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Samizdat 3

abril de 2008

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-


Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas
Capa e Diagramação: 2.5 Brasil Creative Commons.

Henry Alfred Bugalho

Todas as imagens publicadas são de domínio


Autores público ou royalty free.
Denis da Cruz

Giselle Natsu Sato

Henry Alfred Bugalho As idéias expressas e a revisão das obras são


de inteira responsabilidades de seus autores.
José Espírito Santo

Jurandir Araguaia

Marcia Szajnbok

Volmar Camargo Junior

Textos de:

Dalton Trevisan

Léon Tolstói (trad. Henry Alfred Bugalho)

Imagem da capa:

Léon Tolstói

www.samizdat-pt.blogspot.com
Índice

Por que Samizdat? 1

Recomendações de Leitura
AS QUERIDAS DE LISPECTOR 3
MADAME BOVARY, DE GUSTAVE FLAUBERT 5

O Estripador 8
Dalton Trevisan

O Causo do Dilúvio 11
Volmar Camargo Junior

A Teoria do Humor 14
Volmar Camargo Junior e Henry Alfred Bugalho

Eu também quero me tornar um escritor 17


Henry Alfred Bugalho

Obra Incompleta 21
Henry Alfred Bugalho

Brincadeira dos Deuses 22


Henry Alfred Bugalho

Herói 23
Denis da Cruz

O Espelho 26
José Espírito Santo

A Frase 27
José Espírito Santo

Sou 29
José Espírito Santo
MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho 30
Coisas de Mulher 30
Marcia Szajnbok

Luxo 31
Jurandir Araguaia

TRADUÇÃO
O Longo Exílio 33
Léon Tolstói

CRÔNICA
De Puta a Pop 41

Continente 43
Marcia Szajnbok

Coleção de Botões 45
Giselle Natsu Sato

Sobre os Autores 47
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Por que Samizdat?


Henry Alfred Bugalho

“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,


distribuo e posso ser preso por causa
disto”
Vladimir Bukovsky

Em reação, aqueles que se


acreditavam como livres-pensadores, que
Inclusão e Exclusão não queriam, ou não conseguiram, fazer
parte da máquina administrativa - que
estipulava como deveria ser a cultura, a
Nas relações humanas, sempre há
informação, a voz do povo -, encontraram
uma dinâmica de inclusão e exclusão.
na autopublicação clandestina um meio
de expressão.
O grupo dominante, pela própria
natureza restritiva do poder, costuma
excluir ou ignorar tudo aquilo que não
pertença a seu projeto, ou que esteja
contra seus princípios. Datilografando, mimeografando,
ou simplesmente manuscrevendo, tais
autores russos disseminavam suas
Em regimes autoritários, esta
idéias. E ao leitor era incumbida a tarefa
exclusão é muito evidente, sob forma de
de continuar esta cadeia, reproduzindo
perseguição, censura, exílio. Qualquer
tais obras e também as passando
um que se interponha no caminho dos
adiante. Este processo foi designado
dirigentes é afastado e ostracizado.
"samizdat", que nada mais significa do
que "autopublicado", em oposição às
publicações oficiais do regime soviético.

As razões disto são muito simples de


se compreender: o diferente, o dissidente
é perigoso, pois apresenta alternativas,
E por que Samizdat?
às vezes, muito melhores do que o
estabelecido. Por isto, é necessário
suprirmir, esconder, banir.

A União Soviética não foi muito A indústria cultural - e o mercado


diferente de demais regimes autocráticos. literário faz parte dela - também realiza
Origina-se como uma forma de governo um processo de exclusão, baseado no
humanitária, igualitária, mas logo se que se julga não ter valor mercadológico.
converte em uma ditadura como qualquer Inexplicavelmente, estabeleceu-se que
outra. É a microfísica do poder. contos, poemas, autores desconhecidos
não podem ser comercializados, que não

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Samizdat 3 - março 2008

vale a pena investir neles, pois os gastos


seriam maiores do que o lucro.
Ao serem obrigados a burlarem a
A indústria deseja o produto pronto e indústria cultural, os autores conquistaram
com consumidores. Não basta qualidade, algo que jamais conseguiriam de outro
não basta competência; se houver quem modo, o contato quase pessoal com os
compre, mesmo o lixo possui prioridades leitores, o diálogo capaz de tornar a obra
na hora de ser absorvido pelo mercado. melhor, a rede de contatos que, se não é
tão influente quanto a da grande mídia,
E a autopublicação, como em qualquer faz do leitor um colaborador, um co-autor
regime excludente, torna-se a via para da obra que lê. Não há sucesso, não há
produtores culturais atingirem o público. grandes tiragens que substitua o prazer
de ouvir o respaldo de leitores sinceros,
que não estão atrás de grandes autores
populares, que não perseguem ansiosos
os 10 mais vendidos.
Este é um processo solitário e
gradativo. O autor precisa conquistar
leitor a leitor. Não há grandes aparatos
midiáticos - como TV, revistas, jornais -
onde ele possa divulgar seu trabalho. O Os autores que compõem este projeto
único aspecto que conta é o prazer que a não fazem parte de nenhum movimento
obra causa no leitor. literário organizado, não são modernistas,
pós-modernistas, vanguardistas ou
qualquer outra definição que vise rotular
e definir a orientação dum grupo. São
apenas escritores interessados em trocar
Enquanto que este é um trabalho experiências e sofisticarem suas escritas.
difícil, por outro lado, concede ao criador A qualidade deles não é uma orientação
uma liberdade e uma autonomia total: ele de estilo, mas sim a heterogeneidade.
é dono de sua palavra, é o responsável
pelo que diz, o culpado por seus erros, é
quem recebe os louros por seus acertos.

Enfim, "Samizdat" porque a internet


é um meio de autopublicação, mas
"Samizdat" porque também é um modo
E, com a internet, os autores possuem de contornar um processo de exclusão
acesso direto e imediato a seus leitores. A e de atingir o objetivo fundamental da
repercussão do que escreve (quando há) escrita: ser lido por alguém.
surge em questão de minutos.

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Recomendações de Leitura

AS QUERIDAS DE LISPECTOR

Marcia Szajnbok

“O mundo me parece uma coisa vasta demais e sem síntese possível.”

No dia 09 de dezembro de 2007 se


completaram trinta anos da ausência de
Clarice Lispector na cena literária brasileira.
Semanas antes, a Editora Rocco lançou, no
Brasil, “Minhas Queridas”, uma compilação
de 120 cartas inéditas da escritora, dirigidas
a suas duas irmãs, Tânia Kaufmann e Elisa
Lispector, organizada por Teresa Montero,
autora da biografia “Eu sou uma pergunta”,
editada também pela Rocco em 1998.

Datadas do período que se estende de


1940 a 1957, as cartas revelam detalhes
do cotidiano de Clarice nos primeiros anos
de seu casamento com o diplomata Maury
Gurgel Valente, relatando sua experiência de
residir fora do Brasil, com as delícias e os
dissabores desse afastamento, não apenas
do país, mas sobretudo da família de origem, das irmãs e da sobrinha.

As primeiras cartas, ainda escritas no Brasil, contam a viagem de Belém à África,


e as impressões deixadas em Clarice por um universo tão distinto de Recife, cidade
adotada como terra natal. A segunda guerra mundial serve de pano de fundo a um
número considerável de missivas, fornecendo um retrato sem retoques do dia-a-
dia naquele período, nas várias cidades européias por onde passou - Berna, Paris,
Lisboa, Roma, Florença, Nápoles. As últimas, procedentes de sua permanência em
Washington, ilustram o que eram os EUA na década de cinqüenta, e o quanto já estavam
lá sementes do que viria a se tornar a influência americana na cultura ocidental a
partir de então. Desfilam notas sobre a produção cultural européia na qual mergulhou
e sobre as influências que, mais ou menos explicitamente, recebeu de filmes e peças
assistidos, museus visitados, autores lidos, notadamente D.H.Lawrence,Tolstói,
Simone de Beauvoir, Katherine Mansfield.

Do ponto de vista da trajetória literária de Clarice Lispector, essa correspondência

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Samizdat 3 - março 2008

acompanha a criação de dois romances – “A cidade sitiada” e “A maçã no escuro” – bem


como a repercussão de contos publicados nesse período, sobretudo aqueles reunidos
no volume “O lustre”, de 1946. Também nessas cartas está a notícia da primeira
gravidez de Clarice, o abortamento espontâneo na segunda gestação, o nascimento
dos dois filhos e referências ao seu olhar sobre a maternidade. Contrastando com
a densidade desses momentos, há reflexões singelas sobre modelos de vestidos
e chapéus, o relato bem humorado, por vezes cômico, de situações corriqueiras,
intercalados com a influência do frio e da ausência de sol em seu estado de espírito
ou sua sensação quase permanente de desencontro com as outras mulheres de seu
círculo de convivência.

Produzidas numa época em que a correspondência era escrita sobre papel e


enviada pelo correio, e que semanas de silêncio expectante separavam o envio da
resposta, esses registros nos permitem um contato quase íntimo com o universo de
Clarice Lispector nas várias facetas que ela desfila ao longo das cartas: a brasileira
fora de lugar, a esposa, a mãe iniciante, a irmã saudosa, a escritora em que a literatura
pulsa em busca de um escoar criativo, a mulher permanentemente angustiada diante
do mundo e de si mesma.

A leitura dessa correspondência segue leve, solta, cada página nos convidando à
seguinte e á próxima. Um mundo sem síntese apresentado pela escrita única de quem
conseguiu ver, na relação de uma menina com um livro, o mesmo apaixonamento que
há entre uma mulher e seu amante.

Minhas Queridas
Clarice Lispector
Tereza Montero (org.)
Editora: Rocco
ISBN: 9788532522740
Ano: 2007
Edição: 1

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MADAME BOVARY, DE GUSTAVE FLAUBERT

Henry Alfred Bugalho

Há uma máxima, atribuída a


Schopenhauer por alguns, e a Heidegger
por outros, que afirma que só existe duas
línguas para se filosofar: o grego e o
alemão.

Talvez insuflado por esta mentalidade,


por anos alimentei uma certa animosidade
por tudo que se fazia na França - notória
rival da Alemanha quando se trata de cultura
-, nada substituía Beethoven, Brahms,
Wagner, Nietzsche, Heidegger, Schiller,
Goethe, Thomas Mann ou Hermann
Hesse.

Nada de bom poderia vir para o lado de


lá da linha Maginot.

Também havia um ranço, pelo próprio


modo como a Academia se baseava na
estrutura educacional francesa, adotando uma linha estruturalista, com professores
educados à base dos existencialistas, leitores de Sartre, defensores de Merleau-Ponty,
e em parte pela reverência cultural que o Brasil sempre prestou à França, sendo a
própria Academia Brasileira de Letras inspirada na correspondente francesa, e tendo
quase todos os principais movimentos artístico-literários - o naturalismo, o realismo,
o modernismo, o surrealismo, inclusive o pós-modernismo - se inspirado em artistas
franceses, francófonos, ou residentes em Paris.

O que valia para mim, durante este período, era ser do contra.

O processo de reconciliação foi sutil. Começou com a leitura de “Gargântua e


Pantagruel”, obra genial de Rabelais, mas estagnou.

Voltei a ter contato com a literatura francesa mais ou menos um ano depois, quando
li pela primeira vez Balzac, “O Pai Goriot”, e esta foi uma epifania.

Retornando à dicotomia Alemanha-França, talvez Schopenhauer (ou Heidegger)


tivesse razão, poucas línguas possuem a precisão do grego ou do alemão. A
prefixação e a aglutinação de palavras permite uma criação ilimitada de conceitos
específicos, delimitando os sentidos e estabelecendo um meio quase inequívoco de
comunicação.

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O alemão até pode ser uma língua poética, mas quando se trata de respeitar a
composição duma frase, a criação duma imagem, a descrição dum cenário, não há
o que se compare com as línguas latinas. E, nas mãos dos mestres franceses das
Letras, a escritura deixa de ser apenas um modo de comunicação, transcende a
instrumentalidade da língua.

Tanto Balzac quanto Flaubert observam suas épocas com olhar crítico. Balzac
abarca todas as instâncias sociais, do camponês rústico até a aristocracia decadente,
mas o foco é sempre a burguesia hipócrita. Flaubert é, por sua vez, mais incisivo; basta
uma única personagem para aglutinar tudo aquilo que está disperso nas dezenas de
obras de Balzac, esta personagem é Emma Bovary.

A jovem Emma era leitora de romances românticos. Tal formação a fez conceber
relacionamentos ideais, uma vida quimérica. O casamento com Charles Bovary é
uma frustração, a negação de tudo que ela havia imaginado na juventude. Charles
era um homem sereno, sem grandes arroubos de paixão, com um emprego estável,
porém medíocre - um médico provinciano sem grandes ambições.

Emma Bovary encontra no adultério a aventura e a emoção que tanto almejara.


Primeiro com um fazendeiro dos arredores, posteriormente com um jovem promissor,
com quem desfila de braços dados por Rouen.

Flaubert quer que odiemos Emma Bovary, tudo aquilo que ela representa, a
hipocrisia, a baixeza, a futilidade, e ele atinge seu objetivo. Nunca antes desejei tanto
que um personagem morresse num livro (nem mesmo Heathcliff de “O Morro dos
Ventos Uivantes”).

Todavia, nem mesmo este prazer Flaubert nos concede com plenitude. Emma
morrerá, sabemos disto, antevemo-lo, contemo-nos por páginas e páginas apenas
para presenciar sua agonia, porém a morte dela não é libertadora.

“Ela o corrompeu desde além da cova”, diz-nos o narrador, referindo-se ao


repreensível comportamento de Charles após a morte da esposa.

A corrupção de Emma ultrapassa seu desaparecimento, pois a corrupção de


Emma é a corrupção de toda uma sociedade. Emma morre e parte do nosso ódio
é aplacado, no entanto, o mundo não muda, outras Emmas, tanto do sexo feminino
quanto do masculino, estão lá para ocupar a vaga deixada por ela.

A obra se encerra num tom pessimista, atormentando-nos com seu determinismo,


com sua fatalidade.

Grego e alemão podem até ser a língua da Filosofia, mas foi em francês que se criou
um dos maiores estudos da psiqué humana, das relações sociais, da mesquinharia,
mascarada de Literatura, ou tornado possível justamente por não ser teórico, por não
ser fatual, por ser mera ficção, e neste “mera” reside todo o segredo.

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Autor em Língua Portuguesa

O VAMPIRO DE CURITIBA

“ — Não vou responder às perguntas Já nessa época, Trevisan era avesso


simplesmente porque não posso, a fotografias e jamais dava entrevistas.
é verdade; sou arredio, ai de mim! Em 1959, lançou o livro Novelas Nada
Incurávelmente tímido (um pouco Exemplares - que reunia uma produção
menos com as loiras oxigenadas!).” Já de duas décadas e recebeu o Prêmio
se escreveu e se comprovou que os Jabuti da Câmara Brasileira do Livro - e
demais vampiros não podem encarar, conquistou o grande público. Acresce
sem pânico, um crucifixo. Ou réstias de informar que o escritor, arisco, águia,
alho, água corrente cristalina... Dalton esquivo, não foi buscar o prêmio,
não pode ver um jornalista. Vendo, foge, enviando representante. Escreveu,
literalmente foge, apavorado. Suas raras entre outros, Cemitério de elefantes,
fotos surgidas na imprensa foram feitas também ganhador do Jabuti e do Prêmio
às escondidas, como a que utilizamos Fernando Chinaglia, da União Brasileira
para ilustrar esta página. dos Escritores, Noites de Amor em
Granada e Morte na praça, que recebeu
Nascido em 14 de junho de 1925, o Prêmio Luís Cláudio de Sousa, do Pen
o curitibano Dalton Jérson Trevisan Club do Brasil. Guerra conjugal, um de
sempre foi enigmático. Antes de chegar seus livros, foi transformado em filme
ao grande público, quando ainda era em 1975. Suas obras foram traduzidas
estudante de Direito, costumava lançar para diversos idiomas: espanhol, inglês,
seus contos em modestíssimos folhetos. alemão, italiano, polonês e sueco.
Em 1945 estreou-se com um livro de
qualidade incomum, Sonata ao Luar, e, Dedicando-se exclusivamente ao
no ano seguinte, publicou Sete Anos de conto (só teve um romance publicado:
Pastor. Dalton renega os dois. Declara “A Polaquinha”), Dalton Trevisan acabou
não possuir um exemplar sequer dos se tornando o maior mestre brasileiro
livros e “felizmente já esqueci aquela no gênero. Em 1996, recebeu o Prêmio
barbaridade”. Ministério da Cultura de Literatura pelo
conjunto de sua obra. Mas Trevisan
Entre 1946 e 1948, editou a revista continua recusando a fama. Cria uma
Joaquim, “uma homenagem a todos atmosfera de suspense em torno de seu
os Joaquins do Brasil”. A publicação nome que o transforma num enigmático
tornou-se porta-voz de uma geração de personagem. Não cede o número do
escritores, críticos e poetas nacionais. telefone, assina apenas “D. Trevis” e não
Reunia ensaios assinados por Antonio recebe visitas — nem mesmo de artistas
Cândido, Mario de Andrade e Otto Maria consagrados. Enclausura-se em casa de
Carpeaux e poemas até então inéditos, tal forma que mereceu o apelido de O
como O caso do vestido, de Carlos Vampiro de Curitiba, título de um de seus
Drummond de Andrade. Além disso, trazia livros.
traduções originais de Joyce, Proust,
Kafka, Sartre e Gide e era ilustrada por “O “Nélsinho” dos contos
artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor originalíssimos e antológicos, é
dos Prazeres. considerado desde há muito “o maior

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Samizdat 3 - março 2008

contista moderno do Brasil por três temperamento singular, na construção e


quartos da melhor crítica atuante”. dissecação da supra-realidade de luas,
Incorrigível arredio, há bem mais de 35 crianças, amantes, velhos, cachorros e
anos, com com um prestígio incomum vampiros. E polaquinhas, deveras.”
nas maiores capitais do País. Trabalhador
incansável, fidelíssimo ao conto, elabora Em 2003, divide com Bernardo
até a exaustão e a economia mais Carvalho o maior prêmio literário do
absoluta, formiguinha, chuvinha renitente país — o 1º Prêmio Portugal Telecom de
e criadeira, a ponto de chegar ao tamanho Literatura Brasileira — com o livro “Pico
do haicai, Dalton Trevisan insiste ontem, na Veia”.
hoje, em Curitiba e trabalhando sobre
as gentes curitibanas (“curitibocas”,
fonte: Releituras
vergasta-as com chibata impiedosa) e
prossegue, com independência solene e

O ESTRIPADOR
Dalton Trevisan
No sábado, pelas cinco da tarde, a tentou fazer um sinal. O cara percebeu, e
moça voltava da Igreja Adventista Filhos cutucando o punhal:
de Jesus. Pouco antes da casa da patroa,
viu o tipo mal-encarado. Correndinha - Olha pra cá.
atravessou a rua.
Disfarçando, ele acenou para o lixeiro,
A casa tem muros altos e um pequeno pendurado ali no estribo:
corredor na entrada. Com a chave na mão,
diante da porta, foi alcançada pelo cara,
- Oi, tudo bem?
que lhe encostou uma faca na cintura:

Em seguida surgiu um ônibus


- Nem um pio. Que eu te furo!
amarelão. Ele ignorou. À espera do
seguinte, no sentido bairro. Voz forte e
Um dia frio, ela estava de jaqueta, grossa:
mesmo assim doeu fininho. O cara
apertou mais a arma:
- Você vem comigo. Ou te sangro aqui
mesmo!
- É um assalto. Dá a bolsa.
Suplicante, ela retorcia as mãos:
Ela estendeu a pobre bolsa: sete reais
em notas e moedas. O tipo achou pouco.
- Sou a babá do menino. Ele está
doentinho. Precisa de mim.
Graças a Deus, vinha um casal na sua
direção.
Girava no dedo o anel: confessar que
era noiva?
- Bem quieta, você. Feche a bolsa.
Em pânico, obrigada a subir com ele
Daí passou o caminhão do lixo. Ela

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no ônibus. Perna trêmula, abriu a boca - Pra mim, matar é fácil. Escolha.
para gritar... E tinha perdido a voz. Da
boca aberta nadinha de som. A moça tremia toda. Chorava muito.
De joelho e mão posta:
Mas o seu coração dava berros.
- Tenha dó. Em nome de Jesus
Ficaram de pé. Ela sentia a faca ali Cristinho. Leve a bolsa e a jaqueta. Por
furando a jaqueta nova de couro. No favor. Só me deixe ir.
terceiro ponto, ele tocou a campainha. Os
dois desceram. Pensa que teve dó, o bruto? Daí ela
foi obrigada. Tan­ta confusão, a pobre
Andaram duas quadras. Ele viu o tinha andado pra cá pra lá, sem parar.
terreno baldio. Lá nos fundos, uma e Assim cansada, onde as forças de lutar e
outra casa. Ainda era dia claro: se defender?

- Não. Aqui, não. E fez com ela o que bem quis. Fez
isso.
O tempo inteiro rezava muda. Todas
as preces nu­ma só palavra - Jesus. - Os dentes, não. Sem os dentes,
Entregou a alma ao Filho e ao Pai. sua...

Ele caminhava depressa. Agarrava-a Mais isso.


com força pelo braço. Outro terreno vazio.
Só uma casa de porta e janelas fechadas. - Abra. Mais. Senão eu...
Assim que avançaram, a luz da varanda
foi acesa. Ele bateu em retirada.
Rasgou e rebentou. Uma brasa viva
entre as pernas. Mais aquilo.
Mais um terreno com pessoas nas
casas. Ele continuou a busca.
- Se vire. Não. Assim.

Lá adiante:
Estripou. A coitada que, virgem, se
guardava para o noivo, cuja vida era de
- É aqui. casa para a igreja e da igreja para casa.

Tudo deserto. Noitinha. Um barraco Só a deixou depois de toda


sem ninguém. ensangüentada. Foi de tal violência.
Aproveitou o mais que pôde. Uma
Até então, fé e esperança haviam-na carnificina.
amparado. Caiu em desespero.
Já era noite. Mas tinha gente passando
- Tire a roupa. ao longe. Um casal de conversa lá na rua.
Se ela gritasse, alguém devia escutar e
Ela não queria. Fechou bem as pernas. acudir. O bandido adivinhou na hora:
Ele ergueu a lâmina e rasgou a manga do
blusão. - Nem pense nisso!

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Samizdat 3 - março 2008

E espetando a maldita faca no peito Devia ficar contente por deixá-la viva.
nu: E agradecida ao Menino Jesus, podia ter
sido pior.- Não olhe pra trás.
- Quer ver sangue?
A pobrinha chegou em casa pelas
Sem ela esperar, começou tudo outra onze e meia da noite. Arrastava os pés,
vez. O tipo se serviu bem direitinho. Ainda toda torta e gemente. Sangrando pelos
mais ferida e ma­chucada. nove orifícios do corpo.

Um carro parou adiante na rua. Faróis Trazia o relógio de pulso e o anel de


apagados. Ele achou perigoso. Mandou noiva. Por eles o tipo não se interessou.
que ela se vestisse. Só pelo dinheiro. Achou pouco sete reais.
Mas levou assim mesmo.
Já arrumados, o cara bem sério:
Foram umas três semanas até sarar
das rupturas, lesões e remendos. Não
- Abra o Livro no Salmo 130.
sabe ainda a resposta do exame para
aids e hepatite.
Tal o espanto, a moça ergueu os olhos.
E primeira vez ela viu quem era: grandão,
A patroa não a quis mais de babá. O
meio gordo, bigodão negro.
noivo, esse? Sumiu. Está custoso achar
novo emprego. E nunca pôde reler o
Certo que abriu a Bíblia, mas você tem Salmo 130. Quando chega a sua vez,
voz? Nem ela, ainda mais no escuro. Ele fecha os olhos e salta a página.
então buscou a sua no bolso, pequena
assim. Ao clarão da lua, movia os lábios,
Dá uivos, meu coração nu. Esse
sem palavras - estava lendo ou sabia-o
bigodão negro e a golfada de fel e cinza
de cor?
na boca.

Disse que também era evangélico.


Do Salmo 130 se livrou.
Abandonado em criança pela mãe. E,
depois de casado, pela Maria - a única
de quem gostou. O amor, essa coisa, E como evitar a hora fatídica das
sabe como é. Todas as mulheres eram cinco da tarde? Que se repete, sem falta.
vagabundas. Ele disse outra palavra. O dia inteiro são sempre cinco da tarde.
Para se vingar, caçava as moças na rua. Cinco horas paradas no seu reloginho de
Se não fosse ela, tinha sido outra. Às pulso.
vezes, atacava duas no mesmo dia.
Os ferimentos cicatrizaram, é verdade.
- Não tenho nada a perder. Mas nunca ficou boa. E nunca mais foi a
mesma.
Foram andando a par. Já não a tocava.
De repente: Fonte: Revista Época

- Agora vá.

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O Causo do Dilúvio
Volmar Camargo Junior

Gravura de H. Schledel em “Crônica de Nuremburgo”

O Patrão criou o homem com a tabatinga da beira de um açude. Depois, para o


índio ter o que fazer, resolveu criar a mulher, rachando o bonequinho de barro no meio
(aquela história de costela e de “imagem e semelhança” são só algumas das teorias).
Deu um assoprão e saíram andando. Batizou os bonequinhos de Adão e Eva. Daí por
diante, os dois trataram de se conhecer e de dar cagada. Desobedeceram o Criador,
se incomodaram com os filhos, tiveram uma porção de netos flor de bagaceiros, e por
aí vai. Entre a peonada celestial, que muita gente chama de anjos, corria o boato de
que aquele bicho novo, o tal de ser humano, não ia prestar pra nada.

Quem não gostou nada dessas conversas foi o Dono da Querência. Mandou
chamar os linguarudos que passavam mais tempo proseando do que nas lides do
Universo. Já que a indiada terrena estava ficando sem-modos, o Altíssimo deu aos
anjos a incumbência de encontrar, no meio da criação, um bicho que fosse bom o

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Samizdat 3 - março 2008

suficiente para ajudar a endireitar a tribo dos filhos de Adão. Muito dotados nas artes da
conversa-fiada, a peonada não hesitou em pedir a Ele que elegesse o mais eloqüente
para ser o embaixador do céu entre a bicharada. A proposta pareceu justa, e de
pronto, escolheu-se um capataz mui conhecedor da Estância chamado Gabriel. Os
outros foram enviados para arrumar o alambrado da Via-Láctea que andava caótico
uma barbaridade.

O diplomata foi sem reclamar. Apreciava a campereada, e sobretudo, andar


solito pela imensidão do pago, que naqueles tempos era muito maior. Caminhando a
despacito, mascando uma folhinha de hortelã, Gabriel teve uma idéia. Fez um chamado,
desses que só o pessoal que trabalha pra Ele consegue. Num vá, apareceram três
bichos detrás de uma macega: um gato-do-mato, um cachorro e um cavalo. Sentaram
e prosearam — dizem que o gato conhecia a erva-mate, e essa pode ter sido a
primeira roda de chimarrão da história. O Emissário, mui respeitoso, disse-lhes: “O
Patrão quer que um de vocês seja o camarada do homem e da mulher”. Bicho é um
tipo de gente muito honesta, e se gosta ou não da proposta, já mostra logo de cara.
Pois aceitaram os três. O capataz passou a tarefa, e lá se foram pra onde os homens
moravam.

Em pouco tempo, a parentada dos que gostam de comer maçã afeiçoou-se muito
aos animais. Os homens, porque eram úteis: o cachorro era companheiro pra caça,
o gato limpava a casa dos roedores e o cavalo, mesmo precisando domar antes,
virou instrumento de trabalho. As mulheres, porque os bichos eram fofinhos, dava
pra pentear, botar fita mimosa, vestir aquelas roupinhas e dar nomes para eles. A
coisa desembestou quando os “camaradas” se acostumaram com o jeito de viver
dos donos. O gato virou num inútil que só dormia e ainda se sentia o dono da casa.
O cachorro só fazia o que mandavam se lhe dessem comida ou brincassem com ele
(em geral as duas coisas). E o cavalo, bem, o cavalo continuou trabalhando; porém a
indiada se coçava e puxava o ferro branco, e descobriram que guerrear montado era
muito mais divertido.

Gabriel ficou guspindo formiga de tão brabo. Resolveu mudar de tática.

Enveredou-se pra cidade mais próxima. Saiu perguntando se alguém conhecia


um único homem que valesse a bóia que comia. Pra sua surpresa, existia um: o Seu
Noé. Este o recebeu muito bem, ofereceu um mate — ah, sim; o gato ensinou pra
todo mundo o hábito de tomar chimarrão — proseou um pouco sobre seus guris, Sem,
Cam e Jafé, sobre a morte do Seu Abel, contra-parente que foi morto ainda moço pelo
irmão — tem gente que gosta de uma desgraça... O Embaixador Gabriel, firme no seu
propósito, botou o talento à prova e inventou, na hora, uma história do arco da velha.
Disse mais ou menos assim:

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“Olha, Seu Noé. A coisa não ta fácil


pros lados de vocês, os herdeiros do Seu
Adão. O Patrão Velho anda indignado
com as malcriações da humanidade e
resolveu botar a casa abaixo. Só que tu,
vivente, tem crédito com o Altíssimo! Ele
sabe que tu é bom, generoso, correto e
tem uma mão boa pra cuidar da criação.
Entonces, sem delongas, Deus quer que
tu faça o seguinte: junta um casal de cada
tipo de bicho, acolhera todos eles mais tu,
tua mulher e os teus piá e as prenda deles,
constrói uma balsa de madeira de lei que
caiba esse povo todo. Despois, pinta a
dita com betume pra cobrir as fresta. E
providencia umas galocha, porque ta
vindo uma tormenta daquelas.”

Arcanjo Gabriel, ícone bizantino


Inflaram-se feito uns perus, de orgulho
de si mesmos. O Noé porque tava grandão
com Jeová, e o querubim, porque daquela vez parecia que o plano ia dar certo. Ora,
se passar dias e dias enfurnado só com os bichos e a família não endireitasse o
homem, então era porque não tinha jeito mesmo. Dias depois sucedeu o tal do Dilúvio
que tanto falam. Há quem diga que foi mais ou menos por essa época que nasceu o
Ariri Pistola, que não viu o Dilúvio, mas pisou no barro.

O resultado da empreitada foi que o Gabriel, além de tomar uma baita mijada,
deixou de ser capataz e virou estafeta. Ninguém mandou sair inventando história e
inundando mundo por conta. Depois disso, cada vez que tinha que mandar um recado
pra gauderiada cá na Terra, o Patrão Velho mandava o Gabriel falar timtim por timtim
o que Ele tinha dito.

Publicado no Recanto das Letras em 05/02/2008

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Samizdat 3 - março 2008

A Teoria do Humor
Volmar Camargo Junior e Henry Alfred Bugalho

(imagem: http://www.nowgasm.com/laughing-buddha-maitreya-cybele-la.jpg)

“O homem é o único animal que ri. ser um aprofundamento teórico sobre o


E é rindo que ele mostra o animal que assunto. A intenção aqui é meramente
é”, esta sentença de Millôr Fernandes, abordar o humor por um viés analítico,
inspirada numa errônea idéia aristotélica tomando como referência para um
— hoje se sabe que macacos, cães e (possível) estudo de caso.
até ratos também riem — escancara o
caráter social do riso. A risada é um dos A Enciclopédia Encarta diz que o
comportamentos humanos de regulação humor, compreendido em seu sentido
da interação social, facilitando a aceitação amplo, é o texto informal cujo objetivo é
no interior duma comunidade. divertir ou causar o riso. O humor penetra
na ilusão e na imaginação, explorando as
Esse texto não tem a pretensão de possibilidades de situações improváveis

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e de combinações de idéias, mas difere ser exposta ao ridículo”. Outro ponto


delas por estar preocupado somente com importante é encontrado na tese de Henri
os aspectos cômicos destas situações Bergson, cujo ideal são a adaptabilidade
imaginárias. Como são muito diversos os e a elasticidade – caracteres de seu
textos humorísticos, há também diversas terceiro principal conceito: a Élan Vital.
teorias que podem explicá-los. Citemos O personagem cômico típico, segundo
algumas delas. Bergson, contraria esse ideal. Nada
mais é que um indivíduo excêntrico que
Aristóteles é, possivelmente, o se recusa a adaptar-se à realidade.
primeiro teórico da narrativa que se tem A persistência em hábitos imutáveis,
notícia no Ocidente. Boa parte de seu independentemente das circunstâncias,
esforço, pelo menos na obra “Poética”, é torna cômicos os personagens e as
de entender a arquitetura da tragédia, que, situações vividas por eles.
para ele, é uma forma de poesia superior
às demais — à comédia e à epopéia —, A Teoria da Incoerência assevera que
por isto, ele aborda apenas periférica o essencial para o humor é a mistura de
e negligentemente as características duas idéias que são, conforme o que se
do nosso objeto, i.e., a comicidade da sente, disparatadas. De acordo com tal
comédia. teoria pode-se dizer que o humor consiste
no encontro do inadequado dentro do
Para o Filósofo, o que diferencia a apropriado. Segundo parte de seus
comédia da tragédia e da epopéia é o defensores, o prazer da interpretação do
objeto imitado: na epopéia, são retratados texto cômico está em localizar os pontos
homens melhores do que nós, como os de contato entre as idéias incongruentes,
heróis míticos de Homero; na tragédia, onde divergem e onde estão mescladas.
são retratados homens semelhantes a Outros, alegam que essa incompatibilidade
nós, oprimidos pela vontade dos deuses, não se encontra apenas no âmbito textual,
sujeitos às desventuras do destino; por mas principalmente em como / por quem
fim, na comédia, são retratados homens esse texto será recebido: vai do textual
inferiores, cujos baixos instintos, ao serem para o cultural. Isso explicaria por que
expostos ao ridículo, causam riso. uma dada anedota atingiria seu objetivo
cômico em um dado meio e em outros,
não.
Esta perspectiva coincide em muitos
aspectos com a Teoria da Superioridade:
o riso é provocado pelas pessoas que A Teoria do Alívio alega que o
apresentam algum defeito, se encontram humor questiona as exigências sociais
em posição de desvantagem ou sofrem convencionais. Existem barreiras sociais e
algum pequeno acidente. Segundo essa ideológicas que censuram, por consenso
teoria, o humor advém de alguma forma ou por imposição, certos temas. Abordar
de escárnio. O autor observa o objeto esses temas, utilizando os recursos
retratado de um ponto de vista superior, textuais humorísticos, é um modo de
e seu público compartilha dessa visão. burlar essas barreiras. O humor resultante
Um dos pontos mais importantes dessa é causador de grande alívio, devido à fuga
tese é trazido por Alexander Bain: “não momentânea de sentimentos reprimidos.
é necessário que uma pessoa seja Essa teoria, reforçada sobretudo pelas
ridicularizada. Uma idéia, instituição descobertas de Freud no campo da
política ou qualquer coisa que exija psicanálise, assenta-se antes no prazer
dignidade e respeito também pode individual experimentado pelo receptor

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Samizdat 3 - março 2008

do texto cômico. Entretanto, situando-se sensualidade, ídolos, tudo isto é permitido


mais na ruptura com as barreiras psico- nestes dias de festa. Através do carnaval,
sociais, é insuficiente para explicar o a ordem do mundo desmorona, para se
humor existente, por exemplo, em textos renovar ao fim das festas. Deste modo,
nonsense e em jogos de palavras. o riso estaria vinculado à substituição da
ordem pelo caos.
Estas últimas duas teorias sugerem
que não basta uma análise lingüística Assim como qualquer outro, o
do texto cômico para compreender sua objeto textual que se pretende cômico
comicidade. Mikhail Bakhtin propõe uma é apelativo ao conhecimento de mundo
investigação do discurso, a interação de um determinado público - e em sua
composição está implícita a adesão
entre o social e o literário. Ao se debruçar
sobre “Gargântua e Pantagruel”, um dos do público a que se destina ao seu
ícones do realismo grotesco escrito por “universo” de significados. Por outro lado,
François Rabelais, Bakhtin percebeu que os caracteres que provocam o riso não
a obra cômica está situada no limiar entresão de ordem lingüística. Exatamente
o proibido e o permitido, no umbral do por isso, não há uma teoria universal que
profano e do sagrado, daquilo reservado possa dar conta de todas as possibilidades
à vida privada e o que pode ser exposto humorísticas dos textos cômicos porque
na praça pública. essas possibilidades são inúmeras. Desse
modo, podemos entender que o cômico
É neste trabalho que ele cunha o não é simplesmente depreendido, como
conceito de carnavalização, quando o um aspecto imanente do texto; ele dá-se
mundo às avessas invade a vida cotidiana. como um efeito da interpretação do texto
Durante as festas populares na Idade feita pelo leitor. Por isso, devemos ter em
Média e Renascença, ao homem do povo mente que, antes de “conter” humor, um
é concedida a liberdade à licenciosidade. texto dessa natureza “produz” humor.
Coroações satíricas, linguagem vulgar,

Bibliografia

ARISTÓTELES. Poética.

BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e Renascimento: O


Contexto de François Rabelais. 2ª edição. São Paulo: HUCITEC/UNB, 1993.

FERNANDES, Millôr. A História é uma História e o Homem é o Único Animal


que Ri. Porto Alegre: L&PM, 1978. (Coleção Teatro de Millôr Fernandes)

Teoria do Humor. In: Encilopédia Microsoft Encarta. Microsoft Corporation, 1999.

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Eu também quero me tornar um escritor


Henry Alfred Bugalho

Nós, seres transitórios, buscamos na


criação de algo perene a nossa própria
Cedo ou tarde, quase todo ser humano perpetuação. Uma árvore, se não for
ouve o chamado da Arte. derrubada pela marcha da civilização,
certamente viverá mais do que qualquer
ser humano; um filho carrega, em parte,
os genes de seus pais, mantendo vivo o
DNA dos progenitores, que hão de morrer
As atividades consideradas como o um dia; e o livro, representando todo ofício
legado dum indivíduo neste planeta — artístico, é a ilusão de que nossas idéias
plantar uma árvore, ter um filho e escrever também sobreviverão a nós, que serão
um livro —, fazem parte do anseio natural compartilhadas pelos pósteros.
para driblar a finitude, para enganar a
morte.
Por ser uma faculdade que cultivamos

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Samizdat 3 - março 2008

desde a infância, a escrita parece instrumenta cotidiana de comunicação.


ser o meio mais fácil e certo para nos
expressarmos artisticamente. Falamos, A pessoa nasce com talento; esta
logo escrevemos; sem jamais nos qualidade não se aprende na escola,
questionarmos sobre a ruptura que existe nem em oficinas literárias, nem através
entre estas duas instâncias: a fala e a de livros. Talvez demore anos para se
escrita. descobrir a existência dum talento; às
vezes, a formação educacional, ou a
Não basta saber falar, nem ter sido busca por uma carreira que pareça
alfabetizado, para se tornar um escritor; ser mais vantajosa, relega o talento às
assim como não basta escrever para ser profundezas do indivíduo, para que um
considerado um escritor. dia possa despertar. Mas ele está lá, e
todo mundo possui o seu (pelo menos,
Como qualquer outra forma de Arte, a creio eu); pode não ser para a escrita,
escrita se sustenta sobre três alicerces. mas é para alguma coisa.

Talento Dedicação

Nenhum ser humano é igual a outro, Qualquer atividade técnica exige um


cada um possui suas particularidades, determinado grau de dedicação, isto é,
sua visão de mundo, seus atributos, e o tempo e esforço que a pessoa pode
cada um possui seus talentos. despender para efetuá-la com maestria.

Uns nascem com uma habilidade Uma casa não se constrói num dia
extraordinária para cálculos, outros apenas; são necessários dias, semanas,
com mão cheia na cozinha, outros com meses, preparando o alicerce, pondo
a capacidade para falar em público, tijolo sobre tijolo, fazendo o acabamento;
outros para ajudar o próximo, outros uma colheita também não se faz num dia;
para a música, e assim por diante. Para é preciso arar a terra, semeá-la, proteger
cada ocupação, dentro dum rol quase a plantação das pestes.
infindo de possibilidades, há um talento
específico que faz com que seu possuidor Ninguém obtém bons resultados na
se destaque dos demais. Literatura se não dedica parte de seu dia
para se aperfeiçoar, estudar, escrever,
Com a Literatura não é diferente. revisar. Quem pensa que a escrita é
pura obra do acaso, mera conseqüência
dum arroubo de inspiração, está mal
Alguém que possui talento para a
influenciado. O Romantismo é responsável
escrita — aquele respeito essencial
por disseminar esta idéia, mesmo que,
pela palavra, aquela busca incansável
posteriormente, tenha se descoberto que
pela perfeita expressão, pela frase bem
os próprios autores românticos, como
construída, pelo signo que oculta, ao
Goethe, Schiller, Hoelderlin, ou Vitor
mesmo tempo em que revela, o sentido
Hugo trabalhavam arduamente sobre
do mundo — larga na frente dos demais,
seus textos, sem auxílio algum de musas
para quem a escrita é apenas uma
inspiradoras.

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Nem todos estão preparados para


fazer da escrita sua cruz diária, ser mal
remunerado, gastar meses escrevendo
um livro, sendo que dificilmente receberá
condizente ao esforço empreendido,
alimentar sonhos de fama e reputação e,
no final das contas, não obter nenhuma
das duas.

Quem possui vocação para a escrita,


suporta tais dificuldades com prazer, pois
é incapaz de ser feliz fazendo outra coisa;
mas, para a maioria, escrever jamais
deixará de ser um hobby.

A hipótese dos dois alicerces

Até onde percebo, é possível alguém


Vocação ser bem-sucedido possuindo apenas dois
dos atributos mencionados acima.
Às vezes um sujeito possui talento,
dedica-se ao ofício, mas não possui Alguém com vocação e dedicação
vocação para fazer desta atividade sua pode ir muito mais longe numa carreira
profissão. do que uma pessoa talentosa, mas que
não se aperfeiçoa. Ou talento e dedicação
Não é fácil ganhar o pão com a escrita, combinados podem fazer deste escritor
inclusive, há uma referência clássica um amador de alto nível, que pode não
sobre a vida dura dum escritor: ter nas Letras sua renda principal, mas
angariar alguns leitores e até fazer um
troco paralelamente. E quantas histórias
“Aluísio Azevedo é no Brasil talvez não ouvimos de artistas profissionais
o único escritor que ganha o pão talentosos, porém se nenhuma
exclusivamente à custa de sua pena. disciplina?
Mas note-se que apenas ganha o pão,
as letras no Brasil ainda não dão para a
manteiga.”

A citação é de 1896, mas a realidade Um só destes alicerces não sustenta


não mudou muito desde então. Alguns uma carreira, já os três deles geram um
poucos fazem rios de dinheiro com escritor de primeira linha.
Literatura, mas a enorme massa de
escritores continua recebendo migalhas
por suas obras, isto se receberem algo.

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O quarto elemento

Por fim, o quarto elemento, que pode Conclusão


significar apenas a coroação dum escritor
completo, mas que também basta por si Sem dúvida, você já deve ter ouvido
é a sorte; e por sorte podemos entender o velho papo de que basta buscar seu
muita coisa — estar no lugar certo e sonho para alcançá-lo. Esta conversa
na hora certa, ser amigo de alguém de almanaque zodiacal ou de livro de
influente, abordar um tema polêmico e auto-ajuda é muito bela e estimulante
fazer sucesso por causa disto, ter uma na teoria, mas, na prática, uma carreira,
biografia interessantíssima, que torna o independente de qual for, não se mantém
autor mais importante que a obra, entre se inexistirem as bases.
várias outras circunstâncias que podem
influenciar positivamente, mas que estão
Entre tocar “Parabéns pra você” no
para além da capacidade individual do
piano e tocar um concerto no Carnegie
escritor.
Hall, há um universo de possibilidades,
e por detrás de cada sucesso há muito
É o famoso golpe do acaso, a Roda trabalho, muito esforço, muitos sacrifícios.
da Fortuna, a estrela de que tanto falam. Todos almejam chegar ao topo da
montanha e observar o mundo do alto,
Um escritor pode construir uma mas a escalada é a parte mais complicada
carreira sólida, trabalhando anos a fio e nem todos são capazes.
para compor sua obra, batalhando para se
firmar, enquanto que outro escritor, sem
talento, sem dedicação, sem vocação,
surge do dia para noite, por obra da sorte,
Quase todo mundo ouve um dia o
e faz sucesso. São aqueles eventos
chamado da Arte, mas suportar o peso
inexplicáveis, fenômenos instantâneos.
desta responsabilidade não é nada fácil.
No entanto, se este privilegiado pelo
destino não possuir conteúdo, não
permanecerá; sumirá tão rápido quanto É a vista de sobre as montanhas que
surgiu, sem deixar um único vestígio de faz esta luta valer a pena.
sua passagem.

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Obra Incompleta
Henry Alfred Bugalho
Diante de si, Hubrecht Van Dijk tinha
moinhos, tulipas, o vilarejo lá atrás, o
campanário da igreja e o mar.

Ele traçou o esboço, apertou as


bisnagas e pincelou as primeiras cores na
tela.

Após primavera e verão de trabalho,


a administração do vilarejo começou
a construção dum moderno prédio de
escritórios, completamente destoante
do bucólico cenário, mas acorde com o
espírito vanguardista do prefeito. Van Dijk
comparou a pintura com a paisagem, não
ficou satisfeito. Sua obra representava uma
realidade não mais existente, precisava
alterá-la, incluir o novo edifício.
O Velho Moinho, de Vincent Van Gogh
Tendo feito isto, nova insatisfação: um
moinho havia pegado fogo, ato criminoso
ou não, nunca foi esclarecido, mas Van Dijk modificou o antes alegre moinho, por
outro enegrecido de fuligem.

O vermelho do outono chegou, as tulipas morreram, o céu nublado. As cores do


quadro de Van Dijk mentiam. Apressado, desesperado para concluir sua obra, o artista
lançou tons pastéis sobre a tela.

Porém, o cinzento inverno, com neve, gelo e árvore secas, também adveio. E o
vermelho, ocre, marrom deram lugar ao branco e ao cinza.

Sempre algo diferente, sempre a mutação da realidade, sempre a verdade de


Heráclito estapeando Van Dijk na cara. Ele era incapaz de capturar o real.

Por trinta anos o artista lutou com sua obra, quando foi diagnosticado com câncer
terminal, seis meses de vida, Van Dijk queimou a pintura inacabada e inacabável.
Numa tela em branco, começou tudo de novo e pintou aquela primeira paisagem,
sem prédio moderno, sem moinho queimado, sem folhas vermelhas nem neve nas
árvores.

Pintou a única pintura real, a das cores, não da realidade.

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Samizdat 3 - março 2008

Brincadeira dos Deuses


Henry Alfred Bugalho

Os mestres enxadristas se encararam,


ambos sabendo exatamente qual próximo
movimento deveriam executar para
desestabilizar as defesas do adversário,
ambos antevendo três ou quatro jogadas,
ambos hábeis demais para cometerem
erros de principiantes, caírem em
artimanhas flácidas, iludirem-se com
sacrifícios de peões, exaltarem-se com
jogadas aparentemente sem sentido,
demonstrarem sua inquietude diante da
desvantagem; pois eram mestres, não
meros iniciantes.

Mas a bola de uma criança no parque


estragou a partida, com o impacto,
arremessou reis, bispos e cavalos por
terra.

Os dois mestres sentaram-se, lado a


lado, num banco defronte ao crepúsculo. Continuaram jogando em seus pensamentos,
cada um vangloriando-se de sua vitória, até o céu ficar salpicado de estrelas e de
fantasmagóricos reis mortos.

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Herói
Denis da Cruz

As duas magnuns escorregaram prédio. Os bandidos ameaçavam matar


macias para o descanso dos coldres. um refém a cada quinze minutos, caso
Ainda sopravam um fio de fumaça dos suas exigências não fossem atendidas.
longos canos prateados.
Marko não apostaria no blefe, pois o
O esquadrão de elite entrou pela porta preço era a vida de inocentes.
giratória, tomando conta de todo o hall do
banco. Reféns correndo, alguns chorando, Abriu um mapa do prédio, localizou
outros ainda imóveis pela tensão. um duto de ventilação. Entrou por ele e
despencou no centro do hall. Antes que
- Caceta! – disse Joe tocando o ombro seu corpo tocasse o chão, fez cinco
do herói. – Quem precisa da Elite quando disparos. Precisava esperar o tambor
se tem na equipe o grande Marko?! rodar e oferecer o rabo da bala para o cão
morder.

Quando aterrissou, cinco bandidos


Há meia hora, o alarme daquele estavam estirados no chão. Uma bala
banco havia soado. Em seguida, policiais para cada. Enquanto caia e atirava, pode
de todas as escalas estavam cercando o sentir o cheiro da carne – “A carne!” – de
cada um.

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Samizdat 3 - março 2008

- Qual é seu segredo? Como você subia numa veia, até perto da virilha –
conseguiu matar todos eles? – perguntou “Chupa minhas bolas.”
Joe.
Não contara para ninguém sobre
- Sorte – sorriu-lhe Marko. – Pura aquilo. Sabia muito bem o que fariam
sorte. com ele. Viraria cobaia em algum
laboratório com cientistas loucos. Tomou
medicamentos por conta própria. Nada
adiantou. A infecção subia num ritmo lento
– “em câmara lenta, como todo o mundo”
Estaria nos jornais de amanhã – “Mais
– mas ainda chegaria ao coração.
uma vez” –, como um herói – “De novo”.
Mas a noite era sempre solitária – “E
muito fria, não esqueça de contar isto. As
noites agora são mais frias.” – Ligou a tv
e jogou o controle no sofá. Há dois meses, recebera um chamado
na viatura. Duas garotas haviam sumido
Da geladeira, retirou um bife cru e num bairro pobre. Suspeitavam que
jogou para dentro do prato – “Carne!” Mandrax, um serial killer, estivesse
envolvido nos sumiços – “sim, neste
e em todos os outros que a polícia não
Sentou-se e sorriu para a tela. Uma
conseguia desvendar.”
mulher em látex negro pairava no ar
e golpeava com os pés – “Matrix, seu
porra. Diz logo que é a Trinity da Matrix e Marko – “o herói” – foi para o local e,
qualquer mané vai saber.” investigando, encontrou ao lado de um
poço uma tira de pano, na cor da roupa
descrita pela mãe da garota.

Conferiu a largura do poço e calculou


Às vezes – “sempre” – sentia-se
que conseguiria descer – “E desceu,
flutuando daquela forma, como se o
otário.” – Chegando ao fundo seco,
mundo estivesse em câmara lenta. Mirava
percebeu que havia uma passagem.
tão rápido que precisava esperar a bala
Entrou por ela; numa mão a arma, na
sair pelo cano para, só então, mirar no
outra, a lanterna – se tivesse outra mão,
próximo alvo.
estaria segurando o cu.

Após comer a carne – “crua” – lambeu


o fundo do prato – “sangue”. – Recostou-
se no sofá – “Mr. Anderson fugindo do
agente Smith na tela” – e puxou a calça A passagem foi alargando. De
da perna esquerda até o joelho. gatinho, passou a andar agachado,
depois abaixado. Finalmente estava em
pé, rodeado por paredes de rocha e terra
“Vou ter que mostrar a merda da
úmidas. Escutava o constante gotejo,
ferida pra você continuar com a porra da
até conseguir distinguir, muito ao longe,
história?” – No começo, Marko sentia-se
choramingos. Eram as garotas – “A
enojado com a carne aberta na altura da
carne”.
canela. O roxo, misturado com o negro
apodrecido, empurrava a infecção que

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Marko não mudou o ritmo dos passos. lhe as pernas e cravou as mandíbulas,
A luz da lanterna na mira da arma – rasgando a calça e a carne. Por puro
“uma automática, naquela época não reflexo, Marko descarregou o que sobrara
gostava de ver miolos explodindo e carne no pente na cabeça do monstro.
dilacerando. Ou fingia não gostar.”
Sentou-se ao chão, puxando a calça
Ao fundo, pode distinguir a figura de e sentindo a dor lacerante na perna.
duas meninas abaixadas. Se abraçavam Arrastou-se até as vítimas.
uma à outra e, ao lado delas, uma estranha
figura se levantou. Lívida como um pilar de - Está tudo bem, não se preocupem.
mármore; olhos fundos e esbranquiçados Ele está morto agora – tentou acalmar as
em cima de narinas afundadas até o meninas.
osso. A boca sem lábios lhe conferia um
sorriso macabro, manchado de sangue
Voltou pelo túnel com as duas e, do
ressecado.
poço, chamou ao rádio. Foram resgatados,
mas algo dentro dele – “eu?” – dizia para
A criatura se levantou lentamente não comentar nada sobre a ferida. Seria
– “em câmara lenta, como o mundo”. seu – “nosso” – segredo.
Com passos trôpegos – “arrastados.
Diz arrastados que descreve melhor” –
caminhou em direção ao policial.

As primeiras noites foram horríveis,


- Pare! – gritou Marko. – Pare, ou atiro!
mas a dor passou. Algo em seu sangue,
– insistiu mirando na criatura.
misturado com seja lá o que havia naquela
mordida, o fez acelerar seus instintos –
Não foi obedecido. Gotas, choramingos, “suas necessidades primais” – e reflexos.
e agora grunhidos, ecoavam pelas O mundo ao seu redor ficou mais lento –
paredes. como o andar de um zumbi.

O dedo de Marko afundou no gatilho, Agora Marko – “e eu” – assistia a


saraivando o peito da criatura que infecção galgar por sua veia. Não revelaria
arquejou sobre os joelhos e debruçou no para ninguém o segredo de sua atual
chão. agilidade. Sua mente era assolada com o
mistério sobre o que aconteceria quando
Caminhou pelo túnel, fazendo mira na chegasse ao seu coração – “Ah, senhor
cabeça morta – “Ah sim, ele realmente escoteiro metido a escritor, quando o veio
estava morto. Não duvide disto. Mas, negro chegar ao coração, será tudo bem
mesmo assim, vem aquela patética cena simples: Eu vou estar lá e, então, vou
de todo filme de terror. Vai, conta...” querer carne.”

Ao passar pela criatura, Marko só tinha


olhos para as garotas – “a carne” – que
choravam ainda mais alto. Ao pisar entre
os braços do morto, a criatura agarrou-

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Samizdat 3 - março 2008

O Espelho
José Espírito Santo
- Não é normal – disse eu ao meu primo.

- Não é normal o quê?

- O olhar do gajo. Vítreo, desfocado. Parece um


Robot.

O meu primo é um céptico que veste “Pullover”


aos losangos, corta o cabelo com “risco ao meio”
e acha que tudo o que acontece é normal ou, pior,
tem uma razão de ser. Ao interpelá-lo, adivinhava já
a reacção – sabia antecipadamente que ia tratar o
assunto com desinteresse. Sempre fomos diferentes
e a bem da verdade não irei mentir, a família é um
tanto ou quanto conservadora – são quase todos
como ele. É o primeiro filho do irmão mais velho da minha mãe e herdou do pai o
porte, a compleição física impressionante e a casmurrice.

- Anda cá, tens de ver o gajo. Anda antes que se vá embora – insisti. Não
respondeu.

- Anda Abel. Vem cá ver o “cara de parvo” – entretanto o “cara de parvo” estava aí
a uns dois metros de mim. Parado. Fitava-me.

Tínhamos saído do Bar há pouco mais de meia hora, vinte minutos antes das
três, horário de fecho costumeiro do mesmo. Talvez tivesse bebido um pouco mais
que ele, não sei… Noite óptima, céu limpo, era possível ver ao longe, por detrás
da parede mais próxima, o cintilar das estrelas. Meu primo não me ligava e então
descobri que motivo outro tinha para lá da descrença habitual: olhava para um alto
longínquo tentando (sem sucesso) descobrir a Constelação.

- Sabes como se acha a Ursa Maior, Constâncio?

Não respondi. Agastado, pensei “Desta vez não te ficas a rir, indiferente”. Se tão
bem pensei, melhor o fiz: descalcei o sapato do pé esquerdo e, fazendo pontaria ao
meio da testa, lancei-o em arco. A coisa acertou em cheio, mesmo em cima do dedo
mindinho.

O resultado não foi exactamente o que esperava: Primeiro deu o berro. Depois
levantou-se e avançou na minha direcção com ar ameaçador. Tendo chegado, parou,
olhou para nós uma primeira e repetida vez e acalmou-se. Disse-me então para me
deixar de parvoíces e fazer o favor de sair de frente do espelho.

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A Frase
José Espírito Santo

Francisco chega a casa molhado e cansado. Como nos últimos dias, pouco depois
de entrar liga o “laptop” e fica à espera. Aguarda até que vê o aparelho encher-se de
cor, as letras pequenas comunicando necessidade de receber uma identificação e a
respectiva palavra passe. Está inquieto, algo preocupado e, também… o caso não é
para menos!

Lá fora, a chuva bate com força na vidraça e o vento sopra forte, provocando
ruídos esquisitos. A água escorre veloz por calhas estreitas de eléctricos, incomodando
poucos, descendo desgovernada para os lados do Cais do Sodré. Há muito que o
cenário se despiu de artefactos humanos, estando agora recolhidos e aconchegados
quase todos os transeuntes.

A máquina fora dada assim de repente e por isso acha normal encontrar ainda
a conta antiga - alienígena, os “folders” com lixo e algumas, muitas manias. Mas
aquilo, aquela coisa não esperava. E não se dará a cuidados de informar ninguém
sobre o comportamento estranho. “Se o fizer que irão dizer? O mais provável será
o descrédito das suas afirmações. Chamá-lo-ão louco, considerá-lo-ão um chalado
e ele não quer que isso aconteça”. Tem medo porque sabe (considera) que a maior
parte das vezes os dementes dão-se mal.

Passa dedos por teclas, introduzindo as informações necessárias. Primeiro, surge


a saudação composta pela frase “Bem Vindo” escrita em letras grandes e vistosas.
Depois é a vez do “ícone” em forma de ampulheta marcar a passagem de um tempo
morto para desaparecer logo em seguida, cedendo lugar à janela de fundo negro

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Samizdat 3 - março 2008

onde se alinham os símbolos (escritos a vermelho) de palavras das três linhas. Lê.

Como nos últimos dias, a face ganha um tom vermelho rubro, tenso e o coração
começa a bater descompassadamente e mais depressa. O juízo identifica rapidamente
a necessidade de acção. Como nas horas primas das noites dos três últimos dias, o
corpo ergue-se, curvando-se um pouco para a frente. Carrega no botão. A mão fecha
a tampa.

“Dona Hermínia, vou sair. Não se preocupe comigo. Devo voltar tarde”

Diz, voz cava e ninguém lhe responde.

Desce os quatro lances de escadas com descer desengonçado, aos tropeções.


Firma os óculos, aperta o casaco e abre o guarda-chuva para proteger-se das bátegas
que descem incessantemente.

Atravessa e entra na Travessa do Grémio Lusitano. Ao fundo, dobra a esquina


e vira à direita para a Rua da Atalaia. Bate a uma porta de madeira. Pequenina.
Ninguém abre.

Passam-se várias horas. Quase um dia, muitas horas…

Volta a casa molhado e cansado. Como nos últimos tempos, pouco depois de
entrar liga o “laptop” e fica à espera até que vê o aparelho encher-se de cor, as letras
pequenas comunicando necessidade de receber a identificação e a palavra passe.
Está inquieto, algo preocupado e, também… o caso não é para menos!

Lá fora chove e o vento sopra. A escuridão é rasgada apenas pela percepção de


traços de gotas. A água corre velozmente por calhas estreitas. Na rua já não se vê
vivalma.

Abre a máquina e introduz um nome de conta e a respectiva senha. Decorrem


poucos segundos até que aparece uma janela com a frase.

“Vai à mercearia da Tia Joana comprar um litro de leite!”

Preocupado, desliga o computador, vocifera qualquer coisa para o vazio e sai


batendo com a porta. Desce a correr os lances de escadas.

(Quase) toda a gente sabe que as mercearias estão fechadas à noite. Mas aquela,
nas próximas semanas, nem de dia dará as caras. Porque (como práticamente todos
sabem no bairro) os donos estão de férias e partiram outro dia para uma aldeola
longínqua que fica lá para os lados de Trás-os-Montes.

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Sou
José Espírito Santo

Fragmento de pedaço de tempo perdido

Orgão no denso e tenso acto repetido

Sou o chão e um não e nunca mais eu

Sou o cem; sempre vou a sem... o cem...

Sou o que já ali vai e não mais me vem

Espaço de meu abraço que não se tem

Parte de letra que ninguém jamais leu!

Sou o sem; sempre vou a cem... o sem...

Pedra terrena, pequena calçada equipada

No ponto redondo, efémero, de encruzilhada

Entre o nada e a estrada e momento meu

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Samizdat 3 - março 2008

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho

Eternidade
O vampiro viveu para todo o sempre.
Que tédio!

A Passageira Alegre
Tinha orgasmo duas vezes ao dia. Tremelique do ônibus indo e voltando do
trabalho.

Coisas de Mulher
Marcia Szajnbok

I.
Dez dias de atraso e um desejo imenso. Entrou no laboratório com o coração aos
pulos.
Abriu o exame: NEGATIVO
O peito doeu. Num choro, o atraso acabou.

II.
Dias e dias pensando no que vestir na festa e, ao entrar, lá estava ela, a garota
mais chata da turma, com uma roupa idêntica!
Por dentro: gasolina e fósforos, o vestido e a chatice transformados em carvão em
segundos.
Por fora: sorriso amarelo, três beijinhos, veja só como temos bom gosto!

III.
Namorico de infância. Não se viam há décadas.
- Calor hoje, não?
- Sim... capaz de chover mais tarde...
E, da previsão do tempo ao beijo-nostalgia bastaram três segundos.

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Luxo
Jurandir Araguaia

Ao abrir a porta notou o ambiente


em pouca luz. A extravagante cobertura
situava-se no mais nobre ponto da
cidade. Procurou-a com um olhar pela
ampla sala. Fechou a porta. Deixou
a pasta e o casaco sobre uma cadeira
logo à entrada. Respirou fundo. O olhar
correu, agora lentamente, por cada um
dos conhecidos cantos. A escuridão,
quase total, não permitia que enxergasse
direito. Sabia do que se tratava. Era
sexta-feira. O mercado financeiro fora
bom. Cotações em alta.

Caminhou lentamente. Uma música


suave começou a tocar espalhando-se
pelo ambiente. As poucas luzes mudaram
para um tom avermelhado. Sentia uma
fragrância deliciosa no ar. Respirou
fundo.

- Vou te achar! – disse em voz baixa.

A um canto distinguiu seu vulto.


Parecia sentada sobre um objeto.
Uma tímida luz foi sendo acesa aos
poucos. Daniele apareceu-lhe em tons
alaranjados, intensos, dando à sua pele um tom de cobre. Olhava-o profundamente.
Vestida sumariamente. Fantasiava-se de fada, o pano fino, transparente, deixava
à mostra os belos contornos. Não estava sentada sobre um objeto, encontrava-se
dentro de um carrinho de supermercado.

Ele teve vontade de rir.

- E essa agora!

- O cavalheiro veio fazer compras? – a voz da mulher soou sensual.

- Depende, o que você está vendendo?

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Samizdat 3 - março 2008

- Fantasias sexuais... – deixava que a língua umedecesse os lábios vermelhos e


carnudos.

Ficou em pé sobre o carrinho. Ele temeu que ela caísse ou que o veículo se
movesse. Somente então notou que estava firme, apoiado entre duas poltronas.

- O cavalheiro se interessa?

Aos poucos foi tirando a gravata. Desabotoou o colarinho e as mangas, enquanto


caminhava na direção da diva. Em pé ela valorizava suas formas. Uma calcinha,
provocante, se via sob a camada fina da vestimenta leve. Enfeitara-se com pulseiras,
colares. O cabelo penteado. O corpo coberto por purpurina dourada.

Ele estava ofegante. Algo começou a embaralhar-lhe a vista. Tivera um dia de


recuperação após o caos que varrera o mundo dos negócios naquela semana. Bush,
Guerra do Iraque, crise do mercado americano, recessão, comodittes. A euforia do
mercado, os milhões que girou ora perdendo, ora ganhando.

Daniele pareceu deformar-se à sua frente. Teve a impressão de que transmudava


em um monstro vermelho, com cauda pontiaguda, chifres, tridente, presas e garras.

- Você quer que eu o ame? – o monstro exalava um odor de morte.

Afastou-se assombrado. A criatura saltou do carrinho e o segurou pelo pescoço


erguendo-o até que sua cabeça tocasse no teto.

- O que foi, querido? Não gostou da surpresa? O monstro crava-lhe a outra mão
rasgando-lhe o peito. Aproxima-o de sua boca e lhe dá um beijo. O corpo treme, sente
uma aflição, falta de ar, uma profunda dor a contrair-lhe as entranhas.

Vendo-o tombar ela desce do carrinho e tenta, sem sucesso, reanimá-lo. Muito
tarde. O monstro, a essa altura, carregava-o em seus braços fortes levando-o para
uma viagem sem volta...

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TRADUÇÃO

Liev Tolstói, também conhecido como


Léon Tolstói ou Leão Tolstoi ou Leo Tolstoy,
Lev Nikoláievich Tolstói (9 de setembro de
1828 - 20 de novembro de 1910) foi um
escritor e ensaísta russo muito influente na
literatura e política de seu país. Junto a Fiódor
Dostoiévski, Tolstói foi um dos grandes da
literatura russa do século XIX. Suas obras
mais famosas são Guerra e Paz, sobre as
campanhas de Napoleão na Rússia, e Anna
Karenina, onde denuncia o ambiente hipócrita
da época e realiza um dos retratos femininos
mais profundos e sugestivos da Literatura.
Membro da nobreza, entre 1852 e 1856
realizou três obras autobiográficas: Meninice,
Adolescência e Juventude. Tolstói serviu no
exército durante as guerras do Cáucaso e
durante a Guerra da Criméia como tenente
- cuja experiência transpôs para o romance
Sebastopol (1856) em que expressa suas
opiniões contrárias à guerra. Esta experiência
converter-lhe-ia em pacifista. Associado
à corrente realista, tentou refletir fielmente a sociedade em que vivia. Vítima de
pneumonia, morreu miseravelmente numa estação ferroviária, em 1910.

(fonte: Wikipédia)

O Longo Exílio
Léon Tolstói
trad.: Henry Alfred Bugalho

Na cidade de Vladimir, vivia um Certo verão, Aksionov ia para a Feira


jovem mercador chamado Ivan Dmitrich de Nizhny e, ao se despedir de sua família,
Aksionov. Ele possuía duas lojas e uma a esposa lhe disse:
casa própria.
— Ivan Dmitrich, não vai hoje; eu tive
Aksionov era uma rapaz bonito, pesadelo com você.
cabelos loiros encaracolados, divertido
e que gostava duma cantoria. Ainda Aksionov riu, e disse:
bastante jovem, ele era dado a beber e,
quando passava da conta, se tornava um
— Você tem medo de que, quando eu
baderneiro; mas, após se casar, ele parou
chegar na feira, eu caia na farra.
de beber, tirando uma vez ou outra.

A esposa respondeu:

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Samizdat 3 - março 2008

— Não sei do que tenho medo; tudo quilômetros, ele parou para alimentar os
que sei é que tive um pesadelo. Sonhei cavalos. Aksionov descansou um pouco
que você retornava para a cidade e, ao na entrada duma estalagem, depois
tirar seu chapéu, vi que seu cabelo estava adentrou a varanda e, ordenando que
grisalho. aquececem o samovar, tirou seu violão e
começou a tocá-lo.
Aksionov riu.
De repente, uma troika apareceu,
— Este é um sinal de boa sorte, ele sinos tilitando, e um oficial desembarcou,
disse. Aposto que venderei todas minhas seguido por dois soldados. Ele se
mercadores, e trarei alguns presentes aproximou de Aksionov e começou
para você da feira. a questioná-lo, perguntou com quem
ele esteve e de onde ele estava vindo.
Aksionov respondeu tudo, e perguntou:
Ele disse adeus à família e partiu.

— Não quer tomar um chá comigo?

Mas o oficial continuou


interrogando-o:

— Onde você passou a noite anterior?


Você estava sozinho, ou com um outro
mercador? Você viu este mercador
hoje de manhã? Por que você partiu da
estalagem ainda de madrugada?

Aksionov tentava imaginar o porquê


de ele fazer todas estas perguntas, mas
descreveu tudo que tinha acontecido, e
Após ter viajado metade do trajeto, ele então acrescentou:
encontrou um mercador a quem conhecia,
e eles pernoitaram na mesma estalagem.
— Por que você me interroga como
Beberam chá juntos, depois foram dormir,
se eu fosse um ladrão ou bandido? Estou
em quartos contíguos.
viajando a negócios, sozinho, e não há
necessidade de me interrogar.
Aksionov não tinha o costume de
dormir tarde e, como desejava viajar
Então o oficial, chamando os soldados,
enquanto o dia ainda estava fresco, ele
esclareceu:
despertou o condutor antes de amanhecer
e o instruiu a preparar os cavalos.
— Eu sou o oficial da polícia deste
distrito, e eu o interrogo porque o mercador
Então ele se dirigiu ao proprietário
com o qual você passou a última noite
da estalagem (que vivia num chalé nos
foi encontrado com a garganta cortada.
fundos), pagou sua conta e prosseguiu
Precisamos vasculhar seus pertences.
em sua viagem.

Eles entraram na casa. Os soldados e


Quando havia percorrido uns quinze

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o oficial da polícia abriram as bagagens de que ele não tinha dinheiro, com exceção
Aksionov e as reviraram. Repentinamente, de oito mil rublos que lhe pertencia, e que
o oficial retirou, dum saco, uma mala, a faca não era dele. Mas sua voz estava
gritando: trêmula, o rosto, pálido, e ele tremia de
medo, como se ele fosse culpado.
— De quem é esta faca?
O oficial da polícia deu ordem aos
Aksionov olhou, e, diante da visão da soldados para prendê-lo e pô-lo na
faca enangüentada encontrada em sua carroça. Enquanto eles amarravam-no
mala, ele se assustou: os pés e o arremessavam para dentro da
carroça, Aksionov fazia o sinal da cruz e
se lamentava. Seu dinheiro e mercadorias
— E por que há sangue nesta faca?
foram confiscadas, e ele foi enviado
para a cidade mais perto e aprisionado.
Investigações sobre seu caráter foram
feitas em Vladimir. Os mercadores e
outros habitantes da cidade disseram
que, no passado, ele costumava beber e
vagabundear, mas que ele era um bom
homem. Chegou o dia do julgamento:
ele foi acusado de ter assassinado um
mercador de Ryazan e roubado dele vinte
mil rublos.

Sua esposa se desesperou e não


sabia no quê acreditar. Os filhos dela
Aksionov tentou responder, mas mal
eram todos pequenos: um ainda era
conseguia pronunciar uma palavra, e
bebê de colo. Levando todos consigo, ela
apenas gaguejou :
foi até a cidade onde seu marido estava
preso. A princípio, não permitiram que ela
— Eu — não sei — não... minha. o visitasse, mas depois de muito implorar,
ela obteve permissão dos oficiais, e o
Então o oficial da polícia disse: encaminharam até ele. Ao ver seu marido
com uniforme de presidiário e acorrentado,
— Nesta manhã, um mercador foi trancafiado com ladrões e criminosos, ela
encontrado na cama com a garganta desmaiou, e não voltou a si por longos
cortada. Você é a única pessoa que poderia minutos. Então ela trouxe para perto de
ter feito isto. A casa estava trancada por si as crianças e se sentou ao lado dele.
dentro e não havia mais ninguém lá. Há Ela contou para como estavam as coisas
uma faca ensangüentada na sua mala, em casa e perguntou sobre o que havia
e seu rosto e suas expressões o traem! acontecido com ele. Ele explicou tudo, e
Diga-me como você o matou e quanto ela perguntou:
você roubou dele?
— O que podemos fazer agora?
Aksionov jurou que não havia feito Temos de pedir ao Czar para não deixar
nada; que não havia visto o mercador um homem inocente perecer.
depois de eles terem tomado chá juntos;

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Samizdat 3 - março 2008

Sua esposa lhe disse que haviam os ferimentos feitos pelo chicote foram
enviado uma petição ao Czar, mas que curados, ele foi mandado para a Sibéria
não havia sido aceita. com outros condenados.

Aksionov não respondeu, apenas Por vinte e seis anos, Aksionov viveu
baixou o olhar. como um prisioneiro na Sibéria. Seu
cabelo ficou branco como a neve, e sua
Então sua esposa disse: barba cresceu longa, fina e cinza. Toda
sua alegria se esvaiu; ele se acorcundou;
caminhava vagarosamente, falava pouco,
— Não foi em vão eu ter sonhado que
nunca ria, mas orava constantemente.
seu cabelo tinha ficado grisalho. Você
se lembra? Você não devia ter viajado
naquele dia. Na prisão, Aksionov aprendeu a fazer
botas, o que lhe rendia algum dinheiro,
com o qual ele comprou A Vida dos
E deslizando os dedos pelos cabelos
Santos. Ele lia este livro enquanto havia
dele, ela perguntou:
luz suficiente na prisão; e, aos domingos,
na capela da prisão, ele lia as lições
— Vanya, querido, diga a verdade e cantava no coro; pois sua voz ainda
para sua esposa; não foi você quem fez estava boa.
isto?
As autoridades da prisão gostavam
— Até você suspeita de mim também! de Aksionov por sua submissão, e seus
disse Aksionov e, escondendo o rosto colegas de cárcere o respeitavam:
com as mãos, começou a chorar. Então chamavam-no “padrinho”, ou “o Santo”.
um soldado veio e disse que a esposa e Quando eles queriam pedir algo para
as crianças tinham de ir embora; Aksionov as autoridades da prisão sobre qualquer
se despediu da sua família pela última assunto, eles sempre faziam de Aksionov
vez. seu porta-voz, e quando havia disputas
entre os prisioneiros, eles vinham a ele
Quando eles haviam partido, Aksionov como conciliador, para julgar a questão.
se recordou do que tinha sido dito, e se
lembrou que sua esposa também havia Aksionov não recebia notícias de casa
suspeitado dele, e falou para si mesmo: e não sabia até mesmo se sua esposa e
filhos estavam vivos.
— Parece que só Deus sabe a verdade;
é para Ele apenas que devemos recorrer, Um dia, uma nova leva de condenados
e Dele apenas que devemos esperar chegou à prisão. À noite, os antigos
misericórdia. prisioneiros reuniram os novos e os
perguntaram de quais cidades ou vilas
E Aksionov não escreveu mais eles tinham vindo, e quais eram suas
petições; perdeu toda a esperança e condenações. Aksionov se sentou no
apenas rezava para Deus. meio deles, perto dos recém-chegados,
e ouviu, com ar pesaroso, ao que eles
Akvionov foi condenado a ser diziam.
chibatado e enviado para as minas. Ele
foi açoitado com um chicote, e quando Um dos novos condenados, um

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homem alto, por volta dos sessenta anos, pelo que tudo indica! E você, vovô, como
barba grisalha bem aparada, contava aos veio parar aqui?
outros porque ele foi preso.
Aksionov não gostava de falar sobre
— Bem, amigos, ele disse, eu apenas sua desgraça. Ele apenas suspirou e
peguei um cavalo que estava atado a disse:
um trenó, fui preso e acusado de roubo.
Aleguei que eu o havia pegado apenas — Por meus pecados, estou na prisão
para chegar em casa mais rápido e que há vinte e seis anos.
depois eu o devolveria; além disto, o
condutor era um amigo pessoal meu. Eu
— Quais pecados? — indagou Makar
disse, então:
Semyonich.

— Está tudo bem.


Mas Aksionov apenas respondeu:

— Não, eles responderam, você o


— Bem, bem — eu devo ter
roubou.
merecido!

Mas como e onde eu o havia roubado


Ele não teria contado mais anda,
eles não conseguiam determinar. Certa
mas seus companheiros narraram aos
vez, eu fiz algo realmente errado e devia,
recém-chegados como Aksionov havia
com razão, ter vindo para cá há muito
vindo parar na Sibéria; que alguém havia
tempo, mas, àquela época, eu não fui
matado um mercador, posto a faca em
pego. Agora, fui enviado pra cá por nada....
meio os pertences de Aksionov, e como
hum, mas eu estou mentindo pra vocês;
ele havia sido condenado injustamente.
já estive na Sibéria antes, mas não fiquei
por muito tempo.
Ao ouvir isto, Makar Semyonich fitou
Aksionov, deu um tapa no próprio joelho
— De onde você é? — alguém
e exclamou:
perguntou.

— Nossa, isto é incrível! Realmente


— De Vladimir. Minha família é
inacreditável! Como você envelheceu,
daquela cidade. Meu nome é Makar, e
vovô!
eles também me chamam Semyonich.

Os outros o perguntaram por que ele


Aksionov ergueu a cabeça e
estava tão surpreso, e onde ele havia visto
perguntou:
Aksionov antes; mas Makar Semyonich
não respondeu. Ele apenas disse:
— Diga-me, Semyonich, você
sabe alguma coisa sobre a família de
— É incrível que nós tenhamos nos
mercadores Aksionovs de Vladimir? Eles
encontrado aqui, camaradas!
ainda vivem?

Estas palavras fizeram Aksionov


— Conhecê-los? Claro que sim. Os
imaginar se este homem sabia quem
Aksionovs são ricos, apesar de o pai estar
havia matado o mercador; então ele
na Sibéria — um pecador como a gente,
perguntou:

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Samizdat 3 - março 2008

— Será que você, Semyonich, já não correntes, os condenados, todos os vinte


ouviu sobre este caso antes, ou talvez e seis anos que passou na cadeira, e seu
tenha me visto? envelhecimento precoce. Pensar em tudo
isto o fez se sentir tão miserável que ele
— Como pude não ter ouvido? O estava prestes a se matar.
mundo está repleto de boatos. Mas isto
foi muito tempo atrás, e já me esqueci do — E tudo isto é obra daquele vilão!
que ouvi. — pensou Aksionov. E sua raiva contra
Makar Semyonich era tão grande que ele
— Será que você não ouviu quem ansiava por vingança, mesmo que ele se
matou o mercador? — perguntou arruinasse por causa disto. Ele continuou
Aksionov. recitando as preces durante toda a
noite, mas não obtinha paz. De dia, ele
não conseguia chegar perto de Makar
Makar Semyonich riu, depois
Semyonich, nem mesmo olhar para ele.
respondeu:

Duas semanas se passaram deste


— Deve ter sido aquele em cuja mala
jeito. Aksionov não conseguia dormir
a faca foi encontrada! E se outra pessoa a
à noite, tão infeliz que não sabia o que
escondeu lá, “ele não é um ladrão, até ter
fazer.
sido pego” como diz o ditado. Como ele
poderia ter posto uma faca em sua mala,
enquanto você escorava sua cabeça Numa noite, enquanto ele andava
nela? Você certamente teria acordado. pela prisão, ele reparou que um pouco
de terra saía de sob um dos beliches nos
quais dormiam os prisioneiros. Ele parou
Ouvir estas palavras fez com que
para ver o que era. De repente, Malar
Aksionov tivesse certeza de que este era
Semyonich se arrastou de sob o beliche,
o homem quem havia matado o mercador.
e olhou assustado para Aksionov. Este
Ele se levantou e saiu dali. Durante toda
tentou passar sem olhar para ele, mas
a noite, Aksionov ficou acordado. Ele se
Makar o agarrou pela mão e lhe contou que
sentia terrivelmente infeliz e todo tipo
ele havia cavado um buraco sob a parede,
de imagens surgiu em sua mente. Havia
livrando-se da terra ao escondê-la em
a imagem de como era a sua esposa
suas botas de cano longo, e esvaziando-
quando ele se despediu dela para ir à
as todos os dias na estrada por onde
feira. Ele a via como se ela estivesse
os prisioneiros eram encaminhados ao
presente; o rosto e os olhos dela surgiam
trabalho.
diante dele; ele a ouvia falar e rir. Então
ele viu seus filhos, pequeninos, assim
como eles eram àquela época: um — Bico fechado, velho, e você poderá
vestindo um casaquinho, o outro, no colo fugir também. Se você der com a língua
da mãe. E, então, ele se lembrou de como nos dentes, eles me açoitarão até tirar
ele costumava ser — jovem e feliz. Ele meu couro, mas eu darei um fim em você
se lembrou de como ele estava sentado, primeiro.
tocando violão na varanda da estalagem,
quando ele foi preso, e como ele estava Aksionov tremia de raiva, enquanto
livre de preocupação. Ele viu, em sua fitava seu inimigo. Ele desvencilhou sua
mente, o local onde ele foi açoitado, o mão, dizendo:
verdugo, e as pessoas ao seu redor; as

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— Não tenho vontade de fugir, e você não estivesse preocupado, olhando


não precisa me matar; você me matou para o governador e quase sem espiar
muito tempo atrás! E sobre delatá-lo — Aksionov. Os lábios e mãos de Aksionov
talvez eu o faça, talvez não, dependendo tremiam e, por um longo tempo, ele não
de como Deus me orientar. conseguiu pronunciar uma palavra sequer.
Ele pensou, “por que eu deveria proteger
No dia seguinte, enquanto os aquele que arruinou minha vida? Deixe
condenados eram levados para o trabalho, que ele pague por aquilo que eu sofri.
os soldados do comboio perceberam que Mas, se eu contar, eles provavelmente o
um ou outro dos prisioneiros esvaziava açoitarão até lhe arrancar o couro, e talvez
um pouco de terra de suas botas. A prisão eu tenha suspeitado dele erroneamente.
foi vasculhada e encontraram o túnel. O E, no final das contas, que bem isto fará
governador veio e interrogou todos os para mim?”
prisioneiros para descobrir quem havia
cavado o buraco. Todos negaram ter algum — Bem, ancião, repetiu o governador,
conhecimento sobre isto. Aqueles que diga-me a verdade: Quem andou cavando
sabiam, não trairiam Makar Semyonich, sob a parede?
cientes de que ele seria chibatado até
quase a morte. Por fim, o governador se Aksionov fitou Makar Semyonich, e
voltou para Aksionov, que ele sabia ser disse:
um homem justo, e questionou:
— Não posso contar, sua excelência.
— Você é um ancião de confiança; Não é a vontade de Deus que eu fale!
diga-me, diante de Deus, quem cavou o Faça o que quiser comigo; estou em suas
buraco? mãos.

Makar Semyonich agia como se ele Independente de quanto o governador

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Samizdat 3 - março 2008

tentasse, Aksionov não disse mais nada, Aksionov, mas eu sofri por sua causa
e tiveram de abandonar a questão. durante estes vinte e seis anos. Para
onde eu iria agora? Minha esposa está
Naquela noite, quando Aksionov morta, e meus filhos se esqueceram de
estava deitado em seu leito e quase mim. Não tenho para onde ir...
começando a adormecer, alguém veio,
em silêncio, e se sentou na cama dele. Makar Semyonich não se levantou,
Ele perscrutou a escuridão e reconheceu mas batia com a cabeça no chão.
Makar.
— Ivan Dmitrich, perdoa-me! — ele
— O que mais você quer de mim? — gritava — Quando eles me açoitaram com
perguntou Aksionov — Por que veio até o chicote, não foi tão difícil de suportar
aqui? quanto é agora olhar para você... Mesmo
assim você teve pena de mim e não me
Makar Semyonich permaneceu em entregou. Por Cristo, perdoa-me, eu sou
silêncio. Então Aksionov se sentou e um desgraçado!
perguntou:
E ele começou a soluçar.
— O que você quer? Vá embora, ou
eu chamarei a guarda! Quando Aksionov o ouviu soluçando,
ele também desatou a chorar.
Makar Semyonich se inclinou em
direção a Aksionov e sussurrou: — Deus o perdoará! — ele disse —
Talvez eu seja cem vezes pior do que
— Ivan Dmitrich, perdoa-me! você.

— Por quê? — perguntou Aksionov. E ao dizer estas palavras seu coração


se tornou leve e a saudades de casa o
deixou. Ele não desejava mais deixar
— Fui eu quem matou mercador e
a prisão, mas apenas esperava pela
escondeu a faca em suas coisas. Eu
chegada da hora derradeira.
pretendia matar você também, mas eu
ouvi um barulho vindo de fora, então
escondi minha faca em sua mala e fugi A despeito do que Aksionov havia
pela janela. dito, Makar Semyonich confessou sua
culpa. Mas quando a ordem de soltura foi
emitida, Aksionov já havia morrido.
Aksionov se calou, não sabia o que
dizer. Makar Semyonich deslizou para
fora do beliche e se ajoelhou no chão. fonte: Bibliomania

— Ivan Dmitrich, ele suplicou, perdoa


me! Por amor de Deus, perdoa me! Vou
confessar que fui eu quem matou o
mercador, você será libertado e poderá
voltar pra casa.

— É fácil para você falar, disse

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CRÔNICA

De Puta a Pop
Henry Alfred Bugalho

Este mês de março marcará a história de Nova York.

A cabeça do governador Eliot Spitzer rolou por causa dum escândalo sexual e, em
seu lugar, assumiu Patterson - o primeiro governador negro no estado e, ao mesmo,
o primeiro governador cego da nação.

O que surpreende não é o escândalo sexual, não é o fato dum político estar
envolvido numa rede de prostituição, ter gasto uns 80 mil dólares para satisfazer seu
apetite sexual. Outros políticos norte-americanos já passaram pelo constrangimento
de ter sua vida íntima escandarada, inclusive o ocupante do cargo máximo, o notório
caso Bill Clinton-Monica Lewinsky. O próprio governador substituto se adiantou e, no
segundo dia no cargo, já abriu a intimidade e revelou que ele e a esposa cometeram
adultério anteriormente.

Este tipo de puladas de cerca não surpreendem, aliás, numa cultura patriarcal, muita
gente acha o máximo - e de direito - que o homem dê suas escapadas. Encontram
argumentos na genética, nas sociedades primitivas, na religião, ou em qualquer
outra fonte duvidosa, mas sempre apresentam algum argumento “irrefutável” para a

41
Samizdat 3 - março 2008

instituição do adultério.

Um dos aspectos curiosos do caso Spitzer é que, como dizem, o pobre coitado
“cavou a própria sepultura”. É dele a lei que torna o cliente de prostituição também
um criminoso, passível de ir para a cadeia. E poucos duvidam de que Spitzer também
verá o sol nascer quadrado.

Mas o mais surpreendente, na minha opinião, é o “fenômeno Kirsten”, como assim


o batizaremos.

O nome verdadeiro da “Kirsten” é Ashley Alexandra Dupre, 22 anos, descrita pelo


próprio ex-governador como “a mulher mais sexy que já conheci”.
Assim que a relação entre Spitzer e a rede de prostituição foi exposta, toda a
imprensa se desesperou para descobrir a identidade da prostituta que chegava a
cobrar 6 mil dólares por uma única noite. No fim do novelo, estava Ashley.

Spitzer foi demonizado, capa de todos os jornais, execrado pela opinião pública,
motivo de chacota, mas a singela e inocente Kirsten atingiu o estrelato em menos de
48 horas.
Descobriram que o grande sonho da moça era se tornar cantora, que teve uma
infância difícil, e que fazia bico de garota de programa enquanto tentava lançar sua
carreira artística, ou seja, um caminho percorrido por muitos que estão sob os holofotes
hoje em dia.

Uma santa, tentando apenas alcançar a fama. E conseguiu, da maneira mais


inusitada possível. Precisou que alguém fosse decapitado para que a estrela de
Kirsten brilhasse. Logo os MP3 com as péssimas músicas dela estavam nas paradas
de sucesso: as canções mais pedidas nas rádios, vendas meteóricas na internet.
Estima-se que ela arrecadou, em poucos dias, quase 600 mil dólares com sua “carreira
artística”.

Simplesmente extraordinário! Nenhum marqueteiro poderia ter planejado melhor


estratégia de publicidade.
Muito artista deve estar agora vagando pelas ruas, resmungando consigo próprio:
“também quero dar para um governador...”

Enquanto isto, na Holanda, onde drogas ilícitas leves, prostituição e pornografia


são permitidas - mais do isto, quase um patrimônio público -, foi aprovada uma lei
autorizando também sexo em parques, ao céu aberto, durante a noite. Lá, Kirsten
não seria uma pop star, no máximo, estaria se exibindo numa vitrine para os
transeuntes.

“Eu devia ter nascido na Holanda”, é que deve se passar na mente do ex-governador
de NY, neste exato instante.

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Continente
Marcia Szajnbok

Queria captar da palavra amor


Apenas a forma
O corpo nu
Desprovido de significado
(o tal do amor-conteúdo já foi tão abusado!)

Romantismo feijão-com-arroz
Vende-se barato em qualquer parte:
Todos se amam muito!
Se estão tristes, é por falta de amor...
Se são mimados, é porque houve amor demais...
Amor de novela, com violinos ao fundo

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Samizdat 3 - março 2008

E pôr-do-sol de cenário
E juras, e lágrimas, e suspiros, e ais...

Não quero saber desse amor gasto!


Pieguices com colorido barroco:
Não dizem nada
Não têm consistência
Não resistem à primeira chuva
São tempestades de areia
Que turvam os olhos
Mas não aquietam o coração.

Recortarei do amor apenas o nome


O esqueleto
Um oco, buraco vazio
A ser preenchido
De algum modo inusitado
Um amor com assinatura
Amor-obra-de-arte
À imagem e semelhança
De um sonho
Inventado.

Um amor assim concebido


Poderia então dedicar
Com calma e delicadeza
Com gestos lentos e toques leves
A quem soubesse escutar, comigo,
A música infinita do silêncio
Compartilhado.

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Coleção de Botões
Giselle Natsu Sato

Minha mãe finalmente descansou aos domingos:__ Filha de costureira,


após lutar bravamente contra um câncer precisava dar o exemplo no capricho dos
agressivo e doloroso. Eu sempre admirei moldes. Esta boa desculpa me rendia os
a sabedoria e coragem da mulher negra, mais lindos vestidos e fitas.
pobre e analfabeta que venceu todas as
dificuldades honestamente, ás custas do Quando comecei a estudar na escola
próprio suor e empenho. do bairro percebi que ser negra me excluía
de muitas coisas boas, não fiz amizades
Dona Maria Olímpia teve a única filha nem fui convidada para as festinhas de
sozinha na casinha humilde no bairro do aniverssário das coleguinhas. Minha
Grajaú. Nasci em 1932 e nunca conheci mãe não podia comprar presentes nem
meu pai, a velha história de ir comprar bonecas nas lojas de brinquedos mas
cigarros e desaparecer para todo o com as sobras das roupas fazia lindas
sempre era comum na época, minha mãe bruxas de pano.
já costurava para vizinhas e amigas e
nem o resguardo a impediu de atender Eu fui uma menina muito tranquila
suas freguesas. e simples, tudo me alegrava. Vivíamos
em uma vila de casas e a maioria dos
Minha mãe era miúda e agitada, moradores eram bem idosos, única
trabalhava dia e noite sem parar. Fui criada criança, acabei ganhando muitos avós.
ao pé da máquina de costura, adormecia Acima de todos os objetos de costura
com o barulho das agulhas e tesouras, do mundo maravilhoso dos tecidos finos
despertava com o as trocas de medidas eu era fascinada por botões. Lindos, de
e ajustes. Ganhei muitos presentes das todos os tipos e formatos, pequeninos,
freguesas generosas, todas gostavam do pesados, de vidro, cristal, madrepérola
trabalho da minha mãe que nunca atrasou ou forrados...botões.
um prazo ou perdeu uma costura.
Um freguesa trouxe uma lata de
Pretinha e pequenina toda vestida biscoitos vazia para que eu guardasse
de branco eu era um sucesso cada meus tesouros. Fiquei felicíssima, dava
vez que saía as compras ou a missa voltas rodopiando com a lata nos braços

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Samizdat 3 - março 2008

em uma valsa imaginária, feliz da vida dourado é da farda do Manoel, e este de


esqueci a falta das festas e amiguinhas ‘’rosinhas’’ é do vestido de noiva da Filó e
da escola, esqueci que era chamada aquele outro é do vestidinho de batizado
de negrinha e que a carteira ao lado da da neta da dona Ivone.
minha sempre ficou vazia...esqueci até o
dia dos pais que nunca comemorei. As vizinhas reconheciam seus botões
e contavam histórias dos vestidos, bailes,
Anos depois minha coleção de noivados e recepções. Exatamente como
botões estava na terceira caixa, era o eu havia imaginado durante toda minha
dia da minha formatura no Instituto de infância.
Educação, minha mãe só fazia chorar de
alegria. Eu, a filha da costureira tirando O tempo passou, os anos voaram, fiz
diploma de professora era demais para carreira e alcancei o cargo de diretora de
sua simplicidade. escola. Casei e dei netos para Dona Maria
Olímpia que nunca deixou de costurar. Já
Houve cerimônia e recebi elogios pois bem idosa e doente fazia roupinhas para
fui uma das melhores alunas, sempre com orfanatos e enxoval para as mães pobres,
média alta e bons trabalhos. Planejava tinha um coração iluminado e generoso.
prestar concurso público, trabalhar
bastante e tirar mamãe da vida sacrificada Minha mãe. Após o enterro andei pela
que levávamos. casinha vazia com o coração apertado de
saudades. Abri janelas e cortinas , deixei
Após a formatura ganhei um bolo o sol entrar. Após tantos anos encontrei
confeitado de uma freguesa para o minhas latas exatamente do jeito que
lanche de comemoração. Muitos vizinhos deixei na velha saleta de costuras,
e amigos apareceram para festejar a máquina antiga e o manequim de
trazendo pratinhos de doces e salgados. madeira ainda estavam lá, tudo limpinho e
Estávamos felizes e eu usava o uniforme cuidado, como se estivessem esperando
de normalista pela última vez. o momento de entrar mais uma vez na
minha vida.
Mamãe trouxe um pacote enfeitado
com um laço vermelho tão lindo que senti Num impulso espalhei todos os botões
pena de abrir, dentro uma finíssima caixa no chão e como um passe de mágica
de madeira entalhada com meu nome e voltei aos meus tempos de menina,
data:_ são para os seus botões minha tocando meus botões e imaginando
filha. mil histórias...saudades do perfume
de alfazema de mamãe e da sua voz
Abraçadas sentimos que tudo seria cantando modinhas.
diferente a partir daquele dia, a vida
prometia muitas mudanças, havíamos Do barulhinho da máquina de costura
vencido uma etapa importante. Todos passando na seda...pequenos botões
ficaram comovidos com a felicidade de amados que fizeram parte da minha
mamãe. história, portadores de alegrias e distração.
Coloquei minha coleção no aparador Mais uma vez cumpriam importante papel
da sala para que todos admirassem meus trazendo alento ao meu coração, botões,
botões. Incrível como Dona Maria sabia a simples e pequeninos botões.
história de vários deles:_olha Judith este

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Sobre os Autores do SAMIZDAT


Denis da Cruz
Advogado, Servidor Público, marido de Elisa
e pai dos pequenos Lívia e Kalel. Escritor amador,
faz da literatura um agradável e despretencioso
passatempo. Mais detalhes, o leitor poderá flagrar
nos textos que serão apresentados na Samizdat,
afinal, já escreveu certa vez: “não sou nenhuma de
minhas personagens, mas sou todas elas vivendo ao
mesmo tempo”.
http://www.recantodasletras.com.br/autores/kzar

Giselle Sato
http://www.trilhasdaimensidao.prosaeverso.net/

Henry Alfred Bugalho


É formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em
Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de
quatro romances e de duas coletâneas de contos.
Mora, atualmente, em Nova York, com sua esposa
Denise e Bia, sua cachorrinha.
www.maosdevaca.com

José Espírito Santo


Informático com licenciatura e pós graduação
na Faculdade de Ciências da Universidade de
Lisboa, trabalha há largos anos em formação
e consultoria, sendo especialista em Bases de
Dados, Sistemas de Gestão Transaccional e
Middleware de “Messaging”. A paixão pela escrita
surgiu recentemente, tendo no ano de 2007
produzido os livros “Esboços” (contos) e “Onde
termina esta praia” (poesia). Vive com a família
em Portugal em Alverca, uma pequena cidade um pouco a norte de Lisboa.

http://www.riodeescrita.blogspot.com/

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Samizdat 3 - março 2008

Jurandir Araguaia
Escritor goiano, nascido em Brasília aos 8/11/65.

Formado em Educação Física e Administração de Empresas, tendo cursado o


primeiro grau entre os muros e paredes do Colégio Marista de Goiânia.

Retornou ao hábito de escrever a partir de agosto/06, após constatar que: ou


começava a escrever agora ou não escreveria nunca. O tempo se escorre pela
ampulheta e a vida, na outra vida, se aproxima a cada grão de areia que cai.

http://www.jurandiraraguaia.com/

Marcia Szajnbok
Médica formada pela Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo, trabalha como psiquiatra
e psicanalista. Apaixonada por literatura e línguas
estrangeiras, lê sempre que pode e brinca de escrever de
vez em quando. Paulistana convicta, vive desde sempre
em São Paulo.

Volmar Camargo Junior


Gaúcho. Formado em Letras pela
Universidade de Cruz Alta, não leciona por
sua própria vontade. Começou a namorar
via postal, e acabou trabalhando no Correio.
É casado com a bela Natascha, e com ela
mora em um cartão postal: Canela, na Serra
Gaúcha. Dividem o apartamento com Marie,
uma gata voluntariosa e cínica. Escreve por
prazer, e até agora não havia pensado em
uma razão para publicar.

http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

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