Constitucionalismo e as Constituições

Brasileiras
MÓDULO I – CONSTITUCIONALISMO E AS
CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS
MÓDULO I – Constitucionalismo e as Constituições
Brasileiras
Ao final deste módulo, em relação ao Direito Constitucional, o aluno
deverá ser capaz de:
Diferenciar a travessia histórica por que passou;
Identificar a origem e a evolução de seu conceito;
Relatar as experiências constitucionais brasileiras.

Unidade 1 – Conhecendo o Direito Constitucional:
definição, origem e evolução
Nesta unidade, será estudada a definição de Direito Constitucional e
sua evolução no tempo. Para isso, será oferecida a definição
tradicional da disciplina e sua confrontação com ideias
contemporâneas, como a doutrina do neoconstitucionalismo e do
transconstitucionalismo.

- Direito Constitucional: definição, origem e evolução

Vamos começar nosso curso a partir da própria definição do tema.
Tradicionalmente, costuma-se dizer que o Direito Constitucional é o
ramo do direito público que tem por objeto de estudo as normas da
Constituição de um Estado.
Dessa maneira, é a parte do direito que analisa, sistematiza e
interpreta as normas fundamentais de certo país. E a Constituição é o

documento que congrega tais normas, estabelecendo os princípios e
as regras que organizam o funcionamento do Estado e delimitam as
garantias e os direitos do cidadão.
Em resumo, o Direito Constitucional é a disciplina que se dedica ao
direito fundamental de uma sociedade.
Essa definição ainda é satisfatória nos dias atuais? Isto é: podemos
dizer que o Direito se divide em dois grandes ramos, público e
privado, e que o Direito Constitucional pertence àquele primeiro
ramo, isoladamente?
Essa clássica divisão do direito, ora atribuída aos romanos, ora
associada ao jurista francês Jean Domat, enxergava uma distinção
entre leis civis e leis públicas. Estas cuidavam dos assuntos estatais,
enquanto aquelas tratavam de matérias da vida privada, como as
regras contratuais, a capacidade civil e o direito de família. O Direito
Civil era a “Constituição Privada”, e regulava a vida do indivíduo sob o
ponto de vista de seu patrimônio.

- Mudanças sociais que refletiram no pensamento jurídico
No entanto, recentemente, passamos por mudanças sociais que
refletiram diretamente no pensamento jurídico. A crise do chamado
“liberalismo de mercado”, nitidamente excludente, fez com que o
Estado marcasse maior presença nas questões individuais. O Direito
Civil, por sua vez, não poderia se importar apenas com o lado
patrimonial do indivíduo. Era preciso que ele se mostrasse hábil para
realizar os “valores da pessoa humana como titular de interesses
existenciais”.
As Constituições “públicas”, outrora dedicadas somente a assuntos
estatais, passaram a influenciar a vida cotidiana das pessoas,
conformando valores e princípios, como o da dignidade da pessoa
humana, que contagiaram o Direito Civil. Vivenciamos a
“publicização” do Direito Civil.
Dessa forma, ao mesmo tempo em que houve constitucionalização de
direitos, houve também superação da dicotomia “público-privado”,
que reinava no século XIX.
Então, como
atualmente?

podemos

compreender

o

Direito

Constitucional

- Direito Constitucional: antes e depois
Levando-se em conta esse novo quadro jurídico e social, que será
detalhado mais adiante, o Direito Constitucional ocupa, hoje, o centro
do ordenamento jurídico, e o influencia por completo, tanto na esfera
privada quanto na pública. Ele é filtro de todo o sistema jurídico e
tem, no princípio da dignidade da pessoa humana, o seu principal
valor.

Alocação do Direito Constitucional

a) VISÃO TRADICIONAL

- Direito Constitucional: antes e depois

b) VISÃO CONTEMPORÂNEA

Essa mudança fez nascer a possibilidade de aplicação dos direitos
fundamentais constitucionais também nas relações privadas,
paralelamente à já consolidada aplicação na relação vertical Estadoparticular.

- Exemplo
Para exemplificar: na relação Estado-particular, o direito fundamental
da igualdade ou isonomia nos diz que as regras do concurso público
têm que ser iguais para todos. Mas esse princípio deve ser seguido na
relação particular-particular? Por exemplo, uma empresa deve seguir

mais vantajoso. que ilustra essa nova tendência e mostra a eficácia vertical e horizontal dos Direitos Fundamentais: a) EFICÁCIA VERTICAL .. é aplicável nas relações entre particulares e assentou que o brasileiro faria jus às mesmas condições dos empregados franceses. 5º da CF/88. pois envolve duas pessoas que estão.)”.o princípio da igualdade na hora da contratação ou da demissão de um empregado? O STF vem se posicionando no sentido de haver.243-6) . como o sexo. nota intrínseca ou extrínseca do indivíduo. a nacionalidade. qualidade. em tese. sobretudo quando se tratar de matéria com relevância pública. pelo fato de ele não ser francês. Essa nova visão ficou conhecida como "eficácia horizontal dos direitos fundamentais". O tribunal resolveu a questão dizendo que o princípio da igualdade. (RE 161. que não aplicava o Estatuto do Pessoal da Empresa. a possibilidade de se aplicar os direitos fundamentais nas relações privadas. Observe o seguinte exemplo.Movimentos constitucionais . a brasileiro empregado da companhia. O caso concreto é o da empresa AIR FRANCE. na mesma hierarquia. o credo religioso (. estampado no art.. sim. a raça.Direito Constitucional: antes e depois b) EFICÁCIA HORIZONTAL O STF decidiu ser inconstitucional a “discriminação que se baseia em atributo.

no plano jurídico. com as Revoluções Liberais da Inglaterra e da França. Da mesma maneira. nem tampouco na França. . . O que se passou na Inglaterra não se reproduziu nos Estados Unidos da América. impondolhe limites e deveres. E. podemos apontar algumas características comuns que. . sem dúvida. é preciso ressaltar que ele não possui um sentido único nem universal. o Brasil teve sua própria versão de constitucionalismo. esta ideia foi mais desenvolvida a partir do século XVIII. Paralelamente. e fixar os direitos básicos do homem em face do Estado. a luta da sociedade para regrar a atuação do governante. Assim. Todavia.O Constitucionalismo Em outras palavras: o constitucionalismo é. aqui. a busca pela limitação do poder do governante e a luta pela garantia de direitos fundamentais do indivíduo integram o conceito dos movimentos constitucionais. No entanto. Como aponta Gomes Canotilho. traduz-se na necessidade de condensar essas regras numa Constituição escrita. é melhor dizer que existiram – e existem – movimentos constitucionais ao longo da história. nos dão o núcleo da ideia de constitucionalismo. no plano político e social. num fenômeno chamado constitucionalismo. reunidas. cabe indagar: qual a origem do Direito Constitucional? Por que ele apareceu e onde? Essas questões nos levam a pensar.Feita essa breve reflexão.

exercida pelos cidadãos. sob pena de não existir. foi no constitucionalismo moderno que as constituições ganharam importância central. fruto do movimento de independência do país. Ao mesmo tempo. Outros documentos também tiveram sua importância. de 1789. foi o grande marco do constitucionalismo medieval inglês. A constituição passou a ser o local onde se consagrava o triunfo do constitucionalismo. de que são exemplos as “Fundamental Orders of Connecticut”. não tem Constituição”.Para exemplificar: no mundo antigo o constitucionalismo se mostrava na possibilidade de os profetas. que sintetizou os ideais da Revolução Francesa. o “Habeas Corpus Act”.Importância Esses pactos tinham como fundamento o acordo de vontades entre o monarca e os súditos. fiscalizarem os atos governamentais que ultrapassassem os ditames bíblicos. nela deveriam estar consignados a limitação estatal e os direitos fundamentais. de 1679. de 1701. e a da França. na França. Na Idade Média. . a Carta Magna de 1215. como o “Petition of Rights”. É isso que dispôs a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1789: “toda sociedade na qual não está assegurada a garantia dos direitos nem determinada a separação dos poderes. as leis fundamentais do reino impuseram limitações ao próprio rei. . de 1689. que determinavam o rumo da política de sua cidade. Nos Estados Unidos. ficaram conhecidos os “contratos de colonização”. Era a arma ideológica contra o Antigo Regime absolutista. de 1791. no qual se estabeleciam convenções em relação ao modo de governo e às garantias dos direitos individuais. Também nas cidades-Estados gregas vê-se um relevante exemplo com a democracia direta. e o “Act of Sttlement”. As principais Cartas Constitucionais foram a dos EUA. também denominada “Carta do Rei João sem Terra”. de 1628. entre os hebreus. No entanto. o “Bill of Rights”.

à manifestação de pensamento e ao voto. gerou concentração de renda e grande exclusão social. o direito de propriedade era garantido. não faziam parte da vida da maioria das pessoas. Neles. como saúde. à liberdade. e que o Estado não intervinha nas leis do mercado. Nessa etapa. tendo sido publicada em 3 de maio de 1791.). Influências . Direitos sociais Esses documentos são marcos históricos da transição da sociedade para a idade contemporânea e foram inspirados pelos valores do liberalismo clássico. Na verdade. Além disso. Esse modelo foi colocado em xeque no fim do século XIX e começo do século XX. em 1929) e culturais. o constitucionalismo marchou para o Estado Social de Direito. à propriedade. em que o Estado passou a garantir condições mínimas de existência ao indivíduo. pois a autorregulação do mercado não permitiu o enriquecimento de todos. e o governante sofria limitação constitucional. como o direito à vida. saúde. que se regia livremente. previa-se que todos eram livres e iguais perante a lei. econômicos (o Estado passou a intervir no mercado. marcadamente garantidores de direitos sociais (trabalho. Direitos básicos. Surgiram os direitos de segunda geração. trabalho e educação. abandonando-se os privilégios do absolutismo. sobretudo depois da crise da Bolsa de Valores. educação etc.A Constituição da Polônia é anterior à francesa. Nessa época ficaram consagrados os direitos de primeira geração.

.

inclusive. diz-se que o texto não possuía força normativa para realizar suas promessas. de 1919. As principais constituições sociais foram a Mexicana. e a Alemã. como no estado nazista de Hitler e na Itália fascista de Mussolini. o Direito Constitucional entra em mais uma importante fase de sua evolução. também conhecida como Constituição de Weimar. que a Constituição começou a ser dirigente. Por estar sujeito às vontades do administrador. a Lei Maior serviu para proteger e justificar um estado de barbárie.Fala-se. Marcos Nesse passo. . de 1917. Conforme muito bem tratado pelo jurista Luís Roberto Barroso. esse modelo de Constituição se mostrou ineficaz. já que passou a obrigar o governo a elaborar e executar políticas que alcançassem os objetivos programados em seu texto. deu-se início ao "novo direito constitucional" ou "neoconstitucionalismo". que era claramente uma constituição social. Em alguns casos. aqui. Elas influenciaram. a nossa Constituição de 1934. Mas elas foram realmente efetivas? Principalmente depois da Segunda Guerra Mundial. O Judiciário tinha pouca importância na realização dos direitos fundamentais. pois não passou de um convite à atuação dos governantes.

criando uma nova forma de entender o direito. Ela impulsionou as revoluções liberais do século XVIII. de 1949 (Alemanha). que "redefiniu o lugar da Constituição e a influência do direito constitucional nas instituições contemporâneas". cita-se a Constituição de 1988. mas não despreza o direito posto. a constituição passou a ser dotada de força normativa. foi substituída pelas ideias do positivismo. As principais referências são: a Lei Fundamental de Bonn. mas.O pensador aponta três marcos determinantes para isso: a) marco histórico: o constitucionalismo do pósguerra. uma mera carta política. podemos dizer que é a junção das ideias no jusnaturalismo do século XVIII com as do positivismo do século XIX. procura empreender uma leitura moral do Direito. b) marco filosófico: o pós-positivismo. de 1947." c) marco teórico: primeiramente. Explicando melhor o que se entende por póspositivimo. e reconhece o papel do . por ter sido considerada "abstrata" ou metafísica. Isso quer dizer que o texto constitucional deixa de ser um convite à atuação do governante. mas sem recorrer a categorias metafísicas. Era a Ciência pura do Direito. A corrente jusnaturalista fundou-se na crença de que existem princípios de justiça universalmente válidos para todos os seres humanos. era preciso repensar a filosofia jurídica. Este igualou o Direito à lei. Com a crise desse sistema em meados do século XX. No Brasil. Como esclarece Barroso: "o pós-positivismo busca ir além da legalidade estrita. e a Constituição da Itália. retirando toda carga valorativa e filosófica da norma.

Constituiç ão Americana de 1789. Fundamen tal Orders of Connectic ut. . Bill of Rights. Constituiç ão Francesa de 1791. Habeas Corpus Act.Evolução do Constitucionalismo ESQUEMA GERAL DA EVOLUÇÃO DO CONSTITUCIONALISMO Histórico do Constitucionalismo Exemplo s Constitucionalismo Antigo Hebreus. Institucionalismo Medieval Carta Magna de 1215. Constitucionalismo Moderno Declaraçã o Universal dos Direitos do Homem de 1789. gregos e romanos. Petition of Rights.

Constituiç ões do pósguerra. Destaques : Lei Fundamen tal de Novo Direito Bonn de Constitucional – 1949 Neoconstitucionalis (Alemanh mo a) e a Constituiç ão da Itália de 1947. No Brasil. Direito Constitucional Além das Fronteiras – Transconstitucional ismo Caso da Princesa de Mônaco. Constituiç ão de 1988.Constitucionalismo Social (séc. XX) Constituiç ão Mexicana de 1917 e Constituiç ão de Weimar de 1919. que teve fotos íntimas publicadas na internet. O que deve prevalecer : o direito fundamen .

aqui. como Caroline de Mônaco. em torno dos mesmos problemas de natureza constitucional. e a Corte Constitucional Alemã decidiu que. em que a pessoa é socialmente proeminente. Ela recorreu ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos. que teve fotos íntimas publicadas por paparazzi na imprensa alemã. Conforme palavras dele: “o transconstitucionalismo é o entrelaçamento de ordens jurídicas diversas. mesmo em se tratando de pessoas públicas.tal da liberdade de imprensa ou o da intimidade ? Portanto. Ela entrou com processo judicial.” Exemplos e conclusão da unidade 1 Dentre os vários exemplos ofertados na tese de Marcelo Neves. coloca-se um novo problema a ser enfrentado por essa ciência jurídica: como resolver uma determinada questão que envolve mais de uma esfera constitucional? Ou melhor: o que fazer quando dois órgãos não hierárquicos enfrentam um problema com fundamento constitucional e que ultrapassa os interesses de um país? Para ilustrar. não há que se falar em direito à privacidade. É preciso que haja um diálogo entre as Cortes Constitucionais para se definir o caminho a ser tomado. Qual decisão deve prevalecer? Marcelo Neves defende que não se deve impor uma ou outra decisão. trazemos a lição do professor Marcelo Neves. defendeu haver direito à privacidade. que. mesmo porque esses órgãos não possuem grau de hierarquia entre eles. nos dias atuais. em casos como o dela. tanto estatais como transnacionais. podemos citar o da princesa Caroline de Mônaco. E. vemos que o Direito Constitucional vem se transformando no decorrer dos tempos. Deve-se buscar a orientação socialmente mais adequada. não se aplicando. em decisão contrária. internacionais e supranacionais. a liberdade de imprensa. que desenvolveu a ideia do “transconstitucionalismo”. .

Abordaremos. brevemente.Introdução Nas próximas duas unidades. que aborda. os assuntos da ponderação de princípios e do controle do Judiciário: Vídeo 1/3 Vídeo 2/3 Vídeo 3/3 Unidade 2 – A Constituição Imperial de 1824 e a Constituição Republicana de 1891 A segunda unidade do Módulo I terá a história como pano de fundo a fim de demonstrar como. veja mais alguns exemplos e conheça mais um pouco deste tema assistindo à seguinte entrevista dada pelo professor. também.Para encerrar esta unidade. o contexto histórico de criação de cada Constituição e suas principais características. e sob qual paradigma. Aqui. . . as Constituições de 1824 e 1891 serão analisadas e suas características mais relevantes destacadas. falaremos das experiências constitucionais brasileiras. um determinado diploma constitucional é elaborado.

Na verdade. 1/69. buscar mais informações e realizar novas pesquisas. Introduzido o assunto. . 1/69 como mais uma carta constitucional brasileira. .Constituições brasileiras O Brasil teve sete constituições. passemos ao estudo das nossas duas primeiras Constituições. este curso não esgotará o tema. analisaremos seu texto em conjunto com a Constituição de 1967. de Getúlio Vargas) Constituição de 1946 (redemocratizou o país) Constituição de 1967 (emendada pela EC nº.Constituição de 1824 A Constituição de 1824 foi a que por mais tempo vigorou em nosso país: 65 anos. Alertamos que este assunto é extenso e profundo. sigamos. Por isso. temos o interesse de despertar a curiosidade do estudante para que ele possa. Ela é fruto de acontecimentos que se iniciam com a vinda da Família Real Portuguesa.Também forneceremos os dados necessários para que o aluno possa compreender o que se passou com cada diploma constitucional pátrio. trouxe de volta o Estado Democrático) Apesar de alguns juristas considerarem a EC nº. a saber: Constituição Imperial de 1824 (a primeira do Brasil) Constituição de 1891 (inaugurou a República) Constituição de 1934 (pôs fim à República Velha) Constituição de 1937 (início do Estado Novo. vigorou na Ditadura Militar) Constituição de 1988 (“Constituição Cidadã”. Reconhecemos o caráter “revolucionário” do diploma e trataremos desse tópico na Unidade 4. Sendo assim. Devido à ocupação . posteriormente. no ano de 1808.

. o Jardim Botânico. ainda colônia. que poderiam negociar diretamente com o Brasil. a monarquia teve que se retirar de Portugal. Além disso. o Brasil era a sede da metrópole portuguesa.Constituição da Mandioca . Fundouse o Banco do Brasil. Pertencendo. uma na Bahia e outra no Rio de Janeiro. pois Portugal era governado a partir da antiga colônia. agora. sem ter que passar pelas alfândegas de Portugal. tendo como capital a cidade do Rio de Janeiro.das terras portuguesas pelas tropas napoleônicas. João VI. foi assinado o Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas. cujo Rei era D. Muitas coisas mudaram com a chegada da corte portuguesa. Ele marcou o fim do pacto colonial e trouxe vários privilégios aos britânicos. Alguns historiadores denominam esse fato de “inversão metropolitana”. estabelecendo-se no Brasil. ao Reino Unido de Portugal e Algarves. dentre outras instituições. criaram-se a Biblioteca Real. em cumprimento ao apoio dado pelos ingleses aos portugueses na viagem até o Brasil. a Academia Real Militar e duas escolas de Medicina.

D. Esse movimento reivindicava a volta da Família Real para restabelecer a colonização das terras brasileiras e expulsar os ingleses do controle militar. deu-se início. à Revolução do Porto. Assim. na condição de Príncipe Regente. mas deixa no Brasil seu filho. D. em 1820.Com a derrota de Napoleão e o crescente poderio britânico sobre os portugueses. João VI retorna a Portugal. . Pedro de Alcântara.

D. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva e Martim Francisco Ribeiro de Andrada). D. O partido brasileiro era liderado pelos “irmãos Andrada” (José Bonifácio de Andrada e Silva. Pedro. o imperador dissolveu a Assembleia (esse episódio ficou conhecido como “Noite da Agonia”. . para ser eleito. Pedro I. que seria imposta ou outorgada em 25 de março de 1824. Convocada uma Assembleia Nacional Constituinte. obviamente. também era necessário ser proprietário de grande quantidade de terras com plantio de mandioca. Paralelamente.Sob pressão dos liberais. Ele previa o voto indireto e censitário. os portugueses seriam excluídos do poder. Pedro.Assembleia Nacional Constituinte Uma vez que a maioria dos proprietários de terra era brasileira. pois não queria perder o poder. fica no País (Dia do Fico. conhecido como Constituição da Mandioca. tornando-se D. tanto como eleitores quanto como representantes. deu-se início aos trabalhos para elaborar a primeira Constituição da nação independente. apoiava o partido Luso. Vendo essa jogada jurídica dos liberais. Havia dois partidos que integravam a Constituinte: o partido Luso e o partido Brasileiro. que elaboraram o primeiro anteprojeto de constituição. 9 de janeiro de 1822) e declara a independência em 7 de setembro de 1822. levando-se em consideração a quantidade de terras cultivadas com mandioca. desrespeitando as ordens da corte portuguesa. que aconteceu do dia 11 para o dia 12 de novembro de 1823) e nomeou somente portugueses para redigir a Constituição. Por que Constituição da Mandioca? Foi em virtude desse projeto que a Assembleia Nacional Constituinte foi dissolvida pelo Imperador D. imperador do Brasil. Pedro I. .

criou as Assembleias Legislativas Provinciais. No entanto. no poder. a Sabinada. dando a elas certa autonomia. modificando normas da Constituição.Províncias As capitanias hereditárias foram transformadas em províncias. Aliás. cujo Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil era D.Revoltas sociais Mesmo assim. também chamada de Ato Adicional. Em . cuja capital era a cidade do Rio de Janeiro. no Maranhão (1838). Houve uma tentativa de derrubar esse unitarismo. ainda menor. período em que D. Outra característica importante de nossa primeira Carta Maior foi o fato de termos uma religião oficial: a Católica Apostólica Romana. tendo como ponto comum o descontentamento com o poder central. não havendo autonomia política das províncias. ou seja. Pedro II. tendo sido totalmente extirpada com a Lei nº. as revoltas sociais eclodiam em várias partes do território nacional.Clique aqui para saber o que foi a "Noite da Agonia" Com a outorga da Constituição. São exemplos: a Cabanagem. passamos a ser uma monarquia hereditária. quando se adotou o federalismo. essa tentativa não foi bem sucedida. deixando D. . que interpretou as modificações trazidas pela Lei 16/1834. durante a Regência Trina Permanente (1831-1835). a Balaiada. 16 de 1834. 105 de 1840. Foram os embriões das atuais unidades da Federação. Pedro I abdica do trono. Nosso Estado detinha a forma unitária. . Essa condição só foi modificada com a Constituição de 1891. A Lei nº. na Bahia (1837). a referida lei ficou conhecida como “Lei de Interpretação”. em Pernambuco (1848). Elas integravam os Estados Unidos do Brasil. a Coroa. no Rio Grande do Sul (1835). o poder era centralizado em um único órgão. Pedro I. no Pará (1835). as quais eram administradas por presidentes nomeados pelo Imperador. e a Revolução Praieira. a Farroupilha.

98: "O Poder Moderador é a chave de toda a organização Política. seu culto doméstico. em 1889. Na nossa primeira experiência constitucional. . em que havia os Poderes Executivo. com a grafia da época. ao lado daqueles três. e Sagrada: Ele não está sujeito a responsabilidade alguma.virtude disso. equilíbrio. autônomas e independentes. Vigia a teoria da irresponsabilidade total do Estado: “o rei não erra” (the king can do no wrong). Estava regulado nos arts. A denominada Tripartição dos Poderes de Montesquieu. o art.O quarto poder Na realidade. 99. apenas. 100 e 101. todas as outras formas religiosas não podiam ter manifestação pública. . 98. e é delegado privativamente ao Imperador. não adotamos a forma popular e revolucionária de repartição dos poderes. Legislativo e Judiciário. não foi implementada na Carta de 1824. e harmonia dos demais Poderes Políticos. o Poder Moderador. para que incessantemente vele sobre a manutenção da Independência. Ele era a “chave” de todo o complexo político e assegurava ao Imperador o controle dos demais poderes.” Essa ideia marcou o absolutismo europeu até o século XVIII e ainda perdurou no Brasil até a proclamação da República. e seu Primeiro Representante. O art." Ao lado desse centralismo político. a organização dos Poderes do Império abrangia um quarto poder.Direitos Fundamentais . pelas ideias de Benjamin Constant. Veja o que diz. o Imperador era considerado uma pessoa sagrada e inviolável. Aceitava-se. como Chefe Supremo da Nação. 99 assim o dizia: “A Pessoa do Imperador é inviolável. com atribuições complementares.

os militares ficaram extremamente descontentes com o fato de terem seu orçamento e seu efetivo reduzidos pelo imperador D. e essa capacidade de legislar foi retirada das províncias. Pedro II. ocasionando a libertação dos escravos em 1888. O poder continuou centralizado. exigindo o fim da vitaliciedade do mandato no Senado e no Conselho de Estado. a garantia do habeas corpus não foi constitucionalizada em 1824. que atendia aos interesses de grandes latifundiários monocultores de café e de cana de açúcar. a Constituição de 1824. Além disso. Como dissemos anteriormente. mesmo sendo vitoriosos na Guerra do Paraguai. quando houve a tentativa de descentralizar o poder. Outro fato que demonstra o descontentamento com a monarquia é a publicação do Manifesto do Centro Liberal. A grande contradição. reivindicava-se maior legitimidade da representação do País. em 1870. por influência da Constituição Francesa de 1789. Paralelamente. o fato de o voto ser restrito aos homens e ser censitário (conforme a renda). Nesses documentos. em 1869. 16 de 1834 concedeu alguma autonomia às províncias. Por fim. Por essa linha de pensamento. em 1874. a Lei nº. Um fato que mostra essa contrariedade é a prisão dos bispos de Olinda e Belém. Porém. assegurou importantes direitos civis e políticos de primeira dimensão (direitos individuais). a segurança e a propriedade. No entanto. Podemos citar. como veremos na sequência. especialmente em razão de ser submissa ao Estado Imperial. . tal lei foi “interpretada” e praticamente revogada em 1840.No que se refere aos direitos fundamentais. o Imperador perdeu o apoio dos produtores rurais. ao possibilitar que elas legislassem. ao não ter sido aprovada uma bula papal que censurava a maçonaria. Essa importante garantia só viria a ter status constitucional em 1891. todavia. em 1870. foi a permanência da escravidão. e do Manifesto Republicano. o centralismo político começava a ser um problema para algumas classes. também a Igreja se mostrava insatisfeita com o regime. que pode ser observado desde 1831. defendia a liberdade. Houve sua previsão infraconstitucional no Código Criminal de 1830 e no Código de Processo Criminal de Primeira Instância de 1832. a partir de 1860. Constituição de 1891 O surgimento de nossa segunda constituição está ligado ao enfraquecimento da monarquia. Por exemplo. também.

marcando o fim do absolutismo monárquico. que será oportunamente demarcada para nela estabeIecer-se a futura Capital federal”. 1. 3º . 1 de 1889 já tivesse reunido as províncias sob a condição de “Estados Unidos do Brasil”.120 de 3 de setembro de 1920. Na nossa segunda Constituição. É aqui que surge a ideia de se levar a capital do país para o planalto central. Embora o Decreto nº. Os estados federados passaram a ter autonomia para legislar e administrar seus territórios. A capital era o Distrito Federal. em 15 de novembro de 1889. uma zona de 14. A partir da CF/1891. a república era a nova forma de governo. Esse decreto foi redigido pelo conhecido jurista Rui Barbosa e previu um Governo Provisório com o objetivo de consolidar o regime e elaborar a nova Constituição. por meio do Decreto nº. a forma federativa foi constitucionalizada em 1891. a qual seria promulgada em 24 de fevereiro de 1891.República Dentro desse contexto. deixamos de ser um Estado unitário centralizado. O art. Alguns até adotaram o bicameralismo. e a monarquia foi afastada do poder e banida do território brasileiro. quando houve a revogação de seu banimento pelo decreto 4. as ideias de Montesquieu prevaleceram. a República é proclamada pelo Marechal Deodoro da Fonseca. no planalto central da República. A Família Real só iria poder retornar ao Brasil em 1920. Como se disse. Com ela se foi também o Poder Moderador e a concepção de Benjamim Constant. como foi o caso de São Paulo e de Pernambuco. e a tripartição dos Poderes foi adotada.Fica pertencendo à União.400 quilômetros quadrados. É a primeira constituição promulgada da nossa história. que possuíam a Câmara dos Deputados Estaduais e o Senado Estadual. 3º assim o dispôs: “Art. Os três Poderes . com sede na cidade do Rio de Janeiro.

Esta persistiu apenas na legislação militar em tempo de guerra. algumas práticas mudaram: era proibido o ensino religioso nas escolas públicas. § 22: “Dar-se-á o habeas corpus sempre que o indivíduo sofrer ou se achar em iminente perigo de sofrer violência ou coação por ilegalidade ou abuso de poder”. tendo os parlamentares mandato de 3 e 9 anos. com a Constituição de 1891. Outro detalhe importante é que. eleito diretamente pelo povo. mas qualquer direito fundamental. portanto. não existia mais o padroado (direito de o imperador intervir nas nomeações de bispos e de alguns cargos eclesiásticos). era laico. agora. no art. a de banimento e a de morte. o bicameralismo federativo. Veja como ficou. não havia mais religião oficial no Brasil. a nova redação do dispositivo: “Dar-se-á o habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar em iminente perigo de sofrer violência por meio de prisão ou constrangimento ilegal em sua liberdade de locomoção”. extinguindo-se algumas penas cruéis. respectivamente. A garantia do habeas corpus foi constitucionalizada pela primeira vez. Pela abrangência do dispositivo. como a de galés (trabalhos forçados). passou a ter um órgão máximo independente. criou-se em nosso país a denominada “Teoria brasileira do habeas corpus”. leigo ou não confessional.O Poder Executivo era exercido por um Presidente. por meio da Emenda Constitucional nº. o habeas corpus foi restringido apenas à liberdade de locomoção. . Houve. por sua vez. à época. Direitos Fundamentais Sobre os direitos fundamentais. O Poder Legislativo era comandado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. 1. Todavia. Em virtude disso. em 1926. o Supremo Tribunal Federal (STF). Fixou-se. Em vista disso. somente os homens acima de 21 anos votavam. com uma casa iniciadora e outra revisora. os cemitérios eram administrados pela autoridade municipal e não mais pela Igreja. podemos dizer que eles foram aprimorados. a separação total entre Igreja e Estado. pois esse remédio constitucional não protegia apenas a liberdade de locomoção. O Poder Judiciário. 72. bem como o recurso à Coroa para atacar as decisões dos Tribunais Eclesiásticos. assim. O País.

Para encerrar esta unidade. que faz alguns comentários sobre esse momento histórico no Brasil: Vídeo 1/3 Vídeo 2/3 Vídeo 3/3 Unidade 3 – A Constituição de 1934. Na próxima unidade do nosso curso estudaremos os fatos que determinaram o fim da República Velha. assista aos vídeos do professor Boris Fausto. sofrendo apenas uma reforma em 1926. momento em que as faculdades e direitos do governo central perante os estados foram ampliados. a Carta de 1937 e a Constituição Democrática de 1946 . o de 1934. a revogação desse ordenamento jurídico e a promulgação de um novo texto constitucional.Conclusão da unidade 2 A Constituição de 1891 vigorou até 1930.

Eleições . em 1937. e 2) ruptura eleitoral do então presidente Washington Luís. de 1937 e de 1946. e sob qual paradigma. podem ser associadas a dois fatores: 1) domínio das oligarquias mineiras e paulistas (o termo “oligarquia” significa “governo de poucos”). de cunho autoritário. Constituição de 1934 As principais causas para a extinção da República Velha. que é interrompido pelo golpe de Getúlio Vargas. se estendeu até 1946. Vamos ao estudo. a Carta de 1937 e a Constituição Democrática de 1946 Chegou a vez de sabermos um pouco sobre as Constituições de 1934. . . que não respeitou o acordo da “política do café com leite”.A terceira unidade do Módulo I terá a história como pano de fundo a fim de demonstrar como. A de 34 marca o fim da Primeira República ou República Velha e o início de um novo período. o “Estado Novo”. quando houve a redemocratização do país.Constituição de 1934 As experiências constitucionais brasileiras – A Constituição de 1934. um determinado diploma constitucional é elaborado. O novo regime instaurado por Getúlio. que perdurou de 1889 a 1930.

Nesse período.Assembleia Constituinte Em virtude disso. nas eleições de 1929. a Constituição de 1891 foi revogada. direto e secreto. pois senão perderia sua legitimidade. e o Congresso Nacional dissolvido. Ficou conhecido como “Revolução Constitucionalista de São Paulo”. uma Constituição. e não possuíamos. que apoiara Getúlio. Getúlio Vargas governava por decretos. fez com que Getúlio Vargas assumisse o poder. ainda. Porém. liderada pelos militares gaúchos e deflagrada depois do assassinato de João Pessoa. Apesar de eleito. . englobando o voto feminino. Fala-se que. Os conflitos iniciaram-se em 9 de julho de 1932. Em contrapartida. Mesmo com avanços em algumas áreas na época do Governo Provisório. Antônio Carlos posicionou-se em favor do gaúcho Getúlio Vargas. para as eleições de 1930. foram nomeados interventores em todos os estados da federação. que trouxe o sufrágio universal. exceto em Minas Gerais. estendendo-se até outubro desse mesmo ano. Paralelamente. por meio de um governo provisório. e várias garantias trabalhistas (descanso semanal remunerado. candidato pela Aliança Liberal. licença-maternidade e jornada de trabalho máxima de 8 horas diárias). Júlio Prestes. a exemplo do Código Eleitoral. Júlio Prestes não tomou posse. vivíamos. Mesmo tendo massacrado os paulistas. sob o domínio de uma só pessoa. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada. A “Revolução de 1930”.Como se sabe. um movimento revolucionário reivindicava a convocação de Assembleia Nacional Constituinte com o intuito de elaborar a nova constituição. Getúlio fracassou politicamente. ao invés de indicar o candidato mineiro. estado do governador Antônio Carlos. . embora vitorioso na “guerra”. na prática. por esse “acordo” os paulistas e os mineiros se alternavam na presidência da República. férias remuneradas. Washington Luís apoiou o governador paulista. Getúlio Vargas se viu obrigado a convocar a Assembleia Constituinte.

Dessa forma. o direito à saúde e à educação e o direito de greve. é claro. Além. Ao lado disso. em que o Estado assume sua . como por exemplo os direitos trabalhistas. a nossa terceira Constituição teve grande ênfase social. A Carta de 1934 marca uma importante transição do nosso constitucionalismo. que passa a garantir os direitos sociais ou direitos de segunda geração. que também possuía a mesma preocupação. deixa uma grande classe de operários sem emprego. a Constituição de 1934 é promulgada após intensos movimentos revolucionários e num contexto mundial de profunda crise do capitalismo. sofrendo influências da Constituição Alemã de 1919 (Constituição de Weimar). do Estado Liberal ou Estado de Direito para o Estado Social de Direito. . surgida com a Primeira Guerra Mundial. A quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque evidencia a depressão do modelo liberal. a recente industrialização. direito à vida e à propriedade).Estado Social de Direito Passamos. igualdade perante a lei. assim. Diante desse quadro. dos já consagrados direitos de primeira geração (direitos civis e políticos: liberdade.

visto que a Constituição de 1891 havia sido muito severa sobre o tema. importantes mecanismos para garantir direitos fundamentais. mas esta característica foi amenizada. c) a capital da República manteve-se no Distrito Federal. e previu-se. Dessa maneira. abrangendo o voto feminino. pois ele era exercido pela Câmara dos Deputados com a colaboração do Senado Federal. pela primeira vez. bem como no campo social. e o ensino religioso em escolas públicas se tornou facultativo. No entanto. Apesar de alguns defeitos. Assim. . com sede no Rio de Janeiro (havia a previsão de transferência da capital para um ponto central do país). sendo um mero colaborador. que ilustra esse tema. . a Justiça do Trabalho e as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). instalou-se no Poder Legislativo Federal o que muitos chamam de “bicameralismo desigual” ou “unicameralismo imperfeito”. o Mandado de Segurança e a Ação Popular. o texto de 1934 representou importante avanço nas áreas da educação e da economia. direto e secreto. b) a forma republicana foi mantida. Assista ao vídeo abaixo. Continuamos a ser um país laico.responsabilidade perante a sociedade e deve garantir o mínimo para que as pessoas possam viver uma vida digna.Justiça Eleitoral Criou-se a Justiça Eleitoral. o casamento religioso voltou a produzir efeitos civis. sem religião oficial. Outras características podem ser citadas sobre o texto constitucional de 1934: a) o sufrágio universal. o Senado Federal não detinha o mesmo status da Câmara. Havia a tripartição de Poderes.

inspirado nas ideias de Mussolini. de outro. inviabilizando uma insurreição político-militar que objetivava derrubálo e instalar o comunismo. a Aliança Nacional Libertadora (ANL).. Foi descoberto pelo Estado-maior do Exército e veiculado em rádio nacional. movimento de esquerda que apoiava ideias socialistas e comunistas e pretendia combater o fascismo nacional. para evitar o avanço comunista. que novamente pretendia derrubar Getúlio. quatro meses após a criação da ANL. Getúlio Vargas decretou o estado de sítio. De um lado. Paralelamente. Getúlio Vargas decreta o golpe de estado e fecha o Congresso Nacional. a denominada Intentona Comunista. que defendia um estado autoritário. representado pela Ação Integralista Brasileira (AIB). Em 11 de julho de 1935.Constituição de 1937 Constituição de 1937 Com a eleição de Getúlio Vargas para governar durante o período de 1934 a 1938. começou a haver uma forte disputa entre dois movimentos nacionais. sob a alegação de que essa aliança era ilegal em vista da Lei de Segurança Nacional. e. . o estopim desse quadro histórico foi a descoberta do famoso “Plano Cohen”. Porém. o da direita fascista. Como pretexto para “salvar” o Brasil do comunismo. o Governo a fechou.

a federação também sofreu limitações. pois na prática apenas o Poder Executivo comandava o País. e o Judiciário passou a ser controlado pelo Executivo. Getúlio outorga (impõe) a Carta de 1937. Apesar de ter estabelecido em seu art. Sua característica principal foi o autoritarismo. PLANO COHEN . 170 da Carta de 1937 dispôs que “durante o estado de emergência ou o estado de guerra. o cidadão não poderia levar isso ao conhecimento de nenhum juiz. o Plano Cohen foi uma fraude para tentar manter Getúlio Vargas no poder.. O Governo nomeou interventores nos estados federados. diminuindo sua . tendo sido fechado o Parlamento. Essa constituição foi elaborada por Francisco Campos e teve o apelido de “Polaca”. dos atos praticados em virtude deles não poderão conhecer os Juízes e Tribunais”. Vale a pena lê-lo.A matéria a seguir conta que. Clique no link para ler o PLANO COHEN . Vivíamos numa tripartição apenas “formal” dos Poderes.Carta de 1937 Na sequência. 187 que seria submetida a plebiscito nacional. em virtude da influência da constituição polonesa fascista e autoritária de 1935. Igualmente. na verdade. . Isso equivalia a dizer que por mais atrozes que fossem as condutas de militares. iniciando o que chamou de “Estado Novo”. o art. Para se ter uma ideia. isso nunca aconteceu.

posteriormente. os partidos políticos foram dissolvidos pelo Decreto-lei nº. restringindo-se o direito à liberdade de manifestação do pensamento. c) estabeleceu-se a censura prévia. que foi extinta. O filme “Olga” ilustra bem esse fato. . A forma federativa era apenas “nominal”. na Alemanha. Veja algumas dessas modificações: a) retiraram-se do texto constitucional o Mandado de Segurança e a Ação Popular. não existia de fato. e todos os jornais ficaram obrigados e inserir comunicações do Governo. quando assim fosse necessário. como é o caso da Justiça Eleitoral. A eleição para Presidente da República passou a ser indireta. b) o princípio da irretroatividade das leis não mereceu muita atenção. a área mais afetada foi a dos direitos fundamentais. Ao arrepio da Constituição. Da mesma forma. d) previu-se a pena de morte para crimes políticos e quando se tratasse de homicídio cometido por motivo fútil. Está disponível o trailer: Retrocessos e Avanços . e) a greve era proibida.capacidade de se autogovernar. Ela foi entregue e. 37 de 1937. a tortura era utilizada como forma de repressão. a exemplo do que aconteceu com Olga Benário. mulher do comunista Luís Carlos Prestes.Modificações da Constituição de 1934 Houve retrocesso em algumas criações da Constituição de 1934. assassinada em um campo de concentração nazista. No entanto.

Getúlio Vargas se viu obrigado a convocar eleições para a Presidência do Brasil. O Estado Novo se prolongou de 1937 a 1946. podemos dizer que houve avanços nos campos trabalhista e industrial. China. Numa clara contradição entre a política interna (ditadura Vargas nazifascista) e a política externa (apoio aos países que queriam destruir as ditaduras nazifascistas).Como se vê. assim. ele o faz e começa a corrida das eleições. Tendo perdido apoio e entrado em crise política. URSS. foi publicado o “Manifesto dos Mineiros”. foram mais de quinze anos de “Era Vargas”. configurando-se como uma verdadeira ditadura. que começou a operar em 1946. Constituição de 1946 Constituição de 1946 . combatendo. sobretudo sob o ponto de vista dos direitos individuais. No total. França e Inglaterra). Porém. desde o Governo Provisório. Mas em razão da forma populista de governo. 9. após uma contradição na politica adotada por Vargas. O Brasil só viria a ser redemocratizado em 1946. Nova Carta . com o início da 2ª Guerra Mundial. a política interna se baseava em ideias da direita fascista e se norteava pelo autoritarismo. esse momento foi muito duro para a história brasileira. efetivamente. de 1945. como veremos a seguir. a Itália fascista e o Japão). o Brasil declarou guerra aos países do “Eixo” (a Alemanha nazista. Como se viu. instalado em 1930. sendo que Vargas governou. É desse tempo a criação de importantes empresas estatais: a Companhia Vale do Rio Doce (1942). que evidenciava esse quadro controverso. Por meio da Lei Constitucional nº. a Companhia Hidroelétrica do São Francisco (1945) e a Companhia Siderúrgica Nacional. do lado dos “Aliados” (EUA.

. afastando-se os interventores dos estados.A Capital da União será transferida para o planalto central do Pais. Nova Capital e conclusão da unidade 3 A forma federativa do Estado foi consagrada.Promulgado este Ato. que. Assim dizia o referido dispositivo: “Art. para que este elaborasse outra constituição. 4º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da CF/46. ele não foi eleito. sendo que o Mandado de Segurança e a Ação Popular foram recolocados no diploma constitucional. José Linhares.Embora tenha surgido o movimento “queremismo”. A capital da República permaneceu no Rio de Janeiro até sua mudança para Brasília. 13. efetivando o disposto no art. Alguns fatos. até que o General Gaspar Dutra foi eleito para chefiar o país. nomeará uma Comissão de técnicos de reconhecido valor para proceder ao estudo da localização da nova Capital. O Executivo passou a ser exercido pelo Presidente do STF. de 1945. dentro em sessenta dias. Reconheceu-se o direito de greve. no governo de Juscelino Kubitschek (19561961). Dentre as principais mudanças. atribuiu poderes constituintes ao Parlamento. § 1 º . Vedou-se a pena de morte. significava “queremos Getúlio”. o Presidente da República. a partir de 1946. destaque-se que os direitos fundamentais voltaram a ter a proteção adequada. Pensava-se que ele poderia dar um novo golpe e se perpetuar no poder. como a substituição do chefe de polícia do Distrito Federal pelo seu irmão. fez com que Getúlio Vargas fosse expulso do poder pelas Forças Armadas. Antes disso. A nova Carta foi promulgada em 18 de setembro de 1946 e teve o importante papel de redemocratizar o Brasil. salvo em tempo de guerra e de acordo com a legislação militar. 4º . a Lei Constitucional nº. mais especificamente pelos Generais Góis Monteiro e Gaspar Dutra. em síntese.

a Constituição de 1967.Efetuada a transferência.” Assim. a Constituição de 1946 deu ao Brasil as bases necessárias para construir um país democrático. devido ao conhecido “Golpe de 64”.Findos os trabalhos demarcatórios. Todavia. emendada pela EC nº. e a Constituição de 1988 serão analisadas e suas características mais relevantes. e sob qual paradigma. com a EC n. Como veremos na próxima unidade. o atual Distrito Federal passará a constituir o Estado da Guanabara. um determinado diploma constitucional é elaborado. Unidade 4 – A Constituição do período militar e a redemocratização do país com a Constituição de 1988 A quarta unidade do módulo I terá a história como pano de fundo a fim de demonstrar como. .O estudo previsto no parágrafo antecedente será encaminhado ao Congresso Nacional. 1/69. o Congresso Nacional resolverá sobre a data da mudança da Capital. § 4 º . e estabelecerá o prazo para o início da delimitação da área a ser incorporada ao domínio da União. em lei especial. representando um retrocesso político e social para os brasileiros. mergulhamos num dos períodos mais conturbados de nossa história.Constituição de 1967 . a Constituição de 1967. Aqui. § 3 º . assemelhou-se em muitos pontos à Carta de Vargas. 1/69.§ 2 º . que deliberará a respeito.

1. o mundo ficou dividido em dois grandes blocos: a parte capitalista. Aliás. tal política econômica ficou conhecida como “entreguismo”. que desnacionalizou segmentos importantes da economia nacional. comecemos pelos fatos que antecederam a criação da CF/1967. assumiria o vice-presidente João Goulart. especialmente a partir da década de 50. e a parte socialista. E a de 1988. exerciam sua influência para a garantia de poder e comando sobre tais territórios. O governo brasileiro começa a travar relações com a China e com a ex-URSS. Jânio Quadros renuncia. Sendo assim. chefiada pela ex-URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). de 1969 Com o fim da Segunda Guerra Mundial. expoentes do mundo comunista. Em seu lugar. a evolução de nosso constitucionalismo para a construção de espaço aberto ao debate. As Forças Armadas queriam impedir que “Jango”. inclusive.Estudaremos. Essas potências ajudavam na reconstrução dos países destruídos pela guerra e. hoje vigente. agora. . como a área do petróleo. as duas últimas constituições do Brasil.Volta do presidencialismo Nesse passo. assumisse a presidência. A de 1967. que simbolizou a volta do Brasil para o Estado Democrático e. como ficou apelidado. devido à ideologia adotada por nosso governo. Perdendo apoio tanto da direita quanto do centro. Nessa época. Constituição de 1967 e a Emenda Constitucional nº. Todavia. liderada pelos EUA. . mais do que isso. havia no País um espírito de “caça aos comunistas”. que no momento da renúncia estava na China. paralelamente. tendo. que sofreu uma importante emenda em 1969 e vigorou durante a ditadura militar. recebido algumas multinacionais para explorar o mercado nacional. o Brasil se vinculou ao mundo capitalista. na presidência de Jânio Quadros começa a haver um desemparelhamento com o bloco norte-americano. e tentaram impedir seu retorno ao Brasil.

escolheu a volta do presidencialismo (6 de janeiro de 1963). estaduais ou . no entanto. Brigadeiro Francisco Correa de Melo e Almirante Augusto Rademaker. baixou os famosos Atos Institucionais (AI). no exercício do Poder Executivo. sob o sistema presidencialista. Em seguida. em plebiscito. Vejamos a síntese de cada um deles. Nesse contexto. Nessas reformas. a classe média. Ainda. foi rejeitado pela população. Esse Supremo Comando. Esse sistema. por ter um viés populista. acusado de estar a serviço do comunismo internacional. que governariam o país até a imposição da Carta de 1967.Para contornar a situação. o Congresso Nacional aprovou um regime parlamentarista. por meio desse Ato. iniciou a reforma agrária. Dessa forma. os militares poderiam suspender direitos políticos e cassar mandatos legislativos federais.Atos Institucionais Apesar de ter ampla aprovação do operariado. em que João Goulart ficaria como chefe de Estado e Tancredo Neves seria o chefe de Governo. limitou a remessa de capital ao exterior e deu grande incentivo à educação.  O AI-1 permitiu ao Comando decretar o estado de sítio. que. em 31 de março de 1964. o presidente Jango permitiu que os analfabetos votassem. João Goulart é derrubado do poder pelos militares. assim como a Igreja. é constituído o Supremo Comando da Revolução pelos militares vitoriosos – General Costa e Silva. coordenou as “Reformas de base”. não via com bons olhos essa política populista. e. quando assim se fizesse necessário. João Goulart voltou a ocupar a chefia do Poder Executivo. . além de conferir o poder de aposentar qualquer civil ou militar.

Houve apenas as formalidades de votação. . a seu turno. Dentre as características mais marcantes do texto de 1967. quando a Constituição foi outorgada. que significou o “fim” do federalismo. pois o Executivo foi extremamente fortalecido.municipais. data em que passou a viger o novo texto constitucional. praticamente. O Presidente governava mediante a edição de Decretos-Lei. um estado unitário. o Brasil foi regido por Atos Institucionais.  O AI-3 fez o mesmo que o 2. Embora conste que o texto foi promulgado. Experimentamos. porém na esfera estadual. que estava fechado.  O AI-4. que regeria o país a partir de então. para elaborar a nova Carta Constitucional. é bom frisar para o estudante que ele foi imposto unilateralmente pelo regime militar. A Tripartição dos Poderes também não existiu na prática. esvaziando a competência dos demais Poderes. em definitivo. Na verdade. o Parlamento estava ali para atender aos interesses do “Comando da Revolução”. quando houve o golpe de Estado. em que os estados federados não possuíam muita autonomia. convocou o Congresso Nacional.AI-5 . no dia 15 de março de 1967.  O AI-2 estabeleceu eleições indiretas para Presidente da República. A Constituição de 1946 existia apenas formalmente. podemos destacar o centralismo político. de 1964. Ela foi revogada. até 1967. fazendo do parlamento um mero coadjuvante. . aprovação e promulgação.Texto de 1967 Em síntese. Some-se a isso o fato de que as eleições presidenciais eram indiretas e se davam pelo Colégio Eleitoral.

. pelo prazo de 10 anos. sem as limitações previstas na Constituição.Golpe dentro do golpe .Mas foi com o AI-5 que a Ditadura deixou seu maior “legado”. ele assumiria as funções desses órgãos. Conforme o art. a ordem econômica e social e a economia popular. bem como suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos. de forma mais autoritária. no exercício de cargo ou função pública. sendo que. excluiu da apreciação judicial os atos praticados em acordo com seus comandos. a garantia de habeas corpus foi suspensa nos casos de crimes políticos contra a segurança nacional. O chefe do Executivo também poderia decretar o confisco de bens de todos aqueles que tivessem enriquecido de maneira ilegal. O AI-5 também permitia ao Presidente intervir nos Estados e nos Municípios. violentamente. E. os direitos fundamentais do indivíduo. das Assembleias Legislativas e das Câmaras dos Vereadores. 10 do Ato. nesse período. Por ele. o Presidente poderia decretar o recesso do Congresso Nacional. ao restringir.

pois vivíamos sob o domínio (e dependência) dos militares. o mandato do Presidente para 5 anos. que o estado autoritário instalado ofendia os direitos individuais e gerava descontentamento por parte da sociedade civil. pois a EC 1/69 constitucionalizou o uso dos Atos Institucionais. inclusive. Em seguida. . No entanto. além de ter mantido em vigor os Atos já baixados. de 17 de outubro de 1969 Como dissemos no início da Unidade 2. No entanto. O estudante precisa ficar atento a essa discussão. seu vice.Governos Militares . Aumentou. sustentou não haver nada a se comemorar no Dia da Independência. E como conseguimos superar o estado autoritário? Como passamos à sociedade que atualmente vivemos. como foi o caso do Deputado carioca Moreira Alves. mantendo. que já regulavam o país. é descartado pelos militares. discute-se se esta Emenda não configuraria uma nova Constituição. acrescentando alguns pontos importantes na CF/67. Vejamos alguns detalhes dessa “Emenda”. Nesse meio tempo. Eles editam o AI-12. Certamente. vários pontos de seu texto. .Emenda Constitucional nº. também. e outorga um novo diploma constitucional. que afasta da presidência quem deveria assumi-la (o vice-presidente Pedro Aleixo). essa visão pode ser defendida. sob os princípios de um Estado Democrático? É isso que veremos no tópico adiante.Percebe-se. que fora contra o AI-5. os militares assumem o poder. que. sempre lembrando que colocamos o nome “Emenda Constitucional” para respeitar o que se sucedeu na história constitucional brasileira. Num golpe dentro do golpe. em 1968. o presidente Costa e Silva adoece e sua substituição se faz necessária. que permite a uma “Junta de Militares” governar o país enquanto Costa e Silva estivesse afastado por motivos de saúde. ela não revogou expressamente a CF/67. editam a EC nº 1/69. no fim de agosto de 1969. portanto. Pedro Aleixo. Outros setores também se mostravam insatisfeitos com o Governo Militar. já que ela é fruto de um poder “revolucionário”. 1.

as classes mais pobres não foram beneficiadas com esse “milagre”.Durante o regime militar. . mais especificamente no governo do General Emílio Médici. experimentamos o “milagre econômico” (período de 1968 a 1973). E por ter sido a classe média a privilegiada. mas à custa do endividamento nacional. Houve um crescimento econômico muito grande.

mas seria “lento e gradual”. 6. Vale a pena visitá-lo: http://tropicalia. que reinstitui o pluripartidarimo. revoga o famigerado AI-5. o conhecido “Pacote de Abril de 1977”.com. Nasceram alguns movimentos que criticavam essa estrutura. Houve. O primeiro deles é a Reforma Partidária de 1979 (Lei nº. Diante disso. aumentou o mandato do presidente para 6 anos. Acrescente-se a isso a crise internacional do petróleo. que.No governo de Ernesto Geisel (1974-1979). suspende as decisões que cassaram os direitos políticos de alguns cidadãos e prevê a impossibilidade de o Presidente da República suspender os trabalhos do Congresso Nacional. Era o início da redemocratização do país. Há um site que traz informações interessantes sobre esse movimento. como é o caso da Tropicália.br Em 1978. É dessa época a edição da famosa “Lei Falcão”. também. Ele pretendia fazer um caminho para a democracia.767/1979). com o intuito de minar as possibilidades da oposição. Antes. a tortura e sequestros de artistas e intelectuais. havia apenas os . tentando contornar algumas controvérsias. em resumo. as consequências da política econômica adotada na administração anterior foram aparecendo e passamos por um período de inflação acelerada e crise econômica acentuada. os militares foram perdendo apoio e temiam que alguns movimentos de oposição se insurgissem contra eles. Há fotos. dentre outras coisas. Outros fatos denotam o avanço do Brasil para o caminho democrático. edita-se o “Pacote de Junho”. biografias etc. deixando o país com uma dívida externa altíssima. vídeos. os militares não tinham apoio popular. Geisel não modificou seus projetos de desenvolvimento (era preciso mostrar ao povo que o Governo Militar ia bem). elaborado por Geisel. Vivíamos sob a censura. que também atingiu o Brasil. que reduziu a propaganda política. Movimentos sociais Mesmo tentando se manter no poder. Mesmo assim. que.

baseada num governo democrático. Diretas já Também como passo rumo à democratização. 5/83 – “PEC Dante de Oliveira”. Suas promessas eram de estabelecer a “Nova República”. Depois da Reforma. não chegando a tomar posse como presidente. Todavia. que também era civil. emendada pela EC n. O curioso dessa emenda é que ela não pretendia modificar. assumiu o vice-presidente. PDT e PTB. Ele cumpriu a promessa de Tancredo e instituiu uma Comissão de Notáveis (Comissão Afonso Arinos). mesmo tendo imenso apoio popular. José Sarney. de situação) e MDB (Movimento Democrático Brasileiro. Aliás. a Constituição a que se refere (a CF/67. Por essa razão. podemos citar o estabelecimento de eleições diretas para governador dos Estados e o movimento “Diretas Já”. Tancredo Neves é eleito o primeiro civil depois de um longo período de governo só de militares. a Emenda Constitucional nº. a Arena passou a se chamar PDS e o MDB se desmembrou em cinco novos partidos: PMDB. para elaborar um anteprojeto de Constituição. . Nas eleições indiretas de 1985.partidos ARENA (Aliança Renovadora Nacional. PT. PP. como ficou chamada – encabeçou essa tentativa. A Proposta de Emenda Constitucional nº. não é razoável pensarmos que ela configura Emenda Constitucional. que pretendia tornar diretas as eleições para Presidente da República. Porém. ela foi rejeitada. 1/69). e sim eliminar. ele adoeceu e faleceu. 26 de 1985 determinou que fosse convocada uma Assembleia Nacional Constituinte com o fim de elaborar a nova Constituição do país. Em seu lugar. de oposição).

26. Cumprindo o mandamento da EC nº. rejeitou o texto apresentado pela Comissão. 1/69.Enquadra-se. Constituição de 1988 O Presidente. aos moldes do que acontecera com a EC nº. sobretudo em razão de ela ter optado pelo regime parlamentarista de governo. instala-se a Assembleia Constituinte em 1º de fevereiro de 1987. só que com viés democrático. como ato político revolucionário. . com maior propriedade. no entanto.

apoiado pelo Executivo e defensor de ideias mais conservadoras. renuncia ao cargo em 29 de dezembro de 1992 envolvido em escândalos de corrupção. a forma republicana e o sistema presidencialista de governo foram consolidados. devemos ressaltar que ainda há muitos resquícios de centralismo político. que. Redemocratização Com a CF/88. pois o povo pode contribuir para sua elaboração. No entanto.composta por 559 Congressistas. de 1994. também conhecido como “Centrão”. Ele a denominou de “Constituição Cidadã”. administrativa e financeira. com mandato de 5 anos para Presidente). Ulysses Guimarães. como se pode ver pela leitura dos arts. foi extinto) e passou para o domínio do estado de Pernambuco. que alterou a previsão constitucional original. Após intensas discussões. a ilha de Fernando de Noronha deixou de pertencer à União (era território federal. Esta regra também ficou sendo obrigatória para Estados-membros. . A nova Constituição fixou eleições diretas para Presidente da República. Isso ocorreu especialmente após o plebiscito (consulta popular) de 21 de abril de 1993. 20 a 23 do atual texto constitucional. vários lobbies e brigas políticas. a recémelaborada constituição foi promulgada. Além disso. cujo mandato ficou estabelecido em 4 anos (por força da Emenda Constitucional de Revisão n. que confirmou a escolha da população por esses mecanismos de administração pública. O primeiro presidente eleito segundo a CF/88 foi Fernando Collor de Melo. em 5 de outubro de 1988. em que a União detém uma ampla gama de competências administrativas e legislativas. pelo presidente da Assembleia Constituinte. Ao lado disso. sendo que o grupo majoritário era do Centro Democrático. Foi criado o estado de Tocantins e transformados em estados federados os antigos Territórios Federais de Roraima e Amapá. por meio de propostas populares. 5. Por sua vez. pressionado por denúncias de corrupção e já aberto contra ele um processo de impeachment. Municípios e Distrito Federal. o federalismo foi reestabelecido e os entes da federação voltaram a ter autonomia política. erguido sob o Estado Democrático de Direito e que devia respeito à sua Lei Maior. ela inaugurou um novo país.

o bicameralismo paritário ou igualitário. Dessa forma. representantes dos Estados-membros e do povo. Continuamos a ser um país laico. como. em que uma casa legislativa não se sobrepõe à outra. O STF passou a cuidar das matérias estritamente constitucionais. 20 a 23. No âmbito do Poder Judiciário. não podemos deixar de anotar que foi com a “Constituição Cidadã” que os direitos fundamentais do indivíduo foram consolidados em nosso ordenamento. são independentes e harmônicos entre si. sem religião oficial. respectivamente. Por ora. e ter a capital do país em Brasília. conforme o art. devemos ter em mente que a CF/88 representou uma quebra de paradigma com o sistema anterior . 5. criou-se o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Enfim. por exemplo. competente para uniformizar o entendimento dos magistrados no tocante às ações que se fundamentem em lei federal. que. enfim. quando não se prefira fazê-lo por processo sigiloso. formado pelo Senado Federal e pela Câmara dos Deputados. O tema dos direitos fundamentais será analisado com mais detalhes no Módulo 3. Direitos fundamentais do indivíduo O Poder Legislativo é exercido pelo Congresso Nacional. o fato de o racismo e a tortura terem se tornado crimes inafiançáveis. Alguns até de forma inédita. Estabeleceu-se.Clique aqui para abrir a Constituição Federal e confira a íntegra dos arts. inciso LXXII). e a possibilidade de impetrar habeas data “para assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa do impetrante. constantes de registros ou bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público” ou “para a retificação de dados. 2º. A redemocratização trouxe de volta a tripartição real dos Poderes. judicial ou administrativo” (art.

a soberania (internamente. Conclusão do Módulo I Ao lado da dignidade da pessoa humana. externamente. ainda. os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. e. a cidadania (na qual o sujeito possui o direito e o dever de intervir na ordem política em que se insere.(CF/67). e o pluralismo político (rompendo com a ordem anterior. pois alçou os direitos fundamentais como centro do ordenamento jurídico. E s t a é a r e d a ç ã o d o a r t . tanto elegendo seus representantes como contribuindo para melhorar a sociedade). adotamos como fundamentos. 1 . traduz-se na ideia de que ninguém é superior ao Estado. significa que todos os países são iguais entre si). tendo a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos do Estado brasileiro. que se baseava no bipartidarismo e no repúdio à diversidade política).

1 º A R e p ú b l i c a F e d e r a t i v a d o B r a s .º d a C F / 8 8 : A r t .

i l . f o r m a d a p e l a u n i ã o i n d i s s o l ú v e l d o s E s t a d o s .

c o n s t i t u i s e .e M u n i c í p i o s e d o D i s t r i t o F e d e r a l .

e m E s t a d o D e m o c r á t i c o d e D i r e i t o e t e m c o m o f u n .

I I a c i d a d a n i a .d a m e n t o s : I a s o b e r a n i a . I I I - .

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Exercícios de Fixação . Mesmo assim. O resultado não influenciará na sua nota final. É preciso levar em consideração que nossa Carta Maior sempre sofrerá mudanças. sugerimos que você faça uma releitura do mesmo e resolva os Exercícios de Fixação. mas servirá como oportunidade de avaliar o seu domínio do conteúdo. em transformação.s t a C o n s t i t u i ç ã o . Conseguimos superar estados autoritários e progredir na proteção do indivíduo e da coletividade. vimos que nossa história constitucional passou por avanços e retrocessos. pois são eles que norteiam o espírito democrático e sustentam a construção de uma sociedade melhor. constantemente. Lembramos ainda que a plataforma de ensino faz a correção imediata das suas . é necessário proteger seus fundamentos. Como parte do processo de aprendizagem. À Carta atual já se incluíram dezenas de Emendas Constitucionais.Módulo I Parabéns! Você chegou ao final do Módulo I de estudo do curso Introdução ao Direito Constitucional. Assim. pois a realidade social é fluida e está.

Unidade 1 – Estrutura da Constituição de 1988 – O preâmbulo e as normas constitucionais Nesta unidade. Compreender a relevância do Controle de Constitucionalidade das leis. o aluno deverá ser capaz de: Nomear os institutos que compõem a estrutura da Constituição de 1988. Sendo assim. Discorrer sobre as implicações do Poder Constituinte no processo de elaboração das leis. ao seu término.respostas! Ir para o conteúdo principal Imprimir todo o módulo Elementos de Teoria da Constituição MÓDULO II – ELEMENTOS DE TEORIA DA CONSTITUIÇÃO MÓDULO II – Elementos de Teoria da Constituição Este Módulo pretende munir o aluno de algumas noções sobre Teoria da Constituição. será oferecido ao estudante a estrutura da Constituição de 1988 e os princípios básicos que nortearam sua .

44 a 135) Título V – Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas (arts. o estudante terá contato com outras partes do texto igualmente importantes: o Preâmbulo e o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. 5º a 17) Título III – Da Organização do Estado (arts. analisaremos a estrutura da atual. 18 a 43) Título IV – Da Organização dos Poderes (arts.Preâmbulo. corpo e normas transitórias.formatação. Veja o quadro abaixo: Preâmbulo Título I – Dos Princípios Fundamentais (arts. Seu texto é dividido em três partes: preâmbulo. corpo e normas transitórias Após termos estudado toda a travessia histórica de nossas constituições. 1º a 4º) Título II – Dos Direitos e Garantias Fundamentais (arts. Paralelamente. . a Constituição de 1988. 136 a 144) Título VI – Da INTRODUÇÃO CORPO OU PARTE CENTRAL .

emendada pela EC nº. 1/69. a de 1967. os Direitos Fundamentais do Cidadão localizavam-se após toda a organização administrativa do Estado. havendo uma centralização de poder nas mãos dos militares. 1º a 97) Nota-se. uma profunda mudança em relação à estrutura da constituição anterior. Observe como era a CF/1967: . Sua estrutura era baseada na organização do Estado e de suas instituições. Somente com a CF/88.Direitos Fundamentais do Cidadão Por sua vez. inicialmente. 170 a 192) Título VIII – Da Ordem Social (arts. 233 a 250) Ato das Disposições Constitucionais NORMAS Transitórias – ADCT TRANSITÓRIAS (arts.Tributação e do Orçamento (arts. 145 a 169) Título VII – Da Ordem Econômica e Financeira (arts. Essa carta constitucional. tinha a característica de ser autoritária. 193 a 232) Título IX – Das Disposições Constitucionais Gerais (arts. significando que são mais importantes que esta. os direitos fundamentais foram antepostos à Organização do Estado. . que vigorou durante o período militar.

1º a 144) Título II – Da Declaração de Direitos (arts. 181 a 217) NORMAS TRANSITÓRIAS . da Educação e da Cultura (arts.Preâmbulo INTRODUÇÃO Título I – Da Organização Nacional (arts. 175 a 180) Título V – Das Disposições Gerais e Transitórias (arts. 145 a 159) Título III – Da Ordem Econômica e Social (arts. 160 a 174) CORPO OU PARTE CENTRAL Título IV – Da Família.

1º. Em segundo lugar. o homem. Para esse pensador. podemos afirmar que o constituinte brasileiro de 1988 adotou o pensamento jusnaturalista de Jean-Jacques Rousseau. ao instituir um Estado Democrático de Direito. os direitos fundamentais tinham que vir em primeiro plano. desde quando vivia isoladamente. estabeleceu . centrado na dignidade da pessoa humana. como afirma o art. inciso III. possuía direitos inseparáveis de sua condição humana.E por que o legislador de 1988 fez essa opção? Primeiramente porque. Por um instinto de se juntar a outros homens.

Por essa razão. na ordem interna e internacional. Vejamos o que diz o preâmbulo da CF/88: PREÂMBULO Nós. Ambas apresentam um texto introdutório.com eles um contrato hipotético. a CF/88 posicionou os direitos fundamentais antes dos elementos que o organizam. já que ele não integra o corpo normativo da Lei Fundamental? Muito se discute se esse texto introdutório teria eficácia jurídica ou seria apenas um texto para inspirar a norma que se inaugura. reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático. Qual a sua função. representantes do povo brasileiro. . a liberdade. o desenvolvimento. a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna. destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais.Preâmbulo Mas há um item singular e comum entre as duas constituições (de 1967 e de 1988). é função deste proteger tais direitos e não o contrário. pluralista e sem preconceitos. uma vez que os direitos do indivíduo já existiam antes do Estado. . Assim. com a solução pacífica das controvérsias. chamado de preâmbulo. fundada na harmonia social e comprometida. sob a proteção de Deus. a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. promulgamos. o bem-estar. a segurança. originando o Estado.

portanto. logo de início. que pretendia abolir os privilégios do clero e da nobreza. Na Constituição de 1967. é a antessala das normas constitucionais propriamente ditas.” . .Constituição promulgada A Constituição Cidadã de 1988. ainda. decreta e promulga a seguinte CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. “O preâmbulo é um elemento natural de Constituições feitas em momento de ruptura histórica ou de grande transformação político-social. o preâmbulo era bem curto e se limitava a dizer: “O Congresso Nacional. que ela não é fruto da vontade de um governante ou de um grupo detentor do poder.Embora não seja norma jurídica capaz de disciplinar direitos e deveres.” Jorge Miranda O preâmbulo. contendo a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. elaborada durante a Revolução Francesa. mas aprovada por ela. Dizer que uma constituição foi promulgada significa. por exemplo. quis deixar claro. mais um detalhe contido ao final de seu texto que deve ser observado: a palavra “promulgamos”. Há. ao romper com o paradigma militar. o preâmbulo possui a importante tarefa de demonstrar a posição ideológica de um Estado. situando-se na área da política. em regra. invocando a proteção de Deus. que houve participação popular em sua elaboração. Também a Constituição Francesa de 1791. tinha um preâmbulo extenso. por meio de representantes eleitos para comporem uma Assembleia Nacional Constituinte. todos os motivos que nortearam a configuração desse novo Estado. característicos do Regime Absolutista (“Antigo Regime”). Ela não foi imposta à sociedade.

e normas formalmente constitucionais. elas compõem um corpo normativo que não é homogêneo. Há as que regulam a ordem econômica e financeira e as que disciplinam a defesa do Estado e das Instituições Democráticas. não tratam de temas essencialmente constitucionais. 1946 e 1988). As demais foram de fato promulgadas (1891. não importando seu conteúdo. por exemplo. A Constituição de 1988 é formal. estão as normas constitucionais. tornando inútil essa fragmentação. a imagem democrática da Constituição é traduzida pela intensa participação popular. nestas. . os fins e objetivos que elas perseguem. pois elege como norma constitucional tudo aquilo que compõe seu texto e que é submetido a uma determinada forma de elaboração. diz-se que há normas materialmente constitucionais. que. Umas tratam dos princípios fundamentais. pois o conteúdo das constituições vem. a getulista de 1937 e a militar de 1967. Por essa razão. outras dos direitos e deveres dos cidadãos. Veja que. naturalmente. não podemos deixar de alertar o estudante para o fato de que essa divisão entre norma constitucional material e norma constitucional formal é discutível. apesar de estarem inseridas no texto da Constituição. sendo ampliado. Após o preâmbulo. As constituições têm adotado como fundamental não somente a estrutura do Estado e os direitos fundamentais.Outorgada x Promulgada Na nossa história. No entanto. quando abordam temas ligados à estruturação do Estado e aos direitos fundamentais.. mas também. Como se vê. enquanto naquelas a figura do constituinte se resume a uma pessoa ou a um pequeno grupo de pessoas. 1934. três constituições foram impostas ou outorgadas: a imperial de 1824. apesar de nesta última conter a palavra “promulgamos”.

- Conclusão da unidade 1

Nesse sentido, vivenciamos
um
momento de “expansão
constitucional”, isto é, cada vez mais há assuntos sendo inseridos no
texto constitucional como elemento essencial. A CF/88 é,
genuinamente, uma Carta extensa, por não se limitar a regular a
estrutura do Estado e os direitos fundamentais, ao contrário de
constituições sintéticas ou resumidas, como a dos EUA, que se
restringem àqueles assuntos.
Para finalizar esta unidade, cabe uma palavra sobre o ADCT. Embora
seja denominado de “Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias”, ele tem o mesmo valor de norma constitucional e se
destina a regular as situações que ficam transitando entre a ordem
jurídica passada e a atual. Isso denota o cuidado do constituinte com
os fatos já consolidados, sendo mais um fator de legitimação da
Constituição perante a sociedade.

Unidade 2 – Poder Constituinte: a elaboração da
Constituição, sua transformação e a relação com a
ordem jurídica anterior

A unidade 2 do segundo Módulo
pretende ensinar ao aluno a ideia
básica de Poder Constituinte. Dessa
forma, traz o conceito, a
fundamentação e os exemplos de Poder
Constituinte Originário e seus derivados
(Reformador, Decorrente e Revisor). Ao
final, estuda os fenômenos que podem
ocorrer entre a ordem jurídica atual e a
ordem jurídica anterior.

- Questões
Na unidade passada, vimos como a Constituição é estruturada.
Agora, precisamos saber quem é o responsável pela sua elaboração.
Tentaremos responder algumas perguntas, que inevitavelmente
aparecerão. Por exemplo:

“Como o texto constitucional se
mantém atualizado e a quem é
atribuído o dever de atualização?”
“É possível modificar o sentido de
uma norma constitucional, sem
mudar seu texto?”
“Os estados federados possuem
Constituição? Quem a elabora?”
“Como ficam as situações que eram
regidas pelo ordenamento jurídico
anterior?”

Esses e outros questionamentos serão abordados no decorrer desta
unidade, que se inicia esclarecendo o que é o Poder Constituinte.

- Poder Constituinte

O Poder Constituinte é a força de se constituir algo. Quando nos
referimos a ele na área do Direito, estamos falando do poder de se
formular ou atualizar uma Constituição, que é o documento que cria
e organiza o Estado. Este, por sua vez, é uma pessoa política
“abstrata” formada pelo povo de um determinado território, que
decide se unir de forma organizada para atingir um determinado fim
ou bem comum.
Assim, concluímos, primeiramente, que quem tem o poder de

constituir um Estado é o povo. E ele é quem tem a titularidade do
poder de elaborar a Constituição que regerá o Estado por ele
formado.
Mas nem todos os cidadãos exercem essa titularidade. Quem
elabora, realmente, a Constituição é uma Assembleia Nacional
Constituinte, eleita pelo povo com o fim único de escrever o texto.
São os primeiros representantes do povo. Nos regimes autoritários,
no entanto, o próprio governante ou os detentores do poder
escrevem a Carta Constitucional e a outorgam à sociedade, não
havendo um colegiado eleito para tanto.
Quando nos referimos ao Poder Constituinte que elabora a
Constituição estamos falando do Poder Constituinte Originário, pois
ele dá origem a um novo Estado, criando uma nova ordem jurídica.

- Poder Constituinte Originário
Seja nos momentos em que o texto constitucional vigente não mais
condiz com as realidades sociais, seja nas horas em que a sociedade
clama por mudanças mais profundas, o Poder Constituinte Originário
rompe com a ordem anterior e inaugura uma nova.

O Poder Constituinte Originário
possui algumas peculiaridades:
a) é inicial e autônomo, na medida
em que a nova constituição será
estruturada livremente, de acordo
com os anseios de quem exerce
este poder;
b) é ilimitado juridicamente, pois
não precisa respeitar os limites
traçados pelo direito anterior;
c) é um poder de fato e um poder
político, ao se identificar como
verdadeira força social, na qual a
ordem jurídica passa a existir a
partir de sua manifestação.
Apesar de o Poder Constituinte Originário ser autônomo, a corrente
jusnaturalista defende que há alguns direitos naturais que são
indissociáveis do homem e, mesmo o “onipotente” Poder

pois somente assim se materializa o legítimo exercício do Poder Constituinte Originário. é preciso que os representantes escolhidos pelo povo para elaborar a nova Carta Constitucional se façam identificar com os desejos dos representados. sugerimos a leitura do artigo do Professor Perissinotto (2010). o Poder Constituinte Originário sai de cena e entram os outros poderes instituídos por ele. tenha interesse em se aprofundar na compreensão do contexto social vigente à época da criação do texto constitucional de 1988. Na verdade. Existem três poderes constituintes que são derivados do originário: Poder Constituinte derivado Poder Constituinte derivado reformador.” Gilmar Ferreira Mendes Caso você. . . não exerce poder constituinte originário. mas age como rebelde criminoso.Constituinte Originário. que estarão presentes durante o período em que vigorar o novo texto. recorrente.Poderes Constituintes derivados Elaborada a Constituição. em 'Textos complementares'. e Poder Constituinte derivado revisor. “Quem tenta romper a ordem constitucional para instaurar outra e não obtém a adesão dos cidadãos. disponível na Biblioteca deste curso. não poderia suprimi-los. estudante.

determinado pelo originário. aperfeiçoando a regulamentação de determinada matéria. A Constituição coloca alguns limites para seu exercício. 60. por meio de um procedimento específico. as chamadas cláusulas pétreas. pelo menos. 60 em sua íntegra: .Artigo 60 Para contextualizarmos.A seguir. 60 da CF/88. passaremos ao estudo de cada um deles. . O cotidiano da sociedade faz com que ela reveja alguns pontos da Constituição e deseje alterá-los. que possuem. reguladas no art. assim como iniciativa de. a característica de estarem limitados e condicionados aos parâmetros colocados pelo Poder Constituinte Originário. que estão no § 4º do art. sem que seja necessário abandonar o texto vigente e convocar uma nova Assembleia Nacional Constituinte. Outra limitação expressa refere-se às matérias que não podem ser objeto de modificação. como a necessidade de quórum qualificado de 3/5 e votação em dois turnos.Poder Reformador O Poder Constituinte Derivado de Reforma ou Reformador é aquele responsável por modificar a Constituição. leia o art. em comum. um terço dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal. . em cada Casa do Congresso. Há limitações expressas. O Poder reformador ocorre por meio das Emendas Constitucionais.

de mais da metade das Assembleias Legislativas das unidades da Federação. cada uma delas.do Presidente da República. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta: I . considerando-se aprovada se obtiver. II . no mínimo. § 1º A Constituição não poderá ser emendada na vigência de intervenção federal. III . de estado de defesa ou de estado de sítio. três quintos dos votos dos respectivos membros.Art. III . IV . 60. § 3º A emenda à Constituição será promulgada pelas Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. . II . § 2º A proposta será discutida e votada em cada Casa do Congresso Nacional. pela maioria relativa de seus membros.de um terço.a forma federativa de Estado. § 5º . com o respectivo número de ordem. universal e periódico.a separação dos Poderes.os direitos e garantias individuais. em ambos. dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal.A matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa. secreto.o voto direto. § 4º Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I . manifestando-se. em dois turnos.

Reflexão Por essa razão. como a impossibilidade de se violar as limitações expressas ou alterar o titular do poder constituinte. demonstrando. em que não há um processo legislativo mais rígido para alterar o texto constitucional. Um exemplo típico de Constituição flexível é a da Inglaterra. servindo de fundamento para as demais leis. o Poder Constituinte Originário enumerou algumas condições para que a Constituição fosse modificada. limitações implícitas. dizemos que nossa Constituição.. mas esclarece um ponto interessante para nós. quanto ao critério da estabilidade. é o mesmo trabalho para se alterar a constituição ou as normas infraconstitucionais. Dessa maneira. No lado oposto. Como se vê. estão as constituições flexíveis. Uma questão que se apresenta neste momento é a seguinte: o procedimento para se alterar as normas da constituição é o mesmo para se alterar as normas de uma lei infraconstitucional? A resposta é simples. Para finalizar o estudo do Poder Reformador. é classificada como rígida. pois estabelece um maior grau de dificuldade para mudar as normas constitucionais. Some-se a isso o fato de a Constituição estar no ápice do ordenamento jurídico. a preocupação com a manutenção dos valores democráticos. Nesse caso. também. O constituinte estabeleceu um procedimento mais complexo e difícil para alterar as normas constitucionais porque pretendeu que a Constituição fosse mais estável que as outras normas. não há hierarquia entre normas constitucionais e normas “legais” (infraconstitucionais). na ocasião em que foi desenvolvida. . cabe refletir sobre uma instigante questão: é possível reduzir a maioridade penal de 18 anos . não podendo ser modificada facilmente.Modificar normas constitucionais Há.

o aluno será capaz de: Apresentar e exemplificar os aspectos gerais da Teoria dos Direitos e Garantias Fundamentais.Direitos Fundamentais . Identificar os direitos e garantias do nosso ordenamento e a forma com que se pode exercitá-los e protegê-los. Unidade 1 – Aspectos gerais dos Direitos e Garantias Fundamentais Nesta unidade.Ir para o conteúdo principal Imprimir todo o módulo Direito e Garantias Fundamentais MÓDULO III – DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS MÓDULO III – Direitos e Garantias Fundamentais Ao final do módulo. Noções como localização. diferenciação dos direitos e garantias e suas características são estudados neste primeiro momento. será apresentada a Teoria Geral dos Direitos e Garantias Fundamentais. . dimensões.

bem como suas características e sua abrangência. que é composto por 78 incisos e quatro parágrafos. estudaremos os Direitos e as Garantias Fundamentais. concentraremos nossa atenção nos direitos e garantias individuais. oferecendo ao aluno alguns exemplos para compreender melhor este tópico. 5º da nossa atual Constituição. veremos que. no Título II. mas é que os direitos de nacionalidade. que também possuem matriz constitucional. ao passo que os direitos políticos.Neste Módulo. pertencem originalmente ao Direito Constitucional. Primeiramente.Direitos e garantias individuais Dessa forma. Nas unidades seguintes. comecemos nosso estudo indagando: onde se encontram disciplinados os direitos e garantias fundamentais na Constituição de 1988? Se formos procurar. encontraremos as subáreas em que o constituinte dividiu os direitos fundamentais. abordando a localização dele na Constituição de 1988. são tratados com mais profundidade na cadeira do Direito Internacional Público. a diferença entre direito e garantia fundamental. pois. como já vimos. . Nesse passo. apresentaremos um esboço geral do que vem a ser o assunto. por exemplo. quais sejam: Apesar da importância de todos os tópicos citados acima. Obviamente. as suas dimensões. há a previsão: “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”. Seguindo esse Título. os direitos e as garantias individuais são aqueles declarados no art. assim com os partidos políticos. Sua importância é tamanha que não é possível haver Emenda Constitucional que vise abolir algum direito ou garantia individual. Eles compõem o grupo das “cláusulas . analisaremos alguns direitos e garantias fundamentais de forma mais detalhada. no âmbito do Direito Eleitoral. não se excluem do âmbito desta disciplina os demais direitos.

por exemplo. universal e periódico e a separação dos Poderes. ele é inafiançável). conforme previsto no art. o dispositivo traz como cláusulas pétreas. 5º são considerados “cláusula pétrea”? Ou seja. Não transcrevemos o dispositivo completo aqui para não ficar entediada a leitura. ou seja. Dessa maneira. o voto direto. b. Aliás. Veja: “os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. ela é extremamente importante e remetemos o aluno para o link a seguir em que há o texto compilado e atualizado da CF/88. secreto. nos termos do art. Além dos direitos e garantias individuais. tornar imprescritível o crime de estupro (hoje. a cúpula do Judiciário demonstrou que pode haver direitos e garantias individuais espalhados pela Constituição que merecem a guarida do art. decidiu que é cláusula pétrea a garantia constitucional que veda a cobrança de tributos no mesmo exercício financeiro em que é instituído pelo Estado. é possível haver emenda constitucional sobre eles.1ª dimensão dos direitos fundamentais Outro ponto importante para analisarmos é o fato de os direitos fundamentais não terem aparecido todos de uma vez no ordenamento jurídico pátrio. matérias não sujeitas a Emenda Constitucional. § 4º. § 4º. Clique aqui Mas cabe questionar uma coisa: somente os direitos enumerados no art. isso se aplica a toda a . 60. 150. Todavia. a forma federativa de Estado. III. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. 5º.pétreas”. essa orientação converge para o que dispõe o § 2º do art. Em verdade. 60. julgando a Ação Direta de Inconstitucionalidade 939-7/DF. desde que a modificação seja para ampliar um determinado direito. há no texto constitucional mais algum direito individual que merece essa proteção? O STF.” . Porém.

pois se destina ao indivíduo e são oponíveis ao Estado. Sua peculiaridade. Fala-se. culturais e econômicos. Alguns autores criticam essa classificação dos direitos fundamentais em dimensões (ou gerações). os direitos de primeira dimensão são exemplificados pelas liberdades públicas perante o Estado e pelos direitos civis e políticos (direito de votar e ser votado. Apesar de os variados tipos de direitos fundamentais terem aparecido em épocas diferentes. clique aqui.2ª dimensão dos direitos fundamentais A 2ª dimensão dos direitos fundamentais diz respeito aos direitos sociais. Presentes nas primeiras constituições escritas do século XVIII e frutos. é a subjetividade. Para mais detalhes. assim. portanto. sem privilégios). os direitos fundamentais de 1ª dimensão são aqueles que representam o transcurso do Estado Absolutista para o Estado de Direito ou Estado da Legalidade. . intimamente ligados à ideia de . sobretudo.comunidade internacional. em dimensões dos direitos fundamentais. eles coexistem no tempo. das Revoluções Liberais Burguesas da Inglaterra e da França e da Revolução Americana de 1776 (os direitos fundamentais de primeira dimensão também têm referência desde a Carta Magna de 1215). pois cada direito apareceu devido a uma necessidade específica da sociedade. Assim. em que todos são iguais perante a lei e assegura-se a liberdade para todos os indivíduos.

também. dessa maneira. o conceito de “ações afirmativas”. a fim de torná-la mais razoável. mas. Surge. na França. é a adoção do sistema de cotas para entrar em Universidades Públicas. o Estado de Direito. Além das preocupações com os direitos da coletividade. mas não se pode ignorar que ele tenta. Não bastava dizer que todos eram iguais perante a lei. e as Constituições tiveram que abraçá-lo. Um bom exemplo. pela sua intervenção na economia. na Inglaterra. no mínimo. . dando oportunidades a quem se encontrava marginalizado da sociedade. Superou-se. principalmente em virtude da formação de uma sociedade de massa que clama por melhoria na prestação de serviços e na oferta de produtos. Muitas críticas são feitas a esse sistema de cotas. Nessa perspectiva. bem como em razão de profundas mudanças ocorridas na sociedade moderna. Essa igualdade formal devia dar lugar a uma igualdade material. várias constituições ao redor do mundo passaram a contemplar os direitos sociais e deram início ao Estado Social de Direito. Os direitos do consumidor também se inserem nesse contexto. em especial o cartista. no decorrer do século XX. a exemplo da Constituição do México de 1917 e da Constituição de Weimar (Alemanha) de 1919. No início do século XX. passamos a observar o nascimento de uma 3ª dimensão de direitos fundamentais.coletividade. portanto. no Brasil. e a Comuna de Paris. que obriga o Estado a intervir em determinada situação desequilibrada. contornar uma situação de injustiça social. Esse novo paradigma é caracterizado não somente pela nova postura do Estado em relação à sociedade. . o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado foi colocado em pauta. Tem sua raiz nos movimentos sociais originados após a Revolução Industrial do século XIX. tivemos que refletir sobre o futuro de nosso planeta e as ações necessárias para preservá-lo. que tratasse os iguais de forma igual e os desiguais de forma desigual.3ª dimensão dos direitos fundamentais Com o avanço da tecnologia e da ciência. com o fim da Primeira Guerra Mundial.

a propriedade deve cumprir sua função social.4ª e 5ª dimensões dos direitos fundamentais Alguns autores defendem. que precisa enxergar objetivos comuns da espécie. ainda. . que ganha uma nova interpretação. ou seja. A 4ª dimensão decorreria da globalização dos direitos fundamentais.Outro exemplo seria o direito de propriedade. a existência de mais duas dimensões. Vê-se que a terceira dimensão de direitos aponta para a convivência mais solidária da sociedade. sendo irrigado pela ideia de “funcionalismo”. senão correrá o risco de ser desapropriada. ao passo que a 5ª dimensão englobaria o direito à paz. haja vista que uns tratam da liberdade do indivíduo. outros de seus . que sustenta haver 5 dimensões de direitos fundamentais: ESQUEMA “CÍCLICO” DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS Se existe uma diferença entre os direitos fundamentais em si. Veja o que nos ensina Paulo Bonavides.

Direitos e garantias Tomando emprestada a lição de Rui Barbosa. Parafraseando Rui Barbosa. 5º. que por vezes pode ser aplicada a mais de um direito: DIREITO GARANTIA “É livre a locomoção no território nacional em tempo de paz. indaga-se qual a diferença entre direito e garantia fundamental. 5º. (art. podemos citar alguns direitos e a respectiva garantia. ainda. Para exemplificar. LXVIII) “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.direitos sociais e. podemos dizer que os direitos são atributos ou bens inseridos na constituição. (art. Isto é: eles são a mesma coisa? . nele entrar. XV) “Conceder-se-á habeas-corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção. por ilegalidade ou abuso de poder”. 5º. os direitos são disposições declaratórias. famoso intelectual brasileiro. LIV) “Todos têm direito a “Conceder-se-á . podendo qualquer pessoa. ao passo que as garantias são mecanismos que asseguram tais direitos. (garantia do devido processo legal. (art. tantos outros sobre princípios de solidariedade. LVII) “Ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”. 5º. permanecer ou dele sair com seus bens”. e as garantias são disposições assecuratórias. art. nos termos da lei.

)” (art.. constantes de registros ou bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público. para julgar-se qual deve prevalecer. a) . 5º. sob pena de responsabilidade. LXXII. cabe discriminar quais são as principais características dos direitos e das garantias fundamentais. . apoiando-se na ponderação de princípios e normas. ou de interesse coletivo ou geral. Ainda. a primeira marca dos direitos fundamentais é a sua historicidade. Uma vez que se destinam a todos os seres humanos.receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular. mas apenas existencial ou imaterial) e imprescritíveis (podem ser exercidos a qualquer tempo). Por essa razão. XXXIII) habeas-data: a) para assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa do impetrante. dizemos que eles são irrenunciáveis (mesmo que não se exerça um direito fundamental). (. para resolver uma possível colisão de direitos fundamentais. que serão prestadas no prazo da lei. (art. ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”. 5º.Características Feita essa diferenciação. Com efeito. 5º. eles estão arraigados na história do ser humano. indistintamente. nascendo e se transformando com o tempo. Já foi dito na Unidade 1 do Módulo I que o neoconstitucionalismo ficou marcado pela mudança na técnica da interpretação constitucional. falamos que os direitos fundamentais são também dotados de universalidade. Dessa maneira. inalienáveis (não possuem valor econômico. além de terem aplicação imediata (conforme art. diz-se que os direitos fundamentais são relativos e devem ser analisados caso a caso. Isso não quer dizer que eles sejam absolutos. § 1º)..

É preciso sublinhar que há instrumentos passíveis de utilização apenas por cidadãos brasileiros. 5º é mais ampla do que prevê seu texto. pois muitas vezes o direito de um indivíduo está condicionado ao cumprimento do dever de outro. Alguns exemplos: o Estado precisa atuar de maneira diligente para que as pessoas possam usufruir o direito fundamental à saúde. um turista a passeio pelo Brasil não poderia impetrar um habeas corpus. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. Assim. Também os deveres fundamentais cumprem um papel essencial na efetivação de um Estado Democrático. e os estrangeiros que residem no país. tanto natos quanto naturalizados. ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural. Pela expressão literal da norma. Além dos estrangeiros que não residem no país (por exemplo. o STF vem entendendo que a abrangência do art. salvo comprovada má-fé. não apenas os direitos devem ser colocados em evidência. Todavia. à liberdade. 5º.Conclusão da unidade 1 Mas quem faz jus aos direitos e às enumerados na Constituição de 1988? garantias fundamentais O caput (“cabeça”) do art. podem invocar a proteção de um direito fundamental. estrangeiros não residentes podem impetrar habeas corpus: HC 63142/RJ). à moralidade administrativa. nossa Corte Suprema indica que também as pessoas jurídicas e apátridas (aqueles que não possuem nacionalidade de qualquer país) podem fazer uso de alguns instrumentos fundamentais. na sociedade atual. caso ele fosse preso injustamente. à igualdade. nos termos seguintes:”. como é o caso da Ação Popular (art. ficando o autor. à segurança e à propriedade. cumpre lembrar que. 5º nos fala que: “Todos são iguais perante a lei. o indivíduo do sexo masculino tem o dever de se apresentar ao serviço . Finalizando esta introdução aos direitos e garantias fundamentais. LXXIII: “qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe. parece que somente os brasileiros. sem distinção de qualquer natureza. isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência”).

Unidade 2 – Exemplos de direitos e garantias individuais no cotidiano – Parte 1 Nesta unidade (e na seguinte) serão enumerados os principais exemplos de direitos e garantias fundamentais. sem distinção de qualquer natureza. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. Para efeitos didáticos. à liberdade.Direitos básicos Nesta parte. os proprietários devem exercer o direito de propriedade de maneira que ela cumpra sua função social. 5º da Constituição Federal: “Art. à segurança e à propriedade.militar obrigatório (art. 5º Todos são iguais perante a lei. daremos alguns exemplos de direitos e garantias individuais que estão presentes em nosso diploma constitucional. a norma que diz respeito a um determinado direito ou garantia será transcrita e serão feitos alguns comentários. observe o que dispõe o art. . oferecendo exemplos do nosso cotidiano. nos termos seguintes:” . Dessa maneira. à igualdade. Isso fará com que o aluno consiga vislumbrar como a teoria aprendida na Unidade 1 acontece na prática. 143).

XLVII. que se eleva em importância perante os demais simplesmente porque. Nessa perspectiva.Neste dispositivo. 2) direito à vida. não ser morto.Direito à vida Direito à vida O direito à vida é um direito de primeira dimensão e pode ser entendido sob dois aspectos: o direito de permanecer com vida. observamos que nosso ordenamento jurídico vedou a instituição da pena de morte. destacamos os direitos básicos colocados pelo constituinte: 1) igualdade perante a lei. Eles funcionam. nos termos do art. e o direito de ter uma vida digna. Quando lemos o art. ou pelo legislador infraconstitucional. 5º por inteiro. isto é. vamos ver o que significa o direito à vida. no momento de elaborar uma lei. 4) direito à segurança. e 5) direito à propriedade. . 5º. como “cláusulas gerais” ou “conceitos abertos”. No primeiro caso. a serem preenchidos pelo intérprete no caso concreto. assim. sem vida. 3) direito à liberdade. percebemos que muito das garantias e dos direitos colocados nos incisos são desdobramentos dos direitos acima destacados. não há que se falar em direito individual a ser protegido. veja: .

nos termos do art. impedindo tal conduta. pois.)” Como se sabe. já que esta assegura o direito à vida. Clique aqui e veja a notícia veiculada no G1. da Lei 9. que prevê a possibilidade do transplante. por 8 a 2. a vida começa com a existência de cérebro e. a pena de morte não poderá ser inserida no futuro ordenamento. . em sua maior abrangência. 5º.. por isso. 84. essa orientação condiz com a legislação nacional sobre transplantes de órgãos. XIX. mesmo havendo a ruptura da ordem constitucional.não haverá penas: a) de morte. Além disso.. segundo eles. (. 3º. salvo em caso de guerra declarada. O STF. Mas se não há pena de morte.434/1997). Isso porque o pensamento jurídico moderno entende que haveria um retrocesso social muito grande. e o Código Penal não aborda a matéria. por meio de um Poder Constituinte Originário que revogue a nossa atual constituição. como lidar com a situação do aborto de fetos que não possuem cérebro? Esse tema foi tratado na ADPF nº 54.Questões sobre o direito à vida .“Art. desde que haja morte encefálica (art. sobre essa decisão do STF. decidiu que não é crime o aborto de fetos sem cérebro. Essa ação tem por objeto discutir se o aborto de fetos anencéfalos é compatível com nossa ordem constitucional. não justificaria manter uma gravidez de risco para dar à luz um bebê que terá alguns minutos de sobrevida. salvo se estivermos em guerra. Saliente-se que. essa garantia é cláusula pétrea e nem por Emenda Constitucional é possível condenar alguém à pena de morte. XLVII .

Na verdade. 5º da Lei 11. [..105/2005. o STF julgou importante caso.Um bebê anencéfalo é geralmente cego. inconsciente e incapaz de sentir dor. ministro do STF Se o aborto do anencéfalo é possível – claro. Ponderando entre a proteção à vida e a liberação da pesquisa científica. sobre a pesquisa com células-tronco a partir de embriões congelados. Apesar de que alguns indivíduos com anencefalia possam viver por minutos. surdo. ao permitir que novos estudos sejam realizados para a melhoria da qualidade de vida de pessoas portadoras de doenças como o Mal de Parkinson. seria autorizada a eutanásia (do grego eu: boa + tanatos: morte)? Apesar de ainda não haver nenhuma decisão no sentido de autorizar o desligamento dos aparelhos de pacientes nessa situação. no ano de 2008. da forma como dispõe o art. não ofende o direito à vida. como fica a situação dos pacientes em estágio terminal ou vegetativo? Nesses casos.] Impedir a interrupção da gravidez sob ameaça penal equivale à tortura. com a conivência da gestante –. o Tribunal decidiu que a pesquisa com células-tronco obtidas em embriões congelados. a falta de um cérebro descarta completamente qualquer possibilidade de haver consciência. ele o protege ainda mais. Clique aqui e veja como votaram os Ministros . Vamos aguardar novas decisões sobre o tema.” Luiz Fux. cresce a corrente que defende o uso da eutanásia como meio para interromper o sofrimento tanto da família quanto da pessoa em estado vegetativo.. Ainda no que se refere ao direito à vida como forma de permanecer vivo.

depois de completarem 3 (três) anos. 5º É permitida. § 1º Em qualquer caso. é necessário o consentimento dos genitores. ou II – sejam embriões congelados há 3 (três) anos ou mais. .do STF. § 3º É vedada a comercialização do material biológico a que se refere este artigo e sua prática implica o crime tipificado no art. na data da publicação desta Lei. .Lei de Biossegurança Observe o dispositivo da Lei de Biossegurança. contados a partir da data de congelamento. já congelados na data da publicação desta Lei. a utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e não utilizados no respectivo procedimento. 15 da Lei nº 9. que sustentava estarem indivíduos em potencial sendo descartados em prol de pesquisas ainda incertas: Art. além de estabelecer outra série de condicionantes. para fins de pesquisa e terapia. Isso fulmina o argumento contrário. § 2º Instituições de pesquisa e serviços de saúde que realizem pesquisa ou terapia com células-tronco embrionárias humanas deverão submeter seus projetos à apreciação e aprovação dos respectivos comitês de ética em pesquisa.434. Ele restringe a pesquisa somente aos embriões considerados inviáveis. ou que. atendidas as seguintes condições: I – sejam embriões inviáveis. de 4 de fevereiro de 1997.

Paralelamente. idade e quaisquer outras formas de discriminação”. de banimento e penas cruéis (art. . justa e solidária”. III) e princípio-matriz dos direitos fundamentais. rompendo profundamente com a ordem histórica anterior. que perdoou os policiais e os militares acusados de praticar crimes de tortura durante o regime militar.Direito de ter uma vida digna Outro ponto interessante sobre o tema do digna diz respeito ao uso de algemas pelos dignidade da pessoa humana? Novamente. 1º. de trabalhos forçados. a dignidade da pessoa humana. “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”. III). a Constituição vedou. 3º. Federal entendeu que o uso de algemas. estabeleceu.683/1979). Recentemente. XLVII). “construir uma sociedade livre. cor. proibiu a tortura e o tratamento desumano ou degradante (art. 5º. o Supremo decidiu não ser objeto de revisão constitucional a Lei da Anistia (Lei 6. Ele ofenderia a nosso Supremo Tribunal desde que se justifique .Dignidade da pessoa humana Para isso. . “promover o bem de todos. sem preconceitos de origem. secretamente. direito de ter uma vida policiais. a tortura para obter informações ou confissões.Em relação ao segundo desdobramento do direito à vida. 5º. que houvesse penas de caráter perpétuo. por exemplo. como objetivos da República. sexo. No mesmo sentido. no art. fundamento da República Federativa do Brasil (art. que utilizou. raça. A Corte defendeu que a norma foi uma decisão política assumida num determinado momento histórico e deve ser interpretada segundo os ditames de tal momento. assegura que todo indivíduo deve existir de forma digna.

sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado. por parte do preso ou de terceiros. Leia seu inteiro teor: SV nº 11: “Só é lícito o uso de algemas em caso de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia. que deve ser cumprida pela Administração Pública. a cúpula de nosso Judiciário editou. Nesse sentido. . em 2008. sob pena de responsabilidade disciplinar civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere.diante de uma situação excepcional. também de primeira dimensão e que compõe nosso segundo bloco de direitos fundamentais. a Súmula Vinculante nº 11.” Feitas essas considerações com relação à vida. passemos ao direito à liberdade.Direito à liberdade Direito à liberdade . justificada a excepcionalidade por escrito. não é arbitrário e não ofende a honra do algemado.

científica e de comunicação. IV e V) Os mencionados incisos dizem o seguinte sobre esse direito: “Art.. 5º. 5º. vedando que ele o faça de forma anônima. Examinemos algumas dessas liberdades. Um caso célebre de direito de resposta foi o do ex-governador do Rio de Janeiro. Leonel Brizola. artística. V – é assegurado o direito de resposta.. Assista ao vídeo da reportagem: . é genérica e abrange a liberdade em suas variadas formas. ressalva que. que obrigou a TV Globo. A expressão direito à liberdade. contida no comando do art. sendo vedado o anonimato.” A norma assegura o direito à liberdade de o indivíduo manifestar seu pensamento.) IV – é livre a manifestação do pensamento. desde que atendidas as qualificações necessárias estabelecidas em lei. a liberdade de manifestação do pensamento. a livre expressão da atividade intelectual. além de oferecida a oportunidade de resposta. se houver algum dano. além da indenização por dano material. este deverá ser reparado. e a liberdade de exercício de profissão. a liberdade de consciência e de crença religiosa. independentemente de censura. por exemplo. por meio do jornalista Cid Moreira.. moral ou à imagem. Liberdade de manifestação de pensamento (art. teremos. a se retratar em relação às matérias veiculadas sobre ele. No entanto. proporcional ao agravo. (. 5º. Assim. em seguida.

O direito à liberdade de consciência e crença religiosa está assim disciplinado: “Art.. 5º. fixada em lei. sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida.Liberdade de crença religiosa Liberdade de crença religiosa (art. 5º (. na forma da lei. VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. VI e VIII) ..) VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença.. salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa.” .

desde que este não sirva para o indivíduo se isentar de alguma obrigação legalmente imposta. pois a vida se mostra como o bem mais importante do ser humano e não se pode punir o médico que cumpriu com seus deveres éticos profissionais. mediante termo de Livre Consentimento Informado. Ao lado disso.Conforme vimos no estudo da história de nossas constituições. Observe: . não adotamos. conferimos o direito de liberdade religiosa. nenhuma crença religiosa. caso o paciente demonstre de forma inequívoca que prefere falecer a receber a transfusão. Ou seja. em caso de risco de morte? Exemplificando: se um indivíduo é Testemunha de Jeová e necessita de transfusão de sangue. uma crença religiosa pode impedir que certa pessoa seja salva por outra. o Brasil é um país laico. por exemplo. No entanto. Mesmo assim. Porém. como. Estado laico E se a crença religiosa for usada como fundamento para cura de doenças? O tema ainda é novo e não chegou a ser decidido pelos Tribunais Superiores. o médico deve realizar o procedimento de qualquer maneira ou respeitar a crença do paciente e deixá-lo morrer? O confronto entre o direito à vida e o direito à crença religiosa é decidido em favor daquele. oficialmente. mas ele não concorda por fundamento religioso. leigo ou não confessional. conforme determinação do Conselho Federal de Medicina (CFM). o serviço militar. isso deve ser feito por escrito. o Código Penal criminaliza a conduta do curandeirismo.

Mais alguns exemplos podem ser dados sobre a condição de estado laico do Brasil:  a matrícula no ensino religioso é facultativa nas escolas públicas.fazendo diagnósticos: Pena . 210. não se pode punir o indivíduo. qualquer substância. se a cura prometida advém de crença religiosa.prescrevendo. §2º). conforme o art. ministrando ou aplicando.Exercer o curandeirismo: I . 284 .  o casamento religioso tem efeitos civis (art. porém. Parágrafo único . pois. deve ser decidido no caso concreto. palavras ou qualquer outro meio. da CF. II . Isso. de seis meses a dois anos. § 1º. habitualmente. e  Em um assunto polemizado na mídia. dessa maneira.Se o crime é praticado mediante remuneração.” Todavia.detenção. os crucifixos nas repartições públicas foram considerados símbolos . estaria cerceando seu direito à liberdade religiosa.“Art.usando gestos. III . o agente fica também sujeito à multa. 226.

5º o constituinte assegura que “é livre o exercício de qualquer trabalho. Clique no link abaixo e veja a reportagem sobre este fato curioso http://www.culturais e não religiosos.br/2 009-fev-03/luiz-zveiter-tomaposse-tj-rio-manda-retirarcrucifixos-cort Liberdade de exercício de qualquer ofício. 5º. há muita divergência.com. sendo que algumas pessoas determinaram a retirada desses símbolos da repartição pública. sendo que no art. trabalho ou profissão Liberdade de exercício de qualquer ofício. XIII) Um dos fundamentos do nosso Estado é o dos “valores sociais do trabalho e da livre iniciativa” (art. como foi o caso do Presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. trabalho ou profissão. IV). 1º. nos limites da lei (art. Sobre esse último ponto. no entanto.conjur. .

qualquer um está habilitado a realizá-la. a liberdade de expressão intelectual voltou a ganhar prestígio. Liberdade de locomoção e liberdade de expressão Liberdade de locomoção e liberdade de expressão de atividade intelectual ou artística (art.ofício ou profissão. IX e XV) Com a instauração do Estado Democrático de Direito. com os jornalistas. O mesmo não se repete. somente as pessoas que cumprirem os requisitos legais estarão aptas para o trabalho. não sofrendo mais censura por parte do Governo. Em resposta a essa decisão. derrubou a exigência de diploma para que o indivíduo pudesse atuar na área. caso não haja nenhuma determinação legal para se exercer uma atividade. quem quiser atuar na área de jornalismo terá que possuir diploma de curso superior específico. após a Constituição Federal de 1988. Caso seja aprovada. 5º. Dessa forma. . atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”. no entanto. com os advogados. É o que acontece. se a lei assim o exigir. O STF. com habilitação em jornalismo. Ao contrário. foi proposta uma Emenda à Constituição (PEC 33/2009) “para estabelecer que o exercício da profissão de jornalista seja privativo do portador de diploma de curso superior de comunicação social. Não basta ser bacharel em Direito. expedido por curso reconhecido pelo Ministério da Educação”. em 2009. é preciso ser aprovado no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para exercer a advocacia. por exemplo.

o habeas corpus. II) O princípio da legalidade tem um significado para o particular e outro para o Estado. 5º. LXVIII – conceder-se-á ‘habeascorpus’ sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção. Princípio da Legalidade e conclusão da unidade 2 Princípio da Legalidade (art. independentemente de censura ou licença. ofício ou profissão. ou seja. artística. vamos abordar o princípio da legalidade.) IX – é livre a expressão da atividade intelectual. . a liberdade de locomoção ganhou importante instrumento de garantia que havia sido expurgado do ordenamento anterior. científica e de comunicação. XIII – é livre o exercício de qualquer trabalho.. desde que não haja uma proibição legal.De outro lado. desde os tempos da transição do Estado Absolutista para o Estado de Direito. atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer. Leia os dispositivos que tratam da matéria: “Art. que é uma garantia do cidadão em face do Estado.. significa que ele pode fazer tudo o que a lei não proíbe. Sob o ponto de vista do indivíduo.” Finalizando esta unidade. por ilegalidade ou abuso de poder. 5º (. tudo é permitido.

com a ressalva de que é possível a retroatividade da lei penal que melhore a situação do indivíduo.Já para o Estado. o princípio da irretroatividade da lei penal. Essa situação melhorou bastante a condição de réus presos. possibilitando a revisão da condenação. se não houver uma lei que a confirme. como é o caso da decretação de estado de sítio e do estado de defesa. a legalidade tem outro sentido. Todavia. o Estado só poderá fazer aquilo que a lei permitir. isto é. Existem apenas algumas exceções.343/2006). que não mais previu a pena de prisão para o usuário de drogas. Está estampado. o Poder Público não poderá condenar uma pessoa por uma lei posterior ao fato criminoso. ela poderá ser usada pelo réu para diminuir sua pena ou mesmo absolvê-lo (art. Por exemplo. salvo para beneficiar o réu”). em que o princípio da legalidade estatal sofre uma diminuição. nem pena sem prévia cominação legal”). Isso fará com que o aluno consiga vislumbrar como a teoria aprendida na Unidade 1 acontece na prática. com a nova Lei de Drogas (11. Unidade 3 – Exemplos de direitos e garantias individuais no cotidiano – Parte 2 Nesta unidade serão enumerados os principais exemplos de direitos e garantias fundamentais. o Estado não poderá punir alguém por um ato criminoso se não existir uma lei anterior que defina aquele ato como crime (art. Direito à igualdade . XXXIX: “não há crime sem lei anterior que o defina. 5º. Neste caso. Não há espaço para permissão. Comecemos pelo direito à igualdade. 5º: “a lei penal não retroagirá. agora. aqui. Um bom exemplo sobre isso veio em 2006. . Esse dispositivo contém o princípio da anterioridade da lei penal. outro bloco de direitos e garantias individuais. Da mesma forma. se a lei posterior for mais benéfica. vige a legalidade estrita.Direito à igualdade Analisaremos.

Nesse sentido.Igualdade material Onde podemos observar a execução da igualdade material nos dias atuais? Exemplos podem ser encontrados em nosso dia a dia. fazendo com que haja mudança de pensamento e superação de preconceitos. na medida de sua desigualdade”. como é o caso das cotas nas universidades públicas para negros. o Estado. Alguns pretendem corrigir uma distorção histórica. é tratar desigualmente aqueles que estão em situações diferentes. Em outras situações. de primeira dimensão.O direito à igualdade (ou princípio da igualdade) surge. a primeira mulher. É um direito. . portanto. O que é a igualdade material? Em resumo. É o Estado Social de Direito. por meio de ações afirmativas. a nomeação de Joaquim Barbosa e Ellen Gracie para Ministros do STF enche-se de sentido. ofertando oportunidades para quem nunca as teria. que traz a ideia de igualdade material. porque não leva em consideração inúmeros aspectos sociais que influem no “usufruto” dessa paridade. mais compromissado com as causas sociais. com a queda do Antigo Regime. . na sociedade moderna. e esta. Conforme estudamos em unidades passadas. E. por outro lado. cultural etc. Mas sabemos que a igualdade inaugurada pelo Estado de Direito do século XVIII é uma igualdade formal. é tratar de forma igual todos aqueles que estão no mesmo padrão econômico. a igualdade material é: “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais. os movimentos sociais do final do século XIX e do início do século XX dão início a um novo tipo de Estado. Pegando emprestada lição de Rui Barbosa. pois aquele foi o primeiro negro a integrar a cúpula do Judiciário. social. Esse princípio acaba com os privilégios da nobreza e do clero e coloca todos em pé de igualdade diante da lei. pretende atingir o imaginário da sociedade.

Isso se justifica. ora punindo uma situação discriminatória. por força da concepção. É o que acontece. XLII – “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível. então. A Constituição é rica em exemplos que traduzem a igualdade material. que é considerado crime inafiançável e imprescritível (art. com o racismo.Além desses casos. mesmo homens e mulheres sendo iguais em direitos e obrigações. Ou. sujeito à pena de reclusão. 5º. por exemplo. nos termos da lei”). A título de exemplos: . claramente. Convidamos o aluno a buscar mais alguns em seu texto. contra 5 dias da licençapaternidade. a própria Constituição se encarregou de promover o reequilíbrio. com a licençamaternidade. que é de 120 dias. ora assegurando direito mais amplo para determinada parte. estar numa situação totalmente diferente da do homem. pelo fato de a mulher.

5º.Direito à segurança O direito à segurança pode ser lido em vários incisos do art. ou. Direito Constitucional Esquematizado. 3º. art. por determinação judicial. Ver mais em LENZA. XLII. VIII. salvo em caso de flagrante delito ou desastre.” A regra. XXX. I. XXXIV. durante o dia. 5º (…) XI – a casa é asilo inviolável do indivíduo. de desastre ou para prestar socorro. Um dos principais deles é a inviolabilidade da casa do indivíduo. art. p. Nos demais casos. dentre outros. Veja o que diz a norma: “Art. ou para prestar socorro. XXXII. somente mediante ordem judicial e durante o dia.art. III E IV. é que ninguém pode entrar na casa de uma pessoa. XXXVII. 4º. art. XXXI. XLI. Primeira pergunta: o que se entende por “durante o dia”? . 5º. ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador. . Pedro. a entrada é autorizada. No entanto.875-6. XX. portanto. nos casos de flagrante delito. 7º.

podendo coincidir com o lapso temporal de 6 da manhã às 18 horas. Dentre outros lugares. 5º. a vida privada. escritório do advogado e consultório de profissionais liberais. o dia é o período que vai da aurora (nascer do sol) até o crepúsculo (pôr do sol). alcança quartos de hotel. a honra e a imagem das pessoas. 5º. E “casa”? É somente a residência da pessoa ou abrange mais algum lugar? Nosso Judiciário vem entendendo que o termo “casa” é mais amplo do que a ideia de residência. o sigilo de correspondências e comunicações telefônicas também é direito fundamental e se apresenta como mais uma face do direito à segurança. Veja: “Art. pois se destinam a todos os indivíduos. O direito à intimidade está no inciso X. (…) .Para o STF.Direito à intimidade Outros incisos tratam. Além do direito à intimidade. . (…) X – são invioláveis a intimidade. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. Leia o dispositivo: “Art.” Lembremos que uma das características dos direitos fundamentais é a universalidade. ainda que de forma indireta. do direito à segurança.

por exemplo. salvo. sobretudo no século XIX. dentre as quais o atendimento a sua função social. O direito à propriedade ganha importância com o surgimento da burguesia e se estabelece.XII – é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas. de uma vez por todas. nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal. quando é produtivo. com o surgimento do capitalismo. o direito de propriedade não é absoluto. mais solidário e objetivo. no ordenamento nacional. Existem outras limitações estampadas na Constituição.Direito à propriedade Direito à propriedade (art. o uso arbitrário desse direito cedeu espaço a outro. por ordem judicial. a chamada “função social” da propriedade. Nesse passo. no caso de imóveis rurais. Ele encontra algumas limitações em nosso sistema jurídico. possibilitando ao proprietário usar sua propriedade como bem lhe conviesse. Com as mudanças da sociedade. tal direito era visto de forma absoluta. 5º. em se tratando de iminente perigo público. foi incorporada aos ordenamentos jurídicos internacionais e. como a desapropriação e o uso para abrigar famílias. E ele atende a sua função social. ou é usado para moradia. Num primeiro momento.” . no último caso. Assim. XXII a XXVI) . especialmente. Atente-se para os incisos que cuidam da matéria: . de dados e das comunicações telefônicas. no caso de imóveis urbanos. Isto é: o direito de propriedade só é legitimamente exercido se atender a sua função social.

veda-se a autoincriminação. ou por interesse social. a autoridade competente poderá usar de propriedade particular. pois investigados também fazem jus a ele). que. 5º. mediante justa e prévia indenização em dinheiro. literalmente. assegurada ao proprietário indenização ulterior. desde que trabalhada pela família.Direito ao silêncio (art. se houver dano. (…) XXII – é garantido o direito de propriedade.“Art. significa: “ninguém é obrigado a se descobrir”. XXVI – a pequena propriedade rural. assim definida em lei. dispondo a lei sobre os meios de financiar o seu desenvolvimento. XXIV – a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública. XXV – no caso de iminente perigo público. XXIII – a propriedade atenderá a sua função social. 5º.” . e a CF/88 o estabeleceu da seguinte maneira: . Por ele. LXIII) A Constituição assegura o direito ao silêncio para o preso (em sentido amplo. ressalvados os casos previstos nesta Constituição. não será objeto de penhora para pagamento de débitos decorrentes de sua atividade produtiva. Esse direito decorre da máxima nemo tenetur se detegere.

Por ter o direito ao silêncio.“Art. alertamos o estudante para o fato de que nosso ordenamento penal é conhecido pela multiplicidade de recursos.) LXIII – o preso será informado de seus direitos. 5º. Por mais que o direito fundamental ao silêncio deva ser preservado. “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória” (art. um processo criminal pode não acabar nunca. Segundo este direito. quase que diariamente. é preciso efetivar outra garantia fundamental. Dessa maneira. Clique aqui Na mesma linha de garantia. 5º. até que não haja mais recurso da última decisão. entre os quais o de permanecer calado.. LVII). a Constituição adota o princípio da presunção de inocência ou da não culpabilidade. isto é. Também aqui. sendo-lhe assegurada a assistência da família e de advogado.. para evitar a impunidade. e. . Clique no link abaixo e veja a reportagem sobre Carlinhos Cachoeira e o uso exarcebado de seu direito ao seu silêncio. contribuindo pouco para as investigações. (. Temos presenciado. conforme inciso LXXVIII do art. para as pessoas que possuem bom advogado. o uso desse direito em Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs).. 5º. a da razoável duração dos processos. o investigado nada fala. é necessário ponderar se ele vem cumprindo sua função perante a sociedade.

cujo objetivo é assegurar a efetivação de um direito.Remédios constitucionais Encerrando nosso curso. um quadro esquemático para que o aluno consiga visualizar os remédios constitucionais positivados no art. por exemplo. Apresentamos. Na realidade. por ilegalidade ou abuso de poder Prisão por fato que não é considerado crime. 5º. a seguir. não poderíamos deixar de dar uma palavra sobre os denominados “remédios constitucionais”.Vídeo 1/2 Vídeo 2/2 . eles são espécies de garantias individuais. ingerir bebida alcoólica em público. 5º: Remédio Constitucion al Habeas corpus Mandado de segurança individual Fundamento Constitucional Exemplo de aplicação art. art. LXIX – conceder-se-á mandado de segurança para Todo candidato aprovado em concurso . LXVIII – conceder-se-á habeas-corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção. 5º. como já foi abordado neste curso.

cujos legitimados são os do inciso LXX) Mandado de injunção Habeas data proteger direito líquido e certo. no banco de dados de registros públicos. possibilitando o uso de Mandado de Segurança no caso de o Poder Público recusar-se a nomear. dentro do número de vagas. LXXII – conceder-se-á habeas-data: a) para assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa do Quando um indivíduo precisa saber o que consta. tem direito líquido e certo à nomeação. 5º. O STF decidiu. art. que se aplicam as regras do setor privado. quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público público. 5º. LXXI – conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentador a torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade.(o coletivo segue a mesma linha. O . em relação à sua pessoa. no Mandado de Injunção 20/DF. não amparado por habeascorpus ou habeas-data. à soberania e à cidadania Direito de greve dos servidores públicos: ainda não há lei regulamentand o a matéria. art.

b) para a retificação de dados. quando não se prefira fazê-lo por processo sigiloso. ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural. 5º. . é possível o cidadão ingressar com ação popular para discutir a questão.impetrante. LXXIII – qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe. Se o prefeito de uma cidade contrata empresa sem o devido processo licitatório. à moralidade administrativa. isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência simples desejo de obter informações é suficiente para a impetração do habeas data. ou então emprega parentes em seu gabinete. ficando o autor. judicial ou administrativo Ação popular art. constantes de registros ou bancos de dados de entidades governamentai s ou de caráter público. salvo comprovada má-fé.

na medida de sua desigualdade"(Rui Barbosa). ou seja. sem preconceitos de origem. erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais.Perpassando a problemática da efetivação dos 'Direitos Individuais' e 'Direitos Sociais' apontados na 'Constituição Cidadã'. do Professor Walfrido Vianna Vital da Silva. também chamada de "Constituição Cidadã". realizar a igualdade material de todos perante a lei torna-se o pressuposto jurídico em torno ao qual o atual Estado democrático de direito organiza-se. não esqueça de realizar a Avaliação Final do curso. O resultado não influenciará na sua nota final. idade e quaisquer outras formas de discriminação. raça. justa e solidária. "Tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais. sugerimos que você faça uma releitura do mesmo e resolva os Exercícios de Fixação. Exercícios de Fixação . Lembramos que é por meio dela que você pode receber a sua certificação de conclusão do curso. mas servirá como oportunidade de avaliar o seu domínio do conteúdo. garantir o desenvolvimento nacional. contemplados pelo artigo 5º da Carta Magna de 1988. e promover o bem de todos. Conclusão do Módulo III Vimos neste Módulo alguns exemplos de como os direitos e deveres fundamentais. Como parte do processo de aprendizagem. Lembramos ainda que a plataforma de ensino faz a correção imediata das suas respostas! Porém. objetivando construir uma sociedade livre. vêm sendo efetivados desde a sua promulgação. em 'Textos complementares'. . sexo.Módulo III Parabéns! Você chegou ao final do Módulo III de estudo do curso Introdução ao Direito Constitucional. cor. que encontra-se no Módulo de Conclusão. sugerimos o texto 'A Constituição de 1988 e a nova ordem social'. disponível na Biblioteca deste curso. bem como os chamados "remédios" ou garantias constitucionais".