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Um mercado, várias produções: Xamavo em textos da literatura

angolana
Tania Macedo (Unesp) (macedotc@assis.unesp.br)

Muitas das narrativas angolanas, apesar de estarem semeadas de
referências cronológicas e geográficas, exigem cautela. O calendário que
registra os acontecimentos nestes textos, não raro, embaralha datas,
fazendo com que, por exemplo, o musseque dos anos 1930 ou 40 seja
palco de cenas, personagens e atitudes que somente os anos 60 poderiam
abrigar. O mesmo se pode afirmar com relação ao mapa que se nos
desdobra essa literatura: aqui um nome que não consta das cartas
geográficas, acolá uma pista falsa, mais além um caminho que não corta
dois bairros: e assim, vemo-nos trilhando as tortuosas estradas ficcionais,
as quais se limitam com o referencial, mas não se confundem com ele, pois
tempo e espaço obedecem freqüentemente a necessidades composicionais.
Vejamos

como

isso

ocorre

tomando

como

exemplo

os

acontecimentos atinentes ao mercado Xamavo, de Luanda.

3.1.1. Xamavo, o vento e o feitiço

Relata-nos a história que no ano de 1948, em um dia de forte vento, o
telhado do mercado popular Xamavo (ou Xá-mavu) não resistindo à
ventania, veio abaixo. Como nesse momento o comércio se desenvolvia

Que julgam eles! Uma pessoa perdeu lá dinheiro. de Óscar Ribas. ... . . e então procurou aquele desastre.. com a chuva que choveu.É como o desastre da quitanda do Xamavo. A praga (1978). Que sabem eles? A nós.É verdade! Eles dizem que o telhado caiu porque o vento era muito forte.Então! Somos netos de Gola Quiluanji quiá Samba.. buscando a partir de uma leitura comparativa dos mesmos apontar como as diversas luzes que iluminam o episódio podem indicar posturas estéticas diferentes.Então aquilo caía só assim em cima das pessoas? Ala? Os Brancos falam só. quer recriandoo. incluindo-se aí histórias de pragas. quando nos enfeitiçam. . maldições e cazumbis ou espíritos. Na primeira narrativa. com a chuva. examinaremos três textos pertencentes à literatura angolana em que o episódio da queda do mercado Xamavo está presente. tudo para nós é azarento. Nelas não nos deteremos.. Puseram as costelas nas Mabubas. Pela armadilha que fizeram..Forte! Caiu mas é por causa dos jimbambi. andou a perguntar a toda a gente. Pretos. o acidente provocou um grande número de vítimas entre os fregueses e os comerciantes (principalmente quitandeiras). cortes e recortes que autores angolanos efetuaram a partir do fato.É mesmo.normalmente. . morremos mesmo. quer aproveitando apenas sugestões por ele propiciadas ou mesmo alguma versão popular.. Com a chuva. . mano. O episódio ao longo do tempo recebeu numerosas versões populares. Atendendo a essa perspectiva. já que nos interessa os desdobramentos. o diálogo entre duas personagens não nomeadas situa a queda do Xamavo nos seguintes termos: .. .

o fato ocorrido em 1948 recebe um enfoque ligado às crenças populares. Vindo das nuvens.) Morre quem disser aiué. Assim. p. p. No fatalismo do esconjuro.. instalava-se no corpo dos imprudentes rebeldes. a enfraquecer a literariedade do texto.. morre também! (. não propicia uma postura judicante do narrador em relação ao fato narrado. Forster). que a morte grasse entre eles. 52) Na atmosfera de práticas mágicas em que se desenvolve a narrativa. (RIBAS. Sob esse particular. segundo a ótica dos habitantes dos musseques. . não existindo. no texto a praga lançada pela personagem Donana. com seu mistério os reduzia ao cumprimento da tremenda sentença: “Morra!”. 63) Vale notar que em A praga o pendor para a referencialidade. morre também! Quem lhe cortar as unhas. 1978. terrível era o malefício. o quimbanda vergava-se impotente.(RIBAS. quitandeira que perde uma vultosa quantia a qual não lhe é devolvida. tende. na terminologia de E.historia o povo em amarga canção – a canção da “Quitanda do Xamavo”. por exemplo. aliado à inclusão de traços da realidade etnográfica angolana. é o que faz. é interessante notar que o narrador como que se isenta de tomar partido entre a racionalidade “dos brancos” e o imaginário dos moradores dos musseques. todavia. um afastamento crítico das mesmas. 1978. ainda que em outros.” Salvação? Aonde a buscar? Ante o abismo. o predomínio da “cena” (ou telling. ainda que a utilização do discurso direto mesclado ao indireto livre indicie que a perspectiva das personagens negras e pobres é compartilhada pela instância narrativa: A ceifa não parava. inexoravelmente se cumpria a vingança: “Quem lavar esse morto. M. No trecho citado. em alguns momentos.

quer nas estórias orais africanas que . A essa luz. para que possam. de Jofre Rocha (1980). o Xamavo está inscrito no longo título da narrativa. kitandeira do Xá-mavu e devota conhecida deste Sant’Ana até A Senhora da Muxima. no entanto. na Angola livre e independente. quer pensemos nas crônicas portugueses setecentistas. entretanto. sob esse aspecto. vale lembrar as palavras de Irene Guerra Matos: Óscar Ribas. mas que o povo preservou. sobretudo. no texto de Oscar Ribas. indiciando. que o mesmo episódio ocorrido no mercado popular nos anos 40 foi focalizado sob outra ótica. manifesta a preocupação de registrar. 1985. mantendo-os em grande parte intactos. em toda a sua obra. a personagens construídas de maneira dinâmica e cuidadosa como a protagonista Mussoco. 15). Vale notar. que o colonialismo tentou corromper. p. já que o mesmo nos conduz a lê-lo como ligado à História. ser valorizados em função de uma perspectiva revolucionária (MARQUES. Como se pode notar. prevalece em A praga a referencialidade e. aparentemente. renegou todos seus santos e orações”. De maneira geral.graças. alguns dos aspectos da cultura angolana. no conto “De como nga Palassa diá Mbaxi. E cremos que esse traço é importante para o entendimento do projeto literário angolano. tal como o imaginário luandense a teria preservado. embora nem sempre criticamente. a referencialidade do relato. pode-se verificar que a queda do mercado Xamavo é focalizada. a partir de uma perspectiva popular. ganhe maior densidade artística. desvirtuar ou utilizar em seu proveito. na medida em que A praga apresenta-se como a possibilidade de exploração do imaginário dos habitantes da periferia da cidade capital como matéria na elaboração das histórias da ficção angolana.

desnuda-se na sucessão vertiginosa de topônimos por onde voa o vento da notícia ainda não conhecida do leitor. Porque a raiva desse vento é que foi sacudir as vigas de ferro. por exemplo. 1980. A narrativa. com um vento assanhado que trazia atrapalhação nas nuvens carregadas de chuva. Mas o vento da notícia se transforma em elemento destruidor. rios de sangue correram no meio do peixe. A hipérbole “rios de sangue” que expressa a morte no Xamavo reapresenta o mesmo procedimento de quebra de expectativas que . permite verificar como o poético tinge o referencial. sem o dinheiro. dando-lhe nuanças inusitadas. 19). E sem cronologia precisa (“um dia”) nem crenças metafísicas (“o vento é que foi sacudir”) narra-se a queda do mercado. É ainda a toponímia de Luanda que oferece uma das mais belas imagens do texto: “dia tão triste como esquina da Mutamba sem gente”. Vejamos os seus primeiros parágrafos: A notícia correu muito depressa.contam fatos ocorridos nas comunidades. os gritos não calaram na boca dos feridos. da takula. Foi assim mesmo. pra ir morrer lá longe nos confins da Samba. com um barulho muito grande. Foi desgraça grande e o povo que se juntou a chorar os amigos e os parentes não parava de crescer. A longa citação. que o caso começou naquele dia tão triste como esquina da Mutamba sem gente. muitas mesmo sem a vida. deixou cair a antiga kitanda do Xá-Mavu. dos jipepe e jisobongo. contudo. dos kiabos. levada de boca em boca (ROCHA. com gente a chegar de todos os bairros onde a notícia tinha caído como raio. As kitandeiras ficaram sem o negócio. romperá essa expectativa. abarcando os três primeiros períodos do texto. como aquele vento maluco que desde a ponta da Ilha sobe até a Lixeira. Naquele dia. fez voar os luandos e os zincos e. A cidade de Luanda. p. varre todo o musseque até o fundo da Calemba e da Maianga.

. enquanto figura de linguagem “desgastada” se oferece em bloco à variação paradigmática sem que o receptor precise mais combinar os termos por si mesmo – dado através da hipérbole e um elemento que tende a desestabilizar o estereótipo de linguagem: os peixes entre os quais corre o estranho rio. “bessangana devota conhecida que tinha acendido velas em todos altares desde a Senhora da Muxima. a antropoformização da natureza e a transposição da oralidade no texto de Jofre rocha revelam-se interessantes soluções tecnoformais para a re-apresentação de um acontecimento da história de Luanda. que há um acontecimento que muda a vida de Nga Palassa: a morte. transformando-o. 1980. por afogamento.(ROCHA. como a demonstrar que não será a fé nos santos que protegerá contra as desgraças. 1980. E que. em um elemento interno da narrativa. as quais não têm qualquer eficácia contra os males. 24). Revela-se. uma atitude bastante racional e materialista por parte do narrador. narrado por um narrador onisciente. dada em flash back. competentemente. portanto. que a velha quitandeira renega todos os “seus santos e orações”. 22). Sant’ Ana e Santo Antonio de Kifangondo”. porém. O “combate” trava-se agora a partir de um sintagma cristalizado – que. p.assinalamos na disjunção entre título do conto e forma narrativa do mesmo. pessoa antiga nessa vida de por negócio” (ROCHA. 21). 1980. temos a história da “kitandeira respeitada em todo musseque. Na história de Jofre Rocha. pois. mostrando a ligação que a personagem mantém com a religiosidade ocidental cristã. E é a partir desse episódio. acender velas e fazer orações são ações inócuas. podemos frisar que a particular utilização da toponímia luandense. Ocorre. De maneira geral. p. passando a ser aquela de quem “toda a gente pegava medo de ficar nas pragas que saíam na boca dela” (ROCHA. de seu neto. p. O sistema de expectativas do leitor é quebrado e os “rios de sangue” perdem o caráter de forma automatizada para em seu lugar enfatizarem a extensão da tragédia no mercado popular.

tematiza a morte e o Xamavo. 1982. reverbera vozes e gritos.A estória “Nga Fefa Kajinvunda”. a narrativa apresenta de forma exemplar – no sentido de que é uma construção simbólica com fins didáticos – o assassinato de uma quitandeira negra que ousou desfiar uma cliente branca. de Boaventura Cardoso (1982). assim como os dois contos atrás examinados. enfatizando o elemento sonoro: Kuateno! Kuateno! O grito rebentou no ventre atmosférico rapidamente na kazucutice do Xamavo. criando a algazarra do Xamavo. o narrador nos desenha o retrato da quitandeira Nga Fefa: uma mulher forte. personificação da “autoridade e do respeito”. quitandeiras na berridagem do gatuno. A seguir. Kuateno! Kuateno! Grito levado longe. dinamizada pela focalização rápida de cada envolvido no roubo. pelo farto de “responder xingadamente todos que lhe insultavam”. Não se trata aí. contudo. (CARDOSO. A situação inicial do conto coloca em evidência os usuários do mercado. porém agora no áspero diálogo entre uma cliente branca prepotente e a quitandeira negra. p. Na berrida os fiscais também estavam. 25) De volta ao mercado. do episódio de 1948. (CARDOSO. grito testemunho de boca bocando bocas. orquestram-se novas vozes: . Em seu lugar. 1982. em flash back. movimentação era no acontecimento dos ladrões fugindo. Kandengues até se espantavam. Negócios ainda parados. p. Kuateno! Kuateno! Tudo nas corridas para alcançar o dinheiro na ponda de Nga Xica roubado. Xamavo tinha desordem. novas falas. Pessoas que andavam nos becos ficavam assustadas. depois mergulhavam rindo na algazarra. trabalhadora. de grande nitidez plástica. Após a retirada da compradora. 23) A seqüência.

Anos de opressão se transformavam em liberdade nas falas kinbumdas. (CARDOSO. o medo e o desejo de liberdade.Palavrosamente as quitandeiras caçoaram a mulher da Baixa. 1982. Nos kimbundos delas escondiam toda a fúria contra o colonialismo que não podiam falar na língua da senhora abertamente. se solidariza às vozes que ambicionam transformar “anos de opressão em liberdade”. no intenso movimento de questionamento dos liames da representação literária com o mundo representado. conforme diria Antonio Candido. p. o relato. 1987. . na defesa do produto do trabalho de uma quitandeira. Ao deslocar o signo “morte” que se associa ao mercado Xamavo na história e no imaginário luandense. 26) O leit-motiv das vozes que se cruzam por todo o conto transforma o mercado Xamavo em uma espécie de câmara de eco: nele se ouvem os gritos do povo que persegue um marginal. p. desaparecendo. 164) Em última análise. para um contexto de reivindicação de liberdade para o povo angolano. “no estimulamento da fúria colonial: dêem-lhe mais! Força!” (CARDOSO. elevando-se dessa maneira. As sugestões e influências do meio se incorporam à estrutura da obra – de modo tão visceral que deixam de ser propriamente sociais para se tornarem a substância do ato criador” (CANDIDO. ao iniciar-se com uma palavra em quimbundo (“Kuateno!”). Boaventura Cardoso efetua uma competente passagem do documental ao simbólico. 26) São falas que denotam a opressão. as palavras de liberdade largamente sufocadas e os gritos da senhora branca. de tal maneira que. esses textos. p. 1982. como brado pela libertação. Nesse sentido.

conforme assinalamos. Estórias do musseque. Jofre. BARBOSA. MARQUES. Domício (Org). 1983.levam para o princípio da composição. ROCHA. Uanga (Feitiço). União dos escritores angolanos. Oscar. antes. a tradição popular. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARDOSO. reformulações e rupturas dos modelos “realistas” (BARBOSA. A educação pela noite e outros ensaios. exigindo assim. Não temem contudo iluminar essa realidade sob as mais diversas luzes: a memória. São Paulo: LR. p. CANDIDO. Sob esse particular. enfocam diferentemente o objeto e duas delas exemplificam caminhos de liberdade criativa a partir de um programa político revolucionário comum. 1978. como vimos. 23). não se furtam à realidade como matéria literária. Óscar. São os variados caminhos que conduzem à representação literária. Dizanga dia Muenhu. Antonio. Luanda: União dos escritores angolanos. a procuram. sempre exigindo reformulações e rupturas. 1983. . 1987. Prefácio in RIBAS. 23. A praga. 1980. p. Irene Guerra. 164. 1982. O livro do seminário. João Alexandre. e não apenas da expressão. p. deve-se ressaltar que os textos. As três produções literárias que recriam o espaço Xamavo. São Paulo: Ática. São Paulo: Ática. um descompasso entre a realidade e sua representação. o cotidiano ou as vivências pessoais dos autores. São Paulo: Ática. “A modernidade no romance” in PROENÇA FILHO. Boaventura. RIBAS. 1985.