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16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas

Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis

Grafite & pichação: por uma nova epistemologia da cidade e da arte
Celia Maria Antonacci Ramos
CEART/UDESC

Resumo
Grafite: grande canal de comunicação, sem conexão com fibra ótica ou cabo elétrico, mas
conectado diretamente com a cidade, com o público, com o aqui e agora. O grafite está na
cidade, no espaço público, não tem proprietário nem vigia. Na carona dos grafites há
sempre os rabiscos aleatórios, as mensagens de amor, as pichações políticas e os anúncios
publicitários. Os grafites criados nos “udigrúdi” das cidades levaram o ocidente a presenciar
pública e anonimamente o questionamento de muitos de seus valores estabelecidos, entre
eles o da ocupação dos espaços da cidade e o da apresentação e valoração da arte. Se
uma nova forma de política emerge desse contexto com ela uma nova forma comunicação e
de arte.
Palavras-chave: grafite, pichação, arte, cidade
Abstract
Graffiti: a huge channel of communication with no fiber optic or electric connection, but a
force directly linked to the city, the public and the here and now. It resides in the city and in
the public space and has neither owner nor guardian. Together with the buildings, random
scribbles appear, messages of love, political graffiti and advertising announcements in
various forms - murals, stickers and flyers- small posters created by the ‘wham bam’ of the
cities. These interferences in the spaces of contemporary cities have obliged its citizens to
witness publicly and anonymously the questioning of many established values, among them
the way the city spaces are occupied, their social politics and their appreciation of the value
of the art. From this context a new form of politics and a new form of art communication
emerges.
Keywords:graffiti,art, city.

Surgidos no contrafluxo dos planejamentos urbanos e misturados às outras
intervenções aleatórias nas cidades contemporâneas – propaganda eleitoral,
publicidade, recados de amor e/ou palavras e imagens consideradas obscenas -, os
grafites vêm despertando nossa atenção e provocando polêmicas nas políticas
governamentais, no circuito das artes, nas dissertações acadêmicas e nos
comentários rotineiros das rodas de amigos. Arte para uns, poluição visual para
outros, o certo é que os grafites já fazem parte do nosso dia-a-dia. Ainda que de um
modo geral essas intervenções sejam transgressoras e semelhantes, os grafites &
pichações apresentam técnicas e políticas diferenciadas de acordo com o propósito
de cada agente ou grupo em seu tempo e espaço definidos.
Entretanto, o estudo dessas manifestações de linguagem impõe restrições.
Primeiro, porque essas intervenções na esfera pública são difíceis de serem

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culturas jovens populares e/ou de oposição . como ocorreu em São Paulo. há sempre os rabiscos aleatórios. assim. na maioria das vezes. i Nesse contexto. o grafiteiro ou grupo apropriava-se de outro grafite. no espaço público. circular. que se manifesta fazendo uma série de comentários daquilo que vem do ‘udigrude’”. surgindo. interpretativa. Sua história não é mais linear. Entre inúmeras ações de protesto. de curta duração. já é mítica. determinam a retirada das intervenções. panfletos e jornais. as mensagens de amor. as pichações políticas e os anúncios publicitários. há a delimitação das fontes e a impossibilidade de um olhar exclusivo aos grafites. Hoje. O fato é que. ainda mais quando elas se dão em espaços públicos de acesso a todos . em nome da “limpeza pública”. na carona dos grafites. Contravenções geralmente não são assinadas e nem sempre são registradas na imprensa. não tem proprietário nem vigia. pretendendo fazer uma ação lúdica. essas interferências nas cidades já datam de mais de 30 anos. 1261 . Num passado recente. no espaço da cidade. sendo desconsiderado o grafiteiro que interfere na arte de outro companheiro de grafite. questionando-o. mural -. Assim. menos ainda de classificá-la – grafite. sem preocupação de precisar a primeira autoria ou data dessa manifestação nas cidades contemporâneas. na ânsia de eliminar as críticas a seu sistema. A partir de maio. o que Décio Pignatari expressou como “uma forma de jornalismo cultural. pichação. este estudo disserta sobre os grafites & pichações. usando-o como moldura para seu trabalho e interferindo no supostamente pronto.especialmente dos dominantes. E. começaram a ocupar alguns espaços da cidade. o grafite está na cidade.isentos de qualquer obrigação artística. completando-o. territórios ocupados e conteúdos ideológicos das mensagens. mais. que. no governo Jânio Quadros. ordenava que se apagassem os desenhos e frases logo na manhã seguinte às “pichações”. tanto no que diz respeito às suas datas. antes mesmo que o público pudesse receber esse jornal matutino de notícias não censuradas. quanto a seus emissores.16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis precisadas. quando a prefeitura. Além disso. como já citei acima. ao contrário. moral ou social. Mas não só as ordens dos dominantes fazem dos grafites uma linguagem efêmera. 1968. há um respeito ético pelo grafite alheio. sem possuírem outro meio para se manifestarem ou muitas vezes nem mesmo o querendo -.

Mickey Mouse mistura-se a Santa Claus. ucraniana. filipina. imagem e imaginação passaram a circular nos trens da cidade de Nova Iorque. É proibido proibir. por exemplo. monumentos . em seu livro “Getting Up” . que na sua maioria os writers nova-iorquinos. outros writers passaram também a ocupar o espaço da cidade.16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis frases curtas e inteligentes como É proibido o trabalho alienado. muitos writers começaram a praticar o getting up através de mensagens com seus próprios nomes. Merry Christmas to New York. os jovens.espaços especialmente criados e protegidos nos projetos urbanistas . à moda dos grandes magazines. em sua maioria de sexo masculino. A imaginação toma o poder. os primeiros writers surpreenderam a população daquela cidade. eram estudantes de artes e design que se interessavam pela História da Arte. do Harlem a Wall Street os trens cruzavam a cidade levando e trazendo a presença das periferias. à Christmas Tree e às tradicionais saudações comerciais natalinas. passaram a assinar seus nomes ou apelidos com letras garrafais e estilizadas nas laterais dos trens. muros. Além dos Tags. Túneis. I’m Lover Lee/ Can’t You See. logo outros ícones e frases da cultura Pop americana começam a fazer parte do repertório disponível para um getting up. dominicana. viadutos. e de classe econômica e social também diversificada. Percebendo a possibilidade de comunicação visual urbana. A partir de então.passaram a ser alvo preferido dos grafiteiros. De procedências as mais variadas possíveis – chinesa. a cidade de Nova Iorque logo presenciou a invasão dos desenhos. elevados. Conta Craig Castleman. inscritas nos muros da cidade de Paris. jamaicana e nigeriana -. 1262 . Com essa atitude. Não satisfeitos em simplesmente escrever seus nomes e desenhar imagens da cultura do espetáculo. New York – getting up Sítio de confluência multicultural e marginalização social acirrada e de um planejamento urbanístico cartesiano. ao Snowman. De Manhattan ao Brooklyn.Subway Grafitti in New York. frases e caligrafias elaboradas circulando nos seus trens subterrâneos. nos anos 70. marcaram a presença de jovens na história do protesto e projetaram para muitas outras cidades e grupos de jovens a transgressão lúdica de viver a cidade como espaço de comunicação.

16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis procuravam exercer suas habilidades para o desenho e pesquisavam e trocavam idéias com seus colegas de grafitagem a respeito de técnicas.é um dos espaços mais polêmicos quando se fala em grafites na contemporaneidade. Berlim – O Muro da Vergonha “Área de emoções negativas”. estilos. torres de observação com guardas armados 1263 . Um exemplo foi Keith Haring. sem proteção ou vigilância. mais freqüentemente. Medindo 4. Foram criticados . que com suas frases e desenhos fez circular na cidade as poéticas do cotidiano dos excluídos e acabou nas galerias. chegando até mesmo em alguns casos a refletir sobre os primeiros afrescos do homem das cavernas. A partir de sua construção.5 m de altura por seus 166 km de extensão. Possibilitaram-nos perceber que outras vozes queriam e querem ser ouvidas. entre os artistas e o mercado. essa moda logo seguiu para outros grandes centros. que a partir dos desenhos da figura do homem esquematizado nas placas de trânsito. do lado Leste. que outros sujeitos históricos existem em oposição às mídias diárias oficiais que divulgam e sustentam a sociedade do espetáculo. o Muro de Berlim . no pós-guerra. De Nova Iorque. esse muro foi construído em 1961 a partir da notificação de que mais de 2000 pessoas por dia tentavam cruzar do Leste para o Oeste do mapa geopolítico estipulado pela conferência de Yalta. mas possibilitaram a comunicação entre o centro e a periferia. ou Jean Michel Basquiat. até mesmo os trabalhos mais escondidos e expressivos acabam sendo invadidos por outros grafiteiros ou.conhecido também como o “Muro da Vergonha” . Levaram-nos a perceber outras formas de ocupação do espaço urbano e de percepção artística. quando pegos em flagrante. locais para exercerem a transgressão. reproduziu-o em animação múltipla. Na carona dos sujeitos anônimos. materiais. presos e autuados. muitos artistas de renome participaram dessas transgressões. vice-versa. como Hermann Waldenburg o conceituou. e seus autores. muitos jovens fizeram fama e se posicionaram como artistas de mercado após as intervenções nos trens e muros da cidade. ou. apagados por ordem das autoridades administrativas.e apreciados -. Os trens nova-iorquinos grafitados levaram e trouxeram mensagens. Linguagem de princípio transgressor.

de se aproximarem do muro. Muitas colagens. ativistas ou turistas dividiram o espaço do muro numa pacífica competição criativa. Segundo relato de Hermann Wadenburg. ainda que a cidade de Berlim já anunciasse seus protestos via grafite. desde apelos ao seu fim até sua sustentação. Keith Haring é um exemplo.. transformando um espaço de segregação em espaço de comunicação e de patrimônio. Um exemplo disso foi a intervenção de um 1264 .o muro passou a mostrar as cores das mais diversas manifestações. ou algumas declarações I like Beuys (boys). quando de passagem por Berlim. quando as primeiras frases Freedom for. apenas siglas de aparência discreta. Concrete makes you happy. Berlin will be WALL-free. não se intimidavam em lá colocar sua arte. na apresentação do livro The Berlin Wall Book. Shit. mosaicos e desenhos a lápis. e Death to. as pessoas se apoderavam do muro. Pessoas de todas as partes do mundo e de todas as classes sociais. apareceram grafitadas nos prédios públicos do centro da cidade e nas paredes da Universidade. imigrantes do Leste Europeu.. Mas não só imagens e frases à moda do tradicional spray grafite fizeram a história do muro. da Suíça. Victory to. Alguns artistas famosos..16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis de rifles impediam as tentativas de fuga. desenhando. carvão ou pastel anunciavam a diversidade imaginativa dos autores das grafitagens.. no lado Oeste. só a partir de 1985/86 . Antes disso.. o muro totalmente branco só mostrava cor nos incidentes de sangue. da América do Sul. Death to Tyrans. afirma Waldenburg. mas também. De 1986 a 1989. Do lado Leste. Pintando. da América do Norte. ou simplesmente I was here. as insurreições propriamente no muro só apareceram provavelmente a partir da publicação do livro Subway Art.. guardas com MPs em jeeps abertos e a polícia de Berlim tentavam impedir os provocadores . desde a geração 68. The Wall must stay. da França ou da África. o muro recebeu intervenções de berlinenses. Muitas imagens e frases anônimas são até hoje lembradas protestando ou defendendo a sustentação do muro.. Mas não só suas imagens ficaram para a história do grafite. escrevendo ou fotografando.15 anos depois . em 1984.muitos deles bêbados suicidas . do lado Oeste. artistas. tais como GDR=KZ (que significa campo de concentração) ou USA=AS/SS ocupavam o espaço do muro. tais como a white wall is a fool’s writing paper. sobre os grafites em Nova Iorque. ou às vezes provérbios..

em especial. um etíope com passagem por Buenos Aires e Nova Iorque. de Otto Soglow e muitas outras do universo Pop norte-americano. as performances de grafite migraram com a vinda de Vallauri. A repetição desses desenhos na cidade passou a chamar a atenção de outros jovens amantes das histórias em quadrinhos. São Paulo – Vamos fazer um trampo? Para São Paulo. a bota era carimbada com a técnica da máscara e spray nos mais diferentes locais: muros. muitos jovens estudantes e artistas já interferiam com objetos ou ações no espaço da cidade. e às vezes em museus e Centros Culturais. do americano Alex Raymond -. Mas não só a esse trio o espaço da cidade era instigante. supermercados. permaneceu encarcerado por seis meses. e que surpreendeu os paulistas com a imagem repetida de uma bota feminina. A ela seguiu-se a pantera . logo receberam o nome de “performances”. do lúdico. sua queda não significou seu fim. Vallauri logo encontrou os estudantes de arquitetura Carlos Matuck e Waldemar Zaidler. entre eles TinTin e o Ladrão. acusado de ter violado um patrimônio público. Em 9 de novembro de 1989.personagem das histórias em quadrinhos Jungle Jim. do belga Hergé.16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis cidadão da GDR que. impostas à cidade e à arte. padarias. porta de lojas. o Reizinho. do desenho e. Construído como propósito de segregação política. Imagem extraída da fábrica de carimbos Dulcemira Ltda. Elizabeth Taylor e Elvis Presley. Essas ações em espaços públicos. o muro fisicamente foi derrubado em uma ação performática da população de ambos os lados. Desassossegados com as políticas dos anos 80. como numa performance minimalista foi interceptado por um guarda. o jacarezinho da grife Lacoste e muitas outras imagens também programadas na mesma técnica. (Jim da Selvas). ao traçar quilômetros do muro com uma linha branca. e hoje muitas pertencem ao patrimônio artístico de alguns museus de arte. e a animação do cenário paulistano ganhou a presença de muitos personagens dos quadrinhos. conta o artista plástico Carlos Matuck. As imagens dos grafites registradas em fotos catalogadas permanecem como testemunho da história da vergonha ocidental. como os personagens do cinema o Gordo e o Magro. 1265 . Levado a julgamento.

Carlos Delfino Rui Amaral. o grupo passou a interferir nos espaços da cidade. muitos outros jovens formaram grupos ou passaram a atuar individualmente na cidade e a ocupar lugares os mais inusitados possíveis.especialmente os que se dedicam a escrever na cidade com um alfabeto criado e recriado constantemente por eles e grafado nas paredes dos prédios de difícil acesso -. Em pouco tempo. sendo que o topo dos prédios mais altos passam a ser disputados palmo a palmo. Em pouco tempo não mais só o Túnel Rebouças. em quem eles mesmo afirmam terem se inspirado. Eduardo Duar. o grupo percebeu que ocupar os espaços da cidade com pinturas e desenhos era uma ação de transgressão instigante. não comercial e de significação mais artística. À moda dos pintores das cavernas. Você é Tupiniquim ou Tupinãodá?. que diz: Você é tupi daqui. 1266 . Cezar Teixeira. depois nas margens do rio Tietê e. o Túnel Rebouças. Embalados nessa possibilidade. que despreocupado com a visibilidade dos seus grafites. Em contrapartida a esses grafites pouco visíveis. Cientes do contexto dos anos 80 -. ou tupi de lá. desce às profundezas dos esgotos paulistanos e às ruínas do tão polêmico Carandiru e os anima e decora com pinturas orgânicas que lembram arabescos rococós. Um exemplo é o Zezão. a luta pela democracia e pelo fim do regime militar . Inspirados no poema de Antonio Roberto de Moraes. Cláudia Reis e Alberto Lima passaram a programar encontros de estudo de caráter político. esse grupo ocupou o principal cruzamento paulistano. jovens provenientes de grupos mais excluídos dos sistemas dominantes . logo.expresso no grito pelas Diretas Já. Primeiro no Campus da FAU/USP. há cada vez mais as pixações no topo dos prédios. José Carratú. mas toda a cidade passou a ser espaço para os grafites. Milton Sogabe. no Túnel Rebouças com ações de grafitagem propriamente ditas. Causando muitas polêmicas e chamando muito a atenção da prefeitura. os grafiteiros e os grafites se multiplicaram e se espalharam no anonimato da Grande São Paulo. os estudantes da USP Jaime Prades. mais ligada aos rituais de comunicação ancestral.16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis Dentre esses grupos de performances. destacamos um para este trabalho: o TupinãoDá. Com o intuito de afrontar ainda mais. e também instigados pelas performances e instalações que vinham ocorrendo em outros grandes centros.

se manifesta. trens para uns. vive. Se uma nova forma de política emerge desse contexto com ela uma nova forma de comunicação e de arte. com o público. 1267 . temos que perceber suas sutis diferenças e conquistas nesses mais de trinta anos de performance. muro de repressão para outros. e com as políticas culturais que estabeleceram os museus e galerias como espaços da obra de arte. Dessa parada. afrontando assim não só a cidade com seu alfabeto vernáculo. surge o Trampo . em Berlim eram frases. para usar uma gíria muito específica desses grupos. as políticas e os meios ocupados pelos grafiteiros são diferentes no tempo. esse se tornou um instrumento de protesto ou transgressão aos valores estabelecidos. mas conectado diretamente com a cidade. túneis e vias de acesso rápido para outros. mensagem ou mensageiro. já bastante óbvias. espaço. sem conexão com fibra ótica ou cabo elétrico. as imagens frases e provérbios deixados traduzem diferentes expectativas culturais. percebemos a importância do uso dessa linguagem em contextos diferentes.“fazer um trabalho para sobreviver”.16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis assumiram a grafia da palavra pichação com X. com o aqui e agora. No geral. muitas outras cidades brasileiras passaram a conviver com essa manifestação. participa. Ainda que todos tenham de maneira direta ou indireta conexão com os projetos urbanistas estipulados já desde 1933. mas dança. Mas para além dessas considerações. em forma de crítica ou talvez de participação. Além disso. na Carta de Atenas. É a cultura hip hop. protesta. que nas quebradas das cidades não só mais grafita. alguns grafiteiros não se intimidam e ocupam também os símbolos de dominância. mas também a gramática oficial da língua portuguesa. Ainda que de aparência globalizada. Grande canal de comunicação. os grafites criados nos “udigrúdi” das cidades levaram o ocidente a presenciar pública e anonimamente o questionamento de muitos de seus valores estabelecidos. sujeitos e discurso. canta. Mas não mais só em São Paulo capital. tais como monumentos ou o topo dos prédios mais altos da administração. Mas não só os meios. entre eles o da ocupação dos espaços da cidade e o da apresentação e valoração da Arte. A cidade passa ser um suporte para escrita sem delimitação de espaço. Se em Nova Iorque eram os quadrinhos ou a cultura Pop.

Importante percebermos que esses e muitos outros artistas já assinalavam que a obra de arte não é uma ação de minorias – e. Nem sempre só jovens. nem sempre apenas excluídos. ambas em Paris. que interferiu no cotidiano das cidades colocando suas obras no fluxo da cidade. mas de todos e para todos. por exemplo. Já em São Paulo. um tecido rosa embrulhando a Pont Neuf. difícil de precisar emissores tão díspares. muitos anônimos estão por lá. os hip hoppers e seus trampos. mas também estudantes de classe média. que fizeram a história desse muro um ícone da arte. política e artística . numa outra ocasião. 1268 . como o búlgaro Christo Javacheff. a “turma do gueto”. Ao contrário dos que o condenam como poluição na cidade. artistas já consagrados e muitos emissores anônimos certamente perceberam os espaços da cidade como um suporte interessante para enviarem suas mensagens. ainda que na sua maioria. contam enredos das diferentes subjetividades e suas vivências cotidianas não comprometidas com a história oficial.16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis imagens símbolos de apelo à liberdade limitada pelo muro ou. a cidade foi percebida como possibilidade de inscrição e participação lúdica. paradas e pixações . a espontaneidade das ações dos grafites baliza as insurreições modernas do conceito de obra de arte já propostas nos trabalhos do começo do século no muralismo de Diego Rivera e algumas instalações e performances de artistas dos anos 70/80. como também o grupo TupinãoDá e. Intervenção em espaço público. mas fazem parte das conquistas artísticas de nosso tempo histórico. os grafites não estão na contramão da história. sua sustentação. os grafites constroem e valorizam espaços. menos ainda. isso é certo e o grafite assim o prova. imortalizado até mesmo nos museus de Nova Iorque. Além disso. até os dias de hoje. Afinal. fazem-nos perceber novos espaços. até mesmo. Matuck e Zaidler. a cidade é de todos. Efêmeros como o meio ambiente das cidades modernas. a muralha de tambores de gasolina bloqueando uma rua estreita do Quartier Latin e.como mostra a performance de Vallauri. a sua recepção uma exclusividade dos que têm acesso aos museus -. Além dos meios e dos códigos. remarcamos que também seus agentes são diversos.

a horizontalidade das relações políticas de ocupação e dominação vertical das políticas urbanistas programadas. ações e imagens.. s/d. Muitos grafiteiros são artistas. participativa e ativista. percebemos que os grafites de ontem não são os de hoje. os meios de comunicação como lugar da cultura. mas da cultura não só dos dominantes. ttsss. com suas performances ou atitudes encaram o mundo e produzem uma linguagem de conquista do presente. As razões e os emissores foram e são diversos.Subway Graffiti in New York. 1269 . Nessa perspectiva. dos que nela vivem e trabalham. por que não. Ao articularem a informação dominante com a comunicação e a opinião corriqueira dos agentes urbanos. Getting Up . nem sempre podemos pensar os grafites como ações dos que se sentem excluídos da cidade. Os grafites & pichações possibilitam percebermos uma nova epistemologia para a cidade e para a arte. de diálogo e. estudam a arte e agem cientes do que e para quem estão produzindo seus recados.. Os grafiteiros recuperam a cidade. Referências CASTLEMAN. que hoje afronta o mundo não mais em fronteiras nacionais. mas do povo. o corpo. Os grafiteiros remodelam a cidade e devolvem a ela um caráter de comunicação compartilhada. Cambridge. as internetes. Ainda mais.1982. orgs. tensões e mudanças. Manifestação em “campo expandido”. 1994. Mas sempre os do aqui e agora. da Arte.a grande arte de paixão de São Paulo. WAINER. Não mais só a cidade é espaço para uma grafitagem. Grafite Pichação & Cia. Fazem dos espaços da cidade espaços de opinião. Craig. RAMOS. São Paulo. os grafites estabelecem a democratização. mas fractal. e os de hoje. não mais vista e pensada a partir de um ponto de fuga Renascentista ou eurocentrista. como já bem mostram as frases. São Paulo: Annablume. mas nas novas geografias. de investigação. se os grafiteiros devem ser pensados em suas particularidades. também devem ser vistos em suas generalidades. Celia Maria Antonacci.16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis Assim. London. João e Daniel Medeiros. de recepção de novos significados. não serão os de amanhã. esses usuários da liberdade. Bispo. MIT Press. New York. Massachusetts. os meios de comunicação. mas também as revistas. especialmente se pensarmos essa manifestação na geração hip hop. para usar uma expressão dos críticos da Arte Contemporânea. o corpo.