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A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA OU
“DE COMO ALGUÉM SE TORNA O QUE É”
ADÉLIA BEZERRA DE MENESES
Universidade Estadual de Campinas / Universidade de São Paulo

Resumo
Dentro do recorte “literatura e inconsciente”, a proposta é um estudo de A hora e vez de
Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, sob a luz dos versos de Píndaro: “torna-te aquilo que
és”. Com efeito, nesse conto vemos a passagem de Nhô Augusto a Matraga: um percurso de
singularidade – ou um processo de individuação – em que a original violência desabrida da
personagem é vetorializada e adquire um rumo ético. Mas, como diz o narrador, ele é
Matraga, “o homem”: “A civilização está sendo constantemente criada de novo, de vez que
cada pessoa, assim que ingressa na sociedade humana, repete esse sacrifício da satisfação
instintual em benefício de toda a comunidade” (Freud, Conferências introdutórias à
psicanálise I, 1915). E nos baseando num dos possíveis significados do nome do protagonista
(Matraz = vaso alquímico), na marca com que é ferrado (o triângulo dentro de um círculo) e
na importância da sua “hora” (seu kairós) – elementos que não são aleatórios, mas participam
do mesmo sistema de pensamento, aposta-se na possibilidade de uma interpretação da
transformação sofrida pela personagem na linha de um opus alquímico: da grande depressão
em que foi lançado a sua “hora e vez”, sua áurea hora (Aurora) na luta de morte com Seu
Joãozinho Bem-Bem.
Palavras-chave
Guimarães Rosa; A hora e a vez de Augusto Matraga; inconsciente; individuação; kairós;
alquimia.
Abstract
Within the track literature versus the unconscious, the purpose of this text is to study The
Hour and Turn of Augusto Matraga, a short story by Guimarães Rosa, in light of Pindar´s
verse: “become what you are”. In fact, in this short story one may recognize a route of
singularity – or a process of individuation – in which the character’s violence is vectorized
and acquires an ethical direction. However, in the narrator’s words, he is Matraga, “the
Man”: “Civilization is constantly being recreated, since in order to become part of human
society each person repeats the sacrifice of instinctual satisfaction for the benefit of the
community as a whole” (Freud, “Introductory lectures on psychoanalysis”, I, 1915). Based
on the possible meanings of the protagonist’s name (“Matraz” = alchemic vase), on the sign
that marks him (a triangle inside a circle), and on the importance of his “hour” (his
“kairós”) – elements that are not fortuitous, but part of a system of thought – the paper
considers the possibility of interpreting the change undergone by the character in terms of an
alchemic opus: from the depression in which he was found to his “hour”, the golden hour
(Aurora) in the fatal fight with Seu Joãozinho Bem-Bem.
Keywords
Guimarães Rosa; A hora e a vez de Augusto Matraga; unconscious; individuation; kairós;
alchemy.

ele “não respeitava mulher dos outros”: e tinha matado um homem. Trata-se da estória de um valentão. das suas carnes. meu patrão Nhô Augusto. 67 Idem. Gostava dela.Rio de Janeiro. Pai era como que Nhô Augusto não tivesse. Em resumo: Nhô Augusto. in Eduardo Coutinho (org.. Só”. p. doido.. Queria o menino p´ra padre.. que vivia escondido. pobre.. de mais de uma morte.. falta de crédito.. contado entre os 10 ou 12 mais perfeitos da língua”. Até sua mulher.. ou. Conhece o amor venal das prostitutas. Nova Fronteira. opressor.. Eu sou pobre. que ele “desdeixava”..]”. “gostava [. de detentor do poder. e ainda: “estúrdio. que vai ficar pobre no já-já”. Vamos registrar: “sem detença”. pelo tio de D. entra numa fase de perdas. “sem regra” – o que se pode traduzir como: sem lei. Fortuna crítica.65 A proposta.66 É importante o nome desse “outro”: Ovídio.. estouvado e sem regra”... 59º. o escritor latino da Antigüidade. na leitura desse conto de Guimarães Rosa.. o tempo todo.. se apaixona por outro com quem vai acabar fugindo. seu Ovídio. dentro do conto que será daqui por diante. peito largo. Quem criou Nhô Augusto foi a avó. todas as citações da obra provêm desta edição.. 65 Antonio Candido. e dentro do recorte de literatura versus inconsciente. santimônia e ladainha. Também saberemos dele que nunca tinha trabalhado. as fazendas escritas por paga”. pobre. como está no texto. tem a ver com processos do inconsciente. passam para o lado do major Consilva. vestido de luto.67 Mas continuemos: logo depois que a mulher foge com outro. como se verá. bem menos do que um procedimento místico. é. Teu sogro era um leso. Quem lhe dá essa notícia é o Quim recadeiro. mais do que ele mesmo sabia.65 Começo por um “resumo interpretante”..] da sua boca.... Mais do que ele mesmo dizia.. muito.. Um tio era criminoso. que lhe diz: Mãe do Nhô Augusto morreu com ele ainda pequeno. um tanto provocativa.) Guimarães Rosa. A hora e a vez de Augusto Matraga.. Segundo o narrador. E dessa arte de amar. 370. sem detença”. ed. articular uma abordagem que utilizará alguns topoi da psicanálise e uma incursão pelo mundo da alquimia – que. levando a filha do casal. .. terras no desmando. pisando pé dos outros [. Rezar. aferidos aos momentos de inflexão da narrativa. o único que lhe fica fiel. mas todos no lugar estão falando que o senhor não possui mais nada. não era p´ra chefe de família. é dito: “E o outro era diferente!. O conto se inicia quando começa na vida de Nhô Augusto um período de baixa: “com dívidas enormes. vou-me embora . gostaria de referir que de A hora e vez de Augusto Matraga diz Antonio Candido que é uma narrativa em que o autor “entra em região quase épica de humanidade e cria um dos grandes tipos de nossa literatura. Mas o texto também dá informações sobre a infância de Nhô Augusto. Ele nos é apresentado pelo narrador: “alteado. Ele. ibidem. “duro. que era um poderoso. “Sagarana”. Civilização Brasileira/Pró-Memória/INL.. política do lado que perde.. prepotente. é uma operação simbólica. bem como à apoteose final. lá no Saco-da-Embira. Inicialmente. rezar. das “mulheres perdidas”. inimigo do seu pai e que paga melhor. desrespeitador de mulheres e violento ao extremo. p. Augusto Esteves Matraga. 66 João Guimarães Rosa.. 247. Desse outro.. os seus capangas o abandonam.. Ed. que perdeu suas fazendas e riquezas. 369. passa a destituído de qualquer riqueza e poder: pobre. A essa primeira “reviravolta” no enredo de sua vida aludem os versinhos da cantiga popular que servem de epígrafe ao conto.. Rio de Janeiro. Sem nada que o detenha. da maneira de que a gente deve gostar”. Nhô Augusto não conhecia nada: De Dionora. Dionora. que escreveu A arte de amar. Vou-me embora. p.... E que lhe diz: “Mal de mim não veja. 1983.

por muitos meses. resolve ir então atrás da mulher e do amante para matá-los. tratam-no. é atacado pelos capangas (os cacundeiros do major mais seus próprios ex-capangas. Mas um casal de pretos. recém-contratados pelo inimigo) que lhe dão uma terrível surra. repito. e “acham vida funda” no corpo de Nhô Augusto. que ainda “era couro por curtir”. Ele regride a uma situação infantil – de um bebê. é Pai Serapião quem lhe lava as feridas bichadas com creolina etc. dá-lhe de beber a cuia d’água: ela e Pai Serapião colocaram talas em suas fraturas. não arrefecendo na dedicação”. XX. e que mais tarde foi identificado com o deus Esculápio (ou Asclépio). ao mesmo tempo. vai atrás. na beira de um barranco. e chorou muito. recebe cuidados corporais do casal de pretos – cuidados corporais que.. e a fratura exposta criara bicheira. Se é verdade que a grande dependência e desamparo do bebê humano faz que ele tenha a percepção de que é preciso ser amado para existir (para sobreviver). a queimadura da marca de ferro. a possibilidade de restauração que a convivência com o casal de pretos lhe propicia são verbalizadas em toda sua pungente simplicidade: “Até que pôde chorar. “Inibição. mas dessa vez com a possibilidade de “reparação”. 179. A falta do amor materno na vida de Nhô Augusto e. rica. o cura. como vimos. “Era como se tivesse caído num fundo de abismo”. in Obras completas. Mas os pretos cuidavam muito dele. não apenas como “mães de leite”. Nhô Augusto é triturado em sofrimentos. deixando-o quase morto. enquanto Quitéria quita a enorme falta materna de que se ressente Nhô Augusto. “Chegou a hora da tristeza”. Os capangas acharam que ele tinha morrido e foram embora. Cuidam dele.68 Serapião: de Serapis. que morava nas redondezas. porque os ossos tomavam tempo para se ajuntar. reduzido à total impotência pela ação dos capangas do major (“Tem mais Nhô Augusto. p. 69 Cf Sigmund Freud. Assim.69 no caso de Nhô Augusto. Mãe Quitéria lhe leva a comida à boca. Atirado ao chão. ele como que revive essa situação de desamparo infantil. restaura nele o significante paterno. Quase que destruído pelos capangas. O major ordena que se ferre Nhô Augusto com o ferro de ferrar o gado: “E aí. em termos de ausência de figura materna: “Mãe do Nhô Augusto morreu com ele ainda pequeno”. ele fica quites com essa grande falta na sua infância. Serapião o protege. em que escravas exerciam um papel materno. Rio de Janeiro. Por seu lado. ele entra num período de grande sofrimento. Aí. da época ptolomaica).. Todo quebrado. chamusco e fumaça. Quitéria: essa personagem feminina “quita” o que era devido a Matraga. Seu corpo rolou na ribanceira.1976 v. e somente aí. Nhô Augusto depende vitalmente do casal de pretos para sobreviver. . em que tudo dói. no corpo e na alma. dão-lhe remédio de ervas. já que. ele restaura para Nhô Augusto um pai. as fraturas expostas criando bicheira. sintoma e angústia” [1926]. e pula no espaço: “era uma altura”. para enterrar o defunto. ao ser marcado a ferro. Imago. com chiado. não houve figura paterna na infância de Nhô Augusto (até o tio era criminoso e vivia escondido).66 Eu sou rica. E poderá viver um segundo nascimento: agora. daqui!. na linguagem da psicanálise. sem 68 Não se pode deixar de perceber aí a presença da “mãe preta”. não”). E entra numa abissal depressão. Ao chegar às terras do major. ele dá um “berro e um salto medonhos”. mas antes resolve acertar a pendência com o major Consilva. de fundamental importância no imaginário da escravagista sociedade brasileira. (Cantiga antiga) Mas Nhô Augusto. que é um deus egípcio (de Memphis. reinvestem o corpo de Nhô Augusto de afeto. na polpa glútea direita de Nhô Augusto”. “Se doeu no enxergão. mas ressuscitava os mortos. Vou-me embora . rica. deus da Medicina – que não apenas curava os doentes. um choro solto. ele tem pai e mãe. abrasaram o ferro com a marca do gado do Major – que soía ser um triângulo inscrito numa circunferência – e imprimiram-na.

. antes.]”. aceitando a ordem simbólica que o constitui. Um tal desastre psíquico vai implicar o rompimento da barreira que impedia – em nome da Lei – a emergência dos impulsos delinqüenciais pré-edípicos. originado de um pronunciamento do autor no Teatro Ruth Escobar. Nhô Augusto começará a renascer. o casal de pretos resolve trazer-lhe às escondidas um padre que. após a sua representação. o vilarejo em que mora é sacudido pela visita do grande jagunço Seu Joãozinho Bem-Bem: “o homem mais 70 J.71 em que analisa os fundamentos psicológicos da anomia brasileira. num debate sobre a peça Édipo-rei de Sófocles. através da aceitação do princípio de realidade. pelo trabalho. e em conseqüência. da Lei da Cultura.. “Civilizar é. 73 Cf. E ainda: “Você nunca trabalhou. pede-se ao ser humano que confirme a sua renúncia pulsional primígena. Rio de Janeiro. v. cit. foi em seguida publicado no suplemento cultural da Folha de S. “sem regra”. Mas sobretudo. uma tal ruptura. em 8. diz Hélio Pellegrino: Não nos esqueçamos de que o pai é o primeiro e fundamental representante. nos quadros da antropologia psicanalítica. diz ele. 17. diz-lhe: “Sua vida foi entortada no verde”. XXI.1983. é poder assumir os valores da cultura com a qual. Folhetim. Será necessário insistir em quanto a falta desse pacto engendrou o adulto “duro. entre muitos conselhos e com excelente argúcia psicanalítica. E então. Imago. numa bela linguagem imagética. Num texto intitulado “Pacto edípico e pacto social”. junto à criança. por mediação de uma práxis. v.70 Mas também não se pode menosprezar a falta do pai. Se ocorre. in Obras completas. no mundo interno. altruísta. 378. uma renúncia pulsional. por retroação. Rosa. setembro de 1983.. e que você é mais mandante do que ele” (poder-se-ia pensar numa melhor figuração da necessária repressão instintual para se passar do mundo da natureza para o mundo da cultura?). o enredo do conto.7. sem detença”. por diante. 1974.Paulo. O mal-estar na civilização [1930]. à mais funda depressão. 72 Sigmund Freud. não é? Pois agora. v. tratando da lei da cultura e do pacto social. . Mãe. G. Hélio Pellegrino mostra como. fica destruído. e ajudar os outros. p.”. é abrir mão da onipotência e da arrogância primitiva. seu resumo: tendo manifestado Nhô Augusto a necessidade de confessar seus pecados.. sugere-lhe dominar sua agressividade: “Modere esse mau gênio: faça de conta que ele é um poldro bravo. O início do conto evidencia com contundência suficiente quão longe iam esses impulsos delinqüenciais de Nhô Augusto. Sigmund Freud. XXI.72 na interpretação que faz do processo civilizatório. Trabalhar é inserir-se no tecido social. diz Hélio Pellegrino. 1974. tanto física quanto psíquica. muito significativamente dá lugar a reflexões sobre o trabalho. ou Lei do Pai é a tarefa primordial da criança”. Além disso. “Parece. Esse texto. através do trabalho. portanto – e por um lado – reprimir ou suprimir.. o lugar da Lei. o Nome-do-Pai. E sem saber e sem poder. na esteira de Freud. o padre lhe diz que há de chegar “sua hora e sua vez”. p. em que se transformou Nhô Augusto dos inícios da narrativa? Retomemos. XXI. Trabalhar é disciplinar-se. Vai dedicar-se a uma vida em que canalizará sua valentia e violência numa linha ética. cada dia de Deus você deve trabalhar por três.73 tanto erótica quanto agressiva. nos articulamos organicamente. Freud. vê nele implicado.. “No pacto social”. chamou alto soluçando: – Mãe . doido. que toda civilização tem de se erigir sobre a coerção e a renúncia ao instinto [. quando está recuperado.“O futuro de uma ilusão” [1927].67 vergonha nenhuma. “pisando pé dos outros”. Tendo chegado ao mais fundo do poço. in Obras completas. A hora e a vez de Augusto Matraga. na “meninice à louca e à larga de Nhô Augusto”. op. sempre que puder”. de menino ao abandono. O pacto com a Lei da Cultura. porém. Rio de Janeiro: Imago. 71 . que. o significante paterno.. necessariamente. O pacto com a lei do Pai prepara – e torna possível – o pacto social.

ele se entrega ao destino. “Conferência I” [1915]. Matraga. Seu Joãozinho Bem-Bem vai embora. Nhô Augusto se remorde com sua dupla negação. o fecha-treta. que um pedido em nomes tão santos não fosse atendido – cria-se uma situação de nomos contra nomos. E ante o pedido do velho pai. da lei do sertão e da lei da defesa dos desamparados. de vez que cada pessoa. o pega-àunha. dente por dente). o tira-prosa. v. Nhô Augusto. tinha sido assassinado por um rapaz que era filho de uma família daquele povoado. a situação tornou-se realmente uma “gostosura de fim de mundo”. baleado por detrás?” E ainda: “Lhe atender não posso [. que é amigo e é parente e irmão de armas 74 J. representada por Joãozinho BemBem. é “o homem”. É a regra”. É por isso que. morta de traição?. Sabemos da importância do acaso na obra de G. pois que ficava lá em cima. Bem-Bem tinha vindo para vingar um dos seus homens. deixando-se conduzir por ele – deixando-se ir ao acaso. in Conferências introdutórias sobre psicanálise. que veio vingar uma traição. na partida do grupo. Bem-Bem não pode atendê-lo: “Quem teve pena do Juruminho. ou lei cristã. que o impeliria a lutar pelos indefesos.. 37..].. p.]. a morte de um inocente e. Pois assim se despedira Joãozinho Bem-Bem: “apois. e eu tenho de estar por ela em outras partes!”. in Obras completas. o treme-terra. Imago. 396. e que o mandava ir brigar. 75 .. assim que ingressa na sociedade humana. pelas lágrimas da Virgem. É a regra. dente por dente) a vingança seria feita sobre um de seus familiares. Por sua vez. no qual havia um Deus valentão. op. Rio de Janeiro. [.. p. montado num burro. Há a lei do Talião (olho por olho. abriga o bando de jagunços com a maior das hospitalidades. Sai sem rumo. diante de um atento Nhô Augusto que não poderia permitir. de outro. da beira do Jequitaí à barra do Verde Grande [. que aqui é que mais não fico. em cada indivíduo processa-se a aventura humana que fundou a cultura. não apenas recusa o convite para “se amadrinhar” com a gente de Bem-Bem. Mas aí. Juruminho. representada pelo Nhô Augusto convertido. o mais solerte de todos os valentões.75 Efetivamente. Rosa e na visão de mundo popular. o come-brasa. XV. Como o assassino fugira. de lei contra lei. de “sacrifício” de instintos. a vingança recairia sobre pessoas inocentes. Nhô Augusto fica numa enorme alegria. de um lado. assim parecido com seu Joãozinho Bem-Bem”. se tem um recado ruim para mandar para alguém”... a lei. mas dispensa um oferecimento de vingança. na narrativa roseana. pede clemência. garantindo tudo.] Senão. Guiado literalmente pelo burrico. cit. que pede pelo sangue de Cristo. porque lá chegou o bando do Bem-Bem. um tempo depois. E o burrico o leva a um povoado que está em ebulição. Matraga. o arranca-toco. sem descuido. Sigmund Freud. porque a minha vez vai chegar. sendo uma pura realização de desejo... e pelo corpo de Cristo na Sexta-Feira da Paixão. O velho preto. A hora e a vez de Augusto Matraga. Rosa. repete esse sacrifício da satisfação instintual em benefício de toda a comunidade”. é o nomos do sertão.. Ele dorme e tem um sonho que. mostra qual é a imago Dei” de Matraga:76 “um sonho bonito. até quem é mais que havia de querer obedecer a um homem que não vinga gente sua. como diz o narrador no começo do conto. o rompe-racha. minha gente. sinal de salvação: tanto o “Burrinho pedrês” do conto de mesmo nome como a vaquinha pitanga do conto “Seqüência” – são animais que trazem a salvação. É a regra. do bando. Essa cena final tem ingredientes de tragédia grega: uma lei contra a outra – não há saída. e a lei do coração. o parte-ferro. pai do assassino. no mais das vezes.. o rompe-e-arrasa: Seu Joãozinho Bem-Bem”. se precisar de alguma coisa. G. Freud: “A civilização está sendo constantemente criada de novo. só para lhe experimentar a força. regra ou não. resolve também partir: ele estava “madurinho de não ficar mais”: “– Adeus. 76 Agradeço a idéia a Roberto Gambini. que o articula ao sagrado e ao “Destino”: deixar-se guiar por um animal é. E para quem gostava de brigar e se prometera “ir pro céu nem que seja a porrete”.68 afamado dos dois sertões do rio: célebre do Jequitinhonha à Serra das Araras. 1976. E. na lei do sertão (e na lei do olho por olho.74 É aí um grande momento de Nhô Augusto.

participantes do mesmo sistema de pensamento. e. ficaram descartados. seja qual for a decisão tomada. individualizado. Mas como em toda tragédia. que tem o “Bem” reiteradamente repetido em seu nome. há o nome “Matraga”. E usando de toda sua violência – agora num sentido ético – vai matar os jagunços. vai matar e ser morto por Joãozinho Bem-Bem – realizando.69 de Bem-Bem. E sem eles. da mesma visão do mundo. Vamos começar pela marca. lutará contra seu Joãozinho Bem-Bem – que será chamado de “satanás” pelo velho preto pai do rapaz que matou o Juruminho. o kairós. como representante do “Bem”. e finalmente a “hora” de Matraga. nessa leitura. e que. in Mitológica roseana. Matraga. esses três itens (o nome de Matraga. presentes na súplica do preto velho. E nesse momento. encarnaria o Mal? E Matraga. ele terá sua identidade revelada. essa violência pode receber um nome: sacrifício. isto é. Por isso as alusões ao “sangue de Jesus Cristo”. Ática. ao “corpo de Cristo na Sexta-Feira da Paixão”. . é reconhecido por um conhecido e meio parente: “Virgem Santa! Eu logo vi que só podia ser você. identificado. já em agonia. meu primo Nhô Augusto”. seria representante do Bem? É por meio da violência que ele realiza seu ethos violento. porém. Um desses elementos é a marca com que Matraga é ferrado. há um conflito irreconciliável em que. Aí me basearei para as características básicas das formas do triângulo e do círculo. assim. nas linhas finais da última página. que tem a desinência “Ma” (da palavra Mal) embutido no seu nome. aqui também. as categorias aristotélicas se revelarão operantes: a anagnorisis. Essa abordagem do conto. a “sua vez e sua hora”. ela acarretará morte e destruição – a tragédia mostra a impossibilidade de conciliação entre leis diferentes. não dá conta de vários elementos que estão presentes. Ele morrerá nomeado. a metanóia. que pontuarão o texto. 1978. na primeira frase do conto. salvando os fracos. Joãozinho Bem-Bem. o narrador se refere a ele como Matraga. sua marca e sua “hora”) não são elementos aleatórios. mas que tem relação fundante com o destino da personagem. Como se verá.77 um detalhe que aparece uma única vez no texto. mas integrados. São Paulo. Matraga. se levanta em defesa da família ameaçada. Mas. o reconhecimento da própria identidade coincide com a peripécia (a reviravolta do destino). “Matraga: sua marca”. Ei-la: 77 E que mereceu o belo estudo de Walnice Nogueira Galvão. depois. que só aparece no título. e que luta “gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos”. a penitência e a conversão. E como na tragédia grega. No momento da morte. a interpretação se empobreceria. Observe-se que o “encontro de contrários” está presente todo o tempo. Matraga vetorializa toda sua natural violência num rumo ético. em coerência com o arcabouço religioso apresentado.

70 Um triângulo inscrito numa circunferência: duas figuras geométricas básicas. p. 54.81 como se pode ver numa das figuras do Alchemy & Mysticism. 80 Idem. Walnice Nogueira Galvão faz um levantamento da simbologia dessas duas formas que integram o emblema de Matraga. ao mesmo tempo a mais simples e a mais complexa das formas geométricas. sinais de transcendência”. aquilo que para o major Consilva e seus capangas seria uma marca aviltante. numinosas. transitando por estudos de iconologia. no entanto – como tatuagem a fogo na carne de Matraga –. Taschen Calendar:82 78 Idem. além de trechos da Aurora Consurgens etc. da heráldica. de onde. 47 Idem. inerme no chão após ser moído de pancadas. Raymond Lulio. de Francis Bacon.78 é figuração da totalidade. William Blake. Mas Matraga saberá “transformar sua marca de ignomínia em marca de pertença”. Importa notar que é o fato de ser ferrado com o ferro em brasa com essa marca que faz que Nhô Augusto se salve de ser sumariamente executado (depois da devida tortura) pelos capangas do major Consilva. p. aqui se torna marca de destino. denunciava quem era o dono do animal. tornou-se a representação gráfica da Trindade cristã: “Deus é um ser trinitário”. singularmente simples. Walnice diz que estamos “ante duas formas vetustas. ibidem. uma coletânea reunindo iconografia e textos alquímicos medievais e dos séculos XVI ao XVIII. O triângulo (eqüilátero) como símbolo da perfeição.80 Assim. da alquimia. dá um salto mortal que ao mesmo tempo é um salto para a vida. era a marca de ferrar gado – sinal que indicava a propriedade. aliás. O círculo. 81 Trata-se de figuras que integram um “calendário alquímico”. 79 . essa marca está presente na iconografia alquímica. encontrado na iconografia de todas as civilizações desde tempos imemoriais. É com a dor do ferro em brasa na “polpa glútea” que Matraga. Com efeito. Taschen Calendar. Alchemy & Misticism. 1998. ibidem. essas duas formas fortes se potenciam. um ponto expandido. da cabala. com citações de Paracelsus. E é significativo que Walnice aponta a presença do signo do triângulo dentro do círculo como muitíssimo corrente na alquimia. ibidem. e no entanto dotadas de alta energia simbólica.79 Conjugadas. Taschen Calendar. foram extraídas todas as ilustrações alquímicas que se seguirão. 82 Agradeço a Roberto Gambini o Alchemy & Mysticism. Essa marca. 1998. E cai no barranco de onde será resgatado pelo casal de pretos que se dispunham a enterrá-lo.

cit. expulsa a transcendência pela porta dos fundos. Mas.71 Speculum veritatis. na linha do apelo visual. ela volta pela porta da frente. século XVII. A hora e a vez de Augusto Matraga. de 1965. / mas com gente é diferente” – como canta o Vandré em Disparada84). ou mesmo uma ferradura –. é bem mais dramático do que na “polpa glútea”. ao mesmo tempo. A hora e a vez de Augusto Matraga. o sobrenome do major). um ano após Vandré ter composto as canções do filme. na anca: a marca de pertença se faz no peito – simbolicamente: no coração. Rosa. é a marca do Matraga. ignominiosa (“porque gado a gente marca / tange. místicas ou transcendentes – não dá importância a essa descrição da marca do gado do major – e o que a gente vê no filme é um ferro com uma forma que se assemelha a um C (certamente de Consilva. Pois um dos índices que mais evidenciam essa aproximação com a alquimia. quando tudo esteve a ponto. abrasaram o ferro com a marca do gado do Major – que soía ser um triângulo inscrito numa circunferência – e imprimiram-na. Pois. E lembremo-nos de que a canção Disparada foi apresentada no Festival de MPB de 1966. paradoxalmente viabiliza – e reforça. com chiado. O filme. mas é ferrado no peito – como marca de pertença. portanto. 84 . filme de Roberto Santos (1965) com Leonardo Villar no papel de Matraga. Uma coisa interessantíssima se passa com o magnífico filme de Roberto Santos. G. e da figuração da totalidade não teriam lugar. Nhô Augusto é ferrado não “na polpa glútea” – marca. estranhamente. no filme de Roberto Santos. e das formas numinosas. mostra Nhô Augusto sendo ferrado “no peito” – o que. A marca do gado se faz na perna. na polpa glútea direita de Nhô Augusto”. Geraldo Vandré é o autor da estupenda trilha musical do filme A hora e a vez de Augusto Matraga. e todas essas reflexões a respeito do símbolo do triângulo e da circunferência. involuntariamente – essa interpretação alquímica. como já disse. p. de 1965. op. e de uma fortíssima impressão visual. Ele dificulta e. Assim. Marcado na carne. E não por acaso. 376. chamusco e fumaça. engorda e mata. marcado no coração. despreza a força plástica da marca do Matraga.83 Roberto Santos – que não era dado a veleidades exotéricas.. ferra. Relembro a passagem do conto: “E aí. esse símbolo tão presente na alquimia será o índice do destino de Matraga. E ele realizará seu destino final – terá a sua hora 83 J. pode-se dizer. de Roberto Santos. Cena de A hora e a vez de Augusto Matraga.

Taschen Calendar . op. 87 Cf. “Hiato e estrutura narrativa em G. “porrete”87 (lembremo-nos do bordão de Matraga: “Pr´o céu eu vou. ed. para diferentes operações. Segundo o Dicionário etimológico de Antonio Geraldo da Cunha. Walnice N. principalmente a destilação”. 65. o catolicismo popular sertanejo. encontram-se exemplares de matraz: 85 Cf. 2. da transcendência e da totalidade: 85 “Emnomodopadrodofilhodoespritosantoamein” – em nome da Trindade. outrora utilizado em alquimia e. esse topos das possíveis significações do nome “Matraga” merece alguns desdobramentos. Klincksieck. Ernout & Meillet. mesmo pela infância de Nhô Augusto. p. Paris. Rosa”. de colo estreito e longo. 1950.72 e a sua vez – na luta com Bem-Bem. Sabe-se que a linguagem de Guimarães Rosa pressupõe em relação ao leitor. No entanto. aliás. na mesma recolha de figuras alquímicas a que já recorri. “matraca” é um instrumento usado na Semana Santa. feito com tabuinhas de madeira. Não por acaso. mas considera o matraz como metáfora para toda a narrativa roseana. uma consciência etimológica ou uma sensibilidade ao significante. E tudo fica extremamente verossímil. E finalmente. Walnice Nogueira Galvão religa o nome de Matraga a “matraca”: um instrumento para produzir barulho. “Matraga: sua marca”. O que quererá dizer “Matraga”? Na língua portuguesa. ed. nem que seja a porrete!”). a autora não analisa o conto em questão. ao menos no aspecto formal da religiosidade que assumirá após sua metanóia. ibidem. Mas podemos nos aprofundar: matraca vem do árabe matraq ou mitraq e significa “pau”. 86 . em química e em farmácia.. e também a “matraquear”86 – o pipocar de tiros ao final do conto.88 que significa dardo: uma flecha encorpada. p. Libr. que vou sobremaneira endossar: do termo português matraz como vaso alquímico. 62. Von Wartburg. Semana da Paixão. Aliás. p. na maior parte das vezes. 57. Paris. o Alchemy & Mysticism. cf. PUC-Minas. W. convivendo com uma avó carola. Com efeito. Idem. Belo Horizonte: Cespuc/Ed. mágico e mítico. cit. Há também uma outra possível alusão: ao francês matras. o signo do triângulo. termo originado do celta mattras. 89 Essa interpretação do nome de Matraga relacionando-o a “matraz” está no ensaio de Ana Maria de Almeida. C. Matraga como derivado de matraz89 seria o segundo elemento que encaminha uma leitura alquímica. ainda uma possibilidade de derivação. uma das características marcantes de Guimarães Rosa: a articulação do mundo sofisticado da mística e do esoterismo da alquimia com o universo popular – no caso. mas encontra-se no latim na forma de “matara” (“mataraceus”). nas cerimônias da Semana Santa. Dictionnaire etymologique de la langue française. matraz: “vaso de vidro ou de outro material. gritando algo que remete ao emblema com que fora ferrado. 88 O termo é originado do celta. Scripta 2002. Dictionnaire etymologique de la langue latine. Oscar Bloch. entre santimônias e ladainhas – o que não deixará de tê-lo marcado. fora do português? (não era Guimarães Rosa que queria uma língua de antes de Babel?). Galvão. no latim. especial – 2º Seminário Internacional Guimarães Rosa. No caso de Matraga o triângulo é símbolo alquímico e sinal da Trindade: é essa. PUF. 2002. hoje em dia. 1951.

no meio dos molambos. Encyclopédie Larousse du XXème siècle 92 C. em que se realiza o opus – a “obra”. 1999. todo seu ser tendendo para a meta de ser o que realmente ele é. e para o que sua mãe o pôs no mundo”. Matraga é o espaço de um grande processo de transformação. in Transferência. os alquimistas da Idade Média não estavam atrás do ouro. Jung. mas de uma transformação anímica. Mysterium conjunctionis. quando voltou a ter noção das coisas. G. Vozes.92 Pode-se assim vislumbrar um paralelo do processo pelo qual passa a personagem Matraga e o espaço dentro do qual se processa o opus. vaso alquímico. Análise dos sonhos”. o trabalho alquímico.90 que levaria à obtenção de algo extremamente precioso e que se iniciava com uma literal Purgatio. Na realidade. purgação. o grande trabalho de transformação – que implicará inicialmente uma grande depressão. metal concreto. em “ouro” – em algo precioso. Jung vê um símile para o processo de individuação. Se matraz é cadinho. “Ab-reação. de um processo existencial. C. dias depois. a descrição do processo de derrelição de Nhô Augusto é eloqüente: Deitado na esteira. No conto.73 Sapientia Veterum Philosophorum Manuscript. Vozes. viu que tinha as 90 Cf. sua paixão. Nhô Augusto. Com efeito. Jung. a experiência alquímica em que a matéria se transforma de algo reles. o nigredo dos alquimistas. 1985. Falando da experiência alquímica. ou vil. no canto escuro da choça de chão de terra. p. seu estado irredento. 76 (grifo meu). Rio de Janeiro. Petrópolis. 91 . na alquimia – da qual Diderot diz que “deixa descobrir grandes verdades sobre o grande caminho da imaginação”91 –. diz Jung que o alquimista “descobre o que projetou em sua retorta: sua própria obscuridade. século XVIII. Cf. G.

nesse cadinho. e um sofrimento de machucaduras e cortes.93 O que se passa com Nhô Augusto é uma descrição dos vários processos do Opus alquímico: da purgatio. op. da solutio. Ele deixa passar pelo fogo seus impulsos instintivos básicos.. que em princípio. O recipiente é também.. de ódio. London. G. um mergulho no nigredo e uma verdadeira metanóia? Ele deixa curtir.. até que sobrevenha a transformação.. e o corpo todo lhe doía. quando o fluxo de 93 J. Rosa. seus impulsos de violência destruidora. mas com ferida aberta. com costelas também partidas. como se o seu pobre corpo tivesse ficado imenso [. envolvendo. p. cit. Trismosin: Splendor solis.. de vontade de vingança. A hora e a vez de Augusto Matraga. porque a esquerda estava partida em dois lugares. As moscas esvoaçavam e pousavam. . Qual é esse processo de transformação de Nhô Augusto. 377. como vimos. não deixa escapar nada para o mundo exterior [. Diz Marie Louise von Franz que o recipiente é um símbolo para a atitude que impede qualquer coisa de escapar para fora. século XVI. e a direita num só. a tortura do fogo porque. S. nesse vaso hermeticamente fechado.74 pernas metidas em toscas talas de taboca e acomodadas em regos de telhas.]. é uma atitude básica de introversão. um tempo de purgação. e mais um braço. e a queimadura da marca de ferro.] era como se tivesse caído num fundo de abismo. da putrefatio (putrefação da qual a imagem da perna bichada não poderia ser mais alusiva). na avassaladora depressão por que passa.

no engendramento do “ovo cósmico”. . 1618. Patrono respectivamente da cura 94 Ver Marie Louise von Franz. Mãe Quitéria e Pai Serapião fazem o papel do alquimista e de sua soror alquímica. Michael Maier: Atalanta fugiens. tão presente nas iconografias da Alquimia. Introdução ao simbolismo e à psicologia. dará nascimento a um novo ser. a pessoa é como que “cozida” naquilo que ela é. ele precisará de um pai e de uma mãe. Oppenheim.75 intensidade dos processos psicológicos torna-se concentrado. p. Cultrix. que ajudam na “grande obra”. 110.94 Speculum veritatis. 1993. Mas para um “novo nascimento” – o “ovo”. Esse processo diz respeito a uma transmutação. século XVII. no Opus da transformação da matéria vil em ouro – e nascimento de um novo ser. São Paulo. Alquimia.

A “Hora” de Nhô Augusto: sua aurea hora. . Aurora. Há um terceiro e último elemento a ser analisado. engendrará o novo homem. que encaminharia uma leitura alquímica.76 (Serapião/Esculápio) e da quitação das faltas antigas (Quitéria). hora de ouro. princípio masculino e feminino. o instante em que as coisas se farão. há momentos distintos nessa obra de transmutação. depois virá o albedo (de albus = branco). Trata-se de algo que também está embutido no título do conto: “A hora e a vez” – o kairós. O kairós desempenha um enorme papel nos textos da alquimia: significa o momento astrológico oportuno. Na alquimia há fases. Passa-se por um processo de depressão. o momento oportuno. quando se obtém a prata. o casal de pretos. que é o nigredo (de nigro = negro).

sob o signo da rosa rubea. como diz o texto. só em sangue. da rosa vermelha – e que no conto está figurado pelo tanto sangue derramado na luta final de Matraga com Bem-Bem. o rubedo. Ambos ao fim estão. . século XVII. La Rose Blanche Je suis l´élixir de la blancheur Et je transmue tous les métaux vils En l´argent le plus pur.77 Donum Dei. contudo. e Matraga com os lábios lambuzados de sangue. Há também. É na fase do rubedo que na alquimia se consegue o ouro. uma última fase.

escamoteada pelo sacrifício. No início. realiza seu ethos fundamental. volta a violência que caracteriza o Matraga. Nos anos que passou . Augusto Esteves. La Rose Rouge Je suis l´élixir du rouge Et je transmue tous les corps vils Dans l´or le plus pur et le plus véritable. seu processo de vida se completa. faz justiça e se redime. A narrativa mostra uma transformação da personagem que. como o chamara Joãozinho Bem-Bem. Vimos que há riscos nesse processo: ele quase que vira um carola. ainda não é Matraga. Matraga é Esteves. numa coincidência de opostos. E tem que “partir” da barra da sai da Mãe Quitéria para cumprir o seu destino – com que se defrontará na figura de Bem-Bem. e inteiro e intenso ele integra as forças opostas que o habitam: ele passará de Nhô Augusto a Matraga. Ou Nhô Augusto – o homem” – assim está na primeira linha do conto. “Brigador de ofício”. século XVII. depois de um processo intenso e doloroso. filho do Coronel Afonsão Esteves. não é nada. quase que rateia sua realização. A tensão entre o Bem e o Mal – topos que lateja na ficção de Guimarães Rosa – aqui encontra um de seus momentos álgidos. Na luta com o bando de jagunços. das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. ele se perfaz na violência. realiza-se numa violência “justa”. e é como guerreiro que irá para o céu: a porrete. como está na frase inaugural da narrativa: “Matraga não é Matraga. e. sem deixar de ser aquilo que fundamentalmente é. Matraga é um valentão. mata e morre em defesa dos fracos. Nhô Augusto não é Matraga. Ele não poderá se renegar naquilo que tem de mais profundo. Nesse momento.78 Donum Dei.

É vetorizalizada. fundamentalmente. . repetindo as palavras dos cacundeiros do major Consilva: “Tem mais Nhô Augusto. Vou-me embora daqui. rica. é. ele consegue “sua hora e sua vez”. rico de poder ter sua hora de ouro. Nesse momento. Matraga atinge sua hora. não”. São Paulo. ele vaise embora. E realizando sua hora e sua vez. sua áurea hora. Ele é ele próprio. que tem que lutar para ser o que. numa situação-limite que é a morte. Nhô Augusto pode ser Matraga. com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue. torna-se Matraga. e de seu rosto subia um sério contentamento”. ele diz. Aurora. quando.95 A original violência desabrida da personagem é vetorializada e adquire um rumo ético. Max Limonad. Como alguém se torna o que é. Como se sugere no verso de Píndaro: “torna-te o que és” (que se tornou um lema nietzschiano por excelência) e a que Nietzsche alude no subtítulo do livro Ecce Homo: “como alguém se torna o que é”. das Pindaíbas!” (observe-se que aqui ele não se identifica mais como “filho do Coronel Afonsão Esteves”). Paulo César Souza. na sua reclusão de penitente. trad. Rica. ele se identifica. morre. Rico de toda sua identidade reencontrada. sua áurea hora. após o combate com Joãozinho Bem-Bem. Reconhecido pelo meio-parente João Lomba (precisa-se do Outro para conseguirmos a nossa própria identidade!). 95 Friedrich Nietzsche. Nhô Augusto morre com sua identidade reencontrada. Nesse momento. como já referi). 1986. Matraga é “o homem” – o ser humano. radiante. Augusto Matraga fechou um pouco os olhos. Ao mesmo tempo que individualizado. porém. isto é. sua hora de ouro. já ferido de morte. ele atinge sua realização e consegue seu destino. Nhô Augusto torna-se ele próprio.79 escondido. se nomeia: “Perguntem quem é aí que algum dia já ouviu falar no nome de Nhô Augusto Estêves. o dardo que também está presente numa das possíveis etimologias do nome “Matraga” (se formos buscar sua etimologia no celta “mattras”. Ecce Homo. é flecha que busca seu objetivo. numa das últimas falas do texto: “Então. É a própria figura da auto-realização. o dardo dos gauleses. Como nos versinhos da cantiga “antiga” que serve de epígrafe ao conto: Eu sou rica. mas em que se dá a atribuição de significado a toda uma vida. flecha que atinge o alvo. E viverá incógnito até o final.

. 1682. Amsterdam.80 Jacob Böhme: Theosophische Wercke.