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11/07/2015

G1 – Máquina de Escrever – Luciano Trigo » Gonçalo M.Tavares: ‘O meu trabalho é iluminar palavras’ » Arquivo

Gonçalo M.Tavares: ‘O
meu trabalho é iluminar
palavras’
dom, 09/02/14

por Luciano Trigo | categoria Todas

Aos 43 anos, Gonçalo M.Tavares é uma das vozes mais representativas do romance português
contemporâneo. Em “Matteo perdeu o emprego” (Foz, 160 pgs. R$ 34,90), ele constrói uma trama
singular, na qual os personagens aparecem pela ordem alfabética, como num jogo de dominó,
culminando na história de Matteo, que responde a um estranho anúncio de emprego. Ecoando
elementos da literatura de Italo Calvino e Georges Pérec, Gonçalo também já foi chamado de “Kafka
português”. Com livros traduzidos em mais de 30 idiomas, ele já recebeu importantes prêmio literários,
como o Portugal Telecom e o Prêmio José Saramago.
“Matteo perdeu o emprego” se divide em duas partes. A primeira é um conjunto de 25 histórias curtas,
em que personagens com sobrenomes judaicos – retirados de um trabalho do fotógrafo Daniel
Blaufuks – vivem situações caricatas ou absurdas. Cada história se encadeia na  seguinte por meio de um
pormenor comum, criando uma narrativa em que cada personagem passa o testemunho à personagem seguinte.
Na segunda parte, de natureza ensaística, o autor reflete sobre a parte ficcional, com o distanciamento de um
leitor exterior. Nesta entrevista, Gonçalo M.Tavares fala sobre o processo de criação de “Matteo perdeu o
data:text/html;charset=utf­8,%3Ch2%20style%3D%22margin%3A%2010px%200px%200px%3B%20padding%3A%200px%3B%20word­spacing%3A%20­…

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 e muito. como é o de ser as mãos de uma mulher sem braços. mas também a ambiguidade do texto. Não é um ensaio que explica. o pensamento sobre o texto. e “Matteo perdeu o emprego” tem essa questão do tempo estabelecido pelo alfabeto. com um personagem saindo e outro entrando em cena. unindo o ficcional e o ensaístico. Acho que não nos devemos levar a sério. Neste caso o ponto de partida foi a história do Matteo.TAVARES: Eu penso que há infinitas formas de escrita literária. como se fosse alguém de fora refletindo sobre a ficção. um caminho lúdico. que é voltar ao que escrevi e corrigir. levando a um jogo de perversão entre esse homem e essa mulher. Primeiro escrevi a parte ficcional. um primeiro mais rápido e um segundo lentíssimo. então não vejo a literatura apenas como um jogo. entre as interpretações possíveis dos leitores. Me interessa muito essa mistura de ensaio e ficção. não é um ensaio que conclua e dê uma interpretação final. e por vezes depois percebo que as letras estão todas fora do lugar. e se segue a quarta personagem. porque depois de ter o texto de ficção feito. uma ordem que não é racional mas que de certa maneira domina todo o mundo cultural. a ideia de que um homem desempregado está disponível para ofícios de certa maneira perversos. Numa sala de aula. rever. “Matteo perdeu o emprego” tem sem dúvida uma carga lúdica. com seus nomes seguindo a ordem alfabética. e como se os personagens entrassem em cena não devido ao que fazem. O primeiro momento da escrita é muito rápido. não é apenas algo que usamos  para escrever. mas que devemos levar a sério o mundo. o alfabeto é uma lógica.11/07/2015 G1 – Máquina de Escrever – Luciano Trigo » Gonçalo M. de cada momento. os que têm o nome começado por “A” se sentam mais à frente. De certa maneira a minha intenção é experimentar vários caminhos: um caminho trágico. a civilização ocidental. nem como algo muito sério. Para mim a escrita tem vários movimentos e vários ritmos. mas à primeira letra do seu nome. de grande excitação.  Mais tarde escrevi o ensaio. em certos momentos escrevo sem olhar para o monitor do computador. e podemos pensar também na organização das bibliotecas… Enfim. O alfabeto é algo que domina. tentei refletir sobre o que escrevi. como se tivessem sido escritos por diferentes autores. em que uma personagem se cruza com uma segunda. ­ Fale sobre o processo de criação do livro: você se impôs uma regra e fez um planejamento meticuloso ou deixou a escrita fluir? A divisão do romance em duas partes. porque só passado um tempo olho para o texto. como se a história fosse narrada não devido à causa e efeito de seus acontecimentos. declara­se admirador de Clarice Lispector e afirma que seus livros são “animais muitos distintos”. data:text/html;charset=utf­8. e esta segunda encontra uma terceira. mas sim devido aos personagens. Mas o ensaio da segunda parte é também uma narrativa.%3Ch2%20style%3D%22margin%3A%2010px%200px%200px%3B%20padding%3A%200px%3B%20word­spacing%3A%20­… 2/5 . por exemplo. a segunda explicando a primeira. ele tenta aumentar. um caminho de escrita rápida… Todos os caminhos são possíveis. digamos. que é o emprego que o Matteo que dá nome ao livro aceita. Para você a literatura é um jogo?  GONÇALO M.Tavares: ‘O meu trabalho é iluminar palavras’ » Arquivo emprego”. é algo que nos organiza. quase como em um jogo de dominó. que são dois mundos totalmente misturados. como se todas estivessem ligadas por fios invisíveis. já estava prevista desde o início? GONÇALO:  Eu escrevo sempre com grande rapidez. é apenas mais uma interpretação. ­ A estrutura de “Matteo perdeu o emprego” evoca um jogo de dominó. e me interessava uma visão de cima.

 mas eu diria que em geral a linguagem dos meus livros tenta misturar a exatidão e a ambiguidade. totalmente seca. nos sentimos comovidos. fazer uma escrita que não tenha palavras a mais. De certa maneira. mas tento sempre sintetizar. mas para mim o fundamental é que a emoção não seja como a da televisão. Esse tipo de data:text/html;charset=utf­8. Não é fácil. mas que está sempre a lembrar que a tragédia é qualquer coisa de inerente à vida. Me interessa muito a psicologia. é ser o mais sintético possível. uma exatidão ambígua. o que está dentro do ser humano. Esta visão faz com que a minha escrita seja a de alguém que entende que a história humana não é somente feita de flores. O meu trabalho é iluminar palavras. que ela é também a história da maldade em movimento. Mas isso não tem a ver com uma exatidão matemática. que que leva a milhares de intepretações. não sei se consigo. Mas dez leitores farão dez análises diferentes do que escrevo. Você concorda? GONÇALO: Eu diria que não sou um pessimista nem um otimista puro. Não é portanto como na matemática. ­ Sua linguagem é avessa ao sentimentalismo. Depende de para onde se virar o homem. a questão do lúdico. mas passados cinco minutos o mesmo programa mostra um cantor alegre. diminuir. ser como uma flecha que acerta no centro. para o belo ou o feio. e você parece não se importar com a vida interior dos personagens. O que eu tento. é uma secura completamente diferente. e já nos esquecemos daquele caso trágico. prefiro realmente usar sete. as circunstâncias muitas vezes funcionam quase como um vento que o dirige para um lado ou para o outro.Tavares: ‘O meu trabalho é iluminar palavras’ » Arquivo ­ Sua obra já foi definida como uma “cartografia da desordem humana”.11/07/2015 G1 – Máquina de Escrever – Luciano Trigo » Gonçalo M. Vendo esses programas ficamos emocionados e se for necessário até choramos. e “Matteo perdeu o emprego”  parece refletir uma visão pessimista e irônica da humanidade. bondade e beleza. Por isso a literatura deve ter um núcleo eu não diria pessimista. é fundamental na literatura. mas uma emoção que dure. transmitida ao longo do tempo. O resultado que o leitor dá é apenas um dos resultados possíveis. a linguagem realmente tenta ser direta. onde dois mais dois são sempre quatro. Se eu conseguir dizer ou transmitir uma ideia com sete palavras em vez de 20. Não gosto da literatura com aquela emoção presente nos programas de televisão que entrevistam pessoas que contam seus casos trágicos de doenças etc. e ele está sempre disponível para se virar para qualquer ponto. Por outro lado. do prazer. eu espero que as frases sejam exatas mas não tenham um único resultado. porque o ser humano é também um ser feito para o prazer e para o desejo.%3Ch2%20style%3D%22margin%3A%2010px%200px%200px%3B%20padding%3A%200px%3B%20word­spacing%3A%20­… 3/5 . para a bondade ou a maldade. A psicologia tem alguma importância na construção de suas histórias? GONÇALO: Em “Matteo perdeu o emprego”. como é evidente. É preciso entender o ser humano como um bicho que tem coisas absolutamente extraordinárias e outras terríveis.

 penso que o escritor deve lembrar a importância da memória. Nesse particular. mas que pudessem guardar um ano ou dois anos depois uma imagem. que ainda os comove ou perturba. ­ Os sobrenomes dos personagens são judaicos. de chamar a atenção para a violência e para a potência do mal que existe no homem. de reflexão. espelhando o seu gosto por sobrenomes alemães presente em outros livros. mesmo politicamente. é uma definição possível da emoção que me agrada. de percebemos que não estamos a começar nada de novo. que é a obra que se vai construindo aos poucos. mas cada livro é um traço de um desenho. enquanto “Viagem à Índia” é um livro que mistura poesia e prosa. mas a tartaruga não é um animal pior do que o tigre.  A literatura deve interferir na política através do aumento da lucidez individual das pessoas. Não gostava que as pessoas chorassem ao lerem meus livros. Essa memória se liga ao gesto político de dizer “Atenção!”. de intensidade baixa mas de longa duração. GONÇALO: O nome de uma personagem é talvez aquilo que há de menos racional em um livro. um animal distinto. porque ainda hoje. um livro e não outro. na pólis. porque a História do homem é feita de muitas repetições. cada livro define um ponto. Outros livros meus atiram mais para uma escrita mais realista. por ser o espaço da reflexão. nem o que ele está a representar. e não faz sentido dizer que uma cobra ou uma girafa é melhor do que um cão. não me interessa uma política partidária. Uma emoção que dure anos. a literatura pode ter essa função de memória. se quisermos rapidez pensamos no tigre. entender por que a violência e a agressividade aparecem… Tudo isso são problemas políticos. não é empática nem humana. A História nos ensina que não devemos ter a arrogância de pensar que estamos inaugurando alguma coisa. é um data:text/html;charset=utf­8. devemos escolher um animal e não outro. em uma espécie de utopia ficcional. no século 21. e é essa política que me interessa em termos literários. O que eu sinto é que cada livro vai numa direção diferente. ­ Você já disse temer que a atual crise econômica na Europa abra espaço para regimes totalitários. costumo usar a imagem de que cada livro é uma espécie de animal.11/07/2015 G1 – Máquina de Escrever – Luciano Trigo » Gonçalo M. na forma como os homens vivem. Fale sobre isso. tem a ver com um ponto de vista mais lúdico e remete para um mundo paralelo. ­ Que relação é possível estabelecer entre “Matteo perdeu o emprego” e os textos da série “O Bairro” e “O reino”? Há uma evolução?  GONÇALO: Para mim os meus livros são completamente diferentes. e vários livros permitem traçar uma linha. engana. Nesse contexto. Então não vejo os livros como melhores ou piores. Cada animal tem suas características. Por exemplo. os escritores têm um papel político importante a desempenhar? Ou não se deve misturar literatura e política? GONÇALO: Sobre política e literatura. e não apenas 1 minuto. Pessoalmente. “Matteo perdeu o emprego” poderia ser uma cobra.Tavares: ‘O meu trabalho é iluminar palavras’ » Arquivo emoção que atinge um pico muito alto rapidamente é perigosa. e penso que aí a literatura é essencial. mas uma política no sentido de intervenção na cidade. Não sei qual é esse desenho. Se queremos uma temática artística. vejo como animais diferentes. de uma certa distância em relação aos acontecimentos e às circunstâncias do mundo. Mas “Matteo perdeu o emprego” é um livro muito distimto da série dos bairros. qualquer coisa de terrível pode acontecer.%3Ch2%20style%3D%22margin%3A%2010px%200px%200px%3B%20padding%3A%200px%3B%20word­spacing%3A%20­… 4/5 . “Matteo… “ mistura uma realidade totalmente absurda e uma segunda parte.

Valéry” parecem escritor por autores diferentes. mesmo que ela não tenha uma história. mais cerebral e literária. algo que tem a ver com ordem lógica mas também tem a ver com uma escolha instintiva.. Normalmente a escolha dos nomes é muito instintiva. O ensaio da segunda parte de “Matteo…” é também uma reflexão sobre essa ideia que de que as primeiras letras dos nomes são algo que traz uma energia. há centenas de autores que para mim são muito importantes. Gosto de autores completamente opostos e inimigos. Então não me sinto especialmente próximo de nenhum autor. sem me identificar com nenhuma escola. vem do próprio som. escritas trágicas e escritas lúdicas. Para mim é evidente que a resposta será sempre “Calvino e Pasolini”. escondida no livro. mas também uma história. às vezes. você concorda? Com que outros autores você dialoga? GONÇALO: Gosto de inúmeros autores. como se o som do nome tivesse para mim uma história lá dentro. Lembro de um debate sobre um livro de ensaios “Calvino ou Pasolini”. boa ou má. de um mundo mais seco e trágico. Gosto de  juntar mundos opostos. porque os dois me interessam mesmo sendo autores que fazem coisas completamente opostas. Quando damos um nome a uma personagem.e os nomes judaicos remetem para um conjunto de acontecimentos do século 20 que são quase uma paisagem invisível obscura. é impossível falar de uns e não de outros.%3Ch2%20style%3D%22margin%3A%2010px%200px%200px%3B%20padding%3A%200px%3B%20word­spacing%3A%20­… 5/5 . data:text/html;charset=utf­8. esse nome já lhe dá uma determinada energia. e cada vez mais tento avançar por caminhos que têm a ver com uma necessidade individual de escrever. Um livro meu como “Canções mexicanas” e outros como “Viagem à Índia” ou “O sr. mais realista. ou a literatura de Pasolini.Tavares: ‘O meu trabalho é iluminar palavras’ » Arquivo pouco como dar um nome a uma criança. ­ Percebo a influência de Italo Calvino e Georges Pérec em sua escrita. que basicamente era sobre se devíamos escolher a literatura de Italo Calvino. como se o nome de uma personagem não fosse apenas um conjunto de letras.11/07/2015 G1 – Máquina de Escrever – Luciano Trigo » Gonçalo M. Autores de um mundo muito literário e lúdico e autores completamente distintos. “Matteo…” partiu de um conjunto de fotografias que eu vi de campos de judeus.