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O imaginário dos

navegantes portugueses
dos séculos 15 e 16
LUÍS ADÃO DA FONSECA

Q

ue significa, para o homem medieval, o maravilhoso, ou —
como ele dizia — os mirabilia? Aos olhos do homem contemporâneo, o maravilhoso é visto como um atributo: reporta-se
às qualidades referenciáveis a alguém ou a alguma coisa pela sua capacidade de provocar a admiração; e o fantástico, num sentido mais estritamente psicológico, como resultado da representação imaginária da realidade ausente. No entanto, para o homem medieval, a perspectiva é
diferente, porque o maravilhoso é substantivável: mais do que uma categoria ou um atributo, ele é um universo, como acertadamente escreve
Jacques Le Goff, "um universo de objetos, mais um conjunto de coisas
do que uma categoria" .
E importante ter presente este matiz quando se pretende considerar a dimensão do fantástico e do maravilhoso no imaginário atlântico, no período da transição da Idade Média para a época moderna. Assim, na Idade Média, não é o Atlântico em si que é maravilhoso; ele
funciona como um dos âmbitos espaciais onde o maravilhoso tem lugar.
Não se trata, portanto, do maravilhoso do oceano, como hoje se diria,
mas do maravilhoso no oceano.
E por que razão importa começar por esta pontualização? Acontece que aqui reside o que constitui, provavelmente, a característica fundamental do imaginário atlântico de então e, conseqüentemente, a
maior dificuldade do seu estudo: a indeterminação espacial de tal imaginário. Vejamos em que sentido isso acontece.
No período medieval distinguem-se perfeitamente os horizontes
marítimos em termos de espaço conhecido e de espaço desconhecido. E, se
o Mediterrâneo se apresenta como o espaço natural do mar conhecido,
no âmbito do oceano, as concretizações geográficas não têm lugar de
forma tão direta, provavelmente pelo efeito distanciador do desconhecido. Assim, o maravilhoso oceânico tem um sentido não especifica-

No final da Idade Média. esta circulação dos horizontes oníricos oceânicos é reforçada pela circunstância da geografia medieval considerar então. um oceano fluvial. Redescoberto em 1406. o Atlântico] e a índia são banhadas pelo mesmo mar". o imaginário do Atlântico. apertado pelo prolongamento para o cone sul-africano oriental. tradicionalmente muito mais rico. como já foi dito. em que a fonte se situa no Oriente. Dado o desenvolvimento da existência do continente americano. De todas as formas. tal nebulosidade acaba por determinar a relativa pobreza do imaginário deste oceano. domina a idéia da incomunicabilidade geográfica entre o Atlântico e o Índico. em inícios do século XV. em nível do imaginário. Tem interesse recordar esta interdependência oceânica em nível dos horizontes fantásticos. isto é. de sublinhar). em algum momento.mente atlântico. Daí que muitas vezes seja difícil determinar a especificidade do onírico atlântico. vai conhecer grande divulgação. geógrafo e astrônomo grego do século II. Na verdade. com a conseqüente subalternização perante o maravilhoso de um outro oceano — o Índico —. para o quadro mais geral dos espaços marítimos desconhecidos. mais tarde. Este último é então visto como um oceano fechado. algo assim como um rio circular. dado o rigor de muitas das suas informações geográficas de pormenor. muitas vezes. navegando diretamente para ocidente. ao mesmo tempo. como pano de fundo domina o enorme erro da concepção do Índico como um mare clausum. em muitos ambientes. dada a indefinição espacial do Atlântico durante quase toda a Idade Média. os grandes textos forjadores do imaginário do Índico. mas três índias simultâneas: além da Índia Maior — atual Industão — e da Índia Menor — que chega até as Penínsulas do . Por esta razão. a obra de Ptolomeu. no entanto. não uma única. alimentavam. a ser apresentado como princípio dos oceanos orientais. muito superiores às dos geógrafos romanos tradicionalmente utilizadas como fonte inspiradora da geografia medieval. o Atlântico pode ter chegado. Desta circunstância advém um segundo aspecto que importa igualmente considerar. "a região das Colunas de Hércules [isto é. não teria sido difícil que se pudesse demandar as partes orientais. foi em grande parte responsável pelo êxito tardio desta visão do Indico. antes aponta. como o horizonte onde ele tem lugar. Aliás. Como escreve. assiste-se à situação inversa de uma interdependência. porque. e tendo-se admitido em alguns setores que a Terra fosse redonda. Pedro d'Ailly (numa alusão que Colombo não se esquece. comparando-o com o complexo mundo do imaginário marítimo oriental.

e sua Naturalis Historia. esta pluralidade de Índias permite integrar a Etiópia e a Índia. receptáculo de todo o imaginário oceânico oriental. de uma recordação reconfortante. possível apontar brevemente algumas coordenadas da imagem deste oceano tal como ela se teria então constituído. chamou terra. é." Tratava-se. e. no entanto. a dos mares como elemento que surge. na ordem da Criação. Honorias Augustodunensis e seu Imago Mundi. E Deus viu que isto era bom. ao conjunto das águas. Conseqüentemente. sem dúvida. mas a Alexandre". num único universo do maravilhoso. Solino e suas Collectanea rerum memombilium. antecedendo imediatamente a terra. transforma-se simultaneamente em horizonte do imaginário oceânico ocidental. portanto. e aqui reside um dos aspectos mais significativos em ordem à compreensão da referida permeabilidade onírica. ao nível do imaginário. à parte sólida. E esta. Era como — e a alusão não é minha — "se a rainha de Sabá desse a mão. Speculum de Vicente Beuvais. assim como o De Imago Mundi de Pedro d'Ailly. a primeira idéia que gostaria de sublinhar: apesar da incomunicabilidade física que a geografia da época — de inspiração ptolomaica — defendia. bem visível. já referido. E assim aconteceu. por exemplo. a fim de aparecer a terra seca. o Antigo.Sudeste asiático —. Bruneto Latini e seu Tesouro. a África e a Ásia. Livro de Marco Polo. Qual é então a idéia que o homem medieval tem do Atlântico? Sendo muito difícil dar uma resposta cabal. em grande parte como resultado da indeterminação de muitos dos contornos com que eram então definidos os espaços oceânicos. Entre os mais significativos. E natural que o Atlântico — enquanto espaço oceânico — tivesse provocado no espírito de tantos — homens e mulheres. leigos e clérigos — reações e sentimentos freqüentemente contraditórios. Assim o Índico. Isto é. existe uma terceira Índia — a Etiópia e a costa da Ásia do Sudoeste. não a Salomão. mas ambos dotados de idêntica vocação: . os textos inspiradores são os mesmos. mar. Bartolomeu Inglês e seu De proprietatibus rerum. Deus. podem ser assinalados: Plínio. na itinerância (em nível de referências geográficas) do mito do Preste João. E provável que na memória de muitos — sobretudo dos letrados — ressaltasse bem viva a evocação do primeiro capítulo do Gênesis: "Deus disse: reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus num único lugar. o Livro das Maravilhas de Mandeville. deu-se constante projeção a partir do Índico para o Atlântico. Santo Isidoro de Sevilha e suas Etimologias.

].]. ou mesmo a de textos hagiográfícos. Em si. admitissem a esfericidade da Terra. é violento. seu Deus. os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem nas águas. sobretudo.. desgostoso da pouca audiência encontrada junto dos homens. para que o mar se nos acalme? Porque o mar se embravecia cada vez mais. Depois. Deus criou. Cheios de medo.. ou seja. Como escreve Pompônio Mela.. e que na terra voem aves. ou de várias passagens evangélicas. E Deus viu que isto era bom". E o que ressalta do capítulo 14 do Êxodo. como a da pesca milagrosa ou a da calmaria da tempestade. do ventre do peixe [.. Ele respondeu-lhes: Pegai em mim e lançai-me ao mar e o mar se acalmará.] disseram-lhe [a Jonas]: Que te havemos de fazer. o oceano é adverso. porque sei que por minha causa é que vos sobreveio esta grande tempestade [.. em nível da astronomia. Aliás. segundo as suas espécies. onde se descreve a passagem do Mar Vermelho. é bom. não deixam por isso de ser aterradoras e assoladoras: " As águas ultrapassam quinze côvados o vértice dos montes por eles cobertos. Esta bivalência — o mar. a representação mental que estes últimos faziam do planeta era de algo semelhante a um disco. e a fúria do mar acalmou-se [. É a outra evocação do Gênesis.]. Embora gregos e romanos.. e todas as aves aladas. a das águas do dilúvio que.. No entanto. o próprio pensamento geográfico e físico do tempo contribui para reforçar este estado de espírito. o geógrafo romano . mas pode transformar-se no oposto. por opção divina. o mar aparece como elemento em cujo seio o milagre tem lugar. segundo as suas espécies. O Senhor fez que ali houvesse um grande peixe para engolir Jonas: e Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe. Então o Senhor ordenou ao peixe e este vomitou Jonas na praia". Todas as criaturas que se moviam na terra pereceram". como o milagre de Santo Antônio que. Jonas rezou ao Senhor. perigoso. apesar desta evocação inicial auspiciadora."Deus disse: Que as águas sejam povoadas de inúmeros seres vivos. resolve com êxito pregar aos peixes. de fato. e lançaram-no ao mar. sob o firmamento dos céus. pegaram em Jonas.. a memória da Bíblia é. os marinheiros [. o Senhor fez vir sobre o mar um vento impetuoso e levantou no mar uma tão grande tempestade que a embarcação ameaçava despedaçar-se. mas é também destruidor — aparece claramente no tão conhecido episódio de Jonas: "Porém. a do mar como elemento adverso. embora correspondessem a um propósito profilático da humanidade. destruidor. criação divina.

como à volta da gema está a clara. é obrigada a desenvolver sistema explicativo bastante complicado. mas atribuída ao Mestre. numa das suas partes. estando a terra situada no centro. na Idade Média. o Venerável (+ 735) dirá — de acordo com a opinião tradicional — que a terra "é um elemento colocado no meio do mundo. conduzia a um resultado manifestamente oposto à experiência vivida.. mesmo quando uma teoria subseqüente esclareça os espíritos — tranquilizando-os — sobre a razão pela qual a ameaça não se concretiza. que esclarecesse a razão do por quê as águas não invadiam a terra. Numerosos pensadores. tomaram consciência desta absurdidade.C. Aristóteles parecia querer dizer que a terra devia estar inteiramente coberta pelo mar. cujas linhas gerais Randles assim resume: "O postulado aristotélico era que os quatro elementos se dispunham numa série de esferas concéntricas. a de Alberto da Saxônia (+ 1390) tem o seu interesse: no fundo.do século I a. Ela imagina que o centro de gravidade e o centro do tamanho da terra não coincidem. no rigor da sua lógica. concedia à água um volume que era dez vezes o da terra". Como se vê. Este raciocínio. aprovo-a. também no âmbito do que se pode considerar ciência. imagine-se uma terceira linha para- .. ajusta-se à visão geográfica muito tradicional que ainda terá certa aceitação no período da expansão marítima: "A segunda opinião. É esta a razão por que. à volta da água encontra-se o ar como à volta da clara do ovo se encontra a membrana que o contém. é preciso imaginar na terra uma linha que vai do oriente ao ocidente diretamente sobre o eqüinocial e paralela a uma segunda linha imaginária sobre a terra que é colocada sobre o círculo ártico. à volta desta encontra-se a água. muito influenciada por interpretação de raiz aristotélica. porque aí estão mais próximas do meio do mundo. No princípio da Idade Média. autor de um tratado intitulado De Situ Orbis. e isto é rodeado por fogo. e é esta a razão por que a terra. está mais próxima do céu e não está coberta pelas águas. Entre as várias soluções propostas. a terra "está rodeada pelo mar por todos os lados". por ordem decrescente de densidade. está no meio dele como a gema está no meio do ovo. o oceano aparece como elemento potencialmente ameaçador. tanto mais incômoda quanto uma doutrina pseudo-aristotélica. uma das principais fontes do pensamento geográfico até adiantado o século XVI. Entre aquelas linhas. sendo um dado a separação das partes habitáveis da terra das suas partes inabitáveis como resultado das águas. devida aos comentadores helenos de Aristóteles. A geografia medieval. do mesmo modo que a casca". a partir do século XII. Breda.. É para esta parte que afluem as águas. É óbvio que uma explicação deste tipo exigia outra.

). vê-se manifestamente numa figura como esta parte da terra que . 1586 Biblioteca d Ajuda. imagine-se que tudo o que é desde o eqüinocial. imagine-se que a partir do meio desta linha colocada sobre a parte da terra que não é coberta pelas águas.. Lisboa lela a uma e a outra. E continua o autor: "Além disso. e que o resto. Além disso. uma linha é traçada perpendicularmente em direção à linha que lhe é eqüidistante e que é colocada no círculo ártico..Mapa do Brasil atribuído d Luís Teixeira. não é coberto pelas águas". que não é outra coisa senão um quarto da terra (. Pelas linhas assim imaginadas. passando pelo pólo meridional e pelo pólo setentrional até ao círculo ártico é coberto pelas águas.

Em segundo lugar. como escreve Brunetto Latini. em sinal do qual Hércules construiu colunas neste lugar. e entre as que estão voltadas para Ocidente. "o Oceano é assim chamado pelos gregos e latinos porque. estão voltadas para Oriente. O oceano surge aqui como aquilo que está para além do mundo. No entanto. Como escreve Santo Isidoro de Seviiha. nesta explicação. porque o mar é mais alto que a terra e mantém-se nas suas margens de tal maneira que não descarrega nem se desmancha sobre a terra!". mas a que está mais próxima do setentrião é chamada Ásia Menor". como o céu".não é recoberta pelas águas é dividida em quatro partes. a respeito do oceano medieval. de fato. porque está fora do espaço habitável. apresentada por Alberto da Saxônia. daí a expressão T/O. a crença na disposição dos mapas chamados tipo T/O. São mapas onde. esta visão quatriplicada do mundo e dos continentes tem algumas implicações. o oceano é o espaço do desconhecido que está para além das fronteiras do mundo conhecido. assim como das relações deste com a terra habitada. em outra passagem da mesma obra. o selvagem e o incomensurável (Wildheir und Unermesslichkeit ). dada a sutileza do raciocínio. está para além da terra. a segunda idéia que gostaria de sublinhar: no con- . como pano de fundo. Em primeiro lugar encontra-se aqui. e a que está voltada para o equinocial é chamada Ásia Maior. Tal é portanto. destacado membro da escola física parisiense. correspondendo aproximadamente ao Atlântico. ut caleum. dentro de um âmbito circular. onde se desenha o horizonte do inabitável. de que duas estão voltadas para Ocidente e duas para Oriente. acompanhada pela maioria dos seus contemporâneos. É este o sentido do maravilhoso oceânico medieval. E certo que esta formulação. referindo-se à costa ocidental africana: "aí existem notáveis maravilhas. E o que um clássico da história da geografia chamava. ou talvez porque brilha com cor de púrpura. sobressaem alguns aspectos que se enquadram perfeitamente no conjunto de idéias gerais que a época medieval tinha desenvolvido (e desenvolveria ainda) acerca do oceano. porque é o espaço do não-humano. a que está mais próxima do setentrião é chamada Europa. indicadora de que a superfície marítima em T encontrada dentro do círculo é formada pela representação de um oceano exterior. para resolver de forma racional e científica o problema em causa não seria. como um círculo. a fim de que ninguém não tente aí navegar". quanto às outras. os mares são representados dispostos em T. Alberto da Saxônia. di-lo à sua maneira: "é um mar intransponível. rodeia a orbe. Na verdade.

Começa. pois conhecidamente seremos homicidas de nós mesmos?". o oceano está associado à idéia do medo.. o Atlântico é escuro. sobretudo. no entanto. ainda que seja só na imaginação. o imaginário atlântico comporta forte dimensão. necessita. navio que lá passe jamais poderá tornar. e já numa segunda dimensão. espaço aberto. o imaginário do Atlântico é bastante complexo. Colombo viveu muito de perto o espectro deste não regresso. funcionando o Cabo Bojador como a fronteira da ruptura. destruidor. por isso. cinco dias depois de terem passado o Estreito de Gibraltar: "da nova terra formou-se um torvelinho que sacudiu o barco pela proa. Por isso. descreve muito bem estes temores.junto do imaginário oceânico medieval. em parte. E que o Atlântico. fê-lo girar três vezes com a água. E. À sua maneira. Zurara no capítulo VIII da Crônica da Guiné. Mas. intitulado Por que razão não ousavam os navios passar a além do Cabo Bojador. de horizonte para ser navegável. ele é o espaço aberto de onde — para além de certo limite — é impossível regressar. O Atlântico aparece aí. simultaneamente. perigoso. Assim. por se definir pela negativa: é o espaço do desconhecido e mar aberto. As raízes culturais desta convicção remontam. o imaginário do Atlântico alimentava-se agora do manancial onírico desenvolvido inicialmente no Mar Interior. este termo é expressamente utilizado por Zurara. E acrescenta logo a seguir o cronista português. os nossos antecessores nunca se entremeteram de o passar". ao texto bíblico e às fontes da antigüidade. colocando na boca de Ulysses a descrição da forma dolorosa como este terminou a viagem. tanto do não conhecido como do adverso. Dante já o tinha dito na Divina Comédia. mas reportam-se também às elucubrações da ciência da época. como Aquel o quis. depois de ter aludido aos numerosos perigos do oceano situado para além do Bojador: ". Será necessário sublinhar o sentido mítico deste temor ancestral? Como se comprova. e à quarta levantou a popa ao alto enquanto a proa se afundava. Em certa medida. à semelhança de um qualquer mediterrâneo. ou que proveito pode trazer ao Infante a perdição de nossas almas juntamente com os corpos. como o termo do espaço visível para além do qual se não regressa: "Como passaremos". espaço do conhecido e mar fechado. como o outro lado. Henrique — "os termos que puseram nossos pais.. numa primeira dimensão. até que o mar se fechou sobre nós". diziam eles — os marinheiros do Infante D. no que se opõe ao Mediterrâneo. com efeito. o imaginário do Atlântico concebe-o igual- .

formando a Mesopotâmia. imaginárias ou reais. ninguém possa chegar ao seu cume. e vir a desembocar ali donde eu venho. Para muitos. a multiplicidade das ilhas e resultado das águas dos rios que vêm do Paraíso. o castelo com cinco torres. na permanente oscilação que acompanha a sensibilidade medieval perante a realidade oceânica. Cadamosto parece assim pensar da foz do Senegal. como foi escrito. como são estas viagens no imaginário oceânico (mesmo quando acompanhadas de uma viagem real). referindo-se à Índia. transformando-o em espaço navegável.mente como um oceano horizontal povoado de ilhas. ainda que seja longe.. à voz do Orenoco]. acaba por apontar para a procura do Paraíso. porque mostram muito bem em que medida todo este imaginário funcionava então como estímulo da atuação dos navegadores: "A Sagrada Escritura mostra que Nosso Senhor fez o Paraíso terrestre. pouco a pouco. Ainda que um pouco longas. como o disse. o imaginário atlântico. "e a cada uma destas torres saía um rio e entrava no mar cada um por si?". e o Nilo que nasce na Etiópia e deságua no mar em Alexandria... Não conheço nem jamais conhecerei nenhum escritor latino ou grego que defina de maneira segura a posição do Paraíso Terrestre. a não ser com a autoridade do Nilo.). como já indiquei. Não admito que o Paraíso Terrestre tenha a forma de uma montanha.. e que esta água possa vir desse lugar. São elas que.). É que o espectro do não regresso. inerente a toda a viagem iniciática. pode muito bem ser o ponto onde deságuam alguns dos rios do Paraíso. formandose este lago" [refere-se. mas outros percorreram todas aquelas terras e não encontraram nem a temperatura nem a elevação do solo que lhes permitissem argumentar que se encontrava verdadeiramente ali (. se vá gradualmente ascendendo-a. e o mesmo do Orenoco. vale a pena transcrever as palavras do navegador genovês. povoam esse espaço sem limites. defínese agora a rota da navegação imaginária. apetecível. escritas na relação da terceira viagem e enviadas aos Reis Católicos em 1498. Creio que. na Etiópia. os quais dividem uma cadeia de montanhas. Seria como Amaro. na Índia. aí. lá colocou a árvore da vida e ali surge um manancial donde provêm neste mundo quatro rios principais: o Ganges. Como escreve Mandeville. nem jamais o vi fixado em nenhum mapa-mundo. e vão até a Pérsia. de que resulta a divisão da Terra em várias partes. avançando nessa direção vindo de uma grande distância. o Tigre e o Eufrates (. mas considero que esta no cume de um lugar qualquer que tenha a figura da extremidade superior de uma pêra e que. torna-se a via de acesso ao Éden. "Estes . É que ninguém navega para parte alguma. De fato.

nomeadamente nos capítulos 61 e 62. Neste caso. um português de meados do século XV. com sua enorme carga alegórica: a viagem. Nisto. São . o que em nada altera o seu valor como indicativo das convicções geográficas do cronista lusitano. Como escreve Mircea Eliade. Assim. desconhecidas. que no prêmio ou castigo receberão todos". E sabido que tais capítulos correspondem à inspiração muito direta da General Estória do Rei Afonso X de Castela. entretanto. como acontece. da Guiné de Zurara mereceriam ser lidas à luz de todo este ambiente. então é maior a maravilha." Assim. determinadas passagens da Crônica. já que jamais li ou ouvi que tanta quantidade de água doce se encontrasse tão dentro e tão misturada com a salgada. num momento de dúvida da marinhagem. desejoso de encontrar o Paraíso e o Inferno porque — escreve o autor — "antes de morrer queria saber que morada corresponderá aos bons e que lugar haverão de ocupar os maus. qualquer que seja o contexto. assim. o monstruoso e o fantástico. Em plena costa africana. sucedem-se as aventuras. recorde-se o trecho final do segundo capítulo. Brandão parte com 14 companheiros. chega ao Paraíso. porque não creio que se encontre no mundo um rio tão grande e tão profundo. declara estar disposto a avançar até o Paraíso. No entanto. tudo aponta na direção do crescimento interior. Álvaro de Freitas. Por exemplo. E óbvio que cada um deles possui significado simbólico próprio. contamse as aventuras de São Brandão. entre outros. por exemplo. Finalmente. e vai descobrindo terras novas. do crescimento ascético. no entanto. muito ajuda o clima ameníssimo. a procura do Outro Mundo. da Ordem Militar de Santiago. "um símbolo revela sempre. como umbigo do mundo. di-lo explicitamente. em Portugal. se dizia ter navegado São Brandão. se reúnem quase todos os ingredientes do maravilhoso marítimo medieval. a caminho da ilha paradisíaca? O relato das viagens deste abade irlandês constitui. com as considerações sobre o rio Nilo. e ainda porque os traços estão em muito de acordo. a unidade fundamental de várias zonas do real". com efeito. uma das fontes que alimentaram por mais tempo o imaginário do Atlântico. Neste texto. neste relato. é sempre o conjunto que mais ressalta. Pois não era por essa região que. porque o lugar é conforme ao parecer dos santos e sagrados teólogos. É interessante notar como. porque assim como os animais que jazem nos ventres das mães se governam pelos umbigos. se esta água não provém do Paraíso. inspirado no poeta romano Lucano: "Que te posso dizer [dirige-se ao Nilo] senão que és. O comendador de Aljezur.são os grandes indícios do Paraíso Terrestre. semelhantemente se pode fazer comparação de tua grandeza nas coisas da terra!". Por isso.

angústia. Zurara afirma em dado passo que os navegantes henriquinos. no termo desse processo de transferência. pensaram que podiam ser em aquela parte. como que os homens têm cabeça de cão e grande cauda. de assunção de sensibilidades. e as mulheres são lindas. tal herança funcionará como um dos motores inspiradores do fantástico ocidental. descrevendo a viagem no oriente asiático. calor. na viagem. o imaginário funciona a partir da experiência pessoal (apresentada como tal) do narrador. "pensaram que eram aves que andavam assim". é também o espaço onde o homem se encontra com ele próprio. Assim. conta aos seus "como por fim encontrou aquilo que tinha ido procurar". e acrescentava o significativo comentário: "E ainda que na grandeza fizessem alguma diferença. e antes de empreender a derradeira e definitiva viagem para o Paraíso. na superação do obstáculo. Espaço do incógnito e da aventura. acaba como livro de cabeceira de Cristóvão Colombo. tal como existe no fundamento medieval. É esta. a mesma visão da viagem como percurso iniciático surge também nas viagens de Mandeville. sede. a terceira idéia que gostaria de sublinhar: o Atlântico medieval aparece aqui com outra dimensão que amplia. O Atlântico. Como se lê na Viagem de São Brandão. vendo de longe como os negros se deslocavam em pequenas embarcações. Neste caso. e são muito cabeludos. e é também o encontro interior que coroa a santidade de Brandão. Aliás. no esforço. situa-se inicialmente num quadro de referência oriental — indica ou asiática. Como afirma Diogo Gomes na sua Relação: "Aquela serra era povoada de gente admirável. retoma-se o fio das considerações iniciais. E neste quadro complexo do imaginário atlântico que o maravilhoso tem lugar. etc. tristeza e grandes temores — vai crescendo a sua divina felicidade". Não tanto o maravilhoso da riqueza (que só se desenvolverá num segundo momento). "à medida que o homem santo vai resistindo aos tormentos — fome. Aliás. É suficiente ter em conta o itinerário do Milhão de Marco Polo: este texto. onde toda a retórica era já conhecida onde é credível. a anterior completando-a. E esse encontro tem lugar no Atlântico: é o encontro físico de Brandão com a ilha (do Paraíso). quanto o maravilhoso do fantástico e do monstruoso. frio. . na ilha de Gete. e muitas coisas que pareciam falsidades". espaço do medo. no fim do relato. portanto. por esta via.Brandão. onde se contava de outras maiores maravilhas".

ele surge-nos onde menos seria de esperar. Muitos dos monstros oceânicos apresentam a forma de serpente. teriam fugido até mil e quinhentos guerreiros. e além destas há outras cobras tão grandes que têm um quarto de légua de longo. os . ocasionando tantos naufrágios e perdas de vida. Outras vezes apresentam a forma de dragão.Neste sentido. de delfim. e a grossura e olhos. que é coisa que se não crera. e apesar de pessoalmente ter navegado por todo o Atlântico equatorial. As ondas que desloca são tão altas que não necessita de mais nada para provocar uma tempestade". na prática. a sua monstruosidade está dotada. boca e dentes respondem à sua grandeza. de baleia (monstro enorme. como as vêm ir. e como conseqüência da indeterminação espacial destas regiões. Por exemplo. Só perante a ameaça dos seus dentes. com uma chama tão alta e tão ardente que os [aos marinheiros] faz temer pela morte. e por onde levam o seu caminho muito dano fazem. que as picam. como uma ilha. há um maravilhoso monstruoso que perdura ao longo de toda a cultura européia. para utilizar uma expressão de Jean Céard. autor de inumeráveis prodígios. Na realidade. Finalmente. O seu corpo é excessivo. e tanto que entram no mar todas se desfazem em água. pelo que. e isto é duro de crer a quem não tem a prática destas cousas a nos teme". como são tamanhas como digo. Duarte Pacheco Pereira escreverá o seguinte acerca das serpentes monstruosas: "E nesta terra há muito grandes cobras de 20 pés em longo e mais. e as aves. aí. O relato da viagem de São Brandão faz uma descrição das serpentes atlânticas. ou de sereia. abrasa como a boca de um forno. e muito grossas. porque a carne destas cobras é tão mole que se não pode mais dizer. porque de dez em dez anos e mais se acontece ver uma destas. como acontece com as serpentes descritas por Duarte Pacheco Pereira. lê-se num texto da época). logo se saem das lagoas onde se criam e vão buscar o mar. na transição da Idade Média para o Renascimento. as quais têm tal natureza que. e estas raramente aparecem. nem sempre é fácil determinar a localização geográfica das regiões onde os monstros vivem. são tantas sobre elas. e cujas raízes são bastante profundas. e solta mugidos com maior força que quinze toiros juntos. apresentando-as como seres temíveis: "Com o fogo que lança. e destas há aí poucas. Em Portugal. de extrema plasticidade. parece que a Índia e a Etiópia são os locais mais freqüentemente referidos. isso está relacionado com as permanentes metamorfoses a que estão sujeitos os monstros medievais. a monstruosidade reside fundamentalmente na dimensão. se o elenco das monstruosidades oceânicas não é muito variado.

Por exemplo. o que importa — e é constante — refere-se à crença na sua existência. no sécu- . Assim. em ambos os lados. O monstro está presente nos espíritos. com independência de que ele seja ou não pessoalmente observado pelo viajante ou navegador. sensivelmente as mesmas características. para além das características dos monstros.monstros apresentam.

pouco tempo antes. o escandaloso. são duas idéias: "os monstros não acontecem contra a natureza. a ciência moderna acaba em certa medida por biologizar a monstruosidade. O próprio Colombo que. o monstro participa do patológico.) não se realiza contrariamente à natureza. O monstro é o que se contrapõe a um modelo de perfeição e de equilíbrio que caracteriza precisamente a não monstruosidade. distinguindo-as quanto à sua origem. declarava não ter encontrado seres monstruosos. Para o homem moderno. mas [transmito] o que ouvi digno de crédito. mas sim contrariamente à natureza conhecida".. de novembro de 1492). E na Idade. e remetendo a explicação para o domínio da patologia na transmissão da mensagem genética. a propósito dos seres prodigiosos. Na Geração dos Animais. Falar de erros de cópia do ADN e de alterações nas cadeias de aminoácidos representa. o eventualmente objeto de maldição. que numa ilha do Caraíbe existissem gigantes com um olho na testa.. (. contrário às leis da natureza. de muitas maravilhas.lo XIV. como muitos pensavam. e a vontade do Criador é a natureza de todo o criado. assim como canibais (diário da primeira viagem. o horrendo. numa carta a Luis de Santangel de 15 de fevereiro de 1493. que em boa verdade eu não vi. o que se pode considerar uma breve teoria da monstruosidade. e onde não fui. qual é então o seu papel? E um papel muito diferente do que a mentalidade do homem de hoje lhe pode atribuir. o monstro — o desmedido.. as Etimologias de Santo Isidoro de Sevilha. encontra-se. já Aristóteles afirmava algo semelhante.Média. Em resumo. retirar a monstruosidade do domínio das descrições tradicionais para encerrá-la no campo fechado da química celular.).. posto que sucedem por vontade divina. do defeituoso congênito. a monstruosidade é decomposta nas diferentes deformações. Neste sentido. Assim. como é visto o monstro? Num dos textos mais significativos da cultura medieval. No fundo. numa perspectiva muito própria deste pensar cientificista. na verdade. chegara a admitir. Frei Jordano de Severa afirmava categoricamente: "Em seguida direi desta Índia terceira. quase sempre signo de mistério — é tido como expressão de anormalidade. escrevia o filósofo grego que "o monstro é um . Como conseqüência. (. Na seqüência destas idéias. há aí dragões em grande quantidade que têm na cabeça pedras luminosas". é altura de abordar a seguinte questão: se o monstro está presente no imaginário oceânico. em suma.

se não fosse ambíguo. não tem existência. mas não contra a natureza considerada na sua totalidade". o monstro. porque. é muito importante a reflexão que Santo Agostinho faz na Cidade de Deus acerca da monstruosidade. O monstro é. perderia muito da sua monstruosidade. sendo a definição de monstro sempre relativa à norma. E óbvio. é difícil definir o monstro. Como se lê numa fonte da época. em certa medida. é que. Desse interessante texto podem ser sublinhadas as seguintes idéias: — porque o homem desconhece as razoes da monstruosidade. — esta forma de encarar o problema tanto se aplica aos indivíduos como a povos inteiros. como escreverá em 1579. Santo Agostinho — e. como tal. com ele. é que no fundo. todo o pensamento medieval — não chega a definir o monstro. é mero aspecto. e o homem como centro de todo o conjunto. seja a semelhança. pelo que deve ser entendida no conjunto da criação. Ambroise Paré. Para o autor de A Cidade de Deus. No entanto. o monstro. Por isso. "há monstros em que alguns são classificados na espécie humana e outros nas espécies animais". Quer dizer. Na verdade. como toda a criatura. em última análise. — com efeito. não é essa a sua preocupação. o monstro cuja monstruosidade é verdadeiramente provocada é a daquele que é humano. Neste sentido. A monstruosidade só pode ser entendida num universo em que a natureza . "os monstros são as coisas que aparecem para além do curso da natureza". os monstros son tout autre que nous ne somes [são todo o outro que nós não somos]. É certo que também tem sentido falar-se da monstruosidade animal. porque — com as suas conseqüências integradoras — acaba por influenciar decisivamente o pensamento medieval acerca deste tema. Ou. não se pode afirmar que o Criador se enganou. diferente em sua ambigüidade. a ignorância resulta da circunstância de o homem apenas ter uma perspectiva parcial.fenômeno que vai contra a generalidade dos casos. Mas manifestação diferente. é a alteridade dentro da comum condição humana. onde nada é fruto do acaso. Como diz Honório Augustodunensis. seria simplesmente animal e. seja a diferença. manifestação da ação de Deus. — logo. a monstruosidade só pode ser pensada em termos de relação. Parece ser esta a monstruosidade típica do além-oceânico. embora admita algumas características que o podem individualizar. como tal. o monstro é outro. o que importa é a economia do conjunto. à luz das categorias do tempo.

a relatividade da monstruosidade não pode ser apenas entendida em função da natureza enquanto norma. mantémse a ambigüidade. e alude "a coisas muito estranhas e de homens com cauda e que comem os filhos". a Terra christianitatis est aliena" [é diferente da cristandade]. em relação às nossas. se. a monstruosidade. uma vez que tem sentido mais profundo no seio da própria natureza. É que aí começa quasi alter mundus. então o monstro — o tal elemento revelador de que fala Santo Isidoro — é o reflexo desta homologia universal. todo o maravilhoso — e assim. o drama de Colombo! . "são mais variadas e melhores". para referir um exemplo. é manifestação de algo. mas sim a monstruosidade. e com esse espaço é coerente. tudo o que existe na terra tem o seu correspondente no mar. todo o monstruoso — é diferente. o monstro é fruto do espaço onde surge. quando Marco Polo observa que as diferenças da fauna. Neste caso. desordenada. se cada elemento reflete o seu contrário. testemunha a profunda ordem da Criação. E voltamos a Santo Agostinho e à impossibilidade da monstruosidade per se. sinal de contingência. na medida que a natureza pode ser assumida em termos de oposição (o monstro como antinatureza) ou de superação (o monstro para além da natureza). De fato. entre outros já citados. quando Antônio Usodimare.surge como o principal ponto de referencia. equilibrando-o na oposição. a da qualidade para além da natureza. no século XIII. desmesurada. a da antinatureza que está em causa. Neste sentido. escreve aos irmãos em 1455. Santo Isidoro de Sevilha dizia que o monstro é revelador. Mas. Ter acreditado nesta correspondência provocou. Se o microcosmo é imagem (speculum) do macrocosmo. já é a segunda dimensão. em certa medida. Mandeville terá visto um aspecto do problema quando distingue entre simulacros e ídolos. o que é revelador não serão os monstros concretos. contando-lhes as suas viagens na costa ocidental africana. afirma-se. tão cara ao pensamento medievo. mesmo assim. a monstruosidade é fruto da razão desequilibrada. mercador genovês. funciona muito bem a correspondência universal. que está presente. "o lugar do seu nascimento é o princípio que preside à geração das coisas". mas. como afirma Plínio em sua História Natural. De fato. projeta a monstruosidade para o domínio da imaginação: segundo ele. E chegamos a um ponto fulcral: se assim é. se cada monstro encerra na sua constituição uma desordem aparente. Como diz Rogério Bacon. Na Índia. isto é. De modo geral. é a primeira dimensão.

Como se vê. em abril de 1992. enquanto tal. em suma. implantada no IEA. professor da Faculdade do Porto (Portugal) e coordenador adjunto da Comissão Nacional Para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (CNPCDP).. . a quarta e última idéia que gostaria de sublinhar: para o espírito medieval. o monstro aparece como o indicador do mundo ao contrário. Todo o monstro é de algum modo.. o monstro tem uma função não pequena: é estimulador da imaginação. confunde e explica. e o medo que ela provoca. em toda esta geografia — e a expressão é alheia — secundum mentis considerwtionem. Foi professor visitante da Cátedra Jaime Cortesão. penso ser revelador que o cronista Zurara. que afinal os monstros não existem. a monstruosidade tende a tornar-se uma progressiva convenção. limita e abre horizontes e perspectivas. quanto à obra. "já seja que o feito. O monstro é enigma: apela à reflexão. a propósito da monstruosidade. nesta ordem de idéias. uma categoria que permite situar o desconhecido numa relação com o conhecido. cuja vitória antecede o advento do triunfo definitivo da Jerusalém Celeste. Para que se possa dizer. uma esfinge: interroga e coloca-se nos lugares de passagem de toda a vida humana". fosse pequeno. com toda a sua lógica: de fato a monstruosidade. o monstro. para que se possa dizer. uma via de acesso ao conhecimento do mundo e de si. "o monstro oferece. também aqui a monstruosidade condiciona o acesso ao Paraíso. em toda esta geografia imaginária do espaço desconhecido. é dificuldade. descreva pormenorizadamente as aves e os peixes estranhos encontrados pelos portugueses na sua progressão ao longo da costa. Como escreve C. amedronta e estimula. portanto. Kappler. que manifesta a sua disponibilidade para ir até o Paraíso.. Na realidade.E esta. ele também. logo a seguir à alusão (já citada) a Álvaro de Freitas. só pelo atrevimento foi contado por grande". Neste sentido. é fator de descobrimentos. como já foi visto. Assim.. Têm razão os medievais — como Santo Agostinho ou Santo Isidoro — quando colocam o problema da monstruosidade em termos de visão: só o homem pode organizar o sistema de relações no qual o monstro tem lugar. a grande lição que — generalizando-a — se pode acertadamente ampliar a todo o imaginário oceânico: inspiração de sentimentos e apetências contraditórias. como o escreveu Zurara a respeito do feito de Gil Eanes. é o reflexo ao contrário do eu.. Será esta. aponta para a sua superação.. E que o monstro. como Colombo. Como tal. E o problema dos Antípodas tantas vezes referido na bibliografia. reclama uma solução. Como a Besta do Apocalipse. através de convênio firmado entre a USP e a CNPCDP. Luís Adão da Fonseca é historiador.