Wole Soyinka

Os intérpretes

Tradução de:
Maria Helena Morbey

Título original:
The Interpreters

Primeira Parte
- Estes sons metálicos rebentam-me os tímpanos protestava
Sagoe, enquanto tapava os ouvidos com os dedos para se proteger do
ranger ensurdecedor das mesas de ferro.
Pouco depois, Dehinwa levantou-se subitamente e Sagoe quase
partiu o pescoço, ficando com a cabeça suspensa no espaço onde
estivera o colo dela. Os braços de Bandele eram de facto fantásticos.
A uma distância mínima, conse-guiam abarcar a mesa e as cadeiras,
empurrando-as contra a parede, à medida que os dançarinos fugiam
das enormes línguas dos camaleões, que surgiam com a chuva e o
vento e saltavam sobre eles, visivelmente ameaçadores. De um
momento para o outro, ficou apenas a orquestra.
Só passado algum tempo é que Egbo se apercebeu do que
estava a acontecer, olhou para o telhado que não parava de gotejar,
e despejou a cerveja para o chão, murmurando indignado:
- Não preciso da sua piedade. Não há ninguém que diga a Deus
que pare de chorar para a minha cerveja?
Sagoe continuava a friccionar o pescoço.
- És uma mulher terrível! Viste o que fizeste? Até podia ter
partido o pescoço!
- Tenho de ter cuidado com o meu cabelo!
- O cabelo! É mais importante o cabelo dela do que o meu
pescoço! Porque é que não usas peruca como todas as mulheres
elegantes?
- Detesto perucas.
- Se persistes em andar sempre com o teu cabelo, as pessoas
ainda vão pensar que és calva...
Separado apenas pela parede de bambu, com cerca de um metro
de altura, que dava ao clube uma certa intimidade visite os
reservados do nosso Clube Campana, etc., etc. -, Egbo observava o
charco cada vez maior, onde ainda boiava a espuma da sua cerveja.
Uma parte desta agarrara-se obstinadamente à parede de bambu e
aumentava de volume com a água; a restante, tendo caído
directamente sob as goteiras de água, escorregara logo de seguida.

- Ora bem, a decisão foi minha. Não me posso queixar. Bandele
olhou para ele.
- Oh, isto é apenas uma conversa entre mim e este eloquente
charco.
Dois ramos afastavam as águas calmas do riacho e a canoa
arrastava-se, deixando atrás de si um sulco entre as margens
lamacentas; o silêncio era profundo e eles chegaram a um lugar onde
se via um velho canhão ferrugento à superfície das águas. As velhas
canoas, ancoradas ao longo da margem, consti-tuíam um triste
quadro do passado; mas tudo aquilo parecia irreal. Os rema-dores
reduziram a velocidade e atracaram o barco ao canhão. Egbo pôs a
mão dentro de água e os seus olhos mergulharam na quietude
salobra, nas profun-dezas escuras, fixando-se no leito lodoso. Tinha
um olhar calmo e parecia profundamente absorto.
- Talvez tenham adivinhado. Os meus pais morreram afogados
precisamente aqui.
A canoa retomou o seu percurso.
- Os vossos sábios chineses diriam certamente que o que eu
disse é falso. Como posso eu afirmar que os meus pais morreram
neste lugar, se a água que hoje aqui corre não é a mesma que aqui
corria o ano passado, ou mesmo ontem!? Ou há momentos atrás,
quando eu falei. De qualquer forma, o meu avô não é filósofo. Ele
colocou aquele canhão ali para assinalar o lugar, por isso os meus
pais morreram ali.
Os outros afastaram o olhar, sem saberem o que dizer. Do
canhão, que se afastava, emergia um caranguejo caricato, cujas
patas pareciam estender-se ao sol, chegando mesmo a penetrar na
água. Formara-se uma crosta de lodo da cor da água nas canoas
ancoradas, que em tempos haviam sido orgulhosas canoas de guerra.
O mangai parecia não ter fim e Kola quebrou o silêncio, dizendo:
- O mangai deprime-me.
- A mim também - disse Egbo. - Creio que nunca poderei libertarme totalmente da água, mas na verdade odeio tudo o que se
relaciona com a morte. Lembro-me de que, quando estava em
Oshogbo, gostava de ir para as margens do Óshun, lá permanecendo
horas a fio, escutando o rumor das águas. A particularidade que me
atrai nestes riachos é a sua quietude. E lá permanecia, convencido de
que os meus pais surgiriam da água para me falarem. Eles tinham-se
tornado parte integrante da água; quanto a isso não possuía quais-

quer dúvidas, portanto esperava que aparecessem logo que para tal
houvesse condições. Oshun tinha este mesmo aspecto sombrio e eu
ia, noite após noite, para as suas margens, chamando por eles e
colocando o meu ouvido contra as águas do riu. - Só me deixei vencer
pelo cansaço físico. Os meus tutores pensavam que eu me tornara
seguidor de oshun. Que valor teria eu para Oshun, não me dizem?
Enquanto falava, Egbo arrastava a mão pela água, arrancando as
plantas aquáticas e dobrando os longos caules esbranquiçados.
- Evidentemente que isto foi apenas uma fase, mas eu sentia-me
de facto atraído pela incerteza. Adorava a vida calma e misteriosa.
Durante as férias, ia para lá ler os meus livros. Porém, mais tarde,
comecei a ir mais longe, para a velha ponte suspensa, onde a água
corria livremente sobre rochas e areia branca. E o Sol brilhava
intensamente. Também havia profundidade naquela turbulência, pelo
menos eu tinha a impressão de estar imerso na escuridão, com um
céu sem nuvens. Era tão diferente do mangai, onde a profundidade
me sufocava! Na ponte, ela era indefinível e era preciso perscrutá-la
atentamente.
Subitamente sentiu-se apreensivo, o que lhe provocou uma certa
frus-tração e embaraço, desejando, agora mais do que nunca, parecer
claro e inequívoco.
- Estou a tentar explicar por que é que as recordações não me
dominam. Não voltei a este lugar desde que os meus pais morreram.
Ocasionalmente, a minha tia trouxe-me aqui, decerto para dizer aos
velhotes que eu ainda estava vivo. Tinha então catorze anos e desejei
que fosse, de facto, a última vez.
Bandele franzia o sobrolho, o que não passou despercebido
aEgbo.
- Por que franzes o sobrolho? Bandele limitou-se a abanar a
cabeça.
- Não concordas? Sekoni, qual é a tua opinião? Se os mortos não
são suficientemente fortes para estarem sempre presentes na nossa
existência, não poderiam ficar como estão, mortos?
- S-s-se f-fazemos tais d-distinções, estamos a quebrar a cúpula
da continuidade, que é afinal a p-própria vida.
- Mas então - continuou Egbo -, será que temos de continuar a
tentar captar os mortos? Por que e que os mortos, por seu lado, hãode recear falar à luz?
- P-p por isso mesmo, d-devemos aceitar a cúpula universal, p-

a sua obesidade não lhes passava despercebida. . cujos reflexos quase cegavam. sempre insensível à dignidade de seu pai. . Lentamente. Lentamente.Todos violam o silêncio.Um interlúdio da realidade.porque não existe q-q-qualquer rumo. violando a paz. como se o azeite da sua última refeição estivesse lentamente a vir à superfície. O homem desconhecido quebrara a crosta do tempo.Devia haver mais Alhajis como tu. relíquias dos dias em que os peixes alimentavam aqueles que contestavam as leis da caça.Esperem. pôs um saco ao ombro e desapareceu nas sombras. .disse Egbo. ao rodeá-los sem os avisar. estavam canoas de cores contrastantes. parando junto aos restantes barcos ancorados. sobre elas. quando. Estacas lamacentas e. brancas e cinzentas. Sheikh . Os remadores haviam recomeçado o percurso.Corresponde exactamente à imagem que tenho dela murmurou Egbo. um pequeno barco emergiu de uma enseada oculta. à semelhança das lamúrias de um catequista muezim. E a súbita aparição da cidade. lhe gritou quase ao . a letargia apoderara-se dele e alastrara de uma forma imperceptível. paredes lisas. Egbo viu anões sentados aos pés de um grande senhor. mas Egbo ordenou-lhes que parassem de novo. seminu. Agora. por raios solares. Mesmo àquela distância. A p-ponte é a cúpula da religião e as pontes não se m-movimentam de um lado para o outro. sob uma prancha. Foi empurrado para o centro desta cena pela tia que. o homem atracou facilmente o seu barco. . as suas vozes projectavam-se num longínquo eco. ainda distante e envolta numa espessa névoa. esperavam a competição anual e a reconstituição da guerra das grandes canoas. Na doca seca. como se qualquer movimento repentino pudesse perturbar os balanços cadenciados. tirou-lhes por momentos a vontade de falar. cobertas por telhados de colmo. Kola pegou nos seus lápis de desenho e com a mão fez sinal ao remador mais próximo. A canoa abrandou a marcha e parou. cuja barriga tinha um aspecto luzidio. Osa dormitava tranquilamente sob espessas sombras entrecortadas. uma pponte t-t-também está voltada para t-trás. . subitamente. aqui e ali. mas as pessoas como tu têm um objectivo preciso. cujas fortes gargalhadas semeavam o terror no grupo desordenado de pessoas que o escutavam. Dele saiu um homem corpulento.

. E Egbo recordava-se nitidamente da súbita transformação do velho. nitidamente pouco à vontade.Trouxe-te o teu neto. Examinando-os cuidadosamente.Perante isto .começou Kola. na expectativa de uma resposta. Egbo pressentiu. ainda que incessantemente atraído pelo modelo dos mortos. Estes hesitaram e gaguejaram. Não seria a . . suponho!? . lhe comprimiam o crânio como se pretendessem esmagar-lhe o cérebro. . de duas mãos que lhe acariciavam o rosto e a cabeça. Porém.ouvido: . é assim que eu imagino o teu avô. algo. .E também cego.. os remadores continuaram em silêncio.. Será que agora vê perfeitamente?. mal desviando a atenção do seu caderno de esboços -. especialmente a cabeça.protestou. E agora.. para todos os efeitos um deus entre os homens. que era novamente a gargalhada de satisfação do seu avô.Mas eu sou neto dele . como que um código de tabus. O remador mais velho refugiou-se num provérbio.disse Egbo. Fora este o seu último encontro. uma visão do grande senhor abandonando a audiência com passos firmes. começou a reler as suas memórias. dirigindo-se aos remadores.. Quando lhes perguntavam por que motivo nunca respondiam objectivamente às questões que lhes eram postas. Egbo insistiu: . Egbo sentiu de novo o contacto de uma terrífica virilidade. de dedos que. debaixo dos seus cabelos. E uma cabeça completamente branca. vagamente.. E sentiu nos músculos e no peito o som de um tornado. o fim da viagem aproximava-se.” O espectro de gerações surgia agora à sua frente e Egbo pensou que iria retrair-se sempre. de como as suas gargalhadas ameaçadoras se haviam tornado num verdadeiro deleite e da força súbita e incompreensível que o elevou por cima dos anões.Eu era ainda uma criança quando o vi pela última vez e já então a vista lhe começava a falhar. e ele hesitava e estremecia precisa-mente no último momento. controlando rigidamente qualquer movimento à sua volta. deixando mesmo para trás os seus anões. o que lhe deu a sensação de afastamento.Vocês não estão a falar com um estranho. colocando-o nos seus joelhos. ainda que Egbo tivesse tido a sensação de que eles eram os seus guias. algo. na cabeça dos quais ele apoiava a mão para obter directivas.. Porém.. os conselheiros respondiam: “O rei diz que está cego. os seus eternos companheiros.

porém. enquanto esperava para ir . gradualmente. e. Egbo sentira no velho e na sua existência uma essência viril. E Egbo desejava que isso fosse tudo.. eu sou um Egbo.Iremos encontrar este teu progenitor. Contudo. dela era a linha de sucessão e desaparecera no mesmo local. E uma raiva surda. Mas os restantes voltaram-se gradualmente. um pai cuja morte imprudente deixara uma dúvida maior do que as conversões ao evangelismo de uma vida inteira. Egbo começara a interrogar-se e a indispor o chefe militar das enseadas contra as faces obtusas.e era. apesar da aceitação ritual. desconfiados daquela futura intrusão e dos seus motivos. E a sua mãe era a princesa Egbo. A cabeça de Sekoni descaiu para o peito.. . salvo o canhão enferrujado. forçando a canoa contra a maré. não sei . que se envaideciam por motivos fúteis. obcecados com a ideia de um “chefe iluminado”. Que queriam dele? Como ousavam sugerir obrigações? E este estranho. crescia dentro dele. O remo mergulhava de vez em quando. quem sou eu para me imiscuir? Quem? Contudo. nada mais.Há também o meu orgulho de raça . Pois bem. Apesar de tudo. não duvidava de que o velho conhecia os riscos políticos e aceitaria reversões. cuja respiração vacilante podia ouvir em todas as súplicas deles . . cujo fardo ele agora transportava. com efeito. um estranho separado por uma geração hão menos frágil . pouco alterava.exumação de um passado melhor e já esquecido? Pensando bem. uma graça redentora. ele podia ficar.respondeu Egbo. nada restando dela. e isto era muito importante. Cedeu mentalmente ao estorço de desenredar meadas sanguíneas e ficaram-lhe apenas as suas energias tirânicas. para ficar sempre à mesma distância da costa. A União dos Descendentes de Osa enviava diariamente os seus porta-vozes para o importunarem. ou não? .Sinceramente. que a luta fosse apenas política.um pai cuja canoa se movia entre as povoações espalhando uma palavra que.disse Egbo. sucumbindo a uma sonolência geral. E havia a ameaça pessoal ao seu avô. ele tinha consciência e desprezava a época que tentara mutilar os seus princípios. pânico e receio daquele complexo abismo. cinzentas e burocráticas dos Negócios Estrangeiros. Ele sabia que isto estava a ser destruído por homens sem valor e de mau carácter. Nesta altura tudo se tornara diferente. inseguros.

Quem o impedirá? O teu cansado avô? . afinal que fizemos nós? Nunca sentiste que toda a tua vida poderá ser uma superfície delgada e sinuosa suportando o peso dos loucos. sim. algures. E compreendeu também que era arrastado para ele. um mero meio reflector ou uma fina massa ocasional . está um velho cego e um povo à espera de uma mítica omnisciência da minha geração. incapaz de negar a sua sombria vitalidade. E as áreas vizinhas sabem donde provém o seu pão secreto. . todos cedem. Osa controla uma série destas vias vitais de contrabando e ao diabo com os vossos helicópteros e vedetas rápidas. sim senhor. Mas nós poderíamos . vozes lamentosas.a fazer o quê? Para além de amparar os arautos do futuro. dado que estas tentações do meu país sempre me impressio-naram. escravos nos seus corações e. uma mera passagem. com a sua incapacidade de isolar da distante desilusão os seus receios pela dignidade das suas raízes e o destino de um homem que se queimara ao brincar com o fogo. .Não.Não.Mas por que é que não sabes? Não me digas que nos fizeste vir até aqui só para nos dizeres que não sabes.Ali. É uma terra pequena.Mas todos eles cedem. Finalmente. embora nunca tenha descoberto a fazer o quê. . . reconheceu que aquele era um lugar de morte.Ah. na realidade. . e grande.a terra e atracar. há poder.. farejando a sua arcaica ameaça e as suas violentas ressacas. isso. É isso que constantemente pergunto a mim próprio .Essa espécie de poder seria apenas um passatempo. Estão com Osa desde os tempos dos tributos.Para já. Mais cedo ou mais tarde. Aliando-se aos novos deuses ou sequestrando-os para os resgatar. arrastado como para um sonho de isolamento. .perguntou Kola.Mas será que o desejamos? Mesmo tentar que seja? .. mas é a mais rica destas povoações costeiras. O governo apenas apanha o que o velho quer sacrificar. . Há de facto um poder. não concordas. . Oh. Admito que é um forte argumento. Sob qualquer forma. Estamos demasiado ocupados.E poder. Mas que raio me poderá oferecer tal existência? . tantas mulheres quantas puderes aguentar replicou Bandele. também? .Não quero ver isso acontecer.

E com as perspectivas futuras para as tradições do país. . nem mesmo grosseiramente. . afir-mou: . Existes nele. não nego que a prática é antiga.Não sou funcionário público. mas tal ser encarado como correcto e próprio de um homem.Quantas mulheres tem o velho? Por momentos Egbo foi iludido. Ansiosamente. Oh. Que escolha. . suspeito que levei a objectividade aos seus limites negativos. mas quem pensava então que isso era poligamia? .O que é isso? . .controlada por fermentos que estão para além de ti? Bandele encolheu os ombros. pergunto a mim próprio. mas não serei parco. . . depois riu-se. Imaginem: não só poder encher a minha casa com mulheres.Mas submetes-te ao sistema.É por isso que o poder te atrai? .disse Kola.Essa é a resposta que receio encontrar se ceder à tentação e . Longa e seriamente. . A poligamia é um conceito inteiramente moderno. Emprestando sei vá a hastes ocas.Por vezes. . . garanto-te. Não sei quantas ele tem.O quê? Oh. Afectando inocência.Nenhuma. .Oh! Sonhei dezenas de vezes ter uma casa como essa.Está bem. . .inquiriu Bandele. iniciando o movimento.Não precisas dizê-lo.Já reconheci que é uma ideia de peso. existe entre os feios gobiões das lamas desta enseada e os sapos rouquenhos dos nossos portos imundos? Que diferença? . Um remo tombou na água. Kola perguntou: .Muda como? Para longe da costa? O outro acenou com a cabeça. desembarcamos ou não? Como se não tivesse ouvido. Pensei nisso. referes-te a apostatar? Um apóstata é uma face que não consigo delinear.Da apostasia . está bem.Pelo contrário.Apenas quero ser libertado da superfície sinuosa.A maré muda de direcção pelo fim da tarde. É uma neutralidade absoluta. Como exemplo para converter o mundo. . prosseguiu: .És o primeiro retrógrado genuíno desta geração.

A cerveja inverteu a direcção e as narinas de Lasunwon pareceram duas agulhetas gémeas da mangueira de um bombeiro. mas era característico de Bandele insistir.Muito bem. Egbo acrescentou simplesmente: .Como apóstatas? Uma sombra de ira encheu a sua face. sem mais.afirmou Egbo -. Quando Egbo abriu os olhos. oh profun-dezas ninfomaníacas. Por vezes. borrifando a mesa de Sagoe com salpicos. como um eterno resquício daquelas mani-festações esporádicas de que nunca se queixava. tão cedo não tereis outro Egbo. Mas permanecia ainda a questão de uma escolha e ele não fizera alguma. . veias indolentes sob a sonolenta serpentina de uma jibóia. Elas afagam-nos. infinitamente recatadas e maternais. . Nenhuma diferença. vou mesmo ao ponto de dizer: “O que é o meu avô senão um bandido glorificado?” Só que isso também não me ajuda. pelo menos alguma de que estivesse plenamente consciente. As correntes haviam-se tornado discer-níveis. Silenciosamente observou-o. diriam os homens da costa. O seu olhar percorreu o clube procurando um objecto para libertar a sua cólera e ser aquecido depois pelas energias despertadas. Havia apenas Lasunwon.Ainda não . começando a sufocar sob a gravata da universidade que parecia assumir vontade própria e pressionava o respectivo nó contra a sua maçã-de-adão. Assim. . especialmente a promessa que ela ainda continha para ele. Este perseguia sempre a companhia deles. vamos. homem? Não nos disseste.Para onde. atraem-nos com braços voluptuosos de sereia para profundíssimas cavernas. Bandele estendeu a sua perna comprida e magra . Talvez tivesse desejado que os outros se pusessem simplesmente em movimento e lhe retirassem o peso de uma escolha. O remador apontou para a água. o advogado-político. ficou surpreendido ao ver Lasunwon acenando para um conhecido no outro extremo da sala. Kola sorriu. embora sem motivo. enfadado pelo malogro de não ter finalmente enterrado a questão abortada. .reclamar o meu lugar aqui. Antes um bandido glorificado que um escravo eloquente. como que de uma salvação.Com a maré. O grupo sentado entre eles e a chuva levantou-se e fugiu quando uma inesperada mudança de vento os assaltou.

Isso não é verdade.e pousou a mão na testa de Sagoe para ver se ele tinha febre. virou-se para Bandele: .Que ias tu a dizer? . . mas Kola abanou a cabeça. .Não tenho frio. Dehinwa. . ainda com o seu ar protector.Foi mais uma vez pela estrada de Apapa.Estás a tremer . . . na esperança de atrair a atenção de um criado. como uma serpente ferida encolhendo-se em silvos obscenos. Contemplou brevemente a cebola de Sekoni e voltou-se para Egbo. Apontou um modesto canto. .Pelo menos espera até a lei ser aprovada.Procura antes restos filtrados no meio da estrada. Kola desistiu.Aí. Sabes bem que estás à cabeça da lista de detenção preventiva. tapou as orelhas com o xaile e. ficaram em silêncio.e fez tombar a mesa abandonada sobre o bordo. Todos exibiam o olhar vazio do aborrecimento e dois estavam totalmente hipnotizados pelas cascatas que caíam do telhado. . não conseguiria desenhar nem um feijão.Andar de bicicleta com este tempo! É por isso que todos te chamam comunista.Mentiroso. Sagoe fez uma careta. O trompete cortou a noite com uma última nota arrogante e o saxofone foi-se apagando. . Os criados amontoavam-se perto do bar.Voltou a casa com a cabeça a escaldar e o nariz a pingar. . É bem feito. Diz antes que é a constipação que apanhaste ontem. .É esta humidade .Muito engraçado. é tudo o que há ali. . mas não consigo habituar-me à humidade. Kola esgotara os guardanapos de papel arrancados aos criados e Sekoni ajudou-o a procurar algum espaço esquecido entre as confusas garatujas. . por momentos. Sekoni arrancou-lhe a esferográfica da mão e desenhou um objecto semelhante a uma cebola no espaço rejeitado.replicou Sagoe.Voltou-se para os outros. de modo a constituir um escudo de protecção. Vou fazer prospecção de petróleo nos buracos da estrada. Começou a acenar com os guardanapos. E sabem por que o faz? Para gozar com os carros atolados. Sagoe estremeceu subitamente e a voz de Dehinwa tornou-se ansiosa. .

Mas a mulher do comerciante limitou-se a aproveitar os vergões para os cruzar com outros. o seu rosto ficaria mais animado.. Kola retomou os seus esboços. quebrou um tinteiro na cabeça do mestre-escola. portanto. Esta noite limitou-se a fitar o céu. gastava as varas a bater-lhe. feitos pela sua vergasta. . o seu primeiro guardião. Sagoe começara a ressonar suavemente. era um espírito turbulento e ainda hoje a sua face lhe aparecia de forma indefinida. Seguidamente. como é que isso me torna seu empregado? .O horizonte perdeu um dente das suas longas gengivas podres. dos estranhos. A partir daí. h-hoje. mal olhou os vergões. diziam.eles. e todos esperaram o estrondo da queda do zinco. a agonia de vigas arrancadas à força. E imediatamente o estrondo chegou. Normalmente. .. A tia regressou subitamente de Daomé e. é a-ali. que efectivamente ficara responsável por ele.Não te pedi que te juntasses na celebração da minha depressão. para Egbo. pronunciaram-no enquanto o salvavam das águas. o pregador seu pai e a filha de um rei. pois a tia. da humanidade erudita -. .V-v-vão f-f-ficar sem c-casa. . . pois ele recusava-se a cuidar da loja. Sekoni gaguejou mais do que nunca: . Egbo entusiasmar-se-ia com uma trovoada. cujos corpos só foram recuperados horas mais tarde. algo chamado uma cabeça-dura. “tem uma cabeça dura”. murmurando imprecações. plenamente consciente: “este aqui”. passara de pai para pai. T-t-t-talvez devêssemos pparar lá e v-ver s-s-se podemos a-a-ajudar.A minha tia é o seu sócio comercial . Mas os olhos de Sekoni eram felinos.dizia Egbo -. Mas não os outros dois. fora sempre um termo usado para as crianças teimosas e sentia-se melindrado com a sua debilidade. um baque de tijolos e depois o timbre agudo do colapso de lâminas enferrujadas.anunciou Egbo.Algures no espaço soou um ruidoso apelo. na direcção do som. Eles também o haviam pronunciado quando o salvaram . O mestreescola. Bandele instalou-se num canto. foi para Oshogbo viver com um sócio da tia. Como uma arma secreta.Um dente .A-ali. Usando a sua palma esquerda como superfície. Era muito perto e inclinaram as cabeças sob os tectos baixos do pátio. o mundo dos adultos.

Egbo foi descoberto. passando pelas brasas. E se Deus. por que me devo prostrar diante de si? O comerciante deteve-se.Todas as crianças bem educadas rezam na igreja gritou a mulher -. por acaso. .És ainda uma criança. e. . só que agora já havia argumentos intelectuais a utilizar. deitado à beira da água no pequeno bosque de Oshun. E Egbo poisava a mala. pareço tão vazio como os outros? . três semanas.Mas havia pior. esperando que Deus esquecesse aquele seu pensamento e a sua própria existência. readquiriu a sua audácia. falando sempre baixinho. Porém.Quer dizer que devo deitar-me sobre a barriga? . trémulo. pouco a pouco. e não num demoníaco bosque de pagãos. . honestamente. à meia-noite.Mas . Da primeira vez.Diz-me. puxou a cabeça de Dehinwa e segredou-lhe: . Durante alguns dias o comerciante comportou-se com humildade. Esperaram que a chuva parasse. . com a sua barriga flácida e inchada.Quando cumprimentares as pessoas mais velhas afirmava o comerciante -. com uma orelha colada ao solo. Então. E Egbo corrigia-o calmamente: . enormes rolos de macia amala sobre um cinto de couro. sim.perguntaram-lhe. o homem despedaçou-o na pele de Egbo. . Aprenderás da maneira mais difícil ou com a ajuda do chicote! Anos mais tarde foi para um internato e só regressava a casa do comerciante para passar férias. Respondeu que estava a rezar. prostra-te a seus pés. Sagoe agitou-se.Sobre a barriga. Mas o tutor esperava-o. gritando: . Apoderando-se do seu koboko. o chicote apareceu como um foguete de debaixo da cadeira.O meu pai foi um respeitável reverendo e nunca me ensinou a prostrar-me.Se só me ajoelho perante Deus. nada aconteceu durante uma semana. Só que o ponto de vista de Egbo continuava de pé e poderia ele rejeitá-lo com o fundamento de ser conversa infantil? Não era difícil inventar novas desculpas. filho do diabo. bateram-lhe por ter inclinações pagãs.Que estavas ali a fazer? . reunia todas as suas forças e cumprimentava-o de pé. descaída. ouvisse a discussão e se pusesse do lado de Egbo? Era uma razão suficiente para temer a represália divina.

e a Sekoni. meditava sobre a sua própria mitologia. . Com certa dificuldade. geralmente. triviais. quando so. era aceite como agradável.Que desperdício! Só Dehinwa persistiria em procurar significado nas palavras de um Sagoe embriagado.Por amor de Deus. cuja palma da mão era agora uma confusão de riscos de tinta. os olhos de Sagoe assemelharam-se aos de um bêbado e depois esbugalharam-se ao mesmo tempo que se movimentavam como os de uma cobra. esta quieto! Aluo o impeliu a aproximar-se de Egbo e postou-se diante dele hegbo observou-o indulgentemente.assegurou-lhe. só era comparável à dos ouvintes. A luz azul da lâmpada eléctrica do aquário reflectira-se em Egbo. De facto. e Egbo acrescentou: . ou mesmo algo que ele próprio dissera ou fizera e que.Encontraste o que querias? Sagoe abanou a cabeça e suspirou: .Vês a cara de Egbo em azul-ultramarino? Este clube tem ambiente. Quando lhe acontecia qualquer coisa de novo. afluem-me à g-ggarganta e não p-p-posso f-falar.. .Oco ..O que é que é um desperdício? . g-g-gostava de engolir b-bbocados de carvão. . . . . Os “soluços” eram mais violentos quando Sekoni se excitava e a sua excitação.disse Dehinwa referindo-se a Kola. a sua única aberração humoral. ininteligíveis. . Porque isto era. ficava fora de si . que só Deus sabia em que magicava. Agora.luço.perguntou. Era espantoso.. descortinaram as razoes de Sagoe. mas o esforço deixava-o como se se tratasse de uma criança a quem obrigam a comer.quer fossem coisas bizarras.Estes dois ainda estão muito despertos . Neste caso. vindo de Sekoni.D-d-durante a minha in-in-infância. encorajando-o depois com um sorriso bêbado. profundamente engraçado. numa vida de dolorosa sinceridade. Por momentos. a tensão das suas ideias.Como um político numa conferência de imprensa.mesmo assim fê-lo suficientemente alto para que Bandele o pudesse ouvir. indiferentes a queixa de Hehinwa: . resistindo à tensão a que estava submetida. inspiradas. imbecil. enquanto explicava esta história..

mais não.Nós. Até devassos e lorpas serviriam.Deus há-de punir-te. afirmou: . Sekoni tentou vencer os bocados de carvão na sua boca. somos um pouco assim.Mais não. Sagoe sentou-se finalmente e procurou o empregado. deteve-se a meio de uma pirueta e atacou com a boca. envolvendo-a com o seu xaile. um riso um tanto ou quanto ilícito. enquanto rosnava: . Kola parou e levantou os olhos. ofendido. se os interlocutores fossem estranhos. Bandele surgiu da sombra de uma coluna. A réplica de Dehinwa perdeu a sua força. funcionando como raios amaciadores de carne. Lasunwon observava-o e sentiu-se sentimental. Vivemos numa armadilha perpétua. Devíamos ser pares de apaixonados. acabando por fixar os olhos nalgum perse-guidor invisível. Parecia que nada particularmente divertido acontecia à sua volta. mas o que é que aqui temos? Cinco palermas bêbados. preocu-pação e. Egbo limitou-se a agarrar Lasunwon pela gravata. . abriu bem os olhos e inspeccionou a cena. O peixe iniciou uma espécie de jogo anfíbio. Sekoni soltou subitamente um riso abafado. Sekoni nunca ria no preciso momento em que as coisas aconteciam. . no seu jeito habitual.Preciso de um brandy para afastar a malária. mas não pediu qualquer explicação. mas perdeu. estimulado por qualquer acontecimento inesperado e casual. portanto regressou ao trabalho. presos nas avenidas onde a fuga está proibida. . Sem dúvida algum incidente passado. rapariga. acabavam por perguntar a si mesmos se não seriam culpados de insensibilidade. .O ambiente. não. ou por qualquer mecanismo de retrospecção que engendrara. Sekoni voltava sempre a recordar a cena e ria.A chuva. Muitas vezes reagia com alarme. Dehinwa continuou a insistir: . O peixe. pois Sagoe paralisou-a. acabando por abanar a cabeça em sinal de reprovação. agitando-se violentamente e surgindo por trás de uma rocha. Os seus músculos faciais relaxavam-se e resistiam a todos os esforços de Kola para os colocar no seu devido lugar. os humanos. . Apontando em direcção ao aquário. o ambiente. Todavia.Mas o que é que é um desperdício? . aproximando a sua cabeça da dele. Já estás suficientemente bêbado.Ainda não parou.Também se viam manchas tremeluzindo na cara de Lasunwon.

Sagoe olhou a sua volta alarmado. Ele. Os homens do foro puseram-lhe a alcunha de Morgue. . devias saber colocar-te no teu lugar. Nunca. que nunca nos deixa saber o que devemos fazer. acabando por ver que os olhos dele o estudavam com a sua habitual suavidade.Vês? Estás bêbado.Pensei que querias afastar os pensamentos mórbidos.Não vais acreditar. É aquela sinceridade dele.O ex-juíz? .Ele deprime-me. mas as pernas do outro limitaram-se a encolher-se. Foi um tipo decente até ter deixado que os políticos o subornassem. .. recuso deixar-me abater como os outros. Tentou espreitar cautelosamente por baixo das pálpebras de Bandele. estou é deprimido. . ..Não te preocupes. O ritmo da chuva é demasiado complexo e eu sou dema-siado lento a compreendê-lo.Baixou o tom de voz.. Seja como for. já me basta a minha tristeza. . . Olha só para eles. Deprimiram-me desde o momento em que começaram a tocar. estaria a falar. . Tu também. . limitando-nos a abrir a porta? Tirar-lhe as . .Que se passa contigo? Sagoe sorriu. E depois. devias ser ouvida entre companhia masculina.Como a única mulher do grupo. este martelar da água da chuva já dura há demasiado tempo. Dehinwa encostou-se a ele e depressa adormeceu. E se o Sheikh não estivesse tão preocupado com os seus bocados de carvão. ou deixá-lo desenvencilhar-se sozinho. Sir Derinola. a sós com a força de Sheikh! Como que por acidente. perguntando a si mesmo se o tinham deixado sozinho para enfrentar Sekoni. estou mesmo deprimido.Estás é a falar demasiado. Devemos segurá-lo pelos cotovelos. Nunca pensei vir a verter uma lágrima por ele. deu um pontapé a Egbo por baixo da mesa.Não. mas eu desprezava-o quando era vivo! .É verdade. não estou a dormir. Sagoe inclinou-se sobre a mesa e baixou a voz. nunca. . como se um coxo saísse de um carro e não soubéssemos como ajudá-lo. o Sheikh foi o único culpado. mas mesmo nunca. Raios. mas foi a morte do nosso presidente. .Já que estás tão bem. Tem graça.Sim. dá-me cá o teu ombro. . E aquele miserável conjunto musical é o culpado.Já te disse que devias estar calada.

de certa forma. Primeiro as suas melodias. quando o interrompo e pressinto que continua a insistir. mais tarde. para tirar partido de intervalos e outros silêncios forjados na ocasião. que o estrangulei. ao mesmo tempo.. sinto que. Quando se imaginou num papel daqueles. os mercados e até escritórios particulares.Mais tarde. Kola explicará isso melhor.. em relação a Sekoni. Ou talvez seja fácil para ti. . Sekoni não estava a ouvi-los. Por vezes.muletas do carro e estender-lhas cá de fora? Sabes o que quero dizer.Kola tenta não o magoar.. depois os seus instrumentos . uma indiferença equilibrada.Mas diz-me lá . Eram corajosos. . Este era um grupo itinerante. ou o solitário violinista dos restaurantes europeus. O pequeno grupo apala começara a actuar como o trio de cordas. chegou à conclusão de que não era correcto o que faziam com ele. o quarteto. sabes o que quero dizer. pois as suas fantasias levavam muito tempo a ser expressas. estavam bem adaptados às necessidades urbanas.continuou Sagoe -. Por que há-de ele ser tão casmurro!? Não me consigo habituar àquela maneira de ser! . mas que. embora em surdina. Poucas eram as pessoas que conseguiam ter. os lugares por onde andavam eram as ruas.Isso é fácil de dizer.. o seu sustento dependia das esmolas. este não viera para se bater em duelo com a chuva. Não sei como Kola consegue.especialmente o tamborfalante . bastante pobre. todavia. o que vem a ser aquilo da cúpula? Bandele olhou furtivamente à sua volta. mas para mim não..invadiam os clubes nocturnos. Apenas uma viola de caixa. Apareciam em qualquer altura. Sabiam valer-se bem das situações e estavam sempre preparados para qualquer eventualidade. ensina-vam os jovens oyinbos a tocar e tornaram-se tão indispensáveis às festas como a azeitona num palito. o estrangulei.Nem tens de te habituar. Apresentou-se um novo grupo musical. onde sempre podiam fazer uma pequena chantagem. Decerto que Kola escutava Sekoni pacientemente. que pareciam ser parte integrante dos seus . Normalmente. Foi o que este grupo fez neste momento.. Tenta apenas ser indiferente. cujas serenatas apenas visavam as carteiras recheadas. três tambores. não acabei com ele. mas mesmo assim disse: . .

Tens sempre tantos problemas! Nem sei como conseguiste chegar a esta idade! . E dominavam a atmosfera como verdadeiros profissionais. . Garanto-te que não estou a mentir. Como que regressados a um passado distante.Oh. mas numa cinzenta lassitude. mas o som daquele tambor faz com que a minha barriga se agite. que. O gerente apareceu subitamente. A sua angústia era evidente. Dehinwa exclamou. conjurando as ténues memórias.Arautos do pós-lavagem . não perceberiam a sua linguagem. logo seguido pelos outros. quase se envergonhariam. já não numa atmosfera asfixiada. só que o meu estômago não a suporta. era só para pôr à prova a reacção dos seus clientes mais abastados. se eles quisessem. Fizeram-lhe sinal para que se calasse e ele. Kola ergueu o olhar na sua direcção. os músicos cantavam para complementar as torrentes de chuva. e vozes moduladas em surdina pelo som dos tambores.. Subitamente. muito embora ainda não tivesse conseguido pronunciar uma única palavra.. enfadada: .disse Egbo bruscamente. A música é óptima. Sagoe. regressou ao bar. pouco antes.Mas se é verdade! Deve ser qualquer coisa relacionada com a vibração.corpos. . porém. . Com os olhos . A negativa estava fora de moda e depois da aparatosa. rindo entre dentes.Tenho de me deitar sobre a barriga. Egbo deixou de os escutar. cujo significado adivinhavam e de que.Quem deixou entrar esta gente? Aquilo. esbracejando e gritando: . Sagoe gemeu. pois Sekoni recomeçara a sua luta com os pedaços de carvão.Que foi que disseste? Os criados de mesa pareciam de novo activos e Kola conseguiu mais guardanapos. os ouvintes estremeceram. enfurecido. Ò seu contentamento residia no facto de obter lucro com o menor custo possível. inquietos mas submissos. Mas os tempos tinham mudado. . esta renovou a razão de ser de um sentimento.Calem-se . e. um a um.disse Ego. Sei que não acreditam no que vos vou dizer. Acordara e parecia um pouco excitado. . não com as pessoas que os escutavam. exibicionista intrujice daquela banda de “alta roda”. Mas ninguém ia dançar. falando uns com os outros.

Sobressairia.. sem que tu desates a discutir? Egbo tirou das mãos de Kola o desenho ofensivo e examinou-o. Kola e Sekoni. sozinha na pista de dança. obviamente. . De tempos a tempos. Movia-se com lentidão. tombando das margens daquele “guarda-chuva” aberto. como o violento escape de ar da válvula de um pneumático. Enchia a pista com o corpo. O percussor principal avançou para ela. a cabeça atirada para trás para melhor comungar intimamente com as copas de palmeiras. dissolvendo o espaço circundante com um ar natural de superfluidade. em tons de verde e laranja. lançando alguns salpicos sobre ela.brilhantes. a vira apoderar-se daquele espaço vazio. um ornamento lírico aos movimentos da dançarina solitária. Era imensa. E trouxe um novo significado à música que a banda tocava. envolviam-na. fosse onde fosse. Um longo braço surgiu da escuridão do canto. . como que delineando a sua pele na curva do tambor. intensamente.Nnnniilista! .cobardia. . enganadoramente frágil. Nenhum deles. Num homem in-inteligente. dominante. Como se tal fosse suficiente para explicar por que havia plantado um bócio no pescoço da mulher e envolvido os seus pés em gigantescas botas Wellington. mergulhada na melodia e na cadência da chuva. mas o percussor recuava. e os reflexos dela eram distorcidos pelas quatro faces do espelho.Será que nem sequer podemos escutar estes músicos ambulantes. O desenho foi arrancado das .Estava farto de a ver. Esta soava agora como uma moldura. esfregando rapidamente a pele do tambor. ainda que a sua voz nunca abandonasse a dançarina. excepto.explodiu finalmente. Listas de chuva. o m-medo da b-b-b-beleza ou da b-bbondade é c. como para lhe restaurar a textura. mas mesmo assim persistia na sua dança. pois era totalmente auto-suficiente. as hastes de bananeiras ou o que quer que fosse que simulasse a frescura tropical na peça artificial colocada no centro da pista. o vento mudava ligeiramente. Kola limitou-se a comentar: . Egbo esperou que ele falasse. semelhantes a canoas.T-t-ter medo da bon-b-b-bondade. . o que lhe dava o aspecto de um animal platípode. Era Bandele. Não precisava de par. Só então Egbo avistou o original. longo e esguio. Viram-na entregar-se lentamente.

uma transparência colada á sua retina e ele maldizia-o silenciosamente. um grito e uma lenda do passado..Sempre o mesmo.. irreverente. Ele não tem culpa de ser como é. enfadado.replicou Egbo. E agora vamos lá ouvir a música. Egbo lhe chamava Owolebi. recordaram-lhe os seus próprios compromissos e Egbo cerrou os punhos.Isso pouco me importa . estava a tentar lembrar-me de como se chamava aquele desenho. . . Owolebi. .insistiu Lasunwon.Porquê descabidas? Olha para o chão. com desenhos já fora de moda Owolebi . . .arrastando-se de um dos lados. primeiro.Porém . Ia expressar um sentimento. Owolebi.Preteria que me tivesses deixado deitá-lo fora . A mulher continuava sozinha.disse Egbo. não apenas nádega por nádega. A canção. . . encharcado. Depois. anéis de antimónio nos seios e ligeiros . enquanto a água escorria indulgentemente sobre ela.Deixem o Lasunwon em paz. Egbo já não os ouvia.Mas qual é o mal? . com o seu vacilante manto aveludado. Bandele passou o desenho a Egbo. os pés na água. .mãos de Lasunwon. Por isso.Deixa-o em paz. Porém. .Mas preparava-se para ir demasiado longe. . que afirmou: . deixem o advogado expressar a sua opinião disse Sagoe. murmurando o nome repetidamente. Sagoe acrescentou: .Se ignorarmos o bócio e estas botifarras descabidas nos pés. És um cínico. o esboço de Kola introduziu-se na sua mente. rejeitando o ultraje.E isso. que se cerravam vagarosamente até deixar de ver os braços gotejantes da peça central. virouse para a dançarina.Talvez antes o teu! E era onde terias ido parar. apoiou-se na parede e perdeu-se imediatamente na sua auto-imersão. Egbo concluiu que ela devia ter iyun em torno dos tornozelos. . Até que Dehinwa o ouviu e exclamou: . que se preparava para o deitar para o chão molhado. .Ela dança numa só peça. Bandele riu.. Tentava ver através das pálpebras da dançarina.Oh.Deviam fazer qualquer coisa à tua cabeça. o Sheikh tem razão.O lugar dele é na lama . Como julgas tu que ela dança neste charco? Egbo atirou o desenho para cima da mesa.

insistiu Kola. Kola atirou ao ar a caneta.Silêncio! . . .sinais de dentes.Suor. E em noites como esta.Ela é uma b-b-bela mulher. virando-lhe as costas desanimado. até as mulheres velhas abririam ao céu as suas coxas engelhadas. Uma cama depois de um amor apaixonado está silenciosa. .Aquilo nela não é só água da chuva .disse Kola. pega numa caneta e desenha-a tu.berrou Egbo. os gomos alteavam-se. Os músculos cansam-se com aquele trabalho forçado. . . suave. .disse Sekoni.O que encontras agora aí de criticável? .Ante ti tens a exultação da imanência negra e tudo o que dizes é. ao retinir de sinos de ferro e apelos surdos de tambores. Egbo estudou-o solenemente.Como um rio que se distende sobre frescas colinas de inhame..Aquela aparência é ilusória . . Por momentos. . E era verdade. . . independentes do corpo.silenciosa! -F-f-f-faz o que quiseres .Às vezes. .. um circulo completo de vales afundados em antimónio. meu ateu pinta-monos. nas quais os seus ombros ansiavam descansar. A dançarina voltou a cabeça. Ou julgas que aquilo é tudo automático? Bandele espreitou de novo o original. ..É tudo quanto se te oferece dizer? .Kola colocou-lhe sob o nariz um retraio emendado da mulher. Por fim.Concordo que o rosto é tranquilo. mas. A maior parte é suor. .Eu não sei desenhar . onde estão elas? Em vez disso. prosseguindo a sua defesa. gostaria de te matar. . as suas sobrancelhas arquearam-se em arco-íris e os montes e arroios dela revelaram-se claramente aos olhos de Egbo. desenhaste simplesmente um par de gomos de laranja.Olha. concluiu com gravidade: .. Silenciosa! No fundo e vasto centro do amor .Silêncio! Ó silêncio que iluminas toda a compreensão! Silêncio transcendente da distante divindade! A virgem de Sango depois da posse está silenciosa. Naquele papel. sou incapaz de a desenhar e é por isso que .Não. a corrente que o separava daquelas margens húmidas. apagando a distância.O quê!? Onde estão as escuras colinas e as fendas nebulosas? Então.perguntou Egbo. E Egbo fechou os olhos.disse Egbo. .

Eu punha a minha cabeça entre os seios dela e abafava neles os meus ouvidos.És simplesmente grosseiro. Porém. Egbo fixou o olhar na subtil independência daquelas nádegas.Dehinwa deu-lhe um valente sopapo. . Afinal. F-f-f-f-fazê-la entrar em c-c-conflito com. é o corpo da religião. exclamou: . não d-d-deves fazer isso. .O suficiente para ver que Egbo está mortinho por ir para a cama com o original! .Ela é repugnantemente gorda. mal se tocando.O que eu disse não é infundado. . . . saltitando suavemente no espaço.O conselheiro real aprova .merecias ser afogado lenta-mente. por exemplo.Escusas de escarnecer.disse Sagoe.N-não. uma negra. Egbo olhou-o. de forma que ele tentou acalmá-lo.. que percebes tu disto? . Uma mu-mulher. .. volumosa.Fazem-me lembrar dois satélites. ..Lasunwon começava a ficar vexado.disse Lasunwon. mas não é excessiva. até. como estas laranjas do desenho de Kola. Lasunwon comentou: .' .E a gargalhada de Lasunwon fez voltar diversas cabeças na direcção deles.Não vejo o que estão as laranjas a fazer ali. . . horrorizado. . não percebo uma palavra do que dizes.Sabes. Todos aqueles gramas de carne têm uma função determinada. que eu responderia: “Chama-me mais tarde.” Sekoni. é forte. . Aquela mulher.Ir para a cama com aquilo? Egbo perguntou: .Com aquilo? . Já vi ambas as cores no seu meio natural e sei bem o que digo. . Sagoe também as contemplava.. Bastante repugnante. Egbo. eu quase consigo ouvir as nádegas dela a ranger. com o olhar constantemente fixo na dançarina... Olha. e é feminina. uma branca daquele tamanho seria completamente amorfa. recomeçou a agitar-se. mas pelo menos agora está melhor..Por que não? . E até Deus todo-poderoso poderia chamar “Egbo!”.Isso é mais uma das tuas generalidades desprovidas de qualquer fundamento .Quanto queres apostar'.Mas consegues imaginar-te na cama com ela? ..

Sagoe riu. e suspirou. mas isto é....Não sei por que pensam que estou a gracejar. lançara o olhar por cima da . Afinal.. Oh.Não foi muito feminino aquilo que ele fez aos amortecedores dela. são c-c-caminhos para a c-c-cúpula universal. viu as alterações que Kola fizera. Sheikh. São tudo c-ccúpulas suculentas. desejoso que o tempo parasse. . Bandele disse tranquilamente: . laranjas... sem retirares olhos da mulher.. F-f-f-foi o que Kola fffez c-c-com os seus símbolos criativos.. Puxou-o para si quase com desespero e esteve à beira de sufocar de excitação. o ammmor. Esperaram mais alguns segundos e Sekoni explodiu por fim: . quando o seu olhar caiu sobre o papel e.Agora agravaste a situação. Kola tem r-razão.Realmente és um tipo imprevisível.Dirigindo-se a Sekoni. femininas..N-n-não. .Que mal vês tu em espevitar o mundo com os frutos da própria cornucópia de Deus? Sekoni debatia-se já com a resposta. a vvvida. Lem.Sagoe interrompeu-o.murmurou -.Tal como a chuva nos isola .... pela primeira vez.M.. Mmmmais honesto. exclamou: .Então tu aprovas esta história das laranjas? .L. Uma obscenidade típica de Kola. a mmmesma coisa. expulsando o resto do mundo e fazendo-te ceder ao teu amante. um p-p-ponto de vista o-optimista. . Kola olhou-o boquiaberto... uma v-v-visão da huu-u-manidade. nervoso: .B-b-b-blasfémia! Egbo. Sheikh. N-não sabia que o tinhas a-a-alterado. Uma pessoa já não pode dizer uma piada? Sekoni abanava a cabeça com crescente violência. E as c-c-cúpulas suculentas. abóboras. Lasunwon ficou igualmente surpreendido: ... replicou: .Olhou de novo os seios dela. uma mulher é a cúpula do amor e é a cc-cúpula da religião. . lembrem-se.. engenheiro diplomado.. Sekoni. . vendo-os como se fossem a coisa mais importante da vida. . . não.Não leves tudo tão a sério..

. se a montanha não pode vir.. empréstimo para as bicicletas. . avaliando-as cuidadosamente. ora vejamos. Se a montanha não pode vir até nós. procurou a mão dos espíritos bons em busca do fulgor da electricidade estática. senhor engenheiro. reaparecendo a mil milhas da origem. isso deve estar no arquivo C/S 429. ele abriu a palma da mão ao gorgolejar do poder até então aprisionado. cavalgara num alto jorro de água.Cartas para assinar.. O largo sulco que deixavam para trás tornava-se uma catarata ensurdecedora.. E as meditativas matriarcas abdicavam de toda a sua força.. um caos de cobras e outras fibras da floresta. ao longo das fissuras.Empréstimo para as bicicletas. petrificações de excrementos divinos caídos do paraíso. ..... E. Reduzidas a átomos. até ele a recolher entre os dedos. E ele cerrou de novo a mão. bem acima das árvores mais altas e para além das nuvens baixas. mediante carris paralelos. embalando a onda de poder. durante a sua viagem de regresso à pátria. arfando em êxtase orgânico. e as torres e lanças da sua energia abriram caminho entre os monólitos.Importa-se de dar uma olhadela a estes pedidos de licença e redigir uma ordem de serviço?. . mas ela estava escorregadia de óleo e apontava para a sua secretária. diante dos seus olhos. e um nervoso núcleo electrónico.Fica aqui. estradas. pavimentavam a terra de ponta a ponta. fazendo a água correr em riachos pela palma da mão em direcção aos gigantes primitivos das florestas das margens. como que por fórmulas mágicas.. correndo. E a lógica do crescimento da natureza era melhorada pelas equações cabalísticas do guindaste brotando do solo. A sua vista abarcava intermináveis volutas gigantescas. Eu verificarei isso .balaustrada todos os dias. a espuma do mar construía pontes e hospitais. Sekoni desceu... Também havia ar condicionado. diga-me. Uma vez. Sekoni não tinha razões para se queixar. em nome de Maomé! Assim. o portaló. Se precisar de mais alguma coisa.. então vamos nós à montanha. Sekoni baralhava-as como cartas e elas reorganizavam-se em vastos portos. Sekoni percorria-as com o seu olhar conhecedor e selector. Esta é a campainha para chamar o mandarete. com um catálogo das energias subterrâneas. desafiando a vontade do homem. colunas de rocha. jaziam a seus pés em elegantes padrões geométricos. Um canal sondava profundamente o solo.

.Não tem garantias de segurança para começar a funcionar? . Foi um pandemónio.. É óbvio que ele precisa de ser transferido. O senhor é um dos nossos membros ex-officio. O presidente riu-se e comentou: . E Sekoni partiu para Ijioha. surgiu o perito expatriado.nos escritórios da S. A temperatura subiu lentamente nessa reunião. Um olho perito. incrédulos.. é que n-nnão posso continuar a ass-assinar garantias e c-c-c-cartas e s-ssubsídios para bicicletas. Sekoni construiu uma pequena central eléctrica experimental. . por favor.M. Expatriado.Não se esqueça da reunião de administração. Mandem-me cá o perito expatriado. não. até que acabou por explodir. ou prefere tomar café? . senhor engenheiro? Para o chá da manhã. Orgulhoso. . Aí.E o mais certo.e piscou o olho. viu e condenou.Sr. Sekoni. destruindo as minutas e a agenda da administração. aguarde um pouco lá fora. . Sekoni.Este tipo é maluco? . .Sr.. não . Ponha isso em linguagem técnica..O q-q-que eu compreendo.K.Importa-se de me dar a sua cota. só o experiente presidente se conservou calmo e plenamente calculista. . Sssssenhor Presidente. E o perito expatriado dirigiu-se a Ijioha.. importa-se de se encarregar também de. “onde se trabalha até as mãos terem bolhas”.Orno tani? . de um verdadeiro perito expatriado. devido à sua última e lucrativa “graduação”.E.. Entretanto. o que levou a que todos o olhassem. .Nomeio-o elemento único de uma comissão de inquérito para testar a construção da nossa central eléctrica de Ijioha.Eu bem sabia que ele era o nosso homem. não compreende que isso não faz parte da ordem de trabalhos? ..e o presidente tentava acalmá-los.Não. É um dos nossos engenheiros mais competentes. .. .Desejava pedir-lhe que se associe à comissão preliminar que vai estudar as candidaturas ao lugar de escriturário de terceira classe. logo. imparcial. que foi construída sem orçamento aprovado.Por que damos nós emprego a estes sabichões? .

E informou Sekoni: .dado que a companhia subsidiária registada em nome do seu sobrinho de dois meses fora a única contratante do Projecto Ijioha . . engenheiro-chefe dejjioha. Entretanto.” . com ou sem orçamento. não concordam? Tragam-me um impresso S2/7. sem comentários. “suspensão de funcionários públicos superiores”. passeando sem se sentir um intruso. . materiais inadequados. E o dossier confidencial de Sekoni. Sekoni. tractores amachucados. murmurou: .L-l-l-lixo?L-l-lixo?. E o projecto foi cancelado enquanto no Parlamento se insinuava a “proeza do engenheiro louco”. espantado. Sekoni ocultava-se nas ruas de Ibadan. E os jornais apregoaram “a proeza do engenheiro louco”. condições alta-mente perigosas. a montagem de um milhão de peças que ele mesmo limpara quando percorria as várias centrais a seu cargo. esperando que fosse tomada uma decisão sobre o seu destino na próxima reunião da administração vigente... e recordava com afecto aquele cortês agente de empreiteiro pronto a entregar até o céu se o governo o requisitasse.Suspendemo-lo indefinidamente. todavia a instalação de Sekoni poderia banhar jioha numa incandescência .O perito diz que aquilo é lixo.Aquele perito nunca falha. camiões.Eu sempre disse que os cancelamentos rendem mais do que os contratos cumpridos. lixo. depósitos ferro-viários. digeria os epítetos: “Uma despesa ruinosa. Ouvia frequentemente o ronronar de motores que ele próprio construíra. labutava entre os cavaletes nas aulas de pintura de Kola.Tragam o dossier de cancelamentos . O presidente .O presidente chamara àquilo lixo! E a instalação nem sequer chegara a ser experimentada! As grandes cidades alimentavam ainda os seus refrigeradores a querosene.ordenou o presidente. senhor engenheiro.L-l-lixo? .O presidente leu o relatório e disse: .embolsou alguns milhares de libras como compensação imediata e intentou um processo judicial no valor de mais alguns milhares. rindo. mais como uma carroça de lixo do que como engenheiro civil responsável/reviase inspeccio-nando montes de carros. . funcionamento sem garantias de segu-rança. .

Sekoni girou sobre os calcanhares e deu de caras com o chefe da aldeia.. e Sekoni. quando a fornalha nem sequer tinha sido acesa! Em Ijioha o capim despontava. Caminhou até à sala de controlo. inclusive a sua própria filha. a ser construído logo que estivesse concluída a central eléctrica. e na parede alguém escrevera com cal “PERIGO. além da velha fechadura. arrastado pelo entusiasmo. Sekoni chegou ao mecanismo que impelia o carvão para a fornalha. E a isto chamara o presidente da administração “lixo”. lado a lado com cabos enferrujados. como uma orelha que se coçava. Tinha-se esquecido dela. bastante alto. E começou a meditar naquilo como um novo problema. entre os edifícios de tijolo da instalação eléctrica. seguida de outra. .Assustei-o? Umas crianças vieram avisar-me que andava um estranho por aqui. é você.eterna. alisando a barba. iniciara planos para um sistema de abastecimento de águas. por momentos. Uma cobra do capim contorcia-se ao longo de um parapeito caiado.Oh. Havia-se sentido bastante orgulhoso daquilo. Sekoni julgou ter ouvido uma gargalhada repercutindo-se nas paredes. Uma cabeça suja espreitou do seu esconderijo. que fez menção de apanhar. e avistou uma pedra grande. o chefe prometera-lhe três mulheres. Adivinhava nele algo . Não a tinha quando cá esteve. Um tufo de capim-elefante curvara-se para o interior do edifício de inspecção da fornalha. Incrédulo. parecia procurar um modo de avaliar as intenções do engenheiro. na verdade. A mão subiu-lhe involuntariamente até ao queixo. Um estranho! Haviam passado apenas dois meses. NÃO ENTRAR”. não. atónito por nunca a ter notado. no seu lugar dirigente. O chefe pareceu adivinhar os seus pensamentos. Seguindo-os. Viam-se agora novos ferrolhos na porta. nunca tivera consciência de que ela crescera. E. . .. Olhou à sua volta procurando um objecto pesado. senhor engenheiro. O silêncio instalou-se de novo. a causa de mais uma decisão. era mais exacto dizer que. em duas línguas. De forma que pensei ser melhor vir até cá dar uma vista de olhos. Sekoni conhecera aquelas crianças e elas deviam lembrar-se dele.Deve ter sido a sua barba. As crianças compreenderam que haviam sido descobertas e escaparam-se. O chefe da povoação rira quando o ouvira. O chefe fitou-o com uma certa apreensão.

sim. o chefe julgou não ter ouvido bem... duvidoso. Quando o governo puder.Eles não dizem que não funciona. . eu. todos o sabemos.Mmmmentiras. . Mmmmentiras. Não só funciona.Oh. mas agora com mais vigor. o chefe recuperou a palavra. . Sekoni não se deixava demover. uma veia pulsava-lhe na testa e os músculos do pescoço contraíam-se com energia suicida.Quer pôr esta coisa a funcionar? Sekoni voltou a acenar a cabeça.Meu amigo. . uma experiência. m-m-mas é rrridículo. N-n-não acredite nisso.. eu vim ex-ex-perimentar a instalação. A electricidade é assunto do governo. e apontou para a sala de controlo. arranque essa coisa pela raiz e leve-a consigo. . .. vá-se embora antes que mais alguém o veja. Eles sabem o que dizem.A-a-apenas precisamos de le-lenha. S-se você d-ddisser às c-ccrianças que apanhem le-lenha. Há muitas pessoas que ainda falam de si. Olhou-o..Muito obrigado. .Uma c-c-carga de cada c-c -c -criança e de-depois vai vê-la trtrabalhar. . Vá ensaiá-la na floresta ou na sua terra.Se quiser experimentá-la. a hostilidade do chefe era evidente. . A princípio.indefinível que o incitava a ser prudente. aceite o meu conselho. Finalmente. Sekoni acenou a cabeça. . . E com ela a aldeia. Até agora temos usado candeeiros a petróleo. sim. r-regressei. . . E-eles ch-ch-chamaram a isto 1-1-lixo! E a-aquele homem veio aqui e nem v-viu os meus p-p-planos. Agora. Os brancos também o sabem e um deles veio cá e disse-nos isso mesmo.É apenas uma ex-ex-periência. usá-la-ei em v-v-vez de c-c-carvão. . meu amigo. vai ver a 1-1-luz brilhar naquela 1-1-lâmpada.. há-de construir-nos uma instalação adequada.Eu.Eu..Ouça. . vá-se embora.N-n-não acredite nisso. Se me ar-arranjar a le-lenha. Você tem de v- .E-eles dizem que isto n-n-não fun-funciona.. . Se e-eles me tivessem ao menos d-d-deixado en-ensaiá-la. como explodirá imediatamente.Foi-se embora sem sequer se despedir de nós. Sekoni começou a ficar nervoso.

. depois Dehinwa . E quando apoiou a mão no braço de Sekoni. Duvido. mas nessa altura Sekoni já estava num hospital psiquiátrico.. permitiu que a polícia o levasse dali. Que te parece. Egbo impeliuos a sair.Nunca me devia ter comprometido com uma rapariga que quer fazer carreira. Quando o chefe reapareceu com auxílio.perguntou-lhe Sagoe. Escusas de regressar.Que queres dizer com. Importante. sem oferecer resistência. Dehinwa guiou Sagoe por entre as poças. os ferrolhos e o reforço de pregos de seis polegadas depressa cederam. O chefe gritou por socorro e fugiu. . antes que as pessoas comecem a juntar-se.. . A velha fechadura. basta deixares o criado de guarda. . encontraram Sekoni oleando as máquinas e inspeccionando os contadores. .Por favor . Deixaram o clube quando a manhã se avizinhava. É tempo de irmos para casa. . De qualquer modo. meu pequeno secretário? Egbo tem razão. Houve outra comissão de inquérito. Não o deixes conduzir. Dehinwa. Boa noite. dirigindo-se ao chefe. Não quero suicidar-me. este libertou-se repentinamente e apanhou a pedra.Tr-trouxeram a lenha? Surpreendentemente. se eu não te vir antes de partires. . Sekoni começara entretanto a martelar a porta. seguindo a bailarina solitária quando os cançonetistas saíram e o encantamento pareceu dissipar-se à volta dela.Quando partes para Ibadan? . .. és jornalista.. Vou-me embora antes daqueles dois. sem sequer olhar para trás. ele pode ir contigo. perguntou: . claro. .Não me chateies.Com metade do peso dele sobre ela. até ao pequeno carro.perguntou Sagoe.pediu Sagoe. . Mas se estiveres pronto antes de mim.Venha daí.ver com os seus p-p-próprios olhos. Voltou-se e.Vamos até à praia. Mas não te esqueças que tenho de estar no meu escritório às oito da manhã.Isso para ti não tem problema. Bandele levantouse.Logo que acordar.Não te preocupes.Tens algum encontro importante? . Sheikh quer regressar cedo. . Preciso de um pouco de vento salgado para desanuviar a cabeça. Durante algum tempo rodaram em silêncio. .

julgando ouvir movimentos furtivos em cada agitação do vento. .Para não falar em assaltantes. reconheceu o perigo no tom dela. antes de eles partirem. .Emprestei-lhes o meu apartamento.Ele já morreu.Mata-me.Suponho que queres dizer: respeito pelos mortos! . Não podes ficar em minha casa.Sabes muito bem a que me refiro.disse.O quê? . não faço ideia a que se refere.Onde estamos. . Dehin? . . não vamos discutir isso outra vez.Na praia. Agora está a chover areia? Subitamente arrepiada pela solidão.Oh.Por que hás-de ter tantas suspeitas? Apenas te pedi que me levasses até à praia.Areia.Isso mesmo . oh. .Que querias tu dizer com aquilo que disseste a Bandele? Ele sabia muito bem. anda. Dehinwa descreveu vingativamente a curva seguinte e Sagoe foi jogado contra a porta.A sério? Imagina que o meu amigo Sir Derin surge das águas do mar.E então! ? Eles vão dormir a tua casa. Mata-me devido a meras suspeitas. que se abriu.Minha querida jovem. . mas replicou: .Na praia? A esta hora? . não vão? .E então? . Dehinwa olhou em redor.Biodun. . . para onde é que eu vou fugir? . Já pensaste que podemos ser . Sagoe adormeceu antes de chegarem à praia..Biodun. mesmo através da sua ébria obnubilação..voltou-se para ele e Sagoe. esperando que ele saísse. quando Dehinwa lhe abriu a porta.Não querias vir? .Vamos embora. murmurando: . . . . ela tem medo de fantasmas. . Não podes deixá-lo em paz? . e aos outros. Nesse momento acordou. Biodun.Disseste que no caso de não o veres. E caiu desamparado. .

Depois.Ouviram esta sereia? Diz que eu devia ter pensado nisso antes! Dehinwa levantou-se.Sabes uma coisa? Aquele conjunto apala era desmoralizante. Ou Bandele. Sagoe caiu sobre o guiador e ela teve de afastar os dedos dele da barra do guiador. quando Dehinwa virou para uma rua secundária e passou sobre os . Tens sorte. Afinal a única coisa que te tirariam era o teu tesouro. aterrada. portanto diz-me. Como poderei saber se tu também não estás associada a eles? Ora vejamos. não achas? Dehinwa tirou-lhe novamente a mão do guiador. . Finalmente conseguiu metê-lo no carro e trancou a porta. trouxeste-me aqui num momento em que não me posso defender. hem? Nunca nos devemos fiar nesses divertimentos.Ela estava associada a eles. Às três e meia da manhã.Qual era o defeito deles? . uma vez mais. Sagoe. . . partiu a alta velocidade. como àquele político que veio aqui divertir-se.Devias ter pensado nisso antes. e só se tranquilizou quando viu aproximarem-se as luzes da primeira ponte.E. Despertou mais tarde.Agora está assustada.Vamos embora. .Eu devia ter pensado nisso antes. não é altura para eles virem fazer vibrar o nosso estômago..Simplesmente desmoralizantes. .E adormeceu logo de seguida. olhando apreensivamente em volta.Então? És uma rapariga sensata.atacados? Com tantos marginais que há por aí! Mesmo em boa forma. São cinco da manhã. estamos sós nesta praia e. após uma série de sobressaltos. eu poderia perder a vida. . cortar-me-iam uma orelha.Pois foi por isso mesmo que bebi tanto. não sou o Egbo. No mínimo. com os seus braços de gorila. gritou: . sob aquela chuva lúgubre. nem afirmar a minha virilidade. . eu. já alguma vez me deste aquilo que desejo? Manténs-me nesta espera contínua porquê? Dehinwa agarrou-o pelos ombros e tentou pô-lo de pé. . . erguendo a sua voz altissonante contra o vento. achas que foi justo? . . não foi.Rico divertimento. No entanto. .Além disso..Não. embora eu não saiba bem porquê. bem sabes. . vais voltar à tua cama incólume. .

deve ser da humidade.Estás a sacudir a minha cabeça. enquanto ele continuava a mur-murar: .buracos do asfalto. tens de ficar aqui. Aqueles whiskies carbonizaram toda a minha negritude. .. . . . Sais aqui e vais direito ao meu apartamento. estamos a chegar.Recuso-me a sair. .A tua casa. . Biodun. não.Anima-te.Estás outra vez a tremer.Um novo solavanco fez que batesse com a cabeça no tecto. estás doente! . Eu vou arrumar o carro e volto já. qual deles o maior. .À vossa tenda. . Erguendo subitamente os braços. sê razoável. Fecha a janela.Tens a certeza de que estamos na estrada? . Que estás tu a fazer? .Cuidado. Sagoe afundou-se no assento.Porque é que não ficou um deles com Lasunwon? . ó donzela. Viste aquela mulher com os teus próprios olhos. Sem saber o que fazer. cuidado. .Só devia ter bebido cerveja. .. Pensando bem. prometo portar-me bem. Nem sequer despertou quando mudaram de estrada e Dehinwa teve de abaná-lo para o acordar.Biodun. Estás a sacudi-la nova-mente. Sagoe recomeçara a tremer. Não podes ficar no meu apartamento. .O meu está cheio. Três homens.Não. .Chegámos.A garagem ainda é longe.Se estás preocupada com aquilo. quem é que se dispõe a suportar aquela mulher? E o Egbo saiu. gritou: .Não. Onde queres que vamos dormir? .Devias ter mais cuidado com a minha cabeça. nem sequer estou em condições para isso. Dehinwa parou o carro. . . . sabes? Dirigiu-se para sua casa furiosamente. Dehinwa perscrutou-lhe o rosto e pôs-lhe a mão na testa.Onde? .Biodun. um após outro. Ela precisaria de uma cama dupla e ainda ficava metade de fora.Não fui eu quem construiu a estrada.E a mulher dele e as duas crianças? De qualquer forma. .

já sabes o que aconteceu.Está bem. enganei-me na porta. Já te disse que sou capaz de andar.Abre-a. Com dificuldade. Sagoe subiu as escadas lentamente.Não. .Não consegui perceber bem o que eram. deteve-se. Eu sou capaz de ir sozinho. . . começando a achar aquilo um pouco estranho.Claro. Sabes a que me refiro. depois apressou-se a bater com a porta.. não.Enganei-me na porta.O melhor é eu ajudar-te a subir.. mas tu tiveste de descobrir que a tinhas. . a luz do patamar revelou um vulto numa cadeira. .Pára de tremer.Correu para o carro e arrancou.Tens a certeza? . . Já tens obrigação de conhecer bem a minha porta. abriu a porta. . . e pensou: “Todos nascem com uma. . dizendo: .Que foi que aconteceu? .. Mas falando a sério. .Tinham finalmente chegado ao> patamar. A primeira vez e um momento verdadeiramente religioso.Desculpe. Tens a certeza que foi esta a porta? . .Es mesmo um desastre.. Sói sei que algo me fez fugir a correr.. Tomaste consciência da tua cabeça quando te tornaste bêbado de profissão. eu já venho. dizendo: . bruxas. deparando com sinais de que havia alguém em casa. sem saber que mais poderia fazer. Dehinwa abriu imediatamente a sua porta e correu para ele. é como se estivesses a ser crismado. não sabes? Ela disse que sim. . .Vê com os teus próprios olhos. acho que há algo de errado na minha cabeça. cambaleou e encostou-se ao carro.Sagoe desceu.. Depois. acabando por quase colidir com Dehinwa.Mas disseste que a tinhas aberto! Sagoe restituiu-lhe a chave.Porém.Não me segures assim como um inválido.” Ela conduziu-o cuidadosamente para as escadas. Por momentos ficou imóvel. mas a que eu vi era . . Voou escada abaixo com falsa energia. negras...Estás mesmo mal. Uma sombra negra numa cadeira e julgo que vi mais algumas ao fundo da sala. E então quando ela lateja e parece explodir. Pareciam morcegos monstruosos. fazendo curtas paragens para combater as vertigens.

. Esperaram muito tempo? . na escuridão. mas que foi que aconteceu? A mãe voltou a sentar-se.. perguntou se ela tinha chá em casa. a mãe viajara toda a noite para a vir visitar. depois uma ratazana alada.Primeiro parecia uma mulher.. com a chave na mão. Dehinwa ainda procurava uma explicação. ele perdeu o conheci-mento.. estou tão cansada! Quando ela abriu a porta. e a tia também. certamente. é esta a vida que vocês levam em Lagos. não as deixes aproximarem-se de mim! E felizmente. Dehinwa ficou paralisada. Dessa vez.bem nítida. nem desta. . julgou ouvir vozes vindas de Gehenna. Em especial as outras. Parecia uma mulher. Serão horas decentes para uma menina andar por aí? . mesmo antes de elas lhe tocarem.. Achas que podes confiar num homem assim? Não era a primeira vez que Dehinwa via a sua noite estragada.Bêbado. Lamento muito. uma emergência. tenho a certeza. mamã. Mas. A escuridão era total e. Mas não era nada do género. . Ela nunca vinha só.Não as deixes aproximar. Uma explicação razoável. .Oh. Mas como teriam elas entrado? O porteiro. murmurou: . a sua mente recorrera a um 'avô que estava no hospital havia algum tempo. A sala parecia uma caverna. tendo chegado pela madrugada. Que chatice. um vulto ergueu-se na obscuridade. Dehinwa murmurava: . nem de qualquer outra. mesmo assim.. elas sabiam onde ficavam os aposentos dos criados.Ah.E Dehinwa reconheceu uma nota de repugnância na voz da mãe. caindo redondamente no chão.Deve ser a minha mãe. mas primeiro Dehinwa fechou à chave a porta do quarto onde Sagoe jazia inconsciente ou adormecido. Dehinwa.Bêbado. . Nem daquela vez.Com que então. um xaile negro deslizou para o chão e um enorme turbante eriçou-se. mas traze-lo para casa. Ela e mais alguns parentes meus. aposto.. Pensativa. .Uma mulher? Tens a certeza de que era uma mulher? .. por momentos. talvez receasse . Sagoe deu um salto para trás e bateu com a cabeça na balaustrada. um desastre. Uma vez. mãe.O que é que esse homem tem? E isto porque Sagoe gritava: .

ninguém nos disse estas coisas. Deste-me um neto.Limita-te a escutar o que a tua mãe te vai dizer. para teu bem. é assim tão difícil encontrar homens decentes. . Mas várias pessoas me têm dito que andas com um nortenho. escuta. . preocupa-me a mim. . Foi por isso que viemos. de forma que necessitava do apoio moral de um parente. Dehinwa não conseguiu evitar um sorriso. A nós. A tensão. fazia brotar grandes gotas de suor no rosto da mãe.Para teu bem. Eu sei o que ela sofreu por vocês. A tia engoliu pimentos quentes com o pão e começou a suar por simpatia. . o momento de fazer a revelação. que era afinal o único objectivo da visita nocturna. até para com a sua companheira. que podia ser arrastada até Lagos de um momento para o outro.quis saber Dehinwa. Chegara o momento crucial.uma alteração em Dehinwa. pequena. Alugou um táxi e pediu-me que a acompanhasse. A tia procurou refúgio no tom hipócrita. não tive tempo de comer. cá estamos. havia sempre uma tia ou uma prima indulgente. portanto considera-te com sorte. se não tens sardinhas. deferente. A tia. . uma que se sentasse.Isso entristece-nos sobremaneira. . Agora deves ouvi-la.Bem vês. obsequioso.Há assim tanta falta de homens nesta cidade? Hem? Diz-me. Eu podia lá parar para comer quando a minha querida estava em perigo? Nunca.Ele viu-te a ser trazida para a cama. Oh. filhos dela. prosseguiu: . . Para mim és como uma filha.A tua mãe estava muito preocupada.aspirando o chá fumegante como que através de uma palhinha. . bem como o clima de mexericos. Dehinwa. O chá estava pronto e a tia pediu pão com sardinhas. suspirasse e fizesse coro: .E ele viu o pai? A tensão cresceu. A tia interpôs: . então talvez um guisado.Então não me dizem? Quem é o pai? A mãe reuniu forças para a batalha. E.Ele não o disse. . Inevitavelmente.. . como vês.. escuta o que a tua mãe diz para teu bem. E aquilo que preocupa a tua mãe. mais do que o calor.Que visão foi essa? .O tladura da tua mãe teve uma visão a teu respeito. com bom .

lembras-te do que ele disse. não deves prestar atenção a esse tipo de conversa.Afinal o que fez o teu pai? Não mexeu um dedo para te ajudar.Oh. . antes mesmo de me casar. pelo menos enquanto fores minha filha. é melhor contares-lhe tu o que o pai dela disse.aspecto. lágrimas perante tanta ingratidão.Ele disse que não mandaria para Inglaterra fosse que rapariga fosse. . .Mamã. para depois engravidar em menos de três meses. o problema é apenas meu . pois ele repetiu-o por toda a cidade. Tenho economizado o mais possível. renascimento do amor e um pouco de terreno cedido. não é apenas um problema teu e não te podes dar com quem queres..Eu dou-me com quem quero.Não compreendes que é no teu próprio interesse? Já nada mais temos a fazer neste mundo. mas quando chegou a tua vez.Não é que esteja a pensar em casar-me ou algo semelhante. está bem. Deus poupou-nos até aqui. Mais uma asneira. não te lembras? Mas como podes tu lembrar-te? Sisi. . tanta fadiga e sacrifício não reconhecidos. . Para a próxima diz-lhes que se metam na sua vida. Agora apareciam lágrimas. Acabavam de pisar terreno conhecido e a conversa aborrecia-a. apenas para . Arrependimento. quando é a amizade que têm pela tua mãe que as leva a contar aquilo que sabem? .Oh. Não é segredo. Não trabalhei como uma escrava para te mandar para Inglaterra. Mandou todos os filhos para Inglaterra. tolerância. A irritação de Dehinwa ia crescendo. mamã. .Foram mesmo essas as palavras dele. Hei-de pagar-te o que gastaste comigo. mamã.Está bem. mas mesmo assim consegui poupar o suficiente para te enviar à minha custa.. . Eu só tinha o meu negócio insignificante. Parece-me que tenho voto na matéria. . A tia ficou boquiaberta. não. se te virem na companhia de um Gambari? . para no fim me dares uma neta Hausa. nem puxei os cordelinhos para te conseguir um excelente lugar junto do Sénior Service.Que disse esta criança? Dizer às pessoas que se metam na sua vida. A tia assentiu. que tenhas de sair com um Gambari? Não sabes o que te vão chamar.

.Quais luvas? Não trouxe luvas nenhumas! Faseyi pensou que ela estava a tentar arreliá-lo e.Eu ouvi. estava apenas a brincar. mamã. O tom tornara-se mais leve e cada uma chorava pela sua infelicidade. Supondo que tinhas um homem contigo. Simplesmente. Por mútuo acordo. Depois sorriu e beijou-a formalmente na testa. Mas esta noite falavam com tacto. por vezes a família era quase insuportável. E por isso. e rapidamente corrigiu a linha da sua gravata.Que foi que disseste? Desejando não estragar tudo. mamã. propôs: . Satisfeito.Vamos. a mãe não conseguia esquecê-lo e a tia começava paulatinamente a pesar os riscos. Reunindo forças para o acto final que deve anunciar o intervalo. Dehinwa sentia-se desgastada pelas visitas nocturnas de tias e mães protestando amor. trancado algures como qualquer peça de roupa suja longe da vista de pessoas decentes. obviamente. acenou com a cabeça. na embaixada.olharmos por ti. não deves fazer mais viagens destas durante a noite. meses antes. Esperaria a mãe que ela abrisse aquela porta? Sentia-se um cão açoitado.. evitando o olhar da mãe. . Monica Faseyi estava sempre a ser humilhada. por seu lado. .Agora podes pôr as luvas. que espécie de filha dei eu à luz? Se encontrar um homem em tua casa a horas menos próprias. Um homem nesta casa durante a noite? Gritarei ibosi e humilhá-lo-ei em público.. Tal como uma vez. Imagina que eu tinha um homem comigo? As lágrimas suspenderam-se imediatamente e uma incredulidade substituiu lentamente a breve satisfação.. com intenções transparentes e elaboradas ansiedades e. pronta a sacrificar-se em nome da paz. Ouvi o que disseste e não estavas a brincar. Sagoe não existia. com muita crueldade.. hem? É esse o género de vida que queres levar? Que Deus me proteja. à entrada da recepção.Mas. nesta altura Dehinwa disse com um ar brincalhão: . ele ficará a saber por que razão a minha família se chama Komolola. o marido parou e inspeccionou-a minuciosamente. . . Seria esta pausa um armistício ou o reinicio da batalha? Dehinwa varreu as migalhas do prato.

Deixa-te de brincadeiras. isso refere-se apenas àqueles que vão ser apresentados.E era preciso falar? Estava lá escrito no cartão.Pensei que querias que eu comprasse um vestido novo.disse Monica -. Refiro-me às luvas que compraste para esta noite. Preto no branco.. .Vá lá. e as luvas? .Mas eu não tenho luvas nenhumas. contra vontade.Nunca te ocorre nada! Bandele e Kola continuavam mergulhados nas sombras onde haviam procurado um pouco de ar fresco.. Ayo. .Resumindo.. lê. põe as luvas.Não trouxe o quê. . Nós não vamos ser. .. . nunca me tinha ocorrido tal coisa. se não fôssemos ser apresentados? . Arrancou a malinha das mãos da mulher e concluiu que.Procurou o cartão no bolso. . mas. . Monica leu o cartão até à última linha.As luvas. Como podia eu adivinhar? .Não mo tinhas dito. tirou-o do envelope e pô-lo em frente do nariz dela: .Monica tinha a certeza de que o marido estava a brincar.Querida. . . Quem vês tu usar luvas na Nigéria? Faseyi perdera a boa disposição. ela não tinha trazido luvas.Como podias tu adivinhar! Levei duas semanas para conseguir arranjar esta apresentação e agora perguntas-me como podias adivinhar!? Qual seria o interesse de virmos cá. evidentemente. O que havia de ser? . dei-te um cheque de quinze libras para comprares tudo o que necessitasses.Que história é essa!? Eu é que devia perguntar que história é essa! Não te dei um convite há mais de uma semana? .Não estou a falar daquelas que tinhas há dois anos. . .Mas. Ofereci as que tinha pouco depois de ter chegado. embora tal não se coadunasse com o seu feitio.Sim. deste-me.Por amor de Deus. . Ayo? . não as trouxeste!? -. pois não? Ayo esforçou-se por manter a calma.Lê o que está aí escrito. de facto.Lamento muito .Mas eu não comprei luvas nenhumas.Nós vamos ser apresentados. Eram. Ayo.Mas tu não me falaste em luvas! . . Que história é essa? . .

Oh. quando Faseyi prosseguiu: . Podes crer.ouvintes ocultos.Claro.Quem? . . Talvez seja melhor eu voltar para casa. . finalmente. Ayo. Lamento muito que isto tenha sucedido. Bandele suspirou. mas já era tarde para saírem dali. se a rainha estivesse presente numa recepção ou numa festa. . irias sem luvas? .Já disse que sinto muito. Irias sem luvas a uma festa onde estivesse a rainha? -. . . . Até que encontrou uma solução.Conhece-los? . .Claro. Ayo. .Amanhã vai contar-me tudo novamente. Faseyi consultou o seu relógio.Querida. Entraram. vamos entrar.Sinceramente não sei.Sinto muito. . se não o for com a minha esposa? Vamos buscar as luvas. Mesmo que não se tratasse de sermos apresentados. enquanto mordia os lábios. É muito mais simples eu ir já para casa. Provavelmente terá um par de luvas em casa. costumam encontrar-se muito? . . . Ayo. .Pelo menos em todas as reuniões da sociedade. Nunca frequentei esses meios. Mas terás de ficar atrás quando nos chamarem. A jovem de voz meiga respondeu: . .Que me interessa ser apresentado.Mas responde-me.Não.Kola sacudiu uma gota que lhe caíra no braço.Ayo Faseyi.Uma bela cena doméstica. sabias bem que Suas Excelências estariam presentes. Conheço-o muito bem.Mas ao menos podias ter um mínimo de iniciativa. Esta ideia deteve defini-tivamente Faseyi. . estou surpreendido contigo. .Vai chover. incluindo as mais íntimas. Bandele e Kola ficaram! enfim.Muito bem.A recepção já terá terminado quando voltarmos. pensativo.Faseyi. a mamã vai salvar-nos. libertos da sua longa restrição. em casa deles. Ayo. . Há algumas regras simples da sociedade que qualquer pessoa inteligente conhece.Querida. O tom de voz alterou-se ligeiramente. do hospital escolar. .

o desesperado. em tom baixo e profundo.Vamos..Depende da nação.Mas o que estará a acontecer? A estação das chuvas costumava ser mais precisa. O mesmo fez Hitler. . Mas ainda assim não lhe parece que a ditadura é muitas vezes o governo mais indicado para uma nação. Sr...Bommmmmmmmbas . como já lhe disse. acompanhado de um criado ..A semana passada senti-me repentinamente ávido do brilho de algumas cores. efectivamente.Bem .Não conseguiu a história que queria. Estaline nunca morreria.Ah. Sagoe cruzou-se com Kola e Bandele junto da porta. na companhia do embaixador.Que bicho lhe mordeu? . de certo modo. Tenho de ir cumprimentar os convidados que estão a chegar. com isso. Sagoe. aparecera com um fato emprestado e nada no seu aspecto traía o jornalista. vorazes de vidas humanas. . Entre ele e uma “declaração exclusiva” esta-vam anos de treino cuidadoso e nada o demoveria... desculpe-me. Sagoe. como ela veio! Uma gigantesca suspensão de ewedu. cheio de virtude no desempenho do seu dever.. Mas faz parte da natureza dos ditadores serem bastante. o melhor é entrarmos.Concordo. obter a longevidade com vidas humanas. Nem sequer esperou para se embebedar. não concorda que. quando saía precipitadamente. . . espera. .. Eh.Se me permite que recorra ao seu exemplo. E no máximo durava quatro meses. . Sagoe.o embaixador falava lentamente -.replicou Bandele. E ela veio por fim.Nessa altura estávamos todos inundados de propaganda: “o segredo da vida descoberto pelos médicos de Estaline”. raramente cinco. Sagoe.Encontramo-nos lá em casa . . .gritou-lhes. O embaixador dirigiu-se aos Faseyi. como outros ditadores. meu Deus.. . . . Um plasma especial extraído de crianças vivas e cada injecção tornava Estaline dez anos mais novo.Deve sentir-se bastante frustrado.Será que alguma vez parou? . posso concordar. . por isso me levantei cedo para contemplar a aurora. diziam. Estaline. tentaram.

Mas não bebe mesmo.Nenhum. eu ainda compreenderia. Sra.O embaixador riu-se e abriu os braços com pesar.Kola parecia pesaroso. Monica abanou a cabeça e Faseyi pareceu ficar descontente.Vês. quem me dera ter vinho de palma cá em casa.O que está a beber.Que fez ela agora? . .Onde arranjaste isso? .Lamento imenso. só bebo ocasionalmente o vinho de palma que o nosso criado faz quando quer ser simpático connosco.Oh! . . . vês. embora eu não visse qualquer necessidade de o fazer. ouviu-os.Não.que segurava uma bandeja com taças de champanhe. imaginem.Se ela fosse uma campónia saída de algum subúrbio londrino. foi desabafar com Bandele. que passava com mais champanhe. Por que há-de chegar aqui e fazer a minha desgraça. Ela não ficou por aí. é claro. mostrando-se hospitaleiro. Monica? Conhaque? . . Não foi uma simpatia? Faseyi. Senão vejamos. Quando voltou. Já se viu alguma vez tal coisa? Vinho de palma! O semblante grave de Bandele não o consolou absolutamente. Tinha ainda de pedir vinho de palma numa recepção da embaixada. Bandele afivelou a sua máscara de paciência infinita.Já foi suficientemente mau ter recusado o champanhe. . Foi introduzida na melhor sociedade.Trouxe-me um dos criados. isso não foi tudo. O embaixador estava incrédulo. bebendo vinho de palma? .Mas. Faseyi olhou-o com afecto e gratidão. Um dos criados. Monica tinha na mão um copo de vinho de palma e um colega de Faseyi perguntava-lhe: .berrou Faseyi.Quer dizer que lho deram? . Mas é uma rapariga educada. . lá recomeça ela. Faseyi afastara-se entretanto em busca do mestre de apresentações. Faseyi? . . quantas destas mulheres aqui presentes chegam a tocar nas suas bebidas? Seguram apenas o copo para serem sociáveis. nenhum. . furioso. . Ouviu-nos falar em vinho de palma e foi aos aposentos dele buscar um pouco que lá tinha. e que mal há nisso? Kola murmurou: .

Devia ter pensado nisso.Sempre teria sido mais compreensível.Devia ter dito que sim . informa-me.Encontramos tipos malévolos. . Bandele replicou: . . Ele até escarneceu. Não sou muito entendido em roupas. você reparou! Kola replicou: . e como aqueles ali. . . por toda a parte. . Se ouvires quaisquer comentários desfavoráveis. aposto.. . Mas ouvi um grupo fazer comentários acerca dela. não preciso dizer-lho.Faseyi girou sobre si mesmo. como estes.Ah. .Todavia. para que possamos fazer algo.Mas sabe.Faseyi aproximou-se mais e sussurrou: A respeito do vestuário dela. No olhar de Faseyi brilhou um inesperado clarão de esperança.Oh. quando Faseyi explodiu: .. Ouve. anda já pela sala a espalhar a história. .Receio que esteja enganado .Olhe para ela se não acredita nas minhas palavras.Não.Estás a ver? .A sério que não tinhas reparado? Bem.. .contrapôs Kola. Oiça... .prosseguiu Kola.. não é rancor. E houve alguém que já o descobriu e. . Voltando-se para Bandele Faseyi disse: . E melhor saber-se a tempo o que as pessoas dizem de nós. Mais cedo ou mais tarde.A que te referes? .e acenou lugubremente a cabeça.Eu não. Suponho que sim. cometeria uma gafe e seria motivo de risota. Mas Monica é sempre um problema.. E também.Não tinha reparado.Sim.afirmou Kola. . . sê meu amigo.. isso é um alívio. Elas têm toda a razão. Sabe muito bem como as pessoas podem ser rancorosas. Mal se tinham aproximado de Monica. “Isso é conhaque?” Foi o que ele disse.. Ali a tem. Bandele.Não vês que ela não está vestida como manda a regra? . por favor. bebendo vinho de palma.Eu não ligaria muito . Suponho que sim. Explicaria que a sua esposa se sentira mal e precisara de um conhaque. talvez a maioria das pessoas também não repare. talvez não saiba que é vinho de palma. quais foram concre-tamente os comentários? Bandele interveio e afastou-se com Faseyi na direcção da esposa deste.

Não é uma questão de simpatia.. . acercou-se novamente de Bandele.Que ideia.. que lhe apresente o Sr. Bandele abanou a cabeça.Oh. desculpe-me. A manobra era óbvia e Monica baixou a cabeça sobre o vinho de palma. . . e a Sra. .Excelência. hum. Sr. .Isso significa alguma coisa? Bandele encolheu os ombros. ela é bastante tímida.Dizem que é o melhor especialista de raios X deste continente. . avançava por entre os convidados com uma lista. Vamos lá resolver isto de vez. está aqui. Deixe-me falar com ela . Percorrendo mentalmente o alfabeto. mas não é. Um funcionário. indo atacar um Kola não arrependido. por favor? . Mesmo aquelas que vêm em traje nativo usam luvas.. permita-me. Faseyi. No rosto de Kola estava espelhada a sua perplexidade. Excelência.Afinal quem é o teu amigo? .Não.Ah. olhando à sua volta furtivamente... Bandele puxou a manga do casaco de Kola.Mas parece ser muito nova. pois.Olha! . não.Não gastes a tua simpatia com a Monica. Momento depois. oh. Limitei-me a fornecer-lhe mais material. . O melhor é eu ir sozinho.. . Toda a noite tenho tentado persuadi-la.Ela parece meiga.Para que lhe disseste aquelas mentiras? .. calculando quando seria a sua vez. Isso é impossível. Bandele retirou-se na primeira oportunidade. a minha esposa está. acredite que é inútil. fingindo nada “ver. não. assim é melhor.... reunindo os escassos escolhidos. .. Logo que a apresentação terminou.Vês como acabaste por atrair as atenções sobre nós? Olha à tua volta e repara bem. . Faseyi seguiu-o. Na verdade. o mestre de apresentações. permita-me que lhe apresente. Faseyi passou por eles. .O tipo gosta de se preocupar por tudo e por nada. Faseyi do hospital escolar da universidade. nunca conheci uma rapariga tão casmurra. afinal sempre arranjou coragem. e acompanhando-os até ao local da sua função. Conheço-os bem. Importa-se de trazer a sua esposa e vir comigo.

Quer que eu vá chamá-lo? . Nesse momento.Oh. Onde pôs o seu copo? Também preciso de outra bebida. A maior parte do que insinuam é pura imaginação. . seguido de Monica.Kola é professor de arte na universidade. .Sou a esposa de Ayo. ali está ele com o senador Okot. Não tem importância. A voz dela modificou-se totalmente e conseguiu fazer transparecer uma certa preocupação: .enfurecido.Acho natural. . Aparentemente calma.Será que meti o meu marido em trabalhos? Bandele riu-se. .Não. Com efeito.Desabafa? Não compreendo.Mas são todos intriguistas. . mas decerto compreende. não acha? Não quer admiti-lo? Mas sabe decerto .A propósito.Está algures por aí.Não fique tão preocupada. não lhe ocorreu qualquer resposta. Há pouco devem ter estado a discutir a minha pessoa. Informou-me que tinha ouvido alguns comentários sobre a minha seminudez.Ah. parecia procurar Faseyi. Ayo é o único que se aborrece quando eu o digo. O meu marido falou-me de si há pouco. . já conhece o Kola? A voz dela era claramente hostil: . Não é verdade? Kola reconheceu que tinha de admirar o modo como ela ia direita ao assunto. como poderia ter-lhe dito os comentários que ouviu por aí? Kola permaneceu silencioso. Cinco minutos depois reapareceu sozinho. oh. . ele desabafa com Bandele.Onde está o Ayo? Viram-no? . .Ou será que você é apenas mais um intriguista? A maioria dos amigos do meu marido são-no. mas Monica surgiu de imediato. sim. Monica indicou-lhe onde estava o copo e Bandele afastou-se..Venha para o pé de nós.Há quanto tempo conhece Bandele? . . é verdade.Bandele é um bom amigo nosso. O marido tem o direito de exigir algum respeito pelos seus amigos. . Bandele segurou-lhe no braço. não. De outro modo. . . Quando a mãe de Ayo não está lá em casa. porém. E admitem-no.

não creio.Vê como tenho razão? Bom.Que aconteceu? Vocês não pareciam muito amigáveis.Tenho de ir procurar o meu marido.Francamente.Há quanto tempo está cá? . que vai conter todos os seus deuses. . No entanto. não. .Claro. agora até acho divertido ouvir os colegas do meu marido. mais tarde.Quer que lhe diga o que ouvi a seu respeito? continuou ela. para começar. De facto. Não é verdade que uma mãe enfurecida quase destruiu o seu estúdio porque descobriu a filha a posar para si? Foi o que me contaram.Sim. não tenho a menor curiosidade em sabê-lo. Por vezes até uma semana pode bastar.. não.Pensei que íamos falar de mim.Então posso ir vê-la? . e eu gostaria de a ver. Se me dá licença. . Bandele esperou que ela se afastasse. mas acabei por me habituar.Sim. Bem vê.Não. . creio que esperava algo de qualidade superior.Oh. . eu nunca tinha vivido num ambiente universitário.Está bem. Todos gostamos de saber o que os outros dizem de nós. pareceu-me tudo muito semelhante ao meu velho instituto normal de magistério.Neste caso. . Você está a trabalhar numa tela enorme. você tem um amigo que todos consideram louco. Não considera que é tempo suficiente para formar uma opinião? . . .Dois anos. talvez mais tarde.Muito bem então o que foi que ouviu a meu respeito? .Considera então que somos simplesmente um bando de ingleses mexeriqueiros? . .Não há nada para ver. irreal até. . .Nada de especial. .que assim é! . .Mas é o que estamos a fazer. . . mal a comecei. . creio que está bem informada..Oh.Isso não é bem assim. Ainda não chegou ao ponto de significar alguma coisa. não era minha intenção ofendê-lo! Bandele voltou com as bebidas. . . Pergunte ao Ayo. bastou. Estava tão assustada quando vim.

. Bandele é o favorito da mãe. Já to tinha dito.Sinto muito. e voltando-se para Kola: . .Vou buscar cerveja .. . .Espero que venham com apetite . Não conheces o Fash. quero eu dizer! Seja como for. . Ela não suporta nenhum dos outros amigos do Ayo..Querida. . não é? Até ter vindo para cá nunca toquei numa bebida. Faseyi acaba de nos convidar. .Por que é que havia de estar? Pára com isso. Quer saber se ouviste mais alguma coisa e é incapaz de esperar.Então. ..A mãe dele não deve tardar a chegar. Monica veio abrir-lhes a porta no dia seguinte. E elas entendem-se muito bem.. pois não?. Não estou disposto a ouvir-vos discutir outra vez acerca dos meus amigos. Faseyi voltou da cozinha.comentou Monica. Seja como for. ele pede à mãe que venha ter uma conversa com Monica.. na verdade não ouvi nada.disse. . O melhor será ele esquecer o assunto. Kola. Mama!.No entanto.Isso significa um petisco ainda mais apurado . . o convite dirige-se mais a ti do que a mim. Disse-lhe que estavas cá. como podes tu dizer uma mentira dessas? . não parecias muito satisfeito. dizendo: .Aqui na Nigéria bebem sempre cerveja. Bandele. . de vez em quando gosto de me deliciar com uma boa refeição e a Sra. . amanhã vamos almoçar a casa deles. mas a mamã diz que neste momento não pode largar o seu cozinhado.Porquê? . esperemos até a mãe chegar para lhe perguntarmos. . a mãe e a mulher dele.Pois bem. bom apetite e sacia-te.Mas eu também fui convidado? . mas desde que provei o vinho de palma..Tu lá saberás. Faseyi é uma fada na cozinha.Estás preocupado com alguma coisa. . não quero outra coisa. .Sabe. .anunciou Monica.E desapareceu em direcção à cozinha. depressa ficarás a conhecer a engrenagem. Faseyi ficou na sala apenas por momentos. Depois de uma cena como esta.A minha sogra está a preparar o almoço.Bom. está tudo bem.Kola ainda não conhece a mamã. .Realmente..Nada disso.

Só quando ia a sair é que se lembrou de dizer: . a sua facezinha encostou-se momentaneamente aos dedos descontraídos de Kola.Não.Da cozinha veio uma voz forte e estertórea: . Monica entrou na sala e perguntou: . onde estão as tuas maneiras? Anda cá. que ainda não conseguira ocultar o seu nervosismo. ouviu-se.como se compreendesse e isso a deixasse surpreendida e triste. uma criança perturbante. querida. pois não? . tépida.Ele disse-te mais alguma coisa sobre o que ouviu? Conseguiste saber quem foi o autor do comentário? Kola abstraiu-se deliberadamente da conversa. Através das portas da varanda. Kola. Algo como uma mari-posa amarela. fique como se estivesse em sua casa. A certa altura.informou Monica.Moni! . fez sinal a Bandele e arrastou-o para a varanda. Permaneceu no limiar durante algum tempo. Momentos depois. .Usaye! Oh.E só um minuto.Usaye é filha do nosso cozinheiro . Kola pestanejou. afagou-lhe a face e introduziu-se entre ele e a mesinha. pois não estava interessado em ouvi-la. por momentos. acabando por entrar na sala. Oh. incrédulo. Monica interveio. por entre os quais os amendoins iam quase caindo no chão.Onde estão eles? Kola apontou para a varanda e ela exclamou: . Ficou só. .Ele é albino? . débil. Então. Ambos são tão pretos como você. Espreitou miopemente o copo que ele segurava. bebeu um gole e o seu rosto contraiu-se devido ao sabor amargo. . quase de imediato: . O milagre é esse. Nem ele nem a mulher.Creio que a mãe está a precisar de ajuda . não se importa que eu diga preto. ou quaisquer . pigmentado. De costas para ele. uma sonolência crescente. ouviu a porta da rua abrir-se ligeiramente e sentiu nas suas costas um movimento vago e delicado. estava uma rapariga albina. Conversaram longamente e cedo Kola começou a sentir o efeito da cerveja. Depois.Oh! . crepuscular. acariciando-lhe a face com o seu cabelo louro entrançado. de cor. Faseyi.disse Monica saindo da sala. Era frágil e indecisa.Só ponho objecções a escuro.

.. mas ela chamou-o: . Usaye tem quatro irmãos.. Oh. O pobre pai está aterrado.Creio que ela vem aqui por minha causa. . A janela dominava o pátio das traseiras..Como um ovo acabado de pôr .. .Isso não é problema. ele sentiu-se aterrado: . e. lá estou eu outra vez. Por que será a maioria das pessoas tão susceptível? Oh. além dela. .Diz que tem emoções irreais? Kola tentou mudar o rumo da conversa. Kola sentia ao mesmo tempo repulsa e fascínio por Usaye. Talvez as suas faces se corassem. Subitamente. vê aquele tronco de árvore? Ela é tão míope que fala com ele. O problema é que eu não tenho carro e de qualquer modo também não sei guiar.Vem cá buscá-la? . Como ia dizendo. voltou a olhar de perto o rosto de Kola e os olhinhos dela percorreram o fato dele a poucos centímetros de distância.. Terá de usar óculos.Mas por que não fizeram nada até agora? . não faça caso. É terrivelmente míope. Ela olhou-o com estranheza e ele sentiu-se desconfortável.Venha até à janela.Ali. eu arranjarei maneira.Mas como consegue ela atravessar as ruas? . . sabe? . Em seguida. embora brandy fosse melhor. E a mãe está à espera do sexto. não. . eu..O Ayo ia prometendo sempre. Já marquei consulta num oftalmologista. três deles são albinos.Ela parece bastante vulnerável.Reparei nisso. quando a casca é muito frágil. .É uma coisinha tão frágil. .Usaye é a que vê pior.murmurou -. Usaye. Complexo de cor. como um pintainho recém-nascido.. .outros eufemismos idiotas.. Usaye sorveu a cerveja com a mesma repugnância.. . Por vezes sofro destas emoções irreais.. anda cá beber mais um bocadinho de cerveja.Oh.Não lhe fará mal. não faça isso.Por enquanto não o faz. .Bem me parecia.. . Ou o sensível centro pulsante da cabeça de um bebé. Aqui é preciso ter-se muito cuidado com as palavras. ..

mas que os seus pés pecaminosos nunca procurassem a Simi das pálpebras langorosas. . isso é ridículo. Até as crianças falavam de Simi! As esposas ajoelhavam e oravam para que os seus maridos pecassem cem vezes com cem mulheres.Claro que não. examinando-as pormenorizadamente. certamente.. Talvez ache que tirei partido de si abusivamente! . A cor e as feições.. você foi um pouco desagradável. julgo que me aproveitei de si. . . Há muito que perdera as esperanças de encontrar um rosto adequado. .Mesmo assim. . As suas casas. reflectindo a fase das experiências do divino flagelo. desta vez. contemplando aquela criança e falando em surdina. mergulhados numa realidade . Subitamente sentiu-se ansioso de agir. Kola nem se apercebeu de que Monica deixara a sala.. E havia ainda algo mais.. e fugiu daquela casa. sem mesmo pensar no que fazia.Isso não é um assunto que apenas diz respeito a si e ao seu marido? . Enquanto ele fitava o tronco da árvore.Ficou ofendido na noite passada? perguntou pouco depois..Obrigada . Porque então estaria perdida a esperança de salvação para os homens. É daqueles que não acredita em casamentos mistos? Sei que alguns amigos de Ayo o censuram por ter casado comigo. e filhos tornavam-se fantasmas de uma ilusão passada ao descobrirem com Simi uma nova visão da vida e do amor. para ser criada de Obaluwaiye e Usaye surgialhe agora quase como uma intervenção divina. foi então que ouviu as portas da varanda abrirem-se e Bandele a chamá-lo.disse ela.Ofendido? Porquê? . . sem a presença residual de qualquer ternura que enfraquecesse as leis da sua própria criação. Girou abruptamente sobre os calcanhares. Em pessoa. mas não o lamento. exactamente como a imagem que ele idealizara. as pestanas de Usaye roçavam-lhe as palmas das mãos. o insidioso despertar de um imenso desejo.Nem eu.Bom. por isso não falemos mais nisso.Estou contente por você ir levar a Usaye. sentada aos pés de Obaluwaiye.Certamente. angelical. sempre incólume. entre as crianças da vizinhança. Já descortinava Usaye com a sua pele de luar luminoso.

Era tão inocente. E ainda que ela reparasse neles. mas as mulheres que ousavam profanar a deusa da serenidade. pois tal facto impressionará Certamente qualquer homem recto. os homens sim. Sabes que já estiveste seis vezes em vias de ser expulso? Seis vezes num curso secundário! Caro Egbo. que cada homem sentia ser ele a traí-la. da fúria das mulheres. senhor professor. estabeleceste um verdadeiro recorde. neste momento. . aos olhos das quais tal inocência não existia. E estou a ver um. só então Simi fazia a sua escolha. diante de mim. nunca ela que o enganara.Caro Egbo . Eu identifico um maníaco sexual à primeira vista. Simi sentava-se. abelha-mestra de pele delicadamente corada pelo ar e pela terra-mãe. . Agora escuta. mas nem nesse momento as suas pálpebras gélidas traíam qualquer sentimento. exaustos ou roucos.Sim. Decerto que havia canções. não Simi. sem nunca fazer trans-parecer o saber da idade. enquanto os homens iam murchando e eram levados para fora. o poeta. parecendo nada ver. irrompia numa torrente de louvores. segurou-o pelo seu casaco novo e arrastou-o para a sala de aulas. pois apenas podiam ser comprados pelas classes mais avançadas e Egbo tivera de esperar até estar prestes a deixar a escola. assim. . ao vê-la. indiferente aos homens que a admiravam. a virilidade envergonhada porque Simi desafiava-os copo a copo e conservava o seu mistério. calma. Simi nunca pagava para que lhe cantassem os dotes. esgotadas as fanfarronadas. pois este era o único professor que tinha o poder de o embaraçar. os bolsos esvaziados. vem cá! O professor de geografia. Simi destruía homens e amizades. Inspeccionou o tecido azul e o emblema da escola. . Mantém-te afastado das mulheres.Sim. imóvel. Mas era essencialmente um acto de homenagem espontânea.Egbo! Vem cá. mais tristes mas nunca mais sensatos -. .canibalesca. canções de louvor e muitas outras que injuriavam. os vários episódios dos amores de Simi.O jovem encolhia-se. Protegiam-na. o único homem numa carreira recheada de sobressaltos que encontrava um laivo de benevolência em “aquele Egbo!”. . sinais de incipiente liberdade.disse o professor -. Simi. isso nunca. tu és uma espécie de milagre. era caso para pedires um certificado. só quando estes haviam partido. Na companhia deles.

Oh. Simi. A mesa dela estremecia com as gargalhadas. seca. os falcões revoluteavam em torno do fumo. não dispensando a sua atenção a ninguém. caminhando pela senda entre arbustos. E o seu olhar nunca se desviara de uma certa direcção. De manhã cedo e à noite. incapaz de ver a sua própria estranheza. e a época do ano. Egbo descobriu a embriaguez total. frágil.Olhem o Egbo. Pelo menos até uma semana antes. ó miserável verme humano. produzia neles uma sensação de vivacidade. sobre ondas titilantes de ekan. Só passado algum tempo os seus companheiros se aperceberam de que Egbo não se levantara para dançar nem pronunciara uma única palavra desde que haviam chegado. Mas era especialmente o aguilhão daquela noite que lhe doía na pele. é certo. finalmente libertos da tirania do certificado escolar. no período imortal da sua vida. uma escapadela em que não participara apenas Egbo. os maiores femeeiros à face da Terra. a atmosfera era um corno cheio de vinho de palma após dez dias de jejum. o jovem costeiro encontrou a sua Mammy Watta! . concretizaram um impudente assalto a um clube nocturno. as horas pareciam-lhes carregadas de lassidão. na poeira e nas faces dos outros. espe-rando os esquilos ou ratazanas que tentassem escapar. mas Simi parecia insensível ao que a rodeava. toda a sua inépcia se dissipara. fria. Orno alufa. hem? Nunca viste uma mulher? . Sentado à mesa. entregue a última prova aos seus professores. Após o exame final.E fácil descobri-los. Ébrios com a euforia da liberdade que se aproximava. mas que ficara célebre devido ao seu papel nela. seis jovens audaciosos. o ar adquiria a agudeza de um aguilhão perfurante e.compreendes? Agora some-te para longe da minha vida. com a garganta seca e os lábios gretados depois de três milhas de marcha. sentara-se junto de um grupo. que ele viria a conhecer muito bem. . com muita futilidade. porque Egbo era conhe-cido pelo seu medo das mulheres.murmurou Egbo. um cessar da consciência no espaço. no tempo. . no crepúsculo. Este professor herdara a tradição das hipérboles. até uma indiferença geral na “natureza. quando a história de uma noitada na cidade chegara aos ouvidos dos professores. e os rapazes exclamaram: .Ela tem os olhos de um peixe .

contente. No dia seguinte. listrado. dizendo: E. É favor bater e entrar com Deus. venha cá. levantou-se lentamente. Abandonou imedia-tamente a escola. Egbo explicou tudo isso na sala de aulas. o veneno que se lhe introduzia nas veias. à porta do seu possível hospedeiro. A escolha de um hospedeiro era decerto muito importante e. Egbo recordou-se de um estudante da sua idade. Egbo partiu à conquista de Ibadan. Estas coisas chegavam sempre ao conhecimento dos professores. Egbo vacilava sob a mordedura lasciva da serpente e acolhia. .Se eu a tivesse visto antes do exame de Zoologia. Com dezoito libras no bolso. Egbo diria a Simi: . O assunto ficaria arrumado de uma vez por todas. Recordando a caminhada de regresso apenas como um refluxo febril de sons abafados.C. enquanto os vendilhões riam e comentavam: . As suas mãos estavam húmidas e Egbo cambaleou até à rua. rever as suas frias profundezas gelatinosas.Olhem. Egbo hesitou ao deparar com um cartão. Mais tarde. ecos remotos de grilos e sussurros furtivos na escuridão da noite.o colarinho branco engomado tinha um bordo cortante -. o sangue redemoinhando-lhe na cabeça a ponto de nada mais compreender senão que Simi o vira e o olhara.. ('). arranjou emprego e começou a economizar. . seu maníaco precoce. E as suas priva-ções eram de tal ordem. três polegadas de sola de borracha para maior altura e confiança. que chegava a pensar estar a fazer um treino muito útil para o caso de vir a ser eremita. teria respondido a pergunta sobre a abelha-mestra.M. secretário do S. Alimentava-se tão pouco que atingia os limites da inanição e a biblioteca constituía o seu único prazer.Foi o meu primeiro acto de ingenuidade e o último. no momento em que mergulhava naqueles olhos.Caro Egbo. outro perdido de bêbado. Por momentos. Pareceu ridículo.. onde Simi ainda detinha a sua corte. Parecia ser o ideal até que. confuso e perdido. por acaso. Simi deixou o seu olhar acariciar o dele e Egbo. e uma gravata . .Simi ergueu os olhos uma única vez e fitou-o. Ayo Dejiade. passando cegamente por entre bandejas de nozes de cola e carne frita. um fato de pêlo gasto. pensar em fígado fresco no balcão de um talho.

E melhor não negligenciares os teus estudos . . . deixa que eu esteja perdido para ti.Esteve prestes a dar meia volta e escapar-se. Não a viu . . Demonstrei verdadeira camaradagem ficando aqui a orar por ti. subitamente. O reverendo Dejiade lutara para que o filho do seu amigo ficasse ao seu cuidado.Quem me dera que tu fizesses o mesmo . tocando no cartão com os nós dos dedos. bom Deus. . Não te preocupes comigo. Enquanto caminhava pelo recinto da universidade. “nem o velho demónio do avô dele ficarão com o meu sobrinho.” O quarto de Dejiade proclamava os horrores de uma vida pecaminosa em textos encaixilhados nas paredes. . . afirmou ela.Isso seria uma ajuda imoral . . sensata. Um apelo ao seu sentido de camaradagem falhou igualmente. Faz dele um exemplo resplandecente. Mas a tia de Egbo não concordara. Eu própria me encarregarei da sua educação.replicou Egbo.exclamou Dejiade. os seus receios avolumavam-se. entrevendo a prece de Dejiade a ser atendida e ele a regressar a casa frustrado. Egbo! Que fazes por aqui? Mas Egbo nem sequer sorriu. E Egbo sentiu-se verdadeiramente aterrorizado.Não me digas que também resolveste erguer a bandeira da família. para pelo menos conseguir confiá-lo à sua paróquia.Rezo sempre antes de começar a estudar tranquilizou-o Dejiade.Faço uma pausa para tomar chá às onze. em relação ao almejado encontro. verás a luz e estarás de volta a tempo de tomar chá comigo.Viva. A causa de Dejiade surgia.exclamou Dejiade.O que significa isto aqui? . mas entretanto Dejiade abriu a porta. Desesperadamente.Esta noite. filho do colega do seu falecido pai. Esquece a minha desprezível existência e abençoa o meu amigo que estuda. .perguntou.sacrifício”. contrapôs as suas súplicas às de Dejiade. Egbo sentia-se de novo dominado pela piedade do seu amigo e começou a suar temendo a magia daqueles textos. ò Deus.Também há religiosidade no auto. “Nem você”. Se a minha prece for atendida.e o que é esta sua oração senão isso?” Encontrou Simi no terceiro clube nocturno que tentou. justa e razoável. e cedo Egbo se apercebeu da inutilidade das suas esperanças de apoio moral por parte de Dejiade. . . prosseguia a mente de Egbo. mas deixa-me ser um daqueles para quem ele deveria ser um exemplo. .

ganhando coragem para o acto de submissão à fera que esperava para o devorar. E lá no alto. e a ilusão enlouquecia-os. naqueles dias dos primórdios da aviação civil.Tens de ir para a escola . não encontravam quem os acreditasse. sentando-se a uma mesa e pedindo uma bebida. esperando que o frágil Dove (pomba) o engolisse. “Ela é a abelha-mestra”. para de seguida voltar a dar gritos estridentes. o medo dissipou-se. E assim os homens não se saciavam jamais daquela que nunca haviam de facto possuído.Tens que ir para a escola em Lagos. pois Simi fora moldada como uma deusa distante. evitando comprometer-se. o que lhe conferia a suprema inocência. agarrando-se aos varões e. Aqueles que se vangloriavam de Simi lhes ter dado o seu amor. Lutara com cada um dos degraus da escada. e permaneceu Egbo. mordendo. mesmo no interior do avião. estes homens com quem ela dormira nada mais sentiam além de desespero. Egbo manteve-se de pé. Egbo reflectindo sobre a temeridade deste piloto experimentado que pensava mais no negocio de tecidos da tia do que no grave perigo a que ela achava por bem expor a sua vida. Tal como uma vez se mantivera de pé no aeródromo de Warri. esperneando. Egbo e a tia. No seu primeiro caderno escolar. Quando cresceu e foi capaz de compreender. de viver para eles. Recapturar o acto era um sacrilégio. Como se nunca tivesse havido qualquer contacto entre ela e o mundo. descobriu que não tinha qualquer desejo de se chamar Johnson. e Egbo ficara. a tia rabiscara Egbo. pensou Egbo. . uma vez acima do odor e humidade do cais. pois só depois se apercebiam de que não lhe haviam tocado. O motor pusera-se em movimento e as vibrações tranquilizaram-no um pouco. impassível e imóvel como sempre. o que fora motivo de chacota por parte dos outros passageiros. altiva. “Os homens têm de dançar e fazer de bobos diante dela. . Simi enchia a totalidade do pátio aberto. despertando desejos que nada acalmaria. Mas as asas do aeroplano . por enquanto. um campo miserável e desleixado. Aquele teu avó pagão apenas te ensi-nará a contar mulheres e suponho que também os proventos do contrabando. O reverendo Johnson e a sua esposa. E lembrou-se novamente da mãe e do pai miraculosamente mortos.imediatamente. a princesa Egbo. como todos os seres civilizados. o olhar gélido de Simi derrotava os que o desafiavam.” E manteve-se de pé. tentara abrir uma vigia. mas o ajuntamento era inconfundível.disse-lhe a tia.

enchendoo daquele desespero que nada aliviaria. Egbo aquietouse. Por fim. Egbo sentara-se. uma face pequena e rude com uma grande cicatriz. As coisas haviam-se processado erradamente fora demasiado apres-sado. tal como acontecia quando fingia que voava no quintal. Agora. Não. por fim: ansioso.endireitaram-se. pensava. não sabendo como começar uma conversa.respondeu ela. agora.Mamã. nada significando. Perfilou-se diante de Egbo durante algum tempo. “tê-la nos meus braços. receoso de a apertar um pouco mais”. imaginando que pedir mais seria estragar a noite. Espantoso como tudo foi tão fácil! Ele pediu e Simi levantou-se instanta-neamente.Uísque. . uma dose dupla.. o céu cresceu. antes mesmo de beber o primeiro gole de álcool. vasculhou os bolsos e tranquilizou-se ao sentir o volume do seu pecúlio. guiou-a até à pista para dançarem um gracioso fòx-trot. e desatou aos pulos no assento. perguntou: . .. depois de ter sido admitido no seu honroso círculo. Um rapazinho aproximou-se.. os espessos e vastos mangues. e Egbo voltou-se para a sua nova mãe. A sua campanha deveria ter sido lenta. por favor. O rapaz afastou-se e Egbo pôs-se de pé. Ela levantou-se casualmente. entrando subitamente no seu ângulo de visão. desculpando-se por as suas mãos continuarem húmidas. E limonada.O que é que deseja tomar? Uísque? Ou prefere gin. pois era um membro assíduo da classe de dança para alunos avançados e executava-o com uma habilidade acima da média. como uma ave morta caída nas enseadas que passavam vertiginosamente lá em baixo. Egbo passou o resto da viagem a dormir profundamente. nada transpare-cendo.Você é muito novo . talvez. Egbo. crescendo e fortificando-se ate ao momento em que não precisasse de pedir. perguntando: . antes de ela erguer os olhos e o reconhecer. Hum. em sua casa. agora. Olhou para baixo e viu o rio. até que este compreendeu que era ele quem servia aquela mesa. limitando-se a levantar-se e a mover-se como se já esperasse que a convidassem a fazê-lo e que muitos mais lho pediriam em vão. envolvendo tudo como a imensa cauda de um pavão. Visitá-la. Indeciso.Não comece já a esbanjar . acompanhando-o. era o momento de agir. brandy com limonada. não é aqui que mora Deus? O medo desaparecera totalmente. Agora. . “Isto deveria satisfazer-me”.

Egbo devolveu-a aos seus companheiros. Egbo considerou a hipótese de abandonar a campanha nesta fase. Viera buscá-la para longe daquilo. recebiam comissões por “uma palavrinha à tua irmã a meu favor” e bebiam por espalharem a esperança eterna. ele não viera para tudo acabar assim. Tratavase de muito mais do que isso. Havia também parasitas. a autodestruição. sinal de máxima inteligência. Estava novamente de pé junto dela e Simi deve ter dito não uma . Eles transmitiam as suas mensagens de tacto. Mas Simi mantinha-se como o espinheiro nocturno com os pirilampos adejando intermitentemente à sua volta e caindo queimados a seus pés. Sentado à parte. O resto da noite escoou-se sem novidades e Egbo manteve uma longa vigília. Egbo absorvia o seu brandy sem dar por isso. de tudo aquilo. e continha a respiração enquanto o líquido lhe cauterizava os intestinos e lhe incendiava o peito. a sua passada existência de eremita. Simi tinha de ir. só então notando que a mesa estava cheia.Depressa.. Desorientado. E pedira ele para lhe oferecer um mesquinho copo. consumido pelo ciúme e pelo ódio. o seu desinteresse por outras mulheres. . O brandy matizava a sua visão como uma neblina: Egbo descobriu que a sua vontade o impelia à consumação. Ah. Era para isso que ele a perseguia. A verdade ofuscou a sua esperança de retirada e levantou-se como um louco. recordando que afinal ele ainda era virgem e por que não Simi? Por que não havia Simi de o iniciar de uma vez para sempre nos mistérios da vida? E disse de si para si que não era isso. animado por aquela espantosa simpli-cidade. para fazer dela sua esposa. tudo isso apenas devido a uma noite? Apenas por aquela noite? Não. Estes últimos eram os mais confiantes de todos. médicos. inventavam-lhe caprichos. para ambos construírem um lar. Dominando-se um pouco.e o rapazinho desapareceu apressado. a maioria dos quais ela tolerava porque lhe davam protecção. não de bebidas a copo. senhores da lei.. aí estava o verdadeiro conforto. pensando com genuína expectativa no chá nocturno com Dejiade. conquista dos mais dotados e a mística mais íntima dos talentos do homem branco.dinheiro. partir com ele. Relembrou a sua ingenuidade. Os homens chegavam e partiam punidos: grandes homens de negócios. Dejiade. pois na altura esta era uma das melhores profissões. mas de garrafas. traz-me o meu troco .

dúzia de vezes. Egbo nada ouvia. “Não. não quero dançar”, mas Egbo
nada entendia. “Asseguro-lhe que estou cansada e além disso não
gosto desta música. Para a próxima, está bem?” Mas como poderia
ela não querer dançar naquele momen-to, se era agora que ele tinha
algo tão importante para lhe dizer e, daqui a pouco, até podia já ter
saído? Ele conhecia bem Simi e os seus retiros quase místicos. Sim,
naquele momento Simi encontrava-se indiscutivelmente no centro do
grupo; mas daqui a pouco podia partir com qualquer um. E durante
semanas permaneceria em reclusão.
E como podia Simi ser capaz de o contrariar perversamente e de
lhe responder “esta vez não”, quando a próxima vez poderia
equivaler a uma espera mais longa do que ele poderia suportar?! De
repente, compreendeu que estava a tentar arrancá-la da cadeira com
insistente rudeza, dizendo:
- Mas eu tenho uma coisa para lhe dizer.
- Então por que não diz aqui? - Ela era muito suave, não sendo
paciente, mas não chegando também a ser impaciente.
Egbo sentia-se incapaz de se mover... “Não serás um milagre? A
tua face é tão macia como a vasa alisada pela maré, onde nenhum
caranguejo jamais ousou passear. Nenhuma criança travessa ousou
gatinhar sobre a filha dos rios quando ela se banha... ayaba Osa...
orno Yemoja...”
- Escuta, rapazinho, vai-te embora. Bem ouviste a senhora dizer
que não queria dançar.
Um estranho, um homem que ele não conhecia, que nunca tinha
visto, erguera-se em defesa dela. “Nunca mais serei tão simplório...
nunca mais... fazer frente a todos estes homens, ricos e importantes,
quem julgo eu que sou?...” Mas ser interpelado daquele modo,
apanhado desprevenido, um parasita falando por ela, uma mão
grosseira, molhada de uísque, no seu pulso, puxando-o, empurrandoo...
Egbo ouviu a sua própria voz por entre a música:
- Tira as mãos! – “Obrigado, meu Deus, por ninguém aqui me
conhecer, mas apetece-me afogá-lo num vómito de bêbado, só
isso...”
- Meu amigo, retire-se - e o outro voltou a empurrá-lo.
- Quem julga você que é para gritar aqui? - E dois 'novos
guardiões surgiram, ameaçadores.
Simi interveio.

- Não. não. larguem-no. Por que estão a incomodar o rapaz?
Rapaz! Então era realmente isso. Rapaz!
Sem saber como. reencontrou a sua mesa. Pareceu-lhe mais
perto do que a porta, além de pensar não ser aquele o momento
oportuno para sair. A espera não foi um tormento, porque Egbo nada
via, nada ouvia. Nem mesmo deu por ela sair.
Horas e horas mais tarde, ou talvez somente alguns minutos,
uma face minúscula e astuta, com uma cicatriz, abordou-o pela
sétima vez.
- Sim, sim, traz outro. Desta vez, uísque.
- O sah. A senhora ni npe vin.
- Hein?
- A senhora. Won ni npe y in wa.
Egbo olhou à sua volta, ansioso, mal podendo acreditar. Simi já
ali não estava. Furioso, agarrou o rapazinho por uma orelha,
apertando-lha.
- Estás a brincar comigo?
O pequeno contorceu-se com a dor, protestando.
- Vá, fala. Que senhora? Onde? Onde?
- N ta. Won wa nnu táxi.
Egbo esforçou-se por recuperar a calma, decidido a destruir a
alucinação. Mas o rapazinho continuava diante dele e falava verdade,
isso era óbvio.
- O troco, yinxah. -Mas Egbo já não o ouvia...
A porta do táxi estava aberta e Simi estava sentada no canto
oposto. Egbo ficou imóvel, fulminado.
- Então, não entras?
Egbo deixou-se cair no assento, os membros entorpecidos.
- Neste meu dia festivo, neste meu dia festivo...” recordava os
avisos de rapazes com maior experiência, sobre o estado de
ansiedade e a possibilidade de desastre... “Flácido? Deus, nesta hora
tão decisiva, não me ridicularizes com um bocado de algodão cru e
mole...
- Não devias tentar fazer frente a homens mais velhos do que tu.
sabes? Sairias a perder!
Mas Egbo nem sequer era capaz de olhar para ela.
Procurava unicamente um meio de escapar, desejoso de estarem
qualquer sítio menos ali. O quarto de Dejiade assumia as cores da
felicidade, da segu-rança eterna. Antes os exames espirituais, do que

esta perspectiva de humi-lhação. Mas ele seria realmente tão idiota.
Ter ido procurá-la, sem quaisquer conhecimentos para além das
bazofias de outros rapazes e de uma lição especial, que lhe parecia
agora obscena, perante a suprema realidade, a confrontação final.
Quando o táxi parou, a sua mão voou em direcção ao bolso, mas
Simi deteve-o. pousando a mão no volume dentro do bolso, pelo que
Egbo estremeceu.
- Poupa o teu dinheiro - disse ela.
Quando entraram em casa. Simi fechou a porta á chave e
ficaram face a face.
- Não estejas tão ansioso. Não tens muita experiência. Na
realidade, não tens experiência nenhuma.
-... Se abro a boca, certamente rebento. Se digo alguma coisa,
qualquer fanfarronada. logo me arrependerei. Serão Uxlas as
mulheres como esta, que vê o fundo de um homem num instante?
Com um olhar, vasculham-nos o íntimo...
Ela entrara noutro quarto nas profundezas da casa e Egbo
relanceou os olhos, incapaz de apreender algo mais do quê a
presença de Simi em toda a parte.

Nesta hora tão decisiva
Simi regressara e ele apercebia-se do seu delírio crescente.
- ... Deus, Deus, se isto ê pecado... Deus. que eu não viva mais
do que um ano. mas esta noite, esta única noite, deixa-me venerar
aqui. que eu nunca mais veja a luz. mas revela-me o brilho dos olhos
dela...
- Ainda não te despiste? Não. deixa. Eu faço-o por ti.
De início ele nada sentia, pois os seus dentes rangiam uns contra
os outros.
- És jovem - disse ela. ajoelhada, levantando o rosto para ele.
que a dominava, de pé.
Egbo. ao contemplá-la, esqueceu tudo. adivinhando tal
melancolia que temeu por ela e perguntou a si mesmo se aquilo era
amor. Mas aquele impulso passou, porque cia tornara-se brincalhona,
mas sempre com aquele ar arave ate quando murmurava:
- O teu coração palpita loucamente. Não esteias tão ansioso.
Ela tocou-o e Egbo parecia vogar, nada sentindo sob os pés.
Experimen-tava agora uma sensação de perigo e para lhe escapar
perguntou-lhe:
- Nunca amaste nenhum homem?
- Ssshiu!...
Uma rajada de vento irrompeu por entre os seus dentes
cerrados, martelando palavras que ela não media, nas quais Egbo
buscava a sua salvação.
“... Eu sou aquele saco insuflado pela brisa agreste, cavalgando o
capim alto do aeródromo de Warn, quando as terras estão no
pousio...”
- Querido, que estás a dizer?
“... Saco insuflado numa brisa agreste, capim alto no aeródromo,
quando as terras estão no pousio...
- O quê, querido?
Embora tudo aquilo fosse maravilhoso, significava dor e ele, que
se preparava há tanto tempo e agora estava pronto, descobriu que a
luta estava em reter este momento, manter-se com unhas e dentes à
beira do profundo abismo, enquanto o sangue corria, descendo

docemente da sua boca. E em pensamento revia a sua vida,
perguntando a si próprio o que significava aquilo dentro de si, quem
era ele o que viria a ser.
“... Bom Deus, deixai-me permanecer nas trevas...”
- Oh, querido, o que é isso?
O prazer deve ser pecaminoso e o prazer excessivo é a maldição
eterna. E Dejiade amanhã iria dizer-lhe que a vida dele era simples,
tão simples e morta...
“... Através de inundações ocultas, uma canoa separa altos
caniços, sem desfalecer, Deus, sem desfalecer como um destroço
apodrecido...”
- Mas, meu querido...
“...E uma vagem solitária cavalgava o imbondeiro na coxa
delgada, despida, e as névoas remoinhavam, velozes, em torno dele,
furacões e cerrações envolviam-no, mas ele mantinha-se erecto...”
- Querido, diz-me, qual é o problema?
“... Quando tudo jazia alagado, quando tudo jazia alagado...
Havia borlas, raízes doces para a criança e, no alto, nuvens
semelhantes a requeijão espe-ravam aquele que Deus escolhera...
“... Abrindo neblinas rasteiras numa canoa escura... nas trevas,
deixai-me permanecer nas trevas, chorar...”
Era a pior manhã que Sagoe podia ter escolhido para encolerizar
a rapariga, mas acabava de descobrir o guarda-fato - ainda nunca
entrara no quarto - e estivera adormecido durante a provação de
Dehinwa perante a mãe e a tia. Dehinwa acabou finalmente por leválas à paragem do autocarro e agora parecia desfazer o quarto em
pedaços, na sua pressa de se vestir para chegar a horas ao escritório.
O barulho acordara-o e os seus olhos injectados chocaram com os
dois puxadores do guarda-fato.
Por fim, perguntou:
- Foste tu que compraste aquilo?
- O quê?
- O guarda-fato. Foste tu que o compraste? - Sagoe gritava para
se impor à chuva que recomeçara a cair; o esforço parecia estalar-lhe
a cabeça, mas não desistiu.
- Ninguém me mantém, se é isso que queres saber.
- Só sei que eu não sou.
- Nem sequer tens dinheiro que chegue para me manter.
- Isso não é razão para te gabares.

com mais suavidade. Foste tu que compraste esta coisa horrorosa? .. perplexa: .Eu. eu não queria dizer. ao menos diz-me se elas te incomodaram muito por minha causa.. pois o esforço despedaçar-lhe-ia a cabeça.Oh. perguntou: .Todas as mulheres neste maldito país estão tão desejosas de serem insultadas! Espremendo-se para entrar no vestido justo. .Suponho que aquelas pessoas eram da tua família. . e Sagoe nem conseguia rir. ela contorcia-se como um peixe capturado.Não.. não dormi nada esta noite e agora tenho de ir trabalhar.Elas incomodaram-te muito? Dehinwa não lhe deu resposta.Ouve. Sagoe inclinou-se para a frente.Não respondeste à minha pergunta. Dehinwa admirou-se com a veemência do recuo dele e ficou onde estava. Ela dirigiu-se ao guarda-fato e fechou a porta.E ela parecia esbofetear o rosto enquanto punha o pó-de-arroz.. Depois. mas se isso te importa.. disse: .Essa era a minha mãe e agora cala-te. . Lentamente foi tomando consciência do que se passara e começava a sentir-se culpado e ansioso por saber se pusera Dehinwa em posição embaraçosa.Bom.. A porta balanceou até perto dele e Sagoe insistiu. guarda os insultos para quando eu voltar.Vês o que fiz por tua causa? . Esta raspou ligeiramente o braço que ele estendera. .Isso mesmo. . . Afinal que foi que te assustou daquela maneira? .Não vejo onde esteja a minha culpa. por isso. O pó espalhou-se e agarrou-se-lhe ao cabelo. sabes? Especialmente aquela com um aspecto tão extraterrestre.. peço desculpa. ... Eram bruxas sugadoras de sangue lá da minha aldeia. Só então Sagoe se lembrou das mulheres.. Dehinwa tacteou o puxador do guardafato e puxou a porta. mas ela afastou-se. obstruindo a visão de Sagoe.Deixa lá o que querias dizer! . tentando tocar-lhe. depositando-se também no vestido cinzento. . A cena voltou à sua mente até ao momento em que caíra e o mundo à sua volta se apagara. Com mil cuidados. não sei. elas meteram-me realmente medo. Estira-te aí na cama e continua a arreliar-me. em vez de o acariciar como era usual.

. . à .Como queiras.E se não gostas dele. . agonizante. separando-se e flutuando sem cessar em redor do seu cérebro. ele sentiu o pulsar vibrante do motor bem no fundo do seu cérebro irritado. bebeste bastante ontem à noite. No segundo andar. . não és? Foi um presente da tua tia ou da tua avó e não ousas deitá-lo fora. A sua cabeça fendeu-se imediatamente como o pára-brisas e.O que é que se passa contigo? .O puxador? Mas é a parte mais bonita! . Como podes suportar o toque do puxador? . .. acho que vou vomitar. mas pelo menos é capaz de sentir. é apenas este maldito guarda-fato. baixou-se. mas o seixo atravessou o pára-brisas do carro em que seguia. . Por vingança.Obrigada.Não.E o óleo todo que tem entranhado? Vá lá. Com esta chuva certamente não vai arder. És obrigada a viver com ele.Não tenho nada.Comprei-o. Só que agora não o afectava tanto. guarda os comentários pois não me interessam. não.Então os teus sentidos devem estar gelados como esta coisa repugnante. em Seattle.Claro. após uma noite de forte bebedeira. Dehinwa bateu com a porta estrondosamente. espera. esperou que a sua estrutura se desmoronasse. Senão.Dehinwa já estava fora de si. Será que nunca te repugnou a pele de um lagarto? . .Mas afinal o que tem de especial o guarda-fato? . juro que o ponho lá fora e o queimo antes de regressares.Tenho de ir trabalhar..O que tem de especial? Meu Deus! Quer dizer que não vês? . Uma vez. Abres a porta. Nunca paras de nos lembrar que estiveste na América e que sabes tudo sobre mobiliário futurista.. . Sagoe avistou uma pedra que se movia lentamente. Por que diabo havias tu de comprar um puxador de flores petrificadas? E olha para o verniz.A mulher é cega.Isto nem sequer é uma questão de estilo. não abres? Deves ter tocado nela uma centena de vezes. Instintivamente. diz-me a verdade. Suponho que estamos de volta à velha cantiga. castigando-o na sua ressaca. . cuspida por um carro à sua frente. Mas o crânio manteve-se intacto. pois o horror do guarda-fato paralisara-o parcialmente. às primeiras horas da manhã. e atingiu-o na têmpora esquerda. .

. aguardando que aquele momento realmente mau passasse. Oh. O quarto tornou-se ainda mais pequeno e. eis quem tu és. acabou por adormecer e pareceu-lhe ter acordado num fosso. “on the rocks. Sagoe não se levantou para fechar a janela: a chuva tornou-se gélida. Madeira barata revestida a verniz. Sagoe girou a cabeça na direcção da caixa e piscou-lhe o olho. Quanto a este maldito guarda-fato. Naquela manhã estava lá uma caixa de chapéus e Sagoe transferiu a concentração da sua cabeça suada para aquela caixa. mas o senhor é um lagarto. Tal como o homem do andar de baixo espera que o vizinho de cima atire ao chão o segundo sapato. Sir Derin. Sagoe estremeceu subitamente.. de chapéu e peruca. A cortina descera e mantinha-se sobre ele como uma vela enfunada pelo vento húmido. SirDerinola. “Salaam. era o nome do seu presidente. mas quando as portas eram abertas revelavam um topo plano onde se empilhavam malas e caixas de chapéus. Mas a parte superior era engenhosa.. a caixa de chapéus fê-lo pensar em Sir “qualquer coisa” e as suas sobrancelhas franziram-se enquanto tentava lembrar-se. e a sua pele é áspera e viscosa. Sir Derinola.. Sagoe descobriu que o seu olhar descaía para a superfície repelente do guarda-fato. Curiosamente. “acabo como comecei”.. O esforço provocou-lhe vertigens e caiu sobre a almofada.. ele morrera finalmente. O coração completava a sua curva apical normal em direcção ao tecto.espera de apanhar os pedaços cinzentos quando eles se desintegrassem. E a extremidade da cortina esvoaçava. Algumas gotas caíram-lhe nos lábios e lambeu-as com um certo agrado. como outrora o hábito exclusivo de uma noite de Bourbon. Desejou que Dehinwa não o tivesse deixado só.” Tornou-se óbvio que este era o momento de fechar o cavaleiro morto. Ah!. Sir Derinola. que parecia escorrer continuamente. foi concebido por algum vampiro inspirado”. mas tinha mãos suaves. murmurou Sagoe. enquanto o suor lhe nascia como pérolas na testa. Oh. salaam. Foi essa espera que Sagoe achou desumana. com profunda melancolia.. A obsessiva peça de mobiliário tinha a forma de um coração. Sentiu-se aliviado. obviamente. parecendo importunar a caixa de chapéus que se . Sir Derinola estava morto. embora derrame nela torneiras eternas de óleo rançoso.. ela era irritante. o lamacento remoinho a meiorio..

E Sagoe recordou de novo as fotografias de Sir Derinola de chapéu alto. Mas agora o chapéu alto.mantinha à beira da queda. mas a porta do guarda-fato pendeu para fora muito. . Ou livre-se desse verme que tem agarrado à virilha. . como eles me traíram! . eles não foram capazes de lhe tirar isso. é apenas um verme. usando apenas um soutien de Dehinwa no peito. deixemos isso de parte.. Já reparou que os jornais ainda repetem esta minha citação? Sagoe pôs os dedos nos ouvidos. meu jovem? Sagoe acenou a cabeça. vejamos. O hábito não faz o monge. no seu caso.Vocês.Protesto. que vamos fazer ao chapéu alto? A menos. jovens. o chapéu alto.Que utilidade teriam agora para mim as roupas. . não é verdade? Na realidade. Sir Derin. engana-se redondamente. O vento e o peso do penteador de Dehinwa acabaram por vencer. . Sir Derin. Sagoe sentiu-se repentinamente obrigado a afectar modéstia e berrou acima do som da chuva. tiradas quando passeava pelo St.disse Sagoe em voz alta -. engana-se. Tem alguma ideia sobre o modo como vou ser enterrado? Certamente conhece os meus sentimentos. Mas não falemos nisso. James Park antes de receber o título das mãos da rainha. Vão enterrá-lo com esse título. é claro.Com efeito. nada sabem. Sagoe mantinha-se firme.Sir Derin.Tem de voltar para dentro. Será que todos os presidentes se comportam assim? E pensar que em tempos foi juiz! . em pessoa. que use a sua peruca reformada. e o bom cavaleiro. . Nunca devemos confiar nos políticos.Nem me fale nisso. Sir Derin. lembrando-se de que agora Sir Derin era alcunhado de a Morgue.Oh. Oh. e não é agora que vou alterar os meus princípios. .Isso é verdade. .. A caixa de chapéus continuou no lugar. surgiu nu. que quer agora? O seu aspecto é indecente! A Morgue manteve a sua solenidade.E Sagoe riu entre dentes. as roupas. oh. Pelo menos vista mais qualquer coisa. . Tape-se. .Não . muito lentamente.Realmente? . foram sempre um desperdício. Presumo que se refere a isto. Quando cai sobre nós o encargo de dirigir o país. .

. Nesse momento. bem sei que me demiti. Como pode separar a medalha do resto do vestuário? . cantarolando. .. quando nos dão o título. brincando com os bicos do soutien.Fizera a sua escolha .Sir Derin. E a Morgue pôs-se subitamente à escuta. quando era o terror do tribunal e.E então em que é que uma medalha o transformou? A Morgue conservou-se silenciosa durante muito tempo. . Se aqueles políticos não me tivessem desencaminhado. Eles costumam pregá-las com alfinetes. de certo modo. mas que mais podia eu fazer? Com todos aqueles jovens a passarem à minha frente! .Para as medalhas. bom cavaleiro. não tente enrolar-me com esses pontos legais. . . Desempenhei o meu dever de acordo com a minha consciência. A sua voz tornara-se lúgubre como um túmulo.Mas. tudo.Não diga mais.Não me compreendeu bem. correram comigo. Sagoe olhou-o da cabeça aos pés..Mas eles tiraram-me tudo o mais. tranquilizou o cérebro martirizado de Sagoe. Deram-me o meu título. Os meus amigos juizes encarregaramse disso. Referia-me à sua filosofia. como quer que eu me lembre de qual subornei num determinado dia? Mas espero que não me guarde rancor.Vamos. Não sabia? E eu tenho um título. Eu conheço a lei. Sir Derin.. com os óculos encavalitados no nariz. merecia inteiramente a alcunha que ganhara devido ao seu ar de tristeza fúnebre. cruel mas suavemente: . . mirava lá do alto o pobre prisioneiro. vamos. neste ponto tenho de o repreender. As medalhas.E afinal não paguei? Quando o outro partido subiu ao poder. meu jovem. a sua pele formigando perante uma presença hostil.E a Morgue começou a rir. os olhos da justiça. Será que a peruca faz o juiz? A Morgue sobressaltou-se e os grãos de areia saltitaram nas suas órbitas cegas. . É por isso que mantenho o soutien.E claro que estava.. Sagoe insistiu. meu jovem. . Esquece-se de que eu estava lá? A Morgue acenou com pesar.disse Sagoe. não se pode pôr de lado um homem de valor. uma gargalhada curiosamente cavernosa que.. Vocês são tantos. . bem vê. Sagoe confessou que não via a relação. Oh.

Estás doente. com ternura. oh. . .Assassina! Assassina! Ela parou a seu lado. . Inesperada-mente.Meu Deus. Por que não arranjas um machado e o enterras no meu crânio. . estamos a ser observados . hein. .replicou ela.Bem sei. não conseguem suportar qualquer dor. Sagoe gritou: . verdadeiramente assustado. esperas que a minha cabeça esteja no limiar para bater com a maldita porta..Se pensei? Que mais fizeste tu além de me atacar toda a manhã? Olha só as minhas mãos. olha .Estava a rezar. tens de ser tão brusca? Mas ela limitou-se a empurrar a cama para o seu sítio e o impacto com a parede fê-lo estremecer. Sagoe contraiu-se num novelo. pousou a cabeça dele no seu-colo.Estavas a falar com quem? . E daí? Que esperavas depois dos teus excessos da noite passada? . Deixa-me em paz. envergonhou-se da sua fraqueza.e Sagoe levantou-as. . .Oh.Estão a tremer.Por que gritaste? Pensaste que ia atacar-te? .Uma coisa nada tem a ver com a outra. a princípio submisso.. Sentou-se na beira da cama e. Sagoe viu então Dehinwa empurrar a porta.Talvez comigo próprio.Não seria melhor ires ao médico? . Este guarda-fato põe-me doente. . Ela começara a remexer num armário.Pareceu-me que estavas a falar com alguém . gotejando água por toda a parte. tentando adivinhar que bicho lhe mordera. olhando-o insistentemente.e mergulhou no guardafato. .Não tenho nada. passeias sobre o meu pobre cérebro com os teus tamancos.. maldita Jael! Sagoe parecia magoado e Dehinwa pensou que os homens são exacta-mente como as crianças. . . Atiras a cama contra a parede. Ele seguiu-a com os olhos. Sagoe.Não me toques! Ela curvou-se bem sobre ele e espreitou pelo espaço entre a cama e a parede. Dehinwa puxou a cama para si e inclinou-se sobre ele. Assustado.

da cabeça aos pés. como se procurasse a melhor maneira de o matar. ao menos enxuga-te.Será possível que eu tenha visto o que tu procuras? .. Na mesma situação em que agora se encontrava. porque quase imediatamente os olhos de Dehinwa se encheram de lágrimas. . .Não. . surpreendido por esta traição física de um corpo que conhecia tão bem. recorrendo a toda a sua força. com maligna satisfação. é preciso espancá-las até à morte. Fê-lo esperar. saltou atrás dela. Dei-lhe uma olhadela enquanto te espe-rava.Não precisas ser tão sarcástica. esperar. subira uma vez à janela de um terceiro andar.Um dossier. mas de nada lhe serviu. A cabeça de Sagoe explodiu como se tivesse sido colocada entre dois vagões que chocassem entre si. Ela abriu a porta o máximo que conseguiu. Geralmente. bateu violentamente com ela. um dossier escolar.Por que diabo voltaste atrás? Se queres abraçar-me. Trouxe-o para casa ontem.Mas. Sou vidente.. . sob a ameaça do buraco negro do revólver de um . não é suficiente para fazer uma boa cena escandalosa. . atravessando os parapeitos das janelas. Diz-me só se está marcado: confidencial. acabando por cambalear após o primeiro passo. Uma mulher assim... .. . de modo que o meti debaixo do assento. Seguidamente. . Biodun.Debaixo do assento da frente do teu carro.Não.Descobri pouca coisa . era apenas a cabeça que lhe pregava partidas. quando era estudante.Deixa-me . com uma fúria que não exibira anteriormente. . incompreendido. e Sagoe. quando foste fazer as compras.. esperar. afastando a cabeça. . esquecendo a sua debilidade.Fui eu mesmo quem lá o pôs. O contacto fê-lo recuar..Por favor. Ela fitou-o. agarrou-se a ele. Até que foi trazido de novo ao solo.. Para as ocultar. e as suas mãos encontraram os olhos petri-ficados da sua aversão. A reacção dela espantou-o. Quase me ias apanhando. Caindo de encontro ao guarda-fato.Viste-o? ..disse.escarneceu ele -. começou a revistar de novo o quarto. E Sagoe preparou-se o melhor que pôde.Um dossier do teu escritório? .

É tudo o que agora vejo.Claro. Sagoe viu-o reaparecer de costas.Que tenho eu a ver com isso? Era a sua filosofia. após um curto sono que deixou Sagoe ainda pior. Nem sequer uma mortalha.quis saber a Morgue. mas a totali-dade do Independem Viewpoint que estava contra a sua presença naquele jornal. com a velha sensação do pára-brisas a partir-se.Creio que tem razão.Aquela era a sua esposa? . . sem dúvida. Mathias era um . . pela primeira vez. vou só tirar isto. . Mathias. dizia-me a verdade e isso. e as ondulações do traseiro do bom titular eram tão cómicas que ele rebentou a rir e a sua cabeça castigou-o de imediato. pestanejando as suas órbitas na direcção do armário.Não quer falar comigo? É o único amigo que me resta. enquanto vos observo dia e noite. Era tão difícil pensar em Sir Derinola morto! Quando. não compreende? . seu amigo? . recorda-se? Eu gosto de estar vestido. . É por isso que. . Você era meu amigo. não se importe com o passado. Pelo contrario. Pelo menos.Com toda a razão.disse. Sagoe não queria mais conversas. por sua vez.Agora nada me resta excepto a verdade. Excepto. nos tempos que correm. . Não era apenas Sir Derinola. candidato perante um conselho de admissão. Agora estou satisfeito. o titular irritara-o declaradamente. Sir Derin emergiu uma vez mais naquela manhã. espere. meu macacão. mas se mantivesse ainda ao serviço. o melhor é desceres com calminha. sorriu: . . Era incrível que ele não só tivesse obtido o lugar. . Não os deixe enterrarme senão como estou agora. evidentemente.Compreendo o que quer dizer.. claro.Agora já está satisfeito? . o passado tem importância. o contínuo.polícia nova-iorquino.Tirou o soutien. tornou-se valioso. O cavaleiro ficou pesaroso.Estou a tentar chegar ao meu quarto . E o outro.Eu. não tínhamos tempo para dizer a verdade. não concorda? Antigamente. pelo que fingiu estar profundamente adormecido. Oh. se encontrou diante dele. Sir Derin acenou judiciosamente. a mortalha não faz o cadáver..Sim. .

e insistindo: . desculpe. Oh. sor.Para quê? Quero que tu bebas comigo. . .Agora. deixando cair. mais precisamente. Sagoe estremeceu e Mathias explodiu numa gargalhada involuntária.Fecha a porta. Sagoe segurava Mathias. E depois de ele ter começado a trabalhar. Sagoe pegou na sua pasta e tirou dela um volume encadernado.e deu meia volta para se retirar. Mathias. essa vai levar algum tempo. . Mathias continuou a realizar o milagre de o manter fixo à secretária.Pois bem. não te sentes à beirinha da cadeira. Mathias. Oga. embaraçado. no primeiro dia de trabalho Sagoe mandou-o buscar cerveja. .Não faz mal. . mas não te esqueças. Mathias.Bem. . Bebe. era como um cão de caça. ia beber sozinho para a cantina. nunca teria conseguido este emprego e permanecer nele vai dever-se inteiramente a ti. alguém tem de me mostrar os cordelinhos. volta a pôr-me aos pés da razão. Se não fosses tu. Sagoe aos pés da razão. .tirou-lhe das mãos uma das garrafas e encheu a sua caneca.Ogu. meu malandro. o que é que se passa? Quero falar contigo. se é que alguma vez houve um. sor .Ah. . pois fora Mathias quem fizera com que ele esperasse pela sua entrevista de admissão.Onde julgas que vais? Senta-te aí.Mathias acenou que sim. por vezes chamam-me a outro serviço. . agradeceu: . .Como sou novo aqui. Mathias .bom augúrio.E por favor não me respondas “Sim sor. Certo? . sor. és a primeira coisa boa que me surgiu desde que regressei.Obrigado . Para celebrarem.Sim. . aprisionando-o.Fica com a outra garrafa.Sim. Ou a minha presença estraga-te o prazer da bebida. Mathias afirmou o seu gosto pela companhia de Sagoe.Sim. . tenciono monopolizar-te esta manhã para esse fim. .e Mathias obedeceu respeitosamente. . Parece-me que vais ter de beber a tua pela garrafa. Sei que es bastante sensível. Ou. O trabalho de contínuo nos escritórios de um jornal não dá tempo para estar sentado. . . Oga. Descontrai-te. homem. destramente. só tenho uma caneca Oga.Nesse caso. é melhor ter paciência.

Bom.Sagoe abriu o volume. é verdade. como vamos fazer isso? Como hei-de tratá-lo? .Espíritos? Oga. suponho. .Sagoe não respondeu imediatamente e os olhos de Mathias arregalaram-se de repente. Mathias. basta.Como é isso. . ajuda. porque acredito num mínimo de decoro no trabalho.Ah.. Tu és como eu. Mas esta história do “Oga” é tão mau como o “Sim sor”. não é verdade? Mathias assentiu gravemente e Sagoe apontou a garrafa. . enquanto aqui estiver.Sim. oh. percebo.. e se tiveres alguma dúvida é só perguntares. se fizermos convertidos. Mathias bebeu. . mas infelizmente os meus professores não aceitaram o tema. Na verdade.Bem vês. . Mathias. bem. ah. fazendo dele a nossa Bíblia.Bebe.Devia ser parte da minha tese.Mathias. Mathias. não fosse alguém entrar. quer dizer que vemos e sentimos o mesmo.O quê. Todavia. não percebo nada disso.Exactamente. compreendes o que quero dizer. Vou ler-te umas linhas todos os dias. Preciso de ter um amigo. Mathias. vou ler-te parte de um discurso muito importante que uma vez fiz. não posso pedir-te que me chames Biodun. . A voz de Sagoe chamou de novo a sua atenção. sor.. fazendo um dos olhos deslizar na direcção da porta. .E para explicar o que quero dizer. Oga! . . Mathias mostrava-se um pouco impaciente.E isso que quero explicar-te.Sagoe.Tal como ia dizendo. ele conferir-nos-á força e consolação. Põe-te numa disposição receptiva. porque ao vir para aqui tenho a sensação de desbaratar a minha vida. um homem religioso. . . querias saber o que é um espírito afim. Oga? . . Oga. Tu e eu somos espíritos afins..Lembras-te do que sucedeu quando vim à minha entrevista de admissão? . és um vacuolizador instintivo. organizaremos discussões de grupo. Respeitosamente.Refere-se àquela história da latrina? . . significa simplesmente que somos. . Julgaram-no demasiado esotérico. vejamos. . se lermos este trecho todos os dias.Mas. nos tempos em que era filósofo.Está bem. ..

Se me zangava. Começo a ficar confuso. e a indicação mais enfática de um estômago emocional é a concomitância de uma forte sensação de injustiça. . espiritual. Se os distingo particularmente.Sor? . A vacuolização é a ultima mina inexplorada de energia criativa. Como definição. é porque na exposição da história de mim próprio nada mais faço do que descerrar o mistério do meu desenvolvimento filosófico. Corria com ansiedade.é a quantidade desconhecida. desde o marxismo homeopático ao existencialismo. A vacuolização . amotinava-se: se era repreendido. porque na natureza congénita do meu sofrimento estão as primeiras imitações do meu martírio e inevitável apoteose. o nascimento. Mathias sorriu abertamente e Sagoe pigarreou. mesmo assim. espiritualmente. Funcional. o meu estômago rebelavase. Neste dia. A vacuolização não é um movimento de protesto. a vacuolização perma-nece a única verdadeira filosofia do verdadeiro egoísta. excepto as leis imutáveis da Natureza. Meus bons amigos. se tinha fome.. És um elemento natural.. um profeta tem a sua honra. criativa ou ritualística.Oga. É só uma questão de assimilares os fundamentos do sistema. Outra influência na formação da minha introversão vacuolizante foi a tia da minha namorada de infância. reagia. Frequentemente.. espere aí. e quando eu me sentia frustrado. Nasci com um estômago emocional. suspeitavam que me fingia doente e a punição era imediata.Não há nisto qualquer dificuldade. que isto baste. Escuta e compreenderás a filosofia da merda. . entoo endechas aos -ismos.. contraía-se enervado. deixa lá. Se desço ao particular. Mathias. mas revolu-ciona. Não tenhas pressa.. Não sou um messias e. não posso deixar de sentir que nasci para desempenhar este papel.. senhoras e senhores. ele ficava destroçado. pois é um ritualismo pelo qual não estou em dívida para com predecessor algum. no seu paradoxo encontra-se o núcleo da liturgia criativa . estás preparado.diremos .Vacuolizador. uma antiga visita da nossa casa. Ela peidava- . e porque esta filosofia se ergue como a mais íntima na existência humana... mas protesta: é nãorevolucionária. era desconfiado nos exames e imprevisível no amor.. Mas. e é uma visão de que não reconheço causa alguma.. meu amigo. excepto toda a humanidade. Compreenderás tudo isso após algumas sessões. oh. .na libertação.

Muito obrigado . Sagoe. Mathias. noutras ocasiões. . Sagoe parou e. por razões de pura estratégia política. fechou o volume com um estalo. portanto. acabavam por encontrá-lo sempre em Isale-Eko.. ao ver a boca aberta de Mathias. . a sua localização equivalia à protecção fácil dos rufiões locais. E chamava a família para o testemunhar. sor. Podia jogar-se a macaca entre montes de lixo e os mais medrosos viam a retirada cortada peias águas sujas que as donas de casa lançavam fora. que procuravam o exotismo local. assim. desenvolvi uma reconciliação espiritual com um mundo de tensões e discórdia. Era uma peidadora imensamente religiosa e vangloriava-se. aventurando-se no seu escuro labirinto.. O Independem Viewpoint possuía um enorme edifício nesses subúrbios. o jornal em si era o órgão de um partido. se iniciou o meu sentido de dedicação ao estudo sistemático e objectivação do comportamento digestivo numa criança sensitiva. Gostaria de acrescentar que.Por hoje é tudo. realizou a sua primeira visita às instalações. experimentei uma autocomunhão. E Isale-Eko era chão rico e fértil para todos. admitiam depois que fora uma experiência única. Alguns estran-geiros. A minha concepção da natureza de uma oração deve. E. quando a causa da minha reclusão na retrete era uma necessidade não só fisiológica mas também psicológica e uma solicitação religiosa. ao que todos respondiam amen. enquanto esperava a chegada da totalidade do conselho de admissões. que sofria do mesmo distúrbio. Toda a grande cidade tem os seus bairros de lata e Isale-Eko simbolizava a vitória da moderna capital africana sobre as nações europeias neste aspecto da civilização. Mathias explicou: . Mathias conseguiu articular um: . segurando a garrafa de cerveja com afectado à-vontade. mascarando a sua impaciência de se retirar.Sim. ter começado nesses dias. mesmo quando estava já perto da cova. segundo Mathias. neste período da minha vida. E ainda mais marcante foi a influência da minha própria mãe. de que a voz de Deus era um vento que nunca deixava de lhe falar todos os dias após as orações vespertinas. aceitação e consecução da paz. uma resolução. Aqui termina a nossa primeira lição. A área fora escolhida. Rebelei-me contra a bem conhecida atitude de acabardepressa-e-sair.e abandonou Sagoe à sua tese.se como um animal.

A sua água nausea-bunda estagnava e enormes massas de excrementos flutuavam em círculos.. acaso trabalha às vezes no. isso é o que todos dizem da primeira vez. no máximo. até parece que engordamos com o cheiro. erguera o receptor na outra extremidade. que por duas vezes. dezoito anos. quando ele telefonara para o jornal. roçando e decompondo-se contra a parede. Mas olhe para mim e para eles.Sim. por vezes. Voltou-se para Mathias e exclamou: . Obedecendo a um impulso. . aquilo era uma retrete e então eles deitaram abaixo a parede e transformaram aquilo em escritório.Como podem trabalhar com este fedor? . E era difícil dizer o que dava a característica especial ao odor da cantina. de pó e fuligem. Sagoe perguntou: . Os seus movimentos sugeriam um chumaço de pensos hiaicnicos até ao joelho. A sua face embranquecida confirmava plenamente uma toilette diária de pó e nenhuma água.Hein? . aparentando. desesperado.Eu? . oh.E afastou-se rindo estrondosamente.. esqueça o que eu disse.Ah. A parede do edifício mergulhava a pique num canal que desaguava na laguna.Um construtor local veio fazer alterações no interior. E Sagoe desistiu. mergulhada num torpor. Parecia ter sempre as pupilas coladas ao umbigo. e os seus únicos movimentos externos consistiam em limpar a testa com um braço que revelava um sovaco coberto de malhas alternadas. Sagoe espreitou através da janela das traseiras. E permanecia embaraçada durante os vinte e oito dias do seu ciclo. indolente. podia ser a água gordurosa que ensopava os pratos da véspera ou talvez a rapariga suada que servia o pessoal. mas não foi capaz de o beber. parecia provocar a mesma sensação que aqueles sovacos semelhantes ao teclado de um piano? . E aproveitaram a parede derrubada para servir de soalho.Perguntei se. Sagoe pediu para ver a cantina.Costuma atender o telefone? . não é você a telefonista? . As duas metades da chávena mantinham-se juntas devido à porcaria acumulada numa profunda racha. brancas e pretas. A parede estava podre até ao chão e então eles trouxeram uma mulher gorda para se encostar à parede. Pagou um café. Pois como poderia explicar-lhe que a voz pastosa.. Antes.

. O som viera da direcção do canto da recepcionista. . Agora só falta chegar um. Sobressaltaram-se ambos quando. a jovem começou a debater-se entre as dobras. .Ela ainda agora estava aqui. Por acaso. Oga. não se afaste muito.Onde esta aquela cadela? . olhou Mathias. Como uma louca. exclamando sufocada: . . não faça isso. ao murmúrio das máquinas. O som chegou novamente. e desta vez Sagoe viu a lâmina de uma faca cortar uma linha recta ao longo de uma parte retesada do tecido.Cá está ela. tinha-a bem agarrada. apenas preocupada em pôr a cabeça de fora para respirar. a cadela esquiva. minha menina. . E tal como uma máscara que é arrancada. passou completamente entre as pernas dele e ninguém mais lhe pôs a vista em cima nesse dia. mas Mathias limitava-se a rir entre dentes. O melhor é vir já. o longo pano tombando sobre uma testa alta. Uma cabeça feminina irrompeu da tenda. ela mergulhou sob a mesa. batendo a sua agbada sobre a mesa.Quem é o gigante? . Em vez disso. mas já não se via ali qualquer recepcionista ou a sua secretária.Vasculhou as dobras de tecido. no momento em que imensos volumes de tecido avançavam para a engolir novamente.Ah. mais áspero e mais prolongado. Houve outro Hr-r-r-r-r. procurando detectar o artifício. mas não localizou a rapariga aí enterrada. quando as mãos dela encontraram o rasgão original e uma das mangas da agbada do Dia da independência de Winsala se separou totalmente. . . o chefe Winsala acaba de entrar. a tenda caiu subitamente para trás e um boné ikori. Anda cá. Mathias permanecia segurando a bandeja com dois cafés e ia exclamando: . Sagoe viu apenas uma tenda feita de tecido de Ancara com uma inscrição: “Independência nigeriana 1960. Mas agora já nada deteria a rapariga. ele está a estrangular-me. se sobre-pôs asperamente um repentino H-h-r-r-r e um som abafado gelou Sagoe da cabeça aos pés. .intimidou o chefe WinsaIa.Vou-me embora. um som formidável.O-ko-ko-ko-o. baloiçou-se quase dois metros acima do solo.Chocou com Mathias ao passar a porta.” Espantado. Mathias. Não posso esperar mais tempo pelos membros do conselho.Socorro.Oga.

Aí se encontrava instalado o único aparelho de ar condicionado do edifício. que se reclinava para trás. compra dois cates para cada uma das mulheres e pasteis de salsicha. O chefe Winsala introduziu as mãos nos profundos recessos da vestimenta e trouxe à luz uma mão cheia de moedas. Ela ainda não o conhece. põe-te a andar. quando conseguiu controlar o seu regozijo perante a surpresa de Mathias. Mathias interveio. Ele andou nos copos e agora são como David e Golias. condizendo com as paredes. este café acabou de ser feito. aquela é a nova recepcionista. A sala do conselho. Mathias aproximara-se dele.Oga. a princípio não sabia que era o senhor.És um belo malandrete. A sua vez chegou meia hora mais tarde e Sagoe pensou: “Aquela Dehinwa tem muitas vezes razão. Mathias. . . Vai lá comprar cate para todos os tipos que aqui estão. Naquele estado de profunda amorosidade alcoólica.. contrariava tudo o que se via nos outros escritórios. . aproveitando a oportunidade. um mundo à parte. outro qualquer que não o chefe Winsala não se susteria de pé sob tão grande bebedeira. Que vou eu agora dizer ao revisor? Mathias sabia o que fazia. Inclinava-se para trás mais do que qualquer igunuko poderia gabar-se de ter conseguido e o seu peso tomava a exibição ainda mais impressionante.Nova recepcionista? Não admira. que abrigavam as ventoinhas quando estas não estavam em uso. Cada lugar consistia numa cadeira de braços. . contrastando com o próprio edifício que fora apressadamente reforçado para passar no segundo exame de um inspector subornado. as paredes eram cobertas de madeira e havia pequenos cortinados. Vamos. hein? exclamou o chefe. . giratória.Que se passa hoje com aquela mulher.E de novo dançou como uma cadeira de baloiço. chefe. Foi interrompido por uma violenta palmada nas costas e o café entornouse todo sobre a bandeja. .” A sala para a qual o mandaram entrar poderia ser um salão para banquetes. e a mesa era no melhor mogno: o arranhão de um alfinete na sua superfície seria tão evidente como uma pegada de .Chefe. Uma carpete de pelúcia engolia todos os sapatos com menos de três polegadas de sola.O chefe Winsala que mencionei mesmo agora. . Olha.Chefe. nos apenas desprezamos os pequenos criminosos.

Se só quer mijar. todas de cores diferentes.Não quer que lhe enviemos o aparelho para o seu país? . sem discos. Voltou-se para o corredor onde cinco outros candidatos esperavam e enviou um em seu lugar. E suspirou. o director comentou para o secretário particular: . . que perse-guiam as pessoas através das poças estagnadas da última estação de chuvas e tinham o poder de as admitir neste monte de esterco. foi procurar Mathias no cubículo do revisor. Ainda não o chamaram? . Bem vê. não quer vir ao meu hotel mostrar-me como funciona isto? . na sua décima primeira missão em torno do globo. .Queria eu dizer que podia ir com as instruções ao meu hotel. um apopléctico aparelho de alta fidelidade.disse ele -.Arrastando atrás de si o seu longo séquito de tradicional esplendor. conferindo-lhes os sinais exteriores da materialidade. Seguidamente. . claro . . vamos à laguna ali atrás.Ainda não. espanhol e árabe. É onde todos fazemos.elefante. vendo o interior para Ia da porta entreaberta. era isso mesmo. explicar-me tudo isto. . cujo rádio era a única peça usada e apenas para ouvir as notícias.A Fraulein vendedora felicitou o seu bom gosto e ele pagou a pronto com traveller's cheques.Não.Também tem instruções em inglês . Diz-me onde é a retrete. Oga.Onde é a casa de banho? . O rádio tinha nove luzes que piscavam. Este rádio era o orgulho do director-gerente. e Sagoe saboreou a palavra enquanto Mathias o guiava lentamente até à retrete.Como estas raparigas alemãs são estúpidas! Sagoe parou. Mathias. . Na sua visita à Alemanha. . Junto de cada assento havia um bloco de orla dourada. Num canto.informou a rapariga -. que lhe recordava um grupo de parasitas iletrados. eu não sei alemão. embora ninguém tivesse ainda descortinado o que significavam. Materialidade. dizendo: . tem classe.A-ah.Tem classe. untuosos e irritantes.concordou o director . e em francês. formando ângulos escrupulosamente iguais com a beira da mesa.Claro. . perguntando a si mesmo se teria de se submeter a isto. quero um sítio onde me possa sentar. a grandiosidade da coisa impressionou-o e apenas conseguia tartamudear: .A propósito .

. . há outra. o seu companheiro um irreprimível gracejador. rindo à gargalhada. finalmente.Sentar-se para mijar? Essa é boa.Eu vou.disse. apenas a retrete da estação radio-fónica o inibira tão eficazmente. a vontade passou-me. Mathias. Como se senta uma pessoa numa latrina? .Está bem. .Sagoe pressentia que podia perder um amigo se confessasse a verdade.O quê? Não há outra retrete onde possamos ir? .Não.Ah-ah.A não ser a das mulheres.Sento-me onde? . eu vou.. . . que boa piada. Sagoe chegou a recear que tanta gargalhada lhe fizesse mal. Mas sente-se ali.Hein? Quer dizer que eles entraram em greve? .Vamos embora . É lá em cima. Oí-i. a exasperação na voz de Sagoe traíra a verdade. Sagoe deu meia volta. . exclamou: . em si mesmo. hilariante. . vamos tentar aí. As suas paredes competiam com as da estação radiofónica em manchas lambu-zadas de matéria suspeita. oga..ia dizendo -. não.Oga. .Por vezes a minha barriga prega-me destas partidas. não gosta do local. mas o olfacto de Sagoe chegou lá muito antes e a visão de bocados de papel de jornal húmidos. arrastando-o à força. o-oh. Desde que regressara.e curvou-se para diante. Às vezes a vontade volta. É pena. Vamos rir para outro sítio qualquer. Já os avisei . Juro que nunca tinha ouvido uma tão boa. O chefe da redacção tem a chave. Mathias ia à frente. Oga. Os tipos das limpezas também têm e às vezes usam-na. espantado.Senta-se onde? A-ah. . Não regula bem. .E a graça fê-lo contrair-se. Rindo com os modos desenfreados de um homem que considerava. os intestinos paralisaram imediatamente. mergulhados em urina..Julguei que o Oga quisesse cagar! .Na realidade . Mathias não se deixou iludir. pois e o único que temos. confirmou a primeira impressão. A derrota era completa. .Deixa lá. .. Mathias liderou a retirada.. Esta cisterna estava empastada e inundada. mas é só para membros da administração e tipos importantes.

Nos primeiros minutos. como todos os conselhos. com autêntica devoção vacuolizante. Segundo o sistema de Sagoe. Eleições perdidas. uma adminis-tração que. Sagoe encaminhou-se uma vez mais para a sala do conselho. mas. Sagoe continuou a tentar adivinhar por que razão Sir Derin preteria usar o seu uhetiaja de través. e a primeira questão apanhouo de surpresa: . Estando sempre coberta. concubinagem ministerial.Por que quer este emprego? . . outros procla-mavam que era rematada por um ponto triplo: outros ainda. de membros de compensação. tentaram descobrir o seu barbeiro e interroga-lo. tinha uma cabeça estreita. Qualquer dia. e não curvadas sobre cada uma das orelhas. outra feminina e uma para a administração neutra.de que é arriscado. Um rosto não exibia a vacui-dade e desprezo gerais pelo mérito dos Cavaleiros da Távola Redonda. como recém-chegado ao pais. O milagre era Sir Derin não ser idiota. mais curiosos que os restantes. como é normal. parasitismo ministerial. Com crescente respeito pelos seus futuros superiores. cheia. não podia ser totalmente desprovida de alma. Na sua pessoa havia algo de insólito. Tratava-se de um simples abetiaja. apadrinhamentos ministeriais.. hein? E assim era. baju-lação geral. não ouvira ainda talar do famoso crânio de uma da lista de mitos que o rodeavam. Sagoe entre-teve-se a encaixar cada uma das faces em cada aspecto de compensação e descobriu que um rosto sobressaía entre todos. Era mais uma confirmação. pois esta era a conformação média da cachola dos cretinos. apoio financeiro. acabam por ser apanhados. que se ia reduzindo cada vez mais na parte de trás. recrutamento de malandrins.Por favor. de aspecto sábio.Há só essas três retretes. Esta singularidade. sente-se. Era o boné.. Emergia tranquilamente no extremo oposto da mesa: um par de olhos amarelos visto-riavam-no por cima dos aros prateados de uns óculos fora de moda. alguns diziam que terminava num orifício. como a cabeça esculpida de um ibeji. Uma masculina. nomeações falhadas. uma verdadeira peça de frenologista. mas posto de modo a que as abas estivessem à frente e atrás. trancava uma retrete para autocomunhão privada. . Sasioc estudou-a.

Sagoe perguntou a si próprio se algum dos presentes saberia que um aparelho de ar condicionado pode ser regulado. Por que quer este emprego? . creio que nós também não devemos saber os motivos que o trouxeram! . . Voltou-se. Nos vários anos que já tinham de conselheirismo profissional. O director-gerente expressou-se com à-vontade: . Tal como duas metades de uma fava. O padrão normal destas sessões tora profundamente alterado.e o director-gerente olhou em tomo. cuja pata poderosa embalava agora um copo de u isque. obtendo a confirmação de que a espera já ia longa. Chang Kai-Chek tem exactamente este tipo de chávenas e pires. .Responda á pergunta. ena . Parecia que a entrevista estava concluída antes de ter principiado.Então? . Estremecendo. Sir Derin dirigiu-lhe uma repreensão tão azeda sobre a sua leviandade que Winsala se refugiou apressadamente na amizade do armário-bar. . O seu olhar encontrou o do chefe e o velho pirata piscou-lhe o olho.Ena. sorviam o chá. excepto o chefe Winsala.E Sagoe acenou que sim.Não sei .Bom.Você disse que não sabe? . Sagoe compre-endeu que Winsala votaria em quem quer que fosse que colocasse um copo de uísque perto dele. . apesar do delicado serviço da China pelo qual todos. A reacção foi unânime e de completa incredulidade. Apenas o chefe Winsala permanecia imperturbável. o chefe Winsala era o único que tirava partido deste conforto do Conselho. encarando o seu inquiridor. se nem o próprio candidato sabe porque veio à entrevista.disse. comentando: . A tentativa de negar o seu irmão gémeo revelava-se inútil. o processo tornara-se um misto de escárnio e enfado. D director adquirira o serviço na décima missão económica ã China americana: e doara-o ao conselho. ali estavam o paquidérmico sistema de alta fidelidade e o director-gerente. Todavia.disse Sagoe. nenhum deles jamais deparara com algo que se assemelhasse a ignorância de Sagoe. Sagoe viu o armáriobar aberto.Sabem.Veio do homem sentado ao lado do chefe Winsala. .Isso é o que se pode chamar uma resposta honesta.

E tenho a certeza de que é um jovem inteligente. .Faça favor de sair. que nos interessa isso.Não.Deixe-o ir-se embora. . brotando da sua pele glóbulos gordurosos em estádios extremos de putrefacção e. que o senhor estava a começar a achar que cometera um erro.Julgo que sim. suponho que é uma pessoa educada!.Um diploma não faz um doutor. Queremos pessoas que respeitem os seus superiores e não rapazinhos presumidos como tu Dizes que nada pediste.Julga que viemos para aqui tolerar a sua pretensiosa imprudência? Escuta.. . senhor. .Calma.Meu rapaz.. mas acabou por decidir deixar passar aquela em branco. .Estes hadameeos julgam que precisamos muito deles.. entraste aqui pedindo um emprego. . Houve uma quebra na segurança de Sir Derin.Pensaria. .Agora.. Os teus superiores pedem-te então que te vás embora . senão ponho-te na rua. Sir Derin interrompeu-o gravemente: . lhe respondesse “não sei . Sagoe ficou silencioso. possivelmente. ao perguntar-me porque quero um emprego.Não pedi nada. Como pode realizar-se uma entrevista com uma pessoa que não leva as coisas a sério? . Ora bem. . rapazinho. . . E o director soltou um longo assobio..Não me interrompas quando estou a falar. espero que não pensasse vir aqui só para nos fazer perder tempo. meu rapaz.Se me dão licença e Sagoe ergueu se para sair.Não é preciso ser modesto. estou seguro de que se considera um rapaz inteligente.Foi a vez de Sir Derin falar: . A carcassa do director-gerente inchou. que pensaria se. através da sua garganta. senhor presidente. ..Isso depende das pessoas com quem estou.. como um rapaz inteligente: se você estivesse sentado aqui e eu estivesse onde você está agora. . irrompeu uma torrente ininteligível. só porque tem um diploma. . diga-me honestamente..

assim como uma árvore não faz uma floresta. .e acrescentou . salvo a de Deus.. o sábio e o seu protegido..O presidente tem razão . por vezes. O chefe Winsala tornou-se bastante imaginativo naquela nova atmosfera.É o erro que todos estes rapazes cometem. e Sir Derín puxou a aba do abetiaja para trás e sentiu-se confortado por ela lhe acariciar a nuca: os advogados conheciam aquele gesto..A sentença teve o efeito apaziguador de um oráculo. essa magia de conhecer um homem independentemente das suas roupas.. se retirava da sua presença. mas o presidente deteve-o com um sorriso indulgente e um abano firme da cabeça cónica. de diante d'Ele.. . acima da vulgar humanidade que tremulava diante dele. Ele. E mesmo essa. O director acalmou-se e na sala imperou o silêncio e a atenção.. por vezes. da sua fingida humildade ou contrição? Que era ele senão o divino oráculo que penetrava os corações dos homens e desnudava os seus temores e paixões ocultos? Ele era inatacável. Sir Derin retraiu-se como se o tivessem atacado traiçoeiramente. como se houvesse uma relação especial entre os dois. Dele era a última palavra.. que nas profundezas do seu desespero tentava por vezes ligeiros assaltos à dignidade do juiz. sim. O director-gerente acenou aprovativamente. quando ele os derrotara.Não é bem a mesma coisa. Ele! Eram assim os dias passados. Tal como aquele atrevidote que. E parecia ansioso por agradar.A-ah. cabisbaixo. sentindo-se à vontade ao ver restabelecer-se a sabedoria dos decanos. chefe Winsala. não se pode dizer que saiba avaliar bem o carácter das pessoas. quando a Morgue puxava a sua peruca para trás e movia o pescoço contra a cauda dela numa . Quando ele entrou.. . Um diploma não faz um doutor. senhor presidente. a Morgue. nesses momentos ele perguntava a si mesmo se Deus era mais do que isto. Queria simplesmente dizer que as aparências iludem. um mau juiz de caracteres? Que outra coisa adquirira nos longos anos de tribunal senão esse talento. mas o director estava absolutamente perdido no seu glorioso momento de saber comum e não podia ver a passagem de memórias dolorosas através do rosto de Sir Derin. eu fiquei com a certeza de que este era o homem que queríamos. . varrendo-os duramente com o olhar onde não luzia qualquer piedade.

Oga. . surgiu de uma porta três metros à sua frente.Lamento o que aconteceu ali dentro. Sagoe disse: . Sagoe murmurou: . Não se importe com o que sucedeu ali. . . um homem perseguia-o.É verdade. mas não o conseguiu imediatamente. confirmando mais uma vez as profecias vacuolizantes. Hotel Excelsior. se tiver. . . que aconteceu? Houve luta? O seu perseguidor alcançou-os.Estou a ver.Chamo-me Nwabuzor. deixe ficar a sua morada e o número de telefone. ofegante. . para ouvir o que estão a dizer e saber com quem terei de lidar depois. Sou o chefe de redacção e no entanto. emergindo no corredor.E Sagoe não conseguia reconhecer aquele rosto. enfurecido.Fez uma pausa para recobrar o fôlego. Sagoe. podemos conversar mais tarde. Nwabuzor não o compreendeu.carícia lenta. Sagoe apertou-lhe a mão. Nwabuzor antecipou-se-lhe: .Sr. Estendeu-lhe a mão de novo. e o que me chateia naquele conselho. o ubíquo Mathias. mas estava a ouvir.Oh? . Era então que retrucava. era sinal de tempestade. . Eles costumam eliminar os melhores. . forçando-o a parar.Ou. É uma tareia ingrata. eu devia voltar já para lá. estendendo a sua mão. Mathias ofereceu-se: . . pois Sir Derin estava baralhado. Tenho de escutar as escondidas junto da porta e tentar tirar as minhas próprias conclu-sões. numa chuva de insultos ao brilho que apagava o seu. mas Sagoe limitou-se a apressar o passo.Eu tomo nota. sou o chefe de redacção. não é verdade? Por isso. isto é uma prova de atletismo? Qualquer outro pensaria que o senhor fugia do diabo. compreende? Importa-se de vir comigo ao meu escritório? Sagoe tentou reprimir a pressão dos seus intestinos. acabo de chegar do estrangeiro. Berrando o seu nome. Com efeito. .Estou num hotel. Mathias. Só depois procuro convencê-los sobre quem devem admitir. Compreende. Sagoe. não permitem que participe na entrevista. eu não estava lá. se preferir. óptimo.Óptimo.Silenciosamente. vendo apenas a sua evidente impaciência. sentiu novamente os apelos dos seus intestinos. Sou obrigado a isso.

Preciso urgentemente de uma casa de banho.confessou -. já dei por isso várias vezes. . hoje Deus apanhou-me em flagrante. Quando uma pessoa se senta ali. não sou capaz. sabes onde guardo a chave no meu escritório.Oh. Do bolso tirou uma longa cadeia e inseriu a chave. desculpe..Não.Obrigado. eu ia a correr em busca do hotel mais próximo. esquecendo mesmo o subterfúgio de ir.Está a ver o problema? Como pode alguém cagar numa sala com carpete e tudo... . Mas.. .Eu não ia juntar um insulto a outro. Que outra coisa podia acontecer numa sala que parece uma sala de visitas? Mathias escancarou a porta e convidou-o a entrar com uma vénia: Está a ver? Sagoe acenou afirmativamente e o outro insistiu: .Que tu usas.E prometo telefonar-lhe amanhã à tarde o mais tardar. . . obrigado. de cabeça baixa. Amanhã telefonar-lhe-ei e talvez nós possamos encontrar. tal como lhe fora dito. . Soltou o suspiro de um homem tremendamente incompreendido e resignado. A confusão de Mathias era verdadeiramente patética.. Sagoe interpôs-se rapidamente. . Acompanha este senhor à retrete que tu usas. Eu já vi a retrete do pessoal.Sim. Mathias. Sagoe já mal o ouvia. Estava tão abatido por se ver descoberto que se dirigiu directamente para os lavabos. sor. Só então reparou no que fazia e um sorriso envergonhado espalhou-se-lhe pela cara. Vai buscar a chave e acompanha este senhor até lá. não vou prendê-lo mais.Para lhe dizer a verdade . para não falar na madeira encerada? Cá por mi m. . a barriga até perde a vontade. Tudo tão limpinho. N wabuzorsorriu. e eu estive aqui a detê-lo com a minha conversa. a situação interna tomara-se: fazer ou explodir. não sei como se pode cagar aqui.A-ah. Eu tenho de ir a correr ver o que estão os grandes a fazer. para dizer a verdade. O Mathias vai acompanhá-lo à outra que mantemos fechada à chave. Mas por que procurar um hotel? Mathias. ao escritório do chefe de redacção. .Eu? . e indicou o caminho até à retrete neutra. .Então.

Ah. o seu comportamento. o sinal OCUPADO. E ele gostou muito de si. importado pelo director-gerente na sua sétima missão económica à Suécia. ah. lamentando: “Este tipo e o Mathias são dois génios mal aproveitados.Venho para aqui ler o jornal. E Sagoe cerrou finalmente a porta. Era um sistema automático de purificação. não sabe quem eu sou? ..Então por que tens um duplicado da chave? . . correndo sobre as espessas carpetes até ao assento de baquelite rosa na íntima alcova. Que se passa. suspirou com pesar. ah. . Nem a sala da administração cheira tão bem como esta. sente-se. o que Winsala achou meramente engraçado.. este simulou não o reconhecer.Lamento. soprou junto do seu pescoço. Eu sou membro do conselho que estudou a sua resposta ao nosso anúncio. ah. E o cheiro aqui dentro é o melhor que há em Isale-Eko. Mas Mathias manteve a porta aberta por mais algum tempo. mais tarde. negligente e recém-chegado. correndo o fecho que tornava visível. ah. vamos. Deixe-me refrescarlhe a memória.” Mas.Oga.Obrigado. indicam que é jovem.Isso vejo eu.Obrigado.Ah. mas não sei. As suas maneiras.Há-de compreender. Estava instalado numa profunda poltrona quando Sagoe apareceu e. . . ah. .. Sei bem quando ele simpatiza com alguém. a princípio. no auge da sua cordialidade. então cá está o sr. . Você foi um dos nossos entrevistados na manhã de anteontem.Não compreendo. Mathias.Um dos vossos quê? . . do lado de fora. . uma ligeira brisa perfu-mada.Winsala ergueu o copo vazio. enchendo a luxuosa decoração da ante-sala. Sagoe! Sente-se. . . procurou-o no Hotel Excelsior. vai ver que consegue aquele emprego.A propósito. . O chefe Winsala. há-de compreender. Este é o único sítio onde um homem pode estar descansado. E Sagoe. ah. fantasmagórica. a inevitável conclusão. eu bebo genebra. Imediatamente. sem ser incomodado.Foi nosso entrevistado. Sagoe pediu desculpa e chamou o criado. Acabo de regressar ao país. Mathias.

durmo. Você mesmo viu o número enorme de pessoas que vieram ser entrevistadas para aquele emprego. para você estar a viver num hotel destes. ah. algo relacionado com construções ou algo. após a genebra ter aparecido. à tarde. os modos de Winsala se avivaram. agora que já nos conhecemos. acontece sempre a mesma coisa. ou no seu caso foi da América? De qualquer modo.Ora bem. Você portou-se muito mal no outro dia. Da Inglaterra. ha. genebra. é milionário. por isso toda a gente acorre às vagas de emprego com um ou mais na mão. . Muito mal mesmo.. Gosto de ver rapazes impulsivos terem êxito. com a independência. bebo uisque. andando à procura de emprego. . também demonstra sensatez.. todos os oyinbo foram postos na rua. não bebo nada. E concedeu a si mesmo uma longa pausa..Hum.Ena. sim. À noite.Sr. . ena. o caso é este.De manhã. Sagoe escutou trivialidades irrelevantes do mesmo jaez. sou um homem franco. .. . E você. rapazes acabados de chegar. agrimensor. . mas isso foi há muito tempo. que apareceu pouco depois com outra genebra.Muito inteligente. .Oh. penso que devo dizerlhe. O diploma já não é um passaporte. É certo que.De qualquer forma. as coisas são sempre mais difíceis do que desejaríamos.Foram muitas? . Outrora. era um indicio de . o seu pai deve ser um homem rico. Até a genebra chegar. E perspicaz.Há muito que ele desenvolvera esta arte e Sagoe não o viu fazer sinal ao criado. . ah ah ah ah. Sagoe. .Com efeito. Os jovens devem ser independentes dos pais. O chefe de redacção disse-nos na reunião que você é especializado em. um diploma valia alguma coisa. Para onde a conversa se encaminhava tomara-se óbvio.Olhou em volta e fez estalar a língua. mas agora toda a gente tem um.. Os diplomas são uma bagatela. . sim. Você mesmo sabe que não tem experiência para este lugar. Sagoe aguardou pacientemente.. escolher a sua própria vida. E ontem ainda mais. . realmente? Não sabia que tínhamos milionários na Nigéria. e Sagoe esperou docilmente até que.Ele não o anuncia. vêm todos inchados com as suas pessoas. Infelizmente.. Mas convosco.

hum. e a proximidade deste colóide desprezível tomava a genebra a poção mais repugnante da sua existência.. compreende o que quero dizer? Winsala fez sinal pedindo outra bebida.Se wa s'orno fur wa? . A genebra podia ser famosa como o segredo dos velhos sem idade das ribeiras nigerianas e o único antídoto do reumatismo dos pântanos.Quanto? Winsala pegou na genebra. abriu as mãos e sorriu.. . mas era difícil imaginá-la deslizando por aquelas tripas velhas abaixo. parecia mais provável que descesse até às suas articulações raquíticas e Sagoe sentia-se nauseado cada vez que Winsala fazia estalar os lábios. . Prefiro as pessoas francas.Há quatro de nós que é preciso convencer.. muita diplomacia.Quanto? . cinquenta libras? Havia muitas formas de fazer o jogo do outro. Parece-se mais com os americanos... disse: . .E. digamos que é algo para bebermos um copo. só depende de si. tal como em diversos outros jovens da sua idade. alimentar-lhe as esperanças como a uma criança esfomeada. você aborreceu imenso o nosso conselho. Hum. cheios de subtilezas. Winsala parou de passa a língua sobre o rasto de genebra nos lábios e assumiu novamente uma pose de homem de negócios...Diga-me apenas quanto. eliminando-as: por fim. como eu. franqueza acima de tudo. a situação ainda pode ser reparada. havia um centro traumático de óleo de rícino. . Se fosse só eu... uma pausa depreciativa. mas muito mais perigosos quando dizem “Sim. obrigado”. bem. se faz favor” ou “Não.. . Afinal pouco importava.perícia. quando o aroma da genebra foi mais forte. Eu também sou assim. .. Seguidamente. rindo. Sabe. Mas onde teria ele arranjado aquela ideia do agrimensor. como é óbvio. que tal. gosto dos americanos. especialmente o nosso presidente. Mas. o bastante para a vítima se compenetrar bem da sua insuficiência. Ah ah ah ah ah.. e Sagoe percorreu-as mentalmente uma a uma. não são como os ingleses. Escondido no íntimo de Sagoe. Sagoe encolheu os ombros.Como você é novo.Não lhe resta muito da diplomacia britânica.

O criado de casaco verde também parecia conhecer este homem.. visíveis .Meu caro.. o melhor é olhar e ver se o pai leopardo. era mais que isso. .. dizendo-me que o lugar já é meu? Winsala pareceu sucumbir e a sua confiança desvaneceu-se.Ora assim é que é. frustrado. Vou confessar-lhe um segredo e. Segunda-feira você vai receber outro telefonema do seu chefe de redacção. A.Suponha. As almofadas orientais. dizendo-lhe que a administração rejeitou a sua nomeação. Havia algo familiar naquelas linhas cromadas. O crepúsculo caía e as luzes na rua começavam a bruxulear na sua eterna luta contra um poder incerto. sim prosseguiriam durante metade da noite e então talvez o empregado de serviço descobrisse a bobina deficiente e a tirasse. faremos uma aposta e veremos quem tem razão. não está alguns metros atrás. Mas não suportava por mais tempo o cheiro do outro e pôs-se de pé quando o criado se avizinhou. Não acha que devo ter tido o senso de falar com o Nwabuzor antes de vir aqui? Eu sabia que ele lhe ia telefonar. Um comprido carro americano estava estacionado quase por baixo da varanda. Sagoe. mas cabe-lhe a si assegurá-lo.. . Dirigiu-se a varanda. suponha que eu lhe dizia que recebi um telefonema do chefe de redacção.Vou ver o que posso fazer. quase reagindo antes de Winsala ter levantado a cara no jeito especial. . deixando a rua na escuridão por um mês ou mais.. Sagoe estava tão atento ao rosto do outro que viu o sinal para pedir a genebra. durante uns bons sessenta segundos. concluiu que o chefe não se deixava derrotar facilmente. nunca dá resultado tentar enganar os nossos superiores. em pessoa. somos nós que temos a última palavra. O cheiro da nova bebida acompanhou Sagoe na sua retirada e apeteceu-lhe ter ali uma casca de limão para mascar. aspirando avidamente golfadas do ar da lagoa. Desta vez. se quiser. efectivamente. Que era agora substituída por um Winsala rindo às gargalhadas. O lugar está ao seu alcance. não há ainda quinze minutos. Bem vê. anda à procura de kola e não de tanwiji. olhos cerrados e a cadeira apoiada apenas nas pernas de trás. Quando o inspector sanitário espreita para debaixo da cama. igual ao do episódio amoroso. Quando um cachorro cede a passagem a um antílope. Ou não? Não era impossível que tudo tivesse sido uma ilusão.

haveria mais encontros destes esta noite. Era ele o culpado por se ter assenhoreado de segredos que nunca deveria conhecer. Uma vez. um homem dormia com a cabeça caída para diante. Para ele era obviamente bastante. mas para Sir Derinola significaria alguma coisa? Talvez vinte para Winsala e trinta para Sir Derin. presidente do conselho de administração. Ligou ao serviço de quartos e pediu que lhe enviassem um gin tónico e um limão fresco à parte. se entregassem a maquinações tão mesquinhas. símbolos familiares de uma opulência ordinária. com a aba triangular do abetiaja espetada heterodoxamente sobre o pescoço. um palhaço descarado :omo WinsaIa. provocaram-lhe náuseas. Valia a pena dormitar incógnito num carro com ar condicionado. Sir Derinola dormia pacificamente e Sagoe experimentava um sentimento de vergonha. Sagoe recordou o local . Seria o chefe Winsala? Sagoe olhou de novo a vaga figura na retaguarda que julgara ser o condutor. havia muito. . muito tempo.. Haveria outros conselhos de admissão e outras oportunidades. abordando-o e mostrando claramente aquilo que era. isentos de impostos.. ao domingo. Provavel-mente. lá em baixo. A genebra. O boné era inconfundível. que parecia ter-se-lhe agarrado à roupa. quiçá duas vezes por mês. lá em baixo. Um provento ocasional sessenta por mês.É melhor preparares-te. contemplando o tecto. Fazia sentido. Sagoe dirigiu-se ao seu quarto e deitou-se na cama. E Sagoe sentiu um intenso embaraço por ser testemunha da descoberta cruel de que homens cuja idade exigia respeito. Winsala apenas pedira cinquenta libras. Egbo e ele discutiam o problema na catequese. Mas como.O Independem Viewpoint. garatujando as mesas com o lápis. quando abandonara o edifício. A sua mente concentrou-se na fria realidade dos números.através da janela da retaguarda. Agora Sir Morgue. mas os seus desígnios revelavam-se impiedosa e cruelmente. Sagoe não o relacionou logo com a personagem que acabara de deixar. . Esgueirara-se entre aquele pára-choques e a parede. e a astuta cabeça no carro. tratava dos ajustes. sobre o peito. Winsala parecia-lhe o mais limpo dos dois. Sir Derinola. como começara aquilo? Afinal. enquanto um testa-de-ferro. nem mesmo lhe era permitido o limão depois do purgante semanal. A minha mãe vai a tua casa hoje e ela não me deixa chupar limão.

Um deles era o purgante semanal ou. Todavia. o papel parecia-lhe suspeito e exigiu que eles lhe trouxessem os livros. a solução fora encontrada.De sobra. Posteriormente. Egbo. de uma língua que. A tutora de Egbo casara recentemente e a mãe de Sagoe resolvera ensiná-la a combater as enfermidades infantis. O sábado era um dia angustiante para Sagoe e agora surgia esta ameaça de cenapodium sem limão. De modo que rasgou a margem de uma das folhas do seu Pilgrim's Progress e rabiscou nela. Particularmente. O professor guarda-o no armário dos remédios. dois dias depois.E por que não o alúmen? . o horror da náusea eterna.escreveu Egbo.E Deus também toma. havia a dúvida a ser esclarecida. E então Sagoe lembrou-se de uma ideia que o inquie-tava havia algum tempo e que lhe parecia urgente. . e tu. . duas páginas de Pilgrim's Progress a serem memorizadas até à aula do domingo seguinte. .Sim. Onde o poderei arranjar? . quinzenalmente.Há lá o suficiente? . ainda estava viscosa como um caracol. Houve um longo intervalo. Tragam os vossos corpos infinitesimais até aqui e aproveitem para trazer essa correspondência. Só sei que tu também vais ser proibido.Nós temos lá em casa. . Porém. Dehinwa estava sentada perto deles. No entanto. no mínimo. . . apesar das ameaças ciciadas de diabólicas torturas depois da aula. a punição foi leve. O caso não o incomodava muito. pelo que preferiu não investigar. mas a sua recusa em trocar os livros foi firme. Sagoe.E Deus que faz? Numa aula dominical de catequese até a criança mais estúpida acharia explicações legítimas e louváveis para uma tal questão. O catequista surpreendeu-os.Porquê? . Sagoe considerou o alúmen como hipótese. deve resultar. Mas a mãe de Sagoe estava sempre presente e persuadira-a de que Egbo era uma mercê divina para experiências de saúde..Experimente isso naquele diabrete durante um mês e veja a diferença que faz. .Não sei. pois a esposa do mestre-escola receava-o um pouco. os métodos preventivos.Tu. Ficou claramente desapontado. A mesa já estava coberta de garatujas e não tinham borracha. .

” E todos nós temos de responder: “Ámen. não tem de fazer estes tratamentos. Adivinho sempre quando ela o vai fazer. Mesmo diante de convidados.Ele mostrou-mos.Verdade? . então. até era capaz de pensar que se esquecera da última dose. . . Egbo deteve-se.. . . mas ela esquivou-se com ligeireza. . depois das orações da tarde. . por isso não precisa.A minha mãe é mais regular. bem alto e prolongado. .Só quando tenho dores de barriga ou quando liberto demasiados gases. .Ele não come. Dehinwa perguntou: . Sabes o que é que o farmacêutico me disse? Garantiu-me que agora fazem o rícino em comprimidos como os rebuçados.. Curva as nádegas para um lado e. mas os rapazes ignoraram-na.És mesmo tu quem libertas os gases? Tens de estar atento. as crianças.” Dehinwa exclamou: .. Na verdade. Sagoe sentiu a sua superioridade.Mas se o farmacêutico disse. É claro que Egbo tem sorte. Sempre. Sagoe deu largas à sua alegria.Querias saber se Deus bebe óleo de rícino? .Não te esqueças do alúmen. mas pouco depois sacudiu a cabeça. Sagoe tentou bater-lhe com a Bíblia. .A tua mãe não tem vergonha. . Dehinwa acercara-se deles. .Agora me lembro.Não servirá de nada. Redondinhos. a minha mãe continuaria a dar-me a dose habitual. Haviam chegado à porta de Egbo. Mas eu sei quando é ela. E.O cenapodium é pior. diz: “Obrigada. A mama vai dizer que não pode resultar tanto como o líquido. O meu vai ser de novo no próximo domingo. como os ovos de um lagarto. toda a gente foge. Senhor. sabes? A minha tia passa o tempo a fazê-lo e atira as culpas para cima de nós. ela tem de pedir o apoio da tua mãe.Se eu não comesse durante uma semana inteira. Quando o bombardeamento cessa.Sim. mesmo assim.

O farmacêutico vai concordar com ela.. . pensando que ninguém sabia da minha existência. Como souberam que eu regressara? Kola riu-se. exclamando: . .Uma ficha? A que propósito? . envolveu a cintura de Bandele com os braços e levantou-o bem alto. Os dois rapazes ficaram reflectindo por instantes. acabrunhados pela desesperança da situação.Pela tua ficha. abraçando-o por seu turno e gritando pala-vras triviais que nunca pensara vir a dizer: .Parou de repente e Bandele riu brandamente.No Foreign Office.O teu dossier enche um arquivo inteiro.Por que tens estado escondido? Confessa.Não mudaste nada. rindo . Sagoe pô-lo no chão. . . Sekoni antecipou-se-te por três meses.Sagoe deu uma palmada na coxa. Disse-nos que tinhas regressado.Só porque eu não quis trocar o meu livro pelo teu.. Não é voz corrente que és comunista? . . Depois. furtivamente.e Sagoe apressou o passo. se não é o gigante Alakuku! Nem um centímetro mais baixo e tão solene como a realeza britânica.Não te esqueças do alúmen . . ..Nem tu. olhando-se.. Kola inquiriu: . ultrapassando Dehinwa.. Alguém o despertou um pouco mais tarde e Sagoe saltou da cama alarmado.Depois explico. caíram silenciosamente nos braços um do outro.És o último a regressar. Ela correu atrás dele.Com mil raios.Oh! Ainda? Pensei que tivesse dormido mais tempo.Meu Deus. Bandele sentou-se na cama. . . afas-tando-se alguns passos.Sete e meia. recebendo a resposta: . que horas são? . Kola apareceu então e Sagoe soltou-se.. com desdém. . Sagoe estendeu a mão para a parede e carregou no interruptor. Durante um longo minuto ficaram parados.Egbo trabalha no Foreign Office.E andava eu a passear-me por aí. censurandoro: .Dehinwa ergueu a cabeça.. fazendo com que a cabeça de Bandele quase chocasse com o tecto.Meu Deus. . . Ou não sabias que tens uma? .Bem.Transbordando de alegria. Egbo há-de contar-te . Bem sabes que ele está sempre pronto a agradar à clientela. .

O que é aquilo? . não é nada sinistro.Combinámos encontrar-nos aqui às sete. recordando a visita do chefe Winsala A entrada deles pareceu coincidir com o auge de uma peça teatral de baixa qualidade. Ao descer o último degrau da escadaria. murmurando: . Bandele abanou a cabeça: . . esta surgiu.Os outros criados alimentaram a fogueira. ainda não o vi. suspeitámos que lá terias as tuas razões para te esconderes. .A noite é tua.Egbo ainda não chegou? .Bom.Vamos lá para baixo. Interrompendo a sua turbulenta entrada. esperando uma oportunidade. o criado esperava esto gesto. Obviamente. decidi arrumar a minha vida primeiro: arranjar um emprego ou decidir não arranjar nenhum. Recuou elefantemente. A ampla manga da nçInuUi subiu e virou na sua direcção. Subitamente. . Oga. O bar ficava no outro extremo do salão e um cacho de uniformes verdes concentrava as atenções sobre a cena. Apanhámos um engarrafamento na estrada de Ibadan. uma breve visita de cortesia e depois acabou-se. garanto. Simplesmente. para o bar.Esperem O chefe Winsaja parecia estar adormecido e um criado rondavao. responda-me. Por conseguinte. Um acidente horrível. para te fazermos uma surpresa. Sagoe deteve-se. Sabes. decidimos esperar uma semana ou duas. rindo-se ruidosamente.mais sobre isso.Não. .Mas. . Cada um à sua vida.Isso não é fácil. .Talvez não. . não queria que a minha família soubesse que eu estava de volta. para quebrar o aborrecimento. . Sagoe apercebeu-se de um silên-cio invulgar no salão. . Era óbvio que esta cena já se desenrolava havia algum tempo.Bem. Sagoe coçou a cabeça. Tinham algum plano para esta noite? .O que é que aconteceu a Egbo? Podia ao menos ter-me telefonado. A voz de Winsala era forte: . mas tenciono tentá-lo. Diz-nos o que queres fazer.

Winsala berrou atroadoramente: .Você é um atrevido. a varejeira verde apresentou-se novamente. todavia.Mas. tem de pagar primeiro aquelas que já bebeu. Nos obscuros recessos da fé de Winsala. Os criados tinham antenas sensíveis. faço com que o despeçam. A paciência de Winsala foi premiada. Em frente do chefe Winsala estava uma garrafa semi vazia. Não era um noviço. O cochichar dos colegas indignados ampliava o incidente para além dos limites Era o único som que se ouvia.Espera. aproveitara a ocasião para pedir uma garrafa de genebra.Não te aproximes de mim a não ser que me tragas mais genebra. Bandele.. aquecendo lentamente. Já a reduzira liberalmente a metade.. A bola da indignação fora-lhe passada e a varejeira não se apressou.a varejeira tentou espreitar os olhos sob o boné. Se me continua a chatear. um homem bem grande estava prestes a ser lançado no estrume e todos esperavam já a primeira torrente de insultos do criado.Mas.. eu queria fechar. notando a expressão do rosto de Sagoe. mas Sagoe demorava a regressar de bandeja estendida. . peco-lhe.Hein? Então está a dormir? . Oga. cercando-o. deitada de lado. A varejeira retirou-se ferida. embaraçados por adivinharem a humilhação que se ia seguir. sabia exactamente quando o impulso se perderia e a indignação se tornaria . uma mãozorra que estava vigilante subiu disparada e a bandeja voou. era um papel que ele compreendia e o criado voltou a avançar: . Sagoe ia regressai com cinquenta libras ou metade daquela soma e uma promessa de conseguir o resto. pairando em tomo de bêbados sem dinheiro. colhendo a varejeira na probóscide e acabando por tilintar sobre os azulejos.Conhece-lo? . Winsala parecia estar finalmente a dormir. Já lhe disse que estou à espera do meu amigo. perguntou: . Com a mesma segurança. . Agora desapareça. Oga. o zumbido indolente de um enxame de varejeiras ocupadas sobre algum fruto apodrecido. e o seu rosto passou por diversas expressões de fealdade. Os ordeiros clientes do salão viraram as costas. O papel de uma varejeira verde de hotel.

Junto do rebento de palmeira espetado numa metade de tambor de petróleo.. a confiança esfumada. estava Sir Derinola. ouviu um súbito roçagar de tecido e voltou-se com vivacidade na direcção da entrada principal.. com as imensas formas encolhidas. à medida que o ia adiando.. O eunuco sensato afasta-se das mulheres: o amanu-ense esfomeado aperta o casaco sobre a sua esguia cintura e quem dirá que a sua barriga está vazia? Mas quando o elegungun é desmascarado no mercado. a princípio.. mas este agora vai ver.. L'ogolonto. avisando-o de que Sagoe poderia voltar a vê-lo com o chefe Winsala. . Agba n't'ara. não é caso para regozijo quando a criança vê o pai nu. Agba n't'ara. resignado com o desenrolar de uma cena vergonhosa. Sagoe avançara inconscientemente. exclama: -fui eu quem te mandou ir?” O adúltero que marca encontros num quarto com uma única saída..Não quero que se diga que me rebaixaram. reflectia-se nele a angustia da indecisão. Quando o homem imprevidente pede emprestada uma cauda de cavalo envia. um lacaio: quando o criado regressa de mãos a abanar. ouviram-se murmúrios de aprovação.E injusto. Apercebera-se demasiado tarde do momento de socorro e. Intimamente.oca. a sua mente aconselhava-o a retroceder.. ter de ouvir uma coisa destas.Acho que é caso para a polícia. Trabalho aqui honestamente. Nenhum cliente tem o direito de me enfiar a bandeja na cara.. ninguém me deveria tratar como um cavalo. Atrás dele. reconhecesse a lógica decadente da perda de respeito próprio. como se visse no chefe Winsala o seu próprio destino. O chefe Winsala. a cada passo que dava em frente.. pesarosa. murmurou uma torrente de impropérios silenciosos enquanto a sua cabeça se sacudia. não está pedindo que o seu escroto seja pasto dos peixes de Ogun? Auba n'f ara. . Quando se ergueu. . esperou num espesso nevoeiro. pegando na bandeja caída. Viera ver o que ocasionara a longa demora e entrara no início da desforra.. Estes tipos importantes não respeitam ninguém. uma estranha espécie de fascínio. nunca mais esqueceria o seu semblante. E Sagoe nunca. degradante para um homem da sua posição. poderá ele então rogar a egbe que o arrebate para a segurança do igbale'1 Não lhe dirão que o bosque é só para os detentores do mistério? Agba n t'ara. inconcebível. Além do medo e da dignidade ofendida. a situação tomava-se ainda mais irremediável e. . Era. só para si.

Ponha as bebidas na minha conta. E pelo canto do olho viu Sir Derin ficar aliviado. que foi que você lhe fez? Diga-me. ninguém se lembra de que terra é. Pousou a mão no ombro do chefe Winsala.perguntou. ainda és meu discípulo? . . vai lá e não voltes sem o habitual. O mandarete enfiou a cabeça pela porta.. quando vem cá. isso não. Conheces bem o empregado do bar? ..Nesse caso.Não está cá. empurrando de novo a bandeja para as mãos do criado.Estou depenado. Sinceramente. Bandele fora ajudar Winsala do outro lado.. dissipada a jactância. Mathias. .. Nwabuzor telefonou a Sagoe na manhã seguinte. mas Sagoe fê-los dar meia volta repentinamente: . Eu disse isso mesmo ao. . Sir Derinola estava realmente paralisado meditando numa imagem futura.Ele é lá da minha terra.. tentou encolher-se atrás da pobre palmeira. Os seus olhares encon-traram-se. bem mais ameaçadora. não te deve ser difícil conseguir crédito.Você trouxe consigo algum feitiço da América? O presidente afirma que eu tenho de lhe dar o emprego.O que é que se passa? . . . .Oga. . acima de tudo. Duas. E eu não admito que me tratem assim. sor? .Então devia ter chamado o gerente. Quando viu Sagoe avançar.Mathias! Mathias! Vem cá.Chamou. que foi que você lhe fez? . . .Oga. incrédulo: . virar-se e encaminhar-se para o outro elevador.E que outra coisa podia eu fazer? Já passou a minha hora de saída. . repito.Vamos embora? O outro levantou-se humildemente. Isso é outra história.Não sabe que ele é meu convidado? .Mas.Mathias.Ele não quer pagar as bebidas. Quando é assunto de dinheiro. fala-me educadamente.. . Foi Sagoe quem desviou o olhar.Mathias.Vamos para o outro elevador. . O próprio governador-geral. todos os subterfúgios estavam inutilizados. .Oga? . E pare de gritar comigo.

estou. Mais dois mil como compensação pela cessação do contrato.. por enquanto.. Aquele cujo relatório reprovou a instalação de energia. .Oito mil. Vai lá. Na outra extremidade do fio. Nwabuzor? . . se quisermos.... ..Não percas já a esperança. Desejava falar com o presidente.. simplesmente.Mas tu não queres? . Enquanto Nwabuzor esperava o telefonema...Quero que oiças isto. estou.Desapareceu. daqui fala Nwabuzor.Está bem.. Há várias maneiras de o comprovar. Estou.. estou. pega naquela extensão. nada podia ser posto em causa. A tua história não perde o valor.. . soou a voz inconfundível de Sir Derinçla: .. Não faças essa cara. .Sinceramente. Caramba. . De qualquer modo. . meu amigo.A propósito.. A sessão com o chefe de redacção fora penosamente breve.Mathias. disse-lhe: . depois explico. Intitulava-se: Quem organizou a Jugo? Os factos eram bem expostos. Sagoe levantouse. Nwabuzor chamara-o ao seu escritório e dissera: .Isso depende..É você.. hoje é dia de leitura da Bíblia. Isso representa duas semanas de trabalho árduo. . .. Vou tentar. Espera. estou. conseguiste a história e o resto fica a nosso cargo. Bem sabes que para mim era quase uma questão pessoal. detestas mesmo esperar. . desapareceu. oga.. ..Desapareceu como? . Pelo menos. . A comissão de reclamações do pessoal aprovou uma reclamação dele por lesões sofridas no cumprimento do dever.Senta-te. senta-te..Estou a perceber. Adivinha quanto recebeu ele. o teu amigo.Cobriu o bocal com a mão: Depressa.Essa é uma má visão jornalística. cumpriste o teu dever. o perito branco. preferia deixar as coisas como estão. Sagoe abanou a cabeça.Na mão tinha um maço de folhas que continham a história de Sagoe sobre Sekoni. Em breve o descobrirás..Prefiro não ouvir qualquer explicação.

Bem. Sagoe baixou lentamente a extensão. desculpe.Bem. eu calo a minha. já as usámos. Sagoe estava espantado. senhor presidente.. compreendo.Então eles aceitaram um acordo? .É sempre o mesmo. E ele. encarando Nwabuzor. e enviam-nos uma cópia. realmente temos estado a coligir certas coisas sobre fulano.E. . A decisão está fora do nosso alcance. Antes de publicarmos qualquer revelação sensacional como esta. A respeito das “revelações”. . O chefe de redacção fez-lhe sinal paia que se sentasse.Claro que não. . por sua vez.Sim.Não foi uma sorte termos ficado com ele.Tu calas a tua boca. .Quer dizer que as devo adiar. Sir Derin manteve-se calado por algum tempo. não acha? . senhor presidente? A voz de Derin endureceu bruscamente: . . o caso passa pelo nosso advogado. .Fez um bom trabalho. quem trabalhou naquilo? . . consulta o presidente. Faz parte da protecção mútua.e desligou irritado. Agora já sabes.Não. bastante satisfatório.Continua. senhor presidente. senhor presidente. obviamente em atenção a Sagoe. .Sim. acabou-se. ele informa a outra parte de que dispõe de certas provas e dados. Se eles decidirem que podem suportar as consequências. Estou ansioso por aprender. ..Bom. porque Nwabuzor escarnecia claramente o seu interlocutor. Simples e claro. Ora. insistiu: . .Sim. um dos vossos elementos”. De outro modo. . respondem-nos que façamos o que quisermos.. Conseguiste tirar o presidente de alguma sórdida encrenca. . Nwabuzor prosseguiu: . o rapaz que veio da América? .O nosso novo homem. senhor presidente.Não.A propósito.Esquece-se de que fui eu quem lhe disse para o empregar? .Oh.Quer dizer aquele. replicam: -.Não quero falar desse assunto pelo telefone. arquive-as. senhor presidente? .Já sei o quê? . podemos usá-las agora? . senhor. .

Sei que pensas dever alguma lealdade ao teu amigo: crê no que te digo.Espero que não ponhas objecções se enviar isto a outro jornal. o jornalismo aqui é apenas um negócio como outro qualquer.imagino bem em que sarilho se teria metido Sir Derin! Porém. não. Esquece isto tudo..Não.Que posso eu fazer?” Sagoe pôs-se de pé. . Passei de um jornal para outro. . .E em relação ao meu amigo? Nwabuzor encolheu os ombros como que dizendo: . .Mas. Acredita que houve um tempo em que eu lutava por esses ideais. Concordaram numa troca de silêncios. meu amigo. Sagoe pegou no manuscrito. tiveste sorte? Mathias entrou com uma garrafa em cada mão. Sagoe pegou no seu volume in-quarto e abriu-o ao acaso. . pensando que Sagoe iria amadurecer. . . a tua investigação chegou a tempo. ... o teu amigo há-de arranjar outro emprego e tu logo esquecerás isto tudo.Sagoe. estou neste jogo há trinta anos. despedindo-me de cada um num acesso de virtuosa indignação.Essa é certamente uma boa maneira de encarar a vida.Anda cá. . . Só me deu crédito até depois deste fim-de-semana. os outros jornais não tocarão nisso. ora. A porta bateu violentamente e Nwabuzor voltou ao seu trabalho. O processo vai repetir-se e apôs o primeiro contacto compreenderão que já se realizou um acordo anterior. . Usaste o tempo que te pagamos. Sagoe.Estás bem. Mathias. . Mas. depois . Olha. não digas nada que agrave a tua posição aqui.Não se eu me demitir. . Nwabuzor abanou a cabeça. . . Um dia hás-de compreender que cada um tem de se defender sozinho.£ uma boa maneira e a única.Vou enviá-lo aos outros jornais. . não. Acredita. Tu fazes o que o teu patrão manda. escuta. senta-te. tu és nosso empregado. não deves lealdade a ninguém.Não.Esperou até a cerveja cessar de gorgolhar. e inútil. Escuta. . Biodun. sem esperanças.Nesse caso.Vou abri-las primeiro.Ele diz que não espera até ao fim do mês.. é o melhor a fazer. isso é propriedade nossa.Obrigado.

e o hóspede se esvazia sozinho. Em França. uma vacuolização retraída. gritei eu. carecia de completo conforto. No solo húmido e na vegetação molhada. Era. Eles converteram-se. intercalado com os chilreios dos pássaros.tem de ser . total relaxamento muscular. clamavam eles. A luz tem de ser suave aos nossos olhos. recordo hoje. Ainda hoje me revolta pensar Que fui de facto observado às ocultas nesta função individualíssima do homem.. O silêncio dos lavabos numa mansão suburbana inglesa. num tasco. Pior ainda. Pergunto-me agora se a questão alguma vez se resolveu. me retirei com um livro e uma pá para os bosques vizinhos .Abre-o.pois isto é incenso . é claro. Mas revelaram-se alunos interessados. para mim. Mas o silêncio húmido. E agora. Abre-o onde te apetecer. a vacuolização exige a arte e a ciência do homem. Dois estudantes em passeio seguiram-me um dia. quando a família e os vizinhos partiram para a sua labuta diária. Agora bebe que eu vou começar.. Aí construí um pequeno caraman-chão onde regularmente meditava. purificando-se do tabu ao gastarem. lia ou escutava meramente as melodias dos pássaros gauleses.como sapos desovando. o orçamento de três dias numa só noite. O purificador do ar . tenho de narrar-vos um episódio vergo-nhoso. pesado.. a súbita sensação de uma folha de erva molhada no meio das minhas devoções fazia-me saltar com medo de que uma cobra estivesse a tentar lamber-me os tomates. pelo que os iniciei inteiramente nos mistérios da vacuolização.havia ao menos essa redenção. Aí busquei em vão as emanações do silêncio. meus amigos. Concedi-lhes a minha absolvição e o vinho tomou-se generoso. curiosos de saber onde conduziria aquela combinação diária de livro e pá. . E o silêncio é para o vacuolizador como as emanações de ópio são para os místicos do Oriente. nas manhosas e dissimuladas manobras de répteis e arbustos. . para escapar ao estado humilhante dos lavabos das hospedarias. confesso. àquilo que. Isso e primitivismo vegetal. Mathias obedeceu. estava a verdadeira vacuolização. era uma experiência mística. até que. finalmente. era um mero sistema de recursos. tornava o risco de emasculação uma coisa de somenos importância. . Avidamente. os bosques espalhavam-se a perder de vista.Óptimo. o mito da sofisticação não é mais do que uma postura superficial e grosseira . como alguém que se habituara àquele prazer. Esse é um silêncio palpável.passou o livro a Mathias.

Era isso. as minhas advertências sobre a ameaça reptilária resultaram ineficazes. e para aí que caminha. tenho melhor sorte do que o meu querido amigo Sheikh. eis a genialidade.Jii sabia. Tê-lo aberto no silêncio. pois encontrava-me impotente perante a diabólica regressão deles. es uma espécie de vidente. não sois capazes de compreender? A atmosfera deve ser criada como numa igreja. Durante três dias. Sagoe fechou o livro e permaneceram em silenciosa medi-tação. Solenemente. proferiam refrões de -. Mas eles lançavam-me à cara Andrew Marvell. Contra as suas visões de natureza virginal e vacuolização arbórea. Silêncio. e eu replicava: e vocês são pseudonegritudinistas vacuolizadores! Seus loucos desviacionistas. Mathias. eras um predestinado a salvar-me do manicómio. Agora ele.. mas.bem sabem como os franceses adoram polémicas -. As minhas passeatas de livro e pá eram meros expedientes.um pensamento verde por uma sombra verde”. És um burguês vacuolizador. Os livros e as pinturas devem ser também os indicados. Mathias. . Era uma satisfação espalhar as sementes da vacuolização no continente europeu. Uma extensão altifalante de música seleccionada. que eras naturalmente dotado..Absolutamente. Com efeito. de certa forma.seleccionado para os correctos cambiantes do odor. . Poucas pessoas têm dedos tão subtilmente harmonizáveis com a sua psique..Se acha que sim. . meu bom amigo. . Mathias. saciámo-nos de dialécticos vacuo-lizantes. Silêncio. de modo a que um desejo de mudar a direcção do pensamento não induza à frustração.. não os caprichos de migração periódica. era uma pequena derrota. berravam eles .

.. diga-me como está ele! Vai melhorar? E lembre-se que nada lhe deve faltar. . Há cinco anos estivera ele à porta do Registo Civil e implorara à fúria das tempestades que se abatesse sobre a traição do seu sangue. mas um voto era um voto e o orgulho refreava a sua carne sequiosa quando esta desejava apaixonar-se. tão odioso. esfregam a minha cara naquilo. nem mesmo me dizem.. Afinal. Mathias. . após duas semanas de remar contra a maré. senhor doutor. tão impróprio de um filho. mostrava-se impotente contra um silêncio como o que ligava o pai de Sekoni a uma distância silenciosa até à morte. Se quiser enviá-lo a especialistas no estrangeiro. . já não feria a memória de Alhaji Sekoni. mas caramba. E o remorso.Silêncio.Nunca. E a sua desolação caia igualmente. e hoje. as pessoas como Sekoni acabam sempre na fogueira. que quase enlouquecia de dor e aflição. virando as costas. Já conhecia muitas formas de silêncio.Deus não o salvará. aos transes da separação. mesmo o remorso. Que Alá em todo o seu poder me fira de morte se voltar a dirigir-te a palavra! E agora. igualmente insolúvel. E os votos de silêncio. blasfemo... não se separava do médico por um instante. com toda a calma. eu nem sequer sabia que fora vendido de corpo e alma ao senhor presidente deste lugar. . Alhaji Sekoni. oga. sei que estou apenas com pena de mim mesmo. Não ligues. Mathias. Acima de tudo. dizem-me. oga. agora volta para o trabalho. queimam o Sheikh.Não encare as coisas assim.Que Deus o salve . Mathias. nunca mais abrirei a minha boca para te falar. eu não sou obrigado z ajudá-los a construir a pira. Mathias esvaziou a garrafa. contra a necessidade e a complacência de ceder. os votos de silêncio devem ser mantidos. Contra o amor. não.A vida é assim. Silêncio. dizem-me.Porque o bom cavaleiro deve ser poupado. És propriedade da Morgue. Uma rapariga cristã! Este pecado. obstinado e firme. Imagina. . o manto haji enfunado à volta dos ombros como a juba de Lear num tojal de asfalto. Como está ele. mas é altura de aprender mais algumas.

Aproximava-se o tempo de peregrinação e Alhaji Sekohi conhecia uma cura para os sem esperança. certamente haverá algo que eu possa fazer. Sekoni forçando os dedos através das muralhas esboroadas da velha Jerusalém... como um acto da sua criação que lhe levou um mês inteiro.. tão apavorado. afinidades subitamente significativas. não é verdade? O médico compreendia quem necessitava realmente de alívio e o paciente mais idoso saía então. não.. no prolongamento do seu .. tudo era elasticidade e esforço.. E o resto. se houver alguma coisa...não? Não é verdade que a Suíça tem o melhor de tudo? Mas. o equilíbrio de estrangulamento antes da libertação. Ele expressou o desejo de ver alguém em particular? Não? Sempre ouvi dizer Que. Está uma enfermeira com ele permanentemente? Mas devia estar. não para um Verão em Londres ou quinze dias em Veneza. bom. eles querem ver uma ou outra pessoa. ele não tem irmãos nem irmãs.... deixando bem para trás as camisas dos milhares de brancos na sua louca corrida de quarenta voltas ao negro santuário e a morte de quatro ou cinco que tropeçaram.? Através de bazares de relíquias espúrias e recordações. mas que podia Alhaji saber disto. não há nada que eu deva fazer? De que fala ele? E sobre quem fala? Menciona nomes? Não. não.. era só para saber. as feições e formas da figura central.. uma jibóia enroscada captada no instante do assalto. e essa seria obtida quando o seu filho voltasse o rosto. era delírio e desespero. já a caminho da convalescença. eram. Kola mandara construir um alpendre para ele. Tendões retesados. As mãos de Sekoni... e ele estava apavorado. parentes. e nós nem sequer chegássemos a saber. senhor doutor. que acha? Uma mudança de ares. talvez uma mudança de ares. plenas de admiração e fé nos milagres. chamou O Lutador. não. umas férias são sempre uma coisa boa. Não pedira a Bandele ou a qualquer outra pessoa que posasse para ele. mas para Meca. seria terrível que ele quisesse ver algum dos amigos ou. erguendo-se sem piedade sobre a sua herança face a intimações perturbastes. transbordavam de esperança enquanto beijavam as ruínas da velha Jerusalém e não a Pedra Santa. Sekoni começou a esculpir quase imediatamente. como se o tempo fosse um empecilho. para lá de toda a realidade palpável! Depois de regressar. muitas vezes.. uma frenética figura de madeira. quase agonizantes em excessiva tensão.. porém... À sua primeira obra. um protagonista em traje de peregrino.. de Bandele.. inconfundivelmente.. o senhor é o médico.

duvidando. regressemos ao Panteão.Não tentes consolar-me. realmente. Impacientemente. que posava para o quadro do Panteão.resmungou Joe Golder. . se Sekoni alguma vez fizera outra coisa na vida além disto.. Continuaremos amanhã. Sekoni a transformar a madeira num espírito caprichoso cuja domesticação era uma magia encerrada em energia. . o resultado.Bolas! Tu sabes muito bem há quanto tempo ando a lutar com esta coisa. Simples inveja! explodiu Kola. confessando: . E depois. com um traço de inveja na voz.Quem me dera que fosse isso. A menos que O Lutador fosse uma daquelas coordenações de experiência e memória que surgem uma vez na vida. . . Devias ter visto Sekoni a trabalhar.próprio estúdio.. Kola lutou futilmente com a sua tela durante algum tempo. bolas para a mania de comprar que vocês.Mas ainda não terminaste. hesitação que de modo algum transparecia nesta sua primeira tentativa.Oh. . têm! E Kola descobriu que. e observava. Certamente não havia hesitação na mão de Sekoni. com uma delicadeza que contrastava com a agitação anterior. sentia inveja. . Meu Deus.com firme concentração. Ó veredicto de Joe Golder era o mesmo. mas inevitável. . A face de Bandele era obviamente uma evasão deliberada. Apenas a figura singular de Bandele poderia ter atingido tal conivência física e flexível com a forma. acabando por se oferecer para a comprar. Kola atalhou: . Entalhava agora eram os retoques finais . e Golder.Não sejas idiota. quando penso que aquele tipo nada mais fez do que andar metido em instalações eléctricas.disse Kola -. . Sekoni era um artista que esperara muito até se encontrar. És um excelente pintor.Vamos Joe . Sekoni abanou simplesmente a cabeça e continuou a trabalhar.Tirou-te a vontade? Porquê? Auto-identificação? . e com tal certeza que Kola começou a duvidar do seu conhecimento deste homem. contemplou longa e silenciosamente a escultura. depois desistiu.Não é isso.O Lutador de Sekoni tirou-me a vontade de pintar. o americano. Kola. . Americanos.. mas que finalmente o conseguira. Kola chamou Joe Golder. eloquentemente.Mas ele não quer mesmo vender? . no seu íntimo. Não. com respeito crescente..

A sua chantagem foi inicialmente apenas experimental.Ainda não o podes ver. vim eu com frequência durante a noite estudá-la.Acaso já o neguei? Gracejando a princípio.Não te faças engraçado. . . não o encontrou.. como esperas reagir a ela do mesmo modo como reages ao trabalho de uma outra pessoa? .Oh.. que te faz vibrar. não voltarei a posar para ti.. Era improvável que ele estivesse no seu quarto. impediu-o.disse. Joe. juntou as suas folhas de música e disse: . já estávamos quase a terminar.censurou Joe Golder. . analisar-lhe os fundamentos. aquela insignificância que te atinge infamemente. . A acompanhante inglesa olhou de um para o outro..Também sei isso. . porém. sei que parte dele c bom. No entanto. portanto.Mas julgas que isso é possível? Kola. Sabes muito bem o que quero dizer. todavia.Tenho um ensaio .Pois. Um pensamento tardio levou-o à sala de música onde o trilo cheio de uma voz de tenor indicava a presença de Joe Golder. sabendo perfeitamente o que a mulher deveria estar a pensar dele.Ontem não tinhas. foste tu quem pintou esta tela.Se não conseguires que ele ma venda.replicou Kola. Kola rangia os dentes. Tenho hoje. acho que estás simplesmente com inveja . de qualquer modo. Mas olha.Não me apetece brincar .. Joe Golder não apareceu no estúdio na tarde seguinte e Kola correu à biblioteca e seguidamente ao clube.. egoisticamente perigoso. .Joe Golder levantou-se e dirigiu-se para a tela: Kola. aquela coisa. depois. Oh.Não estou a brincar . Joe Golder tornara o soturno receio de Kola mais difícil de conter devido à sua feminina avidez pela escultura de Sekoni. tornou-se verdadeiramente irresponsável. dado que toda a gente sabia o que Joe . sabendo as compli-cações que agora desesperavam Kola. Kola foi lá. . Kola gritou: . houve algo que me sobressaltou realmente quando observei aquele cavalo gago a trabalhar. . .avisou Golder.Bem. Parou logo que viu Kola. . Se me dão licença. contudo.

Quando é que desistes de querer ser negro? . E agora.O vosso sol é mais forte do que eu pensava. por fim. O Erinle do Panteão de Kola.Mas parou. por melindre e desprezo pela sua pessoa. com algumas clareiras de pele lisa. .Por amor de Deus. via a face de Colder mais intensamente. Sinto-me como Esau. distendendose quase desproporcionadamente. quando. trabalhando furiosamente.Julgas que vou pintar a tua cara nesse estado? . Kola agarrou de novo no pincel e deitou mais tinta na paleta. . detestava a sua cara e praticava nela horror atrás de horror. encetou a gigantesca tarefa. roubado e enganado nos meus direitos. . ao ver que não podia suportar o sol como um verdadeiro negro. apareceu um dia no estúdio com bocados amarfanhados de papel de embrulho espalhados pela face. . reparara como ele exprimiria bem um dos deuses.Se conseguires que o teu amigo me venda a escultura. à medida que ia falando.Que raio de mascarada é essa? . Kola. . pôs a paleta de lado. Colder surgiu na sua mente como Erinle. furioso. mesmo antes de iniciar o seu quadro sobre o Panteão. Joe Colder exibia uma ferocidade pós-sacrificial.Pareces o Jacob com crostas de trampa na face.gritou Kola. posarei parati. porque. o que é que se passa contigo? Não vês que a tua cara está a sarar tão rapidamente que em breve será inútil? Joe Colder. Quando Joe Colder se zangava. Por vezes.pediu. E ele irritava-se agora. à beira da epilepsia. com a pele áspera e a descamar-se. Joe Colder. descortinando a distinta ferocidade deste novo carácter. Não imaginas como me dói. Kola deixou-se cair numa cadeira.Nem posso tocar-lhe.Não queres lavar a cara? .Quando parecer três quartos negro. .perguntou logo que a mulher desapareceu. consequência de diversas tardes de exposição a um sol abrasador. com restos de penas da carnificina coladas ao rosto. como a de um cavalo aterro-rizado. . . quase tão obviamente como Egbo era Ogun. vens posar? . desesperado.Então. . sofria uma transformação radical.Golder era. . a cabeça parecia ser movimentada por cordas invisíveis sob a pele lisa. Kola. . americano e três quartos branco. Os olhos revelavam uma grandeza insuspeitada.

Kola aproximou-se e desfechou a tampa do piano sobre as mãos dele. não era por isso.Muito bem. mas. . sépia e enrugado como uma chinela turca. estás avisado. E agora Sir Derin morrera. e Kola olhava.Claro que dói. divertido.Não te esqueças de que eu conheço toda a gente e tu não. brigaram por causa da vaselina. . Até que um grande pedaço. como um estranho apêndice da orelha de Erinle. Mas desafio-te a entrar em qualquer clube nocturno desta cidade. após diversos volteios no ar. capturou-o com a ponta do pincel e esmagou-o na pintura. flutuava zombeteiramente sobre os cavaletes e. o rosto de Joe Colder parecia descamar-se rapidamente. e Kola jogou mais insistentemente com este medo de violência. enquanto Golder sorria. . Joe Golder tinha tanto medo da dor que chegava a ser infantil. no entanto.Deu meia volta e afastouse. Joe Golder hesitou. Kola contemplou a frágil pele e viu o seu apelo à sensatez de Golder despertar nele apenas os seus instintos de arreliador. a partir de hoje. Mas o seu rosto fora cruelmente queimado e um pouco de pomada retardaria o processo de descarnação. relembrando.Os dias que se seguiram foram quase desesperantes.Vens comigo? . que faria o elogio fúnebre. se separou da face de Golder e Kola descontrolou-se. Ibadan sem a música dos bares e dos clubes. perguntando a si mesmo por que se sentiria obrigado a ir ver o enterro do presidente. Golder estremeceu. e seguiu Kola até ao estúdio. mas de modo a não o magoar demasiado. Todos esperavam dele um grande artigo. Sagoe experimentou as pernas. Golder ocupou o banco do piano e começou a trautear a melodia do espiritual negro que estivera a ensaiar.Não. quase vital para aquela colagem facial. forneceria de bom grado uma . A tua última experiência não será nada.. Qualquer clube nocturno. Mais tarde. comparada com o que te espera. Uma inesperada brisa atravessava o estúdio e um fragmento de pele desprendia-se suavemente. Quem te manda assar a cara? E agora isto. . um enorme bocado.e protegia o rosto dos dedos de Kola. . atacou-o. onde ficou. com energia. O seu fotógrafo estaria presente e o orador. .Dói .. impotente. saía ondulando pela janela aberta.

E então Dehinwa.anunciou. . Ela manteve-se silenciosa.Mas porquê uma banheira. E depois dobra-se sobre si mesma e . já sabia.Tens o chuveiro manual na mão. Queres comer alguma coisa? Sagoe pôs-se de pé.É sempre o mesmo nestas casas novas.Esta coisa? Ora! Isto é um aspersório. Mas primeiro preciso de um duche. portanto. . fitando melancolicamente um comprido tubo de borracha que tinha na mão. . Ela soltou um grito e bateu com a porta enquanto Sagoe ria entre dentes. A chuva apagara a última chama de vida no mundo lá de fora. mas não tinha vontade de responder. Grande cabra. Ergueu-se sobre os cotovelos e espreitou pela janela. hoje não foste tu quem construiu o apartamento. Esta coisa escorregadia que não se ajusta à torneira. um irrigador de eunucos. experimentando uma perna depois da outra. .Sagoe poderia encher duas centrais sem se mexer daquela cama. Sagoe estava sentado na banheira vazia.Que horas são? . A água sai toda pelos lados . O tempo não estava convidativo.Ontem não foste tu quem construiu as ruas. tinha a certeza.Perguntei-te se querias comer alguma coisa.Quase quatro. Ouviu Dehinwa chamá-lo diversas vezes.cópia do discurso . e não um chuveiro? .lá vai ela. A porta abriu-se. Sagoe sentou-se na banheira demoradamente. .Já me aguento em pé . suponho que também não construíste aquele guarda-fato de pesadelo. sentia-se melhor: o sono curara-o mila-grosamente. pensando que ele desmaiara nova-mente. Mesmo assim. A atmosfera estava morta. .Não fui eu quem construiu o apartamento. Acordara-o com aquele chinfrim de panelas – deliberada-mente. . está bem. A cabra.Oh. Dehinwa? Por que há-de um apartamento destes ter uma banheira. e compreendeu que Dehinwa regressara do trabalho. afinal não estás morto. Chegou-lhe aos ouvidos o som de panelas do outro lado da porta. . Mas lá estava aquela sensação. tomado por um vago descontentamento. . aquela necessidade de ir pessoalmente. . precipitou-se para a porta da casa de banho e abriu-a de repente.Já que insistes. o que o enfadou. um borrifador. Não sabes o que é um chuveiro? Pensei que tinhas frequentado uma escola inglesa.

.. dizendo: . . . .E a tua querida mamã responderia: . .Uma mulher metediça. Sagoe riu.A propósito. .Pelos vistos. saboreando a ideia. sentindo através da parede o furioso silêncio de Dehinwa.E ele soltou um agudo grito de deleite.Daquilo que te assustou terrivelmente quando abriste a porta há pouco. mulher? .Ah. ou estiveste noivo de todas elas? . para que ela esticasse com um ataque cardíaco quando nos casarmos. .. eu sei.Oh.bloqueia o fluxo. mas a culpa não foi minha. De qualquer modo. Não compreendo como pode uma rapariga civilizada como tu ser alvo de uma repressão tão perigosa. . Como é que me vou lavar agachado? Preciso de um jorro forte sobre a cabeia que ponha no lugar os meus lobos doridos. é assim? Pois toma cuidado. estou grávida.Estás a ouvir. . ouviu o teu nome e pensou que eras do norte. Suponho que gostaste do que viste. .Não precisas escarnecê-las. .Pois é muito bem feito. já sabes de antemão o que te espera. não eram só os noivos. Não te avisei que evitasses acompanhar com esse tipo do norte?. oh. .Não digas disparates.. Um rabujento impossível.Mamã.Esse argumento é para as tuas amigas universitárias americanas. .E a outra coisa que te espera.Não temas. é demasiado curta. Violada à boa maneira antiga. estou mesmo a imaginar-te. Violaram-me. violada.Bom. E que diria a tua mãe a isso? Momentos depois. . cujo conhecimento de Hciuxti se reduz a xai í>t>he. não me disseste ainda quem é esse nortenho com quem dizem que costumas sair.Sagoe calou-se.. Não pode ser tão perfeito. .Um ministro bonitão com iate particular.De que estás a falar? . .Quem me dera sê-lo realmente. simplesmente. . Ao menos não andam por aí obrigando os noivos a agarrarem-se às virilhas com dores na sua presença.Estava a imaginar-te quando fores velho. Um dia destes descobres que foste longe de mais e então es.

. Vocês deveriam casar e dar-me netos..Por que estás tão magra? Eras bastante roliça quando regressaste a primeira vez de ilu oyinbo. . rapariga. deixa a mamã em paz. enrolado numa . esperando que Dehinwa se irritasse -. A avó olhara longamente Dehinwa.Interrompeuse. Um filho é uma coisa muito bela. não me parece. .Não. Se estiveres à espera de um filho. O importante é conhecer o pai. .Olha que eu não digo coisas dessas soba. Meu rapaz. . Se surgir uma criança. .Bom. sim.Veio expressamente de Ibadan para protestar por minha causa. não me levem já. tem-no. minha menina. . Sabias que és a vítima ideal para as lágrimas da mãe? .Claro. Isso é interferência por interesse. espero que sejas mais sensato do que ela. depois abanou a cabeça. .Com efeito . eu sabia que ela te agradaria.. . Não sejas estúpida como as outras. estudando-a com grande cuidado. e disse maliciosamente: . Por falar nisso. e tu já tens idade para isso. .Diz-lhe tu que me deixe a mim em paz. é o género de mulher que merece viver os anos que lhe restarem. Ela. penso que tenho de pedir à tua avó que fale contigo.Que mal te fez ela? . Dehinwa sentia-se embaraçada e apontou para Sagoe: .Esta bem. isso seria exactamente o tipo de concessão que eras capaz de fazer. Comovida com o sofrimento dela. espero que não a tenhas desiludido. .Podes fazê-lo à vontade. Porquê? . para vir contigo até Ifo.Fitou-a severamente.No entanto. têm. raparigas modernas..Avó. esta bem ..Por que não? É o teu homem. Quero apenas saber. Mas escuta.i tua família. aliviada. olhando ambos.Não. Sagoe apareceu à porta da casa de banho. diga a tua mãe o que disser. como que perfurando-a com o olhar. chamem-me e eu virei abençoá-la.prosseguiu após uma pausa infrutífera. . não diga isso diante dele. eu sei desse novo hábito que vocês. Detesto até o chão que eles pisam e digo-lhes isso mesmo. contigo nunca se sabe.disse Dehinwa. não é? Deve ser. Nós nunca nos envergonhámos dos filhos que tivemos. ..Afinal que esperam vocês? Por que não casaram já? Não.

Durante quatro dias. este comentou: .Recordou que se estava na estação das chuvas quando regressara da Europa e da América. uma hábil mistura de primos em décimo primeiro grau..Safado! Porco! .toalha. Ganhara assim a sua primeira delegação familiar.resmungou Sagoe -.. Sagoe decidiu ir a pé. Por favor. esfregou o rosto húmido no pescoço dela. . fazendo apostas sobre qual dos três ministros em questão mataria os outros para controlar a nova pasta tripla..És a secretária confidencial mais esquiva e arreliadora que alguma vez comi. transformando-lhe o traseiro num sólido muro de lama. O governo quer juntar três ministérios num só ..Quem me dera um pouco de negritude .Só sabem sujar os outros! . achando aquele acto uma grande traição. . Sagoe acabava de passar pelo quinto ou sexto carro abandonado e. como sempre.Medidas de austeridade. Sagoe usara os episódios na sua coluna.E sentiu-se justamente irado. Algo o atingiu subitamente. e outra vez através de um dedo. . recebia choques eléctricos . quando discava um número no telefone. quando tocara a torneira da banheira com os dedos dos pés. Com os olhos.Um impulso de correr atrás do autocarro e entrar nele .Trabalho. Em vez de calor. a grande igualitária. Foi então que um autocarro o encharcou. Conservaa quente enquanto vou dar uma volta. . algo que me aquecesse. mas não me parece que consiga comer já. depois beliscou-a rudemente e ela gritou. que Sagoe nunca vira. o Sol permanecera oculto. com os olhos. Quando contou a Mathias. . saudava a chuva. Talvez os ofícios já tivessem terminado e o horrível cortejo tivesse começado.disse Dehinwa. . . uma mão molhada cobriu-lhe as calças até à cintura. sua sovina.Desculpa. Um aviso e um pedido.A tua comida está pronta .O quê? . Electricidade e Comunicações .Está bem.Sagoe beijou-a no ombro.uma vez. Devia estar próxima a hora do funeral de Sir Derin. . . não faças inimigos.. Mesmo que faltasse aos ritos junto da campa. . observaria os coveiros deitando a terra e talvez lhe juntasse uma mão-cheia.e rebentou às gargalhadas.

Deus está a fazer a limpeza no céu. Sagoe deparou primeiro com o camião e a cisterna vazios. Reconstituíra o acidente . a minha boca diz a verdade. E Sagoe fora. evidentemente. uma centena de gafanhotos dançavalhe nu cabeça.os cães têm gostos peculiares e alguns condutores não eram . lavando a sua maldita retrete. Decorrera pouco mais de um mês desde que Mathias lhe dera uma notícia em que ele dificilmente acreditara. concluiu. Era impossível convencer o chefe de redacção a lá ir pessoalmente: no entanto. plebeia e política. o seu conteúdo estava espalhado pela rua. de manhã. na Abule Ijesha. pensou. . O facto de ter as calças imundas tornava-o estouvado e.morte. Avistou uma película de óleo. O seu volume diminuíra . indígena e estrangeira. Hoje é o dia ideal para me afogar. torcendo os tornozelos nas pedras submersas. . indiferente. oGa. ao retomar a marcha. Uma massa informe estendia-se por vinte metros. punha o pé. suprema. dizendo que ofenderiam o leitor comum. a merda é o ambiente mais vernacular do nosso amado país. tirânica.exclamou Sagoe . Em plena rua alcatroada. diante de uma escola. Sagoe já começara a encontrar os homens do lixo. todavia. vinte metros de merda sólida. Nwabuzor. O dilúvio que caíra fazia com que tudo o que o rodeava parecesse saído de uma retrete. toda aquela merda está ainda espalhada pela rua. por certos raciocínios. óleo de palma numa poça castanha que se estendia até à choça de um comerciante de géneros. no momento em que o autocarro curvara de repente..seduziu-o momentaneamente. Depois da .a enorme porta escancarara-se e o condutor não travara sufi-cientemente depressa. Jazia ao virar da esquina de Renascent High School. expurgou as fotografias. Sagoe comentou: “Óleo de rícino. levando um fotógrafo. Mathias vira aquilo quando viera para o trabalho. nas poças de lama. a alguns metros da primeira paragem de autocarro. alguns metros atrás.” Ainda não eram cinco horas. numa área residencial! E cinco dias mais tarde Sagoe voltou ao local numa peregrinação expiatória e tirou mais fotografias para mostrar a Nwabuzor. Encostou-se a um candeeiro esperando que aquilo passasse.Mas.Mas é a realidade . ela ainda reinava. vá ver com os seus próprios olhos. quase provocando um desastre. na tentativa de evitar o local.

Oga. hoje mesmo levei o carro à minha garagem. os sinais do acidente. Os seus modos tornaram-se imediatamente servis. O outro voltou-se com vivacidade.Oga. entumesciam-se como cabos dos C. Não trazia carteira. Sagoe quase se traiu. Tentando não atrair a atenção do condutor. Nem um tostão. com um súbito pressentimento. . a mão de Sagoe mergulhou no bolso. monocromática. é uma situação tão idiota! Olhe. Depois. os homens do lixo continuavam atarefados em torno das janelinhas baixas das paredes traseiras. .Para a esquadra da polícia. em isoladores cheios de óleo. silêncios cortados por baldes. Conhecia bem estes condutores individualistas.T. brilhantes de suor. porteiros sem rosto. Era a confirmação das suspeitas.T. insinuantes.Onde deseja ir. Aquela coisa continua a não trabalhar. depois começou a chover e veja esta chatice. Sagoe sentiu-se subitamente cansado e mandou parar um táxi. mas a visão dissipou-se quando pensou que o facto de ver aqueles homens profanava a verdadeira vacuolização. . tirando a conclusão errada. Nas ruas laterais de Yaba. Não tinha dinheiro em nenhum deles.O que é que tem o teu limpa-pára-brisas? . vassouras curtas varrendo rugidiamente. hum.suficientemente expeditos e pati-navam sobre ela . . Lembrava-se agora de vê-la na cómoda de Dehinwa e fazer tenção de pegar nela. E Sagoe pôs-se a imaginar Sir Derin passando em direcção ao túmulo sob um arco de vassouras.mas continuava tão tifóide como antes. Por momentos. Preferiam um acordo particular a pararem junto do primeiro polícia e apresentarem uma queixa. os músculos.Sor? Refere-se ao limpa-pára-brisas? Sagoe não condescendeu em repetir a pergunta. Começava a sentir-se descontraído quando reparou no pescoço do condutor. do crepúsculo à aurora. com que então nem a polícia nigeriana é capaz de deter esta estúpida chuva. Em que quadrilha trabalharia ele quando não estava de serviço no táxi? De repente. Obalende? . compreendeu e deixou de se preocupar. castanha. .inquiriu com um indício de ameaça na voz. . rebuscou os bolsos sucessivamente. Chuviscava novamente.

. em desuso. Foi aqui.Pára! . declarou Sagoe. oga.Não.. Era ao lado do antigo cemitério de Alagomeji. . secretária confídencial. africanos. . oga. coladas em lajes de concreto. . Na sua mão estava ainda a amarrotada nota de cinco xelins que se preparava para entregar numa das prestidigitações mais praticadas.Não. Pára! . Lado a lado com guarda-fatos. . A menos que nós.Enh.Oga. não.. Sagoe saiu. os que não temos protecção? Queriam dezasseis libras e tal por me instalarem um.Se faz favor? . Nomeados fabricantes de mobiliário por sua alteza susceptível Dehinwa. Tinha a certeza de que.. disse para eu parar? . Seja qual for o tipo de mobiliário.. Prostrou-se ainda dentro do carro. separada dele por uma rua não alcatroada.Ah. com uma sensação de milagre. convencido de que queimara a última esperança de perdão com a sua demora em obedecer à autoridade.És surdo? Pára já aqui! O homem parou. hum. queria só dar uma olhadela.Também não tens velocímetro.Eu disse para parares. Estes filhos da puta dos polícias costumavam fazer isso a torto e a direito. está a ver com sofremos. Nos puxadores dos guardafatos estava o mesmo motivo de flores petrificadas. muitas já rachadas ou partidas. alguns deitados sobre bases de madeira e dois deles suspensos para revelar os ornamentos de bronze da tampa. Ao virar da esquina.Arranjamos de tudo. Sagoe olhou para o cemitério vizinho onde havia coroas de vidro. Olhou longamente o condutor prostrado no carro. tremente como geleia.. no mínimo. . etc. não quero comprar nada. situava-se a loja de mobiliário que chamara a atenção de Sagoe quando o carro passara por ela. Oga. apostaria o meu dinheiro. não precisa zangar-se. trabalhemos para as firmas estrangeiras. eu já tenho um caso no tribunal por conduzir só com uma luz. E aceitamos encomendas ao seu gosto.. torcendo as mãos implorativamente. olhou de novo as . depois deu meia volta e afastou-se sem uma palavra. . nós. secretárias e cómodas viam-se caixões. O condutor esperou um pouco e afastou-se por sua vez. etc. lhe ia ser aplicada a proibição de conduzir. Peco-lhe..

O caixão era grosseiro. quase esperando descobrir um corpo flutuando. o céu desnudava-se desenfreado. pensando de novo como este dia parecia especialmente indicado para um afogamento. de facto. Era incrível sendo os onze todos homens -. mas quase se podia jurar que todos haviam estado a chorar. feitos de talos de ako. captou um reflexo da morte no vidro e virou-se. nem as palmeiras pareciam petrificadas ou a praia envernizada. ruidoso. pois o carro tinha o portabagagens aberto e o monte de esterco que sobressaía tão repulsivamente era o caixão. exclamando: . . sobre a ilha. que já nada podia salvar. notou com alívio. Sagoe já percorrera toda a Ponte Cárter sem dar por isso. imóvel. tomou nota mentalmente. alguns deles ainda o faziam. Os dois que lideravam o cortejo estavam incom-preensivelmente pouco à vontade: as suas canelas mal largavam o pára-choques. foi invadido por um sentimento de exorcismo. circundavam irregularmente a beira da água. tudo se iluminou milagrosamente. Mas à medida que a ponte ficava para trás. Mostra-vam-se desajeitados e a sua dor parecia real. Ou talvez tivesse parado de chover muito tempo antes. a lagoa ondulada como o cabelo oleoso de Nat-King-brilhantina-Cole.pegas de vidro dos guarda-fatos.de apenas onze pessoas. com flores mortas por baixo e compreendeu então de onde proviera a inspiração dos marceneiros. Hoje a lagoa não era a lagoa de um postal turístico.Sagoe cedeu ao impulso de contá-las . o ar aligeirava-se muito rapidamente. e ninhos de baratas. A lagoa era uma selha de leite desnatado. Nesse momento. Era a maior farsa que uma morte alguma vez produziu. Caminhavam dum e doutro lado da parte saliente do caixão.Que piada! Um carro muito maltratado .movia-se tão pachorrentamente que as canelas dos dois primeiros acompanhantes chocavam frequentemente com o pára-choques da retaguarda. O cortejo constava . Mesmo assim. Enquanto observava a secção de vinhos da montra da loja francesa. como uma criança malcriada deitando a língua de fora. Inconscientemente examinou as águas. para fazer algo a respeito dos gostos de Dehinwa. espantado por ser capaz de olhar insensivelmente para uma tão rica exposição. pois o seu cansaço dissipara-se completamente.parecia um Vauxhall de mil novecentos e quarenta e cinco . A ponte estava deserta. o horizonte abria-se num pôr-do-sol turístico.

E com o respeito automático do pobre pela opulência. separando os vivos dos mortos.ordinário. como se no fundo da sua mente acreditasse que poderia ter feito mais pelo morto. pelo que era de duvidar que os outros não o sentissem também. uma ponte quase simbólica. e todos os carros estavam apilhados de cravos vermelhos. pensou Sagoe. Excepto o condutor. de uma confecção desastrosa. sacudia-se como uma coisa oca e fútil e desafiava os enlutados a deixarem-no cair. preferindo observar o que aconteceria se os dois cortejos se encon-trassem na ponte. O próprio féretro estava coberto de coroas e os enlutados transpor-tavam mais coroas de flores. agarrado ao seu volante. porque não ataram ao menos o caixão ao tejadilho? Não que isso importe muito ao morto. furtivo. conduzindo tão funebremente. mais tosco do que qualquer dos que ele vira antes. acertou o passo com o homem isolado que seguia atrás e desceram a Moloney Bridge Street. já sabia onde ir nos dias em que nada tivesse . Parecia-lhe que ao volante ia um branco. . Se alguma vez se tomasse um jornalista independente. sapatos de ténis a que faltavam os atacadores e colarinhos parcialmente arrepanhados. Sagoe perguntou a si mesmo se deveria avançar. o cortejo que resolvera acompanhar pôs-se em debandada. Fazia lembrar a língua de um viciado em noz de cola. Obrigado. seguiam o féretro empurrado à mão. E assim sucedeu. Sagoe piscou os olhos. na marcenaria Alagomeji: era decorado com dourados de ouropel barato e brilhava com lustro ceroso de um vermelho terrível. E entre os mortos. em direcção à pequena ponte. devido à sua localização. mas será preciso tomar a morte tão ignóbil? De calças e camisas brancas. O rumor das rodas do féretro era inconfundível e o pisar de um milhar de pés fazia tremer a terra sob o pés de Sagoe. avisá-lo do outro cortejo e incitá-lo a aumentar a velocidade. a comitiva de Sagoe parou. Eles próprios haviam sentenciado esta vergonhosa marcha arrastada até ao cemitério de Ikoyi e o morto deitava-lhes a língua de fora. cada enlutado parecia culpado.Grandes idiotas . enquanto a outra. Sagoe incluía as residências suburbanas de Ikoyi. pelos nossos orgíacos funerais. nada fez. uma milha de carros e pessoas. Um minuto depois. onde tanto os brancos que restavam como os novos oyinbos nebros viviam num vazio colonial. Quarenta carros. pelos menos. desfilou lentamente por eles. Sem pensar.murmurava Sagoe -. Senhor. Porém.

sem dúvida. E muitos faziamno. o desaparecimento final. nem as suas mentes cessavam de acalentar esperanças de um dia os seus próprios funerais se aproximarem da glória do enterro deste recto filho da Pátria. Não conseguiam fingir indiferença pelo pomposo espectáculo que passava diante deles e encolhiam-se com visível embaraço. as restantes para filho e pai. cada um refugiava-se no exame dos sapatos de ténis do que ia à sua frente. estou certo de que não te importas. deves-me isto. À vista de todos. era necessário mais do que isso para permanecerem imóveis enquanto uma cone de cinco milhas marchava em monótona glória a quatro milhas por hora. as súbitas e irracionais festas em memória do morto . desenvencilhando-se da multidão a tempo de ver os outros esforçando-se por libertar o caixão .uma pessoa podia despender a sua vida inteira festejando um morto.para fazer. também não ousaram tirar os olhos do pára-brisas precedente. Sir Morgue. o segundo virar do corpo. Se anteriormente pareciam estú-pidos. o tributo final a Sir Derinola pelo seus concidadãos. fazendo parar a multidão e permitindo que a reduzida fila onde Sagoe estava transpusesse a última ponte. Havia os casamentos. Todavia.” Com dificuldade. Num dos primeiros carros. os noivados e as recepções. Mais tarde. assemelhavam-se agora a atrasados mentais. e claro. na sua dor. Mergulhados. o serviço memorial apenas algumas semanas mais tarde. os baptizados. o engarrafamento de tráfego de três horas devido a Sir Derin entraria nas suas histórias como sendo de seis. no mínimo.o orador fúnebre. com a sua vigília nocturna. lutando firmemente até alcançar as coroas empilhadas. Os dois da frente olhavam com a mesma intensidade para o pára-choques amolgado. sem dúvida. separados por uma centena de túmulos ou mais. pegou numa grinalda artificial e em duas coroas de flores frescas. Sagoe juntou-se ao cortejo de Sir Derin e abriu caminho. os componentes da outra mascarada. murmurando: “A de vidro para o espírito Santo. No cemitério. Já metade do séquito de Sir Derin desfilara. o virar do corpo quarenta dias depois. mas um funeral. um rosto inclinava-se com penosa concen-tração sobre um maço de papeis . a caminhada. quando um polícia veio em socorro do outro cortejo fúnebre. abriu caminho. E Sagoe sentiu-se traído pelos seus acompanhantes. os dois corpos aceitaram então um destino comum.

em seguida. Permaneceu ali apenas alguns minutos e. pilhando uma existência oca. Só nesse momento reparou que o condutor não era branco mas albino. perseguido por silêncios que deixavam no mundo barulhos como: . pobre negro. sem uma palavra. Corre. nas profundezas das algibeiras. pequeno ladrão. com sentido de oportunidade.o refrão de um poema verdadeiramente mau. e engrossaram as filas em debandada . os angariadores de apostas juntaram-se-lhes. corre . invadiu o parque de automóveis. as nossas esperanças. onde os ociosos de profissão se abrigavam momentaneamente da chuva. fugindo do cemitério. corre também aquele versejador fizera um cristo do seu fugitivo..corre.. de um irredentismo moral. A sua vida era a nossa inspiração. à medida que o orador lia o seu panegírico a um milhar de pesarosos enlutados. Na sua cabeça martelavam as palavras saídas dos altifalantes. subitamente envergonhado com o seu papel pois só agora saltava à sua consciência que andava por ali porque via naquilo uma história para a sua coluna -.. E os vendedores de relógios enfiaram objectos suspeitos. . Corre. De modo que a multidão prosseguiu. Pôncio Pilatos no momento crucial hesitou apenas brevemente. A “caçada” colheu-os no caminho. porém o seu sentido do dever venceu.do porta-bagagens. precisamente quando o albino se dirigia a ele. e enegreceu o chão defronte da fábrica atarracada e informe que era o Hotel Excelsior. e esta escória de Oyingbo não o substituía mal. de um rejuvenescimento nacional.corre. o seu idealismo. Iniciarase logo atrás do mercado Oyingbo. talvez para lhe agradecer as coroas. Sagoe entregou as coroas ao homem mais próximo.qual oprimido complacente. a sobrevivência do seu espírito entre nós. surripiou uma malinha de mão ou duas. Voltou-lhes um rabo formal e continuou a lavar as mãos no fluxo do tráfego. corre . tendo sido desperto por uma histeria que se desenrolara sob a varanda do Hotel Excelsior. pobre negro. Sagoe saltou do autocarro e associou-se ao tropel . que Sagoe lera num jornal e há muito esquecera. quase correndo. de 17 rubis. emergindo para vagabundear entre mercadorias desprotegidas.. escorregou no alcatrão fresco e ergueu-se suja e contente. Caminhava rapidamente. Barrabás. deu meia volta e afastou-se. Depois. percorria-lhe agora a mente. a esperança de uma Nigéria futura. Sagoe escapou-se.

juntos. construíram como que uma linha de violência impedindo ao ladrão a duvidosa segurança da lagoa.. sorrindo como cachorrinhos. Sagoe seguiu-os.. corre. Barrabás. .ou os grandes ladrões decretarão uma lei contra a tua existência como uma ameaça para a sociedade. Os jovens decidiram impulsivamente e. foge da mesma multidão que se reformará amanhã e irá aplaudir o maior ladrão regressando da sua vigésima missão económica e empurrará o seu carro atolado na lama.

O Barrabás tinha um bom avanço sobre os perseguidores e um condutor. o torso esguio.. juro que não tirei nada.parecia dizer algo. com efeito. Fizera já outras tentativas de falar. nu.Olef Ole-e-e-e-e-e! Diariamente.. mas os rostos ameaçadores que o perseguiam despertavam nele tal medo que acelerava a corrida. o infeliz ladrãozeco e uma multidão indignada. estaria acima de qualquer suspeita em qualquer parte. Naquela manhã. em pleno dia. O rapaz ou o homem .gritou Sagoe involuntariamente. Mesmo o seu regresso esteve longe de ser ignominioso.' um corredor desastrado. ele era. Lagos era palco de perseguições destas. o seu dansiki de seda macia e as calças largas flutuavam. De forma que. dera uma ajuda. enganosamente. Quando o trouxeram. todavia. tosco até. mas mantinha-se calado: o medo roubara as cores do seu rosto e esta palidez contrastava com a pesada figura cuja manápula peluda estava grosseiramente enfiada nas cuecas. acelerando as pernas magras em busca de um imaginado refúgio. flexível. mas ele corria o risco de ser morto. o seu objectivo era esmagar as pernas do ladrão quando este passasse junto da capota do seu automóvel. funestamente brancos naquela manhã cinzenta. Era. em fuga. apenas com as cuecas negras. apontando o automóvel ao itinerário do fugitivo. agora. Sagoe não estendeu mais longe a comparação. . o símbolo da pureza .na ausência do Sol. Perdera a seda.. Mas havia desculpa nos pedaços de seda branca que remoinhavam em tomo das suas axilas. O sangue esteve prestes a correr.era difícil afirmar se ele era uma coisa ou outra . Estava-se em Lagos.Aquele tipo queria matá-lo! . gritava na direcção da lagoa: . Era uma manifestação moral e a perspectiva de um espancamento indiscriminado era um incentivo.. A horrenda concentração da face deste homem não deixava quaisquer dúvidas. de um dos nãomuito-santos companheiros da agonia. tinha. . Mas o Barrabás saltou! Uma nova ameaça trespassou o seu terror no momento em que o motor uivou. Envergando o seu dansiki branco. E era igualmente bem parecido. ou talvez fosse o medo.Mas eu não tirei nada. representava uma vergonhosa exibição de injustiça.

mas também o excitou. não só porque era albino. como também porque Sagoe reconhecia o caftan. o fez e os óculos escuros. Por causa de um estranho. impreciso e irreflectido acordo. penetrante. é um super-homem. descansando por momentos. olhou à sua volta quando penetrou no pátio. até à varanda. . Sagoe correu para o hotel e precipitou-se escada acima.. Todavia. hein?. ouvia-se: .. Em baixo.Não o deixem chegar à água. um ladrão vulgar. Ofegante e cansado. Que fiz eu?.era duvidoso que fossem capazes disso -. Via-se unicamente um homem com as mãos levemente apoiadas no parapeito. o jovem em fuga podia ser assassinado. O Barrabás transpôs num pulo o declive desgastado. não o deixem chegar à água.. Foi após esta malograda súplica que se submeteu ao veredicto dos seus atormentadores. em direcção à água. As pernas de Barrabás haviam perdido a esperança. mas acostumara-se a uma ideia que exigia a abordagem violenta. dirigindo-se para o mar.... mas escorregou nos últimos metros. depois de subir a correr quatro lances de escadas.. isto é.berrou um homem a seu lado. ver o Barrabás evitar um atacante que jazia agora estendido no solo.. a populaça não perdeu tempo a aplaudir a finta do ladrão.. embora aquilo não fosse mais do que um desporto para a maioria. deslizando . Por isso. Como os anões de areia em Ogboju Ode. E não desejava meramente que a multidão recebesse uma lição . ninguém duvidava que ele escaparia. Sagoe aplaudiu: porém. A multidão obstruía agora a visão de Sagoe e ele lembrou-se do pátio no telhado. Podia agora ver por cima das cabeças dos perseguidores. Não havia engano possível. Esta indiferença encolerizou Sagoe. Um ladrão. É capaz de saltar do sexto andar de um edifício e de suster a respiração enquanto percorre a nado todo o comprimento de uma lagoa.Mas que fiz eu. de problemas subjacentes: como a barbárie casual desta multidão e a sua perfídia contra aqueles que desciam momenta-neamente abaixo dela na escala das humilhações diárias. caso conseguisse chegar à água. o que espantou Sagoe foi o facto de o mesmo homem ter estado junto dele no piso inferior. a multidão crescia a cada passo e o aguilhão das pedras ou a sucessão de tentativas falhadas de o agarrarem fizeram que começasse a desejar uma misericordiosa libertação.Mata-me esse filho da mãe! .

o rapaz pode estar inocente. o Barrabás observou aqueles movimentos. exclamando em seguida: .disse o albino. por fim. Uma pequena ilha. Durante algum tempo.concordou o albino. . Todos os olhares se voltaram para o outro lado. Quando assim aconteceu. . . O albino virara-se para a cena da lagoa. ladeando a lagoa onde a terra formava uma saliência sobre a margem. Ao primeiro sinal de perigo. Não acha que é um facto a ter em consideração? .Não me parece. abandonou o seu poleiro e entregou-se. sim .deselegantemente sobre o rabo. A voz soara tão próxima que Sagoe quase pulou do edifício abaixo. abanou a cabeça.Na realidade. Houve um murmúrio de desapontamento e todos recuaram um pouco.Qualquer um de nós pode desatar a fugir se for acusado injustamente. O Barrabás. . à sua custódia. o homem gritou à multidão que dispersasse e fosse à sua vida. segurando as suas roupas sobre a cabeça. Sagoe hesitou e decidiu ser cortês. o suficiente para abrigar um homem. . Sagoe comentou: . O albino conservou-se silencioso por momentos. A populaça afastava-se para deixar passar um homem.As multidões raramente se enganam no seu homem. Irritado pela presença contínua do outro a seu lado.Vejo que não se lembra de mim! Sagoe olhou-o e. aflorava as águas a certa distância da margem. de outro modo não sairá do seu lugar. por fim. mas é possível que ele esteja inocente. Levantou-se num ápice. A sua intenção era evidente.O ladrão deve estar à espera de um. passou a vau. Finalmente. chegou lá e sentou-se fora do alcance dos perseguidores.Talvez seja um polícia . Estava obviamente em curso uma discussão entre o recémchegado e o ladrão. saltaria para a água. o rapaz parou e despiu calmamente as suas vestes de mártir. O estranho acercara-se e estava a seu lado. confiante. . com a autoridade do recém-chegado. onde ele deveria aparecer. . Tranqui-lizado. Pode acontecer a qualquer pessoa.Oh.Você parece saber muito sobre os hábitos dos ladrões. de modo que esteve invisível durante uns dez metros.

Eu bati-lhe! Ah. .Lá em casa não tinham lenha suficiente? A tua mãe esqueceuse de te tostar convenientemente. Após ter descido o primeiro lance..Orno ole . Sem pensar. visivelmente contrariado e incapaz de aceitar o falhanço da sua sede de sangue. O homem abriu caminho até à primeira fila.Es tímido? Tira essas gaga pretas para reconhecermos a tua cara. Gargalhadas sonoras e trocistas acompanhavam cada injúria. protegeram-no da multidão. mas ninguém se atreveu a tocar-lhe. Sagoe não esquecera ainda a cara do condutor que tentara esmagar o jovem e reconheceu-o entre a multidão.. havia quem escarnecesse. Quando os dois homens o alcançaram. Empresta-me aí o teu pau. foi mesmo bom. Sagoe voltou-se e correu para as escadas na esperança algo vã de fazer qualquer coisa para salvar o rapaz... Só então se apercebeu de que o albino desaparecera. arrancado ao seu protector. Ele empurrou o Barrabás para o elevador e fez retinir as portas. . mas ninguém manifestava aprovação: as ameaças da anterior caçada dissolviam-se agora numa curiosidade passiva: muitos conseguiam ver o ladrão pela primeira vez.... e regressou ao terraço. todo o constrangimento foi esquecido e o Barrabás.. A mão do homem agarrava firme-mente as cuecas do rapaz. gritou: . mesmo em cheio na cara. inexplicável. o único ponto de apoio num corpo suado.Os ladrões ajudam-se uns aos outros.e agrediu o jovem no rosto.... prorrompendo o albino numa torrente de injúrias aos que os rodeavam. de uma centena de rudes golpes. Pouco depois. Mas os seus oponentes não se calaram. .A multidão abriu passagem para eles. aguardando que o albino reaparecesse entre a multidão. o albino reapareceu e agarrou o rapaz. Ole! Efi'gbatifun yeye! . ah. viu-se sujeito à veemência. Experimen-tava uma súbita sensação de certeza. ..Pai de morcegos! . .. Sagoe deteve-se. Juntamente com o outro homem... . Viste aquela? Em cheio naquele estômago conspurcado. Os perseguidores pareciam ter perdido o interesse.. . colocando-se de forma a que o Barrabás passasse junto dele. Alakori... Então.

.Sinto-me um ingrato. . .Quis agradecer-lhe. o nosso falecido irmão. até lhes ser proporcionada nova diver-são .Compreendo.Sei. mas você foi-se embora tão depressa! . .. Gostaria de ter uma conversa bastante importante consigo. Reconheci-o naquele dia.Não. . se me permite. Sagoe. não percebendo o que o outro quereria dele. recordando a tentativa do albino de impor a sua companhia. Pois claro! O albino que ia ao volante. Já tinha visto a sua fotografia na sua coluna do jornal. O outro aproximou-se: . E agora. Apertaram as mãos e o albino afastou-se.Sim. Sagoe desceu até ao piso do salão. está bem.quer fosse um cortejo nupcial ou um choque de automóveis. O outro ficou perplexo: . e o elevador pôs-se em movimento. A autoridade vencida rechaçou uma última tentativa solitária de bater no Barrabás.Deve ter uma boa memória para fixar caras.Nem por isso. Você levou coroas de flores para o enterro. Não sorrira uma única vez desde que se haviam encontrado.Sou? . Em breve se congregariam em grupos de dois e de três e regressariam à vizinhança dos mercados. .Não o conhecia? Mas.Por favor. porque não vim agradecer-lhe a sua dádiva para o nosso defunto irmão.Não me. há quinze dias.Quando quiser.. Eu limitei-me a tirar as coroas do outro funeral que estava a abarrotar delas.Ah.No cemitério. lembro de. . Sagoe ficou pensativo. aborrecidos.Ele era seu amigo? Quero dizer. Sabe onde é? .enquanto lhes lembrava a profissão e as doenças venéreas que tinham apanhado das suas próprias irmãs. gostaria de ir falar consigo ao seu escritório. não tire conclusões erradas. por favor. Sagoe manteve-se um pouco afastado quando o elevador parou e os homens saíram. . . colocando-se em frente do elevador para ver onde iam pôr o rapaz. nem traíra fosse que . Você é um homem de Deus. nem sequer o conhecia. a populaça continuava a manifestar ruidosamente o seu desapontamento. . Sr... Lá fora. . Hesitou de novo.

como num poço de petróleo. Contributos perfunctórios à União dos Descendentes de Osa. Mal tocara o âmago e sentia que ele o iludia. nas pragas do irado comerciante e do cliente regateador.. o ilícito prazer de pensar que um reino o esperava quando ele quisesse.... por intermédio de uma filha cujo rosto ele nunca conseguiria recapturar. mensagens entre o velho e ele próprio. sub-repticiamente. a única parte visível. na réplica burocrática de tudo aquilo em arquivos e minutas e gíria diplomática. Quem eram eles afinal.. exigia menos daqueles recursos que um homem deve arrancar à natureza. Com brusquidão... Sagoe seguiu com a vista o homem que voltava ao salão. tudo isto e muito mais. na algazarra disparatada dos táxis. no retumbante gramofone que o acompanhava no trajecto até ao escritório. tu foste destinado. para Egbo.. podia revelar-se seco e ele descobri-lo-ia no momento em que a sua presunção mais dele necessitasse. também delegações para o examinarem. mas o progresso do saber e.. a sua própria necessidade opressiva de reter aquele elo com uma existência fora dos carris da rotina. flutuava na obscuridade do salão como um pálido morcego. donde podia ver a pele branca da nuca do albino... um subtil estremecimento de poder.. tudo isto construíra laços.sentimento fosse através dos óculos escuros. Os albinos sempre lhe haviam provocado um efeito perturbante. o que o levava a perguntar a si próprio se ela fora como a sua tia. a sua nuca. simplesmente uma questão de afogamento.destino. um vento revolto que as enseadas haviam produzido. por exemplo. como ele muito bem sabia . enviadas por Ebgo Onosa. Ao seu alcance. Escolheu instintivamente um canto sombrio. Havia uma maior difusão. um reino. houvera nele uma fria eficiência que lhe despertava calafrios. que puxara uma poltrona para se sentar. Sagoe silenciou a sua imaginação e decidiu esquecer aquele homem até ele o procurar. Confortavel-mente instalado. Osa tomava-se sempre uma peregrinação sem sentido mas necessária.. a confraria do maltratado Vauxhall e do caixão proeminente? Quanto ao papel do albino no salvamento do ladrão. como a escuridão do bosque e depois a outra água. E isto agora não era uma questão de consciência. diziam sempre eles.. . para um homem. Na segurança e significado da casa de Bandele. parecendo não partilhar com ele uma consistência física normal. a presença tranquilizante de sons numa atmosfera que exigia menos dele.... Porque Egbo resolvia tudo numa simples alternativa de afogamento. Tudo isso de nada lhe valia.. perigosa-mente.

Continuas a falar do passado como se ele não tivesse lugar na nossa vida. . de forma a que possamos imergir nele à vontade e sair dele sem prisões. Toda a escolha deve provir do seu íntimo. murmurando: “quanto tempo continuará o morto ciumento a interpor-se entre nós?”. .Tu e Sagoe deviam juntar-se .a água da ponte suspensa.É assim tão impossível selar o passado e deixá-lo em paz? Deixá-lo ficar na sua unidade anacrónica e inofensiva.. se distingue apenas por uma falta de coragem particularmente abjecta... Quando alguém morre.. não deve ter importância o que essa pessoa era para nós... aquilo a que me refiro é o fóssil existente no seio da sociedade. . .? . proveitosamente. num sentido ou noutro.Então de que te queixas? . uma ponte de suspensões de água límpida. E não quero dizer apenas extinção corpórea. os mortos não devem ter rosto. Tanto quanto a minha mente alcança. . .. .E depois? Diz-me qual o africano moderno que não vomita política. de outro modo. . vendo.Vês? Nem sequer sabes de que estou a falar.Ele é um político. por um fugidio momento.Por que insistes em cismar? . os ramos mortos numa árvore viva.? Impaciente. Não és capaz de meter na cabeça que as vossas políticas globais ou nacionais não têm efectivamente grande peso. . igualmente fútil. não das instigações do seu passado.Até essa alternativa é uma medida de tirania. a menos que te tornes implacável para com a textura do passado. sem imposições! Uma pessoa precisa disso especialmente quando o presente.Mas. Os mortos têm para com os vivos o dever de serem esquecidos rapidamente.Bandele sabia sempre exactamente quando o seu espírito remordia a decisão de Osa. Isso tinha que suceder.perguntou Kola.. nada.Ele devia ser morto. Acredita. a água realmente suspensa. .. .De nada. Egbo gritou: .disse Kola. bem sabes. uma coisa independente.Colocaste-te a ti mesmo numa alternativa.. Não. . A dádiva de vida de um homem deveria ser distinta. E ele apenas mergulhava de novo no antigo terreno psíquico de sedimentos depostos.

h-há com. descobrindo Sekoni sentado.E eu repito que houve. A propósito. Todavia.pleta unidade da V-v- .Vejam.O que nos traz de novo a Osa. claro.Estou a falar genericamente.E riu-se. .. junto do gira-discos. .Claro. eles não têm o direito de nos fazer imposições. por vezes és a pessoa mais inexistente deste mundo. . suponho. Podemos continuar a discussão no intervalo.Que horas são? .Não fui eu que encetei esta excursão até Mungo Park para vermos a baía dos canibais. levantando-se para responder ao bater. . agitando várias folhas de papel.Sabes. que é aí o lugar dele.Atiras deliberadamente o teu ressentimento contra os ventos.Nove. Toda a gente quer alterar o universo. mas que me interessa isso a mim? .Não olhes assim para mim . O Sheikh vem? . Não devemos interferir com eles.Na c-c-cúpula do c-cosmos. agora persistente. Outro estudante interrompeu-os com as pancadas na porta e Bandele resmungou: . imóvel.O Sheikh? Egbo olhou à sua volta. . Ser manobrado até uma alternativa pouco interessa por que forças ou circunstâncias.. .Vamos embora. .Mas nunca houve qualquer questão de imposições. Voltou momentos depois.A que horas é aquilo? .Mais ensaios. Sheikh. .Eu disse apenas que os mortos estarão mais bem guardados algures. é melhor irmos andando ou chegaremos atrasados ao espectáculo do Joe. à sua porta. .As nove. .. porque então eles emergem. forçando os vivos a dilemas terríveis.disse Kola. Kola interrompeu-o. não é verdade? interrompeu serenamente Bandele. Sekoni estivera a trabalhar a ideia e explodiu num esforço repentino perante a ameaça de encerramento do tema: . Ontem era a data-limite.. Atira-o para dentro da tua própria cabeça. acomo-dando-o aos seus caprichos. . um presente dos meus alunos. . mas este é o primeiro ensaio a chegar. . Porém.. pouco interessa quão ténues eram as forças.

isso depende de quando a Simi chegar. .Quer dizer que vais chegar atrasado. Bandele voltou.Tenta ao menos assistir à segunda parte..Já a tinhas esquecido? Aquela cujas margens estavam despidas.declarou Egbo. quando lá chegarmos acabou o recital. e agora vais-te embora? . agora que falas nisso. Owolebi? Um dos muitos acidentes. Egbo riu-se..Tens razão. não achas? -.. . Assim é a v-v-vida.. .Está bem. importas-te de levar daqui este artista improfícuo antes que eu. .. O que não acontecera com Simi. E há semanas que não me aproximo de uma mulher. Sheikh. Ela não era uma mulher. Kola exclamou ruidosa-mente: . A V-v-vida é como a d-d-divindade. .Talvez Egbo tenha descoberto que afinal não era uma mulher.. a-a-ambas estão c-ccontidas n-na c-c-cúpula única dae e. . .confessou Egbo.. e a visita a casa varrera-lhe a imagem dela da mente. . acho que nunca mais te ouvi falar nela. .Vem daí.Praticamente nenhuma. .Tinha-me esquecido dela . era apenas um símbolo matriarca!.Se não nos despacharmos. .tacões é apenas uma ilusão.gritou Egbo. Fez uma pausa para ganhar fôlego e Kola pôs-se de pé: .xistên-cia.Oh. não! .. Todavia. vai-te lixar.vida.B ande lê. Procura ao menos ir lá. .Eu vou. discutiremos isso pelo caminho. ou a m-m-morte. . . .Ele ainda não terminou. A-a d-d-divindade é uma ilusão. eu vou.. Joe canta sempre Sometimes I feel like a motherless child lá para o fim.. Bandele recordou-lhe suavemente: .Eu espero aqui por ela . .Não. .. a p-p-pluralidade das suas mmmanifest.E a Owolebi das laranjas esmagadas? Foi apenas há quinze dias.Sim.Vamos? Que fazemos em relação a Simi? .Suponho que estás numa ansiedade louca. jogando uma nova fornada de ensaios sobre a mesa.Bem.

ficava cheio de um medo terrível de que esse poder pudesse impedirme.Persististe em querer o que desejavas? .. quase deixei de acreditar.Por que me fazes tal pergunta? .com esta perda. afinal um simples estudante.Acreditas em Deus? . .. não ousando reviver a revelação da noite. tiraste-me a minha virgindade órfã. ordenar rebeliões do cosmos na fulminação da sua subida jactanciosa entre sarças. Nenhum homem solteiro tinha o direito de sentir o que ele sentia.Claro.“mulher.Alguns não. surgiu a sua primeira consciência e medo de pecar. Egbo perguntou: . Subitamente vigilante. Não acreditamos todos? . sempre que desejava uma coisa.quis saber Simi. E ele. desafiando a vingança divina com a sua deliberada blasfémia na asserção do passado.Querido. . .És muito engraçado . E medo.Alguém me tocou.Quem me tocou? . . Avançava. na escola. que mal limpara ainda dos dedos as manchas de tinta permanente.disse Simi. Porque. que mais queres!” . em que Simi estivesse totalmente ausente do seu pensamento.. Egbo pensava que o verdadeiro medo se havia dissipado entre as nuvens no seu primeiro voo e esta percepção do medo nunca mais regressara até àquela noite no quarto de Simi. No meu último ano. quando não estava a dormir. com a perda da sua “virgin-dade órfã” . dado que o seu corpo estava nesse instante dividido entre o céu e a terra. embora tivesse adormecido apenas pouco tempo antes. Egbo agitou-se no seu sono.Ebgo duvidava que houvesse algum momento. e o impulso vital que nascia no seio da sua sensualidade era como o rasgar de abóbadas celestes e cataclismos no centro da terra. quando experimentara um terror dos sentidos.era assim que ele a diferenciava da normal perda da inocência . desafiando mesmo quando se encolhia e acobardava.O quê? . . . com plena consciência. Mas então descobri que.. para o enorme. inevitável desafio da vida.Engraçado? Acreditas em Deus? Egbo sentia-se incapaz de controlar os devaneios da sua língua.

. Nesse momento.Que estás a fazer? . a ameaça de sublimação.Quem foi? .Mas eu estou exausto..A vestir-me. sob os seus pés.Se eu quisesse dormir sozinha não te tinha trazido para aqui. as palavras já tinham surgido na minha mente e o pensamento é tão pecaminoso como o acto.Não sei. . No entanto. é melhor não te envolver nisto. O desejo era uma coisa estranha.. Não suspeitara a realidade de tais áreas dos sentidos e receava conhecer de novo esse terror.Bom. E agora mereço plenamente que Deus erga a mão e me fulmine. queres que eu fique aqui toda a noite? . Egbo quase suplicava piedade. . .A voz dele tomou-se um murmúrio à medida que ela lhe tirava as roupas. . é evidente. hum. ..Porquê? Para regressar à minha hospedaria. . Olhou novamente na direcção de Lagos. tu. alheia.Mas porquê? . O tom de voz de Simi tomou-se mais dócil. para o quartinho alugado. para os livros-mestres no escritório e os bolos rançosos a crédito mensal.Bem te disse para não exagerares. .Sim. zombeteiro. olhou aquele trepidante e perigoso passeio de bicicleta até ao escritório através da Ponte Cárter.. Simi compreendeu após alguns instantes e começou a massajarlhe o pescoço com crescente suavidade. o que Egbo desejava era regressar à sua hospedaria. . Egbo era incapaz de recordar a sua existência. Foi-me retirada uma virtude ... . Confessá-los faz que pareçam menos criminosos. não é isso que nos ensinam? .Quer dizer que.Porquê? Quer dizer que não sabes quem proferiu estas palavras? .Porém.Não. agora já é tarde e eu preciso de descansar.. suponho que isso pouco importa.Mas porquê? . o que eu ia dizer-te é isto. Acima de tudo. Tendo perdido toda a sua arrogância. Foi assim que vim parar aqui. De qualquer forma. atingir os abismos que desvendavam.

vamos. do deus inflexível. E Egbo. e uma mulher com quatro crianças endomingadas continuou a importuná-lo' com milho e inhames cozidos que ele recusava com decrescente cortesia. sentindo-se claramente vazio. Alguém devia saber.. tu esperas realmente mais de mim? E onde diabo pensas tu que vou arranjar forças? . ora. deixa-me mostrarte. Para Egbo. Egbo sentiu-se como a pedreira de Abeokuta quando mandaram explodir todo o granito e nada além das águas lamacentas da chuva enchia as enormes cavernas subterrâneas.Quem tem tanto tempo? Mas tu tencionas. muito esticados. o equilíbrio da sua vida fora perturbado. nervoso e apreensivo. espantado com a sua carne. não sabes absolutamente nada. Egbo emocionava-se sempre com o melancólico rumor das rodas quando o comboio atravessava a ponte de Olokemeji e nunca deixava de alongar a vista até aos rochedos sobranceiros ao rio Ogun...Oh! Onde está a minha mala cheia no aeródromo de Warri. hein? Ora. tens de confiar plenamente em mim. A ponte atravessava o Ogun onde as rochas pareciam os carrancudos antepassados Egba em conclave. da segunda vez. Julgas que dormes com uma mulher e a abandonas assim? Não sabes que para ela isto é apenas o começo? . Depois disso. . Nem sequer te interessa o facto de. na mesma noite.. então queres mesmo matar-me. não percebes nada disto. mas nem mesmo esse parecia saber. perguntando-se quais deles adivinhariam a sua transformação.O-oh. incrédulo de que.. débil. não me conseguir mexer durante um ano. vês. quando a feiticeira Simi lhe pegou na mão e o guiou pelos caminhos e atalhos do mais torturante êxtase. o deus . Por fim. E Egbo estudava os rostos dos passageiros um a um. . menos de duas horas após a sua primeira iniciação. Porém. com a esperança de restauração. Eram os dedos dos pés. alguém devia ser testemunha da sua noite de fantasia.Qual é o problema? Isto foi só o princípio. naquela tarde de domingo. . e ele entrou para o comboio.. Egbo começara a agarrar-se à longa e lenta viagem de comboio até Lagos. voltasse outra vez esse novo pilar de poder. surgiu o revisor e pediu-lhe o bilhete. Olumo de Egba.. À nossa frente está uma noite inteira e o dia de amanhã. Temos ainda de nos conhecer melhor. eles limitavam-se a olhá-lo. provavelmente. de algures no seu íntimo. Não tens de ir para Lagos antes do fim da tarde.És mesmo engraçado.

ou ir mesmo direito a Lagos. sem pirilampos. e escorregou pelo declive até às margens do rio. às apalpadelas no vazio. nu no crepúsculo que caía. A meio da noite. e as crescentes vibrações nas águas do sofrimento de Simi eram parte de sonhos que haviam começado a agitá-lo sobre as rochas. Lagos ficava longe e os escritórios surgiam antiquados e deslocados nestas novas dimensões da sua vida. pois era o que desejava. A meio da noite. agora estas haviam-se tomado escuras. dizendo que ainda podia apanhar uma camioneta e reentrar no comboio noutra estação mais abaixo. Egbo deitou-se em cima das rochas e aguardou que o comboio passasse sobre ele com aquele rumor grave que ali em baixo soaria como a gargalhada dos deuses ou as suas insondáveis ameaças. perseguido por pedras soltas e musgo. mas o caótico trovejar das suas rodas chocava de viga em viga. O comboio perdeu-se ao longe e Egbo ficou só entre os penhascos e a floresta cerrada. Procurou agastar o sono e desembaraçou-se das suas vestes. A outra margem contivera o curso de águas claras. Sonolentamente. descobriu que nunca conhecera tamanha fadiga e arrastou-se para o cimo de uma rocha. despertou sem saber onde se encontrava. vindo do seu lugar em Ikereku. Com efeito..expandia-se sempre através da floresta. e com o peso do sentimento de perda e salvação enfraquecido pelos mistérios da celebração. Nadou pouco tempo. pois ele viera descansar e os pés cansados apaziguavam-se sob o alívio da corrente das águas do Ogun. Egbo abandonou o comboio em Olokemeji: o doce e enigmático odor licoroso dos fumos do carvão haviam-no tornado sonolento. agora que o podia fazer. Hoje ia escutar aquele rumor debaixo da ponte. negras como os fundos caldeirões . sem estrelas. de rocha em rocha. Momentos depois o comboio passou sobre ele.. onde se estendeu a secar. pois aqueles olhos pareciam olhos que nunca choravam. Era bom banhar-se nas lágrimas de Simi. enquanto o comboio se atestava de água e recebia carga. Afinal. pois as águas luminosas junto aos rochedos eram filhas dos olhos de Simi. Caminhou ao longo dos carris. tranquilizou-se com resmungos dispersos. o comboio não era muito divertido depois do escurecer: decidiu que ia fazer o resto da viagem de camioneta. com os pés colossais lançados através do macio baixo-ventre da terra. talvez Simi pudesse chorar. vibrantes. Assim.

da estagnação silenciosa. era um arco-íris de aço cinzento. Dormindo excessivamente em cavernas na escura residência de um Deus vingador? Por que remotos desígnios? Que sereia roubou o toque de brisas cortantes? Até que. deixai-me jazer na escuridão. sentia agora a noite como um útero de deuses e uma passagem para viajantes. nele cresceu a ousadia e a ira.. pingando como o sangue no oriki de Ogun. E Egbo relembrava agora os seus gritos dilacerantes quando fazia amor... Mas não deste ribombar de apatia e cegueira da sua senda. Não costumava o seu professor dizer que aquilo que fazia um rapazinho rir havia de fazê-lo chorar? Gostara da escuridão. mal amadurecido.. de forma que terminou com as indecisões.. sufocada. que acabara de celebrar a libertação do homem..terra. sentia-se despido ante a sua nova intrusão.. porque eu sobrevivi a esta noite. desvendando filões nas rochas. pois qual o . to to to to. Esta não era uma habitação humana e que era ele senão um fruto da espécie. Recorda os meus terrores desta noite. a torrente do rio era calma.. Recorda a tua promessa. chorar também. Deixai-me jazer na escuridão. Egbo pôs-se de pé e olhou à sua volta. e as correntes anis de adire estendiam-se a secar. e ele ria. Depois veio a manhã. Egbo sentia e reconhecia o medo. e vigas erguendo pilares dos intestinos da. recorda a tua promessa.. mostrando uma língua negra.. Se isso fosse pecado . chorar na escuridão. pela primeira vez desde a sua ascensão infantil ao domínio dos deuses.. fazendo nascer uma rede lá ao longe. ira verdadeira. com o medo. pois parecia-lhe que tinha nascido outra vez.então . vendo somente a chantagem do medo. Se isso fosse pecado? . Partiu com um dom que não era capaz de definir.. Na grande voragem da terra. espiando os seus apuros? E a sua ira subia.das tintureiras.e ele sabia que o seu enfraquecimento proviera disso. Que truque mesquinho era este? De quem era a gargalhada protegida pelo escuro. e agora ria. E onde estava o brilho da pele de Simi? E onde estavam as ameixas bravas no leito do rio? E onde estavam os reflexos de luz nas pesadas unhas dos dedos dos pés de Olumo? De forma que agora. liso. maravilhado com a vida. ó morte! E Egbo deitou-se de novo sobre as rochas e adormeceu. porque as palavras secavam com dificuldade na sua língua.. orou ele..deixa vir a paga.

uma estudante impiedosa. coberto de grandes rabiscos pouco femininos. obrigado. Devia tê-lo apresentado ontem. . mas Egbo enchia o limiar com o seu corpo.disse Egbo -. um explorador da natureza. . é claro que sim. Egbo seguiu-a com o olhar. . . muito . importa-se de o receber. posso deixar cá o meu ensaio? .Devo dizer-lhe que concordo com essa arguta observação sobre o meu amigo. vou mostrar-lhe uma maravilha.Fique a conversar comigo. Porém.Bem. até levava a cama para as aulas e ensinava deitado.O seu professor não está. . Estava sozinho em casa. Se pudesse.Aha. Esperou até ela voltar ao limiar e pediu: . uma consciência que o impelia perigosamente para uma psique de sal-gema. Bandele fora para as suas aulas e uma rapariga tímida encontrava-se no limiar da entrada.Não. não posso ficar.Depois dessa observação.Venha cá . Não vou ajudar uma estudante preguiçosa. com que então esperou até ele sair! A rapariga tentou rodeá-lo e entrar em casa. Ele sabe que é verdade. . por favor? . hein? Como se atreve a falar assim do seu professor? Vou dizer-lhe que a reprove. . Tinha talvez dezanove anos e segu-rava folhas de papel pautado.Não é uma questão de licença. franzindo o sobrolho. um lugar de peregrinação. Nós não receberemos isto de volta antes do fim do período.Eu sei. . quase débil criatura ter uma escrita tão monstruosa. E fez disso a sua coutada.Diga-lhe. Egbo curvou-se solenemente.O seu amigo não é superior a mim. não é verdade? .Ou não tem licença para o fazer? . . .E agora. . . já que eu não posso entrar? .Posso deixá-lo simplesmente em cima da mesa. enquanto ela pousava o ensaio na mesa. Sem pegar no ensaio dela. Ela imobilizou-se.viajante que enfrenta os deuses nas suas cavernas e se vai embora sem uma dádiva divina? Chamou-lhe sabedoria.Eu sei.Vim só entregar o meu ensaio.O-oh. Egbo perguntava a si próprio como podia uma frágil. por vezes um dom para a beleza.

obrigada.
- Por que não? Estou a beber sozinho, o que é mau. Sinto-me até
só, o que é pior.
- Não se incomode a tentar essa comigo. Não resulta. Ela parecia
subita-mente adulta.
- Meu Deus, vocês estudantes são todas tão perspicazes!
- Não somos totalmente idotas, sabe?
- Está bem, está bem. Ela acenou alegremente.
- Então, adeus. Beba, mas não se embebede.
Egbo viu-a afastar-se e, de repente, foi percorrido por uma
enorme sensação de solidão. Adormecera meio ébrio, porque Simi
afinal não aparecera, despertara perguntando a si próprio se Simi
satisfaria realmente os seus crescentes desejos, se Simi
permaneceria imutável enquanto ele... ele saía da cama e
contemplava a barba no queixo. Havia agora rugas na sua testa e
apenas um mês antes Simi arrancara cinco cabelos brancos da sua
cabeça. Este facto impressionara-o bastante e ele esticara-os numa
folha negra de papel químico. Por que envelhecera ele tão depressa?
Vinte e oito anos e com cabelos brancos!
Egbo precipitou-se atrás da jovem.
- Sabe, não me chegou a perguntar qual era a maravilha.
- Qual maravilha? - ela olhou-o com um vago divertimento.
- Não se lembra? Quando abri a porta e a vi ali parada...
- Ah, sim. Você disse: venha cá, vou mostrar-lhe uma maravilha...
qualquer coisa assim.
- E você nem sequer me perguntou ao que é que eu me estava a
referir.
- A princípio, pensei que era louco.
- A sério?
- Ou que estava a ensaiar mentalmente algum texto.
- Isso já é mais caritativo. E agora quer ir comigo ver o que é?
- Não, obrigada. Quem julga você que eu sou?
- Uma coincidência. Ela franziu o sobrolho.
- Que significa isso?
- Significa simplesmente que eu estava a pensar em voltar a
visitar um santuário que eu próprio criei. Desde que me levantei esta
manhã, não tenho pensado noutra coisa. Já decorreu bastante tempo
desde que lá fui a última vez.
- Bom, e o que é que isso...

- Espera, pequena, já lá vamos.
- Mas quem é que você julga que está a tratar por pequena?
- Por favor... não me interrompa agora. Ora eu estava
simplesmente a desejar ir lá com alguém, pois até hoje sempre lá fui
sozinho. A semana passada a ideia parecer-me-ia sacrílega, mas
hoje... bem, não consigo explicar. Descobri isso apenas pouco antes
de você chegar: desejei poder levar alguém comigo.
- Porquê eu?
- E por que não você? Serve tão bem como qualquer outra
pessoa.
- Oh! - ela fez uma vénia de mofa. - Obrigada pela honra.
- Então, vamos? Tenho só de tirar o carro.
- Oh, um passeio de carro. Isso é para me impressionar?
- Bolas para si, menina, mais as suas respostas memorizadas.
- Obrigada, lobo mau, mais as suas maquinações espontâneas.
Egbo deteve-se, incapaz de conter o seu prazer.
- Você mostra ter muito espírito Com efeito, acho que você é
uma pessoa deliciosa. A maioria dos estudantes que conheço não o
são.
A jovem deu um passo na direcção dos edifícios da universidade.
- Então, vem comigo?
- Tenho muito que estudar. Os nossos exames estão à porta.
- Exames finais?
- Não, ainda não. Mas também são importantes. Paru mim são.
- Você é uma jovem muito circunspecta.
- Nesta atmosfera, tem de ser assim
- De qualquer modo, venha comigo. Prometo que não nos
demoraremos.
O rosto dela tornou-se sério. Parecia meditar sobre outras coisas,
nada que lhe dissesse respeito, e estava preocupada.
- Acaso não confia em mim?
Sem levantar os olhos, ela abanou a cabeça.
- Não, não é isso.
Uma urgência em cometer o sacrilégio - acima de tudo, Egbo
tinha consci-ência disso. Quiçá em segredo, talvez há muito tempo
ele ansiasse mostrar a alguém o seu refúgio, o último baluarte
daquela iniciação, para partilhar a experiência da sua noite sob a
ponte com uma companhia humana. E Simi nunca poderia fazê-lo.
Embora sendo a causa directa, Simi, nem por um minuto, em todo

aquele tempo, parecera ser parte deste retiro. A reacção dela seria
profana, não entendendo as diferentes fases do seu carácter, as
claras águas correndo velozes para um cemitério de deuses, enormes
lápides de granito sobre prados de água cinzento-azulada. Ela
surpreendera-o uma vez e então ele compreendera, aprendendo a
deixar Simi no seu próprio ambiente, porque aí ela era infalível, a
única e perpétua rainha. O mundo de Simi eram quatro paredes, um
rádio, um gira-discos, uma preciosa carpete de pêlo curdo, e não
agulhas de pinheiro desfazendo-se nas reservas florestais, ao lado de
espessos formigueiros, sob o assobio do vento através de pinheiros
cobertos de pinhas encimadas por gotas de cristais de goma
castanho-dourada, segregadas pela árvore. Uma vez ele fizera para
Simi um colar com esses cristais secos e ela limitara-se a dizer:
- És muito engraçado. A jovem perguntava-lhe:
- Que faz você?
- Foreign Office. E eles apenas empregam homens de carácter sói
ido.
- E o que é um caracter solido?
- Bom, isso é um pouco complicado, no entanto, tudo se resume
nisto: podemos passar as noites num bordel desde que seja indígena,
mas não podemos (alar com a filha de um embaixador estrangeiro.
Percorreram de automóvel as doze milhas até Ilugun, numa
estrada que se enrolava e desenrolava, e Egbo repetia,
silenciosamente, vou mostrar-lho ape-nas uma vez e nunca mais,
nunca mais, só hoje. Admitamos, também, não ser estranho eu
necessitar de companhia, precisar de me sentir sincero, sem maquinações. E era também o que ela procurava, apenas a companhia
impulsiva dele, pois era terrivelmente independente.
- É uma condição que imponho - continuava ela a repetir -, você
nunca mais me deve procurar depois disto.
- Claro que não.
Ela ergueu os olhos rapidamente, descrendo do assentimento
dele.
- Não devia encarar a situação tão levianamente. De qualquer
forma, que outra coisa seria de esperar? Você já esta formado, por
isso é-lhe indiferente que eu reprove ou não.
- Não está a ser justa.
- Isso já aconteceu a amigas minhas, sei bem o que digo.
- Está bem, está bem, pense o que quiser.

Em Ilugun pararam e Egbo comprou carne fresca, acabada de
assar em pequenas fogueiras. Debaixo do assento surgiu o seu
companheiro constante, uma barrica vazia, e. de seguida. Egbo
começou a rastejar, olhando para ambos os lados, por entre o
matagal.
- Vamos encontrar-nos com alguém aqui?
- Sim, mas ele não sabe. Temos de esperar que ele desça.
- Desça donde?
- Do colo do deus. O senhor da costela espiral, a palma.
- Ela estava tão divertida que era incapaz de parar de rir. - E
melhor não se rir na cara dele - acautelou Egbo -. a menos que não
tencione beber do leite dele.
- A culpa é sua - disse ela -, a andar de rastos com esse enorme
garrafão atrás de si...
- Esteja preparada, esteja bem preparada para a descida do
deus. Por estes trilhos fora, eles não sabem o que e a agua. O vinho
de palma é o que cai da arvore. Nas cidades foi inventada a água e, ai
de nós!, já penetrou nas aldeias. Porem, o vinho de palma nestas
paragens bravias esta só, nada mais tendo do que ar entre ele e o
seu deus. E não se atreva a diluir o sacramento.
Ela bateu palmas.
- Uma palestra maravilhosa, muito inspirada... espere. espere, ali
está uma.
- Uma barrica de vinho, caça assada e um livro como o
enigmático tu. a meu lado neste deserto
- Gosta de Ornar Khayam?
- Conheço e gosto unicamente desse tetrástico - é esse o nome,
não é?
- Mas o que quer dizer com enigmático?
- Se soubesse responder-lhe não lhe chamaria enigmática.
A vereda havia quase desaparecido, mas Egbo desviava os
arbustos altos e as moitas rasteiras, fazendo a pesada barrica oscilar
de um lado para o outro.
- Seria bem feito que ela se soltasse e partisse.
- O vinho de palma não trai os seus, acredite. Deteve-se. - Olhe.
- Estamos perto do rio?
- Fica a alguns metros para aquele lado. O que eu quero que veja
é outra coisa. - Pareceu calcular a distância até uma árvore e,
satisfeito, separou os arbustos em determinado local.

- Siga-me.
Agora tenha muito cuidado. Não me agrada
abandonar uma vereda.
- O que é?
- Espere um minuto.
Como sempre, invadia-o aquele sentimento de culpa devido ao
seu egoísmo. Pensara uma centena de vezes, tenho de trazer Sekoni
a ver esta mara-vilha, e prometia a si próprio ser para a próxima vez.
Chegaram então a uma parte do matagal que' parecia nunca ter sido
bafejado pelo hálito humano e aí ele mostrou-lhe as catedrais
desoladas, agora ignoradas peias gordas formigas esbranquiçadas
que as haviam construído. Viam-se outras, novas, crescendo
lentamente do solo. A estrutura erguia-se quase diante dos olhos
deles, pulu-lada por centenas de suaves palpitações brancas,
amamentando laboriosamente e dando vida a pequenas colinas.
- Como um grupo de monges diligentes - disse ela.
- É tão absurdo... Limitam-se a abandoná-las uma vez
completadas. Venha por aqui, vou mostrar-lhe uma obra-prima.
- Apartou as folhas a alguma distância dali e ficou parado,
esperando a aprovação dela, como se desvendasse ao mundo uma
obra criada por ele próprio. - É ou não é - perguntou quase
ansiosamente - a mãe e o filho?
Construído em forma de espata, um vasto manto moldava duas
figuras, sobrenaturais no seu realismo, como faces flutuando no céu;
o vento dera-lhes um acabamento de grão grosseiro e elas elevavamse como um sepulcro castanho entre a frescura do orvalho. O manto
formava uma alcova, dentro dela estavam a mãe e o filho. Um
terceiro plano, por detrás de ambos, em obelisco, erguia-se como que
para prestar homenagem, feito de borlas baloiçando à mais leve
aragem.
- Tal vez agora eu traga aqui o Sheikh.
- Trazer quem?
- O Sheikh. O verdadeiro nome dele é Sekoni. É escultor.
- Sim, devia trazé-lo.
- Se não tiver medo e puder ficar até as sombras se alongarem,
verá a escuridão crescer por detrás do par, conferindo maior
profundidade à alcova.
Caminharam depois em direcção ao rio, patinharam nas poças
até uma rocha arredondada, saliente e macia, que era o leito favorito
de Egbo. Ele olhou o local onde Olumo meditava, invisível para lá de

avisou ele -.Justificação? Não. . . bebendo vinho de palma e comendo carne semiassada. Egbo sorveu enormes goles de vinho e estendeu-lhe a barrica. digamos. e é suficiente. Venho aqui com frequência evocar essa dávida e ser indultado. pareço passar meramente de um acontecimento para outro.Como foi que veio a descobrir este lugar? Egbo narrou-lhe a sua noite de terror sob a ponte. sentindo a agitação no seu coração.Não. Eles estão todos ocupados a fazer qualquer coisa.O que foi que aconteceu desta vez para precisar desta.. embora algum dia possa chegar à conclusão de que uma vez foi suficiente. agitando a água da poça com os pés. Acho que preciso mais dela do que todos os meus amigos. Quando aqui venho. Como despertar pela manhã e sentir em mim uma grande dádiva. e apressadamente Egbo desviou o olhar dos pequenos seios. essa coisa está isenta de manipulações e água. descubro.E você nunca trouxe ninguém aqui? Nem mesmo a mulher.Não está bem assada. . Venho aqui. uma noite de descobertas e eu fi-las sozinho.Se ontem. ela fez uma careta dizendo: .Cuidado.. . cuidado .. Ela sentiu o vinho correr-lhe pelo queixo. Foi.exclamou Egbo -..Não se consegue deste vinho passando os dias na biblioteca.vinte milhas de floresta interposta. . de cabeça inclinada. colando-lhe o vestido à pele. aceitando-a sem procurar interpretá-la. . enquanto ele falava e revivia a sua travessia da escuridão. Como se a vida não fosse mais do que experiência. não. Quando comiam. porém. é ainda demasiado cedo para falar nisso. se mesmo esta manhã.. eu. para ser novamente justificado. .Não agites o teu maldito dedo do pé . Egbo contemplou-a longamente antes de ela lhe perguntar: . Ela continuou sentada.Nunca tinha bebido vinho de palma com este sabor. alguém me dissesse que eu agora estaria sentada no meio do Ogun.? . tenho uma convidada. caindo sobre o peito.. Acto que se renova sempre. . Simi? . Ela tornou-se de novo solene. Ela deixou o líquido gorgolejar pela garganta.

Quem se atreve a ser perfeito? . . pelo menos. ..Não. Alguns homens procuram outros homens para serem tranquilizados. Não gosto do modo como põe as questões. apenas a pele teimosa do instinto de defesa dela. Possui um .. confiamos plenamente em nós próprios. .Pode-se sê-lo. poderíamos acabar por revelar demasiado um ao outro. Nem mesmo quando a nossa pretensa sofisticação serena realmente e se torna parte de nós. Quem é ele? . Bandele parou.Um jornalista que viaja à boleia através de África. mas engana-se. Tenho um hóspede e poderás não gostar dele.Então. não falemos mais nisso. . ele lavou-o no rio.Nem mesmo quando alcançarmos os primeiros lugares. assim é.. falemos sobre o que quiser.O seu instinto tem razão.Pelo privilégio de sair de Lagos . Como quando veio comigo. mandando ao diabo as suas naturais suspeitas e inquietação. não deve julgar as coisas desse modo. Fale-me do Foreign Office e dos seus arquivos diplomáticos.Porque não são verdadeiras? Oh. aceitarei qualquer tormento. tão receoso de se aventurar. . mais tarde. apesar dos tímidos protestos dela. salpicando os dedos dos pés do deus e. . Ela disse: .É muito amável. se sentira tão nervoso. .replicou Sagoe -. Foi uma decisão muito obstinada. . A dureza era somente uma crosta exterior.Sim.Não.Sim. fale-me sobre o que quiser.Até certo ponto. É preciso sê-lo. não. A continuar como começamos.Você não é imperfeito. .Os meus exames são no próximo mês. Egbo puxou-a para si.Esqueci-me de te avisar. mas não sobre nós. Não deves tentar ver-me de novo. por favor. desde aquela noite com Simi. creio que sinto isso em si. . com a chave na mão. . . A imperfeição deles é maior que a minha. é uma característica das pessoas solitárias e eu estava cheio de respeito. . E Egbo confessou que nunca. cedendo sob as suas mãos ávidas. O puro centro escorria sangue rubro.Não julgue que eu não compreendo.

Ele tornou-se um maníaco pelo Panteão. que se passa com esta maldita porta.e. arrancou-lhes as malas das mãos -.Não te aconselho. o mesmo espécime zoológico precipitou-se escada acima. bramindo: .E quem é esse Joe Colder? . . . deu-lhes uma palmada nas costas . Desta .Desculpa. . Seguidamente.Não sei.Mas Bandele limitou-se a encolher os ombros e sorveu um gole de cerveja.És tu.Bem.Se acontecer o pior. .Não me recordo de ter feito tal coisa. empurrou-os para a sala de estar com uma cerveja em cada mão. uma oval cor-de-rosa surgiu sorridente. Joe Colder saíra e me deixara este palhaço entre as mãos. . alguém lutou com a maçaneta. quero falar pessoalmente com ele. Nas escadas soou algo como uma debandada de elefantes e um grito: . . alemão.Já tinha começado a pensar que não vinhas esta.Convidaste-o a ficar em tua casa? Bandele abanou tristemente a cabeça. . . alguma vez esteve em Chicago? .Provavelmente vais achá-lo insuportável. acho. Durante alguns segundos. de um momento para o outro. Eu cá. Bandili? .como estás meu malandro -.Inglês? . esta é a tua casa.perguntou Sagoe. uma mão rósea e peluda sacudiu-lhes as mãos. . De qualquer modo. .Não. mas julga ser americano.Isto é alguma piada? . .Que é isso? Não sabes? .arsenal formidável de equipamento fotográfico como nunca vi na minha vida. Hás-de encontrá-lo qualquer dia.Ouviram um salto do quinto degrau e um estrondo logo atrás da porta. não vai demorar um minuto.Conheci-o através de Joe Colder. enquanto uma voz aconselhava mais calma. noite. É um leitor americano de História. só sei que. Peter desceu novamente de uma forma muito semelhante à anterior. que tal achou o teu amigo a América. Bastante insuportável como animal social. posso ir ficar em casa de Kola. Mas ele está aqui. este é que é o teu amigo do Foreign Office? . até que a porta se abriu subitamente.O quê? . não é? Agora tens um bobo privado.

entretevese a misturar todas as pronúncias. Convidou-me para passar um fim-de-semana na sua casa de campo. Sou alemão mas uso passaporte americano. Lamento tanto não ter podido ir convosco a Lagos. neocolonialistas. Peter colocara ambas as mãos nos braços da sua cadeira e plantara a face diante da de Sagoe.E então é o: corram com eles. . O frigorífico estremeceu com desusada violência e Sagoe lembrou-se de que Peter ainda estava com eles.E vais lá? . .Sim. em particular o riso. Bem.vez apresentou-se formalmente: .É americano? ..Mas só até verem o resultado. Nada mais podia fazer do que permanecer sentado. . acho que Bandili já lhe disse. . depois murmuras de modo que ninguém percebe uma palavra do que dizes. deportem esses saca-nas. E a sua. . o vosso ministro. . . Um pouco de publicidade grátis no estrangeiro. . Vou só buscar uma bebida. corram com eles.Um qualquer. mas tinha um encontro com um ministro. Peter fazia-lhe lembrar o chefe Winsala. Divertiram-se muito na cidade a noite passada? Um tipo fabuloso. neocapitalistas.Que tu me pareces um excerto de vacuidade nas escórias da bestialidade ariana. Ola! . depois compreenderão que as suas palavras foram adulteradas. como ousam eles abusar da nossa integridade soberana com as suas mentiras reaccionárias.Chamo-me Peter. venho já. Sou jornalista. .quis saber Sagoe. viva a Nigéria.Nenhum espião. um tipo às direitas.E como vai a vida no Foreign Office? . .perguntou Sagoe. ultimamente.A afectada indiferença de Bandele divertiu bastante Sagoe.O teu amigo é mesmo um tipo engraçado. quem diabo julgam eles que são.Primeiro gritas a ponto de toda a casa abanar.Qual ministro? . Depois. como vai? De certo modo.. não exactamente.Claro. Peter riu-se.Eu sou assim . senti-me realmente honrado. . .confessou Sagoe. O que era aquilo que ele gritava ainda agora? Sagoe murmurou quase para si: .

O avião dele vinha atrasado. . Peter. Todos os dias faço amigos nas ruas e nas casinhotas à beira das estradas tal como qual-quer nigeriano. . É uma coisa íntima. .Deixa-o ir . . Sinto-me nigeriano. Bandeie pareceu entristecer-se. Bandili? Proponho irmos festejar o conhecimento deste teu amigo e colega de profissão. Ah. .Na realidade. Achas que eu sou um espião. Sagoe sentiu-se confuso.. Sinto-me mesmo em casa. devo confessar que agora me sinto realmente em casa.Estás enganado. é um tipo porreiro. hein? Eu faço parte da família. não me parece que sejas um espião. .Ena.Peter avançou e voltou a sacudir-lhe a mão. Vamos todos..Ele apenas usa o chuveiro nas instalações dos rapazes. Voltou-se na direcção de Bandele mas foi silenciado. Bandili. o teu amigo.Onde vai o teu amigo? Eh. .Então és um dos nossos! . não sabes como são as nossas famílias aqui. desviando o rosto quando o bafo malcheiroso de Peter o atingiu em cheio. . fui convidado para uma espécie de festa.Parou. . . olha-me esta. . Realmente.Por isso eu posso ir. não trabalho no Foreign Office. dizendo: .Bandili.Ah. com a promessa de uma ulterior explicação. Deve chegar mais tarde.Óptimo. só para a família. . . vendo Sagoe dirigir-se à porta das traseiras. . É lá em cima. Abriu caminho. não achas que ele é mesmo. Bandili? . depois vamos a um cabaré qualquer e engatamos uns borrachos.explicou pacientemente Bandeie. tive uma ideia. por sinais.Admiro a sua perspicácia.Mas disseste-me que esperavas um amigo do Foreign Office.. Sabes que eu gosto do género de pessoas que não estão para cerimónias. este é Sagoe e trabalha num jornal. .Maldita mania a tua desta familiaridade instantânea e vitalícia – resmun-gou Sagoe. que dizes? . sabes? Não me sinto diferente de vocês. Peter.Bem. . . Nem por sombras me passaria pela cabeça que ele trabalha no serviço diplomático. . a casa de banho não é aí.Mas ele pensa o contrário. tu és todo solene. Um tipo às direitas. . Bandele estremeceu. Bandili. o teu amigo é mesmo o tipo mais engraçado que conheci em África.Que vamos fazer esta noite.Não. Primeiro vamos a essa festa. mas o teu amigo é pouco cortês.Bandili.Vou só lavar as mãos.

Ensaboou furiosamente o queixo e o lábio superior para não ter de abrir a boca. que já descia as escadas.. o idiota teria ouvido aquilo que murmurara.Ena. voltou-se para o armário e iniciou os preparativos para se barbear. vamos apanhar uma bebedeira. .Já estou a beber cerveja. . aqui. homem. o uísque é muito melhor para esfregar na pele. Não queres um gole? Sagoe abanou a cabeça. Que mosca lhe mordeu? . . dado que o lugar da porta era agora ocupado pelo vasto arcaboiço de Peter. Quando Sagoe tentou fechar-se na casa de banho era tarde. resmungando: . A minha família foi sempre muito conservadora.Está bem. vamos ficar alegres. Peter. loção para depois da barba. Os Americanos não perdem tempo com copos. após algumas tentativas. . Eu apanho sempre uma antes de me encontrar com a família.Eis aquilo que eu gosto nos lanques.Ouve. Sabes. pensei que talvez gostasses de dar um gole enquanto te barbeias. perguntando a si mesmo se. tomando nota mentalmente para não oferecer o que restava daquela garrafa a alguém que considerasse seu amigo.Não faço a mais pequena ideia do que possa tê-lo chateado. as pessoas ficam sempre a olhar para mim porque bebo pela garrafa. Muito conservadora mesmo. . queres experimentar? Melhor ainda. Peter. .Vá lá.Pergunta-lhe. .O que é isto? Ah. . .Queres beber. afinal. quando vou a um clube nocturno. Antes de ter alcançado o cimo das escadas. Oh. Peter já ia atrás dele. Bandili? Bandele abanou a cabeça. hein? Apenas lhe ofereci uma bebida. Que diabo. . esqueci-me de levar sabão e toalha. o teu amigo é realmente um tipo irritável.Por causa daquele maldito idiota. oh. Deses-perado. optou pelo uísque e enfiou o gargalo da garrafa na boca. Sorveu mais uma golada. bebem sempre pela garrafa. Bandeie suspirou. a chave caíra no chão. Sagoe regressava a casa.Tira-me essa garrafa da frente do nariz! Bandele riu-se entre dentes e veio ao encontro de Peter.

quer dizer comunistas. . . . . .Farei tudo para me afastar de Peter.Depende. E de compreensão lenta.Tens a certeza de que queres ir à festa? . vamos embora.O que é que ele dirá quando descobrir que nos fomos embora? . . mas este não conseguiu segurá-la.Os cães ladrarão.Uma desculpa para me livrar dele. A calçada estava impedida pelos carros dos convidados da festa e Sagoe propôs: . homem. Os criados conseguem passar. continuando a manifestar o desejo de se embebedarem a sério. Bandele parou. Ou morder-nos-ão. E que fazem eles aos ciclistas? . há-de arranjar-nos uma desculpa. Peter subiu ao primeiro andar. Para que foi ele desperdiçar um uísque tão bom? . estava de regresso com a família e iria ficar em minha casa.Hás-de ver com os teus próprios olhos. . .' .Oh. Uma das raparigas deu-lhe volta à cabeça. se pensarem que somos criados. mas bebes também um pouco de uísque a acompanhar. não acredito. Pegou no esfregão e deteve-se no limiar da casa de banho. em cinco minutos aquele homem reduziu-me a uma pilha de nervos. Disse-lhe que um amigo meu. Na garagem.Parecia verdadeiramente magoado e começou a esfregar o líquido derramado. que estivera no serviço diplomático no Canadá. Meu Deus. . que se passa com vocês hoje'? Tentou meter a garrafa nas mãos de Bandele.Bandele abanou a cabeça. .Hum.Mas Egbo vem? .O teu amigo está mesmo maluco.Está bem. . . parece-me que são cães muito finos.Que historia era aquela dos aviões'. .Vamos voltar para trás e ir a pé. dizendo: . A garrafa estilhaçou-se no chão e Bandele regressou calmamente à sua cerveja.Não acredito.Ele agora pouco sai daqui.Estou impressionado.Não. À luz dos faróis. Os leitores da universidade recebem dois latidos breves..Está bem. a face de Bandele era seca e lisa. Então.

tudo em plástico.O que é que se passa? Oh.Isso não é nada.. com os olhos.Será que conseguiremos chegar às garrafas? . eh.Realmente achei a partida dela para Londres muito apressada e uma vez mais soaram risos comedidos. . espera aí. espera aí. O verniz. popadums. eles deitam-se na estrada e deixam-se atropelar.. mas vai. gritando: . . eh..As aparências iludem. à europeia. não há fruta no mundo que se compare à maçã europeia.Estás enganado . Sagoe voltou furioso. eram iguais às maçãs artificiais. duas pêras e um leque de bananas trabalhadas em cera. e conseguiremos passar. dizia tudo.amendoins.. que substituía o calor da vida e a suculência. e o tecto estava coberto de líquenes de plástico. espetadas e as inevitáveis azeitonas -. Nas paredes havia vasos extravagantes parecidos com chapéus de praia e deles caíam heras que se agarravam a uma moldura. compreendia agora. Sagoe passara. .Espera aí. .Só agora começava a aperceber-se da decoração da sala e estalava com a língua à medida que.Que ideia esta de porem ali fruta de plástico. vamos embora.Para o interno com o patriotismo. O-ko-ko-ko! Do tecto pendiam cachos citrosos suspensos por fios invisíveis. ia completando lentamente um círculo.E então ela revelou um súbito interesse pelo grupo de madrigal. Sagoe viu uma taça com frutos frescos e dirigiu-se a ela. de modo que John disse: é melhor ir ver o que se passa. soou uma voz aguda.replicou Bandele -. .são nigerianos? . ainda estás com essa ideia das frutas? .Para usar a expressão favorita de Mathias. hás-de ser tu próprio a descobri-lo. Do lado da taça de ponche. . Um zumbido de gargalhadas suaves e galantes acolheu-os à porta e penetraram na casa da morte.. Soaram risos abafados e depois uma voz grave afirmou: . Bandele. Bandele. sob um grupo especial composto por uma laranja...Basta irmos empurrando. Estou a ver caras negras . Se chegares ao volante de um dos carros dos maiores. Entre as taças de acepipes . . pouco a pouco. decerto o estranho dialecto de alguma tribo britânica: .

Devias ter posto uma gravata. começando na ponta dos dedos.Não o vi entrar.Será que têm cérebros petrificados a condizer? Na área das trufas ouvia-se: .Cheguei muito tarde. de expectativa ambígua e perigosa. . . . Oh.Não fales tão alto..Sinto-me transportado à floresta petrificada.É muito simpático da sua parte dizer isso.Também ouvi. . Bandele . .Mas se ela estivesse a falar com um branco eu compreenderia. . aqueles loucos.Vem aí a dona da casa. E a excitação cresceu até Sagoe compreender que precisava de ir aos lavabos. .replicou Bandele e Sagoe quase deixou cair o copo das mãos.Não me diga que conduziu à noite naquela estrada! É muito perigosa. . Simplesmente alérgica a africanos. sim.E de novo o professor acenou compreensivamente. Pois ela fica positivamente cheia de borbulhas. Os nefríticos nunca puderam com os africanos.! E. lamento.Que queres dizer com isso? ..É como te digo..Mas quem é o negro idiota que ouviu aquilo com ar de simpatia? Quem é o mandarete em fato de gala? .saudou a mulher.. mas vem para o pé da mesa das bebidas ..que agora é que vais ter de pagar o que bebeste. E ela é uma pessoa tão sensível! Quem iria tomar conta dela? Bandele afastou com gentileza os dedos de Sagoe que apertavam o seu braço.Mas ouviste aquilo? Quero dizer. Acabo de regressar de Lagos.Boa noite.. gradualmente.Acho . Uma mulher aproximou-se. É a festa dele.disse Bandele .. Boa sorte. Uma sensação estranha na pele. tive de desistir da minha licença por causa dela.Sim. Sagoe sentiu uma estranha excitação. ela é simplesmente amorosa. . . . Aquele é o novo professor. ouviste bem aquilo? .Nada.. .Estava decidido a não perder a vossa festa . . E não preciso de um torniquete. bem sabe. O que é que se passa com a gente que vive aqui? . Insisto sempre com o meu marido para levar o motorista quando tem mesmo de viajar de noite. . Quem é o seu amigo? .

talvez. Mas Sagoe dominou silenciosamente a sua fúria e..A propósito..Não. Bandele ria entre dentes ao mesmo tempo que a anfitriã lhes voltava as costas e os abandonava.. há-de trazê-lo consigo quando vier tomar chá connosco. conseguiram encontrar alguma coisa para comer? Era apenas um jantar no bufete. .Já começou a leccionar? ... exames e coisas dessas. . . perguntando: . apesar da sua rosa..Não.Sagoe antecipou-se com vivacidade. vou tentar saber por que germinou no teu umbigo bulboso uma rosa artificial. que tens tu lá dentro? Um peixe escorregadio? . creio que vai precisar de tempo para assentar. campainhas nos dedos.Sagoe. .. pois não? . Sempre achei que é terrível para os estudantes serem colocados imediatamente a leccionar. .Como está? Nunca nos encontrámos antes. . . obrigado.. para começar.e intima-mente ia trauteando.Os Americanos são tão informais. .. e. Se se apressarem. . para agravar a situação... . retorquir asperamente. A mulher estendeu uma mão enluvada..De qualquer modo..Acabo de chegar da América. Ela sorriu docemente. é muito difícil reajustarem-se. Enluvada até ao cotovelo.Nós apenas nos encontrámos à entrada. sentiu-se ofendido. . mentalmente. Bandele. o Big-Ben no pé e.Tinha-me esquecido de que as aulas já acabaram. nem tive tempo de me apre-sentar. retirou-lhe a luva. É certamente uma coisa difícil uma pessoa assentar depois da sua vida de estudante. A maçã de plástico estava muito boa. creio que não.A-ah. apanhado desprevenido. Mas ela impediu-o de. Chamo-me Edward Akinsola. ela há-de cheirar a chulé. os Estados Unidos! Isso explica tudo. talvez consigam alguma coisa. De momento há exames e coisas dessas. Mrs. a senhora deve ser a anfitriã .corroborou Sagoe -.. não são? Sagoe.Com o maior prazer.É evidente que você é novo na universidade. . . ... Oguazor.Precisamente .Sagoe fitou-a na esperança de que ela explicasse o que explicava o quê e ela foi constrangida a fazê-lo. tenho estado a fazer pesquisas .

. as senhoras estão à tua espera. Relações de cortesia é o . crida . não devemos deixar as sinhoras à espera. Importas-te de tratar das coisas aqui' .e Sagoe apercebeu-se claramente da troca de olhares de entendimento. esqueces-te que lhe disseste que não te conhecia.Não fiques de mau humor. o professor inclinou-se. esperando qualquer coisa.. Mrs. Sagoe voltou-se para Bandele na intenção de perguntar se a testa acabara. Tenho um sexto sentido para estas coisas. Aquilo foi mesmo pontaria.Já está arruinada. . Todas as senhoras pareciam ter-se reunido ali.Ah. Porém. Andava à tua procura para te dizer que tenho de ir Ia acima.Arruinei a tua reputação? . perto da escada. meu Deus. .A tua cara. irreparavelmente.Tê-lo-ias feito.Bem te disse para pores uma gravata. não te preocupes. . . com pessoas como ela. simplesmente. Caroline concedeu a Bandele outro sorriso fugaz e viram-na desaparecer entre sussurros. Não te portaste nada mal pela tua parte. .Pensei que Ceroline estava aqui. . e preciso estarmos mais preparados.e o professor pegou na mão de sua esposa -. . ele ainda não está habituado às coisas daqui. Nesse momento. . . e as senhoras estão a espera dela.Não vejo onde possa estar essa pontaria. e foi com muita dificuldade que Sagoe controlou o impulso de verificar se a sua braguilha estaria desabotoada. é melhor não pôr em risco a tua reputação. O desprezo que os seus modos manifestavam era demasiado evidente para subsistirem dúvidas. Parecendo uma marioneta saída dos manuais de etiqueta vitoriana. Uma concentração ruidosa num dos cantos da sala. Mesmo assim.Vamos. quando o professor se aproximou deles.Oh. . Oguazor emergiu de um dos grupos e encaminhou-se para o professor.Claro que não.Ceroline. . vejo que já conheces o novo leitor da universidade .Que diabo encontras tu de divertido nisto tudo? explodiu Sagoe. .Esteve aqui há momentos.Bem sei. . .Pedi a Bandele que o trouxesse a tomar chá.É verdade! Melhor ainda.

domesticados e correctos. Os homens. Passava-se tudo com tanta elegância que Sagoe estava perdido na sua admiração O professor murmurava-lhe que os lavabos do rés-do-chão estavam a disposição deles.Mas não me apetece ir lá. mas as suas sugestões eram imperceptíveis. Por que me convidaram? . As mulheres agrupavam-se junto a escadaria. . Aqui somos todos criaturas civilizadas. A rapariga continuava a dizer: . de modo algo estranho e pervertido. não me pareceu haver qualquer tensão entre ti e eles. esperando a ordem definitiva para subirem. finalmente. Mrs. morreria de ataque cardíaco. . Por tácito acordo.Se posso expor a minha ideia. a sua resposta foi: . A interrupção tomara-se bastante embaraçosa antes de Sagoe captar as primeiras palavras trocadas pelas duas mulheres. Momentos antes. mas estes haviam-se afastado com elegância quando Mrs. explicando pacientemente um ponto de desacordo a duas luvas que gesticulavam caprichosamente. O vestíbulo estava vazio.Então por que te incomodas a vir às festas deles? . sabotados pelos esforços de uma jovem no meio do vestíbulo. Mrs.máximo que me concedem. obrigada. A jovem.Mas tu não gostas de apreciar as pessoas de vez em quando. . ela estivera envolvida em animada conversa com alguns convidados masculinos. talvez mais tarde. mas Sagoe havia-os descoberto muito antes. haviam criado um cantinho dos homens na extremidade oposta da sala. E quando.É um gosto estranho.Não tão estranho como o deles.Oh. sentiu a tensão crescer-lhe no peito até parecer que. se não acontecesse rapidamente alguma coisa. . A excitação subia dentro dele gota a gota e. Oguazor lhe explicou o que iam fazer. especialmente quando sabes que elas nem suportam a tua presença? . Oguazor surgiu por trás deles e tossiu suavemente não foi necessário mais. Os movimentos nas escadas demoraram excessivamente.Isso é aquilo a que se chama civilização. Oguazor. Alguns exigiram certas manobras por parte do professor. ignorava estes sinais. Veio o café e trocaram-se cigarros. porém. mantiveram-se com as costas voltadas para as escadas até ao momento em que as mulheres desapareceram totalmente.

Mrs. Não compreendo por que há-de incomodar toda a gente desta maneira.Leve as outras. A jovem deteve-lhe o movimento. . colocando amigavelmente uma mão no ombro de Caroline.Certamente que deseja ir ret'rescar-se.Está a ser impertinente. Sagoe ignorou todo e qualquer sentido de decência e aproximou-se para escutar melhor..A questão não está em você querer ou não. E logo você de entre todas as minhas convidadas. pegou no braço da outra. Oguazor tentou novamente o tom xaroposo: . todas as mulheres devem dirigir-se ao piso superior. Não tenho vontade de lá ir tão pouco tempo depois. . . venha daí como uma rapariguinha obediente. estamos a fazer as outras esperar. . com a doçura a dissipar-se lentamente da face: .. está a ser indelicada. .Minha querida.A voz subiu-lhe subitamente de tom e ela dominou-se. enquanto as mulheres voltaram categóricamente as costas à vergonhosa cena da jovem. .A anfitriã parecia agora mais enervada. E se o são.. Mrs. Mrs. Isto devia ter sido o fim e alguns dias atrás tê-lo-ia sido. Estamos todas à sua espera. . Assumindo o comando. ficará sozinha com os homens. aparentaram indiferença por entre enormes nuvens de fumo. olhando rapidamente em torno de si. se não vier. Os olhos da jovem escancararam-se. Mas . ..E a anfitriã.Estou a incomodar alguém? . .Mas eu não quero ir. .Vá lá. Mas não me deixem sozinha por muito tempo. Faseyi.Vamos embora.Usei os lavabos do rés-do-chão há cerca de dez minutos. num murmúrio pleno de paciência. E. procurando perceber o que se passava. . Faseyi. a questão e esta. . Faseyi. Todas as senhoras se devem retirar para o piso superior neste momento.Mrs. .Mas eu não uso maquilhagem.Oh. limite-se a ver o que as outras fazem. . não me importo nada. . de qualquer modo. Os poucos homens que se haviam voltado rapidamente. e siga o seu exemplo.Estes pormenores de etiqueta corrente não lhe devem ser estranhos.Garanto-lhe que não quero ir lá acima.Minha querida. Talvez deseje retocar a sua maquilhagem ou. A voz da jovem manteve-se.

Através deste deserto. Não é difícil adivinhá-lo. Mrs. a esposa negra de um professor. esposa do ginecologista. endireitando as costas. acrescentou: .Já está a preparar uma desculpa. .Não.Oh. E a jovem respondeu simplesmente: . ou nunca mais será convidada para vir a minha casa. Drivern. O suor corria livremente pelo pescoço de um dos maridos. em direcção ao santuário artificial das senhoras repletas.O chão não se lhe vai abrir sob os pés.Pegou na mão enluvada da anfitriã. surgiu a salvação. Ouviram o copo dele tilintar numa mesa e o Sr. Montado no nó da sua gravata. . Foram as outras mulheres que vieram salvar a situação. Nada o mantinha pregado ao solo além do desejo desesperado de que este se abrisse a seus pés e o engolisse. pouco mais do que uma criança. partiram à frente de mais de quarenta apoios morais. E ela. de modo que há-de ir-se embora. Mrs.Queres apostar em como o descubro à primeira tentativa? . Oguazor! .e quando Bandele assentiu. Oguazor estava agora decidida a ir sozinha com as outras.O marido da jovem está cá? . e o código de etiqueta estava do lado dela. . Os seus movimentos haviam-se paralisado e as palmas das mãos humedeciam um cigarro até que este se apagou. Oguazor.Parece-me que já esperámos o suficiente. voltou-se com a determinação de um homem em julgamento. voltando orgulhosamente as costas à proscrita.afirmou Caroline -. pronto a dissociar-se da conduta da sua esposa . Sagoe inquiriu: .mediante uma reparação imediata. . na sua própria casa.não podia continuar a ignorá-lo tornara-se pública. acho isso muito natural. a magra Mrs. e. um espécime raro. mas entretanto o vestíbulo parecia ter-se tornado enorme e a distância que a separava delas dilatara-se. era encarada com arrogância por uma vulgar dona de casa. Mrs. que se sentiu grata. publicamente. Conheço bem Ayo. .Venha imediatamente connosco . Faseyi.tratava-se da sua primeira recepção social como esposa do professor e a cena . . Bandele e Sagoe dirigiram-se para o centro da sala.disse Sagoe.Ele há-de ir-se embora . Simultaneamente.

. derrotado. e deu então um passo em frente. seguidamente.Anh? Desculpa. Os copos detiveram-se no ar.Fash! . . .E Sagoe empurrou Bandele para trás.. declarando com fingido descontentamento: ..Logo agora que as danças começaram. Mas já era demasiado tarde. com gravidade. O disco era Temas Populares de Bailados Famosos e o par fundiu os seus movimentos com os compassos do Lago dos Cisnes. iniciarem loucamente uma dança lenta ao som da música de bailado que emanava com suavidade dos amplificadores ocultos. dizer-lhe algo e. O professor quedou-se a meio do trajecto e o cantinho dos homens ficou mudo de indignação..Esta sala está a abarrotar de S ir Galahads. depois de restaurada a dignidade da sua casa.. uma mão poisou-lhe nas costas. . ... O profes-sor pousou..Muito bem! .Ah.Toca a dançar uma coisa mais alegre. Viram-no encaminhar-se rapida-mente para a jovem que continuava sozinha. olá. que história é essa? Hum? Onde ouviste tu isso? . indeciso.. o braço do gira-discos no descanso. Ao canto. . o silêncio .deteve-se paralisado.' .Oh.. . tentando farejar o que havia no ar. Kola acabava de entrar com Egbo quando a cena começara e ficara a observá-la da porta. que disseste? . lembrando-lhe que o professor continuava atento. protegido por uma armadura de rectidão. Sagoe não estava embriagado. . com firmeza. . Fash. sem sequer olhar os profanos dançarinos. mas voltou a sentir a mesma excitação.Anh. . Sagoe voltou a pegar no seu copo. eu.sentiu-o Sagoe . a voz de Sagoe sobressaltou toda a gente. Toda a gente sabe que conseguiste o lugar de director da prisão de Shehu Hall.Ou será que tens de ir fechar os rapazes'? . desculpa mas tenho de me ir embora. É melhor não te intrometeres. Quando decidira permanecer imóvel.Parecia um cão de caça.e nesse momento o disco calou-se. deixa-te disso.Escusas de fingir. O professor regressava ao grupo. tal como se o orador que ia propor um brinde tombasse redondamente sobre a mesa.Conta-me lá o que ouviste.e Bandele prosseguiu: .No silêncio reinante. Era o silêncio que segue um cheque sem cobertura.de um vácuo temporário. . Voltou-se e ficou aliviado por ver que se tratava de Bandele. Faseyi suava.Tu tens de viver com eles.

. com o rosto de tal modo deformado que cada convidado perguntava ao vizinho: .Uma aluna do segundo ano procurou-me na minha clínica e perguntou-me se a podia ajudar.e suspiravam.. tudo levava a crer que J. a conversação reavivou-se. D. A resposta foi pronta e. Adeora. Lumoye: . .Por fim. receoso de parecer ignorante. começando a interrogá-lo sobre o lugar de director. insistiu Bandele. seguidamente. Bem. . como calculam. elogiou os candelabros de bronze nas quatro paredes. oh.Isso é a última coisa que ela deseja. Egbo juntou-se a Kola no centro da sala e Sagoe juntou-se-lhes quase de imediato. acabou por convidar Bandele para almoçar. que conseguira descobrir onde havia almoçado o presidente da Guiné quando visitara a universidade. A nomeação para professor exigia novas virtudes. Dizia o Dr. Isto é realmente confidencial. Não vou arriscar-me a sete anos devido ao prazer de um tipo .Sim. Era tudo rumores. esse tipo de compreensão é que ela não recebe da minha parte.Bom.inquiriu o professor. sim. sim. esse tipo de coisas não faço. mas já sabiam que uma das raparigas está grávida? .Candelabros? . leitor de terceiro grau. ir para casa e pôr o caso nas mãos dos pais. A maioria delas pouca ou nenhuma compreensão deve esperar por parte das famílias. dignidade e coibição face a esta bárbara provocação..Oh. como a magnani-midade.As respirações suspenderamse. Nnojekwe pediu ao professor um conselho paternal sobre o melhor momento para tirar a sua licença anual e. . Almocei com ele. O seu rosto apelava à calma. o professor continuou a andar. lentamente. foi o que lhe respondi. .Espero que não tenha sido você quem trouxe este tipo .. Oguazor. desapontados por receberem uma fria negativa. mas são valiosos e Caroline gosta tanto delis! Nnojekwe induziu-o a falar um pouco mais e depois regressou ao seu grupo para transmitir a última de Oguazor. narrou então uma conversa íntima que ambos haviam travado pouco depois do almoço. Finalmente. . não se apercebeu da armadilha em que caía.Foram muito caros. Todavia. mas vindos de fontes bem informadas. Oguazor decidira esquecer todo o episódio. Uma pessoa excelente. Acon-selhei-a a esperar mais algumas semanas. . horrorizadas. mas o marido afastou-se um pouco com Bandele.

E Ceroline gosta tanto de candilabros! O professor Singer passou o resto do serão tentando localizar os candelabros de bronze nas paredes. Sagoe olhou uma vez mais para cima e descobriu montes de bagos verdes e negros. .Como? .qualquer.. . O professor Singer brincava com um cinzeiro e Oguazor abordouo.tartamudeou Bandele. O dr. hum.Muito bonito. Não passavam além da sua garagem. . depois o marido começou a suspeitar dos ensaios tardios. .Gosta deli? . colgados nas travessas das paredes. que foi que disse? .Com quem anda Salubi agora? Aquele rapaz é moralmente corrupto.Refiro-me aos de bronzi. .. Sagoe estava agora no auge da sua excitação. . E aquelis candilabros na paredi. mas Oguazor estava mesmo atrás dele e não parecia divertido. Alcançara a leveza de um verdadeiro vácuo após um clister.Ouvi dizer que o Sr.Você deve ser o nabo . . É muito útil tê-los em casa.dizia Oguazor -. sintéticas. acompanhados de reluzentes folhas verdes.. Se eu próprio o tivesse experimentado.Aqueles madrigais! Uma boa desculpa.Desculpe. Ajilo negava que levasse prostitutas para casa.. Um homenzinho avançou na direcção de Bandele e acabou por ficar sozinho com Sagoe. oh.. onde cérebros eram petrificados para servir de puxadores para o guarda-fato de Dehinwa. Que faz ele ao dinheiro que tem? .e as gargalhadas abafaram educadamente o borbulhar da champanha. jurava. realmente muito bonito. Udedo nem sequer pode pagar as contas da electricidade.Um dia destis . Seis.Comprei-os pelo aniversário da minha mulher. ao menos teria algo em troca para me gabar. a direcção da universidadi há-di acusá-lo de torpeza moral. . misturandose instantaneamente com os outros convidados.Aguenta-o aqui se puderes .. .. Sou uma pissoa que prifere presentes práticos.foi a saudação de Sagoe. Na casa da morte.. . garanto-vos. Nem poupa as estudantes.

funcionários. Até visco de plástico.Não. estava-me a parecer uma conversa muito estranha. Sagoe achou que o seu dever terminara. . até aos mais íntimos pormenores. Enganei-me na pessoa. . embora fosse realmente o rebento favorito de Oguazor e a menina . directores.de plástico . Sou o genro do professor. apresento-lhe as minhas desculpas. e estava a par do simples facto de o professor Ogua7or ter três filhos e uma filha de apenas cinco anos.Quem é você. . Bandele desaparecera para lugar seguro. Mas.. não? Não fala inglês? . repentinamente. toca a dar-lhes o que querem e a sacar deles o que for preciso. .dos seus olhos. seguindo-o por toda a parte. embora nem olhe naquela direcção se vir Carolina debaixo deles. Com efeito. Mas Pinkshore parecia tê-lo adoptado. pensou que se tornara um conhecimento valioso como genro do professor. não me parece que esteja a compreendê-lo. .Pergunto se você é o nabo. deões. Camo-me Pinkshore. catedráticos. pelo que cessou o seu interesse pelo homenzinho. Faltava o nabo. Da sua garganta saiu um ruído animalesco e os seus olhos arregalaram-se . Inicialmente.O nabo. Cem por cento inglês e não me envergonho de o ser.Ah. Por isso. Parecia uma obsessão. E você? . . assistentes e respectivas famílias. E... ah ah! Você é novo na universidade? . mas tal era um erro. Pinkshore.Nesse caso.Não tem importância. que era para ele causa de bastante desgosto por não a poder reconhecer publicamente. diabos.Ah! ah! Realmente acho que falo. Pinkshore pareceu esmorecer.Não compreendo. Pinkshore manteve-se junto de Sagoe e nada o demovia. Já vi maçãs e pêras. se estas bestas são susceptíveis de serem lisonjeadas e aduladas. dado ser filha da criada. pelo que se tornava óbvio que Sagoe era um impostor que viera roubar as pratas e era uma boa ideia mostrar simpatia por esta nova elite negra que ele desprezava em segredo. Pinkshore sabia tudo sobre os professores.Pinkshawl? .Sim e não. A pobre criança estava escondida numa escola particular em Islington. e Sagoe recorreu inutilmente aos mais sádicos estratagemas para ver se se livrava daquela peste.

que diabo pensa que está a fazer? . Antes que tivesse tempo de se endireitar. . que se curvou para os apanhar. recordou que a sua mão executara um movimento semelhante no passado.? .. dá-me licença que a felicite pela nomeação do seu marido para o lugar de professor? .Os ornamentos E escusa de fingir que não sabe do que se trata.alarmados. chamo o cão. tão ébrio de espanto como Sagoe de uísque e euforia.. . Recuou três passos velozes. Dois reflexos brilhantes assina-laram o voo dos óculos de Pinkshore.E Pinkshore avançou para ele. Pinkshore cambaleou.. . Espreite lá para fora.Diga-me quem é você e por que se entreteve a atirar pela janela a decoração desta sala... . Também decidira deitar fora o cesto.Quais coisas? . mas a dona da casa estava diante dele. mas importa-se de me explicar. .Enlouqueceu? Que direito tem você de lançar fora essas coisas? .Palhaçadas? Isso é o que você pensa.A alimentar o cão. .Pare com isso ou vou queixar-me ao professor. mas o tempo era agora confuso . . Sagoe arremessou a pêra.Mas que. o caso é sério.Se se aproximar..São frutos e não ornamentos.era-lhe impossível recordar quando acontecera esse arremesso. . compreendendo a razão de tal espanto. se quiser.Antes que a festa termine. a maçã passara através da janela e Sagoe foi buscar uma pêra do cesto de fruta à parede mais próxima. Este tipo de festejos mais não merece do que um fato de luto. fazendo menção de a arremessar contra o outro fruto gémeo. ele foi mais rápido do que ela no jogo das palavras. Vagamente. Na sua mão estava outra das maçãs e a mão estava estendida para trás. já lhe disse que sou o perito da UNESCO . . chocando com um pequeno grupo.Deixe-se de palhaçadas. e Sagoe caiu em si. . minha senhora.É muito gentil da sua parte..Julga-se muito engraçado? O que você atirou pela janela era propriedade do professor. .Agora compreendo porque é uma festa de traje a rigor. mas é melhor ter cuidado com a ponta do nariz. É selvagem.Mas. Desta vez. E arremessou um cacho de bananas.

. . Obviamente um trabalho do exterior! O rosto dela endureceu. Acho que você entrou sem ser convidado. Mrs. . saído há pouco de um asilo.Importa-se de.A que departamento pertence o senhor'? . Para Pinkshore.O resmungo era o de um louco. acha que sim? . É mesmo um cão de gostos estranhos. . . Inesperadamente.em planeamento arquitectónico. inclinando-se -. Oguazor pudesse adivinhar as suas intenções.Arquitectura. e Sagoe compreendeu que procurava o marido. Oguazor . ó anglo-anémico! . Rispidamente.Isso não me surpreende.disse.É claro que a sua casa é um encanto. Oguazor. Sagoe perguntou: . . meu amigo. .Oiça.Ele deve estar bêbado. e começou a preparar a retirada.É que .Vocês têm ouriços-cacheiros ca em casa? Pmkshore deu um passo para trás.Ah. olhou em volta.tenho comichão no pescoço devido a farpas venenosas.Isso é mentira. .e ela voltou-se para os olhar.É melhor pedirmos auxílio. Sagoe viu o professor abrir caminho. minha senhora .e Sagoe sorriu benevolentemente . tal significava que os seus esforços haviam falhado e que a situação também o podia arruinar.Relanceou o olhar em torno de si. Antes que Mrs. vou buscar a sua cornucópia de plástico. fixando cada um dos convidados e acenando-lhes. Basta olhar para os edifícios.disse Pinkshore. Pinkshore murmurou: . . Mrs.Essas futilidades . Pinkshore deu um grito e cinquenta cabeças voltaram-se naquela direcção. Se aqui este seu lacaio tem razão e aquilo eram apenas ornamentos. minha senhora. Um trabalho de amadores! .Não há qualquer departamento de arquitectura na universidade. Plantou o seu minúsculo arcaboiço diante de Sagoe e exclamou: . .Pensando melhor. o cão não lhes deve ter tocado...e lançou-lhe um olhar mortífero não me interessam. ela retorquiu: .É isso mesmo! . assustado. Acho que ele enlouqueceu! . pedindo desculpa através do mar de copos e fumo.

saltando de explicação em explicação. estejam calmos. Sagoe fechou os olhos. sem resistir à loucura que o impelia. macio. .Parece mesmo real. . . Sagoe pegou nele. bumerangue africano. pelo que não lhe beijaria a mão. Torneando a casa. merda de morcego. introduziu-se entre os arbustos que delimitavam o lar dos Oguazor..Sagoe pegou-lhe na mão e beijou-a. ainda molhado da erva húmida. encontrava apenas razões de misterioso terror . curvou-se e aspirou a rosa de plástico que ornamentava o umbigo de Mrs. escorregou subitamente mas endireitou-se. O coração pulsava-lhe violentamente e a excitação não se dissipara totalmente. Mas Pinkshoré conservou-se no mesmo sítio. Contentou-se com duas vigorosas sacudidelas à mão de Oguazor. Deu a volta à casa. assassínio. morte. Estavam todos lá. na expectativa de alguma torma de perse-guição. áfrica nocturna. inesperado. dizendo para si: ventos. com uma rapidez que até a ele próprio surpreendeu. agora um pouco de lado. Era um dos limões de plástico que deitara fora. pensando: Pinkshore. . O cérebro da vítima. mas decidiu que o dono da casa não era realmente de nível ministerial. ignorando ainda o que o atingira..e Pinkshore. Seguidamente. Mesmo real. Iniciou o regresso àquela casa.. Caro. mantendo-se curvado entre as sombras até chegar à janela que procurava. Oguaor e endireitou-se de novo apontando o nariz para o ecu em êxtase aromático.E tugiu daquela sala como um louco. não me devias tentar dessa maneira. . De tempos a tempos.As minhas felicitações. O fruto era leve e Sagoe aproximou-se. E contou até cinco para lhe dar aquilo que considerou uma hipótese de se escapar. .Que dias felizes como este se repitam. Oguazor chegou nesse momento. . professor . Pinkshore vinha até à janela para ver se descobria algum dos frutos que jaziam no jardim.bruxa-mariposa. Este apanhou Pinkshore em cheio na boca.lisonjeou. sem dúvida discutindo o ocorrido. Caminhou apressadamente. Ao olhar para o solo. desacreditou a sua reputação de herói ao desmaiar nos braços dos donos da casa.. e arremessou o limão. dizendo algo a Oguazor. compreendeu qual fora a causa.Sagoe hesitou. mas incapaz de dizer porquê Um cão vizinho começou a ladrar e Sagoe parou.

Segunda parte .

. Numa acidentada noite. o corpo de Sekoni jazia surpreendido. com camiões cheios até mais não poder. aos meus olhos de criança para que não se atribuísse qualquer significado ideológico à localização dos retratos. Nem Sagoe por se ter trancado entre cervejas e vómitos durante uma semana. derramar as suas lágrimas amargas.um retraio colorido de um par de seres sobre-humanos. Num inútil monte de metal. com amplas orlas de pele. com orbes e ceptros. longe de todos. . O sangue dos habitantes da terra dissolve-se nas descoradas torrentes do touro escarnecedor e flui eternamente em rios sob a terra. reflecte miragens de velocidades ilimitadas. estas duas . Egbo não se sentiu mais consolado por se ter refugiado nas rochas junto à ponte. E só descansava quando ela concordava em ir buscar os evangelhos dele e lhe lia uma página ao acaso. lutando por mantê-lo calmo enquanto ele berrava: estás a molhar-me todo com as tuas malditas lágrimas. pois a minha família era firmemente monárquica . convulsivas. atrás deles. um milhão de golpes sangrando do negro touro escondido algures nos céus. este período da minha infância .. estes também estavam presentes na sala de visitas e nos quartos. ouro.. e aí. superalimentado para este acontecimento único. Ao desviar-se.Em Julho. atravessado na porta aberta. derrapou. E o alcatrão húmido. Recordo. Só demasiado tarde viu um camião que um louco abandonara no meio da estrada. a cúpula estalava sobre a cabeça míope de Sekoni. com coroas e jóias. e os pneus desenharam um cruel arabesco. Cá em baixo. com Dehinwa desesperada devido à temperatura dele. com uma chuva de vidro laminado à sua volta e a barba tingida de sangue e lama. meta-existenciais. nutrindo-se a pastar sem concorrência nas intermináveis cristas do horizonte. até as suas cargas encontrarem descanso no fundo do precipício. etéreos. entre nuvens corcovadas.e a porta do nosso enorme lugar secreto garantia-nos abrigo eterno . até o funeral ter terminado. porém. correndo em direcção a uma única ponte. Estas imagens. tronos dourados. veludo e arminho. sob os heróicos veículos. e. a luta é dura.aos meus olhos de criança. as chuvas de Maio tomam-se o sangue que brota das artérias rasgadas de um touro sacrificial.

mas estou . a formulação concreta da vacuolização.Sou eu. Não acendas a luz. encontrou Bandele sentado no escuro. vestindo ainda o fato que levara ao funeral. Pois. dizia ela. E o pincel de Kola subia. fantasmagórico. era isso! Cagar é humano..Sim. Com o voto violentamente renegado para sempre e a penitência insinuando a uma vaga salvação na sua dor intensa e confusa.. alguma penitência ambicionada. . descia. . para mim. e trabalhando cegamente em espasmos de dor e incredulidade. Egbo pegou no bilhete e passou por Bandele em direcção ao seu quarto. Egbo. “Lembro-me”. Era daquela rapariga estranha. Viria se pensasse que precisas de mim. tomara-se uma obsessão meditar nas limitações deste par delicado. vacilante. o pai de Sekoni não era capaz de saber o que aquilo era. Uma rapariga veio trazê-lo. Foi uma fase critica da minha introspecção e. Numa única sessão de natureza vacuolizante.Bandele? . a solução surgiu com deslumbrante simplicidade.Está um bilhete para ti em cima da mesa. ou Deus e a sua esposa. “de teres falado num amigo teu. Mas Alhaji Sekoni não conseguia aceitá-la. chamado Sekoni. irreal.. se eu vivesse neste país onde todas as comodidades estão à nossa disposição. desculpa. impassível como uma rocha. Lamento que ele tenha falecido.. . .. deixando-o sentado no escuro. apenas sabia que a perda era a penitência. voltava a subir. ao regressar do rio noite adentro.Oh. de novo descendo. Sobressaltado por deparar com um vulto imóvel. Eles eram vacuolizadores. compreendi finalmente a divisão postural dentro desta função humana. num quarto que julgara vazio. alguma penitência requerida.figuras não podiam ser menos do que anjos. vacuolizar. mas a voz de Bandele deteve-o. escultor. tão confusa que ele se sentava obser-vando a sua mente “a dissolver redondas noções de penitência. que faziam? Como que numa sessão espírita. Isto era o nascimento. procurou imediatamente o interruptor. Quem eram. Sobre Bandele recaiu a agonia de consolar Alhaji Sekoni. teria indubitavelmente evoluído para um esquizofrénico em tempo integral.. divino.

É a mim que ele quer. Não sei como conseguiu descobrir o meu refúgio. . ocupado com os seus eternos guardanapos. para o espectáculo. Oyekoko moniran . ... Duas semanas após o funeral reuniram-se de novo. Sagoe perguntou: . esborratava os pormenores. Se não me voltasse. yiaooow! . Os mesmos gritos de guerra. ocorreu-lhe que nem sequer sabia o nome dela.. Mas não me apetece tratar disso hoje. Dehinwa lançou outro olhar apreensivo ao albino. a mesma entoação algaraviada... . A música tornara-se animada. escutando indiferente-mente outro grupo de músicos errantes. As sardas do seu rosto pareciam sementes venenosas.que'a chuva recomeçasse e acabasse com isto.certa de que preferes estar só..dizia Egbo . a mesma palhaçada.Nos Estados Unidos .A ti? Que te quer ele? .. relegou-o para um ponto meditative num cabaré de selvagem algazarra e de devoradores de fogo. dissol-vendo manchas de gordura de galinha nas pálidas profundezas das cavidades oculares e das maçãs do rosto do homem. oyekoko moniram . Kola. A única diferença está no vestuário: nos Estados Unidos elas vão mesmo aos extremos.Qual de nós conhecerá ele? Porque persiste em olhar para aqui? Sem virar a cabeça. havia um grupo que se chamava Authentic Cobra Maidens of Kokokaburã. .Referes-te ao albino? . inclinado como um leproso raio de luar sem suavidade. E. pela primeira vez. mas ele foi incapaz de perceber o nome. crostas escuras flutuavam numa pele de fina fosforescência.Também reparaste nele? . .. Por fim. pensaria que eram elas que ali estavam.Isso também eu gostava de saber. oyeroba. . No outro lado da sala... o longo lamento de um arco numa corda e a caixa de ressonância de uma cabaça. Eles engolem o fogo convincentemente. . estava sentado um albino.Nunca consegui solucionar o mistério desse rito disse Kola.. Lamento profundamente o sucedido.Quem me dera .. oyeroba.” Ela assinara. Oyeyeye moniran .afirmou Sagoe -. Era o ritmo familiar que anunciava a entrada gutural da feiticeira nos filmes estrangeiros sobre a África.

O saltimbanco saltou repentinamente numa pirueta e escorregou para lá da beira do palco. . desenhos que ele possivelmente copiara do filme das aventuras do Tarzan com as Authentic Cobra Maidens of Kokokabura. Mas sentiam-se todos um pouco como ele. vomitando fumos escuros e cheirando a querosene. Foste tu mesmo que o disseste.O devorador de fogo fez correr as chamas sobre as plantas calejadas dos pés. . para demonstrar o calor. não se parecerá nada com aquele albino. Depois. nada semelhantes à sua obra quase terminada. Kola gritou: . .Mas a chama passara para a mesa seguinte e um homem acendia um cigarro com ela. incomodado.Olhem para ele. Os seus acólitos correram a auxiliá-lo a subir ao palco. algo de espantoso. realmente muito bela. As suas pinturas escorriam.anunciou Egbo não resistiu a divindades demasiado aquosas. despidos. derrotados. onde eles pensavam que a imagem estava fixa. Usaye é suave. deixando-as demorarem-se naquele contacto. a tinta ia dissolvendo a sua aceitação da vida.O vendedor ambulante de Sango . e. com efeito. .observou Kola. esfarrapados. porém. aterrando numa pequena poça junto de um cacho de bananas. . mais parecendo cinco figuras do meu Panteão saídas de um alguidar de terebentina. A morte de Sekoni deixara-os húmidos. depressa! . Quando ela tiver setenta anos. parece cortiça amarela eternamente embebida em agbo e cozida até ficar rija e seca. Deviam ter visto o albino contra as chamas. Ela é feita de uma substância inteiramente diferente.No entanto.Só um pouco.O que foi? . pensava Kola. curvado para a frente como se lutasse com a gravidade.Não é mesmo nada como Usaye . dissolvendo-a em nódoas disformes. Passou pelo albino e este protegeu os olhos. O outro recompusera-se e exibia novamente a sua palidez de néon. parava e avançava subitamente para ele. o archote pingando lamentávelmente. Sentiamse desarmados. o corpo com pinturas guerreiras. enquanto o facho rodopiava. é. . desmoralizados. Aquele homem.Agora já é tarde. circulou entre a assistência com o archote. Sentava-se como um cadáver de afogado. e isso depressa passou. os braços reluzentes. a princípio ela despertou-te repulsa.

como jornalista. Um por um. limi-tando-se a olhar o homem que tinham diante de si. . nos restantes fins-de-semana. Sagoe.Dehinwa. entre outras. voltou-se para a luz e leu. E estes eram os factos reais. onde podia agora ser visto e lido sem que se desgastassem as margens ou desaparecessem as preciosas palavras. . tinha a certeza de uma coisa . Sagoe ergueu-se. inelutáveis. o que lhe quereria o homem? . Dehinwa retraiu-se quando o albino se sentou na cadeira ao lado dela. o seu possuidor introduziu-o cautelosamente numa capa de plástico. em Ibadan.murmurou Dehinwa entre dentes. Então sempre me encontrou.Não foi fácil. Estes eram os acasos que se tomavam hábitos fixos. Olhou de novo o albino e passou o plástico a Bandele. não desejo incomodá-lo mais do que o necessário. Os hábitos têm de se alterar quando a memória se torna insuportável. com a fragilidade do importante documento. por seu lado.. Através do plástico acastanhado. eu vou buscar outra.. retirou uma capa de plástico onde se encontrava um velho e desbotado recorte de jornal. recordações. hein? . .Ele vem aí . Sagoe voltou-se e recebeu o albino com simulado bom-humor. puxe uma cadeira. Sagoe voltou com uma cadeira e o outro começou a falar de imediato. então.Viva. não tinha bem a certeza de que era você. Quase imperceptivelmente. viva. sente-se. e Sekoni fora parte integrante de uma união que haviam julgado inalterável.Sim. num tom que associava deferência a um grau enorme de segurança íntima. Rebuscou os bolsos do seu caftan e tirou deles uma carteira. de Sekoni.eles não voltariam ali. Desta.Sr. Afinal. Aí está bem. Alarmado.Mathias? .Sente-se. era evidente que o pedaço de papel estivera durante muito tempo metido num livro. foi assim que disse chamar-se. todos leram sem comentários. . todavia. pode ajudar-me. E ele informou-me de que este é o seu local favorito para passar a noite. mas por fim lá consegui encontrar o seu moço de recados. . que estava com eles agora mais opressivamente do que o esforço da gaguejante veemência dele alguma vez estivera. dobrado e vincado. como reunirem-se no Cambana quase todos os quinze dias e no Mayomi.

. A mente de Kola estava cheia de fantasias . sarapintado. .Há quase seis anos. Por exemplo.. como se não tivesse sangue normal. surgindo tão pouco tempo depois da morte de Sekoni?.. dificilmente se saberia mais daquilo que se passou entre mim e Deus.O recorte não diz muito.Há quanto tempo foi isto? . eu sei. d-ddeixem-me sair. no fim de contas.. afinal.. Sekoni ao ser descido para o túmulo: suponhamos que se ouve uma pancada inesperada e Sekoni gaguejando: d-d-deixem-me sair. .Nos? . apenas dias ames. e Kola apercebeu-se de que sondava o rosto daquele homem como se julgasse ver o de Sheikh metamorfoseado no do albino... Bandele inquiriu placidamente: . Que significa isso. ... Não passa de uma breve noticia e. mas era impossível.. donde fora espremido todo o suco da vida. Morte ou não morte. Pessoas bondosas enterraram-me no dia seguinte e só quando desciam o caixão ao túmulo eu despertei e comecei a bater na tampa. pensando: eu sabia que havia algo de sobrenatural nele. para se apoiar.. Egbo deu consigo a tentar adivinhar a idade do albino.que deveria concluirse da precisão deste estranho. actualmente os médicos ate talam em morte aparente.com um misto de admiração e cepticismo.. quando uma nova ideia lhe . Lasunwon pensava em comer aquilo sucedia todos os dias. no rosto amarelo. O estranho. à minha Igreja. Quando o grande acontecimento surgiu na minha vida e me ergui de entre os mortos.Porquê? Como jornalista e homem de Deus pode ajudar-nos...Sim. Todos aguardavam que Sagoe falasse. que ideia horrível. Eis tudo o que viram os olhos das testemunhas humanas.Talvez eu deva perguntar primeiro por que razão me procurou. Sim. de tacto. . Dehinwa ansiava pelo braço de Sagoe. Como estes médicos podem ser descuidados! Meu Deus. Sagoe recebeu o recorte de Dehinwa e devolveu-o ao albino. viera procurá-lo a ele. Pois. importa-se de nos dizer algo mais? . um pobre homem acordara numa casa mortuária.Sim. Caí morto nas ruas de uma aldeia estranha... Sagoe sobressaltou-se subitamente. Doei-a a Deus. a minha vida deixou de me pertencer.

Que destino horrível! Sabe. . procurando. inclusive a enfermeira do centro rural de saúde para onde me levaram inicialmente. negro.Não sei o que era antes de ter morrido. Ouvi-o da sua própria boca. Gostaria imenso que viesse. cintilavam com mórbida intensidade..O que eu queria era convidá-lo para os ofícios da nossa Igreja. .Convido igualmente os seus amigos a assistir. . . onde a vida parece ter pouco valor.. o que realmente assustou os aldeões é que antes de me terem posto no caixão eu era como você. Lasunwon explodiu: . se no próximo domingo for a minha igreja. mas nada disse O albino prosseguiu. Bandele insistiu.. há explicações médicas para esse tipo de situações. Estava morto. não podia ter morrido. durante aquele período. sermos enterrados vivos! As feições do albino endureceram: todavia. que estava a seu lado. somente Ságoe.Que outra coisa podiam fazer!? . mas tudo tem a sua ocasião apropriada. .. eles também nos . tal como os restantes. o que sentiu? Quero dizer. como os seus amigos. quando você. Quando despertei. . nem donde vim. Pode acontecer a qualquer um. extrair daquele rosto a essência da experiência do seu possuidor. estava assim. porque é uma cerimónia especial.Decerto não acredita que tenha realmente momdo. O albino pôs-se de pé. porém. despertou e começou a bater no caixão. devia haver medidas de salvaguarda contra esta espécie de coisas. Lasunwon riu-se. É inconveniente tratar um assunto como esse neste local. O albino voltou-se para Sagoe: .brilhou no espírito. é capaz de recordar. Sagoe observou: ...Eu não fui enterrado vivo.replicou o albino.Mas você é capaz de dizer.O jornal nada diz acerca disso. transformara-me num albino! Mas todos mo asseveraram.Terei muito gosto em contar-lhe. No entanto. Talvez fosse um coma ou coisa semelhante. o notou... Pensem só. Se agora esta vivo. Olhou vivamente o seu interlocutor. . Quem iria acreditar? Você? No curto espaço de tempo em que estivera no caixão. Os olhos de Egbo ainda não se haviam despregado do estranho.

pode ser mais um dos nossos videntes em busca de publicidade.Está bem. .admitiu Kola. não é possível descrevê-la.Bom. ou acham que sim? Será que ele cré ter efectivamente morrido? Sagoe disse: . onde é a sua igreja? . talvez sete semanas atrás. Lá estarei.gritou Lasunwon -. Será que não passa de mais um dos profetas locais? . No entanto. Evidentemente que.Afastou-se. mas nós já nos encontrámos noutro local. .Está bem. quando Lasunwon exclamou: .podem ajudar. de modo que vou enviar alguém para vos guiar.perguntou Sagoe. então o que é que vos parece? .É um intrujão? . .Ah.. . Por exemplo. é verdade. pode ter visto aquela notícia nalgum . .Ele não acredita realmente naquilo. a que horas? . Mais.Não. Se vierem todos. a ser verdade. . . bem como os seus amigos.Nem era nisso sequer que eu estava a pensar. os jornais tê-lo-iam mencionado. e aquela história da mudança de pigmentação toma tudo aquilo mais duvidoso.Tens razão . Poderemos encontrar-nos aí? . já me esquecia de que não sabem.Sabe onde moro? . . O Hotel Excelsior. Ainda mal o albino estava fora do alcance da sua voz. custa bastante a engolir.Sim. Porém..Ele despertou a minha curiosidade . perto do qual um rapaz foi perseguido como ladrão. .Sim.Só o encontrei há seis. Um dos nossos irmãos estará à vossa espera a partir das sete e meia.Os nossos ofícios iniciam-se às oito da manhã.Mas. Kola concordou: . Ocorreu-me a ideia de que aquele recorde pode perfeitamente não se referir a ele. não se esqueça de que nos pode ajudar. sentir-me-ei honrado por recebê-los na minha igreja.Por favor. é mesmo uma espinha atravessada na garganta. E também num funeral. Bandele acenou a cabeça. quando salvou um carteirista de uma multidão enfurecida. depois de se inclinar cortesmente diante do grupo.

não é verdade? . . que te parece.Mesmo assim.Queres dizer que vamos fazer mais cem milhas para a semana? . compreendo. Lasunwon.. és o membro mais inútil da sociedade e sabe-lo muito bem. nem todos podemos ser artistas.Mas quem sofre com os saltos nos buracos sou eu. vamos lá? Bandele resmungou: .perguntou Lasunwon. E tudo.E tu não passas de um parasita.Pois claro que sim. bem. Bandele. Esta noite parece desejoso de andar à pancada. Muito bem. Lasunwon. Bandele ria. Bandele interveio: . .Basta.Curiosidade. Nos nossos dias. . a religião é um bom ramo de negócio.Estou simplesmente farto dos ares eternamente superiores que ele assume. Serenamente.Quando tentas ser sarcástico. é isso que te dói.E isso que tu lhe chamas.Cuidado. Acho que o sarcasmo é uma arte que não domino.Vamos lá. Como se fosse alguma coisa especial rabiscar meia dúzia de bonecos num papel. tens realmente imagi-nação. . inimaginativa.Não passam de simplórios religiosos. . pesada. .Virei eu a conduzir. eu sei.Alto aí! Estás a referir-te à minha filosofia vacuolizante? . não podemos competir com os artistas. Nós. tornas-te simplesmente asqueroso. . . Egbo disse: . .É melhor deixarem Lasunwon em paz.jornal velho e tê-la recortado para uso futuro. .és simplesmente desprovido de imaginação..Oh.replicou Kola .Não há nada a apontar-lhe.E tu . eu sei. não sejas tão preguiçoso! . O que é que se passa com vocês dois? . Onde pões tu jornalistas falhados corno Sagoe? . os advogados. Uma imaginação cheia de água. Não tenho imaginação! . .Oh. .Por que queres tu ir a uma coisa daquelas? . entre outras coisas. à excepção do seu cérebro de retrete. Interiormente.

“Por que parou ele”.. depravado! Mas não era necessário. berrando: . E não é a primeira vez.Cala-te. o meu nome é Lázaro. a voz de Lázaro sucedeu ao arrastar de pesados bancos e eles entraram. Lixo sem nexo. Lasunwon encolhera-se na cadeira. dos refrões litúrgicos que se filtravam através das paredes enquanto eles esperavam o termo das orações.Afinal que mosca lhe mordeu? . Kola deu um salto.E a discussão reacendeuse como se Sagoe tivesse carregado num botão. desejando poder retirar as palavras que pronunciara.perguntou Egbo. é o que é. Poderia ser um moinho com aquelas pranchas estreitas caiadas e o sussurro cadenciado. g acabou por sucumbir na sua cadeira com o rosto enterrado entre as mãos. . em qualquer parte dos jornais.. Estavam num pequeno barracão junto de uma lagoa pardacenta. não Cristo. olhos colados ao homem junto da tosca estante. enquanto pensava: e por que não. No fim de contas. fazendo com que Lasunwon recomeçasse com veemência crescente. lembrando-se já demasiado tarde que Sekoni falecera. Como aquela de Sekoni e a sua cúpula infernal..disse o homem de vestes brancas com orlas de renda -. .. Sagoe disse: .uma gota de chuva tremeu no beiral -. .O meu nome é Lázaro . mas um dos presentes precipitou-se para eles e conduziu-os ao exterior. como o de cereal a ser moído. Calou-se. Por fim. Sentaram-se furtivamente num banco à retaguarda. quem é ele para andar por aí convencido que pertence a alguma categoria especial do Universo? E não me refiro só a ele. Filho de Deus. E então repararam em algo que os deveria ter informado sobre o que .Não compreendo o quê? Mas eles não dizem nada. Todos os dias. uma cubata com cobertura de colmo e restos de caixas de cervejas. .Kola tocou-lhe num ponto sensível. arte e imaginação. talvez o problema seja tu não compreenderes o que eles dizem. lá os vemos a despejar a sua verborreia sobre cultura. Apenas por Sekoni ter morrido? Nunca vira Kola tão emocionado.. é a toda a cambada de artistas. As suas atitudes são tão superiores como se estivessem a falar para os vulgares bárbaros iletrados da sociedade. por que não. A suave zombaria de Bandele foi o rastilho que fez Lasunwon explodir. Kola. . tendo palmeiras entrançadas em vez de portas e janelas. não o nego.Lasunwon.Sim. erguera-se .

Nosso Senhor. coada através do telhado de colmo. . o Senhor me ressuscitou de entre os mortos. viu-se respeitosamente empurrada para o outro lado. dou-vos esta certeza. com a confirmação pessoal que me foi dada pelo Senhor. . Lázaro. Lázaro parecia mais enfermiço do que nunca. Um homem. Quando Dehinwa se preparava para se instalar no banco deles. pois ele é o Pai que ressuscitou o Filho. o Filho que ressuscitou o Espírito Santo. bem ordenadas.Meus irmãos. mas terá a vida eterna. porém. Esperava-os ainda mais uma manifestação de ignorância. Filho de Deus. Lázaro acenou enfaticamente: . não Cristo.O meu nome é Lázaro. quando todos estavam instalados. por que não está ele aqui hoje?” Eu sou a ressurreição e a vida. Com um aceno. A frescura que atravessou os pés de Egbo fê-lo olhar para baixo. levantara-se. dos que ocupavam um banco perto do altar separado da nave principal da igreja. Banhado pela luz sarapintada da manhã. Finalmente.Eu sou a ressurreição e a vida. mas Ele é Cristo o Pai. E eu.É certo que Cristo ressuscitou de entre os mortos. Cristo o Filho e Cristo o Espírito Santo.. o Espírito Santo que ressuscitou o Pai.. que fui rebaptizado Lázaro. Eu.deviam fazer antes de entrar. E aqueles que sofrem perguntarão certamente: “Não prometeu Jesus. hoje é o décimo dia após o falecimento do nosso irmão: é o dia em que realizamos a via-sacra de acordo com as tradições da nossa Igreja. Porque a mão de Deus baixou sobre a minha cabeça e a luz do Senhor . Junto à porta. Ressuscitou-se a Si próprio. a ressurreição? Este homem era um apóstolo da nossa Igreja. o guia deles indicou-lhe um espaço vago num banco. bastante embaraçados devido à distracção que haviam provocado ao atrair as atenções gerais. Aquele que crê em mim não morrerá. e só então se aperceberam de que os homens estavam separados das mulheres. Ficou de pé com os olhos postos algures num canto do telhado e parecia que citara sem instigação. descobrindo um soalho de betão vidrado onde ainda eram visíveis as marcas das colheres dos desajeitados trolhas. . um homem temente a Deus. viam-se algumas filas de sapatos. Descalçaram os sapatos. de memória. Egbo perguntou a si próprio se a revelação que Lázaro prometera para este domingo justificaria o seu crescente mal-estar por esta intrusão.

mas hoje a morte conhece o seu Senhor. julgam que a morte desistiu? Nada disso.. No entanto. já contente por ter vindo com os outros. Bandele. pois onde quer que os assuntos de Nosso Senhor nos obriguem a ir. Vinde de boa fé. antes dos bisavós dos nossos avós terem nascido. O Senhor seja louvado.. própria para Nosso Senhor a habitar. há muito tempo que a minha preocupação tem sido o dever que temos de construir algo melhor para honrarmos este homem que sovou a morte para nosso bem. . O homem que fui procurar está hoje connosco. um dos nossos mais devotos e enérgicos apóstolos.. antes de eu ter nascido.. Mesmo assim. cortando ao meio o machado de Satã.. de aço inoxidável. . nada disso.Ele lutou com a morte e lançou-a ao solo.. onde morreu a tua vitória? . não devemos hesitar em fazê-lo. e a morte andava coberta de pensos e ligaduras da cabeça aos pés como um ologomugomu. Quando Cristo lhe deu um uppercut como Dick Tiger. Cristo f'-. . Foi isto que me levou. Onde está o teu aguilhão. tentemos o gidigbo e Cristo segurou-a pelo pescoço. quando um membro importante da nossa Igreja morre.E meu dever. a entrar numa casa de pecado e imoralidade. que antes de terdes nascido. E todos visualizaram a morte escondendo-se. todos os dentes dela se espalharam de Kaduna a Aiyetoro. Ele veio auxiliar-nos. . de modo que lhe fez imensos cortes minúsculos por todo o corpo... . . Porém. pouco tempo depois da morte do nosso irmão.u-a como um acrobata e puxou então de uma longa espada cintilante... No meio das gargalhadas da congregação.. Eram eles os estranhos. a morte nunca aprende a lição.. Com o poder de Deus.. combalida..Como todos vós sabeis. . apertando aquele pescoço até a morte suplicar misericórdia. construiremos esta Igreja. pegou num machado e atacou Cristo pelas costas. em silêncio. E ele é Cristo. o Senhor está convosco. A morte disse. como todos sabeis.. o Senhor Jesus Cristo derrotou a morte. o seu vencedor a quem tem de obedecer. A morte correu a sua quinta. não quis matá-la. meus amigos. assegurar-vos. por isso foi buscar as suas luvas de boxe. Meus irmãos.derramou em mim uma nova vida. eles tiveram muito mais lutas. Uma centena de cabeças voltou-se e estudou-os minuciosamente. era o que ria mais...

aquele que crê em mim. dorme.. Eu sou a ressurreição e a vida. despertá-lo do seu sono. dar-vos esta mensagem. Até Jesus Cristo. e disse: Senhor. apenas com palavras diferentes.E a partir das palavras deste irmão que desejo escolher o nosso texto de hoje. recorda-nos a mensagem da ressurreição.erguê-la-emos sobre as fundações da fé e boa vontade dos nossos amigos. este homem exclamou: “Decerto não acredita que tenha realmente morrido!?” Lasunwon. dorme. ouçamo-lo outra vez.Meus irmãos.. meus irmãos. pois. . viverá.Lázaro. mas eu vou. Canta-nos a mensagem de esperança! Lázaro. Dor. já cheira mal. se acreditarmos n'Ele. murmurando: . Lázaro já lá fora posto havia quatro dias.e as cabeças voltaram-se novamente . . o nosso amigo. ela fungou. de forma que até Marta. que também aqui está. . Pois não disse o próprio Senhor Jesus Cristo a mesma frase. um sepulcro com uma enorme pedra na entrada. Quando chegou ao sepulcro onde Lázaro jazia. louvado seja o Senhor . quando lhes apresentei a marca que a morte deixou em mim. o vomitador de versículos recitou: . caros irmãos. . E quem crê em mim nunca morrerá. Lázaro. o nosso amigo. ..Outra vez.Desejava.Enquanto eu conversava com ele.Não sejas parvo! . prontamente. quando ó informaram da morte de Lázaro? E. é uma coisa natural. para nos ajudar nesta tarefa. escarnecendo-O. a irmã do morto. o destino da vossa vida terrena é a morte e a corrupção. tal como os outros.Aquele tipo sofre de optimistologia. dorme.. mas o Senhor. . mas nunca .. dorme. Sagoe sussurrou: . preparava-se para abandonar a igreja. . Irmão. . A dor e a tristeza são o nosso quinhão neste mundo.Irmãos. tapava o nariz com um lenço. ainda que esteja morto.ele está cá. salvar-nos-á do desespero..Sim. um dos seus amigos. morreu há quatro dias. o nosso amigo. Quando o Filho do Homem lhe ordenou que removesse a pedra. ofendido. Lázaro. foi vencido pela dor. aproveitando a deixa. Pois.A dor. o Filho do Homem. o nosso amigo. todavia Egbo segurou-o pelo pulso.

Depois. Foi nesse vale que senti a mão de Deus. A minha garganta estava seca. ..Eu estava cansado. não se ouvia um som. Porque Cristo também se tomou como eu e vós. surgiu de repente.. ele pegou no cajado e começou a aguilhoar-me. Porém. Comecei a correr de cá para lá. e ficou a olhar-me. Era a cama mais macia que jamais conhecera na minha vida. no céu. Procurei avistar uma saída daquela coisa. Deitei-me. acordarei e fugirei. A rama do algodão dissipava-se lentamente. mas foi necessário que um homem a seu lado lhe puxasse pelo casaco para o vomitador de versículos sair do seu transe e sentar-se. recomecei a ouvir: “Que estás a fazer aqui?”. Porém. talvez devido aos gritos ou talvez eu tivesse respirado demasiada rama de algodão. mas. como pequenas almofadas deitando fora o algodão quando a nossa cabeça se apoiava nelas. Jesus chorou. subitamente. como os onze apóstolos que transportaram o nosso amado irmão até ao seu túmulo. O problema é que eu não conseguia encontrar a saída. Lázaro fez uma pausa. vindo do nada. comecei a ficar assustado e desatei aos gritos. Nesse momento. no ar. não perdeu a esperança. embora eu caminhasse através do vale da sombra da morte. Mas nem sequer eu ouvia o som da minha voz.. disse: vou descansar um pouco. não sei. Eu não conseguia mover-me. casulos estalando sem ruído. chamando os trabalha-dores do algodão para que me indicassem o caminho. Todo o corpo me doía e a minha cabeça parecia prestes a rebentar.. Até que. Respondi . Ao fim de algum tempo. Jesus chorou. Seguidamente. Todos os movimentos daquela coisa cessaram e o ar clareou um pouco. perguntou ele. Já me começava a ser difícil afastá-la dos olhos. da boca. Tudo era branco. Se estas coisas recomeçarem o seu movimento.Ele não desesperou. algodão em rama que flutuava saindo dos casulos. quando estava quase a adormecer. a meus pés um tapete de algodão.desespero.Sim. do nariz. um homem muito velho e encarquilhado. deveis compreender estas duas palavras de misericórdia divina. Sonhei que caminhava através de um campo de algodão. com uma longa barba branca. pois aquilo crescia cada vez mais e eu sabia que em breve seria incapaz de respirar. . tudo parou. à minha volta viam-se casulos de algodão estalando suavemente. fez um sinal. Então. porém. .

a rama de algodão começou a soprar de novo e o velho exclamou: “Vês o que fizeste?” E recomeçou a espancar-me. não fazes ideia de quem seja esta quinta? Alguém te deu permissão para dormir aqui?” Antes que eu pudesse abrir a boca para pedir perdão. Corri para um lado e para o outro e ele ficou parado. “O-oh. porém. sem se preocupar onde me acertava. vigiando aquilo que eu iria fazer. sovando-me cruelmente com o seu cajado. Nem à esquerda nem à direita se via qualquer extremidade. Voltei para trás e tentei saltar o portão. Com um enorme medo de morrer. um sorriso terrível. antes de o conseguir. “Era capaz de ficar aqui a dormir para sempre. mas. não é verdade?” Respondi que não. as extremidades? Não se avistavam. antes de eu o chamar.” O velho sorriu novamente. deu-me mais uma boa dúzia de pancadas.que estava estafado e queria descansar. desatei a gritar: “Socorro! Por amor de Deus. Não tinha língua. E o velho estava agora com a sua boca cheia de algodão escancarada numa grande gargalhada. encontrava-se um gigantesco portão e eu conseguia ver-lhe o cimo. E disse: “Esqueci-me de perguntar. mas. pouco natural. repentinamente. A minha boca inchava devido ao golpe até se tornar quase tão grande como a minha cabeça. as pegadas termi-naram. o teu pai é o dono desta quinta. Estou contente por estares aqui. Ele sorriu e disse: “Óptimo. meus irmãos. Este velho não mostrava qualquer sinal de piedade e o algodão em rama chovia sobre mim mais pesado que nunca. “Por amor de Deus. Descortinei as marcas que os pés dele haviam feito no algodão e segui-as. Espero que estejas confortável. óptimo. ajudai- . socorro!” Não veio socorro de parte alguma.. Tentei pôr-me de pé. como que dizendo que eu não escaparia. fez menção de se afastar e eu lembrei-me de que não sabia como sair dali. Não podias ter escolhido um lugar melhor para descansar. Depois. Por fim. mas recebi um tal golpe na boca que julguei estar perdido. Porque eu vi-lhe o interior da boca e estava cheia de algodão em rama. nem dentes. Desatei a correr. respondi eu. que não fazia ideia de quem fosse o dono daquela quinta. À minha frente. mas a rama de algodão fez-me escorregar e o velho golpeou-me enquanto estive caído.. rindo-se de mim. este velho não tinha qualquer dificuldade em correr atrás de mim. Ele disse: “Não me surpreende ouvir-te dizer isso. sim”. Vireime para ele na intenção de suplicar misericórdia. “Oh.” Seguidamente. deu-me uma pancada com o cajado. Mas ele aproximou-se de novo. todos os que aqui vêm pensam que podem adormecer para sempre. apenas algodão em rama.

. salvai-me deste lugar!” Lutei com o algodão que me invadia a boca e o nariz. os braços começaram a fraquejar. deixei de o ouvir rir. é um dia terrível para nós. caindo sobre a Bíblia. introduzindo-se no seio da congregação. libertai-me! Senhor. O seu olhar enlouquecido roçava as paredes como um míope. que não tinha enfeites ou pregos de qualquer tipo onde apoiar os pés.. Lázaro fechou a Bíblia. “Por amor de Deus.Irmãos. e mesmo assim o velho não tinha piedade de mim. assim levantei subitamente os olhos e vi aquele portão abrir-se à minha frente. tentei escalar o portão. dizendo simplesmente: . envolvia-me já até ao pescoço. assim como eu olho esta porta. Depressa alcançou os meus joelhos. a quem ele confiou todo o peso e tarefas da Igreja. nós. ajudem-me a agradecer a Deus. libertai-me.. Era liso e negro. A rama que caía depressa ocultou completamente o velho e deixei de o ver.me ou dizei-me como se sai deste lugar!” A minha voz falhava. O banco da frente parecia deter a autoridade durante o culto. Outro homem se ergueu e dirigiu-se à Igreja reunida. mostrai-me a saída.!” Lázaro estava com os olhos esbugalhados e alagado em suor. Foi uma coisa que nos despertou uma dor intensa.. Porém. Como um lagarto. .. Seguiu-se um hino. libertai-me! Senhor. “Senhor. na luz do Sol que penetrava pela porta aberta. aquela Igreja se recompôs totalmente. termos sido visitados pela mão da morte e termos de enterrar um de . Agarrava desesperadamente o suporte da estante. quando nós... que suportamos a maior parte da carga da morte sobre os ombros. até vir descansar. fixo. os apóstolos do Senhor. mas as pancadas prosse-guiam mais cruéis do que nunca e o algodão empurrava-me para baixo. no decurso dos ofícios. o terror da morte dominava-o de novo e espalhava-se. mas da minha boca não saiu qualquer som. bem como ao seu cajado. Um homem ergueu-se no banco da frente e liderou a congregação numa longa oração.. e o suor escorria. E foi a oração que os descontraiu lentamente. vemos chegar o dia em que nos compete a nós fornecer a próxima carga para o túmulo.. gritei: “Salvai-me!”. insistente. quando nós. salvai-me! Por amor de Deus. confirmações. Sim. Estava novamente imbuído daquela sensação de milagre. Naquele tremendo silêncio. Depois. casamentos. . deixei de ouvir a minha voz. só muito mais tarde. baptismos. o algodão em rama sugava-me as forças e puxava-me para o solo.Meus irmãos.

Amen. somos nós. É imparcial. ámen. Onde ele estiver sentado.Rezemos para que ele esteja sentado à direita de Deus.O irmão Lázaro encontrou o eleito do Senhor e disse: “Senhor. o Senhor abanou a cabeça. Deus nos diga: “Que se passa? Ah-Ah! Não te preocupes. Aleluia! . Aleluia! . É terrível para nós olharmos hoje à nossa volta e descobrirmos que o irmão Ezra não está connosco.O irmão Lázaro perguntou a Deus: “Onde encontrarei um apóstolo que substitua o homem que levaste? Quem da minha congregação deve ser o duodécimo apóstolo ao teu serviço?” Todavia. . O rico morre.Esperemos que Deus nos ensine a enriquecer pela luz dos factos desta vida.Sim.E que quando for a nossa vez de morrer. Amen. Amen. meu amigo. escutar os problemas dos nossos membros.Deus prometeu-nos e cumpriu a sua promessa. Deus falou-nos.? Estai atentos. Mas a morte não respeita ninguém. Guiou-nos bem em todos os momentos conturbados.” Assim fez o irmão Lázaro. . . e esforçamo-nos por fazer o melhor de acordo com os nossos parcos recursos e sabedoria. . Pois não nos disse o Senhor. Deus não aceita suborno. os membros fundadores. O vomitador de versículos não se pôs de pé desta vez. eu virei ao vosso encontro como um ladrão na noite. meus irmãos. mas falou com a mesma concentração contemplativa. . Desde que esta Igreja foi fundada pelo nosso irmão Lázaro. morre. Mas damos graças a Deus. E disse: “Procura fora da tua Igreja. que temos tentado resolver todas as questões e disputas. O irmão Ezra era o nosso homem mais velho. O próprio Jesus Cristo morreu para nos provar que não devemos esperar qualquer favor. ..nós. Não conheces aquele que já cá chegou muito antes de ti? Vai procurar o irmão Ezra. Ámen.. Senhor. senta-te a seu lado.Esperamos que ele tenha partido para uma terra de paz. no hospital. Ámen. O Senhor o deu e o Senhor o levou. O médico. Ámen. . A sua sagacidade deu-nos muitos e bons conselhos sobre inúmeros dos nossos problemas. Da congregação soou o grave murmúrio. Ele deu-nos um testemunho. vai para as ruas e atalhos. louvado seja o Seu nome para sempre. O pobre morre. Ámen.

“poderá este jovem carregar o fardo da congregação? Como poderá ele seguires teus caminhos?” E ele abraçou uma criança e colocou-se no meio delas. e todo o banco da frente o imitou. que a paz volte para vós. Pois não sois vós quem fala. anunciando: -O Reino de Deus está perto. curiosa e excitada. A congregação. de seda ornamentada. “Como”. . Estai atentos. emergiu um rapaz frágil que parou hesitante. .. Lázaro. no dia do julgamento.. mas o espírito do vosso Pai que fala em vós. E disselhes: “Deixai vir a mim as criancinhas. compreendem. Ouviu-se uma forte inspiração no último banco e a voz constrangida de Sagoe: . O apóstolo afastou uma cortina. deu-lhes poder contra espíritos impuros. aquele é o ladrão. para o serviço de Deus Nosso Senhor. peco-vos que recebais o nosso irmão apóstolo. E se a casa for digna. . um pecador que renasceu.Mas. o objecto mais esmerado naquela igreja. saudai-a. E quando entrardes numa casa.Porém. De entre os retratos de dois santos. Lázaro avançou e acolheu o rapaz. agora recomposto.E em seu nome. agitava-se com impaciência. perguntava o irmão Lázaro. Porque.como saberei que é ele?” E o Senhor replicou de novo. Dirigiu-se à porta lateral junto da mesa que servia de altar. levantou-se. uma cortina muito trabalhada. um pecador que foi lavado no sangue de Cristo e escolheu o caminho da rectidão. pregai.. Em verdade vos digo que haverá menos rigor para com a terra de Sodoma e Gomorra. O versejador de memória irrompeu numa entoação entrecortada: E quando ele chamou para junto de si os seus doze discípulos. deixai a vossa paz descer sobre ela: mas se ela o não for. eu virei ao vosso encontro como um ladrão na noite. tratava-se de um jovem.. o poder de expulsá-los e curar todas as formas de enfermidade e todas as formas de doença. do que para com esta cidade. O eleito do Senhor é muito jovem. E à medida que avançardes. a dúvida persistia ainda na mente do irmão Lázaro.

Onde? . que traziam um pequeno rendimento ao tesouro da Igreja. Recebei-o no rebanho que serve o Senhor. Todos o abraçaram enquanto Sagoe continuava transtornado. como um homem torturado pelas formigas. se a humanidade esquece o seu dever para com Deus. dou graças a Deus. Olhem Ia para fora. foram varridas pelas águas. irmãos. Como se tivessem esfregado uma esponja húmida adstringente num rosto com eczema. quase um saco direito. Seguidamente. Sagoe batia com os punhos na cabeça.são os servos do rebanho. Este jovem não se parecia com um ladrão. O nosso irmão Noé trouxe-nos um sinal de perdão do Senhor.Quem? Conhece-lo? . irmãos.Mas que lhe fez ele? Uma lavagem ao cérebro? Pouco resta daquele Barrabás.Que idiota! Aqueles são os onze homens que caminhavam atrás do caixão. . . o Sol brilha sobre a terra. O noviço ajoelhou-se e começou a lavar os pés dos apóstolos. As fundações da nossa igreja vacilam devido à erosão. . É um sinal e eu dou graças a Deus por isso. Uma simples camisa branca até aos pés.No funeral. pela primeira vez em quatro domingos. As tarefas para que são designados são actos de grande humildade. Significa que ele está contente com o que estamos a fazer. ergamos as nossas vozes e louvemos o Todo- . As nossas culturas. . . com duas aberturas para os braços e outra para a cabeça.dizia Lázaro . A própria igreja tem de ser constantemente reparada e fomos inundados duas vezes.Recebei-o.Caluda! . porque receamós que o Senhor tenha esquecido a sua aliança com a terra. Irmãos.É o ladrão que perseguiam em Oyingbo. era a pureza em pessoa comparado com os outros apóstolos.. acompanhou o noviço até junto de cada apóstolo. No mesmo dia em que Sir Derinola foi enterrado. mesmo assim.disse Lázaro -.Os apóstolos . Pois esta manhã. não será estúpido esperar que Deus se lembre da sua aliança com a terra? E. Lázaro pronunciou uma oração. olhem lá para fora e vejam o grande dilúvio.Baptizamo-lo Noe . pois seguem o caminho d'Aquele que os escolheu. Sobre ela. Irmãos. Alguém trouxe uma bacia com água e estendeu-a. Um sussurro de Dehinwa veio do outro lado: .

.Alegrai-vos. Louvado seja Deus! . louvai-o! Louvado seja Deus! . Recebei-o nos vossos corações! Aleluia! Porque Ele concedeu-nos uma criança. enquanto Lázaro andava de cá para lá.Ele não consegue ouvir-vos. Por que buscais vós os vivos entre os mortos? Ele está aqui. mas houvesse uma força determinada que o mantinha separado na sua própria cápsula espiritual. como se não fosse ele quem iria submeter totalmente o seu corpo à alegria comunal.As abóbadas celestes são altas. irmãos.Por que buscais vós. Vocês não o alcançarão! . louvado seja Deus.? Mulher.Louvado seja Deus! .E o seu Filho nas Alturas! Graças ao Seu Filho.Pergunto.. Noé lavava pés que não se mantinham quietos. o irmão Ezra está morto? Ele vive! .Louvado seja Deus. irmãos. .Alelu. meu Deus e vosso Deus. Porque Ele nos concedeu uma criança Alelu Alelu Porque Ele nos concedeu uma criança Para nos pôr no Seu caminho Alelu Alelu Porque Ele nos deu um guia Alelu Alelu Porque Ele nos deu um guia Para nos iluminar na escuridão Alelu Alelu! Entre pés que batiam e saltavam e palmas estrondosas.Então. Aleluia! .Irmãos.Poderoso! . Aleluia! E Lázaro voltou-se para o vomitador de versículos.E ao Espírito Santo! Vem. Espírito Santo! . o irmão Ezra está morto? Ele está vivo no seio do Senhor. A sua obsessão era o violinista. no auge da sua exaltação: ... ... . ressuscitou. sempre acompanhado pelos apóstolos que tentavam abrir caminho para ele por entre aquela onda de êxtase. porque choras? Quem buscas tu? Procura os meus irmãos e diz-lhes que eu vou subir para meu Pai e vosso Pai.Alelu.. Aleluia! . porque choras. Jesus Cristo! ..Estará ele vivo no seio do irmão Noé? Ele está entre nós! . ..Mulher. integrado num grupo de agidigbo..

. Senhor! Porque Ele nos deu uma espada Alelu Alelu Porque Ele nos deu uma espada Para O livrar dos Seus inimigos Alelu Alelu Ouviam-se sinos repicando desordenadamente e as mulheres vestidas de branco. de modo que julgo poder juntar-me a vocês. O resultado é um sabat. Lasunwon agitava-se e maldizia-se por ter cedido ao impulso idiota de ir ali. tão frequentemente é entornada pelos exultantes fantasmas brancos. Desta vez. e as suas manifestações ficaram limitadas à parte superior da nave. seguidamente a de Bandele. clangoroso e sobrenatural. E então. que pareciam intervir nos ofícios da igreja. .Isto já ultrapassou os limites .Recebei-o. . querida? . elas não o perseguiriam tanto. Depois foi a vez de Sagoe. . E não só.Pelo menos tem as mãos mais suaves do que as tuas replicou Dehinwa. os apóstolos formaram uma barreira cerrada contra o êxtase das mulheres. Não tinha qualquer hipótese.Tens de concordar que ele não é nada feio. .Era Dehinwa.É excitante. agarram em Noé. Lasunwon soltou uma súbita gargalhada e disse: . surgiu também uma nova toalha para os visitantes e. e os apóstolos são atacados pelo som claro dos sinos e a tina de água tem de ser substituída diversas vezes. Senhor! . . As amplas mangas das sobrepelizes das mulheres agitamse incessantemente.Não seria melhor juntares-te a elas e tentares a sorte? perguntou Sagoe.Não.Recebei-o.Se ele fosse tão velho como os outros apóstolos. Chega-te para lá. Noé começou a lavar os pés de Dehinwa. . . com tocante brandura. querido. assemelhando-se a desproporcionadas mariposas em tomo da frágil chama bruxuleante que era Noé. correndo de um lado para o outro com pequenos sinos na mão. a bacia estava junto deles e Noé ajoelhava-se diante do banco.gritava ele de tempos a tempos. antes que de tal se apercebessem. Até as crianças são envolvidas na confusão.disse Lasunwon. . Parece que todos resolveram misturar-se.perguntou Sagoe. dançam com ele. De tempos a tempos. como que despertaram. .

quarenta demónios luta-vam dentro dela e a sua mente não dominava o corpo. e tombando surdamente no solo. Eles haviam reparado na enorme cruz quando entraram. Sob as garras dos seus indes-critíveis tormentos. .repararam nela? Acabavam de passar a sétima estação. Egbo ouviu a agonia da mulher possessa. viu-a lutar com força contra três homens e uma mulher. os gritos em línguas estranhas e a luta dela para respirar. Quando Noé parecia cansado.perguntou Bandele. e chamou Lázaro. A bacia foi levada e os apóstolos dirigiram-se para o exterior. os apóstolos insistiram e protestaram. fê-la para o Senhor. Uma mulher foi dominada pelo espírito e desatou a profetizar. A mulher dele fez o bordado da cortina da sacristia com o desenho dos dois santos . .Não nos podemos queixar . Dois dos profetas ficaram com ela e os outros precediam a vaga da multidão exultante. enquanto eles estavam parados junto à entrada. Ainda antes de eles deixarem a igreja.disse Kola. eles podiam mais do que uma pobre mulher. No interior. parecia uma mola de aço.Mas que mal tem lavarem-te os pés. mas Egbo. . os após-tolos limitavam-se a tirar-lhe a cruz e davam uma volta com ela. com silenciosa firmeza. quando um apóstolo apareceu. ela enovelara-se repentinamente como um feto. começaram a circular à volta da igreja. Era uma cruz pesada e.Temos tratamento diferente.. pelo poder jubilante de uma mente galvanizada. Lázaro dirigiu-se-lhes pela primeira vez. vindo da igreja. um escorpião. Através da porta entreaberta. Um dos nossos membros.Não me agrada. enquanto ele recuperava as forças. A boca . um insecto. . retesada. opôs-se a que lhe lavassem os pés. Animados pelos sinos e cânticos. não ofere-cendo qualquer explicação. arrastado agora para o exterior pelo seu poder triunfante. Assemelhava-se a um verme. Quando a bacia chegou a Egbo. um caracol. parando de todas as vezes que passavam diante da porta para ofere-cerem uma breve e silenciosa oração. limitando*se a acenar negativamente com as mãos e a cabeça. mas não perturbou a dedicação de Noé. . um carpinteiro. E agora viram-na ser erguida e deposta sobre os ombros de Noé. porém. aquela cruz há-de encimá-la. Quando a tivermos construído.Aquela é uma das poucas dádivas que recebemos para a nossa igreja. saltando no ar. É tudo.

inertes. já vira muitas como ela e nunca conseguira habituar-se ao espectáculo.Ele tem o rosto insinuante de uma apóstata. Quando digo apóstata. mas não nesta violação do corpo da mulher.Não. Mas não comecem a agarrar-se às minhas definições e noções. Nesses momentos. por vezes. .espumava. . seria como Cristo.Por vezes não acredito que este seja o jovem ladrão.Se o pintasse. Esu.disse Egbo. satisfeito. .Engana-se.Suponho que vos custava muito esperar até termos saído daqui . presença divina dominando a simpatia do médium. ele seria participante..Não é preciso . . Estava ansioso por ouvir a sua opinião.Não gosto de apostasias . Lázaro acenou. As rugas transfiguradas de Orisa-nla.Espera aí. Bandele voltou-se: . Sagoe continuava a abanar a cabeça. Hábeis murmúrios da divindade. refiro-me ao tipo mais claro de Judas.Kola está apenas a especular. Corpos entregando-se. boquiaberto. . .disse Kola. atacando como se o fosse. Mas talvez ele estivesse demasiado assustado naquela altura. E era precisamente assim que eu pintaria Noé. . o triunfo de serenas alegrias e paixões sublimadas. ar. somente um reflexo das chamas dos fanáticos. Parece impossível.disse Egbo. Egbo ansiava pela outra possessão. . Penso que devemos esclarecer as nossas definições. . Quero dizer como Cristo.E eu refiro-me ao tipo de Jesus. o apóstata. . Lázaro escutava-o. e o júbilo irreal nos olhos e na pele.Não consigo gostar do novo apóstolo . ..Concordo com Egbo . Bandele lamentou: .Alegra-me que o ache mudado. E. Acho o seu ar de pureza apenas isso. Não há qualquer brilho interior naquele rapaz. . em tal comunhão. Aquele jovem recebeu o espírito santo do Senhor. rastejava como uma serpente. A jovem de Ela. Parece submisso e não redimido.Que ideia é essa? .disse Egbo. libertando torrentes de baba. Angústias iguais às de uma jibóia ferida. Sango. Egbo saiu antes dos outros.Queres dizer como Judas . .corrigiu-o Dehinwa.

para pronunciarem essas palavras blasfemas.
- Estás a tornar-te hipócrita à medida que envelheces? Desde
quando te importas com essa expressão?
- Não é isso - insistiu Bandele. - Mas será preciso declararem
essas vossas ideias perto de Lázaro?
Lázaro, que dera meia volta e observava, com Sagoe. a procissão
em torno da igreja, encarou-os de novo. dizendo:
- Por favor, não julguem que me importo. No fim de contas, todos
os homens quando chegam até Deus são infiéis. A nossa tarefa é
mostrar-lhes a luz.
Outro dos apóstolos aproximou-se e dirigiu-se a Lázaro com
insistência. Este desapareceu com ele no interior da igreja, avisando:
- Eu volto já. Aquela pobre mulher exige a minha presença.
Depois de ele se ir embora, Sagoe disse:
- Concordo com Bandele. Toda essa conversa poderia ter
esperado até o homem se ter afastado.
Todavia. Egbo limitou-se a repetir:
- Não gosto de apostasias.
- Nem eu, e daí? Estava em Oyingbo quando aquele rapaz foi
perseguido e acredita que nem mesmo aí ele era um espectáculo tão
lamentável como aqui. Parece que se tornou barro mole entre as
mãos de Lázaro.
- Vamo-nos embora - pediu Dehinwa. - Nada disto me agrada.
- Bem, eu não sei o que pretende Lázaro, mas o meu chefe de
redacção poderia ocupar duas centrais com um profeta, mas numa
edição de domingo.
Bandele olhou-o:
- E é tudo?
Sagoe virou-se na direcção do outro:
- Que queres tu dizer com isso?
- Deixa lá, não tem importância.
- Não, continua, que tinhas tu em mente?
- Nada.
- Por que é que não o pintas como dizias há pouco. Kola? Depois
eu usaria a pintura no meu artigo, dar-lhe-ia uma espécie de
dimensão nova... não sei dizer exactamente como a ideia surgiu-me
no cérebro, mas ainda não é suficien-temente clara...
- Não - Kola abanava a cabeça. - Poderei pintá-lo, mas não com a
cruz ou com qualquer dessas parvoíces. Estava a pensar nele como

Esumare. Interme-diário. Mais precisamente, como a Aliança, a
Aliança apóstata, a Aliança ambígua. Quando Lázaro lhe chamou Noé.
pensei nisso. Com efeito, ele possui aquele tipo de pureza
lechnicolour.
- Sim, sim - murmurou Egbo. - E é tão vaporoso como ela.
Bandele optou por escarnecer jocosamente:
- Sagoe tem o seu artigo. Kola encheu mais um espaço vazio na
sua tela, que vais tu extrair de tudo isto, Egbo?
Egbo voltou-se para ele, irado:
- E que vais tu extrair de tudo isto?
- O conhecimento da nova geração de intérpretes.
- Falas com um ar tão superior - explodiu Sagoe - que até um
santo se enfureceria.
- Tem cuidado. Enquanto crias o teu próprio mito. não faças
negligente-mente publicidade ao mito de outrem, talvez ainda mais
pernicioso.
- De quem é agora a vez?
- Lázaro. Não promovam descuidadamente o mito dele.
- E que vem a ser isso?
- E simples - explicou Bandele. - Vocês nem tentaram descobrir
os porquês. Ele pediu-vos que viessem aqui, não é verdade? Já
pensaram por que razão o fez? Ou acreditam naquele disparate de a
Igreja se construir sozinha?
- Que outra coisa deseja ele? Publicidade, evidentemente. Todos
os profetas locais querem publicidade. É um negócio excelente.
Bandele abanou a cabeça.
- Eu vi a cara dele quando Kola falou na ideia de pintar Noé como
Cristo.
- Eu também - admitiu Sagoe. - Mas por que não? Se ele deseja
ser um criador de vedetas em vez de ser ele próprio a vedeta, isso
apenas lhe honra a inteligência. Repito, o homem torna-se cada vez
mais interessante.
- Porque não nos vamos embora, Sagoe?
- Por favor, não interrompas... espera. Sabem, estive a pensar.
Querem apostar que todos estes pretensos apóstolos são excondenados ou tipos com passados de certa forma duvidosos?
- O teu cérebro está outra vez avariado.
- Não, não. Lázaro e a sua “ressurreição”. Funda uma Igreja,
transforma ladrões em apóstolos e aguarda calmamente a segunda

vinda... humm. não é muito verosímil, mas ainda assim... caramba, o
homem é intrigante.
- Tal como o jogo de palavras cruzadas é intrigante. Ou uma
novela policial.
- Por favor, Bandele. Guarda aí por momentos as tuas
susceptibilidades. O tipo pediu-me que viesse aqui para se servir de
mim e eu, por minha vez, ganho a vida servindo-me dos outros. Isto é
uma coisa que se poderá estender por semanas, um artigo sobre
cada um dos apóstolos e um outro de sensação sobre Lázaro. Repito,
ele é uma mina de ouro.
- Que pensas tu sobre a experiência da morte dele?
- Acreditaste nela? Então, que dizes? Bandele ponderou por
algum tempo.
- Pouco importa se acreditei ou não. No entanto, uma coisa é
certa, este tipo atravessou uma experiência crítica. Se ele preferiu
interpretá-la de uma forma que traz um sentido qualquer à vida das
pessoas, quem és tu para zombar, para o desfazeres nas tuas páginas
sujas do mais barato cinismo, ou Kola...
- Deixa-me de fora, hein? Não faço ideia que bichinho se meteu
na tua cabeça ultimamente, mas deixa-me de fora. Bolas, Bandele,
afinal que se passa? Tomaste-te tão insuportavelmente crítico e
intrometido...
Era quase como se Bandele fosse um louva-a-deus encolhido.
Retraía-se visivelmente num buraco, as antenas estendidas como
uma formiga incauta. Limitou-se a dizer:
- Nenhum de vocês se preocupa com o sofrimento que possa
provocar.
Kola disse:
- Eu sabia que tinha de vir. O que eu queria era o elo e ele aqui
está. Aqui mesmo. Quem me dera um foguetão que me disparasse
imediatamente para Ibadan com Noé.
- Queres dizer que o Panteão está finalmente pronto? perguntou
Egbo.
- Desde que vi Noé pela primeira vez soube que tinha de o levar
comigo ainda hoje.
- Como pensas conseguir isso?
- Se eu disser a Lázaro que desejo pintar o seu último santo e
doar o quadro à igreja, julgas que ele fará objecções? Sou capaz de
fazer melhor do que o bordado da mulher do carpinteiro.

- Vais ter de lhe mostrar alguma coisa - disse Egbo.
- Dêem-me uma hora. Sou capaz de pintar algo que Lázaro
aceite, em apenas meia hora.
- E quanto àquilo que Bandele disse? Imagina que Lázaro o quer
numa cruz?
- Então ele que pinte o seu maldito Jesus. Sagoe estava
pensativo.
- Seria bom que o fizesse. Realmente, seria uma notícia
fantástica do nosso jornal se eu conseguisse estar presente desde a
redenção até à produção de um novo Cristo.
- Seria sensacional - troçou Dehinwa.
- Escuta, menina, não tentes substituir Bandele, entendido?
Quanto a Lázaro, se o meu chefe de redacção aprovar, tenciono ir à
aldeia da sua ressur-reição, ver se alguém se recorda disso.
Dehinwa insistiu:
- Por que te hás-de incomodar a ir lá? Vocês, afinal, não estão
interessados na verdade...
- Apenas em certos aspectos dela. Por exemplo, se descobrir que
Lázaro é uma fraude total, será obrigação minha dizê-lo à sua
congregação? A esse respeito, até Bandele tem uma opinião bem
firme. Apenas alguns aspectos da verdade são de facto importantes.
Supõe que amanhã Noé se toma Cristo e Lázaro é capaz de conseguir
a sua popularidade; que é que me obriga a dizer a verdade? Como
diria Bandele, o meu cinismo ou a minha mentalidade de “pensem o
que quiserem”.
- Em todo o caso, que importa? O rebanho continuaria a crer
naquilo que quer acreditar. Não foi o teu jornal que tentou
desmascarar um Cristo não há muito tempo?
- Não me recordo. Deve ter sido antes de eu ter regressado.
- Era o mais descarado de todos. Afirmava que viera para se
divertir nesta segunda vinda, e não para sofrer... Os jornais
desencadearam um violento ataque contra ele.
- Conseguiu sobreviver?
- Está mais próspero do que nunca. Um grande negócio de
transportes, uma padaria e um grande harém que resistiu a dois
processos judiciais por sedução.
- E os jornais atacaram-no?
- Violentamente.
- Vês? O mundo não tolera profetas da alegria. Toda a gente está

apaixo-nadamente mergulhada nas agonias.
- Não - exclamou Egbo -, as agonias não, apenas o acto de
sacrifício. Imolação ritual.
- Tens uma mentalidade sanguinolenta, é esse o teu problema.
Afinal, há algo mais lógico? Da primeira vez, ele escolheu o
sofrimento e nós aceitámos o seu direito de escolha. Então porque é
que ele não há-de escolher agora o prazer? Por que não havemos de
aceitar a sua nova escolha?
- Acho que devia tentar descobrir se esse Cristo ainda está no
activo. Provocar uma competição entre os dois. Sobrevivência do
cagalhão mais forte... isso são quatro páginas... coro fotografias. - E
Sagoe pontapeava a terra, lançan-do torrões para a lagoa. - Outra
central: apenas fotografias e legendas e os seus dedos dos pés
introduziam toneladas de tipos e faziam-nos estalar contra as páginas
límpidas da lagoa. A planura desta parecia exasperá-lo. - Reservem
este espaço! gritava, e os seixos ricocheteavam na água. - Pequenas
notícias para estimular o apetite dos leitores. - E Sagoe continuava a
agitar a superfície, e a sua história espalhava-se em ondas infinitas,
até que gemeu subitamente e se agarrou a um dos pés.
- A máquina de composição avariou-se.
Dehinwa ofereceu-lhe o ombro para apoio enquanto ele se
mantinha sobre um único pé.
- É muito bem feito.
Apesar do pequeno grupo isolado à beira da lagoa, ignorando a
sua presença, um campo de cereal maduro passava e voltava a
passar, detendo-se para orar diante da porta. Depois a brisa crescia
uma vez mais, e velas brancas, velas de leve ráfia varriam a terra. E
uma centena de mãos erguiam Noé e a cruz, até ambos parecerem
voar acima da multidão exultante.
Bandele quebrou o silêncio:
- Eu não teria qualquer curiosidade em ouvir Lázaro se Sekoni
não tivesse falecido recentemente. No fundo, suponho que foi por isso
que vim.
Egbo contemplou a escuridão da igreja deserta.
- O que é que Lázaro nos quereria dizer? Bandele encolheu os
ombros.
- Sentia-me curioso. Era uma sensação estranha estar sentado
diante dele naquela mesa e ouvi-lo afirmar que tinha morrido.
- E melhor irmos embora - disse Egbo, encaminhando-se para os

Espero . . . . . Lázaro acabava de reaparecer e acompanhou-os ate ao local onde os carros estavam estacionados.Ando já há uns tempos para te perguntar . O automóvel rodava ruidosamente e mantiveram-se calados durante algum tempo. ainda sou assaltado pela sensação dos dedos daquele velho na minha face e por aqueles olhos cegos.E pertencem a Lagos? .que aquela mulher tenha profetizado um filan-tropo para a sua Igreja. . Se ele concordar. A algumas delas só se consegue chegar de canoa.disse Bandele.. para falar com Lázaro sobre Noé.É o que pensas agora? ..anunciou Kola -. . As visões dela referiam-se ao passado.Vão andando . e acordo a rasgar os lençóis.carros.Nunca aqui tinha estado .Egbo riu por momentos. Por vezes.propôs Egbo.se já tiveste notícias de. .Se queremos transformar. O meu sentido de orientação é fraco. Não. . Porém. . E os jornais assustam-me. eu vou despedir-me de Lázaro. O meu repúdio do poder foi irreflectido. não devemos temer o poder. até que Egbo disse: .declarou Bandele quando o carro havia deixado a igreja para trás .Não. vou levá-lo comigo para Ibadan esta noite. porque ela viu-me ao lado de um companheiro sem rosto e afirma que era a morte.Eu venho contigo . .propôs Bandele -.Hei-de voltar cá mais tarde . .Tenho pensado nisso com frequência e se a ocasião se repetisse não garanto que não ficasse lá.afirmou Kola no banco de trás.Há um certo número de aldeias lacustres por aqui. hoje ela não estava a profetizar. . mas sim sobre o passado.Julgo que sim. Não havia nada sobre o futuro no que ela dizia.O problema é que receio perder-me. mas não é bem assim.De casa? A lagoa também to recordou.Pensei que isso estivesse enterrado no passado. . Olhem o exemplo de Lázaro. Lázaro parecia bastante mais solene do que quando os deixara.? .Ele não se oporá . .disse Sagoe . .

Ainda não encontrei um africano que não se sinta insultado por tudo e por nada. Acontece apenas que oiço essa expressão quase todos os dias. compreende. suponho que o facto não tem qualquer graça. . Não tenho simplesmente onde dormir. Efectivamente.Oiça. . Nem mesmo a recordação das feições desafiadoras de Mrs. ao seu quarto. Considerou então a hipótese de tentar uma corrida directa até lá acima. . mas isso não significa nada”. . A luz ténue da casa fazia sobressair as suas narinas achatadas. nem mesmo ela era capaz de redimir a raça branca desde aquela festa. Há muito que Pinkshore despertara nele uma aversão a rostos brancos. o outro interrompeu-o calmamente: .. O transeunte pensou que Sagoe vagabundeava. mas imaginava Peter alcançando-o à porta e oferecendo-se para lhe ler uma história antes de adormecer. . . .Acha? Alegra-me que assim pense..Essa é boa. Sou americano. Cantarolando: “Nada vejo. . curvado para a fechadura..Sorriu. E Sagoe achava os modos deste homem particularmente insolentes. Mas foi uma luz prove-niente da casa que o deteve no limiar. eu não sou um vagabundo americano. É tudo. Porém.Bom. untuosos. só com um supremo esforço de memória conseguia pensar nela com consciência de que era uma rapariga branca. escutando atentamente..Oh. Sagoe caminhava ainda de um lado para o outro quando um homem o abordou. Assim só corremos o perigo de o carro se atolar. Sagoe deu a volta à casa. Sagoe endireitou-se. oiço-a com frequência.Olá! . .. Faseyi.Ainda não encontrei um americano que não julgue que a sua . Peter podia estar a dormir. .Óptimo.Algum problema? . logo que abrisse a porta.Não. mas já estava a vê-lo descendo a correr.É verdade. desde-nhando o embaraço dos seus próprios compatriotas e indiferente ao choque e indignação do seu marido.Era um rosto branco. .Teremos de vir antes de anoitecer. para lhe perguntar como ia a saúde ou sugerir que bebessem um copo. e ela parece ser o sinal para alojamento gratuito de todos os vagabundos americanos neste país.

se ficou fechado cá fora. .Não. . . reparou. Sagoe acenou a cabeça e inclinou-se novamente para escutará porta. na verdade.. .A sua pronúncia não parece americana.Exactamente. não? . E a cabeça tinha um aspecto invulgarmente compacto para um branco. Cinco anos em Oxford encarregaram-se disso. Sofro de insónias. Os idiotas como Joe Golder vêm para África para serem maltratados. surpreso.Peter.. que Joe Colder era bastante baixo.Sim. mas posso trazê-lo cá de carro. Os americanos esperam ser amados. isso não. É um pouco longe. não percebi o que disse. eu sei. A sua cara é antipática no estado em que estão os meus lóbulos. Onde foi que errei? Sagoe deu por si a murmurar.. . não quero estragar tudo agora.. então um café. . Ensino história africana.. . chamo-me Joe Colder.Oxford. de modo que costumo passear à noite. .. .Bom.Oh. . . Mas venha daí para conversarmos um pouco.Bem. Não o lamento. Não me sinto um verdadeiro americano. conhece-o? A face de Joe Golder sumiu-se sob uma dura máscara de couro . tencionava apenas dar uma volta. obrigado. . Tudo menos isso. Vamos beber qualquer coisa. o corpo confe-ria-lhe um ar de verdadeiro atleta. Sagoe meditou durante algum tempo e decidiu que. .Penso que devia trocar a sua certidão de nascimento com um alemão que conheço. .Sagoe nada respondeu e começou a pensar se o risco de encontrar Peter não seria preferível a isto. Enquanto caminhavam lado a lado. pressentiu Sagoe. venha daí. Sagoe sentiu que se denunciava fazendo uma observação ridícula.Não. acho que vocês neste país não são mesmo nada amistosos. por favor.Sabe – prosse-guiu o estranho -.Olhe. parecera maior. . precisava de espairecer.Perdão. desapareça simplesmente. Inicialmente.Meu Deus! Quando saí. Porém. Esta noite mantive-me razoavelmente sóbrio. Um tipo susceptível.insolência deva ser tomada como cordialidade.

Tenho o hábito de recordar as coisas como se estivessem a acontecer no momento.Confesso que gosto de ajudar as pessoas. à minha espera depois das aulas. a minha casa é tudo menos minha.E alguns julgam que me estão a fazer um favor. Prefiro estar sozinho. Sabe. todo o palerma que chega com uma pronúncia ou um passaporte americanos procura a minha casa.disse. Não gosto de ser usado dessa maneira. . Entro em casa e deparo com um estranho de que me esquecera totalmente. “Que pena não ter tele-fone”. Um. eu não sou um filantropo. É um mau hábito. . Não gosto dos seres humanos. por fim. “preciso de marcar tantos encontros. Havia já algum tempo que Sagoe concentrara toda a sua atenção naquele insólito encontro. . Dizem-lhes: temos um professor americano. enquanto eles lá estão. Não sou obrigado a auxiliar seja quem for. O meu humor muda facilmente. mas detesto que abusem da minha generosidade. . no dia seguinte lá está outro rapaz. ou rapariga. Prosseguindo a caminhada. Já mudei de apartamento meia dúzia de vezes nos dois anos que aqui estou. Quando estou a falar com alguém e me lembro de algo desagradável. que mal terá isso? Subjugado. eu sou um misantropo.. como que envergo-nhado da sua própria explosão. Sagoe apenas conseguiu murmurar: . calou-se durante quase meia milha.Desculpe . E pelo facto de gostar de ajudar os outros não gosto que me retribuam daquela maneira. dizia. . ficou sentado no meio do meu apartamento até às três da manhã e continuava ainda indeciso se ficaria ou iria instalar-se no hotel.Dava a impressão de se ter acalmado um pouco. sabe? É sempre a mesma coisa. Gosto de ter paz.Sou uma pessoa muito brusca. e daí a pouco tenho-os à minha porta ou até já na minha sala de visitas prontos a acamparem.. tento sair dali antes que a questão me domine. Desta vez.Mas por que não lhes diz simplesmente que se vão embora e não o incomodem? . Deixo-lhes a casa ou envio-os ao consulado.Há pessoas assim.rugoso.O problema é esse. Como sou americano. perguntou: . . que dizia ser estudante de psicologia no Arizona e veio completar a tese de doutoramento. Posso fechar-me no meu apartamento e dizer-lhes que desapareçam. mas pouca diferença faz.” E. Compreende.

A sua voz subiu até atingir um tom de falsete. . Até que. Dou imenso valor ao meu tempo e detesto até ao fanatismo ter de conceder um segundo que seja a outra pessoa. . As luzes estavam apagadas na maior parte das casas.E isso não o incomoda? . . isso é comigo. Golder ficou surpre-endido. recordando a análise de Bandele ao código dos cães. . sentado no meu apartamento.Não. Apeteceu-me subitamente vê-lo fora de casa.Sou imprevisível. pelo que abandonei o carro e corri o resto do caminho.Isso é por causa dos cães? Eles não mordem. .Oh..Não. Se desperdiço um dia inteiro sozinho. entro em casa e peço ao meu hóspede que faça as malas.e sorriu. Mais precisamente. . . então tem de conhecer Joe Golder.Por vezes.Lembrou-se de algo que ele tivesse feito? . Alguns cães ladravam bastante perto e.Quem me dera que fosse mais.Com isto terei a certeza de que não. sem fazer nada.Riu-se. Você esteve nos Estados Unidos? Oh..Não me importo com esses tolos. certo dia. . .Riu e parecia prever a perplexidade de Sagoe. Alguns classificam-no de pedantismo. . Uma vez. Eu sou negro. você foi induzido em erro tal como muitos outros. Tem uma voz de tenor .Durante algum tempo. Não sou um indivíduo sociável. .à valeta. No entanto. foi diferente. . Sagoe pegou num pau. .Tem medo dos cães? . Recordo que conduzi tão estupidamente que fui para.Conheci muita gente assim nos Estados Unidos. . Mas já fui mordido. até interrompi uma aula para correr a casa e expulsar um músico que ali estava havia quase um mês . Não frequento as recepções deles.Depende.Você esteve nos Estados Unidos? . um quarto negro . mas deixem-me fazê-lo em paz.Como encaram eles isso? . um branco idiota atiçou o cão contra mim.Então estou espantado por ninguém lhe ter dito para ir a minha casa. vê? Posso estar gracejando com um colega num dado momento e daí a pouco voltar-lhe as costas.Eu também. sou um perfeito hospedeiro. Na minha terra natal. nem as suas festas. . Um ho-oomem muití-í-íssimo encan-tado-o-or.

. Olhe.insistiu Joe Golder.E como eu tenho um piano no meu apartamento.maravilho-o-o-osa.Você está a sorrir . adoro cantar e creio que tenho. um terceiro e opressivo companheiro daquele passeio. Depois de dobrarem a última esquina e entrarem numa rua recente. .o que parecia um erro. Sentia que o vácuo crescia cada vez mais dentro de si. sim.Sim. e uma voz feminina a cantar no meu apartamento. e de uma manta negra de ovas de sapos num regato profundo. se há coisas que não suporto. Continuaram a andar em silêncio e Sagoe mergulhou de novo nos seus pensamentos. imerso em silêncios perfeitos. Sou muito cioso da minha intimidade. Sagoe pareceu ouvi-lo. mas um peso que amortecia tudo. e elas deliciam-se a abusar de mim. Vinha do entrelaçamento de arbustos e húmidos troncos de palmeira desbastados. Pouco importa que eu diga “não. mas muito obrigado. elas crêem que conseguem vencer a minha oposição com a sua insistência.. Mesmo através do grasnido e das pausas agitadas dos sapos. – Come-çava a excitar-se novamente. Sagoe esboçou o sorriso de um vacuolizador satisfeito. .o melhor tenor da universidade. acabada de construir. mas sorri bastante.Hum? . elas julgam uma óptima ideia aparecerem constantemente para um breve ensaio. dizem alguns. Em que pensava? . não tolero que qualquer idiota a invada.Na metafísica da vacuolização. Muito.Acabaria por descobrir mais tarde ou mais cedo. de facto. É uma intrusão insuportável. .Eu? . Não fala muito.Você canta? . Infelizmente. uma boa voz .Oh. desarraigados mas vivos. E a maioria destas estafadas donas de casa não compreendem que eu aderi ao seu grupo de ópera para cantar e não para o sherry e o bla-bla-bla habitual. mas depressa se alheou de novo.Disse que você é uma pessoa silenciosa.cada vez que me batem à porta. no que dizia . .acusou de repente Joe Golder. Já não era uma mera interrupção produzida por uma comunidade adormecida. Depressa a sua mente estava quase vazia . . Mas geralmente são as mulheres que o dizem. .Você é uma pessoa silenciosa . a natureza do silêncio alterara-se. ele lá estava..

Não importava que livros fossem.Não tenho amigos. Sagoe achava que penetrara num mundo remoto.ninguém mais. Sagoe desejou sinceramente que o outro se calasse. E apesar de uma cadeira leve. As vezes. Em Paris. grave. sem qualquer dificuldade. Não conseguia compreender que um ser humano pudesse parecer tão sensível e permanecer alheio à letargia octopóide da noite. apesar dos desenhos cubistas nas pequenas almofadas.Por vezes é apenas uma maneira de falar. Mandei-os encadernar de novo. E. Havia dois candelabros sobre o piano.. com razão. . Joe Golder tornou-se uma intrusão insuportável.respeito a Joe Golder.São oito lances de escadas. Vivia no bloco de apartamentos mais recentes. A seguir à música. o acesso ao último piso . . E ele havia assegurado. uma mesinha moderna. Já esteve em França? Esteve? A maioria dos livros que a biblioteca deitava fora. isso é apenas presunção. todos com a mesma elegante encadernação.Em tempos trabalhei numa biblioteca. eu ficava com tudo. informou: . arcaico.. eu guardava. mas eu sou um tipo persistente..Em que está a pensar? Não obteve resposta.Do mesmo modo que o poria no primeiro andar. . a excepção dele. . de metal e lona. portanto.. com tampo de formica branca. Golder conti-nuou a intrometer-se naquele encantamento com a sua resenha de tribulações até chegarem ao apartamento.Sagoe começava a irritar-se. vendiam-me outros a baixo preço. tipos que nunca vira dirigem-se-me dizendo: “Então você é que é Joe Colder! Ainda ontem encontrei um amigo seu. baixa.. Á fotografia de uma mulher idosa surgiu diante de Sagoe: o resto daquela parede estava coberto de livros. Custou. A sala tinha um ar tão enfadonho que Sagoe foi incapaz de se sentar imediatamente. Há-de ouvir bastante gente dizer que Joe Colder é amigo deles. Enquanto punha a chave na fechadura. porém. vamos devagar. . Esperava que o esforço da subida desencorajasse as visitas importunas. os livros são a minha paixão. Indiferente ao estado de beatífica passividade de Sagoe. com velas vermelhas. o mais distante da univer-sidade e o mais alto. parecia desejá-lo.Como conseguiu pôr o piano cá em cima? . . às vezes.

Que deseja tomar? Café? . . Suicidou-se.Tenciono transformar aquilo num aquário.perguntou Sagoe. Eu era demasiado novo.Jade? .Neste momento tenho sede. eles parecem completamente brancos. Construí-a eu próprio. Numa prateleira. Uma quietude inquietante que nos quebranta. Um resguardo oval estendia-se sobre o piano: em cima dele. Tenho gostos muito especiais..Está com ar carrancudo.O choque deve ter sido terrível. .Golder calou-se por momentos. .Sagoe ficou intrigado sobre o modo como ele o faria. .Durante quinze anos.Eu? . .. apenas porque ela provinha dele. três macacos de bronze.Levo-a comigo quando mudo de apartamento. Suponho que acho isto tudo muito inquietante.. não é verdade? Mas o meu pai é mestiço..Por amor de Deus.Que aconteceu então? . Golder tinha uma falsa lareira.Liberace está ultrapassado . Porém. . . há certas coisas que não dispenso numa sala. . . Todos os americanos que aqui vêm o fazem. É daqueles que não parecem ser. Que me diz a esta? . inspeccionando o desenho das decorações. O quebra-luz sobre o piano era uma singular caixa de madeira pintada de negro e na prateleira da lareira via-se um trabalho similar.Sim. Golder disse que não sabia. Cuspi na minha pele diante dele. nada. Partiu da terra natal com a mulher. Até que foi como. Sentia-me tão envergonhado dele que não o ocultava. mas absteve-se de fazer perguntas. resolveram regressar.disse Sagoe. antes de eu nascer. que agarrado pelo passado. não se saia com piadas sobre Liberace. Havia alguns objectos espalhafatosos sobre o piano e uma imagem de Buda.Não dei por isso. Demasiado calmo. puramente ornamental. Tem cerveja? . Talvez você fique horrorizado quando lhe disser que fui eu quem o levou a tal. .Sim. Qual é o problema? .. como eu não parecia negro. . outra fotografia emoldurada: os pais.

o resultado foi pior. .Desculpe. Sagoe despertou. não é? Não parece ser muito falador. Duas da manhã. Dificilmente abre a boca. Então por que não conversa comigo? Pouca coisa disse desde que nos encontrámos. fazendo um sério esforço para descobrir por que estava carrancudo.É uma pessoa muito calada.Que quer dizer com isso? Você tem qualquer ideia na cabeça.. Em vez disso. Era como se adormecesse constantemente ante um convidado e permanecesse consciente da sua falta de delicadeza. por favor.A voz do outro era bastante áspera. O que é? . .Lá está você de novo carrancudo. Por que há-de estar sempre carrancudo? Sagoe tentou cooperar.. e os troncos de palmeira tubérculos gigantes. O edifício era tão alto como isso. o rosto dele endureceu.E Sagoe afastou-se na direcção da varanda. .Talvez esteja cansado. .. Aquilo sucedeu quatro ou cinco vezes: Golder era persistente e Sagoe nunca recuperava o suficiente para levar a mal as aguilhoadas da sua intrusão. Acho que não estava realmente a fazer isso.. Dê-me a cerveja.Que está você a pensar? .Porquê? . a menos que eu o incite. O regato que haviam atravessado parecia uma corda abandonada. camadas congeladas de ferrugem e retalhos prateados. .Não me diga que não estava a pensar em nada. ressentida. . dizendo: . apenas verdadeira na solidão da sua mata de cabelos.Nem mesmo um sorriso aflorou os lábios de Golder. . Todavia.Não sei. . Sagoe achou isto divertido.Afinal sempre fala. acabando por aterrar perto do relógio de Sagoe. Uma floresta miniatura jazia lá em baixo. se é preciso tanto tempo para se lembrar do que pensava. Um solitário pirilampo brilhava regularmente.Bem.Se soubesse. . A cidade estendia-se para lá da realidade. . . Esqueceu imediatamente a presença de Golder. A tranquilidade venceu-o e o seu esforço de concentração depressa foi envolvido pela lassidão..

E depois. Limitei-me a dar uma . . Também quer comer qualquer coisa? Aparentemente. . Estive em diversos países europeus e os seres humanos são todos iguais.Qual é o problema? Eu disse que não estava a pensar e.Estes passeios abrem-me sempre o apetite. Chatos. . Ocorreu-me que talvez fosse melhor perguntar-lho. isso é cá comigo. As altitudes afectam-me desta forma e a calma e como um narcótico.Caramba. .Então fale-me de si. . . Estou a escrever o meu segundo livro. .Mas agora está a falar. Vim para aqui na esperança de que os Africanos fossem diferentes. Tinha grandes dentes e os lábios separavam-se quase insidiosamente.. Sagoe reagiu. então estou apático.Você não está cansado. Diga-me quais são os seus interesses e ideias. hipócritas. A maior parte deles são falsos.afirmou Golder. . Isto é. Continua a meditar. mesmo se estivesse e não lho quisesse dizer. Sei ver quando um homem esta cansado. mas mergulhava apenas cada vez mais fundo na sua própria história. era assustador.Sou uma das pessoas mais sinceras que conheço. dirigindo-se à cozinha.Mesmo isso pode ser uma fachada. . com uma ponta de irritação na voz: . .Ainda acabamos num impasse . endireitando-se bruscamente.Por que me pergunta isso? . não é obrigado a comer. . Golder sentara-se no parapeito como um inquisidor. Vá lá. uma atitude deliberada. Em que pensa? Desta vez. Bem sei que sou um misantropo. Sagoe levou muito tempo a ponderar a oferta. Sagoe estava agora mais vigilante e começou a pensar se aquele tipo não estaria a representar.Você não me está a ouvir. Golder levantou-se de um salto. Sabe o que quero dizer. um romance histórico passado em África. .Por nada. Gostava de saber que espécie de pessoa é você.Serei obrigado a pensar em algo? . quando por vezes se ria. Por isso diga-me em que pensava há momentos. Fico aqui em cima a escrever. Joe Golder.Bom.Prefiro estar sozinho.Você gosta de fingir-se diferente? Joe Golder parou de rir. . Não me importo com os outros e não quero que eles se importem comigo.

comprar-lhe comida. pelo que procurava evitar que alguém lhe fizesse fosse que favor fosse. No entanto. . Costumava vir ao meu apartamento depois de calcorrear todos os agentes em busca de trabalho. Meu Deus. na sua melhor pronúncia de Oxford. Tive de sair. conheci um bailarino da Guiana Britânica tão irritantemente orgulhoso que ficava melindrado quando era obrigado a agradecer algo. Começou a partir ovos e a pô-los numa frigideira.Não quer nenhum? . fascinado. quando Sagoe disse: . e eu tinha um bom emprego na tal biblioteca. e até se podia ver que ele chorava interiormente para conseguir engolir a comida que lhe comprara. Sagoe.disse Joe -. Oh. Você nunca hesitou entre comer e não comer? Porém. Sabe.Espero que não esteja a contar comigo. fui uma vez ao quarto dele. cozinhá-la. tornava-se simplesmente ridículo com tanto orgulho. Estava de cama.informou Golder. uma miserável toca de rato num sótão. Estava a partir o terceiro.Isto está a tomar-se impossível. Mas julga que ele aceitava comer comigo? Não.Não uso o fogão eléctrico . . imagine. ele era insuportavelmente britânico! Tão exageradamente correcto! Conhecemo-nos quando estudávamos em Oxford. desde que recebi a primeira conta. quase agonizante de fome. Levei três horas para encontrar a espelunca onde vivia. . Deixava-se cair pesadamente numa cadeira a ouvir discos.sugestão. Meu Deus! Cheguei a odiarlhe a própria sombra e ele a minha.. Acabou por segui-lo. abrir a janela e dizer-me. Já não o via há dias. quando as tripas lhe suspiravam por uma migalha de pão. muito obri-gado. observava-o a acender o fogão a gás.Pelo menos. . mas ele chumbou nos exames. de modo que fomos os dois para Paris. conseguiu levantar-se. Os sapatos estavam numa lástima e via-se à légua que não comia há uma semana. fazendo um verdadeiro esforço para ser sociável. com aqueles malditos modos britânicos. era a dança que o interessava. Ao fim e ao cabo. Ele estava a passar fome em Paris.. pelo que fui procurá-lo. muito obrigado! E eu acabava por perder a cabeça ao vê-lo ali sentado. fingindo que tinha comido.Quando estive em Paris . que tinha comido. enfraquecido. Não. Golder saíra da sala e Sagoe ouviu-o abrir um armário. Abri o armário da cozinha e nem sequer um alho ali havia. .

Foi o suficiente para ficar a detestar a fome. . mas não o alardeava como esses a que se refere. sim. Compreende. Gostava bastante dele e ao mesmo tempo odiava-o mortalmente. aqueles hipócritas! Havia uma coisa que todos eles sabiam fazer muito bem: cravar dinheiro aos outros.E em São Francisco. Quando não tinha dinheiro. limitava-se a ficar em casa e sonhava. Éramos grandes amigos. Os vossos beatniks espantaram-me.Ah.Tem a certeza? Não será a sua costela britânica a falar por si? . . Em Greenwich Village. . MSS. Mas logo que soube que este rapaz estava realmente doente. como eu o odiava! Sabe quando o compreendi? Quando ele estava doente. Recebia algum dinheiro de casa. também pratiquei um pouco de inanição. porém. muito obrigado. mas antes de conseguir aquele emprego na biblioteca. ele não tinha um centavo. dirigi-me ao hospital apenas para o ver. desamparado. Pessoalmente. imaginei todo o tipo de subterfúgios para evitar ir vê-la. .E claro que é a minha costela britânica.Não. mesmo assim. no hospital. Ainda não lhe disse. levei aquela vida durante algum tempo. Por que se agregam eles daquele modo? . pouco importa.Ao menos você tem sentido de humor. levei-lhe fruta e flores. Quando uma vez a minha mãe adoeceu. creio que não. Meu Deus.. Paguei as contas dele. Aquele género de pessoas que proclamam estar a passar fome por amor à arte. Eram repugnantes. aqueles doidos do Quartier Latin. . Nisso eram geniais. Oh. são todas idiotas! Nada tinham de positivo. detesto hospitais e nunca vou lá visitar ninguém. . ainda me podia considerar com sorte. à passar fome por amor à sua liberdade. Foi outro mau hábito que criei.Não quero nenhum. a passar fome até ao dia em que o seu génio inundará o mundo.Não? Devo confessar que tenho um certo prazer em detectar fome nas pessoas. Aquele bailarino meu amigo passava fome.Não me diga que se preocupou com isso. não queria que se incomodasse por minha causa. Pois .Vejo que continua a pensar. é muita bondade da sua parte. muito obrigado.Também conheci alguns em Nova Iorque. . totalmente dependente. .Não creio que tenha. não quero nenhum ovo. sem dinheiro. uma vez mais. .

apenas uma viscosidade deliberada. . Tratava-se de listas brancas num fundo totalmente negro. . que seria capaz de igualar a violência de Joe Golder. Teve de ser ele a pedir-me. que é bastante vulnerável. Tinha de aceitar o meu auxílio e até pedi-lo. embora ainda estivesse ressentido por isso. Sagoe costumava .' . Durante muito tempo depois daquela noite. . Eu sabia-o muito bem.Digamos. A maioria diz que não a compreende. para Egbo. Uma voz de soprano abafou o som de óleo esguichando. Paguei a renda dele.Gosta? . a voz humana é o instrumento mais perfeito. Sagoe sentiu-se afundar para além de tudo aquilo. diante da única pintura da sala. odiou-me mais do que nunca. Poderia ser um relâmpago ziguezagueando num céu negro. sabe? Tinha de entrar num espectáculo e precisava de novos sapatos de ballet.Coloratura. antes de adoecer.Não se importa que eu ponha isto a tocar'. Oh. . que estava desempregado e já devia dois meses. era inevitável. mas não disse nada. Eu só desejava que aquilo retardasse a sua recuperação. .Acho-a enjoativa.ele rebentava de orgulho e na sua cara transparecia toda a sua humilhação e nenhuma gratidão. . A seguir ao violino. . Sagoe estava de pé. Obriguei-o a isso.Pareço-lhe ser do género de pessoa que chora facilmente? . As línguas que partiam do traço principal eram líquidas. a sua mente voou para Dehinwa e a sua rude e exasperante afeição. Pedir-me! Ele pediu-me dinheiro! Da varanda soprava ar fresco. gotejantes. revigorante. Choro frequentemente ao escutá-las.O outro estava junto do gira-discos.E a primeira pessoa a dizê-lo. restos de leite escorrendo através de uma película amarfanhada e caindo como que indecisas. Que se passa com ele? Que tem este tipo? Desesperada. . Gosta? Gosto da voz humana.Eu não.Sagoe não acrescentou que a sua letárgica autocomplacência já se dissipara. mas ele sabia que não era. Não havia ali qualquer poder ou violência. mas ele odiou-me.É engraçado que não me surpreende ouvi-lo dizer isso. simplesmente. E fui lá limpar-lhe a casa antes de ele regressar. Só toco as minhas peças favoritas quando estou sozinho. italiana. pois havia algumas semanas. No entanto. mas de modo mais directo.

Com que então. . são tão insuportáveis que é um milagre escaparem vivos de qualquer sítio onde vão. É um tipo tão reservado.. Golder recuou. são tão nacionalistas! . Experimente essa conversa de indivíduo superior com outra pessoa. .Já percebi.. A tensão aumentou quando o disco chegou ao fim.. Como adivinhou? . quando dizem uma mentira.. deu por si a perguntar: . africanos. sem qualquer razão aparente. . vocês. isso não passa de retórica. -. .Eu posso dizê-lo porque não sou branco. Joe Golder afastou de si a comida e encaminhou-se para as garrafas de bebidas.Odeio a violência.Foi . Todas as formas de violência me transtornam...Foi o seu amigo bailarino que o pintou -.Porquê? ..Você proclama desprezar os modos britânicos e agora está para aí a exibi-los calmamente. Também existe violência nas palavras.Antes que arme uma discussão por causa de uma ninharia. Inconscientemente. não faço ideia de como adivinhei. vocês continuam a mentir. . visivelmente assustado. . . . ameaçadoramente. Mesmo quando vos apresentam provas evidentes de que mentiram.Odeio a violência. mas costumo .Agora nem me apetece comer. sentem-se obrigados a insistir nela. americanos. não. Deixe-me tentar encontrar uma fotografia daquele rapaz.Pusera-se de pé..Então não volte a abrir essa boca para tirar profundas conclusões da conversa do seu criado! Meu Deus.Cale essa boca porca! . Vocês africanos. Vocês. Sagoe não se compadeceu. .Tremia ligeiramente. . Não tenho álbum. repito.Então devia ser mais cuidadoso.Você nunca quer explicar nada do que afirma. Sagoe sentiu-se à beira de agredir Golder.e Joe Golder olhou-o atentamente durante algum tempo. .perguntar a si próprio por que havia feito aquela pergunta. nem sequer aceita uma simples verdade. O outro irritou-se: .Não.Se volto a ouvi-lo repetir essa merda. Por exemplo. o meu primeiro criado. .Não faço ideia.

guardar os recortes sobre ele. você costuma fazê-los sentir-se como se fossem relógios de contrabando à venda em Kingsway: ah oga. de enjoo. Sagoe comentou: . o seu isolamento deliberado que transparecia naquela sala. Sim. atenção. não faço ideia do que poderão sentir aqueles com quem converso. . é algo realmente belo. Se somos generosos para elas. Já vê como ele é. ainda que ela lhe fosse repulsiva. não hesitava em pedir-mo. Acho que as pessoas nos exploram. . quando precisava de dinheiro. baratíssimo. E aquilo era a única forma de satisfazer o seu orgulho: pagar-me o que me devia. quais são os seus interesses? . .Você faz sempre isso com os seus amigos. recebi um postal dele de Madrid. ele começou a conseguir trabalho mais regular-mente e pagoume o que eu gastara com ele até ao último centavo. Bastante injustamente..O-oh.Não sei do que gosto. gosto de negros. Recentemente. Mas eu havia-o derrotado de uma vez para sempre. dezassete rubis. foi obrigado a aceitar a minha generosidade. oga. com calendário. Todavia. Provocava-lhe uma sensação de arrepio que lhe descia pelas costas e se confundia com outra.Está de novo calado. isto é. no entanto. Daí em diante. onde os vagabundos de todo o mundo se reúnem. Já tentei ajudar diversas pessoas. único. Continuo sem saber nada de si.. Para continuar ali . desculpe. Ou será que não há nada que se possa saber a seu respeito? Quero dizer. tem tido muito êxito. Apenas pessoas da minha cor..Riu-se. Mas ao menos tinha-o recebido. Já dançou em Berlim. compre este. a sua cor tem uma tremenda vitalidade. São excitantes. se preferir este termo. conhecidos. Sagoe preferiu aguardar.Já vi que gosta de sondar os mecanismos para compreender como funciona cada um.e com razoável cortesia -. o que busca você na vida? Vamos.. E eu gosto sempre de conhecer as pessoas. Joe Golder ia-se tornando progressivamente mais desagradável. pois ele próprio sabia que isso era falso. Havia o seu amor pela solidão. não gosto de mistérios. . Ultimamente. não ajudava qualquer um. nos Estados Unidos e em mais algumas capitais europeias. Mas você não disse absolutamente nada. especialmente quando estava em Paris. começou a procurar em Joe coisas que pudesse admirar. . Sinceramente. somos explorados. Pagou-me tudo o que me devia. automático. Mas.

Vou. na verdade. Não consigo lembrar-me muito bem da cor dela. que tenho o direito de ser. se preferir.Estão a vi ver juntos? . vi uma rapariga branca numa festa e achei-a muito bela. . Aquele Peter.Mas.. Ou. . o meu amigo ficaria preocupado sem saber o que me aconteceu. .Não.Agora diverte-se a ser grosseiro? . acho isso repugnante.não há nisso qualquer culpa ou crédito meu -. parecia que não conseguia entrar.Nem sequer tinha pensado nisso. .Não. . E eu não estava muito disposto a encontrá-lo.Quer então dizer que não acha a sua pele bela? . mas tenho o direito de pensar assim. . Olhe. não era isso. você é um branco. Talvez seja por isso que está constantemente a atacar os outros. Este culto da beleza negra é que me causa náuseas. serão os albinos obrigados a irem afogar-se por causa disso? Até então. quando o vi.É um pouco longe.Não. mas podemos apontar-lhe algumas vantagens. Uma destas noites. como sou negro . Joe Golder levantou-se. certamente. quase consigo ouvir a saliva a crescer-lhe na boca e.Parece uma ideia de Rousseau. Não há qualquer motivo por que eu não pudesse ter nascido negro como azeviche. . . não chegou a partir. Pôs-se de pé. Até o nacionalismo é uma forma de amorpróprio. . esquecera completamente Lázaro.Uma gentil increpação britânica.Teria morrido de masturbação excessiva. o rapaz alemão com mau hálito. pode ficar cá. Por exemplo.Espanta-me que haja negros que suportem ser adulados. mesmo por outros negros. . espere aí.Vai-se embora? . .Mentalmente.. Quando você se refere a essa vitalidade negra. fico bastante nauseado perante o excessivo amor-próprio. Levo-o lá de carro. . sabe? . é bastante tarde. Ser negro é algo que me agrada ser.. Trata-se de um juízo estético. É espantoso como você se parece com os ingleses. A sua mente fixouse no albino e Sagoe acabou por se sentir inquieto.Somos ambos hóspedes de um velho colega e amigo meu.

Golder mostrava-se muito animado. suponho. . não. . Ainda estou um pouco confuso. Durma você no quarto. .Está bem. Golder voltou-se para ele bastante alegre: . . .Você pode vir para aqui.E pregou-lhe uma partida muito feia. É demasiado para eu “engolir” de uma só vez. não é essa a ideia que tenho de hospitalidade.Não. acho que não posso ficar cá.Pus uma toalha nova para si na casa de banho. . Um minuto que seja na mesma casa com Peter é um suplício.. Sagoe sentiu-se tentado. . de qualquer modo. É demasiado alto. . . sabe? Tem de concordar que você é uma pessoa surpreendente.Escute. É a porta ao fundo do quarto. Logo pela manhã. . . compreendeu que não ia ficar. fique esta noite. indeciso. Bandele é quase um santo. Mas ficou ali. vindo da sala de aulas.Não. Joe Golder desligou o . Ele viu-se a braços com Peter depois de você o ter abandonado lá. apenas para me pôr na rua.Não.E as suas súbitas mudanças de humor? Não me agrada pensar que posso estar aqui descontraidamente e você aparece a correr. não.Não. E nem sequer há mosquitos.Pôs outro disco a tocar. Eu gosto deste sofá. eu. julgo que ao ser expulso podia cair nas escadas e partir a cabeça. .Pelo menos. .Não. .Mas vai ter de ceder. Sagoe riu. Então dormiremos ambos em colchões retrucou Joe. então ficamos ambos nos colchões. .. levo-o a casa de carro. Sagoe sentiu regressar um certo embaraço. acho que não. não. . Eu não durmo numa cama quando o posso fazer num sofá.Devo confessar que dormiria melhor sabendo que a primeira coisa com que depararia pela manhã não seria a cara de Peter. Até um colchão no chão me serve.Não. . eu não. Eu durmo aqui e você fica no quarto. sozinho na sala. Quando Joe Golder reapareceu.Oh. o outro entrara no quarto e. se quiser. só vou estar cá alguns dias e acabaríamos por nos irritar um com o outro.... . Além disso.Porém. não se preocupe.Muito bem. .Espero que se tenha resolvido a ficar com o quarto.Óptimo. Não ha qualquer possibilidade de isso acontecer. conheço Bandele muito bem.

quero saber os porquês. e você sabe-o bem.Quer saber quais são as minhas verdadeiras razões? . incrédulo. mas gostava realmente que você ficasse. isso era apenas para explicar a minha maneira de ser.Acabaríamos por nos irritar um com o outro. parecendo o de um monstro. . .Muito bem. é muito gentil. . .. coisa que você.. pressentia uma barreira que impedia a aceitação consciente da questão. .. .Diga-me simplesmente a verdade. Tanto pode deitá-la cá para fora como guardá-la para si que eu vou-me embora. Sagoe pensou: “Estamos ambos a esgrimir. você demonstrou-me muito bem que detesta intrusões na sua vida.gira-discos. mas porquê? Por que estou eu a lutar com ele? Que será que ele pensa que eu sei?” No seu cérebro.Não.Eu nunca cheguei a decidir-me a ficar.Fique sabendo que não tem o monopólio das mudanças súbitas de humor. É muita bondade sua.Sim. primeiro. . tipicamente. todo o seu equilíbrio e ponderação se haviam desvanecido. Acusadoramente.Você é que tem estado sempre com rodeios desde que o encontrei. mas esta noite era uma das suas noites lentas e Sagoe perguntava a si próprio qual a razão daquilo tudo.Simplesmente porque não me apetece. . .Vejo que tem qualquer suspeita na sua cabeça. É verdade que estou sujeito a mudanças de humor. .Numa noite? Qual é a verdadeira razão? Subitamente. procure você mesmo outras melhores. Joe Golder era insultuoso e Sagoe descobriu que o rosto dele sofrera nova alteração. . Qual é a verdadeira razão? . se recusou a fazer. Finalmente. Deve compreender que quero mesmo que fique. E se as minhas razões não o satisfazem. .A sua voz tomara-se aguda.Bem. . .Por amor de Deus! . digamos que sim.Porquê? Por que mudou de ideias? . .Não. é a sua costela inglesa.Sagoe sentia que já tinha tido aborrecimentos a mais para uma única noite. Não é por isso..Mas porque é que não quer ficar? . Joe atacou-o: .Isso é que não. Sagoe disse: . estava agora retorcido. você tinha concordado em ficar.Sim.

porém.? .Vamos.Já que está tão obcecado com os britânicos para aqui e para ali. Se tivesse uma faca. nada mais. que nada teme. Você maça-me brutalmente. Deliberadamente. Tem medo de mim? Sangoe ficou sem saber o que dizer: abriu a boca.. . não é isso! . . Sagoe foi obrigado a desistir.. receia que possa molestá-lo? É isso? Acha que eu sou homo. honestamente. silencioso. tão seguro de si. Afinal.Julga que.Caramba.Medo de si? Uma vez mais. .Escusa de ficar tão surpreendido. agora muito mais lentamente. . E depois? Seguidamente. não é por . mas você nada disse. Sagoe escarneceu: . Tem medo de mim? . .Meu Deus. .Golder aproximou-se dele. seja totalmente franco. Nada o assusta. seguro de si. Tal como aquele meu amigo bailarino que não queria comer comigo.Diga-me uma coisa.Claro que sou capaz de tomar conta de mim mesmo. espantado. pensou que o tipo era maluco. vou dar-lhe mais uma razão para não ficar aqui. .Espere. não é? Percebi logo isso quando o vi. Um tipo forte. vamos. Completamente louco. Quero uma resposta sincera. . quase suplicante. . esfaqueava-me. quero sabê-lo. confiantes. onde vai buscar tanta presunção? Perguntei-lhe quais eram os seus gostos e interesses na vida. . é certo que passei algum tempo em lugares onde se praticavam todas as perversões possíveis. Sagoe olhava-o agora deliberadamente com pena e encaminhouse para a porta. Diga-me sinceramente aquilo que pensa.Tem alguns tiques um pouco efeminados.mas não posso ficar.. Não tencionara expressar qualquer desprezo no seu tom de voz. Arrogante. Espero que isso chegue para si.Já lhe disse! Oiça. Mas porquê? Que mal lhe fiz eu? O americano estava de novo a falar. e assim ficou. É o tipo de negro poderoso. nem qualquer motivo para a fúria subsequente de Golder. Não suporto todas essas pretensões. você é daqueles tipos fortes.A sugestão sobressaltou Sagoe que nem sequer pensou antes de a rejeitar.

E que me diz aos selectos conventículos de Lagos? Sagoe abanou a cabeça.Sabe.. receando ter compreendido mal.Parece estar mais bem informado do que eu: mas. Havia evitado os contactos com sociedades onde o sexo era a chave do planeamento das cidades. Apren-di a não tirar conclusões apressadas em muitas coisas. estou apenas a tentar dizer-lhe que não alimento quaisquer suspeitas sobre si.. activos ou laten-tes. Sagoe nada ocultara dos seus sentimentos. Golder atacou-o de imediato. Golder afirmou: . Por favor.Oh. limitara-se simplesmente a proteger-se num invólucro de aço e a aperfeiçoar um golpe de judo para aqueles cujos movimentos na escuridão de um cinema não lhe deixassem dúvidas sobre as suas intenções. e que o quarto estivesse apaixonado pela mãe. Joe Golder repetiu-o duas vezes. até Sagoe admitir finalmente que o entendera. Escute. . No entanto. pretiro continuar na minha ilusão. Até àquele momento. . não vamos recomeçar. Acabou por ganhar fama de solitário. estou estafado. . continuaremos esta discussão noutra ocasião. Sagoe estava singularmente estúpido naquela noite ou talvez nem o estivesse a ouvir. Aprendeu a ignorar alusões e interrogações perscrutantes. Durante a sua estada na América. com ênfase crescente. eu gosto de homens. não.Não me venha com essa! Uma sociedade relativamente saudável. Acontece que nasci numa sociedade relativamente saudável. se não se importa.Eu levo-o lá de carro. Conduzindo através da estrada imunda em direcção à avenida. . travava calmamente o pulso errante. incapaz de aceitar que três em cada cinco amigos seus fossem pervertidos. quando a linguagem era clara.causa disso que tiro logo conclusões apressadas. maldizendo intimamente a sua compreensão lenta. . Seja como for.Em que pensa? . onde os desenhos dos gradeamentos dos parques eram rejeitados devido a simbolismos ignorados. uma figa! Julga que não sei nada dos vossos emires e os seus rapazinhos? Esquece-se de que a História é a minha disciplina. Golder parecia um pouco mais calmo.

(N. . Golder parou diante da casa e perguntou. pensei que soubesse.O convite continua de pé. ..Agora que tudo se clarificara na sua mente. Por isso. .Você gosta de ser grosseiro . ainda esperançoso.Normalmente. Suponho que foi uma reacção que desenvolvi. (-) Eric. não acha. o último livro de Baldwin. se é que percebe o que quero dizer. suponho. (N. Sagoe não estava disposto a ser muito cortês.De certo modo. gosto mesmo.É Another Country.).Então? . mesmo assim. Porém.Sabe que ainda nem me disse o seu nome? . não sou tão obtuso. Dito com um suspiro anal. quer dizer que nem sequer suspeitou? . Quando não consigo imaginar qual o problema de um homem. procuro não pensar mais nisso. .Bem. . a bebida deve ter-me congelado os lóbulos.' .Quer dizer..É corrente nestes casos de engate..Bem.Não.E você? Por que razão está este livro aqui no assento do carro? Para quando der boleia a estudantes poder encontrar um ponto de partida fácil para a sedução? . Realmente não sei por que não o compreendi..Não gosta dele? . voltando a capa para as luzes do tablier do carro. fez-me lembrar outro livro: Eric. Gosto de homens e é tudo. lamento mas não sabia.Está a tentar ofender-me? O silêncio pairou entre eles durante o resto do caminho. Mas a ideia deve ter passado pela minha cabeça algumas vezes. ou A Pouco e Pouco. or Little by Little.Então o quê? . . Reparou então num livro no assento a seu lado e pegou nele... do T.Não. Já o leu? . C-U-N-T (Cunt é calão e designa os órgãos sexuais femininos..). Eu vivi com esta conspiração europeia para “dessexualizar” os homens e era de dar em maluco. ultrapassei-me a mim mesmo. parece-me que era óbvio. do T.Eu soletro-o Another Cuntry. desenvolvi uma reacção obstina-damente enraizada.. Mas. .. não sei explicar o que tenho hoje.. Não consegui imaginar outra razão para não querer ficar. Pensei que você soubesse.. Pode vir ficar a minha casa quando .repetiu Golder. . . .

sim. . Viste como aquela mulher me arruinou ante todos! Bandele gesticulou suplicante. já me esquecia. Faseyi nem esperava que a porta acabasse de se fechar sobre ela para colocar Bandele entre a espada e a parede. depois os vossos espécimes nativos. tal era um prazer a que nunca conseguia resistir.Ah.Oh. . O grande africano silencioso. . . . agora aquele Golder. Desculpa. percebo. devo aproveitar a experiência. Muito. . sim. . Foi como se lhe tivesse esmurrado o rosto. uma vez mais. Bandele fitou-o. . percebo. não viste? Viste o que se passou.Que foi que aconteceu? . Monica. E obrigado por esta memorável estada em tua casa.quiser. Para Bandele. A penalidade a pagar era insignificante. Bandele. Era. penso que devia ter-te avisado. Enh? E quanto a Kola. .Primeiro foi Peter. Acho até que. ele estava lá? Olhava .Agora já lá vai. .Você é grande e forte. Nada ouvia que não dese-jasse ouvir. mas. a hora de almoço em casa dos Faseyi. Bandele abriu-lhe a porta. tu sempre foste sincero comigo. .Não foi nada.Como podes tu dizer isso? Escuta.Por causa do que eu disse? .Aquele não era o carro de Joe Golder? . eu sou capaz de tomar conta de mim próprio. Só espero que não tenhas na manga mais surpresas para mim. servia as bebidas e saía. habituada àquela rotina. não creio que o faça.De novo aquele olhar de desprezo. Ninguém reparou realmente.Era. como jornalista.Viste tudo. O problema é que não estou a ver nada que o meu chefe de redacção deixe publicar. com franqueza. proferia as palavras adequadas na altura certa e virava as narinas na direcção da cozinha para captar os primeiros aromas do festim.Pela centésima vez.Obrigado. mas muito obrigado. pois tratava-se de um almoço após uma crise conjugal e a mãe de Faseyi deveria estar a realizar milagres culinários. .

Fash..afirmou Bandele. e mais um ou dois tipos altamente importantes. Sim.Ainda não.Meu Deus! . mas dirigindo-se.Compreendes a minha posição? Ainda se eu fosse um daqueles que casam com raparigas londrinas analfabetas só para poderem gabar-se de ter uma mulher branca.directamente para Kola. Há sempre uma .Começas agora a ver pelo meu ponto de vista. . curiosamente.Kola voltou-se para Egbo e iniciou uma conversa com ele.Não. é o suficiente para me arrumar socialmente.disse Kola. não fui eu.Óptimo. .Não estava? Era capaz de jurar que foi ele quem. Deve saber que estava presente um ministro. Bandele murmurou: .Sim. . não.Não. E isso o que me ocorre. Mas vou ter de lá ir apresentar as minhas desculpas.Já estiveste com o professor? . Faseyi interrompeu-o: . a Bandele.quis saber Bandele. . . pareço ser um desses? Bandele murmurou algo sobre a boa educação de Monica. A universidade não é mais do que um trampolim. não estava . sabes? Vi lá quatro presidentes de empresas e alguns secretários. grandes empresas. Porém. depois. Faria ela aquilo em casa de um branco? Se o professor fosse branco. . . Sabes o que a esposa do professor lhe disse? Que nunca mais toleraria a presença de Monica em sua casa. Não que isso repare os estragos feitos.Escuta.. . teria ela feito aquilo? .Escute.Não estás a ver o caso do meu ponto de vista. não é verdade? Com-portar-se daquela forma num círculo social tão decente! Porquê? Às vezes penso que Monica não tem qualquer respeito pelos africanos. A minha mãe está neste momento a falar com ela. Dirigiu-se à porta e parou a escutar.Não.. muito firmemente. Ele estava na festa? . Política. . enfrentemos os factos. dançou com Monica. Uma coisa daquelas..Estás a ver? E vai ela desgraçar-me daquela maneira! Como se não conhecesse as mais simples regras de etiqueta. Kola. Oguazor conhece bastante gente. Diz-me sinceramente. . não me recordo de lá ter visto Kola . . espera aí.

Deixaram a sala de estar entregue a Faseyi e Bandele. Como se ela tivesse algo a acrescentar ao que eu lhe disse! . . agora melancolicamente despovoados. . os sons eram diferentes.inquiriu. Egbo fitou-o e abanou a cabeça. Kola riu: .Eu fazia. Kola. . Egbo. Esta manhã. nada. ou não é assim? Kola simulou não ter ouvido. por toda a parte. mas tenho a certeza de que tudo isto não é mais do que um meio. Haviam-se silenciado as tumultuosas manifestações estudantis. os movimentos no seu interior mais ordenados .Por enquanto. . O pólen do amor voa. livre. . Declarou que vai ouvir primeiro o que Monica tem a dizer.Nunca pensei ver-te tão abatido. Chega mesmo a mimá-la. Além de que a mamã gosta demasiado de Monica. sempre à procura de directores nigerianos. por sua vez. você é um artista.Devo estar a envelhecer. Para não falar destas firmas estrangeiras. Egbo murmurava: . . os insípidos excessos da juvenilidade que.Vamos até à varanda. apropriadamente denominadas de “Verme” ou .Como? .Já descobriste a rapariga? . .Não fazia a mínima ideia do que me esperava quando concordei em vir. .Monica.quase em sequências predeter-minadas: um grupo de conferencistas passava de um salão a outro e de novo regressava aos enormes dormitórios. E é esse o meu problema. Mas na realidade uma pessoa só consegue falar com pessoas da mesma idade.reconheceu Egbo.Não consegui pregar olho toda a noite. Eu não sabia que as férias estavam tão perto. Como suporta ele este tipo? .Desapareceu. A mamã e excelente. Kola.Nunca conseguirei perceber aquele Bandele. .possibilidade. a primeira coisa que fiz foi ir buscá-la. . O aspecto das instalações universitárias mudara.Não mo perguntes.Nem eu .E que disse a tua mãe? . sabem? Realmente estou mesmo contente por vocês terem vindo.Percebo.

Mas. centenas de ficções. as almofadas perma-neciam sem ocupante e o professor Oguazor consolava a esposa dizendo. vingança por tentativas de aproximação falhadas. o chá acabava por arrefecer. Seguidamente.. Porém. para aqueles que perdiam. Os quadros negros também estavam agora limpos.. E as salas viam-se finalmente libertas do áspero ecoar de conversas obscenas. e que. mas a totalidade do Senado universitário. com ilustrações e exemplos inconfundíveis.E mesmo assim. por vezes é incrível. os Oguazor resignavam-se a que alguns rapazes simpáticos lhes sujassem as almofadas com a sua presença. lançando-se aos pés do deão. de entre eles. filhos de ministros e outras personalidades famosas.O que foi? . Mas os convidados regressavam aos seus mimeografos para lançarem mais um sórdido assalto à inviolabilidade dos superiores. esperando que o chá e as sanduíches conseguissem introduzir alguma gentileza no seio daqueles que fosse possível remir. não só o deão. assim. perguntando a si próprios se os seus esforços não seriam mais úteis se fossem ministrados aos macacos do Jardim Zoológico. mas regressavam para junto dos outros estudantes vangloriando-se ruidosamente de terem desafiado abertamente. sempre por uma boa causa.. E os convites foram tentados com selecções mais cuidadas e seguras. . Porém.” E o “Lodo” deslizava novamente e o “Verme” rastejava. em inferioridade numérica. Os editores esperavam em vão a lógica repressão. frustração geral. canonização e inevitável crescimento de popularidade em nome da “liberdade de expressão”. desenca-deando novas apoplexias nos empolados disciplinadores. produtos da imaginação estudantil. cólera devido à existência de raparigas daquele meio que lutavam pela igualdade. as sanduíches endureciam. ultrajavam até o mais liberal dos elementos docentes e levava-os a suspirar. mas também dos desenhos pornográficos e dos chistes estudantis. E de novo voltavam as conversas.. com as esperanças fixas nas próximas eleições sindicais.“Lodo”. tinham de dizer cem nãos por cada sim. nessa altura. uma imperdoável arrogância. . o corpo docente mostrava-se indiferente e os estudantes deploraram a perda de “dinamismo académico”. “Que ti disse eu? Estes rapazes não têm qualquer cultura. lúridos diagramas. não só dos mistérios do cálculo matemático. e cujo enorme privilégio se tornava. o deão estava já farto do caso. retiravam as suas palavras com abjecta humildade. engenho de cérebros diarreicos.

Que queres tu dizer com suplicar a Oguazor? . . repito. O que ele queria. Lamentava agora ter adiado a sua própria decisão até muito tarde. olhando a aproximação de Kola como se ele fosse a imagem da esperança. porém. de entre estes estudantes. tudo isto já foi longe de mais e já decidi o que vou fazer.Aquele Bandele às vezes irrita-me.Tens trinta e um. .Mas Kola tem razão. Kola..A geração não depende apenas da idade. . Pedi à mamã que cá viesse apenas para lhe dizer isso mesmo. Isso é ser velho? . não te lamuries como qualquer velhote dirigindo-se à sua alma mater. . pondo de lado os últimos vestígios de compunção. Faseyi dizia: . surge por vezes um futuro génio. Faseyi desiludiu-o. era que este tipo se rebaixasse totalmente. Não queria expulsá-la de casa sem primeiro informar a mamã. Kola. Kola sentiu um arrepio e recusou aceitar o que ouvia. Faseyi virou-se ao ouvir a sua voz. pois parecia que afinal o caminho lhe estava a ser aberto e tal não era o que desejara. tudo se recompusesse.Espera.e a veemência de Bandele parecia desnecessária.Talvez se você suplicasse a Oguazor. isto é.De qualquer modo. Com efeito.Não fales tão afectadamente como se fosses um velho. . desejava lá ir esta manhã.Trinta e dois. impaciente.Não há outra coisa a fazer. Deixa-os resolver o assunto.. Lamentava que Faseyi fosse incapaz de evidenciar a mínima manifestação de virilidade de modo que ele o pudesse humilhar impiedosamente. . mas a mamã disse que eu devia aguardar. que regateasse os seus direitos sobre Monica.E então? Não deixas de pertencer à mesma geração dos teus alunos.. Há quanto tempo ele está a ouvir aquele tipo! . . sem procurar desculpar-se com a fraqueza do marido. Parece ser a única coisa sensata a fazer. plena de desconfiança. deliberadamente. . porque ela gosta muito de Monica. pelo menos como certa forma de compensação. exclamou: . Uma vez mais.E não sou ? . . já abrira a porta.Estava simplesmente a pensar que de entre eles.

hum. embaraçoso. .Obrigada pelo que fez na festa.Claro. Conhece todas estas pessoas.. .Eu diria que o melhor é esqueceres tudo.. . Eu. . Bandele afastou-se deles e juntou-se a Egbo no exterior. Não vai esquecer uma coisa dessas. Eu conheço-o. você tem toda a razão. .Que queres tu dizer com isso? . Monica reapareceu alguns momentos depois. quando a mamã perguntar por mim diga-lhe simplesmente que eu tive de ir fazer um trabalho urgente ao laboratório..Ela apenas o aconselhará a aguardar.Oguazor é um elefante. Fash. . Bandele aproveitou a ocasião para sussurrar: . E é pena o papá ter partido numa das suas viagens ao estrangeiro.perguntou Kola. . .ripostou Bandele. .Deixa-o humilhar-se se é isso que ele quer. . exaltado. quando cá vem.O silêncio interpôs-se.. Lamento muito. pegou nos copos e foi enchê-los.Eu não me importo nada.Então o que sabes não passa de mexericos que ouviste. Todavia.Vou só dizer à mamã. . . que raio de jogo é o teu? ..É isso.Kola. que era necessário ele dar um jeito no que quer que sucedesse. O melhor é ir lá imediatamente e arrumar o caso. Kola recusou dizer o que pensava. Faseyi regressou com as bebidas. . .Compreendem. Ele poderia dar-nos uma ajuda preciosa.. se é meu amigo.Oguazor não esquecerá . tudo depende realmente da mamã.Isso é uma coisa que ele deve decidir sozinho.avisou Kola e insistiu para não deixar dúvidas: .Parece que você acaba sempre por ser abandonado sozinho.Quem és tu? O anjo-da-guarda dele? Bandele fitou-o longa e friamente. escute. claro. . E Kola teve a sensação peculiar de que isto era muito melhor. E. por pura gratidão. .Mas contaram-me tudo.Tu próprio afirmaste que nem sequer estavas presente. Como podes tu julgar seja o que for? O olhar de Faseyi ia de um para o outro. grato pelo tom de interesse pessoal de Kola e pela sua convicção.Por que lhe há-de dizer? .. . .

. .Bem.E nós não temos qualquer utilidade para si.. por instantes. Continuaram sentados junto da janela. Foi muito amável da sua parte ter-se incomodado tanto. Obrigada por tê-la levado ao oftalmologista.Dir-lho-ei directamente.É melhor não dizer isso na presença de Ayo.Não faça isso. mas nunca se lembra de vir visitar-nos.Está bem. .Muito obrigada. quando o que fiz foi aproveitar a pobre rapariga para o meu próprio trabalho. ao menos é franco. . . Pode ser que a apresente na exposição do Sekoni. . ...Não. emoções irreais. qualquer que tenha sido o motivo. Usaye brincava sob uma fila de blusas brancas. não discuto. .Não vejo quais sejam.. . Ela posou para mim várias vezes. como foi que lhe chamou?. .Estará terminada brevemente..Os óculos dela devem estar prontos na próxima semana.Isso deve-se ao facto de você ter sido educada erradamente..Não.. acontece apenas que não vejo ocasião mais indicada para experimentar mostrar o maior trabalho que fiz até hoje. Você gosta de rejeitar a bondade e. . . sim. . se preferir. O meu amigo jornalista envia-lhe os seus protestos de admiração. . .Bem sei. ..disse Monica -. não nos vamos pôr com salamaleques. agora me recordo. é ela quem eu venho procurar.Mais nenhuma? . .Vejo-o vir com frequência buscar Usaye. de renda e estampadas. mas acabo sempre . a alguma distância do tronco da árvore. Chamou-lhe a guerreira desconhecida no cemitério dos Oguazor.Lá está você a agradecer-me outra vez. ah. . de novo em embaraçoso silêncio.Deseja beber alguma coisa? . não quero nada.Não sei como isso acontece . Uma única pintura minha. .Por favor.Eu estou a ser sincera.É verdade. . . O que quero dizer é que há coisas que nunca devemos agradecer. .Mas eu estou a dizer-lhe a verdade.Como vai a pintura? . a exposição é realmente dedicada a Sekoni.Ela calou-se.

Quanto à sua conduta. Na realidade. me comporto estupidamente? .por o deixar ficar mal. Se Ayo não lhe pedisse.E o que diz ela a isto tudo? Durante algum tempo ela calou-se.. Acha que. . .Mas eu descrevi-ta. . A sociedade a que ele pertence. Kola virou a cara. ela nunca viria visitar-nos. Você nem imagina como somos amigas. . E quando eu analiso verdadeiramente a situação.Bom. Egbo apelou para Kola. pensativa.. . e Kola disse: . penso. As caras deles e delas parecem-se umas com as outras.Você acredita nisso? .Sim. E a minha sogra é muito boa para mim..Sim. talvez eu não devesse ter perguntado.O quê? ..Sim. Mas não me importo de lhe dizer.? Desculpe. . Ela acha que eu devia abandoná-lo. Sinceramente. Que aquilo que você viu representa uma sociedade.dizia Egbo.Que aquela é a sociedade do seu marido. . . é coisa a ser decidida entre si e o seu marido. nem a reconheceria. .. . Eu não tinha o direito de o humilhar daquela maneira. . Eram os amigos do meu marido.É uma questão de opinião. Não devíamos discutir este assunto. Bandele e Egbo regressaram da varanda. Será por a sugestão ter vindo da própria mãe dele.. . Ela estava agora preocupada porque Kola nada dizia. não acredito nisso .Desculpe.. ou não acha? .Compreendo o que ele sente. se eu visse de novo a cara dela. por que não? Não será o passo mais lógico? Ao fim e ao cabo isto envolve atitudes profundamente enraizadas e nenhum de nós mudará. esqueça o que eu disse. bem.Nada disso. Era já noite escura quando ela me trouxe o bilhete.Repito. Adoro-a.Ficou chocado? Não é a primeira vez que ela me diz isso.É isso o que sinceramente pensa? ..Você está chocado. Estava a pensar se deveria discutir consigo este assunto. ela não vem aqui muito frequentemente. por vezes. Nem os distingo. É isso a que me refiro. Certamente deves recordar qual das tuas alunas é.

Quando sairmos daqui. Afirmou que não demoraria muito. Dá-me os nomes de todas as raparigas que frequentam as tuas aulas. negra. Mrs. por isso nunca lhe pedi que mo dissesse. .É o que me fano de lhe dizer.disse. . pela primeira vez. consciente.. Mrs.Está bem. entregar-te-ei essa lista. . Faseyi parou no limiar e relanceou rapidamente o olhar pela sala e depois espreitou na varanda. de que Faseyi estava ausente. . Pertencia à raça de esbeltas estátuas.És capaz de lhe dizer que eu não quero seduzi-la e mesmo que queira fazê-lo ninguém tem nada com isso? Por que não me diz ele o nome dela? . Sou capaz de reconhecer a letra dela. Devias ter-lhe perguntado o nome. talvez tenhas ainda alguns ensaios que não tenhas devolvido. . . incrédula. o negro firme conferia-lhe quase uma outra dimensão. como um puro-sangue travado em plena carga da cavalaria. ele foi tratar de um trabalho urgente no laboratório. a culpa é tua. expressando também o seu espanto por uma mentira tão . Terei de procurar no meu gabinete.Quantas são elas? . orgulhosa-mente estúpidas.Não. De qualquer modo. Sinceramente. fungava.Não sei. .Ele sabe-o? .No total? .Julguei que ele estava na varanda convosco . não sei. sim.Pensei que tu mo poderias dizer. .No segundo ano. sentindo a acusação no tom dê Bandele. fitando Bandele.Queres que ele faça isso agora? Bandele contemporizou: .Bem. Eu não conheço a rapariga. deixei-o aqui com Kola. vamos ao meu gabinete.Ah. A porta da cozinha abriu-se subitamente. defendeu-se: . Bandele respondeu: . E Kola.Foi o carro dele que eu ouvi há pouco? Monica olhou também à sua volta. arrogantes. Então. Neste momento. Kola riu. Faseyi era imponente. .É possível.

mas o tempo voou. eu.. Juro. sim. Ela atacou-o. vá para Chelsea. você desaparecera. Kola? Ansiosamente.Sim.Chega.Agora venha daí. mãe. . nunca mais voltarei a fazê-lo. Mas que tem isso a ver com o desdém pela minha comida? Kola deu por si começando a sentir-se verdadeiramente culpado de um crime odioso.. Vou tentar remediar isso hoje. Foi ao laboratório! Qual laboratório? O laboratório-sala-de-estar dos Oguazor? .Imensamente.Qual dos amigos de Ayo é você? . Acho que ele aprendeu a lição.pueril ser usada na tentativa de a iludirem. está a embaraçar o pobre homem.. . Mrs. irada: . . Garanto-lhe. .. é difícil explicar.. . é melhor tranquilizar Kola. não é verdade..Foi.. Faseyi..Por que julga você que tenciono oferecer-lhe de novo a minha comida depois da forma como a tratou da última vez? . . Faseyi. . minha senhora. este é Kola. vamos ver como vai a comida.. hum. também é mentiroso. O tempo voou! Monica tentou salvar a situação. . segundo parece. . Monica puxava-lhe por um braço. Mrs. . parecem julgar que têm a prerrogativa da falta de educação. artistas. Porém.Estou realmente arrependido. pois isto são apenas bravatas.Mãe.O tempo voou! Hein? Vocês. E espero que também esteja envergonhado. Mrs.Lamento o que sucedeu no outro dia..Lamento profundamente. quando o almoço ficou pronto.Mãe. Tive uma ideia inesperada para um trabalho em que estava empenhado.. não vá ele .. Monica falou-me sobre o seu trabalho.. . Se deseja fazer esse tipo de coisas. Bandele.Como ele bem merece. .Não admito que excentricidades interfiram com os meus cozinhados.Sim. Que foi que lhe aconteceu? . mãe. a minha intenção era apenas dar lá um salto..Com que então é você o bandido que desprezou o meu cozinhado no outro dia! E. Kola exclamou: .O meu filho disse-me que você já cá estava. Faseyi.

. Tomaste a mentira tão óbvia que até uma criança a detectaria. Sentem-se onde quiserem. . Kola balbuciou algo ininteligível. . .Vamos esperar um pouco por Ayo. .Tenho a certeza de que podias ter mentido muito melhor se quisesses. Mrs.O seu amigo disse-lhe para espe-rarmos por ele? Assustado.Vêem? Provavelmente ele está a almoçar neste momento com o professor.Ora cala-te.É melhor você comer e comer avidamente. .Kola disse que ele tinha ido ao laboratório.Os homens têm um sentido de honra muito peculiar. aquela mulher estava mesmo enfurecida. é um ritual. que protestava: . Vamos. atordoado. e Bandele pôs-lhe um copo nas mãos. .A prova do fogo. tu estavas a mentir em benefício dele. Já acabou.Bem. .fugir de novo.Por que não deixas tu aqueles dois resolverem sozinhos o seu problema? Mrs. não estavas? Ou talvez não estivesses. Acontece simplesmente que eu sou mãe dele. Saiu novamente e reapareceu com mais comida. ela já transpusera o limiar arrastada pela nora.Bebe isto e descontrai-te. vamos.Ela faz um casus belli do primeiro encontro com toda a gente.Kola deu um salto.Mas. Faseyi riu sonoramente.Estes leais amigos dele devem pensar que eu não conheço Ayo.No entanto. . Faseyi ignorou-os quando regressou com as travessas fumegantes. .Que mal fiz eu? . Especialmente com aqueles que ela pensa serem amigos de Ayo. .Que queres tu dizer com “são apenas bravatas”? . És o pai dele ou quê? .Tolice. .Que ironia! . Kola ficou imóvel. . .Escuta... seguida de Monica.Onde queres tu chegar? . Com ela. . .Vais dizer-me? . Monica disse a Kola: . Ouça! .

Você acha que eu não me preocupo o suficiente. A mãe de Ayo soltou uma ruidosa gargalhada e o seu semblante endureceu. .Ena. eu estou separada do pai de Ayo há doze anos. Sei-o por experiência própria e.É decerto uma opinião contestável.Deve gostar muito de si . .O meu filho deixa-me ficar mal .prosseguiu Mrs. Monica mostrava-se aflita. que estou eu aqui a fazer hoje? Já não suporto encontrar aqui qualquer dos amigos dele. como se soubesse o que se ia seguir. encarouo. perguntando-se até que ponto estaria ela a falar seriamente. talvez por isso. não me agradam sentimentalismos supérfluos. ena. mas isso é uma trivialidade. .Se eu não me preocupasse com ela. embora ela não seja minha filha. servia Kola e hesitou brevemente. Bandele inquiriu: . sabem? Mas eu interesso-me pela felicidade dela.” Bandele. é bastante pateta. sem pensar que eles devem comentar entre si: “Aquela é a mulher que governa a vida de Ayo. . não. Sei bem quando um casamento é apenas sustentado por mero sentimentalismo.” E é mentira. digo-lhe simplesmente: “Deixa-o e vai procurar a felicidade noutro lugar.. pleno de desafio. . por vezes. Acontece que eu gosto muito de Moni. .Que outra coisa pode ser? Meu rapaz. sabem? A causa é ele falar tanto sobre mim. vocês dirão que eu não sou a pessoa indicada para lhes dar conselhos. Porém. Quanto a gostar de mim.afirmou Bandele. não a conseguirás junto deste meu filho. gosto realmente desta rapariga pateta. Nessa altura. Ela. isso é outro problema.Será só sentimentalismo.Gostar de mim? Porquê? Seria um filho desnaturado se não sentisse alguma coisa. com deliberada malícia. Mrs. . marcando a cadência das suas palavras com movimentos da colher com que o servia. pôs mais comida no prato que tinha na mão e empurrou-o para diante de Bandele. mas não suporto um nigeriano que não goste de picante . Murmurou algo sobre a comida que guardara para Usaye e abandonou a mesa. Em vez disso. Depois. continuaria a sarar as disputas deles. Todavia.E. Egbo e sobretudo Kola fitavam-na como peixes estripados. escaldante até. Faseyi? . vejo que estão todos escandalizados.Por exemplo. há quinze. Faseyi. Não existe nada de misterioso num lar desfeito.

E sei qual vai ser a sua opinião sobre isto. Faz o que quiseres. se eu quisesse que Monica continuasse cá. . Dificilmente teria esperado aquela argumentação. . Há muitos jovens que o não sabem ou simplesmente não se importam. não é o mesmo. confuso por não sentir qualquer altivez. examinava a casa deles. Portanto. ele fá-lo-ia.Não. De início.não é assim? . . Ao escutar agora as palavras da boca dela. .Muito bem . penso que se a senhora dissesse a Ayo que ele deveria fazer tudo para salvar o seu casamento.repetiu ela.O seu amigo é casado? Eu sei que você não é. Oh. Quando Monica lhe comunicara o que a sogra aconselhara. anda. . Quem julgas tu que eu sou? A criada? Monica perguntou descontraidamente: . amarga. mas que tem isso a ver com o casamento deles? É melhor seguirem caminhos diferentes antes de terem filhos que lhes compliquem a vida.A mãe continua a armar em dura? . não.Usaye esteve aqui? . Dirigia-se a Bandele. ele me obedeceria.Não tenho. Agora. mas era uma pergunta bem intencionada. .É o mesmo.Mas provavelmente tem filhos!? . .Não. de modo que já avisei Moni para se ir preparando. senta-te aqui.É casado? . Monica regressara.Não. O que você quer dizer é que se eu lhe dissesse para não mandar embora Monica. No entanto. rapariga.Bem. . o que desejo. via-se forçado a um reajustamento do quadro. escusa de assumir esse ar virtuoso.“ Respondi-lhe a mesma coisa quando ele me escreveu dizendo que queria casar com uma rapariga branca. o que vou dizer a Ayo é o que sempre disse: “Tens que ser tu próprio a decidir. .Não. apenas vislumbrara uma mulher ressentida. . voltando-se para ele. Tu e o teu marido deixam os convidados sozinhos e contam comigo para cuidar deles. Kola não ousava erguer o olhar.concordou Bandele. Provavelmente sabia o que fazia.Anda cá. Kola perscrutou o rosto dela. Desconfiado. ela ficaria.

Porquê? Digam-me. pensou que ficara desapontada ou algo assim. Repentinamente. Moni. fitando directamente Monica.De infância? Mas em criança ele não o fazia. um pouco assustada por tudo o que via de estranho.A voz de Monica soava directamente diante dele. ansiou que o tivessem deixado seguir cegamente o seu destino.A senhora chama-lhe Moni. Não há qualquer necessidade de esfaqueá-lo dessa maneira.Bom. não existe nome mais belo de que me recorde. uma transferência do título de posse. o seu crime de mau julgamento. não. promessas e juras e quanto ao acto de amor. o melhor é tu começares a aprender a armar em dura. tranquilize-se.. Julgou que eu não gostara dela. Mas não.E de que outra pessoa poderia ser. . Na sua boca. ele chama-lhe querida. Qualquer outra pessoa pensaria ser natural que ele já a tratasse por Moni. porquê? Kola descobriu que não procurava uma justificação. Bandele contrapôs: . Não. oh. . o que desejava era uma abdicação forçada. Não. indiferente à confirmação das suspeitas que Bandele poderia conseguir: . que vira ela nele? Atendendo a que deveriam existir conversas amorosas. . Oh.O frango já está morto. E a mim mamã. Lentamente.. contra um vencido relutante. não me compreendeu. até que deu por si a desprezá-la pelo seu crime 'de acessibilidade. sabem o que fiz? Desatei a chorar. este hábito de chamar-me mamã apanhou-o em Inglaterra. arremessado contra um seu igual. porém. a autoanulação de Faseyi surgia a seus olhos menos grave. foi .Que se passa? . Kola perguntou. eu de vez em quando também sou muito pateta.. não se pode condená-lo por conservar um hábito de infância. Sabiam que esta pateta quase fugiu para Inglaterra uma semana depois de ter chegado? Fui esperá-los ao barco e vi-a agarrada ao braço de Ayo.Bem. Afinal. sentiu um travo nauseante que depressa comprometeu a imagem de Monica. de falta de discriminação.ideia sua? . Nem mesmo buscava a sua própria exoneração. do meu filho? Ele tem tanta imaginação como o pai. só uma rapariga branca poderia ser tão pateta. E o que me aborrece é que ele só me trata assim diante de outras pessoas. porque isto implicava o reconhecimento de um julgamento da culpabilidade e uma absolvição. ? .

teria concluído erradamente. Naquela tarde ele deixou a casa dos Faseyi com um sentimento de derrota e era incapaz de apontar com clareza o que exigia verdadeiramente. eu achei simplesmente que seria boa ideia visita-los no regresso do laboratório...Por favor. Era este novo sentimento que experimentava que era a traição. Faseyi alguma vez viesse a saber que expiação inconsciente ela conseguira ao desequilibrar tanto a sua escala moral. a vitalidade inesgotável?.Usaye. seria os sonhos que ela amava. teria sido simplesmente o desejo de ver a África? Quando ela o amava. Kola contemplava de novo o rosto de Monica.. acima de tudo o prestígio de uma esposa branca. “Querida. por favor. . da qual os valores de Faseyi se vingavam radicalmente. o Sol.. reduzindo tudo o que lhe dizia respeito a uma ineficácia total. . teria sido falta de educação da minha parte não aceitar. . apenas sabia que se ressentia desta contaminação de Monica. Monica sentada com a cabeça inclinada. se ele soubesse qual o seu actual estado de espírito. o riso lendário.” A inversão dos seus sentimentos aproximava-se do auge e Kola duvidava que Mrs. Faseyi falava ainda. De volta ao estúdio. está quieta. Em relação ao marido.Até que ponto se teria traído? Se Bandele estivesse a olhá-lo.Ele vai voltar mais logo e esperar que esta pobre criança o compreenda. Conquanto nem uma palavra tivesse sido trocada entre eles. Mrs. eles convidaram-me para almoçar. baixando a cabeça para esquadrinhar as borlas de seda do vestido especialmente criado para as aias de Obaluwaiye. sentia agora que havia traído Monica. Porém.. por favor.. as mãos cruzadas sobre o peito e a voz de Mrs.. Usaye naquela tarde estava irrequieta... mas porquê? Porquê? Pois se afirmavam ser Faseyi um homem bri-lhante e os seus colegas no hospital respeitavam os seus vastos conhecimentos! Então porquê. Mas se ele soubesse a verdade. Faseyi interrompendo a admiração de Kola: .. poupa-nos a acção de graças. . guarda-a para quando tu e o teu marido estiverem sozinhos.Usaye.? A sua mente recuou num salto ao início da refeição..Mas de qualquer modo ele acabou por .. Kola não se sentia misericordioso e não lhe concedia atenuantes: o prestígio de uma mulher branca. oh. empoleirou Usaye no banco e pegou nos pincéis.

Joe Golder. . movimentando-se entre os cavaletes. sucumbia de repente e começava a chorar abertamente. colando os olhinhos a todos os objectos. . . .Sim. posan-do para o seu retraio. A porta abriu-se lentamente e Joe Colder entrou. como se os inspeccionasse minuciosamente. Suponho que para ti isto soa como um belo paradoxo académico. . como se eles tivessem resolvido.Há algum problema? Não estás a prestar-me atenção. aversão por si mesmo e degradação física de Golder. Golder baixou a voz. Ainda cá estarás nessa altura? . Uma vez havia afirmado: “Devias pintar-me como um daqueles deuses índios hermafroditas. .Entra. . . Ele conhecia as diversas fases desta doença. sem constrangimento. Quando as instalações da universidade se esvaziam.” Mas Golder abanara a cabeça: “Não. há menos tentações.Quando o corpo docente e o pessoal menor também tiverem partido.Há um pouco mais de paz. . É então que vale realmente a pena viver nelas. continua.Vi o teu carro lá fora.Suponho que sim.Não tenciono sair.descobrir que sentia pouco entusiasmo e deixou-a ir-se embora. existe maior precisão nos vossos deuses. Um verdadeiro inferno! Kola estava apreensivo. . Meu Deus. desde o princípio. A jovem não abandonou imediatamente o atelier.Não achas as instalações quase saudáveis? Os estudantes partiram todos. Numa área são masculinos. . aquilo que eram. . a cura será total. Não se sentia com disposição para enfrentar mais um dos acessos periódicos de depressão. Os edifícios estão deliciosamente vazios.Penso que as universidades residenciais como esta somente são inte-ressantes nos poucos meses do ano em que estão completamente vazias.Estou sim. os períodos de aulas são um inferno para mim.Para mim é óptimo. noutra femininos.” Kola rira e replicara: “Talvez te surpreenda saber que nós também temos alguns deuses assim.Não estás a trabalhar? Estou estafado com todos estes ensaios para o Concerto de Férias. .

De qualquer modo.Gostas daquele tipo de beleza? . os deuses índios são hermafroditas. costumava mostrá-lo e observar as suas faces. discutindo casualmente o relatório Wolfenden e perscrutando.Mas tu não te importarias de ser assim? . oferecia-se para levar os alunos ao cinema.Que raio de lunáticos são esses? Constantemente mortificado . quando. . Até as das divindades femininas.Claro. quase mulheres? . são demasiado formosos. E as vossas esculturas deles são robustas. Joe conhecia o tormento das conversas tendenciosas nas aulas que encami-nhava para o seu objectivo.comentavam sempre alguns estudantes.Achas que sim? .” Curvado sobre um banco como uma alma deformada. poderias ser assaltado por homens.Oh. a reacção do interlocutor.Sim e não. com uma angústia que Kola ingenuamente tentava em vão transpor para uma tela. Joe Golder brandara subitamente: “Meu Deus! Eles enojam-me. dava tudo para ser tão belo como eles. Joe Colder pranteava a sua vida.a confusão existente encontra-se apenas na mente dos cronistas. como um falcão. . masculinas. nos deuses aquela beleza até fica bem. . Havia uma torrente de filmes de índios em todos os cinemas e Joe Colder. .Qual é o mal de se ser belo? . perguntavam: “Isto é um homem ou uma mulher?” Emprestava-lhes a sua Vida de Nijinsky. E possuía um livro de pinturas índias. Organicamente. Nem uma coisa nem outra. . pergunto a mim mesmo se aqueles homens serão o modelo dos deuses ou os deuses o modelo dos homens. com profundo desprezo por si próprio. colérico. Para algumas pessoas isso é indiferente.” E com o rosto impetuosamente distorcido.Quer dizer que me tomariam por uma mulher? . mas tu.perguntava Joe Colder. se tivesses aquele aspecto. sim.Às vezes .Mas não achas que são demasiado efeminados.prosseguia Joe -. perplexos.Eles têm heróis tão formosos . . . que detestava as espalhafatosas e ridículas imitações das banalidades de Hollywood. Quando convidava alunos para o chá. tentando descobrir membros do culto.

babando-se por aquela negrura até se sentir enjoado e com vertigens. aproveitando para roçar acidentalmente o seu joelho. Joe Colder convidava estudantes para beberem xerez e escutarem recitais. Joe Colder. E uma vez o criado fizera chantagem com ele. contemplava-os e desprezava-os. deixando-a subjugá-lo. Enchem as cabeças de sabedoria. Em cima do banco. vagueava pelos clubes nocturnos onde era induzido em erro pelo menear das ancas de um rufia de calças muito justas. Daquele soalho subiam até ele a sensualidade e o escárnio dos outros. meros vermes. à noite. misturando saber com saliva e cuspindo-o de novo para o examinador. espreitando pernas em calções. Joe Colder corria a sala de leitura da biblioteca sempre que o desejo o dominava e receava as consequências das sondagens mal sucedidas. e maravilhava-se com a beleza deles.. nu. o seu destino.. eficientemente. Animais. no sofá. com uma escassa toalha . e acabou selvaticamente espancado no seu apartamento pelo incrédulo rufia. e nem se atreveu a chamar a polícia. Joe Colder permanecia na biblioteca olhando enormes tomos de enciclopédias. Joe Colder vagueava pela universidade. Desprezava-os. mas permanecem imutáveis em todo o processo. pela cultivada indolência das suas pálpebras. não sabia para onde se voltar e o desejo morria. afirmara uma vez. e recompondo-se gradualmente. mas não aos seus corpos. quando te convidei para beberes um copo comigo? Aquela tarde. fizera o chantagista fugir para a segurança da sua cidade natal. pleno de desespero. confessava: . pela pomada dos seus cabelos. pelo que continuava na sala de leitura. quando. pedindo reciprocidade. Como poderia ele esquecer? Ao entrar no apartamento ficara admirado por ver Joe deitado. a ponto de. nele se reflectiam as suas fantasias íntimas e. como numa bola de cristal. E só na saciedade Joe encontrava segurança. são como o intestino único e recto da barata. vomitam-na laboriosamente. via-os entrar. via os seus reflexos no soalho lustroso. ter procurado um advogado que o aconselhou a ignorar as ameaças e que. Aí. um homem feio. Entre grande número de jovens sentia-se a salvo. sumamente insultado. os seus sentidos confundiam-se. pensava.Lembras-te daquela primeira vez.por desco-brir que o desejo de beleza ou “formosura” era unicamente mais uma defor-mação estética estudantil.

.Está um calor terrível. Háde vir alguém de Lagos ajudar-me a avaliá-los.De acordo.Ele era casado? . Bandele ergueu o livro que . não está? Que horas são? Ia agora tomar banho. mas só será teu depois da exposição. . apenas ele aceitava posar totalmente despido. Kola avistara Joe quando virara em direcção ao prédio e Joe estava então completamente vestido. realmente belo. . . . E de todos os seus modelos.. o meu corpo é o de um negro. ergueu-se. E a tua ideia de usar a sala do concerto é excelente.dizia -.Se for possível. e puderam então tornar-se amigos. pinta-me mais escuro. simplesmente excelente.Compreendes .O que eu vim realmente perguntar-te .Por amor de Deus. Porém.Vou realizar brevemente uma exposição dos trabalhos dele.Vou colocar uma etiqueta de “vendido” no Lutador. . na varanda.Seguidamente.Um. Joe Colder tentou mais algumas experiências. com efeito. Possuía um corpo torneado.Se vieste cá para recomeçares. de pé. Haja muito tempo. . fingindo Giovanni's Room. deixando que a toalha tombasse no chão e ficou de pé na sua nudez incircuncidada.Não sabia que estes apartamentos tinham lareira. . . Obrigado. Kola dirigiu-se à lareira e disse: .sobre a cintura.Filhos? . A porta voltou a abrir-se e Bandele entrou.. pondo imediatamente Kola de sobreaviso.dizia neste momento Joe Colder -. Poderíamos até realizá-la no foyer da sala do concerto. tentarei fazer coincidir a exposição com o teu concerto. Sabes que eu quero O Lutador. é simplesmente um acto de perversidade que eu tenha saído quase branco. Kola. acabando por desistir. vindo ver o resultado das primeiras pinceladas. Joe Colder ficou exultante com a ideia.Sim. . . diz respeito ao trabalho de Sekoni. saltava de repente. Toma-me a mais negra negrura do teu Panteão. quase beligerante: . A totalidade do dinheiro irá para a mulher dele.Nunca o suspeitara. Logo que Kola entrou. .

realizar-se. manifestando as suas ideias com inesperada violência. na tela ou na matéria humana. inevitavelmente. o conhecimento do poder dentro das suas mãos. tardiamente. sabendo que a sua identi-dade física provinha de uma luta há muito esquecida no clube Mayomi. Um criado contribuiu com uma desculpa para tal. E compreendia então que o meio era de somenos importância. mas Kola. nunca procurava definir o que dizia nas suas frequentes e fúteis discussões.Ela sabe da outra rapariga? .tinha na mão. pois Egbo. recuando mental-mente a tempos longínquos. Não? Bem. expressando comentários francos por as cadeiras estarem empilhadas sobre as mesas e os outros clientes já terem saído. fazia-o soar quase como uma experiência e Kola sentira frequentemente que. Egbo mostrara-se verdadeira-mente irritável nessa noite. da vontade de transformar. demasiado caprichosamente para plena compreensão do seu significado. Efectivamente.” Todos os pretextos lhe serviam. Kola soltou um longo e agudo assobio. em Egbo. a esse respeito pelo menos. o seu papel e o de Egbo deveriam inverter-se. Simi descobríu que Egbo está cá. que o acto. que tivera o seu início. Estava à minha espera no meu apartamento quando lá cheguei.. compreendia que isso não fora tão súbito. pois Egbo não hesitava em perseguir o ilusório. e isso trazia-lhe o medo intenso de se realizar. . que explodira subitamente com este feito de poder. Alguns pensamentos despeitavam as passagens mais sombrias da sua mente e. Junto da sua mão achava-se o travão invisível que o impedia de concretizar o impulso final no acto.. . havia também Sekoni. Kola deu por si meditando no que Egbo havia dito.Apenas venho procurar um pouco de paz. Caprichosamente. ele havia sentido esta sensação de poder. Pois como podia o artefacto ser mais importante que a revelação no poder vital do homem? O Lutador. ao dizê-lo. seguidamente tomava-se a raposa da fábula: Tu sujaste a minha água. é claro. Poder. E Sekoni. Só a mesa deles .Não fiquei lá para o descobrir. era peculiar do combate de Egbo com o mundo que a experiência o levasse às suas admissões e que ele nada formulasse antes. reconhecia agora. ele não ousava. verdadeiramente. era o processo vital. E este era outro paradoxo. Era característico que Egbo se oferecesse para regressar com ele para ir buscar Noé. se não foste tu foi o teu pai.

deslizando sobre as nádegas em direcção à pilha de cadeiras. num trabalho aparentemente discordante. imergiu num estado de tranquila mudez. Era grotesco. imóveis. um pesado bota-fora de calças justas de ganga. Rapidamente.. provo-cante. de . espalhando-se pelo mundo ocidental. em tomo da garganta. trabalhando velozmente. e Sekoni deu uma volta ao cativo.. Okonje caiu.. e desceu pelas costas. indiferente. Mas Sekoni conservara este conhecimento dentro de si até o seu poder irromper. enquanto Kola o conservava à distância com uma garrafa. forçando a coxa a apro-ximar-se do peito. ao que parecia. Gradualmente.. A outra envolveu-lhe o joelho e a virilha. De um momento para o outro. Ninguém sabia como aquilo principiara. O rufia . enleado em incredulidade. até o porteiro.chamava-se Okonje . aliviada de tensão.rondava-os. chocar com ele como que por acidente e Bandele ser catapultado para trás. Os seus olhos percorreram os braços observando o traçado de fios e músculos reteses enquanto Kola e Egbo desempilharam cautelosamente o inexpugnável catafalco. Todavia. Sem que nada o fizesse prever. que deslizara silenciosamente através da confusão de pernas das cadeiras e puxava Okonje pelos pés. em ambas as extremidades. Á luta ocorrera vários anos antes da feitura do Lutador. E então viram um objecto duplo. Até Egbo interrompeu o seu próximo salto ao ver a cena. e Kola recordava agora como a tensão que emanava da escultura lhe fora de imediato familiar e alheia. Não se viam sinais de Bandele. Okonje foi arrastado. subita-mente. soltando guinchos qual porco amarrado pelas patas a caminho do matadouro. e nem sequer conversavam. assombrado com o resultado. o caos encheu a noite. esperando que a polícia chegasse e os substituísse na tarefa de se protegerem. comoção. todos eles começaram a atá-lo. um par de laços de cânhamo esfiado. mergulhando numa pilha de cadeiras. mas o que fora insolente passou perto de Egbo e este passou-lhe uma rasteira. sem beberem. os tendões desapareceram dando lugar a uma pele complacente. Okonje caiu. admiração e expectativa crescentes.permanecia ocupada e silenciosa e os criados estavam ansiosos por chegar a casa e deitarem-se. eles continuavam sentados. pelo que o homem parecia ter-se atado sozinho. Com a mesma eficiência. Uma extre-midade passou por baixo do braço do finório. sem causa imediata. Porém. antes de todos terem abandonado o país. Sekoni. como um cadáver dobrado e seco dos Maori. sob as quais ficou completamente enterrado. Bandele permanecera sentado.

. .. Uma pesada enfiada de objectos submersos e pés de cereais arrastavam-se no regaço cuprino das cheias. cobrindo a vegetação e tomando imunda a água limpa armazenada até nas prateleiras mais altas. obscurecendo a sua própria identidade. Cacos flutuantes. Kola. imensamente disten-dido.. Porque eles estavam perdidos. talvez se esta intuição final não o traísse e a tela estivesse pronta. . regressa aqui e espera pelo outro. Abandonaram o carro numa ponte de pranchas tangentes .Enquanto espera pode ir gritando. com tédio crescente..intensa dor e piedade. Kola a exibisse na exposição de Sekoni. Um bode morto. . brilhando entre fuligem e massas solidificadas de óleo. vamos procurar durante trinta minutos. Levaram ambos as mãos ao nariz devido ao fedor e passaram adiante. Se um de nós descobrir o caminho. . Assim.Qual inicialmente! Ao fim de trinta minutos regressamos a casa. moedas e aves domésticas sacrificadas.Não. . estamos no caminho certo.. devastando as oferendas a deuses menores.Não atravessámos tanta água como isso. Era como se o mar ciumento tivesse irrompido dos intestinos da terra. quatro tábuas estendidas através dos inertes semicanais de detritos da lagoa.Voltemos para trás. cada pé da . provisória e insegura. Tu vais por ali e eu vou por aqui. . O solo por baixo deles era traiçoeiro e Egbo pegou numa estaca e começou a sondar a água à medida que avançava.todas as pontes se assemelhavam -. Não devemos estar perto do local. Nos estabelecimentos à beira da lagoa a água subira rapidamente.pronunciara em voz alta o mesmo pensamento que martelava no cérebro de Egbo. A chuva começara a cair ao princípio da tarde. .Está bem. o que temos a fazer é separarmo-nos. varrendo tudo à superfície da terra e submergindo as cabanas e as tendas mais pequenas do mercado.Assim termina o reinado de Noé como santo solar resmungou Kola. Não fui feito para esta caça aquática ao tesouro. Inicialmente.Não. Se acaso regressarmos vivos . reti-rando. O som propagar-se-á muito bem sobre a água. estava entalado num dos extremos das tábuas e dois cães tentavam puxá-lo para fora sem molharem os focinhos.

que o punha maluco. Egbo perguntava a si mesmo a que altura teria subido a água na igreja de Lázaro. fizesse parte do oceano matinal de seixos castanhos volteando placidamente na praia. Egbo-o-o-o-o-o-o Egbo-o-o-o-o-o-o-o. com a base cravada na lama.. Parecia-lhe agora bem possível errar um passo. Sagoe. sobre a superfície da água imobili-zada. sabia que ela devia estar perto e. pensou Egbo. chamando-o do outro extremo da praia. e agora duvidada de tudo o que sabia. era a primeira recordação da sua infância. mas então. Era impossível tornear todas as poças e até a terra descoberta lhe embaraçava os movimentos. A voz parecia muito distante. refluindo.. mas julgara discernir os contornos da igreja contra o fundo liso e cinzento. pondo-se em bicos de pés. para lá do mar de ondas fluindo. cinzento. buscando um enxota-moscas que afastasse os pensamentos enterrados em cada ferrão. porém. apontando para Egbo. Sagoe. pois compreendia que a humanidade brotava da garganta dela como a água suja numa negra canoa em decomposição. ensurdecendo-o. Prosseguiu naquele sentido... cheias de moscas.. “Custa a crer que os nossos carros tenham vindo por aqui”. Recordava agora que fora construída numa ligeira elevação do solo. ressaltando. Como se tivesse um ramo enganchado no sovaco. pela companhia de alienados com quem pudesse expelir e inalar emoções como um estranho. Egbo não viu sinais da igreja. não tinham sido todos eles capturados numa centrifugadora vulgar através da mágoa de douradas abstracções. e de tudo o que vira. vários degraus acima do chão da nave. a cruz. A metade apodrecida de uma canoa rompendo as águas lodosas lembrou-lhe a voz da telefonista no escritório de Sagoe.... Contemplando aquela cinzenta desolação... num timbre agudo. sendo totalmente engolido pela escuridão. chocando com os seus ouvidos.. Não tinha a certeza. Era impossível que este silêncio frouxo. nostálgico. avaliar mal o terreno e desaparecer para sempre nalgum atoleiro oculto. porque Egbo avistava agora a cruz. via a excitada corrida que fizera para banhar os pés no .. Soava tão distante e remota como a de sua tia. Frequentemente vira Sagoe suspirar. Olhando à sua volta. erguia uma curta parte da ponta superior acima das águas. mas a cheia parecia-lhe suficien-temente grande para alcançar a igreja e até o altar. Era já noite. olhou para longe.aspiração do solo sob a perigosa toalha líquida. Egbo-o-o-o-o-o Egbõ-o-o-o-o-o Egbo-o-o-o-o-o.

No momento em que a água recuava. Iluminadas pelo fulgor. mas à superfície apenas uma suave pulsação o denunciava.Todavia. cansada.. enquanto regressavam ao local onde estava estendida a capa dela: .e abalado com aquele mistério. Por dentro desta profunda enseada. volta para aqui! Egbo-o-o-o-o.. Ele.Socorro! Socorro! Egbo. vivesse com tal terror do oceano. erguiam-se as chamas.É agora que a mamã-água vai aparecer? . ele escapara-se para longe. Egbo visualizava agora claramente as estacas dos pescadores penetrando no leito da lagoa. Não se via qualquer outro ser humano ali perto e distinguia agora as duas figuras que aguardavam do outro lado daquela armadilha: Lázaro e Noé. Uma mudança do vento trouxe-lhe o odor acre da gasolina e. muito longe. . . um súbito clarão de chamas reflectia-se. sob o luar. De qualquer modo.. . da forma adormecida. estava farto daquela busca inútil. Kola! Há muito expirara a meia hora estabelecida e Kola devia estar preocupado com ele. nas paredes do moinho-igreja. As chamas . que se elevava nos ares tão à vontade. E achara estranho que ela. desejara receber duas grandes pulsações daquele mar e queria sentir a água pelos joelhos e não apenas nos dedos dos pés. Perguntara.mar.Fecha-me essa boca e vamos embora. pois não havia dúvida. viu as chamas. Espera aqui mesmo e a água virá ter contigo. porém. Parou. a água dançava violentamente incendiada por dentro. Ressaltando na superfície envidraçada da água à sua volta.. demasiado longo. e cerrara os olhos por um breve momento. bruxuleante. Num arco.. Egbo procurava explicações não eram mais altas do que o seu peito e esten-diam-se por quase cem metros ao longo da margem. Onde até momentos antes fora total escuridão. num esguio curso de água. elas brotavam da superfície líquida. uma estreita rede de pesca separada das águas por um banco de aluviões. vencendo as furiosas advertências da tia que jazia. compreendeu o que sucedera.. . vendo um barril deitado de lado.Fica aqui ao pé de mim e deixa a orla branca vir lamber-te os pés. a tia alcançara-o e a palmada dela catapultara-o em direcção ao perigo real de que tentava protegê-lo. e quadrava-se uma canoa entre duas alas de chamas. Nesse momento. Egbo-o-o-o-o-o Egbo-o-oo-o.

Noé não olhava Lázaro e era evidente que este aguardava o momento em que o rapaz o fizesse. ou a pálida figura. insuportavelmente imóvel. com golpes expeditos.As chamas mal se haviam ateado quando a canoa avançou. A fila de espectadores precipitou-se para a margem e. os remadores chegaram ao local onde Lázaro e Noé esperavam. emaranhando-se em redes ocultas. ceder e viajar sozinha através do túnel de fogo. e a canoa. e os apóstolos observavam a figura de Noé que. tropeçara na espessa lama. o apóstata. incapaz de afastar os olhos do fogo. permaneceria a canoa ali. Noé prosseguia cegamente a sua corrida. em busca de pormenores. erecta na canoa enquadrada pelas chamas. naquela espera claramente alargada. Deu meia volta e desatou a correr. qual oferenda a um deus que o fogo consumiria à meia-noite? Todavia. mesmo à medida que as chamas iam morrendo. esperando que Lázaro agisse. mas olharam para Lázaro como se dissessem que agora decerto não deviam esperar mais tempo. com uma vara. Lázaro estendera a mão e retirara-a imediatamente quando as chamas lhe lamberam a manga vorazmente. não implorativamente. Noé continuava a fixar as chamas. indiferente ao facto de o barco estar já atracado. com os flancos totalmente queimados. perigoso. O suor corria livremente nas suas faces e mantinham-se. limitaram-se a esperar até Noé. nos lados da canoa. Corria na direcção de Egbo. no centro das duas muralhas de fogo. A madeira da canoa deu um estalo e os remadores olharam. Egbo forçou a vista. Não pronunciaram uma só palavra. Lázaro esperava e os dois remadores não se atreviam a olhar. Parecia que as mangas brancas dos remadores haviam sido chamuscadas de negro na viagem de ida. depois estendeu a mão a Noé. entrando na única passagem. Noé continuava petrificado. recuperou o equilíbrio. Egbo escutou o repulsivo . Porém. Lázaro saltou para a canoa. vastos lagos de escuridão. A espera já fora demasiado longa e o alcatrão começara a reluzir com um brilho viscoso. na sua fuga. encontrar coragem. Ouviu-se outro estalo e algo quebrou dentro de Noé. E o seu desconforto sob o calor aumentava. oihos-antenas de Olokun. puxaram Lázaro para terra. enquanto Lázaro permanecia de pé. porque Noé não se mexia. as águas dissolviam-se na negrura da noite. Por trás de Lázaro. Num instante. soltava estalidos cada vez mais fracos.

receando ser perseguido. o irrepreensível cuja imensa compaixão abraçava os estropiados e os mudos. Até que. que espreitava constantemente por sobre o ombro. e do falo sem origem apontado para um buraco do céu não divino! O que é feito do amante da pureza. caminhando na direcção que Noé tomara. uma ave doméstica e uma espiga de cereal. dos febris nevoeiros do princípio. por fim. longos braços da funda divina brincando ao jogo fortuito das crianças. que ascendeu no lhama às abóbadas celestes e domou o relâmpago de língua bífida e a pedra de incandescência. insaciável no amor e na carnificina.esmagamento de caranguejos nocturnos. árvores e crianças como a manga ainda verde? O que é feito do ser bissexuado que se fendeu no rio? E o rompimento do nevoeiro e o recuo do princípio. espremidos sob os pés nus de Noé. os epilépticos e. procurando o local onde um arranhão se tornaria uma ilha povoada? O que é feito do primeiro apóstata rolando o penedo ao longo do dorso da divindade confiante porque elas devem receber a primeira facada nas costas e fazer que os inferiores se conservem inofensivos. que eram recolhidos e colados com devoção? O que é feito da concha da tartaruga em tomo da divina ? E da interminável cadeia às ordens do deus. sustentando o seu braço e fazendo-o pendurar a espada. mas alegrava-se por o albino ignorar a sua presença ali. com os apóstolos atrás de si. E. companheiro da cabaça cuja visão carmínea de devassidão o levou a atacar os seus e a chaciná-los até o grito penetrante cortar aquele nevoeiro vínico. Conservou-se imóvel por muito tempo. e a divindade a despedaçá-lo em mil pedaços. debaixo de olho-. As chamas abateram-se lentamente. a guerra eterna dos olhos perscrutadores. sozinho.Eles eram criação da sua mão ébria e qual a utilidade da eterna penitência de favoritismo e abstinência? Que é feito do amante de sangue. protector da forja e das mãos criadoras. realmente. se afastou da margem e foi engolido pela igreja. lançando a longa sombra de Lázaro sobre a igreja. do primeiro arauto. invencível em combate. o explorador. com o peso enorme da sua derrota. . arrancando casas. tão absurda como a sua boca entreaberta? O que é feito daquele que estava suspenso. imóvel. o dedal da terra. por que não? . Egbo perguntava a si mesmo por que não sentira pena de Lázaro. o descobridor. os anões. sentia intimamente que devia guardar o segredo da derrota daquele homem. dos cento e um olhos de erudição. E o que é feito destes dilúvios do princípio de tudo.

ou a escadaria entre o céu e a terra. . Quinze meses depois.Apenas é necessária a ponte .Quem é Joe Colder? ... .Um carneiro branco. imobilizando-se ao ver Simi. tu não assististe ao concerto dele naquele dia. .A culpa foi tua. O elo. .A questão não é essa.Não. ou estarei enganado? . imagina! . eis o que eu lhe chamaria.Sabes o que ela comprou primeiro? .Não: que devias ir ter comigo a casa de Bandele. . .No momento em que disseres de acordo. . . Monica entrou.Joe Colder ter-te-ia feito uma prelecção se o carneiro fosse branco. Uma corda ou uma corrente. . De acordo e um jorro de sangue chegará ao tecto deste estúdio. Simi. a minha faca penetrará no pescoço deste carneiro.disse Simi. . apenas falta o elo. ...disse Kola .Vão recomeçar outra vez? E eu ainda não tive oportunidade de te agradecer o carneiro.Bem. .Já te expliquei que o rapaz me disse.Mais uma razão para tu comprares um carneiro negro. ridicularizando linhas de ordem no anel do caos? O que é feito do repulsivo flagelo purulento açoitando merídinas marés de silenciosas selecções de vítimas? O que é feito daquele que ficou a vigiar os primeiros frutos de gengibre terrestre com o vento soprando à sua volta e o calor. tu disseste um carneiro sem mancha.perguntou Egbo. é. . é impossível não ter uma mancha. Foi naquele dia em que esta desnaturada não apareceu. Fui eu que lhe disse para o comprar.E quem o pagou? .Espero que ele te agrade . simplesmente. Egbo interrompeu-o: .Não o conheces? Agora me lembro. ridicularizando eternamente as pretensões da taça dos desígnios.Devias agradecer-me era a mim. Mandaste-me recado dizendo que irias buscarme a minha casa. não assisti. Um carneiro branco não pode ser sem mancha. Complexo de inferioridade de cor. Um carneiro branco. a chuva e os sinais de mudança das estações.. Egbo fez as . a eterna guerra do primeiro processo com a longa foice do acaso..ante e após-visão. .No que me diz respeito. não a ela.

já sabemos que não somos precisos aqui. agora que a vi. Quer dizer. Sinceramente. mas é realmente muito formosa. .. o caso pouco importa. Não me parece que a sua deusa pudesse ser mais bela na vida real.Ela estava convencida de que eu tinha idealizado Simi na pintura...Bom. . pois.Já acabei com Noé. .Vamos embora. Kola..Foi uma casualidade.. . por favor. isso não tem importância porque ela não posou para mim. Kola acenou as mãos.Amarrem o carneiro lá fora quando saírem. é Noé. enquanto Simi sorria dentro da plácida armação do seu enigma. pensei que ele. A mão de Monica voou em direcção à boca e deu um pequeno grito. . .Pois. só que. é incrível! Kola explicou: .Estou à espera de Lázaro. . a verdade é que vocês estão a substituir. Você é aquela jovem bela.. Este ser sem rosto. como se eu tivesse pedido a Simi que viesse aqui posar para mim.. ..Egbo. repare. . . apelando à calma. em relação a ela.apresentações e Monica estava cheia de admiração.Você não está a trabalhar . . corando violentamente. mas. . não é. Havia já algum tempo que estavam sós.. .Eu julgava que nenhum de nós podia ver essa coisa antes de a teres terminado. aqui. outros conseguem-no numa semana.E verdade. . digo-lhe que a sua pintura não lhe faz justiça... é o servo traiçoeiro fazendo rolar a pedra que esmagaria o seu patrão.. .. Suponhamos que todos vocês se começavam a queixar porque eu vos deturpara no meu trabalho. . .declarou Monica. Nós compreendemos. oh. bem.Mas você disse..Claro. que falta de educação a minha em estar a olhá-la assim. ouviste o género de coisas que ela tem estado a exclamar desde que entrou. .. Eu não poderia aceitar que vocês.Oh. .Esperem aí.Egbo esquivou-se rapidamente a um tubo de tinta.. claro. escusas de explicar. alguns esperam quinze meses para ver uma obra-prima. continua. nós compreendemos. Simi. Simi? .Sim.. foi uma casualidade como já te disse...Bem..Lázaro? Pensava que ele se chamava Noé.Claro que foi uma casualidade. .levantou-se.

- Foi um erro de avaliação. Noé como elo? Devia ter-me afogado
antes de dizer tamanha estupidez. Tive-o aqui, sentado, enquanto
tentava formular Esumare em torno da neutralidade dele. Enganavame redondamente, estupida-mente. Depois de lutar com ele quatro
horas sem sinal de um princípio, de um começo, tive de parar e, pela
primeira vez, olhei realmente para Noé. Se não tivesse sido vítima de
uma dose excessiva de cinismo, tê-lo-ia visto logo da primeira vez.
Noé era meramente negativo. A inocência do seu rosto era vacuidade
não aliviada. Ele não tinha nada, absolutamente nada. Desgostou-me
a minha falta de percepção.
- Então quem é Lázaro?
- O mestre de Noé. Um albino traficante de religião que Sagoe
conheceu. Ele vai trazê-lo cá esta tarde; é ele que eu espero.
- E depois?
- Depois, estará finalmente terminado. Trabalharei toda a noite se
necessário for. Sabe, Monica, tenho andado tão desesperadamente
ansioso por acabar com isto... Se amanhã não fosse a exposição...
Estou farto, farto e enjoado de ver este quadro. E... ora, isso pouco
importa.
- Porquê? Conte-me lá.
- Não, não tem importância, acredite. Agora já deve saber que
não sou verdadeiramente um artista. Nunca me decidi a sê-lo. Porém,
compreendo a natureza da arte e, por isso, sou um excelente
professor de arte. É tudo. Este quadro, por exemplo. Egbo obrigou-me
a começá-lo, sem o saber, é claro, e, com efeito, deveria ser ele a
pintá-lo, não eu, porque está mais ligado ao tema dele, bem
intimamente, e porque é suficientemente impiedoso. Mas, ao menos,
sou capaz de recordar, as minhas reminiscências de todas estas
presenças foram demasiado momentâneas e elas surgem em
fragmentos desarticulados, eis a razão porque levei tanto tempo...
- Quinze meses não é muito tempo e você fez outras coisas
entretanto.
- Nada de que me orgulhe particularmente. Nada que pusesse ao
lado dos trabalhos de Sekoni, mesmo sem falar no Lutador.
- E o Panteão?
- O Panteão é pesado. Confunde os sentidos, envergonha as
respostas objectivas. Mas refiro-me a mim próprio e ao processo vital.
Até Sagoe tem uma espécie de sétimo sentido, algo como uma
antena criadora com a qual desem-penha a sua vocação. Eu, porém...

Diga-me, acha que Egbo alguma vez tomaria Noé pelo Esumare? São
acidentes como esse que destroem a espontaneidade e fazem de um
artista um pinta-monos. E eu enganei-me quanto à natureza da sua
apostasia...
Monica estava de pé diante dele e indecisa, dando finalmente o
primeiro passo que iria comprometer ambos, ao acariciar o pescoço
dele com a sua longa cabeleira.
- Não será simplesmente porque o trabalho está quase terminado
e você está cheio de dúvidas? Kola, isso é normal, o desejo de não
crermos em nós próprios porque receamos que os outros não o
façam.
- Não, não é isso...
- E tem tanto medo da compaixão, da ternura até, como se isso o
pudesse enfraquecer. Mas a sua natureza é tema, por isso, porque
olha especialmente para Egbo quando afinal não o compreende?
- Não o compreendo?
- Não é o único. Bandele também é de opinião de que todos
vocês levam uma vida insensível, indiferente.
Ouviu-se um carro aproximar-se e Monica afastou-se dele.
- Espero que seja Sagoe - disse Kola.
- Sou eu - anunciou a voz no outro lado da porta. Lázaro está lá
fora. Posso trazê-lo aqui?
- Claro.
- Chegou a sua última figura, não o incomodarei mais.
- E Monica dirigiú-se para a porta. - Que nome lhe pôs?
- Esumare. O rasto de vómito da serpente celestial. Kola
começou a trabalhar como um louco enquanto Lázaro se sentava com
monumental tranqui-lidade; era, sem dúvida, o modelo mais sereno
que ele jamais tivera. Que algo o preocupava, era óbvio. Os seus
olhos interrogativos vasculhavam o estúdio, todavia. Kola preferiu
adiar a resposta àquela pergunta evidente, até ter o albino
aprisionado no ente que havia formulado e diariamente remode-lado.
Lázaro conservava-se obedientemente imóvel e Kola trabalhava com
frenesim, como se o mundo não lhe concedesse mais tempo.
Duas horas se escoaram antes' que ele começasse a afrouxar, e
Lázaro começou a agitar-se no banco.
- Onde está Noé?
- A passear pela universidade, suponho. Vem aqui comer quando
tem fome. Ò meu criado trata dele.

O outro parecia reordenar novamente as suas ideias.
- No mínimo, pensei ver nele um sucessor. Precisava de arranjar
um, fora da igreja. Os apóstolos, como humanos que são, invejam-se
entre si. Eu procu-rava um jovem com audácia, um jovem com um
fogo íntimo.
- Como os outros apóstolos?
- Sim - concordou. - Como os outros. Tem de haver algo a
converter. Um homem pacífico pode ser um bom praticante da
religião, mas não é um cristão seguro, cheio de fogo e dedicação. De
facto, quanto mais um homem conheceu o mal, mais força e poder
consegue tirar dele. Sei o que digo. Estas coisas ensinei-as a mim
próprio por tentativas. A igreja é a minha dedicação e tudo o que sei
aprendi-o sozinho. Sou capaz de ler a Bíblia em grego, sabia? Em
grego. Encontrei um dia uma velha Bíblia em grego e fui assaltado por
um desejo de aprender a língua dos Gregos, julgando que era a
mesma dos Hebreus. Não era. Porém, fiquei a saber a grega.
- Poucas pessoas se podem gabar disso.
- Para mim, o que é realmente importante é eu saber a
aritmética da religião. O assassino é o nosso futuro mártir, é o que se
inclina mais a ser o nosso mártir. Poucas pessoas se apercebem disso.
- Diga-me, como converteu Noé? - Kola estava apenas
semiatento e a reacção do albino quebrou a sua concentração.
Estava quase a gritar:
- Converti!? Eu não converti nada. Aquilo com que temos de
lutar, aquilo que combatemos e derrotamos, isso é que é uma
conversão. Transformar a natureza de um verdadeiro ladrão numa
semana, já alguma vez ouviu uma coisa dessas? Eu apenas persisti
porque era a época das cheias e essa é a altura dos nosso ritos
evangelizadores. Precisávamos de Noé. Os meus verdadeiros
discípulos são os ladrões, os rejeitados pela sociedade. Um dos
apóstolos é um falsário que passou cinco anos na prisão. Outro foi o
único membro que escapou à captura quando a quadrilha dele foi
presa após o assalto a um banco. Por muito urgente que fosse a
minha necessidade, não podia quebrar esta regra. Tinha de encontrar
um pecador.
- E assassinos? - inquiriu Kola.
- Um. Esfaqueou a mulher numa aldeia perto de Ughelli. Alguns
minutos depois, tendo recuperado a calma, afirmou:
- Tenho de tentar fazer com que Noé não regresse à sargeta.

- Tem planos?
- Não. Ele é livre de ir para onde quiser, à excepção de Lagos. - E
a sua veemência renasceu: - Não o quero em Lagos. Não está certo
que qualquer um daqueles que vai à minha igreja o possa encontrar a
surripiar ou a pilhar os mercados.
Aquela ideia parecia obcecá-lo. Lázaro ergue-se repentinamente.
- Você diz que não sabe onde ele está? Deixou-o ir para onde ele
quisesse?
- Não deve estar longe. Por favor, sente-se.
- Vamos procurá-lo.
- Só mais alguns minutos.
- Voltaremos depois, sr. Kola, não deve impacientar-se tanto; ao
fim e ao cabo, submeti-me à sua lei da imobilidade desde que
cheguei.
- Noé está bem, certamente. Deve andar pelos arredores.
- Você devia ter mais paciência. Mesmo o homem que possui o
dom da criação é cheio de paciência.
- Ah, sim? Se estamos a pensar na mesma pessoa, ele não criou
o mundo em apenas seis dias?
- Por favor, vamos procurá-lo imediatamente. Sinto em mim uma
impressão de perigo sempre que penso no caminho que ele tem à sua
frente a partir de agora.
- Está bem, se acha que precisa de uma pausa...
- Não, sr. Kola, não é uma questão de cansaço. Se neste
momento um homem qualquer encontar Noé e lhe disser: “Vem,
vamos roubar uma galinha”, ele segui-lo-á.
- E porque é que isso o preocupa tanto? Se ele for parar à cadeia,
você poderá dormir muito mais descansado.
Quando levava Simi no seu carro, de volta a casa de Bandele,
Egbo avistou Noé sob uma mangueira e parou a viatura. Estava de
pé, no meio de outros pilhantes de fruta, arremessando paus à
solitária manga madura num ramo de cachos verdes, duros. Chamouo, mas como Noé não deu sinal de ter ouvido, Egbo perguntou a si
próprio se seria de facto ele. Da sua experiência, dias atrás, não
restavam vestígios; algo ele não sabia bem o quê - deveria haver nele
que lhe recordasse a cena do fogo, mas Egbo nada descobriu que
sugerisse, que testemunhasse o terror e a fuga. Nada restava da
arrebatada gratidão com que havia aceitado a oferta de uma boleia,
da sua patética avidez quando Kola lhe perguntara: “Gostavas de vir

comigo para Ibadan?” E o modo como se acobardara num canto do
banco de trás, nada dizendo até Egbo sair defronte do seu
apartamento e Kola regressar a Ibadan com o seu trofeu.
- Quem é? - quis saber Simi.
- Só um minuto, eu já venho. - E avançou sobre os frutos
apodrecidos, levantando enxames de gordas varejeiras, batendo, por
fim, no ombro de Noé. Este sobressaltou-se e
olhou-o sem expressão. Examinando-o de peno. Egbo descobriu
que o resultado era o mesmo; a experiência da passagem pelo fogo
fora varrida ou simplesmente nunca existira. Noé estava purificado de
todos os momentos do seu passado, à excepção deste instante
recente de assalto às mangas.
- És um fenómeno - disse Egbo.
- Sor?
- Vem comigo.
Foi um súbito impulso de curiosidade. Como seria a confrontação
entre Noé e Lázaro após aquela noite.' Compreendeu então que
desejava estar presente nesse encontro. Felizmente, Noé
acompanhou-o, embora - Egbo estava certo não se lembrasse dele.
Para purificar, pensava Egbo, para purificar verda-deiramente um ser
humano, há que deixá-lo como Noé, morto, desvitalizado, sem
qualquer tipo de carácter, uma folha branca aguardando acidentais
garatujas.
- Foste sempre assim, Noé? Ou isso será obra de Lázaro?
- Sor?
Simi bateu-lhe, por brincadeira.
- Porque falas assim com ele, sabendo de antemão que não te
compreende?
- Na verdade, estou a falar comigo próprio, faço a minha voz
ressaltar no bronze polido do reflexo daquele... ah, agora nem sequer
lhe posso chamar apóstata. Estávamos todos enganados,
terrivelmente enganados. Kola deixou os corpos celestes fora do seu
Panteão, senão descobriria aquilo que Noé é. A apostasia de Noé não
é do género voluntário, trata-se unicamente da recusa de existir, a
recusa de ser um ente vivo, como a Lua.
- De que estás tu a falar?
- Não tem importância. Se não fosses uma canibal,
provavelmente também acabarias assim...
Saltou do automóvel antes que Simi lhe pudesse tocar. Quase de

Parece que sou o único com um sentido de respeito demasiado forte por este artista. Egbo abanou lentamente a cabeça.Lamento parecer tão comprometido. . Estava ansioso por ver a parte que foi pintada por último. reconheci-o imediatamente. a nova dimensão que Kola via na aliança.Você deve ser um dos amigos de Kola.Não posso aceitar esta concepção da vida.imediato.confessou. por detrás da tela. . já o fiz diversas vezes. .Sim.Porquê? . . Por fim. o seu rosto tornou-se grave e entrou arrastando os pés. e dar uma vista de olhos ao quadro. de modo que. .Quem é você? . Eu sou Joe Colder.Olá. Egbo notou um movimento furtivo no canto. Que me diz à última aquisição? Egbo afastou os olhos daquilo que realmente desejava ver.Ah. quando eles saíram. uma translucidez de arco-í ri s. Com efeito.Eu vi-o sair com o tipo de Lagos. sorrindo timidamente. Do meu apartamento consigo ver este edifício. pensei dar um salto aqui. fitando-o ainda com desconfiança.Onde foi ele? . Vinha à procura de Kola.Julgo que sei qual das figuras é você. e deteve-se. dominado pela ver-gonha que lhe causava a recordação de. em tempos. Nada a envolvia excepto a luz. expectante. mas por favor não vá contar isso a Kola! . Parecia quase uma criança cheia de alegria por descobrir um amigo e conspirador. ter chamado apóstata ao seu próprio avô. Era Lázaro. . A parte inacabada era uma figura arqueada erguendo-se não de uma campa árida mas de um caos primitivo de vórtices gasosos e águas diluvianãs. como que tentando clarificar a confusão dentro dela. Ele fez do próprio . a sua própria presença naquela tela irresistível. . um rosto branco espreitou junto do cavalete e um homem avançou para ele. . mas entrei aqui às escondidas para dar uma olhadela ao quadro. . às escondidas. A falar verdade.Estou embaraçado . Egbo deu cautelosamente um passo na direcção do seu interlocutor.Acho que vou seguir as suas pegadas. Joe Colder sorriu. o cantor.

. talvez o deus seja ainda pior. . Ele agarrou num único mito.O meu amigo tem talentos muito dispares.É uma distorção desinspirada.princípio uma ressurreição.Sim. e Kola pintou-o no apogeu da carnificina. aquele belo carneiro é seu? .Não gosta de carne de carneiro? . . Será que aquilo sou eu? Ou até mesmo Ogun.No que lhe diz respeito. . porém.. é o que aquilo representa? . .. Esta não é a sua cabeça niquelada substituindo a de Erinle? .E levo comigo o meu carneiro. . mandei comprá-lo para assinalar a conclusão da pintura e a exposição de Sekoni.anunciou Egbo. Que mais lhe podemos nós exigir? .Não acho isso muito lisonjeiro.Que tem aquilo de errado? . existe o Ogun da forja. ele tem razão.Vou-me embora . Mesmo o momento de reconhecimento tardio de Ogun teria sido. cego pelo sangue! . Este demónio salpicado de sangue é meramente melodramático. É uma ilusão optimista da continuidade. que.Acredite..É a selectividade dele que eu disputo e contesto. Por exemplo. deixa tudo isso de lado para me registar como um facínora animalesco. oh. é isso que está errado naquilo.Quer dizer que vai. .Eu penso que o quadro é muito engenhoso.. ele.Não me estava a referir a isso. já me esquecia que não era só para aquele palhaço da paleta.Que outra coisa se faz com um carneiro? Mungi-lo? Joe Colder reagiu com uma expressão nervosa que Egbo captou mas interpretou erradamente. olhe para aquilo que ele fez de mim: um maldito maníaco sanguinário fugido de uma cela ultravigiada. Todavia.Oh. . . Ogun como primeiro artesão.. . . certamente que lhe concede o direito de escolher esse momento. Sempre lhe ouvi dizer que seria este o resultado se permitisse que você visse o quadro. além disso. . Ogun no auge da bebedeira. está tudo muito bem. perdendo o seu sentido de recognição e chacinando os seus próprios homens na batalha.É eficaz. matá-lo? . presumo. Isso serve-me de consolação. E. pelo menos esse contém possibili-dades poéticas.Bom.

E verdade. Vem. Os frios braços da escuridão e as luzes da Eucaristia Egbo guardava a liturgia em ressonâncias.Que foi que te aborreceu ali dentro? . viste o quadro? E a minha figura? . Não suporto ver sangue.Em quem estás a pensar? Porque ele estava realmente tentando descobrir qual a razão por que havia buscado auxílio no poder daquela rapariga estranha para corroer a prisão do amor de Simi e o mistério dela perturbava-o uma vez mais. sair a correr e procurá-la onde quer que ela se ocultasse. A ideia de ver •sangue a jorrar provoca-me uma sensação esquisita. .e não temo despertar no medo de encerramento porque existem faróis nas coxas de Simi. Encherei o Graal com a tua essência. .Aquele pintorzeco ateu! Devias ter visto o monstro que ele fez de mim..Ele saiu logo a seguir a ti. pois ela enviara o bilhete para o consolar quando Sekoni morrera e dera-se- . ... Sentia-se incapaz de compre-endê-la. e mal podia acreditar nos seus ouvidos. que vão todos para o diabo! Vamos embora. Ligou o motor e partiu irritado. . deixando Noé no estúdio com Joe Golder. . Julgava que tinha ido ter contigo ao estúdio. não tão poderosas como quando da sua primeira noite com Simi .Não. .Oh. O movimento preferido dela quando o via furioso era começar a acariciar-lhe a nuca. imolar-me-ei na tua lascívia e argumentarei até ao dia do juízo final se isto é pecado. musculoso. Até me esqueci que tu também estavas naquela maldita coisa.Oh. a tua. . Nenhuma outra mulher detinha este poder de precipitá-lo através dos sons infinitos e dos timbres agudos da pele. a ponto de quase desejar levantar-se de um salto logo que tivessem acabado de fazer amor. compacto.Onde está Noé? . na cabeça. Egbo saiu abanando a cabeça..Esta noite não estás comigo. Egbo contemplava aquela sólida cabeça.Não estou? . É o acto de matar. aquele corpo forte.perguntou ao ver Simi sozinha no automóvel. Egbo.. não é isso.A tua? Oh. .

Correu escada abaixo e entrou no carro de Bandele. . Ele foi à janela. e murmurava torrentes de rouco calão em que o refrão constante.Quando é que regressas? . Bem ouviste.lhe anteriormente como se dava nesse momento através daquele acto de bondade. Porém. sob a luz amarela de um candeeiro. começava por trancar as calças dele no guarda-fato e pendurar a chave num comprido fio que ficava baloiçando quase junto ao chão.Não lhe perguntei. . porque ele não a tinha possuído totalmente nem se entregara. mas estando agora esvaziado. E assim era igualmente Simi. . Egbo não sabia qual daqueles actos era mais tocante. Ela defendera os seus pensamentos. adorando-a. Sentado lá atrás.Sim. a recordação era mais amarga. Era um macaco encolhido. estranhos. De pé.A esta hora da noite? .Egbo pegou na chave que pendia do fio.O que é? . orgulhosa dos seus dotes mentais e protegendo a sua pessoa de toda a violação. mas num sentido tão diverso que a cabeça dele ficava plena de confusão e Egbo acabava por permanecer deitado. não lhe dando mais do que aquilo que ele desejara e ele havia-a contemplado. pare-cendo ter sido volumoso. Solenemente. . A mente de Egbo era um poço vazio e ele recusou-se a puxar por ela.Bandele. Veste-te e vem cá abaixo. Às duas horas. Egbo vestiu-se num ápice.Sei lá. amando-a. a tarde no rio ou a disforme garatuja no papel que fora certamente uma medida de consolação. eu não me importo. mais humano. dizendo: esta é a nova mulher da minha geração. Simi havia-se sentado e olhava-o . fátuo. Simi também tinha o seu ritual. achava-se um homem que não conhecia. . ela ouviu o ruído de pedras chocando contra a janela e acordou-o.Combinaste isto com ele? . pois ela fechara-se como uma deusa e haviam terminado separados.Quem é? . .Que quer ele? . inteligível. era: “Eu não quero ser obrigado a abandonar o . estava Bandele. dolorosa-mente frustrado.Oh.Desce.

Noé morreu. Havia luz no estúdio e Kola estava a pé.Eu disse-lhe para não o fazer. Ele é maricas. Como se fugisse a uma abjecção para além das raias do imaginável. fitando aquela figura encolhida lá atrás. . dizendo: .. Por fim. acalma-o.. embora não estivesse a dormir. Bandele disse: .. lá consegui perceber que Noé ficara aterrado quando ele começara a fazer o que é costume.. Lázaro pode estar lá.Egbo.país.perguntou Kola..Mas o que vem a ser tudo isto? Que história é essa? .. e disse a Egbo: .Eu estava a dormir e ouvi-o bater violentamente à minha porta. está bem? Egbo inclinou-se sobre o assento e deu-lhe algumas pancadinhas no joelho. .. Supliquei. na outra rua. balbuciando incoerentemente. Egbo retirou a mão que pousara no joelho de Golder.Sobre o Joe Golder.Não sabias? ..E melhor chamá-lo cá fora. Entrou pela casa dentro quase histérico.. .. Joe diz que ele caiu da varanda. . B ande lê parou o carro um pouco mais abaixo. O sedativo começava a fazer efeito em Joe Golder e ele lamuriava numa sonolenta monotonia: . trabalhando até tarde nos últimos retoques. Curvou-se para a frente. o mais longe do banco da retaguarda. Eu não quero ser obrigado a abandonar o país.inquiriu Bandele. Só então Egbo vislumbrou uma remota parecença entre o homem no banco de trás e o Joc (i older que havia encontrado nessa tarde. jurei que não lhe tocava. O carro deteve-se diante da casa de um médico amigo de Bandele e administraram um sedativo a Joe Colder. como se ela . Gritei-lhe: pára! pára! Jurei que não lhe tocava.Não sabia o quê? . Bandele pôs o carro em andamento.Ele começou a fazer as tolices dele? .” Somente a capacidade de falar distinguia esta figura do destroço que Noé fora na noite da prova do fogo. enquanto Lázaro estava estendido numa cama improvisada. o rosto distorcido pela aversão e uma sensação de contaminação degradante.Noé morreu. Bandele acenou a cabeça. Kola veio ao exterior e Bandele informou: .

sentado num banco e fitando o quadro de Kola. com a primeira lama de toda a criação. seguiu-os. . Bandele e Kola olhavam pasmados este ódio que não conheciam em Egbo e os repentinos espasmos de fúria que pareciam sobrepor-se aos movimentos do corpo dele. O seu corpo contraía-se na espectativa e observou-os quando entraram. a sua face não reflectiu qualquer sentimento.Nem sequer era capaz de subir até uma janela como qualquer ladrão decente . tentando evitar qualquer proximidade física com Joe Colder. .Vi. diante dele. Bandele informou-o simplesmente de pé.E agora que f azemos? Bandele encolheu os ombros. vamos lá dizer a Lázaro.Ele já tinha escapado uma vez .Dizemos a Lázaro. perguntou: .interpôs Bandele. a ponte de luar atravessando o céu e a terra. Egbo mantinha-se à pane. Lázaro nem estre-meceu. Depois pareceu tomar uma decisão. .fosse um insecto nocivo e sentiu todo o seu corpo arrepiar-se de nojo.disse Lázaro. . Lázaro. . mas este nada mais disse.Apanharam-no a roubar e espancaram-no até à morte? Kola ergueu lentamente os olhos para Bandele.Bem. ligeiro como um fantasma e cansado com um ressuscitado. . . Bandele olhou então à sua volta e fitou Egbo sentado a certa distância deles.Tens a certeza de que ele está morto? Chamaste um médico? . Por fim. para sempre.Caiu do último andar de um edifício. .Ele está morto. E dentro dele crescia um sentimento de que estava ali preso.Sim.Ele não foi espancado . curvado na cama de campanha. A mão que havia tocado Joe Golder parecia-lhe subitamente estranha ao seu corpo e saiu do carro para a limpar no orvalho da relva. o dono do apartamento surpreendeu-o e Noé caiu ao .Viste o corpo? .dizia Lázaro. . como numa ratoeira. Talvez pensasse que eu estaria sempre perto dele para o salvar. como se os esperasse. Bandele saiu do automóvel e Egbo. Kola perguntou finalmente: . estava sentado.

disse-lhe: “Vocês deviam fazer qualquer coisa em relação ao sistema de limpezas. se o tipo o tivesse declarado completa e objectivamente. gostaríamos apenas de dizer que esta ideia original do ilustre deputado pela província Leko ecoou nas veneráveis paredes de um Parlamento admirado e que ela possui todo o dinamismo da espontaneidade. Se Joe estiver em estado de choque não poderá prestar declarações. .Eu vou falar com um médico. é lamentável que ainda hoje os homens do ..afirmou Sagoe -. Disse ao ilustre chefe Koyomi . .Está bem. Egbo sobressaltou-se por breves instantes e voltou-se para Bandele e Kola com os olhos brilhando de desprezo. .Não intencionalmente.Primeiro..” Agarraram-se àquela deixa. estão sempre a criticar-nos. . disse-me: “Vocês.Por favor. está bem.. Encontrei este tipo numa dessas festas políticas. .Claro.Vamos ter de informar a polícia e aí é que vai haver problemas.a propósito. Se começar a falar por aí. Egbo recusou-se a entrar no carro.. o que sucedeu foi isto. . Só criticam destrutivamente.Tens de pô-lo num local onde ele esteja em segurança e calado. e os três saíram do estúdio. a apagar totalmente da consciência.E Sagoe leu novamente em voz alta o editorial: . Olha. . . .tentar fugir. acabará por ficar em perigo. porque não apresentam uma proposta concreta. então. Mas ele deixou a imaginação cavalgar por aí fora. Kola. . . Bandele afirmou-o elevando a voz. Escutem. Disse que preferia caminhar os sete quilómetros que o separavam da cidade e da casa de Simi. E ele. sem a respectiva frescura. quero que me dêem a vossa opinião sobre isto. ele é aquele que se ajoelha e beija a mão de todos os ministros . plenos de gratidão.. Lázaro deitou-se.Suponho que foste tu quem escreveu isso. um esquema para melhorar de algum modo o país? Depois verão se nós nos encarregamos de o realizar ou não.Apenas para me ver livre dele. É fácil reconhecer o meu estilo. que é costume dar para manter os jornalistas de bom humor.“. acho que o induziste em erro. pois Noé era um assunto a varrer do pensamento. virando-lhes as costas.” . Em conclusão...Pouco haveria a apontar . rapazes.. .E tu aceitaste o desafio.

espera aí.”A recolha dos baldes de dejectos”. .A tribo dos homens do lixo não aceitaria essa mudança. Creio que também lhe assinalei a metafísica do meu plano. palavra por palavra. ..Vês? Repito que o tipo se deixou arrastar pela imaginação. e. o produto final de cada noite rolaria até ao Norte.Oiçam isto. . porque não se utilizam essas matérias? Repare nas terras desertas do Norte”. eu propus que o Norte enviasse os seus burros de forma que nós os usássemos no transporte dos detritos dentro da cidade. Bandele. bem me parecia. Em troca.exclamou Egbo -.concordou Egbo.Egbo pegou no jornal. deve ter sido a isso que ele chamou físico-química mental.Bem.Espera. fertilizando as terras menos produtivas.Existe uma dificuldade prática . oh.. enquanto falava. procurando a reportagem. . Isso libertaria mais homens para as novas indústrias que nasceriam em consequência do novo programa agrário. Num ano. . E. que te. “Deviam enviar essas matérias de comboio para o Norte e fertilizar o território de Sardauna. isso é quase o discurso do tipo. o plano assumia proporções grandiosas e dele germinavam os mais inesperados rebentos de cores .Espera aí. “é desumana”. declarou o ilustre Koyomi. vagões selados. mais um trecho da tua reportagem. a menos que.. ah.. aposto: . . .Tenho de concordar que ele tem uma memória fantástica. .Compreendo . a que se juntariam. disse-lhe eu. . menos desemprego. com o contributo local. . Notem que eu já havia escrito algumas notas sobre o assunto e é nessas circunstâncias que o meu aspecto convincente é verdadeiramente irresistível. em cada estação.objectou Egbo. .lixo andem à noite pela capital carregando baldes de merda. já me esquecia que ele comigo não fala. . podem ir com ele para as quintas. Parece-me que eles consideram o seu trabalho uma vocação insubstituível. logo. de qualquer modo. o cérebro longamente reprimido do ilustre deputado tomava-se febril.Soa economicamente correcto . Eu disse ao chefe Koyomi que se organizariam comboios nocturnos especiais.. se gostam assim tanto do lixo. evidentemente. disselhe eu. os produtos da agricultura deste país teriam duplicado. tu és o economista. Era mais terra que podia ser utilizada.. ainda não acabei.Ah. ele saiba estenografia e tenha transcrito por trás das costas o que eu ia dizendo.

Hum. Ficaram a olhar por alguns instantes a porta que acabava de bater ruidosamente.Tu juraste .Conto-lhes? . Imagina que eles organizam manifestações? O gás lacrimogéneo seria ineficaz contra eles..Isso mesmo. Egbo.disse Kola -. . Bandele levantou-se e saiu.A vossa conversa é suficiente para enjoar qualquer um.Máscaras de gás. O chefe de redacção chamou-me e disse: “Soube pelo Mathias que você se interessa por esta espécie de coisas. depois Dehinwa: .. perguntou: . Nisso és capaz de ter razão. . Sagoe riu. .Como diabo o conseguiu ela? Vingativamente.Se tiveres coragem. Kola. isto é teu. só que eles podem ser alérgicos ao cheiro. que me diz a encarregar-se de aprofundar o assunto?” . A polícia pode fornecer tantas quantas precisas.Que dizem as senhoras? Haverá alguma coisa que a vossa intuição vos tenha revelado e que nos tenha escapado? Simi continuou a acariciar a nuca dele e Dehinwa disse: .Que mosca mordeu àquele tipo? . Sabem.Confesso que gosto da ideia dos burros .e odores variados.recordou-lhe ela.O estilo é realmente inconfundível. . tu também não. continuo a preferir os burros e não apenas dentro da cidade..Isso poderia ser um risco grave para a segurança nacional. finalmente.E embora me tenha sido arrancado de má-fé. Imaginem só esta visão nómada: manadas de gado vindo para Sul e filas de burros carregados em direcção ao Norte com carregamentos de merda. mas num dia de bebedeira prometi estupidamente a esta mulher que quando nos casássemos queimaria o meu livro iluminador. hei-de cumprir o meu juramento. .Achas os comboios demasiado. . . Egbo. .. deixar máscaras de gás à mercê de burros. prosaicos? . Sagoe voltou-se para Dehinwa: . Porque não também no transporte para o Norte? . aquele Mathias é um traidor.fitou primeiro Simi.Mesmo assim.. ..Nem vais acreditar nisto. não é? .

Bandele reentrou. perseguida pela gargalhada de Sagoe. parece que não compreendeste. sim.E de mim recebes um penico .Por vezes.Olha-me só o preço que vou pagar. os seus modos mudaram totalmente.Não te recusei nada. .. Dalila! O preço que vou pagar pela virgin-dade de Dalila! Simi perguntou: .Antes de saíres . . . Egbo pôs-se de pé. ..Bandele. para eu oferecer um par de algemas a Dehinwa.Tenho.Avisa-me com antecedência . Respeitantes a uma aluna minha. .Eu pedi-te a ti. . .. mas eu vim pedir-te a ti! ..Dela. . vamos embora. insistiu Egbo.Sim.Mas não era para ti. .A porta é ali. infantil. qual coluna de um palácio esculpida em pau-ferro.suspirou Sagoe . ..disse Bandele -.Há quanto tempo recebeste essas notícias? . . comportas-te como se não sentisses..Isso aconteceu. Simi..entre a espada e a parede e imensamente feliz. Egbo.Se vais continuar a portar-te desta forma idiota. não pedi? A casa de Kola era mais próxima.. . Dehinwa levantou-se e correu escada acima.? .Não acredito. Egbo imobilizou-se.Vocês vão mesmo casar? .Mais tarde falaremos nisso..disse Kola -. . .. Pediste-me auxílio para aquela repugnante aberra-ção da natureza e eu desejava nem sequer tê-la conhecido.Joe Colder vai realmente para a frente com esta coisa? Kola sorriu. quero comunicar-te notícias impor-tantes. . .É melhor irmos lá para fora.Estou encurralado . Não posso esquecer que esta manhã vim pedir-te auxílio e tu recusaste-mo. Vem.. . . ..prometeu Egbo.. pode dizer-se num momento de extrema. Que há-de ele fazer? A única alternativa é sentar-se a cismar até acabar por enlouquecer. vou-me embora de tua casa! A voz de Bandele suavizou-se..Não te perguntei nada.

mas provavelmente tu já o deves saber. diz-me onde posso encontrar esse tipo. .E ela sabe que tu e Simi são ainda.Como queiras.E eu perguntei-te onde posso encontrar o filho da puta desse curandeiro! .Sim. Egbo. mas depressa desistiu. Como é o raio do nome dela? .Bem o desejou.Percebo. . Bandele.Espera. . disse-lhe que nada podia fazer.Não precisas gritar. .Onde posso eu encontrar esse médico? . Creio até que quis ir para a cama com ela e quando ela recusou. engolindo a sua cólera. Egbo saiu da sala quase a correr. que ela não regula bem da cabeça. . evidentemente. Dehinwa dirigiu a Simi um rápido olhar de simpatia e solidariedade feminina e ocupou o lugar que Egbo deixara vazio ao lado dela. Vou apenas passar-te a mensagem que ela me comunicou e tal como ela me pediu que a dissesse. diz ela agora. pois não? .Ela não fez nenhuma asneira. está bem.Eu disse que tinha uma mensagem para ti.Diz-me onde ele mora. Bandele disse: . De modo que Lumoye tem andado a espalhar este mexerico por toda a parte e como ela é bastante maluca resolveu fazer exactamente o contrário.. Egbo. Lumoye e ele comportou-se tão estupidamente quanto realmente é. sentindo o seu veneno gelar dentro de si. encolhendo os ombros. .Por amor de Deus.Apenas te chamei cá fora para te dar um recado.Egbo deteve-o. antes de mais nada existe uma lacuna a preencher. Uma vez fora de casa. Foi a um médico no hospital. Penso.Escuta.Bandele. . . e continuar aqui como estudante. . . Onde está ela? Tenciona realmente .. . que se passa? Ela está grávida? .Está bem. diz lá. . de contrário podes ficar com a maldita mensa-gem! . este papel de verdugo não é digno de ti.Ignorando a presença de Simi. viu-te numa festa qualquer. . aquele palhaço do Dr. Sagoe tentou uma observação alegre.Escuta-me tu. Vai ter a criança.Sei onde ela está.

A mensagem é esta. Ela é um ser tão extraordinário. Julgas que foi só por isto? . Bandele dissera: . .Bandele deu meia volta para reentrar em casa.é de uma longa sessão de vacuo-lização. .Está bem.Não. acredita no que quiseres.Não sei.Aquele tipo . pediram-me que te fizesse compreender que não és obrigado a nada. deverás comunicar-mo e eu passarei palavra. falame da rapariga. .Muito bem. Ela enviou-lhe uma carta. Suponho que foi esta a causa do teu estranho comportamento. .Não sejas tão presumido. por amor de Deus. Já estavam um pouco atrasados para o recital e sabiam-no.Egbo puxou-o pela manga.Quando tiveres a certeza do que queres fazer. Bandele.voltar para cá? . com incessante jovialidade. espera.Estás a mentir. .. Além disso. . Bandele foi direito ao piso superior e os outros ouviram-no chapinhando na casa de banho. Ficou de pé. . mas porquê? . nenhum deles se ergueu sugerindo que partissem. Simi estava triste e Dehinwa tagarelava com ela. Mas.Foi o próprio secretário da universidade quem me informou. Desta vez.Onde está ela? . . . se fazer o favor.. Diz-me a mensagem. Egbo não se mexeu para o deter. Espero que isso tenha ficado claro.está a destruir-se a si próprio.observou Sagoe . deixemos-te de parte. . acabemos com isto.Não sei ou não quero dizer. A exposição de Sekoni fora inaugurada nessa tarde com vinho de palma e carne assada do carneiro negro. algum tempo. ..Desejo envolver-me o mínimo possível nesta coisa. dás-me a tua resposta quando quiseres. ..É evidente que isto explica muita coisa. Portanto.. porém. Não creio que.disse Kola . seguidamente voltou as costas àquela casa e caminhou em direcção à escuridão.O que ele precisa . nada mais me interessa. de certo modo até selvagem.. e o seu sangue coagulado manchava ainda o chão do estúdio de Kola. perscrutando-lhe o rosto. nos degraus.

Egbo dera à faca um movimento de brincadeira na direcção de Bandele e um estreito fio de sangue sujara a camisa deste. . Na realidade.Se chegares ao volante de um dos carros maiores. tranquilamente. à volta do vaso convulsivo da garganta coitada. até Bandele sorrira. receando o momento em que teriam de partir e enfrentar Joe Golder no outro lado das luzes. único. a caminhar. .Não está na hora do espectáculo? . nessa noite. sem sentido. inclu-sive os Oguazor. O acto da matança e o sabor do vinho sobre o odor pungente da carne assada alcançou novamente as narinas de Egbo e trouxe-lhe à memória o acto solitário.. a primeira companheira no seu santuário à beira-rio. entre os vapores do sangue. e Egbo compreendeu que não podia conservá-la meramente como uma fantasia idílica. então o outro caso é que inspirou isto. recordando que afinal aquilo era também por Sekoni. .Queres pôr-nos fora da tua casa? . porém.O programa foi organizado já há meses . .Para que precisam vocês do carneiro? Não tiveram já o vosso sacrifício? E.Hás-de ir-te abaixo. eles deitam-se na estrada e deixam-se atropelar.Ah. Na sala de estar de Bandele permaneciam todos sentados. E todas as figuras importantes da universidade haviam estado presentes. Bandele desceu as escadas. eles tinham saído apressadamente logo que viram chegar uma ou duas “moscas domésticas” na pista do vinho de palma.O tom de Bandele era seco como quando em tempos dissera: ..disse Kola. Reparei no programa e Joe Golder vai cantar um requiem na segunda parte. suavemente. E Egbo continuava a caminhar. Todavia. horrorizados. Parece que vamos todos mortificar-nos . pois uma vez mais se sentia assombrado com a força de vontade dela.Não. parecera-lhes que Egbo ia mergulhar a faca na garganta dele. . Ficaram todos quietos. Será uma ideia de expiação? ..Era Kola de novo. Não. vou convosco. Mas primeiro digam-me uma coisa. mas eles haviam-na transportado e pendu-rado no foyer da sala onde Joe Golder iria cantar mais tarde. Na tela de Kola a tinta ainda mal secara em Esumare. Imediatamente a tensão se dissipara e uma gargalhada substituiu aquele momento de antagonismo. durante momentos intermináveis.

mais tarde. Sometimes I feel like a motherless child. num momento de tranquilidade e ordem. e nada dever de nós mesmos a vivos ou mortos. como o bordão de Ogboni. seguira-os quando haviam penetrado numa fila de cadeiras. separando-os um a um e colocando-os em etapas sucessivas do período de criação. encontrássemos rapidamente uma nova lei para a vida. Kola escolhera aqueles lugares ao ver onde estavam Mrs. Faseyi e a sua nora e conseguira para si a cadeira imediatamente atrás da de Monica. de modo que quando o presente se desfizesse sobre as nossas cabeças.”) O palco apresentava-se pobremente. mas deixou ficar alguns lugares entre si e os outros. despido. por causa de Joe Golder. E parecia perguntará figura. no palco. no entanto. Bandele conservava-se inflexível. sacos de areia e plataformas transversais. o contrário é que era a verdade. dos nossos nichos impessoais. evoluiríamos em direcção a isto. envelheci anos. que aquele era um momento de frustração. rígido.. Como Egbo sempre fez e agora Bandele. Kola. no vazio.. não reconhecendo nem enfraquecendo a nossa vontade através da compreensão. aparentemente calma: que nos fizeste vir aqui presenciar? Uma farsa de expurgação? Bandele era uma imagem intemporal meditando sobre seres menores. e nada sentíssemos dos cordões escravizantes. existir tal como somos. (') Kola olhou então para Bandele e pensou: se nós nos deixássemos simplesmente existir.desnecessariamente e creio que. enfunavam cortinas negras em ambos os lados. um profundo vazio e escuridão total. sentiu. desmontáveis. Bandele tornava-se-lhes totalmente estranho e cada vez mais impers-crutável. Era como se ele não tivesse nem piedade nem indulgência e. Sometimes I feel like a motherless child.. Na primeira fila estavam sentados os Oguazor e com eles Ayo Faseyi. Para além dele. que o que faltava naquela noite era o poder de sacudir os acontecimentos. dois feixes convergentes de luz nua e Joe Colder.. Salientando-se . E Kola. A seu lado estava Simi. sinto-me como uma criança sem mãe. sentou-se à parte dos outros. que tentava clarificar as peças dentro das vestes acomodatícias do tempo. imóvel. (Por vezes. Sagoe e Dehinwa sentaram-se alguns lugares mais à frente. que tentava compreender tudo. Mas não me hei-de ir abaixo. se pudéssemos mergulhar. Na sala de concertos. num só molde.

os dedos cravando-se rudemente na sua carne. um mundo sem rosto. Junto à porta estava Egbo e. No entanto. Kola segurou-lhe a mão. Elas lembravam-lhe as características da cólera de Bandele.. foi atraído pelo ruído que enchia a noite através dos ventiladores de alumínio. lento mas vibrante. (“Muito longe de casa. uma corrente estática cortando o ar límpido. Inconscientemente. como um ser mutilado agitando-se nas fontes sombrias da dor que o embalava. retinham a sua água. Egbo havia percorrido quase toda a extensão da universidade. a long wa-ayfrom home. viu o braço de Monica tremendo. brotava deste círculo de solidão. a chuva conservava-se oculta Já nas alturas e os seus fúteis pontapés apenas encontravam torrões húmidos de terra. mesmo sob o ténue jorro de luz vindo do foyer. um roçagar surdo de antagonismo. indiferente ao juntar de nuvens mercuriais por cima de si. mesmo que o céu conservasse a sua dureza.. Dominado por um sentimento que era incapaz de explicar... ainda que ele desejasse ver a chuva cair para ao menos dissolver em lama mole a terra debaixo dos seus pés. cada um segue o seu caminho. qual figura arcaica e repudiada de um álbum de família. parecia grave e preocupado. porém. ouvindo o seu coração apressado palpitando.”) E Kola sabia que não era uma mera questão de geografia. sem fundo. As nuvens. A long way from ho-o-ome.. como um homem que perdeu subitamente a sua juventude. Sentiu um forte aperto em torno da sua perna e. Egbo pensava no modo como .entre as margens negras do proscénio móvel que o enquadrava. contra lajes frementes de velho granito. às repentinas crepitações secas que lhe electrizavam a pele como quando os seus pelos se eriçavam passando um pente ao longo do braço. uma criança há muito perdida. Joe Golder procurava no mundo uma esperança. E que essa chuva libertasse a sua pele daquele formigueiro febril na viva liberdade da claridade. um vácuo total para aquele homem que as notas pareciam dilacerar. Kola virou-se para a saída.. de pé. olhando para baixo. reconhecendo: esta é uma noite de ruptura. o choro penetrante e agudo de um touro castrado. Joe Golder desnudava a sua alma. e Egbo avançou para a porta perguntando a si próprio: quem é este tipo que berra por ter sido desterrado pela compreensão do mundo!? O duplo feixe de luz desenhava um buraco no chão e Joe Golder. quartzo nu em velozes ribeiros.

a papa negra espumando por entre bolhas negras de cornijas de lava negra nas profundezas dos ventres dos potes amadurecidos. longamente contido.. tacteando na escuridão. Faseyi ainda o fazia numa embara-çosa mistura de fungadelas e gargalhadas . Até que as luzes inundaram subitamente a sala e ouviu o som de palmas. fazendo esguichar tinta de areias movediças. e os tecidos tingidos pingavam desfraldados. murmurando: Ebgo-lo. arrastando-o para o solo. Joe Golder. tão baixos que pareciam um lugar para enforcar anões. Porém. as negras bolhas gigantescas como as pupilas iradas de Olokun. Joe Golder pisou algures com força e jorraram sobre eles fontes de tinta e de mijo de velhas. A escuridão engoliu agora Joe Golder. nas profundezas do solo que beijava os rebordos. estilhaçados e atados. pensava Egbo. saída de gargantas plenas de rapé. Havia chuvas negras de céus minúsculos e as areias movediças sob os seus pés ensopavam-se nessa tinta que ele escolhera. enquanto a assistência se levantava para o intervalo.E Mrs. Joe Golder. profundamente enterradas na areia negra e molhada. Fontes de índigo nasciam e redemoinhavam a seus pés. ante os seus olhos. Uma enorme vaga de tinta voava por sobre o rebordo e o rapaz emergia vertendo lágrimas de anil. os lábios implorando águas limpas que os lavassem. eu brinquei entre eles. Oh. Elas envolveram-lhe os pés.. espumando escuma de anil. o bambu quebrava-se e uma criança mergulhava na caldeira. suspenso de potes de madeira.se iriam apo-derar da tinturaria quando as mulheres partissem equilibrando-se nas bordas das enormes caldeiras dos tintureiros. lá onde as velhas mulheres tingem as suas mortalhas e a dor é estas mulheres.. . e-pulu-pulu. . e Egbo escutou uma vez mais o grito de terror infantil. As velhas escarranchadas sobre o rebordo das suas caldeiras. enegrecido até aos cabelos. Egbo-lo. Quando as mulheres partissem eles iriam saltar e agarrar-se às varas de bambu. e-pulu-pulu. penetrou no pátio das traseiras das mulheres velhas através de labirintos de bambus. deixando-se ficar suspensos por algum tempo. Egbo-lo. às vezes.Assustada! Estas raparigas inglesas são tão tolinhas! Que haveria agora de assustá-la? Eu estava a chorar. atravessou a boca rasgada dos caldeirões e as húmidas mortalhas revoluteando pesadamente ao vento. as mãos enegrecidas que se agitavam desesperadamente em busca de outras mãos. e avançou agachado e corcovado através de bambus cruzados.. devorando-o progressivamente. velhas como a maldição.

Bandele parece zangado com qualquer coisa. deixando a mulher a cargo dele e Bandele não acha a situação muito divertida. Monica. compreendem. hum . Cumprimentou-me há momentos de forma bastante peculiar. indicando-a com o queixo.A exclamação foi de Mrs. tirou a bebida das mãos de Sagoe e tentou enfiá-la entre os dedos de Bandele.Homens! . Pouco depois. diga-me só o que deseja.Oh. exclamando: .Creio que devia ir buscar Simi para junto de nós disse Kola. que continuava a fitar fixamente a escultura de Sekoni.Se . Faseyi precipitou-se então entre eles. . ambos deram sinal de que se reconheciam. Sagoe sorriu e interpôs: . estou a dever algumas bebidas ao professor. . e acabou por ficar face a face com Oguazor.Kola calou-se.Também reparaste . bem. Sagoe lutava com a multidão que o rodeava. que os observava. magoada e incrédula. mas Sagoe veio em seu auxílio. Sagoe viu-a olhar na direcção dele. que se mantinha afastado. internacional. receosa e infeliz.barítonas. Depois. . eu vou buscá-la. Kola estava cada vez mais aflito.retumbou a voz da sogra dela. ao lado de Simi. Que tem ele? . Simi. comentou: . Os comentários flutuavam delicadamente em bolhas elegantes. experimentando a pintura para ver se ela borrava.Oh. cortesã notória.Mas por que não vem ele para junto de nós? perguntou Monica. E Bandele continuava asperamente indiferente à jovem que estava junto dele. Bandele baixou a cabeça com uma singular formalidade que a espantou e ela desviou o olhar. Os puritanos melindrados começavam já a murmurar entre si e a acotovelar-se. Sagoe levou um copo a Simi e ofereceu outro a Bandele. Ela sentia-se deslocada naquele meio e necessitava de alguém em quem se apoiar. professor. . . Animais! . deixe-me ir eu. tentando alcançar a mesa das bebidas. Por um breve instante.. Oguazor voltou-lhe as costas e encetou uma conversa com Faseyi. o professor afastou-se para se juntar à sua Caroline que estava diante do Panteão. O seu olhar cruzou-se com o de Bandele. Faseyi. Não havia um único dos presentes que não conhecesse Simi..Um amigo nosso ausentou-se.Por favor.

.. algumas destas raparigas são imensamente susceptíveis. .Não sei.Meu rapaz.avisou o Dr.A esperteza de barriga cheia.É Egbo.Inconveniente! Porquê? Não é aquela mulher encantadora que está junto de Bandele? . . Percebi-o mal ela entrou na clínica. Lumoye -. aquela jovem ali..Quer dizer que ela escreveu. . . teve a audácia de escrever dizendo que queria voltar? . Aquele ali não é um dos amigos de Ayo? perguntou de imediato Mrs. É preciso termos cuidado senão elas recorrem a todo o . Mrs.Sim.. mas deteve-se bruscamente ao ser atacado. . Faseyi. mãe .corrigiu Monica. .perguntou Caroline. Faseyi. aposto que o problema dela é consequência da velha penalidade marcada na baliza ah ah ah ah ah. Em vez disso.gargalhou Lumoye. pensei com os meus botões. Bandele levou-o lá a casa uma vez para almoçar. parecia. o levaram a chocar com Egbo. E viu Egbo voltar o seu duro olhar para um grupo que conversava a um passo de si. Lumoye ao fazerem-no recuar pouco a pouco.acrescentou Caroline. . Tão descuidadamente perto.Ele não é amigo de Ayo. Simi. Pare de chamar a toda a gente amigo de Ayo.Mas por que se espantam vocês? A moral nada significa para estas raparigas modernas. Traga-a para junto de nós. Uma das recatadas.E logo ela que sempre me pareceu uma jovem simpática. . . as mais recatadas são geralmente as mais desavergonhadas. pelo olhar furioso de um cão selvagem.Olhem. eu pensei. indeciso se o seu acto seria prudente. .. uups! Perdão. recatada . ouviu-o e parou. murmurando um rápido perdão e regressando logo ao círculo de fino espírito. Egbo! Estamos aqui! . agora que Egbo se lhes ia reunir. dirigiuse a Egbo.não vê inconveniente.Ah ah . Faseyi mostrava-se algo hesitante. que ia buscar S irai.. que as lascivas rajadas do gargalhar do Dr. tem mais valor num só dedo do que quaisquer dez hpmens fora desta sala ou do que todos os homens aqui presentes.Egbo! Estamos aqui! Kola. .Naquele estado? ....

Oh.. erguendo o rosto num sorriso aberto. Os olhos exorbitantes de Egbo eram cúspides negras. cuspiu nela. . ah ah ah ah.comentou Caroline. O Dr. após as palavras de Faseyi.Disse isto por sobre o ombro. cuja boca não pareceu mover-se. perguntava: . cinzas na ponta das tenazes de um ferreiro. desculpe. que ninguém vira o ataque de que fora vítima. já estava no seio do grupo. elas sabem o que fazem . . ah ah.assegurou Lumoye. contra quem Lumoye esbarrara. que aquela baliza vai estar vazia no próximo período escolar.insistiu Faseyi timidamente -. delgado porque os lábios e a garganta de Egbo há muito estavam secos. Acredite no que lhe digo: quando as aulas recomeçarem.Mesmo assim .O padrão da moral baixou realmente muito . andava à volta dele tentando auxiliá-lo. cego e surpreendido. porque Egbo esperava e Caroline. Era uma face alegre a que levantou para Egbo. não posso deixar de sentir bastante pena delas. a minha jovem paciente estará tão magra em torno do umbigo como a minha filha mais nova. Lumoye cambaleou para diante. suspirava já que os seus “perdoes” tivessem sido mais atencio-sos. Porque eu aposto. . Isso acima de tudo. . tão intrigada como os outros. . .Ora. Elas têm de aprender a pagar pelos seus prazeres. Lumoye não era tolo..O que foi? Entrou-lhe alguma coisa para o olho? Egbo. Neste momento. uup's. aguardando apenas que Lumoye abrisse os olhos e o visse. levantando instintivamente o braço para deter aquele delgado esguicho. . transmitindo um pouco do prazer do seu regozijo a este estranho atrás de si. e Egbo. enquanto se esforçava por diagnosticar as causas do sucedido. Lumoye. não vão conseguir apanhá-lo.género de medidas desesperadas. O seu instinto estava certo. Mas cuspira sem sequer dar por isso e Faseyi. professor... porém.Não desperdice o seu dó em tais raparigas. apenas esperamos descobrir o estudante responsável.O país inteiro está mergulhado numa apatia moral. ansiava evitar a todo o custo qualquer escândalo. sentindo-se em perigo mortal e apercebendo-se. pois era incapaz de. optou por permanecer sob a protecção da sua cegueira. . depois saberemos o que fazer com ele. girando o pescoço.

Sim. sentindo-se algo desafiado e vendo no seu opositor um impertinente.perguntou Caroline ao recém-chegado. Iradamente. Lumoye para o homem silencioso. A geração actual é demasiado corrupta. ela é sua aluna? . Egbo compreendera-o desde que o outro surgira e os seus modos revelavam como ressentia a interferência de Bandele.A universidade não pode admitir que o seu nome seja arrastado na lama por causa da torpeza moral de jovens irresponsáveis. .Estava a perguntar-lhe. . em quem pressentia um vago elo. de modo que pudesse toma-los tumefacções doridas. Não merece menos do que isso. Lumoye levantou a cabeça.Bom. restabelecido e intrépido. concordo plenamente. Oguazor.Se se refere ao rapaz responsável pelo estado daquela rapariga. exclamou: .Oh. por estar bem longe de Egbo. inseguro. que faria o senhor se conhecesse o pai? . .Compreendo. Uma voz soava a seu lado. O tom da voz de Bandele chegou ao Dr. é evidente . saudou: . . professor? Faseyi. Bandele. todavia. farei com que ele seja expulso.. é claro. . .Sim.Como médico. . atraindo a atenção de Oguazor. que olhava desorientado do Dr. Lumoye e este compreendeu que estava salvo.Oh. professor. . venha juntar-se a nós. olhou de novo Lumoye esperando que ele abrisse os olhos. e isso é que é o mais triste disto tudo. e a indefinida ameaça que era Egbo tornava Oguazor obtuso à presença de Bandele.Que teria o senhor feito.recordar a cara do homem que tão infundadamente o ofendera. Estávamos precisamente discutindo uma das suas alunas. Rapidamente.. Bandele não a ouvia. você prescreveria a morte de preferência à desonra. Oguazor quase berrava: . Eles desonram os nomes das famílias por ninharias. ao menos uma vez.Ólá. cedendo-lhe paternalmente algum espaço naquele círculo apertado. . antes que este novo perigo lhe roubasse o direito à sua cólera. que inquirira: . Não sabia que estavas cá.disse Bandele -.Não deixava margem para dúvidas.

distante e agudo como o sino de um leproso. . Bandele contemplou o outro pensativamente e olhou os que os rodeavam.. com o corpo de novo descontraído.Espero que todos vocês vivam para verem a desonra das vossas filhas..Não me diga! Mas estes problemas são-lhe decerto familiares. . Fim do intervalo.Não faço ideia do que quer dizer. Bandele. confuso.. a seu lado. ... Simi esperava.Espero que Bandele não ache que a universidade é um centro de assistência social. Kola. O repique do sino convocava-os. porque elas... não é essa a sua ideia? Ou procurar curandeiros e abortadeiras.. velho e cruel como o ogboni em conclave pronunciando a palavra. Egbo observou-a e veio ao seu encontro. junto do Lutador de Sekoni. é apenas a alternativa para um afogamento. os olhos eram faróis num oceano de singular tristeza. Aquelas que vão procurá-lo ao hospital devem falar-lhe nisso. velho e imutável como as mães reais do trono de Benim. sim. . Mas eles permaneciam ali. pensava Egbo. Antes a morte que a desonra. incrédulos. sabem o que se deve fazer? . só que a sua piedade era mais inexorável que a sua dureza interior. uma alternativa para um homem que se afogava.Oiça cá.principiou Oguazor. estava imóvel. .Eu fiz a pergunta ao doutor. .. Olhava-os com piedade.

dansiki: uma blusa curta usada pelos homens. ewedu: uma sopa viscosa de vegetais. espírito da desordem. e. Esumare. ekan: erva de elefante elegungun: mascarada ancestral. adire: tecido tingido.GLOSSÁRIO Os deuses no Panteão de Kola: Esu. guerreiro. um espírito animal. aquilo que cobre as orelhas de um cão). agba n't'ara: respeito por um corpo idoso. agbo: uma poção de cortiça e raízes. efigbatifun yeye: esbofeteia esse bastardo. deus do relâmpago. a peregrinação a Meca. Ogun. criador. filha de Yemoja (uma divindade aquática). ayaba osa. agidigbo: um tipo de música ioruba. o nome respeitoso de Sopona. apala: um tipo de música ioruba. Sango. o deus explorador. mole. agbada: uma peça de roupa ioruba volumosa. . Obaluwaiye.. deus da varíola. alhaji: aquele que fez a hadji. Erinle. i. Orisa-nla. orno Yemoja: rainha do mar. o arcoíris. Abetiaja: um gorro de tecido com abas sobre as orelhas usado pelos lombas (literalmente. egbe: magia para desaparecer. alakori: uma expressão insultuosa. feito com farinha de inhame. atadura: urna seita cristã cujos ritos são caracterizados por ritmo e êxtase. amala: um prato pastoso. a divindade principal.

. igbale: sepulcro de cultos privados. uma espécie de conselho executivo junto do trono. ilu oyinbo: o país do homem branco. mais correntemente. oyekoko moniran. oyeroba: expressões ininteligíveis e sem significado. maraccas: um tipo de castanholas. se wa s'orno fun wa: literalmente: “vais agir como um filho respeitoso deve agir?”. figuras de madeira esculpidas em forma de gémeos. obogomungomu: uma imagem espectral. geralmente com cabeças exageradamente alongadas. koboko: chicote de cabedal. cuida dos antepassados. ibeji: gémeos. isto é.gaga: óculos. ogboni: uma assembleia de anciães. ou. oyinbo: homem branco. antecedentes. gambari: gíria local para um homem hausa (pejorativo). gidigbo: uma forma rude de luta livre. títulos. tanwiyi: larva de mosquito. orno alufa: filho de vigário. Fagunwa. etc. kola: noz de cola (um suborno). Ogboju Ode: uma obra famosa da literatura ioruba de D. iyun: contas de coral (muito valiosas). ikori: um gorro de caçador terminando numa espécie de bolsa. ibosi: vergonha. orno ole: uma expressão insultuosa. orno tani: de quem julga ele que é filho? oríki: um cântico de nomes de família. O.

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