nostálgico de Deus. deve ser buscado fora do espaço-tempo fenomenal. “mais substancial e espiritualmente essencial [. em O Começo de Deus: Nostalgia é aqui a palavra escolhida para traduzir a expressão alemã “ Sehnsucht” que reúne. havia deixado: as antinomias entre sensibilidade e entendimento. isto é. conferindo à identidade humana a excentricidade da sua individualidade. utiliza : o substantivo neutro alemão Selbst. fundamento da individualidade. como podemos ver. o Self. O Selbst ou Self. mas vício. Instância trans-empírica. Jung. sobretudo. O romântico aspirava à superação de todo dualismo e à integração dos opostos. A tônica do movimento romântico. intrínseca a cada ser humano. Na compreensão de que ser é pertencer. ele era nostálgico do todo. assim denominado por Jung.

tomada no sentido do primeiro fundamento obscuro e da primeira pulsão da existência de deus.[. ao mesmo tempo. onde eu sou inseparável disso ou daquilo..4546) Esse trecho mostra a viva idéia que o inconsciente coletivo é muito mais que um legado histórico. Cito Jung: . em parte. não pretendeu dominar totalmente sua vida.190) Isto foi também o que Jung chamou de função religiosa ou instinto de individuação. prg. CW 12.] Esta representação é. CW 9. e. nem alto nem baixo. Jung fornecerá provas da sua presença e de sua ação significativa e factível. Ou ainda: . O inconsciente coletivo de que Jung trata aqui é o de um organismo vivente. 1993. nem bem nem mal. de maneira inesperada. o entendimento – a palavra desta nostalgia. pleno de uma indeterminação espantosa.. assim denominado pelos românticos.) Ainda nas palavras de Schelling com relação à nostalgia. É o mundo da água onde paira. gerar-se. a auto-realização (a individuação) não é outra coisa em linguagem metafísica e religiosa.. em grego. Através desses estudos comparados. podemos ler que o inconsciente coletivo é: . atual e vibrante. Desse fundo misterioso dessa realidade substancial.. Part I.1993. onde eu sinto o outro em mim e onde o outro me sente enquanto sendo eu. p. que incluiu o Ungrund (abismo).(Jung. fez com que o homem romântico se compreendesse de maneira mais total. tudo o que é vivente.. “assim pulsão de palavra. demonstro que a alma possui uma função religiosa natural. ou seja. de motivos religiosos.. 1997. Por ela deus vislumbra a si mesmo numa imagem semelhante.. alma de tudo o que vive. ou apenas a somatória da experiência da humanidade.188. como nos primeiros escritos Jung havia salientado. por isso. suspenso. onde a dimensão ontológica do inconsciente fica evidenciada. a dor que se sente por buscar o retorno e não encontrá-lo. como sombra e luz. nem meu nem teu. (Jung. busca do nome. onde começa o reino do “simpático”. p. A Nostalgia diz. nem aqui nem lá. já que percebeu que essa. CW11. [. é uma objetividade vasta como o mundo e aberta ao mundo inteiro. lemos: Em correspondência à nostalgia.”( Schuback.. Jung nos transmite aqui .(grifo nosso) [. p. eu estou ligado ao mundo numa ligação tão mais imediata.233) Essa nova compreensão ontológica do homem. o que em linguagem psicológica chamamos de inconsciente ou psique objetiva. através numerosíssimas descrições e exaustivos estudos comparados de mitologia.“das Sehnen” que diz o querer voltar e retornar.. que é o fundamento de toda existência. um espaço sem limite. na obra de Jung. uma representação reflexiva e interior. ( Schuback. e.41) O fundamento da existência é nostalgia originária. enquanto nostalgia originária... (grifo nosso) O inconsciente coletivo é tudo salvo um sistema pessoal fechado. como fundamento do ser. é pulsão de existência.. Jung pode demonstrar a existência de um fundamento anímico universal de todo ser humano. (Schelling. do que encarnação divina (no homem). e.14). que parece não ter nem interior nem exterior.. prg. e. de sonhos e delírios.1993. seu legado filogenético.1991. no próprio deus. 1991. no inconsciente coletivo. ao qual deu o nome de inconsciente coletivo. à medida que esta representação não pode possuir nenhum outro objeto a não ser deus.] reafirmo que a tarefa mais nobre de toda a educação (do adulto) é a de transpor para a consciência o arquétipo da imagem de Deus.... prg.] Lá. Recolhemos algumas passagens. Citando Jung. escapava-lhe ao controle. ( Jung.

contudo capaz de se diferenciar em infinita multiplicidade.. ser é pertencer. ou animais sem plantas. os opostos se anulam. matéria com espírito. que é aparentemente destacada da tessitura do inconsciente coletivo. Porque como o peixe pode dizer “eu sou o mar”. Mundo e indivíduo são partes de um só e mesmo Todo. isto é. e talvez animais não possam ser sem o homem. Ele é a Alma do Mundo. também.é quase uma conexão. o inconsciente coletivo é o fundamento de toda forma de existência.. Então. aquela unidade ou concreção. e assim por diante.180) O inconsciente coletivo é pois. árvores não podem existir sem animais. p.] Quando aceitamos este ponto de vista temos que supor que a vida é realmente um “continuum” e destinado a ser como é. portanto. o fato exterior com a imagem interna.] porque são parte de um “ continuum” vivo. mas estão contidos nele. esse continuum vivente. o indivíduo com o mundo. onde todos os seres se fundam.[. 1976. suas funções.. Em outro trecho. ou o homem sem animais e plantas. não é de admirar que todas suas partes funcionem juntas [. vivemos e temos nosso ser. em grego é syntithemi __ sistema. é a alma de tudo o que vive. (Jung. da totalidade do mundo. deste ponto de vista. p. o indivíduo e o mundo. somos parte de um grande Cosmos. como a prima matéria de toda vida individual. ainda nas palavras de Jung : . (grifo nosso) (Jung. do mundo como um grande Organismo.ego (inconsciente) parece ser oposto a nós. Essa idéia exprime que as coisas são em conjunto. mas deve ser apreendida como uma realidade nela mesma. A compreensão do inconsciente coletivo como continuum vivente. eles não são absolutamente como ele. todos o seres e a vida humana fazem parte de uma grande tessitura toda interligada. reúne o subjetivo com o objetivo. num modo peculiar. Jung reúne. Jung expressa a idéia de Alma do Mundo com mais clareza. toda uma tessitura na qual as coisas vivem com ou por meio uma da outra. em que. surge a questão se estamos contidos no oceano. Essa grandeza. Portanto. portanto. Assim. uma unidade. isto é. O inconsciente coletivo nos aparece como uma rede em que todas as formas de vida estão inter-relacionadas e. essa Alma do Mundo da qual somos apenas uma parte. mais precisamente Schelling. quando vemos isto. ao dizer que o inconsciente coletivo é um objetividade vasta aberta ao mundo inteiro. com o ego flutuando sobre ele como um pequeno barco. 1976. ele é um meio que. o inconsciente. Cito a passagem em que . Por isso. em que cada ser individual está mergulhado.. lemos em Jung. dessa perspectiva. Nós estamos na psique e não ela em nós. é também ele mesmo.. Diz ele : Enquanto o não.]os peixes são unidades vivas no oceano.. naturalmente o sentimos como um oposto. em que aparece a metáfora do oceano e dos peixes nele contidos. concebe-o como uma vida objetiva. 1976.. (Jung. ou como um grande sistema. Esse dar-se conjuntamente. é onde nos movemos.[. uma realidade substancial em si mesma. para Jung. assim. a respeito da individualidade: Pode-se definir o indivíduo como sendo aquela Mônada. Quando nos referimos ao inconsciente coletivo. estamos falando de uma grandeza que não pode ser confundida com o mero pensável. seus corpos. p. isto é. a água e o peixe formam um “continuum” vivente. Assim. como pensaram os românticos. estão maravilhosamente adaptados à natureza da água. como pensou a tradição filosófica e como retomou o Romantismo.180) Jung vai ainda mais longe na sua descrição do inconsciente coletivo e concebe-o como arché de toda manifestação de vida. o que evidencia a qualidade do inconsciente coletivo como Alma do Mundo. Assim compreendido. Traz a idéia de que entre a vida do grande todo e a vida humana existe uma relação de pertença.. assim o mar pode também dizer “eu sou o peixe. o corpo com a alma. mas depois entenderemos que o inconsciente coletivo é como um vasto oceano. pois.180) Aqui está implicada a idéia de um todo orgânico. abarca todas as espécies de vida. Por isso que o ser individual só pode ser pensado em relação ao Uno que o constitui.que o diferenciado ou o individual se dá conjuntamente à totalidade do mundo. E sendo a coisa inteira uma tessitura.

uma realidade ordenadora ou formas estruturais ocultas denominadas arquétipos. prg. e em última análise.. E foi a partir da redescoberta da linguagem simbólica. p. na idéia de Unus Mundus. em última análise. ou um “órgão” intermediário através do qual a natureza fala ao espírito e o espírito à natureza.. lado a lado. assentam-se em fatores transcendentes e irrepresentáveis. porque. formular uma visão unificada de mundo também foi a preocupação de Jung.(Jung. mas até mesmo uma certa probabilidade. da totalidade do mundo fundada sobre a experiência. in Gusdorf. A hipótese de um inconsciente subjacente à toda realidade caracteriza a pesquisa psicológica de Jung. e o Espírito a Natureza invisível. 1993. ao formular uma psicologia não cindida entre natureza e espírito. uma filosofia da natureza deve ter por tarefa deduzir dos princípios a possibilidade de uma natureza. ao passo que essa suposta e aparente divisão de duas realidades.] ele deve. se é sincero. (Jung. além disso.(Schelling. Jung expõe claramente sua visão unitária da realidade matéria e espírito. apoiam-se numa unidade subjacente. que se percebeu que a natureza nos fala de uma maneira muito mais inteligente que o nosso pensamento reflexivo. quer dizer. É um todo orgânico. in Gusdorf. há não só a possibilidade. ele não compreendeu [. Como professou Schelling.. se acham permanentemente em contato entre si.180) Aqui. Cito Jung: Como a psique e a matéria estão encerradas em um só e mesmo mundo e. Mas todos são sempre feitos da matéria do inconsciente coletivo. sendo grande sua contribuição para a Psicologia nesse sentido.essa perspectiva aparece: E talvez seja apenas o modo pelo qual ele é destacado. p. e devemos nos mover em direção a algo em suas partes antitéticas de maneira a ser capaz de lidar com ela em todo caso. a alma e a matéria são. de que a matéria e a psique sejam aspectos diferentes de uma só e mesma . não compreendemos a natureza da vida psíquica como tal. 1976. que indica o indivíduo particular. O inconsciente coletivo é a matéria ou a substância que está em tudo. o pensamento do real pressupõe uma aliança entre o espírito e o real. Para Schelling.. pois é Natureza...1993. . o conflito entre natureza e espírito não é senão o reflexo da natureza paradoxal da alma: ela possui um aspecto físico e um aspecto espiritual que parecem se contradizer mutuamente. Em suas palavras: . um tendo mais desta substância e menos da outra. esta forma ou aquela forma. para ele não há um fio misterioso que liga nosso espírito à natureza. tal como a intuição primeira da Naturphilosophie havia concebido a Natureza. em que as partes estão unificadas por serem constituídas pela mesma substância. (o indivíduo) apenas o tamanho ou a forma como é talhado. onde espírito e matéria são talvez formas de apreensão do mundo. a acepção dos termos matéria e substância é a mesma. expressões do ser em si . segundo Jung. mas antes: A Natureza deve ser o Espírito visível. porque. pois através da observação de fatos psíquicos.461) Daí que o Espírito conhece a Natureza.(Schelling. Para efeito de comparação entre Schelling e Jung. em última análise. de fato. Portanto..680) Como vemos. p. Todas às vezes que o intelecto humano procura expressar alguma coisa que . estar pronto para contradizer-se. a que se dá através da imaginação criativa e da intuição pura. Jung deduziu e demonstrou uma realidade oculta subjacente a todo fenômeno..460) E isso foi o que Jung fez. CW 8. como herdeiro do romantismo.1993.

O inconsciente.393) Diante da leitura desses textos. que em alemão carrega a idéia de movimento. portanto. num artigo cujo título original é Die Entscheierung der Seele (Tirando os Véus da Alma). na qualidade de ser espiritual. ao que denominou esse aspecto do inconsciente.. . ou seja.. prg. O inconsciente coletivo.. assim. ou exprime sua existência. capaz de poder produzir livremente imagens sem depender de estímulos sensoriais exteriores e. devemos admitir que o inconsciente é um ser em si. compreendida como Alma do Mundo pela tradição filosófica. Assim. Esta forma de existência só pode ser “transcendental” porque. portanto.. o inconsciente é pensado como conhecimento absoluto. carregado de significado. 1993. é a misteriosa ordem do mundo.. de 1952.(Jung. Tal simpatia universal do mundo.um princípio de atividade e de movimento espontâneos. Jung aborda mais um aspecto do inconsciente coletivo. referese à qualidade atemporal do inconsciente coletivo e dá ao inconsciente a qualidade de conhecimento absoluto. um tempo eterno. ou como um contínuo espaço-tempo.[. (grifo nosso) (Jung. 1993.938) Esses são alguns dos trechos mais metafísicos da obra de Jung. O conhecimento absoluto do inconsciente de que fala Jung. dotado de conhecimento absoluto. vemos que Jung atribui ao inconsciente coletivo a qualidade de um ser em si. O inconsciente coletivo pensado como um continuum vivente. CW 9.. Conforme as palavras do sábio de Zurique. o inconsciente tem o poder de movimentar-se espontaneamente. um contínuo onipresente e um presente sem extensão. Ele é a substância ou matéria. a unidade perdida entre o homem e Cosmos. (Jung. consequentemente. a indissolúvel tessitura que liga todos o seres.. que é característico dos fenômenos sincronísticos [. como um “contínuo espaço-tempo”. isto é.coisa. de espiritual. nas palavras do mestre : . bem como a hipótese da existência de um continuum espaço-tempo . e natureza e espírito. da mesma forma que organiza e dá forma a toda exterioridade existencial. contém.CW 8. coloca as partes componentes do todo em necessária simpatia umas com as outras. como no-lo mostra o conhecimento de acontecimentos futuros ou espacialmente distantes. prg. prg. 1993. em um contínuo espaço-tempo irrepresentável.418) Ainda em seu estudo sobre a Sincronicidade um Princípio de Conexões Acausais. tem também o poder de organizar e ordená-las significativamente.]serve de base à hipótese do significado subsistente em si mesmo. ao nível das imagens internas. Em 1931. o dinamismo próprio. Jung recobra. de organizar as imagens de maneira autônoma e soberana. independente qualquer conhecimento que o homem possa construir. Ainda. lemos: O conhecimento absoluto. Os fenômenos da sincronicidade. se situa em um espaço psiquicamente relativo e num tempo correspondente. como ordem natural e necessária de todas as coisas. não por atribuir ao inconsciente uma qualidade espiritual em oposição à matéria. mas por uma analogia a palavra Geist. faz com que o Ego (que vive na ordem seqüencial do tempo) perceba como coincidências significativas. a arché ou a realidade oculta subjacente à toda existência. estamos inseridos no conhecimento absoluto. um tempo qualitativo. pois considerando as afirmações acima. nos faz pensar na imortalidade da alma humana. nossa capacidade de conhecer é dada por sua solidariedade com o conhecimento absoluto.] apontam nesta direção. Se consideramos o inconsciente como conhecimento absoluto. que exprimem a existência de uma outra espécie de tempo.. disso resulta uma existência psíquica que escapa ao arbítrio da invenção e da manipulação da consciência.. portanto. O inconsciente. os assim chamados acontecimentos sincronísticos. CW 8. em seu estudo sobre a Símbólica do Espírito que veio a público em 1947.

pág.. compreender o inconsciente coletivo como sendo.. nossa consciência não exprime a totalidade da natureza humana. em última instância. 1993. pois a trama das raízes é mãe de todas as coisas.(Jung. como podemos ler: A alma (no sentido de consciência) não é de hoje. CW5. de maneira que. subsistente em si mesmo e possuidor de vida própria.traduzido para o português como O problema fundamental da psicologia contemporânea.. segundo Jung. que segundo nossa interpretação. ela é a floração e fruto de um momento específico dessa prodigiosa evolução criadora. o Self. 637) A consciência é a expressão de um momento da história da humanidade. as condições históricas são determinadas por constelações arquetípicas que marcam os períodos históricos. nesse texto. Assim.(Jung. 1993. quando inclui a existência do rizoma em seus cálculos. compreenderam a consciência como a expressão da relação unitária entre o homem e o Todo. Assim . um “primum movens”(primeiro motor). Bem longe de ser separado do mundo exterior. bem como Jung. O que chamamos de imaginação criativa designa essa “zona do meio” onde se unem as pulsões e as impressões do espírito. uma presença espiritual que tem objetiva realidade [.. 1993. Jung compreendeu a consciência. mas talvez esteja subordinada inconscientemente a uma consciência mais ampla.] mencionei a possibilidade de que a consciência de nosso eu não é necessariamente a única forma de consciência de nosso sistema.. elementos constitutivos do inconsciente coletivo. que se constela segundo a “Vontade” do fundamento. CW 8. [. é a revelação somente de aspectos parciais dessa vida psíquica em obra. ao contrário. nossa consciência se funda sobre consciência absoluta. Diz Jung. Por que se constela dessa forma ou de outra. que para Jung. Os românticos. esse novo nome. prg. Quanto aos arquétipos. XXIV) parênteses nosso Ainda em outro trecho de sua obra. é a expressão da grande ordem que determina misteriosamente. que transcende capacidade da nossa parcial consciência de apreendê-lo totalmente.(Jung. cada momento histórico da cultura possui uma estrutura arquetípica única. a partir de 1944. a teoria do conhecimento reduz os arquétipos a um número relativamente pequeno de . é algo objetivo. é um fato contingente modelado pelo tempo e relacionado com suas condições históricas. é e permanece apenas uma parcela da mesma [. que se desenvolveu a partir do perene rizoma subterrâneo e se encontra em melhor harmonia com a verdade.] o psíquico não é. é um mistério. Jung saliente que a consciência de nosso eu é apenas parte de uma consciência maior. e não se define por um começo radical. nas profundezas do ser. lemos: . que por sua vez.. prg.. é importante salientar. A consciência. como o próprio Jung coloca .666) Podemos. a respeito da psique: O psiquismo aparece como uma fonte de vida.. dotado de intenção e finalidade. a aparição dos seres e das formas no seio do organismo do universo. Vale dizer que o momento histórico é revelação do fundamento. Cito o autor: . Jung usará o termo “psique objetiva”. CW 8. A consciência individual é apenas a flor e a fruta própria da estação.. nossa consciência não está desenraizada de seu fundamento. portanto. que são estruturas a prior. ou aquela mesma substância única. marca a realidade ontológica do inconsciente. ou as percepções “ do mundo de dentro” e do “mundo de fora”. portanto. não se restringem às categorias da Razão. sua idade conta muitos milhões de anos. ou seja.. o mundo interior só existe para ele e nele. Jung introduz o termo “psique objetiva” que é o equivalente a inconsciente coletivo e.] o resumo de tudo o que é subjetivo e do arbitrário...

Paris. [. Como bem se sabe. dada pelo relacionamento intrínseco com a realidade histórica e cósmica da qual é parte. então o inconsciente coletivo é uma realidade ontológica. na qual o homem está inserido e da qual sua alma individual é uma combinação original da Totalidade divina.1993. Princenton: Pricenton Univerty Press.275). Não é uma página em branco que se constitui a partir das impressões sensíveis vindas de fora. CW 8 Princenton: Pricenton Univerty Press..CW12. Le Romantisme I e II. Turino: Ed. e.. onde se inscrevem as informações exteriores captadas pelos órgãos dos sentidos. The Archetypes and the Collective Unconscious.1993.G. Jung. . (Jung. ou um incongnocível . a idéia muito antiga da alma como realidade substancial e como Alma do Mundo.14) Sendo assim. (Jung. como pensou Kant. CW 5. Jung.(1997). psique em Jung deixou de ser um mero “pensavel”. Se os arquétipos correspondem às idéias metafísicas. Symbols of Transformation. prg. prg... The Visions Seminars. Georg.. Marco. logicamente limitadas. CW 9.] Assim como o olho está para o sol.. a alma não é um mísero vapor. Platão confere um valor extraordinariamente elevado aos arquétipos como idéias metafísicas. propõem ao homem o mistério de sua presença.. [.] deve haver na alma uma possibilidade de relação.]. como denominou Kant. Esta correspondência. a filosofia medieval desde -. tampouco. Portanto..CW8.. Éd. C.. isto é. sua concepção de arquétipo é ontológica e não correspondem às categorias kantiana. a alma humana: . (1993).G. como ele mesmo diz. (1976). Em nossa opinião. A alma humana. ao menos que se compreenda que a natureza seja também.G.. é o arquétipo da imagem de Deus. redescobrindo através de sua prática analítica. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Balenci.Agostinho – do qual tomei emprestado a idéia de arquétipo – até Malebranche e Bacon ainda se encontra dentro do terreno platônico. Jung. do entendimento.] aquilo que torna a alma capaz de ser um olho destinado a contemplar a luz. um mero adjetivo. Diretto da Aldo Carotenuto. como “paradeígmata”. assim compreendida como realidade ontológica. prg. o divino.I. formulada psicologicamente.(Jung.1993. pois de outra forma jamais se estabeleceria uma conexão entre ambos. um “nada mais do que”. uma das mais importantes contribuições de Jung ao pensamento contemporâneo é o de ter reconhecido a realidade da alma.11) Ela contém [. The Struture and Dynamics of the Psyche..G.(1993). C.. Não é esse lugar vazio. portanto. Gusdorf. Isto requer de sua parte. C. configura uma nova identidade ao homem.categorias. se reduz ao sujeito do conhecimento. Jung. a alma está para Deus. Sendo assim. ou apenas natureza. [. uma extensão ilimitada e uma profundidade insondável. (1993). Payot & Rivages. forçosamente ela deve ter em si algo que corresponda ao ser de Deus. um puro pensável. Torinese. [. C. CW12. (1993). a intimidade da relação entre Deus e a alma exclui de antemão toda e qualquer depreciação desta última. Zürich-Switzerland: Spring Publication.] Ora.possui a dignidade de um ser que tem o dom da relação com a divindade. Trattato de Psicologia Analítica. Ao contrário para Jung.. Pricenton: Princenton Univerty Press. o Eu transcendental.

F. Kant. Trad. Raven. C. Trad.S. Kirk. São Paulo: Ed. Timeu.(1997). Ed Universidade Federal do Pará Platón. (1994). A Essência da Liberdade Humana. Trad. Schelling. Vozes. (1993). Os Filósofos Pré-Socráticos. J. CW 12.E. C. (1993). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Trad. Maria Araujo. Schofield. 1. RJ: Vozes. (2002) Kant e o Fim da Metafísica..rubedo. Vol. Obras Completas. Marcia de Sá Cavalcante. Márcia C. Schuback. Petrópolis. Trad. Gérard.Princenton: Pricenton Univerty Press. www.W. Calouste Gulbenkian.Jung. G. Immanuel. Psychology and Religion: West and East. de Sá Cavalcante. Psychology and Alchemy.G. Lebrun. Jung.(1996) A noção de Théos. Carlos Alberto Louro Fonseca. Lisboa: Ed. (1991). Petrópolis. (1997). CW 11. J.G. (1997) Timeu. Carlos Alberto Nunes. Diálogos de Platão. Trad. Martins Fontes. Aguilar. O Começo de Deus. Murachco. Revista HYPNOS. Platão. Ed. Princenton: Pricenton Univerty Press.. Crítica da Razão Pura. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. H. Carlos Alberto Ribeiro de Moura.psc . M.G. (1993). São Paulo: EDUC– Palas Athena. Fund.